A rebelião das massas.

Copyright Autor: José Ortega y Gasset Tradutor: Herrera Filho Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org)

A REBELIÃO DAS MASSAS
Jose Ortega y Gasset

ÍNDICE

Apresentação Biografia do autor PRÓLOGO PARA FRANCESES PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I - O fato das aglomerações II - A ascensão do nível histórico III - A altura dos tempos IV - O crescimento da vida V - Um dado estatístico VI - Começa a dissecação do homem-massa

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A rebelião das massas. VII - Vida nobre e vida vulgar, ou esforço e inércia VIII - Porque as massas intervêm em tudo e porque só intervêm violentamente IX - Primitivismo e técnica X - Primitivismo e história XI - A época do "mocinho satisfeito" XII - A barbárie do "especialismo" XIII - O maior perigo, o Estado SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV - Quem manda no mundo? XV - Desemboca-se na verdadeira questão EPÍLOGO PARA INGLESES Quanto ao pacifismo DINÂMICA DO TEMPO As vitrinas mandam Juventude Masculino ou feminino? NOTAS

APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia

"A Rebelião das Massas", obra prima de José Ortega y Gasset, começou a ser publicado em 1926 num jornal madrilenho ("El Sol"). Retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Não se refere às classes sociais mas às multidões e aglomerações. Tendo esse contexto como pano de fundo, Ortega discute temas, aparentemente contrários

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A rebelião das massas.

entre si, mas que se fundem (ou devem fundir-se) numa unidade de sentido. É assim que contrapõe individualismo e submissão ao coletivo; comunidade, nação e estado; história, presente e porvir; homens cultos e especialistas; poder arbitrário e respeito à opinião pública; juventude e velhice; guerra e pacifismo; masculino e feminino. São tópicos que, inevitavelmente, nos induzem à reflexão crítica. Em alguns casos são apresentados de forma extremamente provocativa. Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e afirma: "É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules." Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam um certo desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se masculinizando: "A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil, uma espécie de atleta com seios. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX, quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura, extrema feminilidade. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista, e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita." Sobre a guerra, chega a afirmar: "O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida." Sua interpretação do modelo escravista é bastante sugestiva: "Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor." São essas aparentes contradições que estimulam nosso espírito crítico. Ortega defendeu suas concepções com vigor, fundamentos sólidos e uma lógica irreprensível. Em poucos momentos foi totalmente conclusivo, mas deixou uma enorme abertura para que possamos repensar as idéias que defendeu em seus dias, adaptando-as ao nosso tempo e ao que viveremos no futuro.

BIOGRAFIA DO AUTOR

José Ortega y Gasset nasceu em Madrid, a 9 de maio de 1883. A família de sua mãe era
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Essa relação com o jornalismo foi essencial para o desenvolvimento de sua formação intelectual e seu estilo de expressão literária. formulando um projeto pessoal de reforma da filosofia européia. Argentina. Foi também co-fundador do diário "El Sol" e fundador e diretor da "Revista de Occidente". Tendo adquirido as primeiras letras em Madrid foi enviado a cursar o bacharelado em um colégio jesuíta de Málaga. proprietária do jornal madrilenho "El Imparcial" e seu pai jornalista e diretor desse mesmo diário. "En torno a Galileo". países onde proferiu inúmeras conferências. em julho de 1936.. PRÓLOGO PARA FRANCESES I Este livro . Faleceu em Madrid no dia 18 de outubro de 1955. na Alemanha. ao mesmo tempo. se precipita em velocidade vertiginosa.. não poucas de suas fórmulas chegaram ao leitor francês por vias file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. reagiu contra os tênues fundamentos da ciência adquirida. onde prevalecia o neokantismo. Ortega decidiu andar pelo mundo. Embora reconhecendo o valor da educação jesuítica recebida. Muito do que nele se enuncia foi logo um presente e já é um passado. como este livro circulou muito durante estes anos fora da França. "Que és filosofia?".. Daí que os fatos ultrapassaram o livro. consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei de sua influência atmosférica. viajando à França. Holanda. as mais polêmicas das quais foram: "Meditaciones del Quijote". que se refletiu na afirmação: "Durante dez anos vivi no mundo do pensamento kantiano: eu o respirei com a uma atmosfera que foi. "Historia como sistema".) Com grande esforço. Grande parte de seus escritos filosóficos foram produzidos a partir do contato com a imprensa. Portugal.. e o assunto de que trata é demasiado humano para que pudesse escapar à ação do tempo. sempre instável. Terminando os estudos em Málaga iniciou seus estudos universitários em Deusto e depois na Universidade de Madrid. Além disso.htm (4 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Com o início da guerra civil espanhola. onde se doutorou em Filosofia. Há sobretudo épocas em que a realidade humana. Buscando uma formação intelectual mais sólida continuou seus estudos em Marburgo. minha casa e minha prisão (. "Obras Completas". Suas obras se revestem de um caráter extremamente crítico. Nossa época é dessa classe porque é de descidas e quedas. Acabou por adotar uma atitude crítica em relação aos seus mestres e a Kant.A rebelião das massas. Começou a ser publicado num jornal madrilenho em 1926." A partir de 1910 iniciou uma vida pública repartida entre a docência universitária e atividades políticas e culturais extra acadêmicas. Ortega.supondo que seja um livro .data. além de considerado um dos maiores filósofos da língua espanhola também é lembrado como uma das maiores figuras do jornalismo espanhol do século XX."Rebelión de las masas".

mas não há motivo para formalismo. que se trata simplesmente de uma série de artigos publicados num jornal madrilenho de grande circulação. mais ou menos. isso é o ilusório. Duo si idem dicunt non est idem. o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista com que costumamos escutá-la. Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. Todo vocábulo é ocasional (l). como diz alguém a alguém. A mentira seria impossível se o falar primário e normal não fosse sincero. quando o homem se põe a falar. se é verídica. estando condenado à radical solidão. procurássemos adivinhar-nos. o engano vem a ser um humilde parasita da ingenuidade. estas foram páginas escritas para uns quantos espanhóis que o destino colocou à minha frente. esgota-se em esforços para chegar ao próximo. uma parte do que pensamos e põe uma barreira infranqueável à transfusão do resto. Importa-me. mui cortesmente. A linguagem é por essência diálogo. A linguagem não dá para tanto. Conste. Não posso esperar melhor sorte quando estou persuadido de que falar é uma operação muito mais ilusória do que se supõe. muito mais do que se. certamente. Não se arrisca a tanto. No final das contas. Pois bem. acertada ou erroneamente. o abuso aqui file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não estou convencido disso. mudos. mas tampouco nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem impossível entender-se com seus semelhantes. e todas as outras formas do falar destituem sua eficácia. encerra tácitas reservas. A moeda falsa circula apoiada na verdadeira. anônimas e são puro lugar comum. os quais não são indiferentes ao significado das palavras. e que. como quase tudo que o homem faz. Por isso eu creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente. produz funestos resultados. mais humanos. mais "reais". Desses esforços é a linguagem que consegue às vezes declarar com maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós. Teria sido.A rebelião das massas. Como quase tudo que escrevi. Serve bastantemente para enunciados e provas matemáticas. é irônica.vai para cinco anos a Casa Stock me propôs a sua versão -. Apenas. mudando agora de destinatário. Assim esta. que quer acariciá-la .htm (5 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Eu fiz tudo que me foi possível em tal sentido . dizemos e ouvimos com tão boa fé que acabamos muitas vezes por não nos entendermos. pois. que não entre na sua leitura com ilusões injustificadas. e quando não a interpretamos assim. já ao falar de física começa a ser equívoco e insuficiente. Mas. mas me fizeram ver que o organismo das idéias enunciadas nestas páginas não corresponde ao leitor francês. Como em tantas outras coisas. O de menos é que a linguagem sirva também para ocultar nossos pensamentos. entretanto. todos os nossos pensamentos. Este varia quando aquelas variam. consigam dizer aos franceses o que elas pretendem exprimir. excelente ocasião para praticar a obra de caridade mais adequada a nosso tempo: não publicar livros supérfluos. Não é sobremodo improvável que minhas palavras. seria útil submetê-lo a sua meditação e a sua crítica. Dóceis ao prejuízo inveterado de que falando nos entendemos. Em todo dizer há um emissor e um receptor. sua inépcia e seu confusionismo. tanto mais aumenta sua imprecisão. Mas uma definição. pois. para mentir.ou bem. dar-lhe um murro. Definimos a linguagem como o meio de que nos servimos para manifestar nossos pensamentos. Esquece-se demasiadamente que todo autêntico dizer não só diz algo. Porém quanto mais a conversação se ocupa de temas mais importantes que esses. Ao contrário. isto faz porque crê que vai poder dizer tudo que pensa. Porque ela mesma não nos assegura que mediante a linguagem possamos manifestar. não usamos estas reservas. Não. habitualmente. em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente seu leitor e este percebe como se dentre as linhas saísse u'a mão ectoplástica que tateia sua pessoa. com suficiente justeza. Diz.

II Esta tese que sustenta a exiguidade do raio de ação eficazmente concedido à palavra. Há quase dois séculos que se acredita que falar era falar urbi et orbi. sem insistir demasiado sobre a realidade do fato. que não escrevi nem falei à Mesopotâmia. Goethe!" Mas então chegou a vez de um senhor baixo. com voz estentórica. em solene atitude de estátua. levando suas homenagens. anunciava-os: "Monsieur le Représentant de l'Anglaterre!" E Victor Hugo. e nunca me dirigi à Humanidade. portanto. sem a solenidade de Victor Hugo. Outrora podia ventilar-se a atmosfera confinada de um país abrindo-se as janelas que dão para outro. sem consciência da limitação do instrumento. do logos. Os representantes das nações adiantavam-se ao público e apresentavam sua homenagem ao vate da França. essa identidade cresceu de modo angustioso.A rebelião das massas. com o cotovelo apoiado no rebordo de uma chaminé. de outra grave coisa: da pavorosa homogeneidade de situações em que vai caindo todo o Ocidente. balofo e de andar desgracioso. L'Humanité!" Contei isso a fim de declarar. respondeu à homenagem do rotundo senhor dizendo: "La Mésopotamie! Ah. Mas logo se viu que o achara e que recobrara o domínio da situação. O grande poeta achava-se na grande sala de recepção. os homens do dizer.htm (6 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . pareceu vacilar. que é a forma mais sublime. foi adotada até 1750 por intelectuais desajustados. dizia: "L'Anglaterre! Ah. representações de todas as nações. Cervantes!" O porteiro: "Monsieur le Représentant de L'Allemagne!" E Victor Hugo: "L'Allemagne! Ah. isto é. todavia. multiplica ao infinito seu efeito deprimente quando quem o sofre adverte que apenas há lugar no continente onde não aconteça estritamente o mesmo. virando os olhos. realmente. podia parecer invalidada pelo fato mesmo de que este volume tenha encontrado leitores em quase todas as línguas da Europa. O porteiro exclamou: "Monsieur le Représentant de la Mésopotamie!" Victor Hugo. fizeram um grande giro circular como procurando em todo o cosmos algo que não encontrava. Um porteiro. o que em cada país é sentido como circunstância dolorosa. a mais desprezível da demagogia. consistiu no uso sem preocupação. Contam. Suas pupilas. ansiosas. Digo angustioso porque. Desde o aparecimento deste livro. pela mecânica que nele mesmo se descreve. Eu creio. usaram dele sem respeito e precauções. com voz de dramático trêmulo. a todos e a ninguém. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo. sem perceberem que a palavra é um sacramento de mui delicada administração. Mas agora esse expediente não serve de nada. que este fato é de preferência sintoma de outra coisa. com a mesma convicção. porque em outro país a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e. com o mesmo tom patético. Shakespeare!" O porteiro continuou: "Monsieur le Représentant de l'Espagne"! E Victor Hugo: "L'Espagne! Ah. que quando se celebrou o jubileu de Victor Hugo foi organizada uma grande festa no palácio do Elíseo. Efetivamente. da qual participaram. por seu ofício. ignorantes de seus próprios limites e que sendo. atarracado. que até então permanecera impertérrito e seguro de si mesmo. Esse costume de falar para a Humanidade.

secreção espontânea da sociedade e não pode ser outra coisa. a "restauração das letras" no século XV impele as literaturas divergentes. o contrário daquela.é um espaço social.A rebelião das massas. de pessoas que convivem.htm (7 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . que vem a ser como estimular em cada um sua vocação particular. O espaço histórico a que aludo mede-se pelo raio de efetiva e prolongada convivência . Ao contrário. caracterizou-se sempre por uma forma dual de vida.é. Querer que o direito reja as relações entre seres que previamente não vivem em efetiva sociedade. Eadem sed aliter. a realidade "direito" . Este destino que os fazia. As guerras inter-européias mostraram quase sempre um curioso estilo que as faz parecer muito com as altercações domésticas. é o mais insensato ensaio que se fez de pôr o carro adiante dos bois. que para cada um viver era conviver com os demais. e o acordo não pode consistir senão em precisar uma ou outra forma dessa convivência. Mais ainda. jurista ou demagogo . De sua essência e inelutavelmente esta segrega costumes. entre eles ou sobre eles se ia criando um repertório de idéias. Pelo contrário: cada novo princípio uniforme fertilizava a diversificação.claramente desde o século XI. A idéia da sociedade como reunião contratual. que é. convivência e sociedade são termos equivalentes. que nessa progressiva assimilação das circunstâncias distingamos duas dimensões diferentes e de valor contraposto. E é que para esses povos chamados europeus. cujas salpicaduras ainda padecemos. parece-me . segundo a qual todos os povos hão de ter uma constituição idêntica. produz o efeito de despertar romanticamente a consciência diferencial das nacionalidades. Daí a sensação opressora de asfixia. a par. entretanto. Um dos mais graves erros do pensamento "moderno". a lembrança do Imperium romano inspira as diversas formas do Estado. que era um terrível pince-sans-rire. usos. Evitam a aniquilação do inimigo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Como Carlos V dizia de Francisco I: Meu primo Francisco e eu estamos de perfeito acordo: ambos queremos Milão". atmosfera é tão irrespirável como no próprio. Este enxame de povos ocidentais que alçou vôo sobre a história desde as ruínas do mundo antigo. Esta convivência tomava indiferentemente aspecto pacífico ou combativo. A idéia cristã engendra as igrejas nacionais. corresponda um espaço físico que a geografia denomina Europa.ter uma idéia muito confusa do que é o direito. poder público. como as dos jovens numa aldeia ou disputas de herdeiros pela partilha de um legado familiar. É de somenos importância que a esse espaço histórico comum. os viajores e mercadores que rodaram pelo mundo: Unde sapientia venit et quis est locus intelligentiae? "Sabeis de algum lugar do mundo onde a inteligência exista?" Convém. Porque o direito. se me permitem a expressão barroca. há de entender-se com certo superlativo de paradoxo. Sociedade é o que se produz automaticamente pelo simples fato da convivência. dessa sociedade preexistente.não as idéias sobre ele do filósofo. Finalmente e para cúmulo: até a extravagante idéia do século XVIII. aproximadamente. a ciência e o princípio unitário do homem como "razão pura" cria os distintos estilos intelectuais que modelam diferencialmente até as extremas abstrações da obra matemática. Pois aconteceu que à medida que cada um ia formando seu gênio peculiar. Ora. lutas de emulação. línguas. maneiras e entusiasmos. portanto jurídica. tem sido confundir a sociedade com a associação.mover-se e atuar em um espaço ou âmbito comum. Isto é. Job. todo acordo de vontades pressupõe a existência de uma sociedade. progressivamente homogêneos e progressivamente diversos. onde todos os povos do Ocidente se sentiam como em sua casa. Porque neles a homogeneidade não foi alheia à diversidade. Um pouco de outro modo. e são verdadeiros certames.perdoe-se-me a insolência . pergunta a seus amigos. direito. Uma sociedade não se constitui do acordo das vontades. todos vão ao mesmo. desde Óton III . viver sempre foi .

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Não deve estranhar, por outra parte, a preponderância dessa opinião confusa e ridícula sobre o direito, porque uma das máximas desditas do tempo é que, ao toparem os povos do Ocidente com os terríveis conflitos públicos do presente, se encontraram aparelhados com instrumental arcaico e ineficiente de noções sobre o que é sociedade, coletividade, indivíduo, usos, lei, justiça, revolução, etc. Boa parte da inquietação atual provém da incongruência entre a perfeição de nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso escandaloso das "ciências morais". O ministro, o professor, o físico ilustre e o novelista soem ter dessas coisas conceitos dignos de um barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro suburbano quem dê a tonalidade do tempo? (2) Mas voltemos a nossa rota. Queria insinuar que os povos europeus são há muito tempo uma sociedade, uma coletividade, no mesmo sentido que têm estas palavras aplicadas a cada uma das nações que a integram. Essa sociedade manifesta todos os atributos possíveis: há costumes europeus, usos europeus, opinião pública européia, direito europeu, poder público europeu. Mas todos esses fenômenos sociais se dão na forma adequada ao estado de evolução em que se encontra a sociedade européia, que não é, evidentemente, tão avançado como o de seus membros componentes, as nações. Por exemplo: a forma de pressão social que é o poder público funciona em toda sociedade, inclusive naquelas primitivas em que não existe ainda um organismo especial encarregado de manejá-lo. Se a esse órgão diferenciado a quem se entrega o exercício do poder público se quer chamar Estado, diga-se que em certas sociedades não há Estado, mas não se diga que nelas não há poder público. Onde há opinião pública, como poderá faltar um poder público se este não é mais que a violência coletiva suscitada por aquela opinião? Ora bem, que há séculos e com intensidade crescente existe uma opinião pública européia e até uma técnica para influir nela - é incômodo negá-lo. Por isso, recomendo ao leitor que poupe a malignidade de um sorriso ao deparar que nos últimos capítulos deste volume se faz com certo denodo, ante o cariz oposto das aparências atuais, a afirmação de uma possível, de uma provável unidade estatal da Europa. Não nego que os Estados Unidos da Europa são uma das fantasias mais módicas que existem e não me solidarizo com o que os outros pensaram sob esses signos verbais. Mas, por outra parte, é sumamente improvável que uma sociedade, uma coletividade tão madura como a que já formam os povos europeus, ande longe de criar para si seu artefato estatal mediante o qual formalize o exercício do poder público europeu já existente. Não é, pois, debilidade ante as solicitações da fantasia nem propensão a um "idealismo" que detesto, e contra o qual hei pugnado toda a minha vida, o que me leva a pensar assim. Foi o realismo histórico que me ensinou a ver que a unidade da Europa como sociedade não é um "ideal", mas um fato de velhíssima cotidianidade. Ora bem, uma vez que se viu isso, a probabilidade de um Estado geral europeu impõe-se necessariamente. A ocasião que leve subitamente a término o processo pode ser qualquer, por exemplo, a cólera de um chinês que apareça pelos Urais ou uma sacudida do grande magma islâmico. A figura desse Estado super-nacional será, é claro, muito diferente das usadas, como, segundo nesses mesmos capítulos se tenta mostrar, foi muito diferente o Estado nacional do Estado-cidade que os antigos conheceram. Eu procurei nestas páginas pôr em franquia as mentes para que saibam ser fiéis à sutil concepção do Estado e sociedade que a tradição européia nos propõe. Nunca foi fácil ao pensamento greco-romano conceber a realidade como dinamismo. Não podia

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desprender-se do visível ou seus sucedâneos, como um menino não entende do livro senão as ilustrações. Todos os esforços de seus filósofos autóctones para transcender essa limitação foram vãos. Em todos os seus ensaios para compreender atua, mais ou menos, como paradigma, o objeto corporal, que é, para eles, a "coisa" por excelência. Só conseguem ver uma sociedade, um Estado onde a unidade tenha caráter de continuidade visual; por exemplo, uma cidade. A vocação mental do europeu é oposta. Toda coisa visível lhe parece, como tal, simples máscara aparente de uma força latente que a está constantemente produzindo e que é sua verdadeira realidade. Ali onde a força, a dynamis, atua unitariamente, há real unidade, embora à vista se nos apareçam como manifestação dela apenas coisas diversas. Seria recair na limitação antiga não descobrir unidade de poder público apenas onde este tomou máscaras já conhecidas e como solidificadas de Estado; isto é, nas nações particulares da Europa. Nego redondamente que o poder público decisivo atuante em cada uma delas consista exclusivamente em seu poder público interior ou nacional. Convém cair de uma vez na compreensão de que há muitos séculos e com consciência disso há quatro - vivem todos os povos da Europa submetidos a um poder público que por sua própria pureza dinâmica não tolera outra denominação que a extraída da ciência mecânica: o "equilíbrio europeu" ou balance of Power. Esse é o autêntico governo da Europa que regula em seu vôo pela história o enxame de povos, solícitos e pugnazes como abelhas, escapados às ruínas do mundo antigo. A unidade da Europa não é uma fantasia, mas de fato a própria realidade, e a fantasia é precisamente a crença de que a França, a Alemanha, a Itália ou a Espanha são realidades substantivas e independentes. Compreende-se, entretanto, que nem todo o mundo perceba com evidência a realidade da Europa, porque a Europa não é uma "coisa", mas um equilíbrio. Já no século XVIII o historiador Robertson qualificou o equilíbrio europeu de the great secret of modern politics. Segredo grande e paradoxal, sem dúvida! Porque o equilíbrio ou balança de poderes é uma realidade que consiste essencialmente na existência de uma pluralidade. Se essa pluralidade se perde, aquela unidade dinâmica se desvaneceria. A Europa é, com efeito, enxame; muitas abelhas e um só vôo. Esse caráter unitário da magnífica pluralidade européia é o a que eu chamaria boa homogeneidade, a que é fecunda e desejável, a que fazia Montesquieu dizer: L'Europe n'est qu'une nation composée de plusieurs, (3) e Balzac, mais romanticamente, falava da grande famille continentale, dont tous les efforts tendent à je ne sais quel mystère de civilisation. (4)

III Esta multidão de modos europeus que brotam constantemente de sua radical unidade e reverte a ela mantendo-a, é o maior tesouro do Ocidente. Os homens de cabeças toscas não conseguem congeminar uma idéia tão acrobática como esta em que é preciso saltar, sem descanso, da afirmação da pluralidade ao reconhecimento da unidade e vice-versa. São cabeças pesadas nascidas para existir sob as perpétuas tiranias do Oriente.

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Triunfa hoje sobre toda a área continental uma forma de homogeneidade que ameaça consumir completamente aquele tesouro. Onde quer que tenha surgido o homem-massa de que este volume se ocupa, um tipo de homem feito de pressa, montado tão somente numas quantas e pobres abstrações e que, por isso mesmo, é idêntico em qualquer parte da Europa. A ele se deve o triste aspecto de asfixiante monotonia que vai tomando a vida em todo o continente. Esse homem-massa é o homem previamente despojado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas "internacionais". Mais do que um homem, é apenas uma carcaça de homem constituído por meros idola fori; carece de um "dentro", de uma intimidade sua, inexorável e inalienável, de um eu que não se possa revogar. Daí estar sempre em disponibilidade para fingir ser qualquer coisa. Tem só apetites, crê que só tem direitos e não crê que tem obrigações: é o homem sem nobreza que obriga - sine nobilitate - snob. (5) Este universal snobismo, que tão claramente aparece, por exemplo, no operário atual, cegou as almas para compreender que, embora toda estrutura dada da vida continental tenha de ser transcendida, tudo isso há de se fazer sem perda grave de sua interior pluralidade. Como o snob está vazio de destino próprio, como não sabe que existe sobre o planeta para fazer algo determinado e impermutável, é incapaz de entender que há missões particulares e mensagens especiais. Por essa razão é hostil ao liberalismo, com uma hostilidade que se assemelha à do surdo em relação à palavra. A liberdade significou sempre na Europa franquia para ser o que autenticamente somos. Compreende-se que aspire a prescindir dela quem sabe que não tem autêntico mister. Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque as pessoas não costumam pôr-se de acordo a não ser em coisas um pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores coletivistas, que começam por desconhecê-lo. Ademais, há nele uma intuição do que a Europa tem sido, altamente perspicaz. Quando Guizot, por exemplo, contrapõe a civilização européia às demais fazendo notar que nela não triunfou nunca em forma absoluta nenhum princípio, nenhuma idéia, nenhum grupo ou classe, e que a isso se deve o seu crescimento permanente e seu caráter progressivo, não podemos deixar de pôr o ouvido atento (6). Este homem sabe o que diz. A expressão é insuficiente porque é negativa, mas suas palavras chegam-nos carregadas de visões imediatas. Como do mergulhador emergente transcendem olores abismais, vemos que este homem chega efetivamente do profundo passado da Europa onde soube submergir. É, com efeito, incrível que nos primeiros anos do século XIX, tempo retórico e de grande confusão, se tenha composto um livro como a Histoire de la Civilisation en Europe. Todavia o homem de hoje pode aprender ali como a liberdade e o pluralismo são duas coisas recíprocas e como ambas constituem a permanente entranha da Europa. Mas Guizot teve sempre péssima publicidade, como em geral, os doutrinários. Não me surpreendo. Quando vejo que para um homem ou grupo se dirige fácil e insistente o aplauso, surge em mim a veemente suspeita de que nesse homem ou nesse grupo, talvez junto a dotes excelentes, há algo sobremodo impuro. Talvez isto seja um erro em que incorro, mas devo dizer que não o procurei, que o foi dentro de mim decantando a experiência. De qualquer maneira, quero ter a coragem de afirmar que este grupo de doutrinários, de quem todo o mundo riu e fez mofas truanescas, é, a meu ver, o mais

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Pois se dá o fato escandaloso de que não existe um só livro onde se tenha tentado precisar o que aquele grupo de homens pensava. quer dizer. Não tem outra. valioso que houve na política do continente durante o século XIX. todavia. por sua vez. Os verdadeiros direitos são os que absolutamente estão aí. uma das causas profundas do presente desconcerto Mas eu não sei se. É verdade que nem um nem o outro publicaram jamais um soneto. apesar da sua clássica lucidez. Mal pode fazer-se isso sem alguma exageração. E. Havia chegado a converter-se neles em um instinto a impressão radical de que existir é resistir. descobrem eles o histórico com o verdadeiro absoluto. no meio da rusticidade e da frivolidade crescente daquele século. a legitimidade. as "capacidades". Negar o passado é absurdo e ilusório. originalmente. mas diferentemente do racionalismo linfático de enciclopedistas e revolucionários. Numa época como a nossa. Rotas e sem vigência quase todas as normas com que a sociedade presta uma continência ao indivíduo. Em todos estes temas andam. Condensam-se nele várias gerações de protestantes nimeses que haviam vivido em alerta perpétuo. sobre os problemas mais graves da vida pública européia. sem poder flutuar à deriva no ambiente social. as noções sobremodo turvas. e constituíram o doutrinal político mais estimável de toda a centúria. como Buster Keaton. ainda que me dirigindo a leitores franceses. Os russos desses anos passados costumavam chamar a Rússia de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e foram além disso homens que criaram em suas pessoas uma atitude digna e distante. mas para que o integremos (11). não podia este constituir-se uma dignidade se não a extraía do fundo de si mesmo. O passado não está presente e não teve o trabalho de acontecer para que o neguemos. ainda que seja somente para se defender do abandono orgiástico em que vivia seu contorno. Nela chegou a fazer-se tal e como é. Nem será possível reconstruir a história desta se não se estabelece intimidade com o modo em que se apresentaram as grandes questões ante estes homens (10). prazeres de pensamento não esperados e uma intuição da realidade social e política totalmente diferente das usadas. porque o passado é "o natural do homem que volta a galope". é muito possível que o porvir pertença a tendências de intelecto muito semelhantes às suas. a magistratura. Foram os únicos que viram claramente o que havia que fazer na Europa depois da Grande Revolução.A rebelião das massas. porque foram aparecendo e se consolidando na história: tais são as "liberdades". fincar os calcanhares no chão para se opor à correnteza. Se alentassem hoje reconheceriam o direito de greve (não política) e o contrato coletivo. sem poder abandonar-se. asseguro a quem se proponha formular com rigor sistemático as idéias dos doutrinários. Talvez desde o tempo de Alcuino tenhamos vivido cinqüenta anos pelo menos atrasados a respeito dos ingleses. Mas. (8) como. Por isso não os entenderam. A um inglês tudo isso pareceria óbvio. o homem que não ri (7). Os doutrinários são um caso excepcional de responsabilidade intelectual. não há tampouco um livro medianamente formal sobre Guizot nem sobre Royer-Collard (9). como eu disse. Seu estilo intelectual não é só diferente em espécie. que encontram o absoluto em abstrações bon marché. Posso aludir ao doutrinarismo como a uma magnitude conhecida. pensaram profundamente. Os doutrinários desprezavam os "direitos do homem" porque são absolutamente "metafísicos". Igual desconhecimento do velho liberalismo sentem os coletivistas de agora quando supõem. que era individualista. abstrações e irrealidades. A história é a realidade do homem. é bom tomar contacto com os homens que não "se deixam levar". Guizot soube ser. enfim. defeito que é. ainda que pareça incrível. nem mais nem menos. Perdura neles ativa a melhor tradição racionalista em que o homem se compromete consigo mesmo a procurar coisas absolutas. como coisa inquestionável. do que mais tem faltado aos intelectuais europeus desde 1750.htm (11 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mas o é de outro gênero e de outra essência em face de todos os demais triunfantes na Europa antes e depois deles. Não se abandona jamais. mas os continentais ainda não chegamos a essa estação. Pelo menos.

falará em 1821 do collectivisme em face do personnalisme (13). há por um lado de benefício.htm (12 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . as seguintes teses: Primeira: o liberalismo individualista pertence à flora do século XVIII. mas pelo contrário. como o capitão italiano de que falava Goethe. em que interessa e beneficia à sociedade.Stuart Mill ou Spencer . Quando. porque então convinha a esta ocupar-se em cevar bem os indivíduos. em Comte e pulula por toda a parte (12). Daí que os "velhos liberais" se abrissem sem suficientes precauções ao coletivismo que respiravam. não para aceitá-las. os quais cevam para depois chupar-lhes a substância. no fato coletivo. bisogna aver una confusione nella testa? Diante disso tudo eu rogaria ao leitor que tomasse em conta. Aparece pela primeira vez nos arquireacionários de Bonald e de Maistre.A rebelião das massas. Mas triunfa em Saint-Simon. Até esse ponto era a primazia do coletivo o fundo por si mesmo evidente sobre o qual ingenuamente dançavam suas idéias! De onde se infere que minha defesa lohengrinesca do velho liberalismo é. Leiam-se os artigos que em 1830 e 1831 publica L'Avenir contra o individualismo. avançando pela centúria. É a primeira idéia que inventa apenas nascido e que ao longo de cem anos não fez senão crescer até inundar todo o horizonte. O resultado. os fenômenos sociais do tempo camuflavam a verdadeira economia da coletividade. M. Mas quando se viu com clareza o que no fenômeno social.sem dúvida glorioso e essencial .do social. No essencial é imediatamente aceita por todos. Por exemplo: um médico de Lyon. E o que se discute é se certas necessidades sociais são melhor servidas por um ou pelo outro órgão. em parte. Nada mais. Por outra parte.a sociedade. Não seria interessante averiguar que idéias ou imagens se espreguiçavam à invocação deste vocábulo na mente um tanto gasosa do homem russo que tão freqüentemente. em Ballanche. Terceira: esta idéia é de origem francesa. um "atrasado" do século anterior. O descobrimento . Segunda: a criação característica do século XIX foi precisamente o coletivismo. do coletivo. Aqueles homens apalpavam. mas não sabiam bem em que consistia e quais eram seus efetivos atributos. de pavoroso. Porque o caso é que eu não sou um "velho liberal". no final. Não chegara ainda a hora da nivelação. só se pode aderir ao liberalismo de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o fato de que a coletividade é uma realidade diferente dos indivíduos e de sua simples soma. Porque indivíduo e Estado significam nesse titulo dois meros órgãos de um único sujeito . mas morre com ela. inspira. mais do que viam. chegamos aos grandes teorizadores do liberalismo . mas para que sejam discutidas e passem depois à sentença. O aspecto agressivo do título que Spencer escolhe para seu livro . "o coletivo". a legislação da Revolução francesa. porém. Mais importante. simplesmente e como tal. é que tanto ele como Stuart Mill tratam os indivíduos com a mesma crueldade socializante com que os termitas a certos de seus congêneres. da espoliação e da partilha em todas as ordens.tem sido causa de que o não entendam teimosamente os que não lêem dos livros senão os títulos. de terrível. O famoso "individualismo" de Spencer boxeia continuamente dentro da atmosfera coletivista de sua sociologia.O indivíduo contra o Estado . por outro. sem outra exceção que não seja Benjamim Constant. era demasiado recente. completamente. Amard.surpreende-nos que sua suposta defesa não se baseia em mostrar que a liberdade beneficia ou interessa a este. porém. que tudo isso é outra coisa. desinteressada e gratuita.

matriz de nossos romances. mestre de Cícero.A rebelião das massas. Já no tempo dos Antoninos se nota claramente um estranho fenômeno. Disse-se. ninguém o procurou: no idioma. caminhamos em linha reta para o Baixo Império. Depois dele. seja como soberanos. que quase nunca se reprime senão quando lhe falta poder. e salvo os Alexandrinos. ao contrário.que adota a vida de um a outro extremo do Império. a um tempo homogênea e estúpida . A disposição dos homens. fartamente perspicazes. Em Macaulay. por exemplo. que o estóico Possidônio.e uma eqüivale à outra . é o último homem antigo capaz de se colocar ante os fatos com a mente porosa e ativa. em Tocqueville. menos ingênuo e de mais destra beligerância. Tal e como vamos. devemos esperar. Isso o faz acolher-se a um grande pensamento emitido por Humboldt na sua juventude. Evitar isso tem sido o secreto acerto da Europa até hoje. E como o poder não parece achar-se em via de declinar. Na porção mais helenizada do povo romano. Assim. mas de crescer. não entrevissem de quando em quando as angústias que seu tempo nos reservava. a língua vigente é a que se chamou "latim vulgar". como todas as mudanças que se operam no mundo têm por efeito o aumento da força social e a diminuição do poder individual. Não se conhece bem este file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a impor aos demais como regra de conduta sua opinião e seus gostos. Mas o sistema e documento mais terrível desta forma. O processo vinha de tempos atrás. Também foi aquele um tempo de massa e de pavorosa homogeneidade. existe no mundo uma forte e crescente inclinação a estender em forma extrema o poder da sociedade sobre o indivíduo. disposto a investigá-los. é preciso que se dêem circunstâncias diferentes. a menos que uma forte barreira de convicção moral não se eleve contra o mal. que exista "variedade de situações" (16). clara ou balbuciante. um liberalismo que está germinando já. sem que o queiramos. estereotipar. a condição mais arcana da sociedade que a fala. está onde menos se podia esperar e onde todavia. num só tipo de homem. Nem era possível que sendo estes homens. este desbordamento não é um mal que tenda a desaparecer espontaneamente. próximo a florescer. Nessa consciência se reconhece a si mesma como valor positivo. e tomando em conjunto as nações. na linha mesma do horizonte. como eram. com a míngua progressiva da "variedade de situações". Mas o que mais nos interessa em Stuart Mill é sua preocupação pela homogeneidade de má classe que via crescer em todo o Ocidente. encontramos pré-desenhada nossa hora.htm (13 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . devemos esperar. Veja-se. mas. tende a fazer-se cada vez mais formidável. tanto por meio da força da opinião como pela legislativa. menos sublinhado e analisado do que devera: os homens tornaram-se estúpidos. que não nos serve para dizer suficientemente o que cada um de nós quiséramos dizer. se consolide e se aperfeiçoe é necessário. com alguma razão. como bem e não como mal. em Comte. A língua. as cabeças se obliteram. o que há mais de oitenta anos escrevia Stuart Mill: "À parte as doutrinas particulares de pensadores individuais. ao falhar uma restam outras possibilidades abertas. segundo Humboldt. Ora bem. a pluralidade continental. numa idêntica "situação". Contra o que sói acreditar-se tem sido normal na história que o porvir seja profetizado (14). digo. não farão outra coisa senão repetir. revela pelo contrário e grita. que nas condições presentes do mundo esta disposição nada fará senão aumentar" (15). Importava-me esclarecer isso para que não se tergiverse a idéia de uma superação européia que este volume postula. se acha tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana. seja como concidadãos. moveu sempre os lábios do perene liberalismo europeu. Para que o humano se enriqueça. Dentro de cada nação. E insensato pôr a vida européia numa só carta. e a consciência desse segredo é a que. que eu saiba. estilo radicalmente novo.

Isto. procuro descobrir a realidade vivente de que esse fato é a quieta marca. de ensaio e rodeio como a infantil. A obra intelectual aspira. A missão do chamado "intelectual" é. a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente. Há obrigações de trabalhar sobre as questões do tempo. são formas da hemiplegia moral. Eu. Meu trabalho é obscuro labor subterrâneo de mineiro.A rebelião das massas. os homens menos dispostos a assustar-se com coisa alguma. Dizem-no. Que vidas evadidas de si mesmas. só se chega a ele mediante reconstruções. imundas e sem rotundidade. que são talvez. nulificando suas vidas? O latim vulgar está aí nos arquivos. Os vocábulos parecem velhas moedas de cobre. Hispânia e Rumânia. uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas. do escasso intercâmbio. incluso a custo da claridade mental. condenadas à eterna cotidianidade se adivinham atrás desse seco artefato lingüístico! O outro caráter aterrador do latim vulgar é precisamente sua homogeneidade. Mas o que se conhece basta e sobra para que nos espantem dois de seus caracteres. como ser da direita. ou por isso mesmo. uma língua triste. em boa parte. de mecanismo muito fácil. pelo contrário. é claro. que avança às cegas. que havia africanismos. ficou suplantada por uma fala plebéia. E verdade que trato de me representar como era por dentro isso que olhado de fora nos aparece. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. senão em virtude de um achatamento geral. depois dos aviadores. em certo modo. Ser da esquerda é. E eu o fiz durante toda a minha vida. que tremo quando vejo como o vento fatiga uns caniços. Consta. latim vulgar e. efetivamente. oposta à do político. hispanismos. ao mesmo tempo. gramática balbuciante e perifrástica. O assunto de que aqui se fala é prévio à política e pertence a seu subsolo. que conservava a linguagem das classes superiores. é claro. reduzindo a existência à sua base. como material. sem dúvida. pesadamente mecânico. não posso reprimir ante esse fato um estremecimento medular. testemunho de que uma vez a história agonizou sob o império homogêneo da vulgaridade por haver desaparecido a fértil "variedade de situações". Tingitânia e Dalmácia. Mas ao constar isto quer dizer-se que o torso da língua era comum e idêntico. Mas uma das coisas que agora se dizem . enquanto a do político sói. Como podiam vir à coincidência o celtibero e o belga. como um arrepiante empedernimento. sem evidência e sem calor de alma. o mauritânio e o dácio.uma "corrente" . todo o mundo tem de fazer política sensu stricto. Um é a incrível simplificação do seu mecanismo gramatical em comparação com o latim clássico. pelo contrário. com efeito. uma língua pueril ou gaga que não permite a fina aresta do raciocínio nem líricas cambiantes. porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem. Sempre estive na estacada. tranqüilamente. Ademais. não parecem admirar-se ante o fato de que falassem da mesma maneira países tão díspares como Cartago e Gália. galicismos. da dificuldade de comunicações e de que não contribuía para fixá-lo uma literatura. Parece-me simplesmente atroz. desoladas. E. como homogeneidade. como fartas de rolar pelas tabernas mediterrâneas. a esclarecer um pouco as coisas. apesar das distâncias. Os lingüistas. o morador de Hipona e o de Lutécia. IV Nem este volume nem eu somos políticos. porém.htm (14 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias. que sou bastante tímido.é que. É uma língua sem luz nem temperatura. já fala de per si. consistir em confundi-las mais do que estavam. A saborosa complexidade indo-européia. com freqüência baldada.

é esta: podem as massas. Uma vez que nos afiguramos bem de como é esse tipo humano hoje dominante. como verá o leitor. Para falar sobre ele mais seriamente e mais profundamente não haveria mais remédio senão pôr-se em roupa abissal. ainda que quisessem. a coletividade. é só uma primeira aproximação ao problema do homem atual. a meu juízo. Quando alguém nos pergunta o que somos em política. é uma e mesma coisa com o fenômeno de rebelião das massas que aqui se descreve. porque está demasiado virgem. mas com decisão. 62-63) Isso seria o único de que poderia esperar-se com alguma probabilidade a solução do tremendo problema que as massas atuais aventam. como dizia Dante.enfim. E uma cautela de higiene elemental. Para isso está aí. A política apressa-se a apagar as luzes para que todos estes gatos sejam pardos. nem de longe. os que não têm outra coisa que fazer. studiate il passo Mentre que l'Occidente non s'annera. que encontre a saída. o Estado. a sagesse . Importa fazer isso sem pretensões. é quando se suscitam as interrogações mais férteis e mais dramáticas: Pode-se reformar este tipo de homem? Quero dizer: os graves defeitos que há nele. frenética. Este volume não pretende. que não está aberto de verdade a nenhuma instância superior. depende toda possibilidade de saúde. e por isso é a predicação do politicismo integral uma das técnicas que se usam para socializá-lo. A outra pergunta decisiva. Mas há muito tempo que aprendi a ficar em guarda quando alguém cita Pascal. da qual. antecipando-se com a insolência que pertence ao estilo de nosso tempo. nada parecido. vestir o escafandro e descer ao mais profundo do homem. as únicas coisas que por sua substância são aptas para ocupar o centro da mente humana -. tão graves que se não os extirpamos produzirão de modo inexorável a aniquilação do Ocidente. ou. e eu o tentei num livro próximo a aparecer em outros idiomas sob o título El hombre y la gente. Os termos com que deve ser levantado não constam na consciência file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Como suas últimas palavras fazem constar. posto que pretenda suplantar o conhecimento.A rebelião das massas. XXVII. e que eu chamei o homem-massa. Não pode ter dentro mais que política exorbitada. o uso. A massa em rebeldia perdeu toda a capacidade de religião e de conhecimento. se trata precisamente de um homem hermético. o direito. O politicismo integral. a absorção de todas as coisas e de todo o homem pela política. nos adscreve simultaneamente em vez de responder devemos perguntar ao impertinente que pensa ele que é o homem e a natureza e a história. (Purg. É preciso que o pensamento europeu proporcione sobre todos estes temas nova claridade. E é preciso que o faça prontamente ou. E até o corroboram citando de Pascal o imperativo d'abêtissement. toleram ser corrigidos? Porque. não para fazer o leque do pavão real nas reuniões acadêmicas. que é a sociedade e o indivíduo. a religião.htm (15 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . fora de si. despertar a vida pessoal? Não cabe desenvolver aqui o tremendo tema. A política despoja o homem de solidão e intimidade.

Nem sequer está esboçado o estudo da distinta margem de individualidade que cada época do passado deixou à existência humana. que enriqueceu o mundo e a todos no mundo e foi esta riqueza que prolificou tão fabulosamente a planta humana. como até a todo desejo pessoal e buscará a solução oposta: imaginará para si uma vida standard. ao mesmo tempo. pelo contrário ressuma só vagas filantropias. incorpora-se em mim. caminhos que não parecem passar por uma miserável socialização. muito difícil salvar uma civilização quando lhe chegou a hora de cair sob o poder dos demagogos. portanto. o tema da "justiça social". os exemplos mais vis da natureza humana deparam-se entre os demagogos" (17). mas dirigir-se em linha reta para um magnânimo solidarismo. mas não creio que exagera a situação efetiva em que se vão achando quase todos os europeus. obsedante. porque não há a sua disposição espaço em que possa alojá-la e em que possa mover-se segundo seu próprio ditame? Logo advertirá que seu projeto tropeça com o próximo. que vão e vêm por suas ruas ou se concentram em festivais e manifestações políticas. orienta sobre os caminhos acertados para conseguir o que dessa "justiça social". composta de desiderata comuns a todos e verá que para consegui-la tem de solicitá-la ou exigi-la em coletividade com os demais. está visível. ninguém pode mover um braço ou uma perna por iniciativa própria. faria sua reaparição na Europa o esfomeamento gigantesco do Baixo Império. a história está cheia de retrocessos nesta ordem. Este último vocábulo é. O desânimo o levará com a facilidade de adaptação própria de sua idade a renunciar não só a todo ato. este pensamento: Pode hoje um homem de vinte anos formar um projeto de vida que tenha figura individual e que. e talvez a estrutura da vida em nossa época impeça superlativamente que o homem possa viver como pessoa. Mas nem sequer esta cruel imagem é uma solução. mas nulo historiador. além do mais. necessitaria realizar-se mediante suas iniciativas independentes. como a vida do próximo aperta a sua. Porque é pura inércia mental do "progressismo" supor que conforme avança a história. Mas um homem não é demagogo somente porque se ponha a gritar ante a multidão. Só isto nos levará a atacar o mal nos estratos fundos de onde verdadeiramente se origina. porque até hoje não se condensou nele um sistema enérgico de idéias históricas e sociais. é possível e é justo conseguir. A grega e a romana sucumbiram nas mãos desta fauna repugnante. Restariam muito menos homens. e o formigueiro sucumbiria como ao sopro de um deus torvo e vingativo. Os demagogos têm sido apenas os grandes estranguladores de civilizações. com efeito. que o seriam um pouco mais. Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomerações de seres humanos. pública. inoperante. Não. Isso pode ser em ocasiões file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. porque foi o chamado "individualismo". quase improvável. queiramos ou não. É. os movimentos têm de se executar em comum. porque chocaria com os corpos dos demais. mediante seus esforços particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem em sua fantasia. e até os músculos respiratórios têm de funcionar a ritmo de regulamento. não notará que é. Quando os restos desse "individualismo" desaparecessem. empalidece e se degrada até parecer retórico e insincero suspiro romântico. O formigueiro humano é impossível. Em uma prisão onde se amontoaram muito mais presos dos que cabem.A rebelião das massas.htm (16 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Em tal circunstância. apesar de tão respeitável. como cria o honrado engenheiro. A coisa é horrível. Ante o feroz patetismo desta questão que. Isto seria a Europa convertida em formigueiro. assim cresce a folga que se concede ao homem para poder ser indivíduo pessoal. Daí a ação em massa. senão impossível. que fazia Macaulay exclamar: "Em todos os séculos. Mas. A primeira condição para um melhoramento da situação presente é perceber bem sua enorme dificuldade. Herbert Spencer.

o que encontramos é que essas revoluções serviram principalmente para que durante todo um século. A demagogia é uma forma de degeneração intelectual. salvo as estátuas. por isso é consubstancial às revoluções o fracasso. Com o pequeno busto de Comte que há em seu departamento da rue Monsieur-le-Prince falei sobre pouvoir spirituel. Mas o racionalismo físico-matemático tem sido na França demasiado glorioso para que não tiranize a opinião pública. Mas era natural que me interessasse sobretudo em ouvir uma vez mais a palavra do nosso sumo mestre Descartes. E o único método de pensamento que proporciona alguma probabilidade de acerto em sua manipulação é a "razão histórica". a grande depressão moral da história francesa que foram os vinte anos do Segundo Império. quanto mais sê-lo. Algumas destas. grande parte dos quais confessou o próprio Raspail que haviam sido antes clientes seus. por tradição! É verdade que na França fez-se uma Grande Revolução e várias torvas ou ridículas. Ao mesmo tempo tive a honra de receber o encargo de uma enérgica mensagem que esse busto dirige ao outro. entretanto. radica em sua irresponsabilidade ante as idéias mesmas que maneja e que ele não criou. Isso é o que. a França tenha vivido mais que outro qualquer povo sob formas políticas. porque são históricos. que o método para resolver os grandes problemas humanos é o método da revolução. Quando se contempla panoramicamente a vida pública da França durante os últimos cento e cinqüenta anos. compreendi que eu não conhecia ninguém na grande cidade. antigas incitações ou perenes mestres de minha intimidade. Nelas se raciocina com o marquês de Condorcet. e que conseguiram ao contrário. E como não tinha com quem falar. Nas revoluções tenta a abstração sublevar-se contra o concreto. Malebranche rompe com um amigo seu porque viu sobre sua mesa um Tucídides (21). e por sua irradiação. desde então. Os problemas humanos não são. que está no Quai Conti. erigido na praça de Sorbonne. do oficial. são velhas amizades. do de Littré. salta à vista que seus geômetras. chamado Endageest. mas. crê a França. insuficientemente exercido por mandarins literários e por uma Universidade que ficou completamente excêntrica diante da efetiva vida das nações. abstratos. a vontade de transformar de chofre tudo e em todos os gêneros (19). impelindo minha solidão pelas ruas de Paris. salvo uns dias ou umas semanas. cujas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O puro acaso que ciranda minha existência fez que eu redija estas linhas tendo à vista o lugar da Holanda em que habitou em 1642 o novo descobridor da raison. que dulcificaram uma etapa dolorosa e estéril de minha vida. Estes meses passados. como os astronômicos ou os químicos. paradoxalmente. acertar seus historiadores. Não sei se algum dia sairão à luz estas Conversaciones con estatuas. quase todo o continente. seus físicos e seus médicos se equivocaram sempre em seus juízos políticos. em maior ou menor escala. o homem a quem a Europa mais deve. se nos atemos à verdade nua dos anais. E se ser revolucionário é já coisa grave. sobre a perigosa idéia do progresso. autoritárias e contra-revolucionárias.A rebelião das massas. que como amplo fenômeno da história européia aparece na França em 1750. Por que então? Por que na França? Este é um dos pontos nevrálgicos do destino ocidental e especialmente do destino francês. conversei com elas sobre grandes temas humanos. Sobretudo.htm (17 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e que é o busto do falso Comte. Porque esse país tem ou crê que tem uma tradição revolucionária. deveu-se bem claramente à extravagância dos revolucionários de 1848 (20). mas recebeu dos verdadeiros criadores. Este lugar. Graças a isso essa maravilha que é a França chega em más condições à difícil conjuntura do presente. A demagogia essencial do demagogo está dentro de sua mente. entendendo por tal o que já Leibnitz chamava uma "revolução geral" (18). São problemas de máxima concreção. uma magistratura sacrossanta. ao grande.

Por isso o povo inglês." Romper a continuidade com o passado. Por isso Nietzsche define o homem superior como o ser "de memória mais desenvolvida. porque cada tigre tem de começar de novo a ser tigre. Ante a turbulência atual do continente quis afirmar as normas permanentes que regulam sua vida. e seu intelecto tem de trabalhar sobre um mínimo material de experiências. seu privilégio e sua marca. Seus fabulosos triunfos sobre a natureza. sublinham tanto mais seu fracasso ante os assuntos propriamente humanos e convidam a integrá-la em outra razão mais radical. que em 1860 se atrevesse a clamar: "La continuité est un droit de l'homme. deu agora inusitada solenidade ao rito da coroação. de proclamar direitos. espezinhado e esfarrapado. possui-o e o aproveita. nunca maduros. O homem. efetivamente. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros. que nos permite não cometer os mesmos sempre. nem mandar o Exército. a Inglaterra. atrás deles. E a riqueza menor desse tesouro consiste no que dele pareça acertado e digno de conservar-se: o importante é a memória dos erros. superiores a quanto pudera sonhar-se. pelo contrário. falando rigorosamente. Diante de mim está um jornal em que acabo de ler o relato das festas com que a Inglaterra celebrou a coroação do novo rei. Esta nos mostra a vaidade de toda revolução geral. e ao fundo.já que a Europa sempre pareceu um tropel de povos -. Porque. Semelhantemente. sempre pueris. elle est un hommage à tout ce qui le distingue de la bête" (23). biológica.. A Monarquia da Inglaterra exerce uma função determinadíssima e de alta eficácia: a de simbolizar. que é a "razão histórica" (22). cheios de gênio. A única diferença radical entre a história humana e a "história natural" é que aquela não pode nunca começar de novo. Esta raison é só matemática. Os pobres animais cada manhã esquecem quase tudo que viveram no dia anterior. com deliberado propósito. Seu papel não é governar. Ao método da revolução opõe o único digno da larga experiência que o europeu atual tem atrás de si. Dupont-White. nem administrar a justiça. mas isentos de serenidade. o direito fundamental do homem. querer começar de novo. os continentais. a Monarquia não exerce no Império britânico nenhuma função material e palpável. Apraz-me que seja um francês. tão fundamental que é a definição mesma de sua substância: o direito à continuidade. como a nurse da Europa. Mas nem por isso é uma instituição vazia. violaram sempre. o tigre de hoje é idêntico ao de seis mil anos. a extensa experiência vital decantada gota a gota em milênios. chamamos inteligência. como se não houvesse outro antes. Três séculos de experiência "racionalista" obrigam-nos a rememorar o esplendor e os limites daquela prodigiosa raison cartesiana.em admoestadora vizinhança . file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.. Este é o tesouro único do homem. acumula seu próprio passado. O homem não é nunca um primeiro homem: começa desde logo a existir sobre certa altitude de pretérito amontoado. de tudo quanto seja tentar a transformação súbita de uma sociedade e começar de novo a história.vejo passar os idiotas e os dementes que arejam por momentos à intempérie sua malograda humanidade. é aspirar a descer e plagiar o orangotango.A rebelião das massas. é hoje um manicômio. mercê de seu poder de recordar. hipocritamente generosa. Deu-nos mais uma lição. mas porque têm muito menos memória que nós. carente de serviço. como pretendiam os confusonários do 89. mas dizendo-o assim deixamos escapar o melhor. árvores dão sombra a minha janela. As revoluções tão incontinentes em sua pressa. Como sempre . física. Duas vezes ao dia . Diz-se que há muito a Monarquia inglesa é uma instituição meramente simbólica. Köhler e outros mostraram como o chimpanzé e o orangotango não se diferenciam do homem pelo que. Isso é verdade.htm (18 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .

a hispânica. retroceder aos anos 1926-1928. ao método revolucionário o método da continuidade. Porque não convém esquecer que então se pensava mui seriamente que os americanos haviam descoberto outra organização da vida que anulava para sempre as perpétuas pragas humanas que são as crises. sustentando que a América. a Inglaterra opôs. E. era. ao ler esses capítulos. o único que pode evitar na marcha das coisas humanas esse aspecto patológico que faz da história uma luta ilustre e perene entre os paralíticos e os epiléticos.como me dizia uma naquela ocasião . Praticamente deveríamos omitir o quase. mais uma vez. pensava-se: aí está a América! Era a América da fabulosa prosperity. sobretudo. por assim dizer. era-o e o é muito mais a América do Norte do que a América do Sul. que conserva em ativa posse."convencer-se de que na Europa não há nada interessante" (25). Eu me envergonhava de que os europeus. Violentando-me isolei neste quase-livro. O inglês faz empenho de nos fazer constar que seu passado.htm (19 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mostrassem carecer dele completamente. continua existindo para ele. Com as festas simbólicas da coroação. e depois penetro um pouco mais em direção a suas vísceras. o lugar onde pretérito e futuro efetivamente existem. Ainda gozam os luxos da inflação. A pele do tempo mudou. procedo partindo de seu aspecto externo. V Como nestas páginas se faz a anatomia do homem hoje dominante. à abstenção de expressar minhas convicções sobre tudo quanto toco de passagem. de sua pele. um remoto passado porque era primitivismo. Tive então a coragem de me opor a semelhante deslize. do problema total que e para o homem e especialmente para o homem europeu seu imediato porvir. porque lhe passou. Este povo circula por todo o seu tempo. Daí por que sejam os primeiros capítulos os que mais caducaram. inventores do mais elevado que até agora se inventou .A rebelião das massas. é verdadeiramente senhor de seus séculos. Hoje a coisa vai sendo clara e os Estados Unidos não enviam já ao velho continente senhoritas para . O velho lugar comum de que a América é o porvir havia nublado por instantes sua perspicácia. Isto me obrigou a um duro ascetismo. a coroa e o cetro que entre nós regem apenas a sorte do baralho. já que o presente é só a presença do passado e do porvir. longe de ser o futuro.porque não deixaram nunca de ser atuais os mais velhos e mágicos utensílios de sua história. com certa impertinência do mais puro dandysmo. inclusive os próprios economistas. E isso é ser um povo de homens: poder hoje continuar no seu ontem sem por isso deixar de viver para o futuro. mas ainda parece uma de tantas. Já começou a crise na Europa. As pessoas ainda sentem-se em segurança. também contra o que se crê. E eis aqui que este povo nos obriga. precisamente porque passou. Desde um futuro ao qual não chegamos mostra-nos a vigência louçã de seu pretérito (24). a presenciar seu vetusto cerimonial e a ver como atuam . poder existir no verdadeiro presente. é não haver incorrido no inconcebível erro de ótica que sofreram então quase todos os europeus. E. na realidade. Este é o povo que sempre chegou antes ao porvir. que se antecipou a todos em quase todas as ordens. O único do que vai dito nestas páginas que me inspira algum orgulho. Mais ainda: a apresentar freqüentemente as coisas em forma que se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.o sentido histórico -. O leitor deveria. um só fator: a caracterização do homem médio que hoje se vai apoderando de tudo.

nações. desde que não sejam muito extemporâneos. quer dizer-se que a Europa sofre agora a mais grave crise que a povos.htm (20 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . ainda que não de analisar. às palavras "rebelião". O FATO DAS AGLOMERAÇÕES (26) Há um fato que. maio.A rebelião das massas. O que antes não era problema. é o mais importante na vida pública européia da hora presente. sublinhando uma feição de nossa época que é visível com os olhos da cara. e nos surpreenderá ver como dele brota um repuxo inesperado. 1937. Este fato é o advento das massas ao pleno poderio social. culturas. na vida atual? Vamos agora puncionar o corpo trivial desta observação. A vida pública não é só política. PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I. Basta assinalar uma questão. era a mais favorável para aclarar o tema exclusivo deste estudo. Os espetáculos. não devem nem podem dirigir sua própria existência. Qualquer que seja nossa atitude ante a civilização e a cultura. Talvez a melhor maneira de aproximar-se a este fenômeno histórico consista em referir-nos a uma experiência visual. Como as massas. As praias. "Het Witte Huis". como um fator de primeira ordem com que se deve contar. cheios de transeuntes. "poderio social". intelectual. moral. cheios de espectadores. a anomalia representada pelo homem-massa. cheios de consumidores. no final das contas. o leitor francês esperar mais deste volume. mais constante. mais notório. As cidades estão cheias de gente.a civilização e a cultura . ao mesmo tempo e ainda antes. e menos reger a sociedade. cheios de viajantes. mas. senão um ensaio de serenidade em meio à tormenta. cabe padecer. do "cheio". um significado exclusivo ou primariamente político. pois. para bem ou para mal. Chama-se a rebelião das massas. desde já. etc. Medi o homem médio quanto a sua capacidade para continuar a civilização moderna e quanto a sua adesão à cultura. Dir-se-ia que essas duas coisas . Esta crise sobreveio mais de uma vez na história.não são para mim questões. era a pior para deixar ver minha opinião sobre estas coisas. Não deve. Os trens. Oegstgeest-Holanda. está aí. Os cafés. A verdade é que elas são precisamente o que ponho em questão quase desde meus primeiros estudos. cheias de banhistas. que não é. Simplicíssima de enunciar. Há fato mais simples. Nada mais. religiosa. "massas". JOSE ORTEGA Y GASSET. eu a denomino o fato da aglomeração. por definição. onde a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. embora fundamental. econômica. compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de vestir e o modo de gozar. Os passeios. cheias de enfermos. Por isso urgia isolar cruamente seus sintomas. começa a sê-lo quase de contínuo: encontrar lugar. As salas dos médicos famosos. As casas cheias de inquilinos. Para a inteligência do formidável fato convém que se evite dar. Também se conhece seu nome. Mas eu não devia complicar os assuntos. Os hotéis cheios de hóspedes. Sua fisionomia e suas conseqüências são conhecidas.

os antigos deram a Minerva a coruja. e instalou-se nos lugares preferentes da sociedade. Surpreender-se. em definitiva. pois. levavam uma vida. é começar a entender. Com efeito. uma inovação. estranhar. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ou cheio. aparecem sob a espécie de aglomeração. A aglomeração. divergente. não há dúvida. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem abertas. dissociada. E evidente. Por que o é agora? Os componentes dessas multidões não surgiram do nada. Sim. Por isso. ao contrário. de repente. Que ganhamos com esta conversão da quantidade para a qualidade? Muito simples: por meio desta compreendemos a gênese daquela. talvez o seu. Dir-se-á que é o que acontece com todo grupo social. Traduzamo-lo. ocupava o fundo do cenário social. Então achamos a idéia de massa social. A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e massas.htm (21 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . à terminologia sociológica. agora adiantou-se até às gambiarras. que houve uma mudança. portanto. não é o ideal? O teatro tem suas localidades para que se ocupem.A rebelião das massas. Deste modo se converte o que era meramente quantidade . ela é o personagem principal. distante. criação realmente refinada da cultura humana. Que é o que vemos e ao vê-lo nos surpreende tanto? Vemos a multidão. leva o intelectual pelo mundo em perpétua embriaguez de visionário. com a primeira nota importante. Isso. Aproximadamente. a qual justifica. e nossos olhos vêm por toda a parte multidões. por massas só nem principalmente "as massas operárias ". Mas quê. A multidão. mas não como multidão. Por isso sua atitude gremial consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. Não se entenda. Já não há protagonistas: só há coro. Cada qual . no bairro da grande cidade. Antes. como tal. precisamente nos lugares melhores. passava inadvertida. O conceito de multidão é quantitativo e visual. do presente. o mesmo número de pessoas existia há quinze anos. e agora transbordam. deste dia. Repartidos pelo mundo em pequenos grupos. não. Apenas refletimos um pouco. se decompõe em todo o seu rico cromatismo interior. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. entretanto. idéias. por seleto que pretenda ser. de repente. mas que repete em si um tipo genérico. E o esporte e o luxo específico do intelectual. As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. para que a sala esteja cheia. o pássaro com os olhos sempre deslumbrados. Por toda a parte? Não. portanto. na aldeia. nossa surpresa.numa determinação qualitativa: é a qualidade comum. na vila. natural. no campo. se existia. Depois da guerra pareceria natural que esse número fosse menor. Os indivíduos que integram estas multidões preexistiam. sem alterá-lo. E do mesmo modo os assentos o vagão ferroviário e seus quartos o hotel. tornou-se visível. que a formação normal de uma multidão implica a coincidência de desejos. fica fora gente afanosa de usufruí-los. de modo de ser nos indivíduos que a integram.indivíduo ou pequeno grupo ocupava o lugar. não se pode desconhecer que antes não acontecia e agora sim. ou solitários. possuidora dos locais e utensílios criados pela civilização.a multidão . é o mostrengo social. até acaciano. Agora. é o homem enquanto não se diferencia de outros homens. nos surpreendemos de nossa surpresa. a minorias. Embora o fato seja lógico. Seu atributo são os olhos em pasmo. pelo visto. branca luz do dia. maravilhar-se. Mas o fato é que antes nenhum destes estabelecimentos e veículos costumavam estar cheios. Aqui topamos. antes não era freqüente. reservados antes a grupos menores. é a delícia vedada ao futebolista e que. pelo menos no primeiro momento. Massa é "o homem médio".

