A rebelião das massas.

Copyright Autor: José Ortega y Gasset Tradutor: Herrera Filho Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org)

A REBELIÃO DAS MASSAS
Jose Ortega y Gasset

ÍNDICE

Apresentação Biografia do autor PRÓLOGO PARA FRANCESES PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I - O fato das aglomerações II - A ascensão do nível histórico III - A altura dos tempos IV - O crescimento da vida V - Um dado estatístico VI - Começa a dissecação do homem-massa

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A rebelião das massas. VII - Vida nobre e vida vulgar, ou esforço e inércia VIII - Porque as massas intervêm em tudo e porque só intervêm violentamente IX - Primitivismo e técnica X - Primitivismo e história XI - A época do "mocinho satisfeito" XII - A barbárie do "especialismo" XIII - O maior perigo, o Estado SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV - Quem manda no mundo? XV - Desemboca-se na verdadeira questão EPÍLOGO PARA INGLESES Quanto ao pacifismo DINÂMICA DO TEMPO As vitrinas mandam Juventude Masculino ou feminino? NOTAS

APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia

"A Rebelião das Massas", obra prima de José Ortega y Gasset, começou a ser publicado em 1926 num jornal madrilenho ("El Sol"). Retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Não se refere às classes sociais mas às multidões e aglomerações. Tendo esse contexto como pano de fundo, Ortega discute temas, aparentemente contrários

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A rebelião das massas.

entre si, mas que se fundem (ou devem fundir-se) numa unidade de sentido. É assim que contrapõe individualismo e submissão ao coletivo; comunidade, nação e estado; história, presente e porvir; homens cultos e especialistas; poder arbitrário e respeito à opinião pública; juventude e velhice; guerra e pacifismo; masculino e feminino. São tópicos que, inevitavelmente, nos induzem à reflexão crítica. Em alguns casos são apresentados de forma extremamente provocativa. Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e afirma: "É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules." Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam um certo desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se masculinizando: "A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil, uma espécie de atleta com seios. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX, quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura, extrema feminilidade. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista, e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita." Sobre a guerra, chega a afirmar: "O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida." Sua interpretação do modelo escravista é bastante sugestiva: "Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor." São essas aparentes contradições que estimulam nosso espírito crítico. Ortega defendeu suas concepções com vigor, fundamentos sólidos e uma lógica irreprensível. Em poucos momentos foi totalmente conclusivo, mas deixou uma enorme abertura para que possamos repensar as idéias que defendeu em seus dias, adaptando-as ao nosso tempo e ao que viveremos no futuro.

BIOGRAFIA DO AUTOR

José Ortega y Gasset nasceu em Madrid, a 9 de maio de 1883. A família de sua mãe era
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Buscando uma formação intelectual mais sólida continuou seus estudos em Marburgo. Nossa época é dessa classe porque é de descidas e quedas. e o assunto de que trata é demasiado humano para que pudesse escapar à ação do tempo." A partir de 1910 iniciou uma vida pública repartida entre a docência universitária e atividades políticas e culturais extra acadêmicas. Ortega decidiu andar pelo mundo."Rebelión de las masas". Holanda.) Com grande esforço.htm (4 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . não poucas de suas fórmulas chegaram ao leitor francês por vias file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Além disso. Terminando os estudos em Málaga iniciou seus estudos universitários em Deusto e depois na Universidade de Madrid. "Que és filosofia?". "Historia como sistema". Argentina.. Há sobretudo épocas em que a realidade humana.data. as mais polêmicas das quais foram: "Meditaciones del Quijote". ao mesmo tempo. Ortega. viajando à França. PRÓLOGO PARA FRANCESES I Este livro . "Obras Completas". reagiu contra os tênues fundamentos da ciência adquirida. formulando um projeto pessoal de reforma da filosofia européia. sempre instável.supondo que seja um livro . em julho de 1936. Daí que os fatos ultrapassaram o livro.. Grande parte de seus escritos filosóficos foram produzidos a partir do contato com a imprensa. proprietária do jornal madrilenho "El Imparcial" e seu pai jornalista e diretor desse mesmo diário. Começou a ser publicado num jornal madrilenho em 1926. Com o início da guerra civil espanhola. Portugal. Faleceu em Madrid no dia 18 de outubro de 1955. onde prevalecia o neokantismo. além de considerado um dos maiores filósofos da língua espanhola também é lembrado como uma das maiores figuras do jornalismo espanhol do século XX. onde se doutorou em Filosofia. consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei de sua influência atmosférica. como este livro circulou muito durante estes anos fora da França. Suas obras se revestem de um caráter extremamente crítico.. Tendo adquirido as primeiras letras em Madrid foi enviado a cursar o bacharelado em um colégio jesuíta de Málaga.A rebelião das massas. Muito do que nele se enuncia foi logo um presente e já é um passado. países onde proferiu inúmeras conferências. na Alemanha. se precipita em velocidade vertiginosa. "En torno a Galileo". minha casa e minha prisão (. que se refletiu na afirmação: "Durante dez anos vivi no mundo do pensamento kantiano: eu o respirei com a uma atmosfera que foi.. Embora reconhecendo o valor da educação jesuítica recebida. Essa relação com o jornalismo foi essencial para o desenvolvimento de sua formação intelectual e seu estilo de expressão literária. Acabou por adotar uma atitude crítica em relação aos seus mestres e a Kant. Foi também co-fundador do diário "El Sol" e fundador e diretor da "Revista de Occidente".

que não entre na sua leitura com ilusões injustificadas. isso é o ilusório. e que. Apenas. tanto mais aumenta sua imprecisão. o engano vem a ser um humilde parasita da ingenuidade. isto faz porque crê que vai poder dizer tudo que pensa. habitualmente. que se trata simplesmente de uma série de artigos publicados num jornal madrilenho de grande circulação. produz funestos resultados. estando condenado à radical solidão. já ao falar de física começa a ser equívoco e insuficiente. Esquece-se demasiadamente que todo autêntico dizer não só diz algo. mais humanos. mais "reais". mas me fizeram ver que o organismo das idéias enunciadas nestas páginas não corresponde ao leitor francês. Ao contrário. Assim esta. No final das contas. não usamos estas reservas. dizemos e ouvimos com tão boa fé que acabamos muitas vezes por não nos entendermos. Não posso esperar melhor sorte quando estou persuadido de que falar é uma operação muito mais ilusória do que se supõe. pois. com suficiente justeza. Conste. A linguagem é por essência diálogo. Por isso eu creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente. sua inépcia e seu confusionismo. acertada ou erroneamente. pois. é irônica. e todas as outras formas do falar destituem sua eficácia. Não. como diz alguém a alguém. mas tampouco nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem impossível entender-se com seus semelhantes. Mas. A mentira seria impossível se o falar primário e normal não fosse sincero. em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente seu leitor e este percebe como se dentre as linhas saísse u'a mão ectoplástica que tateia sua pessoa. Duo si idem dicunt non est idem. mas não há motivo para formalismo. Porque ela mesma não nos assegura que mediante a linguagem possamos manifestar. A moeda falsa circula apoiada na verdadeira. se é verídica. Em todo dizer há um emissor e um receptor. Porém quanto mais a conversação se ocupa de temas mais importantes que esses. os quais não são indiferentes ao significado das palavras. Como quase tudo que escrevi. mudos. que quer acariciá-la . O de menos é que a linguagem sirva também para ocultar nossos pensamentos. Este varia quando aquelas variam. Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. Serve bastantemente para enunciados e provas matemáticas. como quase tudo que o homem faz. para mentir. muito mais do que se. o abuso aqui file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Diz. Todo vocábulo é ocasional (l).htm (5 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e quando não a interpretamos assim. Não se arrisca a tanto. procurássemos adivinhar-nos. esgota-se em esforços para chegar ao próximo. certamente. Como em tantas outras coisas. Eu fiz tudo que me foi possível em tal sentido . quando o homem se põe a falar. Desses esforços é a linguagem que consegue às vezes declarar com maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós. estas foram páginas escritas para uns quantos espanhóis que o destino colocou à minha frente. Mas uma definição. consigam dizer aos franceses o que elas pretendem exprimir. entretanto. mudando agora de destinatário. Dóceis ao prejuízo inveterado de que falando nos entendemos. A linguagem não dá para tanto. anônimas e são puro lugar comum. Não estou convencido disso. seria útil submetê-lo a sua meditação e a sua crítica. dar-lhe um murro. mui cortesmente. encerra tácitas reservas.A rebelião das massas. Não é sobremodo improvável que minhas palavras. mais ou menos. Importa-me. o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista com que costumamos escutá-la. Pois bem. Definimos a linguagem como o meio de que nos servimos para manifestar nossos pensamentos. uma parte do que pensamos e põe uma barreira infranqueável à transfusão do resto. Teria sido.ou bem. excelente ocasião para praticar a obra de caridade mais adequada a nosso tempo: não publicar livros supérfluos. todos os nossos pensamentos.vai para cinco anos a Casa Stock me propôs a sua versão -.

por seu ofício. e. que não escrevi nem falei à Mesopotâmia. realmente. e nunca me dirigi à Humanidade. Desde o aparecimento deste livro. atarracado. dizia: "L'Anglaterre! Ah. sem insistir demasiado sobre a realidade do fato. consistiu no uso sem preocupação. a todos e a ninguém. Mas agora esse expediente não serve de nada. virando os olhos. podia parecer invalidada pelo fato mesmo de que este volume tenha encontrado leitores em quase todas as línguas da Europa. Os representantes das nações adiantavam-se ao público e apresentavam sua homenagem ao vate da França. anunciava-os: "Monsieur le Représentant de l'Anglaterre!" E Victor Hugo. Suas pupilas. Há quase dois séculos que se acredita que falar era falar urbi et orbi. sem a solenidade de Victor Hugo. pela mecânica que nele mesmo se descreve. sem perceberem que a palavra é um sacramento de mui delicada administração. o que em cada país é sentido como circunstância dolorosa. Contam. em solene atitude de estátua. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo. O porteiro exclamou: "Monsieur le Représentant de la Mésopotamie!" Victor Hugo. multiplica ao infinito seu efeito deprimente quando quem o sofre adverte que apenas há lugar no continente onde não aconteça estritamente o mesmo. sem consciência da limitação do instrumento. Mas logo se viu que o achara e que recobrara o domínio da situação. Cervantes!" O porteiro: "Monsieur le Représentant de L'Allemagne!" E Victor Hugo: "L'Allemagne! Ah. pareceu vacilar. que até então permanecera impertérrito e seguro de si mesmo. ignorantes de seus próprios limites e que sendo. a mais desprezível da demagogia. foi adotada até 1750 por intelectuais desajustados. fizeram um grande giro circular como procurando em todo o cosmos algo que não encontrava. do logos. II Esta tese que sustenta a exiguidade do raio de ação eficazmente concedido à palavra. Eu creio. Goethe!" Mas então chegou a vez de um senhor baixo. com voz estentórica. Um porteiro. da qual participaram. porque em outro país a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. todavia.A rebelião das massas. Shakespeare!" O porteiro continuou: "Monsieur le Représentant de l'Espagne"! E Victor Hugo: "L'Espagne! Ah. Digo angustioso porque. representações de todas as nações. essa identidade cresceu de modo angustioso. que quando se celebrou o jubileu de Victor Hugo foi organizada uma grande festa no palácio do Elíseo. de outra grave coisa: da pavorosa homogeneidade de situações em que vai caindo todo o Ocidente. respondeu à homenagem do rotundo senhor dizendo: "La Mésopotamie! Ah. isto é. L'Humanité!" Contei isso a fim de declarar. O grande poeta achava-se na grande sala de recepção. com o mesmo tom patético. Esse costume de falar para a Humanidade. ansiosas. que é a forma mais sublime. os homens do dizer. usaram dele sem respeito e precauções. balofo e de andar desgracioso. levando suas homenagens. com voz de dramático trêmulo. Outrora podia ventilar-se a atmosfera confinada de um país abrindo-se as janelas que dão para outro.htm (6 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . com a mesma convicção. portanto. Efetivamente. que este fato é de preferência sintoma de outra coisa. com o cotovelo apoiado no rebordo de uma chaminé.

E é que para esses povos chamados europeus. a ciência e o princípio unitário do homem como "razão pura" cria os distintos estilos intelectuais que modelam diferencialmente até as extremas abstrações da obra matemática. viver sempre foi . caracterizou-se sempre por uma forma dual de vida. todo acordo de vontades pressupõe a existência de uma sociedade. entretanto.não as idéias sobre ele do filósofo. direito. entre eles ou sobre eles se ia criando um repertório de idéias. pergunta a seus amigos. Isto é.ter uma idéia muito confusa do que é o direito. Job. a lembrança do Imperium romano inspira as diversas formas do Estado. Daí a sensação opressora de asfixia. línguas. e o acordo não pode consistir senão em precisar uma ou outra forma dessa convivência. Esta convivência tomava indiferentemente aspecto pacífico ou combativo. e são verdadeiros certames. todos vão ao mesmo. convivência e sociedade são termos equivalentes. a "restauração das letras" no século XV impele as literaturas divergentes. Um pouco de outro modo. que é. O espaço histórico a que aludo mede-se pelo raio de efetiva e prolongada convivência . tem sido confundir a sociedade com a associação. Ora. Uma sociedade não se constitui do acordo das vontades. Um dos mais graves erros do pensamento "moderno". os viajores e mercadores que rodaram pelo mundo: Unde sapientia venit et quis est locus intelligentiae? "Sabeis de algum lugar do mundo onde a inteligência exista?" Convém. de pessoas que convivem.perdoe-se-me a insolência . dessa sociedade preexistente. A idéia da sociedade como reunião contratual. Eadem sed aliter.mover-se e atuar em um espaço ou âmbito comum. É de somenos importância que a esse espaço histórico comum. produz o efeito de despertar romanticamente a consciência diferencial das nacionalidades. Querer que o direito reja as relações entre seres que previamente não vivem em efetiva sociedade. aproximadamente. lutas de emulação. parece-me .htm (7 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . usos. secreção espontânea da sociedade e não pode ser outra coisa. há de entender-se com certo superlativo de paradoxo. De sua essência e inelutavelmente esta segrega costumes. Pelo contrário: cada novo princípio uniforme fertilizava a diversificação. Este destino que os fazia. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. desde Óton III . Ao contrário. o contrário daquela.A rebelião das massas. a par. a realidade "direito" . é o mais insensato ensaio que se fez de pôr o carro adiante dos bois. Finalmente e para cúmulo: até a extravagante idéia do século XVIII. Porque o direito. que para cada um viver era conviver com os demais. Sociedade é o que se produz automaticamente pelo simples fato da convivência. corresponda um espaço físico que a geografia denomina Europa. jurista ou demagogo . progressivamente homogêneos e progressivamente diversos. Evitam a aniquilação do inimigo. Pois aconteceu que à medida que cada um ia formando seu gênio peculiar. poder público. Mais ainda. segundo a qual todos os povos hão de ter uma constituição idêntica. que vem a ser como estimular em cada um sua vocação particular.claramente desde o século XI.é. Porque neles a homogeneidade não foi alheia à diversidade.é um espaço social. como as dos jovens numa aldeia ou disputas de herdeiros pela partilha de um legado familiar. Este enxame de povos ocidentais que alçou vôo sobre a história desde as ruínas do mundo antigo. A idéia cristã engendra as igrejas nacionais. portanto jurídica. que nessa progressiva assimilação das circunstâncias distingamos duas dimensões diferentes e de valor contraposto. Como Carlos V dizia de Francisco I: Meu primo Francisco e eu estamos de perfeito acordo: ambos queremos Milão". onde todos os povos do Ocidente se sentiam como em sua casa. que era um terrível pince-sans-rire. se me permitem a expressão barroca. As guerras inter-européias mostraram quase sempre um curioso estilo que as faz parecer muito com as altercações domésticas. atmosfera é tão irrespirável como no próprio. cujas salpicaduras ainda padecemos. maneiras e entusiasmos.

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Não deve estranhar, por outra parte, a preponderância dessa opinião confusa e ridícula sobre o direito, porque uma das máximas desditas do tempo é que, ao toparem os povos do Ocidente com os terríveis conflitos públicos do presente, se encontraram aparelhados com instrumental arcaico e ineficiente de noções sobre o que é sociedade, coletividade, indivíduo, usos, lei, justiça, revolução, etc. Boa parte da inquietação atual provém da incongruência entre a perfeição de nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso escandaloso das "ciências morais". O ministro, o professor, o físico ilustre e o novelista soem ter dessas coisas conceitos dignos de um barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro suburbano quem dê a tonalidade do tempo? (2) Mas voltemos a nossa rota. Queria insinuar que os povos europeus são há muito tempo uma sociedade, uma coletividade, no mesmo sentido que têm estas palavras aplicadas a cada uma das nações que a integram. Essa sociedade manifesta todos os atributos possíveis: há costumes europeus, usos europeus, opinião pública européia, direito europeu, poder público europeu. Mas todos esses fenômenos sociais se dão na forma adequada ao estado de evolução em que se encontra a sociedade européia, que não é, evidentemente, tão avançado como o de seus membros componentes, as nações. Por exemplo: a forma de pressão social que é o poder público funciona em toda sociedade, inclusive naquelas primitivas em que não existe ainda um organismo especial encarregado de manejá-lo. Se a esse órgão diferenciado a quem se entrega o exercício do poder público se quer chamar Estado, diga-se que em certas sociedades não há Estado, mas não se diga que nelas não há poder público. Onde há opinião pública, como poderá faltar um poder público se este não é mais que a violência coletiva suscitada por aquela opinião? Ora bem, que há séculos e com intensidade crescente existe uma opinião pública européia e até uma técnica para influir nela - é incômodo negá-lo. Por isso, recomendo ao leitor que poupe a malignidade de um sorriso ao deparar que nos últimos capítulos deste volume se faz com certo denodo, ante o cariz oposto das aparências atuais, a afirmação de uma possível, de uma provável unidade estatal da Europa. Não nego que os Estados Unidos da Europa são uma das fantasias mais módicas que existem e não me solidarizo com o que os outros pensaram sob esses signos verbais. Mas, por outra parte, é sumamente improvável que uma sociedade, uma coletividade tão madura como a que já formam os povos europeus, ande longe de criar para si seu artefato estatal mediante o qual formalize o exercício do poder público europeu já existente. Não é, pois, debilidade ante as solicitações da fantasia nem propensão a um "idealismo" que detesto, e contra o qual hei pugnado toda a minha vida, o que me leva a pensar assim. Foi o realismo histórico que me ensinou a ver que a unidade da Europa como sociedade não é um "ideal", mas um fato de velhíssima cotidianidade. Ora bem, uma vez que se viu isso, a probabilidade de um Estado geral europeu impõe-se necessariamente. A ocasião que leve subitamente a término o processo pode ser qualquer, por exemplo, a cólera de um chinês que apareça pelos Urais ou uma sacudida do grande magma islâmico. A figura desse Estado super-nacional será, é claro, muito diferente das usadas, como, segundo nesses mesmos capítulos se tenta mostrar, foi muito diferente o Estado nacional do Estado-cidade que os antigos conheceram. Eu procurei nestas páginas pôr em franquia as mentes para que saibam ser fiéis à sutil concepção do Estado e sociedade que a tradição européia nos propõe. Nunca foi fácil ao pensamento greco-romano conceber a realidade como dinamismo. Não podia

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desprender-se do visível ou seus sucedâneos, como um menino não entende do livro senão as ilustrações. Todos os esforços de seus filósofos autóctones para transcender essa limitação foram vãos. Em todos os seus ensaios para compreender atua, mais ou menos, como paradigma, o objeto corporal, que é, para eles, a "coisa" por excelência. Só conseguem ver uma sociedade, um Estado onde a unidade tenha caráter de continuidade visual; por exemplo, uma cidade. A vocação mental do europeu é oposta. Toda coisa visível lhe parece, como tal, simples máscara aparente de uma força latente que a está constantemente produzindo e que é sua verdadeira realidade. Ali onde a força, a dynamis, atua unitariamente, há real unidade, embora à vista se nos apareçam como manifestação dela apenas coisas diversas. Seria recair na limitação antiga não descobrir unidade de poder público apenas onde este tomou máscaras já conhecidas e como solidificadas de Estado; isto é, nas nações particulares da Europa. Nego redondamente que o poder público decisivo atuante em cada uma delas consista exclusivamente em seu poder público interior ou nacional. Convém cair de uma vez na compreensão de que há muitos séculos e com consciência disso há quatro - vivem todos os povos da Europa submetidos a um poder público que por sua própria pureza dinâmica não tolera outra denominação que a extraída da ciência mecânica: o "equilíbrio europeu" ou balance of Power. Esse é o autêntico governo da Europa que regula em seu vôo pela história o enxame de povos, solícitos e pugnazes como abelhas, escapados às ruínas do mundo antigo. A unidade da Europa não é uma fantasia, mas de fato a própria realidade, e a fantasia é precisamente a crença de que a França, a Alemanha, a Itália ou a Espanha são realidades substantivas e independentes. Compreende-se, entretanto, que nem todo o mundo perceba com evidência a realidade da Europa, porque a Europa não é uma "coisa", mas um equilíbrio. Já no século XVIII o historiador Robertson qualificou o equilíbrio europeu de the great secret of modern politics. Segredo grande e paradoxal, sem dúvida! Porque o equilíbrio ou balança de poderes é uma realidade que consiste essencialmente na existência de uma pluralidade. Se essa pluralidade se perde, aquela unidade dinâmica se desvaneceria. A Europa é, com efeito, enxame; muitas abelhas e um só vôo. Esse caráter unitário da magnífica pluralidade européia é o a que eu chamaria boa homogeneidade, a que é fecunda e desejável, a que fazia Montesquieu dizer: L'Europe n'est qu'une nation composée de plusieurs, (3) e Balzac, mais romanticamente, falava da grande famille continentale, dont tous les efforts tendent à je ne sais quel mystère de civilisation. (4)

III Esta multidão de modos europeus que brotam constantemente de sua radical unidade e reverte a ela mantendo-a, é o maior tesouro do Ocidente. Os homens de cabeças toscas não conseguem congeminar uma idéia tão acrobática como esta em que é preciso saltar, sem descanso, da afirmação da pluralidade ao reconhecimento da unidade e vice-versa. São cabeças pesadas nascidas para existir sob as perpétuas tiranias do Oriente.

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Triunfa hoje sobre toda a área continental uma forma de homogeneidade que ameaça consumir completamente aquele tesouro. Onde quer que tenha surgido o homem-massa de que este volume se ocupa, um tipo de homem feito de pressa, montado tão somente numas quantas e pobres abstrações e que, por isso mesmo, é idêntico em qualquer parte da Europa. A ele se deve o triste aspecto de asfixiante monotonia que vai tomando a vida em todo o continente. Esse homem-massa é o homem previamente despojado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas "internacionais". Mais do que um homem, é apenas uma carcaça de homem constituído por meros idola fori; carece de um "dentro", de uma intimidade sua, inexorável e inalienável, de um eu que não se possa revogar. Daí estar sempre em disponibilidade para fingir ser qualquer coisa. Tem só apetites, crê que só tem direitos e não crê que tem obrigações: é o homem sem nobreza que obriga - sine nobilitate - snob. (5) Este universal snobismo, que tão claramente aparece, por exemplo, no operário atual, cegou as almas para compreender que, embora toda estrutura dada da vida continental tenha de ser transcendida, tudo isso há de se fazer sem perda grave de sua interior pluralidade. Como o snob está vazio de destino próprio, como não sabe que existe sobre o planeta para fazer algo determinado e impermutável, é incapaz de entender que há missões particulares e mensagens especiais. Por essa razão é hostil ao liberalismo, com uma hostilidade que se assemelha à do surdo em relação à palavra. A liberdade significou sempre na Europa franquia para ser o que autenticamente somos. Compreende-se que aspire a prescindir dela quem sabe que não tem autêntico mister. Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque as pessoas não costumam pôr-se de acordo a não ser em coisas um pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores coletivistas, que começam por desconhecê-lo. Ademais, há nele uma intuição do que a Europa tem sido, altamente perspicaz. Quando Guizot, por exemplo, contrapõe a civilização européia às demais fazendo notar que nela não triunfou nunca em forma absoluta nenhum princípio, nenhuma idéia, nenhum grupo ou classe, e que a isso se deve o seu crescimento permanente e seu caráter progressivo, não podemos deixar de pôr o ouvido atento (6). Este homem sabe o que diz. A expressão é insuficiente porque é negativa, mas suas palavras chegam-nos carregadas de visões imediatas. Como do mergulhador emergente transcendem olores abismais, vemos que este homem chega efetivamente do profundo passado da Europa onde soube submergir. É, com efeito, incrível que nos primeiros anos do século XIX, tempo retórico e de grande confusão, se tenha composto um livro como a Histoire de la Civilisation en Europe. Todavia o homem de hoje pode aprender ali como a liberdade e o pluralismo são duas coisas recíprocas e como ambas constituem a permanente entranha da Europa. Mas Guizot teve sempre péssima publicidade, como em geral, os doutrinários. Não me surpreendo. Quando vejo que para um homem ou grupo se dirige fácil e insistente o aplauso, surge em mim a veemente suspeita de que nesse homem ou nesse grupo, talvez junto a dotes excelentes, há algo sobremodo impuro. Talvez isto seja um erro em que incorro, mas devo dizer que não o procurei, que o foi dentro de mim decantando a experiência. De qualquer maneira, quero ter a coragem de afirmar que este grupo de doutrinários, de quem todo o mundo riu e fez mofas truanescas, é, a meu ver, o mais

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abstrações e irrealidades. sem poder flutuar à deriva no ambiente social. uma das causas profundas do presente desconcerto Mas eu não sei se. fincar os calcanhares no chão para se opor à correnteza. como coisa inquestionável. asseguro a quem se proponha formular com rigor sistemático as idéias dos doutrinários. Não tem outra. Os verdadeiros direitos são os que absolutamente estão aí. Posso aludir ao doutrinarismo como a uma magnitude conhecida. porque o passado é "o natural do homem que volta a galope". todavia. E. Nela chegou a fazer-se tal e como é. as noções sobremodo turvas. Mas. não podia este constituir-se uma dignidade se não a extraía do fundo de si mesmo. Em todos estes temas andam. ainda que seja somente para se defender do abandono orgiástico em que vivia seu contorno. a magistratura. nem mais nem menos. mas os continentais ainda não chegamos a essa estação. Condensam-se nele várias gerações de protestantes nimeses que haviam vivido em alerta perpétuo. por sua vez. mas para que o integremos (11). ainda que me dirigindo a leitores franceses. Igual desconhecimento do velho liberalismo sentem os coletivistas de agora quando supõem. Se alentassem hoje reconheceriam o direito de greve (não política) e o contrato coletivo. apesar da sua clássica lucidez. enfim. sem poder abandonar-se. mas o é de outro gênero e de outra essência em face de todos os demais triunfantes na Europa antes e depois deles. A história é a realidade do homem. Os russos desses anos passados costumavam chamar a Rússia de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ainda que pareça incrível.htm (11 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . como Buster Keaton. e constituíram o doutrinal político mais estimável de toda a centúria. Negar o passado é absurdo e ilusório. Os doutrinários são um caso excepcional de responsabilidade intelectual. mas diferentemente do racionalismo linfático de enciclopedistas e revolucionários. porque foram aparecendo e se consolidando na história: tais são as "liberdades". Talvez desde o tempo de Alcuino tenhamos vivido cinqüenta anos pelo menos atrasados a respeito dos ingleses. Pelo menos. que era individualista. Nem será possível reconstruir a história desta se não se estabelece intimidade com o modo em que se apresentaram as grandes questões ante estes homens (10). sobre os problemas mais graves da vida pública européia. como eu disse. Mal pode fazer-se isso sem alguma exageração. Numa época como a nossa. Os doutrinários desprezavam os "direitos do homem" porque são absolutamente "metafísicos". A um inglês tudo isso pareceria óbvio. (8) como. É verdade que nem um nem o outro publicaram jamais um soneto. originalmente. no meio da rusticidade e da frivolidade crescente daquele século. Seu estilo intelectual não é só diferente em espécie. não há tampouco um livro medianamente formal sobre Guizot nem sobre Royer-Collard (9). Guizot soube ser. Rotas e sem vigência quase todas as normas com que a sociedade presta uma continência ao indivíduo. Perdura neles ativa a melhor tradição racionalista em que o homem se compromete consigo mesmo a procurar coisas absolutas. Não se abandona jamais. O passado não está presente e não teve o trabalho de acontecer para que o neguemos. prazeres de pensamento não esperados e uma intuição da realidade social e política totalmente diferente das usadas. Pois se dá o fato escandaloso de que não existe um só livro onde se tenha tentado precisar o que aquele grupo de homens pensava. Por isso não os entenderam. do que mais tem faltado aos intelectuais europeus desde 1750. Foram os únicos que viram claramente o que havia que fazer na Europa depois da Grande Revolução.A rebelião das massas. as "capacidades". pensaram profundamente. e foram além disso homens que criaram em suas pessoas uma atitude digna e distante. Havia chegado a converter-se neles em um instinto a impressão radical de que existir é resistir. a legitimidade. defeito que é. é bom tomar contacto com os homens que não "se deixam levar". que encontram o absoluto em abstrações bon marché. quer dizer. descobrem eles o histórico com o verdadeiro absoluto. o homem que não ri (7). valioso que houve na política do continente durante o século XIX. é muito possível que o porvir pertença a tendências de intelecto muito semelhantes às suas.

mas para que sejam discutidas e passem depois à sentença. os quais cevam para depois chupar-lhes a substância. mas morre com ela.surpreende-nos que sua suposta defesa não se baseia em mostrar que a liberdade beneficia ou interessa a este. completamente. mas pelo contrário. Mas triunfa em Saint-Simon. porém. a legislação da Revolução francesa. no final. desinteressada e gratuita. Por exemplo: um médico de Lyon.A rebelião das massas. E o que se discute é se certas necessidades sociais são melhor servidas por um ou pelo outro órgão.a sociedade. em parte. simplesmente e como tal. é que tanto ele como Stuart Mill tratam os indivíduos com a mesma crueldade socializante com que os termitas a certos de seus congêneres. Por outra parte. Porque indivíduo e Estado significam nesse titulo dois meros órgãos de um único sujeito . Terceira: esta idéia é de origem francesa. Amard. O resultado. no fato coletivo. Segunda: a criação característica do século XIX foi precisamente o coletivismo. No essencial é imediatamente aceita por todos. O aspecto agressivo do título que Spencer escolhe para seu livro . Não seria interessante averiguar que idéias ou imagens se espreguiçavam à invocação deste vocábulo na mente um tanto gasosa do homem russo que tão freqüentemente. em que interessa e beneficia à sociedade. avançando pela centúria. Até esse ponto era a primazia do coletivo o fundo por si mesmo evidente sobre o qual ingenuamente dançavam suas idéias! De onde se infere que minha defesa lohengrinesca do velho liberalismo é. Não chegara ainda a hora da nivelação.tem sido causa de que o não entendam teimosamente os que não lêem dos livros senão os títulos. só se pode aderir ao liberalismo de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como o capitão italiano de que falava Goethe. Mas quando se viu com clareza o que no fenômeno social.Stuart Mill ou Spencer . chegamos aos grandes teorizadores do liberalismo . Aparece pela primeira vez nos arquireacionários de Bonald e de Maistre.O indivíduo contra o Estado . M. do coletivo. um "atrasado" do século anterior. os fenômenos sociais do tempo camuflavam a verdadeira economia da coletividade. sem outra exceção que não seja Benjamim Constant. Quando. de pavoroso. Leiam-se os artigos que em 1830 e 1831 publica L'Avenir contra o individualismo. falará em 1821 do collectivisme em face do personnalisme (13).do social. que tudo isso é outra coisa. Mais importante. de terrível. da espoliação e da partilha em todas as ordens. mas não sabiam bem em que consistia e quais eram seus efetivos atributos. o fato de que a coletividade é uma realidade diferente dos indivíduos e de sua simples soma. bisogna aver una confusione nella testa? Diante disso tudo eu rogaria ao leitor que tomasse em conta.sem dúvida glorioso e essencial . porém. "o coletivo". não para aceitá-las. Nada mais. por outro. em Comte e pulula por toda a parte (12). O descobrimento . há por um lado de benefício. mais do que viam. Daí que os "velhos liberais" se abrissem sem suficientes precauções ao coletivismo que respiravam. Aqueles homens apalpavam. era demasiado recente. O famoso "individualismo" de Spencer boxeia continuamente dentro da atmosfera coletivista de sua sociologia. em Ballanche. as seguintes teses: Primeira: o liberalismo individualista pertence à flora do século XVIII. inspira. É a primeira idéia que inventa apenas nascido e que ao longo de cem anos não fez senão crescer até inundar todo o horizonte.htm (12 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Porque o caso é que eu não sou um "velho liberal". porque então convinha a esta ocupar-se em cevar bem os indivíduos.

as cabeças se obliteram. e a consciência desse segredo é a que. encontramos pré-desenhada nossa hora. a um tempo homogênea e estúpida . que não nos serve para dizer suficientemente o que cada um de nós quiséramos dizer. como bem e não como mal. Em Macaulay. próximo a florescer. caminhamos em linha reta para o Baixo Império. numa idêntica "situação". seja como soberanos. revela pelo contrário e grita. está onde menos se podia esperar e onde todavia. que nas condições presentes do mundo esta disposição nada fará senão aumentar" (15). se acha tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana. moveu sempre os lábios do perene liberalismo europeu. devemos esperar. Isso o faz acolher-se a um grande pensamento emitido por Humboldt na sua juventude. menos sublinhado e analisado do que devera: os homens tornaram-se estúpidos. disposto a investigá-los. Dentro de cada nação. em Tocqueville. O processo vinha de tempos atrás. estilo radicalmente novo. não farão outra coisa senão repetir. por exemplo. em Comte. ao contrário.e uma eqüivale à outra . Evitar isso tem sido o secreto acerto da Europa até hoje. Contra o que sói acreditar-se tem sido normal na história que o porvir seja profetizado (14). que eu saiba. e tomando em conjunto as nações. A disposição dos homens. A língua. num só tipo de homem. Tal e como vamos. o que há mais de oitenta anos escrevia Stuart Mill: "À parte as doutrinas particulares de pensadores individuais.A rebelião das massas. com alguma razão. Assim. seja como concidadãos. que o estóico Possidônio. mas de crescer. com a míngua progressiva da "variedade de situações". que quase nunca se reprime senão quando lhe falta poder. tende a fazer-se cada vez mais formidável. a impor aos demais como regra de conduta sua opinião e seus gostos. Para que o humano se enriqueça. é o último homem antigo capaz de se colocar ante os fatos com a mente porosa e ativa. Importava-me esclarecer isso para que não se tergiverse a idéia de uma superação européia que este volume postula. tanto por meio da força da opinião como pela legislativa. Ora bem. sem que o queiramos. ao falhar uma restam outras possibilidades abertas. é preciso que se dêem circunstâncias diferentes. Mas o que mais nos interessa em Stuart Mill é sua preocupação pela homogeneidade de má classe que via crescer em todo o Ocidente. Também foi aquele um tempo de massa e de pavorosa homogeneidade. digo. e salvo os Alexandrinos.htm (13 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . clara ou balbuciante. fartamente perspicazes. existe no mundo uma forte e crescente inclinação a estender em forma extrema o poder da sociedade sobre o indivíduo. Não se conhece bem este file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E como o poder não parece achar-se em via de declinar. Disse-se. na linha mesma do horizonte. não entrevissem de quando em quando as angústias que seu tempo nos reservava. Depois dele. se consolide e se aperfeiçoe é necessário. este desbordamento não é um mal que tenda a desaparecer espontaneamente. ninguém o procurou: no idioma. Veja-se. um liberalismo que está germinando já. Na porção mais helenizada do povo romano. segundo Humboldt. Já no tempo dos Antoninos se nota claramente um estranho fenômeno. E insensato pôr a vida européia numa só carta.que adota a vida de um a outro extremo do Império. Nessa consciência se reconhece a si mesma como valor positivo. como todas as mudanças que se operam no mundo têm por efeito o aumento da força social e a diminuição do poder individual. que exista "variedade de situações" (16). Mas o sistema e documento mais terrível desta forma. a condição mais arcana da sociedade que a fala. mestre de Cícero. devemos esperar. mas. a língua vigente é a que se chamou "latim vulgar". como eram. estereotipar. menos ingênuo e de mais destra beligerância. Nem era possível que sendo estes homens. a pluralidade continental. matriz de nossos romances. a menos que uma forte barreira de convicção moral não se eleve contra o mal.

reduzindo a existência à sua base. de mecanismo muito fácil. que havia africanismos. do escasso intercâmbio. como material. ou por isso mesmo. enquanto a do político sói. de ensaio e rodeio como a infantil. galicismos. procuro descobrir a realidade vivente de que esse fato é a quieta marca. A obra intelectual aspira. Parece-me simplesmente atroz. gramática balbuciante e perifrástica. porém. como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias. não posso reprimir ante esse fato um estremecimento medular. A missão do chamado "intelectual" é. Os vocábulos parecem velhas moedas de cobre. É uma língua sem luz nem temperatura. são formas da hemiplegia moral. pesadamente mecânico. condenadas à eterna cotidianidade se adivinham atrás desse seco artefato lingüístico! O outro caráter aterrador do latim vulgar é precisamente sua homogeneidade. Os lingüistas. da dificuldade de comunicações e de que não contribuía para fixá-lo uma literatura. desoladas. apesar das distâncias. que conservava a linguagem das classes superiores. E. com freqüência baldada. O assunto de que aqui se fala é prévio à política e pertence a seu subsolo. Mas ao constar isto quer dizer-se que o torso da língua era comum e idêntico. que tremo quando vejo como o vento fatiga uns caniços. o mauritânio e o dácio. Meu trabalho é obscuro labor subterrâneo de mineiro. tranqüilamente. todo o mundo tem de fazer política sensu stricto. depois dos aviadores. uma língua pueril ou gaga que não permite a fina aresta do raciocínio nem líricas cambiantes. imundas e sem rotundidade. sem evidência e sem calor de alma. ficou suplantada por uma fala plebéia. já fala de per si. testemunho de que uma vez a história agonizou sob o império homogêneo da vulgaridade por haver desaparecido a fértil "variedade de situações". como fartas de rolar pelas tabernas mediterrâneas. como ser da direita. Tingitânia e Dalmácia. o morador de Hipona e o de Lutécia.é que. Dizem-no. E verdade que trato de me representar como era por dentro isso que olhado de fora nos aparece. Sempre estive na estacada. pelo contrário. como homogeneidade. consistir em confundi-las mais do que estavam. efetivamente. os homens menos dispostos a assustar-se com coisa alguma.uma "corrente" . incluso a custo da claridade mental. a esclarecer um pouco as coisas. Há obrigações de trabalhar sobre as questões do tempo. em certo modo. é claro. Isto. A saborosa complexidade indo-européia. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem. Ademais. que sou bastante tímido. com efeito. não parecem admirar-se ante o fato de que falassem da mesma maneira países tão díspares como Cartago e Gália. pelo contrário.A rebelião das massas. que avança às cegas. Mas uma das coisas que agora se dizem .htm (14 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Que vidas evadidas de si mesmas. é claro. Eu. latim vulgar e. Ser da esquerda é. que são talvez. oposta à do político. sem dúvida. senão em virtude de um achatamento geral. uma língua triste. como um arrepiante empedernimento. Hispânia e Rumânia. Um é a incrível simplificação do seu mecanismo gramatical em comparação com o latim clássico. hispanismos. só se chega a ele mediante reconstruções. Mas o que se conhece basta e sobra para que nos espantem dois de seus caracteres. nulificando suas vidas? O latim vulgar está aí nos arquivos. a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente. ao mesmo tempo. em boa parte. IV Nem este volume nem eu somos políticos. Consta. uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas. Como podiam vir à coincidência o celtibero e o belga. E eu o fiz durante toda a minha vida.

nos adscreve simultaneamente em vez de responder devemos perguntar ao impertinente que pensa ele que é o homem e a natureza e a história. despertar a vida pessoal? Não cabe desenvolver aqui o tremendo tema. ainda que quisessem.htm (15 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . vestir o escafandro e descer ao mais profundo do homem. o direito. os que não têm outra coisa que fazer. como dizia Dante. A política apressa-se a apagar as luzes para que todos estes gatos sejam pardos. da qual. e por isso é a predicação do politicismo integral uma das técnicas que se usam para socializá-lo. E uma cautela de higiene elemental. E até o corroboram citando de Pascal o imperativo d'abêtissement. XXVII. a coletividade. (Purg. nada parecido. toleram ser corrigidos? Porque. é esta: podem as massas. E é preciso que o faça prontamente ou. Este volume não pretende. Os termos com que deve ser levantado não constam na consciência file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e eu o tentei num livro próximo a aparecer em outros idiomas sob o título El hombre y la gente. Importa fazer isso sem pretensões. ou. que não está aberto de verdade a nenhuma instância superior. posto que pretenda suplantar o conhecimento. se trata precisamente de um homem hermético. mas com decisão. porque está demasiado virgem. a meu juízo. as únicas coisas que por sua substância são aptas para ocupar o centro da mente humana -. é uma e mesma coisa com o fenômeno de rebelião das massas que aqui se descreve. Mas há muito tempo que aprendi a ficar em guarda quando alguém cita Pascal. Quando alguém nos pergunta o que somos em política.enfim. que é a sociedade e o indivíduo. a religião. fora de si. O politicismo integral. a sagesse . é quando se suscitam as interrogações mais férteis e mais dramáticas: Pode-se reformar este tipo de homem? Quero dizer: os graves defeitos que há nele. 62-63) Isso seria o único de que poderia esperar-se com alguma probabilidade a solução do tremendo problema que as massas atuais aventam. studiate il passo Mentre que l'Occidente non s'annera. não para fazer o leque do pavão real nas reuniões acadêmicas. antecipando-se com a insolência que pertence ao estilo de nosso tempo. tão graves que se não os extirpamos produzirão de modo inexorável a aniquilação do Ocidente. é só uma primeira aproximação ao problema do homem atual. e que eu chamei o homem-massa. Para isso está aí. É preciso que o pensamento europeu proporcione sobre todos estes temas nova claridade. depende toda possibilidade de saúde. nem de longe. Uma vez que nos afiguramos bem de como é esse tipo humano hoje dominante. Como suas últimas palavras fazem constar. o uso. frenética. A massa em rebeldia perdeu toda a capacidade de religião e de conhecimento. o Estado. Não pode ter dentro mais que política exorbitada. Para falar sobre ele mais seriamente e mais profundamente não haveria mais remédio senão pôr-se em roupa abissal. A outra pergunta decisiva. A política despoja o homem de solidão e intimidade.A rebelião das massas. que encontre a saída. a absorção de todas as coisas e de todo o homem pela política. como verá o leitor.

Ante o feroz patetismo desta questão que. queiramos ou não. Daí a ação em massa. assim cresce a folga que se concede ao homem para poder ser indivíduo pessoal. como a vida do próximo aperta a sua. porque chocaria com os corpos dos demais. Herbert Spencer. Quando os restos desse "individualismo" desaparecessem. quase improvável. como cria o honrado engenheiro. está visível. mas não creio que exagera a situação efetiva em que se vão achando quase todos os europeus. que vão e vêm por suas ruas ou se concentram em festivais e manifestações políticas. pelo contrário ressuma só vagas filantropias. e até os músculos respiratórios têm de funcionar a ritmo de regulamento. que enriqueceu o mundo e a todos no mundo e foi esta riqueza que prolificou tão fabulosamente a planta humana. empalidece e se degrada até parecer retórico e insincero suspiro romântico. não notará que é. Em tal circunstância. com efeito. O desânimo o levará com a facilidade de adaptação própria de sua idade a renunciar não só a todo ato. Os demagogos têm sido apenas os grandes estranguladores de civilizações. A primeira condição para um melhoramento da situação presente é perceber bem sua enorme dificuldade. Não. que o seriam um pouco mais. porque foi o chamado "individualismo". ninguém pode mover um braço ou uma perna por iniciativa própria. Mas um homem não é demagogo somente porque se ponha a gritar ante a multidão. Em uma prisão onde se amontoaram muito mais presos dos que cabem. mas dirigir-se em linha reta para um magnânimo solidarismo. e talvez a estrutura da vida em nossa época impeça superlativamente que o homem possa viver como pessoa. muito difícil salvar uma civilização quando lhe chegou a hora de cair sob o poder dos demagogos. composta de desiderata comuns a todos e verá que para consegui-la tem de solicitá-la ou exigi-la em coletividade com os demais. A grega e a romana sucumbiram nas mãos desta fauna repugnante. este pensamento: Pode hoje um homem de vinte anos formar um projeto de vida que tenha figura individual e que. mediante seus esforços particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem em sua fantasia. porque não há a sua disposição espaço em que possa alojá-la e em que possa mover-se segundo seu próprio ditame? Logo advertirá que seu projeto tropeça com o próximo. necessitaria realizar-se mediante suas iniciativas independentes. que fazia Macaulay exclamar: "Em todos os séculos. os exemplos mais vis da natureza humana deparam-se entre os demagogos" (17). Mas nem sequer esta cruel imagem é uma solução. senão impossível. caminhos que não parecem passar por uma miserável socialização. ao mesmo tempo. o tema da "justiça social". a história está cheia de retrocessos nesta ordem. Isso pode ser em ocasiões file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. faria sua reaparição na Europa o esfomeamento gigantesco do Baixo Império. Mas. A coisa é horrível. como até a todo desejo pessoal e buscará a solução oposta: imaginará para si uma vida standard. porque até hoje não se condensou nele um sistema enérgico de idéias históricas e sociais. incorpora-se em mim. mas nulo historiador. inoperante.A rebelião das massas. Nem sequer está esboçado o estudo da distinta margem de individualidade que cada época do passado deixou à existência humana. pública. apesar de tão respeitável. Este último vocábulo é. os movimentos têm de se executar em comum. Restariam muito menos homens.htm (16 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e o formigueiro sucumbiria como ao sopro de um deus torvo e vingativo. é possível e é justo conseguir. Isto seria a Europa convertida em formigueiro. além do mais. orienta sobre os caminhos acertados para conseguir o que dessa "justiça social". Só isto nos levará a atacar o mal nos estratos fundos de onde verdadeiramente se origina. É. obsedante. O formigueiro humano é impossível. portanto. Porque é pura inércia mental do "progressismo" supor que conforme avança a história. Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomerações de seres humanos.

Nas revoluções tenta a abstração sublevar-se contra o concreto. se nos atemos à verdade nua dos anais. quase todo o continente. Estes meses passados. o que encontramos é que essas revoluções serviram principalmente para que durante todo um século.htm (17 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . sobre a perigosa idéia do progresso. a França tenha vivido mais que outro qualquer povo sob formas políticas. autoritárias e contra-revolucionárias. Isso é o que. Por que então? Por que na França? Este é um dos pontos nevrálgicos do destino ocidental e especialmente do destino francês. O puro acaso que ciranda minha existência fez que eu redija estas linhas tendo à vista o lugar da Holanda em que habitou em 1642 o novo descobridor da raison. grande parte dos quais confessou o próprio Raspail que haviam sido antes clientes seus. uma magistratura sacrossanta. a grande depressão moral da história francesa que foram os vinte anos do Segundo Império. mas. E como não tinha com quem falar. porque são históricos. Nelas se raciocina com o marquês de Condorcet. que o método para resolver os grandes problemas humanos é o método da revolução. salvo as estátuas. insuficientemente exercido por mandarins literários e por uma Universidade que ficou completamente excêntrica diante da efetiva vida das nações. que está no Quai Conti. Sobretudo.A rebelião das massas. como os astronômicos ou os químicos. Quando se contempla panoramicamente a vida pública da França durante os últimos cento e cinqüenta anos. do de Littré. mas recebeu dos verdadeiros criadores. entretanto. Com o pequeno busto de Comte que há em seu departamento da rue Monsieur-le-Prince falei sobre pouvoir spirituel. Malebranche rompe com um amigo seu porque viu sobre sua mesa um Tucídides (21). paradoxalmente. compreendi que eu não conhecia ninguém na grande cidade. conversei com elas sobre grandes temas humanos. e que conseguiram ao contrário. Este lugar. erigido na praça de Sorbonne. o homem a quem a Europa mais deve. deveu-se bem claramente à extravagância dos revolucionários de 1848 (20). antigas incitações ou perenes mestres de minha intimidade. desde então. que dulcificaram uma etapa dolorosa e estéril de minha vida. chamado Endageest. impelindo minha solidão pelas ruas de Paris. A demagogia é uma forma de degeneração intelectual. São problemas de máxima concreção. Algumas destas. Graças a isso essa maravilha que é a França chega em más condições à difícil conjuntura do presente. E o único método de pensamento que proporciona alguma probabilidade de acerto em sua manipulação é a "razão histórica". Não sei se algum dia sairão à luz estas Conversaciones con estatuas. salvo uns dias ou umas semanas. seus físicos e seus médicos se equivocaram sempre em seus juízos políticos. cujas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas o racionalismo físico-matemático tem sido na França demasiado glorioso para que não tiranize a opinião pública. Porque esse país tem ou crê que tem uma tradição revolucionária. por tradição! É verdade que na França fez-se uma Grande Revolução e várias torvas ou ridículas. do oficial. radica em sua irresponsabilidade ante as idéias mesmas que maneja e que ele não criou. salta à vista que seus geômetras. E se ser revolucionário é já coisa grave. acertar seus historiadores. e que é o busto do falso Comte. são velhas amizades. A demagogia essencial do demagogo está dentro de sua mente. em maior ou menor escala. por isso é consubstancial às revoluções o fracasso. quanto mais sê-lo. crê a França. ao grande. a vontade de transformar de chofre tudo e em todos os gêneros (19). Mas era natural que me interessasse sobretudo em ouvir uma vez mais a palavra do nosso sumo mestre Descartes. abstratos. que como amplo fenômeno da história européia aparece na França em 1750. e por sua irradiação. Ao mesmo tempo tive a honra de receber o encargo de uma enérgica mensagem que esse busto dirige ao outro. Os problemas humanos não são. entendendo por tal o que já Leibnitz chamava uma "revolução geral" (18).

física. chamamos inteligência. nunca maduros. a extensa experiência vital decantada gota a gota em milênios. Diz-se que há muito a Monarquia inglesa é uma instituição meramente simbólica. que nos permite não cometer os mesmos sempre. deu agora inusitada solenidade ao rito da coroação. nem administrar a justiça. elle est un hommage à tout ce qui le distingue de la bête" (23). árvores dão sombra a minha janela. Mas nem por isso é uma instituição vazia. Esta raison é só matemática. o tigre de hoje é idêntico ao de seis mil anos. Deu-nos mais uma lição. mas porque têm muito menos memória que nós. Por isso Nietzsche define o homem superior como o ser "de memória mais desenvolvida. violaram sempre. pelo contrário. superiores a quanto pudera sonhar-se. espezinhado e esfarrapado. Duas vezes ao dia ." Romper a continuidade com o passado. efetivamente. sublinham tanto mais seu fracasso ante os assuntos propriamente humanos e convidam a integrá-la em outra razão mais radical. como se não houvesse outro antes. possui-o e o aproveita. Este é o tesouro único do homem. Esta nos mostra a vaidade de toda revolução geral. carente de serviço. Seu papel não é governar. Isso é verdade. de proclamar direitos. mas isentos de serenidade. As revoluções tão incontinentes em sua pressa. acumula seu próprio passado.. Semelhantemente. como a nurse da Europa. tão fundamental que é a definição mesma de sua substância: o direito à continuidade. Diante de mim está um jornal em que acabo de ler o relato das festas com que a Inglaterra celebrou a coroação do novo rei. porque cada tigre tem de começar de novo a ser tigre. seu privilégio e sua marca.. Por isso o povo inglês. é aspirar a descer e plagiar o orangotango. e ao fundo. Como sempre . O homem não é nunca um primeiro homem: começa desde logo a existir sobre certa altitude de pretérito amontoado. falando rigorosamente. Dupont-White. Ao método da revolução opõe o único digno da larga experiência que o europeu atual tem atrás de si. sempre pueris. E a riqueza menor desse tesouro consiste no que dele pareça acertado e digno de conservar-se: o importante é a memória dos erros. Ante a turbulência atual do continente quis afirmar as normas permanentes que regulam sua vida. Três séculos de experiência "racionalista" obrigam-nos a rememorar o esplendor e os limites daquela prodigiosa raison cartesiana. Porque. que é a "razão histórica" (22). O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros. que em 1860 se atrevesse a clamar: "La continuité est un droit de l'homme. querer começar de novo. o direito fundamental do homem. Os pobres animais cada manhã esquecem quase tudo que viveram no dia anterior.já que a Europa sempre pareceu um tropel de povos -. Köhler e outros mostraram como o chimpanzé e o orangotango não se diferenciam do homem pelo que. mas dizendo-o assim deixamos escapar o melhor.htm (18 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .em admoestadora vizinhança . é hoje um manicômio. os continentais. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a Inglaterra. atrás deles. de tudo quanto seja tentar a transformação súbita de uma sociedade e começar de novo a história. A única diferença radical entre a história humana e a "história natural" é que aquela não pode nunca começar de novo. mercê de seu poder de recordar. Apraz-me que seja um francês. biológica. com deliberado propósito.vejo passar os idiotas e os dementes que arejam por momentos à intempérie sua malograda humanidade. nem mandar o Exército.A rebelião das massas. O homem. A Monarquia da Inglaterra exerce uma função determinadíssima e de alta eficácia: a de simbolizar. a Monarquia não exerce no Império britânico nenhuma função material e palpável. cheios de gênio. hipocritamente generosa. e seu intelecto tem de trabalhar sobre um mínimo material de experiências. como pretendiam os confusonários do 89. Seus fabulosos triunfos sobre a natureza.

