P. 1
MonografiaNietzsche Final

MonografiaNietzsche Final

|Views: 395|Likes:
Publicado porDelegado Ulguim

More info:

Published by: Delegado Ulguim on Oct 21, 2011
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

05/20/2013

pdf

text

original

Sections

  • 1.1. FOUCAULT, LEITOR DE NIETZSCHE: A GENEALOGIA E A
  • 1.2. UMA HISTÓRIA NATURAL. 2
  • 2.1. MORAL ARÍSTOCRÁTICA E MORAL SERVIL. 10
  • 2.2. UMA FILOSOFIA CONTRA A MORAL CRISTÃ?13
  • 2.3. “BOM E MAU”, “BOM E RUIM”. 14
  • 2.4. “CULPA”, “MÁ CONSCIÊNCIA” E COISAS AFINS.15
  • 3.1. NIETZSCHE E AS INTERPRETAÇÕES NAZISTAS. 16
  • 4.1. TESE COSMOLÓGICA.20
  • 4.2. A CONCEPÇÃO COSMÓLOGICA E A VONTADE DE PODER. 26
  • 5. VONTADE DE PODER E PARADIGMA CIENTÍFICO 5.1. A CRISE DO PARADIGMA CIENTÍFICO.
  • 6.CONCLUSÃO

Daltro Lucena Ulguim.

“GENEALOGIA DA VONTADE DE PODER”
Esta monografia será apresentada ao programa de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia de Pelotas como requisito parcial para a conclusão do curso de Pós – Graduação Lato Sensu – Especialização em Filosofia Moral e Política, na Universidade Federal de Pelotas, e obtenção do título de Especialista em Filosofia Moral e Política, sob orientação do Dr. Clademir Araldi. ORIENTADOR: Prof. Dr. Clademir Araldi.

2

Pelotas, 2004.

SÚMARIO.
GENEALOGIA DA VONTADE DE PODER: Introdução SOBRE A HISTÓRIA EM NIETZSCHE Foucault leitor de Nietzsche: a genealogia e a história Uma História Natural SOBRE A MORAL Moral Aristocrática e Moral Servil Uma Filosofia contra a Moral Cristã Bom e Mau, Bom e Ruim Culpa, Má Consciência e Coisas Afins A POLÍTICA Nietzsche e as Interpretações Nazistas O ETERNO RETORNO Tese Cosmológica A Concepção Cosmológica e a Vontade de Poder VONTADE DE PODER E PARADÍGMA CIENTÍFICO A Crise do Paradigma Científico CONCLUSÃO BIBLIOGRAFIA FICHA CATALOGRÁFICA 2. 4. 4. 8. 17. 17. 21. 24. 29. 31. 32. 37. 37. 42. 48. 48. 67. 79. 81.

1. 1.21.322.12.22.32.43. 3.14. 4.14.25. 5.16. 7. 8.

2

3

GENEALOGIA DA VONTADE DE PODER

INTRODUÇÃO Ao iniciar esta monografia sobre a Vontade de Poder já se sabia da longa caminhada que se deveria enfrentar; porque aprender Nietzsche é uma árdua tarefa, que, no entanto, se torna prazerosa na medida em que o desejo esteja em primeiro lugar. Uma introdução ao conhecimento de Nietzsche requer a apreensão de seus conceitos fundamentais, porque eles são os veículos que nos impulsionarão sobre seus temas; para isso é fundamental discutir e refletir sobre o conceito de Vontade de Poder e a importância deste conceito na sua filosofia. Para Justificar a pesquisa acredita-se que o estudo do conceito de Vontade de Poder está relacionado a outras categorias nietzschianas, fundamentalmente à categoria do “Eterno Retorno” que se pretende clarificar no decorrer dos estudos de suas obras e mesmo nas obras de comentadores o que certamente irá abrir horizontes no estudo da filosofia de Nietzsche, para insipientes e neófitos. Em nosso Sistema Conceitual pretende-se trabalhar não só a categoria de Vontade de Poder, objeto principal do presente trabalho, e embora este seja o nosso tema central, pretende-se relacioná-lo com outros conceitos nietzscheanos, como: Ascetismo, Eterno Retorno, Homem Superior, Niilismo, Moral, História, Genealogia e outras categorias que enriqueçam a monografia. De Gilles Deleuze poderemos juntar os comentários sobre os conceitos nietzscheanos acima considerados, os conceitos de história e genealogia tratados por Michel Foucault em Microfísica do Poder.

3

4

Conceitos novos e ainda não discutidos, de outros comentadores, desde que relacionados com o tema poderão e devem ser aceitos, como é certo surgirão no decorrer da pesquisa serão juntados e discutidos na monografia. Já temos como liqüida a investigação dos conceitos nietzscheanos em Wofgang Müller-Lauter, Scarlett Marton, Vânia Dutra Azeredo, Leon Kossovitch, Oswaldo Giacoia Junior, Alberto Marcos Onate, Mario Sérgio Ribeiro, mas certamente outros deverão aparecer no decorrer da pesquisa. A nossa Teoria de Base que se pretende utilizar para a monografia são os conceitos e categorias relativos a “Vontade de Poder” que pretendemos, como já dizia Nietzsche, ruminar ao extremo e com isso aprofundar nossos conhecimentos filosóficos. A nossa Metodologia será sistemática embora saibamos de antemão que Nietzsche não tinha afinidades com a sistematização de teorias. Em geral o tipo de metodologia que utilizaremos trata-se especificamente da metodologia dos estudos filosóficos, calcados em obras bibliográficas, portanto uma pesquisa filosófica bibliográfica. Enfim a nossa busca constante neste trabalho será incessantemente a “ruminação” do conceito de Vontade de Poder, e por tal utilizaremos sempre sua escrita com iniciais maiúsculas em virtude de ser a essência da monografia. No final, será elaboradas uma síntese com as idéias que ficaram gravadas no espírito do autor tentando consubstanciar o que Nietzsche traz dentro da sua filosofia sobre “Vontade de Poder”. Espera-se com isso alcançar resultados profícuos e estabelecer uma leitura prazerosa.

4

HISTÓRIA. não seu segredo essencial e sem data. pelo menos em certas ocasiões. FOUCAULT. 1 Foucault. se o genealogista tem cuidados de escritor e a história em vez de acreditar na metafísica. a genealogia e a história. é cinza. 15. I. sua mais pura possibilidade. 1999. 1. o que é que ele apreende? Que atrás das coisas há “algo inteiramente diferente”. 17). acidental. ela é meticulosa. Ela deve construir “movimentos ciclotópicos” não a golpes de “grandes erros benfazejos” mas de “pequenas verdades inaparentes estabelecidas por um método severo” (FOUCAULT. EM NIETZSCHE. Nietzsche. In Microfísica do Poder. pacientemente documentária. ou que sua essência foi construída peça por peça a partir de figuras que lhe eram estranhas. A alta origem é o “exagero metafísico que reaparece na concepção de que no começo de todas as coisas se encontra o que há de mais precioso e essencial” (FOUCAULT. segundo Foucault.5 1. A genealogia exige. sua forma imóvel e anterior a tudo o que é externo. Michel. sua identidade cuidadosamente recolhida em si mesma. 15). a pesquisa da origem (Ursprung)? Primeiramente porque a pesquisa. nesse sentido. portanto. 5 .1. sucessivo. 1 SOBRE A HISTÓRIA. 1999. Porque Nietzsche genealogista recusa. mas o segredo que eles são sem essências. um grande número de materiais acumulados e exige paciência. Ora. Ela trabalha com pergaminhos embaralhados riscados e reescritos. se esforça para recolher nela a essência exata da coisa. A história ensina a rir das solenidades. LEITOR DE NIETZSCHE: A GENEALOGIA E A A genealogia. a minúcia do saber.

Desse modo o genealogista necessita da história para conjurar a quimera da origem e. pois no seu limiar está o macaco. o clima. Acontece também a força da luta contra si mesma e não somente a embriaguez de um processo que lhe permitiria se dividir no momento em que ela se enfraquece. 1999. O corpo – e tudo o que diz respeito ao corpo. a alimentação. animando o ainda em segredo. É preciso saber reconhecer os acontecimentos da história. as vacilantes vitórias. É em Nietzsche que a força reage contra sua lassidão. 22). quando a espécie triunfou. bem vivo no presente. quando o perigo externo não ameaça mais. 1999. o solo – é o lugar da “Herkunft”. seus abalos. as idéias o dissolvem –. A emergência das variações individuais se produz em um outro estado das forças. Nietzsche entende. E que reage extraindo sua força dessa que 6 . os estados de fraqueza e de energia. volume em perpétua pulverização (FOUCAULT. Como Foucault ensina. suas surpresas. O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos – “a linguagem o marca”. segundo Foucault. que a genealogia restabelece os diversos sistemas de submissão: não a potência antecipadora de um sentido. III. 17 a 20). as derrotas mal digeridas que dão conta dos atavismos e das hereditariedades da mesma forma que é preciso saber diagnosticar as doenças do corpo. suas rachaduras e suas resistências para avaliar o que é um discurso filosófico (FOUCAULT. lugar de dissociação do Eu – supõe a quimera da unidade existencial -.6 Na mesma obra diz Foucault: Procura se despertar o sentimento de soberania do homem mostrando seu nascimento divino: isto se tornou um caminho proibido. O homem começou pela careta daquilo em que ele ia se tornar. se apagam uns aos outros e continuam seus insuportáveis conflitos. a genealogia não pretende recuar no tempo para restabelecer uma grande continuidade para além da dispersão do esquecimento: sua tarefa não é a de mostrar que o passado ainda está lá. mas nele também se desatam. mas o jogo casual das dominações. um pouco. Sobre o corpo se encontra o estigma dos acontecimentos passados do mesmo modo que dele nascem os desejos. os desfalecimentos e os erros: nele também se atam e de repente se exprimem. entram em luta. 21. 17-20). e quando “os egoísmos voltados uns contra os outros que brilham de algum modo lutam juntos pelo sol e pela luz”. como o bom filósofo necessita do médico para conjurar a sombra da alma. depois de ter imposto a todos os obstáculos do percurso uma forma delineada desde o início. Zaratustra terá seu macaco que saltará atrás dele e tirará o pano de sua vestimenta (FOUCAULT. 1997.

suplícios. os alimentos e a digestão e as energias. IV. é sua interrupção. ela lhe impor limites. A história tem mais a fazer do que ser serva da filosofia e do que narrar o nascimento necessário da verdade e do valor. A emergência é. como emergências de interpretações diferentes (FOUCAULT. A história “efetiva” se distingue daquela dos historiadores pelo fato de que ela não se apóia em nenhuma constância: nada no homem – nem mesmo seu corpo – é bastante fixo para compreender outros homens e se reconhecer neles. portanto a entrada em cena das forças. o sentido histórico escapará da metafísica para se tornar um instrumento privilegiado da genealogia se ele não se apóia sobre nenhum absoluto. Contudo. O grande jogo da história será de quem se apoderar das regras. 23 a 26). ela tem que ser o conhecimento diferencial 7 . Em compensação. o sistema nervoso. Universo de regras que não é “destinado a adoçar”. de quem se introduzindo no aparelho complexo. ela perscruta as decadências e se afronta outra época é com a suspeita – não rancorosa. o salto pelo qual elas passam dos bastidores para o teatro. mas ao contrário a satisfazer a violência. o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar-se-ão dominados por suas próprias regras. ela sempre se produz no interstício. ninguém pode se autoglorificar por ela. Pode-se entender que as características próprias do sentido histórico como Nietzsche os compreende aquele que opõe a “Wirkliche Historie” à História tradicional. fantasiá-la de um valor moral e se revigorar. de quem se disfarçar para pervertê-las e utilizá-las ao inverso e voltá-las contra aqueles que as tinham imposto. Ninguém pode ser responsável por uma emergência. cada uma com seu vigor e sua própria juventude. dos conceitos metafísicos. dos ideais. mas alegre – de uma agitação bárbara e inconfessável. de quem tomar o lugar daqueles que as utilizaram. a diversidade reduzida do tempo. 1997.7 não deixa de crescer e se voltando em sua direção para abatê-la. O que Nietzsche parou de criticar desde a segunda das “Considerações Extemporâneas” é esta forma histórica que reintroduz e põe sempre o ponto de vista suprahistórico: uma história que teria por função recolher em uma totalidade bem fechada sobre si mesma. Aquela inverte a relação habitualmente estabelecida entre o acontecimento e a necessidade contínua. em várias ocasiões ela é caracterizada pelo “espírito” ou “sentido histórico”. A história “efetiva” lança seus olhares ao que está próximo: o corpo. a genealogia é designada por vezes como “Wirkliche Historie”. história do conceito de liberdade ou da vida ascética. E a genealogia deve ser a história da interpretação das morais.

Trata-se de parodiar a história para deixar claro que ela é apenas paródia. ele tem prazer com aquilo mesmo que o coração deveria afastar. dos olhares e desmascaramentos. Ela tem que ser a ciência dos remédios (FOUCAULT. o terceiro é o uso sacrificial e destruidor da verdade que se opõe à história-conhecimento. No terceiro uso da história há o sacrifício do sujeito de conhecimento. Nietzsche liga o sentido histórico à história dos historiadores. apenas uma obstinada verdade. que o conhecimento repousa sobre a injustiça. É preciso despedaçar o que Platão fez da filosofia socrática e não fundá-la em uma filosofia da história. O sentido histórico comporta três usos que se opõem às três modalidades platônicas de história. A história genealogicamente dirigida não tem por fim encontrar as raízes de nossa identidade. As “Considerações Extemporâneas” falam do uso crítico da história: tratava-se de colocar o passado na justiça. segundo a máscara que ela usa. Se dominarmos e nos apoderarmos da genealogia e a voltarmos contra seu próprio nascimento. cortar suas raízes. tornar-se mestre da história para dela fazer uso genealógico. obstina-se em dissipá-la. Nietzsche criticava esta história devotada à veneração por obstruir as intensidades da vida e suas criações. um uso rigorosamente antiplatônico. Um e outro possuem um único começo. outro é o reconhecimento da identidade que se opõe à históriacontinuidade ou tradição. A análise histórica do grande querer-saber que percorre a humanidade faz aparecer a verdade. A 8 .8 das energias e desfalecimentos. 1999. Nesta genealogia da história que esboça em vários momentos. despojada da paixão. E só então o sentido histórico libertar-se-á da história supra-histórica. ao contrário. 26 a 30). ela se tornará análise genealógica e já não será um conhecimento demagógico ou religioso. V. Deve esconder seu singular rancor sob a máscara do universal. Em 1874. bastante fraca. A consciência histórica é neutra. essa pátria à qual os metafísicos prometem que não retornaremos – ela pretende fazer aparecer todas as descontinuidades que nos atravessam. que não há no conhecimento um direito à verdade. Um é o uso paródico e destruidor da realidade que se opõe ao tema da história reminiscência. impuro e misturado. destruir suas venerações para libertar o homem e não deixar outra origem que não aquelas que desejar reconhecer. ela não pretende demarcar o território único aonde nós não viemos. é onde tentamos assegurar sob a máscara apenas uma paródia. dos venenos e contravenenos. O Historiador é insensível a todos os nojos: ou melhor. A dissociação sistemática da nossa identidade.

1997. Os filósofos da moral conheciam apenas grosseiramente os “facta morais” como extratos arbitrários ou abreviações causais como espelhos da moralidade do seu meio. 9 . e mais ainda. Uma vontade “em si” ou “como” tal é uma abstração: ela não existe factualmente. ao tempo e épocas passadas. de seu poder de criar. “A interpretação da Vontade de Poder como Princípio Metafísico” in “A doutrina da Vontade de Poder em Nietzsche”. 2002. 51. para realizá-la.9 genealogia retorna às três modalidades da história que Nietzsche reconhecia em 1874. Para Wolfgang Müller-Lauter3 o que é Vontade de Poder? Vontade de Poder não é um caso especial do querer. essencial em todo querer é: poder. Os filósofos ao se ocuparem da moral como ciência pretendiam sua fundamentação e todos eles julgaram. e nem os desejavam conhecer. Todo querer é. não chegaram sequer a vislumbrar o problema da moral. mas retorna superando objeções que fazia em nome da vida. irritável e refinado. e 32 a 37). Os filósofos chamavam de “fundamentação da moral” que propunham realizar encarnada como forma erudita da cândida crença na moral dominante como conjunto das circunstâncias dentro de determinada moral. da sua classe. Essa tarefa aparentemente modesta de descrever a moral estava distante do orgulho destes filósofos. tê-la fundamentado e a consideravam como dada. Friedrich. tardio. do espírito da sua época. uma espécie de negação de que essa moral pudesse ser concebida como problema. Retorna como uma metamorfose venerando tornar-se paródia: tornar-se dissociação sistemática. Müller-Lauter. 100. da igreja. do seu clima e religião. iniciante. em última instância. grosseiro e correspondia a “ciência moral” notavelmente perceptível. Quem alguma vez se sentiu profundamente insípido. múltiplo. 1999. Vontade de Poder procura dominar e alargar 2 3 Nietzsche. A expressão “ciência moral” é demasiada pretensiosa e contrária ao bom gosto de palavras mais modestas. UMA HISTÓRIA NATURAL. Estavam malinformados quanto ao povo. 1. querer-algo. 2 O sentimento moral da Europa da época de Nietzsche era indelével. crítica das injustiças do passado pela verdade do presente tornando-se destruidor do sujeito de conhecimento pela injustiça da Vontade de Saber (FOUCAULT. falso e sentimental: é esta proposição da moral num mundo cuja essência é a Vontade de Poder. Esse algo-posto. 30. até agora.2. mas também era jovem. Wolfgang. segundo Nietzsche. Para além do Bem e do Mal. VI.

há moral que tem o intuito de fazer seu autor esquecer a si mesmo ou algo de si. até mais. Para ela tal questão nem sequer foi cogitada e ampara seu pensamento citando o próprio Nietzsche “pois se considerou o valor desses ‘valores’ como dado. duro. a circunstâncias exteriores (SPENCER in DELEUZE. esta idiossincrasia dos democratas. Parece-me mesmo que ele já se tornou senhor da filosofia e da biologia inteira. para mal delas. Para os utilitaristas e sua esperteza “por amor de um absurdo” e para os anarquistas “por submissão de leis arbitrárias” sendo muito provável que isso seja “natureza” e “natural”. 1965: 6065). outros querem vingar-se. Todo esforço violento.10 incessantemente seu âmbito de poder. esconder-se.. Este é um ponto crucial: 4 5 Müller-Lauter. No dizer de Nietzsche um certo moralista pode querer exercer sobre a humanidade seu poder e seu capricho criador. Wolfgang. outras têm por fim acalmá-lo ou pô-lo disposto consigo mesmo. revelou o meio pelo qual se criou a força. A doutrina da Vontade de Poder em Nietzsche. 54. sempre mais eficaz. ou mais fino. como real como além de qualquer questionamento”. expressa dois tipos de forças. uma simples ‘reatividade’. 1997. em outro. a ativa e a reativa: A aversão contra tudo o que dirige e quer dirigir. é também o meio indispensável de disciplina e educação espiritual. talvez Kant.. 10 . uma atividade de segunda ordem. nas ciências mais exatas. a escravidão5. feia palavra!) [. a curiosidade impiedosa e a mobilidade leviana do espírito Europeu. arbitrário. no sentido em que lhes escamoteou um conceito fundamental. coisa má. transfigurar-se ou se colocar nas alturas e distâncias. gota a gota. Sob a pressão desta idiossincrasia. A moral de escravos será mais bem explicada no capitulo Moral Aristocrática e Moral Servil. definiu-se a própria vida: uma adaptação interior. Nesse sentido Gilles DELEUZE citando Herbert SPENCER. Ao que tudo indica. quer dizer. o ‘misarquismo’ moderno (ah.] infiltra-se hoje. do mesmo modo com as pessoas deve-se passar o mesmo que comigo. dá a entender que o que há de respeitável em mim é o fato de eu poder obedecer. Alargamento de poder se perfaz em processos de dominação. o da atividade propriamente dita. é evidente. na obra “Nietzsche”. Há a moral que tem por fim justificar seu autor para os outros. 4 Nietzsche afirma que há diversas morais. no sentido mais grosseiro. mais objetivas na aparência. Vânia Dutra de AZEREDO (2000: 26) expõe que na perspectiva nietzscheana nunca houve um questionamento quanto ao valor dos valores morais. contrário à razão. terrível. avança-se a ‘faculdade de adaptação’. outras que se crucificam e humilham-se.

Tal racionalidade é fonte do irracional que converte o opositor político em inimigo a ser liquidado. pensar é o contrário de obedecer. Para os frankfurtianos há dois fenômenos distintos: a dominação que é anterior e difícil de ser resolvida porque a exploração econômica pode terminar. não aceitam a escravidão. hoje não se justifica a escravidão – mas ainda existe implicitamente a realidade do senhor e do servo embutidos na “Servidão Voluntária” (MATOS. Para os frankfurtianos. restava aos frankfurtianos reexaminar o “conceito de razão” próprio da “Teoria Tradicional”. a vanguarda. O pragmatismo vem tomando o lugar do pensamento e reflexão.11 e apesar da tentativa de abstermo-nos da intervenção para não prejudicar a idéia mais aproximada à de Nietzsche em estudo. Para a Escola de Frankfurt. reduzindo-os a simples objetos de uma “verdade política” pela qual são controlados. Desconfiados dos partidos políticos. ou de uma teoria que orientasse a práxis justa. explica Marcuse. se conjugam no mundo atual. No ponto de vista frankfurtiano a teoria “Tradicional” foi responsável pela ascensão e triunfo do nazismo. nos permitimos discordar contra esse seu pensamento. parece habitar os movimentos de luta pela emancipação. mas questionam porque os homens escolhem seus próprios opressores. mas o desejo de servir e o desejo de comandar continuam. dos heróis. Os frankfurtianos. A escravidão. a Teoria Tradicional teleguia os sujeitos históricos. Nessa condição. em um sentido preciso: o herói na história. na tomada do poder. Mas a “Teoria Crítica” terá de caminhar para uma crítica da civilização técnica porque os domínios da natureza e da técnica. o partido revolucionário são supostos portadores de um saber capaz de controlar o rumo dos acontecimentos. pós-modernamente. é insustentável e inconcebível. a empiria. porém. Um elemento de autoderrota. 11 . com largas vantagens. Em resumo. ação imediata não-reflexiva quer corrigir seus erros pela violência ou terror supondo os seres como domesticados e obedientes. 1993. Contra a “escravidão” é possível apenas pensar como inevitável a idéia da servidão voluntária que se fundamenta nos frankfurtianos. a crítica à economia política era insuficiente para as possibilidades das transformações sociais e políticas. porque neste ponto eles progrediram e elaboraram com mais precisão esta categoria. Essa teoria mecanicista e causal está presente também na “Teoria Revolucionária”.

Assim. se explica o paradoxo da sublimação até ao amor. o estreitamento da perspectiva e a estupidez “tu deves obedecer seja a quem for. qualquer moral é o que nela há de “natureza” que ensina a odiar a excessiva liberdade e implanta a necessidade de horizontes limitados e tarefas mais modestas como condição necessária à vida e ao crescimento. O estoicismo. porque só encara as más conseqüências e porque só admite o “bom” como idêntico a “útil” e “agradável”. por muito tempo. Desenvolveremos melhor esta parte nos capítulos: Eterno retorno: Tese cosmológica ou imperativo ético. Olgária C. O homem é mau só por engano e ao se esclarecer o engano se tornará bom. mas não o faria se soubesse que o mal é mau.39) 6. portanto segundo as conveniências e utilidades. permite interpretações semelhantes. O próprio Sócrates com critério do seu talento se colocou do lado da razão. quando ao contrário deveria ajudá-los pela razão a exercer seus direitos. a mesma incapacidade. O fanatismo moral aparece em gerações e períodos como equivalentes destes jejuns impostos à força onde um instinto aprende a submeter-se e curvar-se. porque disse para consigo mesmo separar-se dos instintos. porque esta deseja que se aprecie tudo conforme um “porquê” e. para Nietzsche. e que se dirige ao indivíduo. 12 . Escola de Frankfurt: luzes e sombras do iluminismo. Descobriu nele mesmo. 38. Para Nietzsche este silogismo não é correto. incapazes de se informarem sobre os motivos de sua conduta. senão perecerás e perderás o resto de respeito por ti mesmo”. a purificar-se e refinar-se. ele apanhou na rua todo o Sócrates como um tema ou canção variando até ao infinito e ao impossível em todas suas máscaras e multiplicidades. 1993. Há dúvidas em saber se o instinto merece mais autoridade que a razão. O socratismo. Internamente percebeu o que há de irracional nos juízos morais.12 38. em meio à cultura helenística. homens dotados dos instintos. se encontra na moral de Platão e era fundamentalmente aristocrático.F. sondando sua consciência. Isso é o imperativo7 da moral da natureza que não chega a ser nem categórico como exigia Kant. como revela Nietzsche. seguir os instintos e persuadir a razão a apóia-los. Onde houver instintos e hábitos poderosos os legisladores devem intercalar dias em que esses instintos possam ser acorrentados ou libertados. Platão 6 7 Matos. Riu-se toda sua vida da incapacidade dos aristocratas. Todo mal é inconsciente e o “indivíduo mau” prejudica-se a si mesmo. e o instinto sexual no período cristão da Europa. Contudo. Conforme Nietzsche foi Platão quem divulgou Sócrates. O bem enquanto problema filosófico e histórico é um antigo problema moral que aparece pela primeira vez na pessoa de Sócrates que dividiu espíritos.