Falando do reduzido público que ouvia um músico refinado. Quando se fala de "minorias seletas". a rigor. Claro está que nas superiores. Massa é todo aquele que não se valoriza a si mesmo . Este homem sentir-se-á medíocre e vulgar. é esta em duas classes de criaturas: as que exigem muito de si e acumulam sobre si mesmas dificuldades e deveres. posterior a haver-se cada qual singularizado. Há casos em que esse caráter singularizador do grupo aparece a céu descoberto: os grupos ingleses que se chamam a si mesmos "não conformistas". portanto. Este ingrediente de juntarem-se os menos precisamente para separar-se dos demais vai sempre misturado na formação de toda minoria. sem necessidade de esperar que apareçam os indivíduos em aglomeração. Imagine-se um homem humilde que ao tentar valorizar-se por razões especiais . Mas. e é. e as que não exigem de si nada especial. da massa e do vulgo. Sua coincidência com os outros que formam a minoria é. sente-se à vontade ao sentir-se idêntico aos demais. isto é.htm (22 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mas que para elas viver é ser em cada instante o que já são. a coincidência efetiva de seus membros consiste em algum desejo. A divisão da sociedade em massas ou minorias excelentes não é. idéia ou ideal. entretanto. dentro de cada classe social há massa e minoria autêntica. e. mais rigorosa e difícil. a um máximo de exigências ou a um mínimo. adverte-se o progressivo triunfo dos pseudo-intelectuais inqualificados. mais frouxa e trivial. A rigor. seja qual seja. diz graciosamente Mallarmé que aquele público salientava com a presença de sua escassez a ausência multitudinária. O mesmo nos grupos sobreviventes da "nobreza" masculina e feminina. que por si exclui o grande número.no bem ou no mal . inqualificáveis e desclassificados por sua própria contextura. "caminho menor". mas em classes de homens. na vida intelectual. relativamente individuais. mas que se sente "como todo o mundo".e o Hinayana "pequeno veículo". mas o que exige mais de si que os demais. A seu turno. ou Mahayana . e não pode coincidir com a jerarquização em classes superiores e inferiores. mas não se sentirá "massa". outra. enquanto as inferiores estão normalmente constituídas por indivíduos sem qualidade. Como veremos. Para formar uma minoria. sem esforço de perfeição em si mesmas. quando chegam a sê-lo e enquanto o forem de verdade há mais verossimilitude em achar homens que adotam o "grande veículo". que antes file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas há uma diferença essencial. e mal dotado. Assim. pois. embora não consiga cumprir em sua pessoa essas exigências superiores. secundário. a agrupação dos que concordam só em sua desconformidade a respeito da multidão ilimitada. é característico do tempo o predomínio. se sobressai em alguma ordem . uma divisão em classes sociais. Nos grupos que se caracterizam por não ser multidão e massa. a massa pode definir-se. bóias que vão à deriva."grande veículo" ou "grande carril" . Isto me lembra que o budismo ortodoxo se compõe de duas religiões distintas: uma. não é raro encontrar hoje entre os obreiros.adverte que não possui nenhuma qualidade excelente. ainda nos grupos cuja tradição era seletiva. Diante de uma só pessoa podemos saber se é massa ou não. portanto. O decisivo é se pomos nossa vida num ou no outro veículo. é preciso que antes cada qual se separe da multidão por razões essenciais. não se angustia. como fato psicológico. a velhacaria habitual costuma tergiversar o sentido desta expressão.por razões especiais. que por sua própria essência requer e supõe a qualificação. fingindo ignorar que o homem seleto não é o petulante que se supõe superior aos demais. E é indubitável que a divisão mais radical que cabe fazer na humanidade. em boa parte uma coincidência em não coincidir.ao perguntar de si para si se tem talento para isto ou para aquilo.A rebelião das massas.

suplanta as minorias. Talvez cometa eu um erro. ao tomar da pena para escrever sobre um tema que estudou intensamente. especiais. deplorará que as pessoas gozem hoje em maior medida e número que antes. por meio de pressões materiais. convivência legal. E claro está que esse "todo o mundo" não é "todo o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a massa crê que tem direito a impor e dar vigor de lei a seus tópicos de café. que. com todos os seus defeitos e vícios. Assim . atividades. pelo contrário. isso era a democracia liberal. individual. por sua vez. no final das contas. não se manifesta. Conhecia seu papel numa saudável dinâmica social.antecipando o que logo veremos -. nem pode manifestar-se. A massa não pretendia intervir nelas: percebia-se que se queria intervir teria congruentemente de adquirir esses dotes especiais e deixar de ser massa. almas egregiamente disciplinadas. por sua mesma natureza. muito especialmente na intelectual. O mal é que esta decisão tomada pelas massas de assumir as atividades próprias das minorias. que nunca se ocupou do assunto. os locais não estavam premeditados para as multidões. Ao amparo do princípio liberal e da norma jurídica podiam atuar e viver as minorias. não é com o fim de aprender algo dele. mas que é uma maneira geral do tempo. creio eu. Como se diz na América do Norte: ser diferente é indecente. impondo suas aspirações e seus gostos. A massa atropela tudo que é diferente. Se os indivíduos que integram a massa se acreditassem especialmente dotados. só na ordem dos prazeres. É evidente que. Isso era o que antes acontecia. se o lê. posto que sua dimensão seja muito reduzida e o povo transborde constantemente deles. Ninguém. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa atua diretamente sem lei. que são. qualificado e seleto. egrégio. corre o risco de ser eliminado. por exemplo. A massa presumia que. deve pensar que o leitor médio. funções da ordem mais diversa. não podem ser bem executadas sem dotes também especiais. para sentenciar sobre ele quando não coincide com as vulgaridades que este leitor tem na cabeça. Democracia e Lei. Antes eram exercidas estas atividades especiais por minorias qualificadas . Se agora retrocedermos aos fatos enunciados a princípio.A rebelião das massas. Por exemplo: certos prazeres de caráter artístico e luxuoso. Pelo contrário. conseqüentemente. quem não pense como todo o mundo.htm (23 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . É falso interpretar as situações novas como se a massa se houvesse cansado da política e encarregasse a pessoas especiais seu exercício. sabendo-se vulgar. mas não uma subversão sociológica. pelo menos. Eu duvido que tenha havido outras épocas da história em que a multidão chegasse a governar tão diretamente como em nosso tempo. Quem não seja como todo o mundo. ou bem as funções de governo e de juízo político sobre os assuntos públicos. em pretensão -. O mesmo acontece nas demais ordens. tem o denodo de afirmar o direito de vulgaridade e o impõe por toda a parte. Todos eles indicam que esta resolveu avançar para o primeiro plano social e ocupar os locais e usar os utensílios e gozar dos prazeres antes adstritos aos poucos. eles nos aparecerão inequivocamente como núncios de uma mudança de atitude na massa. teríamos não mais de um caso de erro pessoal. O característico do momento é que a alma vulgar. mas. Ao servir a estes princípios o indivíduo obrigava-se a sustentar em si mesmo uma disciplina difícil. as minorias dos políticos entendiam um pouco mais dos problemas públicos que ela. Por isso falo de hiperdemocracia. eram sinônimos. creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. e. demonstrando aos olhos e com linguagem visível o fato novo: a massa. sem deixar de sê-lo. mas o escritor. Agora. Ora bem: existem na sociedade operações.qualificadas. podiam valer como o exemplo mais puro disto que chamamos "massa". A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. já que têm para isso os apetites e os meios.

que se chama a si mesmo "a sociedade" e que vive simplesmente de convidar-se ou de não convidar-se. agora. ver por dentro o espetáculo. estrela de primeira grandeza no zodíaco da elegância madrilenha. mas uma missão muito subalterna e incomparável com a faina hercúlea das autênticas aristocracias. Por isso. talvez exata. teríamos de insinuar-nos no mundo antigo. A época das massas é a época do colossal (27). Vivemos sob o brutal império das massas. A aristocracia social não se parece nada a esse grupo reduzidíssimo que pretende assumir para si íntegro o nome de "sociedade". teríamos de pular fora de nossa história e submergir-nos em um orbe. Muito me fez meditar certa damazinha em flor. que a sociedade humana é aristocrática sempre. em um elemento vital. A história do Império romano é também a história da subversão. cada dia com mais enérgica convicção. que este fabuloso advento das massas à superfície da história não me inspirava outra coisa senão algumas palavras displicentes. como observou muito bem Spengler. e deixa de sê-lo na medida em que se desaristocratize. Se temos de achar algo semelhante. Certamente que essa mesma "sociedade distinta" está de acordo com o tempo. normalmente. podemos alegremente ingressar no tema. mas externa. Como tudo no mundo tem sua virtude e sua missão. Perfeitamente. em aparência tão sem sentido. que é só a fachada. Jamais. em todo o seu desenvolvimento. e chegar a sua hora de declinação. Bem entendido que falo da sociedade e não do Estado. como um fidalgote de Versalhes. ficaria o leitor pensando. "Todo o mundo" era. Não: a quem sinta a missão profunda das aristocracias. a mim. Eu não teria inconveniente em falar sobre o sentido que possui essa vida elegante. de verdadeiramente aristocrático só restava naqueles seres a graça digna com que sabiam receber em seu pescoço a visita da guilhotina. descrito sem ocultar a brutalidade de sua aparência. com o bilhete na mão. Eu disse e continuo crendo. Ou supunha-se que eu ia contentar-me com essa descrição.A rebelião das massas. seja o aristocrático contentar-se com fazer um breve trejeito amaneirado. até o ponto de que é sociedade na medida em que seja aristocrática.htm (24 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . aconteceu nada semelhante. II.entende-se esse Versalhes dos trejeitos . um pouco de abominação e outro pouco de repugnância. também tem as suas dentro do vasto mundo este pequeno "mundo elegante". por sua própria essência. Ninguém pode acreditar que diante deste fabuloso encrespamento da massa. A ASCENSÃO DO NÍVEL HISTÓRICO Este é o fato formidável do nosso tempo. porque me disse: "Eu não tolero um file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.não é aristocracia. aceitavam-na como o tumor aceita o bisturi. É. queira ou não. especiais. muito justamente. Então se produz também o fenômeno da aglomeração. do cheio. é o seu oposto: é a morte e a putrefação de uma magnífica aristocracia. completamente diferente do nosso. ademais. foi preciso construir. mas muito mais que isso. edifícios enormes. Agora todo o mundo é só a massa. de quem é notório que sustento uma interpretação da história radicalmente aristocrática (28) É radical. desdenhosas. porque eu não disse nunca que a sociedade humana deva ser aristocrática. já pagamos nosso tributo ao deus dos tópicos. mas nosso tema é agora outro de maiores proporções. o espetáculo da massa o incita e aviva como ao escultor a presença do mármore virgem. mundo". do império das massas que absorvem e anulam as minorias dirigentes e se colocam em seu lugar. já chamamos duas vezes "brutal" a este império. Por isso. o frontispício sob os quais se apresenta o fato tremendo quando é olhado desde o passado? Se eu deixasse aqui este assunto e estrangulasse meu presente ensaio. Versalhes . de uma absoluta novidade na história de nossa civilização. toda juventude e atualidade. a unidade complexa de massa e minorias discrepantes. como se faz agora.

de idéia ou ideal jurídico que era. Quem não tenha sentido na mão palpitar o perigo do tempo. que se ia entusiasmando com a idéia desses direitos como com um ideal. com o que antes parecia reservado exclusivamente às minorias. em grande parte. Sentem apetites e necessidades que antes se qualificavam de refinamentos. quaisquer que sejam as suas idéias. ao mesmo tempo as massas tornaram-se indóceis diante das minorias. quem não entende esta curiosa situação das massas não pode compreender nada do que hoje começa a acontecer no mundo. não chegou à entranha do destino. com algo. Isto foi. Todo outro direito imposto a dotes especiais ficava condenado como privilégio. depois. O "povo" . beatamente. as massas exercitam hoje um repertório vital que coincide. esses poucos começaram a usar praticamente dessa idéia. segunda. com relativa suficiência. a rigor. inclusive quando as suas idéias são reacionárias.htm (25 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . E note-se bem: quando algo que foi ideal se faz ingrediente da realidade. Analisemos a primeira rubrica. Através desta frase vi que o estilo das massas triunfa hoje sobre toda a área da vida e se impõe ainda naqueles últimos rincões que pareciam reservados aos happy few. o ingrediente terrível é posto pela atropelante e violenta sublevação moral das massas. Não obstante. os chamados direitos do homem e do cidadão. que são seu efeito sobre o homem. que são atributos do ideal. um puro teorema e idéia de uns poucos. não os exercitava nem fazia valer senão de fato. possuía certos direitos políticos fundamentais. cósmico sinal de interrogação. o qual tem sempre uma forma equívoca. certas minorias descobriram que todo indivíduo humano. não fez mais senão acariciar sua mórbida face. Mais ainda: as massas conhecem e empregam hoje. vejam-se as Memórias da comtesse de Boigne. indomável e equívoca como todo destino. pois. sem estremecer de espanto. as técnicas jurídicas e sociais. Os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e sem necessidade de qualificação alguma. Quero dizer com ela que as massas gozam dos prazeres e usam os utensílios inventados pelos grupos seletos e que antes só estes usufruíam. não lhes obedecem. sob as legislações democráticas.A rebelião das massas. No nosso. muitas das técnicas que antes só os indivíduos especializados manejavam. inexoravelmente deixa de ser ideal. A meu juízo. a ser um estado psicológico constitutivo do homem médio.segundo então era chamado -. que são esquemas externos da vida pública. não as seguem. não já nas legislações. Repilo. se volatilizam. toda interpretação de nosso tempo que não descubra a significação positiva oculta sob o atual império das massas e das que o aceitam. não as respeitam. estes direitos comuns a todos são os únicos existentes. porque eram patrimônios de poucos. baile ao qual tenham sido convidadas menos de oitocentas pessoas". Todo destino é dramático e trágico em sua profunda dimensão. pelo mero fato de nascer. não os sentia em si. colossal. efetivamente. passou. continuava sentindo-se a si mesma como no antigo regime. instalada sobre nosso tempo como um gigante. do indivíduo humano genérico e como tal. Para onde nos leva? É um mal absoluto. de guilhotina ou de forca mas também com algo que quisera ser um arco triunfal! O fato de que necessitamos submeter a anatomia pode formular-se sob estas duas rubricas: primeira. A soberania do indivíduo não qualificado. mas. e que. pelo contrário. as puseram de lado e as suplantam. E não apenas as técnicas materiais. ou um bem possível? Aí está. imponente. No século XVIII. Hoje aquele ideal converteu-se numa realidade. a impô-la e reclamá-la: as minorias melhores. O prestígio e a magia autorizante. mas não acreditava nisso. igualmente. primeiro. durante todo o século XIX a massa. mas no coração de todo indivíduo. quer dizer. inclusive quando esmaga e tritura as instituições onde aqueles direitos se sancionam. continuava vivendo. Um exemplo trivial: em 1820 não havia em Paris dez quartos de banho em casas particulares. o que é mais importante. mas. o "povo" sabia já que era soberano.

desorientados pelo parecido externo. Não recebeu ainda influxo grande da América. da América. os progressistas de há 30 anos? Ou é que. que o nível médio da vida seja o das antigas minorias. o exército humano se compõe já de capitães. que cuide de sua pessoa e seus ócios. que componha sua indumentária: são alguns dos atributos perenes que acompanham a consciência de senhorio. e. Todo o bem. é um fato novo na história. praticamente desde sempre. Não era isto que se queria? Que o homem médio se sentisse amo. que a vida do homem médio está agora constituída pelo repertório vital que antes caracterizava só as minorias culminantes. que imponha decidido sua vontade. dono. Isso. O soldado do dia. a Europa se americanizou e que isto é devido a um influxo da América na Europa. todo o mal do presente e do imediato porvir tem neste ascenso geral do nível histórico sua causa e sua raiz. que se negue a toda servidão. Se. para ver clara minha intenção. Então não estranhe que atue por si. constitucional. mas não se produziram no próximo passado. depois de dois file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. iniciam-se agora mesmo. que reclame todos os prazeres. tem muito de capitão. ascendeu. de que o presente é broto. com efeito. A galanteria tenta agora subornar-me para que eu diga aos homens de Ultramar que. Basta ver a energia. a resolução. mas era o fato nativo. eventualmente. o nível médio se acha hoje onde antes só tocavam as aristocracias. como os meninos querem uma coisa. em totalidade.htm (26 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mas em sua manifestação. de uma moda. diríamos. Ora bem: o sentido daqueles direitos não era outro senão tirar as almas humanas de sua interna servidão e proclamar dentro delas certa consciência de senhorio e dignidade.depois de largas e subterrâneas preparações. agarra o prazer que passa. é na história o que é o nível do mar na geografia. Por que se queixam os liberais. que não continue dócil. Hoje os achamos residindo no homem médio. Tanto um como outro. senhor de si mesmo e de sua vida? Já está conseguido. de um salto.A rebelião das massas. acreditavam que se tratava de uma leve mudança nos costumes. impõe sua decisão. banalizou-se a questão. o tom e maneiras da vida européia em todas as ordens adquire de repente uma fisionomia que fez muitos dizer: "A Europa está se americanizando". em apetites de supostos inconscientes. E nova coincidência. o desembaraço com que qualquer indivíduo luta hoje pela existência. na consciência de igualdade jurídica. Julgamos pois. A vida humana. que na Europa só os grupos preeminentes conseguiam adquirir. ainda mais curiosa! Ao aparecer na Europa esse estado psicológico do homem médio. na massa. mas não suas conseqüências? Quer-se que o homem médio seja senhor. o atribuíam a não se sabe que influxo da América na Europa. acontecia na América. numa geração. Mas agora nos ocorre uma advertência impremeditada. Há aqui um cúmulo desesperante de idéias falsas que nos estorvam a visão tanto aos americanos como aos europeus. O triunfo das massas e a conseguinte magnífica ascensão de nível vital aconteceu na Europa por razões internas. que é muito mais sutil e surpreendente e profunda. Ora bem: o homem médio representa a área sobre que se move a história de cada época. Mas não: a verdade entra agora em colisão com a galanteria. Com isso. é o que desde o século XVIII. Esse estado psicológico de sentir-se amo e senhor de si e igual a qualquer outro indivíduo. de aspirações de ideais. a meu juízo. e deve triunfar. Pense o leitor. de repente -. os democratas. ao subir o nível de sua existência integral. direitos niveladores da generosa inspiração democrática converteram-se. quer dizer-se lisa e lhanamente que o nível da história ascendeu de repente . A Europa não se americanizou. Os que isto diziam não davam ao fenômeno importância maior. pois.

E como o europeu se achava vitalmente mais baixo. porque ele nos proporciona a maneira de fixar um dos caracteres mais surpreendentes de nossa época. mas quanto à vitalidade. um aspecto favorável enquanto significa uma subida de todo o nível histórico. E este é um dado que os americanos não devem esquecer. se dos Estados europeus. o ímpeto de energia com que se faz tudo. deu origem à idéia. tem sempre certa altitude. Portanto. nivelam-se os sexos. a saber: da vitalidade européia. onde não se sabe bem de que se fala. Frase confusa e tosca. A intuição. por exemplo. e esta angústia mede o desnível entre a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. nesta nivelação não fez senão ganhar. que seria um pouco estranho. um espanhol médio. eleva-se ontem sobre hoje. Do mesmo modo cada qual sente. Há quem se sinta nos modos da existência atual como um náufrago que não consegue sair a flutuar. Diz-se. Mas a história. Dos Estados e da cultura européia diremos algum vocábulo mais adiante . talvez minha afirmação pareça mais convincente e menos inverossímil. Compreender-se-á que idéia tão ampla e tão arraigada não podia vir do vento. aconteceu que pela primeira vez o europeu entende a vida americana. pois. que seria um refluxo. ou se mantém a par. e revela que a vida média se move hoje em altura superior à que ontem pisava. que esta ou a outra coisa não é própria da altura dos tempos. a relação em que sua própria vida se encontra com a altura do tempo onde transcorre. como dizem que as orquídeas se criam sem raízes no ar. pois. A ALTURA DOS TEMPOS O império das massas apresenta. procede desta intuição. mas o tempo vital. Desde sempre se entrevia obscuramente pelos europeus que o nível médio da vida era mais alto na América que no velho continente.A rebelião das massas. que hoje um italiano médio. da altitude média social e não das eminências. séculos de educação progressista das multidões e de um paralelo enriquecimento econômico da sociedade. do que ouvimos tão amiúde sobre a decadência da Europa. O que nos faz compreender que a vida pode ter altitudes diferentes. que contrastava com o nível inferior das minorias melhores da América comparadas com as européias. ou cai por baixo. e que é uma frase cheia de sentido a que sem sentido sói repetir-se quando se fala da altura dos tempos. digo. pois. como a agricultura. se diferenciam menos em tom vital de um ianque ou de um argentino que há trinta anos. sempre aceita. nunca posta em dúvida. O fundamento era aquela entrevisão de um nível mais elevado na vida média de Ultramar.e talvez a frase supradita valha para eles -. de que a América era o porvir. Convém que nos detenhamos neste ponto. o que cada geração chama "nosso tempo". angustiam o homem de têmpera arcaica. Com efeito: não o tempo abstrato da cronologia. Não se trata. com maior ou menor claridade. nutre-se dos vales e não dos cumes. porque coincide a situação moral do homem médio europeu com a do americano. pois. que antes lhe era um enigma e um mistério. Vivemos em tempo de nivelações: nivelam-se as fortunas. embainhada no vocábulo decadência. de um influxo. Pois bem: também se nivelam os continentes. Mas isso é que o resultado coincide com o traço mais decisivo da existência americana. convém desde logo fazer constar que se trata de um erro crasso. mas do que menos se suspeita ainda: trata-se de uma nivelação. da cultura européia ou do que está sob tudo isso e importa infinitamente mais que tudo isto. pouco analítica. III.htm (27 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . um alemão médio. nivela-se a cultura entre as diferentes classes sociais. A imagem de cair. mas evidente deste fato. olhada deste lado. que é todo ele chão. A velocidade do tempo com que hoje marcham as coisas. tudo ao contrário. e por isso. Dita de outro modo. a subversão das massas significa um fabuloso aumento de vitalidade e possibilidades.

e depois. (Odes. Mas isso tampouco é verdade. Isso revela que esses homens sentiam o pulso de sua própria vida mais ou menos falto de plenitude. acreditava o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mox daturos progeniem vitiosorem. sentiria que não contém em si o grau superior. Ao olhar para trás e imaginar esses séculos mais valiosos. cuja existência se lhes apresentava como algo mais amplo. Desde cento e cinqüenta anos depois de Cristo esta impressão de encolhimento vital. Houve. se tivesse consciência. o mais habitual tem sido que os homens suponham em um vago pretérito tempos melhores. Vejamos agora outra classe de épocas que gozam de uma impressão vital ao parecer a mais oposta a essa. as mulheres tornaram-se estéreis e a Itália se despovoou. a Alcheringa. Bastaria recordar que. definitiva: tempos em que se crê haver chegado ao término de uma viagem. Trata-se de um fenômeno muito curioso que nos importa muito definir. nem todas se supuseram superiores a quantas foram e recordam. À maior parte das épocas não lhes pareceu seu tempo mais elevado que outras idades antigas. Há trinta anos. dizem os selvagens australianos. Livro III. simplesmente porque passadas. e nós daremos uma progênie todavia mais incapaz". e foi necessário alugar para este ofício dálmatas. altura do seu pulso e a altura da época. de diminuição.A rebelião das massas. dizendo que era imprópria da plenitude dos tempos. de existência mais plenária: a "idade de ouro". como mais baixas de nível que a sua. Qual é essa relação? Fora errôneo supor que sempre o homem de uma época sente as passadas.htm (28 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . cresce progressivamente no Império Romano. 6. Dois séculos mais tarde não havia em todo o Império bastantes itálicos medianamente valorosos com os quais preencher as praças de centuriões. soíam rechaçar esta ou outra medida de governo. como um grau de temperatura. tem consciência da relação entre a altura de nosso tempo e a altura das diversas idades pretéritas. nos engendraram ainda mais depravados. Nem todas as idades se sentiram inferiores a algumas do passado. quem vive com plenitude e a gosto as formas do presente. ao contrário. os tempos "clássicos ". pelo menos se se toma grosso modo. tal ou qual desmando. Enquanto isso. mais rico. parecia-lhes não dominá-los. pois. Qualquer tempo passado foi melhor. decaído. Cada idade histórica manifesta uma sensação diferente ante esse estranho fenômeno da altura vital. Ao contrário. com efeito. que há neste mais calorias que nele mesmo. Por esta razão respeitavam o passado. É a "plenitude dos tempos". ao parecer de Jorge Manrique. ao recomendar-lhe que não se perseguissem os cristãos em virtude de denúncias anônimas: Nec nostri saeculi est. mas antes. mas. incapaz de encher por completo o canal das veias. Já Horácio havia cantado: "Nossos pais. mais perfeito e difícil que a vida de seu tempo. várias épocas na história que se sentiram como chegadas a uma altura plena. A impressão que Jorge Manrique declara tem sido certamente a mais geral. dizemos os educados por Grécia e Roma. a completa madureza da vida histórica. de decair e perder pulso. Por outra parte. Quando há não mais de trinta anos os políticos peroravam ante as multidões. em que se cumpre um afã antigo e plenifica uma esperança. ficar debaixo deles. piores que nossos avós. É curioso recordar que a mesma frase aparece empregada por Trajano na sua famosa carta a Plínio.) Aetas parentum peior avis tulit nos nequiores. bárbaros do Danúbio e do Reno. e me surpreende que não tenham reparado nunca pensadores e historiógrafos em fato tão evidente e substancioso.

Chegamos à altura entrevista. às vezes.fosse definitivo. estão mortos por dentro. profundo. inferiores ao próprio. arquisatisfeitos (29). como no século XIX. para sempre cristalizados. como morre o zângão afortunado depois do vôo nupcial (30). e que no século XIX parece finalmente realizar-se. ao contrário. quer dizer. Um tempo que satisfez seu desejo. terrível. definitivo. Mas agora compreendemos que esses séculos tão satisfeitos. E ao sentir assim percebemos uma deliciosa impressão de nos havermos evadido de um recinto estreito e hermético. em sua raiz mesma encontra obscuramente a intuição de que não há tempos definitivos. não se sente já definitivo. Vistos de sua altura. que a famosa plenitude é em realidade uma conclusão.o chamado "cultura moderna" . Assim vê a Idade Média o século XIX.htm (29 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . não se pode deixar alucinar por essa ótica da suposta plenitude. à meta antecipada. sofrerá o espelhismo de sentir a idade presente como um cair desde a plenitude. com efeito. Os tempos de plenitude se sentem sempre como resultante de muitas outras idades preparatórias. é o que. de ardentes precursores. sobre os quais vai montada esta hora bem granosa. de haver escapado. se denominou a si mesmo "cultura moderna". de contraste penoso entre uma civilização clara e a realidade que não lhe corresponde. onde tudo. o essencial para que exista "plenitude dos tempos" é que um desejo antigo. de outros tempos sem plenitude. E. Daí que. a esse próximo plenário passado. com efeito.A rebelião das massas. irremediavelmente. A fé na cultura moderna era triste: era saber que amanhã ia ser file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O desejo tão lentamente gestado. Esta era a sensação que de sua própria vida tinham os nossos pais e toda a sua centúria. último. tão fruídos. a realidade o recolhe e lhe obedece. tudo é possível: o melhor e o pior. e sair de novo sob as estrelas ao mundo autêntico. Há séculos que por não saber renovar seus desejos morre de satisfação. de "ainda não". Não se sonda já aqui a diferença essencial entre nosso tempo e esse que acaba de preterir. e o olhe todo sob sua ótica. é que já não deseja nada mais. na posse. imprevisível e inesgotável. de transpor? Nosso tempo. esses tempos plenos são também satisfeitos de si mesmos. Já dizia Cervantes que "o caminho é sempre melhor que a pousada". por fim um dia fica satisfeito. às vezes milenário. que se lhe secou a fonte do desejar. Mas um velho afeiçoado à história. europeu que a vida humana havia chegado a ser o que devia ser. Daí o dado surpreendente de que essas etapas de chamada plenitude tenham sentido sempre no sedimento de si mesmas uma peculiaríssima tristeza. mas que pelo contrário essa pretensão de que um tempo de vida . na chegada. resumindo. quem continua adscrito à outra margem. Já o nome é inquietante: que um tempo se chame a si mesmo "moderno". Isto é. parece-nos uma obcecação e estreiteza inverossímeis do campo visual. empedernido tomador de pulso de tempos. A autêntica plenitude vital não consiste na satisfação. o que desde muitas gerações se vinha anelando que fosse. tempos de só desejo insatisfeito. Por fim chega um dia em que esse velho desejo. seguros. diante do qual todos os demais são puros pretéritos. modestas preparações e aspirações para ele! Setas sem brio que erram o alvo! (31). Segundo eu disse. o que teria já que ser sempre. parece cumprir-se. o qual se vinha arrastando aneloso e querulante durante séculos. como uma decadência. aqueles períodos preparatórios aparecem como se neles se houvessem vivido de puro afã e ilusão não lograda. seu ideal. ao cume do tempo! Ao "ainda não" sucedeu o "por fim". Não se esqueça disto: nosso tempo é um tempo que vem depois de um tempo de plenitude.

Trata-se de um erro ótico que provém de múltiplas causas. Toda a minha excursão sobre o problema da altitude dos tempos perseguia esta conclusão. mas. põe flor na árvore. com efeito. não a mesma. Roma era eterna. como se conhece que uma vida se sente ou não decair? Para mim não cabe dúvida a respeito do sintoma decisivo: uma vida que não prefere outra nenhuma de antes. mas sim irmã da que inquieta o mar. Daí que ainda acreditasse em épocas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. não é evidente que a sensação de nossa época se parece mais à alegria e alvoroço de meninos que escaparam da escola? Agora já não sabemos o que vai haver amanhã no mundo. contemplá-la de dentro e ver se ela se sente a si mesma decaída. E se há uma melancolia das ruínas. e não advertem que tudo isso é só a superfície da história. Para um fabricante de boquilhas de âmbar.A rebelião das massas. não natural. o mundo está em decadência porque já não se fuma apenas com boquilhas de âmbar. ser imprevisível. Mas. um puro afã de viver. é a verdadeira plenitude da vida. Contrasta este diagnóstico. ao qual falta. minguada. é certo. Outro dia veremos algumas. Nos salões do último século chegava indefectivelmente uma hora em que as damas e seus poetas amestrados faziam entre si esta pergunta: Em que época quisera você haver vivido? E eis aqui que cada um. sentia contrair-se seu coração. fecunda a fera.e via as majestosas construções imperiais. com efeito. elástica. encarnando a figura de sua própria vida. que a realidade histórica é. que eu saiba. isto é. única até agora na história conhecida. que se levanta delas como a evaporação das águas mortas. E é que. não deixam de ser parciais. com o queixume de decadência que choraminga nas páginas de tantos contemporâneos. antes que isso e mais fundo que isso. portanto. se dedicava a vagar imaginavelmente pelas vias históricas em busca de um tempo onde encaixar a gosto o perfil de sua existência. um conceito comparativo. arbitrários e externos à própria vida cujos quilates se trata precisamente de avaliar. não pode em nenhum sentido sério chamar-se decadente. ainda que de signo inverso: a melancolia dos edifícios eternos. como a culminação do passado. se alarga sem nos libertar. ou Sêneca . Diante desse estado emotivo. símbolo de poder definitivo. embora olhada por dentro de si mesma. Diante dos diagnósticos de decadência eu recomendo o seguinte raciocínio: A decadência é. uma potência parecida às cósmicas. que o progresso consistia só em avançar com todos os sempres sobre um caminho idêntico ao que já estava sob nossos pés. claro está. portanto. debilitada e insípida. fiéis a uma ideologia. porque isso. ou por sentir-se em plenitude. Ora bem: essa comparação pode fazer-se desde os pontos de vista mais diferentes e vários que caiba imaginar. por exemplo. e isso secretamente nos regozija. é a vida autêntica. Decai-se de um estado superior para um estado inferior. Já nada novo podia haver no mundo. via-se. olham da história só a política ou a cultura. em todo o essencial igual a hoje. ligado ao passado. a rigor. o provinciano sensível percebia uma melancolia não menos penosa. faz tremeluzir a estrela.htm (30 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . esse século XIX ficava. de nenhum antes. embora sentindo-se. ser um horizonte sempre aberto a toda possibilidade. mas hoje quero antecipar a mais óbvia: provém de que. Outros pontos de vista serão mais respeitáveis que este. sua outra metade.Lucano. em minha opinião perigosa. Pois acontece que precisamente o nosso goza neste ponto de uma sensação estranhíssima. Não há mais que um ponto de vista justificado e natural: instalar-se nessa vida. que se prefere a si mesma. Um caminho assim é a bem dizer uma prisão que. sobre cujos ombros acreditava estar. Quando nos começos do Império algum fino provinciano chegava a Roma .

O resto do espírito tradicional evaporou-se. provincial. quero dizer que o conteúdo da vida no homem de tipo médio é hoje todo o planeta. que os mortos não morreram de brincadeira. a vida. que o homem do presente sente que sua vida é mais vida que todas as antigas. olham o passado que neles se cumpre. Sentimos que de repente ficamos sós sobre a terra os homens atuais. relativamente clássicas .A rebelião das massas. A vida mundializou-se efetivamente. que não reconhece em nada pretérito possível modelo ou norma. Orgulhosa de suas forças e ao mesmo tempo temendo-as. Este fato é quase grotesco e incrível em sua simples evidência. Que expressão escolheremos? Talvez esta: mais que os demais tempos e inferior a si mesma. que já não nos podem ajudar. ou dito às avessas. Eu resumia. que o mundo. E o que acontece sempre que chega o meio-dia (32) Qual é. sem excluir nenhum. não obstante. tal situação na forma seguinte: "Esta grave dissociação de pretérito e presente é o fato geral de nossa época e nela vai incluída a suspeita. não são por sua vez mais que sintoma de um fato mais completo e geral. de ciência ou de política -. a altura de nosso tempo? Não é plenitude dos tempos. de tanto sentir-se mais vida. que o passado íntegro ficou pequeno para a humanidade atual. perdeu sua sombra. e com ele e nele. em resumo. uma infância. levam a cara voltada para trás. lhe daria a impressão de um recinto angustioso onde não podia respirar. que cada indivíduo vive habitualmente todo o mundo. Isto bastaria para nos fazer suspeitar dos tempos de plenitude. sente-se sobre todos os tempos sidos e por cima de todas as conhecidas plenitudes. Há pouco mais de um ano. há tempos. O CRESCIMENTO DA VIDA O império das massas e o ascenso de nível. toda a atenção ao passado. cresceu. Como poderá sentir-se decadente? Pelo contrário: o que aconteceu é que. simplesmente. Esta intuição de nossa vida de hoje anula com sua claridade elemental toda lucubração sobre decadência que não seja muito cautelosa. perdeu todo o respeito. que engendra a inquietude peculiar da vida nestes anos. Os modelos. É. Daí que pela primeira vez nos encontremos com uma época que faz tábua rasa de todo classicismo. Não é fácil formular a impressão que de si mesma tem nossa época: crê ser mais que as demais. e ao mesmo tempo sente-se como um começo. a altitude do tempo que ele anuncia.sejam de arte. as normas. sem mortos viventes perto de si.htm (31 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . onde se haviam preparado os valores vigentes. o Renascimento -. um começo. mas completamente. de maior tamanho que todas as vidas. de mau gosto. Nossa vida sente-se. sem estar segura de não ser agonia. parece. Temos de resolver nossos problemas sem colaboração ativa do passado. O europeu está só. uma iniciação.por que não dizê-lo? -. e sobrevinda ao cabo de tantos séculos sem descontinuidade de evolução. como Pedro Schlehmil. Fortíssima e ao mesmo tempo insegura de seu destino. de repente. em pleno atualismo . Olhamos para trás e o famoso Renascimento nos parece um tempo angustiosíssimo. mais ou menos confusa. os sevilhanos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. IV.o século de Péricles. entretanto. Isto é. de atitudes vãs . e entretanto. Pois bem: que diria sinceramente qualquer homem representativo do presente a quem se fizesse uma pergunta parecida? Eu creio que não é duvidoso: qualquer passado. uma alvorada. as pautas não nos servem.

desfazer. Mas. mas para muitos efeitos vitais atua nos demais pontos do planeta. que carecem por completo de sentido. em definitivo. o homem de hoje não poderá comprar mais coisas que o do século XVIII. tentar. A pré-história e a arqueologia descobriram âmbitos históricos de longitude quimérica. Tome-se qualquer uma de nossas atividades. podemos estar em mais lugares que antes. Se em cada momento não tivéssemos à nossa frente mais que uma só possibilidade. A atividade de comprar conclui em decidir-se por um objeto. Uma estupidez não se pode dominar a não ser com outra. Esta proximidade do longínquo. encontrar. Civilizações inteiras e impérios dos quais nem o nome se suspeitava. Quando se fala de nossa vida sói esquecer-se disto. consumir em menos tempo vital mais tempo cósmico. gozar de mais idas e mais vindas. De onde resulta que a vida. proporcionalmente ao valor do dinheiro em ambas as épocas. reconheceremos hoje a qualquer ponto do globo a mais efetiva ubiqüidade. fazer. consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra como tais. o crescimento substantivo do mundo não consiste em suas maiores dimensões. esta presença do ausente. sublinharia mais o que tento dizer.é algo que se pode desejar. Cada coisa . Ao anulá-los. vivificamo-los. Imaginem-se dois homens. mas em que inclua mais coisas. Dir-me-ão que. comprar. O fato é falso. e compare-se o repertório de coisas em venda que se oferece a um e a outro. o que estava acontecendo com uns homens junto ao Pólo. acompanhavam. e não há razão para estranhar de que nos produza um pueril prazer fazer funcionar a vazia velocidade. mas é também antes uma eleição. em seu modo "comprar". tornamos possível ser o aproveitamento vital. que possuam fortuna igual. Cada pedaço de terra não está já recluído em seu lugar geométrico. E o mundo cresceu também temporalmente. com fortuna proporcionalmente igual.tome-se a palavra em seu mais amplo sentido . Hoje podem comprar-se muitas mais. O jornal ilustrado e o cinema trouxeram estes remotíssimos pedaços de mundo à visão imediata do vulgo.htm (32 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . foram anexados a nossa memória como novos continentes.A rebelião das massas. nomes todos que significam atividades vitais. Mas finalmente não me importaria que o fato fosse certo. e a eleição começa por perceber as possibilidades que oferece o mercado. careceria de sentido chamá-la assim. Mas ai está: esse estranhíssimo fato de nossa vida possui a condição radical de que sempre encontra ante si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas este aumento espácio-temporal do mundo não significaria por si nada. A velocidade feita de espaço e tempo não é menos estúpida que seus ingredientes. Era para o homem questão de honra triunfar no espaço e no tempo cósmicos (33). que me parece essencialíssimo: nossa vida é em todo instante e antes que nada consciência do que nos é possível. um do presente e outro do século XVIII. hora a hora. porque a indústria barateou quase todos os artigos. Não é fácil imaginar com o desejo um objeto que não exista no mercado. mas serve para anular aqueles. que sobre o fundo ardente da campina bética passavam blocos de gelo à deriva. aumentou em proporção fabulosa o horizonte de cada vida. gozar ou repelir. e vice-versa: não é possível que um homem imagine e deseje quanto se acha à venda. quero dizer. pelo contrário. O espaço e o tempo físicos são o absolutamente estúpido do universo. por exemplo. Por isso é mais justificado do que sói crer-se o culto à velocidade que transitoriamente exercitam nossos contemporâneos. Seria apenas pura necessidade. em seus jornais populares. Segundo o princípio físico de que as coisas estão ali onde atuam. A diferença é quase fabulosa. A quantidade de possibilidades que se abrem ante o comprador atual chega a ser praticamente ilimitada. com a qual matamos espaço e jugulamos tempo.

Não quero dizer com o dito que a vida humana seja hoje melhor que em outros tempos. Mundo é o repertório de nossas possibilidades vitais. pois. Mas o crescimento da potencialidade vital não se reduz ao dito até aqui. os jornais e as conversações lhe fazem chegar a notícia destas performances intelectuais que os aparelhos técnicos recém-inventados confirmam desde as vitrinas. que por serem várias adquirem o caráter de possibilidades entre as quais havemos de decidir (34). várias saídas. mas advertir a impressão de que o organismo humano possui em nosso tempo capacidades superiores às que nunca teve. o programa de misteres possíveis hoje é superlativamente grande. Mas agora importa-me só fazer notar como cresceu a vida do homem na dimensão de potencialidade. Toda vida é achar-se dentro da "circunstância" ou mundo (35). Porque este é o sentido originário da idéia (mundo). nossa potencialidade vital. para o homem de vida média que habita as urbes .e o fenômeno tem mais gravidade do que se supõe . Não é. e nós. dito de outra maneira. as possibilidades de gozar aumentaram. É um fato constante e notório que no esforço físico e esportivo se cumpram hoje performances que superam enormemente quantas se conhecem do passado. no que vai de século. uma coisa tão pequena. do mesmo modo que o campeão de boxe dá hoje murros de maior calibre que jamais se deram. Entretanto. mago -. chegamos a ser só uma parte mínima do que podemos ser. dentro dele.não é seu elenco tão exuberante como nos demais aspectos da vida. Aumentou também em um sentido mais imediato e misterioso. mas que é sua autêntica periferia. mais ciências. enfim. O mundo ou nossa vida possível é sempre mais que nosso destino ou vida efetiva. Não falei da atualidade da vida presente. hoje inchou até se converter em todo um sistema planetário. ou.htm (33 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Tudo isso decanta em sua mente a impressão de fabulosa prepotência. Como o cinematógrafo e a ilustração põem ante os olhos do homem médio os lugares mais remotos do planeta. Porque coisa similar acontece na ciência. guerreiro. mais problemas. E em tudo isto não me refiro ao que possa significar como perfeição da cultura . mais pontos de vista. Não ressalto que a física de Einstein seja mais exata que a de Newton. Esta tem de se concretizar para realizar-se. mais dados. Na ordem intelectual encontra mais caminho de possível ideação. mas apenas de seu crescimento. Não basta admirar cada uma delas e reconhecer o record que batem.pastor. esta ampliou e inverossimilmente seu horizonte cósmico. Nos prazeres acontece coisa parecida. caçador. algo à parte e alheio a nossa vida. A física de Einstein está feita atendendo às mínimas diferenças que antes se desprezavam e não entravam em conta por parecer sem importância. Representa o que podemos ser. mas ao crescimento das potências subjetivas que tudo isso supõe. Em um par de lustros tão somente. Daí que nos parece o mundo uma coisa tão enorme. A este âmbito costuma chamar-se "as circunstâncias". de uma maneira fantástica. Creio com isso descrever rigorosamente a consciência do homem atual. A física de Einstein move-se em espaços tão vastos. que a antiga física de Newton ocupa neles apenas um sótão (36) E este crescimento extensivo se deve a um crescimento intensivo na precisão científica. Tanto vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos em um ambiente de possibilidades determinadas. mas que o homem Einstein seja capaz de maior exatidão e liberdade de espírito (37) que o homem Newton. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Enquanto os ofícios ou carreiras na vida primitiva se numeram quase com os dedos de u'a mão . seu tom vital que consiste em sentir-se com maior potencialidade que nunca e parecer-lhe todo o pretérito afetado de pequenez.A rebelião das massas.isso não me interessa agora -.e as urbes são a representação da existência atual -. portanto. O átomo. Conta com um âmbito de possibilidade fabulosamente maior que nunca. limite ontem do mundo. de seu avanço quantitativo ou potencial. se bem .

se viam a si mesmos como decaídos de maiores alturas. Duvido que sem se afiançar bem nesta advertência se possa entender o nosso tempo. mas não é dono de si mesmo. firme em sua fé progressista. Por si mesmo não seria isto um mau sintoma: significaria que voltamos a tomar contato com a insegurança essencial a todo viver. de tanto nos parecer tudo possível.cultura e nações -. de antigas e deslumbrantes idades de ouro. Se se sentisse decaído. Refere-se o pessimista vocábulo à cultura? Há uma decadência da cultura européia? Há somente uma decadência das organizações nacionais européias? Suponhamos que sim. Isto nos leva a falar da "plenitude" que sentiram alguns séculos diante de outros que. Domina todas as coisas. pois.. relativas a elementos secundários da história . mais técnicas que nunca. que parece imperar um maior silêncio ao silêncio noturno. não reconhecer épocas clássicas e normativas.A rebelião das massas. e esta só existe quando se sente. e que me parece tão simples como evidente. Era necessária esta descrição para obviar as lucubrações sobre decadência. Hoje. Porque são estas decadências diminuições parciais. Com mais meios. veria outras épocas como superiores a ele e isto seria uma e mesma coisa com estimá-las e admirá-las e venerar os princípios que as informaram. Só há uma decadência absoluta: a que consiste numa vitalidade minguante. Todo aquele que se coloque ante a existência numa atitude séria e se faça dela plenamente responsável. Geralmente. Recorde-se o raciocínio que eu fazia. Não está mal esse ademane. com a inquietude a um tempo dolorosa e deliciosa que vai encerrada em cada minuto se sabemos vivê-lo até o seu centro.todos os clorofórmios . sobre decadência ocidental que pulularam no ar do último decênio. o mundo atual vai como o mais infeliz que tenha havido: puramente ao acaso. a decadência (38). Nosso tempo teria ideais claros e firmes. Muitas coisas pareciam já impossíveis ao século XIX. Mas a verdade é estritamente o contrário: vivemos em um tempo que se sente fabulosamente capaz para realizar.que tinha todos os talentos. A atitude que a ordenança romana impunha à sentinela da legião era manter o indicador sobre os lábios para evitar a sonolência e manter-se atenta. Bastaria isso para falar da decadência ocidental? De modo algum. sentirá certo gênero de insegurança que o incita a permanecer alerta. até sua pequena víscera palpitante e cruenta. mais ainda: por desentender-se de todo pretérito. mais saber. menos o talento para usar deles. E concluía eu fazendo notar o fato evidentíssimo de que nosso tempo se caracteriza por uma estranha presunção de ser mais que todo o tempo passado. Não vale falar de decadência sem precisar que é o que decai.htm (34 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Acontece-lhe como se dizia do Regente durante a infância de Luiz XV . inversamente. Porque esse é precisamente seu problema. para poder ouvir a secreta germinação do futuro. pressentimos que é possível o pior: o retrocesso. em espécie. recusamos tomar essa pulsação pavorosa que faz de cada instante sincero um miúdo coração transeunte. o uso. e. senão ver-se a si mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a elas. esforçando-nos por ganhar segurança e insensibilizar-nos para o dramatismo radical do nosso destino. a barbárie. benéfico que pela primeira vez depois de quase três séculos nos surpreendamos com a consciência de não saber o que vai acontecer amanhã. mas que não sabe o que realizar. Sente-se perdido em sua própria abundância. Daí essa estranha dualidade de prepotência e insegurança que se aninha na alma contemporânea. o tópico .É. A segurança das épocas de plenitude - file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Por esta razão me detive a considerar um fenômeno que sói desatender-se: a consciência ou sensação que toda época tem de sua altitude vital. vertendo sobre ele o costume. ainda que fosse incapaz de realizá-los.

perderam a agilidade e a eficácia. nos força. transbordou todos os caminhos. imediatamente. é também.é uma ilusão ótica que leva a despreocupar-se do porvir. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil. um horizonte de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. princípios. deixaram de estar alerta. a decidir o que vamos ser neste mundo. Não pode orientar-se no pretérito (39). Protegidos ante sua própria consciência por essa idéia. Vai enunciada a primeira parte dele. e hoje anda solta.htm (35 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo . soltaram o leme da história. Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade. a eleger. Também nela há. exuberante. Tem de inventar seu próprio destino. A vida não elege seu mundo. este de agora . O mesmo que o liberalismo progressista é o socialismo de Marx. pois. é magnífica. encarregando de sua direção a mecânica do universo. vida possível. A circunstância . Mas quem decide é o nosso caráter. convencido de que não tem surpresa nem segredos. e por isso mesmo. decidimos não decidir. inexoravelmente. A vida. de nossa vida atual. cuja trajetória está absolutamente predeterminada. antecipações e ideais.A rebelião das massas.. Sob sua máscara de generoso futurismo. É. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. que pode resumir-se assim: nossa vida. Mas já é tempo de que voltemos a falar desta. É mais vida que todas as vidas. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir. Mas assim como seu formato é maior. Mas agora é preciso completar o diagnóstico. sem rumo conhecido.consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória.. UM DADO ESTATÍSTICO Este ensaio quisera vislumbrar o diagnóstico de nosso tempo. Tudo isto vale também para a vida coletiva. superior a todas as historicamente conhecidas. peripécias nem inovações essenciais. decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. antes de tudo. V. com necessidade parelha à astronômica. como repertório de possibilidades. supõem que o desejado por eles como futuro ótimo se realizará. Assim. fez-se por completo insubmissa. a vida se lhes escapou dentre as mãos. em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. o progressista não se preocupa do futuro. ante o qual temos de nos decidir.o mundo é sempre este. certo de que já o mundo irá em linha reta. Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. consequentemente.as possibilidades . que é. e por isso mesmo mais problemática. retrai sua inquietude do porvir e se instala num definitivo presente. Tal tem sido a deserção das minorias dirigentes. Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. falso dizer que na vida "decidem as circunstâncias ". sempre novo. impõe-nos várias e. mas viver é encontrar-se. que se acha sempre ao reverso da rebelião das massas. Ninguém se preocupou de preveni-los.é o que de nossa vida nos é dado e imposto. mais perigosa. o que podemos ser. normas e ideais legados pela tradição. assim na última centúria . Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema. Isso constitui o que chamamos o mundo. Depois de haver insistido na vertente favorável que apresenta o triunfo das massas. sem desvios nem retrocessos. Não poderá estranhar que hoje o mundo pareça vazio de projetos. primeiro. convém que nos deslizemos por sua outra ladeira.

retrocedendo ao começo deste ensaio. a Europa não consegue chegar a outra cifra de povoação senão a de 180 milhões de habitantes. e se não basta. Hoje acontece uma coisa muito diferente. o que é o mesmo. em toda a longitude de doze séculos -. põe na pista de todo esclarecimento. Quer dizer. Os programas eram. que seria difícil encontrar na história situações de governo tão prepotentes como estas. não alude para nada ao futuro. Daí que sua atuação se reduza a evitar o conflito de cada hora. não vai. Se se observa a vida pública dos países onde o triunfo das massas avançou mais . repito. sejam enormes. programas de vida coletiva. não por cálculos do futuro. Em suma. pela urgência do presente. O fenômeno é sobremaneira estranho. surpreende notar que neles se vive politicamente ao dia. que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. vive sem programa de vida. a inundou. não tem caminho prefixado. A chave para esta análise encontra-se quando. do sufrágio universal. Este simplicíssimo dado basta por si só para esclarecer nossa visão da Europa atual. fecha-se no presente e diz com perfeita sinceridade: "Sou um modo anormal de governo que é imposto pelas circunstâncias". vive ao dia. entretanto.htm (36 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . a população européia ascende de 180 a 460 milhões! Presumo que o contraste destas cifras não deixa lugar a dúvidas a respeito dos dotes prolíficos da última centúria. mas a escapar dele imediatamente. pelo contrário. E este tipo de homem decide em nosso tempo. do tipo de homem dominante nela. Neles convidava-se a massa a aceitar um projeto de decisão. Esta resolução emana do caráter que a sociedade tenha. E. não se apresenta como um porvir franco. Estas apresentavam seus "programas" . não significa um anúncio claro de futuro. não aparece como começo de algo cujo desenvolvimento ou evolução seja imaginável. O dado é o seguinte: desde que no século VI começa a história européia até o ano 1800 portanto.portanto. uma resolução que elege e decide o modo efetivo da existência coletiva. ainda que suas possibilidades. que é estranho não conste em toda cabeça que se preocupe dos assuntos contemporâneos. este dado para compreender o triunfo das massas e quanto nele se reflete e se anuncia. senão que seu papel consistiu em aderir à decisão de uma ou outra minoria. Assim tem sido sempre o Poder público quando o exerceram diretamente as massas: onipotente e efêmero. trajetória antecipada.A rebelião das massas. ainda à custa de acumular com seu emprego maiores conflitos sobre a hora próxima. sem projeto. a rigor. O Poder público acha-se em mãos de um representante de massas. o Poder público. senão. nos perguntamos: de onde vieram todas estas multidões que agora enchem e transbordam o cenário histórico? Há alguns anos destacava o grande economista Werner Sombart um dado simplicíssimo. deve ser acrescido como o somando mais concreto ao crescimento da vida como antes fiz constar.são os países mediterrâneos -. Pois bem: de 1800 a 1914 . pois. O homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e caminha ao acaso. Bastaria. ou.excelente vocábulo -. Maravilha-nos seu crescimento. lançada como uma torrente sobre a área histórica. Em três gerações produziram gigantescamente massa humana que. não a resolvê-lo. empregando os meios que sejam. em pouco mais de um século. domina o homem-massa. com efeito. e. Por outra parte. que aniquilaram toda possível oposição. Convém. Mas ao mesmo tempo nos mostra esse dado que é infundada a admiração com que ressaltamos o crescimento de países novos como os Estados Unidos da América. No sufrágio universal não decidem as massas. Quando esse poder público tenta justificar-se. São donas do Poder público em forma tão incontrastável e superlativa. Não sabe aonde vai porque. possibilidades. depois. Estas são tão poderosas. é ele quem decide. o Governo. seus poderes. que analisemos seu caráter. Em nosso tempo. Não se diga que isto era o que acontecia já na época da democracia. Por isso não constrói nada.

o aumento de população o que nas cifras transcritas me interessa. E ultrapassando toda possível sofisticação. Aparece a história inteira como um gigantesco laboratório onde se fizeram os ensaios imagináveis para obter uma fórmula de vida pública que favorecesse a planta "homem". o tipo médio do atual homem europeu possui uma alma mais sã e mais forte que as do passado século. triplicasse a espécie européia. mas não sensibilidade para os grandes deveres históricos. num só século. Por essa razão oferece este fato a perspectiva mais adequada para julgar com eqüidade essa centúria. E. porém muito mais simples. quando o maravilhoso é a proliferação da Europa. As técnicas jurídicas e materiais se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. num século chegou a 100 milhões de homens. Fato tão exuberante força-nos. que não era fácil saturá-los da cultura tradicional. não o é menos que deveu padecer certos vícios radicais. ao século passado a glória e a responsabilidade de haver soltado sobre a face da história as grandes multidões. Mas ainda que não seja tão conhecido como devera o dado calculado por Werner Sombart. A América está feita com a sobra da Europa. Uma vez reconhecido isto com toda a claridade que demanda a claridade do próprio fato.que põem em perigo iminente os princípios mesmos a que deveram a vida. incomparável. Não é. que esse tipo de vida não será o melhor imaginável. Corresponde. sem problemas tradicionais e complexos.os homens-massa rebeldes . é preciso revolver-se contra o século XIX. com efeito. Eis aqui outra razão para corrigir o espelhismo que supõe uma americanização da Europa. que a democracia liberal fundada na criação técnica é o tipo superior de vida pública até agora conhecido. devia haver nela quando na sua atmosfera se produzem tais colheitas de fruto humano. Se esse tipo humano continua dono da Europa e é definitivamente quem decide. senão que mercê a seu contraste põe em relevo a impetuosidade do crescimento. Nem sequer o traço que pudera aparecer mais evidente para caracterizar a América . encontramo-nos com a experiência de que ao submeter a semente humana ao tratamento destes dois princípios. não se pode fazer outra coisa senão ensinar às massas as técnicas da vida moderna. democracia liberal e técnica. A Europa cresceu no século passado muito mais que a América. É frívola e ridícula toda preferência dos princípios que inspiraram qualquer outra idade pretérita se antes não demonstra que se encarregou deste fato magnífico e tentou digeri-lo. Por isto não querem nada com o espírito.htm (37 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Porque esta impetuosidade significa que têm sido projetados a magotes sobre a história montões e montões de homens em ritmo tão acelerado. Se é evidente que havia nele algo extraordinário e incomparável. a tirar estas conseqüências: primeira. inoculou-se-lhes atropeladamente o orgulho e o poder dos meios modernos. Nas escolas que tanto orgulhavam o passado século. segunda. que é suicida todo retorno a formas de vida inferiores à do século XIX. Esta é a que agora nos importa. e as novas gerações dispõem-se a tomar o comando do mundo como se o mundo fosse um paraíso sem rastros antigos. pois. pois. mas não foi possível educá-las. Daí que às vezes produza a impressão de um homem primitivo surgido inesperadamente em meio a uma velhíssima civilização. era de sobra notório o fato confuso de haver aumentado consideravelmente a povoação européia para insistir nele. certas constitutivas insuficiências quando engendrou uma casta de homens .A rebelião das massas. terceira.a velocidade de aumento em sua povoação lhe é peculiar. bastarão trinta anos para que nosso continente retroceda à barbárie. Algo extraordinário. se não preferirmos ser dementes. mas o que imaginemos melhor terá de conservar o essencial daqueles princípios. Deram-se-lhe instrumentos para viver intensamente. mas não o espírito.