Tive então a coragem de me opor a semelhante deslize. mais uma vez. Violentando-me isolei neste quase-livro. ao método revolucionário o método da continuidade.como me dizia uma naquela ocasião . procedo partindo de seu aspecto externo. por assim dizer. sustentando que a América. O inglês faz empenho de nos fazer constar que seu passado. era-o e o é muito mais a América do Norte do que a América do Sul. E isso é ser um povo de homens: poder hoje continuar no seu ontem sem por isso deixar de viver para o futuro. Já começou a crise na Europa. Hoje a coisa vai sendo clara e os Estados Unidos não enviam já ao velho continente senhoritas para . a hispânica. Praticamente deveríamos omitir o quase. porque lhe passou. um remoto passado porque era primitivismo. ao ler esses capítulos. precisamente porque passou. mas ainda parece uma de tantas. um só fator: a caracterização do homem médio que hoje se vai apoderando de tudo. Daí por que sejam os primeiros capítulos os que mais caducaram. era.porque não deixaram nunca de ser atuais os mais velhos e mágicos utensílios de sua história. à abstenção de expressar minhas convicções sobre tudo quanto toco de passagem. Desde um futuro ao qual não chegamos mostra-nos a vigência louçã de seu pretérito (24). O único do que vai dito nestas páginas que me inspira algum orgulho. a presenciar seu vetusto cerimonial e a ver como atuam . retroceder aos anos 1926-1928. Com as festas simbólicas da coroação. continua existindo para ele. Isto me obrigou a um duro ascetismo. Este povo circula por todo o seu tempo. poder existir no verdadeiro presente. Este é o povo que sempre chegou antes ao porvir.htm (19 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mostrassem carecer dele completamente. é verdadeiramente senhor de seus séculos. inventores do mais elevado que até agora se inventou . V Como nestas páginas se faz a anatomia do homem hoje dominante. e depois penetro um pouco mais em direção a suas vísceras. com certa impertinência do mais puro dandysmo. do problema total que e para o homem e especialmente para o homem europeu seu imediato porvir."convencer-se de que na Europa não há nada interessante" (25). que se antecipou a todos em quase todas as ordens. sobretudo. O leitor deveria. a coroa e o cetro que entre nós regem apenas a sorte do baralho. Porque não convém esquecer que então se pensava mui seriamente que os americanos haviam descoberto outra organização da vida que anulava para sempre as perpétuas pragas humanas que são as crises. pensava-se: aí está a América! Era a América da fabulosa prosperity. E. longe de ser o futuro. na realidade.A rebelião das massas. que conserva em ativa posse. inclusive os próprios economistas. E. A pele do tempo mudou. E eis aqui que este povo nos obriga. é não haver incorrido no inconcebível erro de ótica que sofreram então quase todos os europeus. O velho lugar comum de que a América é o porvir havia nublado por instantes sua perspicácia. As pessoas ainda sentem-se em segurança. de sua pele. já que o presente é só a presença do passado e do porvir.o sentido histórico -. Eu me envergonhava de que os europeus. o único que pode evitar na marcha das coisas humanas esse aspecto patológico que faz da história uma luta ilustre e perene entre os paralíticos e os epiléticos. também contra o que se crê. o lugar onde pretérito e futuro efetivamente existem. Mais ainda: a apresentar freqüentemente as coisas em forma que se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a Inglaterra opôs. Ainda gozam os luxos da inflação.

como um fator de primeira ordem com que se deve contar. que não é. embora fundamental. econômica. moral. 1937. Chama-se a rebelião das massas. mais notório. para bem ou para mal. Os espetáculos. era a mais favorável para aclarar o tema exclusivo deste estudo. JOSE ORTEGA Y GASSET. nações. e menos reger a sociedade. Há fato mais simples. o leitor francês esperar mais deste volume. Mas eu não devia complicar os assuntos. intelectual. O FATO DAS AGLOMERAÇÕES (26) Há um fato que. Não deve. As casas cheias de inquilinos. As salas dos médicos famosos. às palavras "rebelião". desde já. A vida pública não é só política. Medi o homem médio quanto a sua capacidade para continuar a civilização moderna e quanto a sua adesão à cultura. eu a denomino o fato da aglomeração. Como as massas. Sua fisionomia e suas conseqüências são conhecidas. compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de vestir e o modo de gozar. Basta assinalar uma questão. está aí. do "cheio". Os hotéis cheios de hóspedes. era a pior para deixar ver minha opinião sobre estas coisas. por definição. quer dizer-se que a Europa sofre agora a mais grave crise que a povos. mas. sublinhando uma feição de nossa época que é visível com os olhos da cara. cheias de banhistas. As praias. senão um ensaio de serenidade em meio à tormenta. é o mais importante na vida pública européia da hora presente. "Het Witte Huis". O que antes não era problema.a civilização e a cultura .não são para mim questões. cabe padecer. Os passeios. pois.htm (20 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . cheios de espectadores. Nada mais. cheios de consumidores. cheios de transeuntes. a anomalia representada pelo homem-massa. etc. cheios de viajantes. Por isso urgia isolar cruamente seus sintomas. no final das contas. na vida atual? Vamos agora puncionar o corpo trivial desta observação. As cidades estão cheias de gente. ainda que não de analisar. cheias de enfermos. Oegstgeest-Holanda. Esta crise sobreveio mais de uma vez na história. Também se conhece seu nome. Este fato é o advento das massas ao pleno poderio social. "massas". um significado exclusivo ou primariamente político. Dir-se-ia que essas duas coisas . desde que não sejam muito extemporâneos. religiosa. ao mesmo tempo e ainda antes. maio. começa a sê-lo quase de contínuo: encontrar lugar. não devem nem podem dirigir sua própria existência. Simplicíssima de enunciar. e nos surpreenderá ver como dele brota um repuxo inesperado. Os cafés. "poderio social". onde a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I. Qualquer que seja nossa atitude ante a civilização e a cultura. culturas. mais constante. Talvez a melhor maneira de aproximar-se a este fenômeno histórico consista em referir-nos a uma experiência visual. A verdade é que elas são precisamente o que ponho em questão quase desde meus primeiros estudos. Os trens. Para a inteligência do formidável fato convém que se evite dar.

por massas só nem principalmente "as massas operárias ". Por toda a parte? Não. de modo de ser nos indivíduos que a integram. precisamente nos lugares melhores. estranhar. não há dúvida. não é o ideal? O teatro tem suas localidades para que se ocupem. E do mesmo modo os assentos o vagão ferroviário e seus quartos o hotel. a qual justifica. Os indivíduos que integram estas multidões preexistiam. do presente.htm (21 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . até acaciano. agora adiantou-se até às gambiarras. As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. que houve uma mudança. Depois da guerra pareceria natural que esse número fosse menor. que a formação normal de uma multidão implica a coincidência de desejos. possuidora dos locais e utensílios criados pela civilização. não. A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e massas. nos surpreendemos de nossa surpresa. uma inovação. na vila. como tal. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem abertas. Isso. Traduzamo-lo. Seu atributo são os olhos em pasmo. nossa surpresa. tornou-se visível. Já não há protagonistas: só há coro. A aglomeração. leva o intelectual pelo mundo em perpétua embriaguez de visionário. Agora. deste dia. Aqui topamos. antes não era freqüente. maravilhar-se. não se pode desconhecer que antes não acontecia e agora sim. e agora transbordam. levavam uma vida. O conceito de multidão é quantitativo e visual. com a primeira nota importante. branca luz do dia. Então achamos a idéia de massa social. em definitiva. Sim. é a delícia vedada ao futebolista e que. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. fica fora gente afanosa de usufruí-los. reservados antes a grupos menores. no bairro da grande cidade. Aproximadamente. os antigos deram a Minerva a coruja. no campo. de repente. mas que repete em si um tipo genérico. criação realmente refinada da cultura humana. Deste modo se converte o que era meramente quantidade . ela é o personagem principal. dissociada. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. Por isso sua atitude gremial consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. é o homem enquanto não se diferencia de outros homens. portanto. na aldeia. pelo visto. Antes. Massa é "o homem médio". e instalou-se nos lugares preferentes da sociedade. Surpreender-se. pelo menos no primeiro momento. distante. Que é o que vemos e ao vê-lo nos surpreende tanto? Vemos a multidão. Não se entenda. entretanto. Com efeito. é começar a entender. divergente. Repartidos pelo mundo em pequenos grupos. a minorias. E o esporte e o luxo específico do intelectual. o mesmo número de pessoas existia há quinze anos. Cada qual . Por isso. Dir-se-á que é o que acontece com todo grupo social. Embora o fato seja lógico. talvez o seu. ocupava o fundo do cenário social. de repente. por seleto que pretenda ser.a multidão . Que ganhamos com esta conversão da quantidade para a qualidade? Muito simples: por meio desta compreendemos a gênese daquela. para que a sala esteja cheia. Mas o fato é que antes nenhum destes estabelecimentos e veículos costumavam estar cheios. é o mostrengo social. e nossos olhos vêm por toda a parte multidões. se existia. ou solitários. E evidente. sem alterá-lo. A multidão. passava inadvertida. ou cheio. mas não como multidão.numa determinação qualitativa: é a qualidade comum. Por que o é agora? Os componentes dessas multidões não surgiram do nada. Apenas refletimos um pouco. natural. ao contrário. o pássaro com os olhos sempre deslumbrados. Mas quê. portanto.indivíduo ou pequeno grupo ocupava o lugar. se decompõe em todo o seu rico cromatismo interior. aparecem sob a espécie de aglomeração. pois. à terminologia sociológica. idéias.A rebelião das massas.

que por sua própria essência requer e supõe a qualificação. idéia ou ideal. mas em classes de homens. se sobressai em alguma ordem . a coincidência efetiva de seus membros consiste em algum desejo. a agrupação dos que concordam só em sua desconformidade a respeito da multidão ilimitada. mais frouxa e trivial. é característico do tempo o predomínio. da massa e do vulgo. não se angustia. E é indubitável que a divisão mais radical que cabe fazer na humanidade. mais rigorosa e difícil. entretanto. isto é. O mesmo nos grupos sobreviventes da "nobreza" masculina e feminina. inqualificáveis e desclassificados por sua própria contextura. sem esforço de perfeição em si mesmas. mas que se sente "como todo o mundo". Claro está que nas superiores. fingindo ignorar que o homem seleto não é o petulante que se supõe superior aos demais. dentro de cada classe social há massa e minoria autêntica. a velhacaria habitual costuma tergiversar o sentido desta expressão. secundário. mas que para elas viver é ser em cada instante o que já são. em boa parte uma coincidência em não coincidir. Este ingrediente de juntarem-se os menos precisamente para separar-se dos demais vai sempre misturado na formação de toda minoria. que antes file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas há uma diferença essencial. seja qual seja. Imagine-se um homem humilde que ao tentar valorizar-se por razões especiais . Este homem sentir-se-á medíocre e vulgar.no bem ou no mal . a um máximo de exigências ou a um mínimo. Sua coincidência com os outros que formam a minoria é. enquanto as inferiores estão normalmente constituídas por indivíduos sem qualidade. posterior a haver-se cada qual singularizado. como fato psicológico.A rebelião das massas. sente-se à vontade ao sentir-se idêntico aos demais. embora não consiga cumprir em sua pessoa essas exigências superiores. Como veremos. diz graciosamente Mallarmé que aquele público salientava com a presença de sua escassez a ausência multitudinária."grande veículo" ou "grande carril" .por razões especiais. A seu turno. a massa pode definir-se. Para formar uma minoria. Falando do reduzido público que ouvia um músico refinado. a rigor. Quando se fala de "minorias seletas". Isto me lembra que o budismo ortodoxo se compõe de duas religiões distintas: uma. e é.ao perguntar de si para si se tem talento para isto ou para aquilo.e o Hinayana "pequeno veículo". Assim. e. "caminho menor". quando chegam a sê-lo e enquanto o forem de verdade há mais verossimilitude em achar homens que adotam o "grande veículo". sem necessidade de esperar que apareçam os indivíduos em aglomeração. uma divisão em classes sociais. mas não se sentirá "massa". A divisão da sociedade em massas ou minorias excelentes não é. A rigor. outra. e mal dotado. mas o que exige mais de si que os demais.htm (22 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . bóias que vão à deriva. na vida intelectual. não é raro encontrar hoje entre os obreiros. Diante de uma só pessoa podemos saber se é massa ou não. Mas. é esta em duas classes de criaturas: as que exigem muito de si e acumulam sobre si mesmas dificuldades e deveres. Nos grupos que se caracterizam por não ser multidão e massa. ou Mahayana . é preciso que antes cada qual se separe da multidão por razões essenciais. relativamente individuais. que por si exclui o grande número. portanto.adverte que não possui nenhuma qualidade excelente. Há casos em que esse caráter singularizador do grupo aparece a céu descoberto: os grupos ingleses que se chamam a si mesmos "não conformistas". portanto. e as que não exigem de si nada especial. pois. adverte-se o progressivo triunfo dos pseudo-intelectuais inqualificados. O decisivo é se pomos nossa vida num ou no outro veículo. ainda nos grupos cuja tradição era seletiva. Massa é todo aquele que não se valoriza a si mesmo . e não pode coincidir com a jerarquização em classes superiores e inferiores.

pelo menos. teríamos não mais de um caso de erro pessoal. individual. ao tomar da pena para escrever sobre um tema que estudou intensamente. a massa crê que tem direito a impor e dar vigor de lei a seus tópicos de café. que nunca se ocupou do assunto. Ninguém. atividades. com todos os seus defeitos e vícios. É falso interpretar as situações novas como se a massa se houvesse cansado da política e encarregasse a pessoas especiais seu exercício. Democracia e Lei. por sua mesma natureza. tem o denodo de afirmar o direito de vulgaridade e o impõe por toda a parte. Agora. A massa não pretendia intervir nelas: percebia-se que se queria intervir teria congruentemente de adquirir esses dotes especiais e deixar de ser massa. suplanta as minorias. os locais não estavam premeditados para as multidões. Assim . Ora bem: existem na sociedade operações. para sentenciar sobre ele quando não coincide com as vulgaridades que este leitor tem na cabeça. por meio de pressões materiais. Se os indivíduos que integram a massa se acreditassem especialmente dotados. as minorias dos políticos entendiam um pouco mais dos problemas públicos que ela. almas egregiamente disciplinadas. Todos eles indicam que esta resolveu avançar para o primeiro plano social e ocupar os locais e usar os utensílios e gozar dos prazeres antes adstritos aos poucos. E claro está que esse "todo o mundo" não é "todo o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas não uma subversão sociológica. já que têm para isso os apetites e os meios. pelo contrário. sabendo-se vulgar. O mal é que esta decisão tomada pelas massas de assumir as atividades próprias das minorias. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa atua diretamente sem lei. creio eu. quem não pense como todo o mundo. convivência legal.qualificadas. Pelo contrário. Talvez cometa eu um erro. O mesmo acontece nas demais ordens. Se agora retrocedermos aos fatos enunciados a princípio. sem deixar de sê-lo. Como se diz na América do Norte: ser diferente é indecente. em pretensão -. nem pode manifestar-se. Quem não seja como todo o mundo. posto que sua dimensão seja muito reduzida e o povo transborde constantemente deles. ou bem as funções de governo e de juízo político sobre os assuntos públicos. Conhecia seu papel numa saudável dinâmica social. Ao servir a estes princípios o indivíduo obrigava-se a sustentar em si mesmo uma disciplina difícil. que são. A massa presumia que. É evidente que. Eu duvido que tenha havido outras épocas da história em que a multidão chegasse a governar tão diretamente como em nosso tempo. especiais. eram sinônimos. não podem ser bem executadas sem dotes também especiais. Antes eram exercidas estas atividades especiais por minorias qualificadas . e. se o lê. Isso era o que antes acontecia. egrégio. Por exemplo: certos prazeres de caráter artístico e luxuoso. isso era a democracia liberal. deplorará que as pessoas gozem hoje em maior medida e número que antes. muito especialmente na intelectual. Ao amparo do princípio liberal e da norma jurídica podiam atuar e viver as minorias. corre o risco de ser eliminado. impondo suas aspirações e seus gostos.A rebelião das massas. por exemplo. mas o escritor. no final das contas. só na ordem dos prazeres. não é com o fim de aprender algo dele. demonstrando aos olhos e com linguagem visível o fato novo: a massa. A massa atropela tudo que é diferente. funções da ordem mais diversa. conseqüentemente. que. mas que é uma maneira geral do tempo. podiam valer como o exemplo mais puro disto que chamamos "massa".antecipando o que logo veremos -.htm (23 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. não se manifesta. O característico do momento é que a alma vulgar. mas. qualificado e seleto. Por isso falo de hiperdemocracia. por sua vez. creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. eles nos aparecerão inequivocamente como núncios de uma mudança de atitude na massa. deve pensar que o leitor médio.

A rebelião das massas. e chegar a sua hora de declinação. em um elemento vital. por sua própria essência. a mim. de verdadeiramente aristocrático só restava naqueles seres a graça digna com que sabiam receber em seu pescoço a visita da guilhotina. já pagamos nosso tributo ao deus dos tópicos.entende-se esse Versalhes dos trejeitos . também tem as suas dentro do vasto mundo este pequeno "mundo elegante". "Todo o mundo" era. teríamos de pular fora de nossa história e submergir-nos em um orbe. mundo". talvez exata. A ASCENSÃO DO NÍVEL HISTÓRICO Este é o fato formidável do nosso tempo. toda juventude e atualidade. em aparência tão sem sentido. Jamais. descrito sem ocultar a brutalidade de sua aparência. ver por dentro o espetáculo. de quem é notório que sustento uma interpretação da história radicalmente aristocrática (28) É radical. Como tudo no mundo tem sua virtude e sua missão.não é aristocracia. Então se produz também o fenômeno da aglomeração. cada dia com mais enérgica convicção. edifícios enormes. normalmente. ademais. com o bilhete na mão. agora. desdenhosas. Se temos de achar algo semelhante. estrela de primeira grandeza no zodíaco da elegância madrilenha. mas muito mais que isso. Perfeitamente. A aristocracia social não se parece nada a esse grupo reduzidíssimo que pretende assumir para si íntegro o nome de "sociedade". Muito me fez meditar certa damazinha em flor. Bem entendido que falo da sociedade e não do Estado. como observou muito bem Spengler. Versalhes . do cheio.htm (24 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . o frontispício sob os quais se apresenta o fato tremendo quando é olhado desde o passado? Se eu deixasse aqui este assunto e estrangulasse meu presente ensaio. especiais. como se faz agora. Por isso. queira ou não. mas externa. muito justamente. podemos alegremente ingressar no tema. do império das massas que absorvem e anulam as minorias dirigentes e se colocam em seu lugar. que se chama a si mesmo "a sociedade" e que vive simplesmente de convidar-se ou de não convidar-se. até o ponto de que é sociedade na medida em que seja aristocrática. completamente diferente do nosso. mas nosso tema é agora outro de maiores proporções. Ou supunha-se que eu ia contentar-me com essa descrição. a unidade complexa de massa e minorias discrepantes. que é só a fachada. um pouco de abominação e outro pouco de repugnância. já chamamos duas vezes "brutal" a este império. aconteceu nada semelhante. A história do Império romano é também a história da subversão. porque me disse: "Eu não tolero um file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. É. Não: a quem sinta a missão profunda das aristocracias. é o seu oposto: é a morte e a putrefação de uma magnífica aristocracia. Por isso. como um fidalgote de Versalhes. o espetáculo da massa o incita e aviva como ao escultor a presença do mármore virgem. II. que a sociedade humana é aristocrática sempre. Ninguém pode acreditar que diante deste fabuloso encrespamento da massa. A época das massas é a época do colossal (27). seja o aristocrático contentar-se com fazer um breve trejeito amaneirado. em todo o seu desenvolvimento. mas uma missão muito subalterna e incomparável com a faina hercúlea das autênticas aristocracias. teríamos de insinuar-nos no mundo antigo. aceitavam-na como o tumor aceita o bisturi. ficaria o leitor pensando. que este fabuloso advento das massas à superfície da história não me inspirava outra coisa senão algumas palavras displicentes. porque eu não disse nunca que a sociedade humana deva ser aristocrática. Eu não teria inconveniente em falar sobre o sentido que possui essa vida elegante. de uma absoluta novidade na história de nossa civilização. Vivemos sob o brutal império das massas. e deixa de sê-lo na medida em que se desaristocratize. Eu disse e continuo crendo. Agora todo o mundo é só a massa. foi preciso construir. Certamente que essa mesma "sociedade distinta" está de acordo com o tempo.

certas minorias descobriram que todo indivíduo humano. mas. Todo outro direito imposto a dotes especiais ficava condenado como privilégio. de idéia ou ideal jurídico que era. com o que antes parecia reservado exclusivamente às minorias. os chamados direitos do homem e do cidadão. A soberania do indivíduo não qualificado. No século XVIII. inclusive quando as suas idéias são reacionárias. ou um bem possível? Aí está. Não obstante. estes direitos comuns a todos são os únicos existentes. instalada sobre nosso tempo como um gigante. baile ao qual tenham sido convidadas menos de oitocentas pessoas". mas. sob as legislações democráticas. de guilhotina ou de forca mas também com algo que quisera ser um arco triunfal! O fato de que necessitamos submeter a anatomia pode formular-se sob estas duas rubricas: primeira. as puseram de lado e as suplantam. E note-se bem: quando algo que foi ideal se faz ingrediente da realidade. A meu juízo. quer dizer. depois. beatamente. continuava sentindo-se a si mesma como no antigo regime. porque eram patrimônios de poucos. que são seu efeito sobre o homem. igualmente. imponente. Sentem apetites e necessidades que antes se qualificavam de refinamentos. Hoje aquele ideal converteu-se numa realidade. um puro teorema e idéia de uns poucos. não lhes obedecem. indomável e equívoca como todo destino. não chegou à entranha do destino. em grande parte. Repilo. E não apenas as técnicas materiais. o ingrediente terrível é posto pela atropelante e violenta sublevação moral das massas. não já nas legislações. não os sentia em si. pelo mero fato de nascer. o que é mais importante. pois. continuava vivendo. que são atributos do ideal. não as seguem. Todo destino é dramático e trágico em sua profunda dimensão. colossal. efetivamente. sem estremecer de espanto. as técnicas jurídicas e sociais. mas não acreditava nisso. o qual tem sempre uma forma equívoca. Isto foi. mas no coração de todo indivíduo. Para onde nos leva? É um mal absoluto. esses poucos começaram a usar praticamente dessa idéia.segundo então era chamado -. primeiro. passou. durante todo o século XIX a massa. toda interpretação de nosso tempo que não descubra a significação positiva oculta sob o atual império das massas e das que o aceitam. possuía certos direitos políticos fundamentais. Os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que são esquemas externos da vida pública. segunda. Mais ainda: as massas conhecem e empregam hoje. a rigor. Um exemplo trivial: em 1820 não havia em Paris dez quartos de banho em casas particulares. O "povo" . ao mesmo tempo as massas tornaram-se indóceis diante das minorias. o "povo" sabia já que era soberano. com algo. do indivíduo humano genérico e como tal. Quem não tenha sentido na mão palpitar o perigo do tempo. que se ia entusiasmando com a idéia desses direitos como com um ideal. a ser um estado psicológico constitutivo do homem médio. se volatilizam. inexoravelmente deixa de ser ideal. Através desta frase vi que o estilo das massas triunfa hoje sobre toda a área da vida e se impõe ainda naqueles últimos rincões que pareciam reservados aos happy few. com relativa suficiência.A rebelião das massas. não fez mais senão acariciar sua mórbida face. e sem necessidade de qualificação alguma. No nosso. as massas exercitam hoje um repertório vital que coincide. quem não entende esta curiosa situação das massas não pode compreender nada do que hoje começa a acontecer no mundo. a impô-la e reclamá-la: as minorias melhores. vejam-se as Memórias da comtesse de Boigne. Quero dizer com ela que as massas gozam dos prazeres e usam os utensílios inventados pelos grupos seletos e que antes só estes usufruíam. não as respeitam. pelo contrário. e que. muitas das técnicas que antes só os indivíduos especializados manejavam. O prestígio e a magia autorizante. Analisemos a primeira rubrica. inclusive quando esmaga e tritura as instituições onde aqueles direitos se sancionam. cósmico sinal de interrogação.htm (25 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . não os exercitava nem fazia valer senão de fato. quaisquer que sejam as suas idéias.

Mas não: a verdade entra agora em colisão com a galanteria. Mas agora nos ocorre uma advertência impremeditada. E nova coincidência. iniciam-se agora mesmo. mas em sua manifestação. o exército humano se compõe já de capitães. de repente -. Por que se queixam os liberais. todo o mal do presente e do imediato porvir tem neste ascenso geral do nível histórico sua causa e sua raiz. O soldado do dia.A rebelião das massas. com efeito. que não continue dócil. que a vida do homem médio está agora constituída pelo repertório vital que antes caracterizava só as minorias culminantes. praticamente desde sempre. Com isso. como os meninos querem uma coisa. que o nível médio da vida seja o das antigas minorias. A vida humana. constitucional. mas não se produziram no próximo passado. de um salto. tem muito de capitão. o atribuíam a não se sabe que influxo da América na Europa. Pense o leitor. em totalidade. a Europa se americanizou e que isto é devido a um influxo da América na Europa. Tanto um como outro. que cuide de sua pessoa e seus ócios. Ora bem: o homem médio representa a área sobre que se move a história de cada época. eventualmente. banalizou-se a questão. acreditavam que se tratava de uma leve mudança nos costumes. de uma moda. para ver clara minha intenção.depois de largas e subterrâneas preparações. dono. o desembaraço com que qualquer indivíduo luta hoje pela existência. impõe sua decisão. ascendeu. que reclame todos os prazeres. depois de dois file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Então não estranhe que atue por si. quer dizer-se lisa e lhanamente que o nível da história ascendeu de repente . pois. é na história o que é o nível do mar na geografia. acontecia na América. mas era o fato nativo. senhor de si mesmo e de sua vida? Já está conseguido. é o que desde o século XVIII.htm (26 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Há aqui um cúmulo desesperante de idéias falsas que nos estorvam a visão tanto aos americanos como aos europeus. os democratas. e. Não era isto que se queria? Que o homem médio se sentisse amo. Julgamos pois. numa geração. Basta ver a energia. os progressistas de há 30 anos? Ou é que. ainda mais curiosa! Ao aparecer na Europa esse estado psicológico do homem médio. direitos niveladores da generosa inspiração democrática converteram-se. diríamos. de aspirações de ideais. da América. é um fato novo na história. Os que isto diziam não davam ao fenômeno importância maior. Esse estado psicológico de sentir-se amo e senhor de si e igual a qualquer outro indivíduo. que imponha decidido sua vontade. Não recebeu ainda influxo grande da América. o nível médio se acha hoje onde antes só tocavam as aristocracias. que componha sua indumentária: são alguns dos atributos perenes que acompanham a consciência de senhorio. a meu juízo. em apetites de supostos inconscientes. A galanteria tenta agora subornar-me para que eu diga aos homens de Ultramar que. de que o presente é broto. que se negue a toda servidão. O triunfo das massas e a conseguinte magnífica ascensão de nível vital aconteceu na Europa por razões internas. desorientados pelo parecido externo. mas não suas conseqüências? Quer-se que o homem médio seja senhor. Ora bem: o sentido daqueles direitos não era outro senão tirar as almas humanas de sua interna servidão e proclamar dentro delas certa consciência de senhorio e dignidade. que é muito mais sutil e surpreendente e profunda. e deve triunfar. Se. o tom e maneiras da vida européia em todas as ordens adquire de repente uma fisionomia que fez muitos dizer: "A Europa está se americanizando". agarra o prazer que passa. a resolução. ao subir o nível de sua existência integral. Todo o bem. Hoje os achamos residindo no homem médio. na consciência de igualdade jurídica. que na Europa só os grupos preeminentes conseguiam adquirir. A Europa não se americanizou. Isso. na massa.

pois. Há quem se sinta nos modos da existência atual como um náufrago que não consegue sair a flutuar. E este é um dado que os americanos não devem esquecer. um espanhol médio. Vivemos em tempo de nivelações: nivelam-se as fortunas. a subversão das massas significa um fabuloso aumento de vitalidade e possibilidades. Portanto. tem sempre certa altitude. eleva-se ontem sobre hoje. mas do que menos se suspeita ainda: trata-se de uma nivelação. o que cada geração chama "nosso tempo". com maior ou menor claridade. A ALTURA DOS TEMPOS O império das massas apresenta. um aspecto favorável enquanto significa uma subida de todo o nível histórico. O fundamento era aquela entrevisão de um nível mais elevado na vida média de Ultramar. como a agricultura. Dita de outro modo. um alemão médio. que seria um refluxo. convém desde logo fazer constar que se trata de um erro crasso. que antes lhe era um enigma e um mistério. como dizem que as orquídeas se criam sem raízes no ar. Frase confusa e tosca. da altitude média social e não das eminências. A velocidade do tempo com que hoje marcham as coisas. Desde sempre se entrevia obscuramente pelos europeus que o nível médio da vida era mais alto na América que no velho continente. mas quanto à vitalidade. pois. Pois bem: também se nivelam os continentes. A intuição. e que é uma frase cheia de sentido a que sem sentido sói repetir-se quando se fala da altura dos tempos. porque coincide a situação moral do homem médio europeu com a do americano. ou cai por baixo. embainhada no vocábulo decadência. por exemplo. E como o europeu se achava vitalmente mais baixo. a relação em que sua própria vida se encontra com a altura do tempo onde transcorre. se diferenciam menos em tom vital de um ianque ou de um argentino que há trinta anos. sempre aceita. talvez minha afirmação pareça mais convincente e menos inverossímil. Compreender-se-á que idéia tão ampla e tão arraigada não podia vir do vento. de um influxo. o ímpeto de energia com que se faz tudo. que esta ou a outra coisa não é própria da altura dos tempos. Dos Estados e da cultura européia diremos algum vocábulo mais adiante . pouco analítica. Mas a história. séculos de educação progressista das multidões e de um paralelo enriquecimento econômico da sociedade. O que nos faz compreender que a vida pode ter altitudes diferentes. Do mesmo modo cada qual sente. Convém que nos detenhamos neste ponto. que seria um pouco estranho. da cultura européia ou do que está sob tudo isso e importa infinitamente mais que tudo isto. se dos Estados europeus. aconteceu que pela primeira vez o europeu entende a vida americana.A rebelião das massas. que contrastava com o nível inferior das minorias melhores da América comparadas com as européias. Não se trata.htm (27 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . que é todo ele chão. III. a saber: da vitalidade européia. onde não se sabe bem de que se fala. nutre-se dos vales e não dos cumes. porque ele nos proporciona a maneira de fixar um dos caracteres mais surpreendentes de nossa época. Com efeito: não o tempo abstrato da cronologia. ou se mantém a par. Mas isso é que o resultado coincide com o traço mais decisivo da existência americana. mas o tempo vital. nesta nivelação não fez senão ganhar. e revela que a vida média se move hoje em altura superior à que ontem pisava. tudo ao contrário. digo. A imagem de cair. nivelam-se os sexos. Diz-se. pois. pois. do que ouvimos tão amiúde sobre a decadência da Europa. procede desta intuição.e talvez a frase supradita valha para eles -. que hoje um italiano médio. nivela-se a cultura entre as diferentes classes sociais. mas evidente deste fato. olhada deste lado. de que a América era o porvir. e esta angústia mede o desnível entre a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e por isso. angustiam o homem de têmpera arcaica. nunca posta em dúvida. deu origem à idéia.

Qual é essa relação? Fora errôneo supor que sempre o homem de uma época sente as passadas. decaído.) Aetas parentum peior avis tulit nos nequiores. dizem os selvagens australianos. simplesmente porque passadas. Desde cento e cinqüenta anos depois de Cristo esta impressão de encolhimento vital. mas. cresce progressivamente no Império Romano. dizemos os educados por Grécia e Roma. a Alcheringa. (Odes. definitiva: tempos em que se crê haver chegado ao término de uma viagem. Já Horácio havia cantado: "Nossos pais. Isso revela que esses homens sentiam o pulso de sua própria vida mais ou menos falto de plenitude. À maior parte das épocas não lhes pareceu seu tempo mais elevado que outras idades antigas. e depois. mox daturos progeniem vitiosorem. Trata-se de um fenômeno muito curioso que nos importa muito definir. Enquanto isso. parecia-lhes não dominá-los. piores que nossos avós. quem vive com plenitude e a gosto as formas do presente. pois. nos engendraram ainda mais depravados. É a "plenitude dos tempos". acreditava o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o mais habitual tem sido que os homens suponham em um vago pretérito tempos melhores. Há trinta anos. bárbaros do Danúbio e do Reno. em que se cumpre um afã antigo e plenifica uma esperança. altura do seu pulso e a altura da época. Por esta razão respeitavam o passado. incapaz de encher por completo o canal das veias. mas antes. várias épocas na história que se sentiram como chegadas a uma altura plena. de diminuição. Ao contrário. e foi necessário alugar para este ofício dálmatas. pelo menos se se toma grosso modo. Houve. com efeito. Livro III. ao contrário. de existência mais plenária: a "idade de ouro". e me surpreende que não tenham reparado nunca pensadores e historiógrafos em fato tão evidente e substancioso. A impressão que Jorge Manrique declara tem sido certamente a mais geral. de decair e perder pulso. tem consciência da relação entre a altura de nosso tempo e a altura das diversas idades pretéritas. 6. Cada idade histórica manifesta uma sensação diferente ante esse estranho fenômeno da altura vital. dizendo que era imprópria da plenitude dos tempos. É curioso recordar que a mesma frase aparece empregada por Trajano na sua famosa carta a Plínio. cuja existência se lhes apresentava como algo mais amplo. como um grau de temperatura. tal ou qual desmando. mais rico.A rebelião das massas. mais perfeito e difícil que a vida de seu tempo. sentiria que não contém em si o grau superior. ficar debaixo deles. Vejamos agora outra classe de épocas que gozam de uma impressão vital ao parecer a mais oposta a essa. soíam rechaçar esta ou outra medida de governo. e nós daremos uma progênie todavia mais incapaz". a completa madureza da vida histórica.htm (28 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . os tempos "clássicos ". Nem todas as idades se sentiram inferiores a algumas do passado. como mais baixas de nível que a sua. Bastaria recordar que. que há neste mais calorias que nele mesmo. Ao olhar para trás e imaginar esses séculos mais valiosos. Quando há não mais de trinta anos os políticos peroravam ante as multidões. nem todas se supuseram superiores a quantas foram e recordam. as mulheres tornaram-se estéreis e a Itália se despovoou. Mas isso tampouco é verdade. ao parecer de Jorge Manrique. Dois séculos mais tarde não havia em todo o Império bastantes itálicos medianamente valorosos com os quais preencher as praças de centuriões. Qualquer tempo passado foi melhor. ao recomendar-lhe que não se perseguissem os cristãos em virtude de denúncias anônimas: Nec nostri saeculi est. se tivesse consciência. Por outra parte.

irremediavelmente. de contraste penoso entre uma civilização clara e a realidade que não lhe corresponde. a esse próximo plenário passado. Daí o dado surpreendente de que essas etapas de chamada plenitude tenham sentido sempre no sedimento de si mesmas uma peculiaríssima tristeza. às vezes milenário. não se sente já definitivo. o essencial para que exista "plenitude dos tempos" é que um desejo antigo. às vezes. à meta antecipada. é que já não deseja nada mais. parece cumprir-se. de outros tempos sem plenitude. Já o nome é inquietante: que um tempo se chame a si mesmo "moderno". empedernido tomador de pulso de tempos. Não se esqueça disto: nosso tempo é um tempo que vem depois de um tempo de plenitude. se denominou a si mesmo "cultura moderna". inferiores ao próprio. e o olhe todo sob sua ótica. que se lhe secou a fonte do desejar. o que desde muitas gerações se vinha anelando que fosse. em sua raiz mesma encontra obscuramente a intuição de que não há tempos definitivos. A fé na cultura moderna era triste: era saber que amanhã ia ser file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Daí que. Há séculos que por não saber renovar seus desejos morre de satisfação. como no século XIX. de "ainda não". resumindo. mas que pelo contrário essa pretensão de que um tempo de vida .o chamado "cultura moderna" . E. último. sofrerá o espelhismo de sentir a idade presente como um cair desde a plenitude. Isto é. quem continua adscrito à outra margem.A rebelião das massas. modestas preparações e aspirações para ele! Setas sem brio que erram o alvo! (31).htm (29 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . tão fruídos. seu ideal. europeu que a vida humana havia chegado a ser o que devia ser. imprevisível e inesgotável. o que teria já que ser sempre. que a famosa plenitude é em realidade uma conclusão. tempos de só desejo insatisfeito. Mas um velho afeiçoado à história. ao cume do tempo! Ao "ainda não" sucedeu o "por fim". esses tempos plenos são também satisfeitos de si mesmos. Segundo eu disse. Não se sonda já aqui a diferença essencial entre nosso tempo e esse que acaba de preterir. é o que. por fim um dia fica satisfeito. Esta era a sensação que de sua própria vida tinham os nossos pais e toda a sua centúria. sobre os quais vai montada esta hora bem granosa. E ao sentir assim percebemos uma deliciosa impressão de nos havermos evadido de um recinto estreito e hermético. e sair de novo sob as estrelas ao mundo autêntico. A autêntica plenitude vital não consiste na satisfação. diante do qual todos os demais são puros pretéritos. seguros. como uma decadência. Mas agora compreendemos que esses séculos tão satisfeitos. na chegada. e que no século XIX parece finalmente realizar-se. com efeito. Por fim chega um dia em que esse velho desejo. para sempre cristalizados. parece-nos uma obcecação e estreiteza inverossímeis do campo visual. na posse. O desejo tão lentamente gestado. terrível. profundo. como morre o zângão afortunado depois do vôo nupcial (30). ao contrário. Assim vê a Idade Média o século XIX. Chegamos à altura entrevista. Vistos de sua altura. Um tempo que satisfez seu desejo. aqueles períodos preparatórios aparecem como se neles se houvessem vivido de puro afã e ilusão não lograda. tudo é possível: o melhor e o pior. estão mortos por dentro. o qual se vinha arrastando aneloso e querulante durante séculos. onde tudo. quer dizer. arquisatisfeitos (29). Os tempos de plenitude se sentem sempre como resultante de muitas outras idades preparatórias. não se pode deixar alucinar por essa ótica da suposta plenitude. de ardentes precursores. de transpor? Nosso tempo. a realidade o recolhe e lhe obedece. de haver escapado.fosse definitivo. com efeito. definitivo. Já dizia Cervantes que "o caminho é sempre melhor que a pousada".

Quando nos começos do Império algum fino provinciano chegava a Roma . mas hoje quero antecipar a mais óbvia: provém de que. Contrasta este diagnóstico. sentia contrair-se seu coração. em minha opinião perigosa. como a culminação do passado. E é que. ainda que de signo inverso: a melancolia dos edifícios eternos. a rigor. e não advertem que tudo isso é só a superfície da história. elástica. debilitada e insípida. fecunda a fera. não a mesma. porque isso. ou por sentir-se em plenitude. antes que isso e mais fundo que isso. põe flor na árvore. Nos salões do último século chegava indefectivelmente uma hora em que as damas e seus poetas amestrados faziam entre si esta pergunta: Em que época quisera você haver vivido? E eis aqui que cada um. de nenhum antes. Ora bem: essa comparação pode fazer-se desde os pontos de vista mais diferentes e vários que caiba imaginar. mas. como se conhece que uma vida se sente ou não decair? Para mim não cabe dúvida a respeito do sintoma decisivo: uma vida que não prefere outra nenhuma de antes. Diante dos diagnósticos de decadência eu recomendo o seguinte raciocínio: A decadência é. Para um fabricante de boquilhas de âmbar. Não há mais que um ponto de vista justificado e natural: instalar-se nessa vida. única até agora na história conhecida. ser um horizonte sempre aberto a toda possibilidade. é a verdadeira plenitude da vida. o provinciano sensível percebia uma melancolia não menos penosa. com efeito. isto é. faz tremeluzir a estrela. uma potência parecida às cósmicas. fiéis a uma ideologia. arbitrários e externos à própria vida cujos quilates se trata precisamente de avaliar. é certo. que se levanta delas como a evaporação das águas mortas. não natural. Daí que ainda acreditasse em épocas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. um conceito comparativo. Um caminho assim é a bem dizer uma prisão que. ou Sêneca .A rebelião das massas. com o queixume de decadência que choraminga nas páginas de tantos contemporâneos. minguada. que o progresso consistia só em avançar com todos os sempres sobre um caminho idêntico ao que já estava sob nossos pés. não deixam de ser parciais. ser imprevisível.htm (30 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . encarnando a figura de sua própria vida. que a realidade histórica é. Pois acontece que precisamente o nosso goza neste ponto de uma sensação estranhíssima. se alarga sem nos libertar. em todo o essencial igual a hoje. ligado ao passado. com efeito. Outros pontos de vista serão mais respeitáveis que este. portanto. Já nada novo podia haver no mundo. portanto. embora sentindo-se. se dedicava a vagar imaginavelmente pelas vias históricas em busca de um tempo onde encaixar a gosto o perfil de sua existência. Outro dia veremos algumas. e isso secretamente nos regozija. Toda a minha excursão sobre o problema da altitude dos tempos perseguia esta conclusão.e via as majestosas construções imperiais. sobre cujos ombros acreditava estar. embora olhada por dentro de si mesma. E se há uma melancolia das ruínas. ao qual falta. Decai-se de um estado superior para um estado inferior. Roma era eterna. não é evidente que a sensação de nossa época se parece mais à alegria e alvoroço de meninos que escaparam da escola? Agora já não sabemos o que vai haver amanhã no mundo. Trata-se de um erro ótico que provém de múltiplas causas. Diante desse estado emotivo. Mas. é a vida autêntica. um puro afã de viver. que eu saiba. olham da história só a política ou a cultura. não pode em nenhum sentido sério chamar-se decadente. via-se. por exemplo. o mundo está em decadência porque já não se fuma apenas com boquilhas de âmbar.Lucano. símbolo de poder definitivo. claro está. mas sim irmã da que inquieta o mar. contemplá-la de dentro e ver se ela se sente a si mesma decaída. esse século XIX ficava. que se prefere a si mesma. sua outra metade.

sejam de arte. a altura de nosso tempo? Não é plenitude dos tempos. mais ou menos confusa. Daí que pela primeira vez nos encontremos com uma época que faz tábua rasa de todo classicismo. Pois bem: que diria sinceramente qualquer homem representativo do presente a quem se fizesse uma pergunta parecida? Eu creio que não é duvidoso: qualquer passado. como Pedro Schlehmil. Olhamos para trás e o famoso Renascimento nos parece um tempo angustiosíssimo. de maior tamanho que todas as vidas. que o mundo. uma iniciação. e entretanto. que cada indivíduo vive habitualmente todo o mundo. Esta intuição de nossa vida de hoje anula com sua claridade elemental toda lucubração sobre decadência que não seja muito cautelosa. que já não nos podem ajudar. e sobrevinda ao cabo de tantos séculos sem descontinuidade de evolução. Orgulhosa de suas forças e ao mesmo tempo temendo-as. O resto do espírito tradicional evaporou-se. tal situação na forma seguinte: "Esta grave dissociação de pretérito e presente é o fato geral de nossa época e nela vai incluída a suspeita. de atitudes vãs . as pautas não nos servem. os sevilhanos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. É. E o que acontece sempre que chega o meio-dia (32) Qual é. Como poderá sentir-se decadente? Pelo contrário: o que aconteceu é que. não são por sua vez mais que sintoma de um fato mais completo e geral. de mau gosto. lhe daria a impressão de um recinto angustioso onde não podia respirar. que o passado íntegro ficou pequeno para a humanidade atual.A rebelião das massas. Eu resumia. em resumo. que os mortos não morreram de brincadeira.por que não dizê-lo? -. Nossa vida sente-se. levam a cara voltada para trás. de tanto sentir-se mais vida. uma infância. que o homem do presente sente que sua vida é mais vida que todas as antigas. A vida mundializou-se efetivamente. parece. o Renascimento -. toda a atenção ao passado. Isto bastaria para nos fazer suspeitar dos tempos de plenitude. olham o passado que neles se cumpre. e com ele e nele. uma alvorada.htm (31 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Não é fácil formular a impressão que de si mesma tem nossa época: crê ser mais que as demais. as normas. Isto é. provincial. mas completamente. perdeu todo o respeito. Que expressão escolheremos? Talvez esta: mais que os demais tempos e inferior a si mesma. IV. relativamente clássicas . Este fato é quase grotesco e incrível em sua simples evidência. sem excluir nenhum. cresceu. ou dito às avessas. O CRESCIMENTO DA VIDA O império das massas e o ascenso de nível. quero dizer que o conteúdo da vida no homem de tipo médio é hoje todo o planeta. e ao mesmo tempo sente-se como um começo. que engendra a inquietude peculiar da vida nestes anos. simplesmente. Fortíssima e ao mesmo tempo insegura de seu destino. sem estar segura de não ser agonia. de repente. Os modelos. de ciência ou de política -. entretanto. perdeu sua sombra. Há pouco mais de um ano.o século de Péricles. sente-se sobre todos os tempos sidos e por cima de todas as conhecidas plenitudes. onde se haviam preparado os valores vigentes. a vida. Sentimos que de repente ficamos sós sobre a terra os homens atuais. um começo. a altitude do tempo que ele anuncia. O europeu está só. não obstante. Temos de resolver nossos problemas sem colaboração ativa do passado. em pleno atualismo . que não reconhece em nada pretérito possível modelo ou norma. há tempos. sem mortos viventes perto de si.

Esta proximidade do longínquo. Tome-se qualquer uma de nossas atividades. hora a hora. que possuam fortuna igual. que carecem por completo de sentido. Mas ai está: esse estranhíssimo fato de nossa vida possui a condição radical de que sempre encontra ante si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas em que inclua mais coisas. aumentou em proporção fabulosa o horizonte de cada vida. O fato é falso. Civilizações inteiras e impérios dos quais nem o nome se suspeitava. A atividade de comprar conclui em decidir-se por um objeto. Cada pedaço de terra não está já recluído em seu lugar geométrico. Cada coisa . e a eleição começa por perceber as possibilidades que oferece o mercado. acompanhavam. A pré-história e a arqueologia descobriram âmbitos históricos de longitude quimérica. esta presença do ausente.htm (32 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . por exemplo. e compare-se o repertório de coisas em venda que se oferece a um e a outro. encontrar. fazer. com a qual matamos espaço e jugulamos tempo. Segundo o princípio físico de que as coisas estão ali onde atuam. mas para muitos efeitos vitais atua nos demais pontos do planeta. consumir em menos tempo vital mais tempo cósmico. careceria de sentido chamá-la assim. gozar de mais idas e mais vindas. um do presente e outro do século XVIII. tentar. mas é também antes uma eleição. pelo contrário. Mas este aumento espácio-temporal do mundo não significaria por si nada. que sobre o fundo ardente da campina bética passavam blocos de gelo à deriva. Seria apenas pura necessidade. em seus jornais populares. nomes todos que significam atividades vitais. Era para o homem questão de honra triunfar no espaço e no tempo cósmicos (33). proporcionalmente ao valor do dinheiro em ambas as épocas. O jornal ilustrado e o cinema trouxeram estes remotíssimos pedaços de mundo à visão imediata do vulgo. Ao anulá-los. Não é fácil imaginar com o desejo um objeto que não exista no mercado. que me parece essencialíssimo: nossa vida é em todo instante e antes que nada consciência do que nos é possível. podemos estar em mais lugares que antes.tome-se a palavra em seu mais amplo sentido . o homem de hoje não poderá comprar mais coisas que o do século XVIII. gozar ou repelir. quero dizer. consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra como tais. Por isso é mais justificado do que sói crer-se o culto à velocidade que transitoriamente exercitam nossos contemporâneos. Se em cada momento não tivéssemos à nossa frente mais que uma só possibilidade. A velocidade feita de espaço e tempo não é menos estúpida que seus ingredientes. e vice-versa: não é possível que um homem imagine e deseje quanto se acha à venda. A quantidade de possibilidades que se abrem ante o comprador atual chega a ser praticamente ilimitada. vivificamo-los.é algo que se pode desejar.A rebelião das massas. foram anexados a nossa memória como novos continentes. De onde resulta que a vida. O espaço e o tempo físicos são o absolutamente estúpido do universo. A diferença é quase fabulosa. em definitivo. Imaginem-se dois homens. Mas finalmente não me importaria que o fato fosse certo. Dir-me-ão que. Uma estupidez não se pode dominar a não ser com outra. porque a indústria barateou quase todos os artigos. o que estava acontecendo com uns homens junto ao Pólo. Mas. com fortuna proporcionalmente igual. reconheceremos hoje a qualquer ponto do globo a mais efetiva ubiqüidade. em seu modo "comprar". desfazer. Hoje podem comprar-se muitas mais. sublinharia mais o que tento dizer. E o mundo cresceu também temporalmente. o crescimento substantivo do mundo não consiste em suas maiores dimensões. mas serve para anular aqueles. e não há razão para estranhar de que nos produza um pueril prazer fazer funcionar a vazia velocidade. comprar. tornamos possível ser o aproveitamento vital. Quando se fala de nossa vida sói esquecer-se disto.

no que vai de século. o programa de misteres possíveis hoje é superlativamente grande. O mundo ou nossa vida possível é sempre mais que nosso destino ou vida efetiva. Esta tem de se concretizar para realizar-se. Entretanto. Mas agora importa-me só fazer notar como cresceu a vida do homem na dimensão de potencialidade. Não basta admirar cada uma delas e reconhecer o record que batem. guerreiro. mago -. seu tom vital que consiste em sentir-se com maior potencialidade que nunca e parecer-lhe todo o pretérito afetado de pequenez. Porque coisa similar acontece na ciência. os jornais e as conversações lhe fazem chegar a notícia destas performances intelectuais que os aparelhos técnicos recém-inventados confirmam desde as vitrinas. Mundo é o repertório de nossas possibilidades vitais. se bem . mais problemas. E em tudo isto não me refiro ao que possa significar como perfeição da cultura . mais pontos de vista. enfim. mais dados. Não é. de seu avanço quantitativo ou potencial. Não falei da atualidade da vida presente. É um fato constante e notório que no esforço físico e esportivo se cumpram hoje performances que superam enormemente quantas se conhecem do passado. A física de Einstein está feita atendendo às mínimas diferenças que antes se desprezavam e não entravam em conta por parecer sem importância. pois. que por serem várias adquirem o caráter de possibilidades entre as quais havemos de decidir (34). Não quero dizer com o dito que a vida humana seja hoje melhor que em outros tempos.htm (33 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .e as urbes são a representação da existência atual -. portanto. algo à parte e alheio a nossa vida. Tudo isso decanta em sua mente a impressão de fabulosa prepotência. Em um par de lustros tão somente. nossa potencialidade vital. várias saídas. e nós. de uma maneira fantástica. Porque este é o sentido originário da idéia (mundo). as possibilidades de gozar aumentaram.isso não me interessa agora -.não é seu elenco tão exuberante como nos demais aspectos da vida. Mas o crescimento da potencialidade vital não se reduz ao dito até aqui. mas que é sua autêntica periferia. dentro dele. Conta com um âmbito de possibilidade fabulosamente maior que nunca. esta ampliou e inverossimilmente seu horizonte cósmico. A este âmbito costuma chamar-se "as circunstâncias". ou. Na ordem intelectual encontra mais caminho de possível ideação. caçador.e o fenômeno tem mais gravidade do que se supõe . Tanto vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos em um ambiente de possibilidades determinadas. para o homem de vida média que habita as urbes . Enquanto os ofícios ou carreiras na vida primitiva se numeram quase com os dedos de u'a mão . Daí que nos parece o mundo uma coisa tão enorme. mais ciências. uma coisa tão pequena. limite ontem do mundo. mas ao crescimento das potências subjetivas que tudo isso supõe. dito de outra maneira. chegamos a ser só uma parte mínima do que podemos ser. do mesmo modo que o campeão de boxe dá hoje murros de maior calibre que jamais se deram. O átomo. Aumentou também em um sentido mais imediato e misterioso. A física de Einstein move-se em espaços tão vastos. mas advertir a impressão de que o organismo humano possui em nosso tempo capacidades superiores às que nunca teve. Não ressalto que a física de Einstein seja mais exata que a de Newton. Toda vida é achar-se dentro da "circunstância" ou mundo (35).pastor. Nos prazeres acontece coisa parecida. hoje inchou até se converter em todo um sistema planetário. que a antiga física de Newton ocupa neles apenas um sótão (36) E este crescimento extensivo se deve a um crescimento intensivo na precisão científica.A rebelião das massas. mas apenas de seu crescimento. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Como o cinematógrafo e a ilustração põem ante os olhos do homem médio os lugares mais remotos do planeta. mas que o homem Einstein seja capaz de maior exatidão e liberdade de espírito (37) que o homem Newton. Representa o que podemos ser. Creio com isso descrever rigorosamente a consciência do homem atual.

e que me parece tão simples como evidente. Por si mesmo não seria isto um mau sintoma: significaria que voltamos a tomar contato com a insegurança essencial a todo viver.cultura e nações -. pressentimos que é possível o pior: o retrocesso. esforçando-nos por ganhar segurança e insensibilizar-nos para o dramatismo radical do nosso destino.que tinha todos os talentos. Porque esse é precisamente seu problema. Recorde-se o raciocínio que eu fazia. mais ainda: por desentender-se de todo pretérito. Duvido que sem se afiançar bem nesta advertência se possa entender o nosso tempo. Por esta razão me detive a considerar um fenômeno que sói desatender-se: a consciência ou sensação que toda época tem de sua altitude vital.. Isto nos leva a falar da "plenitude" que sentiram alguns séculos diante de outros que. e. Acontece-lhe como se dizia do Regente durante a infância de Luiz XV . Não está mal esse ademane. senão ver-se a si mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a elas. a barbárie. com a inquietude a um tempo dolorosa e deliciosa que vai encerrada em cada minuto se sabemos vivê-lo até o seu centro. para poder ouvir a secreta germinação do futuro. mais saber. Geralmente.A rebelião das massas. Com mais meios. A atitude que a ordenança romana impunha à sentinela da legião era manter o indicador sobre os lábios para evitar a sonolência e manter-se atenta. Bastaria isso para falar da decadência ocidental? De modo algum.htm (34 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . benéfico que pela primeira vez depois de quase três séculos nos surpreendamos com a consciência de não saber o que vai acontecer amanhã. ainda que fosse incapaz de realizá-los. vertendo sobre ele o costume. não reconhecer épocas clássicas e normativas. veria outras épocas como superiores a ele e isto seria uma e mesma coisa com estimá-las e admirá-las e venerar os princípios que as informaram. Muitas coisas pareciam já impossíveis ao século XIX. mas não é dono de si mesmo. Domina todas as coisas. firme em sua fé progressista. recusamos tomar essa pulsação pavorosa que faz de cada instante sincero um miúdo coração transeunte. o mundo atual vai como o mais infeliz que tenha havido: puramente ao acaso. Nosso tempo teria ideais claros e firmes. sobre decadência ocidental que pulularam no ar do último decênio. Se se sentisse decaído.É. menos o talento para usar deles. inversamente. sentirá certo gênero de insegurança que o incita a permanecer alerta. se viam a si mesmos como decaídos de maiores alturas. mais técnicas que nunca. o uso. relativas a elementos secundários da história . Refere-se o pessimista vocábulo à cultura? Há uma decadência da cultura européia? Há somente uma decadência das organizações nacionais européias? Suponhamos que sim. E concluía eu fazendo notar o fato evidentíssimo de que nosso tempo se caracteriza por uma estranha presunção de ser mais que todo o tempo passado. Sente-se perdido em sua própria abundância. mas que não sabe o que realizar. pois. até sua pequena víscera palpitante e cruenta. A segurança das épocas de plenitude - file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de tanto nos parecer tudo possível. Hoje. Era necessária esta descrição para obviar as lucubrações sobre decadência. a decadência (38). Porque são estas decadências diminuições parciais. Não vale falar de decadência sem precisar que é o que decai. o tópico .todos os clorofórmios . e esta só existe quando se sente. Só há uma decadência absoluta: a que consiste numa vitalidade minguante. em espécie. de antigas e deslumbrantes idades de ouro. Mas a verdade é estritamente o contrário: vivemos em um tempo que se sente fabulosamente capaz para realizar. que parece imperar um maior silêncio ao silêncio noturno. Todo aquele que se coloque ante a existência numa atitude séria e se faça dela plenamente responsável. Daí essa estranha dualidade de prepotência e insegurança que se aninha na alma contemporânea.

consiste em todo o contrário. e por isso mesmo mais problemática.é uma ilusão ótica que leva a despreocupar-se do porvir.. mais perigosa. sempre novo. o que podemos ser. decidimos não decidir. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. com necessidade parelha à astronômica. exuberante. Não pode orientar-se no pretérito (39). Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. UM DADO ESTATÍSTICO Este ensaio quisera vislumbrar o diagnóstico de nosso tempo. Tudo isto vale também para a vida coletiva. É. encarregando de sua direção a mecânica do universo. Tem de inventar seu próprio destino. nos força. em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. Vai enunciada a primeira parte dele. de nossa vida atual. transbordou todos os caminhos. É mais vida que todas as vidas. Mas já é tempo de que voltemos a falar desta. Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade. convencido de que não tem surpresa nem segredos. inexoravelmente. A circunstância . consequentemente. Mas assim como seu formato é maior. princípios. soltaram o leme da história. primeiro. um horizonte de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.as possibilidades . e por isso mesmo. que pode resumir-se assim: nossa vida. a vida se lhes escapou dentre as mãos. imediatamente. que é.A rebelião das massas. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil. antecipações e ideais. pois. Sob sua máscara de generoso futurismo. a decidir o que vamos ser neste mundo. ante o qual temos de nos decidir. supõem que o desejado por eles como futuro ótimo se realizará. sem desvios nem retrocessos. este de agora . a eleger. mas viver é encontrar-se. vida possível. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir. Mas agora é preciso completar o diagnóstico. Ninguém se preocupou de preveni-los. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão.. peripécias nem inovações essenciais. Depois de haver insistido na vertente favorável que apresenta o triunfo das massas. sem rumo conhecido. O mesmo que o liberalismo progressista é o socialismo de Marx. o progressista não se preocupa do futuro. cuja trajetória está absolutamente predeterminada. perderam a agilidade e a eficácia. Também nela há. antes de tudo. Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema. certo de que já o mundo irá em linha reta. Protegidos ante sua própria consciência por essa idéia. Isso constitui o que chamamos o mundo. fez-se por completo insubmissa. Assim. como repertório de possibilidades. A vida não elege seu mundo. assim na última centúria .o mundo é sempre este.é o que de nossa vida nos é dado e imposto. Em vez de impor-nos uma trajetória. é magnífica. é também. A vida. que se acha sempre ao reverso da rebelião das massas.htm (35 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Não poderá estranhar que hoje o mundo pareça vazio de projetos. Mas quem decide é o nosso caráter. Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. retrai sua inquietude do porvir e se instala num definitivo presente. deixaram de estar alerta. convém que nos deslizemos por sua outra ladeira. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo . falso dizer que na vida "decidem as circunstâncias ". normas e ideais legados pela tradição. Tal tem sido a deserção das minorias dirigentes. e hoje anda solta. V. superior a todas as historicamente conhecidas. decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. impõe-nos várias e.

a inundou. Mas ao mesmo tempo nos mostra esse dado que é infundada a admiração com que ressaltamos o crescimento de países novos como os Estados Unidos da América. trajetória antecipada. não tem caminho prefixado. retrocedendo ao começo deste ensaio. ainda que suas possibilidades. Este simplicíssimo dado basta por si só para esclarecer nossa visão da Europa atual. Os programas eram.excelente vocábulo -. nos perguntamos: de onde vieram todas estas multidões que agora enchem e transbordam o cenário histórico? Há alguns anos destacava o grande economista Werner Sombart um dado simplicíssimo. sem projeto. Assim tem sido sempre o Poder público quando o exerceram diretamente as massas: onipotente e efêmero. pois. Hoje acontece uma coisa muito diferente.A rebelião das massas. deve ser acrescido como o somando mais concreto ao crescimento da vida como antes fiz constar. possibilidades. ou. seus poderes. o Poder público. não a resolvê-lo. Quando esse poder público tenta justificar-se. vive ao dia. senão. a rigor. a Europa não consegue chegar a outra cifra de povoação senão a de 180 milhões de habitantes. Estas são tão poderosas. Em suma. O homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e caminha ao acaso. O fenômeno é sobremaneira estranho. Estas apresentavam seus "programas" . O dado é o seguinte: desde que no século VI começa a história européia até o ano 1800 portanto. e se não basta. e. que analisemos seu caráter. Por isso não constrói nada. não significa um anúncio claro de futuro. mas a escapar dele imediatamente. que é estranho não conste em toda cabeça que se preocupe dos assuntos contemporâneos. o que é o mesmo. do sufrágio universal.portanto. depois. Esta resolução emana do caráter que a sociedade tenha. em pouco mais de um século. São donas do Poder público em forma tão incontrastável e superlativa. uma resolução que elege e decide o modo efetivo da existência coletiva. este dado para compreender o triunfo das massas e quanto nele se reflete e se anuncia. programas de vida coletiva. em toda a longitude de doze séculos -. Pois bem: de 1800 a 1914 . pelo contrário. Convém. Neles convidava-se a massa a aceitar um projeto de decisão. E. vive sem programa de vida. que aniquilaram toda possível oposição. põe na pista de todo esclarecimento. a população européia ascende de 180 a 460 milhões! Presumo que o contraste destas cifras não deixa lugar a dúvidas a respeito dos dotes prolíficos da última centúria. Em nosso tempo. O Poder público acha-se em mãos de um representante de massas. é ele quem decide. pela urgência do presente. A chave para esta análise encontra-se quando. não aparece como começo de algo cujo desenvolvimento ou evolução seja imaginável. Quer dizer. do tipo de homem dominante nela. Maravilha-nos seu crescimento. não vai. repito. E este tipo de homem decide em nosso tempo. lançada como uma torrente sobre a área histórica. que seria difícil encontrar na história situações de governo tão prepotentes como estas. com efeito. surpreende notar que neles se vive politicamente ao dia. No sufrágio universal não decidem as massas. não por cálculos do futuro. Por outra parte. ainda à custa de acumular com seu emprego maiores conflitos sobre a hora próxima. Não sabe aonde vai porque. não se apresenta como um porvir franco. senão que seu papel consistiu em aderir à decisão de uma ou outra minoria. não alude para nada ao futuro. Bastaria. Daí que sua atuação se reduza a evitar o conflito de cada hora. Se se observa a vida pública dos países onde o triunfo das massas avançou mais .htm (36 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .são os países mediterrâneos -. empregando os meios que sejam. domina o homem-massa. o Governo. fecha-se no presente e diz com perfeita sinceridade: "Sou um modo anormal de governo que é imposto pelas circunstâncias". Não se diga que isto era o que acontecia já na época da democracia. Em três gerações produziram gigantescamente massa humana que. sejam enormes. entretanto. que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.

sem problemas tradicionais e complexos. o aumento de população o que nas cifras transcritas me interessa. pois.A rebelião das massas. num só século. que não era fácil saturá-los da cultura tradicional. encontramo-nos com a experiência de que ao submeter a semente humana ao tratamento destes dois princípios. senão que mercê a seu contraste põe em relevo a impetuosidade do crescimento. segunda. Daí que às vezes produza a impressão de um homem primitivo surgido inesperadamente em meio a uma velhíssima civilização. incomparável. Se é evidente que havia nele algo extraordinário e incomparável. Mas ainda que não seja tão conhecido como devera o dado calculado por Werner Sombart. terceira. A América está feita com a sobra da Europa.que põem em perigo iminente os princípios mesmos a que deveram a vida. não o é menos que deveu padecer certos vícios radicais. Não é. Aparece a história inteira como um gigantesco laboratório onde se fizeram os ensaios imagináveis para obter uma fórmula de vida pública que favorecesse a planta "homem".a velocidade de aumento em sua povoação lhe é peculiar. ao século passado a glória e a responsabilidade de haver soltado sobre a face da história as grandes multidões. que esse tipo de vida não será o melhor imaginável. Esta é a que agora nos importa. não se pode fazer outra coisa senão ensinar às massas as técnicas da vida moderna. devia haver nela quando na sua atmosfera se produzem tais colheitas de fruto humano. é preciso revolver-se contra o século XIX. Se esse tipo humano continua dono da Europa e é definitivamente quem decide. o tipo médio do atual homem europeu possui uma alma mais sã e mais forte que as do passado século. Porque esta impetuosidade significa que têm sido projetados a magotes sobre a história montões e montões de homens em ritmo tão acelerado. Eis aqui outra razão para corrigir o espelhismo que supõe uma americanização da Europa.htm (37 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . As técnicas jurídicas e materiais se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Corresponde. mas o que imaginemos melhor terá de conservar o essencial daqueles princípios. É frívola e ridícula toda preferência dos princípios que inspiraram qualquer outra idade pretérita se antes não demonstra que se encarregou deste fato magnífico e tentou digeri-lo. inoculou-se-lhes atropeladamente o orgulho e o poder dos meios modernos. porém muito mais simples. que é suicida todo retorno a formas de vida inferiores à do século XIX. Nas escolas que tanto orgulhavam o passado século. Nem sequer o traço que pudera aparecer mais evidente para caracterizar a América . democracia liberal e técnica. com efeito. mas não sensibilidade para os grandes deveres históricos. a tirar estas conseqüências: primeira. E. e as novas gerações dispõem-se a tomar o comando do mundo como se o mundo fosse um paraíso sem rastros antigos. Algo extraordinário. pois. E ultrapassando toda possível sofisticação. Fato tão exuberante força-nos. quando o maravilhoso é a proliferação da Europa. Uma vez reconhecido isto com toda a claridade que demanda a claridade do próprio fato. Por isto não querem nada com o espírito. mas não o espírito. certas constitutivas insuficiências quando engendrou uma casta de homens . num século chegou a 100 milhões de homens. mas não foi possível educá-las. era de sobra notório o fato confuso de haver aumentado consideravelmente a povoação européia para insistir nele. A Europa cresceu no século passado muito mais que a América. que a democracia liberal fundada na criação técnica é o tipo superior de vida pública até agora conhecido. bastarão trinta anos para que nosso continente retroceda à barbárie. Deram-se-lhe instrumentos para viver intensamente.os homens-massa rebeldes . triplicasse a espécie européia. Por essa razão oferece este fato a perspectiva mais adequada para julgar com eqüidade essa centúria. se não preferirmos ser dementes.