13 persuadiu-se com todas as forças de que a razão e o instinto se dirigem espontaneamente para o bem. Entende-se mal a natureza quando se procura sua “doença” na base saudável dos monstros e plantas tropicais. Nessa inversão os profetas empregam a palavra “pobre” como sinônimo de “santo” e de “amigo”. Nietzsche cita Tácito. Ela reduz os afetos a uma média inócua onde se satisfaz o aristotelismo da moral. com exceção de Descartes. fé e ausência de desconfiança. Impõem-se de modo incondicional e absoluto. não é ciência. E. ou para “Deus”. fantasias. como eles próprios crêem “povo eleito entre os povos”. Só com o tempo nossos sentidos aprendem a ser cautelosos com o conhecimento. que apenas concebeu autoridade a razão apenas como instrumento. Porque? A favor das zonas temperadas? A favor dos homens moderados? Daqueles que têm “moral”? Dos medíocres? A moral é proposta que se destina a construir a felicidade do indivíduo e o grau de perigo que vive consigo mesmo. É mania. Ela funciona como fruição dos afetos numa diluição intencional e espiritualização pelo simbolismo da arte. os judeus eram “o povo nascido para a escravidão”. até aqui o seguiram. A vida na terra recebe um novo atrativo e seus profetas fundiram a palavra “rico” com “mau. É remédio contra suas paixões e tendências que equilibram a vontade de pedir. O homem feroz e a fera são quase incompreensíveis. Tanto no saber como no conhecer desenvolveu hipóteses. todos os filósofos. menos ainda “sabedoria”. Suas normas suportáveis e sedutoras deixam um perigoso cheiro de outro mundo. É a esperteza e a estupidez misturadas e multiplicadas por três que os estóicos aconselhavam como antídotos para loucura das paixões. pai do racionalismo. artifício irracional na forma barroca porque se destina a “todos” generalizando onde não devia generalizar. Intelectualmente a moral vale pouco. A investigação da história de qualquer ciência mostra na sua evolução o fio condutor para a compreensão dos processos mais comuns do saber e do conhecer. violento. 13 . para este. Ela é esse estudo de deixar-se rir ou chorar. Os judeus realizavam o milagre da inversão dos valores. A rebelião dos escravos na moral começa com os judeus. ímpio. de destruição dos afetos pela análise ingenuamente preconizada por Espinosa. Para ele os moralistas interpretam assim. Não deixam mostrar o ódio a selva virgem e aos trópicos? Para eles é necessário desacreditar do “homem tropical” seja como doença ou degenerescência do homem quer como seu próprio enfermo ou suplício. sensual” numa só palavra e deram um sentido injurioso à palavra “mundo”. no mundo antigo. avô da revolução. para Nietzsche.

112). A necessidade procura dar um conteúdo a sua forma. indulgência e compaixão. Todavia se na natureza do homem atua a contradição e a guerra como estímulo de vida e se por outro lado ela herdou instintos poderosos e inconciliáveis numa mestria na arte de fazer a guerra a si mesmo. 2000. (NIETZSCHE. O homem traz na genética as múltiplas ascendências e com elas instintos. ou seja. Na Europa.. Na visão nietzscheana. o homem de rebanho apresenta-se como a única espécie autorizada por suas qualidades. § 200. aplicação. ou chefe. a fim de se apoderar de novos súditos” (AZEREDO. incompreensíveis e inimagináveis: homens predestinados à vitória. defende-os dos sãos e da inveja que aqueles inspiram. o aparecimento de um senhor absoluto representa alívio de uma pressão insuportável da necessidade de ser mandado. então surgem fantásticos seres mágicos. formador de rebanhos. ou ao homem por amor de Deus. é como a felicidade do repouso. enfim “deves”. sendo natural admitir-se que cada um possua presentemente a necessidade de obedecer como ordena a consciência formal “deve-se fazer tal coisa” ou “deve-se deixar de fazer tal coisa”. instintos e escalas de valor opostos. ele também um desses homens. Aqui Vânia Dutra de Azeredo ensina com mestria: “O sacerdote ascético. com virtudes únicas como a sociabilidade.14 sob forma de música. na arte de se dominar e enganar a si mesmo. A moral criada pela religião garante direito de cidadania as paixões contando que a ela se associe o homem.. Desde que existe o homem também houve rebanhos humanos obedientes e reduzidos número de mandatários. ou de amor a Deus. à 14 . A obediência foi até agora a melhor e mais praticada entre os homens. e mais que opostos. para os europeusanimais-de-rebanho tem como testemunho o efeito produzido por Napoleão. benevolência. domesticado. 147). tranqüilidade da unidade conseguida com a paz duradoura de Agostinho. O remédio. valores opostos que lutam entre si e que não o deixam descansar. tratável e útil ao rebanho. que lutam entre si e raras vezes o deixam descansar. é preciso experiências substituindo os que mandam por um somatório acumulativo de homens de rebanho inteligentes. para este homem. moderação. exatamente por isso. consideração. Quando não é possível dispensar o condutor. a herança de uma ascendência múltipla. 2002. a divisão e a contradição. A influência de Napoleão é quase a história da felicidade superior que seu século conseguiu alcançar no melhor momento. Ele lutará de todas as formas para semear a dor. Aqui vale a pena citar “literalmente” Nietzsche: O homem de uma era de dissolução e mestiçagem de raças traz no seu organismo. sendo um inimigo natural de toda saúde.

pois. 1979. a que denominamos Realeza. cujas expressões refletem César e Alcebíades ou Frederico II de Hohenstaufen. Considerando que no amor ao próximo existe o exercício da consideração. 8 Contudo.15 sedução. Ambos se completam e provêm das mesmas causas. Nietzsche (1844 – 1900) se aproxima do pensamento de Thomas CARLYLE (1795 – 1881). logo que fosse comparado com outro ato que considerasse o interesse da “res publica”. ele é pura reação. entre os artistas um Leonardo Da Vinci. Os instintos fortes e perigosos como a temeridade. enquanto a população passava: Napoleão demonstrava o mais profundo desprezo pelas pessoas de autoridade. Naquele Vinte de Julho (1792) Bourrienne e ele estavam num café. O medo do próximo cria novas perspectivas de valor moral. Na época dos Romanos um ato de piedade não era considerado nem mau. Signos e Poder em Nietzsche. 39. Eles surgem na mesma época em que aparece o tipo fraco com seu desejo de repouso. que para ser verdadeira não deve ser anárquica: odiava profundamente a anarquia. em Nietzsche há diferenças em relação a Carlyle como bem o demonstra Kossovitch: Mas. pela sua natureza. a cuja vontade as nossas devem estar subordinadas e render-se lealmente. Mais adiante na mesma obra diz Carlyle: Napoleão em seu primeiro período era um verdadeiro Democrata. Thomas. à interpretação independente do senhor corresponde. figuras do heroísmo. 15 . que não conseguiam conter aquela ralé. 238 e 294. No dez de Agosto. historiador e publicista: Chegamos agora à última forma de heroísmo. fomentado pela educação militar. O elogio. era considerada uma espécie de “menosprezo involuntário”. convencional e aparentemente arbitrário em relação ao medo do próximo em uma estrutura de sociedade estabelecida no conjunto de garantias contra os perigos externos. passivo. Os Heróis e o Culto dos heróis. 1964. E ainda. nem moral e nem imoral. à dependência do escravo. Leon. a 8 9 Carlyle. Kossovitch. da compaixão. o Outro é o princípio da interpretação. é aquele que traz um bem-estar para a humanidade. O amor ao próximo é secundário. tais coisas não pertencem ao domínio das valorizações morais e são extramorais. O condutor de homens. Para este. de “moralidade”. A produção do escravo passa pelo senhor. conhecia aquela Democracia. ele se espantava que não houvesse homem algum para comandar aqueles pobres suíços.9 Não poderá haver moral de amor ao próximo se o juízo de valor que lhe fundar for útil e visar somente à comunidade e considerar imoral tudo aquilo que parece perigoso a essa mesma comunidade. Ele deve ser tido e havido como um super-homem. assimetricamente. Verifica-se que neste cruzamento. venceriam se houvesse um. da “virtude”.

E a espiritualidade superior e independente. e o faz com seriedade e honestidade. Castigar torna alguém. Atualmente são as tendências e os instintos “opostos” que recebem as honras morais. o motivo do medo porque a moral deixaria de ter utilidade e já não se faz necessária. criados e cultivados porque se precisavam deles contra o perigo e os inimigos comuns. fundada nestas inquisições vai até suas últimas conseqüências: ela deixa de existir. e a grande razão são sentidos como perigosos. sabe-se o que Sócrates julgou não saber – o que é bem e mal. já nada haja a temer!” e conforme Nietzsche em seu tempo em toda Europa a vontade e o caminho para este dia se chama “progresso”. O instinto de rebanho tira progressivamente suas conseqüências. a ambição de poder que antes eram honrados e úteis à comunidade com altos valores. É o instinto de animal de rebanho que 16 . A moral de rebanho. Os que analisaram a consciência dos europeus de nossos tempos terão de extrair de mil dobras e esconderijos morais sempre o mesmo imperativo. irrompendo passionalmente. Tudo que faça o indivíduo elevando-se acima do rebanho e amedronte o próximo a partir de agora passa a ser considerado como “mau”. A mentalidade tolerante. Na Europa e países influenciados por ela. injusto.16 vingança. de algum modo. Em períodos de paz faltam cada vez mais a ocasião e a necessidade de nos educarmos para a dureza e a severidade e esta. A idéia do “castigo” e do “dever castigar” lhe mete medo e dói. Nesta Europa de Nietzsche era quase insulto incluir o homem entre os animais. Para este modo de pensar é melhor condenar e difamar estes instintos. à vontade de Salomão. incomoda as consciências. a astúcia. sem metáforas. Há na história da sociedade um ponto de enfraquecimento doentio em que ela toma partido pelo que prejudica. Para esta moral significa pensar da seguinte forma: “não basta tornar o criminoso inofensivo? Para que castigar ainda? Castigar é horrível!”. quebrando-lhe a fé em si mesma. igualitária e a mediocridade dos desejos recebem nome e honras morais. submissa. que aniquilam a noção da dignidade própria da comunidade. “instinto de rebanho” e outros semelhantes quase se considera crime. “Nós queremos que algum dia. pelo criminoso. mesmo na justiça. Uma aristocracia e auto-responsabilidade altiva e dura são quase insultos que provocam desconfiança: “cordeiros” ou “ovelhas” são cada vez mais necessários. O fato de se empregar constantemente as expressões “rebanho”. o imperativo de receio de rebanho. modesta. atualmente lhes falta amparo e hoje são acusados de imorais e expostos à difamação. arrastam o indivíduo e fazem-no ultrapassar de longe a mediania e a baixeza da consciência do rebanho. Os instintos mais elevados e mais fortes. a partir do momento em que também deixa de existir o perigo.

portanto. o movimento democrático. herdeiro do movimento cristão. Os ensinamentos de Scarlett MARTON esclarecem algo sobre Deus: “Se foi no mundo supra-sensível que até então os valores encontram legitimidade. 56). para engendrar novos valores”. antes ou depois. trata-se agora de suprimir o solo mesmo a partir do qual eles foram colocados. na incapacidade quase feminina de poder presenciar. Há. Com Sócrates. Em outra passagem ela ainda coloca: É a morte de Deus. antes de mais nada. descendo até o animal ou indo até Deus. 17 . a moral é uma moral de animal de rebanho. no ódio ao sofrimento. que se sujeita aos desejos do animal de rebanho.17 se glorifica com louvor ou censura e que adquiriu preponderância sobre os outros instintos. a remissão das culpas do passado. outra moral principalmente as morais superiores. a esperança do futuro. Unidos no grito e impaciência da compaixão. na sua época. o cume alcançado. encontrou-se nas instituições políticas e sociais a expressão cada vez mais visível desta moral. enfim unidos na crença da comunidade como salvadora do rebanho. em antropologia. de poder fazer sofrer. Traço essencial de nossa cultura. 2000. que não há moral fora dela. o dualismo de mundo foi invenção do pensar metafísico e fabulação da religião cristã. Com o auxilio de uma religião. porque excesso de compaixão por Deus faz parte de uma época democrática. da solidariedade onde quer que esteja ou sinta. Unidos contra a justiça punitiva como se esta violência contra o fraco fosse injustiça da sociedade. teve início a ruptura da unidade entre physis e logos – e a filosofia converte-se. a consolação do presente. unidos na sua fé moral da compaixão comunitária. como se esta fosse a própria moral. que permitirá a Nietzsche acalentar o projeto de transvalorar todos os valores. apenas uma moral humana ao lado da qual deveria ser possível. a crença em “si”. Para Nietzsche. Unidos na religião de composição. pois. Essa moral resiste teimosamente e implacavelmente dizendo que é a própria moral. (MARTON.

. a moral dos escravos faz da igualdade da fraqueza o móvel de suas valorações.. Nietzsche encontrou sinais comuns que distinguem os dois tipos básicos: a moral dos senhores e a moral dos escravos. Enquanto a moral dos senhores tem como partida o sentimento de distância e superioridade para introduzir valores. 2. assim como comandar. com duas respectivas interpretações desses juízos e. SOBRE A MORAL.1. 62. MORAL ARÍSTOCRÁTICA E MORAL SERVIL. bom e ruim”. Nos dois casos.18 2. mas é possível encontrar mesclas de ambas num único homem se os valores nasceram de uma espécie dominante. Mas obedecer também faz parte igualmente da Vontade de Poder. e se existem duas condições de nascimento dos valores. Vânia Dutra AZEREDO na obra “Nietzsche e a Dissolução da Moral” é explicita ao colocar: “. 10 Há uma dupla designação dos juízos de valor “bom e mau. portanto. 2000. ou das espécies dominada que é dependente. Nietzsche e a Dissolução da moral. portanto duas tendências morais que procedem desses juízos. Essa duplicidade refere-se a dois tipos de homens: o nobre ou senhor e o escravo. que tem consciência da diferença frente aos demais. 18 . responsável pela interpretação ou avaliação. a Vontade de Poder é a instância da criação e. Vânia Dutra de. todas as propriedades que permitirem resguardar os fracos e oprimidos 10 Azeredo.

respeito pela idade e o direito contido nessa veneração. O modo de ser da aristocracia sacerdotal. O medo funda a moral de escravos por que teme a existência de tipos diferentes criando uma moral em defesa da coletividade. A moral de escravos11 valora em razão da utilidade e se caracteriza por inibir o desenvolvimento e estimular a fraqueza e a igualdade. 19 . Pode-se dizer que as duas morais são oriundas da mesma classe dominadora ou de um mesmo estamento. O nobre e sua moral. 12 Azeredo. Nietzsche e a Dissolução da moral. Amoral de senhores tem a vigência do seu dever para com seus iguais. Por isso. A moral dos nobres está baseada na profunda veneração pela tradição. mas não era exatamente o mesmo porque houve um declínio da nobreza guerreira ao qual se seguiu a ascensão da aristocracia sacerdotal. O escravo não possui impulsos que o elevem acima do coletivo e opta pela moral que generaliza. 2000. Citando Nietzsche. no caso da aristocracia sacerdotal. o pensamento de Vânia se mostra: Inicialmente. Vânia Dutra de AZEREDO escreve: [. hábitos de domínio hostis de ação.] a diferença entre uma aristocracia sacerdotal e uma guerreira pode ser evidenciada pelo uso distintivo de termos. em Nietzsche. conseguem elevar o tipo homem e faz dele criador de valores: a crença e o orgulho que tem de si são a base para o estabelecimento dos valores. A moral escrava avalia como “bom” o que favorece a coletividade e como “mau” o que lhe ameaça. houve uma espécie de luta travada entre a aristocraciaguerreira e a sacerdotal em termos da primazia de suas avaliações e. Citando novamente Nietzsche. elege aquilo que é útil para a sua manutenção” (AZEREDO. por expressões que remetam a sua função sacerdotal.. fornece os indicativos para a cisão entre aristocracia nos modos de valorar. visando à preservação desses fracos. 64). pois com os inferiores não há deveres. a moral de rebanho. utilizam “puro” “Rein” e “impuro” “Unrein” como elementos de diferenciação de estamento.12 A moral dos sacerdotes representa uma valoração que nega a imanência de comandar o transcendente como objetivo de elevação. a preferência se dá. Vânia Dutra de. apontando a via da Escola de Frankfurt e pelas próprias colocações de Nietzsche que sempre enfatiza a fraqueza dada a esta condição. crença e preconceito em favor dos antepassados. 11 Sobre a moral dos escravos já nos referimos anteriormente. É uma moral de autodefesa.. 2000. pois suprime a diferença. via de regra. É pelo sacerdote que a alma ganha profundidade e se torna “má”. 66. O escravo é o precursor de uma moral de rebanho. donde posteriormente passarão a desenvolver-se ‘bom’ e ‘mau’.19 são postas como valorosas para um tipo de moral que. A expansão da moral de escravo remonta à própria distinção entre aristocracia sacerdotal e aristocracia guerreira. mas não para realizar distinções nesse nível.

da afirmação de suas respectivas morai. a “Vontade de Poder”. o que mais causou danos a moral aristocrática. mas. Mas. uma vontade que se volta contra a vida. negativa e postuladora. Interpreta-se a interioridade versus exterioridade como possibilidade da exterioridade enquanto determinante da instância básica da vida. por excelência. porque se baseia na igualdade abstendo-se de toda ação à sua manutenção favorecendo a preservação de fracos e oprimidos. 67: 2000). o da impotência. O elemento diferencial é o nobre. O escravo 20 . a saúde. Mas a interioridade e sua fragilidade foram julgadas e condenadas. a própria impotência de uma intencionalidade acarreta a construção de uma representação externa para manter um impulso vital doente. A moral sacerdotal em sua busca de destruição da moral dos senhores torna o homem um tipo decadente ao seguir os seus princípios. Pode-se dizer que ambas as morais eram oriundas de uma mesma classe dominadora. Derivada da Aristocracia. O estabelecimento da moral sacerdotal implica a negação do homem como potência e atividade.20 conseqüentemente. a aventura e todas as potências do vigor e energia. A vingança dos sacerdotes é imaginária. Os judeus promoveram a transmutação dos valores com a inversão dos valores da aristocracia guerreira impondo sua vingança eminentemente espiritual. Pág. a moral sacerdotal desenvolveu-se em sentido contrário ocorrendo um grande conflito pela disputa hegemônica porque seus juízos e valores são antagônicos. enquanto o da segunda. Historicamente há um esforço dos sacerdotes movidos por seu ódio ao nobre em agregar os fracos e sofredores a fim de transformar a moral dos senhores em moral de escravos. O escravo tem medo da diferença e busca todas as formas de suprimi-las embora também se encontre nele algo que aparece como uma força debilitada como uma vontade determinada. Na moral sacerdotal. como única possibilidade de continuidade como vontade. a plenitude da força impondo sentido. O povo judeu é um povo de sacerdotes. e a representação da exterioridade passou a ser a determinação da postulação. embora tendo sua proveniência em um mesmo estamento – não era exatamente o mesmo. Na moral guerreira se desenvolve a musculatura. ao contrario é a decadência e a negação além de um ódio radical em relação a moral dos senhores. a Vontade de Poder do nobre estabelecendo valores. A primeira usava o princípio da força. já que houve um declínio da nobreza guerreira ao qual se seguiu a ascensão da aristocracia sacerdotal – se diferenciavam pela adesão a princípios opostos. mas a vitória é um dado objetivo que se dá mediante a transmutação dos valores. que impregnados pelo ódio e impotência desejavam vingar-se de seus dominadores. (AZEREDO.

e sim uma inversão. A partir da inversão dos valores da moral de senhores. O escravo não consegue afirmar. O pathos só surgirá com o pathos da distância que é produto das diferenças enraizadas das classes. o que não quer dizer que não realiza uma avaliação. o desejo de um aumento sempre renovado da distância dentro da própria alma. para Nietzsche o que impede a elevação do tipo homem é aquele outro pathos que mais misterioso não poderá surgir. de subjugação. em que uma é dominante e outra dominada. o escravo passa a estabelecer a sua moral como dada. 21 . mas se os escravos se definem pela subjugação o que o leva a querer a ascensão? Se a vida é Vontade de Poder. mas que não é uma criação. é uma mascara que visa encobrir o impulso e a partir do desmascaramento se pode determinar qual o valor dos valores que promovem ou que obstruem a vida. 2002.21 almeja a inversão e utilizando-se do ideal. e o escravo o é. desde o início nega a imposição do senhor para conseguir uma aparente afirmação de si mesmo. A conceitualização configura a justificação do estabelecido. mas com relação ao senhor as forças em relação fazem do senhor. só surgirá sem o olhar perscrutador e altivo da casta dominante sobre os súditos e instrumentos. só surgirá da prática constante de obedecer e mandar. uma negação. ele age movido pela Vontade de Poder que está na base da diferença das forças em relação. A absolutização da moral é autodefesa que visa mascarar o medo através da universalização dos preceitos. expressão de dominação. O escravo avalia a partir de seu tipo de vida decadente fazendo surgir uma moral de rebanhos. conceitualizada em declínio. como efetiva para além de qualquer reflexão. expressão de uma vida. uma transformação. § 257). um determinado tipo de homem. em oprimir e distanciar. não é o desenvolvimento de um Estado cada vez maior e complexo ou a contínua “auto-superação do homem” para empregar a fórmula moral num sentido supramoral (NIETZSCHE. inverte. A imagem do escravo passa a ser necessariamente invertida porque faz da afirmação uma negação. O homem é Vontade de Poder. mas consegue impedir a vigência de valores mediante sua inversão. As manifestações são expressões de forças em relação. mas o escravo. Mudar o valor é mudar o criador. O escravo constitui-se a partir da relação entre forças diferentes. e do escravo. Nietzsche mostra a maior elevação do tipo “homem” até agora e talvez sempre seja a obra da sociedade aristocrática assentada em uma longa escala de hierarquia e diferenças de valores entre os homens que precisam da escravatura em todos os sentidos. Assim.

é à vontade de negação.2. ou homogeneidades dentro de um mesmo organismo. na França. Sem piedade. como seres superiores de elite consiga erguer-se para cumprir sua missão superior. ou sobre velhas culturas caducas em que as forças vitais já apagavam o espírito e resplandecia a corrupção. Mas. civilizadas. seja da realeza. em todos os sentidos da palavra. (NIETZSCHE. § 259). adaptar sua vontade própria ä de outro. Nietzsche revela que a corrupção é indicadora de ameaça de anarquia nos instintos e abalos na base dos afetos e estruturas da vida. suprema justificativa. Friedrich.22 O filósofo espera do “tipo Homem” que ele não tenha ilusões humanitárias da gênese de uma sociedade aristocrática ou de sua condição prévia. apoiada na sociedade mostrar a sua felicidade. mas que se sinta como seu pleno sentido. § 258). os bárbaros. A fé básica da aristocracia deve ser que a sociedade não deva existir por amor da sociedade. mas deve existir como alicerce e andaime sobre os quais ela. A corrupção varia basicamente de acordo com a forma de vida em que ela mesma se manifesta. com um nojo sublime. terminando apenas como aparato ou pompa exterior. 37. os homens dotados de uma natureza natural. Prólogo In “O anticristo”. aos privilégios e os sacrifica aos excessos de seu sentimento moral. UMA FILOSOFIA CONTRA A MORAL CRISTÃ?13 Em o “Anticristo”. 22 . este princípio não pode ser extremado como princípio fundamental da sociedade porque se revelaria como negação da vida. Para ele. no início da revolução a corrupção foi o ato final daqueles séculos de corrupção permanente. um povo da mitologia grega que habitava o extremo norte da terra vivendo num paraíso. A cultura superior começa com a verdade que dói. da exploração. 2002. 2002. criadores de gado. Esse costume pode tornar-se bom método entre indivíduos se existirem condições como quantidade de forças equivalentes ou escala de valores semelhantes. De grande importância o que surge neste parágrafo é a questão fundamental: o que é Vontade de Negação? Para Nietzsche é deixar de ofender e abster-se da violência. 2. Ocorre corrupção quando uma aristocracia abre mão. Para uma aristocracia boa ou sã é essencial que ela não se sinta apenas como função. seja da comunidade. homens-fera que de posse de uma inquebrantável força de vontade e desejo de poder lançaram sobre raças mais fracas. sem tristezas 13 Nietzsche. com a aristocracia cedendo aos poucos seus direitos senhoriais e reduzindo-se a apenas a função de realeza. dissolução e decadência. 2002. (NIETZSCHE. Nietzsche começa falando dos hiperbóreos.