Importa. o homem médio de qualquer classe social encontrava cada dia mais franco seu horizonte econômico. Entretanto. produzirá uma catástrofe ". de 1850. Desde 1900 começa também o operário a ampliar e assegurar a sua vida. A idéia de que o historiador é um profeta pelo avesso resume toda a filosofia. em verdade. A que distância? Muito simples: à distância justa que o impeça ver o nariz de Cleópatra. A atual abundância de possibilidades se converterá em efetiva míngua. nossa época. com um bem-estar posto diante dele solicitamente por uma sociedade e um Estado que são um portento de organização. Certamente que só cabe antecipar a estrutura geral do futuro. apocalíptico. VI. Não se encontra. que é uma época revolucionária. tem de lutar para consegui-lo. volatilizarão com a mesma facilidade com que se perderam tantas vezes segredos de fabricação (40). porque se prestam mútuo esclarecimento. compreendemos do pretérito ou do presente. que com progressiva abundância vai engendrando o século XIX? Desde já. Porque a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o que Rathenau chamava "a invasão vertical dos bárbaros". como se produziu? Convém responder conjuntamente a ambas as questões. Cada dia sua posição era mais segura e mais independente do arbítrio alheio. COMEÇA A DISSECAÇÃO DO HOMEM-MASSA Como é este homem-massa que domina hoje a vida pública . olhe-a de longe. em verdadeira decadência. prever a gravidade da situação histórica atual. quero dizer. "As massas avançam!" dizia. "Sem um novo poder espiritual. nada novo acontece que não tenha sido previsto há cem anos. O que antes se houvera considerado comum benefício da sorte que inspirava humilde gratidão ao destino. E. por isso mesmo é o único que. Se o porvir não oferecesse um flanco à profecia. Qualquer mente perspicaz de 1820. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Inúmeras vezes tem sido profetizada. É falso dizer que a história não é previsível. não poderíamos tampouco compreendê-la quando logo se cumpre e se faz passado. Hegel. Situação de tal modo aberta e franca tinha por força que decantar no estrato mais profundo dessas da história.A rebelião das massas. "Vejo subir a preamar do nihilismo! ". Que aspecto oferece a vida desse homem multitudinário. pois. Nunca pode o homem médio resolver com tanta folga seu problema econômico. anunciava Augusto Comte. Cada dia ajuntava um novo luxo ao repertório de seu standard vital.a vida política e a não política -? Por que é como é. O homem que agora tenta pôr-se à frente da existência européia é muito diferente daquele que dirigiu o século XIX. escassez. A vida toda se contrairá. se o senhor quer ver bem sua época. Por isso. que é pura potência do maior bem e do maior mal. converteu-se num direito que não se agradece. pode. mas que se exige. muito conhecer a fundo este homem-massa. 1880. um aspecto de omnimoda facilidade material. mas foi produzido e preparado no século XIX. gritava de um penhasco alcantilado da Engadina o bigodudo Nietzche. por um simples raciocínio a priori.htm (38 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . impotência angustiosa. como o homem médio. com efeito. Enquanto em proporção diminuíam as grandes fortunas e se tornava mais dura a existência do operário industrial.

para os efeitos da vida pública. novo no físico e no social. com efeito. mas procedem das duas centúrias anteriores. O do século XVIII se diferencia. um homem à parte de todos os demais homens. contanto que não se entenda por esta só a jurídica e social. mas todos eles são parentes. Também aqui "ampla é Castela".htm (39 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Três princípios fizeram possível esse novo mundo: a democracia liberal. A esta facilidade e segurança econômica ajuntam-se as físicas: o confort e a ordem pública. simplesmente. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pressão. Os dois últimos podem resumir-se num: a técnica. A compreensão deste fato e sua importância surgem automaticamente quando se recorda que essa franquia vital faltou por completo aos homens vulgares do passado. Sentiram o viver a nativitate como um cúmulo de impedimentos que era forçoso suportar. Porque esta última é a que não faltou nunca até cem anos científica . limitação. "vida" havia significado. obrigação. numa palavra. Nenhum desses princípios foi inventado pelo século XIX. alojar-se na estreiteza que deixavam. e não há verossimilitude de que intervenha nela nada violento e perigoso. O homem médio. até mesmo para o rico e poderoso. que é implantada pelo século XIX. mas que colocou o homem médio . não acha ante si barreiras sociais nenhumas. esquecendo a cósmica. Não há ninguém civilmente privilegiado. Mas não basta com o reconhecimento abstrato. desde a segunda metade do século XIX. tampouco nas formas da vida pública encontra-se ao nascer com entraves e limitações. de nosso velho povo: "ampla é Castela". Tal imagem limita-se a incutir nas almas médias uma impressão vital.no econômico e no físico -. Por isso não há exageração nenhuma em dizer que o homem engendrado pelo século XIX. mas a implantação de uma nova ordem que tergiversa a tradicional. do dominante no XVII. O homem médio aprende que todos os homens são legalmente iguais. Não existem os "estados" nem as "castas". tão graciosa e aguda. O que teve de tal não deve ser buscado no espetáculo de suas barricadas. não constituem uma revolução. Jamais em toda a história havia sido posto o homem numa circunstância ou contorno vital que se parecesse nem de longe ao que essas condições determinam. Ninguém desconhece isso. mas em sua implantação. Ao contrário. dependência. A honra do século XIX não estriba em sua invenção. Para o "vulgo" de todas as épocas. Foi.física e administrativa -. sem que coubera outra solução que não fosse adaptar-se a eles. Mas é ainda mais clara a contraposição de situações se do material passamos ao civil e moral.em condições de vida radicalmente opostas às que sempre a haviam rodeado. O século XIX foi essencialmente revolucionário. Quer dizer que em todas essas ordens elementares e decisivas a vida se apresentou ao homem novo isenta de impedimentos. Virou pelo avesso a existência pública. Cria-se um novo cenário para a existência do homem. Nada o obriga a conter sua vida. praticamente ilimitada. antes de tudo. é. que. que podia expressar-se com a perífrase.a grande massa social . Trata-se. Quer dizer. e este do que caracteriza ao XVI. a experimentação científica e o industrialismo. similares e ainda idênticos no essencial se se confronta com eles este homem novo. Se se quer. de uma inovação radical no destino humano. para eles a vida um destino angustiante . A revolução não é a sublevação contra a ordem preexistente.A rebelião das massas. o mundo era um âmbito de pobreza. e assim é preciso compreender perfeitamente suas inexoráveis conseqüências. diga-se opressão. dificuldade e perigo (41) O mundo que desde o nascimento rodeia o homem novo não o move a limitar-se em nenhum sentido. pelo contrário. está claro. A vida marcha sobre cômodos carris.

o novo vulgo tem sido mimado pelo mundo circunstante. é de sua própria origem. Todavia hoje. e tudo isso presto. mais forte que ele. Ao homem médio de outras épocas ensinava-lhe quotidianamente seu mundo esta elemental sabedoria. e se acostuma a não contar com os demais. Esta sensação da superioridade alheia só podia ser-lhe proporcionada por quem. pelo visto. Assim se explica e define o absurdo estado de ânimo que essas massas revelam: não lhes preocupa mais que seu bem-estar e ao mesmo tempo são insolidárias das causas desse bem-estar. como se fossem direitos nativos. Pois acontece . Porque. chega a crer efetivamente que só ele existe. pois. e é quase tão perfeita como a natural. e a radical ingratidão a tudo quanto tornou possível a facilidade de sua existência. ao que parece. Nenhum ser humano agradece a outro o ar que respira. apesar de alguns signos que iniciam uma pequena brecha nessa fé rotunda. No mundo. ao encontrar-se com esse mundo técnica e socialmente tão perfeito. e não pensa nunca nos esforços geniais de indivíduos excelentes que supõe sua criação. abundante nem estável. sem depender de seu prévio esforço. portanto.genial de inspirações e de esforços -. com efeito. mas pelo contrário fustiga seus apetites. Mimar não é limitar os desejos. Minha tese é. Isto nos leva a apontar no diagrama psicológico do homem-massa atual dois primeiros traços: a livre expansão de seus desejos vitais. que as catástrofes eram freqüentes e não havia nele nada seguro. e o meio que empregam sói ser destruir as padarias. Como não vêem nas vantagens da civilização um invento e construção prodigiosos. Estas massas mimadas são suficientemente pouco inteligentes para crer que essa organização material e social. todavia hoje muito poucos homens duvidam de que os automóveis serão dentro de cinco anos mais confortáveis e mais baratos que os do dia. a conter-se. A criatura submetida a este regime não tem a experiência de suas próprias limitações. Assim teria aprendido esta essencial disciplina: "Aí termino eu e começa outro que pode mais do que eu. sobretudo a não contar com ninguém como superior a ele. do que dizemos "é natural". posta a sua disposição como o ar. é origem de que as massas beneficiárias não a considerem como organização.que esse mundo do século XIX e começos do XX não tem apenas as perfeições e amplitudes que de fato possui. que só com grandes esforços e cautelas se pode sustentar. há dois: eu e outro superior a mim". de sua pessoa. crêem que seu papel se reduz a exigi-las peremptoriamente. crê que o produziu a natureza. Menos ainda admitirá a idéia de que todas estas facilidades continuam apoiando-se em certas difíceis virtudes dos homens. dar a impressão a um ser de que tudo lhe está permitido e a nada está obrigado. mas como natureza.A rebelião das massas. já que tampouco falha. com efeito. não lhe apresenta veto nem contenção alguma. em princípio. porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao conjunto do que "está aí". E. dos quais o menor malogro volatilizaria rapidissimamente a magnífica construção. mas que além disso sugere a seus habitantes uma segurança radical em que amanhã será ainda mais rico. a reduzir-se. Nos motins que a escassez provoca soem as massas populares buscar pão. Herdeiro de um passado extensíssimo e genial . À força de evitar-lhe toda pressão em redor. esta: a própria perfeição com que o século XIX deu uma organização a certas ordens da vida. porque era um mundo tão toscamente organizado. Isto pode servir como símbolo do comportamento que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas as novas massas encontram uma paisagem cheia de possibilidades e além disso segura. porque não falta. como achamos o sol no alto sem que nós o tenhamos subido ao ombro. podem crescer indefinidamente. todo choque com outros seres. mas perfeito e mais amplo. lhe houvesse obrigado a renunciar a um desejo. o homem vulgar.htm (40 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Acredita-se nisto tão firmemente como na próxima saída do sol.e isto é muito importante . Um e outro traço compõem a conhecida psicologia da criança mimada. O sinal é formal. como se gozasse de um espontâneo e inesgotável crescimento. a sua disposição. que. não erraria quem utilizasse esta como uma quadrícula para olhar através dela a alma das massas atuais.

nada nem ninguém o força a compreender que ele é um homem de segunda classe. E se a impressão tradicional dizia: "Viver é sentir-se limitado e. À volta desta impressão primária e permanente vai se formar cada alma contemporânea. um imperativo.htm (41 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Esta experiência básica modifica por completo a estrutura tradicional. perene. que lhe era nominativamente favorável. O semblante geral que ele nos apresenta será o semblante geral de nossa vida. sem causa especial nenhuma. opiniões. como a coisa mais natural do mundo. perigos. Enquanto no pretérito viver significava para o homem médio encontrar a sua volta dificuldades. em mais vastas e sutis proporções usam as massas atuais ante a civilização que as nutre (42). ao mesmo tempo. Porque este se sentiu sempre constitutivamente condicionado a limitações materiais e a poderes superiores sociais. limitadíssimo. tenderá a afirmar e considerar bom tudo quanto em si acha. Se lograva melhorar sua situação. o eterno homem-massa. Portanto. Como agora a circunstância não o obriga. se. por isso mesmo. o homem seleto ou excelente está constituído por uma íntima necessidade de apelar de si mesmo a uma norma além dele. onde não se depende de ninguém. apetites. como em volta da oposta se formaram as antigas. ninguém é superior a ninguém". a um enorme esforço e ele sabia muito bem quanto lhe havia custado. como tal. Contrariamente. Naturalmente: viver não é mais que tratar com o mundo. era devida a alguma causa especialíssima. ter de contar com o que nos limita". nos quais baseia tal afirmação de sua pessoa? Nunca o homem-massa teria apelado a nada fora dele se a circunstância não lhe houvesse forçado violentamente a isso. Porque esta impressão fundamental se converte em voz interior que murmura sem cessar umas como palavras no mais profundo da pessoa e lhe insinua tenazmente uma definição da vida que é. Mas o homem que analisamos habitua-se a não apelar de si mesmo a nenhuma instância fora dele. nada é perigoso e. Praticamente nada é impossível. a seus olhos. e as feições fundamentais de nossa alma são impressas nela pelo perfil do contorno como por um molde. portanto. em princípio. Nada de fora a incita a reconhecer nela própria limites e. a vida. conseqüente com sua índole. incapaz de criar nem conservar a organização mesma que dá à sua vida essa amplitude e esse contentamento. segundo vemos. atribuía-o a um golpe da sorte. Por que não. exceção que. do homem-massa. sem necessidade de ser vão. OU ESFORÇO E INÉRCIA Somos aquilo que nosso mundo nos convida a ser. que o bem-estar de sua vida dependia das virtudes privadas que possuísse o seu Imperador. O labrego chinês acreditava. Ingenuamente. Em um e outro caso tratava-se de uma exceção à índole normal da vida e do mundo. Isto era. sua vida era constantemente regulada por esta instância suprema de que dependia. deixa de apelar e sente-se soberano de sua vida. VII. limitações de destino e dependência. sobretudo com instâncias superiores. superior a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. até há pouco. se ascendia socialmente. escassez. VIDA NOBRE E VIDA VULGAR. a contar em todo momento com outras instâncias. preferências ou gostos. sem dúvida. portanto. Mas a nova massa encontra a plena franquia vital como estado nativo e estabelecido. o mundo novo aparece como um âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas. Está satisfeito tal como é.A rebelião das massas. a voz novíssima grita: "Viver é não encontrar limitação alguma. E quando não a isto. Por isso insisto tanto em fazer notar que o mundo de onde nasceram as massas atuais mostrava uma fisionomia radicalmente nova na história. abandonar-se tranqüilamente a si mesmo.

e há quem só torna nobre seu pai e quem alonga sua fama até o quinto ou décimo avô. supõe sua conservação que o privilegiado seria capaz de reconquistá-las em todo instante. e precisamente para opô-lo à nobreza hereditária. que o direito impessoal se tem e o pessoal se mantém. Isto é a vida como disciplina . tão generoso do destino com que todo homem se encontra. atuante. que. Há. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Sempre. Lembre-se de que. desde o nobre inicial a seus sucessores. pelo contrário. condenada à perpétua imanência. com efeito. no início. eqüivale a esforçado ou excelente. quanto porque é inerte.a vida nobre -. pois. e. "Viver a gosto é de plebeu: o nobre aspira a ordenação e a lei" (Goethe). Os privilégios da nobreza não são originariamente concessões ou favores. estaticamente. é nobreza lunar como feita com mortos. mas o filho quem. dinâmico. autêntico. O nobre originário obriga-se a si mesmo. ele. ainda neste sentido desvirtuado. mais exigentes. a incitação que produz no descendente a manter o nível de esforço que o antepassado alcançou. A "nobreza" não aparece como termo formal até o Império romano.não tanto porque seja multitudinário. como não seja o respirar e evitar a demência. É irritante a degeneração sofrida no vocabulário usual por uma palavra tão inspiradora como "nobreza". em suma: é. Os antepassados vivem do homem atual. não pelos direitos. Eu diria. a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência. ao conceder os níveis de nobreza. mas.htm (42 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . que se deu a conhecer sobressaindo sobre a massa anônima. nobreza é sinônimo de vida esforçada. o étimo do vocábulo "nobreza" é essencialmente dinâmico. e que não corresponde a esforço algum. em princípio.A rebelião das massas. Só fica nela de vivo. destacando com o seu esforço sua estirpe humilde. são propriedade passiva. invertem a ordem da transmissão. pois. Por isso. caso uma força exterior não a obrigue a sair de si. Os direitos privados ou privilégios não são. e não é o pai quem enobrece o filho. e não a massa. posse passiva e simples gozo. graduam-se pelo número de gerações passadas que ficam prestigiadas. cuja nobreza é efetiva. Contrariamente. a vida nobre fica contraposta à vida vulgar e inerte. Noblesse oblige. converte-se em algo parecido aos direitos comuns. A nobreza ou fama do filho já é puro benefício. distinguíamos o homem excelente do homem vulgar dizendo: que aquele é o que exige muito de si mesmo. que se recebe e transmite como uma coisa inerte. e este. Quando esta. certa contradição na transferência da nobreza. Porque ao significar para muitos "nobreza de sangue" hereditária. por infelicidade. já em decadência. apenas contenta-se com o que é e está encantado consigo mesmo (43). os direitos comuns. mas representam o perfil onde chega o esforço da pessoa. Daí que chamemos massa a este modo de ser homem . O filho é conhecido porque seu pai conseguiu ser famoso. Sua vida não lhe apraz se não a faz consistir em serviço a algo transcendente. Nobre significa o "conhecido". ao conseguir a nobreza. puro usufruto e benefício. noblesse oblige. Por isso não estima a necessidade de servir como uma opressão. foi (45). posta sempre a superar-se a si mesma. Para mim. é a criatura de seleção. a cujo serviço livremente se põe. A nobreza define-se pela exigência. que a oprimam. lhe falta. não. são conquistas. Contra o que sói crer-se. Nobre. Desta maneira. Implica um esforço insólito que motivou a fama. Mas o sentido próprio. se fosse necessário e alguém se lho disputasse (44). como são os "do homem e do cidadão". quem vive em essencial servidão. É conhecido por reflexo. de qualquer modo. entende-se o conhecido de todo o mundo. o que não exige nada. a comunica a seus antepassados. e. o famoso. pois. a nobreza hereditária tem um caráter indireto. pelas obrigações. e ao nobre hereditário obriga-o a herança. sente desassossego e inventa novas normas mais difíceis. Mais lógicos os chineses. numa qualidade estática e passiva. se reclui a si mesma. é luz espelhada.

São os ascetas (46). corporais (higiene. a diferença da tradicional. Nas horas difíceis que chegam para nosso continente. os pouquíssimos seres que conhecemos capazes de um esforço espontâneo e luxuoso. hermética em si mesma. Não surpreenda esta aparente digressão. não já progresso. e como monumentalizados em nossa experiência. tenham um momento a boa vontade de aceitar. mas. que é de toda a vida pública a mais eficiente e mais visível. resultante de outras mais íntimas e impalpáveis. Porque a disposição radical de sua alma está feita de hermetismo e indocilidade. é. Por isso. mas que se caracteriza por ignorar de raiz os princípios mesmos da civilização. o século XIX o abandonou a si mesmo. A atividade política.e das mulheres . a derradeira. Por outra parte.htm (43 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .A rebelião das massas. Agora podemos caminhar mais depressa.e por reflexo em todo o mundo . saúde média superior à de todos os tempos). cada dia se notará mais em toda a Europa . em certas matérias especialmente angustiosas. um significado político. que é tão massa como o de sempre. Reitero ao leitor que. Desta sorte. incapaz de atender a nada nem a ninguém. enquanto não tenhamos analisado esta. e então. subitamente angustiadas. Por isso mesmo ficam mais isolados.que as massas são incapazes de se deixar dirigir em nenhuma ordem. o processo da civilização. Continuando as coisas como até aqui.são incapazes de outro esforço que o estritamente imposto como reação a uma necessidade externa. tenha lido até aqui. por si mesmo. sejam fatos. mas quer suplantar os excelentes. um incessante treinamento.econômico. é a chave ou equação psicológica do tipo humano dominante hoje. O simples processo de manter a civilização atual é superlativamente complexo e requer sutilezas incalculáveis. Quererão ouvir. sejam pessoas.em suma: indócil (47). poderá reger. é ilusório pensar que o homem médio vigente. São os homens seletos. Assim. para os quais viver é uma perpétua tensão. civis e técnicos (entendo por estes a enormidade de conhecimentos parciais e de eficiência prática que hoje o homem médio possui e de que sempre careceu no passado) -. Para definir o homem-massa atual. por muito que tenha ascendido seu nível vital em comparação com o de outros tempos. porque lhe falta de nascença a função de atender ao que está além dela. a conveniência de não entender todos estes enunciados atribuindo-lhes. paciente. contrariamente. encontramo-nos com uma massa mais forte que a de nenhuma época. é preciso contrapô-lo às duas formas puras que nele se mesclam: a massa normal e o autêntico nobre ou esforçado. os nobres. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Quererão acompanhar a alguém. porque já somos donos do que. intrometeu nele formidáveis apetites. Depois de haver estabelecido nele todas estas potências. poderosos meios de toda ordem para satisfazê-los . a meu juízo. faltará a última claridade ao teorema deste ensaio. a direção de minorias superiores. vamos nos fartando de advertir que a maior parte dos homens . a indocilidade política não seria grave se não proviesse de uma mais profunda e decisiva indocilidade intelectual e moral. os únicos ativos e não só reativos. Digo processo. e descobrirão que são surdas. acreditando que se basta . imediatamente. Treinamento = áskesis. seguindo o homem médio sua índole natural. é possível que. À medida que se avança pela vida. Mal pode governá-lo este homem-massa que aprendeu a usar muitos aparelhos de civilização. fechou-se dentro de si. Mas ainda essa boa vontade fracassará. ao produzir automaticamente um homem novo. e não poderão. Tudo que vem depois é conseqüência ou corolário dessa estrutura radical que poderia resumir-se assim: o mundo organizado pelo século XIX.

o néscio. hermética. Mas essa capacidade não lhe serve de nada. imaginário e problemático. A pessoa encontra-se com um repertório de idéias dentro de si. pois. o atual é mais esperto. Como esses insetos que não há maneira de extrair do orifício em que habitam. Mas a alma medíocre é incapaz de transmigrações . a alma fechou-se para ele. instala-se definitivamente naquele repertório. mas chega-lhe de sua vaidade e ainda para ele mesmo tem um caráter fictício. não se lhe ocorre duvidar de sua própria plenitude. busca neles a confirmação da idéia que quer ter de si mesmo. POR QUE AS MASSAS INTERVÉM EM TUDO E POR QUE SÓ INTERVÊM VIOLENTAMENTE Ficamos em que aconteceu algo sobremodo paradoxal. Já sei que muitos dos que me lêem não pensam como eu. paradisíaca. Por isso dizia Anatole France que o néscio é muito mais funesto que o malvado. e nesse esforço consiste a inteligência. Por isso o vaidoso necessita dos demais. tem mais capacidade intelectiva que o de nenhuma outra época. a alma.htm (44 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e a crença na sua perfeição não está consubstancialmente unida a ele. O hermetismo nato de sua alma lhe impede o que seria condição prévia para descobrir sua insuficiência: comparar-se com outros seres. não há modo de desalojar o tolo de sua tolice. Pois ainda que em definitivo minha opinião fosse errônea. O tolo é vitalício e impermeável. O homem-massa sente-se perfeito. Eis aí o mecanismo da obliteração. consegue o homem nobre sentir-se em verdade completo. Comparar-se seria sair um pouco de si mesmo e trasladar-se ao próximo. por isso faz um esforço para escapar à iminente tolice. Um homem de seleção. não suspeita de si mesmo: julga-se discretíssimo. ao novo Adão. por sua vez. Neste caso tratar-se-ia de hermetismo intelectual. como de Adão. jamais (48). consiste o gigantesco problema hoje levantado para a humanidade. Contrariamente ao homem medíocre de nossos dias. Sua confiança em si é. necessita ser especialmente vaidoso. e daí a invejável tranqüilidade com que o néscio se assenta e instala em sua inépcia. VIII. manifestam seu exemplar senhorio ao modo absurdo de ser homem que eu chamei "massa rebelde". Não sentindo nada de menos fora de si. De sorte que nem ainda neste caso mórbido nem ainda "cegado" pela vaidade. O tolo. De file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. ao contrário. levá-lo de passeio um pouco além de sua cegueira e obrigá-lo a que contraste sua visão grosseira habitual com outros modos de ver mais sutis. Como poderiam pensar como eu? Mas ao supor-se com direito a ter uma opinião sobre o assunto sem prévio esforço para forjá-la. Decide contentar-se com elas e considerar-se intelectualmente completa. Encontramo-nos. a vaga sensação de possuí-la apenas lhe serve para fechar-se mais em si mesmo e não usá-la. Pelo contrário. Isso é precisamente ter obliterada. Pois bem: eu sustento que nessa obliteração das almas médias consiste a rebeldia das massas em que. não é ingênua. a rigor. Este surpreende-se a si mesmo sempre a dois passos de ser tolo. Não se trata de que o homem-massa seja tolo. para sentir-se perfeito. Porque o malvado descansa algumas vezes. Também isto é naturalíssimo e confirma o teorema.esporte supremo. com a mesma diferença que eternamente existe entre o tolo e o perspicaz. mas que em verdade era naturalíssimo: de tanto se mostrarem abertos mundo e vida ao homem medíocre. sempre ficaria o fato de que muitos destes leitores discrepantes não pensaram cinco minutos sobre tão complexa matéria.

a ação criadora de outros. prejuízos. impô-los-á por toda a parte. Não há cultura onde as polêmicas estéticas não reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte. Tinha crenças. Por isso perdeu o uso da audição. positiva ou negativamente. vedava-o completamente. Não me importa quais são. O viajante que chega a um país bárbaro. O império que sobre a vida pública hoje exerce a vulgaridade intelectual. sobre política ou sobre literatura -. mas sua atitude reduzia-se a repercutir. que em sua maior parte são de índole teórica. regulam estas a vida só grosso modo. Onde há pouca. e com um audácia que só se explica pela ingenuidade.A rebelião das massas. A escassez da cultura intelectual espanhola. Não há cultura onde não há princípios de legali5àde civil a que apelar. A que nossos próximos possam recorrer. Nunca se lhe ocorreu opor às "idéias" do político outras suas. Estas normas são os princípios da cultura. O que digo é que não há cultura onde não há normas. Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham "idéias". ou a vulgaridade como um direito. A mesma coisa em arte e nas demais ordens da vida pública. A idéia é um xeque-mate à verdade. dava ou retirava sua adesão. o homem médio tem as "idéias" mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. a barbárie é ausência de norma e de possível apelação. não há cultura. de não estar qualificado para teorizar (49). ou. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que ela imponha. mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobre o que as coisas são ou devem ser . no sentido mais estrito da palavra. barbárie. Não há normas bárbaras propriamente ditas. cego e surdo como é. nem sequer julgar as "idéias" do político do tribunal de outras "idéias" que cria possuir. Não vale falar de idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula. mas que o vulgar proclame e imponha o direito da vulgaridade. se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir. decidir em quase nenhuma das atividades públicas. Parecia-lhe bem ou mal o que o político projetava e fazia. Isto é o que no primeiro capítulo enunciava eu como característico em nossa época: não que o vulgar creia que é destacado e não vulgar. que sejam cultas? De maneira alguma. penetram até o pormenor no exercício de todas as atividades. As "idéias" deste homem médio não são autenticamente idéias. tradições. experiências. do cultivo ou exercício disciplinado do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. de sentenciar. nem sua posse é cultura. A conseqüência automática disto era que o vulgo não pensava. há.por exemplo. Pelo menos na história européia até hoje. onde há muita. de decidir. nunca o vulgo havia crido ter "idéias" sobre as coisas. é talvez o fator da presente situação mais novo. sabe que naquele território não regem princípios aos quais possa recorrer. mas. isto é. de julgar. Não há questão de vida pública em que não intervenha. E isto é. provérbios. não tenhamos ilusões. Não há cultura quando as relações econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual possam amparar-se.htm (45 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Para que ouvir. Quando faltam todas essas coisas. nem de longe. Uma e inata consciência de sua limitação. O mais e o menos de cultura mede-se pela maior ou menor precisão das normas. menos assimilável a nada do pretérito. vocábulos ocos que o acaso amontoou no seu interior. quer dizer. uma vez para sempre consagra o sortimento de tópicos. simplesmente. Hoje. Não há cultura onde não há acatamento de certas últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa (50). o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas. hábitos mentais. impondo suas "opiniões". pelo contrário. pelo contrário.

Idear. Continuamos sendo o eterno padre de aldeia que rebate triunfante o maniqueu. mas a chave está no hermetismo intelectual. Um pouco estupidamente tem se entendido com ironia esta expressão. por haverem resolvido dirigir a sociedade sem ter capacidade para isso. um orbe de verdades inteligíveis. intelecto. mas é inegável que ela significa a maior homenagem à razão e à justiça. mas não quer aceitar as condições e supostos de todo opinar. O homem médio encontra-se com "ideais" dentro de si. manifesta-se. que declara muito bem o prévio rendimento da força às normas racionais. A civilização não é outra coisa senão o ensaio de reduzir a força a ultima ratio. Ter uma idéia é crer que se possuem as razões dela. mas à estranhíssima bitola destas novidades. A força era. mas carece da função de idear. crer que existe uma razão. a razão da sem-razão. e retrocede-se a uma convivência bárbara. Qualquer pessoa pode perceber que na Europa. Em outras era a violência o meio a que recorria a quem havia esgotado todos os demais para defender a razão e a justiça que cria ter. o que estes novos fatos têm de esquisito ao que têm de novo. advertir-se-á que as primeiras notas de sua peculiar melodia soaram naqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta de 1900. e não nos interessa. em que se acerte ou não . que a forma superior da convivência é o diálogo em que se discutem as razões de nossas idéias. e instintivamente repudia a obrigação de acatar essa instância suprema que se acha fora dele. Para dar algum exemplo concreto destas coisas esquisitas mencionarei certos movimentos políticos. crer. Eu vejo nisso a manifestação mais palpável do novo modo de ser das massas. Suprimem-se todos os trâmites normais e se vai diretamente à imposição do que se deseja. se mostra resolvido a impor suas opiniões. Não se diga que parecem esquisitos simplesmente porque são novos. é uma mesma coisa como apelar a tal instância. opinar. e detesta-se toda forma de convivência que por si mesma implique acatamento de normas objetivas. não em que se saiba mais ou menos.A rebelião das massas. que é uma convivência sob normas. como vimos antes. mas que. Quer opinar. leva-a também. Agora começamos a ver isto com bastante clareza. desde a conversação até o Parlamento. como o sindicalismo e o fascismo. O entusiasmo pela inovação é de tal modo ingênito no europeu. mas na habitual falta de cautela e cuidados para ajustar-se à verdade que soem mostrar os que falam e escrevem. porque a "ação direta" consiste em inverter a ordem e proclamar a violência como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Nem sequer suspeita qual é o elemento sutilíssimo em que as idéias vivem. mas na falta de escrúpulo que leva a não cumprir os requisitos elementais para acertar. Eis aqui o novo: o direito a não ter razão. Não se atribua. pois. que o levou a produzir a história mais inquieta de quantas se conhecem. Mas o homem-massa sentir-se-ia perdido se aceitasse a discussão. Tal violência não é outra coisa senão a razão exasperada. simplesmente. e é.htm (46 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .a verdade não está em nossa mão -. inventores da maneira e da palavra "ação direta". que. Perpetuamente o homem tem recorrido à violência: às vezes este recurso era simplesmente um crime. há alguns anos. Daqui que suas "idéias" não sejam efetivamente senão apetites ou palavras. o "novo" é na Europa "acabar com as discussões". sem haver procurado antes averiguar o que pensa o maniqueu. O dia em que se reconstrua a gênese de nosso tempo. pois. Isso quer dizer que se renuncia à convivência de cultura. a um procedimento único de intervenção: a ação direta. começaram a acontecer "coisas esquisitas". Por isso. com efeito. propele a massa para que intervenha em toda a vida pública. a ultima ratio. portanto. Sob as espécies de sindicalismo e fascismo aparece pela primeira vez na Europa um tipo de homem que não quer dar razões nem quer ter razão. passando pela ciência. Será muito lamentável que a condição humana leve volta e meia a esta forma de violência. portanto. O hermetismo da alma. aceitar seu Código e sua sentença. como as romanças musicais. Em sua conduta política revela-se a estrutura da alma nova da maneira mais crua e contundente. inexoravelmente. Não. submeter-se a ela.

justiça. a convivência. Por isso. Ela leva ao extremo a resolução de contar com o próximo e é protótipo da "ação indireta". É se incivil e bárbaro na medida em que não se conte com os demais. vontade de convivência. a comunidade. uma massa homogênea pesa sobre o Poder público e esmaga. prima ratio. PRIMITIVISMO E TÉCNICA file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. antes de tudo. Em quase todos. limita-se a si mesmo e procura. Trâmites. o cidadão. sempre o modo de operar natural às massas. com o inimigo débil. O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o Poder público. deixar espaço no Estado que ele impera para que possam viver os que nem pensam nem sentem como ele. A barbárie é tendência à dissociação. As relações sexuais reduzem seus trâmites. quer dizer. que suprime tudo que medeia entre nosso propósito e sua imposição. pululação de mínimos grupos separados e hostis. não obstante ser onipotente.quem o diria ao ver seu aspecto compacto e multitudinário? . constitui-se no insulto. que. Por isso. como a maioria. ainda à sua custa. quando a intervenção direta das massas na vida pública passou de casual e infreqüente a ser o normal. como os mais fortes.htm (47 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . No trato social suprime-se a "boa educação". normas. usos intermediários. descobre sua própria origem. Convém recordar que em todos os tempos. A literatura. Odeia de morte o que não é ela. com efeito. a rigor. como única razão é ela a norma que propõe a anulação de toda norma. não deve surpreender que tão rapidamente pareça essa mesma espécie decidida a abandoná-la. acharemos uma mesma entranha em todos. quando a massa por um ou outro motivo. Era inverossímil que a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão bonita. Proclama a decisão de conviver com o inimigo. através da idéia de civis. Todos. Foi. como "ação direta". cortesia. o mais nobre grito que soou no planeta. É a Charta magna da barbárie. . tão paradoxal. A massa . Trata-se com tudo isso de fazer possível a cidade. se olhamos por dentro cada um desses instrumentos da civilização que acabo de enumerar. portanto. Toda a convivência humana vai caindo sob este novo regime em que se suprimem as instâncias indiretas. E corrobora energicamente a tese deste ensaio o fato patente de que agora. tão elegante. apareça a "ação direta" oficialmente como norma reconhecida. pois.não deseja a convivência com o que não é ela. razão! de que veio inventar tudo isso. IX. E um exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na terra. supõem o desejo radical e progressivo de cada pessoa contar com as demais. O liberalismo convém hoje recordar isto . atuou na vida pública. tão antinatural. mais ainda.E assim todas as épocas bárbaras têm sido tempo de espalhamento humano.A rebelião das massas. o fez em forma de "ação direta". criar tanta complicação? Tudo isso se resume na palavra "civilização".é a suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga à minoria e é. aniquila todo o grupo opositor. Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Não começa a ser já incompreensível semelhante ternura? Nada acusa com maior clareza a fisionomia do presente como o fato de que vão sendo tão poucos os países onde existe a oposição. A forma que na política representou a mais alta vontade de convivência é a democracia liberal. tão acrobática. Civilização é.

Todos estes elementos da ação indireta. Não há razão para negar a realidade do progresso. Não creio na absoluta determinação da história. tudo é possível na história . E assim os sintomas de nova conduta que sob o império atual das massas vão aparecendo e agrupávamos sob o título "ação direta". e portanto. mas também pode ser uma catástrofe no destino humano. como é o presente. de sorte que nele a realidade vacila. Qualquer deles não só tolera. mas é que em si mesma a situação presente é potência bifronte de triunfo ou de morte. valorizações e respeitos sobreviventes e já sem sentido. retorcimentos e intrincações que não a deixavam tomar sol. Porque a vida. Mas é claro que o vou construindo sobre a base subterrânea de minhas convicções filosóficas. favorável e pejorativa.a do presente substancialmente equívoca. e não sabe bem se se decidir por uma ou outra entre várias possibilidades. Tudo. soluções indevidamente complicadas. e dele recebermos a ordem para nossa conduta diante de tudo quanto foi (52). requeria urgentemente uma redução ao autêntico. é a única entidade do universo cuja substância é perigo. individual ou coletiva. Mas é preciso evitar o pecado maior dos que dirigiram o século XIX: a defeituosa consciência de sua file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em espécie. Compõem-se de peripécias. se compõe de puros instantes. Aqui. adquire maior intensidade nos "momentos críticos". a vida pública. nenhuma evolução. sem a ameaça de involução e retrocesso. mas até reclama uma dupla interpretação. Isto. É claro que toda velha cultura arrasta no seu avanço tecidos caducos e não pequena carregação de matéria córnea. me faz reivindicar plena liberdade de ideador diante de todo o passado. como sempre que com menos meios se consegue mais. apresentam duplo aspecto. rigorosamente falando. que é verdade em geral. A rebelião das massas pode. piétine sur place. a consciência de que é imprescindível para franquear o passo a um futuro estimável.A rebelião das massas. a rebelião das massas. mas na própria realidade. penso que toda vida. É. da civilização. mas é preciso corrigir a noção que crê seguro este progresso. e a humanidade européia não poderia dar o salto elástico que o otimista reclama dela se antes não se desnuda. a simplificação é higiene e melhor gosto. Pelo contrário.htm (48 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . drama (51). normas que provaram sua insubstancialidade. uma solução mais perfeita. cada um dos quais está relativamente indeterminado com respeito ao anterior. Este titubeio metafísico proporciona a todo o vital essa inconfundível qualidade de vibração e estremecimento. ser trânsito de uma nova e sem par organização da humanidade. Importa-me muito recordar aqui que estamos submersos na análise de uma situação . podem anunciar também futuras perfeições. sobretudo a política.tanto o progresso triunfal e indefinido como a periódica regressão -. por outro mal. O entusiasmo que sinto por esta disciplina de nudificação. portanto. a história. Por isso a princípio insinuei que todos os traços atuais e. Não é que possa parecer-nos por um lado bem. expostas ou aludidas em outros lugares. Em geral. de autenticidade. demandam uma época de frenesi simplificador. A árvore do amor romântico exigia também uma poda para que caíssem as demasiadas magnólias falsas cerzidas a seus ramos e o furor de lianas. A sobrecasaca e o plastrão românticos solicitam uma vingança por meio do atual deshabillé e o "em mangas de camisa". se não se aligeira até sua pura essencialidade. E este equívoco não reside em nosso juízo. Mais congruente com os fatos é pensar que não há nenhum progresso seguro. Há instituições mortas. com efeito. Não é coisa de lastrear este ensaio com toda uma metafísica da história. É o porvir que deve imperar sobre o pretérito. estorvo à vida e tóxico resíduo. pessoal ou histórica. até coincidir consigo mesma. volutas.

como é habitual . porém. E isso acontece quando a indústria alcança seu maior desenvolvimento e quando as pessoas mostram maior apetite pelo uso de aparelhos e medicinas criados pela ciência. um Naturmensch emergindo em meio de um mundo civilizado.que se tratava apenas de uma "frase".produziu-se na geração que hoje vai dos vinte aos trinta anos. trazer aqui a comento suas conclusões.portanto. é precisamente faltar à missão de responsável. na arte. o entusiasmo por elas havia aumentado sem colapso. Que nos significa situação tão paradoxal? Este ensaio pretende haver preparado a resposta a tal pergunta. Nos laboratórios de ciência pura começa a ser difícil atrair discípulos. e parece o mais urgente sublinhar o lado palmariamente funesto dos sintomas atuais. mas eu não vejo que se fale.ao que hoje pode julgar-se . Significa que o homem hoje dominante é um primitivo. Agora se vê que a expressão poderá enunciar uma verdade ou um erro. Não os desta ou os daquela. O homem-massa atual é. Quando mais acima.ainda que tão maníaco -. da civilização. Só saltando sobre distâncias e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pode julgar-se . No fundo de sua alma desconhece o caráter artificial. mas que é o contrário de uma "frase". mas crê que é fruta espontânea de uma árvore edênica. quase inverossímil. seu habitante não o é: nem sequer vê nele a civilização. Todo o crescimento de possibilidades concretas que a vida experimentou corre risco de anular-se a si mesmo ao topar com o mais pavoroso problema sobrevindo no destino europeu e que de novo formulo: apoderou-se da direção social um tipo de homem a quem não interessam os princípios da civilização. as ciências físicas . É indubitável que num balanço diagnóstico de nossa vida pública os fatores adversos superem em muito os favoráveis. ao longo do tempo.repito. na religião e nas zonas cotidianas da vida. que não é fácil. poderia demonstrar-se semelhante incongruência na política. proporcional . O civilizado é o mundo. que os fez não se manterem alertas e em vigilância. na moral.A rebelião das massas. sob a qual entende sobretudo a técnica. responsabilidade. A idéia que Spengler tem da cultura. transpondo umas palavras de Rathenau. Baste fazer constar este fato: desde que existem as nuove scienze. é tão remota da pressuposta neste ensaio. O primeiro caso de retrocesso . Mas isto confirma seu radical desinteresse pela civilização. parece-me neste ponto demasiado otimista. dizia eu que assistimos à "invasão vertical dos bárbaros". e em geral da história. tão sutil e tão profundo . mas . Deixar-se deslizar pela pendente favorável que apresenta o curso dos acontecimentos e embotar-se para a dimensão de perigo e carranca que mesmo a hora mais jocunda possui. A toda hora se fala hoje dos progressos fabulosos da técnica. a saber: uma definição formal que condena toda uma complicada análise. desde o Renascimento -. se o cálculo se faz não tanto pensando no presente como no que anunciam e prometem. um primitivo que pelos bastidores deslizou no velho cenário da civilização. os automóveis e algumas coisas mais.os de nenhuma. nem pelos melhores. Interessam-lhe evidentemente os anestésicos. mas usa dela como se fosse natureza. com uma consciência de seu futuro suficientemente dramático. Hoje torna-se mister suscitar uma hiperestesia de responsabilidade nos que sejam capazes de senti-la. Pois crê que à "cultura" vai suceder uma época de "civilização". Pois estas coisas são só produtos dela. com efeito. Mais concretamente: o número de pessoas que em proporção se dedicavam a essas puras investigações era maior em cada geração. nem ainda para retificá-las. O próprio Spengler. Se não fora prolixo. e o fervor que se lhes dedica faz ressaltar mais cruamente a insensibilidade para os princípios de que nascem. O novo homem deseja o automóvel e goza dele. e não estenderá seu entusiasmo pelos aparelhos até os princípios que os tornam possíveis.htm (49 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .

pois. Cada dia produz um novo analgésico ou vacina.como parece ocorrer -. as normas sociais. a físico-química só conseguiu constituir-se. Mas repito que surpreende a frivolidade com que ao falar da técnica se esquece que sua víscera cordial é a ciência pura. prático. espontaneamente e sem prédicas. fervor superlativo por aquelas ciências e suas congêneres as biológicas? Porque repare-se em qual é a situação atual: enquanto evidentemente todas as demais coisas da cultura se tornaram problemáticas . mas não da técnica. Isto demonstra que a ciência experimental é um dos produtos mais improváveis da história. da inspiração científica (55). a técnica só pode perviver um pouco de tempo. mas precipitado útil. Viena e Paris. à advertência de que o atual interesse pela técnica não garante nada. Pensou-se em todas as coisas que precisam continuar vigentes nas almas para que possa continuar havendo de verdade "homens de ciência"? Acredita-se seriamente que enquanto haja dollars haverá ciência? Esta idéia em que muitos se tranqüilizam não é senão uma prova mais de primitivismo. a própria moral -. Cada dia facilita um novo invento. aquele que lhe dure a inércia do impulso cultural que a criou. consequentemente. A técnica é consubstancialmente ciência. o homem-massa se daria por inteirado. embora esclarecida a questão. precisões. O homem-massa não atende a razões e só aprende em sua própria carne. só no século XIX. de uma cultura que contém um gênero de ciência. ao resumir a fisionomia novíssima da vida implantada pelo século XIX. e não pode interessar se as pessoas não continuam entusiasmadas com os princípios gerais da cultura. da maneira mais indiscutível e mais própria para fazer efeito no homem-massa. não é causa sui.a política. para se produzir. E ainda dentro deste quadrilátero. para reduzir ambos os pontos de vista a um comum denominador. que esse homem médio utiliza. Aí é nada a quantidade de ingredientes. quer dizer. Está bem que se considere o tecnicismo como um dos traços característicos da "cultura moderna". o qual vem a ser materialmente aproveitável. Berlim. Mas não espere que. pudera estabelecer-se assim a divergência: Spengler crê que a técnica pode continuar vivendo quando morreu o interesse pelos princípios da cultura. Se se embota esse fervor . evaporante. estabelecer-se plenamente no breve quadrilátero que inscrevem Londres. Fato tão sóbrio e tão magro devia fazer refletir um pouco sobre o caráter supervolátil. Magos. não práticas (53). Todo o mundo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sobressai já o claríssimo fato de que em toda a amplitude da terra e em toda a do tempo. Uma observação impede-me iludir-me sobre a eficácia de tais prédicas. Vive-se com a técnica. o progresso mesmo ou a perduração da técnica. sacerdotes. Eu não posso resolver-me a crer tal coisa. que a foro de racionais teriam que ser sutis. Mas esta fauna do homem experimental requer. a arte. que é mister reunir e agitar para obter coquetel da ciência físico-química! Ainda contentando-se com a pressão mais débil e sumária do tema. da técnica. os mais díspares entre si. e menos que nada. eu ficava com estas só duas feições: democracia liberal e técnica (54). e a ciência não existe se não interessa em sua pureza e por ela mesma. guerreiros e pastores têm pululado por toda a parte e à vontade.htm (50 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Bem arranjado está quem creia que se a Europa desaparecesse poderiam os norte-americanos continuar a ciência! Importaria muito tratar a fundo o assunto e especificar com toda a minúcia quais são os supostos históricos vitais da ciência experimental e. pelo visto. Esta não se nutre nem se respira a si mesma. e que as condições de sua perpetuação englobam as que tornam possível o puro exercício científico. sua maravilhosa eficiência: a ciência empírica. que beneficia esse homem médio. Por isso. de preocupações supérfluas. Não é demasiado absurdo que nas circunstâncias atuais não sinta o homem médio. Vou.A rebelião das massas. um conjunto de condições mais insólito que o que engendra o unicórnio. há uma que cada dia comprova.

podemos impunemente ser selvagens. que não há modo de subornar-se a si mesmo com ilusórias esperanças. onde esses homens vão e vêm. saltam mais aos olhos e se materializam em espetáculo.. o após-guerra converteu o homem de ciência no novo pária social. biólogos . Se alguém de boa mente a aproveita para algo. sem a menor solidariedade íntima com o destino da ciência. engenheiros.o mais aterrador (57). PRIMITIVISMO E HISTÓRIA A natureza está sempre aí. nem defender-se. O europeu que começa a predominar . Como vai pretender que alguém a tome em sério. de lado a filosofia. se se triplicassem ou decuplicassem os laboratórios. sendo de qualidade positiva. nem o espera. milagrosa. Sabe que é por essência problemática. Mas. pois. na selva. em que se desvive a si mesma? Deixemos. congelada. sabe que. e como isso se liberta de toda submissão do homem médio. de ação. Que raciocínios podem conseguir o que não consegue o automóvel. Podemos inclusive resolver a não deixar de sê-lo nunca. etc. um bárbaro emergindo por um alçapão.não aos filósofos -. químicos. bem-estar. Para mim é este da desproporção entre o proveito que o homem médio recebe da ciência e a gratidão que lhe dedica . X.de médicos.htm (51 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Cuida de seu aspecto de perfeita inutilidade (56). se ela começa por duvidar de sua própria existência. Mas as ciências experimentais necessitam da massa. Pode imaginar-se propaganda mais formidável e contundente em favor de um princípio vital? Como.. Maxime se. nem de atenção. da civilização. que é aventureira de outro nível. sem pedir a ninguém que conte com ela. os que ficaram numa alvorada estática. sem mais risco que o advento de outros seres que não o sejam. e a injeção de pantopom que fulmina. Haverá quem se sinta mais sobrecolhido por outros sintomas de barbárie emergente que. segundo veremos. Nela. suas dores? A desproporção entre o benefício constante e patente que a ciência lhes procura e o interesse que por ela mostram é tal. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em princípio. E conste que me refiro a físicos. massa dos técnicos mesmos . um homem primitivo. e abraça alegre seu livre destino de pássaro do bom Deus. nem de simpatia da massa. regozija-se por simples simpatia humana. Só posso explicar-me esta ausência do adequado reconhecimento se recordo que no centro da África os negros vão também em automóvel e se aspirinizam. são possíveis povos perenemente primitivos. nem recomendar-se. se não vive mais que na medida em que se combata a si mesma.A rebelião das massas. como esta necessita delas. um "invasor vertical". Sustenta-se a si mesma.que não lhe dedica .seria. como tal aparece. multiplicar-se-iam automaticamente riqueza. não cedendo à inspiração científica. na. Há-os. mas não vive desse proveito alheio. Breyssig chamou-os de "os povos da perpétua aurora". A filosofia não necessita de proteção.esta é minha hipótese . talvez com maior clareza que em nenhuma outra parte. este desapego pela ciência. relativamente à complexa civilização em que nasceu. os quais soem exercer sua profissão com um estado de espírito idêntico no essencial ao de quem se contenta com usar do automóvel ou comprar o tubo de aspirina -. não obstante. comodidades. saúde. não há sombra de que as massas peçam a si mesmas um sacrifício de dinheiro e de atenção para dotar melhor a ciência? Longe disso. sob pena de sucumbir. e esperar mais que barbárie de quem assim se comportar. já que num planeta sem físico-química não se pode sustentar o número de homens hoje existentes. nem o premedita. e não de omissão.

e o europeu vulgar revela-se inferior à tão sutil empresa. que por toda a parte a selva rebrota. Não é que faltem meios para a solução. Os princípios em que se apoia o mundo civilizado . Faltam cabeças. quanto mais avança. Ele anuncia que. Não lhe interessam os valores fundamentais da cultura. Quando um bom romântico divisa um edifício. e quando o senhor olha à sua volta tudo se volatilizou! Como se houvessem recolhido uns tapetes que tapavam a pura Natureza. Mas não acontece no mundo que é civilização. a franquia para ocupar-me dele em outra ocasião e para ser na hora oportuna romântico. a primeira coisa que seus olhos procuram é. e constitui a mais elementar tragédia da civilização. como o nosso. A civilização. Generalizando acharam um espetáculo mais sutilmente indecente na paisagem com ruínas. Também o romântico tem razão. como é sabido.. A selva sempre é primitiva. que não avança para nenhum meio-dia. em definitivo. Mais exatamente: há algumas cabeças. O após-guerra nos oferece um exemplo bem claro disso. mas não se preocupa de sustentar a civilização. entre o racional e o cósmico. Um descuido. reaparece repristinada a selva primitiva.o que é preciso sustentar .A rebelião das massas.. mas o corpo vulgar da Europa central não quer pô-las sobre os ombros. pois. A três por dois o senhor fica sem civilização. o touro com Pasifae e Antíope sob o capro. grave preocupação dos Estados australianos: impedir que as figueiras ganhem terreno e joguem os homens ao mar. De tanto ser férteis e certeiros os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Hoje os orçamentos da Oceania sobrecarregam-se com verbas onerosas destinadas à guerra contra a figueira. Este desequilíbrio entre a sutileza complicada dos problemas e a das mentes será cada vez maior se não se remedeia. Se o senhor quer aproveitar-se das vantagens da civilização. e pintavam o cisne sobre Lêda. Como aconteceu isto? Por muitas causas. O homem-massa crê que a civilização em que nasceu e que usa é tão espontânea e primigênea como a Natureza. mas agora é preciso acrescentar algumas precisões. E vice-versa. Trata-se de conter a selva invasora. geométrica. É artifício e requer um artista ou artesão. Cada vez é menor o número de pessoas cuja mente está à altura desses problemas. e não se faz solidário deles.htm (52 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . não se sustenta a si mesma. Reclamo. Pelo ano quarenta e tantos.é um assunto demasiado algébrico. Tudo que é primitivo é selva. onde a pedra civilizada.a Natureza -..está se vendo . em que o natural e subumano tornava a oprimir a palidez humana da mulher. que invadiu o continente e cada ano ganha em corte mais de um quilômetro. A civilização não está aí. sobre o acrotério ou o telhado. Sob essas imagens inocentemente perversas palpita um enorme e sempiterno problema: o das relações entre a civilização e o que ficou depois dela . Os problemas que hoje levanta são arqui-intrincados. tudo é terra.Málaga? Sicília? -. A reconstituição da Europa . nostálgico de sua paisagem .não existem para o homem médio atual. Seria estúpido rir do romântico. Isso acontece no mundo que é só Natureza. A civilização se lhe antolha selva. muito poucas. Mas agora encontro-me em faina oposta. mas agora vou destacar apenas uma. Os românticos de todos os tempos se desarticulavam ante esta cena de desolação. e ipso facto converte-se em primitivo. levou para a Austrália num vaso de barro uma figueirazinha. um emigrante meridional. Não está disposto a pôr-se a seu serviço. O "bom europeu" tem de se dedicar agora ao que constitui. estremecido. se afoga sob o abraço da silvestre vegetação. Eu já o disse. o senhor está enfarado. torna-se tanto mais complexa e mais difícil. o "amarelo saramago".