A idéia de que o historiador é um profeta pelo avesso resume toda a filosofia. porque se prestam mútuo esclarecimento. Certamente que só cabe antecipar a estrutura geral do futuro. Não se encontra. escassez. se o senhor quer ver bem sua época. volatilizarão com a mesma facilidade com que se perderam tantas vezes segredos de fabricação (40). mas que se exige. Situação de tal modo aberta e franca tinha por força que decantar no estrato mais profundo dessas da história. gritava de um penhasco alcantilado da Engadina o bigodudo Nietzche. A vida toda se contrairá. 1880. por um simples raciocínio a priori. compreendemos do pretérito ou do presente. Nunca pode o homem médio resolver com tanta folga seu problema econômico. impotência angustiosa. apocalíptico. anunciava Augusto Comte. de 1850. Entretanto. Cada dia ajuntava um novo luxo ao repertório de seu standard vital. "Vejo subir a preamar do nihilismo! ". com um bem-estar posto diante dele solicitamente por uma sociedade e um Estado que são um portento de organização. pois.a vida política e a não política -? Por que é como é. Que aspecto oferece a vida desse homem multitudinário. o homem médio de qualquer classe social encontrava cada dia mais franco seu horizonte econômico. Enquanto em proporção diminuíam as grandes fortunas e se tornava mais dura a existência do operário industrial.A rebelião das massas. Qualquer mente perspicaz de 1820. como o homem médio. Por isso. A atual abundância de possibilidades se converterá em efetiva míngua. Porque a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o que Rathenau chamava "a invasão vertical dos bárbaros". Desde 1900 começa também o operário a ampliar e assegurar a sua vida. A que distância? Muito simples: à distância justa que o impeça ver o nariz de Cleópatra. pode. por isso mesmo é o único que. um aspecto de omnimoda facilidade material. O homem que agora tenta pôr-se à frente da existência européia é muito diferente daquele que dirigiu o século XIX. O que antes se houvera considerado comum benefício da sorte que inspirava humilde gratidão ao destino. olhe-a de longe. converteu-se num direito que não se agradece. mas foi produzido e preparado no século XIX. nada novo acontece que não tenha sido previsto há cem anos. em verdadeira decadência. Cada dia sua posição era mais segura e mais independente do arbítrio alheio. prever a gravidade da situação histórica atual. que é pura potência do maior bem e do maior mal. quero dizer. produzirá uma catástrofe ". E. COMEÇA A DISSECAÇÃO DO HOMEM-MASSA Como é este homem-massa que domina hoje a vida pública . VI. muito conhecer a fundo este homem-massa. "As massas avançam!" dizia. tem de lutar para consegui-lo. com efeito. como se produziu? Convém responder conjuntamente a ambas as questões. Hegel.htm (38 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . É falso dizer que a história não é previsível. nossa época. em verdade. Se o porvir não oferecesse um flanco à profecia. Importa. que é uma época revolucionária. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que com progressiva abundância vai engendrando o século XIX? Desde já. Inúmeras vezes tem sido profetizada. não poderíamos tampouco compreendê-la quando logo se cumpre e se faz passado. "Sem um novo poder espiritual.

um homem à parte de todos os demais homens. que podia expressar-se com a perífrase. que é implantada pelo século XIX. mas a implantação de uma nova ordem que tergiversa a tradicional. pressão. praticamente ilimitada. numa palavra. Se se quer. Quer dizer que em todas essas ordens elementares e decisivas a vida se apresentou ao homem novo isenta de impedimentos. desde a segunda metade do século XIX. similares e ainda idênticos no essencial se se confronta com eles este homem novo. o mundo era um âmbito de pobreza. Por isso não há exageração nenhuma em dizer que o homem engendrado pelo século XIX. Três princípios fizeram possível esse novo mundo: a democracia liberal. mas em sua implantação. mas que colocou o homem médio . A compreensão deste fato e sua importância surgem automaticamente quando se recorda que essa franquia vital faltou por completo aos homens vulgares do passado. contanto que não se entenda por esta só a jurídica e social. para os efeitos da vida pública. Não existem os "estados" nem as "castas". A esta facilidade e segurança econômica ajuntam-se as físicas: o confort e a ordem pública.física e administrativa -. tão graciosa e aguda. Os dois últimos podem resumir-se num: a técnica.no econômico e no físico -. do dominante no XVII. pelo contrário. O homem médio aprende que todos os homens são legalmente iguais. está claro. Não há ninguém civilmente privilegiado. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Nada o obriga a conter sua vida. Tal imagem limita-se a incutir nas almas médias uma impressão vital. novo no físico e no social. dificuldade e perigo (41) O mundo que desde o nascimento rodeia o homem novo não o move a limitar-se em nenhum sentido. sem que coubera outra solução que não fosse adaptar-se a eles. esquecendo a cósmica. e não há verossimilitude de que intervenha nela nada violento e perigoso. antes de tudo. O homem médio. A vida marcha sobre cômodos carris. tampouco nas formas da vida pública encontra-se ao nascer com entraves e limitações. Trata-se. de nosso velho povo: "ampla é Castela". de uma inovação radical no destino humano. O que teve de tal não deve ser buscado no espetáculo de suas barricadas. O do século XVIII se diferencia. alojar-se na estreiteza que deixavam. diga-se opressão. Foi. a experimentação científica e o industrialismo. mas procedem das duas centúrias anteriores.htm (39 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . simplesmente. dependência. com efeito. que. obrigação. Virou pelo avesso a existência pública. Para o "vulgo" de todas as épocas. Também aqui "ampla é Castela". Quer dizer. A revolução não é a sublevação contra a ordem preexistente. Jamais em toda a história havia sido posto o homem numa circunstância ou contorno vital que se parecesse nem de longe ao que essas condições determinam. limitação. mas todos eles são parentes. é. e assim é preciso compreender perfeitamente suas inexoráveis conseqüências.A rebelião das massas. até mesmo para o rico e poderoso. Ninguém desconhece isso. não acha ante si barreiras sociais nenhumas. não constituem uma revolução.em condições de vida radicalmente opostas às que sempre a haviam rodeado. Ao contrário. e este do que caracteriza ao XVI. Nenhum desses princípios foi inventado pelo século XIX. Mas não basta com o reconhecimento abstrato. O século XIX foi essencialmente revolucionário. Porque esta última é a que não faltou nunca até cem anos científica . para eles a vida um destino angustiante . "vida" havia significado. Mas é ainda mais clara a contraposição de situações se do material passamos ao civil e moral. Cria-se um novo cenário para a existência do homem.a grande massa social . Sentiram o viver a nativitate como um cúmulo de impedimentos que era forçoso suportar. A honra do século XIX não estriba em sua invenção.

htm (40 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . sobretudo a não contar com ninguém como superior a ele. como se fossem direitos nativos.A rebelião das massas. crêem que seu papel se reduz a exigi-las peremptoriamente. portanto. Como não vêem nas vantagens da civilização um invento e construção prodigiosos. pelo visto. porque não falta. crê que o produziu a natureza. pois. já que tampouco falha. não lhe apresenta veto nem contenção alguma. e é quase tão perfeita como a natural. O sinal é formal. mais forte que ele. mas como natureza. de sua pessoa. Nenhum ser humano agradece a outro o ar que respira. há dois: eu e outro superior a mim". é de sua própria origem. Nos motins que a escassez provoca soem as massas populares buscar pão. o homem vulgar. Pois acontece . podem crescer indefinidamente. Assim teria aprendido esta essencial disciplina: "Aí termino eu e começa outro que pode mais do que eu. E. ao encontrar-se com esse mundo técnica e socialmente tão perfeito. À força de evitar-lhe toda pressão em redor. esta: a própria perfeição com que o século XIX deu uma organização a certas ordens da vida. a reduzir-se. a sua disposição. lhe houvesse obrigado a renunciar a um desejo. chega a crer efetivamente que só ele existe. Acredita-se nisto tão firmemente como na próxima saída do sol. apesar de alguns signos que iniciam uma pequena brecha nessa fé rotunda. sem depender de seu prévio esforço. Minha tese é. Menos ainda admitirá a idéia de que todas estas facilidades continuam apoiando-se em certas difíceis virtudes dos homens. como se gozasse de um espontâneo e inesgotável crescimento. a conter-se. não erraria quem utilizasse esta como uma quadrícula para olhar através dela a alma das massas atuais.e isto é muito importante . todo choque com outros seres. que as catástrofes eram freqüentes e não havia nele nada seguro. Assim se explica e define o absurdo estado de ânimo que essas massas revelam: não lhes preocupa mais que seu bem-estar e ao mesmo tempo são insolidárias das causas desse bem-estar. Porque. Esta sensação da superioridade alheia só podia ser-lhe proporcionada por quem. e o meio que empregam sói ser destruir as padarias. Mas as novas massas encontram uma paisagem cheia de possibilidades e além disso segura.genial de inspirações e de esforços -. todavia hoje muito poucos homens duvidam de que os automóveis serão dentro de cinco anos mais confortáveis e mais baratos que os do dia. A criatura submetida a este regime não tem a experiência de suas próprias limitações. e não pensa nunca nos esforços geniais de indivíduos excelentes que supõe sua criação. porque era um mundo tão toscamente organizado. mas que além disso sugere a seus habitantes uma segurança radical em que amanhã será ainda mais rico. Estas massas mimadas são suficientemente pouco inteligentes para crer que essa organização material e social. dar a impressão a um ser de que tudo lhe está permitido e a nada está obrigado. abundante nem estável. Um e outro traço compõem a conhecida psicologia da criança mimada. ao que parece. em princípio. porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao conjunto do que "está aí". Isto pode servir como símbolo do comportamento que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mimar não é limitar os desejos. posta a sua disposição como o ar. do que dizemos "é natural". e a radical ingratidão a tudo quanto tornou possível a facilidade de sua existência. que só com grandes esforços e cautelas se pode sustentar. Ao homem médio de outras épocas ensinava-lhe quotidianamente seu mundo esta elemental sabedoria. No mundo. Herdeiro de um passado extensíssimo e genial . é origem de que as massas beneficiárias não a considerem como organização.que esse mundo do século XIX e começos do XX não tem apenas as perfeições e amplitudes que de fato possui. mas perfeito e mais amplo. dos quais o menor malogro volatilizaria rapidissimamente a magnífica construção. Todavia hoje. mas pelo contrário fustiga seus apetites. e se acostuma a não contar com os demais. o novo vulgo tem sido mimado pelo mundo circunstante. Isto nos leva a apontar no diagrama psicológico do homem-massa atual dois primeiros traços: a livre expansão de seus desejos vitais. com efeito. com efeito. como achamos o sol no alto sem que nós o tenhamos subido ao ombro. e tudo isso presto. que.

Por que não. a seus olhos. Praticamente nada é impossível. exceção que. perigos. preferências ou gostos. Se lograva melhorar sua situação. À volta desta impressão primária e permanente vai se formar cada alma contemporânea. Isto era. do homem-massa. abandonar-se tranqüilamente a si mesmo. limitações de destino e dependência. sua vida era constantemente regulada por esta instância suprema de que dependia. portanto. deixa de apelar e sente-se soberano de sua vida. se. em mais vastas e sutis proporções usam as massas atuais ante a civilização que as nutre (42). atribuía-o a um golpe da sorte. VIDA NOBRE E VIDA VULGAR. onde não se depende de ninguém. sem causa especial nenhuma. Mas o homem que analisamos habitua-se a não apelar de si mesmo a nenhuma instância fora dele.A rebelião das massas. apetites. Mas a nova massa encontra a plena franquia vital como estado nativo e estabelecido. Está satisfeito tal como é. Como agora a circunstância não o obriga. limitadíssimo. o eterno homem-massa. ter de contar com o que nos limita". Ingenuamente. segundo vemos. Contrariamente. O semblante geral que ele nos apresenta será o semblante geral de nossa vida. como a coisa mais natural do mundo. Por isso insisto tanto em fazer notar que o mundo de onde nasceram as massas atuais mostrava uma fisionomia radicalmente nova na história. se ascendia socialmente. VII. Portanto. até há pouco. um imperativo. a vida. portanto. a contar em todo momento com outras instâncias. que lhe era nominativamente favorável. o homem seleto ou excelente está constituído por uma íntima necessidade de apelar de si mesmo a uma norma além dele. a um enorme esforço e ele sabia muito bem quanto lhe havia custado. sem dúvida. Em um e outro caso tratava-se de uma exceção à índole normal da vida e do mundo. nada nem ninguém o força a compreender que ele é um homem de segunda classe. nos quais baseia tal afirmação de sua pessoa? Nunca o homem-massa teria apelado a nada fora dele se a circunstância não lhe houvesse forçado violentamente a isso. sobretudo com instâncias superiores. ao mesmo tempo. Esta experiência básica modifica por completo a estrutura tradicional. ninguém é superior a ninguém". tenderá a afirmar e considerar bom tudo quanto em si acha. perene. OU ESFORÇO E INÉRCIA Somos aquilo que nosso mundo nos convida a ser. opiniões. Porque esta impressão fundamental se converte em voz interior que murmura sem cessar umas como palavras no mais profundo da pessoa e lhe insinua tenazmente uma definição da vida que é. incapaz de criar nem conservar a organização mesma que dá à sua vida essa amplitude e esse contentamento. era devida a alguma causa especialíssima. E quando não a isto. Enquanto no pretérito viver significava para o homem médio encontrar a sua volta dificuldades. Naturalmente: viver não é mais que tratar com o mundo. escassez. sem necessidade de ser vão. O labrego chinês acreditava. e as feições fundamentais de nossa alma são impressas nela pelo perfil do contorno como por um molde. como em volta da oposta se formaram as antigas. Nada de fora a incita a reconhecer nela própria limites e. conseqüente com sua índole. em princípio. o mundo novo aparece como um âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas. Porque este se sentiu sempre constitutivamente condicionado a limitações materiais e a poderes superiores sociais. que o bem-estar de sua vida dependia das virtudes privadas que possuísse o seu Imperador. por isso mesmo. a voz novíssima grita: "Viver é não encontrar limitação alguma. E se a impressão tradicional dizia: "Viver é sentir-se limitado e. superior a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.htm (41 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . nada é perigoso e. como tal.

a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência. tão generoso do destino com que todo homem se encontra. ele. mas o filho quem. destacando com o seu esforço sua estirpe humilde. cuja nobreza é efetiva. puro usufruto e benefício. dinâmico. lhe falta.A rebelião das massas. Contrariamente. eqüivale a esforçado ou excelente. É irritante a degeneração sofrida no vocabulário usual por uma palavra tão inspiradora como "nobreza". pelas obrigações. e. O filho é conhecido porque seu pai conseguiu ser famoso. autêntico. noblesse oblige. certa contradição na transferência da nobreza.a vida nobre -. Os direitos privados ou privilégios não são. Lembre-se de que. apenas contenta-se com o que é e está encantado consigo mesmo (43). quanto porque é inerte. a vida nobre fica contraposta à vida vulgar e inerte. com efeito. que se deu a conhecer sobressaindo sobre a massa anônima.htm (42 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . em princípio. como não seja o respirar e evitar a demência. É conhecido por reflexo. se reclui a si mesma. pelo contrário. invertem a ordem da transmissão. por infelicidade. que. desde o nobre inicial a seus sucessores. não. o que não exige nada. é a criatura de seleção. de qualquer modo.não tanto porque seja multitudinário. já em decadência. pois. ao conceder os níveis de nobreza. e que não corresponde a esforço algum. mas representam o perfil onde chega o esforço da pessoa. que a oprimam. Mas o sentido próprio. a comunica a seus antepassados. Nobre significa o "conhecido". A "nobreza" não aparece como termo formal até o Império romano. atuante. Isto é a vida como disciplina . que se recebe e transmite como uma coisa inerte. pois. Noblesse oblige. mas. posta sempre a superar-se a si mesma. se fosse necessário e alguém se lho disputasse (44). posse passiva e simples gozo. graduam-se pelo número de gerações passadas que ficam prestigiadas. e. Há. Daí que chamemos massa a este modo de ser homem . Contra o que sói crer-se. ainda neste sentido desvirtuado. Sua vida não lhe apraz se não a faz consistir em serviço a algo transcendente. converte-se em algo parecido aos direitos comuns. Por isso não estima a necessidade de servir como uma opressão. entende-se o conhecido de todo o mundo. quem vive em essencial servidão. o famoso. a cujo serviço livremente se põe. e ao nobre hereditário obriga-o a herança. o étimo do vocábulo "nobreza" é essencialmente dinâmico. "Viver a gosto é de plebeu: o nobre aspira a ordenação e a lei" (Goethe). estaticamente. mais exigentes. e precisamente para opô-lo à nobreza hereditária. A nobreza define-se pela exigência. são conquistas. Os privilégios da nobreza não são originariamente concessões ou favores. numa qualidade estática e passiva. é nobreza lunar como feita com mortos. e há quem só torna nobre seu pai e quem alonga sua fama até o quinto ou décimo avô. Desta maneira. O nobre originário obriga-se a si mesmo. são propriedade passiva. e não é o pai quem enobrece o filho. os direitos comuns. Implica um esforço insólito que motivou a fama. e não a massa. em suma: é. supõe sua conservação que o privilegiado seria capaz de reconquistá-las em todo instante. não pelos direitos. que o direito impessoal se tem e o pessoal se mantém. Eu diria. nobreza é sinônimo de vida esforçada. caso uma força exterior não a obrigue a sair de si. Porque ao significar para muitos "nobreza de sangue" hereditária. ao conseguir a nobreza. Por isso. Os antepassados vivem do homem atual. distinguíamos o homem excelente do homem vulgar dizendo: que aquele é o que exige muito de si mesmo. no início. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como são os "do homem e do cidadão". Só fica nela de vivo. Sempre. Para mim. a nobreza hereditária tem um caráter indireto. condenada à perpétua imanência. Quando esta. pois. Mais lógicos os chineses. a incitação que produz no descendente a manter o nível de esforço que o antepassado alcançou. A nobreza ou fama do filho já é puro benefício. e este. foi (45). sente desassossego e inventa novas normas mais difíceis. é luz espelhada. Nobre.

para os quais viver é uma perpétua tensão.e das mulheres . o processo da civilização. Mas ainda essa boa vontade fracassará. a derradeira. os pouquíssimos seres que conhecemos capazes de um esforço espontâneo e luxuoso. Continuando as coisas como até aqui. acreditando que se basta . sejam fatos. os únicos ativos e não só reativos. a direção de minorias superiores. por si mesmo. um significado político. é. um incessante treinamento. Desta sorte. Por outra parte. contrariamente. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Por isso. hermética em si mesma. Treinamento = áskesis.econômico. Não surpreenda esta aparente digressão. mas que se caracteriza por ignorar de raiz os princípios mesmos da civilização. ao produzir automaticamente um homem novo. Para definir o homem-massa atual. porque lhe falta de nascença a função de atender ao que está além dela.A rebelião das massas. e então. O simples processo de manter a civilização atual é superlativamente complexo e requer sutilezas incalculáveis. corporais (higiene.htm (43 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . tenha lido até aqui. o século XIX o abandonou a si mesmo. subitamente angustiadas. porque já somos donos do que. em certas matérias especialmente angustiosas. é preciso contrapô-lo às duas formas puras que nele se mesclam: a massa normal e o autêntico nobre ou esforçado. e não poderão. incapaz de atender a nada nem a ninguém. faltará a última claridade ao teorema deste ensaio. À medida que se avança pela vida. que é de toda a vida pública a mais eficiente e mais visível. São os homens seletos. vamos nos fartando de advertir que a maior parte dos homens . Nas horas difíceis que chegam para nosso continente. os nobres. São os ascetas (46). saúde média superior à de todos os tempos).em suma: indócil (47). encontramo-nos com uma massa mais forte que a de nenhuma época. resultante de outras mais íntimas e impalpáveis. Porque a disposição radical de sua alma está feita de hermetismo e indocilidade. Tudo que vem depois é conseqüência ou corolário dessa estrutura radical que poderia resumir-se assim: o mundo organizado pelo século XIX. Assim. Agora podemos caminhar mais depressa. que é tão massa como o de sempre. Por isso mesmo ficam mais isolados. é possível que. por muito que tenha ascendido seu nível vital em comparação com o de outros tempos. seguindo o homem médio sua índole natural.são incapazes de outro esforço que o estritamente imposto como reação a uma necessidade externa. e como monumentalizados em nossa experiência. intrometeu nele formidáveis apetites. imediatamente. cada dia se notará mais em toda a Europa . mas quer suplantar os excelentes. tenham um momento a boa vontade de aceitar. Digo processo. enquanto não tenhamos analisado esta. a conveniência de não entender todos estes enunciados atribuindo-lhes. poderosos meios de toda ordem para satisfazê-los . Mal pode governá-lo este homem-massa que aprendeu a usar muitos aparelhos de civilização.que as massas são incapazes de se deixar dirigir em nenhuma ordem. Quererão ouvir. Reitero ao leitor que. mas. e descobrirão que são surdas. sejam pessoas. paciente. Quererão acompanhar a alguém. a indocilidade política não seria grave se não proviesse de uma mais profunda e decisiva indocilidade intelectual e moral. A atividade política.e por reflexo em todo o mundo . fechou-se dentro de si. poderá reger. é a chave ou equação psicológica do tipo humano dominante hoje. Depois de haver estabelecido nele todas estas potências. civis e técnicos (entendo por estes a enormidade de conhecimentos parciais e de eficiência prática que hoje o homem médio possui e de que sempre careceu no passado) -. a meu juízo. não já progresso. a diferença da tradicional. é ilusório pensar que o homem médio vigente.

htm (44 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Este surpreende-se a si mesmo sempre a dois passos de ser tolo. consegue o homem nobre sentir-se em verdade completo. e daí a invejável tranqüilidade com que o néscio se assenta e instala em sua inépcia. pois. a rigor. O tolo. Sua confiança em si é. por sua vez. Já sei que muitos dos que me lêem não pensam como eu. tem mais capacidade intelectiva que o de nenhuma outra época. Neste caso tratar-se-ia de hermetismo intelectual. Pois ainda que em definitivo minha opinião fosse errônea.A rebelião das massas. Por isso o vaidoso necessita dos demais. Como poderiam pensar como eu? Mas ao supor-se com direito a ter uma opinião sobre o assunto sem prévio esforço para forjá-la. POR QUE AS MASSAS INTERVÉM EM TUDO E POR QUE SÓ INTERVÊM VIOLENTAMENTE Ficamos em que aconteceu algo sobremodo paradoxal. Um homem de seleção. consiste o gigantesco problema hoje levantado para a humanidade. ao novo Adão. Mas essa capacidade não lhe serve de nada. ao contrário. Mas a alma medíocre é incapaz de transmigrações . VIII. não se lhe ocorre duvidar de sua própria plenitude. não é ingênua. não há modo de desalojar o tolo de sua tolice. Não sentindo nada de menos fora de si. Comparar-se seria sair um pouco de si mesmo e trasladar-se ao próximo. A pessoa encontra-se com um repertório de idéias dentro de si. mas que em verdade era naturalíssimo: de tanto se mostrarem abertos mundo e vida ao homem medíocre. Encontramo-nos. o atual é mais esperto. a alma. sempre ficaria o fato de que muitos destes leitores discrepantes não pensaram cinco minutos sobre tão complexa matéria. mas chega-lhe de sua vaidade e ainda para ele mesmo tem um caráter fictício. O hermetismo nato de sua alma lhe impede o que seria condição prévia para descobrir sua insuficiência: comparar-se com outros seres. instala-se definitivamente naquele repertório. como de Adão. paradisíaca. necessita ser especialmente vaidoso. O tolo é vitalício e impermeável. Não se trata de que o homem-massa seja tolo. e nesse esforço consiste a inteligência. Decide contentar-se com elas e considerar-se intelectualmente completa. Por isso dizia Anatole France que o néscio é muito mais funesto que o malvado. não suspeita de si mesmo: julga-se discretíssimo. Também isto é naturalíssimo e confirma o teorema. jamais (48). Isso é precisamente ter obliterada. De sorte que nem ainda neste caso mórbido nem ainda "cegado" pela vaidade. Contrariamente ao homem medíocre de nossos dias. a vaga sensação de possuí-la apenas lhe serve para fechar-se mais em si mesmo e não usá-la. o néscio. por isso faz um esforço para escapar à iminente tolice. com a mesma diferença que eternamente existe entre o tolo e o perspicaz. hermética. Porque o malvado descansa algumas vezes. Como esses insetos que não há maneira de extrair do orifício em que habitam. Eis aí o mecanismo da obliteração. Pelo contrário. e a crença na sua perfeição não está consubstancialmente unida a ele. a alma fechou-se para ele. imaginário e problemático. Pois bem: eu sustento que nessa obliteração das almas médias consiste a rebeldia das massas em que. O homem-massa sente-se perfeito.esporte supremo. busca neles a confirmação da idéia que quer ter de si mesmo. manifestam seu exemplar senhorio ao modo absurdo de ser homem que eu chamei "massa rebelde". De file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. levá-lo de passeio um pouco além de sua cegueira e obrigá-lo a que contraste sua visão grosseira habitual com outros modos de ver mais sutis. para sentir-se perfeito.

E isto é. Não há questão de vida pública em que não intervenha. há. onde há muita. Para que ouvir. no sentido mais estrito da palavra. Não há cultura quando as relações econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual possam amparar-se. Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham "idéias". quer dizer. mas. decidir em quase nenhuma das atividades públicas. regulam estas a vida só grosso modo. A idéia é um xeque-mate à verdade. cego e surdo como é. Por isso perdeu o uso da audição. Parecia-lhe bem ou mal o que o político projetava e fazia. isto é. Quando faltam todas essas coisas. Não há cultura onde não há acatamento de certas últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa (50). As "idéias" deste homem médio não são autenticamente idéias. nem sequer julgar as "idéias" do político do tribunal de outras "idéias" que cria possuir. positiva ou negativamente. se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir. nunca o vulgo havia crido ter "idéias" sobre as coisas. Pelo menos na história européia até hoje. simplesmente. o homem médio tem as "idéias" mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que ela imponha. O império que sobre a vida pública hoje exerce a vulgaridade intelectual. de julgar. Não vale falar de idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula. dava ou retirava sua adesão. O que digo é que não há cultura onde não há normas. impô-los-á por toda a parte. O mais e o menos de cultura mede-se pela maior ou menor precisão das normas. penetram até o pormenor no exercício de todas as atividades. que em sua maior parte são de índole teórica. Isto é o que no primeiro capítulo enunciava eu como característico em nossa época: não que o vulgar creia que é destacado e não vulgar. e com um audácia que só se explica pela ingenuidade. nem de longe. Tinha crenças. impondo suas "opiniões". de sentenciar. a barbárie é ausência de norma e de possível apelação. Hoje. o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas. A escassez da cultura intelectual espanhola. Não há cultura onde não há princípios de legali5àde civil a que apelar. experiências. barbárie. não há cultura. Não há cultura onde as polêmicas estéticas não reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte. mas sua atitude reduzia-se a repercutir. vocábulos ocos que o acaso amontoou no seu interior. tradições. mas que o vulgar proclame e imponha o direito da vulgaridade. de não estar qualificado para teorizar (49).A rebelião das massas. é talvez o fator da presente situação mais novo. Uma e inata consciência de sua limitação.htm (45 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . vedava-o completamente. prejuízos. A que nossos próximos possam recorrer. Estas normas são os princípios da cultura. de decidir. sabe que naquele território não regem princípios aos quais possa recorrer. Não me importa quais são. A conseqüência automática disto era que o vulgo não pensava. uma vez para sempre consagra o sortimento de tópicos. mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobre o que as coisas são ou devem ser . provérbios. hábitos mentais.por exemplo. nem sua posse é cultura. A mesma coisa em arte e nas demais ordens da vida pública. pelo contrário. que sejam cultas? De maneira alguma. não tenhamos ilusões. ou a vulgaridade como um direito. sobre política ou sobre literatura -. do cultivo ou exercício disciplinado do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Onde há pouca. a ação criadora de outros. uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. O viajante que chega a um país bárbaro. pelo contrário. Nunca se lhe ocorreu opor às "idéias" do político outras suas. ou. menos assimilável a nada do pretérito. Não há normas bárbaras propriamente ditas.

começaram a acontecer "coisas esquisitas". que a forma superior da convivência é o diálogo em que se discutem as razões de nossas idéias. que é uma convivência sob normas. mas a chave está no hermetismo intelectual. Não se atribua. a um procedimento único de intervenção: a ação direta. Em outras era a violência o meio a que recorria a quem havia esgotado todos os demais para defender a razão e a justiça que cria ter. e não nos interessa. Sob as espécies de sindicalismo e fascismo aparece pela primeira vez na Europa um tipo de homem que não quer dar razões nem quer ter razão. há alguns anos. se mostra resolvido a impor suas opiniões. Mas o homem-massa sentir-se-ia perdido se aceitasse a discussão. manifesta-se.a verdade não está em nossa mão -. e é. Ter uma idéia é crer que se possuem as razões dela. um orbe de verdades inteligíveis. propele a massa para que intervenha em toda a vida pública. O entusiasmo pela inovação é de tal modo ingênito no europeu.htm (46 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mas que. com efeito. simplesmente. Tal violência não é outra coisa senão a razão exasperada. Para dar algum exemplo concreto destas coisas esquisitas mencionarei certos movimentos políticos. Em sua conduta política revela-se a estrutura da alma nova da maneira mais crua e contundente. e detesta-se toda forma de convivência que por si mesma implique acatamento de normas objetivas. sem haver procurado antes averiguar o que pensa o maniqueu. a razão da sem-razão. desde a conversação até o Parlamento. inexoravelmente. Agora começamos a ver isto com bastante clareza. Suprimem-se todos os trâmites normais e se vai diretamente à imposição do que se deseja. opinar. advertir-se-á que as primeiras notas de sua peculiar melodia soaram naqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta de 1900. pois. A civilização não é outra coisa senão o ensaio de reduzir a força a ultima ratio. Continuamos sendo o eterno padre de aldeia que rebate triunfante o maniqueu. mas na falta de escrúpulo que leva a não cumprir os requisitos elementais para acertar. porque a "ação direta" consiste em inverter a ordem e proclamar a violência como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. crer que existe uma razão. leva-a também. por haverem resolvido dirigir a sociedade sem ter capacidade para isso. não em que se saiba mais ou menos. como vimos antes. Daqui que suas "idéias" não sejam efetivamente senão apetites ou palavras. mas não quer aceitar as condições e supostos de todo opinar. a ultima ratio. Perpetuamente o homem tem recorrido à violência: às vezes este recurso era simplesmente um crime. O homem médio encontra-se com "ideais" dentro de si. Não se diga que parecem esquisitos simplesmente porque são novos. Isso quer dizer que se renuncia à convivência de cultura. é uma mesma coisa como apelar a tal instância. Eis aqui o novo: o direito a não ter razão. intelecto. Não. Será muito lamentável que a condição humana leve volta e meia a esta forma de violência. mas é inegável que ela significa a maior homenagem à razão e à justiça. inventores da maneira e da palavra "ação direta". como as romanças musicais. submeter-se a ela. Por isso. mas na habitual falta de cautela e cuidados para ajustar-se à verdade que soem mostrar os que falam e escrevem. passando pela ciência. portanto. Eu vejo nisso a manifestação mais palpável do novo modo de ser das massas. Idear. portanto. que declara muito bem o prévio rendimento da força às normas racionais. pois. O dia em que se reconstrua a gênese de nosso tempo. aceitar seu Código e sua sentença.A rebelião das massas. Nem sequer suspeita qual é o elemento sutilíssimo em que as idéias vivem. o que estes novos fatos têm de esquisito ao que têm de novo. e retrocede-se a uma convivência bárbara. Um pouco estupidamente tem se entendido com ironia esta expressão. crer. Qualquer pessoa pode perceber que na Europa. mas à estranhíssima bitola destas novidades. A força era. o "novo" é na Europa "acabar com as discussões". mas carece da função de idear. em que se acerte ou não . que. que o levou a produzir a história mais inquieta de quantas se conhecem. como o sindicalismo e o fascismo. O hermetismo da alma. e instintivamente repudia a obrigação de acatar essa instância suprema que se acha fora dele. Quer opinar.

Por isso. O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o Poder público. Foi. A barbárie é tendência à dissociação. limita-se a si mesmo e procura. como única razão é ela a norma que propõe a anulação de toda norma. Trâmites. prima ratio. atuou na vida pública. E um exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na terra. cortesia. uma massa homogênea pesa sobre o Poder público e esmaga. a rigor. quer dizer. A literatura. criar tanta complicação? Tudo isso se resume na palavra "civilização". PRIMITIVISMO E TÉCNICA file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. através da idéia de civis. como os mais fortes. quando a massa por um ou outro motivo. vontade de convivência. com efeito. pois. pululação de mínimos grupos separados e hostis. Proclama a decisão de conviver com o inimigo. apareça a "ação direta" oficialmente como norma reconhecida. Era inverossímil que a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão bonita. não obstante ser onipotente. Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Não começa a ser já incompreensível semelhante ternura? Nada acusa com maior clareza a fisionomia do presente como o fato de que vão sendo tão poucos os países onde existe a oposição. tão paradoxal. como "ação direta". As relações sexuais reduzem seus trâmites. Odeia de morte o que não é ela. acharemos uma mesma entranha em todos. A forma que na política representou a mais alta vontade de convivência é a democracia liberal. Em quase todos. o fez em forma de "ação direta". tão acrobática. usos intermediários. tão elegante. É a Charta magna da barbárie.não deseja a convivência com o que não é ela. a comunidade. IX. justiça. com o inimigo débil. Civilização é. Toda a convivência humana vai caindo sob este novo regime em que se suprimem as instâncias indiretas. que.htm (47 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Ela leva ao extremo a resolução de contar com o próximo e é protótipo da "ação indireta".E assim todas as épocas bárbaras têm sido tempo de espalhamento humano. como a maioria. Convém recordar que em todos os tempos. portanto. mais ainda. Por isso. antes de tudo. o mais nobre grito que soou no planeta. o cidadão.quem o diria ao ver seu aspecto compacto e multitudinário? . A massa . quando a intervenção direta das massas na vida pública passou de casual e infreqüente a ser o normal. sempre o modo de operar natural às massas. No trato social suprime-se a "boa educação". . que suprime tudo que medeia entre nosso propósito e sua imposição. a convivência. não deve surpreender que tão rapidamente pareça essa mesma espécie decidida a abandoná-la. Trata-se com tudo isso de fazer possível a cidade. E corrobora energicamente a tese deste ensaio o fato patente de que agora. deixar espaço no Estado que ele impera para que possam viver os que nem pensam nem sentem como ele. Todos. É se incivil e bárbaro na medida em que não se conte com os demais. razão! de que veio inventar tudo isso. tão antinatural. normas. constitui-se no insulto. supõem o desejo radical e progressivo de cada pessoa contar com as demais. ainda à sua custa.é a suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga à minoria e é.A rebelião das massas. se olhamos por dentro cada um desses instrumentos da civilização que acabo de enumerar. O liberalismo convém hoje recordar isto . aniquila todo o grupo opositor. descobre sua própria origem.

de sorte que nele a realidade vacila. e não sabe bem se se decidir por uma ou outra entre várias possibilidades. e dele recebermos a ordem para nossa conduta diante de tudo quanto foi (52). Este titubeio metafísico proporciona a todo o vital essa inconfundível qualidade de vibração e estremecimento. a consciência de que é imprescindível para franquear o passo a um futuro estimável. Não há razão para negar a realidade do progresso. estorvo à vida e tóxico resíduo. Pelo contrário. a vida pública. valorizações e respeitos sobreviventes e já sem sentido. Não creio na absoluta determinação da história. demandam uma época de frenesi simplificador. Aqui. como é o presente. favorável e pejorativa. se compõe de puros instantes. É claro que toda velha cultura arrasta no seu avanço tecidos caducos e não pequena carregação de matéria córnea. requeria urgentemente uma redução ao autêntico. Mas é preciso evitar o pecado maior dos que dirigiram o século XIX: a defeituosa consciência de sua file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Há instituições mortas. É o porvir que deve imperar sobre o pretérito.tanto o progresso triunfal e indefinido como a periódica regressão -. mas na própria realidade. O entusiasmo que sinto por esta disciplina de nudificação. mas é preciso corrigir a noção que crê seguro este progresso. como sempre que com menos meios se consegue mais. mas é que em si mesma a situação presente é potência bifronte de triunfo ou de morte. retorcimentos e intrincações que não a deixavam tomar sol. drama (51). apresentam duplo aspecto. A rebelião das massas pode. adquire maior intensidade nos "momentos críticos". a rebelião das massas. nenhuma evolução. uma solução mais perfeita. Mais congruente com os fatos é pensar que não há nenhum progresso seguro. volutas. Todos estes elementos da ação indireta. Importa-me muito recordar aqui que estamos submersos na análise de uma situação . soluções indevidamente complicadas. penso que toda vida. rigorosamente falando. Não é coisa de lastrear este ensaio com toda uma metafísica da história. pessoal ou histórica. que é verdade em geral. mas até reclama uma dupla interpretação. e a humanidade européia não poderia dar o salto elástico que o otimista reclama dela se antes não se desnuda. portanto. e portanto. A árvore do amor romântico exigia também uma poda para que caíssem as demasiadas magnólias falsas cerzidas a seus ramos e o furor de lianas. Compõem-se de peripécias. Não é que possa parecer-nos por um lado bem. com efeito. da civilização. sem a ameaça de involução e retrocesso. Isto.A rebelião das massas. ser trânsito de uma nova e sem par organização da humanidade. Tudo. individual ou coletiva. E assim os sintomas de nova conduta que sob o império atual das massas vão aparecendo e agrupávamos sob o título "ação direta". Por isso a princípio insinuei que todos os traços atuais e. me faz reivindicar plena liberdade de ideador diante de todo o passado. de autenticidade. Em geral. E este equívoco não reside em nosso juízo. até coincidir consigo mesma. tudo é possível na história . em espécie.htm (48 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . É.a do presente substancialmente equívoca. podem anunciar também futuras perfeições. a história. expostas ou aludidas em outros lugares. por outro mal. sobretudo a política. cada um dos quais está relativamente indeterminado com respeito ao anterior. piétine sur place. Mas é claro que o vou construindo sobre a base subterrânea de minhas convicções filosóficas. Qualquer deles não só tolera. A sobrecasaca e o plastrão românticos solicitam uma vingança por meio do atual deshabillé e o "em mangas de camisa". a simplificação é higiene e melhor gosto. normas que provaram sua insubstancialidade. é a única entidade do universo cuja substância é perigo. mas também pode ser uma catástrofe no destino humano. Porque a vida. se não se aligeira até sua pura essencialidade.

um Naturmensch emergindo em meio de um mundo civilizado.A rebelião das massas. é tão remota da pressuposta neste ensaio. Que nos significa situação tão paradoxal? Este ensaio pretende haver preparado a resposta a tal pergunta. parece-me neste ponto demasiado otimista. desde o Renascimento -. O primeiro caso de retrocesso . na religião e nas zonas cotidianas da vida. um primitivo que pelos bastidores deslizou no velho cenário da civilização. trazer aqui a comento suas conclusões. É indubitável que num balanço diagnóstico de nossa vida pública os fatores adversos superem em muito os favoráveis. é precisamente faltar à missão de responsável. seu habitante não o é: nem sequer vê nele a civilização. as ciências físicas . mas que é o contrário de uma "frase". o entusiasmo por elas havia aumentado sem colapso. que os fez não se manterem alertas e em vigilância. mas . nem pelos melhores. Significa que o homem hoje dominante é um primitivo. Hoje torna-se mister suscitar uma hiperestesia de responsabilidade nos que sejam capazes de senti-la.portanto. responsabilidade. Deixar-se deslizar pela pendente favorável que apresenta o curso dos acontecimentos e embotar-se para a dimensão de perigo e carranca que mesmo a hora mais jocunda possui. transpondo umas palavras de Rathenau.como é habitual . Não os desta ou os daquela. sob a qual entende sobretudo a técnica. Nos laboratórios de ciência pura começa a ser difícil atrair discípulos. na moral. Se não fora prolixo. com uma consciência de seu futuro suficientemente dramático. No fundo de sua alma desconhece o caráter artificial. que não é fácil. O civilizado é o mundo. Todo o crescimento de possibilidades concretas que a vida experimentou corre risco de anular-se a si mesmo ao topar com o mais pavoroso problema sobrevindo no destino europeu e que de novo formulo: apoderou-se da direção social um tipo de homem a quem não interessam os princípios da civilização. mas crê que é fruta espontânea de uma árvore edênica. Pois crê que à "cultura" vai suceder uma época de "civilização".htm (49 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . O próprio Spengler. e não estenderá seu entusiasmo pelos aparelhos até os princípios que os tornam possíveis. nem ainda para retificá-las.ainda que tão maníaco -. quase inverossímil. e parece o mais urgente sublinhar o lado palmariamente funesto dos sintomas atuais. Agora se vê que a expressão poderá enunciar uma verdade ou um erro. tão sutil e tão profundo . os automóveis e algumas coisas mais. E isso acontece quando a indústria alcança seu maior desenvolvimento e quando as pessoas mostram maior apetite pelo uso de aparelhos e medicinas criados pela ciência. Pois estas coisas são só produtos dela. Quando mais acima. poderia demonstrar-se semelhante incongruência na política. mas usa dela como se fosse natureza.que se tratava apenas de uma "frase".repito. A toda hora se fala hoje dos progressos fabulosos da técnica. e o fervor que se lhes dedica faz ressaltar mais cruamente a insensibilidade para os princípios de que nascem. Interessam-lhe evidentemente os anestésicos. Só saltando sobre distâncias e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Baste fazer constar este fato: desde que existem as nuove scienze. porém. mas eu não vejo que se fale.ao que hoje pode julgar-se . dizia eu que assistimos à "invasão vertical dos bárbaros".produziu-se na geração que hoje vai dos vinte aos trinta anos.os de nenhuma. Mas isto confirma seu radical desinteresse pela civilização. a saber: uma definição formal que condena toda uma complicada análise. O novo homem deseja o automóvel e goza dele. Mais concretamente: o número de pessoas que em proporção se dedicavam a essas puras investigações era maior em cada geração. se o cálculo se faz não tanto pensando no presente como no que anunciam e prometem. O homem-massa atual é. pode julgar-se . proporcional . A idéia que Spengler tem da cultura. com efeito. e em geral da história. da civilização. na arte. ao longo do tempo.

precisões. Vive-se com a técnica. que a foro de racionais teriam que ser sutis. mas não da técnica. pelo visto. só no século XIX. Cada dia produz um novo analgésico ou vacina. Uma observação impede-me iludir-me sobre a eficácia de tais prédicas. evaporante. Isto demonstra que a ciência experimental é um dos produtos mais improváveis da história. embora esclarecida a questão. sobressai já o claríssimo fato de que em toda a amplitude da terra e em toda a do tempo. aquele que lhe dure a inércia do impulso cultural que a criou. Por isso. a técnica só pode perviver um pouco de tempo. o progresso mesmo ou a perduração da técnica. as normas sociais. há uma que cada dia comprova. Se se embota esse fervor . Mas esta fauna do homem experimental requer. espontaneamente e sem prédicas. Cada dia facilita um novo invento. e menos que nada. para se produzir. o qual vem a ser materialmente aproveitável. os mais díspares entre si. um conjunto de condições mais insólito que o que engendra o unicórnio. pudera estabelecer-se assim a divergência: Spengler crê que a técnica pode continuar vivendo quando morreu o interesse pelos princípios da cultura. Todo o mundo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Viena e Paris. da inspiração científica (55). consequentemente. que esse homem médio utiliza. guerreiros e pastores têm pululado por toda a parte e à vontade. e não pode interessar se as pessoas não continuam entusiasmadas com os princípios gerais da cultura. Berlim.A rebelião das massas. sacerdotes.como parece ocorrer -. E ainda dentro deste quadrilátero. a físico-química só conseguiu constituir-se. Esta não se nutre nem se respira a si mesma. Aí é nada a quantidade de ingredientes. O homem-massa não atende a razões e só aprende em sua própria carne. que beneficia esse homem médio. não práticas (53). fervor superlativo por aquelas ciências e suas congêneres as biológicas? Porque repare-se em qual é a situação atual: enquanto evidentemente todas as demais coisas da cultura se tornaram problemáticas . não é causa sui. o homem-massa se daria por inteirado. da técnica.htm (50 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Não é demasiado absurdo que nas circunstâncias atuais não sinta o homem médio. a própria moral -. Eu não posso resolver-me a crer tal coisa. Fato tão sóbrio e tão magro devia fazer refletir um pouco sobre o caráter supervolátil. Magos. e que as condições de sua perpetuação englobam as que tornam possível o puro exercício científico. para reduzir ambos os pontos de vista a um comum denominador. Está bem que se considere o tecnicismo como um dos traços característicos da "cultura moderna". sua maravilhosa eficiência: a ciência empírica. a arte. mas precipitado útil. prático. eu ficava com estas só duas feições: democracia liberal e técnica (54). Pensou-se em todas as coisas que precisam continuar vigentes nas almas para que possa continuar havendo de verdade "homens de ciência"? Acredita-se seriamente que enquanto haja dollars haverá ciência? Esta idéia em que muitos se tranqüilizam não é senão uma prova mais de primitivismo. de preocupações supérfluas. Vou. A técnica é consubstancialmente ciência. quer dizer.a política. Mas não espere que. à advertência de que o atual interesse pela técnica não garante nada. e a ciência não existe se não interessa em sua pureza e por ela mesma. estabelecer-se plenamente no breve quadrilátero que inscrevem Londres. que é mister reunir e agitar para obter coquetel da ciência físico-química! Ainda contentando-se com a pressão mais débil e sumária do tema. da maneira mais indiscutível e mais própria para fazer efeito no homem-massa. Bem arranjado está quem creia que se a Europa desaparecesse poderiam os norte-americanos continuar a ciência! Importaria muito tratar a fundo o assunto e especificar com toda a minúcia quais são os supostos históricos vitais da ciência experimental e. pois. de uma cultura que contém um gênero de ciência. Mas repito que surpreende a frivolidade com que ao falar da técnica se esquece que sua víscera cordial é a ciência pura. ao resumir a fisionomia novíssima da vida implantada pelo século XIX.

nem o espera. se não vive mais que na medida em que se combata a si mesma. na selva.não aos filósofos -. Maxime se. Só posso explicar-me esta ausência do adequado reconhecimento se recordo que no centro da África os negros vão também em automóvel e se aspirinizam. nem o premedita. são possíveis povos perenemente primitivos. multiplicar-se-iam automaticamente riqueza. sem pedir a ninguém que conte com ela. A filosofia não necessita de proteção. e não de omissão. Que raciocínios podem conseguir o que não consegue o automóvel. saltam mais aos olhos e se materializam em espetáculo. Haverá quem se sinta mais sobrecolhido por outros sintomas de barbárie emergente que. que é aventureira de outro nível. sendo de qualidade positiva. regozija-se por simples simpatia humana. talvez com maior clareza que em nenhuma outra parte. na. Mas. não obstante. nem recomendar-se. já que num planeta sem físico-química não se pode sustentar o número de homens hoje existentes.. os quais soem exercer sua profissão com um estado de espírito idêntico no essencial ao de quem se contenta com usar do automóvel ou comprar o tubo de aspirina -. se se triplicassem ou decuplicassem os laboratórios. o após-guerra converteu o homem de ciência no novo pária social. e como isso se liberta de toda submissão do homem médio. de lado a filosofia. podemos impunemente ser selvagens. massa dos técnicos mesmos . biólogos . Pode imaginar-se propaganda mais formidável e contundente em favor de um princípio vital? Como. relativamente à complexa civilização em que nasceu. segundo veremos.esta é minha hipótese . O europeu que começa a predominar . e esperar mais que barbárie de quem assim se comportar. em princípio. Podemos inclusive resolver a não deixar de sê-lo nunca. os que ficaram numa alvorada estática. e a injeção de pantopom que fulmina. um "invasor vertical". Há-os. e abraça alegre seu livre destino de pássaro do bom Deus. comodidades. onde esses homens vão e vêm. como tal aparece. congelada. E conste que me refiro a físicos. químicos. etc. não cedendo à inspiração científica. Breyssig chamou-os de "os povos da perpétua aurora".de médicos. saúde. Sabe que é por essência problemática. PRIMITIVISMO E HISTÓRIA A natureza está sempre aí.. de ação. se ela começa por duvidar de sua própria existência. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.seria. este desapego pela ciência.que não lhe dedica . pois. que não há modo de subornar-se a si mesmo com ilusórias esperanças. Mas as ciências experimentais necessitam da massa. Cuida de seu aspecto de perfeita inutilidade (56). como esta necessita delas.A rebelião das massas. nem defender-se. sob pena de sucumbir. Nela. Sustenta-se a si mesma.o mais aterrador (57). milagrosa. nem de simpatia da massa. bem-estar. da civilização. não há sombra de que as massas peçam a si mesmas um sacrifício de dinheiro e de atenção para dotar melhor a ciência? Longe disso. mas não vive desse proveito alheio. X. Se alguém de boa mente a aproveita para algo. em que se desvive a si mesma? Deixemos. sem mais risco que o advento de outros seres que não o sejam. engenheiros. um bárbaro emergindo por um alçapão. Para mim é este da desproporção entre o proveito que o homem médio recebe da ciência e a gratidão que lhe dedica . Como vai pretender que alguém a tome em sério. um homem primitivo. sabe que. sem a menor solidariedade íntima com o destino da ciência.htm (51 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . suas dores? A desproporção entre o benefício constante e patente que a ciência lhes procura e o interesse que por ela mostram é tal. nem de atenção.