2002. 2002. um tipo superior que constitui uma espécie de homem superior. não há felicidade. Nessa atmosfera de tempestade. Este homem já nasceu mais de uma vez. O homem que se deverá criar. Diz Nietzsche: “Nem por terra nem por mar encontrarás o caminho que conduz aos hiperbóreos”. a suprema besta humana. mas o valor. corrompeu a faculdade das naturezas intelectualmente poderosas ao ensinar que os valores superiores do intelecto não passam de pecados. o progresso é uma idéia moderna falsa. 39). uma linha reta. Sobre o homem superior citamos HEIDEGGER na obra Nietzsche: metafísica e niilismo: A subjetividade incondicionada do super-homem traz a Vontade de Poder enquanto o ser de todo ente para o seio da luminosidade de si própria. 2000. A felicidade é a sensação de que o poder cresce ou que uma resistência foi vencida. 39). Em virtude disso afirmamos: a subjetividade incondicionada do super-homem é a verdade do ente. 38. Para ele. pois não encontramos caminho algum e a nossa felicidade é um sim. e tudo que nasce da fraqueza é mau. mas mais poder. não há virtude. Este homem é o mais temido temor que produziu um tipo inverso. incapazes ou fracos devem perecer. mais dignidade e seguro de futuro é o problema que deve ser resolvido. tem mais valor. desvios ou tentações. não há paz. a nossa própria natureza nublara-se. tribos e povos inteiros podem representar um acerto no alvo.23 nem doenças e onde só se podia chegar com a ajuda dos deuses. compaixão em benefício de fracos e incapazes é mais nocivo que todos os vícios (NIETZSCHE. Sendo assim. É bom tudo que desperta o sentimento de poder. Ele entende essa corrupção no 23 . fortalecer-se. desta forma um rasto da antiga essência da verdade. ela é uma espécie de desvelamento e ainda contém. do incapaz transformando em ideal a oposição aos instintos de conservação da vida saudável. A humanidade não evoluiu para o mais forte. mas estes golpes de sorte foram e serão sempre possíveis e até raças. O homem superior não virá por acaso. o animal de rebanho ou cristão. conquanto o ser se mostre como Vontade de Poder (HEIDEGGER. o negativo e censurando o homem forte como proscrito. mas como exceção e não como tipo desejado. ele será resultado de uma subjetividade formada. O cristianismo tomou partido do fraco. uma meta. Desenvolver-se não significa elevar-se. e nossa caridade. (NIETZSCHE. 204). Casos isolados florescem em diferentes culturas e regiões da terra. Nietzsche considerase aquele que ergueu o pano da corrupção dos homens. aperfeiçoar-se. mas sim a guerra. um não. O cristianismo trava uma guerra de morte contra este homem superior ao renegar os instintos fundamentais do homem superior destilando o mal. o mais elevado. à Vontade de Poder ou o próprio poder.

aspira o poder. mas estes valores verdadeiramente elevados foram despojados da vontade. O homem. e os valores de decadência e niilismo superiores os mais sagrados (NIETZSCHE. É por isso que em outros tempos concedia-se ao homem o livre arbítrio como prêmio do mundo superior. Aristóteles via na piedade um estado mórbido e perigoso que era preciso eliminar por meio de um purgante: a tragédia. a vontade niilista. 40. a castidade. a “ciência”. A vida já apresenta um instinto para o crescimento. A piedade opõe-se à lei da evolução e seleção natural porque luta pelos condenados da vida. O antigo termo “vontade” ou “arbítrio” só serve para o designar “um a um” a espécie de 24 . Uma análise do que seja estes sentimentos elevados esclareceria porque o homem é tão degenerado. Quando teólogos. 42). através da consciência dos príncipes (ou povos) estendem as mãos para o poder não duvidem do que realmente acontece: a Vontade do Fim. Um animal. 41). a palavra. Para a proteção do instinto vital era necessário separar o temor da piedade cristã. Aonde chegar a influência teológica estão pervertidas as avaliações ou invertidos os conceitos verdadeiro e falso. de sequer conceder a palavra em que assunto for. mas hoje até a “vontade” lhe retiraram. um indivíduo. e vê tais coisas a baixo de si como “forças” perniciosas e sedutoras sobre as quais plana o espírito em abstração pura. 2002. a pobreza. a santidade não tivessem causado infinitamente mais prejuízos à vida que qualquer horror ou vício. 43). mais mórbido e perigosamente desviado dos seus instintos. o “conforto”. O idealista como o padre. A humanidade chama a piedade de virtude. uma espécie é corrupta quando faz uma opção que lhe é prejudicial. É o seu mais baixo instinto de conservação que o proíbe de honrar a verdade. porém. (NIETZSCHE. não é a coroa da criação porque cada ser encontra-se no mesmo grau de perfeição. e de todos os animais. Para o filósofo. na medida em que não se trata mais de um atributo. 2002. com uma perda total e desproporcional diante da causa. como se a humildade. para o poder e sem isso ocorre o desastre. O homem perde o poder quando tem sentimento de piedade e esta é causa de sofrimento podendo conduzir a um total sacrifício da vida e energia vital. 2002. o homem é o mais imperfeito. (NIETZSCHE. os “sentidos”. têm nas mãos as grandes nações e as lança com benévolo desprezo contra o “intelecto”. A piedade é deprimente porque enfraquece as paixões revigorantes que aumentam o prazer de viver. o homem é o animal mais forte porque é o mais hábil e sua espiritualidade é conseqüência disso.24 sentido de decadência que todos os valores nos quais a humanidade deposita seus anseios são valores de decadência. O que um teólogo considerar como verdadeiro deve ser falso. 41. as “honras”.

“BOM E MAU”. sendo também sentidas como boas se por si própria já fossem algo bom. A utilidade da ação não egoísta seria a causa de sua aprovação e esta terá sido esquecida e deixado de existir. diz Nietzsche. eles que dizem: “isto é isto” marcando cada coisa e acontecimento com um som se aproximando assim delas. Nietzsche considera a consciência o espírito e o sintoma relativo da imperfeição do organismo como um trabalho em que se consome inutilmente muita energia nervosa. “BOM E RUIM”. poderosos. Mais tarde foi esquecida essa origem do louvar as ações não egoístas pelo simples fato de serem consideradas costumeiramente como boas. de primeira ordem em oposição a tudo que era baixo. No entanto essa utilidade foi experiência cotidiana em todos os tempos continuamente enfatizada e ao invés de desaparecer da consciência deveria firmar-se na consciência. Em Nietzsche o juízo “bom” não provém daqueles aos quais se fez o “bem”. superiores em posição e pensamentos que sentiam e os estabeleciam a si e seus atos como bons. (NIETZSCHE. Em princípio a palavra: “bom”.25 reação individual que serve a um conjunto de extrações concordantes ou contraditórias. 17. 1998. 25 . As designações para 14 Nietzsche. 2002. 48). Friedrich. o resto é um erro de cálculo. importando a eles a utilidade. Desse pathos da distância é que tomaram para si o direito de criar valores. Esse pathos da nobreza e da distância sentimento global da relação da estirpe senhorial com a estirpe baixa. 47. Para ele foram os nobres. Somente com um declínio dos juízos de valores aristocráticos que essa oposição “egoísta” e “não egoísta” se impõe à consciência humana. vulgar e plebeu. Esse direito senhorial de dar nomes vai tão longe que concebe a própria origem de linguagem com a expressão do poder dos senhores. chamado “invólucro mortal”. aqueles aos quais eram úteis. dar nomes aos valores. Para os psicólogos ao investigar a origem do conceito e do juízo “bom”. originalmente as ações não egoístas foram louvadas e consideradas boas por aqueles aos quais eram feitos. a vontade já não age nem se move. 2. não está ligada necessariamente a ações “não egoístas”. são historiadores da moral a quem falta o espírito histórico abandonados pelos bons espíritos da história que pensam de forma a-histórica como o costume dos filósofos. Ocorre então uma idiossincrasia e por fim o erro que serve de base a uma valoração em que o homem até agora tem o orgulho como um privilégio. para ele o puro espírito é uma estupidez porque se retirarmos o sistema nervoso e os sentidos.3. 14 Os psicólogos. Genealogia da Moral. eis a origem da oposição: “bom” e “ruim”.

da Europa de Nietzsche. uma saúde transbordante e rica junto com o que lhe serve à conservação. enfatiza a covardia. feio (kakos). puro. nobre. verdadeiro. originalmente homem louro. que tem realidade. covarde. pela mais primitiva forma social comum aos socialistas. Percebe-se que a valoração sacerdotal deriva do aristocrático. e os juízos de valor cavalheiresco-aristocráticos têm como pressuposto a constituição física poderosa. a virtude e a doença. no sentido social. Na aristocracia sacerdotal existem hábitos hostis à ação. tornando-se madura. E estas são as duas formas fundamentais da superioridade de umas sobre as outras bestas. a dissolução. é o conceito básico a partir do qual se desenvolveu “bom” no sentido de “espiritualmente nobre”. A natureza de uma aristocracia sacerdotal esclarece. No âmbito dessa forma perigosa o homem torna-se animal interessante e a alma humana ganha profundidade num sentido superior. o amor. Nas palavras. as antíteses de valores que se tornaram mais intensas. aristocrático. não apenas as curas e artes médicas. a dança. a perspicácia. habitantes pré-arianos da Itália que se distinguiam pela cor da raça loura ariana dos conquistadores tornados senhores. por outro lado. e nessa impotência o ódio toma grande proporção. nobre. e dos arianos não estivessem sucumbindo fisiologicamente. mas também a altivez. o plebeu em contraposição ao bom.26 “bom”. Com sacerdotes tudo se torna mais perigoso. O latim “malus” (Nietzsche relaciona a negro) poderia caracterizar o homem comum como homem de pele escura. por fim. do anarquismo e a inclinação pela “commune”. “Aristocrático”. Os sacerdotes são os maiores inimigos da guerra porque são os mais impotentes. significa por sua raiz. a guerra para eles é mau negócio. em contraposição aos nativos de pele escura e cabelos negros (NIETZSCHE.18-20). tem outros supostos. e tornou-se má. A palavra cunhada para bom. espiritual e 26 . que é real. Já o nobre sacerdotal. do homem bom. depois. sugerindo em que direção se deve buscar a origem etimológica. de cabelos negros. que em toda parte. a aventura. alguém que é. a sede de domínio. livre e contente. não significava um grande atavismo que a raça de conquistadores e senhores. como tímido. de “espiritualmente bem-nascido ou privilegiado”. com o declínio da nobreza passa a designar aristocracia espiritual. a termo distintivo de nobreza. a guerra. mau. cunhado pelas diversas línguas remetem a mesma transformação conceitual. os torneio e atividades robustas. numa mudança subjetiva significa verdadeiro e nesta fase da transformação conceitual assume o sentido de “nobre” em oposição ao homem mentiroso. sinistra. nobre. a vingança. 1998. Com a preponderância moderna da democracia. sentimentalmente explosivos com seqüelas inerentes aos sacerdotes de todos os tempos. a caça.

inebriante. os insaciáveis. Qual de nós seria livre pensador não houvesse a igreja. misturando as raças entre si. caro aos deuses. mas ao mesmo tempo essa vitória é como um envenenamento do sangue. não o seu veneno. 1998. feliz. os sofredores. é o evangelho vivo do amor. os necessitados. É a igreja que nos repugna. algo atrativo. eternamente malditos e danados. um ato de vingança espiritual. um direito de existência. Jesus de Nazaré. os miseráveis. Essa intoxicação bem sucedida a redenção do gênero humano do jugo dos senhores marcha através do corpo da humanidade e seus passos são cautelosos. os cruéis. Os senhores foram abolidos. e com unhas e dentes do ódio mais profundo e impotente se apegaram a uma inversão onde somente são bons os pobres. e poderosos serão pela eternidade os maus. um poder moderar e obstruir essa marcha. Os judeus.27 venenosa. agir e crescer espontaneamente buscando seu oposto apenas para dizer sim a si mesmo com maior júbilo e gratidão. a dos atos. um povo de sacerdotes soube desforrar-se de seus inimigos conquistadores através de uma transvaloração radical dos valores. a moral escrava sempre requer um mundo oposto e exterior. é a sedução em sua forma mais irresistível para os novos valores judaicos do ideal. última e extrema crueldade da autocrucificação de Deus para salvação do homem. condição para poder agir em absoluto. aterrador paradoxo de um “Deus na cruz”.22-35). Seu conceito negativo é apenas imagem de contraste 27 . e onde os nobres. poderoso. uma rebelião que tem dois mil anos de história e que foi vitoriosa. os feios. Amamos o seu veneno não a igreja. Para nascer. a moral do homem comum venceu. Com os judeus inicia a revolta dos escravos na moral. os impotentes. Foram os judeus que com uma coerência apavorante inverteram a equação de valores aristocráticos onde bom era nobre. os lascivos. inaudíveis. pobres e pecadores. belo. Na história universal os maiores odiadores foram os sacerdotes. A história humana seria tolice sem o espírito que os sacerdotes impotentes trouxeram (NIETZSCHE. mas também foram os mais ricos em espíritos. No modo de valoração nobre a ação é positiva. redentor e portador da vitória e bem aventurança aos doentes. Atualmente ela mais afasta do que seduz. os ímpios. A igreja possui hoje uma tarefa necessária. corruptora que se igualasse aquele símbolo da “cruz sagrada”. essa seria sua utilidade. os doentes que são os únicos abençoados. mistério inimaginável. A rebelião escrava na moral inicia quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira ação. porque sua ação não é mais que reação. apenas por uma vingança obtêm reparação. Seria possível conceber uma isca mais perigosa.

28

em relação ao conceito básico positivo; nós os nobres, nós os bons, os belos, os felizes (NIETZSCHE, 1998, 26-28). Os “bem-nascidos” se sentiam mesmo “felizes” pois não tinham que construir artificialmente a sua felicidade, ou menti-la para si, ou por meio do olhar aos inimigos como costumam fazer os ressentidos. Sendo os nobres, ativos e repletos de ação e força não sabiam separar felicidade da ação. Não havia felicidade sem ação, nem ação sem felicidade. O homem nobre vive com a confiança e com franqueza. O homem do ressentimento não é franco nem ingênuo, nem honesto ou reto consigo mesmo. Ele ama os refúgios, os subterfúgios, os caminho-ocultos, escondidos, sua segurança, do silêncio, do apequenamento e humilhação própria. Essa raça de homens do ressentimento resultará necessariamente mais inteligente que a raça nobre e venerará a inteligência como condição primeira da sobrevivência, enquanto que o nobre facilmente adquire um gosto de luxo porque nele está longe de ser essencial a certeza de funcionamento dos instintos “reguladores” inconsciente, ou seja, a prudência. O ressentimento do homem nobre quando aparece se consome e exaure de imediato, porque não se envenena e não consegue levar a sério por muito tempo seus inimigos. Um homem desse tipo com um só movimento se livra de muitos vermes que em outros se enterrariam. Um nobre tem reverência para com seus inimigos porque não suporta um inimigo que não pode desprezar e que tenha de venerar. O homem ressentido concebe o inimigo como “mau” e elabora como imagem equivalente um “bom” e outro pólo, ele mesmo (NIETZSCHE, 1998, 29-31). Os portadores dos instintos depressores e sedentos de desforra, os descendentes de toda escravatura, os descendentes da população pré-ariana representam o retrocesso da humanidade. Em Nietzsche é racional temer e se manter em guarda contra a besta loura que existe em toda raça nobre; mas para Nietzsche quem não preferiria isso, poder admirar a não temer e não mais poder se livrar da visão asquerosa dos amargurados e envenenados (NIETZSCHE, 1998, 34). Exigir da força que não seja um querer dominar, um querer vencer, um querer subjugar, uma sede de inimigos, resistência e trunfos é tão absurdo quanto exigir da fraqueza que se expresse como uma força. Um “quantum de força” equivale a um mesmo “quantum de impulso”, vontade, atividade. Quando os oprimidos ultrajados exortam uns aos outros dizendo com a vingativa astúcia da impotência: “Sejamos diferente dos maus, sejamos os bons”. E nesta visão “bom” é aquele que não fere, não ultraja, não ataca, que remete a Deus a vingança e se mantém na sombra como nós, os pacientes, humildes,

28

29

justos; isso apenas significa “nós, fracos, somos realmente fracos e convém que nada façamos para o qual não somos fortes o bastante”; mas essa prudência, que os insetos possuem quando se fingem de morto ante o perigo próximo, graças à mentira própria da impotência toma forma de virtude que cala, renuncia, a espera do mais fraco fosse um ato voluntário, desejado, escolhido; um mérito. Na terra se fabricam ideais. A fraqueza é mudada em mérito e a impotência é vista como bondade; a baixeza é humildade, a submissão àqueles que odeia é obediência. A covardia do fraco é vista como paciência ou virtude; o não poder vingar-se por não querer vingar-se é perdão. Fala-se em perdão aos inimigos e suam quando o dizem. Dão a entender que são melhores que os poderosos, os senhores da terra a quem tem de obedecer, não por temor, mas porque Deus ordena que seja honrada a autoridade. Estes se dizem bons, justos e pretendem o triunfo na justiça. Eles não odeiam seu inimigo, mas sim a injustiça, a falta de Deus; o que crêem e esperam de Deus, dos justos sobre os ateus; na terra não amam seus irmãos no ódio, mas seus irmãos no amor, lhes servindo de consolo à bem aventurança futura antecipada. A isto chamam de juízo final ou reino de Deus, do seu reino. Estes fracos também desejam ser os fortes algum dia, não há dúvida, e seu reino deverá vir junto, mas para viver isto é preciso uma vida longa que ultrapasse a morte; é preciso uma vida eterna no amor, na fé, na esperança para ser recompensado no reino de Deus (NIETZSCHE, 1998, 36-39). Assim os dois valores contrapostos “bom e mau”, “bom e ruim” travam na terra uma luta terrível, milenar e embora predomine o segundo valor ainda não falta lugar em que a luta não foi decidida. Poderia-se dizer que ela foi levada incessantemente para o alto e com isso se espiritualizando, de modo que hoje não há sinal decisivo de uma “natureza elevada, ou espiritual”, mas de uma verdadeira batalha entre os dois opostos – Seria uma Dialética? A história humana comprova isto; Roma e Judéia – nunca houve luta maior –, nessa oposição moral Roma via nos judeus a antípoda ou monstro de si, a antinatureza; em Roma os judeus eram tidos por culpados de ódio a todo gênero humano. Os judeus sentiam pelos romanos a mais selvagem das investidas que a vingança tem na consciência porque os romanos eram fortes e nobres como jamais existiram outros, e cada vestígio ou inscrição encanta ao observador. Não pode haver dúvidas sobre o vencedor considerando-se que na própria Roma os homens inclinam-se como a quinta-essência dos mais altos valores como metade do mundo e em toda parte que o homem queira ser domado. Roma sucumbiu não resta dúvidas, num sentido mais profundo; e a Judéia conquista outra vitória com a

29

30

revolução francesa, uma vitória sobre o ideal clássico; a última nobreza política que havia na Europa, a da França dos séculos XVII e XVIII perece sobre os instintos populares do ressentimento. Mas, isto não foi a causa final da derrocada da aristocracia porque havia outros problemas. O próprio Nietzsche bem os demonstra em “Para Além do Bem e do Mal” quando relata:
A corrupção, indicadora da anarquia nos instintos e de abalo ba base dos afetos estruturais da “vida”. A corrupção varia basicamente de acordo com a forma de vida em que se manifesta. Por exemplo, quando uma aristocracia como a da França, no inicio da Revolução deita fora com um nojo sublime os privilégios e se sacrifica aos excessos do seu sentimento moral, pode-se dizer que isto é corrupção. Realmente, foi apenas o ato final daqueles séculos de corrupção permanente, graças à qual ela tinha cedido, passo a passo, os seus direitos senhoriais e se tinha reduzido a uma função de realeza (terminando a somente um falso aparato, a uma pompa exterior). (NIETZSCHE, 2002, § 258, Pág. 184).

Mas em meio a isso inesperadamente em face da velha senha mentirosa do ressentimento e privilégio da maioria surge Napoleão, o mais tardio dos homens nobres. Quem refletir e reconsiderar tão cedo não chegará ao fim o maior entre os conflitos de ideais entre o bem e o mal (NITZSCHE, 1998; 43-45). 2.4. “CULPA”, “MÁ CONSCIÊNCIA” E COISAS AFINS.15 Esquecer não é uma simples força inercial como se crê superficialmente, mas uma força inibidora ativa, positiva no mais rigoroso sentido onde nossas consciências, permitindo-se tornar um pouco de tabula rasa para que haja lugar para o novo, e, sobretudo para as funções mais nobres. A utilidade do esquecimento é ser a guardiã da porta, que cuida da ordem psíquica. Quem tem danificado este aparelho inibidor é comparável a um dispéptico incapaz de se dar conta. Esse esquecer é uma força, uma forma de saúde forte que desenvolveu em si uma facilidade oposta à memória que pode suspender o esquecimento em alguns casos. Esta é a origem da responsabilidade: criar um animal capaz de fazer promessas trazendo consigo a condição e preparação de tornar o homem necessário constante e confiável. A moralidade do costume; trabalho do homem em si no período mais longo de sua existência encontra sentido no trabalho pré-histórico, com a ajuda desta camisa de força social o homem foi tornado confiável. Mas o indivíduo soberano igual apenas a si mesmo liberado da moralidade do costume, indivíduo autônomo supramoral de vontade própria e independente que pode fazer promessas se encontra nele
15

Idem, 47.