Ao chegar a um grau de povoação grande e exigir tão vasta convivência a solução de certas urgências materiais. Civilização avançada é uma e mesma coisa com problemas árduos. Não discuto o credo. apesar de que no seu transcurso os especialistas a fizeram avançar muitíssimo como ciência (58). como todos os que o são. Não creio que isto tenha acontecido jamais no passado. comportam-se desde o início como se houvessem passado já.a involução. É claro que ao complicarem-se os problemas. Eu sustento que hoje sabe o europeu dirigente muito menos história que o homem do século XVIII e mesmo do XVII. isto é. mas porque evita cometer os erros ingênuos de outros tempos. Mas é mister que cada nova geração se torne senhora desses meios adiantados.a vida é sempre diferente do que foi -. A européia ameaça sucumbir pelo contrário. Mas agora é o homem quem fracassa por não poder continuar emparelhado com o progresso de sua própria civilização. que. aumenta sua colheita em quantidade e em agudeza até ultrapassar a receptividade do homem normal. Parecem toscos labregos que com dedos grossos e desajeitados querem colher uma agulha que está sobre uma mesa.tornou possível o avanço prodigioso do século XIX. como pela maneira anti-histórica. princípios que a informam. anacrônica. Mas se o senhor. tanto mais em perigo está. Sua política está pensada . em suma: história. os temas políticos e sociais com o instrumental de conceitos rombudos que serviram a duzentos anos para enfrentar situações de fato duzentas vezes menos sutis. portanto. Movimentos típicos de homens-massa dirigidos. a retroceder e consumir-se. por exemplo. A este abandono se devem em boa parte seus peculiares erros. Na Grécia e em Roma não fracassou o homem. As pessoas mais "cultas" de hoje padecem uma ignorância histórica incrível. que só a técnica podia achar. e resume em sua substância a mais longa experiência. e.quem no universo não possui uma porciúncula de razão? -. Causa inquietude ouvir falar sobre os temas mais elementais do dia por pessoas relativamente mais cultas. sem "consciência histórica". Não por que dê soluções positivas ao novo aspecto dos conflitos vitais . perdeu a memória do passado. Aquele saber histórico das minorias governantes . cada vez mais complicada. o senhor não aproveita sua experiência.A rebelião das massas. vão-se aperfeiçoando também os meios para resolvê-los. Pois eu creio que esta é a situação da Europa. como se sucedendo nesta hora pertencessem à fauna de antanho. isolado. além de ser velho. O saber histórico é uma técnica de primeira ordem para conservar e continuar uma civilização provecta. que hoje gravitam sobre nós. Mas já o século XIX começou a perder "cultura histórica". por homens medíocres. extemporâneos e sem memória extensa. muita experiência. mas seus princípios. Por isso são bolchevismo e fascismo. Todas as civilizações feneceram pela insuficiência de seus princípios.embora subterraneamente . as duas tentativas "novas" de política que na Europa e seus confinantes se estão fazendo. começou o mundo a involuir. com que tratam sua parte de razão. à ingenuidade e primitivismo de quem não tem ou esquece seu passado.htm (53 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . A questão não está em ser ou não ser comunista e bolchevista. O que é file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.há um banalmente unido ao avanço da civilização. de que sua vida começa a ser difícil. o retrocesso à barbárie. está ideada em vista desses erros.governantes sensu lato . tem naturalmente uma verdade parcial . mas. Daí que quanto maior seja o progresso. dois claros exemplos de regressão substancial. Entre estes para concretizar um pouco . Em seu último terço iniciou-se . O Império romano finda por falta de técnica. então tudo é desvantagem. bem entendido. Não tanto pelo conteúdo positivo de suas doutrinas. Manejam-se.pelo XVIII precisamente para evitar erros de todas as políticas antigas. que é ter muito passado às suas costas. A vida é cada vez melhor.

com todos estes anti o que. segundo a lenda.A rebelião das massas.bolchevismo e fascismo . em vez de proceder a sua digestão.ser antiliberal ou não liberal . ao cabo da qual está inexoravelmente o reaparecimento de Pedro. em vista de que todas as "leis" de sua ciência aparecem caducadas. Um e outro . O porvir o vence porque o devora. a seguir passa aos extremistas e começa mui rapidamente a retroceder para uma restauração".é o que fazia o homem anterior ao liberalismo. O antipedrista. E como já uma vez este triunfou daquela. Acontece. necessita preocupar-se antes de tudo de que esses humílimos lugares comuns da experiência histórica fiquem invalidados pela situação que ele suscita. não levam dentro de si resumido todo o pretérito. já usado uma ou muitas vezes. senão declarar-se partidário de um mundo onde Pedro não existe. Até o ponto de que não há frase feita. E isto serão todos os movimentos que recaiam na simplicidade de travar uma luta com tal ou qual porção do passado.são duas falsas alvoradas. se declara anti-liberal. repetirá sua vitória inumeráveis vezes ou se acabará tudo . A esses tópicos veneráveis podiam ajuntar-se algumas outras verdades menos notórias. Invertendo o signo que afeta o bolchevismo. Desde já.. nasceu já com oitenta anos enquanto seu progenitor não tinha mais que trinta. período que coincide com a vigência de uma geração (59). Se deixar algo dele fora está perdido. Mas isso é justamente o que não pode fazer quem. De minha parte reservarei a qualificação de genial ao político que mal comece a operar comecem a ficar loucos os professores de História dos Institutos. inconcebível e anacrônico é que um comunista de 1917 se atire a fazer uma revolução que é em sua forma idêntica a todas as que houve antes e na qual não se corrigem os mínimos defeitos e erros das antigas. entre elas esta: uma revolução não dura mais de quinze anos. como o canhão é mais arma que a lança. Não há dúvida de que é preciso superar o liberalismo do século XIX. coloca-se antes e retrocede toda a película à situação passada. uma monótona repetição da revolução de sempre. condição irremissível para superá-lo. pois. diabo!. mas. É. o que é o mesmo. pelo contrário. O liberalismo é nela posterior ao anti-liberalismo. interrompidas e feitas cisco. "A revolução devora seus próprios filhos !" "A revolução começa por um partido moderado. Nem um nem outro ensaio estão "à altura dos tempos". porém não menos prováveis. não trazem a manhã do amanhã. Mas a inovação que o anti representa se desvanece no vazio ademane negador e deixa só como conteúdo positivo uma "antigualha".htm (54 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Quem aspire verdadeiramente a criar uma nova realidade social ou política. mas a de um arcaico dia. são primitivismo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em vez de colocar-se depois de Pedro. O qual nasceu. é mais vida que este. poderíamos dizer coisas similares do fascismo. que não receba deplorável confirmação quando se aplica a esta. naturalmente. ou. Há uma cronologia vital inexorável. Por isso . Mas isso é precisamente o que acontecia ao mundo quando ainda não havia nascido Pedro. Todo anti não é mais que um simples e vazio não. etc. Por isso não é interessante historicamente o acontecido na Rússia. traduzindo sua atitude à linguagem positiva. etc. é o perfeito lugar comum das revoluções. Com o passado não se luta corpo a corpo. depois de seu pai. das muitas que sobre as revoluções a velha experiência humana fez. Quem se declara anti-Pedro não faz. posto que signifique uma reação contra ele e supõe sua prévia existência. por isso é estritamente o contrário de um começo de vida humana.liberalismo e anti-liberalismo . uma atitude anti-algo parece posterior a este algo. aconteceu a Confúcio. como o fascismo.numa destruição da Europa.

e essa é preciso dá-la per saecula saecculorum.. e de passagem a impor a que não tem. Seria tudo muito fácil se com um não puro e simples aniquilássemos o passado. Mas não tinha toda a razão. como se somente ele e seus congêneres existissem no mundo. O tema que verso nestas páginas é politicamente neutro. pois. e. encontra-se o seguinte: 1o. automaticamente. a sua. mal chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. Em suma. segundo um regime de "ação direta". antes dirigido.não impede nem de longe que ambos sejam um mesmo homem. Se o mandamos embora. porque alenta em estrato muito mais profundo que a política e suas dissensões. a não pôr em tela de juízo suas opiniões e a não contar com os demais. Atuará. fixando-me só na sua feição anacrônica. quer dizer. não recair nela. Contar com ele. contemplações.. estuda-se a estrutura psicológica deste novo tipo de homem-massa. voltará a reclamá-la. a considerar bom e completo seu haver moral e intelectual.A rebelião das massas. Sua sensação íntima de domínio o incita constantemente a exercer predomínio. a meu juízo. XI. resolveu governar o mundo. Esta é a condição para superá-lo. "a altura dos tempos". 2o. O liberalismo tinha uma razão. Se falei aqui de fascismo e bolchevismo não foi senão obliquamente. como não pretendo dirimir o perene dilema entre revolução e evolução. sem considerações. entregue à decisão do homem vulgar como tal. O passado tem razão. saturadas de seu estilo primitivo. trâmites nem reservas. vulgo rebelde. Esta resolução de avançar para o primeiro plano social produziu-se nele. Comportar-se à sua vista para sorteá-lo. intervirá em tudo impondo sua vulgar opinião. Ou dito em voz ativa: o homem vulgar. podem celebrar uma aparente vitória. que conheçam a latitude presente da vida e repugnem toda atitude arcaica e silvestre. 3o. a não ouvir. A Europa não tem remissão se seu destino não é posto nas mãos de pessoas verdadeiramente "contemporâneas" que sintam palpitar debaixo de si todo o subsolo histórico. Se atendendo aos defeitos da vida pública. portanto. portanto. cada indivíduo médio encontra em si uma sensação de domínio e triunfo que. não discuto agora a entranha de um nem a do outro. volta.htm (55 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . A Europa necessita conservar seu essencial liberalismo. sem limitações trágicas.que em toda época tem sido muito superficial . à parte isso. Mas o passado é pura essência revenant. Este contentamento consigo o leva a fechar-se em si mesmo para toda instância exterior.. Não é mais nem menos massa o conservador que o radical. só tentativas por eles informadas. evitá-lo. com hiperestésica consciência da conjuntura histórica. e essa que não tinha é a que se devia tirar-lhe. Porque hoje triunfa o homem-massa. Por isso sua única autêntica superação é não mandá-lo embora. volta irremediavelmente. A ÉPOCA DO "MOCINHO SATISFEITO" Resumo: O novo fato social que aqui se analisa é este: a história européia parece. uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil. Se não se lhe dá essa que tem. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Esta é. portanto. O máximo que este ensaio se atreve a solicitar é que revolução ou evolução sejam históricas e não anacrônicas. pela primeira vez. Necessitamos da história íntegra para ver se conseguimos escapar dela. e esta diferença . Mas. o convida a afirmar-se a si mesmo tal qual é. inseparável de tudo que hoje parece triunfar. abastada.

o bárbaro. Tenderíamos ilusoriamente a crer que uma vida nascida em um mundo abastado seria melhor. porque não vêm dele. Por razões muito rigorosas e arquifundamentais que agora não é oportuno enunciar. Sua vida perde inexoravelmente autenticidade. (O primitivo normal. a não ser nem o outro nem ele mesmo. como o "menino mimado" e o primitivo rebelde. de repente e sem saber como. pelo contrário. a rigor. Este repertório de feições fez com que pensássemos em certos modos deficientes de ser homem. tradição social. seu antepassado. basta recordar o fato sempre repetido que constitui a tragédia de toda a aristocracia hereditária. mais vida e de superior qualidade à que consiste. que o veja diante de si e não suspeite que aquilo. atrofia sua vida. Valha isto tão somente para enfrentar nossa ingênua tendência a crer que a abundância de meios favorece a vida. Está condenado a representar o outro. ninguém descreveu ainda em seu interno e trágico mecanismo . O aristocrata herda. em lutar com a escassez. fantasmática.) Não é necessário estranhar que eu acumule dictérios sob esta figura de ser humano. as vantagens da civilização -.religião. O resultado é essa específica parvoíce das velhas nobrezas. é o homem mais dócil a instâncias superiores que jamais existiu . intimamente. Por enquanto trata-se de um ensaio de ataque: o ataque a fundo virá depois. sentiria meu corpo como uma coisa vaga. em meio de sua riqueza e de suas prerrogativas. É uma de tantas deformações como o luxo produz na matéria humana. Acha-se ao nascer instalado. inspirado por tal caráter. precisamente. e outro um menino mimado e outro. portanto. é o ataque a fundo. Agora. costumes -. Em que ficamos? Que vida vai viver o "aristocrata" de herança. talvez muito breve. O presente ensaio não é mais que um primeiro ensaio de ataque a esse homem triunfante. a segurança. O ataque a fundo tem de vir de maneira que o homem-massa não se possa precaver contra ele. Se meu corpo não me pesasse eu não poderia andar. fofa. minhas capacidades.as comodidades. As dificuldades com que tropeço para realizar minha vida são. quer dizer. quer dizer. que não se produzem organicamente unidas a sua vida pessoal e própria. Um mundo abundoso (60) de possibilidades produz automaticamente graves deformações e viciosos tipos de existência humana . encontra atribuídas a sua pessoa umas condições de vida que ele não criou. e converte-se em pura representação ou ficção de outra vida. A abundância de meios que está obrigado a manejar não o deixa viver seu próprio e pessoal destino. muito mais amplo e radical.os que se podem reunir na classe geral "homem-herdeiro". esforço por ser ela mesma. O garoto mimado é o herdeiro que se comporta exclusivamente como herdeiro. de que o "aristocrata" não é senão um caso particular. que agora anda por toda a parte e onde quer impor sua barbárie íntima.o interno e trágico mecanismo que conduz toda a aristocracia hereditária à sua irremediável degeneração. com efeito. nada que ver com elas. por falta de uso e esforço vital. Este personagem. mostrando como muitos dos traços característicos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de outro ser vivente. o garoto mimado da história humana. Ele não tem. Se a atmosfera não me oprimisse. em forma muito diferente da que este ensaio reveste. Mas não é verdade. no "aristocrata" herdeiro toda a sua pessoa vai se desvanecendo. Pelo contrário. a sua ou a do prócer inicial? Nem uma nem outra. o que desperta e mobiliza minhas atividades. São a carapaça gigantesca de outra pessoa. precisamente aquilo. em suma. Toda vida é luta. tabus. Agora a herança é a civilização . (Por outra parte. o homem-massa de nosso tempo -. precisamente. Assim. pode surgir um homem constituído por aquele repertório de feições.htm (56 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .A rebelião das massas. caberia aproveitar mais detalhadamente a anterior alusão ao "aristocrata". que não se assemelha a nada e que. e o anúncio de que uns quantos europeus vão reagir energicamente contra sua pretensão de tirania. só dentro da folga social que esta fabricou no mundo. em vez dessas razões. E tem de viver como herdeiro. é. portanto. tem de usar a carapaça de outra vida. isto é. Como vimos.

Mas o "mocinho" é aquele que acredita poder comportar-se fora de casa como em casa. Este desequilíbrio o falsifica.regime higiênico e atenção à beleza do traje -. Por isso. de maneira germinal. A forma mais contraditória da vida humana que pode aparecer na vida humana é o "mocinho satisfeito". Assim. no homem-massa.). Já sabemos por que: no âmbito familiar. o nível vital que representa a Europa de hoje é superior a todo o passado humano. O âmbito familiar é relativamente artificial. segundo Aristóteles. que este novíssimo bárbaro é um produto automático da civilização moderna.A rebelião das massas. preferir a vida sob a autoridade absoluta a um regime de discussão (61). e mal sente dentro de si obrigações. Cabe formular esta lei que a paleontologia e a biogeografia confirmam: a vida humana surgiu e progrediu só quando os meios com que contava estavam equilibrados pelos problemas que sentia. penso. pois. porém. mas. Insisto. divertir-se com o intelectual. é que não se pode fazer senão o que cada qual tem que fazer. etc. Neste ponto possuímos apenas uma liberdade negativa de arbítrio . mas não as angústias. Isto é verdade. Isto. de Estados previdentes. Podemos perfeitamente file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. vicia-o em sua raiz de ser vivente.a nolição -. quando se torna figura predominante. radical problematismo. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos. Por exemplo: a propensão de fazer ocupação central da vida os jogos e os esportes. Não é o que não se deva fazer o que esteja na vontade da pessoa. recordarei que a espécie humana brotou em zonas do planeta onde a estação quente ficava compensada por uma estação de frio intenso. Ignora. do qual percebe só a superabundância de meios. Segundo isto. quer dizer. as raças inferiores . e tolera dentro de si muitos atos que na sociedade. os girinos na alverca. se dão. não nasceu tampouco dentro dele por geração espontânea e misteriosa. pelo contrário. com leal desgosto em fazer ver que este homem cheio de tendências incivis. no fundo. Pois bem. Com efeito. de direitos cômodos. de medicinas benéficas. etc. os pigmeus . Não veio de fora ao mundo civilizado como os "grandes bárbaros brancos" do século V. Grande equívoco! Vossa Mercê irá aonde o levem. tem que ser. tudo. o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e assegurar para o futuro sua produção. aquele que acredita que nada é fatal. de relativa morte. tanto na ordem espiritual como na física. mas isto não nos deixa em liberdade para fazer outra coisa que esteja na nossa vontade.foram repelidas para os trópicos por raças nascidas depois delas e superiores na escala da evolução (62). faz temer que nem conserve sua altura nem produza outro nível mais elevado. mas é o seu fruto natural. Porque é um homem que veio à vida para fazer o que bem entende. como se diz ao papagaio no conto do português. pode ficar no final das contas impune. deste. faz ver com suficiente clareza a anormalidade superlativa que representa o "mocinho satisfeito". fazendo-o perder contacto com a substância mesma da vida. a civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se em um mundo abundante. especialmente da forma que esta civilização no século XIX. não percebe o instável que é a organização do Estado.htm (57 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que retroceda e recaia em altitudes inferiores. que é absoluto perigo. não estimá-lo e mandar que os lacaios ou os esbirros o açoitem. Cabe unicamente negar-se a fazer isso que é preciso fazer. até os maiores delitos. e vice-versa. o "filho de família" forja para si esta ilusão. por seu turno. para me referir a uma dimensão muito concreta da vida corporal.por exemplo. como. o cultivo do seu corpo . irremediável e irrevogável. mas se olhamos o porvir. é preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se acha ameaçada de degeneração. Nos trópicos. falta de romanticismo na relação com a mulher. em todos os povos e tempo. no ar da rua trariam automaticamente conseqüências desastrosas e iniludíveis para seu autor. Por isso acredita que pode fazer o que bem entende (63). o animal-homem degenera.

queira ou não queira. desertar de nosso destino mais autêntico. algo iniludível.A rebelião das massas. a falsificação de nós mesmos (65). Eu não posso fazer isto evidente a cada leitor no que seu destino individualíssimo tem como tal. Esta evidência última atua tanto no comunista europeu como no fascista. Por exemplo: todo europeu atual sabe.no católico que presta mais leal adesão ao Syllabus (64). como faz suas travessuras o "filho de família". intelectual. mas todo seu sentido e sua força estão em ser discutidas. que são falsas e funestas todas as maneiras concretas em que se tentou até agora realizar esse imperativo irremissível de ser politicamente livre. como atua . Os únicos esforços que fazem destinam-se a fugir do próprio destino. O fascista se mobilizará contra a liberdade política. vivem enquanto se discutem e estão feitas exclusivamente para a discussão. a "piada". fica em pé a última evidência de que no século último tinha substancialmente razão. por muitas atitudes que tenham para nos convencer e convencer-se do contrário. Todos "sabem" que além das justas críticas com que se combatem as manifestações do liberalismo fica a irrevogável verdade deste. Quase todas as posições que se tomam e ostentam são internamente falsas. Um furacão de farsa geral e onímoda sopra sobre o torrão europeu. que o homem europeu atual tem de ser liberal. uma verdade de destino -. Há file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. na substância mesma da vida européia. mas é possível fazê-lo ver naquelas porções ou facetas de seu destino que são idênticas às de outros. que isso que a Europa tentou no último século com o nome de liberalismo é. Toda essa pressa para adotar em todas as ordens atitudes aparentemente trágicas. na hora das seriedades. mas que está aí. Pois bem: "o mocinho-satisfeito" caracteriza-se por "saber" que certas coisas não podem ser e. Não discutamos se esta ou a outra forma de liberdade é a que tem de ser.o que vitalmente se tem que ser ou não se tem que ser . uma verdade que não é teórica. creia-o ou não . precisamente porque sabe que esta não faltará nunca no fim das contas e em sério. O destino não consiste naquilo que temos vontade de fazer. últimas. mas é para cair prisioneiro nos graus inferiores de nosso destino. Brincam de tragédia porque crêem que não é verossímil a tragédia efetiva no mundo civilizado. mas melhormente se reconhece e mostra seu claro. com uma certeza muito mais vigorosa que a de todas as suas idéias e "opiniões" expressas. Porque esta é a tônica da existência no homem-massa: a inseriedade. Vive-se humoristicamente e tanto mais quanto mais trágica seja a máscara adotada. irremediavelmente. inexorável. é só a aparência. no fundo de sua consciência. mas sim aceita-se ou não. por muito que grite e ainda se deixe matar para sustentá-lo. científica. porque não conheço a cada leitor. a evitar cada qual o confronto com isso que tem que ser. talhantes. Refiro-me a que o europeu mais reacionário sabe. Se o aceitamos. mas de uma ordem radicalmente diferente e mais decisiva de tudo isso . que o homem ocidental de hoje é.htm (58 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . fingir com seus atos e palavras a convicção contrária. fazem-no sem o caráter de irrevogável. e que nela se recairá sempre que a verdade seja necessária. As verdades teóricas não são discutíveis. Mas o destino . somos autênticos. em última instância. se não o aceitamos. inscrito no destino europeu. queira ou não queira. e por isso mesmo. a cegar-se ante sua evidência e sua chamada profunda. com plena e incontrastável verdade. Seria bom que estivéssemos forçados a aceitar como autêntico ser de uma pessoa o que ela pretendia mostrar-nos como tal. devemos afirmar que não o crê. entretanto. rigoroso perfil na consciência de ter que fazer o que não está na nossa vontade.não se discute. somos a negação.a saber. Embora se demonstre. O que fazem. Se alguém se obstina em afirmar que dois mais dois é igual a cinco e não há motivo para supô-lo clemente. nascem da discussão.

parasita da civilização. humorismo onde quer que se vive de atitudes revogáveis.aparece o cínico. que incite a ouvir instâncias externas superiores a ele. e muito menos que o obrigue a tomar contato com o fundo inexorável de seu próprio destino. Que faria o cínico num povo selvagem onde todos. ao concretizar-se. mais que nunca triunfa a retórica. num caso particular. a possibilidade de um ilimitado progresso. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. O superrealista acredita haver superado toda a história literária quando escreveu "aqui uma palavra que não é necessário escrever" onde outros escreveram "jasmins. Quase ninguém apresenta resistência aos superficiais torvelinhos que se formam em arte ou em idéias. romana.déracinées de seu destino . . nilota. vive de negá-la. pelo contrário. a porção que de comum tinha com outras do passado. Tomemos agora somente a última.htm (59 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O contorno o mima. pela mesma razão de que está convencido de que ela não desaparecerá. A técnica contemporânea nasce da copulação entre o capitalismo e a ciência experimental. porque tampouco conseguiu seu propósito -. Era o nihilista do helenismo. dizia eu. em que a pessoa não se finca inteira e sem reservas. Desta sorte.melhor dito.mesopotâmica.isto é. A China chegou a um alto grau de tecnicismo sem suspeitar em nada a existência da física. carecia de ciência. As demais técnicas . O cínico tornou-se um personagem pululante. e dessa raiz lhe vem seu caráter específico. do qual só percebe as vantagens e não os perigos. Jamais criou nem fez nada. e. Esta civilização do século XIX. Por isso. a mecânica dessa produção. criou uma técnica. ou nos usos sociais. A BARBÁRIE DO "ESPECIALISMO" A tese era que a civilização do século XIX produziu automaticamente o homem-massa. considera como seu papel pessoal? Que é um fascista se não fala mal da liberdade e um superrealista se não perjura da arte! Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem nascido no mundo demasiadamente bem organizado. Ora bem. não obstante a singularidade de sua fisionomia.se deixem arrastar pela mais inconstante corrente. no período chelense. a tese ganha em força persuasiva.O cínico. É a época das "correntes" e do "deixar-se ir". que se achava atrás de cada esquina e em todas as alturas. Esclarece a situação atual advertir. O homem-massa não afirma o pé sobre a firmeza incomovível de seu signo.por volta do século III A. Não toda técnica é científica. porque é "civilização" . e apenas o tocam começam a retroceder em lamentável involução. uma casa -. Mas é claro que com isso só fez extrair outra retórica que até agora jazia nas latrinas. Diógenes pateia com suas sandálias sujas de lama os tapetes de Arístipo. cisnes e faunesas". Aquele que fabricou os machados de pedra. oriental . C.espraiam-se até um ponto de desenvolvimento que não podem ultrapassar. ou em política. Por isso é que nunca como agora estas vidas sem peso e sem raiz . não obstante. e o "filho de família" não sente nada que o faça sair de sua índole caprichosa. naturalmente e a sério. seu papel era desfazer . Assim acontece que mal chega à sua máxima atitude a civilização mediterrânea . XII. tentar desfazer. vegeta suspenso ficticiamente no espaço. Só a técnica moderna da Europa possui uma raiz científica. o cínico não fazia outra coisa senão sabotar aquela civilização. pode resumir-se em duas grandes dimensões: democracia liberal e técnica. fazem o que ele em farsa. Convém não fechar sua exposição geral sem analisar. grega.

faz dele um primitivo. A ciência experimental inicia-se ao finalizar o século XVI (Galileu). Quem. tomada na sua integridade.raiz da civilização .irremissivelmente . é verdadeira se a separamos da matemática. e com ânimo de julgá-la lhe perguntasse por que tipo de homem. com a aristocracia do presente? Sem dúvida.junto com a democracia liberal . Por "massa" . Mas o desenvolvimento da física iniciou uma faina de caráter oposto à unificação para progredir. quero dizer. adquire a plenitude de seu sentido e a evidência de sua gravidade. Do século V a 1800 a Europa não consegue ter uma população superior a 180 milhões. Recorde-se o dado de que tomou seu vôo este ensaio e que. Seria de grande interesse. médico. O pulo é único na história humana. entre os que a habitam. por ter de reduzir sua órbita de trabalho. a constituição da física. consegue constituir-se nos finais do XVII (Newton) e começa a desenvolver-se nos meados do XVIII. não designa aqui uma classe social. da filosofia. E não por casualidade. mas procuraria a regra.htm (60 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não a ciência. que por isso mesmo representa o nosso tempo. Mas o trabalho nela tem de ser . Mas não é isto o importante que essa história nos ensinaria.especializado. fazer uma história das ciências físicas e biológicas. o homem de ciência. mas justamente o inverso: como em cada geração o científico. Tal foi a obra de Newton e demais homens de seu tempo. somente articulada no organismo deste ensaio. A coisa é muito conhecida: fez-se constar inúmeras vezes. o técnico: engenheiro. Isso faria ver como. ia progressivamente perdendo contato com as demais partes da ciência. a burguesia. dentro do grupo técnico. a ciência necessitava que os homens de ciência se especializassem. geração após geração. Mas estas páginas tentaram mostrar que também é responsável da existência do homem-massa no sentido qualitativo e pejorativo do termo.engendrou o homem-massa no sentido quantitativo desta expressão. encerra germinalmente todas estas meditações. Pois bem: o homem de ciência atual é o protótipo do homem-massa. cume da humanidade européia. Se um personagem astral visitasse a Europa. financista. Quem. e maior utilidade que a aparente à primeira vista. dentro dessa burguesia é considerado como o grupo superior. sobre o qual predomina e impera. preferia ser julgada. Os homens de ciência. Agora vamos ver isso com sobrada evidência. É claro que o personagem astral não perguntaria por indivíduos excepcionais. o representa com maior altitude e pureza? Sem dúvida. Ipso facto deixaria de ser verdadeira. mas uma classe ou modo de ser homem que se dá hoje em todas as classes sociais. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como eu disse. nem por defeito unipessoal de cada homem de ciência. mas.A rebelião das massas. mostrando o processo de crescente especialização no trabalho dos investigadores.não se entende especialmente o obreiro. não há dúvida de que a Europa apontaria satisfeita e certa de uma sentença favorável. o tipo genérico "homem de ciência". O desenvolvimento de algo é coisa diferente de sua constituição e está submetido a condições diferentes. Quem exerce o poder social? Quem impõe a estrutura de seu espírito na época? Sem dúvida. mas porque a técnica mesma . Nem sequer a ciência empírica. encerrado num campo de ocupação intelectual cada vez mais estreito. nome coletivo da ciência experimental. Assim. o homem de ciência tem sido constrangido. obrigou a um esforço de unificação. Não há dúvida de que a técnica . etc.o converte automaticamente em homem-massa. Esta maravilhosa técnica ocidental tornou possível a maravilhosa proliferação da casta européia. seus homens de ciência. De 1800 a 1914 ascende a mais de 460 milhões. da lógica. professor etc. um bárbaro moderno. A ciência não é especialista.prevenia eu no princípio .

E. constituem verdadeiramente o saber. consegue. mas com toda a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A especialização começa. Como foi e é possível coisa semelhante? Porque convém repisar a extravagância deste fato inegável: a ciência experimental progrediu em boa parte mercê do trabalho de homens fabulosamente medíocres. porque é "um homem de ciência" e conhece muito bem sua porciúncula de universo. Uma boa parte das coisas que é preciso fazer em física e em biologia é faina mecânica de pensamento que pode ser executada por qualquer pessoa. de tudo quanto há de saber para ser um personagem discreto. O investigador que descobriu um novo fato da Natureza tem por força de sentir uma impressão de domínio e de segurança em sua pessoa. simplesmente. em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. em sábios e ignorantes. com efeito. Com certa aparente justiça se considerará como "um homem que sabe". que é o único merecedor dos nomes de ciência. civilização européia. vantagem maior e perigo máximo da ciência nova e de toda civilização que esta dirige e representa: a mecanização. e menos que medíocres. encontramo-nos com um tipo de científico sem exemplo na história. e a especialidade começa a desalojar dentro de cada homem de ciência a cultura integral. Eu disse que era uma configuração humana sem igual em toda a história. a equação se deslocou. Por isso cria uma casta de homens sobremodo estranhos. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. descobrir novos fatos e fazer avançar sua ciência. deu guarida dentro de si ao homem intelectualmente médio e lhe permite operar com bom êxito. Devemos dizer que é um sábio ignorante. Esta é a situação íntima do especialista. não como um ignorante. O século XIX inicia seus destinos sob a direção de criaturas que vivem enciclopedicamente. conhece apenas determinada ciência. mas ignora basicamente todo o resto. raiz e símbolo da civilização atual. mas tampouco é um ignorante. Porque outrora os homens podiam dividir-se. encerrar-se em um e desinteressar-se dos demais. com uma interpretação integral do universo. A razão disso está no que é. Quando em 1890 uma terceira geração assume o comando intelectual da Europa. O especialista "sabe" muito bem seu mínimo rincão de universo. O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e fazendo ver todo o radicalismo de sua novidade. pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora. definir. e ainda dessa ciência só conhece bem a pequena porção em que ele é ativo investigador. num tempo que chama homem civilizado ao homem "enciclopédico". como a abelha no seu alvéolo. e denomina diletantismo a curiosidade pelo conjunto do saber. Eis aqui um precioso exemplar deste estranho homem novo que eu tentei. que conscienciosamente desconhece. Chega a proclamar como uma virtude o não tomar conhecimento de quanto fique fora da estreita paisagem que especialmente cultiva. nele se dá um pedaço de algo que. e com ela a enciclopédia do pensamento. com efeito. cultura. embora sua produção tenha já um caráter de especialismo. porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade. ao mesmo tempo. fechado na estreiteza de seu campo visual. junto com outros pedaços não existentes nele.htm (61 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . por uma e outra de suas vertentes e aspectos. que nos primeiros anos deste século chegou à sua mais frenética exageração. precisamente. É um homem que.A rebelião das massas. coisa sobremodo grave. Na geração seguinte. Para os efeitos de inúmeras investigações é possível dividir a ciência em pequenos segmentos. Trabalha-se com um desses métodos como com uma máquina. O caso é que. que a ciência moderna. Não é um sábio. Quer dizer. A firmeza e exatidão dos métodos permitem esta transitória e prática desarticulação do saber. e nem sequer é forçoso para obter abundantes resultados possuir idéias rigorosas sobre o sentido e fundamento deles. Assim a maior parte dos científicos propelem o progresso geral da ciência encerrados num nicho de seu laboratório. que ele apenas conhece.

ainda neste caso. e ignorantíssimo. como eu disse. Kant e Mach . a idéia que sói faltar ao típico "homem de ciência". e sua barbárie é a causa mais imediata da desmoralização européia. Eles simbolizam. julgam e atuam hoje na política. de não se submeter a instâncias superiores que reiteradamente apresentei como característica do homem-massa. na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os "homens de ciência". médicos. O resultado mais imediato desse especialismo não compensado tem sido que hoje. significam o mais claro e preciso exemplo de como a civilização do último século abandonada à sua própria inclinação. pois. A decadência de vocação científica que se observa nestes anos . para que possa continuar havendo investigadores. produziu esse broto de primitivismo e barbárie. na arte. em 1750. Ao especializá-lo a civilização o tornou hermético e satisfeito dentro de sua limitação. professores. E a conseqüência é que. com efeito. como devem estar organizados a sociedade e o coração do homem. E o pior é que com esses perdigueiros do forno científico nem sequer está garantido o progresso íntimo da ciência. petulância de quem na sua questão especial é um sábio. como a crosta terrestre e a selva primigênea.e. o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida. Essa condição de "não ouvir". E. engenheiros. quando há maior número de "homens de ciência" que nunca. que tornou possível o progresso da ciência experimental durante um século. simplesmente. que cada vez complica regiões mais vastas do saber total. um trabalho de reconstituição. mas Einstein precisou saturar-se de Kant e de Mach para poder chegar a sua aguda síntese. nos usos sociais. depois deles. aproxima-se a uma etapa em que não poderá avançar por si mesmo se não se encarrega uma geração melhor de construir-lhe um novo forno mais poderoso. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que representa um maximum de homem qualificado . muito mais radicalmente ignora as condições históricas de sua perduração.é um sintoma preocupador para todo aquele que tenha uma idéia clara do que é civilização. mas essa mesma sensação íntima de domínio e valia o levará a querer predominar fora de sua especialidade. Newton pode criar seu sistema físico sem saber muita filosofia. o mais oposto ao homem-massa.htm (62 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Quem quiser pode observar a estupidez com que pensam.especialistas dessas coisas. e é claro. A advertência não é vaga. financistas. e só poderá salvá-la uma nova enciclopédia mais sistemática que a primeira. Porque esta necessita de tempo em tempo. chega ao cúmulo nesses homens parcialmente qualificados. mas as tomará com energia e suficiência. Mas se o especialista desconhece a fisiologia interna da ciência que cultiva. como orgânica regulação de seu próprio incremento. cada vez mais difícil.serviram para liberar a mente desse e deixar-lhe a via livre para sua inovação. portanto. cume de nossa atual civilização.A rebelião das massas. e. e em grande parte constituem o império atual das massas.à qual já aludi . este é o comportamento do especialista. Por outra parte. em arte. haja muito menos homens "cultos" que. etc. Mas Einstein não é suficiente.e isto é o paradoxal . isto é.especialismo . Em política.com estes nomes simboliza-se só a massa enorme de pensamentos filosóficos e psicológicos que influíram em Einstein . por exemplo. sem admitir . nas outras ciências tomará posições de primitivo. isso requer um esforço de unificação. Também ele acredita que a civilização está aí. A física entra na crise mais profunda de sua história. O especialismo.

(Se Luzbel tivesse sido russo. continuaremos sob seu regime. que tampouco o era. Necessita referir sua vida à instância superior. no mínimo. Mais ainda: constitui uma de suas glórias. aspirar a isso -. XIII. a fazem sua. pervive largamente. Mas ainda quando não seja impossível que tenha começado a minguar o prestígio da violência como norma cinicamente estabelecida. pelo menos. com uma réplica do que no capítulo anterior se disse sobre a ciência: a fecundidade de seus princípios a propelem a um fabuloso progresso. O ESTADO Numa boa ordenação das coisas públicas. À realidade sobrevive seu nome que. muito mais incomovível que as leis da física de Newton.htm (63 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . representada. compreender-se-á que o homem é. Quando uma realidade humana cumpriu sua história. também este nasceu dela. A retórica é o cemitério das realidades humanas. Encontramo-nos. No dia em que volte a imperar na Europa uma autêntica filosofia (66) . ainda sendo sua palavra. quando as massas triunfam. Se consegue por si mesmo encontrá-la. pois. é coisa sobre a qual convém que não haja dúvida alguma. porque não tem outra: lincha. a rebelião do arcanjo Luzbel não o houvera sido menos se em vez de empenhar-se em ser Deus . é o Estado contemporâneo. Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si.sejam uns ou outros . seu hospital de inválidos. senão. triunfe a violência e se faça dela a única ratio. mas este impõe file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Porque no final das contas a única coisa que substancialmente e com verdade pode chamar-se é a que consiste em não aceitar cada qual seu destino. Veio ao mundo para ser dirigida. Tal é a sua missão. os inanes. as ondas a cospem nas costas da retórica. rebelar-se contra seu próprio destino. os retóricos. mas numa lei da "física" social. teria talvez preferido este último estilo de rebeldia. influída. constituída pelas minorias excelentes. em rebelar-se contra si mesmo. Nem muito menos poderá estranhar que agora. a única doutrina.A rebelião das massas. Quando a massa atua por si mesma. Como todos os demais perigos que ameaçam esta civilização. tenha ou não vontade disso. onde. que não é mais nem menos contra Deus que o outro tão famoso). mas que sem eles .o que não era seu destino . e isso é um bom sintoma. cadáver. porque significa que automaticamente vai iniciar-se seu descenso. é. pois. ao modo dos estrúcios para ver se consegue não ver tão radiante evidência. Pretender a massa atuar por si mesma é. nada menos que palavra e conserva sempre algo de seu poder mágico. a massa é o que não atua por si mesma. Discuta-se quanto se queira quem são os homens excelentes. como Tolstoi. um ser constitutivamente forçado a procurar uma instância superior. Porque não se trata de uma opinião fundada em fatos mais ou menos freqüentes e prováveis. embora leve a Europa todo um século metendo a cabeça debaixo da asa. afinal de contas. ou. bem que em outra forma. Hoje é já a violência a retórica do tempo. e como isso é o que faz agora. O MAIOR PERIGO. Há muito tempo que eu fazia notar este comércio da violência como norma (67). é que é um homem excelente. já que a América é de certo modo o paraíso das massas. A rigor.até para deixar de ser massa. organizada . naufragou e morreu. é que é um homem-massa e necessita recebê-la daquele. Não é completamente casual que a lei de Lynch seja americana.única coisa que pode salvá-la -. fá-lo só de uma maneira. Hoje chegou a seu máximo desenvolvimento.a humanidade não existiria no que tem de mais essencial.se houvesse obstinado em ser o mais ínfimo dos anjos. Refiro-me ao perigo maior que hoje ameaça a civilização européia. falo eu da rebelião das massas.

deixaram que os burgueses . que apenas podia mover-se na lida. Nivelou-se o Poder público com o poder social. automaticamente. coberto estupidamente de ferro. Não inventaram a pólvora. mais poderosa em número e potência que as preexistentes: a burguesia. apenas tinha burocratas. intuitivos. Adeus revoluções para sempre! Já não cabe na Europa mais que o contrário: o golpe de Estado. que se sentia a si mesma oceânica. Uma nova classe social apareceu. O Estado carolíngio era. aparece o Estado do século XVIII como uma degeneração. mal de cabeça. apenas tinha dinheiro. ganharam a batalha ao guerreiro nobre. sentimentais. Aquela nave era coisa de nada ou pouco mais: apenas tinha soldados. De inteligência muito limitada. Por isso não puderam desenvolver nenhuma técnica. por seu sentido de responsabilidade. em suma.de ordem pública e de administração -. que comparando a situação com a vigente em tempo de Carlos Magno. e em pouco mais de uma geração criou um Estado poderoso. a sociedade que o rodeava não tinha força nenhuma (69). E tudo que com posterioridade pode dar-se ares de revolução. gente admirável por sua coragem. disciplinar. A mesma coisa acontece com o Estado. Viviam da outra víscera. Esta burguesia sem mérito possuía. de uma maravilhosa eficiência pela quantidade e precisão dos seus meios. Mas com a Revolução apossou-se do Poder público a burguesia e aplicou ao Estado suas inegáveis virtudes. E não certamente porque não houvesse motivos para elas. dar continuidade e articulação ao esforço. Sabia organizar. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o Estado chegou a ser máquina formidável que funciona prodigiosamente.htm (64 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Em nosso tempo. instintivos. Havia sido fabricada na Idade Média por uma classe de homens muito diferentes dos burgueses: os nobres. o "antigo regime" chega aos fins do século XVIII com um Estado fraquíssimo. e a especialização ameaça afogar a ciência. Plantada no meio da sociedade. onde pela primeira vez triunfa a técnica. os nobres andavam. muito menos poderoso que o de Luís XVI. A desproporção entre o poder do Estado e o poder social é tal nesse momento. Desde 1848. e a quem não ocorrera que o segredo eterno da guerra não consiste tanto nos meios de defesa como nos de agressão (segredo que Napoleão redescobriria) (68) Como o Estado é uma técnica . em compensação. as revoluções (até 1848). a racionalizada. mas. a nova técnica. No meio dela. navegava ao azar a "nave do Estado". Bem pouca coisa! O primeiro capitalismo e suas organizações industriais. "irracionais". A nave do Estado é uma metáfora reinventada pela burguesia.tomando-as do Oriente ou outro lugar . açoitado de todos os lados por uma ampla e revolta sociedade. desde que começa a segunda geração de governos burgueses não há na Europa verdadeiras revoluções. Sem eles não existiriam as nações da Europa. coisa que obriga à racionalização. ao "cavalheiro". haviam produzido um primeiro crescimento da sociedade. como num oceano. Rememore-se o que era o Estado nos fins do século XVIII em todas as nações européias. O enorme desnível entre a força social e a do poder público tornou possível a Revolução. talento prático. está claro. mas porque não havia meios. e com isso. basta tocar u'a mola para que atuem suas enormes alavancas e operem fulminantes sobre qualquer parte do corpo social. onipotente e grávida de tormentas. Entediaram-se. quer dizer. antes de tudo e sobretudo uma coisa: talento. por seu dom de mando. inexoravelmente a especialização. sempre andaram.utilizassem a pólvora. Incapazes de inventar novas armas. não foi mais que um golpe de Estado com máscara. Mas com todas essas virtudes do coração.A rebelião das massas. que acabou com as revoluções.

Adverte-se qual é o processo paradoxal e trágico do estatismo? A sociedade. nutre e impele os destinos humanos. Não há dúvida que o Estado imperial criado pelos Júlios e os Cláudios foi u'a máquina admirável. ou simplesmente algum forte apetite. Mas o caso é que o homem-massa crê. produtor de segurança (a segurança de que nasce o homem-massa. com efeito. muito mais cadavérica que a do organismo vivo. Mas. esquelético. E é muito interessante. a esmagar com ele toda minoria criadora que o perturbe . luta. incomparavelmente superior como artefato ao velho Estado republicano das famílias patrícias. Este foi o signo lamentável da civilização antiga.A rebelião das massas.em todas as ordens -. depois de sugar a medula da sociedade. o homem. força mais a burocratização da existência humana. e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto. como um utensílio. conflito ou problema: o homem-massa tenderá a exigir que imediatamente o assuma o Estado. cria. antes de tudo. A massa diz a si mesma: "o Estado sou eu". em indústria. O Estado é. militarizam o mundo. o Estado se sobrepõe. para a máquina do Governo. nenhuma nova semente poderá frutificar. sabe que está aí. Quando a massa sente uma desventura. de origem africana. admira-o. Depois dos Severos. é uma grande tentação para ela essa permanente e segura possibilidade de conseguir tudo . Que acontece? A burocratização da vida produz sua diminuição absoluta . começa a decair o corpo social. Então o Estado. A sociedade terá de viver para o Estado. precatar-se da atitude que ante ele adota o homem-massa. Estado contemporâneo e massa coincidem só em ser anônimos. o Estado. em idéias. e a sociedade tem de começar a viver para o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Depois.htm (65 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Esta burocratização em segunda potência é a militarização da sociedade. o que é um perfeito erro. para subvencionar suas próprias necessidades.que o perturbe em qualquer ordem: em política. antes de tudo. curiosa coincidência. que ele é o Estado. a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado. seu exército. que se encarregue diretamente de resolvê-lo com seus gigantescos e incontrastáveis meios. E como no final das contas não é senão u'a máquina cuja existência e manutenção dependem da vitalidade circundante que a mantenha. Os Severos. o intervencionismo do Estado. crê que o Estado é coisa sua. a anulação da espontaneidade histórica. não se esqueça). A espontaneidade social ficará violentada uma vez e outra pela intervenção do Estado. garantindo sua vida. A urgência maior do Estado é seu aparato bélico. as matrizes são cada vez menos fecundas. Este o vê. o homem-massa vê no Estado um poder anônimo. Esta começa a ser escravizada. e como ele se sente a si mesmo anônimo vulgo -. apenas chegou a seu pleno desenvolvimento.apenas ao premir a mola e fazer funcionar a portentosa máquina. quer dizer. O resultado desta tendência será fatal. morto com essa morte ferrugenta da máquina. Faina vã! A miséria aumenta. Imagine-se que sobrevem na vida pública de um país qualquer dificuldade. dúvida nem risco . é revelador. Por outra parte. A riqueza diminui e as mulheres parem pouco. A vida toda se burocratiza. exército. Já nos tempos dos Antoninos (século II) o Estado gravita com uma antivital supremacia sobre a sociedade. que em definitivo sustenta. a não poder viver mais que em serviço do Estado. o exército tem de ser recrutado entre estrangeiros. Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatificação da vida. Faltam até soldados. O Estado contemporâneo é o produto mais visível e notório da civilização. mas não tem consciência de que é uma criação humana inventada por certos homens e mantida por certas virtudes e por certo que houve ontem nos homens e que pode evaporar-se amanhã. Por isso é. para viver melhor. O Estado é a massa só no sentido em que se pode dizer de dois homens que são idênticos porque nenhum dos dois se chama João. o Estado.sem esforço. ficará héctico.

sem que eu me permita agora julgar os detalhes de sua obra. Como não temer que sob o império das massas se encarregue o Estado de esmagar a independência do indivíduo. e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. Por muito habitual que nos seja. no final das contas. "Em Paris escreve John William Ward . necessita.e que será. pelas mesmas causas. em 1800. a nova indústria começa a criar um tipo de homem . As nações européias têm diante de si uma etapa de grande dificuldade em sua vida interior. a estar submetido a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Bastaria isso para descobrir no fascismo um típico movimento de homens-massa. não deve perder seu terrível paradoxismo ante nosso espírito o fato de que a população de uma grande urbe atual. Mussolini encontrou um Estado admiravelmente construído . as massas atuam por si mesmas. o Estado se compõe ainda dos homens daquela sociedade. criadas para a ordem. Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma ou outra sociedade. a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. é tão miúdo.htm (66 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O andaime se torna proprietário e inquilino da casa. e os restos da sociedade. um aumento da criminalidade. O inevitável é que acabem por definir e decidir elas a ordem que vão impor . Os estrangeiros tornaram-se donos do Estado. uma Polícia que regule a circulação. "As pessoas conformam-se em se adaptar à desordem. considerando-a como resgate da liberdade". máquina anônima. Se algo conseguiu. e extinguir assim definitivamente o porvir? Um exemplo concreto deste mecanismo achamo-lo num dos fenômenos mais alarmantes destes últimos trinta anos: o aumento enorme em todos os países das forças de Polícia.têm uma Polícia admirável. Entretanto. e.o obreiro industrial . Mas. nada fora do Estado. sobressalta um pouco ouvir que Mussolini apregoa com exemplar petulância. jurídicos e de ordem pública sobremodo árduos. Mas é uma inocência das pessoas de "ordem" pensar que essas "forças de ordem pública". têm de viver escravo deles. vão contentar-se com impor sempre o que aquelas queiram. é indiscutível que os resultados obtidos até o presente não podem ser comparados aos obtidos na função política e administrativa pelo Estado liberal. até onde se possa. Quando. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. pouco visível e nada substantivo. problemas econômicos.não por ele. como um prodigioso descobrimento feito agora na Itália. sem remédio. O estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação direta constituídas em normas. do grupo. o que lhes convenha. do povo inicial. para caminhar pacificamente e atender a seus negócios. germanos. de gente com a qual não tem nada que ver. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road. nada contra o Estado. a fórmula Tudo pelo Estado. que dificilmente equilibra a acumulação de poderes anormais que lhe consentem empregar aquela máquina em forma extrema. Ele se limita a usá-lo incontinentemente. dálmatas. O crescimento social obrigou iniludivelmente a isso. o crime. naturalmente. A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina que é o Estado. O esqueleto come a carne que o rodeia.mais criminoso que os tradicionais. Através e por meio do Estado. mas pagam caro suas vantagens. Estado (70). depois. Quando se sabe disso. mas precisamente pelas forças e idéias que ele combate: pela democracia liberal -. Governam os conservadores. estes não bastam para sustentar o Estado e é preciso chamar estrangeiros: primeiro. Em 1810 surge na Inglaterra.A rebelião das massas. Preferem agüentar.

Porque aqui aspira-se a evitar estupidezes. Por isso. Nestes casos teríamos que estabelecer nossa pergunta: "Quem manda no mundo?" a cada grupo de convivência. Por "mando" não se entende aqui primordialmente exercícios de poder material. I A substância ou índole de uma nova época histórica é resultante de variações internas . o fato desta rebelião apresenta um aspecto ótimo. tem à sua disposição esse aparato ou file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Ora bem: essa relação estável e normal entre homens que se chama "mando" não descansa nunca na força. Olhemos esta agora de vários pontos de vista. porque um homem ou grupo de homens exerce o mando. progressivamente unificado. visitas domiciliárias.não há ilhas de humanidade -. é a deslocação do poder. Portanto. efetivamente. No tempo de Milcíades. Mas este traz consigo uma deslocação do espírito. Entre estas últimas. pelo menos. Já não há pedaço de humanidade que viva à parte . QUEM MANDA NO MUNDO? A civilização européia .A rebelião das massas. pelo menos as mais ordinárias e palmares.padeceu automaticamente a rebelião das massas. pelo contrário. quase sem dúvida. Mas desde o século XVI entrou a humanidade toda num processo gigantesco de unificação. mas.tenho repetido uma e outra vez . Por seu anverso. Mas o reverso do mesmo fenômeno é tremebundo. que em nossos dias chegou a seu término insuperável. seu influxo autoritário em todo ele. nome incolor e inexpressivo sob o qual se oculta esta realidade: época da hegemonia européia. que formam mundos interiores e independentes. desde aquele século pode dizer-se que quem manda no mundo exerce. e sob sua unidade de mando o mundo vivia com um estilo unitário. o mundo mediterrâneo ignorava a existência do mundo extremo oriental. ao aparecermos a um tempo com ânimo de compreendê-lo. de coação física. a mais importante. A Europa mandava.do homem e de seu espírito -. Esse estilo de vida sói denominar-se "Idade Moderna". Esse tem sido o papel do grupo homogêneo formado pelos povos europeus durante três séculos. SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV.htm (67 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . já o dissemos: a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o crescimento fabuloso que a vida humana experimentou em nosso tempo. O inglês quer que o Estado tenha limites. uma de nossas primeiras perguntas deve ser esta: "Quem manda no mundo atualmente?" Poderá ocorrer que neste momento a humanidade esteja dispersa em vários pedaços sem comunicação entre si. ou. à espionagem e a todas as maquinações de Fouché (71) "São duas idéias diferentes do Estado. olhada por esse lado a rebelião das massas é uma e mesma coisa com a desmoralização radical da humanidade.

pois. Por isso. mas tranqüilo exercício dele. avança esta como substituta daquela. vigência de certas idéias. o mandar não é tanto questão de punhos como de nádegas. se se quer expressar com toda a precisão a lei da opinião pública como lei da gravitação histórica. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes. o estado da opinião: uma situação de equilíbrio. e então chega-se a uma fórmula que é o conhecido. Assim. poltrona ministerial. Tomás de Aquino no século XIII? A noção desta soberania terá sido descoberta aqui ou ali. cuja força de opinião fica reciprocamente anulada. Em suma. no final das contas. nem a ciência histórica seria possível. em definitivo. e o religioso é a forma primeira sob a qual aparece sempre o que depois vai ser espírito. é coisa tão antiga e perene como o próprio homem. Por isso muito agudamente insinua Hume que o tema da história consiste em demonstrar como a soberania da opinião pública. em suma.com seu caráter específico e já nominativo de "poder espiritual" -. Os fatos históricos confirmam isso escrupulosamente. sede. Ou acredita-se que a soberania da opinião pública foi um invento feito pelo advogado Danton em 1789 ou por S. portanto. Isso nos faz cair na conclusão de que mando significa prepotência de uma opinião.htm (68 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . na física de Newton a gravitação é a força que produz o movimento. hoje como há dez mil anos. venerável e verídico lugar comum: não se pode mandar contrariando a opinião pública. Deste modo lutam dois poderes igualmente espirituais que. O mando é o exercício normal da autoridade. de que mando não é. mas o fato de que a opinião pública é a força radical que nas sociedades humanas produz o fenômeno de mandar. porque se funda no religioso. longe de ser uma aspiração utópica. Da Igreja aprende o Poder político que ele também não é originariamente senão poder espiritual. Napoleão dirigiu à Espanha uma agressão. cadeira curul. é o que pesou sempre e a toda hora nas sociedades humanas. esse oco que deixa a força ausente de opinião pública enche-se com a força bruta. O qual se funda sempre na opinião pública . menos uma coisa: sentar-se sobre elas. O que sucede é que às vezes a opinião pública não existe. E a lei da opinião pública é a gravitação universal da história política. entre os ingleses como entre os botocudos -. Convém distinguir entre um fato ou processo de agressão e uma situação de mando. Assim. convêm no acordo de se instalar cada um em um modo de tempo: o temporal e o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de estática. opinião. não podendo diferenciar-se na substância ambos são espírito -. convém ter em conta esses casos de ausência. Todo mando primitivo tem um caráter "sacro". Trono. mandar é sentar-se. máquina social que se chama "força". idéia. sustentou esta agressão durante algum tempo. nesta ou naquela data. Contra o que uma ótica inocente e folhetinesca supõe. Pois até quem pretende governar com os janízaros depende da opinião destes e da que tenham sobre estes os demais habitantes. mas não mandou propriamente na Espanha nem um dia sequer." E mandar não é atitude de arrebatar o poder. outra coisa senão poder espiritual. Jamais alguém mandou na terra nutrindo seu mando essencialmente de outra coisa que não fosse a opinião pública.sempre. pode-se fazer tudo. Na Idade Média se reproduz com formato maior o mesmo fenômeno. revelam-se ante uma inspeção ulterior como os melhores exemplos para confirmar aquela tese. Sem ela.A rebelião das massas. Em suma. e cria-se o Sacro Romano Império. o imaterial e ultra-físico. Talleyrand a Napoleão: "Com as baionetas. A verdade é que não se manda com os janízaros. banco azul. de um espírito. não dá lugar a que se constitua um mando. Sire. E isso porque tinha a força e precisamente porque só tinha a força. O Estado é. E como a Natureza tem horror ao vácuo. O Estado ou Poder público primeiro que se forma na Europa é a Igreja . Os casos em que à primeira vista parece ser a força o fundamento do mando.

a grande mandona. um conglomerado de povos com um espírito afim. Adverte-se toda a gravidade deste diagnóstico? Com ele anuncia-se uma deslocação do poder. como na Moderna. Sem opiniões.tenha poder e o exerça.htm (69 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . se odeia. se anseia. opina-se pouco. se repugna. toda deslocação de poder.idéias. Do outro lado da Idade Média achamos novamente uma época em que. Por isso. Como há de se entender este predomínio? A maior parte dos homens não têm opinião. infinidade de coisas. aspirações. E paralelamente. e na medida que isso seja necessário. São tempos em que se ama. de organicidade. Nisto consiste o método científico. Por isso é preciso que o espírito . a vida dos homens careceria de arquitetura. Durante vários séculos mandou no mundo a Europa. e por isso há ordem. e tudo isso em grande escala. só então. um erro. não temos mais remédio senão construir arbitrariamente uma realidade. Isto nos proporciona um esquema. portanto. um déficit de opinião. Tanto vale. supor que as coisas são de certa maneira. ironicamente. Tempos assim não carecem de delícias. menos ainda: o nada histórico. Com ele. Porque Pedro significa para nós um esquemático repertório de modos de se comportar física e moralmente . a convivência humana seria o caos. Para onde se dirige? Quem vai suceder a Europa no mando do mundo? Mas há mesmo certeza de que alguém vai suceder à Europa? E se não fosse ninguém. preferências. e é preciso que esta lhe venha de fora a pressão. e. eterno. como entra o lubrificante nas máquinas. e então. quer dizer. tal povo ou tal grupo homogêneo de povos. mas um é espírito do tempo opinião pública intramundana e cambiante -. toda mudança de imperantes. É o que aconteceu em todas as idades médias da história. Quando ao ver chegar nosso amigo pela vereda do jardim dizemos: "Este é Pedro». a que Deus tem sobre o homem e seus destinos. como ironizando-se a si mesma. Poder temporal e poder religioso são identicamente espirituais. para que a gente que não opina . manda alguém. Mais ainda: nisto consiste todo uso do intelecto.a opinião de Deus. pois. dizer: em tal data manda tal homem. um conceito ou entretecido de conceitos. como através de uma quadrícula. sem alguém que mande. e. sem um poder espiritual. Sem opiniões. é ao mesmo uma mudança de opiniões. olhamos depois a efetiva realidade. agora. Por isso representam sempre um relativo caos e uma relativa barbárie. propósitos. consequentemente. pois. Ela pôs ordem no Mediterrâneo e confinantes.o que chamamos "caráter" -. enquanto o outro é espírito de eternidade . Mas assim como é impossível conhecer diretamente a plenitude do real. Nestas jornadas de após-guerra começa a dizer-se que a Europa não manda mais no mundo. cometemos deliberadamente.opine. embora sobre uma porção limitada do mundo: Roma.A rebelião das massas. nada menos que uma mudança de gravitação histórica. em compensação. Voltemos agora ao começo.seja qual seja . como dizer: em tal data predomina no mundo tal sistema de opiniões . Mas nos grandes tempos a humanidade vive da opinião. Mas. e a pura verdade é que nosso file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. conseguimos uma visão aproximada dela. reina na humanidade o caos. Na Idade Média não mandava ninguém no mundo temporal. que aconteceria? II A pura verdade é que no mundo acontece a todo instante.e é a maioria . A pretensão de dizer o que é que acontece agora no mundo deve ser entendida.

a que tal suspeita ou preocupação preexistia em todas as cabeças. Nós. que este necessita e usa para esclarecer sua própria situação em meio da infinita e arqui-problemática realidade que é sua vida. admitindo que são A e B. Vida é luta com as coisas para sustentar-se entre elas. e eu necessitava por isso recordar que pensar é. sustentada por ninguém. O que o conceito pensa a rigor é um pouco outra coisa que o que diz. falando com todo rigor. acha-se que não nos diz nada da coisa mesma. o término indefectível do processo filosófico que se inicia com Kant. e o êxito de seu livro deveu-se. esta coisa não é A. se se escruta bem a entranha última de qualquer conceito. Esta teoria do conhecimento da razão houvera irritado a um grego. contrariamente.entende-se. Todo conceito.htm (70 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Por isso. e que tudo o mais é conseqüência. com efeito. A isto corresponde nos demais povos da Terra um estado de espírito congruente: duvidar de se agora são mandados por alguém. Eu não disse que a Europa tenha deixado de mandar. Esta opinião taxativa. Ora bem. Antes de que seu livro aparecera. e agora a Europa não está convicta de mandar nem de continuar mandando. queira-se ou não. como é notório. amigo Pedro não se parece. Mas semelhante intróito é desmesurado para o que vou dizer.A rebelião das massas. nos entredentes de um sorriso tranqüilo. o mais vulgar como o mais técnico. Porque o grego acreditou haver descoberto na razão. condição. Eu suplico fervorosamente que não se continue cometendo a ingenuidade de pensar em Spengler simplesmente porque se fale da decadência da Europa ou do Ocidente. Ele diz muito seriamente: "Esta coisa é A. todo descobrimento filosófico não é mais que um descobrimento e um trazer à superfície o que estava no fundo. em quase nada à idéia "nosso amigo Pedro". como o geométrico diamante vai implícito na dentadura de ouro de seu engaste. o conceito. sobre se amanhã mandará. todo o mundo falava disso. mas é. sem reservas. nem aquela B. segundo a qual o conteúdo de todo conceito é sempre vital. vai incluso na ironia de si mesmo. em certos momentos. é sem dúvida e no melhor caso uma exageração. tão alheio a problemas filosóficos. Ele sabe muito bem que nem esta coisa é A. sintoma ou anedota disso. acreditamos que a razão. à valentona. exagerar. a meu juízo. Falou-se muito nestes anos da decadência da Europa. eu me entendo comigo mesmo para os efeitos de meu comportamento vital diante de uma ou de outra coisa. O que verdadeiramente pensa é isto: eu sei que. o histórico . não foi até agora. que nestes anos a Europa sente graves dúvidas sobre se manda ou não. Os conceitos são o plano estratégico que nos formamos para responder a seu ataque. estritamente. que é aquilo que realmente está acontecendo no mundo. nem a outra é B. Tampouco estão certos disso. Reduzir a fórmula tão simples a infinitude de coisas que integram a realidade histórica atual. Quem prefira não exagerar deve calar-se. parecer-nos-á que no fundo todos os filósofos disseram a mesma coisa. ou padecimento possível de um homem. Creio. se revisamos a sua luz todo o passado da filosofia até Kant. que eu saiba.é exclusivamente isto: durante três séculos a Europa mandou no mundo. é sempre ação possível. no conceito. e nesta duplicidade consiste a ironia. a realidade mesma. É a seriedade instável de quem engoliu uma gargalhada e se não aperta bem os lábios a vomita. com os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mais ainda: tem de paralisar seu intelecto e ver a maneira de idiotizar-se. e esta outra coisa é B. Eu ia dizer simplesmente que o que agora acontece no mundo . mas. é um instrumento doméstico do homem. Por isso." Mas é a sua a seriedade de um pince-sans-rire. mas que resume o que um homem pode fazer com essa coisa ou padecer dela. mas. assim.

que muitos chegaram a dá-la como um fato. Frank nem analisa nem discute. entesa-se. a Europa decai e. Era natural que se esse modo de ser predomina dentro de cada povo. nem faz questão de tão enorme fato. Daí o vibriônico panorama de "nacionalismos" que se nos oferece por toda a parte. portanto. quando alguém notifica que o mestre saiu. Na escola. Cada um sente a delícia de evadir-se da pressão que a presença do mestre impunha. Mas são. ficam sem tarefa. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. os povos-massa resolveram dar como caduco aquele sistema de normas que é a civilização européia. de sacudir os jugos das normas. Ora. povos inteiros. relativamente. sentidos e pelas razões mais heterogêneas. e fiz notar que sua principal característica consiste em que. uma ocupação formal. mas como são incapazes de criar outro. definitivas enquanto não existam ou se divisem outras. de sentir-se dono do próprio destino. que lhe vai servir de formidável premissa. Redescobrimento da América. nem sequer levantou tal questão. uma tarefa com sentido. Nos capítulos anteriores tentei filiar um novo tipo do homem que hoje predomina no mundo: chamei-o homem-massa. À vista de que. povos-massa resolvidos a rebelar-se contra os grandes povos criadores. o fenômeno também se produza quando olhamos o conjunto das nações. E como ele fazem muitas pessoas. as melhores possíveis. ao rebelar-se. fazem-no os povos. Para superá-las é imprescindível parir outras. Estas normas não são. segundo se diz. se põe na ponta dos pés a increpar a Europa e declarar sua cessação na história universal. Sem mais averiguações. consequentemente só pode executar uma só coisa: a cabriola. É deplorável o frívolo espetáculo que os povos menores oferecem. dando-se ares de pessoa maior que rege seus próprios destinos. desde seu perdido rincão. O recente livro de Waldo Frank. sem dúvida. mas que se habituaram a dá-lo como certo. sem programa de vida. minorias de estirpes humanas que organizaram a história. fica de cabeça para baixo. E esta ingenuidade no ponto de partida basta-me para pensar que Frank não está convencido da decadência da Europa. sentindo-se vulgar. É verdadeiramente cômico contemplar como esta ou a outra republiqueta.htm (71 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . apoia-se integralmente no suposto de que a Europa agoniza. não sabem o que fazer. Toma-a como um bonde. Qual é o resultado? A Europa havia criado um sistema de normas cuja eficácia e fertilidade os séculos demonstraram. continuidade e trajetória. a turba parvular não tem um afazer próprio. de modo algum. Mas. deixa de mandar. proclama o direito à vulgaridade e nega-se a reconhecer instâncias superiores a ele. embora não recordem sinceramente haver-se convencido resolutamente disso em nenhuma data determinada. Não que acreditavam a sério e com evidência nele. Esta é a primeira conseqüência que sobrevem quando no mundo deixa de mandar alguém: que os demais. Sobretudo. a turba parvular faz bagunça. Não obstante. Os lugares comuns são os bondes do transporte intelectual. parte dele como de algo inconcusso. longe disso. cada nação e naçãozinha brinca. gesticula. E uma paisagem de exemplar puerilidade a que agora oferece o mundo. como tirada a norma que fixava as ocupações e as tarefas. Também há. Falou-se tanto da decadência européia. e para encher o tempo entregam-se à cabriola. de ficar de cabeça para baixo.A rebelião das massas.

deixa de mandar. com inconsciência de crianças. começou por interrogá-lo sobre os mandamentos de Deus.está desmoralizado.é cumprir um encargo -. Porque viver é ter que fazer algo determinado . como uivo de cães inumeráveis. pedindo alguém e algo que mande. Os decálogos conservam do tempo em que eram inscritos sobre pedra ou bronze seu caráter de pesadume. isentas de entraves. Mas o que agora acontece na Europa é coisa insalubre e estranha. Sem mandamentos que nos obriguem a viver de um certo modo. Inglaterra. eu ia aprender isso. Durante uma temporada. até as estrelas. Mas não há sombra de tal. as pessoas . e em vista disso. e aproveitam com ar festivo este tempo de pesados imperativos. ao dissociar-se do resto. Por Europa entende-se. A etimologia de mandar significa carregar. precavido.homens e povos . desolação. não é de estranhar que o mundo se desmoralize.diz-se . como agora se diz. e na medida em que iludamos pôr em algo nossa existência desocupamos nossa vida. Dentro de pouco ouvir-se-á um grito formidável em todo o planeta. em seu eixo. vida vazia. Vá isto dito para os que. esta desmoralização diverte e até vagamente ilude. De puro sentir-se livres. impedir sua extravagância. simplesmente porque os inventos da técnica automobilística têm ocorrido com mais rapidez. Esta descendência oriunda do broto de novas juventudes é um sintoma de saúde. metê-las em seu destino. Porque existiam só os europeus. E esta é a pura verdade. Nova York e Moscou não são nada novo com respeito à Europa. A mesma coisa acontece com os artefatos. sentem-se vazias. quem tem o encargo. mas o padre.nações. A Europa . que imponha um afazer ou obrigação. Não se trata de que .aproveitam a ocasião para viver sem imperativos. nos anunciam que a Europa já não manda. mas porque já está aí um princípio novo. Isso seria o admitido. não seríamos velhos ou levaríamos mais tempo a sê-lo. Se não tivéssemos filhos. antes de tudo e propriamente. e não se vê quem possa substituí-la. sem remissão. indivíduos .como outras vezes aconteceu uma germinação de normas novas substitui as antigas e um fervor novíssimo absorva em seu fogo jovem os velhos entusiasmos de minguante temperatura. esses três povos estão em decadência e seu programa de vida perdeu validez. que subirá. Esta é a horrível situação íntima em que se encontram já as juventudes melhores do mundo. Na região do globo que elas ocupam amadureceu o módulo de existência humana conforme ao qual foi organizado o mundo. São um e outro duas parcelas do mandamento europeu que. Todo o mundo . que apenas com sua novidade avantaja-se de repente ao preexistente. A rigor. fica nossa vida em pura disponibilidade. Não é essa a situação presente do mundo? Corre o zum-zum de que não vigorem mais os mandamentos europeus. Ao que o cigano respondeu: "Olhe aqui. Mandar é dar ocupação às gentes. Quem manda é.htm (72 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas a festa dura pouco. Os mandamentos europeus perderam vigência sem que se vislumbrem outros no horizonte. perderam seu sentido. Mais ainda: o velho advém velho não por sua senectude. causa file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a qual sói ser vacância. a trindade França. Alemanha. Uma vida em disponibilidade é maior negação que a morte. Os inferiores pensam que lhes tiraram um peso de cima. III O cigano foi se confessar. seu padre. pôr em alguém algo nas mãos. Os inferiores do mundo inteiro já estão fartos de que os encarreguem e sobrecarreguem. Um automóvel envelhece em dez anos mais do que uma locomotiva em vinte. mas depois ouvi um zum-zum de que tinha perdido o valor". Não importaria que a Europa deixasse de mandar se houvesse alguém capaz de substituí-la. Se.A rebelião das massas.

em vez de declarar. Daí que para entender as camouflages seja mister também um olhar oblíquo: o de quem traduz um texto com um dicionário ao lado. mas aprendidas. aparente. o que tem de russo. mas . só necessita de pretextos. como sempre as colônias. Mas ainda sem saber plenamente o que são.pensadas na Europa em vista de realidades e problemas europeus. Aqui está a camouflage e sua razão. e não o que tem de comunista.faz por baixo dele o seu gesto. mas oblíqua. suas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.por exemplo. Agora vão começar suas angústias. alcança-se o bastante para compreender seu caráter genérico. não só diferente como matéria étnica do europeu. e em geral. sobretudo da Europa. Mas há outros povos que germinam e se desenvolvem num âmbito ocupado já por uma cultura de história anosa. Esquece-se . é sempre dupla. o autêntico. cujas águas estavam impregnadas de civilização greco-oriental. Quem faz um gesto aprendido . A mesma coisa acontece com o espelhismo. por exemplo. Também é um erro atribuir sua força atual aos mandamentos a que obedece.como notei várias vezes . Há o povo que nasce em um "mundo" vazio de toda civilização. Que o marxismo tenha triunfado na Rússia . Por isso engana a maior parte das pessoas. que cresce em pleno Mediterrâneo. Debaixo dela há um povo. Só se pode livrar da equivocação que produz a camouflage quem saiba de antemão. disfarçam-se na idéia que esta lhes oferece. que se pôs a serviço do mandamento contemporâneo "técnica".onde não há indústria . A América é forte por sua juventude.o marxismo . profunda. com efeito. O conceito corrige os olhos.A rebelião das massas. Seu aspecto oculta. Exemplo: o egípcio ou o chinês. como podia haver-se posto a serviço do budismo se este fosse a ordem do dia. Coisa muito semelhante acontece com Nova York. O jovem não necessita de razões para viver. A técnica é inventada pela Europa durante os séculos XVIII e XIX. Em última instância reduz-se a este: a técnica.htm (73 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Ambos. E a sério nos dizem que a essência da América é sua concepção praticista e técnica da vida! Em vez de nos dizer: A América é. e suas atitudes têm um sentido claro e direto. juvenil. Um povo ainda em fermento. porque não há tal triunfo. Em virtude de razões diferentes da Rússia. e sua verdadeira significação não é direta. recebida. Vá lá saber o que será! O único que cabe afirmar é que a Rússia necessita de séculos ainda para optar ao mando. um vocábulo de outro idioma . outra. Porque lhe sobra juventude bastou-lhe essa ficção. Porque isso. que a camouflage existe. acidental e de superfície. substancial. quando é uma coisa tão efetiva como a juventude de um homem. Porque não se sabe com plenitude o que são: só se sabe que nem sobre um nem sobre outro se disseram palavras decisivas. E a atitude aprendida. uma repristinação ou rejuvenescimento de raças antigas. Num povo assim. sua substância. Supõe-se que isso seja uma frase. uma realidade que não é a que parece. Porque carece ainda de mandamentos necessitou fingir sua adesão ao princípio europeu de Marx. Mas não há tal contradição. Os povos novos não têm idéias. A camouflage é. os Estados Unidos significam também um caso dessa específica realidade histórica que chamamos "povo novo". Mas a América não faz com isso senão começar sua história. Que casualidade! Outro invento europeu. Quando crescem num âmbito onde existe ou acaba de existir uma velha cultura. traduz a sua própria linguagem o vocábulo exótico. horror falar de Nova York e de Moscou. é o que tem de forte. Assim.o que importa muito mais . quer dizer.de uma idade diferente da nossa. Que casualidade! Os séculos em que a América nasce. Daqui que a metade das atitudes romanas não sejam suas. Assim Roma. por essência. A Rússia é marxista aproximadamente como eram romanos os tudescos do Sacro Império Romano. tudo é autóctone. em Moscou há uma película de idéias européias . pertencem de cheio ao que algumas vezes chamei "fenômenos de camouflage histórica". não americano. Eu espero um livro em que o marxismo de Stalin apareça traduzido à história da Rússia.que há dois grandes tipos de evolução para um povo. efetiva. Em todo fato de camouflage histórica há duas realidades que se superpõem: uma.seria a contradição maior que podia sobrevir ao marxismo.