Mas não acontece no mundo que é civilização. A civilização.. mas não se preocupa de sustentar a civilização. onde a pedra civilizada. a franquia para ocupar-me dele em outra ocasião e para ser na hora oportuna romântico. mas agora vou destacar apenas uma. mas o corpo vulgar da Europa central não quer pô-las sobre os ombros. grave preocupação dos Estados australianos: impedir que as figueiras ganhem terreno e joguem os homens ao mar.A rebelião das massas. mas agora é preciso acrescentar algumas precisões. entre o racional e o cósmico. e pintavam o cisne sobre Lêda. Faltam cabeças.. estremecido. pois. Cada vez é menor o número de pessoas cuja mente está à altura desses problemas. um emigrante meridional. Os românticos de todos os tempos se desarticulavam ante esta cena de desolação. torna-se tanto mais complexa e mais difícil. Não lhe interessam os valores fundamentais da cultura. Mas agora encontro-me em faina oposta. Ele anuncia que. Hoje os orçamentos da Oceania sobrecarregam-se com verbas onerosas destinadas à guerra contra a figueira. A três por dois o senhor fica sem civilização. Seria estúpido rir do romântico. A civilização não está aí. e não se faz solidário deles.Málaga? Sicília? -. e constitui a mais elementar tragédia da civilização. Reclamo. reaparece repristinada a selva primitiva. Não está disposto a pôr-se a seu serviço. Os problemas que hoje levanta são arqui-intrincados. É artifício e requer um artista ou artesão. Não é que faltem meios para a solução. Quando um bom romântico divisa um edifício. A reconstituição da Europa . e quando o senhor olha à sua volta tudo se volatilizou! Como se houvessem recolhido uns tapetes que tapavam a pura Natureza. Trata-se de conter a selva invasora. se afoga sob o abraço da silvestre vegetação. levou para a Austrália num vaso de barro uma figueirazinha. O após-guerra nos oferece um exemplo bem claro disso. Mais exatamente: há algumas cabeças. Eu já o disse. Sob essas imagens inocentemente perversas palpita um enorme e sempiterno problema: o das relações entre a civilização e o que ficou depois dela .não existem para o homem médio atual. o "amarelo saramago".o que é preciso sustentar .a Natureza -. e o europeu vulgar revela-se inferior à tão sutil empresa. Como aconteceu isto? Por muitas causas. A selva sempre é primitiva. como o nosso.está se vendo . o touro com Pasifae e Antíope sob o capro. sobre o acrotério ou o telhado. geométrica. como é sabido. Este desequilíbrio entre a sutileza complicada dos problemas e a das mentes será cada vez maior se não se remedeia. não se sustenta a si mesma. o senhor está enfarado. em que o natural e subumano tornava a oprimir a palidez humana da mulher. quanto mais avança. e ipso facto converte-se em primitivo. em definitivo. Generalizando acharam um espetáculo mais sutilmente indecente na paisagem com ruínas.htm (52 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . que não avança para nenhum meio-dia. a primeira coisa que seus olhos procuram é. nostálgico de sua paisagem . Se o senhor quer aproveitar-se das vantagens da civilização. E vice-versa. muito poucas. Os princípios em que se apoia o mundo civilizado . Isso acontece no mundo que é só Natureza. que invadiu o continente e cada ano ganha em corte mais de um quilômetro. O homem-massa crê que a civilização em que nasceu e que usa é tão espontânea e primigênea como a Natureza. A civilização se lhe antolha selva. tudo é terra.é um assunto demasiado algébrico. Tudo que é primitivo é selva. que por toda a parte a selva rebrota. O "bom europeu" tem de se dedicar agora ao que constitui. Um descuido. Também o romântico tem razão. De tanto ser férteis e certeiros os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Pelo ano quarenta e tantos..

que hoje gravitam sobre nós. o senhor não aproveita sua experiência. A européia ameaça sucumbir pelo contrário. tanto mais em perigo está. o retrocesso à barbárie. as duas tentativas "novas" de política que na Europa e seus confinantes se estão fazendo. Todas as civilizações feneceram pela insuficiência de seus princípios. Em seu último terço iniciou-se . começou o mundo a involuir. portanto.a involução. está ideada em vista desses erros. isto é. tem naturalmente uma verdade parcial . por exemplo. mas. O que é file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.há um banalmente unido ao avanço da civilização. princípios que a informam. As pessoas mais "cultas" de hoje padecem uma ignorância histórica incrível. Mas se o senhor. Mas já o século XIX começou a perder "cultura histórica". Civilização avançada é uma e mesma coisa com problemas árduos. a retroceder e consumir-se. Mas é mister que cada nova geração se torne senhora desses meios adiantados. bem entendido. A vida é cada vez melhor. por homens medíocres. além de ser velho. com que tratam sua parte de razão. que. extemporâneos e sem memória extensa. aumenta sua colheita em quantidade e em agudeza até ultrapassar a receptividade do homem normal. vão-se aperfeiçoando também os meios para resolvê-los.pelo XVIII precisamente para evitar erros de todas as políticas antigas. Pois eu creio que esta é a situação da Europa. Não creio que isto tenha acontecido jamais no passado. Não tanto pelo conteúdo positivo de suas doutrinas. que só a técnica podia achar. comportam-se desde o início como se houvessem passado já. à ingenuidade e primitivismo de quem não tem ou esquece seu passado. que é ter muito passado às suas costas.governantes sensu lato . mas porque evita cometer os erros ingênuos de outros tempos. Mas agora é o homem quem fracassa por não poder continuar emparelhado com o progresso de sua própria civilização. sem "consciência histórica". dois claros exemplos de regressão substancial.a vida é sempre diferente do que foi -. cada vez mais complicada. Não discuto o credo. Daí que quanto maior seja o progresso. então tudo é desvantagem. A questão não está em ser ou não ser comunista e bolchevista. Por isso são bolchevismo e fascismo. Na Grécia e em Roma não fracassou o homem. Entre estes para concretizar um pouco . de que sua vida começa a ser difícil. em suma: história. Parecem toscos labregos que com dedos grossos e desajeitados querem colher uma agulha que está sobre uma mesa. como pela maneira anti-histórica. apesar de que no seu transcurso os especialistas a fizeram avançar muitíssimo como ciência (58).quem no universo não possui uma porciúncula de razão? -. perdeu a memória do passado. e. Sua política está pensada . muita experiência. os temas políticos e sociais com o instrumental de conceitos rombudos que serviram a duzentos anos para enfrentar situações de fato duzentas vezes menos sutis. Movimentos típicos de homens-massa dirigidos. anacrônica.embora subterraneamente . Não por que dê soluções positivas ao novo aspecto dos conflitos vitais .A rebelião das massas. Causa inquietude ouvir falar sobre os temas mais elementais do dia por pessoas relativamente mais cultas. É claro que ao complicarem-se os problemas. Aquele saber histórico das minorias governantes . isolado. Ao chegar a um grau de povoação grande e exigir tão vasta convivência a solução de certas urgências materiais. Eu sustento que hoje sabe o europeu dirigente muito menos história que o homem do século XVIII e mesmo do XVII. Manejam-se. O saber histórico é uma técnica de primeira ordem para conservar e continuar uma civilização provecta. como todos os que o são. A este abandono se devem em boa parte seus peculiares erros.htm (53 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e resume em sua substância a mais longa experiência.tornou possível o avanço prodigioso do século XIX. O Império romano finda por falta de técnica. mas seus princípios. como se sucedendo nesta hora pertencessem à fauna de antanho.

necessita preocupar-se antes de tudo de que esses humílimos lugares comuns da experiência histórica fiquem invalidados pela situação que ele suscita. condição irremissível para superá-lo. é o perfeito lugar comum das revoluções. Há uma cronologia vital inexorável. traduzindo sua atitude à linguagem positiva. Mas a inovação que o anti representa se desvanece no vazio ademane negador e deixa só como conteúdo positivo uma "antigualha". porém não menos prováveis. pelo contrário. aconteceu a Confúcio. O qual nasceu. O porvir o vence porque o devora. já usado uma ou muitas vezes. pois. ao cabo da qual está inexoravelmente o reaparecimento de Pedro. entre elas esta: uma revolução não dura mais de quinze anos. ou. mas a de um arcaico dia. segundo a lenda. das muitas que sobre as revoluções a velha experiência humana fez. nasceu já com oitenta anos enquanto seu progenitor não tinha mais que trinta. etc. "A revolução devora seus próprios filhos !" "A revolução começa por um partido moderado. diabo!. em vez de proceder a sua digestão. não levam dentro de si resumido todo o pretérito. A esses tópicos veneráveis podiam ajuntar-se algumas outras verdades menos notórias. etc. poderíamos dizer coisas similares do fascismo. Não há dúvida de que é preciso superar o liberalismo do século XIX. repetirá sua vitória inumeráveis vezes ou se acabará tudo . Por isso não é interessante historicamente o acontecido na Rússia. E isto serão todos os movimentos que recaiam na simplicidade de travar uma luta com tal ou qual porção do passado. O antipedrista.numa destruição da Europa. De minha parte reservarei a qualificação de genial ao político que mal comece a operar comecem a ficar loucos os professores de História dos Institutos.A rebelião das massas.bolchevismo e fascismo . é mais vida que este. por isso é estritamente o contrário de um começo de vida humana. coloca-se antes e retrocede toda a película à situação passada. Desde já. E como já uma vez este triunfou daquela. Acontece. Invertendo o signo que afeta o bolchevismo. Por isso . posto que signifique uma reação contra ele e supõe sua prévia existência. Quem aspire verdadeiramente a criar uma nova realidade social ou política. inconcebível e anacrônico é que um comunista de 1917 se atire a fazer uma revolução que é em sua forma idêntica a todas as que houve antes e na qual não se corrigem os mínimos defeitos e erros das antigas. É. não trazem a manhã do amanhã. O liberalismo é nela posterior ao anti-liberalismo..htm (54 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Nem um nem outro ensaio estão "à altura dos tempos". a seguir passa aos extremistas e começa mui rapidamente a retroceder para uma restauração". uma atitude anti-algo parece posterior a este algo.são duas falsas alvoradas. uma monótona repetição da revolução de sempre. Um e outro . Todo anti não é mais que um simples e vazio não. como o fascismo. Mas isso é precisamente o que acontecia ao mundo quando ainda não havia nascido Pedro.ser antiliberal ou não liberal . Quem se declara anti-Pedro não faz.liberalismo e anti-liberalismo . Se deixar algo dele fora está perdido. Com o passado não se luta corpo a corpo. interrompidas e feitas cisco. senão declarar-se partidário de um mundo onde Pedro não existe. que não receba deplorável confirmação quando se aplica a esta. com todos estes anti o que. período que coincide com a vigência de uma geração (59). naturalmente. Até o ponto de que não há frase feita. Mas isso é justamente o que não pode fazer quem. em vez de colocar-se depois de Pedro. o que é o mesmo. depois de seu pai. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como o canhão é mais arma que a lança. são primitivismo. em vista de que todas as "leis" de sua ciência aparecem caducadas.é o que fazia o homem anterior ao liberalismo. se declara anti-liberal. mas.

sem considerações. estuda-se a estrutura psicológica deste novo tipo de homem-massa. Este contentamento consigo o leva a fechar-se em si mesmo para toda instância exterior. Sua sensação íntima de domínio o incita constantemente a exercer predomínio. inseparável de tudo que hoje parece triunfar. saturadas de seu estilo primitivo. abastada. pois. "a altura dos tempos". a não pôr em tela de juízo suas opiniões e a não contar com os demais. Mas não tinha toda a razão. automaticamente. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.. Esta resolução de avançar para o primeiro plano social produziu-se nele. Em suma. à parte isso. como não pretendo dirimir o perene dilema entre revolução e evolução. entregue à decisão do homem vulgar como tal. Se o mandamos embora. A Europa não tem remissão se seu destino não é posto nas mãos de pessoas verdadeiramente "contemporâneas" que sintam palpitar debaixo de si todo o subsolo histórico. O passado tem razão.. O liberalismo tinha uma razão. quer dizer. e de passagem a impor a que não tem. Ou dito em voz ativa: o homem vulgar. só tentativas por eles informadas. Porque hoje triunfa o homem-massa. Atuará. Esta é. Se atendendo aos defeitos da vida pública. uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil. sem limitações trágicas. portanto. Não é mais nem menos massa o conservador que o radical. XI. e. O tema que verso nestas páginas é politicamente neutro. mal chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. evitá-lo. Comportar-se à sua vista para sorteá-lo.A rebelião das massas. portanto. com hiperestésica consciência da conjuntura histórica. antes dirigido. A Europa necessita conservar seu essencial liberalismo. a sua. Se falei aqui de fascismo e bolchevismo não foi senão obliquamente. resolveu governar o mundo. pela primeira vez. voltará a reclamá-la.que em toda época tem sido muito superficial .não impede nem de longe que ambos sejam um mesmo homem. Esta é a condição para superá-lo. Por isso sua única autêntica superação é não mandá-lo embora. portanto. a meu juízo.. e essa que não tinha é a que se devia tirar-lhe. não discuto agora a entranha de um nem a do outro. segundo um regime de "ação direta". como se somente ele e seus congêneres existissem no mundo. a considerar bom e completo seu haver moral e intelectual. trâmites nem reservas. que conheçam a latitude presente da vida e repugnem toda atitude arcaica e silvestre. podem celebrar uma aparente vitória. e esta diferença . a não ouvir. Se não se lhe dá essa que tem. encontra-se o seguinte: 1o. Seria tudo muito fácil se com um não puro e simples aniquilássemos o passado. vulgo rebelde. não recair nela. 3o. Necessitamos da história íntegra para ver se conseguimos escapar dela. contemplações. 2o. o convida a afirmar-se a si mesmo tal qual é. Mas. volta. cada indivíduo médio encontra em si uma sensação de domínio e triunfo que. O máximo que este ensaio se atreve a solicitar é que revolução ou evolução sejam históricas e não anacrônicas. porque alenta em estrato muito mais profundo que a política e suas dissensões. e essa é preciso dá-la per saecula saecculorum. Mas o passado é pura essência revenant. volta irremediavelmente. Contar com ele.htm (55 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . intervirá em tudo impondo sua vulgar opinião. fixando-me só na sua feição anacrônica. A ÉPOCA DO "MOCINHO SATISFEITO" Resumo: O novo fato social que aqui se analisa é este: a história européia parece.

pode surgir um homem constituído por aquele repertório de feições. O presente ensaio não é mais que um primeiro ensaio de ataque a esse homem triunfante. mostrando como muitos dos traços característicos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. no "aristocrata" herdeiro toda a sua pessoa vai se desvanecendo. Toda vida é luta. Por razões muito rigorosas e arquifundamentais que agora não é oportuno enunciar. O garoto mimado é o herdeiro que se comporta exclusivamente como herdeiro. Assim.o interno e trágico mecanismo que conduz toda a aristocracia hereditária à sua irremediável degeneração. isto é. o garoto mimado da história humana. Agora a herança é a civilização . precisamente aquilo. Agora. O resultado é essa específica parvoíce das velhas nobrezas. que o veja diante de si e não suspeite que aquilo. O ataque a fundo tem de vir de maneira que o homem-massa não se possa precaver contra ele. de que o "aristocrata" não é senão um caso particular. que agora anda por toda a parte e onde quer impor sua barbárie íntima. pelo contrário. porque não vêm dele. sentiria meu corpo como uma coisa vaga. portanto. Este personagem. nada que ver com elas.htm (56 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . por falta de uso e esforço vital. é o homem mais dócil a instâncias superiores que jamais existiu . o homem-massa de nosso tempo -. em vez dessas razões. muito mais amplo e radical. e converte-se em pura representação ou ficção de outra vida. Se meu corpo não me pesasse eu não poderia andar. Está condenado a representar o outro. é. e o anúncio de que uns quantos europeus vão reagir energicamente contra sua pretensão de tirania. Este repertório de feições fez com que pensássemos em certos modos deficientes de ser homem. só dentro da folga social que esta fabricou no mundo. Mas não é verdade. Ele não tem. ninguém descreveu ainda em seu interno e trágico mecanismo . As dificuldades com que tropeço para realizar minha vida são. (O primitivo normal.) Não é necessário estranhar que eu acumule dictérios sob esta figura de ser humano.A rebelião das massas. Por enquanto trata-se de um ensaio de ataque: o ataque a fundo virá depois. tem de usar a carapaça de outra vida. minhas capacidades. com efeito. (Por outra parte. tradição social. Se a atmosfera não me oprimisse. caberia aproveitar mais detalhadamente a anterior alusão ao "aristocrata". de outro ser vivente. costumes -. é o ataque a fundo. e outro um menino mimado e outro. a sua ou a do prócer inicial? Nem uma nem outra. como o "menino mimado" e o primitivo rebelde.as comodidades. em meio de sua riqueza e de suas prerrogativas. de repente e sem saber como. em suma. esforço por ser ela mesma. É uma de tantas deformações como o luxo produz na matéria humana. inspirado por tal caráter. encontra atribuídas a sua pessoa umas condições de vida que ele não criou. O aristocrata herda. que não se assemelha a nada e que. Pelo contrário. E tem de viver como herdeiro. portanto. Tenderíamos ilusoriamente a crer que uma vida nascida em um mundo abastado seria melhor. a não ser nem o outro nem ele mesmo. Acha-se ao nascer instalado. a rigor. Como vimos. fantasmática. fofa.religião. a segurança. em forma muito diferente da que este ensaio reveste. Valha isto tão somente para enfrentar nossa ingênua tendência a crer que a abundância de meios favorece a vida. precisamente.os que se podem reunir na classe geral "homem-herdeiro". o bárbaro. A abundância de meios que está obrigado a manejar não o deixa viver seu próprio e pessoal destino. tabus. atrofia sua vida. em lutar com a escassez. seu antepassado. intimamente. mais vida e de superior qualidade à que consiste. Um mundo abundoso (60) de possibilidades produz automaticamente graves deformações e viciosos tipos de existência humana . São a carapaça gigantesca de outra pessoa. precisamente. Sua vida perde inexoravelmente autenticidade. Em que ficamos? Que vida vai viver o "aristocrata" de herança. o que desperta e mobiliza minhas atividades. quer dizer. que não se produzem organicamente unidas a sua vida pessoal e própria. talvez muito breve. basta recordar o fato sempre repetido que constitui a tragédia de toda a aristocracia hereditária. as vantagens da civilização -. quer dizer.

como se diz ao papagaio no conto do português. no ar da rua trariam automaticamente conseqüências desastrosas e iniludíveis para seu autor. os girinos na alverca. a civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se em um mundo abundante. especialmente da forma que esta civilização no século XIX. falta de romanticismo na relação com a mulher. divertir-se com o intelectual. o "filho de família" forja para si esta ilusão. Este desequilíbrio o falsifica. Ignora. o nível vital que representa a Europa de hoje é superior a todo o passado humano. tudo. Grande equívoco! Vossa Mercê irá aonde o levem. de relativa morte. etc. Porque é um homem que veio à vida para fazer o que bem entende. pode ficar no final das contas impune. Segundo isto. de maneira germinal. Por isso acredita que pode fazer o que bem entende (63). as raças inferiores . o cultivo do seu corpo . os pigmeus . radical problematismo. preferir a vida sob a autoridade absoluta a um regime de discussão (61). para me referir a uma dimensão muito concreta da vida corporal. de medicinas benéficas. que é absoluto perigo. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos. faz ver com suficiente clareza a anormalidade superlativa que representa o "mocinho satisfeito". pelo contrário. Neste ponto possuímos apenas uma liberdade negativa de arbítrio . recordarei que a espécie humana brotou em zonas do planeta onde a estação quente ficava compensada por uma estação de frio intenso. A forma mais contraditória da vida humana que pode aparecer na vida humana é o "mocinho satisfeito". não percebe o instável que é a organização do Estado. o animal-homem degenera. Podemos perfeitamente file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. vicia-o em sua raiz de ser vivente. pois. não nasceu tampouco dentro dele por geração espontânea e misteriosa. irremediável e irrevogável. e tolera dentro de si muitos atos que na sociedade. Cabe unicamente negar-se a fazer isso que é preciso fazer. Mas o "mocinho" é aquele que acredita poder comportar-se fora de casa como em casa. do qual percebe só a superabundância de meios.regime higiênico e atenção à beleza do traje -. e mal sente dentro de si obrigações. Pois bem. de Estados previdentes. quando se torna figura predominante. mas se olhamos o porvir. mas. faz temer que nem conserve sua altura nem produza outro nível mais elevado. quer dizer. Isto. por seu turno. de direitos cômodos. mas isto não nos deixa em liberdade para fazer outra coisa que esteja na nossa vontade. O âmbito familiar é relativamente artificial. Cabe formular esta lei que a paleontologia e a biogeografia confirmam: a vida humana surgiu e progrediu só quando os meios com que contava estavam equilibrados pelos problemas que sentia. se dão. Não veio de fora ao mundo civilizado como os "grandes bárbaros brancos" do século V. aquele que acredita que nada é fatal.htm (57 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . com leal desgosto em fazer ver que este homem cheio de tendências incivis. tanto na ordem espiritual como na física.A rebelião das massas. mas não as angústias. Por isso. deste. Não é o que não se deva fazer o que esteja na vontade da pessoa.foram repelidas para os trópicos por raças nascidas depois delas e superiores na escala da evolução (62). mas é o seu fruto natural. tem que ser.a nolição -.). é preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se acha ameaçada de degeneração. Com efeito. em todos os povos e tempo. até os maiores delitos. no homem-massa. Assim. que retroceda e recaia em altitudes inferiores. é que não se pode fazer senão o que cada qual tem que fazer. o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e assegurar para o futuro sua produção. Insisto. e vice-versa. etc. não estimá-lo e mandar que os lacaios ou os esbirros o açoitem. Já sabemos por que: no âmbito familiar. porém. Por exemplo: a propensão de fazer ocupação central da vida os jogos e os esportes. penso. que este novíssimo bárbaro é um produto automático da civilização moderna. fazendo-o perder contacto com a substância mesma da vida.por exemplo. Isto é verdade. Nos trópicos. segundo Aristóteles. como. no fundo.

Todos "sabem" que além das justas críticas com que se combatem as manifestações do liberalismo fica a irrevogável verdade deste. Brincam de tragédia porque crêem que não é verossímil a tragédia efetiva no mundo civilizado. a falsificação de nós mesmos (65). As verdades teóricas não são discutíveis. científica.no católico que presta mais leal adesão ao Syllabus (64). que isso que a Europa tentou no último século com o nome de liberalismo é. somos a negação. vivem enquanto se discutem e estão feitas exclusivamente para a discussão. na hora das seriedades. que o homem ocidental de hoje é. mas melhormente se reconhece e mostra seu claro. Pois bem: "o mocinho-satisfeito" caracteriza-se por "saber" que certas coisas não podem ser e. O destino não consiste naquilo que temos vontade de fazer. entretanto. Porque esta é a tônica da existência no homem-massa: a inseriedade. Vive-se humoristicamente e tanto mais quanto mais trágica seja a máscara adotada. e que nela se recairá sempre que a verdade seja necessária. Mas o destino . Por exemplo: todo europeu atual sabe. é só a aparência. uma verdade que não é teórica. desertar de nosso destino mais autêntico. queira ou não queira. talhantes. creia-o ou não . precisamente porque sabe que esta não faltará nunca no fim das contas e em sério. Não discutamos se esta ou a outra forma de liberdade é a que tem de ser. Se o aceitamos. Esta evidência última atua tanto no comunista europeu como no fascista. a evitar cada qual o confronto com isso que tem que ser. no fundo de sua consciência.não se discute. fica em pé a última evidência de que no século último tinha substancialmente razão. uma verdade de destino -. rigoroso perfil na consciência de ter que fazer o que não está na nossa vontade. inscrito no destino europeu. como faz suas travessuras o "filho de família". por muitas atitudes que tenham para nos convencer e convencer-se do contrário. fazem-no sem o caráter de irrevogável.htm (58 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . e por isso mesmo. Os únicos esforços que fazem destinam-se a fugir do próprio destino. como atua . fingir com seus atos e palavras a convicção contrária. Se alguém se obstina em afirmar que dois mais dois é igual a cinco e não há motivo para supô-lo clemente. intelectual. nascem da discussão. últimas. inexorável. Toda essa pressa para adotar em todas as ordens atitudes aparentemente trágicas.a saber. Embora se demonstre. na substância mesma da vida européia. por muito que grite e ainda se deixe matar para sustentá-lo. que são falsas e funestas todas as maneiras concretas em que se tentou até agora realizar esse imperativo irremissível de ser politicamente livre. mas é possível fazê-lo ver naquelas porções ou facetas de seu destino que são idênticas às de outros. se não o aceitamos.queira ou não queira. que o homem europeu atual tem de ser liberal. O que fazem. com plena e incontrastável verdade. mas sim aceita-se ou não. a cegar-se ante sua evidência e sua chamada profunda. em última instância. Há file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. algo iniludível. devemos afirmar que não o crê. Seria bom que estivéssemos forçados a aceitar como autêntico ser de uma pessoa o que ela pretendia mostrar-nos como tal. O fascista se mobilizará contra a liberdade política. mas todo seu sentido e sua força estão em ser discutidas. mas é para cair prisioneiro nos graus inferiores de nosso destino. somos autênticos. irremediavelmente. mas que está aí. a "piada". Refiro-me a que o europeu mais reacionário sabe. Quase todas as posições que se tomam e ostentam são internamente falsas.o que vitalmente se tem que ser ou não se tem que ser . Um furacão de farsa geral e onímoda sopra sobre o torrão europeu. com uma certeza muito mais vigorosa que a de todas as suas idéias e "opiniões" expressas.A rebelião das massas. Eu não posso fazer isto evidente a cada leitor no que seu destino individualíssimo tem como tal. porque não conheço a cada leitor. mas de uma ordem radicalmente diferente e mais decisiva de tudo isso .

aparece o cínico. seu papel era desfazer . Aquele que fabricou os machados de pedra. e dessa raiz lhe vem seu caráter específico. Diógenes pateia com suas sandálias sujas de lama os tapetes de Arístipo. Ora bem. num caso particular. pela mesma razão de que está convencido de que ela não desaparecerá. ao concretizar-se. romana. Esta civilização do século XIX. Por isso. e o "filho de família" não sente nada que o faça sair de sua índole caprichosa. Tomemos agora somente a última. vegeta suspenso ficticiamente no espaço.htm (59 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Assim acontece que mal chega à sua máxima atitude a civilização mediterrânea . oriental . que incite a ouvir instâncias externas superiores a ele.mesopotâmica. Quase ninguém apresenta resistência aos superficiais torvelinhos que se formam em arte ou em idéias. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. naturalmente e a sério. O superrealista acredita haver superado toda a história literária quando escreveu "aqui uma palavra que não é necessário escrever" onde outros escreveram "jasmins. A BARBÁRIE DO "ESPECIALISMO" A tese era que a civilização do século XIX produziu automaticamente o homem-massa.por volta do século III A. As demais técnicas . pode resumir-se em duas grandes dimensões: democracia liberal e técnica. mais que nunca triunfa a retórica. ou nos usos sociais. a porção que de comum tinha com outras do passado. dizia eu. porque é "civilização" . É a época das "correntes" e do "deixar-se ir". Jamais criou nem fez nada. não obstante. . uma casa -. considera como seu papel pessoal? Que é um fascista se não fala mal da liberdade e um superrealista se não perjura da arte! Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem nascido no mundo demasiadamente bem organizado. em que a pessoa não se finca inteira e sem reservas. O contorno o mima.O cínico. ou em política. e. Só a técnica moderna da Europa possui uma raiz científica. Convém não fechar sua exposição geral sem analisar. o cínico não fazia outra coisa senão sabotar aquela civilização. O homem-massa não afirma o pé sobre a firmeza incomovível de seu signo. A China chegou a um alto grau de tecnicismo sem suspeitar em nada a existência da física. do qual só percebe as vantagens e não os perigos. C. criou uma técnica.espraiam-se até um ponto de desenvolvimento que não podem ultrapassar. nilota. tentar desfazer. XII. Era o nihilista do helenismo. A técnica contemporânea nasce da copulação entre o capitalismo e a ciência experimental.isto é. a mecânica dessa produção. e muito menos que o obrigue a tomar contato com o fundo inexorável de seu próprio destino. humorismo onde quer que se vive de atitudes revogáveis. parasita da civilização.melhor dito. Por isso é que nunca como agora estas vidas sem peso e sem raiz . Não toda técnica é científica. pelo contrário. Esclarece a situação atual advertir.A rebelião das massas. O cínico tornou-se um personagem pululante. não obstante a singularidade de sua fisionomia. e apenas o tocam começam a retroceder em lamentável involução. grega. a possibilidade de um ilimitado progresso. carecia de ciência. Mas é claro que com isso só fez extrair outra retórica que até agora jazia nas latrinas. porque tampouco conseguiu seu propósito -. Desta sorte. cisnes e faunesas". que se achava atrás de cada esquina e em todas as alturas.déracinées de seu destino . no período chelense. a tese ganha em força persuasiva. Que faria o cínico num povo selvagem onde todos. fazem o que ele em farsa. vive de negá-la.se deixem arrastar pela mais inconstante corrente.

prevenia eu no princípio . mas uma classe ou modo de ser homem que se dá hoje em todas as classes sociais. faz dele um primitivo. professor etc. Os homens de ciência. adquire a plenitude de seu sentido e a evidência de sua gravidade. Se um personagem astral visitasse a Europa. Não há dúvida de que a técnica . Ipso facto deixaria de ser verdadeira. nome coletivo da ciência experimental. A ciência não é especialista.A rebelião das massas. mas. o tipo genérico "homem de ciência". Assim. dentro do grupo técnico. Pois bem: o homem de ciência atual é o protótipo do homem-massa. o técnico: engenheiro. Quem. Mas estas páginas tentaram mostrar que também é responsável da existência do homem-massa no sentido qualitativo e pejorativo do termo. não designa aqui uma classe social. Recorde-se o dado de que tomou seu vôo este ensaio e que. Nem sequer a ciência empírica. a burguesia. nem por defeito unipessoal de cada homem de ciência. consegue constituir-se nos finais do XVII (Newton) e começa a desenvolver-se nos meados do XVIII.especializado. cume da humanidade européia. financista. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A coisa é muito conhecida: fez-se constar inúmeras vezes. a constituição da física.não se entende especialmente o obreiro. que por isso mesmo representa o nosso tempo. é verdadeira se a separamos da matemática. Tal foi a obra de Newton e demais homens de seu tempo. mas justamente o inverso: como em cada geração o científico. O pulo é único na história humana.junto com a democracia liberal .o converte automaticamente em homem-massa. por ter de reduzir sua órbita de trabalho. o homem de ciência. Esta maravilhosa técnica ocidental tornou possível a maravilhosa proliferação da casta européia. Do século V a 1800 a Europa não consegue ter uma população superior a 180 milhões. mas porque a técnica mesma .htm (60 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o representa com maior altitude e pureza? Sem dúvida. ia progressivamente perdendo contato com as demais partes da ciência. o homem de ciência tem sido constrangido. com a aristocracia do presente? Sem dúvida. preferia ser julgada. Isso faria ver como. não há dúvida de que a Europa apontaria satisfeita e certa de uma sentença favorável. entre os que a habitam. mostrando o processo de crescente especialização no trabalho dos investigadores. médico. fazer uma história das ciências físicas e biológicas. encerrado num campo de ocupação intelectual cada vez mais estreito. Seria de grande interesse. sobre o qual predomina e impera. da filosofia. Mas o desenvolvimento da física iniciou uma faina de caráter oposto à unificação para progredir. É claro que o personagem astral não perguntaria por indivíduos excepcionais. obrigou a um esforço de unificação. De 1800 a 1914 ascende a mais de 460 milhões. a ciência necessitava que os homens de ciência se especializassem. Quem. A ciência experimental inicia-se ao finalizar o século XVI (Galileu). Por "massa" . Agora vamos ver isso com sobrada evidência. e com ânimo de julgá-la lhe perguntasse por que tipo de homem. da lógica. dentro dessa burguesia é considerado como o grupo superior. etc. Mas não é isto o importante que essa história nos ensinaria. Mas o trabalho nela tem de ser . Quem exerce o poder social? Quem impõe a estrutura de seu espírito na época? Sem dúvida. quero dizer.irremissivelmente . seus homens de ciência. mas procuraria a regra. e maior utilidade que a aparente à primeira vista.raiz da civilização .engendrou o homem-massa no sentido quantitativo desta expressão. geração após geração. um bárbaro moderno. não a ciência. O desenvolvimento de algo é coisa diferente de sua constituição e está submetido a condições diferentes. E não por casualidade. tomada na sua integridade. como eu disse. somente articulada no organismo deste ensaio. encerra germinalmente todas estas meditações.

Não é um sábio. e denomina diletantismo a curiosidade pelo conjunto do saber. Na geração seguinte. nele se dá um pedaço de algo que. descobrir novos fatos e fazer avançar sua ciência. A firmeza e exatidão dos métodos permitem esta transitória e prática desarticulação do saber. constituem verdadeiramente o saber. O caso é que. cultura. Uma boa parte das coisas que é preciso fazer em física e em biologia é faina mecânica de pensamento que pode ser executada por qualquer pessoa. A especialização começa. junto com outros pedaços não existentes nele. porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade. É um homem que. em sábios e ignorantes. O século XIX inicia seus destinos sob a direção de criaturas que vivem enciclopedicamente. Eu disse que era uma configuração humana sem igual em toda a história. O especialista "sabe" muito bem seu mínimo rincão de universo. encontramo-nos com um tipo de científico sem exemplo na história. Trabalha-se com um desses métodos como com uma máquina.htm (61 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . conhece apenas determinada ciência. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. e a especialidade começa a desalojar dentro de cada homem de ciência a cultura integral. Eis aqui um precioso exemplar deste estranho homem novo que eu tentei. por uma e outra de suas vertentes e aspectos. de tudo quanto há de saber para ser um personagem discreto. O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e fazendo ver todo o radicalismo de sua novidade. e menos que medíocres. vantagem maior e perigo máximo da ciência nova e de toda civilização que esta dirige e representa: a mecanização. em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. não como um ignorante. num tempo que chama homem civilizado ao homem "enciclopédico". fechado na estreiteza de seu campo visual. que conscienciosamente desconhece. civilização européia. a equação se deslocou. Quer dizer. Com certa aparente justiça se considerará como "um homem que sabe". Como foi e é possível coisa semelhante? Porque convém repisar a extravagância deste fato inegável: a ciência experimental progrediu em boa parte mercê do trabalho de homens fabulosamente medíocres. ao mesmo tempo. simplesmente. que nos primeiros anos deste século chegou à sua mais frenética exageração. Chega a proclamar como uma virtude o não tomar conhecimento de quanto fique fora da estreita paisagem que especialmente cultiva. que é o único merecedor dos nomes de ciência. e nem sequer é forçoso para obter abundantes resultados possuir idéias rigorosas sobre o sentido e fundamento deles. com efeito. e com ela a enciclopédia do pensamento. O investigador que descobriu um novo fato da Natureza tem por força de sentir uma impressão de domínio e de segurança em sua pessoa. mas ignora basicamente todo o resto. precisamente. Porque outrora os homens podiam dividir-se. mas com toda a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. coisa sobremodo grave. E. e ainda dessa ciência só conhece bem a pequena porção em que ele é ativo investigador. Por isso cria uma casta de homens sobremodo estranhos. que a ciência moderna. consegue. Devemos dizer que é um sábio ignorante. que ele apenas conhece. definir. Para os efeitos de inúmeras investigações é possível dividir a ciência em pequenos segmentos. Esta é a situação íntima do especialista. embora sua produção tenha já um caráter de especialismo.A rebelião das massas. porque é "um homem de ciência" e conhece muito bem sua porciúncula de universo. como a abelha no seu alvéolo. raiz e símbolo da civilização atual. Assim a maior parte dos científicos propelem o progresso geral da ciência encerrados num nicho de seu laboratório. encerrar-se em um e desinteressar-se dos demais. com efeito. pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora. deu guarida dentro de si ao homem intelectualmente médio e lhe permite operar com bom êxito. mas tampouco é um ignorante. Quando em 1890 uma terceira geração assume o comando intelectual da Europa. com uma interpretação integral do universo. A razão disso está no que é.

Ao especializá-lo a civilização o tornou hermético e satisfeito dentro de sua limitação.com estes nomes simboliza-se só a massa enorme de pensamentos filosóficos e psicológicos que influíram em Einstein . que cada vez complica regiões mais vastas do saber total. petulância de quem na sua questão especial é um sábio. em arte. Essa condição de "não ouvir".especialistas dessas coisas. Quem quiser pode observar a estupidez com que pensam. para que possa continuar havendo investigadores. nas outras ciências tomará posições de primitivo. muito mais radicalmente ignora as condições históricas de sua perduração. simplesmente. Em política. O resultado mais imediato desse especialismo não compensado tem sido que hoje.e isto é o paradoxal . em 1750. que tornou possível o progresso da ciência experimental durante um século. sem admitir .à qual já aludi . mas as tomará com energia e suficiência. etc. A física entra na crise mais profunda de sua história. com efeito. Também ele acredita que a civilização está aí. de não se submeter a instâncias superiores que reiteradamente apresentei como característica do homem-massa. pois. este é o comportamento do especialista. um trabalho de reconstituição. quando há maior número de "homens de ciência" que nunca. e só poderá salvá-la uma nova enciclopédia mais sistemática que a primeira. aproxima-se a uma etapa em que não poderá avançar por si mesmo se não se encarrega uma geração melhor de construir-lhe um novo forno mais poderoso. produziu esse broto de primitivismo e barbárie. julgam e atuam hoje na política.htm (62 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . nos usos sociais. portanto. e em grande parte constituem o império atual das massas.é um sintoma preocupador para todo aquele que tenha uma idéia clara do que é civilização. e é claro. isso requer um esforço de unificação. como eu disse. por exemplo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. depois deles. mas essa mesma sensação íntima de domínio e valia o levará a querer predominar fora de sua especialidade. O especialismo. E.A rebelião das massas. Porque esta necessita de tempo em tempo. Newton pode criar seu sistema físico sem saber muita filosofia. e ignorantíssimo. médicos. Mas Einstein não é suficiente.especialismo .e. mas Einstein precisou saturar-se de Kant e de Mach para poder chegar a sua aguda síntese. que representa um maximum de homem qualificado . cada vez mais difícil. chega ao cúmulo nesses homens parcialmente qualificados. Kant e Mach . a idéia que sói faltar ao típico "homem de ciência". Mas se o especialista desconhece a fisiologia interna da ciência que cultiva. financistas. isto é. A advertência não é vaga. significam o mais claro e preciso exemplo de como a civilização do último século abandonada à sua própria inclinação. ainda neste caso. cume de nossa atual civilização. como orgânica regulação de seu próprio incremento. e sua barbárie é a causa mais imediata da desmoralização européia. E o pior é que com esses perdigueiros do forno científico nem sequer está garantido o progresso íntimo da ciência. na arte. o mais oposto ao homem-massa.serviram para liberar a mente desse e deixar-lhe a via livre para sua inovação. A decadência de vocação científica que se observa nestes anos . haja muito menos homens "cultos" que. o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida. como a crosta terrestre e a selva primigênea. Por outra parte. professores. como devem estar organizados a sociedade e o coração do homem. e. Eles simbolizam. E a conseqüência é que. na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os "homens de ciência". engenheiros.

teria talvez preferido este último estilo de rebeldia. Quando uma realidade humana cumpriu sua história. triunfe a violência e se faça dela a única ratio. é que é um homem-massa e necessita recebê-la daquele. naufragou e morreu. Pretender a massa atuar por si mesma é. Veio ao mundo para ser dirigida. XIII. um ser constitutivamente forçado a procurar uma instância superior. A retórica é o cemitério das realidades humanas.até para deixar de ser massa. aspirar a isso -. fá-lo só de uma maneira. tenha ou não vontade disso. Há muito tempo que eu fazia notar este comércio da violência como norma (67). Nem muito menos poderá estranhar que agora. ou. Mas ainda quando não seja impossível que tenha começado a minguar o prestígio da violência como norma cinicamente estabelecida. e isso é um bom sintoma. que não é mais nem menos contra Deus que o outro tão famoso). Hoje é já a violência a retórica do tempo. já que a América é de certo modo o paraíso das massas. Encontramo-nos. embora leve a Europa todo um século metendo a cabeça debaixo da asa. ainda sendo sua palavra. Não é completamente casual que a lei de Lynch seja americana. mas numa lei da "física" social. influída. também este nasceu dela. em rebelar-se contra si mesmo. no mínimo. pois. pois. ao modo dos estrúcios para ver se consegue não ver tão radiante evidência. que tampouco o era. rebelar-se contra seu próprio destino. como Tolstoi. a única doutrina. Quando a massa atua por si mesma. onde. Porque não se trata de uma opinião fundada em fatos mais ou menos freqüentes e prováveis. representada. bem que em outra forma. Refiro-me ao perigo maior que hoje ameaça a civilização européia. com uma réplica do que no capítulo anterior se disse sobre a ciência: a fecundidade de seus princípios a propelem a um fabuloso progresso. Porque no final das contas a única coisa que substancialmente e com verdade pode chamar-se é a que consiste em não aceitar cada qual seu destino. À realidade sobrevive seu nome que. falo eu da rebelião das massas. Se consegue por si mesmo encontrá-la. No dia em que volte a imperar na Europa uma autêntica filosofia (66) . Hoje chegou a seu máximo desenvolvimento. seu hospital de inválidos. e como isso é o que faz agora.única coisa que pode salvá-la -. os retóricos. A rigor.a humanidade não existiria no que tem de mais essencial. muito mais incomovível que as leis da física de Newton. porque significa que automaticamente vai iniciar-se seu descenso. constituída pelas minorias excelentes. quando as massas triunfam. é coisa sobre a qual convém que não haja dúvida alguma.se houvesse obstinado em ser o mais ínfimo dos anjos. afinal de contas. é que é um homem excelente. continuaremos sob seu regime. mas este impõe file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.o que não era seu destino . pervive largamente. as ondas a cospem nas costas da retórica. nada menos que palavra e conserva sempre algo de seu poder mágico. Como todos os demais perigos que ameaçam esta civilização. porque não tem outra: lincha. cadáver.sejam uns ou outros . Discuta-se quanto se queira quem são os homens excelentes.htm (63 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O MAIOR PERIGO. pelo menos. Tal é a sua missão. é o Estado contemporâneo. Mais ainda: constitui uma de suas glórias. mas que sem eles . organizada . a massa é o que não atua por si mesma. (Se Luzbel tivesse sido russo. compreender-se-á que o homem é. os inanes. Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si. Necessita referir sua vida à instância superior. a fazem sua. é. O ESTADO Numa boa ordenação das coisas públicas.A rebelião das massas. a rebelião do arcanjo Luzbel não o houvera sido menos se em vez de empenhar-se em ser Deus . senão.

De inteligência muito limitada. instintivos.A rebelião das massas. intuitivos. Plantada no meio da sociedade. haviam produzido um primeiro crescimento da sociedade. automaticamente. as revoluções (até 1848).tomando-as do Oriente ou outro lugar . por seu dom de mando. os nobres andavam. onipotente e grávida de tormentas. a nova técnica. e a especialização ameaça afogar a ciência. que apenas podia mover-se na lida. Esta burguesia sem mérito possuía. Não inventaram a pólvora. não foi mais que um golpe de Estado com máscara. a sociedade que o rodeava não tinha força nenhuma (69). ganharam a batalha ao guerreiro nobre. em compensação.de ordem pública e de administração -. O Estado carolíngio era. gente admirável por sua coragem. A desproporção entre o poder do Estado e o poder social é tal nesse momento. Entediaram-se. sentimentais. que acabou com as revoluções.htm (64 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . por seu sentido de responsabilidade. a racionalizada. "irracionais". disciplinar. Em nosso tempo. Incapazes de inventar novas armas. que se sentia a si mesma oceânica. ao "cavalheiro". Nivelou-se o Poder público com o poder social. muito menos poderoso que o de Luís XVI. quer dizer. açoitado de todos os lados por uma ampla e revolta sociedade. e em pouco mais de uma geração criou um Estado poderoso. Rememore-se o que era o Estado nos fins do século XVIII em todas as nações européias. O enorme desnível entre a força social e a do poder público tornou possível a Revolução. de uma maravilhosa eficiência pela quantidade e precisão dos seus meios. Viviam da outra víscera. No meio dela. deixaram que os burgueses . talento prático. coberto estupidamente de ferro. o Estado chegou a ser máquina formidável que funciona prodigiosamente. em suma. A nave do Estado é uma metáfora reinventada pela burguesia. Havia sido fabricada na Idade Média por uma classe de homens muito diferentes dos burgueses: os nobres. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas com todas essas virtudes do coração. mas. mal de cabeça. está claro. onde pela primeira vez triunfa a técnica. desde que começa a segunda geração de governos burgueses não há na Europa verdadeiras revoluções. Aquela nave era coisa de nada ou pouco mais: apenas tinha soldados. como num oceano. E não certamente porque não houvesse motivos para elas. Uma nova classe social apareceu. inexoravelmente a especialização. antes de tudo e sobretudo uma coisa: talento. Por isso não puderam desenvolver nenhuma técnica. mais poderosa em número e potência que as preexistentes: a burguesia. Desde 1848. apenas tinha dinheiro. Adeus revoluções para sempre! Já não cabe na Europa mais que o contrário: o golpe de Estado.utilizassem a pólvora. dar continuidade e articulação ao esforço. Bem pouca coisa! O primeiro capitalismo e suas organizações industriais. basta tocar u'a mola para que atuem suas enormes alavancas e operem fulminantes sobre qualquer parte do corpo social. e a quem não ocorrera que o segredo eterno da guerra não consiste tanto nos meios de defesa como nos de agressão (segredo que Napoleão redescobriria) (68) Como o Estado é uma técnica . Mas com a Revolução apossou-se do Poder público a burguesia e aplicou ao Estado suas inegáveis virtudes. o "antigo regime" chega aos fins do século XVIII com um Estado fraquíssimo. e com isso. sempre andaram. aparece o Estado do século XVIII como uma degeneração. apenas tinha burocratas. Sabia organizar. E tudo que com posterioridade pode dar-se ares de revolução. navegava ao azar a "nave do Estado". mas porque não havia meios. coisa que obriga à racionalização. A mesma coisa acontece com o Estado. Sem eles não existiriam as nações da Europa. que comparando a situação com a vigente em tempo de Carlos Magno.

E como no final das contas não é senão u'a máquina cuja existência e manutenção dependem da vitalidade circundante que a mantenha. nenhuma nova semente poderá frutificar. crê que o Estado é coisa sua. O Estado é. começa a decair o corpo social. para subvencionar suas próprias necessidades. Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatificação da vida. antes de tudo. Esta burocratização em segunda potência é a militarização da sociedade. a esmagar com ele toda minoria criadora que o perturbe . Faina vã! A miséria aumenta. com efeito.que o perturbe em qualquer ordem: em política. o homem. militarizam o mundo. Estado contemporâneo e massa coincidem só em ser anônimos. A massa diz a si mesma: "o Estado sou eu". o Estado. que ele é o Estado. morto com essa morte ferrugenta da máquina. Que acontece? A burocratização da vida produz sua diminuição absoluta . Por outra parte. Esta começa a ser escravizada. Faltam até soldados. A urgência maior do Estado é seu aparato bélico. luta. para a máquina do Governo. Adverte-se qual é o processo paradoxal e trágico do estatismo? A sociedade. nutre e impele os destinos humanos. em indústria. quer dizer. A espontaneidade social ficará violentada uma vez e outra pela intervenção do Estado. Quando a massa sente uma desventura. Já nos tempos dos Antoninos (século II) o Estado gravita com uma antivital supremacia sobre a sociedade. depois de sugar a medula da sociedade. Depois. as matrizes são cada vez menos fecundas. como um utensílio. dúvida nem risco . Este foi o signo lamentável da civilização antiga. antes de tudo. é uma grande tentação para ela essa permanente e segura possibilidade de conseguir tudo . ficará héctico. sabe que está aí. e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto. A vida toda se burocratiza. ou simplesmente algum forte apetite. garantindo sua vida. o Estado. mas não tem consciência de que é uma criação humana inventada por certos homens e mantida por certas virtudes e por certo que houve ontem nos homens e que pode evaporar-se amanhã. Os Severos. e a sociedade tem de começar a viver para o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas.A rebelião das massas. E é muito interessante. Depois dos Severos. para viver melhor. curiosa coincidência. Imagine-se que sobrevem na vida pública de um país qualquer dificuldade. apenas chegou a seu pleno desenvolvimento. força mais a burocratização da existência humana.htm (65 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Por isso é. a anulação da espontaneidade histórica. Este o vê. A sociedade terá de viver para o Estado. produtor de segurança (a segurança de que nasce o homem-massa. não se esqueça). cria. precatar-se da atitude que ante ele adota o homem-massa. esquelético. o que é um perfeito erro. exército. que em definitivo sustenta. o Estado se sobrepõe. muito mais cadavérica que a do organismo vivo. Não há dúvida que o Estado imperial criado pelos Júlios e os Cláudios foi u'a máquina admirável. conflito ou problema: o homem-massa tenderá a exigir que imediatamente o assuma o Estado.sem esforço. incomparavelmente superior como artefato ao velho Estado republicano das famílias patrícias. admira-o. é revelador. a não poder viver mais que em serviço do Estado. O resultado desta tendência será fatal.apenas ao premir a mola e fazer funcionar a portentosa máquina. seu exército. A riqueza diminui e as mulheres parem pouco. O Estado contemporâneo é o produto mais visível e notório da civilização.em todas as ordens -. de origem africana. o homem-massa vê no Estado um poder anônimo. Mas o caso é que o homem-massa crê. O Estado é a massa só no sentido em que se pode dizer de dois homens que são idênticos porque nenhum dos dois se chama João. Então o Estado. e como ele se sente a si mesmo anônimo vulgo -. que se encarregue diretamente de resolvê-lo com seus gigantescos e incontrastáveis meios. o intervencionismo do Estado. o exército tem de ser recrutado entre estrangeiros. em idéias. a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado.

do povo inicial. O estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação direta constituídas em normas. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. de gente com a qual não tem nada que ver. "Em Paris escreve John William Ward . em 1800. no final das contas. Mussolini encontrou um Estado admiravelmente construído . Mas é uma inocência das pessoas de "ordem" pensar que essas "forças de ordem pública". Ele se limita a usá-lo incontinentemente. Mas. nada fora do Estado. vão contentar-se com impor sempre o que aquelas queiram. Em 1810 surge na Inglaterra. dálmatas. mas precisamente pelas forças e idéias que ele combate: pela democracia liberal -. do grupo. e os restos da sociedade. que dificilmente equilibra a acumulação de poderes anormais que lhe consentem empregar aquela máquina em forma extrema. a fórmula Tudo pelo Estado. mas pagam caro suas vantagens. uma Polícia que regule a circulação. criadas para a ordem. e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. Através e por meio do Estado. como um prodigioso descobrimento feito agora na Itália. um aumento da criminalidade. a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia.e que será.o obreiro industrial . o Estado se compõe ainda dos homens daquela sociedade. o que lhes convenha. Bastaria isso para descobrir no fascismo um típico movimento de homens-massa. sobressalta um pouco ouvir que Mussolini apregoa com exemplar petulância. jurídicos e de ordem pública sobremodo árduos. até onde se possa. Governam os conservadores. Quando se sabe disso. não deve perder seu terrível paradoxismo ante nosso espírito o fato de que a população de uma grande urbe atual. Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma ou outra sociedade. germanos. é tão miúdo. e extinguir assim definitivamente o porvir? Um exemplo concreto deste mecanismo achamo-lo num dos fenômenos mais alarmantes destes últimos trinta anos: o aumento enorme em todos os países das forças de Polícia. As nações européias têm diante de si uma etapa de grande dificuldade em sua vida interior.mais criminoso que os tradicionais. Os estrangeiros tornaram-se donos do Estado. máquina anônima. O inevitável é que acabem por definir e decidir elas a ordem que vão impor . e. depois.têm uma Polícia admirável. a nova indústria começa a criar um tipo de homem . as massas atuam por si mesmas. O crescimento social obrigou iniludivelmente a isso. têm de viver escravo deles. é indiscutível que os resultados obtidos até o presente não podem ser comparados aos obtidos na função política e administrativa pelo Estado liberal. a estar submetido a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. "As pessoas conformam-se em se adaptar à desordem. Preferem agüentar. O andaime se torna proprietário e inquilino da casa. nada contra o Estado. A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina que é o Estado. pouco visível e nada substantivo. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road. estes não bastam para sustentar o Estado e é preciso chamar estrangeiros: primeiro.não por ele. sem remédio. Estado (70). Por muito habitual que nos seja. Como não temer que sob o império das massas se encarregue o Estado de esmagar a independência do indivíduo. Entretanto. naturalmente. Se algo conseguiu. Quando. o crime. necessita.htm (66 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pelas mesmas causas. sem que eu me permita agora julgar os detalhes de sua obra. para caminhar pacificamente e atender a seus negócios. O esqueleto come a carne que o rodeia. problemas econômicos.A rebelião das massas. considerando-a como resgate da liberdade".

O inglês quer que o Estado tenha limites. desde aquele século pode dizer-se que quem manda no mundo exerce. ao aparecermos a um tempo com ânimo de compreendê-lo.do homem e de seu espírito -. olhada por esse lado a rebelião das massas é uma e mesma coisa com a desmoralização radical da humanidade. Mas desde o século XVI entrou a humanidade toda num processo gigantesco de unificação.padeceu automaticamente a rebelião das massas. Mas o reverso do mesmo fenômeno é tremebundo. tem à sua disposição esse aparato ou file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. é a deslocação do poder. ou. Porque aqui aspira-se a evitar estupidezes. pelo menos. Ora bem: essa relação estável e normal entre homens que se chama "mando" não descansa nunca na força. Portanto. Entre estas últimas. uma de nossas primeiras perguntas deve ser esta: "Quem manda no mundo atualmente?" Poderá ocorrer que neste momento a humanidade esteja dispersa em vários pedaços sem comunicação entre si. SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV.tenho repetido uma e outra vez . Nestes casos teríamos que estabelecer nossa pergunta: "Quem manda no mundo?" a cada grupo de convivência. quase sem dúvida. o fato desta rebelião apresenta um aspecto ótimo. de coação física. mas. visitas domiciliárias. No tempo de Milcíades. à espionagem e a todas as maquinações de Fouché (71) "São duas idéias diferentes do Estado. o mundo mediterrâneo ignorava a existência do mundo extremo oriental. já o dissemos: a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o crescimento fabuloso que a vida humana experimentou em nosso tempo. Por isso. nome incolor e inexpressivo sob o qual se oculta esta realidade: época da hegemonia européia. A Europa mandava. I A substância ou índole de uma nova época histórica é resultante de variações internas . pelo menos as mais ordinárias e palmares. QUEM MANDA NO MUNDO? A civilização européia . pelo contrário. Esse tem sido o papel do grupo homogêneo formado pelos povos europeus durante três séculos. Olhemos esta agora de vários pontos de vista. Esse estilo de vida sói denominar-se "Idade Moderna". porque um homem ou grupo de homens exerce o mando. que formam mundos interiores e independentes.htm (67 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Por seu anverso. seu influxo autoritário em todo ele. progressivamente unificado.não há ilhas de humanidade -. e sob sua unidade de mando o mundo vivia com um estilo unitário. a mais importante. efetivamente. Por "mando" não se entende aqui primordialmente exercícios de poder material. que em nossos dias chegou a seu término insuperável. Já não há pedaço de humanidade que viva à parte . Mas este traz consigo uma deslocação do espírito.

idéia. e cria-se o Sacro Romano Império. Pois até quem pretende governar com os janízaros depende da opinião destes e da que tenham sobre estes os demais habitantes. vigência de certas idéias. Em suma.sempre. O Estado ou Poder público primeiro que se forma na Europa é a Igreja . outra coisa senão poder espiritual. O Estado é. máquina social que se chama "força". poltrona ministerial. O qual se funda sempre na opinião pública . cuja força de opinião fica reciprocamente anulada. sede. mas tranqüilo exercício dele. pode-se fazer tudo. na física de Newton a gravitação é a força que produz o movimento. cadeira curul. Por isso. pois. Ou acredita-se que a soberania da opinião pública foi um invento feito pelo advogado Danton em 1789 ou por S. opinião. O mando é o exercício normal da autoridade. é o que pesou sempre e a toda hora nas sociedades humanas. e então chega-se a uma fórmula que é o conhecido. banco azul. Deste modo lutam dois poderes igualmente espirituais que. Assim. Napoleão dirigiu à Espanha uma agressão. Os casos em que à primeira vista parece ser a força o fundamento do mando. no final das contas. em suma. Tomás de Aquino no século XIII? A noção desta soberania terá sido descoberta aqui ou ali. mas o fato de que a opinião pública é a força radical que nas sociedades humanas produz o fenômeno de mandar. Em suma. venerável e verídico lugar comum: não se pode mandar contrariando a opinião pública. não dá lugar a que se constitua um mando. convêm no acordo de se instalar cada um em um modo de tempo: o temporal e o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Convém distinguir entre um fato ou processo de agressão e uma situação de mando. Sire. é coisa tão antiga e perene como o próprio homem. nem a ciência histórica seria possível. o mandar não é tanto questão de punhos como de nádegas. Contra o que uma ótica inocente e folhetinesca supõe.com seu caráter específico e já nominativo de "poder espiritual" -. em definitivo. o imaterial e ultra-físico. o estado da opinião: uma situação de equilíbrio. Assim. hoje como há dez mil anos. Todo mando primitivo tem um caráter "sacro". Trono. de um espírito. sustentou esta agressão durante algum tempo. Os fatos históricos confirmam isso escrupulosamente. não podendo diferenciar-se na substância ambos são espírito -. convém ter em conta esses casos de ausência. mandar é sentar-se. E como a Natureza tem horror ao vácuo. entre os ingleses como entre os botocudos -. O que sucede é que às vezes a opinião pública não existe. E isso porque tinha a força e precisamente porque só tinha a força. A verdade é que não se manda com os janízaros. se se quer expressar com toda a precisão a lei da opinião pública como lei da gravitação histórica.htm (68 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Talleyrand a Napoleão: "Com as baionetas. de que mando não é. E a lei da opinião pública é a gravitação universal da história política. esse oco que deixa a força ausente de opinião pública enche-se com a força bruta. menos uma coisa: sentar-se sobre elas. Isso nos faz cair na conclusão de que mando significa prepotência de uma opinião. Por isso muito agudamente insinua Hume que o tema da história consiste em demonstrar como a soberania da opinião pública. porque se funda no religioso. Da Igreja aprende o Poder político que ele também não é originariamente senão poder espiritual. e o religioso é a forma primeira sob a qual aparece sempre o que depois vai ser espírito. portanto. de estática. avança esta como substituta daquela. longe de ser uma aspiração utópica. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes. revelam-se ante uma inspeção ulterior como os melhores exemplos para confirmar aquela tese.A rebelião das massas. Sem ela." E mandar não é atitude de arrebatar o poder. Jamais alguém mandou na terra nutrindo seu mando essencialmente de outra coisa que não fosse a opinião pública. nesta ou naquela data. Na Idade Média se reproduz com formato maior o mesmo fenômeno. mas não mandou propriamente na Espanha nem um dia sequer.