30

31

vibrante uma orgulhosa consciência de poder e liberdade, um sentimento de realização. Esse senhor de livre arbítrio merece confiança, temor e reverência e tendo domínio sobre a circunstância, natureza e todas as criaturas inseguras e pobres de vontade terá nessa posse a sua medida de valor, e olhando para os outros a partir de si. Ele honra ou despreza tão necessariamente quanto honra os seus iguais, os fortes e confiáveis, os que podem prometer (NIETZSCHE, 1998, 46-49). Imaginou-se o castigo, escreve Nietzsche, como inventado para castigar, mas todos os seus fins e utilidades são apenas indícios de uma Vontade de Poder que se tornou senhor de algo menos poderoso e lhe deu sentido e função. Também para ele, a inutilização parcial, a atrofia e degeneração, a perda de sentido ou de propósito, a morte, tudo está em condições para o verdadeiro “progressus” que sempre aparece em forma de vontade e via de maior poder, e sempre imposto à custa de inúmeros poderes menores porque a magnitude de um avanço se mede pela massa do sacrifício. Nietzsche valora com ênfase capital o ponto de vista do método histórico porque vai de encontro ao gosto e instinto dominante que antes se conciliavam com a mecânica absurda de todo acontecer do que com a teoria de uma Vontade de Poder operante em todo acontecer. É a idiossincrasia democrática contra tudo que domina se mascarando no espiritual e que penetra devagar e rigorosamente nas mais aparentes ciências objetivas. Com isso se desconhece a essência da vida e sua Vontade de Poder, não se percebe a primazia fundamental das forças espontâneas, agressivas, expansivas, criadoras de novas formas, interpretações e direções, forças em que a ação precede a adaptação; com isso se nega o papel dominante dos melhores a quem a Vontade de Vida aparece ativa e conformadora (NIETZSCHE, 1998, 66-67). Todos os instintos que não se descarregam para fora, voltam-se para dentro, numa interiorização do homem de tal forma que cresce a sua alma. O mundo interior no início fraco se expande e se estende em profundidade, largura e altura na mesma medida em que o homem foi inibido em sua descarga para fora. Os castigos estão entre as formas com que os instintos de liberdade do homem selvagem e errante se voltam contra o próprio homem. Esse homem que estando sem inimigo e resistência exterior, preso numa opressiva estreiteza e regularidade de costumes lacerou esse animal que querem amansar; esse prisioneiro tornou-se o inventor da má-consciência, e com esta, é induzido a mais sinistra doença de que até agora não se curou o homem como resultado de uma separação do seu passado animal e declaração de guerra aos velhos

31

na linguagem de Nietzsche. e em especial com a primeira fundadora da estirpe. onde subitamente nos achamos ante um paradoxo horrível na qual a humanidade só encontra alívio da culpa num golpe de gênio do cristianismo: o próprio 32 . O medo do ancestral e do seu poder. Quem pode dar ordens é o senhor que nada tem a ver com contratos. a consciência de ter dívidas para com eles cresce na medida exata do poder da estirpe. pois ele considera o Estado a mais primitiva forma. O advento do Deus cristão. constrói a liberdade. nos primórdios da comunidade tribal. iniciada e terminada pela violência. seu prazer e temor em se que inspirava. A partir daí inicia-se o Estado e não sob a forma sentimental de um “contrato”. não apenas um mero vínculo de sentimento. uma obrigação jurídica. Deus máximo alcançado trouxe junto ao mundo o máximo do sentimento de culpa. mas sem preparo para a luta. Em Nietzsche. seu velho Eu animal. raça de conquistadores. organizada para a guerra lança sua força sobre uma população muito maior em número. a formação do Estado não se dá pelo contrato social. Na origem do Estado. 3. uma terrível tirania. A convicção é que a nova geração reconhece uma dívida crescente e permanente com os espíritos poderosos de conceder vantagens e adiantamentos a partir de sua força. a Vontade de Poder com a diferença que a natureza conformadora dessa força violenta é o próprio homem. a geração que sempre reconhece na anterior.32 instintos nas quais até então se baseou em sua força. É a mesma força ativa que age nos organizadores da violência que constrói Estados e que interiormente em escala menor cria a má consciência. A POLÍTICA. onde um bando de bestas louras.

o espírito criador cuja força impulsora afastará sempre de toda transcendência e toda insignificância. Para ele a cadência sonolenta deste movimento aparece nas manifestações cada vez mais histéricas e franca dos anarquistas que habitavam a cultura Européia. 33 . 55. 1998. ele virá. do niilismo. Mazzimo. Esse homem do futuro que nos salvará não só do ideal vigente. nem mestre”. Para Nietzsche isto acabará de forma diversa e num futuro próximo pelas mãos de um novo redentor que ele mesmo dá como garantia: Algum dia. ele possa trazer a redenção dessa realidade: sua redenção da maldição que o ideal existente sobre ela lançou. Para Nietzsche o credor se sacrificando por amor do seu devedor. Os socialistas ficam agrupados numa resistência tenaz a toda pretensão individual. 16 16 Montinari. porém. penetração na realidade. Os anarquistas em aparente oposição aos democratas e ideólogos revolucionários pacíficos trabalhadores. Assim o homem aprende a suprimir seus autênticos instintos animais e os reinterpreta como culpa em relação a Deus.1. ao retornar à luz do dia. Deus como único que pode redimir o homem de sua culpa. da vontade de nada. que torna novamente livre a vontade. “Interpretações Nazistas” In Cadernos Nietzsche. num tempo mais forte do que esse presente murcho. NIETZSCHE E AS INTERPRETAÇÕES NAZISTAS. o homem de grande amor e desprezo. 73-84). 3. direito particular ou privilégio. cuja solidão não será compreendida pelo povo. instintivamente são contra toda forma de sociedade que não seja a do rebanho autônomo. e em maior oposição os filósofos entusiastas do socialismo querem a “sociedade livre” mas na realidade. como daquilo que dele forçosamente nasceria. Diz uma fórmula socialista: “Nem Deus. negando os conceitos de “senhor” e “servo”. Há uma espécie de loucura da vontade nessa crueldade psíquica que é nada menos que a vontade do homem em sentir-se culpado e desprezível até a expiação na sua vontade de crer-se castigado sem que o castigo jamais se equivalha a sua culpa. absorção. que devolve à terra sua finalidade e ao homem sua esperança. inseguro de si mesmo. como uma fuga da realidade . Mesmo desprezando o homem de rebanho. do grande nojo.33 Deus pagando a si mesmo. no fundo resistência a todos os direitos porque com a igualdade ninguém precisa de “direitos”. esse toque de sino do meio-dia e da grande decisão. 1999. esse vencedor de Deus e do nada – ele tem que vir um dia (NIETZSCHE. o homem redentor.quando será apenas a sua imersão. Nietzsche era contra os anarquistas. para que. esse anticristão e antiniilista.

Nojo! Nojo! Nojo! (MONTINARI. no terreno sólido da história. 34 . Não existe na Alemanha um grupo mais cínico e cretino do que estes antisemitas. como sinal de agradecimento. “besta loura” que pretendem se deixar assimilar a uma não melhor “ideologia” do nacionalsocialismo. um belo pontapé como carta. logo percebemos que são as representações vagas que servem de conceitos como “violência do super-homem”. 1999). Hitler não se formou a partir das obras de Nietzsche e até é discutível que Hitler o tenha lido algum dia. “Vontade de Poder”. Os historiadores tiveram que constatar que Nietzsche era estranho aos fundadores do nazismo. A teoria da raça. Seriamente. Este canalha ousa pronunciar o nome de Zaratustra. este que tinha sido profundamente desprezado pelo Nietzsche autêntico. estudioso alemão iniciou uma investigação histórica sobre “Nietzsche no terceiro Reich” com uma dissertação apresentada em 1970 à universidade de Kiel. e de Houston Stewart Chamberlain que por sua vez sempre combateu Nietzsche do ponto de vista wagneriano. os nazistas reivindicam Nietzsche para si e ainda hoje (1999)17 vale para muitos uma frase de Lukács que via em Nietzsche um “precursor intelectual do nacional-socialismo”. Eu lhes desferi. a “ideologia nacional socialista” fica digerida de mitos e representações de que a “falsa consciência da realidade” se serve para sua ação política. Uma nota que se encontrou entre as cartas póstumas de Nietzsche é esclarecedora: Há algum tempo um certo Theodor Fritsch de Leipzig me escreveu. de uma real assimilação de Nietzsche. documentos e fatos. Reconstituindo a realidade com os instrumentos da crítica histórica. Rosemberg no “Mito do século XX” reivindicou Nietzsche entre os precursores do nazismo e o coloca na companhia discutível de Paulo de Lagande. constatando que no 17 Ano em que Montinari escreveu o seu artigo “Interpretações Nazistas” In Cadernos Nietzsche. bagrenthiano e racista. da qual Nietzsche teria sido precursor quando a economia capitalista livrou-se das aparências liberais. é impossível falar.34 A associação entre Nietzsche e o nacional-socialismo é uma associação ordinária que o “intelectual médio italiano” costuma fazer em razão da ideologia de Hitler. Apesar disso. base da corrupção hitleriana era estranha a Nietzsche e também os princípios do “Führer”. cientificamente se utilizarmos os instrumentos da ciência da história. 1999. quando este estava no poder na Alemanha nazista. Theodor Fritsch viveu de 1852 a 1933 e era destacado expoente do anti-semitismo de seu tempo. como ele foi e pensou por parte do nacional-socialismo. Hans Langreder. Mas. tornando-se “deputado nacional socialista” e a qual Nietzsche responde para que ele pare de remeter-lhe o “Antisemitische Correpondez”.

mas também ambições e malignidades privadas ou tendências ocultas de política cultural. segundo a legislação da época tinham vigência até 30 anos após a morte do autor e Nietzsche morrera em 25 de agosto de 1900. Por volta de 1930 Erich F. Em Bäunler o que lhe importa é forçar a filosofia de Nietzsche para fazer dela a premissa de uma concepção política germânica.19 Continuou aceitando mesmo depois da segunda guerra mundial quando não era mais nazista. 35 . teria agradado ao especialista. cosmopolita. Podac expõe pela primeira vez o laudo médico do manicômio de Jena dos dois primeiros anos de sua doença (1889-1890). havia a necessidade da compilação. 2) Para julgar a obra de Nietzsche é necessário fazer o que Bäunler não teve tempo de fazer. 1999. A vida privada de Nietzsche tornou-se alvo de um esforço de desmitização com a qual reagia a imagem do “santo” leigo. A partir de 1930. oportunidades para se expor capacidades. individualista e apolítico. (1999)18 ainda é amado como tal. as obras de Nietzsche não estão mais protegidas por direitos autorais. ou de uma imagem positiva ou negativa da ideologia nacional-socialista. 55-58. Como virtuoso de um estilo profundo e ao mesmo tempo conciso Nietzsche conquistou a geração que entrou na cena literária pública da Alemanha após sua morte. O próprio Peter Gast que auxiliou Elizabeth Förster-Nietzsche compilou a obra “Vontade de Potência” reconheceu que uma edição que publicasse os manuscritos de Nietzsche tal qual estavam.35 terceiro Reich não existia. Assim. Havia até ideólogos do nacional socialismo que o consideravam incômodo. Naquele tempo ele teve influência como poeta e escritor e até hoje. no início dos anos trinta era um período de discussões da obra do pensador tornam-se livre propriedade do seu povo e do mundo intelectual. Idem. como foi publicada pelos Arquivos Nietzsche. Então. 60-61). (MONTINARI. um juízo unânime sobre Nietzsche. mas não ao grande público. em absoluto. Bäumler aceita sem crítica a compilação que fez história em “Vontade de Potência”. A interpretação de Nietzsche proposta e imposta por Bäunler que até aos antifascistas e marxistas foram feita em negativa baseava-se em dois pressupostos metodológicos: 1) A verdadeira filosofia de Nietzsche encontra-se nas suas anotações póstumas. Vontade de Potência – Obra póstuma que foi atribuída a Nietsche. mas como editor das obras de Nietzsche. sistematizada e escrita por sua irmã Elizabeth Foerster-Nietzsche. Importante saber se a politização do pensamento de Nietzsche operada por Bäunler é sustentável. O mesmo 18 19 Montinari. O documento causou sensação no público e desencadeou infinitas discussões. é preciso assumir um trabalho da conexão lógica na obra de Nietzsche. mediações.

praticamente sem lacunas de sua produção e intenções. É justamente essa ótica errada que é causa de falsificação do pensamento de Nietzsche (MONTINARI. uma doença do caráter. Sob a forma do “realismo heróico”. autêntico fragmento tornou-se conhecido: “Desconfio de todos os sistemas e me afasto deles: talvez por trás deste livro se possa descobrir o sistema em uma filosofia que evitei. Os dois modos não podem um levar a exclusão do outro. tinha um valor esotérico. mais tirânico. É justamente na base dos arbítrios e mutilações que Bäumler prepara Nietzsche decapitado e do qual precisa para a segunda parte de sua operação. ao contrário são complementos de uma mesma investigação (MONTINARI. Mas para Bäumler. em devir do pensamento de Nietzsche. etc. 1999. cujo texto. mais inculto. 1999. segundo a própria Elizabeth não era um estudioso.. em um filósofo. 65-66). como nos interessa o que Nietzsche disse e não o que Bäumler gostaria que Nietzsche dissesse. mais impenoso. o que deve e o que não deve ser considerado. somos levados a crer e duvidar do talento interpretativo de Bäumler. 1999. o que permaneceu no estado elaborado do fragmento. mais forte. sobretudo os de a Vontade de Poder. . os fragmentos póstumos incompletos.mais tolo significa. Sobre a Vontade de Sistema. quer dizer “mais forte”. em termos morais é uma corrupção mais sutil. Os manuscritos de Nietzsche lidos segundo a sua sucessão cronológica fornecem uma representação autêntica. 67). ou aberto para utilizações sucessivas indicadas em planos eventuais ou descartados e superados por Nietzsche no decorrer de suas meditações. “mais dominador”. O que Bäumler precisa é de Nietzsche que se apresente como “mais tolo do que realmente é”. mais dominador.36 Peter Gast. uma filosofia política pseudo- 36 . No verão de 1888. mais simples. É preciso habituar-se a dois modos de considerar os manuscritos das anotações como uma expressão unitária. Assim. Os fragmentos póstumos publicados segundo sua cronologia nos manuscritos encontram-se numa relação de esclarecimentos e complementos no que refere as obras já acabadas. 63). Nietzsche escreve um dos tantos prefácios para o livro que havia renunciado tantas vezes de escrever: “A Vontade de Potência”.”. e em termos não morais é a sua vontade de apresentar-se como mais tolo do que realmente é. Bäumler constrói seu Nietzsche (MONTINARI.. enquanto obra. O segundo modo é especificar no conjunto as intenções literárias de Nietzsche. seus planos de publicação. pois lhe faltava a consciênciosidade do filósofo e por isso seria necessária uma nova edição dos textos póstumos de Nietzsche.

é preciso não admitir a existência de um problema histórico. Após constatarmos a insustentabilidade da anexação da ideologia de Nietzsche ao nacional-socialismo no caso Bäumler. o das razões da política “cultural” e da propaganda nazista a servirse de Nietzsche. 73). inclusive de jornais e quais as obras de Nietzsche foram publicadas e popularizadas pelo governo ao povo alemão durante o terceiro Reich e durante os doze anos do governo Hitler. 37 . Isso iria escancarar o quadro de violência ideológica e propagandista de uma terrível simplificação de um Nietzsche diferente (MONTINARI. 70. Mas isso já é uma outra investigação que requer seja averiguado qual método usado. analisar quais artigos. 1999.37 revolucionária.

Tese Cosmológica ou Imperativo Ético? In “Extravagâncias: Ensaios sobre a filosofia de Nietzsche”. Scarlett. De acordo com Marton. Nietzsche ao querer a repetição eterna de todos as coisas implicaria não só viver de novo o que se escolheu. mas ter de viver outra vez o que não se quis. Na mesma obra Russell já havia mencionado: 20 Marton. doutrina do fluxo perpétuo. ele vê no que chama de “história monumental” que os acontecimentos se repetem com exatidão até os mínimos pormenores (Nietzsche in Marton: 2000. Ao examinar diferentes tipos de historiografias. 67).. TESE COSMOLÓGICA. a configuração geral colocaria em ponto de repetição (MARTON. Historiador de filosofia Nietzsche atribui a Heráclito o que veio constituir uma tese estóica. como vimos.. é dolorosa. 4. Bertrand. 21 Russell. 38 . Heráclito. o pré-socrático entenderia que sucumbe periodicamente para ressurgir sempre o mesmo e. Ao seu ver. 68).20 Conforme Marton. Bertrand Russell21 em “História da Filosofia Ocidental” ensina que a “. desse modo. 2000. nada pode fazer para refutá-la” (RUSSELL. concebendo o mundo como criação e destruição permanente. em Heráclito que Nietzsche julga encontrar a idéia do eterno retorno. é ao reescrever a história pré-socrática.1. e a ciência. 67. 1957.38 4. tal como ensinou. 1957. 2000. 55. O ETERNO RETORNO. 55). História da Filosofia Ocidental.

39 O próprio Heráclito. para corroborar seu pensamento cita Nietzsche: “Uma filosofia experimental como eu vivo”. admitiu alguma coisa duradoura. no não. 2000. Também o pensamento de Donaldo Schüler na obra “Heráclito: e seu (dis) curso” de forma didática coloca a cosmogonia heraclitiana explicando-a como um ciclo onde a “. a terra coloca-se na base do ciclo que ela própria movimenta” (SCHÜLER. 92). Ela quer em vez disso.. berço e sepultura. A concepção de eternidade (oposta à de duração infinita). 2000. guia de conduta.. 2001. Recolhendo os opostos. que o logos é aquilo segundo o qual tudo acontece. apesar de tôda22 (?) a sua crença na transformação. ou no máximo dar-lhe um caráter heurístico. 54). Tomando o pensamento do eterno retorno como meio de purificação. através de tudo.71). Ele defende o que constitui uma concepção experimental e não uma teoria física ou empírica. (MARTON. segundo a qual ambos ensinam que o ser ‘é’ o ‘devir’” (HEIDEGGER. Aceito pela fé e não pela prova. Ensinado por Zaratustra a um grupo seleto. não se encontra em Heráclito. em uma vontade de não. No entanto. o Princípio imprincipiado e incondicionado que tem o poder de unificar tudo. 2001. Heráclito afirma. os comentadores que adotam essa linha interpretativa põem-se de acordo quanto a este ponto: o foco da doutrina nietzschiana reside nas questões existenciais e não nas científicas. é o pensamento que tudo dirige e. 2001. é e será um fogo de vida eterna” (RUSSELL..] antecipa experimentalmente até mesmo as possibilidades do niilismo radical. declara: [. para Heidegger é “. Por isso não se preocupam em discutir sua validade ou falsidade. O logos é a Razão Universal. exercício de introspecção. essa doutrina esotérica demandaria preparação prévia dos ouvintes. Assim. tudo governa.. mas em sua filosofia o fogo central jamais se extingue: o mundo “sempre foi. Os pré-socráticos.. 70. de relacionar e ligar todas as coisas umas às outras (SANTOS. 92. expressaria as implicações da afirmação trágica da vida face ao espectro temporal da experiência humana.. que provêm de Parmênides. prova de coragem. ou imperativo existencial. 1957. 39 . Marton. mesmo que a filosofia heraclitiana não seja mesma Nietzscheana ela tem profundas verossimilhanças e coisas comuns. preciso trazer os dois para o interior de uma outra combinação e em contrapartida à oposição que se tornou corrente a partir do próprio Nietzsche. Mario José dos. terra é origem e fim. de forma oracular. 204). Santos. atravessar até no 22 23 A grafia na obra é esta mesma. Por sua vez Mario José dos Santos23 em “Os Pré-Socráticos” explica: Na sua doutrina. o Uno. vida e morte. preferindo inscrevê-la no registro da fé. 112). sem querer dizer com isso que ela de distinga em uma negação. tampouco metafísica.

Nietzsche fornece um imperativo para a ação: o de querermos algo que retorne sem cessar. Mas. seria possível avançar ou recuar no tempo sem jamais encontrar um termo. Houve quem julgasse que Kant estendia a ação em latitude numa repetição ilimitada com reflexo na sociedade e que Nietzsche ampliava a ação. Por um lado. Nietzsche parte de duas idéias: a força é finita e o tempo é infinito. Kant coloca acima da circunstancias particulares e vantagens passageiras “a máxima” que o homem deve seguir nas suas ações. Houve quem defendesse haver semelhança profunda entre o eterno retorno e o imperativo categórico.as mesmas coisas. Para Kant é a razão. 72-75). a aparente proximidade entre a admoestação nietzschiana e o imperativo kantiano não tem pertinência. Nietzsche é incisivo: “a tarefa consiste em viver de tal maneira que devas desejar viver de novo – tu viveras de novo de qualquer modo!”. 2000. como agir. Por um lado. na tentativa de negar o mundo real estabelecendo a existência de outro foi destruidor da existência. Ao caracterizar a própria reflexão como experimental Nietzsche dispõem-se a explorar o que acredita estar por vir. a faculdade universal que comanda imperativamente e abriga a vontade. partindo deste momento. 2000. E conclui: Nietzsche “quer o eterno curso circular: . Kant espera subsumir os juízos acerca das ações individuais numa lei moral racional e Nietzsche quer apontar o caráter singular e irrecuperável de cada ação. sem desconto. os sentimentos e os impulsos que lhe impõe o que fazer. Para Marton. mas em longitude fazendo a repetição infinita. mas Nietzsche faz a ação depender de situações conjunturais e subordinar-se a interesses específicos.40 inverso – até um dionisíaco dizer-sim ao mundo. Mas não foram poucos os que tentaram aproximá-lo da filosofia prática de Kant. 2000. Embora não possa provar as premissas também não é possível contrariá-las. com reflexo no ser humano. a mesma lógica e ilógica do encadeamento” (NIETZSCHE in MARTON. o niilismo de sua época. Houve quem argumentasse que imperativo categórico e o eterno retorno exprimiam uma exigência ética: a dos indivíduos se submeterem todas as suas ações a uma norma. 71). 40 . Mas essas multiplicações teriam o mesmo fim: dar às ações seu verdadeiro peso e enfatizar a responsabilidade do homem. 71). tal como é. o tempo não teve início nem terá fim (MARTON. Ao expor a versão cosmológica de sua doutrina. nenhum deles diria ao homem o que fazer. Para ele a ruína do cristianismo. exceção e seleção (NIETZSCHE in MARTON. para Nietzsche são os pensamentos. a invenção da vida após a morte.

Ele entende que Vontade de Poder e pluralidade de forças são conceitos com valor cognitivo elaborado por uma perspectiva determinada. 76-78).41 Por outro lado tudo que existe é constituído por forças. Hall e Nordby24 mostraram que entropia é um conceito derivado da segunda lei da Termodinâmica em ciência da Física. a cada mudança segue-se outra. com isso concebe o mundo como pleno vir-a-ser. dispõem-se de outra maneira. Não há objetivos a atingir por isso não admite trégua nem termo. A concepção cosmológica de Nietzsche. sua doutrina do eterno retorno estão vinculadas à teoria das forças e ao conceito de Vontade de Poder. 41 . Ao conceber o mundo como campos de força instáveis em permanente tensão. mas na relação com outras. Como pluralidade de forças. 1993. é um efetivar-se agindo em outras forças. O mundo não é nada é senão. “Generalizando: a energia flui de um corpo mais forte para um mais fraco. até o limite. Introdução a Psicologia Junguiana. A partir daí Nietzsche propõem criticar a idéia de entropia e a partir da primeira lei da termodinâmica refutar a segunda lei (MARTON. Calvin S. esta aparece como explicitação do caráter da força. mas eterno. ela é desprovida de caráter teleológico. a cada estado sucede-se outro. pois à Vontade de Poder não se pode atribuir nenhuma intencionalidade. o filósofo acaba por ressaltar seu traço perspectivista. A força simplesmente efetiva. a todo instante estão em combate entre elas fazendo surgir novas formas e configurações. quando dois corpos de diferentes temperaturas colocados em contato ocorre de o calor – energia térmica – passar do mais quente para o mais frio até que a temperatura de ambos se iguale. vir-a-ser: o mundo não teve início nem terá fim. 58-59). Finito. A operação do principio da entropia tem como resultado um equilíbrio de forças” (HALL & NORBDBY. Não há finalidade. o mundo não se constitui no caos. Tradução de Heloysa de Lima Dantas. Elas relacionam-se diferentes. resistindo. mas privilegiada porque manifesta o perspectivismo do mundo. todas elas finitas. 58-59. Não houve momento inicial. nem se 24 Hall. & Nordbay Vernon J. 2000. exercendo quando pode. quando têm acesso um ao outro. irradiando Vontade de Poder. Como a teoria das forças descarta o atomismo moderno e faz opção pela energética e a doutrina do eterno retorno posiciona-se contra o mecanicismo e com a segunda lei da termodinâmica contrapõe-se a lei da entropia. e tudo o que já existiu tornará a existir porque o princípio da conservação da energia exige o eterno retorno. melhor. Das suas concepções cosmológicas Nietzsche não pode aceitar que o mundo chegue a um estado final. Para ele a força só existe no plural: não é em si. não é algo. 1993. mas um agir sobre.

estão todas interrelacionadas.42 confunde com um sistema. será outra vez março de 1991 da era cristã – e eu não me lembrarei de tê-las escrito antes. memória milenar e coletiva deveria ser depositária das experiências da humanidade. O que se repete é o que ocorre de fato – e não o que eventualmente poderia ocorrer. para Nietzsche na passagem de uma serie de acontecimentos a outro. mas comparado aos ciclos cósmicos. ninguém conte com a evolução ou progresso. quando no próximo ciclo. Conforme Nietzsche. mas também isso. o eterno retorno apresenta-se como “a mais extrema forma do niilismo” e “a mais alta forma de aquiescência que se pode atingir”. somos forçados a admitir que várias vezes já nos encontramos na situação em que nos achamos aqui e agora – e outras tantas mais haveremos de nos encontrar. Processo circular que não tem fim que se Põem como força por toda parte. mônadas. a história tentaria criar um mundo conhecido e estável. 82. 2000. Se aceitarmos o eterno retorno como concepção de mundo. os elementos em causa. 83). 84-86).25 O mundo é uma totalidade interconectada de “quanta” dinâmicos. átomos. Só permanece uno porque as forças. Se a memória procura preservar as experiências de uma vida. Com o eterno retorno Nietzsche desautoriza as filosofias que supõe uma teologia objetiva governando a existência. eu estiver de novo escrevendo estas palavras. diz Marton. desacredita das religiões que 25 Idem. O que resta é aprender a amar o nosso destino. ninguém espere sequer continuidade. é um processo – e não uma estrutura estável. 2000. Nada se mantém – muito menos a memória ou a consciência. ao mesmo tempo um e múltiplo acumulando-se e minguando em si próprio em eterna mudança recorrente com descomunais anos de retorno (MARTON. desabona as teorias científicas que presumem um estado final para o mundo. E mais: não há substância alguma que garanta sua coesão. como jogo de forças e ondas de força. Considerada ciência. 42 . A doutrina do eterno retorno afirma o eterno retorno do mesmo: assevera que este momento que estamos vivendo já se deu e voltará a dar-se um número infinito de vezes exatamente como se dá agora (MARTON. Mas entre os comentadores é unânime a convicção de que o pensamento do eterno retorno na dimensão cosmológica é contestável. segundo Marton. interrelações – e não partículas. a história. múltiplas. não põem em risco a cosmologia que o filósofo arquitetou enquanto um todo. 81 a 82. Mas não é nos limites estreitos da história que o eterno retorno tem lugar – e sim na infinitude do tempo. ninguém supunha alteração ou mudanças. o que a história representaria? Revestindo o caráter supra-histórico. Segundo Marton.

nem foi feito à imagem de Deus. com a travessia do niilismo e sua superação no amor “fati”. Vê. 29). Ele recusa a metafísica e o mundo supra-sensível. Aterrorizante. rejeita o mecanicismo e a entropia. Nietzsche vem conciliar os opostos. Para Nietzsche o homem não é a medida de todas as coisas. vem recusar que existam opostos – logo não aceita a dialética. Scarlett. é a vez de sua Vontade de Potência” e ainda sobre Vontade de Poder “onde encontrei vida. 1990. ao iniciar o capítulo propõe que foi em “Assim Falou Zaratustra” que Nietzsche introduz o conceito de Vontade de Poder ao conceder aos povos a sua necessidade e diferença: Uma tábua dos bens está suspensa sobre cada povo. 26 Scarlett Marton. O homem não é criação divina. ali encontrei Vontade de Potência. Suprimindo o dualismo entre mundo verdadeiro e mundo aparente Nietzsche julga que o homem é parte do mundo e nele se espelha o todo. 26 Marton. A Constituição Cosmológica: vontade de potência. Com a morte de deus e a afirmação dionisíaca do mundo. o eterno retorno aponta a falta de sentido de todas as coisas. acredita que o ser humano partilha o destino de todas as coisas. Para ela. 29. 43 . A CONCEPÇÃO COSMÓLOGICA E A VONTADE DE PODER. melhor ainda. 1990. um princípio negador do mundo é o monstruoso mau gosto da consciência. psicológicos e da vida social que serve como elo de ligação entre as reflexões pertinentes às ciências da natureza e às ciências do espírito. repele o cristianismo e a vida depois da morte. destronando o homem que deixa de ser um sujeito frente à realidade para tornar-se parte do mundo. descarta os mundos hipotéticos. O eterno retorno é mais que tese cosmológica porque quer queiramos ou não a vida retorna inúmeras vezes e não se limita a descrever o mundo. O eterno retorno é um projeto que acaba com a primazia da subjetividade. Negando a oposição entre ego e “factum”. alivia o peso da esperança vã. Para Marton o conceito de Vontade de Poder já serve como elemento explicativo dos fenômenos biológicos.2. o homem é contra o mundo.43 acenam punições e recompensas futuras. e até mesmo na vontade daquele que serve encontrei vontade de ser senhor (NIETZSCHE in MARTON. Homem e mundo não podem mais se opor e devem estar em harmonia. O eterno retorno: imperativo ético ou tese cosmológica? A questão perde o sentido. é a tábua de suas superações de si mesmo. vida e forças In “Nietzsche: das forças Cósmicas aos valores humanos”. vê. 4. É mais que um imperativo ético exortar que se viva como se esta vida retornasse inúmeras vezes.