O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação como estado habitual e constituído de uma irregularidade. fazendo-se totalmente homogêneo com o crime ou irregularidade que arrasta. com medo de exagerar. Ainda tem de ser muitas coisas.A rebelião das massas. abdique? Não será esta aparente decadência a crise benfeitora que permita à Europa ser literalmente Europa? A evidente decadência das nações européias. e que. Daí que se tomamos à parte um indivíduo e o analisamos. não obstante. Mas o espanhol fez o contrário: em vez de opor-se a ser imperado por quem sua íntima consciência rechaçava. Não há.htm (74 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . talvez permanecesse intacto de tais repercussões. dissenções. oriundas dos deslocamentos e crises do imperar. sustentei que era um povo primitivo camuflado pelos últimos inventos (72). não era a priori necessária se algum dia haviam de ser possível os Estados Unidos da Europa. Como não é possível converter em sã normalidade o que em sua essência é criminoso e anormal. Se o homem fosse um ser solitário que acidentalmente se acha travado em convivência com outros. nada de estranho em que bastasse uma ligeira dúvida. salvas geniais exceções. seus conflitos. Eu sempre. Como ande nesta turvação a questão de quem manda e quem obedece. deprimente. é constitutivamente fraudulento. Em um mecanismo parecido ao que o adágio popular enuncia quando diz: "Uma mentira faz cento". como é social em sua mais elementar estrutura. pois. Não pode ter vigor elástico para a difícil faina de sustentar-se com decoro na história uma sociedade cujo Estado. é vão esperar nada dos homens de nossa raça. preferiu falsificar todo o resto de seu ser para o acomodar àquela fraude inicial. Rechaçaram a irregularidade transitória e reconstituíram assim sua moral pública. o declara francamente. e. o indivíduo opta por adaptar-se ao indevido. Todas as nações atravessaram jornadas em que aspirou a mandar sobre elas quem não devia mandar. Até a mais íntima intimidade de cada indivíduo. Mas faria ver a enorme dose de desmoralização íntima. é ilusório pensar que possa possuir as virtudes do mando. Mas. tem de retroceder ao ponto de partida e perguntar-se a sério: É tão certo como se diz que a Europa está em decadência e resigne o mandato. Agora Waldo Frank. A operação seria. entre elas. Fora interessante e até útil submeter a este exame o caráter individual do espanhol médio. ficará perturbada e falsificada. tudo o mais marchará impura e torpemente. embora útil. de algo que enquanto se aceita continua parecendo indevido. enfadonha. por isso a evito. do Poder. algumas as mais opostas à técnica e ao praticismo. Quem evite cair na conseqüência pessimista de que ninguém vai mandar. cabe coligir sem mais dados como anda em seu país a consciência de mando e obediência. fica transtornado em sua índole privada por mutações que a rigor só afetam imediatamente à coletividade. cujo império ou mando. uma simples vacilação sobre file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Enquanto isso persistir em nosso país. mas um forte instinto lhes fez concentrar ao ponto suas energias e expelir aquela irregular pretensão de mando. a pluralidade européia substituída por uma formal unidade? IV A função de mandar e obedecer é a decisiva em toda sociedade. A América ainda não sofreu. A América conta menos anos que a Rússia. de acanalhamento que no homem médio do nosso país produz o fato de ser a Espanha uma nação que vive há séculos com uma consciência suja na questão de mando e obediência. o mundo histórico volta ao caos. portanto. em seu Redescobrimento da América.

Mas não consiste só nisso. Estes anos assistimos ao gigantesco espetáculo de inumeráveis vidas humanas que marcham perdidas no labirinto de si mesmas por não ter a que se entregar. se essa vida minha. Trata-se de uma condição estranha. Eu não nego que possa haver nesta índole do bom celtibero algum fator de generosidade. viver é algo que cada qual faz por si e para si. amanhã. Por outro lado. Não se esqueça que mandar tem duplo efeito: manda-se em alguém. O mando consiste em uma pressão que se exerce sobre os demais. A Europa afrouxou sua pressão sobre o mundo. oposta à primeira. conduzindo-o ao lugar que a este interessa. E como há de se encher com algo. de tanto não ser mais que caminhar por dentro de si. tem de estar posta em algo. quem manda no mundo. para vagar a si mesma.htm (75 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . todas as ordens ficaram em suspenso. Viver é ir arrojado para alguma direção. egoisticamente. Uma das coisas que mais encantam os viajantes quando cruzam a Espanha é que se perguntam a alguém na rua onde fica uma praça ou edifício. Como diz o verso de Schiller: Quando os reis constróem. Quando de verdade se vai fazer algo e nos entregamos a um projeto. Sucede o mesmo a cada povo. Não se manda em seco. inscrita em nossa existência. caminhará desvencilhada. o europeu fechou-se em seu interior. Mas o resultado foi contrário ao que se poderia esperar. Isto é o labirinto. A meta não é o meu caminhar. não vou a parte alguma. E o que se lhe manda é. em um grande destino histórico. Compreende-se. em um destino ilustre ou trivial. mas inexorável. pois. para que todo o mundo . triunfou jamais.uma inspiração puramente egoísta. sem tensão e sem "forma". embarcar na opinião trivial que crê ver na atuação dos grandes povos . que participe em uma empresa. que só a mim me importa. Se fosse isto só. Depois da guerra. inventa-se ou finge frivolamente a si mesma. sincero. dou voltas e mais voltas em um mesmo lugar. Não convém. o espanhol não está file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Se resolvo andar só por dentro de minha vida. que nada íntimo. é algo a que ponho esta e que por isso mesmo está fora dela. não avanço. por sua natureza própria. Hoje é uma coisa. Por isso continuamos historicamente como há dez anos. em muitos casos. O egoísmo é labiríntico. Não é tão fácil como se crê ser puro egoísta. não se nos pode pedir que estejamos em disponibilidade para atender aos transeuntes e que nos dediquemos a pequenos altruísmos ocasionais. O egoísmo aparente dos grandes povos e dos grandes homens é a dureza inevitável com que se deve comportar quem tem sua vida posta em uma empresa. mais além. não é entregue por mim a algo.em sua vida pública e em sua vida privada .haja começado a desmoralizar-se. A vida humana. com freqüência o perguntado deixa o caminho que leva e generosamente se sacrifica pelo estranho. não é a minha vida. cada vida fica sem si mesma. que se perde em si mesmo. Por isso não há império sem programa de vida.A rebelião das massas. sem ter o que fazer. impõe. um caminho que não leva a nada. e me alegro que o estrangeiro interprete assim sua conduta. Por um lado. dedica-se a falsas ocupações. ficou sem empresa para si e para os demais. vazia. é caminhar para uma meta. sendo-o. Todos os imperativos.como dos homens . Está perdida ao encontrar-se só consigo. precisamente sem um plano de vida imperial. os carreiros têm o que fazer. outra. Mas nunca ao ouvi-lo ou lê-lo pude reprimir este receio: é que o compatriota perguntado ia de fato a alguma parte? Porque poderia ocorrer muito bem que. no final das contas. pois cada vida fica em absoluta franquia para fazer o que lhe der na vontade. Parece que a situação devia ser ideal. mas manda-se-lhe algo. seria violência. Livrada a si mesma. em uma empresa gloriosa ou humilde. e ninguém.

Grave é que esta dúvida sobre o mando do mundo. bastarão geração e meia para que o velho continente. novas em toda ordem. tenha desmoralizado o resto dos povos. Tornar-se-á vulgar. se isso não trouxesse consigo a volatilização de todas as virtudes e de todos os dotes do homem europeu. que excitam a consciência da dignidade. Mas nem sequer isso pediria. solidarizando-se com ele. mas que o descobrimento dela se deva aos europeus mesmos. e esta só é possível em uma destas situações: ou sendo quem manda ou achando-se alojado em um mundo onde manda alguém a quem reconhecemos pleno direito para tal função. Aceitaria que não mandasse ninguém. pensava nisso. na rotina. pelo contrário. fora do velho continente. V Convém que agora retrocedamos ao ponto de partida destes artigos: ao fato. com file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ocorreu a alguns homens da Alemanha. fazendo nada. Já é surpreendente o detalhe de que esta decadência não tenha sido notada primeiramente pelos estranhos. a técnica e tudo o mais vivem da atmosfera tônica que cria a consciência de mando. à captura de grandes idéias. oco. Nada me importaria a cessação do mando europeu se existisse hoje outro grupo de povos capaz de substitui-lo no Poder e na direção do planeta. estimar quem manda e acompanhá-lo. Quando ninguém. no hábito. Se falta esta. situando-se com fervor sob o drapejar de sua bandeira. isso é irremissível. Não penso assim porque eu seja europeu ou coisa parecida. na esterilidade intelectual e na barbárie omnímoda. Não é que diga: se o europeu não há de mandar no futuro próximo. ou mando ou obedeço. caía na inércia moral. tenazes. A ciência. de constantes estímulos. Mas é muito mais grave que este piétenement sur place chegue a desmoralizar por completo o europeu mesmo. não tem projeto nem missão. Ora bem.mas. salvo aqueles que por sua juventude estão ainda em sua pré-história. da Inglaterra.A rebelião das massas. da França. Já não terão as mentes essa fé radical em si mesmas que as lança enérgicas. recairá sempre no ontem. e hoje todo o mundo fala da decadência européia como de uma realidade inconcussa.htm (76 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não me interessa a vida do mundo. Em muitos casos consta-me que meus compatriotas saem à rua para ver se encontram algum forasteiro a quem acompanhar. A vida criadora é vida enérgica. Prontamente vereis a pessoa fazer vagos ademanes e praticar essa agitação de braços para a rotundidade do universo que é característica de todo náufrago. sai à vida para ver se as dos outros enchem um pouco a sua. Mas obedecer não é agüentar agüentar é envilecer-se . Não sabe. Só a ilusão do império e a disciplina de responsabilidade que ela inspira podem manter em tensão as almas do Ocidente. como os gregos da decadência e como os de toda a história bizantina. o europeu se irá envilecendo. exercido até agora pela Europa. de que no mundo se fale estes anos tanto sobre a decadência da Europa. formulista. Incapaz de esforço criador e luxuoso. Se o europeu se habitua a não mandar. A vida criadora supõe um regime de alta higiene. esta sugestiva idéia: Não será que começamos a decair? A idéia teve boa Imprensa. de grande decoro. audazes. O europeu se fará definitivamente cotidiano. a arte. e atrás dele o mundo todo. tão curioso. Mas detende ao que a enunciar com um leve gesto e perguntai-lhe em que fenômenos concretos e evidentes funda seu diagnóstico. pelo contrário.

O arranco para resolver as graves questões urgentes é tão vigoroso como quando mais o tenha sido. precisamente. nem sequer que existam perfis utópicos de outras formas de Estado que. mas pelo contrário. É que. Mas quando se vai precisar um pouco o caráter dessas dificuldades. o homem de letras parisiense começa a compreender que está esgotada a tradição de mandarinismo literário. Mas isso é justamente o que conviria explicar. sente sua nacionalidade como uma limitação absoluta. conservando as melhores qualidades dessa tradição. cujos fatores são em aparência tão diferentes do econômico. Na ordem da política interior acontece a mesma coisa. ao menos idealmente. mas as tarefas em que empregá-las. Fala-se mal do Parlamento em toda a parte. mas não se vê que em nem uma das que contam se intente sua substituição. de que sentindo-se com mais potencialidade do que nunca. pois. Essas fronteiras fatais da economia atual alemã. mas tropeça no mesmo instante com as reduzidas jaulas em que está alojado. pareçam preferíveis. Não há. Faltam programas de tamanho congruente com as dimensões efetivas que a vida chegou a ter dentro de cada indivíduo europeu. Todo bom intelectual da Alemanha. adverte-se que nenhuma delas afeta seriamente o poder de criação da riqueza e que o velho continente passou por uma crise muito mais grave nesta ordem. com as pequenas nações em que até agora vivia organizada a Europa. Existe toda uma série de objeções válidas ao modo de conduzir-se os Parlamentos tradicionais. são as fronteiras políticas dos Estados respectivos. mas em que na forma da vida pública em que se haviam de mover as capacidades econômicas é incongruente como o tamanho destas. vê-se que nem uma delas permite a conclusão de que deve suprimir-se o Parlamento. pelo contrário.htm (77 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . efeito. o alemão ou o inglês não se sentem hoje capazes de produzir mais e melhor que nunca? Em modo algum. A única coisa que sem grandes precisões aparece quando se quer definir a atual decadência européia. O professor alemão já viu claro que é absurdo o estilo de produção a que o obriga seu público imediato de professores alemães. Não se analisou ainda a fundo a estranhíssima questão de por que anda tão em agonia a vida política de todas as grandes nações. a sensação de menoscabo. que crer muito na autenticidade deste aparente desprestígio. de impotência que abruma inegavelmente estes anos à vitalidade européia. porque enfara escutar as inépcias que a toda hora se diz. Porque é um desprestígio estranho. Há aqui um erro de ótica que convém corrigir de uma vez para sempre. nutre-se dessa desproporção entre o tamanho da potencialidade européia atual e o formato da organização política em que tem de atuar. as que vão mal na Europa. e preferiria. que a depressão indiscutível de seus ânimos não provém de que se sintam pouco capazes. neste ou no outro problema econômico que esteja levantado. Por exemplo. inglesa. e sente falta da superior liberdade de expressão que desfrutam o escritor francês ou o ensaísta inglês. francesa. pois. de verbal formalismo. Pois o curioso é. a que o condena sua proveniência francesa. A prova disso é que a combinação se repete em todas as demais ordens. em quanto instrumento de vida pública. é o conjunto de dificuldades econômicas que encontra hoje diante de cada uma das nações européias. a que se agarrar. o desânimo que hoje pesa sobre a alma continental parece-me muito ao da ave de asa larga que ao bater os remígios se fere contra as grades da jaula. e importa muito filiar o estado de espírito desse alemão ou desse inglês nesta dimensão do econômico.A rebelião das massas. Diz-se que as instituições democráticas caíram em desprestígio. A dificuldade autêntica não radica. integrá-la com algumas virtudes do professor alemão. na vida intelectual. mas se se tomam uma a uma. O pessimismo. a propósito do Parlamento. da Inglaterra ou da França sente-se hoje afogado nos limites de sua nação. Não são as instituições. porventura. Vice-versa. todas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas. tropecem com certas barreiras fatais que os impedem de realizar o que muito bem poderiam. por exemplo. A meu ver.

Mais valia recordar que jamais instituição alguma criou na história Estados mais formidáveis. de que não sente ilusão pelos Estados nacionais em que está inscrito e prisioneiro. Se se olha com um pouco de cuidado esse famoso desprestígio. o que se vê é que o cidadão. portanto. seria inútil substituir o detalhe de suas instituições. levam por via direta e evidente à necessidade de reformá-lo. mas apenasmente de que a fábrica americana pode oferecer seu produto sem dificuldade alguma a cento e vinte milhões de homens. Porque do contrário. alheia de todo a eles no que diz respeito a utensílios políticos. com que é "menos" que antes. E então descobriu que ser inglês. seu estilo vital . porque isso implica que é imprescindível e que é capaz de nova vida.de automóveis sabe muito bem que a superioridade do produto americano não procede de nenhuma virtude específica usufruída pelo homem de ultramar. não sente respeito a seu Estado. O automóvel é invento puramente europeu. O desprestígio dos Parlamentos não tem nada que ver com seus notórios defeitos.htm (78 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a ser esta: seu magnífico e longo passado a faz chegar file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. por exemplo. para fazê-las "ainda mais" eficazes. hoje é superior a fabricação norte-americana desse artefato. que se ananicou. Deparou-se. Nós devemos então perguntar: Para que não é eficaz? Porque a eficácia é a virtude que um utensílio tem para produzir uma finalidade. com declarar sua inutilidade. de que não estima as finalidades da vida pública tradicional.A rebelião das massas. porque antes o inglês. pois. ao tropeçar o europeu em seus projetos econômicos. Ora bem: o melhor que humanamente pode dizer-se de algo é que necessita ser reformado. já que a presunção de haver minguado nasce precisamente de que cresceu sua capacidade e tropeça com uma organização antiga. Imagine-se que uma fábrica européia visse ante si uma área mercantil formada por todos os Estados europeus e suas colônias e seus protetorados. Não se confunda. sente que aqueles . a possibilidade e a urgência de reformar profundamente as Assembléias legislativas. mais eficientes que os Estados parlamentares do século XIX. Pela primeira vez. o fabricante europeu . que eram o universo. Fala-se. dentro da qual já não cabe. Portanto. mas o Estado mesmo. pois. suas possibilidades de vida. Procede de que o europeu não sabe em que empregá-los. Por isso exigimos de quem proclama a ineficácia dos Parlamentos que ele possua uma idéia clara de qual é a solução dos problemas públicos atuais. alemão ou francês é ser provinciano. uma origem puramente íntima e paradoxal.industrial e técnico . O fato é tão indiscutível que esquecê-lo demonstra franca estupidez. nem ainda teoricamente.são incomensuráveis com o tamanho do corpo coletivo em que está encerrado. Para dar ao dito um apoio plástico que o sustente. se em nenhum país está hoje claro. O automóvel atual saiu das objeções que se opuseram ao automóvel de 1910. não tem sentido acusar de ineficácia os instrumentos institucionais. Procede de outra causa. tome-se qualquer atividade concreta: por exemplo. Ninguém duvida de que esse automóvel previsto para quinhentos ou seiscentos milhões de homens seria muito melhor e mais barato que o "Ford". a fabricação de automóveis. na maior parte dos países. com os limites de sua nação. em que consiste o que há que fazer. Todavia. A situação autêntica da Europa viria. Este é. cada qual por si. o francês e o alemão acreditavam. em suma. Todas as graças peculiares da técnica americana são quase positivamente efeitos e não causas da amplitude e homogeneidade de seu mercado. A "racionalização" da indústria é conseqüência automática de seu tamanho. Mas a desestima vulgar em que caiu o Parlamento não procede dessas objeções. porque o irrespeitável não são estas. Neste caso a finalidade seria a solução dos problemas públicos em cada nação. parece-me. Entretanto. intelectuais.quer dizer. políticos. Conseqüência: o automóvel europeu está em decadência. a autêntica origem dessa impressão de decadência que achaca o europeu. que não é eficaz.

é um pedaço de campo que volta costas ao resto. mercê dos muros que a balizam. A Europa fez-se em forma de pequenas nações.htm (79 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . 0 caso é que a escavação e a arqueologia nos permitem ver algo do que havia no solo de Atenas e no de Roma antes de que Atenas e Roma existissem. dirá: "Eu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não é. A urbe não está feita. nem sequer está claro o nexo étnico entre aqueles povos proto-históricos e essas estranhas comunidades. É o espaço civil. tríplice extrato do sumo que ressuma a polis. que aportam ao repertório humano uma grande inovação: a de construir uma praça pública e em torno uma cidade fechada ao campo. para delimitar seu contorno. Mas o greco-romano decide separar-se do campo. Sua existência. Por isso Sócrates. a um novo estádio de vida onde tudo cresceu. em que o homem se liberta de toda comunidade com a planta e o animal. o grande urbano. Eis aqui a praça. peregrino. é campo abolido. reporto-me ao que ali disse (73). se o campo é toda a terra. o ágora. Saberá libertar-se de sobrevivências. Como é isso possível? Como pode o homem subtrair-se ao campo? Onde irá. um espaço sui generis. que prescinde do resto e se opõe a ele. a idéia e o sentimento nacionais foram sua invenção mais característica. O homem campesino é todavia um vegetal.A rebelião das massas. Este campo menor e rebelde. e quanto a certos pormenores. Porque. Gregos e latinos aparecem na história alojados. ao passo que a abelha vermelha só existe em enxame construtor de favos (74). Este é um fato que nestas páginas necessitamos tomar como absoluto e de gênese misteriosa. novíssimo. deixa estes fora e cria um âmbito à parte puramente humano. que pratica secção do campo infinito e se reserva a si mesmo diante dele. um fato de que há que partir tal como o zoólogo parte do dado bruto e inexplicado de que o sphex vive solitário. como a cabana ou o domus. dentro de urbes. O mesmo acontece com a urbe ou polis que começa por ser um buraco: o foro. É este o esquema do drama enorme que se representará nos anos vindouros. errabundo. igual às covas que existem no campo. ou ficará prisioneira para sempre delas? Porque já ocorreu uma vez na história que uma grande civilização morreu por não poder substituir sua idéia tradicional de Estado. mas às vezes as estruturas sobreviventes desse passado são anãs e impedem a atual expansão. VI Contei em outro lugar a paixão e morte do mundo greco-romano. um "interior" fechado por cima.. quanto pensa. e tudo o mais é pretexto para assegurar esse buraco. Note-se que isto significa nada menos que a invenção de uma nova classe de espaço. mas para discutir sobre a coisa pública. puramente rural e sem caráter específico. ao brotar da cidade. Até então só existia um espaço: o campo. As grandes civilizações asiáticas e africanas foram neste sentido grandes vegetações antropomorfas. Mas agora podemos considerar o assunto desde outro aspecto. com efeito. para proteger-se da intempérie e engendrar. mas que é pura e simplesmente a negação do campo. E agora vê-se obrigada a superar-se a si mesma. a definição mais certa do que é a urbe e a polis parece-se muito com a que comicamente se dá do canhão: rodeia-se o bocal de um poço com arame muito apertado e tem-se um canhão. como abelhas em sua colmeia. e nele se vivia com todas as conseqüências que isso traz para o ser do homem. um espaço demarcado para funções públicas. Mas o trânsito desta pré-história. portanto. Em certo modo. do cosmos geobotânico. da "natureza". A praça. mas um lugar de ajuntamento civil. sente e quer conserva a modorra inconsciente em que vive a planta.. e. fica arcano. fruta de nova espécie que dá o solo de ambas as penínsulas. A polis não é primordialmente um conjunto de casas habitáveis. de poleis. como a casa. se é o ilimitado? Muito simples: limitando um pedaço de campo mediante uns muros que oponham o espaço incluso e finito ao espaço amorfo e sem fim. que são misteres privados e familiares. muito mais nova que o espaço de Einstein.

entre o jurista e o labrego. que a ele tendiam. o Estado começa quando o homem se afana por fugir da sociedade nativa dentro da qual o sangue o inscreveu. Pelo contrário. Synoikismos é acordo de ir viver juntos. pela relativa pequenez de seus ingredientes. o persa. Em certo modo. e nela vão pôr os que antes só eram homens suas melhores energias. permite ver claramente o específico do princípio estatal. Neste sentido significa o contrário do movimento histórico: o Estado é convivência estabilizada. E quem diz o sangue. nem o chinês. e este é um princípio de movimento. de assento. é o propósito de empresas vitais maiores que as possíveis às minúsculas sociedades consangüíneas. a palavra "estado" indica que as forças históricas conseguem uma combinação de equilíbrio. de forma quieta e definida. Desta maneira nasce a urbe. Ao Estado constituído precede o Estado constituinte. no extrato primário e mais fundo de sua memória conservam os habitantes da cidade greco-latina a lembrança de um synoikismos. irredutível às primigênias e mais próximas ao animal. o idioma. como todo equilíbrio. ajuntamento. Com mais ou menos pureza. Que souberam disso jamais o hindu.htm (80 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O Estado-cidade. mas de cidadãos. Assim. em suma. Constrói sobre a heterogeneidade zoológica uma homogeneidade abstrata de jurisprudência (76). Mas este caráter de imobilidade. Com rara insistência. Itália não saiu até o século XIX do Estado-cidade. nem o egípcio? Até Alexandre e César. oferece-se ao existir humano. e nosso Levante cai em quanto pode no cantonalismo. que o Estado constituído é só o resultado de um movimento anterior de luta. a superação da casa ou ninho infra-humano. estática. entre o ius e o rus. Está claro que a unidade jurídica não é a aspiração que propele o movimento criador do Estado. que solicitar os textos. a cidade nasce por reunião de povos diversos. Com isto quero dizer que o Estado não é uma forma de sociedade que o homem acha presenteada. Não há. o Norte da África (Cartago = a cidade) repete o mesmo fenômeno. oculta. diz também qualquer outro princípio natural. toda a costa mediterrânea mostrou sempre uma espontânea tendência a este tipo estatal. não tenho nada que ver com as árvores no campo. portanto. a politea. É a república. Não se pense que esta origem da urbe é uma pura construção minha e que só lhe corresponde uma verdade simbólica. É mestiço e plurilíngüe. que não se compõe de homens e mulheres. A dispersão vegetativa pela campina sucede a concentração civil na cidade. Originariamente o Estado consiste na mescla de sangues e línguas. que é um ressábio daquela milenária inspiração (75). o dinamismo que produziu e sustém o Estado. respectivamente. Uma dimensão nova. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Na gênese de todo Estado vemos ou entrevemos sempre o perfil de um grande empresário. de esforços. por exemplo. estritamente no duplo sentido físico e jurídico desse vocábulo. Faz esquecer. a criação de uma entidade mais abstrata e mais alta que o oikos familiar. pois. a história da Grécia e de Roma consiste na luta incessante entre esses dois espaços: entre a cidade racional e o campo vegetal. basta traduzi-los. O impulso é mais substantivo que todo direito. A urbe é a super-casa. É superação de toda sociedade natural. eu só tenho quer ver com os homens na cidade". mas que necessita forjá-la penosamente. Não é como a horda ou a tribo e demais sociedades fundadas na consangüinidade que a Natureza se encarrega de fazer sem colaboração com o esforço humano. desde logo como Estado. Por uma parte. constituída.A rebelião das massas.

cada uma por si e para si. Quem seja capaz de orientar-se com precisão nela. VII Mentes lúcidas. mais ampla e nova. Houve. pois. capazes de imaginar a cidade que triunfa da dispersão campesina.direitos. matemáticos. A imaginação é o poder libertador que o homem tem. Aplique-se isto ao momento atual europeu. O essencialmente confuso. o que se chama mentes lúcidas. Isto indica que no passado viveram efetivamente isoladas. em suma. aquele que vislumbre sob o caos que apresenta toda situação vital a anatomia secreta do instante. encontraremos sempre o seguinte esquema: várias coletividades pequenas cuja estrutura social está feita para que viva cada qual dentro de si mesma. isto é. dois políticos.htm (81 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . esse é de verdade uma mente lúcida. quem não se perca na vida. A coisa é surpreendente porque. sem ter a mais leve suspeita do que lhes acontece. o político.a maior fantasia da antigüidade -. naturalistas -. em geral. e se aprofundais na análise achareis que nem sequer pretendem file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A forma social estabelecida . mas parte de sua vida está travada com indivíduos de outras coletividades com os quais comercia mercantil e intelectualmente. De sorte que a claridade da ciência não está tanto na cabeça dos que a fazem como nas coisas de que falam. e estas expressões abstratas adquirirão figura e cor. uma claridade sobre coisas abstratas. sem mais contatos que os excepcionais com as limítrofes. não houve provavelmente em todo o mundo antigo mais que duas: Temístocles e César. mas foi vão empenho. seja ela qual for. na Grécia e em Roma outros homens que pensaram idéias claras sobre muitas coisas . "costumes" e religião . se analisais superficialmente essas idéias. Houve quem quis levar as mentes greco-romanas mais além. Um povo é capaz de Estado na medida em que saiba imaginar. encarregou-se de assassinar César . Importa-nos muito aos europeus de hoje recordar esta história. A forma social de cada uma serve só para uma convivência interna. incluso o famoso.A rebelião das massas. intricado. e. sem dúvida. A escuridão imaginativa do romano. um desequilíbrio entre duas convivências: a interna e a externa. Mas a este isolamento efetivo sucedeu de fato uma convivência externa. precisamente o limite imposto pela Natureza a sua fantasia. Mas sua claridade foi de ordem científica. dentro de sua boa ou má sorte. de imaginar outra nunca sida. Todas as coisas de que fala a ciência. O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. o que indicaria que possuem idéias sobre tudo isso. Daí que todos os povos tenham tido um limite em sua evolução estatal. além disso. Por isso é autêntica criação.filósofos. é a realidade vital concreta. Sobrevem. substituindo-as por uma forma social adequada à nova convivência externa. é político precisamente porque é torpe (77). notareis que não refletem muito nem pouco a realidade a que parecem referir-se. o princípio estatal é o movimento que leva a aniquilar as formas sociais de convivência interna. O indivíduo de cada coletividade não vive já só desta. sobretudo econômica. Nesta situação. O grego e o romano. representada por Bruto. vão como sonâmbulos. Ouvi-los-eis falar em fórmulas taxativas sobre si mesmos e sobre seu contorno. detiveram-se nos muros urbanos. porque a nossa chegou ao mesmo capítulo. que é sempre única. são abstratas. Porém. quem tentou libertá-las da cidade. Se observamos a situação histórica que precede imediatamente o nascimento de um Estado. Observai os que vos rodeiam e vereis como avançam perdidos em sua vida. e as coisas abstratas são sempre claras.favorece a interna e dificulta a externa. Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência.

dona da Itália. íntima farsa. pôs a sua direita uma magnífica cabeça de intelectual. peremptório. Havia que votar na cidade. Como isso é a pura verdade . embora o resto marche otimamente. Pelo contrário: o indivíduo trata com elas de interceptar sua própria visão do real. já está no firme. O resto é retórica. não tem inimigos à sua frente. Não lhe interessa que suas "idéias" não sejam verdadeiras. Tudo o mais é secundário. da Ásia Menor. sob pena de consunção. que viver é sentir-se perdido -. como o náufrago. Quem não se sente de verdade perdido perde-se inexorávelmente. Entretanto.a saber. mas aterra-o encontrar-se cara a cara com essa terrível realidade. não topa nunca com a própria realidade. em uma hora das mais caóticas que há vivido a humanidade. rica. quaisquer que sejam seu tipo e seu grau. em receitas. a de Cícero. A cidade tiberina. e se convence de que tudo nela é problemático. porque se compõe de situações únicas em que o homem se encontra de repente submerso. O homem o suspeita. quem o aceita já começou a encontrar-se. estava a ponto de rebentar. como espantalhos para afugentar a realidade. ao começar o século I antes de Cristo. e esse olhar trágico. Não são mentes claras. e se sente perdido. não obstante ser a ciência. O excesso de boa fortuna havia deslocado o corpo político romano. em que tenhamos visto bem seu caráter problemático e compreendamos que não podemos apoiar-nos em idéias recebidas. Isto é certo em todas as ordens. Roma.A rebelião das massas. queira ou não queira.htm (82 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Se o regime de comícios é acertado. postura. buscará algo para se agarrar. as idéias dos náufragos. já começou a descobrir sua autêntica realidade. tudo vai bem. de seu. como as amadríadas estão. Mas muito menos os que viviam repartidos por todo o mundo romano. emprega-as como trincheiras para defender-se de sua vida. ajustar-se a tal realidade. Por isso é o tema que nos permite distinguir melhor quais as mentes lúcidas e quais as mentes rotineiras. A política é muito mais real que a ciência. adscritas à árvore que tutelam. de sua vida mesma. lhe facultará pôr ordem no caos de sua vida. Homem de mente lúcida é aquele que se liberta dessas "idéias" fantasmagóricas e olha de frente a vida. Porque a vida é inteiramente um caos onde a criatura está perdida. absolutamente veraz porque se trata de salvar-se. ainda na ciência. E como se o destino se houvesse comprazido em sublinhar a exemplaridade. está a ponto de fenecer porque se obstina em conservar um regime eleitoral estúpido. Quem descobre uma nova verdade científica teve antes que triturar quase tudo que havia aprendido e chega a essa nova verdade com as mãos sangrentas por haver jugulado inumeráveis lugares comuns. A saúde das democracias. Nossas idéias científicas valem na medida em que nos tenhamos sentido perdidos ante uma questão. do Oriente clássico e helenístico. daí sua notória falta de jeito ante qualquer situação concreta). em lemas nem vocábulos. uma fuga da vida (a maior parte dos homens de ciência dedicaram-se a ela por terror a defrontar sua própria vida. da Espanha. dedicada durante toda a sua vida a confundir as coisas. depende de um mísero detalhe técnico: o procedimento eleitoral. e procura ocultá-la com um véu fantasmagórico onde tudo está muito claro. Um regime eleitoral é estúpido quando é falso. se se ajusta à realidade. César é o exemplo máximo que conhecemos de dom para encontrar o perfil da realidade substantiva em um momento de confusão pavorosa. tudo vai mal. Suas instituições públicas tinham uma força municipal e eram inseparáveis da urbe. é onipotente. se não. não se encontra jamais. é dizer. Estas são as únicas idéias verdadeiras. Instintivamente. Como as eleições eram file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Já os cidadãos do campo não podiam assistir aos comícios.

Os europeus sempre gravitamos em direção ao futuro e sentimos que é esta a dimensão mais substancial do tempo. A cidade não pode governar tantas nações. No ar estão as palavras. impossíveis. Não o vê. O segredo está em sua façanha capital: a conquista das Gálias. Também ele retrograda. A solução de César é totalmente oposta à conservadora. os fiéis ao Estado-cidade. Daí que todo o seu viver é em certo modo reviver. mais perigosos em um futuro não muito remoto que as nações corruptas do Oriente. A expressão é de César. para evitar a dissolução das instituições é preciso um príncipe. Os generais da esquerda e da direita . Nenhuma magistratura gozava de autoridade. resumem o pensamento de todos os publicistas pedindo um princips civitatis. transferiu-se do homem antigo ao filósofo moderno. Toda nova conquista é um delito de lesa-república. pois. Mas isso não é ser insensível ao tempo. Segunda. Compreende que para curar as conseqüências das anteriores conquistas romanas não havia mais remédio senão prossegui-las aceitando até o fim tão enérgico destino. Disse-se (Spengler) que os greco-romanos eram incapazes de sentir o tempo. e informado por aquele mergulha na atualidade. Para nós a palavra "príncipe" tem um sentido quase oposto ao que tinha para um romano. o qual. e Salústio. ou. de ver sua vida como uma dilatação na temporalidade. "A República não era mais que uma palavra". como o daltonista não vê a cor vermelha. um rector rerum publicarum. foi necessário falsificá-las. Existiam em um presente pontual. os transtornos da vida pública romana provêem de sua excessiva expansão. que ao olhar a vida greco-romana nos pareça anacrônica. Por que? Constituíam o Poder os republicanos. protegido e deformado pelo escafandro ilustre.Mário e Sila . file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em seus livros Sobre a República. Sobretudo urgia conquistar os povos novos. Significa simplesmente um cronismo incompleto. Dava a casualidade de que era precisamente César e não o manual de cesarismo que sói vir depois. em seus memoriais a César. para nós. Para empreendê-la teve de se declarar rebelde ante o Poder constituído. que confunde duas coisas.com veteranos do exército. em compensação. começa pelo "depois" e não pelo "antes". Não temos mais remédio.exibiam insolências em vazias ditaduras que não levavam a nada. Isto é ser arcaizante e isto o foi quase sempre o antigo.htm (83 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . um moderator. os conservadores. Este entendia por tal precisamente um cidadão como os demais. vive radicalmente no pretérito.A rebelião das massas. pelo menos. indaga em toda atualidade um precedente. a fim de regular o funcionamento das instituições republicanas. defeituoso da asa futurista e com hipertrofia de antanhos. César sustentará a necessidade de romanizar a fundo os povos bárbaros do Ocidente.que se encarregavam de romper as urnas. Sua política pode resumir-se em duas cláusulas: Primeira. Antes de fazer agora algo dá um passo atrás. Esta como mania de tomar todo presente com as pinças de um exemplo pretérito. entreteve-se em fazê-la. Compreende-se. Eu suspeito que esse diagnóstico é errôneo. e os candidatos organizavam partidas de cacete . Sem o apoio de autêntico sufrágio as instituições democráticas estão no ar. Cícero. Mas. como Lagartijo ao projetar-se para matar. César não explicou nunca sua política. busca no passado um modelo para a situação presente. mas que era investido de poderes superiores. se queremos entender aquela política. quer dizer. O greco-romano padece de uma surpreendente cegueira para o futuro. com atletas do circo . que tomar seus atos e dar-lhes seu nome.

A rebelião das massas.

ao qual denomina, com lindo vocábulo de égloga, sua "fonte". Digo isto porque já os antigos biógrafos de César se fecham à compreensão desta enorme figura supondo que tratava de imitar Alexandre. A equação impunha-se: se Alexandre não podia dormir pensando nos lauréis de Milcíades, César devia forçosamente sofrer de insônia pelos de Alexandre. E assim sucessivamente. Sempre o passo atrás e o pé de hoje na pegada de ontem. O filólogo contemporâneo repercute o biógrafo clássico. Crer que César aspirava a fazer algo assim como o que fez Alexandre - e isto creram quase todos os historiadores - é renunciar radicalmente a entendê-lo. César é aproximadamente o contrário de Alexandre. A idéia de um reino universal é o único que os emparelha. Mas esta idéia não é de Alexandre, mas vem da Pérsia. A imagem de Alexandre teria empurrado César para o Oriente, para o prestigioso passado. Sua preferência radical pelo Ocidente revela melhor a vontade de contradizer o macedônio. Mas, ainda mais, não é um reino universal, apenas, o que César se propõe. Seu propósito é mais profundo. Quer um Império romano que não viva de Roma, mas da periferia, das províncias, e isso implica a superação absoluta do Estado-cidade. Um Estado onde os povos mais diversos colaborem, de que todos se sintam solidários. Não um centro que manda e uma periferia que obedece, mas um gigantesco corpo social, onde cada elemento seja por sua vez passivo e ativo do Estado. Tal é o Estado moderno, e esta foi a fabulosa antecipação de seu gênio futurista. Mas isso supunha um poder extraromano, anti-aristocrata, infinitamente elevado sobre a oligarquia republicana, sobre seu príncipe, que era só um primus inter pares. Este poder executor e representante da democracia universal só podia ser a Monarquia com sua sede fora de Roma. República! Monarquia! Duas palavras que na história trocam constantemente de sentido autêntico, e que por isso é preciso a todo instante triturar para certificar-se de sua eventual força. Seus homens de confiança, seus instrumentos mais imediatos, não eram arcaicas ilustrações da urbe, mas gente nova, provinciais, personagens enérgicos e eficientes. Seu verdadeiro ministro foi Cornélio Balbo, um homem de negócios gaditano, um atlântico, um "colonial ". Mas a antecipação do novo Estado era excessiva: as cabeças lentas do Lácio não podiam dar brinco tão grande. A imagem da cidade, com seu tangível materialismo, impediu que os romanos "vissem" aquela organização novíssima do corpo público. Como podiam formar um Estado homens que não viviam numa cidade? Que gênero de unidade era essa, tão sutil e tão mística? Repito uma vez mais: a realidade que chamamos Estado não é a espontânea convivência de homens que a consangüinidade uniu. O Estado começa quando se obriga a conviver a grupos nativamente separados. Esta obrigação não é desnuda violência, mas que supõe um processo incitativo, uma tarefa comum que se propõe aos grupos dispersos. Antes que nada é o Estado projeto de um fazer e programa de colaboração. Chama-se às pessoas para que juntas façam algo. O Estado não é consangüinidade, nem unidade lingüística, nem unidade territorial, nem contiguidade de habitação. Não é nada material, inerte, dado e limitado. É um puro dinamismo - a vontade do fazer algo em comum -, e mercê a isso a idéia estatal não está por nenhum termo físico (78). Agudíssima a conhecida empresa política de Saavedra Fajardo: uma flecha, e debaixo: "Ou sobe ou desce". Isso é o Estado. Não uma coisa, mas um movimento. O Estado é em todo instante algo que vem de e vai para. Como todo movimento, tem um terminus a quo e um terminus ad quem. Corte-se por

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A rebelião das massas.

qualquer hora a vida de um Estado que o seja verdadeiramente, e se achará uma unidade de convivência que parece fundada em tal ou qual atributo material: sangue, idioma, "fronteiras naturais". A interpretação estática nos levará a dizer: isso é o Estado. Mas logo advertimos que essa agrupação humana está fazendo algo comunal: conquistando outros povos, fundando colônias, federando-se com outros Estados; quer dizer, que em toda hora está superando o que parecia princípio material de sua unidade. E o terminus ad quem, é o verdadeiro Estado, cuja unidade consiste precisamente em superar toda unidade dada. Quando esse impulso para o mais além cessa, o Estado automaticamente sucumbe, e a unidade que já existia e parecia fisicamente cimentada - raça, idioma, fronteira natural - não serve de nada: o Estado se desagrega, se dispersa, se atomiza. Só essa duplicidade de momentos no Estado - a unidade que já é e a mais ampla que projeta - permite compreender a essência do Estado nacional. Sabido é que ainda não se logrou dizer em que consiste uma nação, se damos a este vocábulo uma acepção moderna. O Estado-cidade era uma idéia muito clara, que se via com os olhos da cara. Mas o novo tipo de unidade pública que germinava em galos e germanos, a inspiração política do Ocidente, é coisa muito mais vaga e fugidia. O filólogo, o historiador atual, que é de seu arcaizante, encontra-se ante este formidável fato quase tão perplexo como César e Tácito quando com sua terminologia romana queriam dizer o que eram aqueles Estados incipientes, transalpinos e ultra-renanos, ou bem os espanhóis. Chamam-nos civitas, gens, natio, percebendo que nenhum destes nomes coincide com a coisa (79). Não são civitas, pela simples razão de que não são cidades (80). Mas nem sequer cabe indefinir o termo e aludir com ele um território delimitado. Os povos novos trocam com suma facilidade de torrão, ou pelo menos ampliam e reduzem o que ocupavam. Tampouco são unidades étnicas - gentes, nationes. - Por muito longe que recorramos, os novos Estados aparecem já formados por grupos de nacionalidades independentes. São combinações de sangues diferentes. Que é, pois, uma nação, já que não é nem comunidade de sangue, nem adscrição a um território, nem coisa alguma desta ordem? Como sempre acontece, também neste caso uma pulcra submissão aos fatos nos dá a chave. Que é que salta aos olhos quando repassamos a evolução de qualquer "nação moderna" - França, Espanha, Alemanha -? Simplesmente isto: o que em certa data parecia constituir a nacionalidade aparece negado numa data posterior. Primeiro, a nação parece a tribo, e a não-nação a tribo de ao lado. Depois a nação se compõe de duas tribos, mais tarde é uma comarca e pouco depois é já todo um condado ou ducado ou "reino". A nação é Leão, mas não Castela; depois é Leão e Castela, mas não Aragão. É evidente a presença de dois princípios: um, variável e sempre superado - tribo, comarca, ducado, "reino", com seu idioma ou dialeto -; outro, permanente, que salta libérrimo sobre todos esses limites e postula como unidade o que aquele considerava precisamente como radical contraposição. Os filólogos - chamo assim aos que hoje pretendem denominar-se "historiadores" - praticam o mais delicioso truísmo quando partem do que agora, nesta data fugaz, nestes dois ou três séculos, são as nações do Ocidente e supõem que Vercingetorix ou que Cid Campeador queriam já uma França deste Saint-Malo a Estrasburgo - precisamente - ou uma Spania desde Finisterre a Gibraltar. Estes filólogos como o ingênuo dramaturgo - fazem quase sempre que seus heróis partam para a guerra dos Trinta Anos. Para nos explicar como se formaram a França e a Espanha, supõem que a França e a Espanha preexistiam como unidades no fundo das almas francesas e espanholas. Como se existissem franceses e espanhóis originariamente antes de que a França e a Espanha existissem! Como se o francês e o espanhol não fossem simplesmente coisas que foram formadas em dois mil anos de faina!

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A rebelião das massas.