Mas. se repugna. opina-se pouco. se odeia. e é preciso que esta lhe venha de fora a pressão. propósitos. como na Moderna. portanto. nada menos que uma mudança de gravitação histórica. agora.opine. como entra o lubrificante nas máquinas. consequentemente. Quando ao ver chegar nosso amigo pela vereda do jardim dizemos: "Este é Pedro». a vida dos homens careceria de arquitetura. de organicidade. Com ele. enquanto o outro é espírito de eternidade . Nestas jornadas de após-guerra começa a dizer-se que a Europa não manda mais no mundo. toda deslocação de poder.A rebelião das massas. um erro. dizer: em tal data manda tal homem. É o que aconteceu em todas as idades médias da história. infinidade de coisas. Durante vários séculos mandou no mundo a Europa. se anseia. como dizer: em tal data predomina no mundo tal sistema de opiniões . Para onde se dirige? Quem vai suceder a Europa no mando do mundo? Mas há mesmo certeza de que alguém vai suceder à Europa? E se não fosse ninguém. Mas assim como é impossível conhecer diretamente a plenitude do real. toda mudança de imperantes.htm (69 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . aspirações. e tudo isso em grande escala. embora sobre uma porção limitada do mundo: Roma. olhamos depois a efetiva realidade.seja qual seja . e.e é a maioria . um conceito ou entretecido de conceitos. para que a gente que não opina . Mais ainda: nisto consiste todo uso do intelecto. só então. Por isso. A pretensão de dizer o que é que acontece agora no mundo deve ser entendida. supor que as coisas são de certa maneira. sem um poder espiritual. como através de uma quadrícula. mas um é espírito do tempo opinião pública intramundana e cambiante -. a convivência humana seria o caos. São tempos em que se ama.o que chamamos "caráter" -. Mas nos grandes tempos a humanidade vive da opinião. conseguimos uma visão aproximada dela. reina na humanidade o caos. Sem opiniões. Por isso representam sempre um relativo caos e uma relativa barbárie. preferências. em compensação. Adverte-se toda a gravidade deste diagnóstico? Com ele anuncia-se uma deslocação do poder. e. Sem opiniões. e por isso há ordem.a opinião de Deus. Isto nos proporciona um esquema. e a pura verdade é que nosso file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. cometemos deliberadamente. sem alguém que mande. ironicamente. como ironizando-se a si mesma. e então. Nisto consiste o método científico. que aconteceria? II A pura verdade é que no mundo acontece a todo instante. a que Deus tem sobre o homem e seus destinos. e na medida que isso seja necessário. pois. não temos mais remédio senão construir arbitrariamente uma realidade. Porque Pedro significa para nós um esquemático repertório de modos de se comportar física e moralmente . Ela pôs ordem no Mediterrâneo e confinantes. um conglomerado de povos com um espírito afim.tenha poder e o exerça. Tempos assim não carecem de delícias.idéias. Do outro lado da Idade Média achamos novamente uma época em que. E paralelamente. Poder temporal e poder religioso são identicamente espirituais. Por isso é preciso que o espírito . manda alguém. Tanto vale. Na Idade Média não mandava ninguém no mundo temporal. um déficit de opinião. a grande mandona. é ao mesmo uma mudança de opiniões. Voltemos agora ao começo. quer dizer. tal povo ou tal grupo homogêneo de povos. Como há de se entender este predomínio? A maior parte dos homens não têm opinião. eterno. menos ainda: o nada histórico. pois.

admitindo que são A e B.htm (70 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mas que resume o que um homem pode fazer com essa coisa ou padecer dela. o conceito. sintoma ou anedota disso. condição. assim. sem reservas. Porque o grego acreditou haver descoberto na razão. queira-se ou não. no conceito.entende-se. sustentada por ninguém. Tampouco estão certos disso. amigo Pedro não se parece. acreditamos que a razão. a realidade mesma. ou padecimento possível de um homem. contrariamente. esta coisa não é A. em quase nada à idéia "nosso amigo Pedro". Eu não disse que a Europa tenha deixado de mandar. é um instrumento doméstico do homem. é sem dúvida e no melhor caso uma exageração. à valentona. acha-se que não nos diz nada da coisa mesma. Ele diz muito seriamente: "Esta coisa é A. se revisamos a sua luz todo o passado da filosofia até Kant. e o êxito de seu livro deveu-se. nem a outra é B. Por isso. todo descobrimento filosófico não é mais que um descobrimento e um trazer à superfície o que estava no fundo. com os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. todo o mundo falava disso.é exclusivamente isto: durante três séculos a Europa mandou no mundo. eu me entendo comigo mesmo para os efeitos de meu comportamento vital diante de uma ou de outra coisa. e nesta duplicidade consiste a ironia. Eu suplico fervorosamente que não se continue cometendo a ingenuidade de pensar em Spengler simplesmente porque se fale da decadência da Europa ou do Ocidente. Reduzir a fórmula tão simples a infinitude de coisas que integram a realidade histórica atual. tão alheio a problemas filosóficos. Todo conceito. Os conceitos são o plano estratégico que nos formamos para responder a seu ataque. o histórico . não foi até agora. É a seriedade instável de quem engoliu uma gargalhada e se não aperta bem os lábios a vomita. a que tal suspeita ou preocupação preexistia em todas as cabeças. como o geométrico diamante vai implícito na dentadura de ouro de seu engaste.A rebelião das massas. vai incluso na ironia de si mesmo. que nestes anos a Europa sente graves dúvidas sobre se manda ou não. mas é. Mas semelhante intróito é desmesurado para o que vou dizer. O que o conceito pensa a rigor é um pouco outra coisa que o que diz. o término indefectível do processo filosófico que se inicia com Kant. o mais vulgar como o mais técnico. com efeito. e eu necessitava por isso recordar que pensar é. a meu juízo. como é notório. e agora a Europa não está convicta de mandar nem de continuar mandando. que este necessita e usa para esclarecer sua própria situação em meio da infinita e arqui-problemática realidade que é sua vida. mas. Falou-se muito nestes anos da decadência da Europa. e que tudo o mais é conseqüência. é sempre ação possível. que é aquilo que realmente está acontecendo no mundo. Quem prefira não exagerar deve calar-se. sobre se amanhã mandará. O que verdadeiramente pensa é isto: eu sei que." Mas é a sua a seriedade de um pince-sans-rire. mas. Ora bem. em certos momentos. Creio. que eu saiba. Vida é luta com as coisas para sustentar-se entre elas. nos entredentes de um sorriso tranqüilo. estritamente. Esta opinião taxativa. segundo a qual o conteúdo de todo conceito é sempre vital. Por isso. Ele sabe muito bem que nem esta coisa é A. exagerar. Esta teoria do conhecimento da razão houvera irritado a um grego. Antes de que seu livro aparecera. se se escruta bem a entranha última de qualquer conceito. falando com todo rigor. Eu ia dizer simplesmente que o que agora acontece no mundo . A isto corresponde nos demais povos da Terra um estado de espírito congruente: duvidar de se agora são mandados por alguém. nem aquela B. mais ainda: tem de paralisar seu intelecto e ver a maneira de idiotizar-se. parecer-nos-á que no fundo todos os filósofos disseram a mesma coisa. e esta outra coisa é B. Nós.

Na escola. Esta é a primeira conseqüência que sobrevem quando no mundo deixa de mandar alguém: que os demais. consequentemente só pode executar uma só coisa: a cabriola. dando-se ares de pessoa maior que rege seus próprios destinos. Toma-a como um bonde. embora não recordem sinceramente haver-se convencido resolutamente disso em nenhuma data determinada. entesa-se. O recente livro de Waldo Frank. É deplorável o frívolo espetáculo que os povos menores oferecem. se põe na ponta dos pés a increpar a Europa e declarar sua cessação na história universal. ao rebelar-se. É verdadeiramente cômico contemplar como esta ou a outra republiqueta. sem programa de vida. não sabem o que fazer. de modo algum. minorias de estirpes humanas que organizaram a história. E como ele fazem muitas pessoas. de ficar de cabeça para baixo. longe disso. desde seu perdido rincão. povos inteiros. uma ocupação formal. definitivas enquanto não existam ou se divisem outras. mas que se habituaram a dá-lo como certo. a turba parvular não tem um afazer próprio. Nos capítulos anteriores tentei filiar um novo tipo do homem que hoje predomina no mundo: chamei-o homem-massa. uma tarefa com sentido. Cada um sente a delícia de evadir-se da pressão que a presença do mestre impunha. e fiz notar que sua principal característica consiste em que. sentindo-se vulgar. que lhe vai servir de formidável premissa. de sentir-se dono do próprio destino. os povos-massa resolveram dar como caduco aquele sistema de normas que é a civilização européia. que muitos chegaram a dá-la como um fato. o fenômeno também se produza quando olhamos o conjunto das nações. Falou-se tanto da decadência européia. as melhores possíveis. ficam sem tarefa. Os lugares comuns são os bondes do transporte intelectual. fazem-no os povos. Também há. cada nação e naçãozinha brinca. apoia-se integralmente no suposto de que a Europa agoniza. quando alguém notifica que o mestre saiu. E uma paisagem de exemplar puerilidade a que agora oferece o mundo. parte dele como de algo inconcusso. Mas. Mas são. Não que acreditavam a sério e com evidência nele. Ora. E esta ingenuidade no ponto de partida basta-me para pensar que Frank não está convencido da decadência da Europa. deixa de mandar. e para encher o tempo entregam-se à cabriola. como tirada a norma que fixava as ocupações e as tarefas. a Europa decai e. À vista de que. nem sequer levantou tal questão. gesticula. Sem mais averiguações. relativamente. sentidos e pelas razões mais heterogêneas. Daí o vibriônico panorama de "nacionalismos" que se nos oferece por toda a parte. nem faz questão de tão enorme fato. portanto. Frank nem analisa nem discute. segundo se diz.A rebelião das massas. Qual é o resultado? A Europa havia criado um sistema de normas cuja eficácia e fertilidade os séculos demonstraram. sem dúvida. proclama o direito à vulgaridade e nega-se a reconhecer instâncias superiores a ele. Estas normas não são. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Sobretudo. povos-massa resolvidos a rebelar-se contra os grandes povos criadores. de sacudir os jugos das normas. Era natural que se esse modo de ser predomina dentro de cada povo. a turba parvular faz bagunça. Não obstante. continuidade e trajetória. Redescobrimento da América. mas como são incapazes de criar outro. Para superá-las é imprescindível parir outras.htm (71 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . fica de cabeça para baixo.

Dentro de pouco ouvir-se-á um grito formidável em todo o planeta. as pessoas . precavido. desolação. Os decálogos conservam do tempo em que eram inscritos sobre pedra ou bronze seu caráter de pesadume. Não se trata de que . com inconsciência de crianças. não é de estranhar que o mundo se desmoralize. sentem-se vazias. como uivo de cães inumeráveis. III O cigano foi se confessar. esses três povos estão em decadência e seu programa de vida perdeu validez. Vá isto dito para os que. Esta é a horrível situação íntima em que se encontram já as juventudes melhores do mundo. a qual sói ser vacância. A rigor. Na região do globo que elas ocupam amadureceu o módulo de existência humana conforme ao qual foi organizado o mundo. impedir sua extravagância. Não é essa a situação presente do mundo? Corre o zum-zum de que não vigorem mais os mandamentos europeus. Nova York e Moscou não são nada novo com respeito à Europa. causa file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.é cumprir um encargo -. Todo o mundo . pedindo alguém e algo que mande. como agora se diz. Inglaterra. metê-las em seu destino. não seríamos velhos ou levaríamos mais tempo a sê-lo. e aproveitam com ar festivo este tempo de pesados imperativos. mas depois ouvi um zum-zum de que tinha perdido o valor". Se não tivéssemos filhos. indivíduos . perderam seu sentido. Mas o que agora acontece na Europa é coisa insalubre e estranha.deixa de mandar.homens e povos . antes de tudo e propriamente. sem remissão. Porque viver é ter que fazer algo determinado . que imponha um afazer ou obrigação. começou por interrogá-lo sobre os mandamentos de Deus. seu padre. e na medida em que iludamos pôr em algo nossa existência desocupamos nossa vida. Os inferiores pensam que lhes tiraram um peso de cima. São um e outro duas parcelas do mandamento europeu que. nos anunciam que a Europa já não manda. Uma vida em disponibilidade é maior negação que a morte. Mandar é dar ocupação às gentes. Mas a festa dura pouco. que subirá. a trindade França. que apenas com sua novidade avantaja-se de repente ao preexistente. Se.htm (72 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A Europa . Isso seria o admitido. ao dissociar-se do resto. fica nossa vida em pura disponibilidade. Por Europa entende-se.A rebelião das massas. A mesma coisa acontece com os artefatos. esta desmoralização diverte e até vagamente ilude.nações. Um automóvel envelhece em dez anos mais do que uma locomotiva em vinte. Porque existiam só os europeus. De puro sentir-se livres. Os mandamentos europeus perderam vigência sem que se vislumbrem outros no horizonte. e em vista disso. eu ia aprender isso. mas o padre. mas porque já está aí um princípio novo. Ao que o cigano respondeu: "Olhe aqui. Mas não há sombra de tal. até as estrelas. Durante uma temporada. Não importaria que a Europa deixasse de mandar se houvesse alguém capaz de substituí-la.aproveitam a ocasião para viver sem imperativos. Sem mandamentos que nos obriguem a viver de um certo modo. Quem manda é. vida vazia. E esta é a pura verdade. e não se vê quem possa substituí-la. Os inferiores do mundo inteiro já estão fartos de que os encarreguem e sobrecarreguem.como outras vezes aconteceu uma germinação de normas novas substitui as antigas e um fervor novíssimo absorva em seu fogo jovem os velhos entusiasmos de minguante temperatura. quem tem o encargo. A etimologia de mandar significa carregar. Alemanha. Mais ainda: o velho advém velho não por sua senectude. pôr em alguém algo nas mãos. em seu eixo.está desmoralizado. Esta descendência oriunda do broto de novas juventudes é um sintoma de saúde. simplesmente porque os inventos da técnica automobilística têm ocorrido com mais rapidez.diz-se . isentas de entraves.

Agora vão começar suas angústias. os Estados Unidos significam também um caso dessa específica realidade histórica que chamamos "povo novo". quer dizer. cujas águas estavam impregnadas de civilização greco-oriental. Ambos. e suas atitudes têm um sentido claro e direto. Em última instância reduz-se a este: a técnica. disfarçam-se na idéia que esta lhes oferece.A rebelião das massas. Mas a América não faz com isso senão começar sua história. efetiva. substancial. Daí que para entender as camouflages seja mister também um olhar oblíquo: o de quem traduz um texto com um dicionário ao lado. Porque lhe sobra juventude bastou-lhe essa ficção. A Rússia é marxista aproximadamente como eram romanos os tudescos do Sacro Império Romano.por exemplo. uma repristinação ou rejuvenescimento de raças antigas. outra. que a camouflage existe. sobretudo da Europa.que há dois grandes tipos de evolução para um povo. Eu espero um livro em que o marxismo de Stalin apareça traduzido à história da Rússia.o marxismo . Quem faz um gesto aprendido . Assim Roma.o que importa muito mais . Supõe-se que isso seja uma frase.faz por baixo dele o seu gesto. Coisa muito semelhante acontece com Nova York. e não o que tem de comunista. Porque carece ainda de mandamentos necessitou fingir sua adesão ao princípio europeu de Marx. um vocábulo de outro idioma . Aqui está a camouflage e sua razão. o autêntico. por exemplo. aparente. alcança-se o bastante para compreender seu caráter genérico. não só diferente como matéria étnica do europeu. Um povo ainda em fermento. Em todo fato de camouflage histórica há duas realidades que se superpõem: uma. Em virtude de razões diferentes da Rússia. juvenil. acidental e de superfície. Também é um erro atribuir sua força atual aos mandamentos a que obedece. Porque isso. Só se pode livrar da equivocação que produz a camouflage quem saiba de antemão. é o que tem de forte. mas . Por isso engana a maior parte das pessoas. como sempre as colônias. suas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O conceito corrige os olhos. Que casualidade! Os séculos em que a América nasce. Exemplo: o egípcio ou o chinês. é sempre dupla. Debaixo dela há um povo. E a atitude aprendida. Os povos novos não têm idéias. Mas ainda sem saber plenamente o que são. pertencem de cheio ao que algumas vezes chamei "fenômenos de camouflage histórica". mas oblíqua. Quando crescem num âmbito onde existe ou acaba de existir uma velha cultura. recebida. Daqui que a metade das atitudes romanas não sejam suas. A mesma coisa acontece com o espelhismo.htm (73 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . em vez de declarar. sua substância. Seu aspecto oculta.pensadas na Europa em vista de realidades e problemas europeus. que cresce em pleno Mediterrâneo. mas aprendidas. traduz a sua própria linguagem o vocábulo exótico. quando é uma coisa tão efetiva como a juventude de um homem. profunda. Assim. Num povo assim. Há o povo que nasce em um "mundo" vazio de toda civilização. não americano.de uma idade diferente da nossa. Porque não se sabe com plenitude o que são: só se sabe que nem sobre um nem sobre outro se disseram palavras decisivas. Mas há outros povos que germinam e se desenvolvem num âmbito ocupado já por uma cultura de história anosa. só necessita de pretextos. tudo é autóctone. e sua verdadeira significação não é direta. Que o marxismo tenha triunfado na Rússia . O jovem não necessita de razões para viver. com efeito.onde não há indústria . Esquece-se . o que tem de russo. horror falar de Nova York e de Moscou. A América é forte por sua juventude. e em geral.como notei várias vezes . como podia haver-se posto a serviço do budismo se este fosse a ordem do dia. em Moscou há uma película de idéias européias . Vá lá saber o que será! O único que cabe afirmar é que a Rússia necessita de séculos ainda para optar ao mando. Mas não há tal contradição. Que casualidade! Outro invento europeu. A camouflage é. A técnica é inventada pela Europa durante os séculos XVIII e XIX. porque não há tal triunfo. por essência. uma realidade que não é a que parece.seria a contradição maior que podia sobrevir ao marxismo. E a sério nos dizem que a essência da América é sua concepção praticista e técnica da vida! Em vez de nos dizer: A América é. que se pôs a serviço do mandamento contemporâneo "técnica".

Mas faria ver a enorme dose de desmoralização íntima. o indivíduo opta por adaptar-se ao indevido. Em um mecanismo parecido ao que o adágio popular enuncia quando diz: "Uma mentira faz cento". Fora interessante e até útil submeter a este exame o caráter individual do espanhol médio. a pluralidade européia substituída por uma formal unidade? IV A função de mandar e obedecer é a decisiva em toda sociedade. nada de estranho em que bastasse uma ligeira dúvida. oriundas dos deslocamentos e crises do imperar. abdique? Não será esta aparente decadência a crise benfeitora que permita à Europa ser literalmente Europa? A evidente decadência das nações européias. o declara francamente. e que. de algo que enquanto se aceita continua parecendo indevido. talvez permanecesse intacto de tais repercussões.htm (74 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . em seu Redescobrimento da América. Como ande nesta turvação a questão de quem manda e quem obedece. Ainda tem de ser muitas coisas. com medo de exagerar. enfadonha. Enquanto isso persistir em nosso país. cujo império ou mando. ficará perturbada e falsificada. Agora Waldo Frank. por isso a evito. Até a mais íntima intimidade de cada indivíduo. mas um forte instinto lhes fez concentrar ao ponto suas energias e expelir aquela irregular pretensão de mando. Não há. sustentei que era um povo primitivo camuflado pelos últimos inventos (72). seus conflitos. como é social em sua mais elementar estrutura. salvas geniais exceções. A operação seria. Se o homem fosse um ser solitário que acidentalmente se acha travado em convivência com outros. cabe coligir sem mais dados como anda em seu país a consciência de mando e obediência. é constitutivamente fraudulento. do Poder. Mas o espanhol fez o contrário: em vez de opor-se a ser imperado por quem sua íntima consciência rechaçava. não obstante. é vão esperar nada dos homens de nossa raça. e. A América ainda não sofreu. embora útil. fazendo-se totalmente homogêneo com o crime ou irregularidade que arrasta. O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação como estado habitual e constituído de uma irregularidade. deprimente. A América conta menos anos que a Rússia. preferiu falsificar todo o resto de seu ser para o acomodar àquela fraude inicial. o mundo histórico volta ao caos. pois. Rechaçaram a irregularidade transitória e reconstituíram assim sua moral pública. é ilusório pensar que possa possuir as virtudes do mando. tem de retroceder ao ponto de partida e perguntar-se a sério: É tão certo como se diz que a Europa está em decadência e resigne o mandato. Como não é possível converter em sã normalidade o que em sua essência é criminoso e anormal. Não pode ter vigor elástico para a difícil faina de sustentar-se com decoro na história uma sociedade cujo Estado. portanto. Quem evite cair na conseqüência pessimista de que ninguém vai mandar. uma simples vacilação sobre file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Daí que se tomamos à parte um indivíduo e o analisamos. dissenções. Todas as nações atravessaram jornadas em que aspirou a mandar sobre elas quem não devia mandar. não era a priori necessária se algum dia haviam de ser possível os Estados Unidos da Europa. Eu sempre. algumas as mais opostas à técnica e ao praticismo. fica transtornado em sua índole privada por mutações que a rigor só afetam imediatamente à coletividade. Mas.A rebelião das massas. entre elas. tudo o mais marchará impura e torpemente. de acanalhamento que no homem médio do nosso país produz o fato de ser a Espanha uma nação que vive há séculos com uma consciência suja na questão de mando e obediência.

vazia. Estes anos assistimos ao gigantesco espetáculo de inumeráveis vidas humanas que marcham perdidas no labirinto de si mesmas por não ter a que se entregar. Se fosse isto só. com freqüência o perguntado deixa o caminho que leva e generosamente se sacrifica pelo estranho. Mas nunca ao ouvi-lo ou lê-lo pude reprimir este receio: é que o compatriota perguntado ia de fato a alguma parte? Porque poderia ocorrer muito bem que. Compreende-se. o europeu fechou-se em seu interior. sem tensão e sem "forma". que só a mim me importa. Depois da guerra. mas inexorável. e ninguém. viver é algo que cada qual faz por si e para si. para que todo o mundo . em muitos casos. no final das contas.A rebelião das massas. Trata-se de uma condição estranha. Mas não consiste só nisso. Não é tão fácil como se crê ser puro egoísta. quem manda no mundo. não é a minha vida. sincero. Por isso continuamos historicamente como há dez anos. sem ter o que fazer. Livrada a si mesma. pois cada vida fica em absoluta franquia para fazer o que lhe der na vontade. E o que se lhe manda é.como dos homens . Por um lado. Quando de verdade se vai fazer algo e nos entregamos a um projeto. que se perde em si mesmo. Não se manda em seco. que participe em uma empresa. O mando consiste em uma pressão que se exerce sobre os demais. A Europa afrouxou sua pressão sobre o mundo. precisamente sem um plano de vida imperial. inscrita em nossa existência. de tanto não ser mais que caminhar por dentro de si. se essa vida minha. Viver é ir arrojado para alguma direção. e me alegro que o estrangeiro interprete assim sua conduta. tem de estar posta em algo. que nada íntimo. os carreiros têm o que fazer. cada vida fica sem si mesma. oposta à primeira. por sua natureza própria. em uma empresa gloriosa ou humilde. Se resolvo andar só por dentro de minha vida. E como há de se encher com algo. Parece que a situação devia ser ideal. mais além.em sua vida pública e em sua vida privada . inventa-se ou finge frivolamente a si mesma. Hoje é uma coisa. pois.uma inspiração puramente egoísta. sendo-o. o espanhol não está file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. embarcar na opinião trivial que crê ver na atuação dos grandes povos . O egoísmo aparente dos grandes povos e dos grandes homens é a dureza inevitável com que se deve comportar quem tem sua vida posta em uma empresa. amanhã. é caminhar para uma meta. não vou a parte alguma. ficou sem empresa para si e para os demais. um caminho que não leva a nada. mas manda-se-lhe algo. em um grande destino histórico. não se nos pode pedir que estejamos em disponibilidade para atender aos transeuntes e que nos dediquemos a pequenos altruísmos ocasionais. Por isso não há império sem programa de vida. dedica-se a falsas ocupações.haja começado a desmoralizar-se. conduzindo-o ao lugar que a este interessa. em um destino ilustre ou trivial. Mas o resultado foi contrário ao que se poderia esperar. seria violência. A vida humana. não avanço. Como diz o verso de Schiller: Quando os reis constróem. Não convém. Não se esqueça que mandar tem duplo efeito: manda-se em alguém. Por outro lado. Está perdida ao encontrar-se só consigo. caminhará desvencilhada. Eu não nego que possa haver nesta índole do bom celtibero algum fator de generosidade.htm (75 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Sucede o mesmo a cada povo. impõe. A meta não é o meu caminhar. Isto é o labirinto. egoisticamente. outra. triunfou jamais. para vagar a si mesma. Todos os imperativos. O egoísmo é labiríntico. dou voltas e mais voltas em um mesmo lugar. Uma das coisas que mais encantam os viajantes quando cruzam a Espanha é que se perguntam a alguém na rua onde fica uma praça ou edifício. não é entregue por mim a algo. é algo a que ponho esta e que por isso mesmo está fora dela. todas as ordens ficaram em suspenso.

se isso não trouxesse consigo a volatilização de todas as virtudes e de todos os dotes do homem europeu. V Convém que agora retrocedamos ao ponto de partida destes artigos: ao fato. Não é que diga: se o europeu não há de mandar no futuro próximo. Em muitos casos consta-me que meus compatriotas saem à rua para ver se encontram algum forasteiro a quem acompanhar. ocorreu a alguns homens da Alemanha. oco. bastarão geração e meia para que o velho continente. Grave é que esta dúvida sobre o mando do mundo. Mas é muito mais grave que este piétenement sur place chegue a desmoralizar por completo o europeu mesmo. Se o europeu se habitua a não mandar. A vida criadora supõe um regime de alta higiene. ou mando ou obedeço. na esterilidade intelectual e na barbárie omnímoda. Só a ilusão do império e a disciplina de responsabilidade que ela inspira podem manter em tensão as almas do Ocidente. Não penso assim porque eu seja europeu ou coisa parecida. Não sabe. com file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.mas. não me interessa a vida do mundo. da Inglaterra. à captura de grandes idéias. formulista. situando-se com fervor sob o drapejar de sua bandeira. Mas nem sequer isso pediria. O europeu se fará definitivamente cotidiano. audazes. no hábito. solidarizando-se com ele. esta sugestiva idéia: Não será que começamos a decair? A idéia teve boa Imprensa. fora do velho continente. de que no mundo se fale estes anos tanto sobre a decadência da Europa. sai à vida para ver se as dos outros enchem um pouco a sua. da França. Mas obedecer não é agüentar agüentar é envilecer-se . não tem projeto nem missão. a arte. Ora bem. isso é irremissível. recairá sempre no ontem. Mas detende ao que a enunciar com um leve gesto e perguntai-lhe em que fenômenos concretos e evidentes funda seu diagnóstico. pelo contrário. e esta só é possível em uma destas situações: ou sendo quem manda ou achando-se alojado em um mundo onde manda alguém a quem reconhecemos pleno direito para tal função. Aceitaria que não mandasse ninguém. Quando ninguém.htm (76 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .A rebelião das massas. como os gregos da decadência e como os de toda a história bizantina. pelo contrário. que excitam a consciência da dignidade. na rotina. a técnica e tudo o mais vivem da atmosfera tônica que cria a consciência de mando. Prontamente vereis a pessoa fazer vagos ademanes e praticar essa agitação de braços para a rotundidade do universo que é característica de todo náufrago. Incapaz de esforço criador e luxuoso. novas em toda ordem. exercido até agora pela Europa. de constantes estímulos. e hoje todo o mundo fala da decadência européia como de uma realidade inconcussa. mas que o descobrimento dela se deva aos europeus mesmos. de grande decoro. salvo aqueles que por sua juventude estão ainda em sua pré-história. tão curioso. Já não terão as mentes essa fé radical em si mesmas que as lança enérgicas. A vida criadora é vida enérgica. tenazes. tenha desmoralizado o resto dos povos. caía na inércia moral. e atrás dele o mundo todo. Nada me importaria a cessação do mando europeu se existisse hoje outro grupo de povos capaz de substitui-lo no Poder e na direção do planeta. Tornar-se-á vulgar. pensava nisso. fazendo nada. o europeu se irá envilecendo. Já é surpreendente o detalhe de que esta decadência não tenha sido notada primeiramente pelos estranhos. estimar quem manda e acompanhá-lo. A ciência. Se falta esta.

A meu ver. e preferiria. A única coisa que sem grandes precisões aparece quando se quer definir a atual decadência européia. Não se analisou ainda a fundo a estranhíssima questão de por que anda tão em agonia a vida política de todas as grandes nações. de que sentindo-se com mais potencialidade do que nunca. todas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que a depressão indiscutível de seus ânimos não provém de que se sintam pouco capazes. nem sequer que existam perfis utópicos de outras formas de Estado que. a propósito do Parlamento. é o conjunto de dificuldades econômicas que encontra hoje diante de cada uma das nações européias. da Inglaterra ou da França sente-se hoje afogado nos limites de sua nação. Faltam programas de tamanho congruente com as dimensões efetivas que a vida chegou a ter dentro de cada indivíduo europeu. Diz-se que as instituições democráticas caíram em desprestígio. a que se agarrar. com as pequenas nações em que até agora vivia organizada a Europa. o alemão ou o inglês não se sentem hoje capazes de produzir mais e melhor que nunca? Em modo algum. na vida intelectual. Por exemplo. mas em que na forma da vida pública em que se haviam de mover as capacidades econômicas é incongruente como o tamanho destas. francesa. Porque é um desprestígio estranho.htm (77 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . de impotência que abruma inegavelmente estes anos à vitalidade européia. porventura.A rebelião das massas. Essas fronteiras fatais da economia atual alemã. o homem de letras parisiense começa a compreender que está esgotada a tradição de mandarinismo literário. Todo bom intelectual da Alemanha. inglesa. sente sua nacionalidade como uma limitação absoluta. É que. cujos fatores são em aparência tão diferentes do econômico. as que vão mal na Europa. efeito. Fala-se mal do Parlamento em toda a parte. são as fronteiras políticas dos Estados respectivos. ao menos idealmente. por exemplo. Existe toda uma série de objeções válidas ao modo de conduzir-se os Parlamentos tradicionais. Não há. mas se se tomam uma a uma. Há aqui um erro de ótica que convém corrigir de uma vez para sempre. O arranco para resolver as graves questões urgentes é tão vigoroso como quando mais o tenha sido. vê-se que nem uma delas permite a conclusão de que deve suprimir-se o Parlamento. e sente falta da superior liberdade de expressão que desfrutam o escritor francês ou o ensaísta inglês. mas pelo contrário. A prova disso é que a combinação se repete em todas as demais ordens. Na ordem da política interior acontece a mesma coisa. mas. tropecem com certas barreiras fatais que os impedem de realizar o que muito bem poderiam. mas não se vê que em nem uma das que contam se intente sua substituição. Vice-versa. Mas quando se vai precisar um pouco o caráter dessas dificuldades. integrá-la com algumas virtudes do professor alemão. A dificuldade autêntica não radica. pareçam preferíveis. mas tropeça no mesmo instante com as reduzidas jaulas em que está alojado. conservando as melhores qualidades dessa tradição. a sensação de menoscabo. O pessimismo. nutre-se dessa desproporção entre o tamanho da potencialidade européia atual e o formato da organização política em que tem de atuar. neste ou no outro problema econômico que esteja levantado. O professor alemão já viu claro que é absurdo o estilo de produção a que o obriga seu público imediato de professores alemães. em quanto instrumento de vida pública. a que o condena sua proveniência francesa. porque enfara escutar as inépcias que a toda hora se diz. Não são as instituições. adverte-se que nenhuma delas afeta seriamente o poder de criação da riqueza e que o velho continente passou por uma crise muito mais grave nesta ordem. que crer muito na autenticidade deste aparente desprestígio. o desânimo que hoje pesa sobre a alma continental parece-me muito ao da ave de asa larga que ao bater os remígios se fere contra as grades da jaula. de verbal formalismo. pois. precisamente. Mas isso é justamente o que conviria explicar. mas as tarefas em que empregá-las. pois. pelo contrário. Pois o curioso é. e importa muito filiar o estado de espírito desse alemão ou desse inglês nesta dimensão do econômico.

Procede de que o europeu não sabe em que empregá-los. porque antes o inglês.A rebelião das massas. Mais valia recordar que jamais instituição alguma criou na história Estados mais formidáveis. se em nenhum país está hoje claro. seu estilo vital . a fabricação de automóveis. o francês e o alemão acreditavam. Porque do contrário. alheia de todo a eles no que diz respeito a utensílios políticos. nem ainda teoricamente. intelectuais. que eram o universo. Este é. Nós devemos então perguntar: Para que não é eficaz? Porque a eficácia é a virtude que um utensílio tem para produzir uma finalidade. O automóvel é invento puramente europeu. E então descobriu que ser inglês. a ser esta: seu magnífico e longo passado a faz chegar file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. com que é "menos" que antes. para fazê-las "ainda mais" eficazes. Pela primeira vez. pois.quer dizer. parece-me. sente que aqueles . que não é eficaz. a autêntica origem dessa impressão de decadência que achaca o europeu. hoje é superior a fabricação norte-americana desse artefato. Ora bem: o melhor que humanamente pode dizer-se de algo é que necessita ser reformado. mas apenasmente de que a fábrica americana pode oferecer seu produto sem dificuldade alguma a cento e vinte milhões de homens. Por isso exigimos de quem proclama a ineficácia dos Parlamentos que ele possua uma idéia clara de qual é a solução dos problemas públicos atuais. Fala-se. Não se confunda. Todavia. porque o irrespeitável não são estas. na maior parte dos países.de automóveis sabe muito bem que a superioridade do produto americano não procede de nenhuma virtude específica usufruída pelo homem de ultramar. Imagine-se que uma fábrica européia visse ante si uma área mercantil formada por todos os Estados europeus e suas colônias e seus protetorados. dentro da qual já não cabe. tome-se qualquer atividade concreta: por exemplo. portanto. O desprestígio dos Parlamentos não tem nada que ver com seus notórios defeitos. Para dar ao dito um apoio plástico que o sustente. mais eficientes que os Estados parlamentares do século XIX. não tem sentido acusar de ineficácia os instrumentos institucionais. Todas as graças peculiares da técnica americana são quase positivamente efeitos e não causas da amplitude e homogeneidade de seu mercado. de que não estima as finalidades da vida pública tradicional. por exemplo.são incomensuráveis com o tamanho do corpo coletivo em que está encerrado. A "racionalização" da indústria é conseqüência automática de seu tamanho. O automóvel atual saiu das objeções que se opuseram ao automóvel de 1910. o que se vê é que o cidadão. Portanto. o fabricante europeu . A situação autêntica da Europa viria.industrial e técnico . suas possibilidades de vida. em suma. Conseqüência: o automóvel europeu está em decadência. Neste caso a finalidade seria a solução dos problemas públicos em cada nação. seria inútil substituir o detalhe de suas instituições. não sente respeito a seu Estado. Deparou-se. porque isso implica que é imprescindível e que é capaz de nova vida. já que a presunção de haver minguado nasce precisamente de que cresceu sua capacidade e tropeça com uma organização antiga. de que não sente ilusão pelos Estados nacionais em que está inscrito e prisioneiro. com os limites de sua nação. levam por via direta e evidente à necessidade de reformá-lo. com declarar sua inutilidade. a possibilidade e a urgência de reformar profundamente as Assembléias legislativas. em que consiste o que há que fazer. cada qual por si. pois. uma origem puramente íntima e paradoxal. Se se olha com um pouco de cuidado esse famoso desprestígio. que se ananicou. Procede de outra causa. mas o Estado mesmo. O fato é tão indiscutível que esquecê-lo demonstra franca estupidez. alemão ou francês é ser provinciano. ao tropeçar o europeu em seus projetos econômicos. Mas a desestima vulgar em que caiu o Parlamento não procede dessas objeções.htm (78 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Entretanto. Ninguém duvida de que esse automóvel previsto para quinhentos ou seiscentos milhões de homens seria muito melhor e mais barato que o "Ford". políticos.

ou ficará prisioneira para sempre delas? Porque já ocorreu uma vez na história que uma grande civilização morreu por não poder substituir sua idéia tradicional de Estado. A Europa fez-se em forma de pequenas nações. da "natureza". É este o esquema do drama enorme que se representará nos anos vindouros. ao passo que a abelha vermelha só existe em enxame construtor de favos (74). igual às covas que existem no campo. A praça. errabundo. mercê dos muros que a balizam. de poleis. mas às vezes as estruturas sobreviventes desse passado são anãs e impedem a atual expansão. Saberá libertar-se de sobrevivências. deixa estes fora e cria um âmbito à parte puramente humano. nem sequer está claro o nexo étnico entre aqueles povos proto-históricos e essas estranhas comunidades. fica arcano. que são misteres privados e familiares. para delimitar seu contorno. em que o homem se liberta de toda comunidade com a planta e o animal. a um novo estádio de vida onde tudo cresceu. Gregos e latinos aparecem na história alojados. ao brotar da cidade. A polis não é primordialmente um conjunto de casas habitáveis. Mas o trânsito desta pré-história.. um espaço sui generis. Este é um fato que nestas páginas necessitamos tomar como absoluto e de gênese misteriosa. Este campo menor e rebelde. portanto. é campo abolido. Por isso Sócrates. com efeito. sente e quer conserva a modorra inconsciente em que vive a planta. um "interior" fechado por cima. VI Contei em outro lugar a paixão e morte do mundo greco-romano. Mas o greco-romano decide separar-se do campo. mas para discutir sobre a coisa pública. um fato de que há que partir tal como o zoólogo parte do dado bruto e inexplicado de que o sphex vive solitário. e. Em certo modo. o ágora. As grandes civilizações asiáticas e africanas foram neste sentido grandes vegetações antropomorfas. é um pedaço de campo que volta costas ao resto. muito mais nova que o espaço de Einstein. reporto-me ao que ali disse (73).htm (79 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Note-se que isto significa nada menos que a invenção de uma nova classe de espaço. para proteger-se da intempérie e engendrar. dirá: "Eu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. que pratica secção do campo infinito e se reserva a si mesmo diante dele. fruta de nova espécie que dá o solo de ambas as penínsulas. Sua existência. se é o ilimitado? Muito simples: limitando um pedaço de campo mediante uns muros que oponham o espaço incluso e finito ao espaço amorfo e sem fim. um espaço demarcado para funções públicas. como a casa. se o campo é toda a terra. É o espaço civil. A urbe não está feita. puramente rural e sem caráter específico. a definição mais certa do que é a urbe e a polis parece-se muito com a que comicamente se dá do canhão: rodeia-se o bocal de um poço com arame muito apertado e tem-se um canhão. mas um lugar de ajuntamento civil. E agora vê-se obrigada a superar-se a si mesma. tríplice extrato do sumo que ressuma a polis. O homem campesino é todavia um vegetal. O mesmo acontece com a urbe ou polis que começa por ser um buraco: o foro. peregrino. que aportam ao repertório humano uma grande inovação: a de construir uma praça pública e em torno uma cidade fechada ao campo. mas que é pura e simplesmente a negação do campo. como a cabana ou o domus. quanto pensa. Porque. Como é isso possível? Como pode o homem subtrair-se ao campo? Onde irá. a idéia e o sentimento nacionais foram sua invenção mais característica. e nele se vivia com todas as conseqüências que isso traz para o ser do homem. e tudo o mais é pretexto para assegurar esse buraco. 0 caso é que a escavação e a arqueologia nos permitem ver algo do que havia no solo de Atenas e no de Roma antes de que Atenas e Roma existissem. Não é. o grande urbano. Mas agora podemos considerar o assunto desde outro aspecto. Até então só existia um espaço: o campo. do cosmos geobotânico. como abelhas em sua colmeia. Eis aqui a praça. que prescinde do resto e se opõe a ele. novíssimo.. e quanto a certos pormenores. dentro de urbes.

Neste sentido significa o contrário do movimento histórico: o Estado é convivência estabilizada. entre o ius e o rus. O Estado-cidade. É mestiço e plurilíngüe. Não é como a horda ou a tribo e demais sociedades fundadas na consangüinidade que a Natureza se encarrega de fazer sem colaboração com o esforço humano. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Uma dimensão nova. Ao Estado constituído precede o Estado constituinte.htm (80 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . respectivamente. que a ele tendiam. pela relativa pequenez de seus ingredientes. a cidade nasce por reunião de povos diversos. Pelo contrário. e nosso Levante cai em quanto pode no cantonalismo. toda a costa mediterrânea mostrou sempre uma espontânea tendência a este tipo estatal. de esforços. oculta. Constrói sobre a heterogeneidade zoológica uma homogeneidade abstrata de jurisprudência (76). não tenho nada que ver com as árvores no campo. estática. Na gênese de todo Estado vemos ou entrevemos sempre o perfil de um grande empresário. que o Estado constituído é só o resultado de um movimento anterior de luta. estritamente no duplo sentido físico e jurídico desse vocábulo. Em certo modo. no extrato primário e mais fundo de sua memória conservam os habitantes da cidade greco-latina a lembrança de um synoikismos. diz também qualquer outro princípio natural. Com mais ou menos pureza. pois. Está claro que a unidade jurídica não é a aspiração que propele o movimento criador do Estado. a superação da casa ou ninho infra-humano. constituída. nem o egípcio? Até Alexandre e César. É a república. o persa. Por uma parte. que é um ressábio daquela milenária inspiração (75). que não se compõe de homens e mulheres. permite ver claramente o específico do princípio estatal. eu só tenho quer ver com os homens na cidade". como todo equilíbrio. Originariamente o Estado consiste na mescla de sangues e línguas. Que souberam disso jamais o hindu. e este é um princípio de movimento. desde logo como Estado. Com isto quero dizer que o Estado não é uma forma de sociedade que o homem acha presenteada. A urbe é a super-casa. o dinamismo que produziu e sustém o Estado. portanto. é o propósito de empresas vitais maiores que as possíveis às minúsculas sociedades consangüíneas. mas que necessita forjá-la penosamente. ajuntamento. a palavra "estado" indica que as forças históricas conseguem uma combinação de equilíbrio. Assim. basta traduzi-los. de assento. A dispersão vegetativa pela campina sucede a concentração civil na cidade. Não se pense que esta origem da urbe é uma pura construção minha e que só lhe corresponde uma verdade simbólica. Itália não saiu até o século XIX do Estado-cidade. o Estado começa quando o homem se afana por fugir da sociedade nativa dentro da qual o sangue o inscreveu. Mas este caráter de imobilidade. a politea. entre o jurista e o labrego. E quem diz o sangue. O impulso é mais substantivo que todo direito. que solicitar os textos. o Norte da África (Cartago = a cidade) repete o mesmo fenômeno. Synoikismos é acordo de ir viver juntos. Faz esquecer. Desta maneira nasce a urbe. irredutível às primigênias e mais próximas ao animal. a história da Grécia e de Roma consiste na luta incessante entre esses dois espaços: entre a cidade racional e o campo vegetal. de forma quieta e definida. e nela vão pôr os que antes só eram homens suas melhores energias. o idioma. nem o chinês. oferece-se ao existir humano. a criação de uma entidade mais abstrata e mais alta que o oikos familiar. mas de cidadãos. É superação de toda sociedade natural. por exemplo. Com rara insistência. Não há.A rebelião das massas. em suma.

Por isso é autêntica criação. Todas as coisas de que fala a ciência. e se aprofundais na análise achareis que nem sequer pretendem file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. esse é de verdade uma mente lúcida.favorece a interna e dificulta a externa. precisamente o limite imposto pela Natureza a sua fantasia. "costumes" e religião . De sorte que a claridade da ciência não está tanto na cabeça dos que a fazem como nas coisas de que falam. A forma social estabelecida . de imaginar outra nunca sida. quem não se perca na vida. A forma social de cada uma serve só para uma convivência interna. substituindo-as por uma forma social adequada à nova convivência externa. cada uma por si e para si. Nesta situação. na Grécia e em Roma outros homens que pensaram idéias claras sobre muitas coisas . e as coisas abstratas são sempre claras.filósofos. Se observamos a situação histórica que precede imediatamente o nascimento de um Estado. o princípio estatal é o movimento que leva a aniquilar as formas sociais de convivência interna. notareis que não refletem muito nem pouco a realidade a que parecem referir-se. Mas a este isolamento efetivo sucedeu de fato uma convivência externa. quem tentou libertá-las da cidade. O essencialmente confuso. mais ampla e nova. mas foi vão empenho. Aplique-se isto ao momento atual europeu. A escuridão imaginativa do romano.a maior fantasia da antigüidade -. matemáticos. e estas expressões abstratas adquirirão figura e cor. O grego e o romano. em suma. e.direitos. são abstratas. intricado. não houve provavelmente em todo o mundo antigo mais que duas: Temístocles e César. Mas sua claridade foi de ordem científica. uma claridade sobre coisas abstratas. Houve. Observai os que vos rodeiam e vereis como avançam perdidos em sua vida. além disso. detiveram-se nos muros urbanos. se analisais superficialmente essas idéias. em geral. Um povo é capaz de Estado na medida em que saiba imaginar. é a realidade vital concreta. VII Mentes lúcidas.A rebelião das massas. seja ela qual for. isto é. o que indicaria que possuem idéias sobre tudo isso. sem mais contatos que os excepcionais com as limítrofes. um desequilíbrio entre duas convivências: a interna e a externa. pois. dois políticos. O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. sobretudo econômica. Quem seja capaz de orientar-se com precisão nela. Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência. Porém. Importa-nos muito aos europeus de hoje recordar esta história. incluso o famoso. naturalistas -. Daí que todos os povos tenham tido um limite em sua evolução estatal. encontraremos sempre o seguinte esquema: várias coletividades pequenas cuja estrutura social está feita para que viva cada qual dentro de si mesma. O indivíduo de cada coletividade não vive já só desta. mas parte de sua vida está travada com indivíduos de outras coletividades com os quais comercia mercantil e intelectualmente. dentro de sua boa ou má sorte. sem dúvida. Sobrevem. representada por Bruto. A imaginação é o poder libertador que o homem tem. A coisa é surpreendente porque. vão como sonâmbulos. Ouvi-los-eis falar em fórmulas taxativas sobre si mesmos e sobre seu contorno.htm (81 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o político. encarregou-se de assassinar César . que é sempre única. porque a nossa chegou ao mesmo capítulo. aquele que vislumbre sob o caos que apresenta toda situação vital a anatomia secreta do instante. Isto indica que no passado viveram efetivamente isoladas. Houve quem quis levar as mentes greco-romanas mais além. capazes de imaginar a cidade que triunfa da dispersão campesina. sem ter a mais leve suspeita do que lhes acontece. é político precisamente porque é torpe (77). o que se chama mentes lúcidas.

absolutamente veraz porque se trata de salvar-se. depende de um mísero detalhe técnico: o procedimento eleitoral. a de Cícero. de seu. Tudo o mais é secundário. e se convence de que tudo nela é problemático. é onipotente. César é o exemplo máximo que conhecemos de dom para encontrar o perfil da realidade substantiva em um momento de confusão pavorosa. Isto é certo em todas as ordens. como o náufrago. já começou a descobrir sua autêntica realidade. Havia que votar na cidade. Não lhe interessa que suas "idéias" não sejam verdadeiras. rica. se se ajusta à realidade. em que tenhamos visto bem seu caráter problemático e compreendamos que não podemos apoiar-nos em idéias recebidas.a saber. Roma. Quem descobre uma nova verdade científica teve antes que triturar quase tudo que havia aprendido e chega a essa nova verdade com as mãos sangrentas por haver jugulado inumeráveis lugares comuns. O homem o suspeita. da Ásia Menor. Por isso é o tema que nos permite distinguir melhor quais as mentes lúcidas e quais as mentes rotineiras. A cidade tiberina. mas aterra-o encontrar-se cara a cara com essa terrível realidade. que viver é sentir-se perdido -. de sua vida mesma. não topa nunca com a própria realidade. já está no firme. e se sente perdido. íntima farsa. Já os cidadãos do campo não podiam assistir aos comícios.htm (82 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não se encontra jamais. Nossas idéias científicas valem na medida em que nos tenhamos sentido perdidos ante uma questão. como espantalhos para afugentar a realidade. ajustar-se a tal realidade. A política é muito mais real que a ciência. tudo vai mal. quem o aceita já começou a encontrar-se. Não são mentes claras. não tem inimigos à sua frente. é dizer. ao começar o século I antes de Cristo. da Espanha. A saúde das democracias. Pelo contrário: o indivíduo trata com elas de interceptar sua própria visão do real. Instintivamente. do Oriente clássico e helenístico. sob pena de consunção. porque se compõe de situações únicas em que o homem se encontra de repente submerso.A rebelião das massas. lhe facultará pôr ordem no caos de sua vida. Se o regime de comícios é acertado. quaisquer que sejam seu tipo e seu grau. as idéias dos náufragos. dona da Itália. buscará algo para se agarrar. tudo vai bem. em receitas. Como as eleições eram file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. embora o resto marche otimamente. e esse olhar trágico. emprega-as como trincheiras para defender-se de sua vida. uma fuga da vida (a maior parte dos homens de ciência dedicaram-se a ela por terror a defrontar sua própria vida. ainda na ciência. em lemas nem vocábulos. queira ou não queira. postura. O resto é retórica. como as amadríadas estão. E como se o destino se houvesse comprazido em sublinhar a exemplaridade. Quem não se sente de verdade perdido perde-se inexorávelmente. não obstante ser a ciência. está a ponto de fenecer porque se obstina em conservar um regime eleitoral estúpido. pôs a sua direita uma magnífica cabeça de intelectual. em uma hora das mais caóticas que há vivido a humanidade. daí sua notória falta de jeito ante qualquer situação concreta). Mas muito menos os que viviam repartidos por todo o mundo romano. dedicada durante toda a sua vida a confundir as coisas. Entretanto. e procura ocultá-la com um véu fantasmagórico onde tudo está muito claro. Porque a vida é inteiramente um caos onde a criatura está perdida. Suas instituições públicas tinham uma força municipal e eram inseparáveis da urbe. O excesso de boa fortuna havia deslocado o corpo político romano. Homem de mente lúcida é aquele que se liberta dessas "idéias" fantasmagóricas e olha de frente a vida. se não. Estas são as únicas idéias verdadeiras. adscritas à árvore que tutelam. Como isso é a pura verdade . Um regime eleitoral é estúpido quando é falso. peremptório. estava a ponto de rebentar.

Este entendia por tal precisamente um cidadão como os demais. começa pelo "depois" e não pelo "antes". busca no passado um modelo para a situação presente. que confunde duas coisas. em seus livros Sobre a República. O segredo está em sua façanha capital: a conquista das Gálias. Mas. Não o vê. Esta como mania de tomar todo presente com as pinças de um exemplo pretérito. Disse-se (Spengler) que os greco-romanos eram incapazes de sentir o tempo. e Salústio. Os europeus sempre gravitamos em direção ao futuro e sentimos que é esta a dimensão mais substancial do tempo. César não explicou nunca sua política. vive radicalmente no pretérito. pelo menos. Dava a casualidade de que era precisamente César e não o manual de cesarismo que sói vir depois. Os generais da esquerda e da direita . A cidade não pode governar tantas nações. Sobretudo urgia conquistar os povos novos. mais perigosos em um futuro não muito remoto que as nações corruptas do Oriente. para evitar a dissolução das instituições é preciso um príncipe. Isto é ser arcaizante e isto o foi quase sempre o antigo. No ar estão as palavras. Compreende-se. como Lagartijo ao projetar-se para matar. defeituoso da asa futurista e com hipertrofia de antanhos. Compreende que para curar as conseqüências das anteriores conquistas romanas não havia mais remédio senão prossegui-las aceitando até o fim tão enérgico destino. Para nós a palavra "príncipe" tem um sentido quase oposto ao que tinha para um romano. quer dizer. O greco-romano padece de uma surpreendente cegueira para o futuro. com atletas do circo .que se encarregavam de romper as urnas. A solução de César é totalmente oposta à conservadora. Também ele retrograda. Daí que todo o seu viver é em certo modo reviver. César sustentará a necessidade de romanizar a fundo os povos bárbaros do Ocidente. o qual. que tomar seus atos e dar-lhes seu nome. Segunda. Antes de fazer agora algo dá um passo atrás. em seus memoriais a César. como o daltonista não vê a cor vermelha. a fim de regular o funcionamento das instituições republicanas. Mas isso não é ser insensível ao tempo. e informado por aquele mergulha na atualidade. A expressão é de César. ou. indaga em toda atualidade um precedente. mas que era investido de poderes superiores. entreteve-se em fazê-la. Não temos mais remédio. se queremos entender aquela política. Existiam em um presente pontual. Eu suspeito que esse diagnóstico é errôneo. para nós.A rebelião das massas. de ver sua vida como uma dilatação na temporalidade.exibiam insolências em vazias ditaduras que não levavam a nada. os conservadores. os transtornos da vida pública romana provêem de sua excessiva expansão.htm (83 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . em compensação. que ao olhar a vida greco-romana nos pareça anacrônica.com veteranos do exército. pois. transferiu-se do homem antigo ao filósofo moderno. Significa simplesmente um cronismo incompleto. um moderator. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Toda nova conquista é um delito de lesa-república. Cícero. os fiéis ao Estado-cidade. e os candidatos organizavam partidas de cacete . Sem o apoio de autêntico sufrágio as instituições democráticas estão no ar. foi necessário falsificá-las. "A República não era mais que uma palavra". Sua política pode resumir-se em duas cláusulas: Primeira. Para empreendê-la teve de se declarar rebelde ante o Poder constituído. resumem o pensamento de todos os publicistas pedindo um princips civitatis. Nenhuma magistratura gozava de autoridade. Por que? Constituíam o Poder os republicanos. impossíveis.Mário e Sila . um rector rerum publicarum. protegido e deformado pelo escafandro ilustre.