1990. como em Nietzsche seria falso inferir o sujeito como monarca absoluto do corpo. a luta propicia que se estabeleçam hierarquias. a Vontade de Poder não pode ser limitada e há passagens em que Nietzsche recupera a idéia de conflito no interior do homem. é por exercer-se que torna a luta inevitável. 27 Para ela. a todo instante qualquer elemento pode predominar ou perecer. Vencedores e vencidos surgem necessariamente a cada momento porque nossa vida é ao mesmo tempo uma morte perpétua. Para Nietzsche a Vontade de Poder só pode manifestar-se em face da resistência que a Vontade de Poder se exerce. 32). como unidade do sujeito. 30. concebe a tese que a “vontade” como a psicologia a compreende. garantindo a permanência da mudança.44 Nietzsche caracteriza a Vontade de Poder como vontade orgânica quando em Zaratustra. Dominar é também suportar o ônus do mais fraco é uma continuação da luta e obedecer é também lutar. e a luta é de tal forma que não há pausa ou fins possíveis e Continua. Há a questão da sua multiplicidade. suas células. precisamente nos numerosos seres vivos microscópicos que constituem o organismo. 31. A chamada Teoria Psicológica negligencia a vontade de agir no homem e no ser em geral. 31). seres microscópicos que constituem sem cessar. e aponta seu caráter transitório. 44 . o vir a ser. tecidos. É com processos de dominação que a vida se confunde e é com Vontade de Poder que ela se identifica (MARTON. o desaparecimento e produção de novas células. 1990. é errôneo supor a existência de um sujeito responsável pelo querer. órgãos em animação e combate permanente. e sim – assim vos ensino – Vontade de Potência” (NIETZSCHE in MARTON. Compreende-se “a vida vive sempre às expensas de outra vida” (NIETZSCHE in MARTON. diz Marton. 30). as hierarquias. As hierarquias não são definitivas e mandar e obedecer é um prosseguir a luta. na superação de si. relaciona com a vida: “somente onde há vida. Mas em Marton. Com a organização hierárquica. Nietzsche vê o corpo como um edifício de múltiplas almas desqualificando a hipótese de um sujeito único. é uma generalização injustificada. há também vontade: mas não vontade de vida. mas não significando que se instalou a paz. É 27 Idem. uma pluralidade de adversários. uns se subordinam a outros e o sistema se torna coeso formando um todo. Essa vontade absolutamente não existe e em vez de apreender a transformação de uma vontade determinada em várias formas risca-se seu caráter e elimina-se seu conteúdo e direção. mesmo temporariamente. Assim. Nietzsche. E no limite. 1990. mas é em Zaratustra que o filósofo a explicita como se dá no nível fisiológico.

só pode fazer efeito sobre vontade” . Não há absolutamente nenhuma outra causalidade a não ser a vontade sobre a vontade” (NIETZSCHE in MARTON. Para Marton. É equivoco pensar 45 . 34). 35). a segunda – ainda presente atualmente. Nietzsche muda de opinião quanto à tese que opõe a Schopenhauer afirmando que a vontade se produz não apenas nos seres providos de intelecto. mas múltiplas. mas também em cada elemento do ser vivo. Nietzsche opera com três abordagens da vontade: a primeira – em tempos passados a vontade às vezes atribuída aos agentes sobrenaturais. Em todo prazer está incluída a dor. Para Nietzsche. cuja mesma excitação é interpretada como prazer ou desprazer. desordenadas e sem direção fazendo surgir uma “vontade fraca”. não agregadoras. mas também se afasta da concepção metafísica. existem pontuações de vontade que constantemente aumentam ou perdem potência (NIETZSCHE in MARTON. Em Gaia Ciência. 1990. e não mais declara que prazer e desprazer resultam de uma interpretação do intelecto. desprazer e vontade. 34). Um estímulo provavelmente sobre outros que se conjuga com disposição concordante e sobrepondo-se aos antagônicos.45 reducionismo quem descuida que a Vontade de Poder tem diversas direções e generaliza quem desconsidera sua ação nos elementos mais ínfimos do organismo. oscilantes. A multiplicidade e desagregação dos impulsos. naturalmente. Posteriormente. Para ela.Sentir uma excitação violenta como prazer ou desprazer é uma interpretação do intelecto que trabalha na maioria das vezes no inconsciente. O prazer nada mais é que excitação do sentimento de potência por um entrave de forma a aumentá-lo. Nietzsche pretende repensar o prazer e o desprazer. 1990. vem a coordená-los e impor direção clara e precisa acarreta uma “vontade forte”.e não sobre “matéria” (NIETZSCHE in MARTON. 3.apenas nos seres intelectuais existe prazer. a falta de sistema que os reúna resulta em “vontade fraca”. no parágrafo 127. sua coordenação sob o predomínio de um único impulso resulta em “vontade forte”. 2. Nietzsche se afasta da “Teoria Psicológica” da vontade. 1990. mas já é por si mesmas. não existe vontade. Ela refere que noutro texto Nietzsche retoma a idéia: “Vontade. Nietzsche se refere a vontades fortes e fracas: “obediência e mando: o corpo – a vontade mais forte dirige a mais fraca. a terceira – como um mecanismo a ser cuidadosamente observado. no homem do senso comum e tomada enquanto manifestação de forças abstratas. em luta. exercício da Vontade de Poder. e que o próprio pensar como se sentir acha-se misturados à vontade: agora prazer e desprazer não mais constituem representações. Marton explica que Nietzsche em oposição a Schopenhauer opera três teses: 1Para que a vontade surja é necessária uma representação do prazer ou desprazer.

na própria Vontade de Poder estão englobados os sentimentos e o pensar no limite. 48). As que mandam devem estar subordinadas. obedecer” (NIETZSCHE in MARTON. Não é a satisfação da vontade que causa prazer. com isso ele restringe a existência das forças do domínio orgânico. porque preservar o que conquistou constitui somente uma decorrência do seu exercício (MARTON. os tecidos e os órgãos. ela quer dominar tudo a sua volta.46 que os dois sentimentos se opõem. em “Gaia Ciência” retoma estas questões e a idéia de conflito entre elas desaparece. Em 1884. mas a força é desprovida do Caráter teleológico. mas nessa medida é forma primitiva de afeto de que todos os outros afetos são seu desenvolvimento (MARTON. 52). ligadas por um processo comum de alimentação. Marton escreve que para Nietzsche: “o homem é uma pluralidade de forças que se situam numa hierarquia.. Há uma concepção nova de Vontade de Poder: até aí ela se caracterizava como vontade inorgânica. agora aparece como força eficiente. são resultados do exercício da Vontade de Poder. A Vontade de Poder não busca simplesmente manter seus domínios. 42). Para Nietzsche. Começa a se delinear a concepção de vida onde a luta se impõe como fundamental. em caso sutis. portanto lutar (MARTON. 36-38). e onde pensamentos. ele afirma: “há uma pluralidade de forças. Em seguida Nietzsche retoma a idéia que o homem é multiplicidade de Vontade de Poder e que elas desencadeiam lutas permitindo que se estabeleçam hierarquias jamais definitivas. sentimentos. a luta é necessária e simplesmente não pode deixar de existir. impulsos estão em franco combate. eles são interligados e se complementam. quem geralmente manda deve. denominamos ‘vida’”. Prazer e desprazer são causas e não efeitos. Ganha terreno a idéia de conflito interior e a luta entre seus diversos impulsos manifestam-se até mesmo no pensamento. 47. mas também as células. temporariamente lhes é permitido mudar de papel. mas sim que a vontade queira prosseguir e continue a apoderar-se do que está em seu caminho. Traço fundamental da vida. E tudo se passa como introduzir o 46 . O instinto de conservação é apenas conseqüência da Vontade de Poder. 1990. por uma vez. a vida é mandar e obedecer. 1990. a vida é vista como possibilidades de “experimentação de conhecimento” e estes conflitos são encarados como aquilo que permite a manutenção da vida. e a Vontade de Poder nada mais é do que o próprio afeto de mando. Com a teoria das forças Nietzsche pretende resolver o que constitui um dos problemas centrais para a ciência da sua época. e a vida é agora subsumida no conceito de Vontade de Poder. que não pode deixar de querer mais potência. 1990.. 1990. Sobre o conflito entre conhecimento e vida.

Assim. 55). como um constatar de graus e de força. parece não poder definí-la. todo o movimento. aspectos que o conceito de Vontade de Poder 47 . não tem sentido dizer que força produz efeitos. Para Marton. A Vontade de Poder diz respeito ao efetivar-se da força. Mas em momento algum Nietzsche admite a existência de uma única força criadora de tudo que existe. Em outro texto de 1884.” (NIETZSCHE in MARTON. 1990. 55). ele evidencia a possibilidade de que Vontade de Poder deva estar presente também na matéria inorgânica apropriada. Com a teoria das forças Nietzsche é levado a ampliar o âmbito de atuação do conceito de Vontade de Poder e quando foi introduzido operava apenas no domínio orgânico e a partir de agora passa atuar em relação a tudo que existe. Para Marton. Quando trata do mundo sempre postula a existência de pluralidades de forças presentes em todas as partes. 1990. Aqui se encontra o Caráter pluralista de sua filosofia presente ao nível das “preocupações cosmológicas”. como um combate. se auto-superam e fazem surgir novas formas sendo. impulso de toda força a efetivar-se e com isso cria novas configurações em relação às demais. Deve-se entender que “toda força motora é Vontade de Poder que não existe fora dela nenhuma força física.. porque isso é equiparar com causa algo que não se confunde com ela. como a força não se ajusta a relação de causa e efeito. ou se presumir que ambas atuam sobre a matéria inorgânica. as pulsões cósmicas. portanto força plástica criadora. A força querendo vir a ser mais forte esbarra em outras que resistem. 1990. A força é um efetivar-se. A Vontade de Poder é.47 conceito de força e nada viesse alterar a caracterização da Vontade de Poder enquanto orgânica (NIETZSCHE in MARTON. Na verdade força e Vontade de Poder poderiam ser equivalentes e nada permite supor distinções entre elas. 55). então. Não é por acaso que sugere que “tudo ocorre. todo vir a ser.. Em 1885 Nietzsche afirma que a ligação entre o inorgânico e o orgânico repousa necessariamente na força repulsiva que cada átomo de força exerce um no outro. essa concepção traduz a opção de Nietzsche que faz da força uma energia e posicionando-se contra o mecanicismo e substituindo a hipóteses da matéria pela hipótese de força. na Vontade de Poder acham-se subsumidos dois outros conceitos. dinâmica ou psíquica” (NIETZSCHE in MARTON. apolíneas e dionisíacas. a Vontade de Poder não se enquadra nos parâmetros de causalidade. Mas que força? Na medida em que a força só existe enquanto efetivação. A todo o momento força e Vontade de Poder vencem resistências. é inevitável a luta por mais potência.

52-57). Para Marton. sua coesão não é garantida por substância alguma. além disso!”. Totalidade permanente. permanecendo uno porque suas forças múltiplas estão inter-relacionadas. não se acha submetido a um poder transcendental. não existem causas.48 recobre. inter-relações. 1990. mas “quanta” dinâmicos numa relação de tensão com os outros “quanta” dinâmicos. O mundo vive de si próprio. mas que nunca começou a vir a ser e nunca cessou de perecer. o mundo “não constitui um sistema”. geradora e destruidora de si mesma. Nietzsche concebe o mundo como eterno: ele subsiste e não é nada que vem a ser. é fenômeno universal e absoluto: “esse mundo é Vontade de Poder – e nada. O mundo é um processo e não uma estrutura estável com os elementos em causa. 48 . O conceito de Nietzsche constitui uma das principais rupturas em relação à tradição filosófica (NIETZSCHE in MARTON. Totalidade interconectada de “quanta” dinâmicos. O mundo não é governado por leis. de seus excrementos. não cumpre finalidades. não houve ponto inicial porque à Vontade de Poder não se pode atribuir intencionalidades ou conferir caráter teleológico. Nietzsche acredita que o mecanicismo não dá conta do que existe para explicar o mundo e quer juntar aos “quanta” uma qualidade de que todo acontecer à Vontade de Poder diz respeito ao efetivar-se da força. O caráter essencialmente dinâmico da força impede que ela não se exerça e seu querer vir-a-ser impede que ela cesse o combate: o mundo se apresenta como pleno vir a ser e a cada mudança se segue outra. de campos de força instáveis em permanente tensão. Para Nietzsche.

49 5. A CRISE DO PARADIGMA CIENTÍFICO. Essa crise é também irreversível. O aprofundamento do conhecimento permitiu ver a fragilidade dos pilares em que se funda. Um dos pensamentos mais profundos de Einstein é o da relatividade da simultaneidade. A primeira observação é que a identificação dos limites. Einstein distingue entre a simultaneidade de acontecimentos presentes no mesmo lugar e a simultaneidade de acontecimentos distantes. o problema lógico a resolver é o 49 . diz Santos. Boaventura Santos é um pensador que trata com muita propriedade sobre a crise de paradigma científico. em particular de acontecimentos separados por distâncias astronômicas. das insuficiências estruturais do paradigma científico moderno é o resultado do grande avanço no conhecimento que ele propiciou. Vivemos um período de revolução científica que se iniciou com Einstein e a mecânica quântica e não se sabe quando acabará. constitui o primeiro rombo no paradigma da ciência moderna. 5. Einstein.1. Em relação a estes últimos. São fortes os sinais de que o modelo moderno de racionalidade científica em alguns dos seus traços principais atravessa uma profunda crise. mas se pode afirmar que entrarão em colapso com as distinções básicas em que assenta o paradigma dominante contemporâneo. Os sinais nos permitem somente especular sobre o paradigma que emergirá deste período revolucionário. VONTADE DE PODER E PARADIGMA CIENTÍFICO.

como salienta Reichenbach. ao medir a velocidade numa direção única. o tempo e o espaço absolutos de Newton deixam de existir. do rigor do conhecimento que com base nelas se obtém. Porto . 2001. entre dois pontos. É. arbitrária e daí que. 1970. As leis da física e da geometria assentam em medições locais e o caráter local das medições. o que for feito para reduzir o erro de uma das medições aumenta o erro da outra. e. portanto. Symmetries and Reflections. vai inspirar o surgimento da segunda condição teórica da crise do paradigma dominante. 50 . Einstein rompe com este círculo. Um discurso sobre as Ciências. ou seja. p. Como ilustra Wigner. mas para medir a velocidade é necessário conhecer a simultaneidade dos acontecimentos. Scientific Essays. que não conhecemos do real senão a nossa intervenção está expressa no princípio da incerteza de Heisenberg: não se pode reduzir simultaneamente os erros da medição da velocidade e da posição das partículas. portanto. sem o alterar. Se Einstein relativizou o rigor das leis de Newton no domínio da astrofísica. portanto. demonstrando que a simultaneidade de acontecimentos distantes não pode ser verificada. e a tal ponto que o objeto que sai de um processo de medição não é o mesmo que lá entrou. quando fazemos medições não pode haver contradições nos resultados uma vez que estes nos devolverão a simultaneidade que nós introduzimos por definição no sistema de medição. p. Dois acontecimentos simultâneos num sistema de referência não são simultâneos noutro sistema de referência. 7. partindo do pressuposto. Wigner. University Press. Cambridge. que não há na natureza velocidade superior à da luz.Portugal: afrontamento. a mecânica quântica. “a medição da curvatura do espaço causada por uma partícula não pode ser levada a cabo sem criar novos campos que são bilhões de vezes maiores que o campo sob investigação”. pode tão-só ser definida. Heisenberg e Bohr demonstram que não é possível observar ou medir um objeto sem interferir nele. Por um lado.28 A idéia de que não conhecemos do real senão o que nele introduzimos. a demonstração da interferência estrutural do sujeito no objeto observado. sendo estruturalmente limitado o 28 E. Esta teoria veio revolucionar as nossas concepções de espaço e de tempo. apud Santos. Não havendo simultaneidade universal. Boaventura de Souza.50 seguinte: como é que o observador estabelece a ordem temporal de acontecimentos no espaço? Certamente por medições da velocidade da luz. 25. No entanto. Einstein defronta-se com um círculo vicioso: a fim de determinar a simultaneidade dos acontecimentos distantes é necessário conhecer a velocidade. que é fundamental à teoria de Einstein. tem implicações de vulto. Este princípio. a mecânica quântica fê-lo no domínio da microfísica.

51 rigor do nosso conhecimento. representa a potencialidade do sistema em ser atraído para um novo estado de menor entropia. A teoria das estruturas dissipativas e o princípio da “ordem através de flutuações” estabelecem que em sistemas abertos. a irreversibilidade e a evolução. só podemos aspirar a resultados aproximados e por isso as leis da física são apenas probabilísticas. tem vindo a problematizar criativamente estes temas e reconhece hoje que o rigor matemático. A quarta condição teórica da crise do paradigma newtoniano é constituída pelos avanços do conhecimento nos domínios da microfísica. se assenta num critério de seletividade e como tal. em vez da reversibilidade. a hipótese do determinismo mecanicista é inviabilizada uma vez que a totalidade do real não se reduz à soma das partes em que a dividimos para observar e medir. menciono as investigações do físico-químico Ilya Prigogine. A título de exemplo. ou seja. a criatividade e o acidente. da química e da biologia nos últimos vinte anos. uma concepção dificilmente comparável com a que herdamos da física clássica. em vez do mecanicismo. pressionam o sistema para além de um limite máximo de instabilidade e o conduzem a um novo estado macroscópico. ou seja. Em vez da eternidade. o ponto crítico em que a mínima flutuação de energia pode conduzir a um novo estado. desencadeiam reações que. a imprevisibilidade. Deste modo a irreversibilidade nos sistemas abertos significa que estes são produto da sua história. a distinção sujeito-objeto. a desordem. nunca são inteiramente previsíveis. A importância desta teoria está na nova concepção da matéria e da natureza que propõe. em sistemas que funcionam nas margens da estabilidade. em vez da necessidade. é muito mais complexa do que à primeira vista pode parecer. em vez da ordem. Por outro lado. A própria filosofia da matemática que incide sobre a experiência matemática. Se as leis da natureza fundamentam o seu rigor no rigor das formalizações matemáticas em que se expressam. a história. em vez do determinismo. para Boaventura de Souza Santos. a espontaneidade e a auto-organização. por via de mecanismos não lineares. as investigações de Gödel vêm demonstrar que o rigor da matemática carece de fundamento. a interpenetração. A situação de bifurcação. como qualquer outra forma de rigor. Esta transformação irreversível e termodinâmica é o resultado da interação de processos microscópicos segundo uma lógica de auto-organização numa situação de não-equilíbrio. tem um lado construtivo e um lado destrutivo. Por último. a evolução explica-se por flutuações de energia que em determinados momentos. 51 .

Nunca houve tantos cientistas-filósofos como atualmente. Ela faz parte de um movimento convergente. chegamos a finais do século XX possuídos pelo desejo quase desesperado de complementarmos o conhecimento das coisas com o conhecimento do conhecimento das coisas. melhor do que qualquer outra circunstância caracteriza exemplarmente a situação intelectual do tempo presente. Depois da euforia cientista do século XIX e da conseqüente aversão à reflexão filosófica. na sinergética de Haken. conforme se verifica na obra de Michael Peters29 traduzido para o português por Tomaz Tadeu da Silva. o bom cientista-filósofo dos séculos XX e XXI tem inspiração nietzschiana. na teoria de Prigogine. sobretudo a partir da última década. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. Mas. com o conhecimento de nós próprios. “Pós-estruturalismo e Filosofia da Diferença”. que Nietzsche combatia com muita força e a questão da Pós-modernidade. por cientistas que adquiriram uma competência e um interesse filosóficos para problematizar a sua prática científica. na teoria das catástrofes de Thom. para discutir sobre a crítica da razão. dedica uma delas. Pós-Estruturalismo e Filosofia da Diferença: Uma introdução. Tão certo quanto isto. Peters. que atravessa as várias ciências da natureza e até as ciências sociais. na sua teoria da Vontade de Poder. 52 . sobre o principio da identidade de Hegel. a importância maior desta teoria está em que ela não é um fenômeno isolado. no conceito de hiperciclo e na teoria da origem da vida de Eigen. na teoria da evolução de Jantsch. no conceito de autopoiesis de Maturana e Varela. bem simbolizada pelo positivismo. entre outras. uma reflexão de tal modo rica e diversificada que. e isso não se deve a uma evolução arbitrária do interesse intelectual. Michael. integralmente para Nietzsche. neste livro de duas partes. 29 Peters. Este movimento científico e as inovações teóricas definidas como condições teóricas da crise do paradigma dominante têm vindo a propiciar uma profunda reflexão epistemológica sobre o conhecimento científico. Esta reflexão apresenta duas faces sociológicas importantes: 1. 2000 pág. 47 a 84. um movimento de vocação transdisciplinar que Jantsch designa por paradigma da auto-organização e que tem aflorações.52 A teoria de Prigogine recupera inclusivamente conceitos aristotélicos tais como os conceitos de potencialidade e virtualidade que a revolução científica do século XVI parecia ter atirado definitivamente para o lixo da história. na teoria da “ordem implicada” de David Bohm ou na teoria da matriz-S de Geoffrey Chew e na filosofia do “bootstrap” que lhe subjaz. isto é. É certo que Nietzsche.A reflexão é levada a cabo predominantemente pelos próprios cientistas. já prenunciara essa interação da filosofia com a ciência sob pena da catástrofe. pujante.