A verdade pura é que as nações atuais são apenas a manifestação atual daquele princípio variável, condenado à perpétua superação. Esse princípio não é agora o sangue nem o idioma, posto que a comunidade de sangue e de idioma na França ou na Espanha foi efeito, e não causa, da unificação estatal; esse princípio é agora a "fronteira natural". Está bem que um diplomata empregue em sua esgrima astuta este conceito de fronteiras naturais, como ultima ratio de suas argumentações. Mas um historiador não pode entrincheirar-se atrás dele como se fosse um reduto definitivo. Nem é definitivo, nem sequer suficientemente específico. Não se esqueça qual é, rigorosamente proposta, a questão. Trata-se de averiguar que é o Estado nacional - o que hoje costumamos chamar nação -, a diferença de outros tipos de Estado, como o Estado-cidade ou, indo ao outro extremo, como o Império que Augusto fundou (81). Se se quer formular o tema de modo ainda mais claro e preciso, diga-se assim: Que força real produziu essa convivência de milhões de homens sob uma soberania de Poder público que chamamos França, ou Inglaterra, ou Espanha, ou Itália, ou Alemanha? Não foi a prévia comunidade de sangue, porque cada um desses corpos coletivos está regado por torrentes cruentas muito heterogêneas. Não foi tampouco a unidade lingüística, porque os povos hoje reunidos em um Estado falavam ou falam ainda idiomas diferentes. A relativa homogeneidade de raça e língua de que hoje gozam - supondo que isso seja um gozo - é resultado da prévia unificação política. Portanto, nem o sangue nem o idioma fazem o Estado nacional; pelo contrário, é o Estado nacional quem nivela as diferenças originárias de glóbulo vermelho e som articulado. E sempre aconteceu assim. Poucas vezes, para não dizer nunca, terá o Estado coincidido com uma identidade prévia de sangue ou idioma. Nem a Espanha é hoje um Estado nacional porque se fale em toda ela o espanhol (82), nem foram Estados nacionais Aragão e Catalunha porque em certo dia, arbitrariamente escolhido, coincidissem os limites territoriais de sua soberania com os da fala aragonesa ou catalã. Estaríamos mais próximos da verdade se, respeitando a casuística que toda realidade oferece, nos inclinássemos a esta presunção: toda unidade lingüística que abarca um território de alguma extensão é quase certamente precipitado de alguma unificação política precedente (83). O Estado tem sido sempre o grande turgimão. Há muito tempo que isto consta, e é muito estranha a obstinação com que, entretanto, se persiste em dar à nacionalidade como fundamentos o sangue e o idioma. Nisso eu vejo tanta ingratidão como incongruência. Porque o francês deve sua França atual, e o espanhol sua atual Espanha, a um princípio X, cujo impulso consistiu precisamente em superar a estreita comunidade de sangue e de idioma. De sorte que a França e a Espanha consistiriam hoje no contrário do que as tornou possíveis. Igual tergiversação comete-se ao querer fundar a idéia de nação numa grande figura territorial, descobrindo o princípio de unidade, que sangue e idioma não proporcionam, no misticismo geográfico das "fronteiras naturais". Tropeçamos aqui com o mesmo erro de ótica . O acaso da data atual mostra-nos as chamadas nações instaladas em amplos torrões do continente ou nas ilhas adjacentes. Desses limites atuais quer fazer-se algo definitivo e espiritual. São, dizem, "fronteiras naturais", e com sua "naturalidade" significa-se uma como mágica predeterminação da história pela via telúrica. Mas este mito volatiliza-se imediatamente submetendo-o ao mesmo raciocínio que invalidou a comunidade de sangue e de idioma como fontes da nação. Também aqui, se retrocedemos alguns séculos, surpreende-nos a França e a Espanha dissociadas em nações menores, com suas inevitáveis "fronteiras

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Dominados estes energicamente. afinal das contas. sobretudo jurídica. E claro que ao desfazer uma tergiversação serei eu quem pareça cometê-la agora. e depois. Não é a comunidade nativa de uma ou outra o que constituiu a nação. uno com ele. se se interpreta a realidade efetiva da situação política em cada época e se revive seu espírito. outro remédio senão desfazer a tergiversação tradicional padecidas pela idéia de Estado nacional e habituar-se a considerar como estorvos primários para a nacionalidade precisamente as três coisas em que se acreditava consistir. mas ao contrário: o Estado nacional encontrou-se sempre. Não há. participe e colaborador. ninguém foi nunca só súdito do Estado. se acreditou necessário recorrer a raça. na França. aliados.htm (87 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . tem sido muito diferente conforme os tempos. Pelo visto. em seu afã de unificação. A realidade histórica da famosa "fronteira natural" consiste simplesmente em ser um estorvo à expansão do povo A sobre o povo B. porque nestas achamos uma intimidade e solidariedade radical dos indivíduos com o Poder público desconhecidas no Estado antigo. desta união com e no Estado.significa a "união hipostática" do Poder público e a coletividade por ele regida. já que não têm sido o fundamento positivo destas? A coisa é clara e de suma importância para entender a autêntica inspiração do Estado nacional diante do Estado-cidade. Não foram. Tem havido grandes diferenças de condição social e estatuto pessoal. classes relativamente privilegiadas e classes relativamente postergadas. ingenuamente. provincianos. Não obstante o que. em sua política mesma. e não em princípios forasteiros de caráter biológico ou geográfico. os demais . Pois bem: exatamente o mesmo papel corresponde à raça e à língua. é uma defesa para B.eram apenas súditos. pois. pois. queremos atribuir um caráter definitivo e fundamental às fronteiras de hoje. Por que. mas sempre participou dele. o passo de Calais ou o estreito de Gibraltar. Em Atenas e em Roma só uns quantos homens eram o Estado. na Espanha. colonos . A montanha fronteiriça seria menos prócer que o Pirineu ou os Alpes e barreira líquida menos caudalosa que o Reno. Nação . mas ao contrário: a princípio foram estorvo. Depende dos meios econômicos e bélicos da época. apesar de que os novos meios de tráfego e guerra anularam sua eficácia como estorvos. Na Inglaterra. mas. frente às muitas raças e às muitas línguas. só um obstáculo material lhes põe um freio. A forma. As fronteiras de ontem e de anteontem não nos parecem hoje fundamentos da nação francesa ou espanhola. É preciso resolver-se a procurar o segredo do Estado nacional em sua peculiar inspiração como tal Estado. aparece evidente que todo indivíduo se sentia sujeito ativo do Estado. produziu uma relativa unificação de sangues e idiomas que serviu para consolidar a unidade. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. princípio da nação. pois.para A. pelo contrário: estorvos que a idéia nacional encontrou em seu processo de unificação. Porque é um estorvo . As fronteiras serviram para consolidar em cada momento a unificação política já alcançada. A idéia de "fronteira natural" implica. língua e território nativos para compreender o fato maravilhoso das modernas nações? Pura e simplesmente. Qual tem sido então o papel das fronteiras na formação das nacionalidades.de convivência ou de guerra .A rebelião das massas. uma vez alheada. naturais". como mais natural ainda que a fronteira. como com outros tantos estorvos.no sentido que este vocábulo emite no Ocidente de há mais de um século . foram meio material para assegurar a unidade.escravos. Mas isso apenas demonstra que a "naturalidade" das fronteiras é meramente relativa. a possibilidade da expansão e fusão ilimitada entre os povos.

se comporta como um homem aberto ao futuro. o convite que um grupo de homens faz a outros grupos humanos para juntos executar uma empresa. E é que o europeu. Não é a comunidade anterior. simplesmente porque nela se ajunta ao sangue. e se diz que é um "plebiscito cotidiano". a saber: como dualidade de dominantes e dominados (84). As diferentes classes de Estado nascem das maneiras segundo as quais o grupo empresário estabeleça a colaboração com os outros. A Roma tocava mandar e não obedecer. Na mesma urbe não conseguiu a fusão política dos cidadãos. classe social. Esta incapacidade de todo grupo grego e romano para fundir-se com outros provém de causas profundas que não convém perscrutar agora. Não o que fomos ontem. durante a República.A rebelião das massas. Roma foi. medieval ou moderna -. nos reúne em Estado. Mas os povos novos trazem uma interpretação do Estado menos material. Não se esqueça que. entende-se bem o que esta expressão significa? Não podemos dar-lhe agora um conteúdo de signo oposto ao que Renan lhe insufla. que vive conscientemente instalado nele e dele decide sua conduta presente. a comunidade na atuação. O Estado nacional é em sua raiz mesma democrático. Segundo isto. adscrição geográfica. duas Romas: o Senado e o povo. A unificação estatal não passou nunca de mera articulação entre os grupos que permaneceram externos e estranhos uns aos outros. ficam em segundo plano. Daí a facilidade com que a unidade política brinca no Ocidente sobre todos os limites que aprisionaram o Estado antigo. mas o que vamos fazer amanhã juntos. muito mais verdadeiro? file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de uma maneira simples. sua realidade é puramente dinâmica: um fazer. o idioma e as tradições comuns um atributo novo. em organizar certo tipo de vida comum.em suma. finalmente. mas a comunidade futura no efetivo fazer. o Estado se materializa no pomoerium. territorial e etnicamente. qualquer que seja sua forma . elemental e tosca. consiste. todo aquele que preste adesão à empresa . antiga.raça. quaisquer que sejam seus trâmites intermediários. pretérita. sem que haja nada que em princípio a detenha. Conforme cresce a nação. acaba-se sempre por aceitar como a melhor a fórmula de Renan. são termos inseparáveis. O Estado é sempre. é sujeito político. queira-se ou não. Mas. E curioso notar que. entretanto. forma parte ativa do Estado. mas não os eleva a união consigo. a rigor. o Estado consiste.a que proporciona título para a convivência política. ao definir a nação fundando-a numa comunidade de pretérito. obedecer e não mandar. no corpo urbano que uns muros delimitam fisicamente. Tendência política tal avançará inexoravelmente para unificações cada vez mais amplas. e teve de se defender exclusivamente com seus meios burocráticos de administração e de guerra. Por isso o Império ameaçado não pode contar com o patriotismo dos outros. Assim. Desta sorte. relativamente ao homo antiquus. Estado e projeto de vida.primitiva. A capacidade de fusão é ilimitada. fatal e irreformável . Roma manda e educa os italiotas e as províncias. Esta empresa. aos demais. o Estado antigo não acerta nunca a fundir-se com os outros. Não só de um povo com outro. mas o que é mais característico ainda do Estado nacional: a fusão de todas as classes sociais dentro de cada corpo político. e que é. tradicional e imemorial . vai-se fazendo mais una a colaboração interior. programa de ação ou conduta humanos. Se ele é um projeto de empresa comum. sangue. e que finalmente se resumem em uma: o homem antigo interpretou a colaboração em que. num sentido mais decisivo que todas as diferenças nas formas de governo.htm (88 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .

nem pelo idioma. Esta idéia de que a nação consiste num plebiscito cotidiano opera sobre nós como uma liberação. sem pausa nem descanso. a nação seria uma coisa situada às nossas costas. Se a nação consistisse nisso e em mais nada.quem fez as nações. inertes.diga-se de uma vez . Este modesto prazer solitário se nos apresentou há pouco como um futuro desejável. com o que não teríamos nada que fazer.htm (89 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . um mesmo programa para realizar. rígidos. eu me pergunto como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a Espanha.A rebelião das massas. significa realizar um futuro? Inclusive quando nos entregamos a recordar. Portanto. querer fazer outras mais. por isso o fazemos. Queira-se ou não. Se a nação consistisse não mais que em passado e presente. unicamente revela que também a definição de Renan é arcaizante. pois: nada tem sentido para o homem. A existência de uma nação é um plebiscito cotidiano". Conste. fatais. A nação seria algo que se é..no futuro. ainda que não seja mais que o prazer de reviver o passado. Nem sequer teria sentido defendê-la quando alguém a ataca. De haver existido na Idade Média esse conceito oitocentista de nacionalidade. mas que procedem da interpretação erudita dada pelo romanticismo à idéia de nação. Por isso viver é sempre. uma vontade comum no presente. Por que não se reparou em que fazer. Como se explica sua excepcional fortuna? Sem dúvida. Os que afirmam o contrário são hipócritas ou mentecaptos. Desde o instante atual nos ocupamos do que sobrevem. o Estado nacional representaria um princípio estatal mais próximo à pura idéia de Estado que a antiga polis ou que a "tribo" dos árabes. Não é o patriotismo . VIII "Ter glórias comuns no passado. Isso é o que reverbera na frase de Renan: a nação como excelente programa para amanhã. a vida humana é constante ocupação com algo futuro. Por isso nos mobilizamos em sua defesa.reais ou imaginários . senão em função do porvir (85). nem pelo comum passado. Fazemos memória neste segundo para lograr algo no imediato. ao território. No passado. Mas acontece que o passado nacional projeta aliciantes . sempre. Tal é a conhecidíssima sentença de Renan. não pelo sangue. Que neste caso o futuro consista numa perduração do passado não modifica em nada a questão. fazer. eis aqui as condições essenciais para ser um povo. De fato. ninguém se ocuparia de defendê-la contra um ataque. circunscrita pelo sangue. mas não algo que se faz. Se para que exista uma nação é preciso que um grupo de homens conte com um passado comum. à raça. Mais: eu diria que esse lastro de pretérito e essa relativa limitação dentro de princípios materiais não têm sido nem são por completo espontâneos nas almas do Ocidente. Crer o contrário é o truísmo a que já aludi e que o próprio Renan admite em sua famosa definição. O plebiscito decide um futuro. teriam ficado inexistentes (86). Ao defender a nação defendemos nosso amanhã.. são prisões. pela graça da nota.. Porque essa interpretação confunde o que impulsa e constitui uma nação com o que meramente a consolida e conserva. uma herança de glórias e remorsos. no porvir. haver feito juntos grandes coisas. Sangue. a Inglaterra. a França. língua e passado comuns são princípios estáticos. a idéia nacional conserva não pouco lastro de adscrição ao passado. mas por isso mesmo é surpreendente notar como nela triunfa o puro princípio de unificação humana em torno a um incitante programa de vida. Parece-nos desejável um porvir no qual nossa nação continue existindo. a Alemanha. todo fazer.. não nosso ontem.

de querê-la. cuja perpetuação decide. para que pudessem dizer: somos uma nação. linguagem comum. Pelo visto era forçoso que essa existência comum fenecesse.como algo estranhos a eles. uma nação não está nunca feita. Entretanto. dando ao plebiscito um conteúdo retrospectivo. A nação está sempre ou fazendo-se ou desfazendo-se. como aconteceu tantas vezes. Renan anula ou quase seu acerto. e. Então ver-se-ia como delas têm vivido os europeus. Por que? Falta só uma coisa. por isso que não implicavam a adesão fundente dos grupos humanos sobre os quais se tentavam. interna nem definitiva. e antes de criá-la teve de sonhá-la. que se compõe destes dois ingredientes: primeiro. mas até em sua existência mais privada. os antepassados. Não se adverte aqui o vício gremial do filósofo. um projeto de convivência total numa empresa comum. no Estado nacional uma estrutura histórica de caráter plebiscitário. na medida de que houvesse ou não empresa à vista. Na realidade. enquanto aqui nasce o vigor estatal da coesão espontânea e profunda entre os "súditos". antes de possuir um passado comum. da nacionalidade . por isso que o Estado propriamente tal ficava sempre inscrito em uma limitação fatal . Borgonha). E até que tenha o projeto de si mesma para que a nação exista. As empresas estatais dos antigos. que se refere a uma nação já feita. eram praticamente limitadas. tem um valor transitório e cambiante. Nisto se diferencia de outros tipos de Estado. chamaremos a esse mesmo grupo de homens enquanto vivia em presente isso que visto hoje é um passado. a "pátria". não estava sujeita a outras condições senão à eficácia bélica e administrativa do conquistador. Um povo . que. Ou está ganhando adesões ou está perdendo-as. passasse. Com os povos do Centro e da América Meridional tem a Espanha um passado comum. de projetá-la. pelo visto. Por isso o mais instrutivo seria reconstruir a série de empresas unitivas que sucessivamente inflamaram os grupos humanos do Ocidente. representa o conteúdo. tudo isso serve de forças de consolidação.A rebelião das massas. ainda que não se alcance. Porque. segundo. o macedônio ou o romano .podia submeter à unidade de soberania quaisquer porções do planeta. A Espanha não soube inventar um programa de porvir coletivo que atraísse esses grupos zoologicamente afins. os súditos são já o Estado e não o podem sentir . ou a forma. Tudo que além disso pareça ser. Ela nos permite vislumbrar catodicamente o segredo essencial de uma nação. sua ótica profissional que lhe impede ver a realidade quando não é pretérita? O filólogo é quem necessita para ser filólogo que. Esta adesão de todos engendra a interna solidez que distingue o Estado nacional de todos os antigos. não só no público. Como a unidade não era autêntica. que estoura de luz. não forma com eles uma nação. Tertium non datur.tribo ou urbe -. como "treinaram" ou se desmoralizaram. Mas no Ocidente a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Esta é a ótica decisiva. teve de criar essa comunidade. antes de tudo. conforme seu Estado represente ou não no momento uma empresa vivaz. a adesão dos homens a esse projeto incitativo.htm (90 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . ainda que fracasse a execução. Vejo. O plebiscito futurista foi adverso à Espanha. nos quais a união se produz e mantém por pressão externa do Estado sobre os grupos díspares. e de nada valeram então os arquivos. raça comum.isto é o novo. Eu preferiria trocar-lhe o signo e fazê-lo valer para a nação in statu nascendi. Renan encontrou a palavra mágica. Falaríamos em tal caso de uma nação malograda (por exemplo. entretanto. pois. Quando há aquilo. mas a nação. mas tão somente (87). exista um passado. as memórias. é a essencial: o futuro comum. Outra coisa mostraria claramente esse estudo. o maravilhoso. do arquivista. ou a consolidação que em cada momento requer o plebiscito.o persa. em verdade.

Eis aqui madura a nova idéia nacional. de fechar-se em si mesmo dentro do Estado. a Hélade não foi nunca verdadeira idéia nacional. ao contrário. É o período em que o processo nacional toma um aspecto de exclusivismo. As guerras nacionalistas servem para nivelar as diferenças de técnica e de espírito. Pouco a pouco vai se destacando no horizonte a consciência de que estes povos inimigos pertencem ao mesmo círculo humano que o nosso Estado. o que a Europa foi para os "europeus" no século XIX.uma idéia nacional. Não obstante. Agora chega para os europeus a sazão em que a Europa pode converter-se em idéia nacional. o de Alexandre ou o de Augusto. Segundo momento. em todo caso. A efetiva correspondência histórica seria melhor esta: a Hélade foi para os gregos do século IV. E é muito menos utópico crer nisso hoje assim como o houvera sido vaticinar no século XI a unidade da Espanha e da França. Por muita realidade que se queira dar a essa idéia no século XI. Mas o fato é que enquanto se sente politicamente os outros como estranhos e concorrentes. convive-se econômica. que faz sentir o Estado como fusão de vários povos em uma unidade de convivência política e moral. tanto mais diretamente caminha para se depurar num gigantesco Estado continental. o que hoje denominamos nacionalismo. Sói afirmar-se que em tempo do Cid era já a Espanha Spania . file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A mera afinidade de ontem terá de esperar até amanhã para entrar em erupção de inspirações nacionais. mas porque a diversidade entre próximos é mais fácil de dominar. em suma.htm (91 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas esta noção geográfico-administrativa era pura recepção. Deveria estranhar mais o fato de que na Europa não tenha sido possível nenhum império do tamanho que alcançaram o persa. e esta unidade leon-castelã era a idéia nacional do tempo. numa diocese do Baixo Império. Um exemplo esclarecerá o que tento dizer. é quase certo que chegará sua hora. Mostra isto como as empresas de unidade nacional vão chegando à sua hora do modo como os sons em uma melodia. e que juntos formamos um círculo nacional ante outros grupos mais distantes e ainda mais estrangeiros. intelectual e moralmente com eles. Spania. Mas. E. O Estado nacional do Ocidente. Os inimigos habituais vão se fazendo historicamente homogêneos (88).A rebelião das massas. em que se sentem os outros povos além do novo Estado como estranhos e mais ou menos inimigos. começa a atuar sobre os grupos mais próximos geográfica. O Estado goza de plena consolidação. não íntima inspiração. No tempo do Cid estava se começando a urdir o Estado Leão-Castela. O processo criador de nações teve sempre na Europa este ritmo: Primeiro momento. Cresce a convicção de que são afins com o nosso em moral e interesses. Não porque esta proximidade funde a nação. Os "espanhóis" haviam se acostumado a ser reunidos por Roma numa unidade administrativa. unificação nacional teve de seguir uma série inexorável de etapas. por seu turno. reconhecer-se-á que não chega sequer ao vigor e precisão que já tem para os gregos do IV a idéia da Hélade. continuamos considerando-os como estranhos e hostis. Terceiro momento. e em modo algum aspiração. não obstante. A meu ver. e Spania para os "espanhóis" do XI e ainda do XIV. quanto mais fiel permaneça a sua autêntica substância. a idéia politicamente eficaz. era uma idéia principalmente erudita. isso é um erro crasso de perspectiva histórica. Isidoro falava da "mãe Espanha". Período de consolidação. uma de tantas idéias fecundas que deixou semeadas no Ocidente o Império romano. étnica e lingüisticamente. e para superfetação da tese acrescenta-se que séculos antes já S. O peculiar instinto ocidental. Então surge a nova empresa: unir-se aos povos que até então eram seus inimigos.

Mas tudo isso. pois. normas. França. e. em cem se comerciava com o inimigo. o deslocamento do poder que outrora exercia sobre o resto do mundo e sobre si mesmo nosso continente. sente. presunções -. Religião. recompõem-nas. maior que se as almas fossem de idêntico calibre. Veria que não lhe era possível viver só disso. mas do fundo comum europeu. trouxe ao mundo. é muito difícil que certo tipo de homem abandone a idéia de Estado uma vez que ela se lhe encasquetou. a idéia do Estado nacional que o europeu. que sem adverti-lo começam já a abstrair de sua belicosa pluralidade. o galo. que as quatro quintas partes de seu haver íntimo são bens jacentes europeus. apercebendo-se dela ou não. A alusão a Roma. desejos. pensa.opiniões. formam ligas contrapostas. E esta a unidade de paisagem em que se vai mover desde o Renascimento. Se hoje fizéssemos balanço de nosso conteúdo mental . são e serão tão diferentes como se queira. que entre outros sintomas se manifesta por uma desatorada rebelião das massas. Em cada nova geração.A rebelião das massas. ao homem antigo. enquanto se batalhava numa gleba. Agora se vai ver se os europeus são também filhos da mulher de Lot e se obstinam em fazer história com a cabeça virada para trás. e em obra de mera fantasia se extirpasse do homem médio francês tudo que usa. como "nacionais". Se se fizesse a experiência imaginária de se reduzir a viver puramente com o que somos. Hoje. a política. valores sociais e eróticos vão sendo comuns. A história destacou em primeiro termo as querelas e. o que nem na paz nem na guerra pode nunca fazer Roma com o celtibero. ciência. guerra como paz. direito. Itália. e tem sua origem na desmoralização da Europa. é conviver de igual para igual. desfazem-nas. em geral. Ora bem: essas são as coisas espirituais de que se vive. A soberania histórica acha-se em dispersão. diga-se deste modo: as almas francesas e inglesas e espanholas eram. não é a idéia erudita. notaríamos que a maior parte de tudo isso não vem para o francês de sua França. As causas desta última são muitas. IX Apenas as nações do Ocidente preenchem seu atual perfil surge em torno delas e sob elas. Sofre hoje o mundo uma grave desmoralização. etc. Dir-se-ia que aquele fragor de batalhas foi só uma tela atrás da qual tanto mais tenazmente trabalhava a pacífica polipeira da paz. Espanha. que é o terreno mais tardio para a espiga da unidade. pelejam entre si. vão adquirindo um conteúdo comum. A homogeneidade redunda. Não se vislumbra que outra coisa de monta possamos fazer os que existimos neste lado do planeta se não é realizar a promessa que há quatro séculos significa o vocábulo Europa. espanhol. arte. a Europa. filológica. A Europa não está certa de mandar. Resumo agora a tese deste ensaio. permutavam-se idéias e formas de arte e artigos da fé. como um fundo. sobretudo. Se se quer mais exatidão e mais cautela. que se lhe predicou. Inglaterra. Afortunadamente. nem para o espanhol de sua Espanha. entretecendo a vida das nações hostis. a homogeneidade das almas se acrescentava. em geral. em virtude de recepção dos outros países continentais. o britânico e o germano. e essa paisagem européia são elas mesmas. nem o resto do mundo de ser mandado. com efeito.htm (92 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Alemanha. a idéia de nação como passado. serviu-nos de admoestação. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas possuem um mesmo plano ou arquitetura psicológicos e. pesa muito mais em cada um de nós o que tem de europeu que sua porção diferencial de francês. Uma das principais. sentiria terror. Só se opõe a isso o prejuízo das velhas "nações". mas.

o mais profundo. E sempre .aconteceu assim. a mais extensa. envilecem-se. Tudo. Quem. no mau sentido da palavra. A atual é fruto de interregno. portanto. posto que não se sabe quem vai mandar. porque é um ar confinado. mais puramente dinâmica. Quando esta falta. Tudo isso irá com mais celeridade do que veio. Mas todos estes nacionalismos são becos sem saída. O derradeiro suspiro. de um vazio entre duas organizações do mundo histórico: a que foi. tanto mais frívolo.as fronteiras militares e as econômicas. que tipo étnico.. Este é o sentido da erupção "nacionalista" nos anos que correm. porque tudo isso é pura invenção. Já não são senão passado que se acumula em torno e debaixo do europeu. as fronteiras se hiperestesiam . que sistema de preferências. Em suma: tudo isso é vitalmente falso. transformou-se em província e "interior".. porque isto supõe um porvir claro. Tente-se projetá-los para o futuro e sentir-se-á o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A última chama. não é afã nem mister autêntico. Cada nação que antes era a grande atmosfera aberta. exige a permanência ativa desse plural que sempre foi a vida do Ocidente. Por isso é essencialmente provisória. não há mais vida autóctone que a que se compõe de cenas iniludíveis. Só há verdade na existência quando sentimos seus atos como irrevogavelmente necessários. a que vai ser. Enquanto o Estado antigo aniquilava o diferencial dos povos ou o deixava inativo fora ou em suma o conservava mumificado. Mas agora abre-se outra vez o horizonte para novas linhas incógnitas. menos exigido pelo destino. precisamente do princípio caduco. Dá-se o caso contraditório de um estilo de vida que cultiva a sinceridade e ao mesmo tempo é uma falsificação. de molas vitais. se ostenta. desde a "arte nova" até os banhos de sol nas ridículas praias da moda.repito . o que está em nossa mão pegar ou largar ou substituir. desde a mania do esporte físico (a mania. de normas. Não há hoje nenhum político que sinta a inevitabilidade de sua política. que povo ou grupo de povos. como era o do século XIX. Todo o mundo percebe a urgência de um novo princípio de vida. inequívoco. isto é. Os europeus não sabem viver se não se lançam numa grande empresa unitiva. prefixado.até no íntimo -. arejada. sem mais exceção que algumas partes de algumas ciências. Nada disso tem raízes. Já não há "plenitude dos tempos". que ideologia. tudo que hoje se faz em público e na vida privada . e por isso a vida do mundo entrega-se a uma escandalosa interinidade. Não há mais vida com raízes próprias. desconjunta-se-lhes a alma. se ensaia e se encomia. portanto. Os círculos que até agora se chamaram nações chegaram há um século ou pouco menos à sua máxima expansão. e quanto mais extremo é seu gesto. Na supernação européia que imaginamos. é provisional. afrouxam. Com mais liberdade vital que nunca sentimos todos que o ar é irrespirável dentro de cada povo. Já não se pode fazer nada com eles a não ser transcendê-los. Não se sabe para que centro de gravitação vão ponderar em um futuro próximo as coisas humanas. aprisionando-o. Acertará quem não se fie de quanto hoje se apregoa. E nem os homens sabem bem a que instituições de verdade servir. Não é criação do fundo substancial da vida. a idéia nacional. como se vai articular o poder sobre a terra. Um começo disto oferece-se hoje a nossos olhos. Mas . Então acreditava-se saber o que ia acontecer amanhã. A véspera de desaparecer. O resto. não o esporte em si) até a violência em política. lastrando-o. que a faz eqüivaler a capricho leviano.htm (93 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .A rebelião das massas. é precisamente falsificação da vida.alguns ensaiam salvar o momento por uma intensificação extremada e artificial.como sempre acontece em crises parelhas . Tudo. nem as mulheres que tipo de homens preferem realmente. a pluralidade atual não pode nem deve desaparecer.

e o nacionalismo não é mais que uma mania. Em época de consolidação tem. Não é isso o que imuniza a Europa para a fé russa. Os bourgeois do Ocidente sabem muito bem que. E não pelas razões triviais que seus apóstolos. um valor positivo e é uma alta norma. revelou-se como mais violento que todo o obreirismo junto. Porque agora sim pode derramar-se sobre a Europa o comunismo de roldão e vitorioso. ir-se-iam volatilizando todas as suas virtudes e capacidades superiores. pois. mas apesar dele. e hoje voltaram à tranqüilidade os temerosos de outrora. Eu não participei de semelhante prognóstico. ajunta-se outro muito concreto e iminente. Voltaram à tranqüilidade quando chega justamente a época para que a perdessem. que é um movimento petit bourgeois. Não por ele mesmo. Hoje parecem-nos bastante ridículos os arbitrários supostos em que há vinte anos fundava Sorel sua tática da violência. mas exuberante. a disciplinar-se. O fascismo. É exclusivista. Quando o comunismo triunfou na Rússia muitos acreditaram que todo o Ocidente ficaria inundado pela torrente vermelha. Qualquer que seja o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. porfiados. como sempre aconteceu no processo de nacionalização. A simplicidade de meios com que opera e a categoria dos homens que exalta revelam de sobra que é o contrário de uma criação histórica. O nacionalismo é sempre um impulso de direção oposta ao princípio nacionalizador. o pretexto que se oferece para iludir o dever de invenção e de grandes empresas.A rebelião das massas. casta que pôs todos os esforços e fervores de sua história na carta Individualidade. e atualmente está mais disposto à violência que os operários. Entretanto . nem é muito menos temor. choque. as classes conservadoras. Isto pode trazer para elas a catástrofe. O burguês não é covarde. não desenha um porvir desejável aos europeus. Não é. surdos e sem veracidade. mesmo sem comunismo. pois ao perigo genérico de que a Europa se desmoralize definitivamente e perca toda a sua energia histórica. como todos os apóstolos. Mas a situação é muito mais perigosa do que se pode apreciar. Vão passando os anos e corre-se o risco de que o europeu se habitue a este tom menor de existência que leva agora. Só a decisão de construir uma grande nação com o grupo dos povos continentais tornaria a dar tom à pulsação da Europa.htm (94 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o conteúdo do credo comunista à russa não interessa. O tempo correu. como ele cria. Por aí não se sai para lado nenhum. Voltaria ela a crer em si mesma. enquanto este é inclusivista. o homem que vive exclusivamente de suas rendas e que as transmite a seus filhos tem os dias contados. não atrai. Em tal caso. por sua vez. Minha presunção é a seguinte: agora. soem verbificar. Mas à unidade da Europa opõem-se. Pelo contrário: por aqueles anos escrevi que o comunismo russo era uma substância inassimilável para os europeus. acostume-se a não mandar nem se mandar. como antes. Ninguém ignora que se triunfou na Rússia o bolchevismo. Imagine-se que o "plano qüinqüenal" seguido herculeamente pelo Governo soviético conseguisse suas previsões e a enorme economia russa ficasse não só restaurada. Esta: que o europeu não vê na organização comunista um aumento da felicidade humana. mas uma razão muito mais simples e prévia. Mas na Europa tudo está de sobra consolidado. e automaticamente a exigir muito de si. parece-me muitíssimo possível que nos anos próximos a Europa se entusiasme pelo bolchevismo. nada disso o que impede ao europeu embalar-se comunisticamente.repito -. foi porque na Rússia não havia burgueses (89).

seu esplêndido caráter de magnífica empresa irradiará sobre o horizonte continental como uma ardente e nova constelação. entretanto. sem que ele mesmo suspeite por que sujeito de ilimitados direitos. ou melhor. A imputação não lhe causaria a menor impressão. decisivamente.como se fez neste ensaio . Não é que o homem-massa menospreze uma antiquada em benefício de outra emergente. O comunismo é uma "moral" extravagante . os velhos liberais. os "idealistas". do homem atual. Os técnicos da economia política garantem que essa vitória tem mui escassas probabilidades de sua parte. Eu vejo na construção da Europa. Se a matéria cósmica. se sinta arrastado por sua atitude moral. Nego rotundamente que exista em lugar algum do continente grupo algum informado por um novo ethos que tenha visos de u'a moral. etc. em ignorar toda obrigação e sentir-se. O imoralismo chegou a ser tão barato que qualquer um alardeia exercitá-lo. conteúdo do bolchevismo. mas que o centro de seu regime vital consiste precisamente na aspiração a viver sem sujeitar-se a moral alguma. a única empresa que poderia contrapor-se à vitória do "plano qüinqüenal". Quando se fala da "nova" não se faz senão cometer uma imoralidade mais e buscar o meio mais cômodo para passar contrabando. o lisonjearia. não se achará entre todos os que representam a época atual um só cuja atitude ante a vida não se reduza a crer que tem todos os direitos e nenhuma obrigação. Qualquer substância que caia sobre uma alma assim.A rebelião das massas. e já que não por sua substância. É indiferente que se mascare de reacionário ou de revolucionário: por ativa ou por passiva. frouxos os nervos por falta de disciplina. tão só que lhe deixe via um pouco franca. não faz fracassar gravemente a tentativa. Não parece mais decente e fecundo opor a essa moral eslava uma nova moral do Ocidente. Contanto que sirva a algo que dê um sentido à vida e fugir do próprio vazio existencial. como poderia evitar o efeito contaminador daquela empresa tão prócer? E não conhecer o europeu esperar que possa ouvir sem se acender essa chamada a novo fazer quando ele não tem outra bandeira de semelhante altaneria que desfraldar ovante. dará um mesmo resultado. indócil aos entusiasmos do homem. DESEMBOCA-SE NA VERDADEIRA QUESTÃO Esta é a questão: a Europa ficou sem moral. representa um ensaio gigantesco de empresa humana.todos os grupos que significam sobrevivências do passado . e se converterá em file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como grande Estado nacional.htm (95 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Nele os homens abraçaram resolutamente um destino de reforma e vivem tensos sob a alta disciplina que essa fé lhes injeta. ao cabo de umas ou outras voltas. Não acrediteis uma palavra quando ouvirdes os jovens falar da "nova moral". seu estado de ânimo consistirá. sem projeto de vida nova. Mas seria demasiado vil que o anticomunismo esperasse tudo das dificuldades materiais encontradas por seu adversário. O fracasso deste equivaleria à derrota universal: de todos e de tudo. a incitação de um novo programa de vida? XV. não é difícil que o europeu engula suas objeções ao comunismo.os cristãos. Por essa razão seria uma ingenuidade lançar em rosto ao homem de hoje sua falta de moral. Se deixamos de um lado .algo assim como uma moral -. -. persiste no ignóbil regime vegetativo destes anos. Se a Europa.

Importava fazer assim porque esse personagem não representa outra civilização que lute com a antiga. Como se pode acreditar na amoralidade da vida? Sem dúvida porque toda a cultura e a civilizacão moderna levam a esse convencimento. Mas a mesma coisa acontece se dá para ser revolucionário: seu aparente entusiasmo pelo operário manual. do Estado. velis nolis. Embora pareça mentira. Quanto às outras Didaturas. Neste ensaio desejou-se desenhar certo tipo de europeu. é uma coisa que não existe. já que pode demorar o cumprimento destas até as calendas gregas da madureza. Agora recolhe a Europa as penosas conseqüências de sua conduta espiritual. Em realidade. Da moral não é possível desentender-se simplesmente. Se você não quer submeter-se a nenhuma norma. a veracidade. sentimento de submissão a algo. O homem-massa está ainda vivendo precisamente do que nega e outros construíram ou acumularam. que os não jovens concediam aos moços. Essa esquivança a toda obrigação explica. Mas talvez é um erro dizer "simplesmente". file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Com um ou com outro aspira-se sempre ao mesmo: que o inferior. O homem-massa carece simplesmente de moral. de sujeitar-se à norma de negar toda moral. comicamente. de que se tenha feito em nossos dias uma plataforma da "juventude" como tal. O que com um vocábulo falto até de gramática se chama amoralidade. considerou-se isento de fazer ou haver feito façanhas. sobretudo se o próximo possui uma personalidade valiosa. que o homem vulgar possa sentir-se livre de toda sujeição. Embalou-se sem reservas pelo declive de uma cultura magnífica. mas uma simples negação. sobretudo. lhe serve de disfarce para poder desentender-se de toda obrigação . Por isso não convinha mesclar seu psicograma com a grande questão: que insuficiências radicais padece a cultura européia moderna? Porque é evidente que. e. consciência de serviço e obrigação. E uma moral negativa que conserva da outra a forma em oco. pateando quanto parecia eminência. pretexto para não se sujeitar a nada concreto. em última instância. Isto se acha na natureza do humano. negação que oculta um efetivo parasitismo. Por isso não cabe enobrecer a crise presente mostrando-a como o conflito entre duas morais ou civilizações. Se se apresenta como reacionário ou antiliberal. As pessoas. vivemos um tempo de chantagem universal que toma duas formas de esgar complementário: há a chantagem da violência e a chantagem do humorismo. delas provém esta forma humana agora dominante. tem.A rebelião das massas. Quiçá não ofereça nosso tempo traço mais grotesco. e isto não é amoral. Era como um falso direito. o fenômeno. dá direito a alhear todas as outras normas e a massacrar o próximo. não lhe façamos tão fácil a tarefa. como tal. bem vimos como afagam o homem-massa.como a cortesia. precisamente para atribuir-se todos os demais que pertencem só a quem tenha feito já alguma coisa. Sempre viveu de crédito. Sempre o jovem. Porque não se trata só de que este tipo de criatura se desentenda da moral. que é sempre. por essência. Não. será para poder afirmar que a salvação da pátria. o respeito ou estimação dos indivíduos superiores. entre ridículo e escandaloso. analisando sobretudo seu comportamento ante a civilização mesma em que nasceu. uma caduca e a outra em alvor.htm (96 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Eu sei de não poucos que ingressaram em um ou outro partido operário apenas para conquistar dentro de si mesmos o direito a desprezar a inteligência e poupar-se aos salamaleques diante dela. em parte. mas sem raízes. se declaram "jovens" porque ouviram que o jovem tem mais direitos que obrigações. Mas é estupefaciente que agora o tomem estes como um direito efetivo. entre irônico e terno. chegou a fazer-se da juventude uma chantagem. mas imoral. o miserável e a justiça social.

Muito menos que se comprazessem com tal precisão em ajustar-se ao papel determinadíssimo que. E preciso extirpar da história o psicologismo." É uma expressão que significa surpresa. exclamam: "Esta Inglaterra!. reduz o assunto file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O interessante seria precisar quais são os atributos surpreendentes. mas uma fabricação. mas ao corpo social. Não me refiro ao inglês individual. por inércia mental. que já foi afugentado de outros acontecimentos. que se inicia após um período de ensaios. O povo inglês é. ou. mas incompreensível. Durante os últimos tempos falharam tantas coisas que. com efeito. Enquanto se acredite que um povo possui um "caráter" prévio e que sua história é uma emanação deste caráter.A rebelião das massas. É uma empresa que dá bem ou mal. escrevi o Prólogo para franceses à primeira edição popular deste livro. O excepcional da Inglaterra não jaz no tipo de indivíduo humano que soube criar. reatar. usando um símil humorístico. se faz. a nação não nasce. Dizia-se que era um povo em decadência. Ainda menos tentar a explicação de como chegou a ser essa estranha coisa que é. Insisto em empregar esta palavra. Tudo isso sem uma gesticulação e muito além de todas as frases. e tem de voltar a começar. Mas essa grande questão tem de permanecer fora destas páginas. não haverá maneira nem sequer de iniciar a conversação. Talvez possa em breve ser exaltada. porque atrás dela está o verdadeiramente essencial e fértil. da vida inglesa nos últimos cem anos. pelo menos. eu assinalava com fé robusta a missão européia do povo inglês. O que então não imaginava é que tão rapidamente viessem os fatos confirmar meu prognóstico e a incorporar minha esperança. sobressalto e a consciência de ter a sua frente algo admirável.. E como a sociologia é uma das disciplinas sobre as quais as pessoas têm em todas as partes menos idéias claras.htm (97 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas mesmo aquele que estime o modo de ser dos homens ingleses acima de todos os demais. cinge-se ao vento e a guinada de seu leme modifica o destino do mundo. apesar do pedante que é. EPÍLOGO PARA INGLESES Daqui a pouco faz um ano que numa paisagem holandesa. a que tivera durante dois séculos e que em forma superlativa estava chamado a exercer hoje. se tende a duvidar de tudo. coçando a cabeça. O estranho. desde já. à ordem psicológica. Depois viria a tentativa de mostrar como adquiriu a Inglaterra essas qualidades sociológicas. quase tantas como de desfazê-las. Obrigaria a desenvolver com plenitude a doutrina sobre a vida humana que. por insólitos. à coletividade dos ingleses. Não obstante . No meio da mais atroz tormenta. O "caráter nacional". não seria possível. até da Inglaterra. dizer por que é estranha e por que é maravilhosa a Inglaterra. o fato mais estranho que há no planeta. como um contraponto. onde o destino me havia centrifugado. que "perde o fio" uma ou várias vezes.. atribuía eu a Inglaterra ante o Continente. como tudo que é humano. em seu interior. o navio inglês troca todas as suas velas. É evidente que há muitas maneiras de fazer história. fica entrelaçada. Em que pese esta vez à etimologia. sem muitas preparações. vira dois quadrantes. É sobremaneira discutível que o inglês individual valha mais que outras formas de individualidade aparecidas no Oriente e no Ocidente. Naquela data começava para a Inglaterra uma das etapas mais problemáticas de sua história e havia muito poucas pessoas na Europa que confiassem nas suas virtudes latentes. O caráter nacional vai se fazendo e desfazendo e refazendo na história. que se desenvolve. A manobra de saneamento histórico que tenta a Inglaterra.e ainda arrostando certos riscos de que não quero falar agora -. incluso das que acabo de proferir. porque é excessiva. que se corrige. murmurada nelas. pois. Há várias centúrias acontece periodicamente que os continentais acordam uma manhã e. insinuada. mas à ordem sociológica. é portentosa. o maravilhoso não pertence. não é um dom inato.

mas sim nos países . o mais estimável que há no mundo. Renunciou-se nelas a todo "brilho" e vão escritas em estilo bastante pickwickiano. Não há povo que. Isto me levou. Isto é uma força magnífica. Eu sustento. línguas feitas à força de palavreados infindáveis . Sob esta disciplina. Nisto sim é que se contrapõe a todos os demais povos e não é questão de mais ou de menos. ao qual atribuíam mágica potência. Tenha-se presente que a Inglaterra não é um povo de escritores mas de comerciantes. sobre seus defeitos e limitações. Por isso divinizaram o dizer. dando um espetáculo exagerado de seus mais congênitos defeitos. e em certa maneira. em palanque.tem se deixado circular a intriga. uma plasticidade e um garbo incomparáveis. compreender-se-á até que ponto hei sofrido de quanto na Inglaterra. Talvez. O que mais me surpreendeu é a decidida vontade de não tomar conhecimento das coisas que há na opinião pública desses países. Dirigidas a ingleses. no tempo próximo. Quando chegamos a esse povo. e importa sobremaneira à espécie humana que se conserve intacto esse tesouro e essa energia de taciturnidade. os ouvimos emitir a série de leves miados displicentes em que consiste seu idioma. que o excepcional. Mas.. O aticismo havia triunfado sobre o laconismo. a meu juízo. postos atrás de seus cachimbos. ao contrário. consolidadas. a uma questão de mais ou de menos.não em seus governos. ao mesmo tempo. A Grécia.falar sem parecer que dela falava nas páginas intituladas "Quanto ao pacifismo. como as de um homem. ou de ouvi-la depois de deformá-la. para silenciar. O inglês não veio ao mundo para dizer. E por este lado talvez são os ingleses. na França. dificultam enormemente a inteligência com outros povos. aproximando-nos destes esplêndidos ingleses. por minha vez. No anglo-saxão . a frivolidade.já a suspicácia do público inglês não tolerava outra coisa .htm (98 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . de uma sonoridade. composto de cautelas e eufemismos. dando ao vento em formas claras e eufônicas a mais arcana intimidade. no moral como no físico. acrescentadas a seguir. Escutaram-se em sério as maiores imbecilidades com tanto que fossem indígenas. taberna e tertúlia.em ágora e praça. ainda convencido de que forçava um pouco a conjuntura. que a originalidade extrema do povo inglês radica em sua maneira de tomar o lado social ou coletivo da vida humana. o leitor não esquecerá o destinatário. o logos. velam os ingleses alerta sobre seus próprios segredos para que não escape nenhum. tem sido alguma atitude de graça generosa. não seja insuportável. esganiçar-se. Com faces impassíveis. e a retórica acabou sendo para a civilização antiga o que tem sido a física para nós nestes últimos séculos.A rebelião das massas. Respeito semelhante à Inglaterra não nos exime da irritação ante seus defeitos. O nervosismo dos últimos meses fez que quase todas as nações tivessem vivido encarapitadas em suas fronteiras. mas. O homem do Sul propende a ser gárrulo. representam um esforço de acomodação a seus usos. mas deliciosas. a respeito da Espanha. o prejuízo arcaico e a hipocrisia nova sem lhes pôr um limite. a dureza de cabeça. quer dizer. tem havido a radical decisão de não querer ouvir nenhuma voz espanhola capaz de esclarecer as coisas. que é. e. Se é benévolo. de insinuar e ainda mais de iludir. em grau especial. o primeiro que vemos são as suas fronteiras. no modo como sabe ser uma sociedade. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.. se me ofereça oportunidade para fazer ver tudo que quero dizer com isto. os povos românicos forjaram línguas complicadas. sobretudo com os nossos. vão elevadas. vício e falha. entorpecimento. e para o ateniense viver era falar. e o que mais falta tenho sentido. entrementes. que nos educou. Se se ajunta a isso que um dos principais temas de disputa tem sido a Espanha. de engenheiros e de homens piedosos. exasperantes. são seus limites. na América do Norte representa atonia. E é que as virtudes de um povo. olhado desde outro. a aproveitar o primeiro pretexto para falar sobre a Espanha e . dizer. que. Soube por isso forjar uma língua e uma elocução em que se trata principalmente de não dizer o que se diz. soltou nossas línguas e nos fez indiscretos a nativitate. ". Daí que nos sintamos sôfregos quando.

que a ele lhe parece a exemplar desocupação de "tomar sol" a que o castiço espanhol sói dedicar-se conscientemente. mas se misturam a toda hora sua doméstica existência. Porventura tenha contribuído para que adote esta resolução a consciência da responsabilidade contraída. povos que convivem desde sua infância. e as páginas que seguem não fazem outra coisa senão tomá-lo pelo lado mais urgente. Seu gênio político permitiu-lhe nestes meses corrigir com um esforço incrível de self-control o mais extremo do mal. jamais se haviam produzido até os últimos cinqüenta anos. por exemplo. O romanticismo que lhe sucedeu não é senão sua exaltação.quer dizer. Sobretudo isto se raciocina tranqüilamente nas páginas imediatas. sutilíssima e de alto alcance nessa ocupação .A rebelião das massas. porventura. pelo contrário. enfim. Devo advertir ao leitor que todas as notas foram acrescentadas agora e suas alusões cronológicas hão de ser referidas ao corrente mês. onde as famílias não vivem nunca separadas. Nutre-se não da exclusão das diferenças nacionais. que o unicamente civilizado é vestir umas bombachas e dar pancadas numa bolinha com uma vara. e no uso mais exótico e incompreensível suspeitava mistérios de grande sabedoria. de muito peso. Ele crê. O fato é estupefaciente. Porque a Europa foi sempre como uma casa da vizinhança. Como puderam chegar a não se entender tão radicalmente? A gênese de tão feia situação é longa e complexa. a que talvez pode concretizar-se mais é o desarmamento da Inglaterra. o escândalo que provocava era prova de que o homem normal de então não via.é o oposto do atual "internacionalismo". advirta-se que o uso de se converterem uns povos em juizes dos outros. Este foi o sentido do cosmopolitismo que coagula no seu último terço. E o caso é que . Herder. 1938. mas. De todas as causas que geraram as presentes desgraças do mundo. O romântico enamorava-se dos outros povos precisamente porque eram outros. sem excessiva presunção.em princípio . Busca a pluralidade de formas vitais com vistas não à sua anulação. Pelo contrário: é o século das viagens cheias de curiosidade amável e prazenteira pela divergência do próximo. tão parco em erros históricos graves.htm (99 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O assunto é. Para enunciar só um dos mil fios que naquele fato se atam. operação que habitualmente se dignifica denominando-a de "golf". se não erro. Esse mútuo desconhecimento tornou possível que o povo inglês. indubitável que o inglês de hoje. Goethe . não obstante sua petulância e sua escassa ductilidade intelectual. Ao enciclopedista francês do século XVIII. nas diferenças de poderio diferença de nível humano. Quando alguém o fazia. abril. Lema dele foram estas palavras de Goethe: "Só todos os homens vivem o humano". de se desprezar e injuriar porque são diferentes. É. hermetizado pela consciência de seu poder político. Estes povos que agora se ignoram tão gravemente brincaram juntos quando eram crianças nos corredores da grande mansão comum. mas com o entranhável desejo de colaborar na reconstituição da Europa. não se lhe ocorria desdenhar um povo "inculto" e depauperado como a Espanha. de entusiasmo por elas. pois. como um parvenu. mas à sua integração.tinha razão. Paris. de se permitirem crer as nações hoje poderosas que o estilo ou o "caráter" de um povo menor é absurdo porque é bélica ou economicamente débil. O tema do ensaio que segue é a incompreensão mútua em que caíram os povos do Ocidente . apesar de supor-se dono da verdade absoluta. cometesse o gigantesco de seu pacifismo. O cosmopolitismo de Fergusson. são fenômenos que. não é muito capaz de ver o que há de cultura refinada.

Mas esquece que. se converte magicamente em uma nova vitória para o homem. Esta subestima lhes inspirou um diagnóstico falso. o desânimo. entretanto. um crime ou um vício. que foi a disciplina militar. a realidade atual facilita desgraçadamente o assunto. Mas os pacifistas começam a discrepar quando dão o passo imediato e interrogam-se até que ponto é em absoluto possível o desaparecimento das guerras. Enfim: a divergência torna-se superlativa quando se põem a pensar nos meios que exige uma instauração de paz sobre este pugnacíssimo globo terráqueo. tão rotundo. QUANTO AO PACIFISMO Há vinte anos (90) a Inglaterra . Pelo contrário. Há. Mas eu prefiro agora adaptar-me quanto possa ao ponto de vista inglês. e vou supor que sua aspiração à paz do mundo era uma excelente aspiração. O pacifista vê na guerra um dano. que alguém teria direito a revisar rapidamente a questão e a se perguntar se não é um erro todo pacifismo. mas um invento. como a ciência e a administração. Não há nunca razão suficiente nem para um nem para o outro. Mas é evidente que não me corresponde agora nem aqui fazer um estudo no qual ficaria definido com certa precisão o peculiar pacifismo em que a Inglaterra . Eu suponho que os ingleses se dispõem já.embarcou há vinte anos.embarcaram no pacifismo.seu Governo e sua opinião pública . Como quase sempre acontece. Ela levou a um dos maiores descobrimentos. antes disso e acima disso.A rebelião das massas. Baste advertir o estranho mistério da condição humana consistente em que uma situação tão negativa e de derrota. a retificar o enorme erro que durante vinte anos tem sido seu peculiar pacifismo e a substituí-lo por outro pacifismo mais perspicaz. serenamente. Ao dizer isto não sugiro nada que possa levar ao desânimo.seu Governo e sua opinião pública . como é haver cometido um erro. Os animais a desconhecem e é de pura instituição humana. Por que desanimar? Talvez as duas únicas coisas a que o homem não tem direito são a petulância e seu oposto. Todas as demais formas de disciplina procedem da primigênia. na apreciação das possibilidades de paz que o mundo atual oferecia e na determinação da conduta que há de seguir quem pretenda ser. Em vez de chorar sobre ele convém apressar-se a explorá-lo. a descobrir sem piedade suas raízes e a construir energicamente a nova concepção das coisas que isto nos proporciona. Talvez fosse muito mais útil do que se imagina um estudo completo sobre as diversas formas do pacifismo. mas decididamente. a saber. Dele emergiria não escassa claridade. pacifista.tem sido subestimar o inimigo. O reconhecimento de um erro é por si mesmo uma nova verdade é como uma luz que dentro deste se acende. o defeito maior do pacifismo inglês . A única que entre elas existe de comum é uma coisa muito vaga: a crença em que a guerra é um mal e a aspiração a eliminá-la como meio de trato entre os homens. Cometemos o erro de designar com este único nome atitudes mui diferentes. a guerra é um enorme esforço que os homens fazem para resolver certos conflitos. tão diferentes que na prática vêem a ser com freqüência antagônicas. O fracasso foi tão grande. de verdade. É um fato demasiado notório que esse pacifismo inglês fracassou. apenas reconhecendo-o. Isso quer dizer que esse pacifismo foi um erro. dos que se apresentam como titulares do pacifismo .e. em geral. O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Para isso é preciso que nos resolvamos a estudá-lo a fundo. muitas formas de pacifismo. todo erro é uma propriedade que acresce nosso haver. A guerra não é um instinto. Por outra parte. Mas isso sublinha tanto mais quanto houve de erro no resto. base de toda civilização: ao descobrimento da disciplina. Contra o que acreditem os jeremias.htm (100 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . com efeito.

Augusto Comte. o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. que tinha um grande sentido humano. requerem a venturosa intervenção do gênio. um fazer que se assemelha tanto a um puro omitir? Essa crença é incompreensível se não se adverte o erro de diagnóstico que lhe serve de base. pronta para que o homem a goze. costumamos. pois. mui finamente. tentou fazer. pelo contrário. como a Inglaterra. de ser um gratuito e cômodo desejo. que com isso se havia dado o mais breve passo eficiente no sentido da paz? Grande erro! A guerra. Se se atende a tudo isso. Por isso. quando aspiramos a superá-la. e que. de construí-lo. só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior. também a paz é uma coisa que importa fazer. em parte. por sua parte. conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor. a vontade de paz o que importa ultimamente no pacifismo. que é elementar. maldizer da escravidão. o belicismo ficará asfixiado. Não se espere nesta ordem nada fértil enquanto o pacifismo. Pelo contrário. portanto. a vontade pacífica de todos os homens seriam completamente ineficazes. então.Adeona e Abeona. É preciso que este vocábulo deixe de significar uma boa intenção e represente um sistema de novos meios de trato entre os homens. seu horror. a saber: a idéia de que a guerra procede simplesmente das paixões dos homens. A paz não "está aí". encarregaram duas divindades de consagrar esses dois instantes . não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano. o deus do chegar e o deus de ir. a saber: o aspecto que têm ao chegar e o aspecto que têm ao ir. aprendendo a olhar todas as coisas humanas sob essa dupla perspectiva. era um meio que haviam inventado os homens para solucionar certos conflitos. A renúncia à guerra não suprime estes conflitos. sua insuficiência. O outro é puro erro. Os romanos. Do mesmo modo. sem mais reflexão. Para ver com clareza a questão façamos o que fazia lord Kelvin para resolver seus problemas de física: construamos um modelo imaginário.A rebelião das massas. tem a guerra dois aspectos: o da hora de sua invenção e o da hora de sua superação.libertando-se das tolices que Rousseau disse sobre ela . sua rusticidade. repitamos. Na hora de sua invenção significou um progresso incalculável.htm (101 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que há que fabricar. simplesmente. Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou. Acredita-se que basta isso. deixa-os mais intactos e menos resolvidos que nunca. Como toda forma histórica. Nada importante é apresentado ao homem. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. vemos dela apenas a suja espádua. creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. a guerra reapareceria inexoravelmente nesse imaginário planeta habitado só por pacifistas. ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz. quer dizer. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida. em suma. trabalhar em que não se fizesse.e a nós nos corresponde generalizar sua advertência. viu já deste modo a instituição da escravidão . Por desconhecer tudo isso. que em certo momento todos os homens renunciassem à guerra. Imaginemos. em vez de matar os prisioneiros. Não é. enquanto não se inventasse outro meio. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse. um sistema de esforços complicadíssimos. mais ainda. Hoje. e que se se reprime o apaixonamento. o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou. histórico. não passe a ser um difícil conjunto de novas técnicas. e. porque os conflitos reclamariam solução. Mas o enorme esforço que é a guerra. não parecerá surpreendente a crença em que esteve a Inglaterra de que o mais que podia fazer a favor da paz era desarmar. pondo na faina todas as potências humanas. tem ele de fazê-lo. A ausência de paixões.

de imoral. 3o. não importa que não haja juizes.. especialmente inspirados. O enorme dano que aquele pacifismo trouxe à causa da paz consistiu em não deixar-nos ver a carência das técnicas mais elementais. de direito. entende-se. a propaganda e expansão dessas idéias de direito sobre a coletividade em questão (em nosso caso. Então. como puro teorema incubado na mente de algum pensador. Para que o direito ou um ramo dele exista é preciso: 1o. no essencial. de norma vigente. por exemplo.. maltratadas ou em ruínas. para novas tarefas construtivas e salutíferas. simplesmente porque a desejamos. pelo menos. a coletividade que formam os povos europeus e americanos. O direito que administram é. Não desestimo. de órgãos de arbitragem entre Estados. Só é moral o desejo que é acompanhado da severa vontade de aprontar os meios de sua execução. para só nos referirmos aos dois maiores e mais recentes cadáveres. E não só não existe no sentido de que não haja alcançado ainda "vigência". que essa expansão chegue de tal modo a ser predominante. Porque é imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente. como não existe nem sequer como idéia. de maneira nenhuma. que estava aí à disposição dos homens e que só as paixões destes e seus instintos de violência induziam a ignorá-lo. A proliferação de tribunais internacionais. contribui a ocultar-nos a indigência de verdadeiro direito internacional que padecemos. com um vago nome. Sempre é importante para o progresso de uma função moral que apareça materializada em um órgão especial claramente visível. Com efeito: se se passa revista às matérias julgadas por esses tribunais. quer dizer. semelhante pretensão. que aquelas idéias de direito se consolidem em forma de "opinião pública". que os últimos cinqüenta anos presenciaram. Se aquelas idéias senhoreiam de verdade as almas. E esta é a verdadeira substância do direito. a importância dessas magistraturas. cujo exercício concreto e preciso constitui isso que. o que concretamente foi e significou esta instituição na hora de seu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. adverte-se que são as mesmas resolvidas de há muito pela diplomacia. É preciso que não se volte a cometer um erro como foi a criação da Sociedade das Nações. chamamos de paz. descubram certas idéias ou princípios de direito. Mas a importância desses tribunais internacionais tem se reduzido a isso até hoje. não havendo nem em teoria um direito dos povos. Mas é indispensável para contribuir um pouco a despertar o interesse para novas grandes empresas. isto é.A rebelião das massas. Repugna-me atrair a atenção do leitor sobre coisas falidas.htm (102 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Pois bem: um direito referente às matérias que originam inevitavelmente as guerras não existe. A paz. atuarão inevitavelmente como instâncias para a conduta às quais se pode recorrer.. é o direito como forma de trato entre os povos. Não sabemos quais são os "direitos subjetivos" das nações e não temos nem indícios de como seria o "direito objetivo" que possa regular seus movimentos. pretende-se que desapareçam as guerras entre eles? Permita-se-me que qualifique de frívola. incluindo os domínios ingleses da Oceania). o mesmo que já existia antes de seu estabelecimento. Ora bem: isto é gravemente oposto à verdade. que alguns homens. podemos falar. na plenitude do termo. 2o. e só então. Nem era lícito esperar maior fertilidade nesta ordem. Pois bem: o pacifismo usual dava como suposto que esse direito existia. que não se tenha consolidado como norma firme na "opinião pública". E não havendo nada disso. Não importa que não haja legislador. de uma etapa que se iniciou com o Tratado de Versalhes e com a instituição da Sociedade das Nações. Não significam progresso algum importante no que é essencial: na criação de um direito para a peculiar realidade que são as nações.

sem espanto. Quais são. Mas é o caso que as coisas humanas não são res stantes. o sistema de idéias filosóficas. sequer teoricamente. que se converte em uma camisa de força. e entre os povos estalam as guerras. recentemente -. os quais. Foi um erro que reclama o atributo de profundo. Sem dúvida. como os habituais na difícil faina que é a política.A rebelião das massas. quer dizer. de uma física de quatro dimensões e de uma mecânica do descontínuo. É talvez uma das causas profundas do atual desconcerto seja que há duas gerações os políticos se declararam independentes e cancelaram essa colaboração. Dentro do povo produzem-se as revoluções. mas pelo contrário. E não se diga que é coisa fácil proclamar isto agora. e não o profeta. como já nos ensina a Bíblia: "Por que tomastes o direito file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pertencia ao passado. e não debalde seu órgão principal se chama Estado. É difícil. e longe de antecipar o futuro era já arcaico. Não foi um erro qualquer. Todas as grandes épocas da história nasceram da sutil colaboração entre esses dois tipos de homem. sociológicas e jurídicas de que emanaram seu projeto e sua figura estava já historicamente morto naquela data.o direito .de certa radical limitação que sempre padeceu.dizia eu. Uma vez mais aconteceu o que é quase normal na história. os direitos de um povo que ontem tinha vinte milhões de homens e hoje tem quarenta ou oitenta? Quem tem direito ao espaço não habitado do mundo? Estes exemplos. o problema do novo direito internacional pertence ao mesmo estilo que esses recentes progressos doutrinais. a esta altura da história e da civilização. com a qual coincide. Também aqui se trataria de libertar uma atividade humana . Sua vacuidade de justiça encheu-se fraudulentamente com a sempiterna diplomacia. e diga-se a si mesmo se encontra em sua mente uma possível norma jurídica que permita. uma vez mais. coisas históricas. enfrentar aquela empresa e resolver-se a acometê-la. também os políticos não fizeram caso desses homens.htm (103 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . esse estranho aspecto patológico que tem a história e que a faz parecer como uma luta sempiterna entre os paralíticos e os epilépticos. pode. navegue o mundo mais à deriva que nunca. Mercê disso produziu-se o vergonhoso fenômeno de que. Foi um erro histórico. pelos temas de que habitualmente se ocupam. O direito tradicional é só regulamento para uma realidade paralítica. Talvez as catástrofes presentes abram de novo os olhos dos políticos para o fato evidente de que há homens. por exemplo. Mas uma camisa de força posta num homem são tem a virtude de torná-lo louco furioso. ou por possuir almas sensíveis como finos registradores sísmicos. nascimento. E como a realidade histórica muda periodicamente de modo radical. Sempre será este quem deva governar. com a estabilidade do direito. sem profecia. exatamente tão difícil como a paz. mutação perpétua. Daí . que ao disfarçar-se de direito contribuiu à universal desmoralização. é estático. mas importa muito aos destinos humanos que o político ouça sempre o que o profeta grita ou insinua. com efeito. choca. Mas uma época que assistiu ao invento das geometrias não-euclidianas. Mas. históricas. Se fosse fácil existiria há muito tempo. Houve homens na Europa que já então denunciaram seu inevitável fracasso. entregue a uma cega mecânica. Cada vez é menos possível uma sã política sem larga antecipação histórica. Evito precisar a que grêmio pertenciam os profetas. sem remédio. O direito. O bem que pretende ser o direito se converte em um mal. os mais toscos e elementais que podem ser apontados. põem bem à vista o caráter ilusório de todo pacifismo que não comece por ser uma nova técnica jurídica. Baste dizer que na fauna humana representam a espécie mais oposta ao político. o direito que aqui se postula é uma invenção muito difícil. recebem antes que os demais a visita do porvir (91). Em certo modo. puro movimento. O homem não conseguiu ainda elaborar uma forma de justiça que não esteja circunscrita na cláusula rebus sic stantibus. O "espírito" que propeliu para aquela criação. resolvê-lo. A Sociedade das Nações foi um gigantesco aparelho jurídico criado para um direito inexistente. Formule-se o leitor qualquer dos grandes conflitos que há atualmente estabelecidos entre as nações. a saber: que foi predita.

A capacidade para descobrir a nova técnica de justiça que aqui se postula está pré-formada em toda a tradição jurídica da Inglaterra mais intensamente que na de nenhum outro país." Seria um erro não ver nestas duas fórmulas senão emanações do oportunismo político. e se se lhe atribui uma margem. Longe disso. E isso não certamente por casualidade. a constituição do Império britânico parece-se muito ao "molusco de referência" de que falou Einstein. é possível que se abram diante de nós as mais férteis perspectivas. chega a sua máxima potência. substituir o que não parece ser senão "coisa" jacente. Por exemplo: quase todas as constituições contemporâneas procuram ser "abertas". embora estas se apresentem com a pretensão de ser essencialmente vagas. esta incongruência entre a estabilidade da justiça e a mobilidade da realidade. o formulado por Balfour em 1926 com suas famosas palavras: Nas questões do Império é preciso evitar o refining. regulem satisfatoriamente essas mudanças do poderio. capaz de acompanhar a história em sua metamorfose. as tomamos como realidades positivas. está proibido: definir as coisas. discussing or defining. A demanda não é exorbitante. em fel e o fruto da justiça em absinto?" (Oseas. a meu juízo. Se em vez de entender estes dois caracteres como meras ilusões e como insuficiências de um direito. uma idéia de que a princípio se julgou inteligível e que é hoje base da nova mecânica. enunciado por sir Austin Chamberlain em seu histórico discurso de 12 de setembro de 1925: "Vejam-se as relações entre as diferentes seções do Império britânico. O homem necessita um direito dinâmico. a mudança na divisão do poder sobre a terra. O outro. quieta e fixa por forças. Porque a elasticidade é a condição que permite a um direito ser plástico. a unidade do Império britânica não está feita sobre uma constituição lógica. o fracasso da Sociedade das Nações. parecerá evidente que a injúria máxima seja o statu quo. Dir-me-ão que isto é impossível.A rebelião das massas. Há mais de setenta anos. um direito plástico e em movimento. a história é. isto é. O que não fazem é defini-la. não é mais nem menos difícil definir o triângulo que a névoa. pois. Mas. 6. Embora o expediente seja um pouco ingênuo. nem utópica. e especialmente ao inglês. é que se prevê seu movimento. Não está sequer baseada numa Constituição. Importaria muito reduzir a conceitos claros essa situação efetiva de direito que consiste em puras "margens" e simples "elasticidades". no qual adquire sua expressão mais extrema e depurada o que talvez é o destino intelectual do Ocidente. Porque se a realidade histórica é isso ante tudo. o mais fértil seria analisar a fundo e tentar definir com precisão -. a saber: interpretar tudo que é inerte e material como puro dinamismo. ao menos em teoria. que o pacifista quer submeter àquela. tanto civil como político. expressam mui adequadamente a formidável realidade que é a British Commonwealth of Nations e a designam precisamente sob seu aspecto jurídico. porque um político não veio ao mundo para isso. o princípio "da margem e da elasticidade". e se o político é inglês sente que definir algo é quase cometer uma traição. todo pacifismo é pena de amor perdida. Em princípio. Não estranhe. movimentos e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o direito. A maneira inglesa de ver o direito não é senão um caso particular do estilo geral que caracteriza o pensamento britânico. Porque queremos conservar a toda coisa uma margem e uma elasticidade. nem sequer nova. antes de tudo.o fenômeno jurídico mais avançado que se produziu até hoje no planeta: a British Commonwealth of Nations. gigantesco aparelho construído para administrar o statu quo. E enquanto não existam princípios de justiça que. porque nele se declara a aspiração a um direito semovente. Considerada no que ao direito importa. evolui neste sentido. Provavelmente. convém recordá-lo.htm (104 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas é evidente que há outros homens cuja missão é fazer o que ao político. No direito internacional. extrair a teoria que nele jaz muda . 12). porque precisamente esse estranho fenômeno jurídico foi forjado mediante estes dois princípios: um.