A rebelião das massas.

ao qual denomina, com lindo vocábulo de égloga, sua "fonte". Digo isto porque já os antigos biógrafos de César se fecham à compreensão desta enorme figura supondo que tratava de imitar Alexandre. A equação impunha-se: se Alexandre não podia dormir pensando nos lauréis de Milcíades, César devia forçosamente sofrer de insônia pelos de Alexandre. E assim sucessivamente. Sempre o passo atrás e o pé de hoje na pegada de ontem. O filólogo contemporâneo repercute o biógrafo clássico. Crer que César aspirava a fazer algo assim como o que fez Alexandre - e isto creram quase todos os historiadores - é renunciar radicalmente a entendê-lo. César é aproximadamente o contrário de Alexandre. A idéia de um reino universal é o único que os emparelha. Mas esta idéia não é de Alexandre, mas vem da Pérsia. A imagem de Alexandre teria empurrado César para o Oriente, para o prestigioso passado. Sua preferência radical pelo Ocidente revela melhor a vontade de contradizer o macedônio. Mas, ainda mais, não é um reino universal, apenas, o que César se propõe. Seu propósito é mais profundo. Quer um Império romano que não viva de Roma, mas da periferia, das províncias, e isso implica a superação absoluta do Estado-cidade. Um Estado onde os povos mais diversos colaborem, de que todos se sintam solidários. Não um centro que manda e uma periferia que obedece, mas um gigantesco corpo social, onde cada elemento seja por sua vez passivo e ativo do Estado. Tal é o Estado moderno, e esta foi a fabulosa antecipação de seu gênio futurista. Mas isso supunha um poder extraromano, anti-aristocrata, infinitamente elevado sobre a oligarquia republicana, sobre seu príncipe, que era só um primus inter pares. Este poder executor e representante da democracia universal só podia ser a Monarquia com sua sede fora de Roma. República! Monarquia! Duas palavras que na história trocam constantemente de sentido autêntico, e que por isso é preciso a todo instante triturar para certificar-se de sua eventual força. Seus homens de confiança, seus instrumentos mais imediatos, não eram arcaicas ilustrações da urbe, mas gente nova, provinciais, personagens enérgicos e eficientes. Seu verdadeiro ministro foi Cornélio Balbo, um homem de negócios gaditano, um atlântico, um "colonial ". Mas a antecipação do novo Estado era excessiva: as cabeças lentas do Lácio não podiam dar brinco tão grande. A imagem da cidade, com seu tangível materialismo, impediu que os romanos "vissem" aquela organização novíssima do corpo público. Como podiam formar um Estado homens que não viviam numa cidade? Que gênero de unidade era essa, tão sutil e tão mística? Repito uma vez mais: a realidade que chamamos Estado não é a espontânea convivência de homens que a consangüinidade uniu. O Estado começa quando se obriga a conviver a grupos nativamente separados. Esta obrigação não é desnuda violência, mas que supõe um processo incitativo, uma tarefa comum que se propõe aos grupos dispersos. Antes que nada é o Estado projeto de um fazer e programa de colaboração. Chama-se às pessoas para que juntas façam algo. O Estado não é consangüinidade, nem unidade lingüística, nem unidade territorial, nem contiguidade de habitação. Não é nada material, inerte, dado e limitado. É um puro dinamismo - a vontade do fazer algo em comum -, e mercê a isso a idéia estatal não está por nenhum termo físico (78). Agudíssima a conhecida empresa política de Saavedra Fajardo: uma flecha, e debaixo: "Ou sobe ou desce". Isso é o Estado. Não uma coisa, mas um movimento. O Estado é em todo instante algo que vem de e vai para. Como todo movimento, tem um terminus a quo e um terminus ad quem. Corte-se por

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A rebelião das massas.

qualquer hora a vida de um Estado que o seja verdadeiramente, e se achará uma unidade de convivência que parece fundada em tal ou qual atributo material: sangue, idioma, "fronteiras naturais". A interpretação estática nos levará a dizer: isso é o Estado. Mas logo advertimos que essa agrupação humana está fazendo algo comunal: conquistando outros povos, fundando colônias, federando-se com outros Estados; quer dizer, que em toda hora está superando o que parecia princípio material de sua unidade. E o terminus ad quem, é o verdadeiro Estado, cuja unidade consiste precisamente em superar toda unidade dada. Quando esse impulso para o mais além cessa, o Estado automaticamente sucumbe, e a unidade que já existia e parecia fisicamente cimentada - raça, idioma, fronteira natural - não serve de nada: o Estado se desagrega, se dispersa, se atomiza. Só essa duplicidade de momentos no Estado - a unidade que já é e a mais ampla que projeta - permite compreender a essência do Estado nacional. Sabido é que ainda não se logrou dizer em que consiste uma nação, se damos a este vocábulo uma acepção moderna. O Estado-cidade era uma idéia muito clara, que se via com os olhos da cara. Mas o novo tipo de unidade pública que germinava em galos e germanos, a inspiração política do Ocidente, é coisa muito mais vaga e fugidia. O filólogo, o historiador atual, que é de seu arcaizante, encontra-se ante este formidável fato quase tão perplexo como César e Tácito quando com sua terminologia romana queriam dizer o que eram aqueles Estados incipientes, transalpinos e ultra-renanos, ou bem os espanhóis. Chamam-nos civitas, gens, natio, percebendo que nenhum destes nomes coincide com a coisa (79). Não são civitas, pela simples razão de que não são cidades (80). Mas nem sequer cabe indefinir o termo e aludir com ele um território delimitado. Os povos novos trocam com suma facilidade de torrão, ou pelo menos ampliam e reduzem o que ocupavam. Tampouco são unidades étnicas - gentes, nationes. - Por muito longe que recorramos, os novos Estados aparecem já formados por grupos de nacionalidades independentes. São combinações de sangues diferentes. Que é, pois, uma nação, já que não é nem comunidade de sangue, nem adscrição a um território, nem coisa alguma desta ordem? Como sempre acontece, também neste caso uma pulcra submissão aos fatos nos dá a chave. Que é que salta aos olhos quando repassamos a evolução de qualquer "nação moderna" - França, Espanha, Alemanha -? Simplesmente isto: o que em certa data parecia constituir a nacionalidade aparece negado numa data posterior. Primeiro, a nação parece a tribo, e a não-nação a tribo de ao lado. Depois a nação se compõe de duas tribos, mais tarde é uma comarca e pouco depois é já todo um condado ou ducado ou "reino". A nação é Leão, mas não Castela; depois é Leão e Castela, mas não Aragão. É evidente a presença de dois princípios: um, variável e sempre superado - tribo, comarca, ducado, "reino", com seu idioma ou dialeto -; outro, permanente, que salta libérrimo sobre todos esses limites e postula como unidade o que aquele considerava precisamente como radical contraposição. Os filólogos - chamo assim aos que hoje pretendem denominar-se "historiadores" - praticam o mais delicioso truísmo quando partem do que agora, nesta data fugaz, nestes dois ou três séculos, são as nações do Ocidente e supõem que Vercingetorix ou que Cid Campeador queriam já uma França deste Saint-Malo a Estrasburgo - precisamente - ou uma Spania desde Finisterre a Gibraltar. Estes filólogos como o ingênuo dramaturgo - fazem quase sempre que seus heróis partam para a guerra dos Trinta Anos. Para nos explicar como se formaram a França e a Espanha, supõem que a França e a Espanha preexistiam como unidades no fundo das almas francesas e espanholas. Como se existissem franceses e espanhóis originariamente antes de que a França e a Espanha existissem! Como se o francês e o espanhol não fossem simplesmente coisas que foram formadas em dois mil anos de faina!

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A rebelião das massas.

A verdade pura é que as nações atuais são apenas a manifestação atual daquele princípio variável, condenado à perpétua superação. Esse princípio não é agora o sangue nem o idioma, posto que a comunidade de sangue e de idioma na França ou na Espanha foi efeito, e não causa, da unificação estatal; esse princípio é agora a "fronteira natural". Está bem que um diplomata empregue em sua esgrima astuta este conceito de fronteiras naturais, como ultima ratio de suas argumentações. Mas um historiador não pode entrincheirar-se atrás dele como se fosse um reduto definitivo. Nem é definitivo, nem sequer suficientemente específico. Não se esqueça qual é, rigorosamente proposta, a questão. Trata-se de averiguar que é o Estado nacional - o que hoje costumamos chamar nação -, a diferença de outros tipos de Estado, como o Estado-cidade ou, indo ao outro extremo, como o Império que Augusto fundou (81). Se se quer formular o tema de modo ainda mais claro e preciso, diga-se assim: Que força real produziu essa convivência de milhões de homens sob uma soberania de Poder público que chamamos França, ou Inglaterra, ou Espanha, ou Itália, ou Alemanha? Não foi a prévia comunidade de sangue, porque cada um desses corpos coletivos está regado por torrentes cruentas muito heterogêneas. Não foi tampouco a unidade lingüística, porque os povos hoje reunidos em um Estado falavam ou falam ainda idiomas diferentes. A relativa homogeneidade de raça e língua de que hoje gozam - supondo que isso seja um gozo - é resultado da prévia unificação política. Portanto, nem o sangue nem o idioma fazem o Estado nacional; pelo contrário, é o Estado nacional quem nivela as diferenças originárias de glóbulo vermelho e som articulado. E sempre aconteceu assim. Poucas vezes, para não dizer nunca, terá o Estado coincidido com uma identidade prévia de sangue ou idioma. Nem a Espanha é hoje um Estado nacional porque se fale em toda ela o espanhol (82), nem foram Estados nacionais Aragão e Catalunha porque em certo dia, arbitrariamente escolhido, coincidissem os limites territoriais de sua soberania com os da fala aragonesa ou catalã. Estaríamos mais próximos da verdade se, respeitando a casuística que toda realidade oferece, nos inclinássemos a esta presunção: toda unidade lingüística que abarca um território de alguma extensão é quase certamente precipitado de alguma unificação política precedente (83). O Estado tem sido sempre o grande turgimão. Há muito tempo que isto consta, e é muito estranha a obstinação com que, entretanto, se persiste em dar à nacionalidade como fundamentos o sangue e o idioma. Nisso eu vejo tanta ingratidão como incongruência. Porque o francês deve sua França atual, e o espanhol sua atual Espanha, a um princípio X, cujo impulso consistiu precisamente em superar a estreita comunidade de sangue e de idioma. De sorte que a França e a Espanha consistiriam hoje no contrário do que as tornou possíveis. Igual tergiversação comete-se ao querer fundar a idéia de nação numa grande figura territorial, descobrindo o princípio de unidade, que sangue e idioma não proporcionam, no misticismo geográfico das "fronteiras naturais". Tropeçamos aqui com o mesmo erro de ótica . O acaso da data atual mostra-nos as chamadas nações instaladas em amplos torrões do continente ou nas ilhas adjacentes. Desses limites atuais quer fazer-se algo definitivo e espiritual. São, dizem, "fronteiras naturais", e com sua "naturalidade" significa-se uma como mágica predeterminação da história pela via telúrica. Mas este mito volatiliza-se imediatamente submetendo-o ao mesmo raciocínio que invalidou a comunidade de sangue e de idioma como fontes da nação. Também aqui, se retrocedemos alguns séculos, surpreende-nos a França e a Espanha dissociadas em nações menores, com suas inevitáveis "fronteiras

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uma vez alheada. Nação . As fronteiras serviram para consolidar em cada momento a unificação política já alcançada. os demais .no sentido que este vocábulo emite no Ocidente de há mais de um século . aliados.para A. Por que. frente às muitas raças e às muitas línguas. Porque é um estorvo . é uma defesa para B.A rebelião das massas. o passo de Calais ou o estreito de Gibraltar.escravos.significa a "união hipostática" do Poder público e a coletividade por ele regida. em seu afã de unificação. já que não têm sido o fundamento positivo destas? A coisa é clara e de suma importância para entender a autêntica inspiração do Estado nacional diante do Estado-cidade. A realidade histórica da famosa "fronteira natural" consiste simplesmente em ser um estorvo à expansão do povo A sobre o povo B. pois. Tem havido grandes diferenças de condição social e estatuto pessoal. Pelo visto. apesar de que os novos meios de tráfego e guerra anularam sua eficácia como estorvos. mas ao contrário: a princípio foram estorvo.de convivência ou de guerra .eram apenas súditos.htm (87 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . afinal das contas. só um obstáculo material lhes põe um freio. A montanha fronteiriça seria menos prócer que o Pirineu ou os Alpes e barreira líquida menos caudalosa que o Reno. As fronteiras de ontem e de anteontem não nos parecem hoje fundamentos da nação francesa ou espanhola. ninguém foi nunca só súdito do Estado. se se interpreta a realidade efetiva da situação política em cada época e se revive seu espírito. mas. produziu uma relativa unificação de sangues e idiomas que serviu para consolidar a unidade. participe e colaborador. se acreditou necessário recorrer a raça. outro remédio senão desfazer a tergiversação tradicional padecidas pela idéia de Estado nacional e habituar-se a considerar como estorvos primários para a nacionalidade precisamente as três coisas em que se acreditava consistir. desta união com e no Estado. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E claro que ao desfazer uma tergiversação serei eu quem pareça cometê-la agora. como mais natural ainda que a fronteira. Não foram. na França. em sua política mesma. classes relativamente privilegiadas e classes relativamente postergadas. tem sido muito diferente conforme os tempos. Mas isso apenas demonstra que a "naturalidade" das fronteiras é meramente relativa. provincianos. Dominados estes energicamente. ingenuamente. uno com ele. É preciso resolver-se a procurar o segredo do Estado nacional em sua peculiar inspiração como tal Estado. colonos . mas ao contrário: o Estado nacional encontrou-se sempre. a possibilidade da expansão e fusão ilimitada entre os povos. princípio da nação. Depende dos meios econômicos e bélicos da época. aparece evidente que todo indivíduo se sentia sujeito ativo do Estado. Não há. pois. porque nestas achamos uma intimidade e solidariedade radical dos indivíduos com o Poder público desconhecidas no Estado antigo. Qual tem sido então o papel das fronteiras na formação das nacionalidades. A idéia de "fronteira natural" implica. na Espanha. Não obstante o que. língua e território nativos para compreender o fato maravilhoso das modernas nações? Pura e simplesmente. A forma. como com outros tantos estorvos. pois. queremos atribuir um caráter definitivo e fundamental às fronteiras de hoje. naturais". Em Atenas e em Roma só uns quantos homens eram o Estado. pelo contrário: estorvos que a idéia nacional encontrou em seu processo de unificação. sobretudo jurídica. e depois. Pois bem: exatamente o mesmo papel corresponde à raça e à língua. mas sempre participou dele. Na Inglaterra. Não é a comunidade nativa de uma ou outra o que constituiu a nação. foram meio material para assegurar a unidade. e não em princípios forasteiros de caráter biológico ou geográfico.

é sujeito político. quaisquer que sejam seus trâmites intermediários. que vive conscientemente instalado nele e dele decide sua conduta presente. elemental e tosca. duas Romas: o Senado e o povo. tradicional e imemorial . todo aquele que preste adesão à empresa . medieval ou moderna -. A capacidade de fusão é ilimitada. Tendência política tal avançará inexoravelmente para unificações cada vez mais amplas. entretanto. consiste. territorial e etnicamente. Esta incapacidade de todo grupo grego e romano para fundir-se com outros provém de causas profundas que não convém perscrutar agora. simplesmente porque nela se ajunta ao sangue. se comporta como um homem aberto ao futuro. o idioma e as tradições comuns um atributo novo. forma parte ativa do Estado. nos reúne em Estado. de uma maneira simples. A unificação estatal não passou nunca de mera articulação entre os grupos que permaneceram externos e estranhos uns aos outros. Roma manda e educa os italiotas e as províncias. antiga. Na mesma urbe não conseguiu a fusão política dos cidadãos. pretérita. qualquer que seja sua forma . o convite que um grupo de homens faz a outros grupos humanos para juntos executar uma empresa. e se diz que é um "plebiscito cotidiano". no corpo urbano que uns muros delimitam fisicamente. muito mais verdadeiro? file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não o que fomos ontem. E é que o europeu. obedecer e não mandar. durante a República. relativamente ao homo antiquus. o Estado antigo não acerta nunca a fundir-se com os outros. a comunidade na atuação. Esta empresa. a rigor. e que é. em organizar certo tipo de vida comum. ao definir a nação fundando-a numa comunidade de pretérito. ficam em segundo plano. Por isso o Império ameaçado não pode contar com o patriotismo dos outros. Conforme cresce a nação. A Roma tocava mandar e não obedecer. Daí a facilidade com que a unidade política brinca no Ocidente sobre todos os limites que aprisionaram o Estado antigo. Mas.raça. Não se esqueça que. Segundo isto. mas não os eleva a união consigo. Mas os povos novos trazem uma interpretação do Estado menos material. num sentido mais decisivo que todas as diferenças nas formas de governo. fatal e irreformável . E curioso notar que. O Estado é sempre. sangue. aos demais. As diferentes classes de Estado nascem das maneiras segundo as quais o grupo empresário estabeleça a colaboração com os outros. o Estado consiste. acaba-se sempre por aceitar como a melhor a fórmula de Renan. e que finalmente se resumem em uma: o homem antigo interpretou a colaboração em que.em suma.A rebelião das massas. programa de ação ou conduta humanos. Desta sorte. mas o que é mais característico ainda do Estado nacional: a fusão de todas as classes sociais dentro de cada corpo político. mas a comunidade futura no efetivo fazer.a que proporciona título para a convivência política. O Estado nacional é em sua raiz mesma democrático. Se ele é um projeto de empresa comum. mas o que vamos fazer amanhã juntos. Assim. Roma foi. entende-se bem o que esta expressão significa? Não podemos dar-lhe agora um conteúdo de signo oposto ao que Renan lhe insufla.htm (88 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o Estado se materializa no pomoerium. queira-se ou não. finalmente. e teve de se defender exclusivamente com seus meios burocráticos de administração e de guerra. Não só de um povo com outro. Estado e projeto de vida. Não é a comunidade anterior. adscrição geográfica. classe social. são termos inseparáveis. vai-se fazendo mais una a colaboração interior. a saber: como dualidade de dominantes e dominados (84). sua realidade é puramente dinâmica: um fazer.primitiva. sem que haja nada que em princípio a detenha.

Sangue.. por isso o fazemos. Tal é a conhecidíssima sentença de Renan. o Estado nacional representaria um princípio estatal mais próximo à pura idéia de Estado que a antiga polis ou que a "tribo" dos árabes.. Ao defender a nação defendemos nosso amanhã. O plebiscito decide um futuro. sem pausa nem descanso. não nosso ontem. uma herança de glórias e remorsos.diga-se de uma vez . senão em função do porvir (85). Por isso viver é sempre. a Inglaterra. mas que procedem da interpretação erudita dada pelo romanticismo à idéia de nação. ninguém se ocuparia de defendê-la contra um ataque. ao território. nem pelo comum passado. à raça. Se a nação consistisse não mais que em passado e presente.htm (89 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . eis aqui as condições essenciais para ser um povo. Isso é o que reverbera na frase de Renan: a nação como excelente programa para amanhã. mas não algo que se faz. haver feito juntos grandes coisas. língua e passado comuns são princípios estáticos. De fato. todo fazer. pois: nada tem sentido para o homem.A rebelião das massas. Queira-se ou não. no porvir. querer fazer outras mais. Os que afirmam o contrário são hipócritas ou mentecaptos. são prisões. Porque essa interpretação confunde o que impulsa e constitui uma nação com o que meramente a consolida e conserva. um mesmo programa para realizar. Parece-nos desejável um porvir no qual nossa nação continue existindo. A existência de uma nação é um plebiscito cotidiano". Nem sequer teria sentido defendê-la quando alguém a ataca. a Espanha. não pelo sangue. De haver existido na Idade Média esse conceito oitocentista de nacionalidade.no futuro. Por isso nos mobilizamos em sua defesa. Se para que exista uma nação é preciso que um grupo de homens conte com um passado comum. sempre. Que neste caso o futuro consista numa perduração do passado não modifica em nada a questão. rígidos. a vida humana é constante ocupação com algo futuro. unicamente revela que também a definição de Renan é arcaizante.. a nação seria uma coisa situada às nossas costas.. Mais: eu diria que esse lastro de pretérito e essa relativa limitação dentro de princípios materiais não têm sido nem são por completo espontâneos nas almas do Ocidente. Esta idéia de que a nação consiste num plebiscito cotidiano opera sobre nós como uma liberação. eu me pergunto como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Crer o contrário é o truísmo a que já aludi e que o próprio Renan admite em sua famosa definição. Não é o patriotismo . Fazemos memória neste segundo para lograr algo no imediato. Como se explica sua excepcional fortuna? Sem dúvida. a Alemanha. pela graça da nota. Portanto. Mas acontece que o passado nacional projeta aliciantes . a França. fazer. mas por isso mesmo é surpreendente notar como nela triunfa o puro princípio de unificação humana em torno a um incitante programa de vida. fatais. Por que não se reparou em que fazer. teriam ficado inexistentes (86). Este modesto prazer solitário se nos apresentou há pouco como um futuro desejável. Desde o instante atual nos ocupamos do que sobrevem. a idéia nacional conserva não pouco lastro de adscrição ao passado.reais ou imaginários . Conste. Se a nação consistisse nisso e em mais nada. A nação seria algo que se é. circunscrita pelo sangue. com o que não teríamos nada que fazer. ainda que não seja mais que o prazer de reviver o passado. significa realizar um futuro? Inclusive quando nos entregamos a recordar. uma vontade comum no presente. VIII "Ter glórias comuns no passado. inertes. No passado.quem fez as nações. nem pelo idioma.

Um povo . representa o conteúdo. ainda que não se alcance. a adesão dos homens a esse projeto incitativo. que se refere a uma nação já feita. Tudo que além disso pareça ser.o persa. uma nação não está nunca feita. não estava sujeita a outras condições senão à eficácia bélica e administrativa do conquistador. Renan encontrou a palavra mágica. passasse. que se compõe destes dois ingredientes: primeiro. A Espanha não soube inventar um programa de porvir coletivo que atraísse esses grupos zoologicamente afins. Mas no Ocidente a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. não só no público. antes de possuir um passado comum. Pelo visto era forçoso que essa existência comum fenecesse. Na realidade. linguagem comum. segundo. da nacionalidade . que. Porque. de querê-la.como algo estranhos a eles.tribo ou urbe -. conforme seu Estado represente ou não no momento uma empresa vivaz. Esta adesão de todos engendra a interna solidez que distingue o Estado nacional de todos os antigos. o maravilhoso. os súditos são já o Estado e não o podem sentir . como "treinaram" ou se desmoralizaram. tudo isso serve de forças de consolidação. mas a nação. as memórias. é a essencial: o futuro comum. Esta é a ótica decisiva. Borgonha). cuja perpetuação decide. exista um passado. Quando há aquilo. Tertium non datur. sua ótica profissional que lhe impede ver a realidade quando não é pretérita? O filólogo é quem necessita para ser filólogo que. um projeto de convivência total numa empresa comum. pelo visto. e de nada valeram então os arquivos. como aconteceu tantas vezes. de projetá-la. os antepassados. Ou está ganhando adesões ou está perdendo-as. Por que? Falta só uma coisa. tem um valor transitório e cambiante. a "pátria". As empresas estatais dos antigos. por isso que o Estado propriamente tal ficava sempre inscrito em uma limitação fatal . teve de criar essa comunidade.A rebelião das massas. para que pudessem dizer: somos uma nação. Falaríamos em tal caso de uma nação malograda (por exemplo. interna nem definitiva. na medida de que houvesse ou não empresa à vista. ou a forma. E até que tenha o projeto de si mesma para que a nação exista. Eu preferiria trocar-lhe o signo e fazê-lo valer para a nação in statu nascendi. e. e antes de criá-la teve de sonhá-la. em verdade. Como a unidade não era autêntica. não forma com eles uma nação. mas até em sua existência mais privada. o macedônio ou o romano . dando ao plebiscito um conteúdo retrospectivo. Ela nos permite vislumbrar catodicamente o segredo essencial de uma nação. raça comum. ainda que fracasse a execução. ou a consolidação que em cada momento requer o plebiscito. pois. chamaremos a esse mesmo grupo de homens enquanto vivia em presente isso que visto hoje é um passado. A nação está sempre ou fazendo-se ou desfazendo-se. mas tão somente (87).podia submeter à unidade de soberania quaisquer porções do planeta. do arquivista. nos quais a união se produz e mantém por pressão externa do Estado sobre os grupos díspares.isto é o novo. Nisto se diferencia de outros tipos de Estado. Outra coisa mostraria claramente esse estudo. Por isso o mais instrutivo seria reconstruir a série de empresas unitivas que sucessivamente inflamaram os grupos humanos do Ocidente. enquanto aqui nasce o vigor estatal da coesão espontânea e profunda entre os "súditos". Renan anula ou quase seu acerto. O plebiscito futurista foi adverso à Espanha. Com os povos do Centro e da América Meridional tem a Espanha um passado comum. no Estado nacional uma estrutura histórica de caráter plebiscitário. Não se adverte aqui o vício gremial do filósofo.htm (90 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Entretanto. entretanto. Então ver-se-ia como delas têm vivido os europeus. por isso que não implicavam a adesão fundente dos grupos humanos sobre os quais se tentavam. Vejo. eram praticamente limitadas. que estoura de luz. antes de tudo.

Mostra isto como as empresas de unidade nacional vão chegando à sua hora do modo como os sons em uma melodia. Os inimigos habituais vão se fazendo historicamente homogêneos (88). file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O peculiar instinto ocidental. unificação nacional teve de seguir uma série inexorável de etapas. Mas. em todo caso. em que se sentem os outros povos além do novo Estado como estranhos e mais ou menos inimigos. continuamos considerando-os como estranhos e hostis. mas porque a diversidade entre próximos é mais fácil de dominar. tanto mais diretamente caminha para se depurar num gigantesco Estado continental. numa diocese do Baixo Império. a Hélade não foi nunca verdadeira idéia nacional. E é muito menos utópico crer nisso hoje assim como o houvera sido vaticinar no século XI a unidade da Espanha e da França. de fechar-se em si mesmo dentro do Estado. Os "espanhóis" haviam se acostumado a ser reunidos por Roma numa unidade administrativa. Então surge a nova empresa: unir-se aos povos que até então eram seus inimigos. Spania. Segundo momento. não íntima inspiração. Por muita realidade que se queira dar a essa idéia no século XI. e Spania para os "espanhóis" do XI e ainda do XIV. e para superfetação da tese acrescenta-se que séculos antes já S. Terceiro momento. ao contrário.htm (91 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . convive-se econômica. começa a atuar sobre os grupos mais próximos geográfica. Mas esta noção geográfico-administrativa era pura recepção. E. étnica e lingüisticamente. Não obstante. e esta unidade leon-castelã era a idéia nacional do tempo. A mera afinidade de ontem terá de esperar até amanhã para entrar em erupção de inspirações nacionais. No tempo do Cid estava se começando a urdir o Estado Leão-Castela. Sói afirmar-se que em tempo do Cid era já a Espanha Spania . e que juntos formamos um círculo nacional ante outros grupos mais distantes e ainda mais estrangeiros. O processo criador de nações teve sempre na Europa este ritmo: Primeiro momento. O Estado goza de plena consolidação. a idéia politicamente eficaz. e em modo algum aspiração. uma de tantas idéias fecundas que deixou semeadas no Ocidente o Império romano. Pouco a pouco vai se destacando no horizonte a consciência de que estes povos inimigos pertencem ao mesmo círculo humano que o nosso Estado. O Estado nacional do Ocidente. o que a Europa foi para os "europeus" no século XIX. A meu ver. Um exemplo esclarecerá o que tento dizer. isso é um erro crasso de perspectiva histórica. é quase certo que chegará sua hora. em suma. Agora chega para os europeus a sazão em que a Europa pode converter-se em idéia nacional. reconhecer-se-á que não chega sequer ao vigor e precisão que já tem para os gregos do IV a idéia da Hélade. Não porque esta proximidade funde a nação. Isidoro falava da "mãe Espanha". o que hoje denominamos nacionalismo. que faz sentir o Estado como fusão de vários povos em uma unidade de convivência política e moral. não obstante.uma idéia nacional. Deveria estranhar mais o fato de que na Europa não tenha sido possível nenhum império do tamanho que alcançaram o persa. Eis aqui madura a nova idéia nacional. Cresce a convicção de que são afins com o nosso em moral e interesses. o de Alexandre ou o de Augusto.A rebelião das massas. intelectual e moralmente com eles. por seu turno. quanto mais fiel permaneça a sua autêntica substância. Período de consolidação. A efetiva correspondência histórica seria melhor esta: a Hélade foi para os gregos do século IV. era uma idéia principalmente erudita. Mas o fato é que enquanto se sente politicamente os outros como estranhos e concorrentes. As guerras nacionalistas servem para nivelar as diferenças de técnica e de espírito. É o período em que o processo nacional toma um aspecto de exclusivismo.

pois. apercebendo-se dela ou não. como um fundo. A homogeneidade redunda. arte. Espanha. presunções -. pesa muito mais em cada um de nós o que tem de europeu que sua porção diferencial de francês. Resumo agora a tese deste ensaio. Mas tudo isso. com efeito. Afortunadamente. França. Se se fizesse a experiência imaginária de se reduzir a viver puramente com o que somos. Ora bem: essas são as coisas espirituais de que se vive. desejos. em geral. permutavam-se idéias e formas de arte e artigos da fé. a Europa. Não se vislumbra que outra coisa de monta possamos fazer os que existimos neste lado do planeta se não é realizar a promessa que há quatro séculos significa o vocábulo Europa. como "nacionais". a idéia do Estado nacional que o europeu. Só se opõe a isso o prejuízo das velhas "nações". Se se quer mais exatidão e mais cautela. notaríamos que a maior parte de tudo isso não vem para o francês de sua França. diga-se deste modo: as almas francesas e inglesas e espanholas eram. E esta a unidade de paisagem em que se vai mover desde o Renascimento. a política. Agora se vai ver se os europeus são também filhos da mulher de Lot e se obstinam em fazer história com a cabeça virada para trás. pelejam entre si. Se hoje fizéssemos balanço de nosso conteúdo mental . Veria que não lhe era possível viver só disso. A história destacou em primeiro termo as querelas e. e. A Europa não está certa de mandar. Sofre hoje o mundo uma grave desmoralização. formam ligas contrapostas. Uma das principais. que é o terreno mais tardio para a espiga da unidade. pensa. a idéia de nação como passado. que sem adverti-lo começam já a abstrair de sua belicosa pluralidade. mas do fundo comum europeu. sentiria terror. o britânico e o germano. Inglaterra. e essa paisagem européia são elas mesmas. normas. trouxe ao mundo. filológica. desfazem-nas. recompõem-nas. mas. e tem sua origem na desmoralização da Europa. em cem se comerciava com o inimigo. ao homem antigo. é conviver de igual para igual. Dir-se-ia que aquele fragor de batalhas foi só uma tela atrás da qual tanto mais tenazmente trabalhava a pacífica polipeira da paz. que as quatro quintas partes de seu haver íntimo são bens jacentes europeus. e em obra de mera fantasia se extirpasse do homem médio francês tudo que usa. a homogeneidade das almas se acrescentava. em geral. etc. é muito difícil que certo tipo de homem abandone a idéia de Estado uma vez que ela se lhe encasquetou. são e serão tão diferentes como se queira. nem para o espanhol de sua Espanha. maior que se as almas fossem de idêntico calibre. o deslocamento do poder que outrora exercia sobre o resto do mundo e sobre si mesmo nosso continente. enquanto se batalhava numa gleba. A soberania histórica acha-se em dispersão. valores sociais e eróticos vão sendo comuns. nem o resto do mundo de ser mandado. As causas desta última são muitas. que se lhe predicou. ciência. sente. Em cada nova geração. não é a idéia erudita. serviu-nos de admoestação. espanhol. entretecendo a vida das nações hostis. IX Apenas as nações do Ocidente preenchem seu atual perfil surge em torno delas e sob elas.htm (92 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o galo. A alusão a Roma. Religião.opiniões. o que nem na paz nem na guerra pode nunca fazer Roma com o celtibero. em virtude de recepção dos outros países continentais. que entre outros sintomas se manifesta por uma desatorada rebelião das massas. vão adquirindo um conteúdo comum.A rebelião das massas. direito. sobretudo. Hoje. Alemanha. Itália. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas possuem um mesmo plano ou arquitetura psicológicos e. guerra como paz.

Já não há "plenitude dos tempos". Quem. Este é o sentido da erupção "nacionalista" nos anos que correm. a idéia nacional. Então acreditava-se saber o que ia acontecer amanhã. Cada nação que antes era a grande atmosfera aberta. que a faz eqüivaler a capricho leviano.as fronteiras militares e as econômicas. Tudo.htm (93 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .alguns ensaiam salvar o momento por uma intensificação extremada e artificial. como era o do século XIX. se ensaia e se encomia.até no íntimo -. o que está em nossa mão pegar ou largar ou substituir. Mas todos estes nacionalismos são becos sem saída. não o esporte em si) até a violência em política...A rebelião das massas. A última chama. transformou-se em província e "interior". Todo o mundo percebe a urgência de um novo princípio de vida. Enquanto o Estado antigo aniquilava o diferencial dos povos ou o deixava inativo fora ou em suma o conservava mumificado. a mais extensa. porque isto supõe um porvir claro. arejada. que sistema de preferências. Não há mais vida com raízes próprias. lastrando-o. Os europeus não sabem viver se não se lançam numa grande empresa unitiva. as fronteiras se hiperestesiam . Mas agora abre-se outra vez o horizonte para novas linhas incógnitas. desde a "arte nova" até os banhos de sol nas ridículas praias da moda. exige a permanência ativa desse plural que sempre foi a vida do Ocidente. Tudo. desconjunta-se-lhes a alma. A véspera de desaparecer. tudo que hoje se faz em público e na vida privada . afrouxam. menos exigido pelo destino. tanto mais frívolo. desde a mania do esporte físico (a mania. de um vazio entre duas organizações do mundo histórico: a que foi. porque tudo isso é pura invenção. Os círculos que até agora se chamaram nações chegaram há um século ou pouco menos à sua máxima expansão. isto é. não há mais vida autóctone que a que se compõe de cenas iniludíveis.como sempre acontece em crises parelhas . Tudo isso irá com mais celeridade do que veio. é provisional. O resto. que povo ou grupo de povos. o mais profundo. aprisionando-o. Em suma: tudo isso é vitalmente falso. precisamente do princípio caduco. Mas . nem as mulheres que tipo de homens preferem realmente. como se vai articular o poder sobre a terra. mais puramente dinâmica. Só há verdade na existência quando sentimos seus atos como irrevogavelmente necessários. Acertará quem não se fie de quanto hoje se apregoa. portanto. de molas vitais. Nada disso tem raízes. Tente-se projetá-los para o futuro e sentir-se-á o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a que vai ser. não é afã nem mister autêntico. a pluralidade atual não pode nem deve desaparecer. Com mais liberdade vital que nunca sentimos todos que o ar é irrespirável dentro de cada povo. portanto. Já não se pode fazer nada com eles a não ser transcendê-los. E nem os homens sabem bem a que instituições de verdade servir. porque é um ar confinado. sem mais exceção que algumas partes de algumas ciências. e quanto mais extremo é seu gesto. Um começo disto oferece-se hoje a nossos olhos. O derradeiro suspiro. Não se sabe para que centro de gravitação vão ponderar em um futuro próximo as coisas humanas. que ideologia. se ostenta. e por isso a vida do mundo entrega-se a uma escandalosa interinidade. Já não são senão passado que se acumula em torno e debaixo do europeu. de normas. A atual é fruto de interregno. que tipo étnico. inequívoco. posto que não se sabe quem vai mandar.repito . Dá-se o caso contraditório de um estilo de vida que cultiva a sinceridade e ao mesmo tempo é uma falsificação. no mau sentido da palavra. E sempre .aconteceu assim. Por isso é essencialmente provisória. Quando esta falta. Não há hoje nenhum político que sinta a inevitabilidade de sua política. prefixado. é precisamente falsificação da vida. envilecem-se. Não é criação do fundo substancial da vida. Na supernação européia que imaginamos.

O tempo correu. pois. Só a decisão de construir uma grande nação com o grupo dos povos continentais tornaria a dar tom à pulsação da Europa. a disciplinar-se. choque. O burguês não é covarde. acostume-se a não mandar nem se mandar. Esta: que o europeu não vê na organização comunista um aumento da felicidade humana. soem verbificar. Ninguém ignora que se triunfou na Rússia o bolchevismo. E não pelas razões triviais que seus apóstolos. surdos e sem veracidade. revelou-se como mais violento que todo o obreirismo junto. enquanto este é inclusivista. que é um movimento petit bourgeois. como ele cria. nada disso o que impede ao europeu embalar-se comunisticamente. Vão passando os anos e corre-se o risco de que o europeu se habitue a este tom menor de existência que leva agora. Por aí não se sai para lado nenhum. Eu não participei de semelhante prognóstico. como antes. Voltaram à tranqüilidade quando chega justamente a época para que a perdessem.A rebelião das massas. Não é isso o que imuniza a Europa para a fé russa. por sua vez. A simplicidade de meios com que opera e a categoria dos homens que exalta revelam de sobra que é o contrário de uma criação histórica. Imagine-se que o "plano qüinqüenal" seguido herculeamente pelo Governo soviético conseguisse suas previsões e a enorme economia russa ficasse não só restaurada.htm (94 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Hoje parecem-nos bastante ridículos os arbitrários supostos em que há vinte anos fundava Sorel sua tática da violência. Entretanto . parece-me muitíssimo possível que nos anos próximos a Europa se entusiasme pelo bolchevismo. o conteúdo do credo comunista à russa não interessa. o homem que vive exclusivamente de suas rendas e que as transmite a seus filhos tem os dias contados. o pretexto que se oferece para iludir o dever de invenção e de grandes empresas. Mas a situação é muito mais perigosa do que se pode apreciar.repito -. ir-se-iam volatilizando todas as suas virtudes e capacidades superiores. Em época de consolidação tem. e hoje voltaram à tranqüilidade os temerosos de outrora. ajunta-se outro muito concreto e iminente. e automaticamente a exigir muito de si. Quando o comunismo triunfou na Rússia muitos acreditaram que todo o Ocidente ficaria inundado pela torrente vermelha. Não por ele mesmo. Minha presunção é a seguinte: agora. O fascismo. casta que pôs todos os esforços e fervores de sua história na carta Individualidade. um valor positivo e é uma alta norma. nem é muito menos temor. mas apesar dele. não desenha um porvir desejável aos europeus. mas exuberante. porfiados. Qualquer que seja o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Em tal caso. as classes conservadoras. Pelo contrário: por aqueles anos escrevi que o comunismo russo era uma substância inassimilável para os europeus. Porque agora sim pode derramar-se sobre a Europa o comunismo de roldão e vitorioso. como todos os apóstolos. não atrai. e o nacionalismo não é mais que uma mania. mas uma razão muito mais simples e prévia. Isto pode trazer para elas a catástrofe. Voltaria ela a crer em si mesma. É exclusivista. como sempre aconteceu no processo de nacionalização. O nacionalismo é sempre um impulso de direção oposta ao princípio nacionalizador. Mas na Europa tudo está de sobra consolidado. pois ao perigo genérico de que a Europa se desmoralize definitivamente e perca toda a sua energia histórica. foi porque na Rússia não havia burgueses (89). Não é. Os bourgeois do Ocidente sabem muito bem que. Mas à unidade da Europa opõem-se. mesmo sem comunismo. e atualmente está mais disposto à violência que os operários.

Qualquer substância que caia sobre uma alma assim. A imputação não lhe causaria a menor impressão. O imoralismo chegou a ser tão barato que qualquer um alardeia exercitá-lo. os velhos liberais. Se a matéria cósmica. o lisonjearia. os "idealistas". Nele os homens abraçaram resolutamente um destino de reforma e vivem tensos sob a alta disciplina que essa fé lhes injeta. Contanto que sirva a algo que dê um sentido à vida e fugir do próprio vazio existencial. ao cabo de umas ou outras voltas. não faz fracassar gravemente a tentativa. Não acrediteis uma palavra quando ouvirdes os jovens falar da "nova moral". Eu vejo na construção da Europa. DESEMBOCA-SE NA VERDADEIRA QUESTÃO Esta é a questão: a Europa ficou sem moral. não é difícil que o europeu engula suas objeções ao comunismo.os cristãos. do homem atual. etc. O comunismo é uma "moral" extravagante . Nego rotundamente que exista em lugar algum do continente grupo algum informado por um novo ethos que tenha visos de u'a moral. sem que ele mesmo suspeite por que sujeito de ilimitados direitos. dará um mesmo resultado. a incitação de um novo programa de vida? XV. tão só que lhe deixe via um pouco franca. entretanto.htm (95 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . frouxos os nervos por falta de disciplina. seu estado de ânimo consistirá. Mas seria demasiado vil que o anticomunismo esperasse tudo das dificuldades materiais encontradas por seu adversário. persiste no ignóbil regime vegetativo destes anos.todos os grupos que significam sobrevivências do passado . Quando se fala da "nova" não se faz senão cometer uma imoralidade mais e buscar o meio mais cômodo para passar contrabando. representa um ensaio gigantesco de empresa humana.algo assim como uma moral -. Não parece mais decente e fecundo opor a essa moral eslava uma nova moral do Ocidente. como grande Estado nacional. Se a Europa. Por essa razão seria uma ingenuidade lançar em rosto ao homem de hoje sua falta de moral. mas que o centro de seu regime vital consiste precisamente na aspiração a viver sem sujeitar-se a moral alguma. seu esplêndido caráter de magnífica empresa irradiará sobre o horizonte continental como uma ardente e nova constelação. É indiferente que se mascare de reacionário ou de revolucionário: por ativa ou por passiva.A rebelião das massas. a única empresa que poderia contrapor-se à vitória do "plano qüinqüenal". Não é que o homem-massa menospreze uma antiquada em benefício de outra emergente. conteúdo do bolchevismo. ou melhor. decisivamente.como se fez neste ensaio . Se deixamos de um lado . se sinta arrastado por sua atitude moral. como poderia evitar o efeito contaminador daquela empresa tão prócer? E não conhecer o europeu esperar que possa ouvir sem se acender essa chamada a novo fazer quando ele não tem outra bandeira de semelhante altaneria que desfraldar ovante. e se converterá em file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em ignorar toda obrigação e sentir-se. -. não se achará entre todos os que representam a época atual um só cuja atitude ante a vida não se reduza a crer que tem todos os direitos e nenhuma obrigação. indócil aos entusiasmos do homem. e já que não por sua substância. O fracasso deste equivaleria à derrota universal: de todos e de tudo. Os técnicos da economia política garantem que essa vitória tem mui escassas probabilidades de sua parte. sem projeto de vida nova.

negação que oculta um efetivo parasitismo.htm (96 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Por isso não cabe enobrecer a crise presente mostrando-a como o conflito entre duas morais ou civilizações.como a cortesia. Mas a mesma coisa acontece se dá para ser revolucionário: seu aparente entusiasmo pelo operário manual. analisando sobretudo seu comportamento ante a civilização mesma em que nasceu. o miserável e a justiça social. Essa esquivança a toda obrigação explica. uma caduca e a outra em alvor. O homem-massa carece simplesmente de moral. Embora pareça mentira. de que se tenha feito em nossos dias uma plataforma da "juventude" como tal. entre irônico e terno. tem. bem vimos como afagam o homem-massa. comicamente. pretexto para não se sujeitar a nada concreto. em parte. pateando quanto parecia eminência. do Estado. lhe serve de disfarce para poder desentender-se de toda obrigação . entre ridículo e escandaloso. que os não jovens concediam aos moços. mas uma simples negação. Neste ensaio desejou-se desenhar certo tipo de europeu. como tal. que o homem vulgar possa sentir-se livre de toda sujeição. sobretudo. Sempre viveu de crédito. Com um ou com outro aspira-se sempre ao mesmo: que o inferior. Era como um falso direito. Agora recolhe a Europa as penosas conseqüências de sua conduta espiritual. já que pode demorar o cumprimento destas até as calendas gregas da madureza. considerou-se isento de fazer ou haver feito façanhas. Sempre o jovem. sentimento de submissão a algo. Quiçá não ofereça nosso tempo traço mais grotesco. o fenômeno. Em realidade. Mas é estupefaciente que agora o tomem estes como um direito efetivo. e. Mas talvez é um erro dizer "simplesmente". Eu sei de não poucos que ingressaram em um ou outro partido operário apenas para conquistar dentro de si mesmos o direito a desprezar a inteligência e poupar-se aos salamaleques diante dela. que é sempre. e isto não é amoral. dá direito a alhear todas as outras normas e a massacrar o próximo.A rebelião das massas. Por isso não convinha mesclar seu psicograma com a grande questão: que insuficiências radicais padece a cultura européia moderna? Porque é evidente que. mas sem raízes. o respeito ou estimação dos indivíduos superiores. velis nolis. As pessoas. não lhe façamos tão fácil a tarefa. delas provém esta forma humana agora dominante. Quanto às outras Didaturas. precisamente para atribuir-se todos os demais que pertencem só a quem tenha feito já alguma coisa. Porque não se trata só de que este tipo de criatura se desentenda da moral. por essência. sobretudo se o próximo possui uma personalidade valiosa. Isto se acha na natureza do humano. será para poder afirmar que a salvação da pátria. a veracidade. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O homem-massa está ainda vivendo precisamente do que nega e outros construíram ou acumularam. Não. em última instância. se declaram "jovens" porque ouviram que o jovem tem mais direitos que obrigações. E uma moral negativa que conserva da outra a forma em oco. Da moral não é possível desentender-se simplesmente. consciência de serviço e obrigação. O que com um vocábulo falto até de gramática se chama amoralidade. Embalou-se sem reservas pelo declive de uma cultura magnífica. Se se apresenta como reacionário ou antiliberal. vivemos um tempo de chantagem universal que toma duas formas de esgar complementário: há a chantagem da violência e a chantagem do humorismo. mas imoral. chegou a fazer-se da juventude uma chantagem. Como se pode acreditar na amoralidade da vida? Sem dúvida porque toda a cultura e a civilizacão moderna levam a esse convencimento. Se você não quer submeter-se a nenhuma norma. Importava fazer assim porque esse personagem não representa outra civilização que lute com a antiga. de sujeitar-se à norma de negar toda moral. é uma coisa que não existe.

dizer por que é estranha e por que é maravilhosa a Inglaterra. por inércia mental. Em que pese esta vez à etimologia. O interessante seria precisar quais são os atributos surpreendentes. ou. Tudo isso sem uma gesticulação e muito além de todas as frases. E preciso extirpar da história o psicologismo. EPÍLOGO PARA INGLESES Daqui a pouco faz um ano que numa paisagem holandesa. se faz. O que então não imaginava é que tão rapidamente viessem os fatos confirmar meu prognóstico e a incorporar minha esperança. reduz o assunto file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. coçando a cabeça. à ordem psicológica. sobressalto e a consciência de ter a sua frente algo admirável. atribuía eu a Inglaterra ante o Continente. mas à ordem sociológica. por insólitos. o navio inglês troca todas as suas velas. usando um símil humorístico. desde já. O povo inglês é. o fato mais estranho que há no planeta. não é um dom inato. incluso das que acabo de proferir. porque atrás dela está o verdadeiramente essencial e fértil. Naquela data começava para a Inglaterra uma das etapas mais problemáticas de sua história e havia muito poucas pessoas na Europa que confiassem nas suas virtudes latentes. É evidente que há muitas maneiras de fazer história. O excepcional da Inglaterra não jaz no tipo de indivíduo humano que soube criar. que "perde o fio" uma ou várias vezes. Mas essa grande questão tem de permanecer fora destas páginas.. como tudo que é humano. a nação não nasce. Mas mesmo aquele que estime o modo de ser dos homens ingleses acima de todos os demais. vira dois quadrantes. que se desenvolve. a que tivera durante dois séculos e que em forma superlativa estava chamado a exercer hoje. Depois viria a tentativa de mostrar como adquiriu a Inglaterra essas qualidades sociológicas. mas uma fabricação. até da Inglaterra. não seria possível. eu assinalava com fé robusta a missão européia do povo inglês. porque é excessiva. E como a sociologia é uma das disciplinas sobre as quais as pessoas têm em todas as partes menos idéias claras. O estranho. Há várias centúrias acontece periodicamente que os continentais acordam uma manhã e. que já foi afugentado de outros acontecimentos. apesar do pedante que é. É uma empresa que dá bem ou mal. em seu interior. pelo menos. Insisto em empregar esta palavra. O "caráter nacional"." É uma expressão que significa surpresa. Talvez possa em breve ser exaltada. Não me refiro ao inglês individual. que se corrige. Ainda menos tentar a explicação de como chegou a ser essa estranha coisa que é. Dizia-se que era um povo em decadência.e ainda arrostando certos riscos de que não quero falar agora -. Não obstante . pois. É sobremaneira discutível que o inglês individual valha mais que outras formas de individualidade aparecidas no Oriente e no Ocidente. O caráter nacional vai se fazendo e desfazendo e refazendo na história. Obrigaria a desenvolver com plenitude a doutrina sobre a vida humana que. murmurada nelas. sem muitas preparações. Durante os últimos tempos falharam tantas coisas que. se tende a duvidar de tudo. onde o destino me havia centrifugado. quase tantas como de desfazê-las. que se inicia após um período de ensaios. exclamam: "Esta Inglaterra!. como um contraponto.A rebelião das massas.. reatar. fica entrelaçada. o maravilhoso não pertence. A manobra de saneamento histórico que tenta a Inglaterra. No meio da mais atroz tormenta. é portentosa. com efeito. insinuada. e tem de voltar a começar. Muito menos que se comprazessem com tal precisão em ajustar-se ao papel determinadíssimo que. mas ao corpo social. mas incompreensível. escrevi o Prólogo para franceses à primeira edição popular deste livro.htm (97 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . à coletividade dos ingleses. Enquanto se acredite que um povo possui um "caráter" prévio e que sua história é uma emanação deste caráter. da vida inglesa nos últimos cem anos. cinge-se ao vento e a guinada de seu leme modifica o destino do mundo. não haverá maneira nem sequer de iniciar a conversação.

A rebelião das massas. O nervosismo dos últimos meses fez que quase todas as nações tivessem vivido encarapitadas em suas fronteiras. no modo como sabe ser uma sociedade. e em certa maneira. a frivolidade. de uma sonoridade. e a retórica acabou sendo para a civilização antiga o que tem sido a física para nós nestes últimos séculos. e. mas deliciosas. dando ao vento em formas claras e eufônicas a mais arcana intimidade. que é. Isto me levou. Por isso divinizaram o dizer. que o excepcional.. línguas feitas à força de palavreados infindáveis . em palanque. soltou nossas línguas e nos fez indiscretos a nativitate. Com faces impassíveis. que nos educou. Se se ajunta a isso que um dos principais temas de disputa tem sido a Espanha. compreender-se-á até que ponto hei sofrido de quanto na Inglaterra. A Grécia. Se é benévolo. representam um esforço de acomodação a seus usos. quer dizer. em grau especial. e o que mais falta tenho sentido. aproximando-nos destes esplêndidos ingleses. tem sido alguma atitude de graça generosa. acrescentadas a seguir.tem se deixado circular a intriga. o leitor não esquecerá o destinatário. Daí que nos sintamos sôfregos quando. Escutaram-se em sério as maiores imbecilidades com tanto que fossem indígenas. a respeito da Espanha. E por este lado talvez são os ingleses. os ouvimos emitir a série de leves miados displicentes em que consiste seu idioma. Renunciou-se nelas a todo "brilho" e vão escritas em estilo bastante pickwickiano. a meu juízo. são seus limites. ao mesmo tempo. esganiçar-se. dizer. ao qual atribuíam mágica potência. O aticismo havia triunfado sobre o laconismo. para silenciar. se me ofereça oportunidade para fazer ver tudo que quero dizer com isto. dando um espetáculo exagerado de seus mais congênitos defeitos. mas sim nos países . ainda convencido de que forçava um pouco a conjuntura.em ágora e praça. Quando chegamos a esse povo. na América do Norte representa atonia.falar sem parecer que dela falava nas páginas intituladas "Quanto ao pacifismo. sobre seus defeitos e limitações.. tem havido a radical decisão de não querer ouvir nenhuma voz espanhola capaz de esclarecer as coisas. No anglo-saxão . e importa sobremaneira à espécie humana que se conserve intacto esse tesouro e essa energia de taciturnidade. mas. dificultam enormemente a inteligência com outros povos. o prejuízo arcaico e a hipocrisia nova sem lhes pôr um limite. Mas. entrementes. como as de um homem. Talvez. O que mais me surpreendeu é a decidida vontade de não tomar conhecimento das coisas que há na opinião pública desses países. o mais estimável que há no mundo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ". Isto é uma força magnífica. Nisto sim é que se contrapõe a todos os demais povos e não é questão de mais ou de menos. na França.já a suspicácia do público inglês não tolerava outra coisa . O homem do Sul propende a ser gárrulo. a aproveitar o primeiro pretexto para falar sobre a Espanha e . ou de ouvi-la depois de deformá-la.não em seus governos. entorpecimento. de engenheiros e de homens piedosos. que. Dirigidas a ingleses. Respeito semelhante à Inglaterra não nos exime da irritação ante seus defeitos. a uma questão de mais ou de menos. no tempo próximo. E é que as virtudes de um povo. Não há povo que. taberna e tertúlia. vício e falha. Tenha-se presente que a Inglaterra não é um povo de escritores mas de comerciantes. composto de cautelas e eufemismos. no moral como no físico. não seja insuportável. Soube por isso forjar uma língua e uma elocução em que se trata principalmente de não dizer o que se diz.htm (98 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o primeiro que vemos são as suas fronteiras. que a originalidade extrema do povo inglês radica em sua maneira de tomar o lado social ou coletivo da vida humana. olhado desde outro. o logos. postos atrás de seus cachimbos. consolidadas. Sob esta disciplina. uma plasticidade e um garbo incomparáveis. Eu sustento. O inglês não veio ao mundo para dizer. velam os ingleses alerta sobre seus próprios segredos para que não escape nenhum. exasperantes. ao contrário. a dureza de cabeça. e para o ateniense viver era falar. de insinuar e ainda mais de iludir. por minha vez. vão elevadas. os povos românicos forjaram línguas complicadas. sobretudo com os nossos.

quer dizer. de se desprezar e injuriar porque são diferentes. não é muito capaz de ver o que há de cultura refinada. Devo advertir ao leitor que todas as notas foram acrescentadas agora e suas alusões cronológicas hão de ser referidas ao corrente mês. Goethe . pelo contrário. Sobretudo isto se raciocina tranqüilamente nas páginas imediatas. Quando alguém o fazia. e as páginas que seguem não fazem outra coisa senão tomá-lo pelo lado mais urgente. Como puderam chegar a não se entender tão radicalmente? A gênese de tão feia situação é longa e complexa.tinha razão. O tema do ensaio que segue é a incompreensão mútua em que caíram os povos do Ocidente . por exemplo. Este foi o sentido do cosmopolitismo que coagula no seu último terço. não obstante sua petulância e sua escassa ductilidade intelectual. De todas as causas que geraram as presentes desgraças do mundo. O assunto é. que o unicamente civilizado é vestir umas bombachas e dar pancadas numa bolinha com uma vara. Estes povos que agora se ignoram tão gravemente brincaram juntos quando eram crianças nos corredores da grande mansão comum. É. Paris. enfim. advirta-se que o uso de se converterem uns povos em juizes dos outros. a que talvez pode concretizar-se mais é o desarmamento da Inglaterra. de entusiasmo por elas. Esse mútuo desconhecimento tornou possível que o povo inglês. Para enunciar só um dos mil fios que naquele fato se atam.que a ele lhe parece a exemplar desocupação de "tomar sol" a que o castiço espanhol sói dedicar-se conscientemente. indubitável que o inglês de hoje. cometesse o gigantesco de seu pacifismo. mas se misturam a toda hora sua doméstica existência. Porque a Europa foi sempre como uma casa da vizinhança. Herder.em princípio . apesar de supor-se dono da verdade absoluta. O romanticismo que lhe sucedeu não é senão sua exaltação. sutilíssima e de alto alcance nessa ocupação .htm (99 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pois. O romântico enamorava-se dos outros povos precisamente porque eram outros. Ele crê.é o oposto do atual "internacionalismo". operação que habitualmente se dignifica denominando-a de "golf". e no uso mais exótico e incompreensível suspeitava mistérios de grande sabedoria. O cosmopolitismo de Fergusson. Busca a pluralidade de formas vitais com vistas não à sua anulação. Ao enciclopedista francês do século XVIII. 1938. povos que convivem desde sua infância. onde as famílias não vivem nunca separadas. porventura. Lema dele foram estas palavras de Goethe: "Só todos os homens vivem o humano". como um parvenu. Nutre-se não da exclusão das diferenças nacionais. Seu gênio político permitiu-lhe nestes meses corrigir com um esforço incrível de self-control o mais extremo do mal. mas à sua integração. o escândalo que provocava era prova de que o homem normal de então não via. não se lhe ocorria desdenhar um povo "inculto" e depauperado como a Espanha. são fenômenos que. abril. se não erro. tão parco em erros históricos graves.A rebelião das massas. O fato é estupefaciente. Pelo contrário: é o século das viagens cheias de curiosidade amável e prazenteira pela divergência do próximo. Porventura tenha contribuído para que adote esta resolução a consciência da responsabilidade contraída. mas com o entranhável desejo de colaborar na reconstituição da Europa. hermetizado pela consciência de seu poder político. nas diferenças de poderio diferença de nível humano. sem excessiva presunção. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E o caso é que . mas. de muito peso. jamais se haviam produzido até os últimos cinqüenta anos. de se permitirem crer as nações hoje poderosas que o estilo ou o "caráter" de um povo menor é absurdo porque é bélica ou economicamente débil.