A reflexão crítica tem incidido tanto no problema ontológico da causalidade: quais as características do nexo causal? Esse nexo existe na realidade? Como no problema metodológico da causalidade: quais os critérios de causalidade? Como reconhecer um nexo causal ou testar uma hipótese causal? O segundo tema de reflexão epistemológica versa mais sobre o conteúdo do conhecimento científico do que sobre a sua forma. por mais perfeito que seja. Qualquer observação efetuada sobre um sistema físico aumenta a entropia do sistema no laboratório. passou a ocupar papel de relevo na reflexão epistemológica. a experiência exata é irrealizável. Desta reflexão. A formulação das leis da natureza funda-se na idéia de que os fenômenos observados independem de tudo exceto de um conjunto razoavelmente pequeno de condições – as condições iniciais – cuja interferência é observada e medida.A segunda face desta reflexão é a que abrange questões que antes eram deixadas aos sociólogos. O questionamento da causalidade nos tempos modernos vem desde David Hume e do positivismo lógico. Nestes termos. ao afirmar a personalidade do cientista. o conhecimento científico moderno é um conhecimento desencantado e triste que transforma a natureza num autômato. ao caracterizar os fenômenos. ao objetivar os fenômenos. uma forma de rigor que. a precisão é limitada porque. aproximativo e provisório. O rendimento de uma dada experiência deve assim ser definido pela relação entre a informação obtida e o aumento concomitante da entropia. antes acantonada no campo separado e estanque da sociologia da ciência. se é verdade que o conhecimento só 53 . esse rendimento é sempre inferior à unidade e só em casos raros é próximo dela. destrói a personalidade da natureza. Sendo um conhecimento mínimo que fecha as portas a muitos outros saberes sobre o mundo. é um rigor que quantifica e que.53 2. num interlocutor terrivelmente estúpido. expresso no princípio da falsificabilidade de Popper. os objetualiza e os degrada. os caricaturiza. dos modelos organizacionais da investigação científica. Esta idéia obriga a separações grosseiras entre os fenômenos. porque fundado no rigor matemático. pois que exigiria um dispêndio infinito de atividades humanas. um rigor que. Por último. como diz Prigogine. É. O rigor científico. separações que são sempre provisórias e precárias uma vez que a verificação da não interferência de certos fatores é sempre produto de um conhecimento imperfeito. As leis têm assim um caráter probabilístico. são questionados o conceito de lei e o conceito de causalidade que lhe está associado. ou. ao quantificar. A própria precisão quantitativa do conhecimento é estruturalmente limitada. em suma e finalmente. que. desqualifica. A análise das condições sociais. segundo Brillouin. Ora. dos contextos culturais.

2001. Mesmo assim. Kuhn em sua obra “A Estrutura Das Revoluções Científicas”. coincidência não é identidade e as descobertas isoladas não foram responsáveis pelas alterações de paradigmas. 54 . A teoria ondulatória que substituiu a newtoniana foi anunciada em meio a uma preocupação cada vez maior com as anomalias presentes na relação entre a teoria de Newton e os efeitos de polarização e refração. A crise do paradigma da ciência moderna se explica por condições teóricas e por condições sociais (BOAVENTURA SANTOS. Contudo as descobertas não são as únicas fontes dessas mudanças construtivas . 5-58). As grandes descobertas conforme mencionado por Boaventura Santos contribuíram para mudanças do paradigma moderno. Com assimilação das descobertas os cientistas começaram a se dar conta que podiam explicar um número muito maior de fenômenos. A evidência histórica é totalmente inequívoca. Ao nos ocuparmos da emergência de novas teorias inevitavelmente ampliaremos nossa compreensão da natureza das descobertas. seja um pré-requisito para todas as mudanças de teoria aceitáveis. Esse assunto também foi tema de pesquisa de outro grande pensador: Thomas S. Se a consciência da anomalia desempenha papel na emergência de novos tipos de fenômenos. o efeito fotoelétrico e a radiação de um corpo negro. não se deveria surpreender com o fato de que uma consciência semelhante. são constituídos por anéis que se entrecruzam em teias complexas com os restantes objetos. A astronomia ptolomaica estava em situação escandalosa antes de Copérnico. A termodinâmica nasceu da colisão de duas teorias físicas existentes no século XIX e a Mecânica Quântica de diversas dificuldades que rodeavam os calores específicos.desconstrutivas de paradigmas. Os fatos observados têm vindo a escapar ao regime de isolamento prisional a que a ciência os sujeita. A teoria de Newton sobre a luz e a cor originou-se da descoberta de que nenhuma das teorias pré-paradigmáticas existentes explicava o comprimento do espectro.54 sabe avançar pela via da progressiva parcelização do objeto é exatamente por essa via que melhor confirma a irredutibilidade das totalidades orgânicas ou inorgânicas às partes que as constituem. Os objetos têm fronteiras cada vez menos definidas. mas tal avanço só foi possível a medida que algumas crenças e valores antes aceitos foram sendo descartados sendo substituídos pelos novos. mais profunda. a tal ponto que os objetos em si são menos reais que as relações entre eles. As contribuições de Galileu no estudo do movimento estão relacionados com as dificuldades descobertas na teoria aristotélica pelos críticos escolásticos.

E o fracasso das regras existentes é o prelúdio para a busca de novas regras. O resultado foi uma proliferação de teorias que eram concomitantes com as crises e foi neste contexto histórico que. A emergência de novas teorias é geralmente precedida por um período de insegurança profissional pronunciada porque exige a destruição em larga escala de paradigmas e grandes alterações nos problemas e técnicas da ciência normal.C. a astronomia ptolomaica ainda hoje é usada para cálculos aproximados porque no que concerne aos planetas ela era tão boa quanto às predições da de Copérnico. Durante o século XVIII respostas que eram consideradas adequadas ao problema do aumento de peso tornam-se difíceis de ser sustentadas. no final do século XIX. a consciência da anomalia persistia por tanto tempo e penetrara tão profundamente na comunidade científica que é possível descrever os campos por ela afetados como em estado de crise crescente. Essa insegurança é gerada pelo fracasso constante da ciência normal em produzir resultados esperados em problemas que se eternizavam. em 1905. Um segundo exemplo foi a crise que precedeu a emergência da teoria de Lavoisier sobre a combustão do oxigênio e sua preocupação com o aumento de peso de certos materiais quando aquecidos. que Nietzsche sempre foi um crítico desta concepção moderna do espaço e do mecanicismo. Um caso muito conhecido de mudança de paradigma foi quando do surgimento da astronomia copernicana. exceto no período pré-paradigmático do desenvolvimento de sua ciência e em ocasiões especiais de sua evolução. foi bem sucedido na predição da mudança de posição das estrelas e planetas. Os químicos descobriram um número cada vez maior de casos nos quais o aumento de peso acompanhava o aquecimento. o sistema precedente que era o ptolomaico. exceto o de Newton. a 200 d. Tão bem sucedida. emergiu a teoria especial da relatividade de Einstein. Diga-se de passagem. Diversos estudiosos da Filosofia da Natureza e especialmente Leibniz criticavam Newton por manter a versão clássica do espaço absoluto. Mas é essa invenção de alternativas que os cientistas empreendem.C. Um terceiro exemplo se refere à crise na Física e o fim do século XIX que acaba abrindo caminho para a teoria da relatividade. Quando de sua elaboração no período 200 a.55 Em todos os casos. Quando os instrumentos proporcionados por um paradigma são capazes de resolver os problemas que 55 . Estudiosos da Filosofia da Ciência demonstraram que mais de uma construção pode ser aplicada a um conjunto de dados determinados.. A história da ciência indica que nos primeiros estágios de desenvolvimento de um novo paradigma não é fácil inventar tais alternativas. qualquer que seja o caso considerado.

ela é um impulso cósmico que supera o ser humano.56 este define. a ciência move-se com maior rapidez e aprofunda-se ainda mais na utilização confiante desses instrumentos. Podemos entender que a realidade não depende do ser humano. Nietzsche vai mais longe em suas especulações: ele quer compreender o “dado” como que pertencendo a categoria de realidade de nosso próprio objeto como forma primitiva de mundo dos afetos onde existe numa unidade poderosa tudo que posteriormente se ramifica e desenvolve. secreção e metabolismo. Ao supor que não possamos descer ou ascender a nenhuma “realidade” que não seja nossos instintos. no processo orgânico como uma espécie de vida dos instintos na qual estão resumidas todos as funções orgânicas como a auto-regulação. a assimilação. a moral do método da qual o homem não deve subtrair-se como se fosse um cálculo matemático. então pensar é uma interrelação desses instintos. Ao supor que nada nos é “dado” como real a não ser no mundo dos desejos e paixões. 2001. Na manufatura como na ciência a produção de novos instrumentos é uma extravagância reservada para ocasiões que o exigem. até ao absurdo a tentativa de nos contentar com um só. Os instintos para Nietzsche são de uma relevância enorme porque são alguns dos pressupostos da vontade. A moral do método é não admitir os diversos tipos de causalidades enquanto não se tenha levado até o seu limite extremo. As crises significam que é chegada a hora de renovar os instrumentos (KUHN. alimentação. Quando vai a procura da compreensão do mundo material deixa uma indagação: se com esse “dado” é possível compreender o mundo mecanicista ou material. Contudo. Daí decorre a importância de Nietzsche quando trata sobre o pensar? Ele faz uma suposição. do mesmo modo como se enfraquece. 93-105). A questão do 56 . devemos retomar Nietzsche para podermos compreender melhor como a categoria da Vontade de Poder poderá nos dar luzes sobre as questões ainda não resolvidas pela ciência moderna e que poderão ser alcançadas dentro de um conceito de ciência pósmoderna. porque a Vontade de Poder também não depende dele.

plurais em movimento incessante que tornam suas perspectivas infinitas. Em resumo se deve arriscar sobre as hipóteses onde se reconhecem “efeitos”. Todo componente corporal quer intensificar-se. Nietzsche concebe uma cosmologia. células. predominar sobre aquilo que o circunda. tornar-se mais forte. tecidos. Uma vontade atua sobre outra vontade como todo processo mecânico desde que nele atue uma força. uma idéia de Vontade de Poder. não absoluta porque não é uma mônada. nem sobre o “nervo”. passando a indicar apenas formas específicas de efetivação das potências corporais. é precisamente a força de vontade. funções. Nietzsche expõe aquilo que mais nos interessa no momento. Nietzsche coloca todas as formas de vida sob os auspícios do dinamismo potencial. Não há 57 . 2002. inequívoca que conseguisse explicar a vida instintiva como é a elaboração e ramificação de uma força básica da vontade. É a existência da natureza. aparelhos. Átomos. é o efeito da vontade. entendido como “Selbst”. como ponto de confluência supressiva da dicotomia cartesiana “res cogitans/res extensa”. No final do § 36. que o jogo de potências dispares alcança seu grau maior de refinamento e complexidade. perdem seu estatuto de estruturas descritivas eficazes. força que pudesse reconduzir todas as funções orgânicas a essa Vontade de Poder e nela encontrasse também a solução para o problema de geração e nutrição. Esta indica que há forças finitas. em acreditarmos na causalidade da vontade. Em Nietzsche a “vontade” só pode atuar sobre a vontade. é o eterno retorno. subjugar tudo que ainda não estiver sob seu domínio. órgãos.57 método. Ao se acreditar nisso deve-se então fazer a tentativa de postular hipoteticamente. Neste ponto de nossos estudos averiguamos o caráter contemporâneo e atual da explicação de Alberto Marcos Onate sobre Vontade de Poder que considera todo o corpo vivo enquanto Vontade de Poder encarnada. § 36). a cosmologia nietzscheana. para Nietzsche em última instância reside em reconhecer a vontade como ativa. a causalidade da vontade como única (NIETZSCHE. é na esfera do corpo humano. Cada mínima parcela do corpo quer superar-se. não pode atuar sobre a matéria. Contudo. autotransgredir seu nível potencial. Nessa idéia de Vontade de Poder pretende mostrar que toda força atuante.

1997. A “Vontade de Verdade” como Experimento é ponto de partida para Giacoia31. Em nosso entender a expressão “Vontade de Poder” tem mais acesso a outros conceitos nietzscheanos podendo estender seu sentido para a melhor compreensão do todo desta monografia. mais problemática de todos as perguntas. por que seu sentido mais amplo pode abranger a expressão vontade de potência. A Vontade de Verdade como Experimento. ou sua falta de profundidade e rigor. que me conduzir por caminhos não inofensivos. Para Além do Bem e do Mal.. Giacoia afirma que para Nietzsche. o mundo definido e designado conforme o seu ‘caráter inteligível’ – Seria justamente ‘Vontade de Poder’. batalhas circunscritas.. a amostra dos erros e preconceitos dos filósofos.58 nenhuma zona de armistício: mesmo lá onde parece reinar a concórdia. há uma crítica à filosofia. 127. não foi suficientemente radical. um olhar mais arguto revelará sutis desníveis potenciais. o mais longamente diante da pergunta pelas causas ocultas dessa exigência. (NIETZSCHE in GIACOIA: 1997..30 Por tudo isto neste trabalho optar-se-á pela expressão Vontade de Poder. inábeis e canhestros dos conquistadores e jamais suspeitavam que a incondicional vontade que impulsiona o saber pudesse ela mesma constituir problema. uma relação de subordinação entre os mais fortes e os mais fracos. no primeiro capítulo “Dos Preconceitos dos filósofos”. um dogmatismo inconsciente que Nietzsche elabora em “Bem e Mal”. Seria “. p.. E nesta perspectiva crítica da filosofia como dogmatismo que Giacoia pretende inserir a análise do aforismo inaugural de “Para Além do Bem e do Mal”. vontade que determina por antecipação o modo de ser e de se desenvolver de todo empreendimento levado a efeito com o propósito de “descobrir a verdade”. O mundo visto de dentro. para Giacoia. 58 . Contudo em cada organismo há uma hierarquia. pois jamais se formulou como problema crítico à questão da Vontade de Verdade. coloca-me na boca a mesma. 30 31 Nietzsche. interessada na verdade. Giacoia Junior. Nisso repousa. e nada mais”.. Alea jacta est – a “Vontade de Verdade”. A crítica do conhecimento. microoposições dissimuladas (ONATE. problemáticas perguntas!. A Vontade de Verdade.129). 2002. 2000. Friedrich. 128. Osvaldo. No primeiro aforismo de “Para Além do Bem e do Mal”. 98). Detive-me. os filósofos teriam se conduzido como ingênuos.. detive-me na pergunta pelo valor dessa exigência. In Labirintos da Alma: Nietzsche e a auto-supressão da moral. mas por último. 66.). que ainda me seduzirá a alguma ousadia – quantas curiosas perguntas já colocou diante de mim (que malignas.

Ou ainda. 132). e permanecer-se sob o comando da esfinge. que petrifica os erros da razão na linguagem. Esta inconsciente economia doméstica do intelecto. em que conforme Nietzsche nenhuma questão até agora foi respondida satisfatoriamente.59 Essa Vontade de Verdade. absoluto: e tudo será sacrificado no altar da verdade (GIACOIA. 129 a 131). 1997. ser dirigido. “inverdade”. passando com esse movimento ao plano de ação. aprender a formular uma questão diferente das até aqui enunciadas (GIACOIA. fora da Vontade de Verdade que. Nesse reflexo determina-se como aprender a perguntar. o valor da verdade é como o incondicionado. incondicional. a história dos dogmatismos e seus questionamentos duram tanto quanto a história do pensamento ocidental. A se voltar sobre si mesma. Para Giacoia. ou engano? E posto que exigimos a verdade a qualquer preço. que o resultado do movimento de voltar-se sobre si mesma é empreendido pela Vontade de Verdade e se consuma de modo a desconstituir o valor da verdade. a Vontade de Verdade se abre para outra questão: pergunta-se agora pelo valor da veracidade. fixam o pensamento as margens de cognoscibilidade. etc. porque queremos “verdade”. Aprender a perguntar significa retornar contra si mesmo a Vontade de Verdade que conduziu até aqui a filosofia. E sempre ha um sub-rogado das categorias lógico-gramaticais que se dirige à pergunta remetendo a essência ou substância. que coloca na boca dos filósofos as perguntas que eles se formulam é para Nietzsche denominada veracidade. ao invés da posição passiva de ser perguntado. É precioso que aprendemos com a esfinge a perguntar e nós mesmos formular as questões. É a história da filosofia. Somos nós que perguntamos e com isso invertemos as posições. Diz Giacoia. até aqui havia sido a esfinge que coloca na boca as perguntas que formulamos. É porque queremos conhecer a verdade sobre a Vontade de Verdade e sua origem que nos 59 . O fundamento a partir do que se originou a questão do valor continua sendo a veracidade ou Vontade de Verdade e ainda é ela que nos induz a tal ousadia. os trilhos em que se é constrangido a se mover. A questão da causa dessa vontade permanece nas melhores das possibilidades do pensamento. Porém. 1997. impulsionava e sustentou o questionamento dos filósofos em busca da verdade. pensamos aqui poder discordar em parte de Nietzsche ao dizer que “algumas perguntas não foram respondidas” satisfatoriamente. asfixiada nas categorias lógico-gramaticais. Que questões colocam esta Vontade de Verdade? Essa é uma velha história.

ousado? Como problema a Vontade de Verdade mostra-se vinculada a condições e interesses de conservação e crescimento que implicam o contrário da exigência incondicionada. Se a veracidade não dispõe mais de critérios para distinguir verdade e inverdade. pois a pergunta pelo valor propicia a perspectiva da origem.60 colocamos diante da questão do valor da veracidade. a verdade não subsiste como inconcluso fundamento. Giacoia entende o fundamento a partir da qual se originou a questão do valor e continua sendo a veracidade. Se for a Vontade de Verdade que se coloca como fundamento quando se pergunta pelo valor e pela origem da veracidade. 133-135). e proba. Para ser veraz. Ao final desse experimento a verdade aparece como problema: o problema da veracidade aparece como se tivesse sido colocado. nesse sentido. Nietzsche quem coloca a Vontade de Verdade como problemática ao perguntar sobre o valor da veracidade. Na experiência de identificação entre “verdade” e “não verdade”. como o contrário de si mesma. ou Vontade de Verdade. como exigência incondicional de verdade irremissivelmente comprometida com condições ou perspectivas de valor. a Vontade de Verdade é compelida a reconhecer a “verdade” sobre a sua origem e projetá-la além de si mesma. do valor absoluto do verdadeiro. limiar em que se confundem Édipo e a esfinge a Vontade de Verdade cai no vácuo do fundamento. o risco que se corre com a questão é a desconstituição da base do fundamento em que até aqui se apoiava o perguntar. e aparece evanescente caindo num abismo de indiferenciação que confunde Édipo e a esfinge. para que então construir. no desvanecimento de sua origem. e foi a própria Vontade de Verdade que se colocou diante de Nietzsche como questão engendrada e explicitada cuja lógica e dinâmica formam a história da metafísica (GIACOIA. mas é a pergunta pelo valor que possibilita a perspectiva da origem. e a origem incondicional da Vontade de Verdade revela-se inverídica. como ponto de vista das condições de formação é transformação desses centros vitais complexos. fazer ou 60 . Mas é. e se não é em função da verdade que podemos perguntar. tal ousadia é porque queremos conhecer a verdade sobre a Vontade de Verdade e sua origem porque nos colocamos diante da questão do valor da veracidade. 1997. O resultado do experimento como Vontade de Verdade não é obtenção de uma “verdadeira veracidade” que o elevando a um nível superior de desenvolvimento consistiria na desconstituição. O resultado expressa-se como auto-superação da Vontade de Verdade num movimento que a impele além dela mesma.

136-138). Ferreira Santos. segundo Mario: À vontade de Potência. 1997. Vontade de Potência. Publicação de Elizabeth Förster-Nietzsche. título restrito que tem permitido a muitos. 199[?]). Como escreve Mario é comum quando se fazem referência à obra de Nietzsche traduzir-se “Der Wille Zur Macht” como Vontade de Poder.61 deixar existir o conhecimento? Para Giacoia falta a resposta. São Paulo. uma justificação. Nietzsche pretende superar o ceticismo. então não estamos autorizados a perguntar se Nietzsche em “Para Além do Bem e do Mal” ficou encerrado na posição de contra-discurso reconsiderando ao não sustentar nenhuma opinião? Mas esse não é o principal resultado desse esconderijo em forma de enigma? Não revelou ele ser indigno de um filósofo a pretensão de sustentar opiniões autênticas e definitivas? (GIACOIA. ou seria “Vontade de Poder?”. Mario Ferreira dos Santos32 utiliza o termo Vontade de Potência na obra editada por Elizabeth Förster-Nietzsche de autoria atribuída por ela a Nietzsche. como tem dado. 64) destacando que a tradução de Vontade de Poder é demasiadamente estreita e dá lugar a equívoco. Friedrich. Se o experimento com a Vontade de Verdade não conduz a uma verdade depurada e superior em que a inquietação filosófica pudesse encontrar refúgio. Ocorre uma discussão interessante do conceito de Vontade de Poder atribuída a Nietzsche que se trata sobre a denominação “Vontade de Potência”. Ferreira Santos que elaborou o prefácio da obra Vontade de Potência. Tradução de Mario D. Mário D. 61 . A idéia que Mario faz sobre Vontade de Potência ele escreve no referido prefácio (SANTOS in NIETZSCHE. 16). O assunto provoca discussões na academia e por isso de imediato colocamos o pensamento de um dos tradutores de Nietzsche. Desacreditado e superado todo o dogmatismo insustentável diante das exigências intelectuais não se pode refugiar-se no ceticismo forma desencontrada do dogmatismo enfraquecido. A tradução literal de “Der Wille Zur Macht” deveria ser. concluir que o nietzscheismo é simplesmente uma metafísica da violência. Ediouro: [199?]. que não leram a obra. Os tradutores franceses como Henrri 32 Estudos extraídos do prefácio da obra: Nietzsche. Contudo há a interpretação como “Vontade de Poder” que Scarlett Marton refere no prefácio da obra “Vontade de Poder” do próprio Wolfgang Müller-Lauter. num movimento de auto-superação da Vontade de Verdade. sob o título “A terceira Margem da Interpretação” na obra “A Doutrina da Vontade de Poder em Nietzsche” (MARTON in Müller-Lauter. que se satisfaz com a inverdade. por isso. 1997. pois “zur” é dativo. Impõe-se.

no corpo da obra. conhecedor de contradições e posições antípodas. poderio. Em seu prólogo. traduz “La Voluntad de Potencia”. compreendê-lo. [199?]. tanto quanto talvez de maior brilho ainda. tradutor das obras de Nietzsche. mesmo a categoria de Vontade de Poder em Nietzsche com detalhes esclarecedores. Vontade de Potência. o prólogo de Mario Ferreira dos Santos não perde o brilho de sua interpretação mesmo que Scarlett Marton ponha uma forte crítica sobre a autoria de Vontade de Potência. De Gaos. traduziu-a por “La Voluntad de Domínio”. Entretanto. no seu prólogo “A terceira Margem da Interpretação” em Vontade de Poder em Nietzsche. Muito bem escrito. 62 . é a interpretação de Scarlett Marton. de Müller-Lauter. “Obras Completas” publicada em novembro de 1901. um dos melhores tradutores do alemão para a língua espanhola. O prólogo de Mario Ferreira apresenta uma riqueza de conceito que adquire grande importância talvez maior que a própria obra. À medida que foi sendo reconhecido penetra na Filosofia com uma característica muito própria. Santos é um filósofo que deu impulso ao existencialismo origem de novas escolas filosóficas. mesmo que em nosso presente trabalho preferíssemos a expressão “Vontade de Poder”. enriquecendo. poder. Ele preferia ser somente ele e suas idéias que o refletem nessa fidelidade. potência. É preciso ‘ruminá-lo’. Ao mesmo tempo Nietzsche foi pessimista e otimista. Os italianos por “La Voluntà di Potenza” e não “La Voluntà di Poder” e Angeles H. E nunca é demais repetir: É preciso ter algo de Nietzsche”. 33 33 Segundo Mario Ferreira dos Santos a tradução se fez sobre a obra publicada na primeira edição das Nietzsche. Até a época de Nietzsche só era filósofo quem construísse um sistema bem ordenado e organizado com uma resposta para cada pergunta. desde que se desconsidere a mazela sobre a melhor nominação. nem sempre traduziu a palavra “Macht” por domínio. de acordo com Mario F. Nietzsche. preferindo algumas vezes. Friedrich. p. Eduardo Ovejero y Maury. Nietzsche sem contradições não se trata de Nietzsche porque em Nietzsche negar suas antípodas era negar a sua existência e o próprio homem. por sua vez. o pensamento de Nietzsche não é sistematizado porque quem passou uma vida com as mesmas idéias e perspectivas ano após ano torturou suas tendências e impulsos além de si mesmo. cético e crente. na parte reservada a Vontade de Potência Mario inicia com uma advertência: “Ler Nietzsche não é passar os olhos pelas páginas de seus livros. sentí-lo. 64-65. místico e sensualista. No entanto Nietzsche nunca sistematizou nada porque ele próprio acusava os sistemas em Filosofia. Para Mario.62 Albert traduzem por “La volunte de Puissance” e não por “La Volonté de Pouvoir”.

inclusive quando se opõe a si mesma e quando a força se opõe à força sem a qual não podia exercer-se (LEFEBVRE. uma força não existe mais que em sua tensão momentânea. É uma Expressão que concretiza o 63 . a doutrina atômica em seu conceito de energia é uma afirmação dessa Vontade de Potência no universo. não existe o “eu”. O impulso de mais seria o da vida. símbolo de um impulso de vida. A Vontade de Potência é um impulso e o destino de buscar sua contradição. mas uma existência uma e idêntica ante o nada que ameaça. nem verdade. A Vontade de Potência descreve o ser disperso no cosmos em centros de forças disseminadas conscientes e concentrado no espírito. vencendo a fatalidade e o aniquilamento. É vontade de mais. A Vontade de Potência é vontade de durar. É uma concepção trágico-dialética. nem consciência psicológica e moral. é onde o humilde quer ser estimado. mas também vontade de ultrapassar. segundo Mario. é por todas as partes idênticas. A Vontade de Potência é somente um esforço para triunfar do nada. Não é somente a luta da vontade de preservar no ser. O nitzscheismo não é só uma metafísica da violência. O instante é inteiro o que é inteiro. 63). nem objeto. o impulso de menos é o impulso de morte. Santos. o da potência. um de mais e outro de menos. de aniquilamento. A potência ao mesmo tempo é fenômeno e substância. vontade de posse total da existência e de si mesmo. não essência oculta ou coisa em si. a que dirige a evolução orgânica. vontade de ser e consciência. crescer. escreve Mario. 59). diz Mario F. Nietzsche não concebia a Vontade de Potência como objetivação. (Nietzsche. Nietzsche reduz todas as funções fundamentais orgânicas à Vontade de Potência. Em um nível superior a Vontade de Potência se torna generosidade. há uma tentativa de unificação. a expressão Vontade de Potência é simbólica porque Nietzsche não queria afirmar que no todo há luta entre dois impulsos. estender e intensificar a vida. Nietzsche determina-a como a mais forte de todos os instintos. o instinto de conservação. uma luta do ser contra o não ser.63 Em Vontade de Potência. a catástrofe trágica. porque para ele a “Vontade de Potência” não é somente vontade de dominar. de degeneração. e a morte. e por inteiro o que é: é potência. A Vontade de Potência de Nietzsche é um símbolo. Nietzsche chama de “Vontade de Potência” ao conjunto das manifestações energéticas da existência natural e espiritual à atividade multiforme. Em Lefebvre. [199?]: 62. Assim. de vencer. mas nada existe de substancial. o fraco quer ser forte. Ela gera a luta criando o possível além do atual obedecendo a um apelo possível. Aceitando-se uma concepção mecanicista de mundo a Vontade de Potência seria aceita como o móvel do inorgânico. de passividade.