Turva a evidência disto a confusão habitual que padecemos ao crer que toda autêntica sociedade tem forçosamente de possuir um Estado autêntico. Outra coisa são puras fantasmagorias. tal como o uso e o costume. mas em construir a outra forma de convivência humana que é a paz. de passagem e avoadamente. as questões mais intrincadas da filosofia do direito e da sociologia. Isto significa a invenção e exercício de toda uma série de novas técnicas. Suponho que cem vezes se terá feito constar e terá sido demonstrado com suficiente pormenor. Mas isso tudo tem o ar de um calembour (92). mas mais enérgico. formam parte dele os bíceps dos gendarmes ou seus sucedâneos. No vazio social não há nem nasce direito. quer dizer. o próprio nome de direito internacional estorva uma clara visão do que seria em sua plena realidade um direito das nações. Esta autêntica sociedade e não associação só se parece à outra no nome. parecerá. portanto. Quando falamos das nações tendemos a representá-las como sociedades separadas e fechadas em si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.htm (105 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . uma associação. num vazio social. Mas a idéia de um novo direito não é ainda um direito. manifeste meu desideratum de ler um livro cujo tema seja este: o newtonismo inglês. funções. mas num estádio muito avançado de sua evolução. Não esqueçamos que o direito se compõe de muitas coisas mais que uma idéia: por exemplo. mas o pacifismo não consiste nisso. e mediante um pacto criariam uma sociedade nova. em todas as ordens da vida. constituído por uma linha simples e clara. atrevo-me a insinuar que caminha seguro quem exija. Permita-se-me apenas que. Este requer como substrato uma unidade de convivência humana. a imaginar um direito que acontece entre elas. A tal ponto é assim. fora da física. que não é obra de nenhum pacto. quando alguém lhe fale de um fato jurídico. Essa área onde a sociedade ajustada surge é outra sociedade preexistente. Se resumo agora meu raciocínio. em todas as demais ordens da vida. Nesse vazio social as nações se reuniriam. mas é necessário enunciar ante leitores ingleses que o direito existe sem o Estado e sua atividade estatutária. Porque o direito nos pareceria ser um fenômeno que acontece dentro das sociedades. A primeira delas é uma nova técnica jurídica que comece por descobrir princípios de eqüidade referentes às mudanças da divisão do poder sobre a terra. que lhe indique a sociedade portadora desse direito e prévia a ele. À técnica do puro pensamento jurídico devem acompanhar muitas outras técnicas ainda mais complicadas. a Sociedade das Nações. que não existe sintoma mais seguro para descobrir a existência de uma autêntica sociedade que a existência de um fato jurídico.A rebelião das massas. Talvez o Estado proporciona ao direito certas perfeições. que seria. e o chamado "internacional" nos convida. Mas é bem claro que o aparelho estatal não se produz dentro de uma sociedade. Mas uma associação não pode existir como realidade jurídica se não surge sobre uma área onde previamente tem vigência certo direito civil. Desgraçadamente. newtoniana. Daí o calembour. pelo contrário. Sem que eu pretenda resolver agora com atitude dogmática. A Inglaterra tem sido. isto é. dos quais o direito é irmão menor. creio eu. mas é o resultado de uma convivência inveterada. Mas não creio que seja necessário deter-me neste ponto. Uma sociedade constituída mediante um pacto só é sociedade no sentido que este vocábulo tem para o direito civil. como empedernido leitor. Está bem que o homem pacífico se ocupe diretamente em evitar esta ou aquela guerra. por mágica virtude dos vocábulos.

a convivência ou trato dos ingleses entre si é muito mais intensa que. Esta metáfora de jogador de bilhar deveria desesperar ao bom pacifista. Diga-se. e que estas nasceram e se desenvolveram no regaço maternal daquela. viver em sociedade ou formar parte de uma sociedade. porque. Esta sociedade geral possui um grau ou índice de socialização menos elevado que o alcançado desde o século XVI pelas sociedades particulares chamadas nações européias.usos intelectuais ou "opinião pública".as nações . sem fronteiras absolutas nem descontinuidades. que a Europa é uma sociedade mais tênue que a Inglaterra ou que a França. com efeito. mercê ao qual pensamos as realidades morais. como o bilhar. Segundo isto. Como os fenômenos corporais são o idioma e o hieróglifo. mas precisamente este esforço de resistência demonstra melhor que nada a realidade coactiva do uso. foi a convivência ocidental.htm (106 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O que costumamos chamar assim não é mais do que um estado de guerra mínima ou latente. Sem dúvida. Mas é evidente que existe uma convivência geral dos europeus entre si. dentro da qual se produziram grumos ou núcleos de condensação mais intensa. O caráter geral do uso consiste em ser uma norma do comportamento . por sua conta e risco.a Europa -. tão somente. por exemplo. que a Europa é uma sociedade. porque as únicas possibilidades de paz que existem dependem de que exista ou não efetivamente uma sociedade européia. essa convivência (94). Esta figura corresponde muito mais aproximadamente que a outra ao que. que são os usos . Corrijamo-la. portanto. mesmas. O indivíduo poderá. e. Mas não pode haver convivência duradoura e estável sem que se produza automaticamente o fenômeno social por excelência. Por esta razão censuro essa figura da Europa em que esta aparece constituída por uma multidão de esferas .convicções comuns e tábuas de valores . Convivência implica só relações entre indivíduos. Pois bem: uma sociedade é um conjunto de indivíduos que mutuamente se sabem submetidos à vigência de certas opiniões e avaliações. queiram ou não queiram. Em vez de nos afigurarmos as nações européias como uma série de sociedades livres. Os ingleses podem ver isto com alguma clareza no livro do Dawson: The Making of Europe. A coisa importa superlativamente. A Europa tem sido sempre um âmbito social unitário. não significa sociedade. a qual atua como uma última instância a que se pode recorrer em casos de conflito.dotadas dessa força coactiva tão estranha em que consiste "o social". usos que dirigem a conduta ou "moral". porque jamais faltou esse fundo ou tesouro de "vigências coletivas" . podem os pacíficos despedir-se rapidamente de suas esperanças (93). pois. A convivência. após a morte do período romano. resistir ao uso. não nos promete mais eventualidade que a "carambola".A rebelião das massas. a convivência entre os homens da Inglaterra e os homens da Alemanha ou da França. mas não se ignore seu efetivo caráter de sociedade. pois. velha de muitos séculos e que tem uma história própria como possa tê-la cada nação particular. mas de dar expressão gráfica ao que realmente foi desde a sua iniciação. Introduction to the History of European Society. imaginemos uma sociedade única . usos de técnica vital ou "costumes". sentimental ou físico que se impõe aos indivíduos.intelectual. não é preciso dizer o dano que engendra uma errônea imagem visual convertida em hábito de nossa mente. o que chamaremos sua "vigência". Se a Europa é só uma pluralidade de nações. Não se trata com isso de desenhar um ideal. Mas isto é uma abstração que deixa de fora o mais importante da realidade. Não seria nada exagerado dizer que a sociedade européia existe antes que as nações européias. Entre sociedades independentes não pode existir verdadeira paz.que só mantêm alguns contatos externos. não há sociedade sem a vigência efetiva de certa concepção do mundo. usos que a imperam ou "direito -. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.

Os editoriais dos jornais e os discursos de ministros e demagogos não nos dão notícia dela.htm (107 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .as nações -. Mas essa anatomia da realidade histórica necessita ser estudada. mais vulgarmente dito. qual é seu índice atual de socialização. e pôs nele. Há um século. que não se pode esperar remédio algum da Sociedade das Nações. por causas profundas. as ciências derivam irresistivelmente em direção esotérica. Mas este assunto nunca foi visto. mas a sociedade é convivência sob instâncias. São fatos soltos aos quais o físico tem que inventar uma estrutura imaginária. sensu stricto. as realidades históricas. Isso não quer dizer que seja incurável. vê ali definida uma terrível enfermidade? Esforcei-me sempre em combater o esoterismo. quer só dizer que fora necessário chamar médicos ótimos e não qualquer transeunte. sem "idealizações".o credo intelectual e moral da Europa -. embora achacados do vício oposto. A história que eu postulo nos contaria as vicissitudes desse espaço humano e nos faria ver como seu índice de socialização variou. organização. conceitos mais ou menos melodramáticos e míticos que ocultam. respeitáveis. Poderia acontecer que hoje em dia faltassem essas instâncias em uma proporção sem exemplo. mas não está em mim evitá-lo. parecerá abstruso. independente de que seja acertado ou errôneo. por que se volatilizou o sistema tradicional de "vigências coletivas". como. e. Que profano.a sociedade européia -. E o é. entendida como acabo de apontar. A verdade é que esses povos em plural flutuam como ludiões dentro do único espaço social que é a Europa: "nele se movem. por exemplo.carece dela. conserva alguma destas latente vivacidade. atuava nas camadas profundas do Ocidente. Quando a estudamos bem. não é um amontoado de fatos soltos. Neste caso a enfermidade seria a mais grave que sofreu o Ocidente desde Diocleciano ou os Severos. A foro de sociedade.A rebelião das massas. Poucas coisas contribuiriam a apaziguar o horizonte como uma história da sociedade européia. Porque o direito é operação espontânea da sociedade. mas que possui uma estrita anatomia e uma clara estrutura. sobretudo. Entretanto. os fenômenos físicos . Pickwick. Este último aspecto é o que mais nos importa para as aflições atuais. Eu o lamento. em parte. mas que não se liberou de modo completo do arsenal de conceitos tradicionais na historiografia. Pois bem: nada hoje deveria importar tanto ao pacifista como averiguar que é o que acontece nessas camadas profundas do corpo ocidental. Está escrito por uma mente alerta e ágil. Esta ordem que. em maior ou menor escala. estava constituída por uma ordem básica devido à eficiência de certas instâncias últimas . É uma das muitas coisas cuja grave importância os políticos não souberam ver. Também os diagnósticos mais rigorosos da medicina atual são abstrusos. ao ler um fino exame de sangue. uma história realista. Quer dizer. Tudo o mais por exemplo. desceu gravemente fazendo temer a cisão radical da Europa e. e se. Homais e congêneres. A realidade histórica ou. que é por si um dos males do nosso tempo. como a dose de paz em cada época esteve na razão direta desse índice. irradiaram durante gerações sobre o resto do planeta. instituto anti-histórico que um maldizente poderia supor inventado em um clube cujos membros principais fossem M. "sociedade européia" e a suplantavam por um plural . conforme foi e continua sendo. sobretudo. com efeito. é possível diagnosticar com certa precisão o lugar ou estrato do corpo histórico onde a enfermidade radica. O anterior diagnóstico. toda a ordem de que esse resto era capaz. por baixo de todas as suas superficiais desordens. a despeito das aparências. Mas não forjemos ilusões. M. em ocasiões. vivem e são". o livro de Dawson é insuficiente. Havia no mundo uma amplíssima e potente sociedade . Mais: talvez é o único no Universo que tem por si mesmo estrutura. porque as formas tradicionais da ótica histórica tapavam esta realidade unitária que chamei. Por file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. aparece no título de Ranke: História dos povos germânicos e românicos. como. em vez de revelar. que é um excessivo exoterismo. ao longo de toda a história européia. o que sucede no mundo humano.

pois. Uma parte da Europa esforça-se em fazer triunfar uns princípios que considera "novos". ficamos perplexos. enquanto não há senão aceitar a situação e reconhecer que o conhecimento distanciou-se radicalmente das conversações de beer-table. mas dentro de cada povo há. as fronteiras eram para o viajor pouco mais que coluros imaginários. há trinta anos. de "dizer". No trato de uns povos com outros não cabe recorrer a instâncias superiores. anônimo. A Europa está hoje dissocializada. referir-se a ele. A atmosfera de sociabilidade em que flutuavam e que. convertendo-se em matéria córnea. Ora bem: isto acontece ainda hoje. Ficam. há somente que usá-lo. Mas. a Europa se encontra em estado de guerra. aniquilou-se. A pura verdade é que. temo que seja funesto para o pacifismo. teria de ver se não foi um dos fatores que contribuíram ao desprestígio das vigências européias o peculiar uso que delas tem feito a Inglaterra. Esta debilitação subitânea da comunidade entre os povos do Ocidente eqüivale a um enorme file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. há anos. impessoal. produz uma impressão entre cômica e inquietante ver que alguém considera suficiente aludir a ela para se sentir justificado ou fortalecido. Esta conduta significa erro. Isso é que o pacifista precisa compreender. declarada ou preparando-se. talvez represente um papel diferente que nos demais povos europeus. quando é com plenitude vigente. É frívolo interpretar os regimes autoritários do dia como engendrados pelo capricho ou pela intriga. como se faz com a lei de gravidade. interposta. a outra esforça-se em defender os tradicionais. o que é o mesmo. Quando uma opinião ou norma chegou a ser de verdade "vigência coletiva". que anulava a porosidade das nações e as tornava herméticas. de que se encontra em um mundo onde falta ou está muito debilitado o requisito principal para a organização da paz. Ora bem. Mais ainda. ou uma ficção deliberada? É inocência ou é tática? Não sabemos a que nos ater. independente de todo grupo ou indivíduo determinado.A rebelião das massas. Bem claro está que são manifestações iniludíveis do estado de guerra civil em que quase todos os países se encontram hoje. Agora se vê como a coesão interna de cada nação se nutria em boa parte das vigências coletivas européias. como um éter benéfico entre eles. E a origem que atribui a esta situação parece-me confirmado pelo fato de que não somente existe uma guerra virtual entre os povos. Ao adverti-lo. uma grave discórdia. com excessiva freqüência. lhes permita comunicar suavemente. às vezes sem que estas se apercebam de que estão dominadas por elas. faltam princípios de convivência que sejam vigentes e a que caiba recorrer. As vigências operam seu mágico influxo sem polêmica nem agitação. esta é a melhor prova de que nem uns nem os outros são vigentes e perderam ou não alcançaram a virtude de instâncias. amparar-se nele. seja um ou outro o sentido desse comportamento. Pelo contrário: todo grupo determinado procura sua máxima fortaleza reclamando para si essas vigências. As vigências são o autêntico poder social. na Inglaterra e na América do Norte (95). mas não agora nem por mim (96). A questão deverá algum dia ser estudada a fundo. O fenômeno é surpreendente. quando uma idéia perdeu esse caráter de instância coletiva. todos vimos como iam rapidamente endurecendo-se. quietas e jacentes no fundo das almas. Vice-versa. Enquanto. Mas. em um estado de guerra substancialmente mais radical que em todo o seu passado. não recebe seu vigor do esforço senão impô-la ou sustentá-la empregam grupos determinados dentro da sociedade. No momento em que é preciso lutar em prol de um princípio. separados e frente a frente. ou. mas é inquestionável e constitui o fato fundamental da sociedade. quer dizer que este não é ainda ou deixou de ser vigente. e às vezes crendo inclusive que combatem contra elas. porque no homem anglo-saxão a função de se expressar.htm (108 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . inversamente. porque não as há.

monstruoso.agora e não de há um século . apressou-se a emitir torrentes de retórica sobre os "avanços". O século XIX.aproximaram os povos e unificaram a vida no planeta. Os princípios comuns constituíam uma espécie de linguagem que lhes permitia entender-se. Mas com isto frisamos a linha de nossas considerações iniciais. pudesse dizer-se que as formas da saudação são função da densidade de povoação.A rebelião das massas. telefone -. transferência de produtos e transmissão de notícias . Neste caso. afinal. cuja parte mais notória e visível é a saudação. supera em muito todo o pretérito humano tomado em conjunto. De tal sorte que. E isso em todas as ordens.deslocamento de pessoas. reduziu-se. distanciamento moral. o perigoso de semelhante conjuntura? Sabido é que o ser humano não pode. Como vimos de uma das épocas históricas em que a aproximação era aparentemente mais fácil. ainda que haviam chegado a persuadir-se de que o século XIX havia.htm (109 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . e que essa mudança está produzindo agora . E isto acontece precisamente na hora em que os povos europeus mais se distanciaram moralmente. Os povos se encontram de improviso dinamicamente mais próximos. com efeito. o tamanho do mundo subitamente se contraiu. essa opinião era um exagero. Talvez. O trato entre eles é dificílimo. nestes últimos anos recebe cada povo. entretanto. que a efetiva transformação técnica do mundo é um fato recentíssimo. Mas como sempre acontece. realizado já o que aquela fraseologia proclamava. portanto. telégrafo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. está em os outros povos ou em sua absoluta imediação. pois. mudança à qual não teve tempo de se adaptar o organismo econômico. sem mais nem menos. emocionado ante as primeiras grandes conquistas da técnica científica. Não era. e só mais tarde se convertem em realidades. Dito de outro modo: para os efeitos da vida pública universal. Mas nem se havia ainda aperfeiçoado sua invenção nem se haviam posto amplamente em serviço. Refiro-me a um gigantesco fato. Quase sempre as coisas humanas começam por ser lendas. Não adverte o leitor. Isto ocasionou um curioso erro de ótica histórica que impede a compreensão de muitos conflitos atuais. aproximar-se a outro ser humano. Por isso corre ao longo de toda a história a evolução da técnica da aproximação. Há quase meio século fala-se de que os novos meios de comunicação . embora os aceitassem como verídicos. com efeito. tendemos a esquecer que sempre foram mister grandes precauções para aproximar-se dessa fera com veleidades de arcanjo que costuma ser o homem. a tempo e hora. Não poucos dos profundos desajustes na economia atual advêm da súbita mudança que causaram na produção estes inventos. Porque esse distanciamento moral se complica perigosamente com outro fenômeno oposto. etc. Convencido o homem médio de que a centúria anterior era a que havia dado cume aos grandes empreendimentos. não se apercebeu de que a época sem par dos inventos técnicos e de sua realização foram os últimos quarenta anos. que é o que inspirou de modo concreto todo este artigo. Sem tardança e de verdade. cujas características convém precisar um pouco. tal quantidade de notícias e tão recentes sobre o que se passa nos outros. da distância normal a que estão uns homens dos outros. nem sequer se haviam inventado os mais decisivos. Quer dizer. com certas reservas. o "progresso material". Alguns dos meios que haviam de tornar efetiva essa aproximação existiam já em princípio . Que uma só fábrica seja capaz de produzir todas as lâmpadas elétricas ou todos os sapatos de que necessita meio continente é um fato demasiado afortunado para não ser. ferrocarris. tão necessário que cada povo conhecesse bem a singulatim a cada um dos demais. de sopetão.vapores. O número e importância dos descobrimentos. as almas começaram a se cansar desses lugares comuns. como são o motor a explosão e a rádio-comunicação. está visto claramente hoje que se tratava só de uma entusiasta antecipação. isto é. e o ritmo de seu efetivo emprego nessa brevíssima etapa. Isso mesmo aconteceu com as comunicações.suas conseqüências radicais (97). que provocou nele a ilusão de que.

precipitam nesta uma "verdade" vital. Mas a opinião de todo um povo ou de grandes grupos sociais é um poder elementar.A rebelião das massas. nariz contra nariz. Se uma simples mudança da distância entre dois homens comporta semelhantes riscos. por baixo dessas discrepâncias "teóricas". que são diferentes das do povo B. em compacto formigueiro. a saber: uma informação suficiente. Porque o Estado é. ao opinar sobre as grandes questões que afetam sua nação. E esta é hoje. empilhados. Mas não se falou. que só poderia contrariar mediante uma coisa muito difícil. Esta "razão" ou "verdade" viventes. a primeira causa de uma inevitável incongruência. como se vê. a saudação e o trato complicaram-se na mais sutil e complexa técnica de cortesia. As realidades que ajuíza são o que efetivamente passou o mesmo sujeito que as ajuíza. afinal das contas. a opinião pública sensu stricto de um país. equivocar-se? A interpretação doutrinal desses fatos poderá dar oportunidade às maiores divergências teóricas. pois. temos de reconhecer a toda autêntica "opinião pública" consiste. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O povo inglês. que é a realidade histórica mesma e tem um valor e uma força superiores a todas as doutrinas. da intervenção que exerce hoje de fato a opinião de umas nações na vida de outras. às vezes mui remotas. sobrevinda nos últimos quinze ou vinte anos. aos quais não pode faltar um mínimo de reflexão e sentido de responsabilidade. A saudação do tuaregue começa a cem jardas e dura três quartos de hora. e estas suscitar opiniões partidistas sustentadas por grupos particulares. que viveu e. só o combate é possível. a meu juízo. irreflexivo e irresponsável. imaginem-se os perigos que engendra sua súbita aproximação entre os povos. por conseguinte. lá do fundo de suas próprias experiências vitais. onde os homens vivem. Como vai. Estritamente o contrário acontece quando se trata da opinião de um país sobre o que acontece em outro. e em lugar de "eu" fará um salamaleque e dirá "a miséria que há aqui". Dito com outras palavras obtemos esta proposição: é maximamente improvável que em assuntos graves de seu país a "opinião pública" careça da informação mínima necessária para que seu juízo não corresponda organicamente à realidade julgada. tão refinada. os fatos insofisticáveis. e em vez de "tu" dirá algo assim como "a maravilha presente". a rigor. sua inércia ao influxo de todas as intrigas. muito mais grave que aquela. que. no essencial. ao menos com suficiente ênfase. gozados ou sofridos pela nação. em sua congruência. haveria que substitui-la por uma verdade de conhecimento.htm (110 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . indefeso. que experimentou em sua própria carne e em sua própria alma. por assim dizer. que ao extremo oriental lhe produz o europeu a impressão de ser um grosseiro e insolente. A causa disso é óbvia. O povo A pensa e opina. Nessa proximidade superlativa tudo é feridor e perigoso: até os pronomes pessoais se convertem em impertinências. com quem. Pode levar isto a outra coisa que não o jogo dos despropósitos? Eis aqui. tóxica. Eu creio que não se reparou devidamente neste novo fator e que urge prestar-lhe atenção. um órgão relativamente "racionalizado" dentro de cada sociedade. mas tomada com atitude microscópica não é verossímil que seja uma reação incongruente com a realidade inorgânica a respeito dela e. mas. povos pululantes. No Saara cada tuaregue possui um raio espacial que alcança bastantes milhas. Na China e no Japão. Tem se falado muito estes meses da intervenção ou não-intervenção de uns Estados na vida de outros países. Padecerá erros secundários e de detalhe. Suas atuações são deliberadas e dosificadas pela vontade dos indivíduos determinados os homens políticos -. Como aqui falta a "verdade" do vivido. opina sobre fatos que lhe aconteceram. Isso não obstante. quando opina sobre a vida de seu próprio país tem sempre "razão" no sentido de que nunca é incongruente com as realidades que ajuíza. que ademais oferece. são ele mesmo. em suma. como atributo. É maximamente provável que essa opinião surta em alto grau incongruente. Por isso o japonês chegou a exclui-los de seu idioma.

discutindo seu "direito" a opinar quanto estimem sobre quanto lhes apraza. de grandes grupos sociais norte-americanos está intervindo. Enquanto o Governo americano não atuasse. Terá o inglês ou o americano todo o direito que entenda para opinar sobre o que passou e deve acontecer na Espanha.seja de amplos grupos ou de todo o país -. Como na história nada de algum relevo acontece de repente. não seria excessiva suspicácia no homem inglês admitir a hipótese de que está muito menos informado do que supõe crer. As notícias que o povo A recebe do povo B suscitam nele um estado de opinião . Representemo-nos esquematicamente. intrigantes que. de vinte anos de política internacional inglesa.diretamente como tal opinião. daninhos. e a opinião. entre os quais escapole o mais autenticamente real da realidade. se ocupam deliberadamente em fustigá-la. por exemplo.na guerra civil espanhola. O mundo era então "maior". Não é questão de "direito" ou da desprezível fraseologia que sói amparar-se nesse título: é uma questão. Mas. a complicação do processo que tem lugar. simplesmente. ainda que entre esses correspondentes não poucos exercem seu ofício de maneira apaixonada e partidista. é o fato gigantesco que serviu a este artigo de ponto de partida: o fracasso do pacifismo inglês. as causas que a produziram. venenoso e gerador de paixões bélicas. por suas formidáveis dimensões. e que a surpreenderam. ao atravessá-la. nestes últimos anos. Mas como essas notícias chegam hoje com superlativa rapidez. de bom sentido. Como será fácil persuadir ao homem inglês de que não está informado sobre o fenômeno histórico que é a guerra civil espanhola ou outra emergência análoga? Sabe que os jornais ingleses gastam somas fortíssimas em sustentar correspondentes dentro de todos os países. sobrecarrega-se de intenções ativas e adota imediatamente um caráter de intervenção. Sempre há. a fim de entendê-la bem.sabia pouco do que realmente estava acontecendo nos demais povos. Tudo isto é verdade. de fato . o povo B recebe também com abundância. rapidez e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas esse direito é uma injuria e não se aceita uma obrigação correspondente: a de estar bem informado sobre a realidade da guerra civil espanhola. sem fina perspectiva. e porque o é. O exemplo mais claro disto. além disso.apesar de seus inúmeros correspondentes .A rebelião das massas. Pois é o caso que se o homem inglês rememora num lance d'olhos encontrará que aconteceram no mundo coisas de grave importância para a Inglaterra. Sabe que. e não seu Governo . por motivos particulares. como há um século. Há um século não importava que o povo dos Estados Unidos se permitisse ter uma opinião sobre o que acontecia na Grécia. O mesmo digo da opinião inglesa. os povos entraram numa extrema proximidade dinâmica. menos compacto e elástico. há muitos outros cuja imparcialidade é inquestionável e cuja exatidão em transmitir dados exatos não é fácil de superar. Dito fracasso declara estrondosamente que o povo inglês . que. A distância dinâmica entre povo e povo é tão grande. essa opinião não se mantém num plano mais ou menos "contemplativo". Vice-versa. é perigoso (99). porque essa opinião não está ainda regida por uma técnica adequada à troca de distância entre os povos. irremediavelmente. Nada mais longe de minha pretensão que toda intenção de podar o arbítrio a ingleses e americanos. mas. Porque a quantidade de notícias que constantemente recebe um povo sobre o que sucede em outro é enorme. Mas aqui é onde os meios atuais de comunicação produzem seus efeitos. cujo primeiro e mais substancial capítulo é sua origem. desde logo. Sustenta que a ingerência da opinião pública de uns países na vida dos outros é hoje um fator impertinente. abundância e freqüência. essa opinião era inoperante sobre os destinos da Grécia. ou que essa informação tão copiosa se compõe de dados externos. a opinião incongruente perdia toxidez (98).htm (111 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . e que essa opinião estivesse mal informada.

Há muitos anos que me ocupo em fazer notar a frivolidade e a irresponsabilidade freqüentes no intelectual europeu. faz com que o mundo vá à deriva. de seu nervosismo. há séculos e sempre. Ora bem. Alberto Einstein usufrui uma ignorância radical sobre o que acontece na Espanha agora. mas que a considerariam como uma doença terrível para a nação inglesa.A rebelião das massas. que. não é uma questão de mais ou de menos. se convertem automaticamente em diferenças qualitativas. por sua vez. alguns dos principais escritores ingleses assinavam outro manifesto onde se garantia que esses comunistas e seus afins eram os defensores da liberdade. esse file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.htm (112 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . ao mesmo tempo. O espírito que o leva a esta insolente intervenção é o mesmo que há muito tempo vem causando o desprestígio universal do homem intelectual. por 2.talvez a civilização não seja outra que essa montagem . mas se além disso revela ignorar completamente nossa vida.000. Mas esta reação de aborrecimento multiplica-se até à exasperação porque o povo B adverte ao mesmo tempo a incongruência entre a opinião A e o que em B. Essas cifras mostram que. Mas esse mesmo partido e a massa de opinião que pastoreia ocupam-se em favorecer e fomentar. sua audácia provoca em nós frenesi. além disso. Evitemos os espaventos e as frases.000 votos contra 300. escritores e professores a assinar manifestos. que denunciei como um fator de primeira grandeza entre as causas da presente desordem. invadiu seu país. do modo mais concreto e eficaz. a "Frente Popular". quase presente. a despeito de suas copiosas "informações". não é "natural". Felizmente. Alberto Einstein acreditou ter "direito" a opinar sobre a guerra civil espanhola e tomar possessão ante ela. com intolerável impertinência. suposto o mais decisivo para que no mundo volte a reinar uma ordem. Note-se que falo da guerra civil espanhola como um exemplo entre muitos. A diferença numérica na votação é daquelas diferenças quantitativas que.. a "Frente Popular" que se formou em outros países. comodamente sentados em seus escritórios ou em seus clubes. Já é irritante que o próximo pretenda intervir em nossa vida. a formação na Inglaterra de uma "Frente Popular". Há uns dias. Mas eis aqui outro exemplo mais geral. e me reduzo a confrontar dois comportamentos de um mesmo grupo de opinião.e. atuando. que oscila entre o grotesco e o trágico. o Congresso do Partido Laborista rechaçou. o exemplo que mais exatamente me consta. a união com os comunistas. a união com o comunismo. O natural seria que eu estivesse agora em guerra apaixonada contra esses escritores ingleses. que está ali. Mas esta moderação que por sorte posso ostentar. Enquanto em Madri os comunistas e seus afins obrigavam. para o bloco do Partido Laborista. e a sublinhar sua nociva incongruência. segundo Hegel. quer dizer. sob as mais graves ameaças. falto de pouvoir spirituel. Talvez isto o mova a corrigir seu insuficiente conhecimento das demais nações. a falar nas rádios. aconteceu. mas permita-se-me convidar o leitor inglês a que imagine qual pode ser meu primeiro movimento ante semelhante fato. efetivamente. Porque não é fácil encontrar maior incongruência. de seus movimentos e tem a impressão de que o estranho. Há pouco. Mas é o caso que.100. isentos de toda pressão. não contribuiu a debilitar minha surpresa. cuidei durante toda minha vida de montar em meu aparelho psico-físico um sistema muito forte de inibições e de freios . como dizia Dante: che saetta previsa vien più lenta. Deixo intacta a questão de se uma "Frente Popular" é uma coisa benéfica ou catastrófica. freqüência notícias dessa opinião remota. e me reduzo a procurar que o leitor inglês admita por um momento a possibilidade de que não está bem informado. etc. Por isso é um exemplo concreto do mecanismo belicoso que criou o mútuo desconhecimento entre os povos.

embora me exponha a todos os riscos de uma enunciação esquemática. mas comprazem à outra. um sistema de segredos que não pode ser descoberto. acerte ou seja menos incongruente com essa vivente "verdade". todas as esperanças de que a paz reine no mundo são. Enquanto se produzam fenômenos como este. Bem notório é que surte praticamente impossível conhecer intimamente um idioma estrangeiro por muito que o estudemos. Tome qualquer função coletiva. pois. poderia dizer-se que é uma intervenção guerreira.movimentos que antes eram quase inócuos . Na Inglaterra o indivíduo aprendeu a guardar certas cautelas quando se permite opinar sobre outro indivíduo. Talvez o leitor reclame agora uma doutrina positiva. Isto bastaria para explicar por que. o oposto. Nenhuma de suas doutrinas ou atuações é compreensível se não se descobre em sua raiz o desconhecimento do que é uma nação e de que isso que são as nações constitui uma formidável realidade situada no mundo e com a qual há que contar. declarando-o ou não. A nação acaba por estabilizar-se em "sua verdade". embora de outro modo e por outras razões. no fundo. como uma pessoa. Eu creio que há aqui um novo problema de primeira ordem para a disciplina internacional. Porque essa incongruente conduta. Não pense o leitor em nada vago nem místico. umas frente às outras. Daí que acabam por se unir contra a incongruência da opinião estrangeira. Toda realidade desconhecida prepara sua vingança. claro está. Como antes postulávamos uma nova técnica jurídica. Claro que isto supõe estar de acordo sobre um princípio básico. A parte do país favorecida momentaneamente pela opinião estrangeira procurará.A rebelião das massas. no que efetivamente aconteceu. quando as nações européias pareciam mais próximas a uma superior unificação. E me pareceria vão objetar que essas intervenções irritam uma parte do povo que as sofre. à-toa. e isto é uma intervenção. que corre paralelo ao do direito. que a nova estrutura do mundo converte os movimentos da opinião de um país sobre o que acontece em outro . mais ainda.em autênticas incursões. uma intimidade . Ora bem: o velho e barato "internacionalismo". mesmo grupo de opinião se ocupa em cultivar esse mesmo micróbio em outros países. Esta é uma observação demasiado óbvia para que seja verídica. começaram repentinamente a fechar-se dentro de si mesmas. versado mais acima. Era um curioso internacionalismo aquele que em suas contas esquecia sempre o detalhe de que há nações (100). por sorte.htm (113 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .portanto. que as nações existem. E não será uma insensatez crer coisa fácil o conhecimento da realidade política de um país estranho? Sustento. a hermetizar suas existências. posto que tem não poucos caracteres da guerra química. Não outra é a origem das catástrofes na história humana. Há a lei do libelo e há a formidável ditadura das "boas maneiras". aqui reclamamos uma nova técnica de trato entre os povos. por exemplo. essa duplicidade da opinião laborista só irritação pode inspirar fora da Inglaterra. Por isso será funesta toda tentativa de desconhecer que um povo é. penas de amor perdidas. beneficiar-se dessa intervenção. a língua. repito. que engendrou as presentes angústias. Sobre este: que os povos. Esta só pode esperar agradecimento perdurável na medida em que. Não há razão para que não sofra análoga regulamentação a opinião de um povo sobre outro. e a converter-se as fronteiras em escafandros isoladores. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pensava. Mas por baixo dessa aparente e transitória gratidão corre o processo real do vivido pelo país inteiro. Não tenho inconveniente em declarar qual é a minha. e ambos os partidos hostis coincidem nela. Outra coisa seria pura tolice. de fora -.

As nações européias chegam agora a seus pontos cruciais e a cabeçada será a nova integração da Europa. A enfermidade por que atravessa é. 1937. e graças a isso veremos dentro em breve um novo liberalismo temperar os regimes autoritários. No livro The Revolt of the Masses (101). destilando sobre ele.htm (114 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Não de laminar as nações. a proposição é mais falsa que verídica. dezembro. Isto salvará a Europa. se costuma chamar de "totalitária". Porque se isso acontece na Europa é porque sofre uma crise de sua fé comum. Mais uma vez ficará patente que toda forma de vida precisa de sua antagonista. pois. e isto convida a suspeitar ou que nunca foi verdade ou que o tem sido em sentidos mui diversos. Os povos menores adotarão figuras de transição e intermediárias. Mas seria um erro crer que isto significa seu desaparecimento ou definitiva dispersão. A mesma inspiração que formou as nações do Ocidente continua atuando no subsolo com a lenta e silente proliferação dos corais. Este equilíbrio mecânico e provisório permitirá uma nova etapa de mínimo repouso. e sim no recato do ensinamento.por exemplo: as nações soltas ou uma Europa oriental dissociada até à raiz de uma Europa ocidental. comum. imprescindível para que volte a brotar. Paris. a inter-nação. Mas tem também seus direitos a visão de retícula grossa. portanto. como acabo de insinuar. em claras noções de história. A Europa não é. O "totalitarismo" salvará o "liberalismo". Nada disto se oferece no horizonte -. O extravio metódico que representa o internacionalismo impediu ver que só através de uma etapa de nacionalismo exacerbados se pode chegar à unidade concreta e cheia da Europa. um oco. propugno e anuncio o advento de uma forma mais avançada de convivência européia. virá uma articulação da Europa em duas formas diferentes de vida pública: a forma de um novo liberalismo e a forma que. não será. Nesta data. mas como é comum e européia a enfermidade. Porque é estranho que tempos sobremodo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Esta é o autêntico poder de criação histórica. porque isso significa. mas que gozem de plena saúde estas ou as outras nações. Entretanto. e que. Se olhamos a realidade com uma ótica de retícula fina. o manancial de uma nova fé. Uma nova forma de vida não consegue instalar-se no planeta até que a anterior e tradicional não se tenha ensaiado em seu modo extremo. A Europa será a ultra-nação.A rebelião das massas. Desde já. um passo à frente na organização jurídica e política de sua unidade. DINÂMICA DO TEMPO AS VITRINAS MANDAM Dizem que o dinheiro é o único poder que atua sobre a vida social. no fundo de bosque que as almas possuem. com um nome impróprio. deixando ao Ocidente todo seu rico relevo. um vazio e nada. da fé européia. e então não há inconveniente em aceitar essa terrível sentença. a sociedade européia parece volatilizada. das vigências em que sua socialização consiste. sê-lo-á também o restabelecimento. Porque é disso que se trata. depurando-o. que foi bastante lido em língua inglesa. Esta idéia européia é de signo inverso àquele abstruso internacionalismo. Não se trata de que a Europa está enferma. teríamos de lhe tirar e lhe pôr alguns ingredientes para que a idéia fosse luminosa. mas de integrá-las. seja provável o desaparecimento da Europa e sua substituição por outra forma de realidade histórica . mas não mana no meio da alteração. Pois acontece que em muitas épocas históricas se falou o que agora se fala. O estado atual de anarquia e superlativa dissociação na sociedade européia é uma prova mais da realidade que esta possui.

Gôngora faz disso letras. Porque é demasiado evidente que em muitas épocas humanas o poder social do dinheiro foi muito reduzido e outras energias alheias ao econômico informaram a convivência humana. a rigor. Que conseqüência tiramos desta monótona insistência? Que o dinheiro. Porque.eram mui pouco inteligentes a respeito de si. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. sua surpresa de que o dinheiro tenha mais força da que devia ter. As épocas em que mais autenticamente e com mais dolentes gritos se lamentou esse poderio. não o deve ter porque não é seu. o poder que. sempre renovada. ainda sendo isto verdade e calibrando na devida cifra o peso puramente econômico do dinheiro na dinâmica da economia medieval. deplorando-o. é uma grande força social? Isso não era necessário sublinhar: seria uma calinada. que alheia toda a graça do problema. Só como uma possibilidade de interpretação vai tudo isto que digo. não se deve fazer muito caso do que as épocas passadas disseram de si mesmas. Os marxistas. Esta perspicácia sobre o próprio modo de ser. Pelo visto. um magnífico atributo do ser vivente. esta clarividência para o próprio destino é coisa relativamente nova na história. fazendo da história inteira uma monótona conseqüência do dinheiro. Entretanto. seu dinheiro é o homem!" No tempo de César dizia-se o mesmo. e que sempre nos colhe de surpresa? É. Em geral.A rebelião das massas. pelo menos. talvez. diferentes coincidam em ponto tão principal. ante o poder do dinheiro encerra uma porção de problemas curiosos ainda não aclarados. A questão é sobretudo complicada e não pode ser resolvida em dois tempos. também o possuíam na Idade Média e eram o excremento da Europa. Em todas estas lamentações insinua-se algo mais. desde que se inventou. e no XVII. entre si. chrémata aner! "Seu dinheiro. são. porque .é forçoso declará-lo . Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência. menosprezaram excessivamente a importância da moeda na etapa pré-capitalista da evolução econômica. muito diferentes. Os princípios sociais que regeram uma idade perderam seu vigor e ainda não amadureceram os que vão imperar na seguinte. mas usurpado às outras forças ausentes. Quem as usa expressa com elas. segundo a qual o dinheiro devia ter menos influência da que efetivamente possui? Como não nos habituamos ao fato constante depois de tantos e tantos séculos. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E de onde nos vem essa convicção. Não se diga que o dinheiro não era a forma principal da riqueza. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela. O importante é evitar a concepção econômica da história. no século XIV o põe em circulação nosso turbulento tonsurado de Hita. se lhe atribui e que seu influxo só é decisivo quando os demais poderes organizadores da sociedade se retiraram? Se assim fosse entenderíamos um pouco melhor essa estranha mescla de submissão e de asco que ante ele sente a humanidade. e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules. para adubar as coisas segundo a pauta de sua tese. pode descobrir-se nelas uma nota comum: são sempre épocas de crise moral. No século VII antes de Cristo corria já por todo o Oriente do Mediterrâneo o apotegma famoso: Chrémata. porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde. não há correspondência entre a riqueza daqueles judeus e sua posição social. mas não nos inspira asco. o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. tempos muito transitórios entre duas etapas. Eu creio que esta surpresa.htm (115 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Como? Será que o dinheiro não possui. essa surpresa e essa insinuação perene de que o poder exercido não lhe corresponde. Se hoje os judeus possuem o dinheiro e são os donos do mundo. da realidade econômica nos tempos feudais. e foi necessário depois refazer a história econômica daquela idade para mostrar a importância efetiva que nos Estados medievais tinha o dinheiro hebreu.

Resta só o dinheiro. que seja ele quem destaca o indivíduo no corpo público. que. É uma das forças principais que atuam no equilíbrio de todo ofício coletivo. mas havia pouco para comprar. O novo. se reparte segundo se acha repartido o poder social. O sintoma de um poder social autêntico é que cria jerarquias. Também esta curiosidade é exposta e difícil de satisfazer. Se há poucas coisas para comprar. tudo que acontece em nossa hora parecer-nos-á único e excepcional na série dos tempos. Mas. Mas.htm (116 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Durante um momento . se queria algo mais que o breve repertório de mercadorias existente. pois. que quando se volatilizam os demais prestígios resta sempre o dinheiro. O rico. Assim se explica essa nota comum a todas as épocas submetidas ao império crematístico que consiste em ser tempos de transição. tinha de inventar um apetite e o objeto que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. não quanto maior seja a quantidade do dinheiro mesmo. Ora bem: isto é impossível. Isto nos permite formar uma escala com as épocas de crematismo e dizer: o poder social do dinheiro . Pelo contrário. Talvez o poder social não depende normalmente do dinheiro. que eram os mais ricos como classe. O dinheiro teve. Se nos envaidecemos. por ser elemento material. toda a energia social vacante é absorvida por ele. Onde há cinco homens em estado normal produz-se automaticamente uma estrutura jerarquizada. a meu juízo.será tanto maior quantas mais coisas haja para comprar. para seu poder. de tantas classes e qualidades. Mas algum terá de existir sempre. um limite automático em sua própria essência. não ascendiam ao cume da sociedade. seu influxo será escasso. A fantasia humana. nem o mais idealista. Qual seja o princípio desta é outra questão. Há. vice-versa. como indiquei. A cultura intelectual e artística é avaliada menos que há vinte anos. Nem a religião nem a moral dominam a vida social nem o coração da multidão. Morta uma constituição política e moral. um pseudo princípio se encarrega de modelar a jerarquia e definir as classes. O dinheiro é apenas um meio para comprar coisas. Diríamos. fustigada por esse instinto irreprimível de jerarquia. religião. mas não é a musa de seu estilo tectônico. fica a sociedade sem motivo que jerarquize os homens. É também idade de crise: os prestígios há anos ainda vigentes perderam sua eficiência. Contra a ingenuidade igualitária é preciso fazer notar que a jerarquização é o impulso essencial da socialização. Parece o mais verossímil que seja o dinheiro um fator social secundário.raça. isto aconteceu várias vezes na história. incapaz por si mesmo de inspirar a grande arquitetura da sociedade. e no tempo de César os "cavaleiros". que o dinheiro pode desenvolver fantasticamente sua essência: o comprar. continuava sendo um infra-homem. de outro modo: o dinheiro não manda mais senão quando não há outro princípio que mande. pode duvidar da importância que o dinheiro tem na história. No século XVIII existiam também grandes fortunas. entretanto. mas vai para o sacerdote na teocrática. ainda limitando de tal sorte a frase inicial que dá ocasião a esta nota.o século XVII . uma razão que dá probabilidade clara à suspeita de ser nosso tempo o mais crematístico de quantos foram. não pode volatilizar-se.A rebelião das massas. produziu nestes anos um cúmulo tal de objetos mercáveis. Ninguém. Ou. eu me pergunto se há alguma razão para afirmar que em nosso tempo goza o dinheiro de um poder social maior que em tempo algum do passado. mas talvez possa duvidar-se de que seja um poder primário e substantivo. e vai para o guerreiro na sociedade belicosa. inventa sempre algum novo tema de desigualdade. o exclusivo do presente é esta outra conjuntura. em sua combinação com os fabulosos progressos da técnica. se cedem os verdadeiros e normais poderes históricos . idéias -. Pois bem: no século XVI. por muito dinheiro que tivesse um judeu. o homem mais invejado era aquele que possuía certa tulipa rara. política. Ora bem: não há dúvida que o industrialismo moderno. mas.ceteris paribus .na Holanda. por muito dinheiro que haja e por muito livre que se encontre sua ação de conflitos com outras potências. Se os normais faltam.

não tiveram caráter de grande espetáculo. é a verdadeira variação histórica. a bem dizer. El Sol.htm (117 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . etc. As mudanças mais violentas que nossa espécie conheceu. Se houve catástrofes telúricas . Agora um homem chega a uma cidade e aos quatro dias pode ser o mais famoso e invejado habitante dela sem mais trabalho que passear ante as vitrinas. Basta que durante algum tempo a temperatura média do ano desça cinco ou seis graus para que a glacialização se produza.de que se fazia. trabalho técnico deste. e esta reação de dentro do organismo à mudança física do contorno. o melhor chapéu. perguntas que o ser vivo responde com uma ampla margem de originalidade imprevisível. nunca idêntica. é uma operação que se faz de dentro para fora. A vida é masculina ou feminina. As modificações externas atuam só como excitantes de modificações intraorgânicas. como nos mitos mais arcaicos pode se recordar confusamente. a meu juízo. submersão de continentes. portanto. aprontará uma resposta mais ou menos diferente. JUVENTUDE I As variações históricas não procedem nunca de causas externas ao organismo humano. Cada espécie. são.A rebelião das massas. . o melhor isqueiro. súbitas mudanças extremas de clima -. dependente. A lentidão e suavidade deste processo dá tempo a que o organismo reaja. Pensando assim. quando se advertiu que a organização social mais primitiva não é senão a marca na massa coletiva dessas grandes categorias vitais: sexos e idades. satisfaria. um dos descobrimentos sociológicos mais importantes o que se fez. em suma. modele a vida. e mesmo cada indivíduo. 15 de maio de 1927. Viver. Caberia imaginar um autômato provido de um bolso em que metesse mecanicamente a mão e chegasse a ser o personagem mais ilustre da urbe. as primeiras file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em classes de idade. escolher os objetos melhores .o melhor automóvel. mecanicamente. o decisivo influxo das diferenças biológicas mais elementais. pelo visto. o efeito por elas produzido transcendeu os limites do histórico e transtornou a espécie como tal. As formas biológicas mesmas foram. Como se pode pensar que estes módulos elementaríssimos e divergentes da vitalidade não sejam gigantescos poderes plásticos da história? Foi. A existência tem sido. havia de parecer-me sobremodo verossímil que nos mais profundos e amplos fenômenos históricos apareça. jovens e velhos. O mais provável é que o homem não assistiu nunca a semelhantes catástrofes. mais ou menos claro. . que os verões sejam um pouco mais frescos. e mesmo cada variedade. por assim dizer. e por isso as causas ou princípios de suas variações devem ser buscados no interior do organismo. Em definitivo. etc. seleção do artífice.e comprá-los.dilúvios. sem querer. vai para trinta anos. e cada uma destas classes sexuais (102) em meninos. é jovem ou é velha. pelo menos dentro de um mesmo período histórico zoológico. que a vida seja um processo de fora para dentro. Em todo este intrincamento intercalado entre o dinheiro e objeto complicava-se aquele com outras forças espirituais fantasia criadora de desejos no rico. tinha de buscar o artífice que o realizasse e dar tempo a sua fabricação. os períodos glaciais. Convém abandonar a idéia de que o meio. A estrutura mais primitiva da sociedade se reduz a dividir os indivíduos que a integram em homens e mulheres. sempre muito cotidiana.

quer dizer. e que os ritmos fundamentais são precisamente os biológicos. Na realidade. ou bem acha a graça máxima nos modos femininos diante dos masculinos. que há tempos de jovens e tempos de velhos. e como potência compensatória. mas junto a ele. a graça e o vigor juvenis são postos a serviço de algo acima deles. Vêem a ser como estilos diversos do viver. juventude e senectude. e pospõe. está o homem maduro que o educa e dirige. O fenômeno é demasiado recente e ainda não se pode ver se esta nova vida in modo juventutis será capaz do que depois direi. O jovem Alcibíades triunfa sobre a sociedade. Masculinidade e feminilidade. O "filho". da alma. Roma. antes de tudo. O que realmente me parece evidente é que nosso tempo se caracteriza pelo extremo predomínio dos jovens. No ser humano a vida se duplica porque ao intervir a consciência a vida primária se reflete nela: é interpretada por ela em forma de idéia. que estima mais as qualidades da vida jovem. sem o que não é possível a perduração de seu triunfo. A luta misteriosa que mantém nas secretas oficinas do organismo a juventude e a senectude. Os dois nomes que enunciam os partidos da file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. imagem. são duas parelhas de potências antagônicas. entretanto. sendo rítmica toda vida. sentimento. E como todos coexistem em qualquer instante da história. o é também a história. desde o fin de siècle. de incitação e de freio. mas nunca. E como a história é. do pai de família. seremos forçados a dizer: tem havido na história outras épocas em que predominaram os jovens. íntegra. Deste modo. a existência humana. Cada uma destas potências significa a mobilização da vida toda em um sentido divergente do que possui sua contrária. Para compreender bem uma época é preciso determinar a equação dinâmica que nela dão essas quatro potências. quer dizer. como tantas outras coisas. em seu sentido. Chega uma época em que prefere. e perguntar: Quem pode mais? Os jovens ou os velhos. um forcejar em que cada qual tenta arrastar. que lhes serve de norma. história da mente. e depois de uma guerra mais triste que heróica. É surpreendente que em povos tão velhos como os nossos. este império dos jovens vinha se preparando desde 1890. desestima as da vida madura. instituições. Hoje de um lugar. o jovem atua sempre diante do senador em forma de oposição. Por que acontecem estas variações da preferência.htm (118 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . os homens maduros? O varonil ou o feminino? É sobremaneira interessante perseguir nos séculos as deslocações do poder para uma ou a outra dessas potências. mas sob condição de servir ao espírito que Sócrates representa. reflete-se na consciência sob a espécie de preferências e desdéns. amanhã de outro. prefere o velho ao jovem e submete-se à figura do senador. Então adverte-se o que de antemão devia presumir-se: que. o interessante será descrever a projeção na consciência desses predomínios rítmicos. às vezes súbitas? Eis aqui uma questão sobre a qual não podemos ainda dizer uma só palavra clara (103). Mas se fossemos atender só ao aspecto do momento atual. a vida toda organiza-se em torno do efebo. foram desalojadas a madureza e a ancianidade: em seu oposto se instalava o homem jovem com seus peculiares atributos.A rebelião das massas. Eu não sei se este triunfo da juventude será um fenômeno passageiro ou uma atitude profunda que a vida humana tomou e que chegará a qualificar toda uma época. E preciso que passe algum tempo para poder aventurar este prognóstico. a masculinidade e a feminilidade. pelo contrário. Nos séculos clássicos da Grécia. A parelha Sócrates-Alcibíades simboliza muito bem a equação dinâmica de juventude e madureza desde o século V no tempo de Alexandre. entre as bem conhecidas. toma a vida de repente um aspecto de triunfante juventude. produz-se entre eles uma colisão. que há épocas em que predomina o masculino e outras senhoreadas pelos instintos da feminilidade. (104) o predomínio tem sido tão extremado e exclusivo.

o velho de nascimento. seria preciso descer até o Renascimento. o uso. e a peruca empoada cobre toda testa primaveril . de negro. Busca-se por toda a parte a raison e interessa mais que nada a teologia: jesuítas contra Jansênio. a rigor. A guerra defensiva sói empregar táticas vis. De Ninon estima-se a madureza. E a época dos blasés.homem ou mulher . vestido à espanhola. que com uma ou outra intensidade impregna todo o século XIX. O gesto de combate que parece interpolar-se entre ambos pertence. são só adequados à gente dessa idade. ou é um gesto de domínio ou um gesto de servidão. Para extremar tal estilo de vida finge-se na cabeça a neve da idade. Todas as gerações do século XIX aspiraram a ser maduras o mais depressa possível e sentiam uma estranha vergonha de sua própria juventude. Pascal. Ambos significam "filhos". É o século do entusiasmo pelos decrépitos. Se damos um passo atrás caímos no século vieillot por excelência. 9 de junho de 1927. os modos. ingenuamente surpresos: Para onde foram os jovens? Quanto vale nesta idade parece ter quarenta anos: o traje. e os jovens ao olhar dentro de si só acham inapetência vital. ao passo que o proletário é filho no sentido da carne. A Revolução fizera tábua rasa da geração precedente e permitiu durante quinze anos que ocupassem todas as eminências sociais homens muito moços.varões e fêmeas . o garoto genial. Quando no romanticismo se reage contra o século XVIII é para voltar a um passado mais antigo. que abomina de toda qualidade juvenil. o XVIII. (Como se vê a tradição exata de patrício seria fidalgo). O romanticismo. Entretanto. não é filho de "alguém" reconhecido. A guerra ofensiva vai inspirada pela segurança na vitória e antecipa o domínio. efetivamente. Ao chegar ao século XVIII neste virtual processo temos de nos interrogar. Repasse o leitor rapidamente a série de épocas européias. Esta é a causa que decide file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. é mero descendente e não herdeiro. dos suicídios. detesta o sentimento e a paixão. uns são filhos de pai cidadão. porque no fundo de sua alma o atacado estima mais que a si mesmo o ofensor. Compare-se com os jovens atuais . luta multissecular aludem a esta dualidade de potências: patrícios e proletários. uma subversão contra o passado e é um ensaio de se afirmar a si mesma a juventude. casado segundo lei do Estado e por isso herdeiros de bens. prefere suas atitudes fatigadas e apressa-se a abandonar sua mocidade.com uma suposição de sessenta anos. e o romanticismo porá de manifesto sua carência de autenticidade. não a confusa juventude.que tendem a prolongar ilimitadamente sua mocidade e se instalam nela como definitivamente.A rebelião das massas. El Sol. II Todo gesto vital. que estremece ao passo de Voltaire. O jacobino e o general de Bonaparte são rapazes. pode parecer em sua iniciação um tempo de jovens.htm (119 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . cadáver vivente que passa sorrindo de si mesmo no sorriso inumerável de suas rugas. O jovem imita em si o velho. o ar prematuramente caduco no andar e no sentir. Domina a centúria Descartes. Para achar outra época de juventude como a nossa. mas princípios recebidos: nada tão representativo como Robespierre. a um ou outro estilo. oferece este tempo o exemplo de um falso triunfo juvenil. O jovem revolucionário é só o executor das velhas idéias confeccionadas nos dois séculos anteriores. é genial porque antecipa a ancianidade dos geômetras. o corpo elástico e nu. prole. Tertium non datur. O que o jovem afirma então não é a sua juventude. Há nele.

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um ou outro estilo de atitude. O gesto servil o é porque o ser não gravita sobre si mesmo, não está seguro de seu próprio valor e em todo instante vive comparando-se com outros. Necessita deles em uma ou outra forma; necessita de sua aprovação para se tranqüilizar, quando não de sua benevolência e de seu perdão. Por isso o gesto leva sempre uma referência ao próximo. Servir é encher nossa vida de atos que têm valor só porque outro ser os aprova ou aproveita. Têm sentido olhados da vida deste outro ser, não da nossa vida. E esta é, em princípio, a servidão: viver desde outro, não desde si mesmo. O estilo de domínio, por seu turno, não implica a vitória. Por isso aparece com mais pureza que nunca em certos casos de guerra defensiva que concluíram com a completa derrota do defensor. O caso de Numância é exemplar. Os numantinos possuem uma fé inquebrantável em si mesmos. Sua longa campanha contra Roma começou por ser de ofensiva. Desprezavam o inimigo e, com efeito, o derrotavam uma vez e outra (105). Quando mais tarde, recolhendo e organizando melhor suas forças superiores, Roma aperta Numância, esta, dir-se-á, toma a defensiva, mas propriamente não se defende, efetivamente aniquila-se, suprime-se. O fato material da superioridade de forças no inimigo convida ao povo de alma dominante a preferir sua própria anulação. Porque só sabe viver desde si mesmo, e a nova forma de existência que o destino lhe propõe - servidão - lhe é inconcebível, lhe sabe a negação do viver mesmo; portanto, é a morte. Nas gerações anteriores a juventude vivia preocupada com a madureza. Admirava os maiores, recebia deles as normas - em arte, ciência, política, usos e regime de vida -, esperava sua aprovação e temia seu enfado. Só se entregava a si mesma, ao que é peculiar a tal idade, subrepticiamente e como à margem. Os jovens sentiam sua própria juventude como uma transgressão do que é devido. Objetivamente se manifestava isto no fato de que a vida social não estava organizada em vista deles. Os costumes, os prazeres públicos haviam sido ajustados ao tipo de vida próprio para as pessoas maduras, e eles tinham de se contentar com as zurrapas que estas lhes deixavam ou lançar-se às estroinices. Até no vestir viam-se forçados a imitar os velhos: as modas estavam inspiradas na conveniência da gente maior. As moças sonhavam com o momento em que se vestiriam "à vontade", quer dizer, em que adotariam o traje de suas mães. Em suma, a juventude vivia a serviço da madureza. A mudança operada neste ponto é fantástica. Hoje a juventude parece dona indiscutível da situação, e todos os seus movimentos vão saturados de domínio. Em sua atitude transparece bem claramente que não se preocupa o mínimo com a outra idade. O jovem atual habita hoje sua juventude com tal resolução e denodo, com tal abandono e segurança, que parece existir só nela. O que a madureza pense dela não lhe importa um caracol; mais ainda: a madureza possui a seus olhos um valor próximo ao cômico. Mudaram-se as tornas. Hoje o homem e a mulher maduros vivem quase sobressaltados, com a vaga impressão de que quase não têm direito a existir. Advertem a invasão do mundo pela mocidade como tal e começam a fazer gestos servis. Desde logo, imitam-na no trajar. (Tenho sustentado muitas vezes que as modas não eram um fato frívolo, mas um fenômeno de grande transcendência histórica, obediente a causas profundas. O exemplo presente esclarece com exaustiva evidência essa afirmação). As modas atuais estão pensadas para corpos juvenis, e é tragicômica a situação de pais e mães que se vêem obrigados a imitar seus filhos e filhas na indumentária. Os que já andamos na curva descendente da

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vida vemo-nos na inaudita necessidade de ter de desandar um pouco o caminho percorrido, como se o houvéssemos errado, e fazer-nos - de grado ou não - mais jovens do que somos. Não se trata de fingir uma mocidade que se ausenta de nossa pessoa, mas que o módulo adotado pela vida objetiva é o juvenil e nos força a sua adoção. Como com o vestir, acontece com tudo o resto. Os usos, prazeres, costumes, modos, estão talhados à medida dos efebos. É curioso, formidável, o fenômeno, e convida a essa humildade e devoção ante o poder, ao mesmo tempo criador e irracional, da vida que eu fervorosamente recomendei durante toda a minha. Note-se que em toda a Europa a existência social está hoje organizada para que possam viver a gosto só os jovens das classes médias. Os maiores e as aristocracias ficaram fora da circulação vital, sintoma em que se enlaçam dois fatores distintos - juventude e massa - dominantes na dinâmica deste tempo. O regime de vida média aperfeiçoou-se - por exemplo, os prazeres -, e, em troca, as aristocracias não souberam criar para si novos refinamentos que as distanciem da massa. Só lhe resta a compra de objetos mais caros, mas do mesmo tipo geral que os usados pelo homem médio. As aristocracias, desde 1800 no político, e desde 1900 no social, têm sido levadas de roldão, e é lei da história que as aristocracias não podem ser levadas de roldão senão quando previamente caíram em irremediável degeneração. Mas há um fato que sublinha mais que outro algum este triunfo da juventude e revela até que ponto é profundo o transtorno de valores na Europa. Refiro-me ao entusiasmo pelo corpo. Quando se pensa na juventude, pensa-se antes de tudo no corpo. Por várias razões: em primeiro lugar, a alma tem uma frescura mais prolongada, que às vezes chega a ornar a velhice da pessoa; em segundo lugar, a alma é mais perfeita em certo momento da madureza que na juventude. Sobretudo, o espírito - inteligência e vontade - é, sem dúvida, mais vigoroso na plenitude da vida que em sua etapa ascensional. Por seu turno, o corpo tem sua flor - seu akmé, diziam os gregos - na estrita juventude, e, vice-versa, decai infalivelmente quando esta se transpõe. Por isso, desde um ponto de vista superior às oscilações históricas, por assim dizer, sub specie aeternitatis, é indiscutível que a juventude rende a maior delícia ao ser olhada, a madureza, ao ser ouvida. O admirável do moço é o seu exterior; o admirável do homem feito é sua intimidade. Pois bem: hoje prefere-se o corpo ao espírito. Não creio que haja sintoma mais importante na existência européia atual. Talvez as gerações anteriores rendessem demasiado culto ao espírito e - salvo a Inglaterra - desdenharam excessivamente a carne. Era conveniente que o ser humano fosse admoestado e se lhe recordasse que não é só alma, mas união mágica de espírito e corpo. O corpo é por si puerilidade. O entusiasmo que hoje desperta inundou de infantilismo a vida continental, afrouxou a tensão do intelecto e vontade em que se retorceu o século XIX, arco demasiado retesado para metas demasiado problemáticas. Vamos dar um descanso ao corpo. A Europa - quando tem diante de si os problemas mais pavorosos - entrega-se a umas férias. Brinda elástico o músculo do corpo desnudo atrás de uma bola de futebol que declara francamente seu desdém a toda transcendência voando pelo ar com ar em seu interior. As associações de estudantes alemães solicitaram energicamente que se reduza o plano de estudos universitários. A razão que davam não era hipócrita: urgia diminuir as horas de estudo porque eles precisavam do tempo para seus jogos e diversões, para "viver a vida". Esta atitude dominante que hoje tem a juventude parece-me significativo. Só me ocorre uma reserva
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mental. Entrega tão completa a seu próprio momento é justa enquanto afirma o direito da mocidade como tal, ante a sua antiga servidão. Mas, não é exorbitante? A juventude, estádio da vida, tem direito a si mesma; mas por ser um estádio vai afetada inexoravelmente de um caráter transitório. Fechando-se em si mesma, cortando as pontes e queimando as naves que conduzem aos estádios subseqüentes, parece declarar-se em rebeldia e separatismo do resto da vida. Se é falso que o jovem não deve fazer outra coisa senão preparar-se para ser velho, também é erro parvo iludir por completo esta cautela. Pois é o caso que a vida, objetivamente, necessita da madureza; portanto, que a juventude também a necessita. É preciso organizar a existência: ciência, técnica, riqueza, saber vital, criações de toda ordem, são requeridas para que a juventude possa alojar-se e divertir-se. A juventude de agora, tão gloriosa, corre o risco de arribar a uma madureza inepta. Hoje goza o ócio florescente que lhe criaram gerações sem juventude (106). Meu entusiasmo pelo aspecto juvenil que a vida adotou não se detém senão ante esse temor. Que vão fazer aos quarenta os europeus futebolistas? Porque o mundo é certamente uma bola, mas tendo dentro de si mais do que simples ar. El Sol, 19 de junho de 1927.