Como quase sempre acontece. A única que entre elas existe de comum é uma coisa muito vaga: a crença em que a guerra é um mal e a aspiração a eliminá-la como meio de trato entre os homens. em geral. Todas as demais formas de disciplina procedem da primigênia. Mas é evidente que não me corresponde agora nem aqui fazer um estudo no qual ficaria definido com certa precisão o peculiar pacifismo em que a Inglaterra . que alguém teria direito a revisar rapidamente a questão e a se perguntar se não é um erro todo pacifismo. de verdade. Eu suponho que os ingleses se dispõem já. Talvez fosse muito mais útil do que se imagina um estudo completo sobre as diversas formas do pacifismo. o desânimo.seu Governo e sua opinião pública . Ela levou a um dos maiores descobrimentos. Cometemos o erro de designar com este único nome atitudes mui diferentes. um crime ou um vício.embarcou há vinte anos. a descobrir sem piedade suas raízes e a construir energicamente a nova concepção das coisas que isto nos proporciona. QUANTO AO PACIFISMO Há vinte anos (90) a Inglaterra . Há. Não há nunca razão suficiente nem para um nem para o outro. Mas isso sublinha tanto mais quanto houve de erro no resto. com efeito. A guerra não é um instinto. Contra o que acreditem os jeremias. O reconhecimento de um erro é por si mesmo uma nova verdade é como uma luz que dentro deste se acende. Por que desanimar? Talvez as duas únicas coisas a que o homem não tem direito são a petulância e seu oposto. Por outra parte. dos que se apresentam como titulares do pacifismo . como a ciência e a administração. apenas reconhecendo-o. entretanto.seu Governo e sua opinião pública . Pelo contrário. Dele emergiria não escassa claridade. antes disso e acima disso. Isso quer dizer que esse pacifismo foi um erro. Ao dizer isto não sugiro nada que possa levar ao desânimo. Para isso é preciso que nos resolvamos a estudá-lo a fundo. que foi a disciplina militar. Mas os pacifistas começam a discrepar quando dão o passo imediato e interrogam-se até que ponto é em absoluto possível o desaparecimento das guerras.A rebelião das massas. Mas eu prefiro agora adaptar-me quanto possa ao ponto de vista inglês. a retificar o enorme erro que durante vinte anos tem sido seu peculiar pacifismo e a substituí-lo por outro pacifismo mais perspicaz. a realidade atual facilita desgraçadamente o assunto.embarcaram no pacifismo. se converte magicamente em uma nova vitória para o homem. e vou supor que sua aspiração à paz do mundo era uma excelente aspiração. Enfim: a divergência torna-se superlativa quando se põem a pensar nos meios que exige uma instauração de paz sobre este pugnacíssimo globo terráqueo. mas um invento. Mas esquece que. como é haver cometido um erro. O fracasso foi tão grande. mas decididamente. o defeito maior do pacifismo inglês . muitas formas de pacifismo. a guerra é um enorme esforço que os homens fazem para resolver certos conflitos. É um fato demasiado notório que esse pacifismo inglês fracassou. base de toda civilização: ao descobrimento da disciplina.tem sido subestimar o inimigo. O pacifista vê na guerra um dano. Em vez de chorar sobre ele convém apressar-se a explorá-lo. Esta subestima lhes inspirou um diagnóstico falso.e. Os animais a desconhecem e é de pura instituição humana. todo erro é uma propriedade que acresce nosso haver.htm (100 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. tão diferentes que na prática vêem a ser com freqüência antagônicas. pacifista. serenamente. Baste advertir o estranho mistério da condição humana consistente em que uma situação tão negativa e de derrota. tão rotundo. a saber. na apreciação das possibilidades de paz que o mundo atual oferecia e na determinação da conduta que há de seguir quem pretenda ser.

ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz. Acredita-se que basta isso. Hoje. enquanto não se inventasse outro meio. histórico. Augusto Comte. Na hora de sua invenção significou um progresso incalculável. não passe a ser um difícil conjunto de novas técnicas. Para ver com clareza a questão façamos o que fazia lord Kelvin para resolver seus problemas de física: construamos um modelo imaginário. vemos dela apenas a suja espádua. sua insuficiência. Os romanos. um sistema de esforços complicadíssimos. o deus do chegar e o deus de ir. a saber: o aspecto que têm ao chegar e o aspecto que têm ao ir. creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. Não se espere nesta ordem nada fértil enquanto o pacifismo. Mas o enorme esforço que é a guerra. sem mais reflexão. Do mesmo modo. de ser um gratuito e cômodo desejo. sua rusticidade. por sua parte. mui finamente. a vontade de paz o que importa ultimamente no pacifismo. O outro é puro erro. pronta para que o homem a goze. então. tentou fazer. só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior. porque os conflitos reclamariam solução. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. aprendendo a olhar todas as coisas humanas sob essa dupla perspectiva. Pelo contrário. e que se se reprime o apaixonamento. guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida. costumamos. Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou. que há que fabricar. era um meio que haviam inventado os homens para solucionar certos conflitos. o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. A paz não "está aí".A rebelião das massas. que tinha um grande sentido humano. encarregaram duas divindades de consagrar esses dois instantes . Por isso. maldizer da escravidão. Imaginemos. a guerra reapareceria inexoravelmente nesse imaginário planeta habitado só por pacifistas. Por desconhecer tudo isso. não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. requerem a venturosa intervenção do gênio. como a Inglaterra. trabalhar em que não se fizesse. mais ainda. quer dizer. pondo na faina todas as potências humanas. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse. tem ele de fazê-lo.Adeona e Abeona. um fazer que se assemelha tanto a um puro omitir? Essa crença é incompreensível se não se adverte o erro de diagnóstico que lhe serve de base. Não é. de construí-lo. deixa-os mais intactos e menos resolvidos que nunca. e que. seu horror. conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor. tem a guerra dois aspectos: o da hora de sua invenção e o da hora de sua superação. em suma. em vez de matar os prisioneiros. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a saber: a idéia de que a guerra procede simplesmente das paixões dos homens. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. simplesmente. o belicismo ficará asfixiado. que com isso se havia dado o mais breve passo eficiente no sentido da paz? Grande erro! A guerra. que é elementar. Se se atende a tudo isso. em parte. portanto. não parecerá surpreendente a crença em que esteve a Inglaterra de que o mais que podia fazer a favor da paz era desarmar. repitamos.libertando-se das tolices que Rousseau disse sobre ela . A ausência de paixões. que em certo momento todos os homens renunciassem à guerra. A renúncia à guerra não suprime estes conflitos. quando aspiramos a superá-la. também a paz é uma coisa que importa fazer. a vontade pacífica de todos os homens seriam completamente ineficazes. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano. pelo contrário. viu já deste modo a instituição da escravidão .htm (101 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pois. É preciso que este vocábulo deixe de significar uma boa intenção e represente um sistema de novos meios de trato entre os homens. e. Como toda forma histórica. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou. o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil.e a nós nos corresponde generalizar sua advertência. Nada importante é apresentado ao homem.

Então. A paz. E não havendo nada disso. para só nos referirmos aos dois maiores e mais recentes cadáveres. atuarão inevitavelmente como instâncias para a conduta às quais se pode recorrer. como puro teorema incubado na mente de algum pensador. simplesmente porque a desejamos. que aquelas idéias de direito se consolidem em forma de "opinião pública". quer dizer. contribui a ocultar-nos a indigência de verdadeiro direito internacional que padecemos. Só é moral o desejo que é acompanhado da severa vontade de aprontar os meios de sua execução. que essa expansão chegue de tal modo a ser predominante. pretende-se que desapareçam as guerras entre eles? Permita-se-me que qualifique de frívola. Para que o direito ou um ramo dele exista é preciso: 1o. chamamos de paz. cujo exercício concreto e preciso constitui isso que. adverte-se que são as mesmas resolvidas de há muito pela diplomacia. a importância dessas magistraturas. na plenitude do termo. isto é. pelo menos. que os últimos cinqüenta anos presenciaram. E esta é a verdadeira substância do direito. podemos falar.A rebelião das massas.. Não sabemos quais são os "direitos subjetivos" das nações e não temos nem indícios de como seria o "direito objetivo" que possa regular seus movimentos. Se aquelas idéias senhoreiam de verdade as almas. de imoral. como não existe nem sequer como idéia. Com efeito: se se passa revista às matérias julgadas por esses tribunais. a coletividade que formam os povos europeus e americanos. Não desestimo. não importa que não haja juizes. especialmente inspirados. Mas é indispensável para contribuir um pouco a despertar o interesse para novas grandes empresas. de direito. Pois bem: o pacifismo usual dava como suposto que esse direito existia. que alguns homens. E não só não existe no sentido de que não haja alcançado ainda "vigência". incluindo os domínios ingleses da Oceania). Porque é imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente.. e só então. não havendo nem em teoria um direito dos povos. descubram certas idéias ou princípios de direito. o mesmo que já existia antes de seu estabelecimento. a propaganda e expansão dessas idéias de direito sobre a coletividade em questão (em nosso caso. de uma etapa que se iniciou com o Tratado de Versalhes e com a instituição da Sociedade das Nações. O enorme dano que aquele pacifismo trouxe à causa da paz consistiu em não deixar-nos ver a carência das técnicas mais elementais. Não significam progresso algum importante no que é essencial: na criação de um direito para a peculiar realidade que são as nações. por exemplo. que não se tenha consolidado como norma firme na "opinião pública". 2o. 3o. para novas tarefas construtivas e salutíferas. é o direito como forma de trato entre os povos. Pois bem: um direito referente às matérias que originam inevitavelmente as guerras não existe.htm (102 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . no essencial. semelhante pretensão. É preciso que não se volte a cometer um erro como foi a criação da Sociedade das Nações. entende-se. Repugna-me atrair a atenção do leitor sobre coisas falidas. Não importa que não haja legislador.. de norma vigente. o que concretamente foi e significou esta instituição na hora de seu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Ora bem: isto é gravemente oposto à verdade. maltratadas ou em ruínas. que estava aí à disposição dos homens e que só as paixões destes e seus instintos de violência induziam a ignorá-lo. Mas a importância desses tribunais internacionais tem se reduzido a isso até hoje. A proliferação de tribunais internacionais. de órgãos de arbitragem entre Estados. O direito que administram é. Sempre é importante para o progresso de uma função moral que apareça materializada em um órgão especial claramente visível. com um vago nome. de maneira nenhuma. Nem era lícito esperar maior fertilidade nesta ordem.

Todas as grandes épocas da história nasceram da sutil colaboração entre esses dois tipos de homem.htm (103 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O "espírito" que propeliu para aquela criação. pode. sem remédio. Quais são. resolvê-lo. Sua vacuidade de justiça encheu-se fraudulentamente com a sempiterna diplomacia. também os políticos não fizeram caso desses homens. O bem que pretende ser o direito se converte em um mal.dizia eu. que se converte em uma camisa de força.A rebelião das massas. coisas históricas. históricas. recebem antes que os demais a visita do porvir (91). sequer teoricamente. e entre os povos estalam as guerras. O direito. Houve homens na Europa que já então denunciaram seu inevitável fracasso. que ao disfarçar-se de direito contribuiu à universal desmoralização. Mas é o caso que as coisas humanas não são res stantes. enfrentar aquela empresa e resolver-se a acometê-la. e não debalde seu órgão principal se chama Estado. Dentro do povo produzem-se as revoluções. ou por possuir almas sensíveis como finos registradores sísmicos. Mas uma época que assistiu ao invento das geometrias não-euclidianas. choca. exatamente tão difícil como a paz. por exemplo. e diga-se a si mesmo se encontra em sua mente uma possível norma jurídica que permita. mas pelo contrário. de uma física de quatro dimensões e de uma mecânica do descontínuo. Sempre será este quem deva governar. Daí . a esta altura da história e da civilização. e não o profeta. sociológicas e jurídicas de que emanaram seu projeto e sua figura estava já historicamente morto naquela data. Mas. sem profecia. É talvez uma das causas profundas do atual desconcerto seja que há duas gerações os políticos se declararam independentes e cancelaram essa colaboração. Formule-se o leitor qualquer dos grandes conflitos que há atualmente estabelecidos entre as nações. puro movimento. E não se diga que é coisa fácil proclamar isto agora. como já nos ensina a Bíblia: "Por que tomastes o direito file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o problema do novo direito internacional pertence ao mesmo estilo que esses recentes progressos doutrinais. Mas uma camisa de força posta num homem são tem a virtude de torná-lo louco furioso. com a qual coincide. os direitos de um povo que ontem tinha vinte milhões de homens e hoje tem quarenta ou oitenta? Quem tem direito ao espaço não habitado do mundo? Estes exemplos. o sistema de idéias filosóficas. sem espanto. Não foi um erro qualquer. com efeito. É difícil. pertencia ao passado. os mais toscos e elementais que podem ser apontados. uma vez mais. Foi um erro histórico. mutação perpétua. Sem dúvida. a saber: que foi predita.o direito . os quais. O homem não conseguiu ainda elaborar uma forma de justiça que não esteja circunscrita na cláusula rebus sic stantibus. põem bem à vista o caráter ilusório de todo pacifismo que não comece por ser uma nova técnica jurídica. o direito que aqui se postula é uma invenção muito difícil. nascimento. Uma vez mais aconteceu o que é quase normal na história. mas importa muito aos destinos humanos que o político ouça sempre o que o profeta grita ou insinua. como os habituais na difícil faina que é a política. entregue a uma cega mecânica. Evito precisar a que grêmio pertenciam os profetas. navegue o mundo mais à deriva que nunca. e longe de antecipar o futuro era já arcaico.de certa radical limitação que sempre padeceu. é estático. recentemente -. A Sociedade das Nações foi um gigantesco aparelho jurídico criado para um direito inexistente. Baste dizer que na fauna humana representam a espécie mais oposta ao político. pelos temas de que habitualmente se ocupam. E como a realidade histórica muda periodicamente de modo radical. Mercê disso produziu-se o vergonhoso fenômeno de que. esse estranho aspecto patológico que tem a história e que a faz parecer como uma luta sempiterna entre os paralíticos e os epilépticos. Também aqui se trataria de libertar uma atividade humana . com a estabilidade do direito. Talvez as catástrofes presentes abram de novo os olhos dos políticos para o fato evidente de que há homens. Em certo modo. Cada vez é menos possível uma sã política sem larga antecipação histórica. quer dizer. Foi um erro que reclama o atributo de profundo. Se fosse fácil existiria há muito tempo. O direito tradicional é só regulamento para uma realidade paralítica.

o fenômeno jurídico mais avançado que se produziu até hoje no planeta: a British Commonwealth of Nations. Não está sequer baseada numa Constituição. substituir o que não parece ser senão "coisa" jacente. a mudança na divisão do poder sobre a terra. extrair a teoria que nele jaz muda . no qual adquire sua expressão mais extrema e depurada o que talvez é o destino intelectual do Ocidente. Há mais de setenta anos. tanto civil como político. a meu juízo. O homem necessita um direito dinâmico. 12). Considerada no que ao direito importa. pois. em fel e o fruto da justiça em absinto?" (Oseas. Porque a elasticidade é a condição que permite a um direito ser plástico. No direito internacional. uma idéia de que a princípio se julgou inteligível e que é hoje base da nova mecânica. Dir-me-ão que isto é impossível. 6. o mais fértil seria analisar a fundo e tentar definir com precisão -. Em princípio. O outro." Seria um erro não ver nestas duas fórmulas senão emanações do oportunismo político. Longe disso. a saber: interpretar tudo que é inerte e material como puro dinamismo. enunciado por sir Austin Chamberlain em seu histórico discurso de 12 de setembro de 1925: "Vejam-se as relações entre as diferentes seções do Império britânico. movimentos e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. antes de tudo. capaz de acompanhar a história em sua metamorfose. O que não fazem é defini-la. está proibido: definir as coisas. nem utópica. quieta e fixa por forças. e se se lhe atribui uma margem. regulem satisfatoriamente essas mudanças do poderio. o formulado por Balfour em 1926 com suas famosas palavras: Nas questões do Império é preciso evitar o refining. Não estranhe. o direito. Importaria muito reduzir a conceitos claros essa situação efetiva de direito que consiste em puras "margens" e simples "elasticidades". Provavelmente. Porque queremos conservar a toda coisa uma margem e uma elasticidade.htm (104 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . porque precisamente esse estranho fenômeno jurídico foi forjado mediante estes dois princípios: um. ao menos em teoria. evolui neste sentido. convém recordá-lo. A maneira inglesa de ver o direito não é senão um caso particular do estilo geral que caracteriza o pensamento britânico. e se o político é inglês sente que definir algo é quase cometer uma traição. a constituição do Império britânico parece-se muito ao "molusco de referência" de que falou Einstein. Se em vez de entender estes dois caracteres como meras ilusões e como insuficiências de um direito. esta incongruência entre a estabilidade da justiça e a mobilidade da realidade. um direito plástico e em movimento. embora estas se apresentem com a pretensão de ser essencialmente vagas. E isso não certamente por casualidade.A rebelião das massas. é que se prevê seu movimento. que o pacifista quer submeter àquela. é possível que se abram diante de nós as mais férteis perspectivas. a história é. expressam mui adequadamente a formidável realidade que é a British Commonwealth of Nations e a designam precisamente sob seu aspecto jurídico. chega a sua máxima potência. Mas. Embora o expediente seja um pouco ingênuo. Mas é evidente que há outros homens cuja missão é fazer o que ao político. isto é. o fracasso da Sociedade das Nações. o princípio "da margem e da elasticidade". as tomamos como realidades positivas. todo pacifismo é pena de amor perdida. e especialmente ao inglês. nem sequer nova. Porque se a realidade histórica é isso ante tudo. gigantesco aparelho construído para administrar o statu quo. Por exemplo: quase todas as constituições contemporâneas procuram ser "abertas". porque nele se declara a aspiração a um direito semovente. a unidade do Império britânica não está feita sobre uma constituição lógica. E enquanto não existam princípios de justiça que. não é mais nem menos difícil definir o triângulo que a névoa. A capacidade para descobrir a nova técnica de justiça que aqui se postula está pré-formada em toda a tradição jurídica da Inglaterra mais intensamente que na de nenhum outro país. porque um político não veio ao mundo para isso. discussing or defining. parecerá evidente que a injúria máxima seja o statu quo. A demanda não é exorbitante.

isto é. mas num estádio muito avançado de sua evolução. e mediante um pacto criariam uma sociedade nova. quando alguém lhe fale de um fato jurídico. pelo contrário. Sem que eu pretenda resolver agora com atitude dogmática. fora da física. as questões mais intrincadas da filosofia do direito e da sociologia. Desgraçadamente. uma associação. À técnica do puro pensamento jurídico devem acompanhar muitas outras técnicas ainda mais complicadas. Isto significa a invenção e exercício de toda uma série de novas técnicas. No vazio social não há nem nasce direito. dos quais o direito é irmão menor. manifeste meu desideratum de ler um livro cujo tema seja este: o newtonismo inglês. que não é obra de nenhum pacto. tal como o uso e o costume. Permita-se-me apenas que. Talvez o Estado proporciona ao direito certas perfeições. como empedernido leitor. em todas as ordens da vida. Nesse vazio social as nações se reuniriam. portanto. atrevo-me a insinuar que caminha seguro quem exija. constituído por uma linha simples e clara. mas o pacifismo não consiste nisso. Está bem que o homem pacífico se ocupe diretamente em evitar esta ou aquela guerra. Mas a idéia de um novo direito não é ainda um direito. Não esqueçamos que o direito se compõe de muitas coisas mais que uma idéia: por exemplo. que lhe indique a sociedade portadora desse direito e prévia a ele. Mas isso tudo tem o ar de um calembour (92).htm (105 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas é bem claro que o aparelho estatal não se produz dentro de uma sociedade. formam parte dele os bíceps dos gendarmes ou seus sucedâneos. Porque o direito nos pareceria ser um fenômeno que acontece dentro das sociedades. a Sociedade das Nações. A primeira delas é uma nova técnica jurídica que comece por descobrir princípios de eqüidade referentes às mudanças da divisão do poder sobre a terra. o próprio nome de direito internacional estorva uma clara visão do que seria em sua plena realidade um direito das nações. creio eu. quer dizer. mas é o resultado de uma convivência inveterada. que não existe sintoma mais seguro para descobrir a existência de uma autêntica sociedade que a existência de um fato jurídico. funções. Mas não creio que seja necessário deter-me neste ponto. parecerá.A rebelião das massas. Quando falamos das nações tendemos a representá-las como sociedades separadas e fechadas em si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. num vazio social. mas mais enérgico. mas é necessário enunciar ante leitores ingleses que o direito existe sem o Estado e sua atividade estatutária. Turva a evidência disto a confusão habitual que padecemos ao crer que toda autêntica sociedade tem forçosamente de possuir um Estado autêntico. por mágica virtude dos vocábulos. Uma sociedade constituída mediante um pacto só é sociedade no sentido que este vocábulo tem para o direito civil. Este requer como substrato uma unidade de convivência humana. mas em construir a outra forma de convivência humana que é a paz. Mas uma associação não pode existir como realidade jurídica se não surge sobre uma área onde previamente tem vigência certo direito civil. Essa área onde a sociedade ajustada surge é outra sociedade preexistente. Daí o calembour. newtoniana. e o chamado "internacional" nos convida. Esta autêntica sociedade e não associação só se parece à outra no nome. que seria. a imaginar um direito que acontece entre elas. A tal ponto é assim. de passagem e avoadamente. Outra coisa são puras fantasmagorias. Se resumo agora meu raciocínio. em todas as demais ordens da vida. Suponho que cem vezes se terá feito constar e terá sido demonstrado com suficiente pormenor. A Inglaterra tem sido.

porque as únicas possibilidades de paz que existem dependem de que exista ou não efetivamente uma sociedade européia. Não seria nada exagerado dizer que a sociedade européia existe antes que as nações européias. mesmas. Entre sociedades independentes não pode existir verdadeira paz.intelectual. A Europa tem sido sempre um âmbito social unitário. o que chamaremos sua "vigência". não há sociedade sem a vigência efetiva de certa concepção do mundo. Os ingleses podem ver isto com alguma clareza no livro do Dawson: The Making of Europe. mas não se ignore seu efetivo caráter de sociedade. sentimental ou físico que se impõe aos indivíduos. Segundo isto. dentro da qual se produziram grumos ou núcleos de condensação mais intensa. essa convivência (94). Como os fenômenos corporais são o idioma e o hieróglifo. Mas isto é uma abstração que deixa de fora o mais importante da realidade. como o bilhar. Sem dúvida. usos de técnica vital ou "costumes". podem os pacíficos despedir-se rapidamente de suas esperanças (93). tão somente. Em vez de nos afigurarmos as nações européias como uma série de sociedades livres. imaginemos uma sociedade única . usos que a imperam ou "direito -. a qual atua como uma última instância a que se pode recorrer em casos de conflito. a convivência entre os homens da Inglaterra e os homens da Alemanha ou da França. usos que dirigem a conduta ou "moral". A convivência. velha de muitos séculos e que tem uma história própria como possa tê-la cada nação particular. foi a convivência ocidental.dotadas dessa força coactiva tão estranha em que consiste "o social". Por esta razão censuro essa figura da Europa em que esta aparece constituída por uma multidão de esferas . mercê ao qual pensamos as realidades morais.que só mantêm alguns contatos externos. resistir ao uso. após a morte do período romano. que a Europa é uma sociedade mais tênue que a Inglaterra ou que a França. que são os usos . Corrijamo-la. Esta metáfora de jogador de bilhar deveria desesperar ao bom pacifista.convicções comuns e tábuas de valores . Esta sociedade geral possui um grau ou índice de socialização menos elevado que o alcançado desde o século XVI pelas sociedades particulares chamadas nações européias. mas de dar expressão gráfica ao que realmente foi desde a sua iniciação. Não se trata com isso de desenhar um ideal. pois. Introduction to the History of European Society.htm (106 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . viver em sociedade ou formar parte de uma sociedade. que a Europa é uma sociedade. não nos promete mais eventualidade que a "carambola". porque.usos intelectuais ou "opinião pública". mas precisamente este esforço de resistência demonstra melhor que nada a realidade coactiva do uso. Se a Europa é só uma pluralidade de nações. Mas é evidente que existe uma convivência geral dos europeus entre si. Convivência implica só relações entre indivíduos. sem fronteiras absolutas nem descontinuidades. O indivíduo poderá. por exemplo. portanto. Diga-se. a convivência ou trato dos ingleses entre si é muito mais intensa que. com efeito. e que estas nasceram e se desenvolveram no regaço maternal daquela. A coisa importa superlativamente. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. por sua conta e risco. e. porque jamais faltou esse fundo ou tesouro de "vigências coletivas" . O que costumamos chamar assim não é mais do que um estado de guerra mínima ou latente. não é preciso dizer o dano que engendra uma errônea imagem visual convertida em hábito de nossa mente. não significa sociedade. pois. O caráter geral do uso consiste em ser uma norma do comportamento . queiram ou não queiram. Esta figura corresponde muito mais aproximadamente que a outra ao que.as nações .A rebelião das massas.a Europa -. Pois bem: uma sociedade é um conjunto de indivíduos que mutuamente se sabem submetidos à vigência de certas opiniões e avaliações. Mas não pode haver convivência duradoura e estável sem que se produza automaticamente o fenômeno social por excelência.

organização. É uma das muitas coisas cuja grave importância os políticos não souberam ver. Eu o lamento. atuava nas camadas profundas do Ocidente. M. por baixo de todas as suas superficiais desordens. Está escrito por uma mente alerta e ágil. as realidades históricas. quer só dizer que fora necessário chamar médicos ótimos e não qualquer transeunte. Mais: talvez é o único no Universo que tem por si mesmo estrutura. em maior ou menor escala. como. porque as formas tradicionais da ótica histórica tapavam esta realidade unitária que chamei. Que profano. A realidade histórica ou. e se. Quer dizer. Havia no mundo uma amplíssima e potente sociedade . Isso não quer dizer que seja incurável. mas a sociedade é convivência sob instâncias. Este último aspecto é o que mais nos importa para as aflições atuais. sem "idealizações".carece dela. desceu gravemente fazendo temer a cisão radical da Europa e. não é um amontoado de fatos soltos. A verdade é que esses povos em plural flutuam como ludiões dentro do único espaço social que é a Europa: "nele se movem. instituto anti-histórico que um maldizente poderia supor inventado em um clube cujos membros principais fossem M. Mas este assunto nunca foi visto. a despeito das aparências. Pois bem: nada hoje deveria importar tanto ao pacifista como averiguar que é o que acontece nessas camadas profundas do corpo ocidental. Mas não forjemos ilusões. é possível diagnosticar com certa precisão o lugar ou estrato do corpo histórico onde a enfermidade radica. E o é. mas não está em mim evitá-lo. vivem e são". entendida como acabo de apontar. que é um excessivo exoterismo. toda a ordem de que esse resto era capaz. parecerá abstruso. e pôs nele.as nações -. que não se pode esperar remédio algum da Sociedade das Nações. sobretudo. "sociedade européia" e a suplantavam por um plural . mas que possui uma estrita anatomia e uma clara estrutura. Pickwick. aparece no título de Ranke: História dos povos germânicos e românicos. em ocasiões. por causas profundas. independente de que seja acertado ou errôneo. São fatos soltos aos quais o físico tem que inventar uma estrutura imaginária. as ciências derivam irresistivelmente em direção esotérica. Entretanto. os fenômenos físicos . Poderia acontecer que hoje em dia faltassem essas instâncias em uma proporção sem exemplo. sensu stricto. conceitos mais ou menos melodramáticos e míticos que ocultam. ao ler um fino exame de sangue. e. Esta ordem que. por exemplo. por que se volatilizou o sistema tradicional de "vigências coletivas".htm (107 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . conforme foi e continua sendo. conserva alguma destas latente vivacidade.a sociedade européia -.A rebelião das massas. Por file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mais vulgarmente dito. ao longo de toda a história européia. Quando a estudamos bem. qual é seu índice atual de socialização. mas que não se liberou de modo completo do arsenal de conceitos tradicionais na historiografia. A história que eu postulo nos contaria as vicissitudes desse espaço humano e nos faria ver como seu índice de socialização variou. em vez de revelar. Os editoriais dos jornais e os discursos de ministros e demagogos não nos dão notícia dela. vê ali definida uma terrível enfermidade? Esforcei-me sempre em combater o esoterismo. em parte. embora achacados do vício oposto. Mas essa anatomia da realidade histórica necessita ser estudada. Neste caso a enfermidade seria a mais grave que sofreu o Ocidente desde Diocleciano ou os Severos. respeitáveis. A foro de sociedade. irradiaram durante gerações sobre o resto do planeta. Homais e congêneres. Há um século. estava constituída por uma ordem básica devido à eficiência de certas instâncias últimas . O anterior diagnóstico. o que sucede no mundo humano. Também os diagnósticos mais rigorosos da medicina atual são abstrusos. sobretudo. Tudo o mais por exemplo. como.o credo intelectual e moral da Europa -. o livro de Dawson é insuficiente. como a dose de paz em cada época esteve na razão direta desse índice. Poucas coisas contribuiriam a apaziguar o horizonte como uma história da sociedade européia. Porque o direito é operação espontânea da sociedade. que é por si um dos males do nosso tempo. uma história realista. com efeito.

Esta conduta significa erro. de que se encontra em um mundo onde falta ou está muito debilitado o requisito principal para a organização da paz. independente de todo grupo ou indivíduo determinado. A pura verdade é que. ou uma ficção deliberada? É inocência ou é tática? Não sabemos a que nos ater. Esta debilitação subitânea da comunidade entre os povos do Ocidente eqüivale a um enorme file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Ao adverti-lo. referir-se a ele.A rebelião das massas. na Inglaterra e na América do Norte (95). quando é com plenitude vigente. Pelo contrário: todo grupo determinado procura sua máxima fortaleza reclamando para si essas vigências. Isso é que o pacifista precisa compreender. Uma parte da Europa esforça-se em fazer triunfar uns princípios que considera "novos". temo que seja funesto para o pacifismo. No trato de uns povos com outros não cabe recorrer a instâncias superiores. a Europa se encontra em estado de guerra. convertendo-se em matéria córnea. E a origem que atribui a esta situação parece-me confirmado pelo fato de que não somente existe uma guerra virtual entre os povos. mas não agora nem por mim (96). Ora bem: isto acontece ainda hoje. mas é inquestionável e constitui o fato fundamental da sociedade. A Europa está hoje dissocializada. há somente que usá-lo. porque no homem anglo-saxão a função de se expressar. Ora bem. impessoal. com excessiva freqüência. separados e frente a frente. A atmosfera de sociabilidade em que flutuavam e que. É frívolo interpretar os regimes autoritários do dia como engendrados pelo capricho ou pela intriga. esta é a melhor prova de que nem uns nem os outros são vigentes e perderam ou não alcançaram a virtude de instâncias. porque não as há. pois. O fenômeno é surpreendente. as fronteiras eram para o viajor pouco mais que coluros imaginários. e às vezes crendo inclusive que combatem contra elas. como um éter benéfico entre eles. Vice-versa. quando uma idéia perdeu esse caráter de instância coletiva. anônimo. As vigências operam seu mágico influxo sem polêmica nem agitação. como se faz com a lei de gravidade. Bem claro está que são manifestações iniludíveis do estado de guerra civil em que quase todos os países se encontram hoje. às vezes sem que estas se apercebam de que estão dominadas por elas. As vigências são o autêntico poder social. quietas e jacentes no fundo das almas. há trinta anos. Enquanto. em um estado de guerra substancialmente mais radical que em todo o seu passado. não recebe seu vigor do esforço senão impô-la ou sustentá-la empregam grupos determinados dentro da sociedade. ficamos perplexos. Agora se vê como a coesão interna de cada nação se nutria em boa parte das vigências coletivas européias. Mas. declarada ou preparando-se. inversamente. Mas. a outra esforça-se em defender os tradicionais. que anulava a porosidade das nações e as tornava herméticas. uma grave discórdia. enquanto não há senão aceitar a situação e reconhecer que o conhecimento distanciou-se radicalmente das conversações de beer-table. talvez represente um papel diferente que nos demais povos europeus. produz uma impressão entre cômica e inquietante ver que alguém considera suficiente aludir a ela para se sentir justificado ou fortalecido. Quando uma opinião ou norma chegou a ser de verdade "vigência coletiva". faltam princípios de convivência que sejam vigentes e a que caiba recorrer.htm (108 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . aniquilou-se. teria de ver se não foi um dos fatores que contribuíram ao desprestígio das vigências européias o peculiar uso que delas tem feito a Inglaterra. todos vimos como iam rapidamente endurecendo-se. ou. mas dentro de cada povo há. de "dizer". quer dizer que este não é ainda ou deixou de ser vigente. seja um ou outro o sentido desse comportamento. Mais ainda. há anos. o que é o mesmo. interposta. lhes permita comunicar suavemente. amparar-se nele. A questão deverá algum dia ser estudada a fundo. No momento em que é preciso lutar em prol de um princípio. Ficam.

Sem tardança e de verdade.agora e não de há um século . com efeito.aproximaram os povos e unificaram a vida no planeta. De tal sorte que. etc. a tempo e hora. com efeito. não se apercebeu de que a época sem par dos inventos técnicos e de sua realização foram os últimos quarenta anos. está em os outros povos ou em sua absoluta imediação. está visto claramente hoje que se tratava só de uma entusiasta antecipação. entretanto. distanciamento moral. e o ritmo de seu efetivo emprego nessa brevíssima etapa. e só mais tarde se convertem em realidades. aproximar-se a outro ser humano. as almas começaram a se cansar desses lugares comuns.htm (109 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . telefone -. pudesse dizer-se que as formas da saudação são função da densidade de povoação. E isso em todas as ordens. Por isso corre ao longo de toda a história a evolução da técnica da aproximação. apressou-se a emitir torrentes de retórica sobre os "avanços". emocionado ante as primeiras grandes conquistas da técnica científica. afinal. monstruoso. Mas nem se havia ainda aperfeiçoado sua invenção nem se haviam posto amplamente em serviço. portanto. sem mais nem menos. Não poucos dos profundos desajustes na economia atual advêm da súbita mudança que causaram na produção estes inventos. o "progresso material". que é o que inspirou de modo concreto todo este artigo.suas conseqüências radicais (97). isto é. Alguns dos meios que haviam de tornar efetiva essa aproximação existiam já em princípio . nestes últimos anos recebe cada povo. O século XIX. Mas como sempre acontece. Que uma só fábrica seja capaz de produzir todas as lâmpadas elétricas ou todos os sapatos de que necessita meio continente é um fato demasiado afortunado para não ser. O trato entre eles é dificílimo. embora os aceitassem como verídicos. de sopetão. Neste caso. pois. ainda que haviam chegado a persuadir-se de que o século XIX havia. ferrocarris. transferência de produtos e transmissão de notícias . Talvez. Dito de outro modo: para os efeitos da vida pública universal. Convencido o homem médio de que a centúria anterior era a que havia dado cume aos grandes empreendimentos. como são o motor a explosão e a rádio-comunicação. Os princípios comuns constituíam uma espécie de linguagem que lhes permitia entender-se. Não adverte o leitor. Porque esse distanciamento moral se complica perigosamente com outro fenômeno oposto.A rebelião das massas. tal quantidade de notícias e tão recentes sobre o que se passa nos outros. Como vimos de uma das épocas históricas em que a aproximação era aparentemente mais fácil. reduziu-se. o perigoso de semelhante conjuntura? Sabido é que o ser humano não pode. tão necessário que cada povo conhecesse bem a singulatim a cada um dos demais. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Isso mesmo aconteceu com as comunicações. e que essa mudança está produzindo agora . Há quase meio século fala-se de que os novos meios de comunicação . Mas com isto frisamos a linha de nossas considerações iniciais. telégrafo. O número e importância dos descobrimentos. supera em muito todo o pretérito humano tomado em conjunto. Quase sempre as coisas humanas começam por ser lendas. que provocou nele a ilusão de que.deslocamento de pessoas. nem sequer se haviam inventado os mais decisivos. realizado já o que aquela fraseologia proclamava. cujas características convém precisar um pouco. que a efetiva transformação técnica do mundo é um fato recentíssimo. cuja parte mais notória e visível é a saudação.vapores. E isto acontece precisamente na hora em que os povos europeus mais se distanciaram moralmente. Não era. tendemos a esquecer que sempre foram mister grandes precauções para aproximar-se dessa fera com veleidades de arcanjo que costuma ser o homem. Refiro-me a um gigantesco fato. da distância normal a que estão uns homens dos outros. o tamanho do mundo subitamente se contraiu. Quer dizer. Os povos se encontram de improviso dinamicamente mais próximos. Isto ocasionou um curioso erro de ótica histórica que impede a compreensão de muitos conflitos atuais. com certas reservas. essa opinião era um exagero. mudança à qual não teve tempo de se adaptar o organismo econômico.

como se vê. que só poderia contrariar mediante uma coisa muito difícil. os fatos insofisticáveis. Dito com outras palavras obtemos esta proposição: é maximamente improvável que em assuntos graves de seu país a "opinião pública" careça da informação mínima necessária para que seu juízo não corresponda organicamente à realidade julgada.htm (110 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . No Saara cada tuaregue possui um raio espacial que alcança bastantes milhas. ao menos com suficiente ênfase. É maximamente provável que essa opinião surta em alto grau incongruente. empilhados. Porque o Estado é. povos pululantes. como atributo. O povo A pensa e opina. a rigor. e em vez de "tu" dirá algo assim como "a maravilha presente". Como aqui falta a "verdade" do vivido. Tem se falado muito estes meses da intervenção ou não-intervenção de uns Estados na vida de outros países. que viveu e. que é a realidade histórica mesma e tem um valor e uma força superiores a todas as doutrinas. que.A rebelião das massas. com quem. As realidades que ajuíza são o que efetivamente passou o mesmo sujeito que as ajuíza. aos quais não pode faltar um mínimo de reflexão e sentido de responsabilidade. Na China e no Japão. por baixo dessas discrepâncias "teóricas". muito mais grave que aquela. afinal das contas. em compacto formigueiro. a saber: uma informação suficiente. em suma. que ao extremo oriental lhe produz o europeu a impressão de ser um grosseiro e insolente. que experimentou em sua própria carne e em sua própria alma. em sua congruência. lá do fundo de suas próprias experiências vitais. Por isso o japonês chegou a exclui-los de seu idioma. e estas suscitar opiniões partidistas sustentadas por grupos particulares. mas tomada com atitude microscópica não é verossímil que seja uma reação incongruente com a realidade inorgânica a respeito dela e. temos de reconhecer a toda autêntica "opinião pública" consiste. nariz contra nariz. Esta "razão" ou "verdade" viventes. onde os homens vivem. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. haveria que substitui-la por uma verdade de conhecimento. no essencial. equivocar-se? A interpretação doutrinal desses fatos poderá dar oportunidade às maiores divergências teóricas. a opinião pública sensu stricto de um país. por conseguinte. indefeso. sobrevinda nos últimos quinze ou vinte anos. gozados ou sofridos pela nação. tão refinada. Mas a opinião de todo um povo ou de grandes grupos sociais é um poder elementar. tóxica. pois. Nessa proximidade superlativa tudo é feridor e perigoso: até os pronomes pessoais se convertem em impertinências. Pode levar isto a outra coisa que não o jogo dos despropósitos? Eis aqui. A saudação do tuaregue começa a cem jardas e dura três quartos de hora. mas. Eu creio que não se reparou devidamente neste novo fator e que urge prestar-lhe atenção. a primeira causa de uma inevitável incongruência. da intervenção que exerce hoje de fato a opinião de umas nações na vida de outras. Mas não se falou. que são diferentes das do povo B. quando opina sobre a vida de seu próprio país tem sempre "razão" no sentido de que nunca é incongruente com as realidades que ajuíza. que ademais oferece. E esta é hoje. só o combate é possível. são ele mesmo. às vezes mui remotas. e em lugar de "eu" fará um salamaleque e dirá "a miséria que há aqui". O povo inglês. Isso não obstante. Padecerá erros secundários e de detalhe. opina sobre fatos que lhe aconteceram. por assim dizer. sua inércia ao influxo de todas as intrigas. Se uma simples mudança da distância entre dois homens comporta semelhantes riscos. Como vai. a meu juízo. irreflexivo e irresponsável. imaginem-se os perigos que engendra sua súbita aproximação entre os povos. Suas atuações são deliberadas e dosificadas pela vontade dos indivíduos determinados os homens políticos -. a saudação e o trato complicaram-se na mais sutil e complexa técnica de cortesia. Estritamente o contrário acontece quando se trata da opinião de um país sobre o que acontece em outro. A causa disso é óbvia. ao opinar sobre as grandes questões que afetam sua nação. precipitam nesta uma "verdade" vital. um órgão relativamente "racionalizado" dentro de cada sociedade.

A rebelião das massas. ao atravessá-la. a fim de entendê-la bem. O mesmo digo da opinião inglesa. irremediavelmente. os povos entraram numa extrema proximidade dinâmica. Como será fácil persuadir ao homem inglês de que não está informado sobre o fenômeno histórico que é a guerra civil espanhola ou outra emergência análoga? Sabe que os jornais ingleses gastam somas fortíssimas em sustentar correspondentes dentro de todos os países. é o fato gigantesco que serviu a este artigo de ponto de partida: o fracasso do pacifismo inglês. mas. Há um século não importava que o povo dos Estados Unidos se permitisse ter uma opinião sobre o que acontecia na Grécia. de bom sentido. de grandes grupos sociais norte-americanos está intervindo. por motivos particulares. por exemplo.sabia pouco do que realmente estava acontecendo nos demais povos. Dito fracasso declara estrondosamente que o povo inglês . o povo B recebe também com abundância. por suas formidáveis dimensões. Mas. O exemplo mais claro disto.htm (111 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Vice-versa. Enquanto o Governo americano não atuasse. Mas aqui é onde os meios atuais de comunicação produzem seus efeitos. cujo primeiro e mais substancial capítulo é sua origem. e não seu Governo . sobrecarrega-se de intenções ativas e adota imediatamente um caráter de intervenção. entre os quais escapole o mais autenticamente real da realidade. Como na história nada de algum relevo acontece de repente. Mas como essas notícias chegam hoje com superlativa rapidez. O mundo era então "maior". Sempre há. como há um século. discutindo seu "direito" a opinar quanto estimem sobre quanto lhes apraza. não seria excessiva suspicácia no homem inglês admitir a hipótese de que está muito menos informado do que supõe crer. Tudo isto é verdade. Sustenta que a ingerência da opinião pública de uns países na vida dos outros é hoje um fator impertinente. e que essa opinião estivesse mal informada. Porque a quantidade de notícias que constantemente recebe um povo sobre o que sucede em outro é enorme. simplesmente. menos compacto e elástico. e que a surpreenderam. daninhos. abundância e freqüência. Representemo-nos esquematicamente. se ocupam deliberadamente em fustigá-la. desde logo. intrigantes que. sem fina perspectiva. As notícias que o povo A recebe do povo B suscitam nele um estado de opinião . ainda que entre esses correspondentes não poucos exercem seu ofício de maneira apaixonada e partidista. além disso. Nada mais longe de minha pretensão que toda intenção de podar o arbítrio a ingleses e americanos. ou que essa informação tão copiosa se compõe de dados externos. de fato . é perigoso (99). venenoso e gerador de paixões bélicas.seja de amplos grupos ou de todo o país -. as causas que a produziram. a complicação do processo que tem lugar.apesar de seus inúmeros correspondentes . de vinte anos de política internacional inglesa. Não é questão de "direito" ou da desprezível fraseologia que sói amparar-se nesse título: é uma questão. essa opinião era inoperante sobre os destinos da Grécia. A distância dinâmica entre povo e povo é tão grande. e porque o é. Sabe que. Pois é o caso que se o homem inglês rememora num lance d'olhos encontrará que aconteceram no mundo coisas de grave importância para a Inglaterra.na guerra civil espanhola. nestes últimos anos. Terá o inglês ou o americano todo o direito que entenda para opinar sobre o que passou e deve acontecer na Espanha. que. essa opinião não se mantém num plano mais ou menos "contemplativo". a opinião incongruente perdia toxidez (98). e a opinião. rapidez e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.diretamente como tal opinião. porque essa opinião não está ainda regida por uma técnica adequada à troca de distância entre os povos. há muitos outros cuja imparcialidade é inquestionável e cuja exatidão em transmitir dados exatos não é fácil de superar. mas esse direito é uma injuria e não se aceita uma obrigação correspondente: a de estar bem informado sobre a realidade da guerra civil espanhola.

Essas cifras mostram que. não é "natural". Mas é o caso que. por sua vez. a "Frente Popular". mas que a considerariam como uma doença terrível para a nação inglesa. Deixo intacta a questão de se uma "Frente Popular" é uma coisa benéfica ou catastrófica. há séculos e sempre. Alberto Einstein acreditou ter "direito" a opinar sobre a guerra civil espanhola e tomar possessão ante ela. isentos de toda pressão. que está ali. invadiu seu país. Há muitos anos que me ocupo em fazer notar a frivolidade e a irresponsabilidade freqüentes no intelectual europeu. freqüência notícias dessa opinião remota.000. suposto o mais decisivo para que no mundo volte a reinar uma ordem. a "Frente Popular" que se formou em outros países. a falar nas rádios. o Congresso do Partido Laborista rechaçou. etc. segundo Hegel. e a sublinhar sua nociva incongruência. Porque não é fácil encontrar maior incongruência. mas se além disso revela ignorar completamente nossa vida. por 2. do modo mais concreto e eficaz. sua audácia provoca em nós frenesi. para o bloco do Partido Laborista. comodamente sentados em seus escritórios ou em seus clubes. Note-se que falo da guerra civil espanhola como um exemplo entre muitos. esse file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O espírito que o leva a esta insolente intervenção é o mesmo que há muito tempo vem causando o desprestígio universal do homem intelectual. quer dizer. Já é irritante que o próximo pretenda intervir em nossa vida. alguns dos principais escritores ingleses assinavam outro manifesto onde se garantia que esses comunistas e seus afins eram os defensores da liberdade.A rebelião das massas. o exemplo que mais exatamente me consta. A diferença numérica na votação é daquelas diferenças quantitativas que. com intolerável impertinência.htm (112 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a despeito de suas copiosas "informações". Felizmente.e. O natural seria que eu estivesse agora em guerra apaixonada contra esses escritores ingleses. atuando. e me reduzo a confrontar dois comportamentos de um mesmo grupo de opinião. como dizia Dante: che saetta previsa vien più lenta. Há uns dias.talvez a civilização não seja outra que essa montagem . Ora bem. quase presente. Talvez isto o mova a corrigir seu insuficiente conhecimento das demais nações. a união com o comunismo. não contribuiu a debilitar minha surpresa. de seu nervosismo.. de seus movimentos e tem a impressão de que o estranho. Por isso é um exemplo concreto do mecanismo belicoso que criou o mútuo desconhecimento entre os povos. faz com que o mundo vá à deriva.000 votos contra 300. Mas esta reação de aborrecimento multiplica-se até à exasperação porque o povo B adverte ao mesmo tempo a incongruência entre a opinião A e o que em B. Alberto Einstein usufrui uma ignorância radical sobre o que acontece na Espanha agora. a formação na Inglaterra de uma "Frente Popular". não é uma questão de mais ou de menos. Há pouco. escritores e professores a assinar manifestos. efetivamente. e me reduzo a procurar que o leitor inglês admita por um momento a possibilidade de que não está bem informado. cuidei durante toda minha vida de montar em meu aparelho psico-físico um sistema muito forte de inibições e de freios . falto de pouvoir spirituel. Mas esta moderação que por sorte posso ostentar. ao mesmo tempo. Evitemos os espaventos e as frases.100. que denunciei como um fator de primeira grandeza entre as causas da presente desordem. Mas eis aqui outro exemplo mais geral. se convertem automaticamente em diferenças qualitativas. que oscila entre o grotesco e o trágico. Enquanto em Madri os comunistas e seus afins obrigavam. Mas esse mesmo partido e a massa de opinião que pastoreia ocupam-se em favorecer e fomentar. aconteceu. sob as mais graves ameaças. a união com os comunistas. mas permita-se-me convidar o leitor inglês a que imagine qual pode ser meu primeiro movimento ante semelhante fato. que. além disso.

Ora bem: o velho e barato "internacionalismo". o oposto. que corre paralelo ao do direito. embora me exponha a todos os riscos de uma enunciação esquemática. como uma pessoa. um sistema de segredos que não pode ser descoberto.A rebelião das massas. poderia dizer-se que é uma intervenção guerreira. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E me pareceria vão objetar que essas intervenções irritam uma parte do povo que as sofre. A parte do país favorecida momentaneamente pela opinião estrangeira procurará. Talvez o leitor reclame agora uma doutrina positiva. versado mais acima. a língua. claro está. Mas por baixo dessa aparente e transitória gratidão corre o processo real do vivido pelo país inteiro. Claro que isto supõe estar de acordo sobre um princípio básico. quando as nações européias pareciam mais próximas a uma superior unificação. Toda realidade desconhecida prepara sua vingança. Outra coisa seria pura tolice. acerte ou seja menos incongruente com essa vivente "verdade". pois. Há a lei do libelo e há a formidável ditadura das "boas maneiras". de fora -. que as nações existem. embora de outro modo e por outras razões. Não há razão para que não sofra análoga regulamentação a opinião de um povo sobre outro. Bem notório é que surte praticamente impossível conhecer intimamente um idioma estrangeiro por muito que o estudemos. uma intimidade . Como antes postulávamos uma nova técnica jurídica. começaram repentinamente a fechar-se dentro de si mesmas. por sorte. e ambos os partidos hostis coincidem nela. e a converter-se as fronteiras em escafandros isoladores. umas frente às outras. e isto é uma intervenção. Esta é uma observação demasiado óbvia para que seja verídica. essa duplicidade da opinião laborista só irritação pode inspirar fora da Inglaterra. à-toa. Nenhuma de suas doutrinas ou atuações é compreensível se não se descobre em sua raiz o desconhecimento do que é uma nação e de que isso que são as nações constitui uma formidável realidade situada no mundo e com a qual há que contar. por exemplo. que a nova estrutura do mundo converte os movimentos da opinião de um país sobre o que acontece em outro . Tome qualquer função coletiva. mas comprazem à outra. Enquanto se produzam fenômenos como este.movimentos que antes eram quase inócuos . repito. Não outra é a origem das catástrofes na história humana. que engendrou as presentes angústias.portanto. beneficiar-se dessa intervenção. A nação acaba por estabilizar-se em "sua verdade". penas de amor perdidas. Eu creio que há aqui um novo problema de primeira ordem para a disciplina internacional. Era um curioso internacionalismo aquele que em suas contas esquecia sempre o detalhe de que há nações (100). Isto bastaria para explicar por que. Por isso será funesta toda tentativa de desconhecer que um povo é. Não tenho inconveniente em declarar qual é a minha. Daí que acabam por se unir contra a incongruência da opinião estrangeira.htm (113 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . no fundo. a hermetizar suas existências. E não será uma insensatez crer coisa fácil o conhecimento da realidade política de um país estranho? Sustento.em autênticas incursões. no que efetivamente aconteceu. todas as esperanças de que a paz reine no mundo são. aqui reclamamos uma nova técnica de trato entre os povos. Não pense o leitor em nada vago nem místico. Esta só pode esperar agradecimento perdurável na medida em que. mais ainda. pensava. Porque essa incongruente conduta. mesmo grupo de opinião se ocupa em cultivar esse mesmo micróbio em outros países. declarando-o ou não. Sobre este: que os povos. Na Inglaterra o indivíduo aprendeu a guardar certas cautelas quando se permite opinar sobre outro indivíduo. posto que tem não poucos caracteres da guerra química.

deixando ao Ocidente todo seu rico relevo. 1937. comum. Não de laminar as nações. Esta é o autêntico poder de criação histórica. O extravio metódico que representa o internacionalismo impediu ver que só através de uma etapa de nacionalismo exacerbados se pode chegar à unidade concreta e cheia da Europa. Paris. mas como é comum e européia a enfermidade. mas de integrá-las. Isto salvará a Europa. e que. como acabo de insinuar. Os povos menores adotarão figuras de transição e intermediárias.por exemplo: as nações soltas ou uma Europa oriental dissociada até à raiz de uma Europa ocidental. e isto convida a suspeitar ou que nunca foi verdade ou que o tem sido em sentidos mui diversos. dezembro. com um nome impróprio. a proposição é mais falsa que verídica. sê-lo-á também o restabelecimento. teríamos de lhe tirar e lhe pôr alguns ingredientes para que a idéia fosse luminosa. A Europa será a ultra-nação. O "totalitarismo" salvará o "liberalismo". Porque é disso que se trata. virá uma articulação da Europa em duas formas diferentes de vida pública: a forma de um novo liberalismo e a forma que. a inter-nação. da fé européia. porque isso significa. seja provável o desaparecimento da Europa e sua substituição por outra forma de realidade histórica . Desde já. se costuma chamar de "totalitária". Porque é estranho que tempos sobremodo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. As nações européias chegam agora a seus pontos cruciais e a cabeçada será a nova integração da Europa. pois. Mas seria um erro crer que isto significa seu desaparecimento ou definitiva dispersão. A Europa não é. A enfermidade por que atravessa é. imprescindível para que volte a brotar. Entretanto. um passo à frente na organização jurídica e política de sua unidade. no fundo de bosque que as almas possuem. portanto. e sim no recato do ensinamento. Mas tem também seus direitos a visão de retícula grossa. mas não mana no meio da alteração. um oco. das vigências em que sua socialização consiste. a sociedade européia parece volatilizada. e graças a isso veremos dentro em breve um novo liberalismo temperar os regimes autoritários. propugno e anuncio o advento de uma forma mais avançada de convivência européia. Não se trata de que a Europa está enferma. que foi bastante lido em língua inglesa. não será.htm (114 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o manancial de uma nova fé. Este equilíbrio mecânico e provisório permitirá uma nova etapa de mínimo repouso. Nada disto se oferece no horizonte -. No livro The Revolt of the Masses (101). Pois acontece que em muitas épocas históricas se falou o que agora se fala. Nesta data. Se olhamos a realidade com uma ótica de retícula fina. mas que gozem de plena saúde estas ou as outras nações. Mais uma vez ficará patente que toda forma de vida precisa de sua antagonista. DINÂMICA DO TEMPO AS VITRINAS MANDAM Dizem que o dinheiro é o único poder que atua sobre a vida social. Porque se isso acontece na Europa é porque sofre uma crise de sua fé comum. A mesma inspiração que formou as nações do Ocidente continua atuando no subsolo com a lenta e silente proliferação dos corais. um vazio e nada. O estado atual de anarquia e superlativa dissociação na sociedade européia é uma prova mais da realidade que esta possui. em claras noções de história. Esta idéia européia é de signo inverso àquele abstruso internacionalismo. e então não há inconveniente em aceitar essa terrível sentença. Uma nova forma de vida não consegue instalar-se no planeta até que a anterior e tradicional não se tenha ensaiado em seu modo extremo. depurando-o. destilando sobre ele.A rebelião das massas.

No século VII antes de Cristo corria já por todo o Oriente do Mediterrâneo o apotegma famoso: Chrémata. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. talvez. pelo menos. um magnífico atributo do ser vivente. Os marxistas. segundo a qual o dinheiro devia ter menos influência da que efetivamente possui? Como não nos habituamos ao fato constante depois de tantos e tantos séculos. Eu creio que esta surpresa. ainda sendo isto verdade e calibrando na devida cifra o peso puramente econômico do dinheiro na dinâmica da economia medieval. Porque é demasiado evidente que em muitas épocas humanas o poder social do dinheiro foi muito reduzido e outras energias alheias ao econômico informaram a convivência humana. Esta perspicácia sobre o próprio modo de ser. diferentes coincidam em ponto tão principal. desde que se inventou. mas não nos inspira asco. menosprezaram excessivamente a importância da moeda na etapa pré-capitalista da evolução econômica. a rigor. que alheia toda a graça do problema. para adubar as coisas segundo a pauta de sua tese. Porque. As épocas em que mais autenticamente e com mais dolentes gritos se lamentou esse poderio. no século XIV o põe em circulação nosso turbulento tonsurado de Hita. mas usurpado às outras forças ausentes. Em todas estas lamentações insinua-se algo mais. Como? Será que o dinheiro não possui. Gôngora faz disso letras. essa surpresa e essa insinuação perene de que o poder exercido não lhe corresponde. entre si. o poder que. Os princípios sociais que regeram uma idade perderam seu vigor e ainda não amadureceram os que vão imperar na seguinte.htm (115 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . ante o poder do dinheiro encerra uma porção de problemas curiosos ainda não aclarados. Em geral. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela. porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde. são. muito diferentes. Só como uma possibilidade de interpretação vai tudo isto que digo. o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. é uma grande força social? Isso não era necessário sublinhar: seria uma calinada. Não se diga que o dinheiro não era a forma principal da riqueza. também o possuíam na Idade Média e eram o excremento da Europa. fazendo da história inteira uma monótona conseqüência do dinheiro. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Se hoje os judeus possuem o dinheiro e são os donos do mundo. e foi necessário depois refazer a história econômica daquela idade para mostrar a importância efetiva que nos Estados medievais tinha o dinheiro hebreu. chrémata aner! "Seu dinheiro. sua surpresa de que o dinheiro tenha mais força da que devia ter. pode descobrir-se nelas uma nota comum: são sempre épocas de crise moral. se lhe atribui e que seu influxo só é decisivo quando os demais poderes organizadores da sociedade se retiraram? Se assim fosse entenderíamos um pouco melhor essa estranha mescla de submissão e de asco que ante ele sente a humanidade. porque . tempos muito transitórios entre duas etapas. Quem as usa expressa com elas. esta clarividência para o próprio destino é coisa relativamente nova na história.é forçoso declará-lo . deplorando-o. e no XVII. não há correspondência entre a riqueza daqueles judeus e sua posição social. E de onde nos vem essa convicção. da realidade econômica nos tempos feudais. e que sempre nos colhe de surpresa? É. não o deve ter porque não é seu.eram mui pouco inteligentes a respeito de si. e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência. Entretanto.A rebelião das massas. sempre renovada. seu dinheiro é o homem!" No tempo de César dizia-se o mesmo. O importante é evitar a concepção econômica da história. não se deve fazer muito caso do que as épocas passadas disseram de si mesmas. Que conseqüência tiramos desta monótona insistência? Que o dinheiro. Pelo visto. A questão é sobretudo complicada e não pode ser resolvida em dois tempos.

seu influxo será escasso. Se há poucas coisas para comprar. religião. pode duvidar da importância que o dinheiro tem na história. mas não é a musa de seu estilo tectônico. Parece o mais verossímil que seja o dinheiro um fator social secundário. Se os normais faltam. por ser elemento material.A rebelião das massas. Mas algum terá de existir sempre. produziu nestes anos um cúmulo tal de objetos mercáveis. mas vai para o sacerdote na teocrática. se queria algo mais que o breve repertório de mercadorias existente. fustigada por esse instinto irreprimível de jerarquia. que seja ele quem destaca o indivíduo no corpo público. Talvez o poder social não depende normalmente do dinheiro. se cedem os verdadeiros e normais poderes históricos . Contra a ingenuidade igualitária é preciso fazer notar que a jerarquização é o impulso essencial da socialização. em sua combinação com os fabulosos progressos da técnica. O dinheiro é apenas um meio para comprar coisas. continuava sendo um infra-homem.raça. para seu poder. Ninguém. A fantasia humana. vice-versa. No século XVIII existiam também grandes fortunas. Pois bem: no século XVI. O novo. A cultura intelectual e artística é avaliada menos que há vinte anos. política. fica a sociedade sem motivo que jerarquize os homens. não quanto maior seja a quantidade do dinheiro mesmo. O sintoma de um poder social autêntico é que cria jerarquias. Ora bem: não há dúvida que o industrialismo moderno. Resta só o dinheiro. o exclusivo do presente é esta outra conjuntura. de outro modo: o dinheiro não manda mais senão quando não há outro princípio que mande. Ora bem: isto é impossível. que o dinheiro pode desenvolver fantasticamente sua essência: o comprar. Mas. se reparte segundo se acha repartido o poder social. não ascendiam ao cume da sociedade. não pode volatilizar-se. Pelo contrário. um pseudo princípio se encarrega de modelar a jerarquia e definir as classes. nem o mais idealista. inventa sempre algum novo tema de desigualdade. Também esta curiosidade é exposta e difícil de satisfazer. a meu juízo. eu me pergunto se há alguma razão para afirmar que em nosso tempo goza o dinheiro de um poder social maior que em tempo algum do passado. uma razão que dá probabilidade clara à suspeita de ser nosso tempo o mais crematístico de quantos foram. por muito dinheiro que haja e por muito livre que se encontre sua ação de conflitos com outras potências.ceteris paribus . incapaz por si mesmo de inspirar a grande arquitetura da sociedade. Se nos envaidecemos. isto aconteceu várias vezes na história. É também idade de crise: os prestígios há anos ainda vigentes perderam sua eficiência. O dinheiro teve.será tanto maior quantas mais coisas haja para comprar. Qual seja o princípio desta é outra questão. ainda limitando de tal sorte a frase inicial que dá ocasião a esta nota. Mas. É uma das forças principais que atuam no equilíbrio de todo ofício coletivo. Há. que. tudo que acontece em nossa hora parecer-nos-á único e excepcional na série dos tempos. O rico.o século XVII . e no tempo de César os "cavaleiros". mas. mas havia pouco para comprar. entretanto. Diríamos. de tantas classes e qualidades. Isto nos permite formar uma escala com as épocas de crematismo e dizer: o poder social do dinheiro .na Holanda. pois. que eram os mais ricos como classe. Onde há cinco homens em estado normal produz-se automaticamente uma estrutura jerarquizada. toda a energia social vacante é absorvida por ele. como indiquei. idéias -. um limite automático em sua própria essência. que quando se volatilizam os demais prestígios resta sempre o dinheiro. Assim se explica essa nota comum a todas as épocas submetidas ao império crematístico que consiste em ser tempos de transição. tinha de inventar um apetite e o objeto que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Morta uma constituição política e moral. mas talvez possa duvidar-se de que seja um poder primário e substantivo. Ou. Durante um momento . o homem mais invejado era aquele que possuía certa tulipa rara. por muito dinheiro que tivesse um judeu.htm (116 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Nem a religião nem a moral dominam a vida social nem o coração da multidão. e vai para o guerreiro na sociedade belicosa.