[199?]. sim. que é de sentido reduzido. Na seqüência ele corrobora seu pensar dando como fundamento paralelo ao seu o de W. Nietzsche usa um termo somente: “Wille zur Macht?” Que significa “Vontade de Poder”. esse impulso interior da força que gera o movimento. Müller-Lauter concebe que Nietzsche interpreta a Vontade de Poder como um princípio fundante da metafísica onde são as várias Vontades de Poder concretas como manifestações de um princípio voluntário determinante de toda efetividade: “Nas interpretações de Nietzsche predomina a concepção segundo a qual Vontade de Poder deve ser entendida como o fundante metafísico” (MÜLLER-LAUTER. para ele. a força. definidora do acontecer universal que se manifesta em formas infinitas (NIETZSCHE. é de se entender que ao contrário da afirmação de Mário. para Mario. A Vontade de Potência seria uma concepção maior e mais cósmica se adaptando perfeitamente às diversas acepções usadas por Nietzsche. A Vontade de Potência é um nome humano dado ao acontecer universal como movimento.64 impulso vital. a expressão símbolo. Além disso. Vontade de Poder é. Nele não existe nada fora do todo e o todo é a Vontade de Potência. Para Mario Nietzsche usava Vontade de Poder entre parênteses ou ainda grifada quando queria empregá-la no sentido estreito de poder. também a Vontade de Poder. Não se trata do poder que se impõe pela força. como uma espécie da Vontade de Potência. dos físicos que criaram Deus e o mundo. e é por isso que Mario o traduz por Vontade de Potência. 65). também ao desejo insaciável de mostrar potência e vontade. já que Vontade de Poder. é a Vontade de Potência que é uma espécie do gênero Vontade de Poder. mas sim da força psíquica de uma alma forte que não quer senão alimentar sua própria força. Daí então preferimos a expressão Vontade de Poder. 70). Mas há. fundamentado em si 64 . não ocorrendo o mesmo com a expressão: Vontade de Poder. idéia esta que não é de se aceitar como criticaremos a seguir. é um conceito muito estreito de significados que dá uma causa para equívocos. 1997. Weischedel: Mesmo quando nos recusamos a conceber a Vontade de Poder como “inequívoca” vontade metafísica. no sentido de Schopenhauer – isto é. como um “princípio substancial de efetividade. 64. como faculdade física. potência e existência. Mas é de se discordar de Mário. Mario atribui à Vontade de Potência. ocorre exatamente o contrário do que afirma Mário.

não é verdadeiro. para Nietzsche o “múltiplo” se deixa com certeza compreender a partir do “um”. Quando Nietzsche escreve sobre o mundo ele já serve a Vontade de Poder e nada mais. além disso. A Vontade de Poder como um e múltiplo é como o mundo. Para Müller-Lauter. pensa. 74. determinante de toda efetividade” (WEISCHEDEL in MÜLLER-LAUTHER. “com efeito. “tudo que é simples é meramente imaginário. Sendo um. 1997. estabelecer uma ligação com aquilo que foi exposto por ocasião da “segunda prova” de Schlechta. Jaspers considera que Nietzsche substancializa o autêntico ser como Vontade de Poder. então ganha voz de tal modo em meio a esse querer superar o mais extremo enredar-se da Metafísica no impróprio do niilismo que esse enredar-se se fecha para a sua própria essência e assim transpõe o niilismo em forma de superação do niilismo para o efetivo da sua inessência desprendida. nem é redutível a um”. no múltiplo organizado. Müller-Lauter faz a mesma indagação que Nietzsche: o que quer dizer. O que é verdadeiro. Entretanto Müller-Lauter deseja desenvolver este entendimento de Vontade de Poder. Na questão sobre a unidade. Já Heidegger parte da unicidade da Vontade de Poder que se mantém e se supera a si mesma. não diferente de como uma comunidade humana é unidade (NIETZSCHE in MÜLLER-LAUTER. então. Mas. sob esse aspecto. todas as doutrinas do um”. 265. isso vai forçar Müller-Lauter a pensar também o “um” da Vontade de Poder: Só uma multiplicidade pode ser organizada em unidade. Trata-se. Posso. 1997). 70. 1997. Mas este pensar na verdade tem origem em Martin Heidegger na obra “Nietzsche – Metafísica e Niilismo” quando chega a seguinte conclusão: Contudo. no interior de uma efetividade sem transcendência no mundo da “pura imanência”. 2000). de “quanta de poder”. Também o um é para Nietzsche de modo algum “o simples”. então. unidade para Nietzsche? Nietzsche responde: Toda unidade só é unidade como organização e concerto (Zusammenspiel). se. pois. mas pensa a Vontade de Poder enquanto o princípio de uma nova avaliação além de entender e assumir essa nova avaliação como a superação do niilismo. é Vontade de Poder.65 mesmo”. nem é um. Conforme Müller-Lauter. (HEIDEGGER. 70). 71). este é múltiplo. se a metafísica Nietzschiana não interpreta apenas o ser enquanto um valor a partir do ente no sentido da Vontade de Poder. finalmente. o único mundo não é nada mais que Vontade de Poder. 65 . – ainda assim pode-se persistir em que Nietzsche. as várias Vontades de Poder concretas como manifestações de um princípio unitário. como teológico é metafisicamente recusado por Zaratustra que diz “ser má. Então se proíbe qualquer concepção que a efetividade não seja considerada como unidade metafisicamente fundada (MÜLLERLAUTER.

então a Vontade de Poder. não como pluralidade de “mônadas” indivisíveis. mas nossa consciência superior se mantém fechada aos outros. Por essa consciência a formação de domínio que sou se dá a entender para si mesma como um: pelo simplificar e esclarecer. portanto falsificar. Mas se essas aglomerações de quanta de poder ininterruptamente aumentam e diminuem então se pode falar de “unidades continuamente mutáveis”. Mas esse quantum só é contraposição de quanta. só podemos falar em unidade no sentido de organização.66 A Vontade de Poder é multiplicidade das forças em combate umas com as outras. 1997). 7680). porque a unidade de formações do domínio em que está inserida é uma multiplicidade de quanta de força que não tem nenhum ser. o mundo é uma firme brônzea grandeza de força. 74. há que se perguntar em que sentido não há ser? Para Nietzsche “ser” é uma ficção vazia e com isso acredita poder se reportar a Heráclito e aos Eleatas. A consciência do intelecto serve como meio com o qual eu “me engano”. Conforme Müller-Lauter. para Nietzsche o “um” não é. 1997. e ele está convicto que ela engana (MÜLLER-LAUTER. ou que de dois se tornassem um. Nietzsche fala o mundo como jogo e contra-jogo de forças ou de Vontade de Poder. mas não de “unidade” porque este é apenas organização. Todavia o significar é de essência mais originária do que o falar que é maneira de expressar do “querer-poder”. Também da força. E ainda. Nietzsche tem em vista multiplicidades fáticas de Vontades de Poder que significam um sentido de simplicidade ou estabilidade também formações complexas incessantes e mutantes em que ocorrem contraposições de quanta de força em várias graduações (MÜLLER-LAUTER. sim. Em Nietzsche não somos uma multiplicidade que se imaginou unidade. O múltiplo dos quantas de poder não pode ser entendido como pluralidade de dados últimos quantitativamente irredutíveis. Haverá contradição em Nietzsche? Se a linguagem é dentro da razão. A mim mesmo: há uma porção de consciência e de vontade em todo complicado ser orgânico. A linguagem simula unidades. e. no sentido de Nietzsche. Todavia a “linguagemrazão” é para Nietzsche “uma velha senhora mentirosa”. Com efeito. sob a ascendência da Vontade de Poder dominante. Na verdade. Deslocamentos de poder no interior de organizações instáveis permitiam que de um “quantum de poder” adviessem dois. 1997. assim é possível o aparente ato de vontade. (MÜLLER-LAUTER. a unidade é uma organização como organização. Nietzsche emprega o singular em tripla significação: 66 . 73-75). ele forma “um quantum de força”.

Para Nietzsche todos os fins. mas um efetivo de sua efetividade. A Vontade de Poder pode ser entendida como um fundamento do mundo. a única qualidade já é dada em tais quantitativos particularidades. não como sujeito ou quase sujeito. ao contrário. Se ele escreve “a Vontade de Poder” ou “Vontade de Poder” com certeza ele pensa sempre a única qualidade. sem isso não poderia ser qualidade. Mas elas já são “falsas” em razão de sua universalidade. 2) Na segunda significação do “modo de expressão no singular” a Vontade de Poder é única qualidade do efetivo. Em Nietzsche. são maneiras de expressão e metamorfoses de uma vontade inerente ao acontecer à Vontade de Poder. O todo é designado com o nome de “Vontade de Poder”. metas. desconsiderando os casos nas quais com designação “a Vontade de Poder” ele destaca uma Vontade de Poder em sua constituição particular. além disso. 1997. Nietzsche exprime que a Vontade de Poder é a única qualidade que se deixa encontrar (MÜLLER-LAUTER. Quando Nietzsche fala de Vontade de Poder como qualidade única então ele não usa o artigo. ou se efetiva como humanidade.67 1) A primeira designação de Vontade de Poder é relacionada à totalidade do efetivo: o mundo é Vontade de Poder e nada. 67 . diz Müller-Lauter. nesse caso é manifestação do homem como Vontade de Poder e significa. não só essência da efetividade. 3) A terceira significação que o singular adquire em Nietzsche é uma Vontade de Poder como particular Vontade de Poder distinto de outra. 1997. Em “Ensaios de uma Transvaloração de todos os Valores” Nietzsche mostra as maneiras de se entender a Vontade de Poder. mas apenas quando o universal é atribuído “existência”. as configurações e determinações universais não são falsas apenas na medida em que nelas conteúdos particulares são reunidos em unidades. 84-88. 90). Nietzsche pode empregar o singular em vista de determinações universais com as quais as multiplicidades são reunidas em âmbito ou adquirem significação de algum outro modo abrangente. 81). ou é exteriorizada como arte. sentidos. Esse universal é apenas fumaça porque a realidade consiste a cada vez no particular jogo-total de ações e reações operado no interior de complexas formações de centros de força (MÜLLER-LAUTER. e que o mais profundo instinto permaneceu desconhecido e oculto que seguiu seu mandamento porque somos esse mandamento. que produz vida. Toda Vontade de Poder é dependente de sua posição a outra Vontade de Poder para ser Vontade de Poder. Tornar visível essa essência é a tarefa de uma “morfologia” da Vontade de Poder. a qualidade não existe por si. Para ele.

a uma Vontade de Poder cabe a efetiva unidade apenas como concerto na oposição à outra Vontade de Poder. o mundo seria um e múltiplo (MÜLLER-LAUTER. além disso. de todo modo organizados em unidade. Vontade de Poder também poderia ser uno e múltiplo. jogo de posição e concertos de muitas Vontades de Poder. 92-93 e 95-96). 1997. Aquilo que Nietzsche denominou uma Vontade de Poder é de fato. a Vontade de Poder é uma determinação essencial. O resultado das reflexões é que existe uma multiplicidade de Vontades de Poder. o mundo seria Vontade de Poder e nada mais. E aquela vontade está inserida na contraposição e concerto de uma Vontade de Poder mais abrangente. conclui com Nietzsche.68 Falar de uma Vontade de Poder que se submete a outra é uma simplificação. 68 . MüllerLauter. partindo de duas afirmações: o mundo seria um múltiplo. Então.

os loucos. A genealogia da própria história se esboça em vários momentos num sentido 69 . garantia de manutenção das lembranças. 2000. 2000. De forma poética e didática ela explica sobre a origem da memória e da Deusa Clio: [. dizem os historiadores é a deusa Clio guardiã da memória. a mãe Memória é a geratriz das artes. Só a deusa Clio poderá “conjurar a quimera da origem”. num vai e vem constante. O pastor de memória era o encarregado de repassar os conhecimentos históricos de seu povo para seu sucessor e este realiza a união entre o fato e a sua representação mantendo vivo o passado do seu grupo. o interior da palavra memória guarda uma deusa: Mnêmesis. A história. 19). sendo. ou seja. Segundo Hesíodo. O que anuncia a história efetiva? Ela é anunciadora e monitoradora do corpo e perscrutadora da decadência e outros afazeres diversificados e importantes por isso a história não pode se limitar a continuar sendo serva da filosofia e da narração da verdade e do valor. a deusa protetora da justiça e da vingança. Loraine Slomp GIRON. no artigo “Da Memória Nasce a História” escreve que nos povos préhistóricos e povos ágrafos a memória tem papel de suma importância porque é depositária do passado.. da mesma forma como o psicólogo pode conjurar a sombra da alma. Filha da Memória e de Zeus. É importante salientar que os loucos vivem sem o tempo das suas alucinações que não são os da memória. muitos menos.. Memória nasce dos amores do Céu (Cronos) e da Terra (Gea). a terra da liberdade completa. Da ligação entre Zeus e Mnêmesis. nem a História. É a memória que realiza a ligação entre o mundo real de Gea e o mundo da representação de Cronos. Para os gregos. É sumariamente necessário reconhecer que a história anda aos saltos e trancos. têm memória coletiva porque para a loucura a história não existe (GIRON. Por outro lado. a loucura não tem passado nem memória. A genealogia é uma forma muito especial da história. Clio tem seu berço no cume do poder terrestre e na representação do passado.69 6. CONCLUSÃO. Sem memória não haveria as artes. a primeira delas (GIRON. 1999. para os povos que possuem escrita a memória perde muito do seu significado. 24). porém. a deusa Memória (Mnêmesis) é a “rainha das colinas de Eleutera”. e não em linha reta como equivocadamente trabalham alguns historiadores. senhor do poder do Olimpo.] sob o ponto de vista histórico. (FOUCAULT. ao mesmo tempo. Da união nascem ainda as nove musas. 23). nasce Clio (a História). Foucault entende que o genealogista deve superar seus limites através da história.

a quem devemos estar subordinados e rendermo-nos totalmente. sendo um inimigo natural de toda saúde. mas o historiador é insensível às emoções e por profissão terá o prazer da descoberta mesmo que esta lhe venha contrariar seus desejos. 70 . a divisão e a contradição. no fundo resistência a todos os direitos porque com a igualdade ninguém precisa de “direitos”. Os socialistas agrupados numa resistência tenaz a toda pretensão individual. moral: de senhores e de escravos e se preocupa com anarquistas e socialistas. 147). formador de rebanhos. Ele chega a ter traços do seu pensar com Thomas Carlyle neste cruzamento. instintivamente são contra toda forma de sociedade que não seja o rebanho autônomo. ambos possuem um começo impuro e de mistura. genealogia. ensina com mestria: O sacerdote ascético. É por isso que a investigação histórica de qualquer ciência desnudará as mentiras e verdades de sua evolução. 238 e 294). aos ideólogos revolucionários pacíficos. negando os conceitos de “senhor” e “servo”. Nietzsche. como Vânia Dutra de Azeredo. a genealogia das origens mostra a moral do senhor e a moral dos escravos. Mas é muito antes da moral dos escravos que se inicia uma luta entre senhores. por exemplo” (NIETZSCHE.70 histórico à história dos historiadores. Ele lutará de todas as formas para semear a dor. Em sua filosofia Nietzsche passa pela história. cuja vontade sobrepõe-se sobre as nossas. Assemelha-se ao pensamento de Thomas CARLYLE (1795 – 1881). mas é só. 2002. e sem maior oposição a certos filósofos e entusiastas do socialismo que querem a “sociedade livre” mas na realidade. o homem superior. Napoleão é o primeiro e verdadeiro Democrata (CARLYLE. § 97. historiador e publicista quando este chega à última forma do heroísmo que pertence à realeza. o seu mundo desconhecido para ser conhecido. os aristocratas nobres e os aristocratas sacerdotes. 122). diz uma fórmula socialista. Nem Deus. aquele que traz um bem-estar para a humanidade como um super-homem. Para Carlyle. Saindo da própria história e entrando na história da moral. ambições e amores ou seu ódio. Nietzsche critica Carlyle a quem chama de uma “loquacidade por íntimo deleite com ruído e desordem das emoções: em Carlyle. defende-os dos sãos e da inveja que aqueles inspiram. O herói é o condutor de homens. nem mestre. 1964. Para ele acima destes está a moral dos nobres. a fim de se apoderar de novos súditos (NIETZSCHE in AZEREDO. 2000. Para ele os anarquistas estão sempre em oposição aos democratas. direito particular ou privilégio. Mas Nietzsche não se preocupa somente com a moral de sacerdotes ou de escravos.

mas com relação ao senhor. o próprio escravo almeja a inversão.71 Nietzsche ataca freqüentemente a moral cristã. na incapacidade quase feminina de poder presenciar. a bestialização do homem dos direitos iguais e reinvidicação igualitária porque certamente ninguém é igual. O escravo utilizando-se do ideal nega a imposição do senhor para conseguir uma aparente afirmação de si mesmo. com isso. a remissão das culpas do passado. a crença em “si”. de subjugação. Mas. o negativo. A imagem do escravo passa a ser invertida porque faz da afirmação uma negação. Não há escravo que não almeje ser senhor. Nietzsche vê a vingança dos sacerdotes como imaginária. a consolação do presente. desvios ou tentações. censurando o homem forte como proscrito. como se esta fosse a própria moral. Senhor e escravo se constituem a partir da relação entre forças diferentes. expressão de dominação. A aparência neste escrito é de que compara sacerdotes com mulheres e homossexuais. E critica violentamente essa degenerescência e amesquinhamento do homem que vai até o perfeito animal de rebanho. Isso se verifica na noção das forças e Vontade de Poder. de poder fazer sofrer. Para ele é possível. E assim sendo. porque se dá mediante a transmutação dos valores. ele destila o mal. enfim unidos na crença da comunidade como salvadora do rebanho. o cume alcançado. e por isso deseja a transmutação dos valores. O cristianismo corrompe a faculdade das naturezas intelectualmente poderosas ao ensinar que os valores superiores do intelecto não passam de pecados. O cristianismo toma partido do fraco. Nietzsche se considera como aquele que ergue o 71 . porque permite ao leitor ver um preconceito contra mulheres e homossexuais. a esperança do futuro. Com isso Nietzsche ataca com força a moral sacerdotal a que considera um tipo decadente na sua busca de destruição da moral dos senhores e que força o homem ao seguir os seus princípios degenerados. O cristianismo ataca e renega os instintos fundamentais do homem superior. Ali ataca os sacerdotes que unidos no grito e impaciência da compaixão. as forças fazem do senhor. Em sua mente só a transmutação dos valores o tornará senhor. Nietzsche sabe que a degeneração total do homem é aquilo que é considerado pelos socialistas como “homem do futuro”. Nietzsche ataca o cristianismo porque ele trava uma guerra de morte contra este homem superior. em que uma é dominante e outra dominada. Como dizem os socialistas até ao homem da “sociedade livre”. unidos na sua fé moral da compaixão comunitária. no ódio ao sofrimento. e do escravo. do incapaz e transforma em ideal a oposição aos instintos de conservação da vida saudável. Sem descontarmos o contexto e a época em que vive Nietzsche é escandalosa esta colocação.

sinistra.. mas não necessariamente da vinculação do pensamento Nietzscheano ao nacional-socialismo. diz Nietzsche.. Por outro lado. e em 1930 tem ascensão o nazismo ao poder. E todos os instintos que não podem se descarregar para fora. Aqui fica clara a posição de Nietzsche com relação ao nazismo. São exatamente trinta anos depois da morte de Nietzsche quando as suas obras já podiam ser publicadas sem necessidades de autorização familiar ou direito autoral. Para ele a moral superior é a moral do nobre. discordamos porque em nossas buscas nas obras mencionadas verificamos que Nietzsche pretendia fundamentar e provar teoricamente o eterno retorno. 72 . largura e altura na mesma medida em que o homem foi inibido em sua descarga para fora. vai contra todos os instintos do homem. Para Marton. Conforme ela. e nessa impotência o ódio toma proporção. Theodor Fritsch viveu de 1852 a 1933 e era destacado expoente do anti-semitismo de seu tempo. e voltam-se para dentro. (NIETZSCHE in MONTINARI. Nojo! Nojo! Nojo!. espiritual e venenosa. 55). Não existe na Alemanha um grupo mais cínico e cretino do que estes antisemitas. Este canalha ousa pronunciar o nome de Zaratustra. Um nobre tem reverência para com seus inimigos porque não suporta um inimigo que não pode desprezar e ao mesmo tempo tenha de venerar. O mundo interior no início fraco se expande e se estende em profundidade. numa interiorização do homem de tal forma que cresce a sua alma. o pensamento nietzscheano não pode ser desvinculado da doutrina do “Eterno Retorno”. os sacerdotes são os maiores inimigos da guerra porque são os mais impotentes. Porém uma nota esclarecedora se encontrou entre suas cartas póstumas. Ele entende essa corrupção como a decadência de todos os valores nos quais a humanidade deposita seus anseios e valores. como sinal de agradecimento. Nietzsche faleceu em 1900. Nietzsche não admite qualquer fundamento teórico a respeito. Eu lhes desferi. A moral cristã. Então. No entanto. 1999.72 pano da corrupção e decadência dos homens. Ela diz: Há algum tempo um certo Theodor Fritsch de Leipzig me escreveu. Nietzsche entende que por suas fraquezas. É essa a luta de Nietzsche contra a moral cristã. Por sua posição filosófica alguns autores consideram Nietzsche irracionalista. é uma época proliferadora das obras Nietzscheanas que coincide com a ascensão de Hitler e do nazismo ao poder. um belo pontapé como carta. tornando-se “deputado nacional socialista” e a qual Nietzsche responde para que ele pare de remeter-lhe o “Antisemitische Correpondez”. e outros se aproveitam de sua filosofia deturpando-a e tomando-a também como Nazista.

que adotam essa linha interpretativa. O eterno retorno é amedrontador. a doutrina não pode ser provada. Segundo ela. põem-se de acordo quanto a este ponto: o foco da doutrina nietzschiana reside nas questões existenciais – e não nas científicas (MARTON. guia de conduta ou “imperativo existencial”. mas também não pode ser desmentida.73 Daí que se ele abandona essa tentativa e recorre ao princípio de autoridade. É. Tu viverás de novo de qualquer maneira. alivia o peso da esperança vã com a morte de Deus e a afirmação dionisíaca do mundo. prova de coragem. Por outro lado. descarta os mundos hipotéticos. é para alguns. A versão cosmológica de Nietzsche parte de duas idéias principais: que a força é finita e o tempo é infinito. também não é possível contrariá-las. já que cada sofrimento também se repetirá. que tanto combatia. Nietzsche vem conciliar os opostos. 73). os comentadores. 2000. quem explica é a própria Scarlett Marton: Tomando o pensamento do eterno retorno como meio de purificação. pois um imperativo existencial para a ação. No entanto a doutrina do Eterno Retorno adquire sentido real e teórico quando torna possível a sua superação pelo “amor fati”. Suprime o dualismo entre mundo verdadeiro e mundo aparente julga que o homem é parte 73 . conforme Marton isso seria em Nietzsche uma autocontradição. por isso o “Eterno Retorno” também teria fundamento teórico. Mas o imperativo existencial é apenas um modo como o eterno retorno pode ser visto não se tratando de coisa diferente. um niilismo que aponta a falta de sentido de todas as coisas. 71). 2000. com a travessia do niilismo. vem recusar que existam opostos e com isso descarta a Dialética. melhor ainda. Mas Marton não abre mão de que a doutrina do eterno retorno funciona pelo princípio de autoridade. Em outra passagem MARTON coloca: Houve quem argumentasse que tanto imperativo categórico quanto o eterno retorno exprimiam uma exigência ética: a de o individuo submeter todas as suas ações a uma norma. Entendemos que Nietzsche nunca foi dogmático ou autoritário e ao contrário sempre criticou o principio de autoridade. Só queremos que algo bom retorne sem cessar e para isso deve-se viver bem. Com isso. Embora não se possa provar as premissas. se no Eterno Retorno a tarefa consiste em viver de tal maneira que devas desejar viver de novo. porém. não sendo somente isso. exercício de introspecção. porque como crítico negava o princípio de autoridade como base de uma doutrina. Eles não pregariam um tipo de comportamento determinado nem imporiam um estilo de vida específico (MARTON.