MASCULINO OU FEMININO? Não há dúvida que nosso tempo é tempo de jovens. O pêndulo da história, sempre inquieto, ascende agora pelo quadrante "mocidade". O novo estilo de vida começou não há muito, e ocorre que a geração próxima já aos quarenta anos tem sido uma das mais infortunadas que existiram. Porque quando era jovem reinavam ainda na Europa os velhos, e agora que entrou na madureza depara que o império se transferiu para a mocidade. Faltou-lhe, pois, a hora de triunfo e de domínio, a oportunidade de grata coincidência com a ordem reinante na vida. Em suma: que viveu sempre ao revés com o mundo, e, como o esturjão, teve de nadar sem descanso contra a correnteza do tempo. Os mais velhos e os mais jovens desconhecem este duro destino de não haver flutuado nunca; quero dizer, de nunca haver sentido a pessoa como levada por um elemento favorável, e que pelo contrário dia após dia e lustro após lustro teve de viver em suspenso, sustentando-se a pulso sobre o nível da existência. Mas talvez esta mesma impossibilidade de se abandonar um só instante a disciplinou e purificou sobremaneira. É a geração que mais combateu, que ganhou a rigor mais batalhas e menos triunfos tem gozado (107). Mas deixemos por enquanto intacto o tema dessa geração intermediária e retenhamos a atenção sobre o momento atual. Não basta dizer que vivemos em tempo de juventude. Com isso não fizemos mais do que defini-lo dentro do ritmo das idades. Mas ao lado deste atua sobre a substância histórica o ritmo dos sexos. Tempo de juventude! Perfeitamente. Mas, masculino ou feminino? O problema é mais sutil, mais delicado - quase indiscreto. Trata-se de filiar o sexo de uma época. Para acertar nesta, como em todas as empresas da psicologia histórica, é preciso tomar um ponto de vista elevado e libertar-se de idéias estreitas sobre o que é masculino e o que é feminino. Antes de tudo é urgente desasir do trivial erro que entende a masculinidade principalmente em sua relação com a mulher. Para quem pensa assim, é muito masculino o fanfarrão que se ocupa acima de tudo de cortejar as damas e falar das boas fêmeas. Este era o tipo de varão dominante em 1890: traje barroco, sobrecasaca cujas abas
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tem este o privilégio de que a maior e a melhor porção de si mesmo é independente por completo de que a mulher exista ou não. entregues aos puros instintos . uma espécie de atleta com seios. um duelo por mês. pois. Embora o grego tenha sabido esculpir famosos corpos de mulher.. O fato de que ao pensar no homem se destaque primeiramente seu afã pela mulher revela. nos obriga a contar. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista. por si só. quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura. Esta fica relegada ao fundo da vida. trirreme. que culmina no século de Péricles. Só quando a mulher é o que mais se estima e encanta tem sentido apreciar o varão pelo serviço e culto que a esta renda. como apoio e pausa à conversação que languidece.A rebelião das massas. Este privilégio do masculino. É uma realidade de primeira grandeza com que a Natureza. É uma época de profunda insinceridade: discursos parlamentários e prosa de "artigo de fundo") (108). Não há sintoma mais evidente de que o masculino. A forma feminina lhe parece como uma mutilação da masculina.por um instante . barba de mosqueteiro. inexorável em suas vontades. A veracidade. O homem maduro assiste aos jogos dos efebos nus e habitua-se a discernir as mais finas qualidades da beleza varonil. No frontispício histórico aparecem só homens. no subterrâneo das horas inferiores. O resto era falsificação. como algo incompleto e vulnerado) (109). Porque assim como a mulher não pode em nenhum caso ser definida sem referi-la ao varão. ginásio. portanto.sensualidade. como tal. Por sua parte. paternidade. extrema feminilidade. mas tampouco o invento. barbearia.. familiaridade -. Egrégia ocasião de masculinidade foi o século de Péricles. a mulher se adianta um pouco: Aspásia. à última hora. e. Alguma vez. (O bom fisionomista das modas descobre logo a idéia que inspirava esta: a ocultação do corpo viril sob uma profusa vegetação de tela e pelame. Ciência. apenas a vê.amarga desilusão. com efeito. no banquete varonil. sentados nos pórticos com o cajado na axila. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX. É possível que o seja. e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita. plastrão. Seria um erro atribuir este masculinismo. etc. Eu não o aplaudo nem o vitupero. me força a dizer que todas as épocas masculinas da história se caracterizam pela falta de interesse pela mulher. que o escultor vai comentar no mármore. até o ponto de que o historiador. esporte. literatura textil. Vive-se em público: ágora. quando mais tarde separa a forma masculina sofre . a uma nativa cegueira do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. acampamento. sua interpretação da beleza feminina não conseguiu desprender-se da preferência que sentia pela beleza do varão. aparece sob a espécie de flautistas e dançarinas que executam suas humildes destrezas ao fundo.. o adolescente bebe no ar ático a fluência de palavras agudas que brota dos velhos dialéticos. talvez pareça irritante. técnica. A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil. Sim. A mulher?. guerra. que nessa época predominavam os valores de feminilidade. Ficavam só à vista mãos. são coisas em que o homem se ocupa com o centro vital de sua pessoa. cabelo em volutas. sem que a mulher tenha intervenção substantiva. os homens vivem na época só com homens. muito ao fundo da cena. forçado a uma ótica de lonjura. Por que? Porque aprendeu o saber dos homens. e se recolhe na treva. (É curioso advertir que a sensualidade noviça da criança a faz normalmente sonhar com o hermafrodita. Século só para homens. é preterido e desestimado. que lhe permite em ampla medida bastar-se a si mesmo. capeavam o vento. política. Seu trato normal com a mulher fica excluído na zona diurna e luminosa em que acontece o mais valioso da vida. porque se masculinizou. nariz e olhos.htm (123 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .

o regime de vida que vai inspirado pelo entusiasmo pela mulher. homem grego para os valores da feminilidade. como diz um texto da época. muda a face da história. A mutação se deve ao ingresso da mulher no cenário da vida pública. feminina. o privilégio de ser enterrados a cavalo (110). Trata-se. contém o germe do que. desde o século XII. e opor-lhe o suposto rendimento do germano ante a mulher.. contar com um pouco de ordem. Na primeira Idade Média a vida tem o mais rude aspecto. 26 de junho de 1927. nada mais nada menos. O homem vive quase sempre em acampamentos. Os homens começam a polir-se na palavra e nos modos. de todo um novo estilo de cultura e de vida. ante o Estado e a Igreja. A verdade é que em outras épocas da Grécia anteriores à clássica triunfou o feminino. em perpétua emulação com eles sobre temas viris: esgrima. suavissimamente. Chamou-se então "corte" . Mas no século XII as altas damas de Provença e Borgonha têm a audácia surpreendente de afirmar. caça. mas o gesto mesurado. como em certas etapas do germanismo domina o varonil. E preciso guerrear cotidianamente e à noite compensar o esforço com o abandono e o frenesi da orgia. a fêmea beligerante. grácil. masculina.conservavam. E a "cortesia" é. antes de tudo. Esta nova forma de vida pública. Assim nesta bronca idade. nada mais nada menos. não "deve separar-se. Sem a violência do combate ou do anátema. ante o Estado dos guerreiros e ante a Igreja dos clérigos. de bem-estar. A mulher é presa de guerra. o valor específico da pura feminilidade. a feminilidade eleva-se a máximo poder histórico. II Trata-se. o subsolo do porvir europeu. Vê-se nela a norma e o centro da criação. do mundanal ante o enérgico "tabu" que sobre todo o terreno fizera cair a Igreja. Precisamente esclarece melhor que outro exemplo a diferença entre épocas de um e outro sexo o acontecido na Idade Média. de paz. O homem. bebida. Porque até o século XII não se havia encontrado a maneira de afirmar a delícia da existência. cavalaria. Esta existência de áspero regime cria as bases primeiras.mas não como a antiga corte de guerra e de justiça. a mulher carece de papel e não intervém no que podemos chamar vida de primeira classe. da crina de seu cavalo e passará sua vida à sombra da lança". vai se chamar séculos mais tarde "sociedade". mas não em todas foi estimada. só com outros homens. como em certas jornadas de primavera. a segunda. Como aceitam este jugo o guerreiro e o sacerdote. onde a mulher é o centro. que por si mesma se divide em duas porções: a primeira. Entendamo-nos: em todas as épocas desejou-se a mulher.htm (124 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Agora aparece a "cortesia" triunfadora da "clerezia".A rebelião das massas. com efeito. Quando o germano destes séculos se ocupa em idealizar a mulher. Todavia em tempos de Dante alguns nobres os Lamberti. Em tal paisagem moral. Mercê a ela conseguiu-se já no século XII acumular alguma riqueza. em cujas mãos se achavam todos os meios da luta? Não cabe mais claro exemplo da força indomável que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. até a morte. virago musculosa que possui atitudes e destrezas de varão. À contínua pendência substitui o solatz e deport que quer dizer conversação e jogo. El Sol. de todo um novo estilo de cultura e de vida. imagina a valquíria. os Soldanieri . mas "corte de amor". Já não se aprecia o gesto bronco. A Corte dos Carolíngios era exclusivamente feminina.. E eis aqui que rapidamente.

sem acatar ou render culto a nada que não seja sua própria juventude. quando é o contrário. acontecida na ordem sublunar. Mas. sem se preocupar com o resto. Desta época provém o culto à Virgem Maria. E o é. O dono do mundo é hoje o rapaz.htm (125 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . esses homens parecem muito homens. As moças perderam o hábito de ser galanteadas. e esse gesto em que há trinta anos ressumavam todas as resinas da virilidade. Suas armas preferem ao combate a justiça e o torneio. o homem muito preocupado com a mulher. pois. e chega a ser a forma de todo ideal. A mulher torna-se ideal do homem. O cavalheiro desvia suas idéias feudais para a mulher e decide "servir" a uma dama. retorcida como um caracol. Por isso. "efeminado" significa simplesmente homme à femmes. "sentir do tempo" possui. Exercitada a pupila nestes esquemas do pretérito. e seu caráter patológico os impede de representar a normalidade de nenhuma época. efeminamento. Hoje. É surpreendente a resolução e a unanimidade com que os jovens decidiram não "servir" a nada nem a ninguém. Em tempos deste sexo. é tão poderoso que não necessita combater. o homem estima sua figura mais que a do sexo contrário e. consta pelo Gênese que a mulher não está feita de barro como o varão. Estes indivíduos monstruosos existem em todos tempos. montado sobre os nervos de uma nova geração. no tempo do Dante. salvo à idéia mesma da mocidade. mas a força de desdém. mas feita de sonho do varão. como desviação fisiológica da espécie. Quando chega. À força de contemplar-se nos exercícios onde o corpo aparece isento de falsificações têxteis. adquirem uma fina percepção da física file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ajustam-se à cintura e se decotam até o colo. em seu outro sentido. a seus exercícios e preferências. em perpétuo concurso e emulação. que projeta nas regiões transcendentes a entronização do feminino. Nada pareceria mais obsoleto que o gesto rendido e curvo com que o cavalheiro fanfarrão de 1890 se aproximava da mulher para lhe dizer uma frase galante. que versam sobre qualidades viris. O velho "efeminado" denomina este novo entusiasmo dos jovens pelo corpo viril e esse esmero com que o tratam. apesar de seu aspecto de mata-mouros. Os rapazes convivem juntos nos estádios e áreas de esportes. mas de juventude masculina. mas quando sobrevêm etapas de masculinismo descobre-se o que neles há de efetivo efeminamento. Não lhes interessa mais que seu jogo e a maior ou menor perfeição na postura ou na destreza. que gira em torno dela e dispõe suas atitudes e pessoa em vista de um público feminino. Por um deles significa o homem anormal que fisiologicamente é um pouco mulher. Convivem. No final das contas. Porque a palavra "efeminado" tem dois sentidos muito diversos. volta-se ao panorama atual e conhece no mesmo instante que nosso tempo não é só tempo de juventude. cuida de seu corpo e tende a ostentá-lo. a figura feminina absorve o ofício alegórico de tudo que é sublime. O poeta deixa um pouco a gesta em que se canta o herói varonil e torneia a trova que foi inventada sol per domnas lauzar (111). que facilmente poderíamos multiplicar. Os trajes dos homens começam a imitar as linhas do traje feminino. cuja cifra põe no escudo. simplesmente se instala no mundo como uma propriedade indiscutida. não porque o tenha conquistado. de tudo que é aspiração. A mocidade masculina afirma-se a si mesma. consequentemente.A rebelião das massas. cheiraria hoje a efeminamento. A rigor. como sempre que os valores masculinos predominaram. entrega-se a seus gostos e apetites. que estão ordenados para ser vistos pelas damas. A vida do varão perde o módulo da etapa masculina e se conforma ao novo estilo.

para descobrir a essência variante. apontar que a sentiam muito menos que na atualidade. que tenha alguma verdade. sopros gigantescos que nos mobilizam a seu capricho. reconhecesse que não se apercebia de ser influída em sua estima da beleza masculina pelo apreço que dela fazem os jovens. Agora a mulher vai nua como um rapaz. claramente percebidas. aparentemente tão generoso na nudificação. perscrutando sinceramente em seu interior. A mulher procura achar em sua compleição as linhas do outro sexo. É uma equivocação psicológica explicar as modas vigentes por um suposto afã de excitar os sentidos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. porque se esfalfa em esportes físicos. nem a faina química em que se ocupam nossas células. ainda. É muita casualidade que atualmente o regime da assistência feminina nas ordens mais diversas coincida sempre nisto: a assimilação ao homem. mas não a bastante. hoje a mulher imita o homem no vestir e adota seus ásperos jogos. com efeito. simplificando um tipo de traje tão pouco propício para isso como o herdado do século XIX. Basta comparar o traje de hoje com o usado na época de outro Diretório maior . tanto mais expressiva quanto maior é a semelhança. se afirmasse o corpo do futebolista. Mas o fato é que sob essa superfície de nossa consciência atuam as grandes forças anônimas. Cada qual crê viver por sua conta. Convém. em virtude de razões que supõe personalíssimas. mas o oposto. por seu turno. A dama Diretório acentuava. Talvez desde os tempos gregos não se tenha estimado tanto a beleza masculina como agora. aquele nu era um perverso nu de mulher. varonil. O traje atual. Só estas excelências. bastante curta. cingia e ostentava o atributo feminino por excelência: aquela túnica era o mais sóbrio talhe para sustentar a flor do seio. pois. Antes. Daí que as modas masculinas tenham tendido estes anos a sublinhar a arquitetura masculina do homem jovem. Ao ouvir hoje com tanta freqüência o cínico elogio do homem simpático brotando dos lábios femininos.1800 . Vê. não nos apercebemos nunca. entusiasmo pela esplêndida figura do atleta. Cada uma poderá dar sua razão diferente. se é que a sentiam. em vez de colegir ingênua e simplesmente: "A mulher de 1927 gosta superlativamente dos homens simpáticos". Também sabe bem a mulher de hoje porque fuma. como não nos apercebemos do movimento estelar de nosso planeta. Por isso o mais característico das modas atuais não é a exiguidade do encobrimento. Era mister que sob os tubos ou cilindros de tela em que este horrível traje existe. porque se veste como se veste. sabiam calar seu entusiasmo pela beleza de um varão. Não seria objeção contra isto que alguma leitora. De tudo aquilo que é um impulso coletivo e propele a vida histórica inteira em uma ou outra direção. o seio feminino.A rebelião das massas. anula. os poderosos alísios da história. um sintoma de primeira categoria. sobretudo pela beleza fundada na correção atlética. Se no século XII o varão se vestia como a mulher e fazia sob sua inspiração versinhos dulcífluos. não é quase nunca espontâneo. que revela o predomínio do ponto de vista varonil. faz um descobrimento mais profundo: a mulher de 1927 deixou de cunhar os valores por si mesma e aceita o ponto de vista dos homens que nesta data sentem.htm (126 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . oculta. escamoteia. quase como a de agora. nisso. O traje Diretório era também uma simples túnica. arrastam o ânimo e o sobrecolhem (112). E o bom observador nota que nunca as mulheres falaram tanto e com tanto descaro como agora dos homens simpáticos. Entretanto. Um velho psicólogo habituado a meditar sobre estes assuntos sabe que o entusiasmo da mulher pela beleza corporal do homem. que cobra a seus olhos um valor enorme. Note-se que só se estima a excelência nas coisas de que se entende.

onde se iniciou um esclarecimento e mise au point de todos estes conceitos. pag. ainda mais. El hombre y la gente. de próxima publicação. Tudo contrário. as relações entre os sexos nunca foram tão sadias.htm (127 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Há nos sacerdotes uma mania milenar contra os modismos. Esta indolência é um fato. renderam estranho culto ao amor dórico. desinteressadas da mulher. Em que ficamos? Qual a saia diabólica? A curta ou a longa? Quem passou sua juventude numa época feminina consterna-se de ver a humildade com que hoje a mulher. e eu não nego que no detalhe da indumentária e das atitudes influa esse propósito incitativo: mas as linhas gerais da atual figura feminina estão inspiradas por uma intenção oposta: a de se parecer um pouco com o homem jovem. 1891. London. Esta diminuição do poder feminino sobre a sociedade é causa de que a convivência seja em nossos dias tão áspera. El Sol. procura insinuar-se e ser tolerada na sociedade dos homens. Assim foi no tempo de Péricles. Hoje não se compreenderia um fato como o acontecido no século XVII por motivo da beatificação de vários santos espanhóis . dizem. A princípios do século XIII. só na França. O fato foi que a beatificação sofreu uma longa demora pela disputa surgida entre os cardeais sobre quem devia entrar primeiro na oficial beatitude: a dama Cepeda ou os varões jesuítas. NOTAS (1) Veja-se o ensaio do autor intitulado "History as a System". uma bobagem perseguir em nome da moral a brevidade das saias em uso.entre eles. superior nesta ordem de temas às demais. Veja-se o tomo VI das Obras Completas do autor. uma invenção diabólica" (113). Homages to Ernst Cassirer. paradisíacas e moderadas como agora. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. no volume Philosophy and History. 3 de julho de 1927. mais que femininos. (2) É justo dizer que foi na França. sobre a causa de que essa iniciação se malograsse. no Renascimento. Madrid. pois. edição espanhola Historia como sistema. De minha parte procurei colaborar neste esforço de esclarecimento partindo da recente tradição francesa. a uma exibição lúbrica e viciosa. do varão. destronada. "os sermonários não cessam de fulminar contra a longitude exagerada das saias. Provavelmente. no de César. que se tornaram um pouco indolentes. pois. O perigo está verdadeiramente na direção inversa. que são. Em outro lugar achará o leitor alguma indicação sobre isto e. S. Neste encontrará o leitor o desenvolvimento e justificação de tudo que acabo de dizer. A este fim aceita na conversação os temas de preferência dos moços e fala de esportes e de automóveis. (3) Monarchie universelle: deux opuscules.A rebelião das massas. O resultado de minhas reflexões acha-se no livro. 1939 (V. 1942). e quando passa a ronda dos coquetéis bebe como gente grande. nota Luchaire. Francisco Xavier e Santa Teresa de Jesus -. Santo Inácio. O descaro e impudor da mulher contemporânea são. sua retirada do primeiro plano social trouxe o império da descortesia. o descaro e impudor de um rapaz que entrega à intempérie sua carne elástica. Inventora a mulher da "cortesia". É. 36. Porque aconteceu sempre que as épocas masculinas da história.

(8) Se o leitor deseja informar-se. A palavra "resistência". M. de Gasparin que falando o Papa Gregório XVI com o embaixador francês. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.. quer dizer. (6) "La coexistence et le combat de principes divers". uma súbita mudança de sentido e. são absolutamente insuficientes. Broglie. pag. Charles H. 3): "0 mundo europeu se compõe de elementos de origem diversa. Eis aqui uma vez mais a melhor inspiração européia reduzindo a dinamismo tudo que é estático. junto ao nome dos simples burgueses aparecia a abreviatura s. Esta é a origem da palavra snob. Pouthas tomou sobre si a fatigante tarefa de despojar os arquivos de Guizot e oferecer-nos numa série de volumes um material sem o qual seria impossível empreender a ulterior faina de reconstrução. por assim dizer. nob. Sobre Royer-Collard não há nem isso. pág. (4) Oeuvres completes (Calman-Lévy).A rebelião das massas. e embora sejam sumamente vivazes. Guizot. É demasiado evidente que os homens Royer-Collard. 38. (7) Com certa satisfação refere-se Mme. ninguém pode ficar com a consciência tranqüila . em cuja ulterior contraposição e luta vêem precisamente desenvolver-se as mudanças das épocas históricas". Vol. por sua vez. XXII." Oeuvres complètes. 110. que ao aparecer na citação de Ranke documenta o influxo de Guizot sobre este grande historiador. sem nobreza. não eram conservadores à-toa. (10) Por exemplo. 283. de Gasparin. p. Mas os discursos de Royer-Collard são hoje tão pouco lidos que parecerá impertinência se digo que são maravilhosos. mas que variava de um para outro. uma e outra vez. Histoire de La Civilisation en Europe. que sua leitura é uma pura delícia de intelecção.entende-se que tenha "consciência" intelectual . digamos de 1790 a 1830. Não há nada melhor. Em um homem tão diferente de Guizot como Ranke encontramos a mesma idéia: "Logo que na Europa um princípio. 35. encontra sempre uma resistência que se lhe opõe desde os mais profundos seios vitais. dizia aludindo a ele: "E un gran ministro. Como se isto não acontecesse em toda escola intelectual e não constituísse a diferença mais importante entre um grupo de homens e um grupo de gramofones (9) Nestes últimos anos. seja qual for. No fim de tudo é preciso recorrer aos estudos de Faguet sobre o idearium de um e outro. tenta o domínio absoluto. O estado de liberdade surte de uma pluralidade de forças que mutuamente se resistem. Não há nestas palavras de Ranke uma clara influência de Guizot? Um fator que impede ver certos estratos profundos da história do século XIX é que não esteja bem estudado o intercâmbio de idéias entre a França e a Alemanha. 248.htm (128 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . toma. encontrar-se-á. Dicono que non ride mai". Guizot. e que constituem a última manifestação do melhor estilo cartesiano. (Veja-se de Barante: La vie et les discours de Royer-Collard. Talvez o resultado desse estudo revelasse que a Alemanha recebeu nessa época muito mais da França que inversamente. II. com a fórmula ilusória de que os doutrinários não possuíam uma doutrina idêntica. 130). Em outro lugar (tomos 8 e 10. Correspondance avec Mme. Por isso. exibe-nos suas arcanas vísceras quando em um discurso de Royer-Collard lemos: "Les libertés publiques ne sont pas autre chose que des resistences".quando interpretou a política de "resistência" como pura e simplesmente conservadora. pág.. p. que é divertida e até alegre. (5) Na Inglaterra as listas de residências indicavam junto a cada nome o ofício e classe da pessoa.

pág. data aproximada em que Leibniz escrevia isto. mais imprévoyante et superficielle révolution de 1848 eut pour conséquence. (14) Obra fácil e útil que alguém deveria empreender. Oeuvres: 1. Eu colecionei os suficientes para ficar estupefato ante o fato de que tenha havido sempre alguns homens que prevêem o futuro. 106. o trabalho acumulado nas notas por MM. feita em 1829. de donner le pouvoir à l'élement le plus pesant. Renan. Halévy (p.A rebelião das massas. segunda: que os males presentes da Europa são oriundos de regiões mais profundas cronológica e virtualmente do que sói presumir-se.. supondo que foi "honrado e irreprochável ". Bouglé e E. (11) Veja-se o citado ensaio do autor: História como sistema. A origem francesa do coletivismo não é uma casualidade e obedece às mesmas causas que fizeram da França o berço da sociologia e de seu renovo em 1890 (Durkheim). (16) Gesammelte Schriften. (18) "Je trouve même que des opinions approchantes s'insinuant peu à peu dans l'esprit des hommes du grand monde.. B. irreprochable. (17) Histoire de Jacques II. Além de que esta exposição do saint-simonismo. é uma das obras mais geniais do século. 143. notre siècle qui se croit destiné à changer les lois en tout genre. (15) Stuart Mill: La liberté.. Chap.htm (129 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . (22) Veja-se História como sistema. 204. IV. em 1700. (19) ". au bout de moins d'un an. que em 1848 era jovem e simpatizou com aquele movimento. qui réglent les autres et dont dépendent les affaires. era capaz de prever o que aconteceu um século depois. le plus obstinément conservateur de notre pays".. I. le moins clairvoyant. Dupont-White (páginas 131-132). Mas o termo Volksgeist mostra demasiado claramente que é a tradução do voltairiano esprit des nations. trad. Este é um dos casos que mais recomendam o estudo minucioso do intercâmbio intelectual franco-germânico de 1790 a 1830 a que em nota anterior me refiro. XVI. 843. Renan: Questions contemporaines. nota). (21) J. com introdução e notas de C. I." D'Alembert: Discours préliminaire à l'Enciclopédie. Primeira: que um homem. seria reunir os prognósticos que em cada época se fazem sobre o futuro próximo. Carré: La Philosophie de Fontenelle. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.56 (1821). et se glissant dans les livres à la mode disposent toutes choses à la révolution générale dont d'Europe est menacée". O Volksgeist parece-lhes uma de suas idéias mais autóctones. Bouglé e Halévy constitui uma das contribuições mais importantes que eu conheço ao efetivo esclarecimento da alma européia entre 1800 e 1830. (13) Veja-se Doctrine de Saint-Simon. 0 que demonstra duas coisas. 16. vê-se obrigado na sua madureza a fazer algumas reservas benévolas a seu favor. (20) "Cette honnête. Nouveaux Essais sur l'entendement humain. (12) Pretendem os alemães que foram eles os descobridores do social como realidade diferente dos indivíduos e "anterior" a estes.

que agora analiso. Moderno é o que está posto segundo o modo: entende-se o modo novo. o fato de que quase toda a minha obra saiu ao mundo usando a máscara de artigos jornalísticos. (29) Nos cunhos das moedas de Adriano lêem-se coisas como estas: Italia Felix. quel qu'en soit l'âge". mas sim verdade ao pé da letra. começava o despovoamento das campinas. a consciência de uma nova vida.A rebelião das massas. Revista de Occidente. os tomos II e IV de Obras Completas). I. e encontram. respectivamente. enquanto se formavam estas aglomerações. Sans discontinuité le droit positif remonte dans l'histoire jusqu'aux temps immémoriaux. (26) Em meu livro España Invertebrada. (23) Em seu prólogo a sua tradução de La Liberté. 44. num artigo de El Sol. que havia de trazer a diminuição absoluta no número dos habitantes do Império. (25) Veja-se o ensaio Hegel y América. (32) La deshumanización del arte. págs. vejam-se algumas moedas reproduzidas em Rostovtzeff: The social and economic history of the Roman Empire. págs. tradução de José Gaos. Temporum felicitas. À parte o grande repertório numismático de Cohen. 1926. 38/39. e os artigos sobre Los Estados Unidos. não sê-lo eqüivale a cair baixo o nível histórico. 35 do tomo III das Obras Completas). (27) 0 trágico daquele processo é que. Le droit anglais est un droit historique. que se usaram no passado. Tellus stabilita. (28) Veja-se España invertebrada. ocupei-me do tema que o presente ensaio desenvolve. il n'y a pas "d'ancien droit anglais". tradicionais. (30) Não se deixem de ler as maravilhosas páginas de Hegel sobre os tempos satisfeitos em sua Filosofia de la historia. (Vejam-se. Para o "moderno". pag. publicados pouco depois. data de sua primeira publicação como série de artigos no jornal diário El Sol. "aucune barrière entre le présent et le passé. intitulado "Masas" (1926) e em duas conferências dadas na Associação Amigos del Arte. 1928. expressa mui agudamente essa sensação de "altura dos tempos". 1921. Aproveito esta oportunidade para fazer notar aos estrangeiros que generosamente escrevem sobre meus livros. e ao mesmo tempo o imperativo de estar à altura dos tempos. (24) Não é uma simples maneira de falar. a saber. superior à antiga. publicado em 1921. em Buenos Aires (1928). nota 6. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. "modernidade" com que os últimos tempos se batizaram a si mesmos. no direito. A palavra "moderno" expressa. modificação ou moda que em tal presente tenha surgido ante os modos velhos. (Veja-se pág. de Stuart Mill. edição. Lévy-Ullmann: Le système juridique de l'Anglaterre. às vezes. posto que valha na ordem onde a palavra "vigência" tem hoje seu sentido mais imediato. 1a. dificuldades para precisar a data de seu primeiro aparecimento. (Veja-se pág. pois. tomo I. Saeculum aureum. Juridiquement parlant. en Anglaterre tout le droit est actuel. muita parte dela levou muitos anos em atrever-se a ser livro (1946). de modo que surta uma doutrina orgânica sobre o fato mais importante de nosso tempo. Na Inglaterra. Don. lâmina LII e 588. 353 do tomo III de Obras Completas). (31) O sentido original de "moderno". Meu propósito agora é recolher e completar o que eu disse então.htm (130 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . 41 e seguintes.

607 do tomo II de Obras Completas). telégrafo. mas que. a esfera de facilidades e comodidades que sua riqueza podia proporcionar-lhe era muito reduzida. Fez-se a proclamação na praça da vila. vivendi perdere causas. não excluímos a da decadência. certos conselhos negativos. a destruir as causas de sua vida. portanto. o qual consumiu setenta e sete arrobas de vinhos e quatro odres de aguardente. 1916. é quase certo que a maravilha da física atual se perderia para sempre na humanidade. efetivamente. A vida do homem médio é hoje mais fácil. recolhido no tomo VII del El Espectador. hotéis. povoado próximo a Almería. se proclamou rei a Carlos III. Nas Atlântidas aparece sob o nome de horizonte. segurança física e aspirina? (42) Abandonada à sua própria inclinação. sempre haveria duas: essa e sair do mundo. por afã de viver.A rebelião das massas. Jamais o entendimento humano teve como agora maior capacidade de dissociação. seja qual seja. uma utopia abstrata e inane. Veja-se o ensaio El origen deportivo del Estado. careceria de sentido o automóvel. já que não uma orientação positiva. Foi necessária uma preparação de muitos séculos para acomodar o órgão mental à abstrata complicação da teoria física. quer dizer. como de uma habitação a porta. costuma dizer em conversação privada que se morressem subitamente dez ou doze determinadas pessoas. de maior tamanho. a potência do intelecto. já no prólogo de meu primeiro livro: Meditaciones del Quijote. Dissociar idéias custa muito mais que associá-las. (40) Hermann Weyl. cômoda e segura que a do mais poderoso em outro tempo. mas essa infinitude não era um tamanho. o que aconteceu em Nijar. O mundo de Einstein é finito. Não nos dirá o pretérito o que devemos fazer. e quando o mundo parecera reduzido a uma única saída. cujo espírito os acalorou de tal modo. Não que sejamos decadentes. a massa. um dos maiores físicos atuais. Sempre me pareceu uma caricatura engraçada dessa tendência a propter vitam. entretanto. dispostos a admitir toda possibilidade. plebéia ou "aristocrática". além do mais. tende sempre. um mundo mais rico de coisas e. companheiro e continuador de Einstein.htm (131 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . precisamente porque é mortal. que com repetidos "vivas!" se encaminharam ao depósito municipal de trigo e de suas janelas arrojaram o cereal file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas cheio e concreto em todas as partes. como demonstrou Köhler em suas investigações sobre a inteligência dos chimpanzés. que é. Que lhe importa não ser mais rico que outros. (36) 0 mundo de Newton era infinito. necessita triunfar da distância e da tardança. mede-se por sua capacidade de dissociar idéias tradicionalmente inseparáveis. Qualquer evento poderia aniquilar tão prodigiosa possibilidade humana. em 13 de setembro de 1759. (37) A liberdade de espírito. como a totalidade do mundo era pobre. (35) Assim. como cabe receber do passado. quando. (Veja-se a pág. "Depois mandaram trazer de beber a todo aquele grande concurso. mas uma vazia generalização. (33) Precisamente porque o tempo vital do homem é limitado. Para um Deus cuja existência é imortal. se o mundo o é e lhe proporciona magnificas estradas de rodagem. (41) Por muito rico que um indivíduo fosse em relação com os demais. Mas a saída do mundo forma parte deste. (38) Esta é a origem radical dos diagnósticos de decadência. (34) No pior caso. 1926. (39) Veremos. de ferro. mas o que devemos evitar. base da técnica futura.

Entre os demais reinará a mais efusiva unanimidade. É. 156. e o tabaco. pois não restou nelas pão. trigo.as entenda. Dali passaram ao Estanco do Tabaco e mandaram jogar fora o dinheiro da Mesada. pág. C. pelo senhor Manuel Danvila.um estudo sobre ela. nota 2. dá conferências ou escreve. (50) Se alguém em sua discussão conosco se desinteressasse de se ajustar à verdade. e os melhores intencionados as entenderão como simples metáforas. é intelectualmente um bárbaro. o choque com a imbecilidade alheia. pois. ou. citado em Reinado de Carlos III.). Não creio que melhore minha situação ante leitores tão herméticos resumir toda uma maneira de pensar dizendo que o sentido primário e radical da palavra vida aparece quando a empregamos no sentido de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.verdadeiras ou falsas . aniquila-se a si mesmo. entretanto. não há oportunidade para estudar o fato de que tantas vezes apareça na história uma "nobreza de sangue". tomo II. Só algum leitor bastante ingênuo para não crer que sabe já definitivamente o que é a vida. para mais autorizar a função.parece-me . 35 do tomo III de O. O Estado eclesiástico concorreu com igual eficácia. (Veja-se pág.) (47) Sobre a indocilidade das massas. que exclui a herança. Fica. o que não é. em El Espectador. (51) Não é preciso dizer que quase ninguém levará a sério estas expressões.cevada. Este povoado. talvez comoventes. que nele havia e 900 reais de suas caixas. pelo contrário. caçarolas. intacta esta questão. especialmente das espanholas. (Veja-se página 607 do tomo II de O. o que executaram com o maior desinteresse. (44) Veja-se España invertebrada (1922). e os outros. essa é a posição do homem-massa quando fala. (45) Como no anterior trata-se só de retrotrazer o vocábulo "nobreza" a seu sentido primordial. pois em altas vozes induziram as mulheres a sacudir fora o que havia nas suas casas. que não se tenha tentado nunca . 35 do tomo III de O. pág. C. C. pratos. quantos gêneros líquidos e comestíveis havia nelas. (Veja-se pag. e ao dito ali remeto-me.A rebelião das massas. almofarizes. falando a sério. mandando derramar. Admirável Nijar! Teu é o porvir! (43) É intelectualmente massa aquele que ante um problema qualquer se contenta com pensar o que boamente encontra em sua cabeça. e só aceita como digno dele aquilo que está acima dele e exige um novo estirão para alcançá-lo. De fato. egrégio aquele que desestima o que acha sem prévio esforço em sua mente. 10. se não tem vontade de ser verídico. farinha. ficando a vila destruída: Segundo um papel do tempo em poder do senhor Sánchez de Toca. vida é o processo existencial de uma alma. pelo menos. para viver sua alegria monárquica. já falei em España invertebrada (1922). tomo VII. nem cadeiras. morteiros.htm (132 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que é uma sucessão de reações químicas.) (48) Muitas vezes levantei de mim para mim a seguinte questão: é indubitável que sempre teve de ser para muitos homens um dos tormentos mais angustiosos de sua vida o contacto. Como é possível. com esta única diferença: uns pensarão que. (46) Veja-se El origen deportivo del Estado. um ensaio sobre a imbecilidade? (49) Não se pretenda escamotear a questão: todo opinar é teorizar. se deixará ganhar pelo sentido primário destas frases e será precisamente quem . Nas lojas fizeram o mesmo.

"O paradoxo do selvagismo". não quero dizer que renuncie a uma plena liberdade diante desse próprio liberalismo. Não tem. No século XIX file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. uma claríssima obrigação de toda "época crítica". é o que em sua vida (biografável) fazem os biólogos.htm (133 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Claro que não se deve entender restauração como simples "volta ao antigo". a democracia liberal e a técnica se implicam e inter-supõem por sua vez tão estreitamente que não é concebível uma sem a outra. (56) Aristóteles: Metafísica. (59) Uma geração atua em média durante trinta anos. (58) Já aqui entrevemos a diferença entre o estado das ciências de uma época e o estado de sua cultura. dia a dia cumpre com fabulosos acréscimos quanto promete e mais do que promete. É um caso particular da desproporção que mais adiante aponto entre a complexidade dos problemas atuais e a capacidade das mentes. (52) Esta folga de movimentos ante o passado não é. os quais. C. Veja-se o que. não diz nada quem supõe haver dito algo definindo a América do Norte por sua "técnica". que daqui a pouco ocupará a nossa atenção.se acham efetivamente e por si mesmos em crise. Mas essa atuação divide-se em duas etapas e toma duas formas: durante a primeira metade . finalmente. em. (57) Centuplica a monstruosidade do fato que . (Página 281 do tomo II de O. e em certo sentido.todos os demais princípios vitais política. Mas a geração educada sob seu império traz consigo outras idéias. arte. Se eu defendo o liberalismo do século XIX contra as massas que incivilmente o atacam. e. tomo III. com a sobra. mais genérico. a nova geração faz a propaganda de suas idéias. mas. preferências e gostos. fantasia e mito. pelo contrário. por outra parte. pelo menos. concorrência. religião .A rebelião das massas. pois. e por isso revolucionários. A maior parte dos investigadores mesmos não têm hoje a mais leve suspeita da gravíssima. fora desejável um terceiro nome. Pela fortíssima razão de que toda biologia é em definitivo só um capítulo de certas biografias. e ainda a abundância de meios. condição de todo grande avanço histórico.como indiquei . portanto. preferências e gostos da geração imperante são extremistas. que incluísse ambas.aproximadamente . Quando as idéias. transitória falha. Vice-versa: o primitivismo que neste ensaio aparece sob seu pior aspecto é. pelo contrário. Só a ciência não falha. não há poucos anos. que começa a injetar no ar público. direito. Uma das coisas que perturbam mais gravemente a consciência européia é o conjunto de juízos pueris sobre a América do Norte que se ouvem expendidos até pelas pessoas mais cultas. a meu juízo. adquirem vigência e são o dominante na segunda metade de sua carreira. perigosíssima crise íntima que hoje atravessa sua ciência. El Espectador.) (53) Daí que. (54) A rigor. uma petulante rebeldia.desse período. de alma substancialmente restauradora. moral. o que jamais foram as restaurações. dizia eu sobre isto no ensaio "Biologia e Pedagogia". o substantivo da última centúria. (60) Não se confunda o aumento. não cabe desculpar o desapego por ela supondo o homem médio distraído por algum outro entusiasmo de cultura. Outra coisa é abstração. 893 a 10. pois. biografia e não no de biologia. preferências e gostos. a nova geração é anti-extremista e anti-revolucionária. Esse seria o verdadeiro nome. quer dizer. (55) Não falemos de questões mais internas.

(64) Quem crê copernicamente que o sol não cai no horizonte. mas não se refere a ele a censura radical que dirijo ao homem-massa de nosso tempo. (61) Nisto. a aristocracia inglesa parece uma exceção do dito. O que acontece é que sua crença científica detém. a nobreza inglesa tem sido a menos "sobrada" da Europa e tem vivido em mais constante perigo que nenhuma outra. autêntica crença liberal. posto em relação com a capacidade do homem médio. Esquece-se o dado fundamental de que a Inglaterra tem sido. é-o em escala maior a nação ante o conjunto das nações. excessivamente rico. O católico não é autêntico em uma parte de seu ser . este católico nega com sua crença dogmática. constantemente. Apenas um exemplo disto: a segurança que parecia oferecer o progresso (aumento sempre crescente de vantagens vitais) desmoralizou o homem médio. Assim. o ser seu caso admirabilíssimo.quantitativo e qualitativo da própria vida como apontei acima. O envilecido é o suicida sobrevivente. O "mocinho satisfeito".htm (134 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A nobreza salvou-se por isso mesmo. até mui avançado o século XVIII. bastaria desenhar as linhas gerais da história britânica para patentear que esta exceção. por outra parte. não é mister que os filósofos imperem . é evidente. aumentavam as facilidades de vida. não é outra coisa senão o modo de vida que resta a quem se negou a ser o que tem que ser. ao "mocinho satisfeito". (66) Para que a filosofia impere. e como o ver implica uma convicção primária. acanalhamento. (65) Envilecimento. (63) 0 que é a casa ante a sociedade. E porque tem vivido sempre em perigo soube e conseguiu sempre fazer-se respeitar . supérfluo. o país mais pobre do Ocidente. embora o seja. que lhe faz sentir constantemente a inferioridade da existência que leva a respeito da que tinha que levar.ignóbil no continente -. que sinto asco pela sujeição beata à internacionalidade.A rebelião das massas. Mas ainda esta coincidência parcial é só aparente. mas converte-se em sombra acusadora. queira ou não. isto é. mais claras e volumosas do "senhoritismo" vigente é. continua crendo.precisamente para escapulir a toda tragédia. E eu.tudo que tem. a ocupação comercial e industrial . Contra o que sói dizer-se. E ao aceitar essa porção de inautenticidade cumpre com seu dever. teve de aceitar. grotesco esse transitório "senhoritismo" das nações menos gradas. como em outras coisas. acho. viciosa. de homem moderno . como veremos.como Platão quis primeiro -. continua vendo-o cair. a decisão que algumas nações tomaram de "fazer o que está na sua vontade" na convivência internacional. Mas chegou um momento em que o mundo civilizado.porque quer ser fiel a outra parte efetiva de seu ser que é sua fé religiosa. Este seu autêntico ser não morre por isso. os efeitos de sua crença primária ou espontânea. (62) Veja-se Olbricht: Klima und Entwicklung. e isso produz o prodigioso crescimento . adquiria um aspecto demasiado. Esta alusão ao caso desse católico vai aqui só como exemplo para esclarecer a idéia que agora exponho. pelo contrário. ao mesmo tempo. Isto significa que o destino desse católico é em si mesmo trágico. confirma a regra. A isso chamam ingenuamente "nacionalismo". e a não ater-se aos privilégios. 1923. deserta de si mesmo por mera frivolidade e de tudo . Mas. Uma das manifestações. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em fantasma. inspirando-lhe uma confiança que é já falsa. Coincide com este só num ponto. sua própria. O que lanço em rosto ao "mocinho satisfeito" é a falta de autenticidade em quase todo o seu ser. decidiu-se muito cedo a viver economicamente em forma criadora. Como não era abundante de meios.o que supõe haver permanecido sem descanso na brecha -. atrófica.

) (75) Seria interessante mostrar como na Catalunha colaboram duas inspirações antagônicas: o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de O. nem sequer que os imperadores filosofem .A rebelião das massas. Contra o que se crê. mas de burgueses. Porque esta. C. basta que haja filosofia. menos isso . basta que os filósofos sejam filósofos. a "razão naturalista". Fica. o Estado absoluto respeita instintivamente a sociedade muito mais que o nosso Estado democrático. mais inteligente. são literatos ou são homens de ciência. Como se explica isto? Já a sociedade em torno começava a crescer. do autor. melhor organizados economicamente. Mas não basta isso. 1930. quer dizer.. burocrática. raciocinar consiste em fluidificar todo fato descobrindo sua gênese. Para que a filosofia impere. (Veja-se pag. (72) Veja-se o ensaio "Hegel y América" em El Espectador. edição.) (73) Veja-se o ensaio Sobre la muerte de Roma. (69) Mereceria a pena insistir sobre este ponto e fazer notar que a época das Monarquias absolutas européias operou com Estados muito débeis. o ensaio Historia como sistema (R. 40. não se fazia mais forte? Uma das causas é a apontada: incapacidade técnica. (67) Veja-se España invertebrada. Tomo VII. Ainda assim. A pólvora é conhecida de tempo imemorial. mais modestamente. Sua força primária consistiu na nova disciplina e na nova racionalização da tática. demonstrando com isso que é menos razoável que a "razão histórica". são pedagogos. profissional.era "absoluto" -.são políticos. edição). mas claro é que sua verdade simbólica e esquemática requer não poucos aditamentos para ser completamente verdadeira. Há quase uma centúria os filósofos são tudo. (68) Esta imagem simples da grande mudança histórica em que se substitui a supremacia dos nobres pelo predomínio dos burgueses deve-se a Ranke. C. (Veja-se o tomo VI de O. Ambas as coisas são. C. 1921. pág. Veja-se. que formaram os suíços. não representados pelo exército de tipo medieval dos borguinhãos. Por que. depois -. como literalmente certo que os nobres foram derrotados de maneira definitiva pelo novo exército. 2a. Além disso aconteceu no Estado absoluto que aquelas aristocracias não quiseram ampliar o Estado à custa da sociedade. funestíssimas. 537 do tomo II de O. (70) Recordem-se as últimas palavras de Septimio Severo a seus filhos: Permanecei unidos. (Veja-se pág. não foi eficaz até que se inventou a bala fundida. A invenção da carga num tubo deveu-se a alguém da Lombardia. Para ela.htm (135 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . 1a. pagai ao soldado e desprezai o resto.) (74) Isto é o que faz a razão física e biológica. siècle (tomo I. 1927. nega-se a reconhecer como absoluto nenhum fato. puderam empregá-la em grande escala. das aristocracias de sangue. se o Estado tudo podia . 35 do tomo III das Obras Completas). racionalizadora. Só os exércitos burgueses. a rigor. 1912). 563 do tomo II de O. não obstante.como quis. mas com menos sentido da responsabilidade histórica. em El Espectador. quando trata a fundo das coisas e não de soslaio como nestas páginas. Os "nobres" usaram em pequenas doses a arma de fogo mas era demasiado cara. (Veja-se pág. Tomo VI. (71) Veja-se Elie Halévy: Histoire du peuple anglais au XIXe.

sedes aratorum.se achará no tratado sociológico do autor intitulado El Hombre y la Gente.htm (136 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Como é sabido. enquanto nós deixamos maior autonomia ao futuro. em que pervive sempre a tendência do velho homem mediterrâneo. C. Eu já disse outra vez que o levantino é o resto do homo antiquus que há na Península. 1918. 1930. mas especificamente internacionais. por outro tem idéias sobre si mesmo que coincidem mais ou menos com sua autêntica realidade. relativamente aberto. (Veja-se página 607 do tomo II de O. mas aquele submete o futuro ao regime do passado. não podem anular nosso verdadeiro ser. nem todos os alemães alto-alemão. O antigo e o europeu estão igualmente preocupados com o porvir. César. Chamavam-nas "faute de mieux". Até hoje. "moderno" quer dizer o novo. ao novo como tal este antagonismo. (76) Homogeneidade jurídica que não implica forçosamente centralismo. que não são linguagens nacionais. aspirou a instaurar. e este. nacionalismo europeu e o cidadanismo de Barcelona. por mui denso que fosse o casario. Pois a conseqüência é que esta concessão foi feita precisamente à medida que ia perdendo seu caráter de estatuto político. De uma civilização em que a escravidão tinha valor de princípio não se podia esperar outra coisa. (78) Veja-se do autor "El origen deportivo del Estado".A rebelião das massas. Já nos fins do século XW começa-se a sublinhar a modernidade. o melhor livro sobre o assunto é o de Eduardo Meyer: La Monarquia de César y el Principado de Pompeyo. Augusto opera no sentido de Pompeu. (80) Os romanos não se resolveram a chamar cidades às povoações dos bárbaros. pois. para se converter ou em simples carga e serviço do Estado ou em mero título de direito civil. tomo VII. (84) Confirma isto o que a primeira vista parece controvertê-lo: a concessão da cidadania a todos os habitantes do Império. mas sim complicá-lo ou modulá-lo. (81) Sabido é que o Império de Augusto é o contrário do que seu pai adotivo.) (79) Veja-se Dopsch: Fundamentos económicos y sociales de la civilización europea. o ser humano tem irremediavelmente uma constituição futurista. Segunda edição 1924. Para nossas "nações". Não obstante. Evidentemente. toda política .a "boa" como a má . Há. justifica que qualifiquemos o europeu de futurista e o antigo de arcaizante. (82) Nem sequer como puro fato é verdade que todos os espanhóis falem espanhol. os casos de Koinón e língua franca. Surge essa aparência quando se esquece que o homem é um ente de dois andares: por um lado é o que é. nem todos os ingleses inglês. vive antes de tudo no futuro e do futuro. não no ser. nossas idéias. dos inimigos de César. preferências. foi a escravidão um simples fato residual. dizendo que aquele é relativamente fechado ao futuro. quer dizer. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. (77) 0 sentido desta abrupta asseveração supõe que uma idéia clara sobre o que é a política. (83) Ficam fora. o que nega o uso antigo. aparente contradição entre uma e outra tese. pelo contrário. (85) Segundo isso. mas no preferir. tomo II páginas 3 e 4. desejos. É revelador que apenas o europeu desperta e toma posse de si. começa a chamar a sua vida "época moderna". está claro. eu contrapus o homem antigo ao europeu. em El Espectador.

com bom acordo. obrigados a desenvolver e executar os desatinos daqueles políticos. (94) A sociedade européia não é. nesta obra. que tão freqüentemente fazem sua cômica aparição nas cartas ao diretor de The Times.A rebelião das massas. os europeus. constitutiva. (97) Ficam fora da consideração os que podemos chamar de "inventos elementais" . vamos ver se a Inglaterra acerta a manter em unidade soberana de convivência as diferentes porções de seu Império. e fala-se. etc. Na medida em que as massas se distanciam destas aumenta o arcaísmo da sociedade.htm (137 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . seus membros são homens. (86) 0 princípio das nacionalidades é.fins do século XVIII. (87) Agora vamos assistir a um exemplo gigantesco e claro. propondo-lhe um programa atrativo. um dos primeiros sintomas do romanticismo . espanhóis. (92) Os ingleses. a saber. alemães. contempladas de outra perspectiva. uma sociedade cujos membros sejam as nações. -. (96) Há cento e cinqüenta anos a Inglaterra fertiliza sua política internacional mobilizando sempre que lhe convém e só quando lhe convém . conclui-se que é muito difícil encontrar alguma que merecesse então. por exemplo. (88) Se bem essa homogeneidade respeita e não anula a pluralidade de condições originárias. indivíduos humanos. precisamente nas questões que mais agudamente interessavam ao tempo. aos "experts" e aos técnicos. Precisamente por ser o suposto de todos os demais e haver sido conseguidos em períodos milenares. (90) Estas páginas foram publicadas no número de junho de 1937 na revista The Nineteenth Century. pois. passa a ser um caráter patológico. estimação intelectual. o fogo. é muito difícil sua comparação com a massa dos inventos derivados ou históricos. "mulheres e crianças. é claro. e de uma magnitude normal. preferiram chamá-la de "liga". situa a agrupação de Estados fora do direito. uma espécie de vanguardismo na "mística teologia". (95) Por exemplo: as apelações a um suposto "mundo civilizado" ou a uma "consciência moral do mundo". mas. e todo o coletivo ou social é arcaico relativamente à vida pessoal das minorias inventoras.o machado. É esta um fenômeno coletivo. ao mesmo tempo. (93) Sobre a unidade e a pluralidade da Europa. a vasilha. Isso evita o equívoco. Como em toda autêntica sociedade. e muito menos mereça agora. de devotio moderna. (91) Certa dose de anacronismo é conatural à política. eis ai um exemplo. Se se repassa a lista das pessoas que intervieram na criação da Sociedade das Nações. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o canastro. como de laboratório. veja-se o Prólogo para franceses. que além de ser europeus são ingleses. cronologicamente. consignando-a francamente à política.o princípio melodramático de "women and children". a roda. (89) Bastaria isso para se convencer de uma vez para sempre que o socialismo de Marx e o bolchevismo são dois fenômenos históricos que apenas têm alguma dimensão comum. Não me refiro.

etc. (100) Os perigos maiores que como nuvens negras ainda se amontoam no horizonte. a meu juízo. qualquer que seja sua operosidade e sua imparcialidade.htm (138 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mudanças políticas. (98) Acrescente-se que nessas opiniões jogavam sempre grande papel as vigências comuns a todo Ocidente. um que só falam os homens e o outro só para as mulheres. Mas todo o raciocínio do artigo que mobiliza e dá um sentido a esses dados minuciosos e a essas cifras exatas.500 a 1. o triunfo ao combatente. (107) Um exemplo destes combates em que a vitória efetiva não deu. ou que viver é ser jovem. ou que na juventude culmina a vida. com efeito. se não se supõe em épocas muito primitivas uma etapa de enorme predomínio dos jovens que deixou. sem embargo. um fator que colabora nestas mudanças como em todos os do organismo vivo. o triunfo foi gozado pelos que não combateram nunca esse regime enquanto foi file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de se embotar para um estímulo. não contradiz o dito agora. Mas não mostram nenhuma pressa. (103) Há. Mas isto vale para um conceito mais minucioso de juventude que o habitualmente usado e ao qual este ensaio se acolhe. pode ser visto na ordem pública. Os que combateram e em realidade venceram a velha política pseudo-parlamentária.600). Londres. A vida tem a condição inexorável de se cansar. (102) Até o ponto de existir em certos povos primitivos dois idiomas. e ao mesmo tempo. como de coisa sabida e que tudo explica. é absolutamente incapaz de informar sobre a realidade da vida espanhola. mas do econômico. (101) Tradução inglesa do presente livro. Se no estilo pictórico as figuras aparecem em posição vertical. entre elas o Estado. as conseqüências que trouxe para a vida romana. É o contraste. mas resisto a considerá-lo decisivo. sem dúvida. muitos vestígios positivos nos povos selvagens do presente. Porque o paralelismo com o momento presente da Espanha é surpreendente e luminoso. por razões de curioso espelhismo histórico.. (106) Do ponto de vista mais geral. (104) Não se explica. reabilitar-se para o estímulo oposto. (105) Quem quisesse contar-nos com algum detalhe a guerra de Numância. (99) Neste mês de abril. Basta isso para demonstrar que esse correspondente. reforma das instituições. faria uma boa obra. tem sentido dizer que a vida não é senão juventude. foram os "intelectuais" dessa geração. entretanto. e o resto é desviver. Até que ponto é inevitável uma pavorosa catástrofe econômica em todo o mundo? Os economistas deviam dar-nos ocasião para que cobrássemos confiança em seu diagnóstico. que. a origem de certas coisas humanas. É evidente que uma nova técnica de mútuo conhecimento entre os povos reclama uma reforma profunda da fauna jornalística. E.A rebelião das massas. George Allen & Unwin. o correspondente de The Times em Barcelona envia a seu jornal uma informação onde procura os dados mais minuciosos e as cifras mais exatas para descrever a situação. não provêem diretamente do quadrante político. parte de supor. portanto. o haver sido nossos antepassados os mouros. é sumamente provável que pouco tempo depois surgirá outro estilo com as figuras em posição diagonal (mudança da pintura italiana de 1.

htm (139 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de Fra Salimbene (Parma. (109) Tenho idéia de que Freud se ocupa minuciosamente deste fato. Simplesmente porque os franceses entendem de literatura. (113) Achille Luchaire. páginas 94/102). na França tem o escritor um formidável poder social. mas com alguma probabilidade dirijo o leitor à que então se intitulava Três ensaios sobre teoria sexual. 376. (108) 0 dia que se faça em sério a história do último século. (112) Por isto a estimação do escritor na Espanha é sempre falsa e a rigor mais obra da boa vontade que de sincero entusiasmo. pág. poderoso. diz o trovador Giraud de Bornelh. não recordo bem em que obra trata o assunto. ver-se-á que essa geração é a efetivamente culpada do desajuste atual da Europa.A rebelião das massas. Como fazem dezesseis anos que li esse autor. Pelo contrário. 1957. La société française au temps de Philippe Auguste. (110) Veja-se a Cronaca. (111) "Só para louvar as damas".

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