Por exemplo. Adquire forma de teoria porque. Assim o homem “não é a medida de todas as coisas”. para Wolfgang Müller-Lauter34 já dizia que Vontade de Poder não é um caso especial do querer ou uma vontade “em si”. podemos agora adentrar sobre os conhecimentos do princípio da “Vontade de Poder”. na infinitude do tempo. porque ele próprio já nos ensinou isso. 74 . é mais do que uma tese cosmológica. o homem é contra o mundo. esta vida retorna inúmeras vezes não se limita a descrever o mundo. Marton citando Nietzsche. ninguém supunha alteração ou mudança no status vindouro. é o monstruoso mau gosto da consciência. Ela não existe factualmente e por isso todo querer é. acredita que o ser humano partilha o destino de todas as coisas. Sustentar que. Por outro lado. a vida retorna inúmeras vezes e não se limita apenas a descrever o mundo. para outros. (MARTON. O homem não é criação divina. O eterno retorno é mais que tese cosmológica. princípio negador do mundo. Negando a oposição entre ego e factum. é mais do que um imperativo ético. queiramos ou não. O que é isso. nem foi feito à imagem de Deus. Vontade de Poder? Agora que buscamos auxílio no pensamento nietzscheano já se pode trabalhar com nossas próprias idéias apoiada nas dele. ou “como” tal uma abstração. Enfim. Nada se mantém. é exortar que se viva como se esta vida retornasse inúmeras vezes. ninguém espere sequer continuidade. 93). Marton destaca com propriedade: O eterno retorno: tese cosmológica ou imperativo ético? A questão deixa de ter sentido. Homem e mundo não podem mais se opor e devem estar em harmonia sob pena da morte do homem. é sim. quer queiramos ou não. Daí as questões: o eterno retorno: tese cosmológica? Imperativo ético? As questões perdem o sentido. onde a história é pouco mais que o nada. Assim.74 do mundo e nele se espelha o todo. e também os outros autores. Então o eterno retorno é muito mais que imperativo ético. não é nos limites estreitos e curtos da história que o eterno retorno tem lugar. Vontade de Poder. ainda é Scarlett Marton quem dá o golpe final decidindo em definitivo a questão sobre o eterno retorno: “O eterno retorno é parte constitutiva de um projeto que acaba com a primazia da subjetividade. na passagem de uma série de acontecimentos a outro. ninguém deverá contar com a evolução ou progresso. um 34 Ver capítulo “A interpretação da Vontade de Poder como Princípio Metafísico” neste texto. Destronado. No entanto. o homem deixa de ser um sujeito frente aa realidade para tornar-se parte do mundo”. 2000. Para uns Vontade de Potência. menos ainda a memória ou a consciência. Exortar a que se vida como se esta vida retornasse inúmeras vezes não se restringe a advertir sobre a conduta humana. citando Nietzsche.

mas um “agir sobre”. Nietzsche compreendeu tão bem a idéia que chega a argumentar contra ela. mas privilegiada porque manifesta o perspectivismo do mundo. 1997. 78. dispõem-se de outra maneira. Todos os dados são conhecidos: finitas são as forças. até o limite. A concepção cosmológica de Nietzsche. a todo instante estão em combate entre elas fazendo surgir novas formas e configurações. todas elas finitas. Ao perceber o mundo como campos de força instáveis em permanente tensão. Se o número dos estados porque passa o mundo é finito e se o tempo é infinito todos os estados que hão de ocorrer no futuro já ocorreram no passado. o filósofo acaba por ressaltar seu traço perspectivista. Não há finalidade. 2000. melhor. Ele entende que Vontade de Poder e pluralidade de forças são conceitos com valor cognitivos. Sobre o conceito de entropia já discutimos no capitulo cinco. Com a teoria das forças descarta o atomismo moderno e faz opção pela energética como a doutrina do 35 Marton. Elas relacionam-se diferentes. Resulta que “o princípio da conservação da energia exige o eterno retorno” (MARTON. não é algo. 78). Conforme sua nota de rodapé na pág. Scarlett. Para ele a força só existe no plural: não é em si. ela é desprovida de caráter teleológico. elaborados por uma perspectiva determinada. Vontade de Poder procura dominar e alargar incessantemente seu âmbito de poder. finito é o número de combinações entre elas. é o que Marton conclui dos fragmentos póstumos e escreve: Finito. Daí se segue que tudo já existiu e tudo tornará a existir. 75 . mas o mundo é eterno. onde a totalidade da energia cósmica está continuamente perdendo-se em calor. exercendo quando pode. é um efetivar-se agindo em outras forças. 54). irradiando Vontade de Potência.35 O entendimento de Nietzsche de fato é questionável porque tem amparo contra a teoria de Clausius baseada na perda de calor do corpo terrestre. e justamente a partir da primeira lei da termodinâmica espera refutar a segunda lei. mas eterno: é o quanto basta para formular a doutrina do eterno retorno. Das suas concepções cosmológicas Nietzsche não pode aceitar que o mundo chegue a um estado final. sua doutrina do eterno retorno estão vinculadas à teoria das forças e ao conceito de Vontade de Potência. Não há objetivos a atingir e por isso não admite trégua nem termo. Por outro lado tudo que existe é constituído por forças. mas na relação com outras. essencial em todo querer é: poder. Alargamento de poder se perfaz em processos de dominação (MÜLLER-LAUTER. esse algo-posto. de sorte que o universo tende para um estado de equilíbrio termonuclear ou a um estado final. Marton explica que Nietzsche conheceu os rudimentos do conceito de entropia de Clausius. esta aparece como explicitação do caráter da força. É a partir desse principio que Nietzsche se propõe a criticar a idéia de entropia.75 querer-algo. A força simplesmente efetiva. resistindo. Extravagâncias: Ensaios sobre a filosofia de Nietzsche.

o dogmatismo é insustentável diante das 76 . a cada mudança segue-se outra. com isso concebe o mundo como pleno vir-a-ser. O resultado da experiência se expressa como auto-superação da Vontade de Verdade num movimento que impele além dela mesma. ele nunca começou a vir-a-ser. impulso de toda força a efetivar-se e com isso cria novas configurações em relação às demais. vir-a-ser: o mundo não teve início nem terá fim. A cosmologia nietzscheana indica que há forças finitas. o mundo não se constitui no caos. sendo. Como pluralidade de forças.76 eterno retorno posiciona-se contra o mecanicismo e com a segunda lei da termodinâmica contrapõe-se a lei da entropia. as pulsões cósmicas. ele não é um vir-a-ser. aspectos que o conceito de Vontade de Poder recobre. Nada é senão. portanto força plástica criadora. subsiste. pois à Vontade de Poder não se pode atribuir nenhuma intencionalidade. a cada estado sucede-se outro. A “vontade” só pode atuar sobre outra vontade. Uma vontade atua sobre outra vontade como todo processo mecânico desde que nele atue uma força. plurais em movimento incessante que tornam suas perspectivas infinitas. e se não é em função da verdade que podemos perguntar. Na Vontade de Poder acham-se subsumidos dois outros conceitos. é precisamente a força de vontade. Vontade de Poder é. O caráter essencialmente dinâmico da força impede que ela não se exerça e seu querer vir-a-ser impede que ela cesse o combate: o mundo se apresenta como pleno vir a ser e a cada mudança se segue outra. Se a veracidade não dispõe mais de critérios para distinguir verdade e inverdade. no desvanecimento de sua origem. nem sobre o “nervo”. se auto-superam e fazem surgir novas formas de força e potência. nem se confunde com um sistema. não é nada que vem a ser. O resultado de uma experiência como Vontade de Verdade não é a obtenção de uma “verdadeira veracidade” que se elevando a um nível superior de desenvolvimento que consistiria na desconstituição. nunca cessou de perecer. e ao mesmo tempo. A força é um efetivar-se. apolíneas e dionisíacas. para que então o conhecimento? Desacreditado e superado. Mas em momento algum ocorre só a existência de uma única força criadora de tudo que existe. não absoluta porque é o eterno retorno. é o efeito da vontade. não pode atuar sobre a matéria. A todo o momento força e Vontade de Poder vencem resistências. essa concepção faz da força uma energia e posicionando-se contra o mecanicismo e substituindo a hipóteses da matéria pela hipótese de força. É a existência da natureza. O mundo é eterno. Não houve momento inicial. então.

aqui não se usa o artigo. A Vontade de Poder. poderá também ser aceita como o móvel do inorgânico. Nietzsche querendo e almejando a liberdade de escrita e de idéias fugindo da angústia de toda e qualquer construção de um sistema conceitual nos deixa esse legado que se chama Vontade de Poder. Toda Vontade de Poder é dependente de sua posição a outra Vontade de Poder para ser Vontade de Poder. o que vier depois provavelmente será plágio. de degeneração. Vontade de Poder é de fato jogo de posição e concerto de muitas Vontades de Poder. o da potência. Pode-se. sob a ascendência da Vontade de Poder dominante. o mundo seria Vontade de Poder e nada mais. Falar-se de uma Vontade de Poder que se submete a outra é uma simplificação. mas também há formações complexas incessantes e mutantes em que ocorrem contraposições de quanta de força em várias graduações. Essas aglomerações de quanta de poder ininterruptamente aumentam e diminuem e então se pode falar de “unidades continuamente mutáveis”. o mundo então seria um e múltiplo. de aniquilamento. entre outras formas. Então. empregar o singular em vista das determinações universais com as quais as multiplicidades estão reunidas em âmbito ou adquirirem significação de algum outro modo abrangente. Aqui se fala do mundo como jogo e contra-jogo de forças ou de Vontade de Poder. de passividade. Na segunda significação do “modo de expressão no singular” a Vontade de Poder é a única qualidade do efetivo. O impulso de mais seria o da vida. Mesmo que a autoria de “Vontade de Potência” não seja atribuída a Nietzsche. Toda fundamentação teórica com base em Vontade de 77 . além disso. Há multiplicidades fáticas de Vontades de Poder que significam um sentido de simplicidade ou estabilidade. Vontade de Poder também poderia ser uno e múltiplo. mas não de “unidade” porque esta é apenas organização. a expressão Vontade de Poder é simbólica porque não se quer apenas afirmar que no todo haja luta entre dois impulsos.77 exigências intelectuais não se pode refugiar-se no ceticismo forma desencontrada do dogmatismo enfraquecido. de todo modo organizados em unidade. um de mais e outro de menos. o certo é que “o conceito é de Nietzsche”. O resultado dessas reflexões é que existe uma multiplicidade na Vontade de Poder. então. Não é isso. logo. Concluindo: partindo-se de duas afirmações em Nietzsche. a Vontade de Poder é uma determinação essencial a uma outra Vontade de Poder e cabe à efetiva unidade apenas como concerto na oposição a outras Vontades de Poder. Assim. o impulso de menos é o impulso de morte. o mundo seria um múltiplo. Ao meu juízo. Fala-se de Vontade de Poder como qualidade única.

não conseguiu. 38 Dicionário Escolar Latim Português – Ministério da Educação e cultura. educação. 78 . E como forma criadora a Vontade de Poder permanece ou sai da área da filosofia. Uma possibilidade da aplicação da categoria “Vontade de Poder” está avançando na esteira de Michel Foucault. “Vontade de Poder”. No entanto. Thomas S. entre esses modos se constata a razão comunicativa. não sistematizável “stricto sensu” que sempre inventa novas formas de ser e de estar no mundo. A conclusão final a qual se chega. libertada por sua própria força e poder é perceptível na vida diária e em qualquer ato ou fato. que direta ou indiretamente aceitam a categoria da Vontade de Poder. Com isso ela explica muitas coisas que a ciência moderna. 2001. biologia. de Habermas. Sua obra é rica à menção sobre Vontade de Poder conforme se verificou nesta pesquisa. Também Boaventura Santos37 na esteira de Kuhn avança na proposta de sua obra “Introdução a uma Ciência Pós-moderna". para ser aplicada nas ciências. A Estrutura das Revoluções Científicas. A criatura. e que a ciência pós-moderna que também não consegue explicar. apresentar questões e oferecer sugestões dentro de um discurso coerente fugindo da razão instrumental e buscando outros modos de compreender a razão. Introdução a uma ciência pós-moderna. Kuhn36 já havia escrito na obra “A Estrutura das Revoluções Científicas” sobre as crises e emergências das teorias científicas modernas. No entanto em nenhum deles é destacada uma teoria ou categoria como essa importante noção de Vontade de Poder. Poderia ser a preparação de uma nova ciência pós-moderna? Thomas S. no conhecimento onde quer que seja necessário. Um “tertius genus” 38 ou terceira via que coloco em questão é a de que a Vontade de Poder é capaz de oferecer problematizações e gerar soluções para questões ainda não resolvidas pela ciência Moderna e Pós-moderna.78 Poder deverá. exemplificamos. Ela poderá ser aplicada nas mais diversas disciplinas e teorias por educadores e educadoras que querem problematizar. é que a Vontade de Potência é espécie do gênero Vontade de Poder que por sua vez é o início de um futuro promissor de uma idéia que pode ser aplicável sobre qualquer ciência ou conhecimento. A Vontade de Poder se liberta de seu criador adquirindo vida própria. 2000. Boaventura de Souza. ser atribuída a Nietzsche. É um conceito ou categoria indefinível. Rio de Janeiro: 1962. psicologia. Gilles Deleuze e Felix Guattari: autores que trabalharam muito a questão da subjetividade e estética na formação do sujeito. na origem. matemática. etc. a qual Nietzsche combatia. Santos. se tornando patrimônio do mundo. 36 37 Kuhn. física. sem querer enumerar uma lista infindável.

79 a questão da compatibilidade entre a Vontade de Poder de Nietzsche e a Razão Comunicativa de Habermas parece de difícil solução. (III) Suscita também dúvidas acerca do repetido processo por meio do qual o iluminismo se torna reflexivo (IV). Jürgem. 110. o esclarecimento esconde uma vontade de potência (o grifo é meu) que em última análise. Na obra “Dialética do Iluminismo” Horkheimer e Adorno inserem a “Vontade de Poder” na razão instrumental. argumenta que deveríamos tentar preservar o “impulso emancipatório” que subjaz ao esclarecimento. A comparação de Horkheimer e Adorno com Nietzsche não se limita a elucidar sobre as direções contrárias nas quais as duas partes levam a cabo a sua crítica da cultura. 1990 p. à luta sem fim entre as “Vontades de Poder”. Com isso. refletida no trabalho da Escola de Frankfurt. se assenta sobre o fundamento do diálogo e da busca do consenso e não da luta e da guerra. 19). Peters quer provar que o esclarecimento trás embutido em si mesmo a própria Vontade de Poder e explicita: “O pensamento pós-estruturalista sustenta que. Habermas39 crítica a “Dialética do Iluminismo” de Horkheimer e Adorno colocando suas objeções: (I) A partir da apreciação da modernidade nasce o problema que me interessa acerca da situação actual: porque é que Horkheimer e Adorno querem fazer o iluminismo iluminar-se radicalmente a si próprio. ao vincular a liberdade subjetiva à razão ‘científica. Finalmente. Dom Quixote. Michael Peters. prende o individuo ao aparato tecnológico (O grifo é meu)”. segundo ele. Mas em nossos estudos encontramos a obra “O discurso Filosófico da Modernidade” do próprio Jürgen Habermas que não vê com bons olhos a utilização conjunta da “Vontade de Poder” e “Teoria Crítica” ou mesmo da “Vontade de Poder” em sua teoria da “Razão Instrumental”. especialista em estudos de Pós-modernismo e Pós-estruturalismo nesta esteira apresenta sua tese da seguinte maneira: Habermas (1981. O Discurso Filosófico da Modernidade. já que este afirmava estar ela imune ao esquema do poder. pode-se concluir que Vontade de Poder e Dialética dificilmente poderão interligar-se e que não existe um vínculo entre a Vontade de Poder e a razão comunicativa de Habermas. 79 . além construir as origens genealógicas da Vontade de Poder. (II) O grande modelo para uma auto-ultrapassagem totalizante da crítica da ideologia foi Nietzsche. pois sua razão. meu desejo é que possa se proliferar críticas a favor ou contra 39 Habermas. situando a si próprio na tradição da crítica social marxista. p.

na teoria e na práxis e em qualquer área da ciência e do conhecimento. [199-]. 2001. Nietzsche e a Dissolução da Moral. Deleuze. Deleuze. Nietzsche. Vânia Dutra de. 2000. Azeredo. BIBLIOGRAFIA. Eco. Como se Faz uma Tese. São Paulo: Discurso Editorial e Unijui. Gilles. Gilles.80 este trabalho e com ele deixar alguma contribuição que facilite o entendimento do que seja a categoria “Vontade de Poder” e sua aplicação no contexto acadêmico. 80 . Nietzsche e a filosofia. 1998. Umberto. São Paulo: Perspectiva. São Paulo: Editora 34. Porto – Portugal: RÉS Editoras.

Tradução de Heloysa de Lima Dantas. Scarlett. Giacoia. & Nordby Vernon J. São Paulo: Brasiliense. São Paulo: Perspectiva. Giron. 2002. Martin. Vigiar e Punir. Hall. 1993. Introdução a Psicologia Junguiana. Thomas S. Jean-Jacques. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Mazzimo. São Paulo: Editora Ática. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. Friederich. A doutrina da Vontade de Poder em Nietzsche. Considerações Intempestivas. 1999. 81 . Antonio Carlos. Friederich. Santa Cruz do Sul: Edunisc . A Estrutura das Revoluções Científicas. Buenos Aires-Argentina: SELA. São Leopoldo . 2001. André Luis Mota. São Paulo: Discurso Editorial e Unijui. Heidegger. São Paulo: Martins Fontes. Buenos Aires – Argentina: M. In Cadernos Nietzsche. Friedrich. 2002. Loraine Slopm. 2000. São Paulo: Martim Claret. 1998. 7. Giacoia. 1990. Foucault. 1990. 1999. 2002. Marton. São Paulo: Discurso Editorial e Unijui. Wolfgang. Marton. Extravagâncias: ensaios sobre a filosofia de Nietzsche. 1992. 1979. Leon. Dominique e Wunenburger. Porto – Portugal: RÉS. O Discurso Filosófico da Modernidade. Friederich. Lisboa-Portugal: Publicações Dom Quixote. In A Memória e o Ensino de História. El Crepusculo de los Idolos. Nietzsche: das forças cósmicas aos valores humanos.Anpuh/rs: 2000. São Paulo: Annablume. 1997. Microfísica do Poder. Montinari. Kuhn. 2001. Nietzsche. São Paulo: GEN. Nietzsche: metafísica e niilismo. 2000. Nietzsche. Labirintos da Alma: Nietzsche e a auto-supressão da moral. Nietzsche. Da Memória Nasce a História. Jürgem. Interpretações Nazistas. Habermas. 1949. Signos e Poderes em Nietzsche. Scarlett.RS: Editora Unisinos – Universidade do Vale dos Sinos. Gil. Aguilar – Editor. Osvaldo. Michel.81 Folscheid. São Paulo: Cultrix. Rio de Janeiro: Edições Graal. Petrópolis: Vozes. Nietzsche. Calvin S. O Anticristo. Nietzsche Como Psicólogo. São Paulo: Atlas. Aurora. Kossovitch. Vol. 1946. Foucault. Michel. 1991. Itaparica. Müller-Lauter. 1997. Osvaldo. CampinasSP: Unicamp. Metodologia Filosófica. Nietzsche: estilo e moral.

Vontade de Potência. Os pré-socráticos. São Paulo: Martin Claret. Mario Sérgio. Friederich. 1993. Nietzsche. Friederich. Boaventura de Souza. 82 . Olgária. Brasília: Universidade de Brasília. Nietzsche. Tradução de Mario D. Friederich. Ferreira Santos. Gaia Ciência. São Paulo: editor Discurso Editorial e Unijui. Russell. Bertrand. São Paulo: Martin Claret. Heráclito e seu (dis) curso. 2002. São Paulo: Martin Claret. Porto Alegre: L&PM Pocket.F. [199-]. Nietzsche.Ediouro. Escola de Frankfurt: luzes e sombras do iluminismo. Nietzsche. Friederich. Nietzsche. Rio de Janeiro: Graal. Fragmentos Finais. São Paulo: Companhia das Letras. São Paulo: Globo . 2000. Nietzsche. C. Londrina: Editora UEL . O Crepúsculo do Sujeito em Nietzsche ou como abrir-se ao filosofar sem Metafísica. Friederich. São Paulo: Companhia das letras. História da Filosofia Ocidental. Donaldo. Santos. São Paulo: Cia Editora Nacional. Schüler. Friederich. Santos. Onate. 2003. Friederich. 1999. Assim Falou Zaratustra. El Viajero e su sombra. Matos. Nietzsche. Friederich. 2001. Nascimento da Tragédia: ou helenismo e pessimismo. Friederich. Nietzsche.82 Nietzsche. 2003. Genealogia da Moral. 1998. 1957. Humano. 2001. Mario José dos. Nietzsche. Demasiado Humano: um livro para espíritos livres. São Paulo: companhia das letras. Alberto Marcos. Friederich. 2001. São Paulo: Moderna. 2002. Ribeiro. 2000. Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. Buenos Aires – Argentina: Bureau Editor. Juiz de Fora – MG: UFJF. São Paulo: Companhia das letras.Universidade Estadual de Londrina. 2000. Para Além do Bem e do Mal. 2000. 2002. Vida e Liberdade: a psicofisiologia de Nietzsche. Introdução a uma ciência pós-moderna.

CDD: 83 . Pelotas. Genealogia da Vontade de Poder. C. Monografia de Conclusão de Especialização em Filosofia Moral e Política.83 Ulguim. Pelotas. Araldi. 1. 81 f. orientador Dr. Titulo. 2004. Programa de Pós-Graduação do ICH – Instituto de Ciências Humanas – Faculdade de Filosofia. Vontade de Poder – Genealogia. Daltro Lucena Ulguim. Daltro Lucena. Orientador. Clademir Araldi. Universidade Federal de Pelotas. 2004.

You're Reading a Free Preview

Descarga
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->