A lentidão e suavidade deste processo dá tempo a que o organismo reaja. As modificações externas atuam só como excitantes de modificações intraorgânicas. a meu juízo. e esta reação de dentro do organismo à mudança física do contorno. Em definitivo. modele a vida. e por isso as causas ou princípios de suas variações devem ser buscados no interior do organismo. é jovem ou é velha. A vida é masculina ou feminina. havia de parecer-me sobremodo verossímil que nos mais profundos e amplos fenômenos históricos apareça. um dos descobrimentos sociológicos mais importantes o que se fez. não tiveram caráter de grande espetáculo. súbitas mudanças extremas de clima -. como nos mitos mais arcaicos pode se recordar confusamente. é uma operação que se faz de dentro para fora. os períodos glaciais. o decisivo influxo das diferenças biológicas mais elementais. e cada uma destas classes sexuais (102) em meninos. o melhor isqueiro. As mudanças mais violentas que nossa espécie conheceu.de que se fazia. dependente. Agora um homem chega a uma cidade e aos quatro dias pode ser o mais famoso e invejado habitante dela sem mais trabalho que passear ante as vitrinas. sempre muito cotidiana. aprontará uma resposta mais ou menos diferente. perguntas que o ser vivo responde com uma ampla margem de originalidade imprevisível. são.htm (117 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . . sem querer. Viver. A existência tem sido. Basta que durante algum tempo a temperatura média do ano desça cinco ou seis graus para que a glacialização se produza. portanto. que a vida seja um processo de fora para dentro. Em todo este intrincamento intercalado entre o dinheiro e objeto complicava-se aquele com outras forças espirituais fantasia criadora de desejos no rico. as primeiras file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. por assim dizer. etc. tinha de buscar o artífice que o realizasse e dar tempo a sua fabricação. e mesmo cada indivíduo. o efeito por elas produzido transcendeu os limites do histórico e transtornou a espécie como tal. a bem dizer. etc. . vai para trinta anos. jovens e velhos. nunca idêntica. é a verdadeira variação histórica. As formas biológicas mesmas foram. El Sol. Pensando assim. satisfaria. 15 de maio de 1927. Caberia imaginar um autômato provido de um bolso em que metesse mecanicamente a mão e chegasse a ser o personagem mais ilustre da urbe.o melhor automóvel. Cada espécie.dilúvios. escolher os objetos melhores . o melhor chapéu. trabalho técnico deste. pelo visto.A rebelião das massas. quando se advertiu que a organização social mais primitiva não é senão a marca na massa coletiva dessas grandes categorias vitais: sexos e idades. que os verões sejam um pouco mais frescos. mais ou menos claro. O mais provável é que o homem não assistiu nunca a semelhantes catástrofes.e comprá-los. em classes de idade. A estrutura mais primitiva da sociedade se reduz a dividir os indivíduos que a integram em homens e mulheres. Se houve catástrofes telúricas . Como se pode pensar que estes módulos elementaríssimos e divergentes da vitalidade não sejam gigantescos poderes plásticos da história? Foi. pelo menos dentro de um mesmo período histórico zoológico. JUVENTUDE I As variações históricas não procedem nunca de causas externas ao organismo humano. mecanicamente. em suma. submersão de continentes. e mesmo cada variedade. Convém abandonar a idéia de que o meio. seleção do artífice.

Os dois nomes que enunciam os partidos da file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que há tempos de jovens e tempos de velhos. e perguntar: Quem pode mais? Os jovens ou os velhos. prefere o velho ao jovem e submete-se à figura do senador.A rebelião das massas. E preciso que passe algum tempo para poder aventurar este prognóstico. história da mente. seremos forçados a dizer: tem havido na história outras épocas em que predominaram os jovens. Cada uma destas potências significa a mobilização da vida toda em um sentido divergente do que possui sua contrária. O que realmente me parece evidente é que nosso tempo se caracteriza pelo extremo predomínio dos jovens. juventude e senectude. amanhã de outro. que estima mais as qualidades da vida jovem. um forcejar em que cada qual tenta arrastar. este império dos jovens vinha se preparando desde 1890. mas nunca. em seu sentido. e que os ritmos fundamentais são precisamente os biológicos. como tantas outras coisas. Para compreender bem uma época é preciso determinar a equação dinâmica que nela dão essas quatro potências. Roma. o jovem atua sempre diante do senador em forma de oposição. Nos séculos clássicos da Grécia. Vêem a ser como estilos diversos do viver. que lhes serve de norma. Por que acontecem estas variações da preferência. A luta misteriosa que mantém nas secretas oficinas do organismo a juventude e a senectude. Masculinidade e feminilidade. são duas parelhas de potências antagônicas. Então adverte-se o que de antemão devia presumir-se: que. sentimento. entre as bem conhecidas. O fenômeno é demasiado recente e ainda não se pode ver se esta nova vida in modo juventutis será capaz do que depois direi. entretanto. O jovem Alcibíades triunfa sobre a sociedade. está o homem maduro que o educa e dirige. mas sob condição de servir ao espírito que Sócrates representa. quer dizer.htm (118 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . da alma. sendo rítmica toda vida. Mas se fossemos atender só ao aspecto do momento atual. os homens maduros? O varonil ou o feminino? É sobremaneira interessante perseguir nos séculos as deslocações do poder para uma ou a outra dessas potências. desestima as da vida madura. o interessante será descrever a projeção na consciência desses predomínios rítmicos. e depois de uma guerra mais triste que heróica. a graça e o vigor juvenis são postos a serviço de algo acima deles. desde o fin de siècle. e como potência compensatória. a vida toda organiza-se em torno do efebo. que há épocas em que predomina o masculino e outras senhoreadas pelos instintos da feminilidade. instituições. reflete-se na consciência sob a espécie de preferências e desdéns. o é também a história. pelo contrário. produz-se entre eles uma colisão. É surpreendente que em povos tão velhos como os nossos. E como todos coexistem em qualquer instante da história. Hoje de um lugar. de incitação e de freio. antes de tudo. a existência humana. quer dizer. Chega uma época em que prefere. E como a história é. foram desalojadas a madureza e a ancianidade: em seu oposto se instalava o homem jovem com seus peculiares atributos. do pai de família. Deste modo. A parelha Sócrates-Alcibíades simboliza muito bem a equação dinâmica de juventude e madureza desde o século V no tempo de Alexandre. às vezes súbitas? Eis aqui uma questão sobre a qual não podemos ainda dizer uma só palavra clara (103). e pospõe. Eu não sei se este triunfo da juventude será um fenômeno passageiro ou uma atitude profunda que a vida humana tomou e que chegará a qualificar toda uma época. O "filho". a masculinidade e a feminilidade. Na realidade. (104) o predomínio tem sido tão extremado e exclusivo. íntegra. toma a vida de repente um aspecto de triunfante juventude. imagem. sem o que não é possível a perduração de seu triunfo. mas junto a ele. ou bem acha a graça máxima nos modos femininos diante dos masculinos. No ser humano a vida se duplica porque ao intervir a consciência a vida primária se reflete nela: é interpretada por ela em forma de idéia.

II Todo gesto vital. é genial porque antecipa a ancianidade dos geômetras. E a época dos blasés. que com uma ou outra intensidade impregna todo o século XIX. prole. A guerra defensiva sói empregar táticas vis. detesta o sentimento e a paixão. a rigor. cadáver vivente que passa sorrindo de si mesmo no sorriso inumerável de suas rugas. e a peruca empoada cobre toda testa primaveril . luta multissecular aludem a esta dualidade de potências: patrícios e proletários.que tendem a prolongar ilimitadamente sua mocidade e se instalam nela como definitivamente. ingenuamente surpresos: Para onde foram os jovens? Quanto vale nesta idade parece ter quarenta anos: o traje. ao passo que o proletário é filho no sentido da carne. os modos. são só adequados à gente dessa idade. oferece este tempo o exemplo de um falso triunfo juvenil. dos suicídios. uns são filhos de pai cidadão. O que o jovem afirma então não é a sua juventude. Esta é a causa que decide file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Tertium non datur. Ao chegar ao século XVIII neste virtual processo temos de nos interrogar. o garoto genial. a um ou outro estilo. Entretanto. Busca-se por toda a parte a raison e interessa mais que nada a teologia: jesuítas contra Jansênio. De Ninon estima-se a madureza. El Sol. de negro. o velho de nascimento. 9 de junho de 1927.com uma suposição de sessenta anos. não é filho de "alguém" reconhecido. O gesto de combate que parece interpolar-se entre ambos pertence. Para achar outra época de juventude como a nossa.htm (119 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Pascal. Compare-se com os jovens atuais . O jacobino e o general de Bonaparte são rapazes. Ambos significam "filhos". porque no fundo de sua alma o atacado estima mais que a si mesmo o ofensor. A guerra ofensiva vai inspirada pela segurança na vitória e antecipa o domínio. Domina a centúria Descartes. uma subversão contra o passado e é um ensaio de se afirmar a si mesma a juventude. Para extremar tal estilo de vida finge-se na cabeça a neve da idade. O romanticismo. efetivamente. prefere suas atitudes fatigadas e apressa-se a abandonar sua mocidade. O jovem imita em si o velho. é mero descendente e não herdeiro.homem ou mulher . mas princípios recebidos: nada tão representativo como Robespierre. que estremece ao passo de Voltaire. Se damos um passo atrás caímos no século vieillot por excelência.A rebelião das massas. O jovem revolucionário é só o executor das velhas idéias confeccionadas nos dois séculos anteriores. o uso. Há nele. pode parecer em sua iniciação um tempo de jovens. vestido à espanhola. Repasse o leitor rapidamente a série de épocas européias. Todas as gerações do século XIX aspiraram a ser maduras o mais depressa possível e sentiam uma estranha vergonha de sua própria juventude. seria preciso descer até o Renascimento. e o romanticismo porá de manifesto sua carência de autenticidade. É o século do entusiasmo pelos decrépitos. Quando no romanticismo se reage contra o século XVIII é para voltar a um passado mais antigo. A Revolução fizera tábua rasa da geração precedente e permitiu durante quinze anos que ocupassem todas as eminências sociais homens muito moços. ou é um gesto de domínio ou um gesto de servidão. e os jovens ao olhar dentro de si só acham inapetência vital. que abomina de toda qualidade juvenil. o corpo elástico e nu. não a confusa juventude. casado segundo lei do Estado e por isso herdeiros de bens. (Como se vê a tradição exata de patrício seria fidalgo).varões e fêmeas . o ar prematuramente caduco no andar e no sentir. o XVIII.

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um ou outro estilo de atitude. O gesto servil o é porque o ser não gravita sobre si mesmo, não está seguro de seu próprio valor e em todo instante vive comparando-se com outros. Necessita deles em uma ou outra forma; necessita de sua aprovação para se tranqüilizar, quando não de sua benevolência e de seu perdão. Por isso o gesto leva sempre uma referência ao próximo. Servir é encher nossa vida de atos que têm valor só porque outro ser os aprova ou aproveita. Têm sentido olhados da vida deste outro ser, não da nossa vida. E esta é, em princípio, a servidão: viver desde outro, não desde si mesmo. O estilo de domínio, por seu turno, não implica a vitória. Por isso aparece com mais pureza que nunca em certos casos de guerra defensiva que concluíram com a completa derrota do defensor. O caso de Numância é exemplar. Os numantinos possuem uma fé inquebrantável em si mesmos. Sua longa campanha contra Roma começou por ser de ofensiva. Desprezavam o inimigo e, com efeito, o derrotavam uma vez e outra (105). Quando mais tarde, recolhendo e organizando melhor suas forças superiores, Roma aperta Numância, esta, dir-se-á, toma a defensiva, mas propriamente não se defende, efetivamente aniquila-se, suprime-se. O fato material da superioridade de forças no inimigo convida ao povo de alma dominante a preferir sua própria anulação. Porque só sabe viver desde si mesmo, e a nova forma de existência que o destino lhe propõe - servidão - lhe é inconcebível, lhe sabe a negação do viver mesmo; portanto, é a morte. Nas gerações anteriores a juventude vivia preocupada com a madureza. Admirava os maiores, recebia deles as normas - em arte, ciência, política, usos e regime de vida -, esperava sua aprovação e temia seu enfado. Só se entregava a si mesma, ao que é peculiar a tal idade, subrepticiamente e como à margem. Os jovens sentiam sua própria juventude como uma transgressão do que é devido. Objetivamente se manifestava isto no fato de que a vida social não estava organizada em vista deles. Os costumes, os prazeres públicos haviam sido ajustados ao tipo de vida próprio para as pessoas maduras, e eles tinham de se contentar com as zurrapas que estas lhes deixavam ou lançar-se às estroinices. Até no vestir viam-se forçados a imitar os velhos: as modas estavam inspiradas na conveniência da gente maior. As moças sonhavam com o momento em que se vestiriam "à vontade", quer dizer, em que adotariam o traje de suas mães. Em suma, a juventude vivia a serviço da madureza. A mudança operada neste ponto é fantástica. Hoje a juventude parece dona indiscutível da situação, e todos os seus movimentos vão saturados de domínio. Em sua atitude transparece bem claramente que não se preocupa o mínimo com a outra idade. O jovem atual habita hoje sua juventude com tal resolução e denodo, com tal abandono e segurança, que parece existir só nela. O que a madureza pense dela não lhe importa um caracol; mais ainda: a madureza possui a seus olhos um valor próximo ao cômico. Mudaram-se as tornas. Hoje o homem e a mulher maduros vivem quase sobressaltados, com a vaga impressão de que quase não têm direito a existir. Advertem a invasão do mundo pela mocidade como tal e começam a fazer gestos servis. Desde logo, imitam-na no trajar. (Tenho sustentado muitas vezes que as modas não eram um fato frívolo, mas um fenômeno de grande transcendência histórica, obediente a causas profundas. O exemplo presente esclarece com exaustiva evidência essa afirmação). As modas atuais estão pensadas para corpos juvenis, e é tragicômica a situação de pais e mães que se vêem obrigados a imitar seus filhos e filhas na indumentária. Os que já andamos na curva descendente da

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vida vemo-nos na inaudita necessidade de ter de desandar um pouco o caminho percorrido, como se o houvéssemos errado, e fazer-nos - de grado ou não - mais jovens do que somos. Não se trata de fingir uma mocidade que se ausenta de nossa pessoa, mas que o módulo adotado pela vida objetiva é o juvenil e nos força a sua adoção. Como com o vestir, acontece com tudo o resto. Os usos, prazeres, costumes, modos, estão talhados à medida dos efebos. É curioso, formidável, o fenômeno, e convida a essa humildade e devoção ante o poder, ao mesmo tempo criador e irracional, da vida que eu fervorosamente recomendei durante toda a minha. Note-se que em toda a Europa a existência social está hoje organizada para que possam viver a gosto só os jovens das classes médias. Os maiores e as aristocracias ficaram fora da circulação vital, sintoma em que se enlaçam dois fatores distintos - juventude e massa - dominantes na dinâmica deste tempo. O regime de vida média aperfeiçoou-se - por exemplo, os prazeres -, e, em troca, as aristocracias não souberam criar para si novos refinamentos que as distanciem da massa. Só lhe resta a compra de objetos mais caros, mas do mesmo tipo geral que os usados pelo homem médio. As aristocracias, desde 1800 no político, e desde 1900 no social, têm sido levadas de roldão, e é lei da história que as aristocracias não podem ser levadas de roldão senão quando previamente caíram em irremediável degeneração. Mas há um fato que sublinha mais que outro algum este triunfo da juventude e revela até que ponto é profundo o transtorno de valores na Europa. Refiro-me ao entusiasmo pelo corpo. Quando se pensa na juventude, pensa-se antes de tudo no corpo. Por várias razões: em primeiro lugar, a alma tem uma frescura mais prolongada, que às vezes chega a ornar a velhice da pessoa; em segundo lugar, a alma é mais perfeita em certo momento da madureza que na juventude. Sobretudo, o espírito - inteligência e vontade - é, sem dúvida, mais vigoroso na plenitude da vida que em sua etapa ascensional. Por seu turno, o corpo tem sua flor - seu akmé, diziam os gregos - na estrita juventude, e, vice-versa, decai infalivelmente quando esta se transpõe. Por isso, desde um ponto de vista superior às oscilações históricas, por assim dizer, sub specie aeternitatis, é indiscutível que a juventude rende a maior delícia ao ser olhada, a madureza, ao ser ouvida. O admirável do moço é o seu exterior; o admirável do homem feito é sua intimidade. Pois bem: hoje prefere-se o corpo ao espírito. Não creio que haja sintoma mais importante na existência européia atual. Talvez as gerações anteriores rendessem demasiado culto ao espírito e - salvo a Inglaterra - desdenharam excessivamente a carne. Era conveniente que o ser humano fosse admoestado e se lhe recordasse que não é só alma, mas união mágica de espírito e corpo. O corpo é por si puerilidade. O entusiasmo que hoje desperta inundou de infantilismo a vida continental, afrouxou a tensão do intelecto e vontade em que se retorceu o século XIX, arco demasiado retesado para metas demasiado problemáticas. Vamos dar um descanso ao corpo. A Europa - quando tem diante de si os problemas mais pavorosos - entrega-se a umas férias. Brinda elástico o músculo do corpo desnudo atrás de uma bola de futebol que declara francamente seu desdém a toda transcendência voando pelo ar com ar em seu interior. As associações de estudantes alemães solicitaram energicamente que se reduza o plano de estudos universitários. A razão que davam não era hipócrita: urgia diminuir as horas de estudo porque eles precisavam do tempo para seus jogos e diversões, para "viver a vida". Esta atitude dominante que hoje tem a juventude parece-me significativo. Só me ocorre uma reserva
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mental. Entrega tão completa a seu próprio momento é justa enquanto afirma o direito da mocidade como tal, ante a sua antiga servidão. Mas, não é exorbitante? A juventude, estádio da vida, tem direito a si mesma; mas por ser um estádio vai afetada inexoravelmente de um caráter transitório. Fechando-se em si mesma, cortando as pontes e queimando as naves que conduzem aos estádios subseqüentes, parece declarar-se em rebeldia e separatismo do resto da vida. Se é falso que o jovem não deve fazer outra coisa senão preparar-se para ser velho, também é erro parvo iludir por completo esta cautela. Pois é o caso que a vida, objetivamente, necessita da madureza; portanto, que a juventude também a necessita. É preciso organizar a existência: ciência, técnica, riqueza, saber vital, criações de toda ordem, são requeridas para que a juventude possa alojar-se e divertir-se. A juventude de agora, tão gloriosa, corre o risco de arribar a uma madureza inepta. Hoje goza o ócio florescente que lhe criaram gerações sem juventude (106). Meu entusiasmo pelo aspecto juvenil que a vida adotou não se detém senão ante esse temor. Que vão fazer aos quarenta os europeus futebolistas? Porque o mundo é certamente uma bola, mas tendo dentro de si mais do que simples ar. El Sol, 19 de junho de 1927.

MASCULINO OU FEMININO? Não há dúvida que nosso tempo é tempo de jovens. O pêndulo da história, sempre inquieto, ascende agora pelo quadrante "mocidade". O novo estilo de vida começou não há muito, e ocorre que a geração próxima já aos quarenta anos tem sido uma das mais infortunadas que existiram. Porque quando era jovem reinavam ainda na Europa os velhos, e agora que entrou na madureza depara que o império se transferiu para a mocidade. Faltou-lhe, pois, a hora de triunfo e de domínio, a oportunidade de grata coincidência com a ordem reinante na vida. Em suma: que viveu sempre ao revés com o mundo, e, como o esturjão, teve de nadar sem descanso contra a correnteza do tempo. Os mais velhos e os mais jovens desconhecem este duro destino de não haver flutuado nunca; quero dizer, de nunca haver sentido a pessoa como levada por um elemento favorável, e que pelo contrário dia após dia e lustro após lustro teve de viver em suspenso, sustentando-se a pulso sobre o nível da existência. Mas talvez esta mesma impossibilidade de se abandonar um só instante a disciplinou e purificou sobremaneira. É a geração que mais combateu, que ganhou a rigor mais batalhas e menos triunfos tem gozado (107). Mas deixemos por enquanto intacto o tema dessa geração intermediária e retenhamos a atenção sobre o momento atual. Não basta dizer que vivemos em tempo de juventude. Com isso não fizemos mais do que defini-lo dentro do ritmo das idades. Mas ao lado deste atua sobre a substância histórica o ritmo dos sexos. Tempo de juventude! Perfeitamente. Mas, masculino ou feminino? O problema é mais sutil, mais delicado - quase indiscreto. Trata-se de filiar o sexo de uma época. Para acertar nesta, como em todas as empresas da psicologia histórica, é preciso tomar um ponto de vista elevado e libertar-se de idéias estreitas sobre o que é masculino e o que é feminino. Antes de tudo é urgente desasir do trivial erro que entende a masculinidade principalmente em sua relação com a mulher. Para quem pensa assim, é muito masculino o fanfarrão que se ocupa acima de tudo de cortejar as damas e falar das boas fêmeas. Este era o tipo de varão dominante em 1890: traje barroco, sobrecasaca cujas abas
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A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil. no banquete varonil.amarga desilusão. como algo incompleto e vulnerado) (109). plastrão. nos obriga a contar. talvez pareça irritante. é preterido e desestimado. como tal.. Esta fica relegada ao fundo da vida. que culmina no século de Péricles. barba de mosqueteiro. portanto. trirreme. sem que a mulher tenha intervenção substantiva. com efeito. tem este o privilégio de que a maior e a melhor porção de si mesmo é independente por completo de que a mulher exista ou não. Porque assim como a mulher não pode em nenhum caso ser definida sem referi-la ao varão. esporte. inexorável em suas vontades. a mulher se adianta um pouco: Aspásia. Não há sintoma mais evidente de que o masculino. Ciência.A rebelião das massas. aparece sob a espécie de flautistas e dançarinas que executam suas humildes destrezas ao fundo. um duelo por mês. porque se masculinizou. e. O homem maduro assiste aos jogos dos efebos nus e habitua-se a discernir as mais finas qualidades da beleza varonil. etc. que nessa época predominavam os valores de feminilidade. que lhe permite em ampla medida bastar-se a si mesmo.por um instante . Seu trato normal com a mulher fica excluído na zona diurna e luminosa em que acontece o mais valioso da vida. sua interpretação da beleza feminina não conseguiu desprender-se da preferência que sentia pela beleza do varão. A mulher?. Só quando a mulher é o que mais se estima e encanta tem sentido apreciar o varão pelo serviço e culto que a esta renda. e se recolhe na treva. O resto era falsificação. É possível que o seja. apenas a vê. forçado a uma ótica de lonjura. familiaridade -. e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita. entregues aos puros instintos . literatura textil. Sim. (O bom fisionomista das modas descobre logo a idéia que inspirava esta: a ocultação do corpo viril sob uma profusa vegetação de tela e pelame. Egrégia ocasião de masculinidade foi o século de Péricles. Ficavam só à vista mãos. acampamento. Por que? Porque aprendeu o saber dos homens. A forma feminina lhe parece como uma mutilação da masculina. como apoio e pausa à conversação que languidece. política. guerra.. Seria um erro atribuir este masculinismo. Embora o grego tenha sabido esculpir famosos corpos de mulher. A veracidade. mas tampouco o invento. técnica. muito ao fundo da cena. No frontispício histórico aparecem só homens. Por sua parte. são coisas em que o homem se ocupa com o centro vital de sua pessoa. barbearia. sentados nos pórticos com o cajado na axila. por si só. quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura. O fato de que ao pensar no homem se destaque primeiramente seu afã pela mulher revela. Alguma vez. É uma época de profunda insinceridade: discursos parlamentários e prosa de "artigo de fundo") (108). E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX. o adolescente bebe no ar ático a fluência de palavras agudas que brota dos velhos dialéticos. uma espécie de atleta com seios. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista. Este privilégio do masculino. Século só para homens. Vive-se em público: ágora. ginásio. me força a dizer que todas as épocas masculinas da história se caracterizam pela falta de interesse pela mulher. cabelo em volutas. os homens vivem na época só com homens. quando mais tarde separa a forma masculina sofre . É uma realidade de primeira grandeza com que a Natureza. paternidade. no subterrâneo das horas inferiores. até o ponto de que o historiador.sensualidade. Eu não o aplaudo nem o vitupero. à última hora. que o escultor vai comentar no mármore. (É curioso advertir que a sensualidade noviça da criança a faz normalmente sonhar com o hermafrodita. a uma nativa cegueira do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. nariz e olhos..htm (123 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . extrema feminilidade. capeavam o vento. pois.

ante o Estado e a Igreja. mas "corte de amor". Quando o germano destes séculos se ocupa em idealizar a mulher. em perpétua emulação com eles sobre temas viris: esgrima. 26 de junho de 1927. Agora aparece a "cortesia" triunfadora da "clerezia". Porque até o século XII não se havia encontrado a maneira de afirmar a delícia da existência. o valor específico da pura feminilidade. Mercê a ela conseguiu-se já no século XII acumular alguma riqueza. o privilégio de ser enterrados a cavalo (110). o subsolo do porvir europeu.. de todo um novo estilo de cultura e de vida. a feminilidade eleva-se a máximo poder histórico. virago musculosa que possui atitudes e destrezas de varão. só com outros homens. E preciso guerrear cotidianamente e à noite compensar o esforço com o abandono e o frenesi da orgia. O homem vive quase sempre em acampamentos. E eis aqui que rapidamente. cavalaria. como em certas jornadas de primavera. do mundanal ante o enérgico "tabu" que sobre todo o terreno fizera cair a Igreja. de paz. Entendamo-nos: em todas as épocas desejou-se a mulher. da crina de seu cavalo e passará sua vida à sombra da lança". imagina a valquíria. a segunda. masculina. Assim nesta bronca idade. Sem a violência do combate ou do anátema. suavissimamente. não "deve separar-se. que por si mesma se divide em duas porções: a primeira.A rebelião das massas. Esta nova forma de vida pública. Precisamente esclarece melhor que outro exemplo a diferença entre épocas de um e outro sexo o acontecido na Idade Média. Vê-se nela a norma e o centro da criação. mas o gesto mesurado. Em tal paisagem moral. e opor-lhe o suposto rendimento do germano ante a mulher. bebida. Todavia em tempos de Dante alguns nobres os Lamberti. com efeito. A mulher é presa de guerra. antes de tudo. os Soldanieri . Trata-se. como em certas etapas do germanismo domina o varonil. Na primeira Idade Média a vida tem o mais rude aspecto. até a morte. a fêmea beligerante. Já não se aprecia o gesto bronco. E a "cortesia" é. mas não em todas foi estimada. contar com um pouco de ordem. feminina. onde a mulher é o centro. vai se chamar séculos mais tarde "sociedade". A mutação se deve ao ingresso da mulher no cenário da vida pública. ante o Estado dos guerreiros e ante a Igreja dos clérigos. em cujas mãos se achavam todos os meios da luta? Não cabe mais claro exemplo da força indomável que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.conservavam.mas não como a antiga corte de guerra e de justiça. como diz um texto da época. muda a face da história. Mas no século XII as altas damas de Provença e Borgonha têm a audácia surpreendente de afirmar. desde o século XII. Como aceitam este jugo o guerreiro e o sacerdote. homem grego para os valores da feminilidade. A Corte dos Carolíngios era exclusivamente feminina. caça. de bem-estar. o regime de vida que vai inspirado pelo entusiasmo pela mulher.htm (124 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . nada mais nada menos. II Trata-se. Chamou-se então "corte" . a mulher carece de papel e não intervém no que podemos chamar vida de primeira classe. El Sol. À contínua pendência substitui o solatz e deport que quer dizer conversação e jogo. de todo um novo estilo de cultura e de vida. contém o germe do que. A verdade é que em outras épocas da Grécia anteriores à clássica triunfou o feminino. O homem. nada mais nada menos. Os homens começam a polir-se na palavra e nos modos. grácil.. Esta existência de áspero regime cria as bases primeiras.

consta pelo Gênese que a mulher não está feita de barro como o varão. montado sobre os nervos de uma nova geração. Convivem. As moças perderam o hábito de ser galanteadas. O poeta deixa um pouco a gesta em que se canta o herói varonil e torneia a trova que foi inventada sol per domnas lauzar (111). Suas armas preferem ao combate a justiça e o torneio. simplesmente se instala no mundo como uma propriedade indiscutida. Exercitada a pupila nestes esquemas do pretérito. e chega a ser a forma de todo ideal. O velho "efeminado" denomina este novo entusiasmo dos jovens pelo corpo viril e esse esmero com que o tratam. Estes indivíduos monstruosos existem em todos tempos. "efeminado" significa simplesmente homme à femmes.htm (125 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não porque o tenha conquistado. O cavalheiro desvia suas idéias feudais para a mulher e decide "servir" a uma dama. cheiraria hoje a efeminamento. mas feita de sonho do varão. que facilmente poderíamos multiplicar. o homem estima sua figura mais que a do sexo contrário e. o homem muito preocupado com a mulher. entrega-se a seus gostos e apetites. A vida do varão perde o módulo da etapa masculina e se conforma ao novo estilo. Desta época provém o culto à Virgem Maria. no tempo do Dante. que gira em torno dela e dispõe suas atitudes e pessoa em vista de um público feminino. como sempre que os valores masculinos predominaram. mas a força de desdém. cuida de seu corpo e tende a ostentá-lo. como desviação fisiológica da espécie. Porque a palavra "efeminado" tem dois sentidos muito diversos. de tudo que é aspiração. A mocidade masculina afirma-se a si mesma. sem se preocupar com o resto. Em tempos deste sexo. Os trajes dos homens começam a imitar as linhas do traje feminino. que estão ordenados para ser vistos pelas damas. Mas. e esse gesto em que há trinta anos ressumavam todas as resinas da virilidade. Hoje. volta-se ao panorama atual e conhece no mesmo instante que nosso tempo não é só tempo de juventude. O dono do mundo é hoje o rapaz. Por isso. esses homens parecem muito homens. acontecida na ordem sublunar. Quando chega. ajustam-se à cintura e se decotam até o colo. quando é o contrário. A rigor. E o é. em perpétuo concurso e emulação. é tão poderoso que não necessita combater. À força de contemplar-se nos exercícios onde o corpo aparece isento de falsificações têxteis. adquirem uma fina percepção da física file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pois. que versam sobre qualidades viris. retorcida como um caracol. e seu caráter patológico os impede de representar a normalidade de nenhuma época. a figura feminina absorve o ofício alegórico de tudo que é sublime. Por um deles significa o homem anormal que fisiologicamente é um pouco mulher. consequentemente. Não lhes interessa mais que seu jogo e a maior ou menor perfeição na postura ou na destreza. que projeta nas regiões transcendentes a entronização do feminino. Os rapazes convivem juntos nos estádios e áreas de esportes. apesar de seu aspecto de mata-mouros. Nada pareceria mais obsoleto que o gesto rendido e curvo com que o cavalheiro fanfarrão de 1890 se aproximava da mulher para lhe dizer uma frase galante.A rebelião das massas. mas de juventude masculina. sem acatar ou render culto a nada que não seja sua própria juventude. salvo à idéia mesma da mocidade. A mulher torna-se ideal do homem. cuja cifra põe no escudo. "sentir do tempo" possui. efeminamento. É surpreendente a resolução e a unanimidade com que os jovens decidiram não "servir" a nada nem a ninguém. em seu outro sentido. No final das contas. a seus exercícios e preferências. mas quando sobrevêm etapas de masculinismo descobre-se o que neles há de efetivo efeminamento.

mas não a bastante. Antes. Note-se que só se estima a excelência nas coisas de que se entende. Só estas excelências. apontar que a sentiam muito menos que na atualidade. nem a faina química em que se ocupam nossas células. pois. claramente percebidas. porque se esfalfa em esportes físicos. Agora a mulher vai nua como um rapaz. hoje a mulher imita o homem no vestir e adota seus ásperos jogos. Se no século XII o varão se vestia como a mulher e fazia sob sua inspiração versinhos dulcífluos. Talvez desde os tempos gregos não se tenha estimado tanto a beleza masculina como agora. bastante curta.para descobrir a essência variante. sobretudo pela beleza fundada na correção atlética. quase como a de agora. que revela o predomínio do ponto de vista varonil. um sintoma de primeira categoria. O traje Diretório era também uma simples túnica. como não nos apercebemos do movimento estelar de nosso planeta. simplificando um tipo de traje tão pouco propício para isso como o herdado do século XIX. em virtude de razões que supõe personalíssimas. mas o oposto. escamoteia. não nos apercebemos nunca. se é que a sentiam. que tenha alguma verdade. Também sabe bem a mulher de hoje porque fuma. os poderosos alísios da história. que cobra a seus olhos um valor enorme. E o bom observador nota que nunca as mulheres falaram tanto e com tanto descaro como agora dos homens simpáticos. com efeito. não é quase nunca espontâneo. É muita casualidade que atualmente o regime da assistência feminina nas ordens mais diversas coincida sempre nisto: a assimilação ao homem. A dama Diretório acentuava. anula. cingia e ostentava o atributo feminino por excelência: aquela túnica era o mais sóbrio talhe para sustentar a flor do seio. Basta comparar o traje de hoje com o usado na época de outro Diretório maior . Convém. se afirmasse o corpo do futebolista. entusiasmo pela esplêndida figura do atleta.htm (126 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Era mister que sob os tubos ou cilindros de tela em que este horrível traje existe. perscrutando sinceramente em seu interior. Vê. o seio feminino. Ao ouvir hoje com tanta freqüência o cínico elogio do homem simpático brotando dos lábios femininos.1800 . A mulher procura achar em sua compleição as linhas do outro sexo. Entretanto. tanto mais expressiva quanto maior é a semelhança. Não seria objeção contra isto que alguma leitora. em vez de colegir ingênua e simplesmente: "A mulher de 1927 gosta superlativamente dos homens simpáticos". nisso.A rebelião das massas. porque se veste como se veste. Cada uma poderá dar sua razão diferente. sopros gigantescos que nos mobilizam a seu capricho. aparentemente tão generoso na nudificação. Por isso o mais característico das modas atuais não é a exiguidade do encobrimento. sabiam calar seu entusiasmo pela beleza de um varão. Mas o fato é que sob essa superfície de nossa consciência atuam as grandes forças anônimas. Um velho psicólogo habituado a meditar sobre estes assuntos sabe que o entusiasmo da mulher pela beleza corporal do homem. faz um descobrimento mais profundo: a mulher de 1927 deixou de cunhar os valores por si mesma e aceita o ponto de vista dos homens que nesta data sentem. Cada qual crê viver por sua conta. varonil. por seu turno. reconhecesse que não se apercebia de ser influída em sua estima da beleza masculina pelo apreço que dela fazem os jovens. É uma equivocação psicológica explicar as modas vigentes por um suposto afã de excitar os sentidos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O traje atual. oculta. aquele nu era um perverso nu de mulher. De tudo aquilo que é um impulso coletivo e propele a vida histórica inteira em uma ou outra direção. Daí que as modas masculinas tenham tendido estes anos a sublinhar a arquitetura masculina do homem jovem. ainda. arrastam o ânimo e o sobrecolhem (112).

El Sol. "os sermonários não cessam de fulminar contra a longitude exagerada das saias. (3) Monarchie universelle: deux opuscules. Homages to Ernst Cassirer. O descaro e impudor da mulher contemporânea são. só na França. Em que ficamos? Qual a saia diabólica? A curta ou a longa? Quem passou sua juventude numa época feminina consterna-se de ver a humildade com que hoje a mulher. procura insinuar-se e ser tolerada na sociedade dos homens. Esta diminuição do poder feminino sobre a sociedade é causa de que a convivência seja em nossos dias tão áspera. Tudo contrário. 36. O resultado de minhas reflexões acha-se no livro. S. paradisíacas e moderadas como agora. no Renascimento. dizem. sua retirada do primeiro plano social trouxe o império da descortesia. uma invenção diabólica" (113). Assim foi no tempo de Péricles. É. 1942). pag. A este fim aceita na conversação os temas de preferência dos moços e fala de esportes e de automóveis.htm (127 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . de próxima publicação. o descaro e impudor de um rapaz que entrega à intempérie sua carne elástica. Madrid. onde se iniciou um esclarecimento e mise au point de todos estes conceitos. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. 1891. Neste encontrará o leitor o desenvolvimento e justificação de tudo que acabo de dizer. uma bobagem perseguir em nome da moral a brevidade das saias em uso. sobre a causa de que essa iniciação se malograsse. Esta indolência é um fato. Provavelmente. Porque aconteceu sempre que as épocas masculinas da história. superior nesta ordem de temas às demais. edição espanhola Historia como sistema. Em outro lugar achará o leitor alguma indicação sobre isto e. NOTAS (1) Veja-se o ensaio do autor intitulado "History as a System". destronada. mais que femininos. que se tornaram um pouco indolentes. 1939 (V. Hoje não se compreenderia um fato como o acontecido no século XVII por motivo da beatificação de vários santos espanhóis .A rebelião das massas. Francisco Xavier e Santa Teresa de Jesus -. desinteressadas da mulher. ainda mais. que são. De minha parte procurei colaborar neste esforço de esclarecimento partindo da recente tradição francesa. e quando passa a ronda dos coquetéis bebe como gente grande. e eu não nego que no detalhe da indumentária e das atitudes influa esse propósito incitativo: mas as linhas gerais da atual figura feminina estão inspiradas por uma intenção oposta: a de se parecer um pouco com o homem jovem. O fato foi que a beatificação sofreu uma longa demora pela disputa surgida entre os cardeais sobre quem devia entrar primeiro na oficial beatitude: a dama Cepeda ou os varões jesuítas. Veja-se o tomo VI das Obras Completas do autor. Inventora a mulher da "cortesia".entre eles. as relações entre os sexos nunca foram tão sadias. London. A princípios do século XIII. (2) É justo dizer que foi na França. nota Luchaire. pois. O perigo está verdadeiramente na direção inversa. do varão. Santo Inácio. no de César. a uma exibição lúbrica e viciosa. no volume Philosophy and History. pois. 3 de julho de 1927. renderam estranho culto ao amor dórico. Há nos sacerdotes uma mania milenar contra os modismos. El hombre y la gente.

(5) Na Inglaterra as listas de residências indicavam junto a cada nome o ofício e classe da pessoa. Em outro lugar (tomos 8 e 10. por sua vez. (7) Com certa satisfação refere-se Mme. 35. com a fórmula ilusória de que os doutrinários não possuíam uma doutrina idêntica. Histoire de La Civilisation en Europe. Broglie. Guizot. dizia aludindo a ele: "E un gran ministro. p. uma e outra vez. 283. II." Oeuvres complètes. 110. M. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. (8) Se o leitor deseja informar-se. (4) Oeuvres completes (Calman-Lévy).entende-se que tenha "consciência" intelectual . por assim dizer. Correspondance avec Mme. são absolutamente insuficientes. Charles H. não eram conservadores à-toa. exibe-nos suas arcanas vísceras quando em um discurso de Royer-Collard lemos: "Les libertés publiques ne sont pas autre chose que des resistences". seja qual for. encontra sempre uma resistência que se lhe opõe desde os mais profundos seios vitais. Não há nada melhor. quer dizer. (10) Por exemplo. nob. Como se isto não acontecesse em toda escola intelectual e não constituísse a diferença mais importante entre um grupo de homens e um grupo de gramofones (9) Nestes últimos anos. que é divertida e até alegre. Talvez o resultado desse estudo revelasse que a Alemanha recebeu nessa época muito mais da França que inversamente. Esta é a origem da palavra snob. que ao aparecer na citação de Ranke documenta o influxo de Guizot sobre este grande historiador. encontrar-se-á. Dicono que non ride mai". 130). 248.. (Veja-se de Barante: La vie et les discours de Royer-Collard. de Gasparin. Sobre Royer-Collard não há nem isso. Em um homem tão diferente de Guizot como Ranke encontramos a mesma idéia: "Logo que na Europa um princípio.htm (128 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .quando interpretou a política de "resistência" como pura e simplesmente conservadora. pag. Não há nestas palavras de Ranke uma clara influência de Guizot? Um fator que impede ver certos estratos profundos da história do século XIX é que não esteja bem estudado o intercâmbio de idéias entre a França e a Alemanha. uma súbita mudança de sentido e. Eis aqui uma vez mais a melhor inspiração européia reduzindo a dinamismo tudo que é estático. que sua leitura é uma pura delícia de intelecção. toma. mas que variava de um para outro. O estado de liberdade surte de uma pluralidade de forças que mutuamente se resistem. digamos de 1790 a 1830. pág. 38. junto ao nome dos simples burgueses aparecia a abreviatura s. (6) "La coexistence et le combat de principes divers". No fim de tudo é preciso recorrer aos estudos de Faguet sobre o idearium de um e outro. Mas os discursos de Royer-Collard são hoje tão pouco lidos que parecerá impertinência se digo que são maravilhosos. pág. e embora sejam sumamente vivazes. tenta o domínio absoluto. de Gasparin que falando o Papa Gregório XVI com o embaixador francês. É demasiado evidente que os homens Royer-Collard. 3): "0 mundo europeu se compõe de elementos de origem diversa. p. ninguém pode ficar com a consciência tranqüila . XXII. A palavra "resistência". Pouthas tomou sobre si a fatigante tarefa de despojar os arquivos de Guizot e oferecer-nos numa série de volumes um material sem o qual seria impossível empreender a ulterior faina de reconstrução. Vol. e que constituem a última manifestação do melhor estilo cartesiano. Por isso.. Guizot. sem nobreza. em cuja ulterior contraposição e luta vêem precisamente desenvolver-se as mudanças das épocas históricas".

" D'Alembert: Discours préliminaire à l'Enciclopédie. I. seria reunir os prognósticos que em cada época se fazem sobre o futuro próximo. Nouveaux Essais sur l'entendement humain. pág. O Volksgeist parece-lhes uma de suas idéias mais autóctones.htm (129 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . (21) J. (19) ". (20) "Cette honnête. 0 que demonstra duas coisas.A rebelião das massas. Este é um dos casos que mais recomendam o estudo minucioso do intercâmbio intelectual franco-germânico de 1790 a 1830 a que em nota anterior me refiro. feita em 1829. Carré: La Philosophie de Fontenelle. supondo que foi "honrado e irreprochável ". (15) Stuart Mill: La liberté. segunda: que os males presentes da Europa são oriundos de regiões mais profundas cronológica e virtualmente do que sói presumir-se. de donner le pouvoir à l'élement le plus pesant. Oeuvres: 1. (13) Veja-se Doctrine de Saint-Simon. Mas o termo Volksgeist mostra demasiado claramente que é a tradução do voltairiano esprit des nations. era capaz de prever o que aconteceu um século depois. (22) Veja-se História como sistema. mais imprévoyante et superficielle révolution de 1848 eut pour conséquence. (17) Histoire de Jacques II. IV. le plus obstinément conservateur de notre pays". Eu colecionei os suficientes para ficar estupefato ante o fato de que tenha havido sempre alguns homens que prevêem o futuro. Bouglé e E. qui réglent les autres et dont dépendent les affaires. é uma das obras mais geniais do século. vê-se obrigado na sua madureza a fazer algumas reservas benévolas a seu favor. et se glissant dans les livres à la mode disposent toutes choses à la révolution générale dont d'Europe est menacée". 204. Renan. le moins clairvoyant. Primeira: que um homem. (16) Gesammelte Schriften. o trabalho acumulado nas notas por MM. (18) "Je trouve même que des opinions approchantes s'insinuant peu à peu dans l'esprit des hommes du grand monde. (12) Pretendem os alemães que foram eles os descobridores do social como realidade diferente dos indivíduos e "anterior" a estes. trad. (11) Veja-se o citado ensaio do autor: História como sistema. irreprochable. com introdução e notas de C. Além de que esta exposição do saint-simonismo. Chap.. Halévy (p. Bouglé e Halévy constitui uma das contribuições mais importantes que eu conheço ao efetivo esclarecimento da alma européia entre 1800 e 1830. 143. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. 843. au bout de moins d'un an. I.. B. 16. em 1700. que em 1848 era jovem e simpatizou com aquele movimento. Renan: Questions contemporaines. notre siècle qui se croit destiné à changer les lois en tout genre. data aproximada em que Leibniz escrevia isto.. (14) Obra fácil e útil que alguém deveria empreender. Dupont-White (páginas 131-132).56 (1821).. XVI. 106. A origem francesa do coletivismo não é uma casualidade e obedece às mesmas causas que fizeram da França o berço da sociologia e de seu renovo em 1890 (Durkheim). nota).

expressa mui agudamente essa sensação de "altura dos tempos". Sans discontinuité le droit positif remonte dans l'histoire jusqu'aux temps immémoriaux. I. Meu propósito agora é recolher e completar o que eu disse então. en Anglaterre tout le droit est actuel. que agora analiso. mas sim verdade ao pé da letra. Moderno é o que está posto segundo o modo: entende-se o modo novo. respectivamente. data de sua primeira publicação como série de artigos no jornal diário El Sol. (24) Não é uma simples maneira de falar. ocupei-me do tema que o presente ensaio desenvolve. 1a. 44. Na Inglaterra. (27) 0 trágico daquele processo é que. Tellus stabilita. publicados pouco depois. e encontram. às vezes. num artigo de El Sol. Don. 1921. em Buenos Aires (1928). file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. À parte o grande repertório numismático de Cohen. il n'y a pas "d'ancien droit anglais". tradicionais. publicado em 1921. e os artigos sobre Los Estados Unidos. Para o "moderno". Le droit anglais est un droit historique. Aproveito esta oportunidade para fazer notar aos estrangeiros que generosamente escrevem sobre meus livros. enquanto se formavam estas aglomerações. vejam-se algumas moedas reproduzidas em Rostovtzeff: The social and economic history of the Roman Empire. (Vejam-se. que se usaram no passado. de modo que surta uma doutrina orgânica sobre o fato mais importante de nosso tempo. (30) Não se deixem de ler as maravilhosas páginas de Hegel sobre os tempos satisfeitos em sua Filosofia de la historia. não sê-lo eqüivale a cair baixo o nível histórico. 1928. (Veja-se pág. quel qu'en soit l'âge". intitulado "Masas" (1926) e em duas conferências dadas na Associação Amigos del Arte. o fato de que quase toda a minha obra saiu ao mundo usando a máscara de artigos jornalísticos. 35 do tomo III das Obras Completas).htm (130 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . (25) Veja-se o ensaio Hegel y América. e ao mesmo tempo o imperativo de estar à altura dos tempos. págs. (23) Em seu prólogo a sua tradução de La Liberté. (32) La deshumanización del arte. Saeculum aureum. no direito. (28) Veja-se España invertebrada.A rebelião das massas. "aucune barrière entre le présent et le passé. A palavra "moderno" expressa. que havia de trazer a diminuição absoluta no número dos habitantes do Império. pag. modificação ou moda que em tal presente tenha surgido ante os modos velhos. Temporum felicitas. os tomos II e IV de Obras Completas). dificuldades para precisar a data de seu primeiro aparecimento. pois. (29) Nos cunhos das moedas de Adriano lêem-se coisas como estas: Italia Felix. 38/39. (31) O sentido original de "moderno". nota 6. tradução de José Gaos. tomo I. Revista de Occidente. começava o despovoamento das campinas. 41 e seguintes. de Stuart Mill. muita parte dela levou muitos anos em atrever-se a ser livro (1946). a consciência de uma nova vida. lâmina LII e 588. (Veja-se pág. (26) Em meu livro España Invertebrada. "modernidade" com que os últimos tempos se batizaram a si mesmos. págs. superior à antiga. posto que valha na ordem onde a palavra "vigência" tem hoje seu sentido mais imediato. a saber. 1926. Lévy-Ullmann: Le système juridique de l'Anglaterre. 353 do tomo III de Obras Completas). edição. Juridiquement parlant.

Não que sejamos decadentes. a esfera de facilidades e comodidades que sua riqueza podia proporcionar-lhe era muito reduzida. sempre haveria duas: essa e sair do mundo. não excluímos a da decadência. (37) A liberdade de espírito. cômoda e segura que a do mais poderoso em outro tempo. Fez-se a proclamação na praça da vila. O mundo de Einstein é finito. (38) Esta é a origem radical dos diagnósticos de decadência. já que não uma orientação positiva. (33) Precisamente porque o tempo vital do homem é limitado. base da técnica futura.A rebelião das massas. (36) 0 mundo de Newton era infinito. Mas a saída do mundo forma parte deste. povoado próximo a Almería. costuma dizer em conversação privada que se morressem subitamente dez ou doze determinadas pessoas. quando. por afã de viver. (34) No pior caso. plebéia ou "aristocrática". uma utopia abstrata e inane.htm (131 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . além do mais. seja qual seja. (Veja-se a pág. a massa. se proclamou rei a Carlos III. como a totalidade do mundo era pobre. já no prólogo de meu primeiro livro: Meditaciones del Quijote. que com repetidos "vivas!" se encaminharam ao depósito municipal de trigo e de suas janelas arrojaram o cereal file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. telégrafo. (39) Veremos. recolhido no tomo VII del El Espectador. tende sempre. (35) Assim. entretanto. necessita triunfar da distância e da tardança. (40) Hermann Weyl. Dissociar idéias custa muito mais que associá-las. a destruir as causas de sua vida. Foi necessária uma preparação de muitos séculos para acomodar o órgão mental à abstrata complicação da teoria física. 607 do tomo II de Obras Completas). mas uma vazia generalização. dispostos a admitir toda possibilidade. cujo espírito os acalorou de tal modo. se o mundo o é e lhe proporciona magnificas estradas de rodagem. companheiro e continuador de Einstein. Que lhe importa não ser mais rico que outros. o qual consumiu setenta e sete arrobas de vinhos e quatro odres de aguardente. portanto. A vida do homem médio é hoje mais fácil. careceria de sentido o automóvel. o que aconteceu em Nijar. mas que. hotéis. é quase certo que a maravilha da física atual se perderia para sempre na humanidade. mede-se por sua capacidade de dissociar idéias tradicionalmente inseparáveis. Qualquer evento poderia aniquilar tão prodigiosa possibilidade humana. e quando o mundo parecera reduzido a uma única saída. Nas Atlântidas aparece sob o nome de horizonte. quer dizer. Sempre me pareceu uma caricatura engraçada dessa tendência a propter vitam. vivendi perdere causas. um mundo mais rico de coisas e. de maior tamanho. como de uma habitação a porta. mas cheio e concreto em todas as partes. Jamais o entendimento humano teve como agora maior capacidade de dissociação. "Depois mandaram trazer de beber a todo aquele grande concurso. de ferro. mas essa infinitude não era um tamanho. Para um Deus cuja existência é imortal. em 13 de setembro de 1759. efetivamente. certos conselhos negativos. (41) Por muito rico que um indivíduo fosse em relação com os demais. segurança física e aspirina? (42) Abandonada à sua própria inclinação. como demonstrou Köhler em suas investigações sobre a inteligência dos chimpanzés. Não nos dirá o pretérito o que devemos fazer. Veja-se o ensaio El origen deportivo del Estado. precisamente porque é mortal. um dos maiores físicos atuais. como cabe receber do passado. 1916. mas o que devemos evitar. 1926. a potência do intelecto. que é.

(44) Veja-se España invertebrada (1922). dá conferências ou escreve. (Veja-se página 607 do tomo II de O. Fica. Admirável Nijar! Teu é o porvir! (43) É intelectualmente massa aquele que ante um problema qualquer se contenta com pensar o que boamente encontra em sua cabeça. entretanto. 156. com esta única diferença: uns pensarão que. o choque com a imbecilidade alheia. que nele havia e 900 reais de suas caixas. tomo VII. ou. morteiros. mandando derramar. pág. (51) Não é preciso dizer que quase ninguém levará a sério estas expressões. para mais autorizar a função. (Veja-se pag.um estudo sobre ela. é intelectualmente um bárbaro. se não tem vontade de ser verídico. C. e os outros. C.cevada. Como é possível. se deixará ganhar pelo sentido primário destas frases e será precisamente quem . vida é o processo existencial de uma alma. pelo menos. já falei em España invertebrada (1922). (46) Veja-se El origen deportivo del Estado. 35 do tomo III de O. pág. trigo. Entre os demais reinará a mais efusiva unanimidade.) (48) Muitas vezes levantei de mim para mim a seguinte questão: é indubitável que sempre teve de ser para muitos homens um dos tormentos mais angustiosos de sua vida o contacto. um ensaio sobre a imbecilidade? (49) Não se pretenda escamotear a questão: todo opinar é teorizar. caçarolas. Nas lojas fizeram o mesmo. intacta esta questão. que não se tenha tentado nunca . C. pelo contrário. É. pois. citado em Reinado de Carlos III. pelo senhor Manuel Danvila. talvez comoventes. aniquila-se a si mesmo. egrégio aquele que desestima o que acha sem prévio esforço em sua mente. que é uma sucessão de reações químicas. Só algum leitor bastante ingênuo para não crer que sabe já definitivamente o que é a vida.) (47) Sobre a indocilidade das massas. não há oportunidade para estudar o fato de que tantas vezes apareça na história uma "nobreza de sangue". pois em altas vozes induziram as mulheres a sacudir fora o que havia nas suas casas. pratos. especialmente das espanholas. nem cadeiras. falando a sério. que exclui a herança.parece-me . e ao dito ali remeto-me. o que executaram com o maior desinteresse. 35 do tomo III de O. almofarizes. e os melhores intencionados as entenderão como simples metáforas.verdadeiras ou falsas . o que não é. e só aceita como digno dele aquilo que está acima dele e exige um novo estirão para alcançá-lo.as entenda. Este povoado.htm (132 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . (Veja-se pág.). (50) Se alguém em sua discussão conosco se desinteressasse de se ajustar à verdade. (45) Como no anterior trata-se só de retrotrazer o vocábulo "nobreza" a seu sentido primordial.A rebelião das massas. quantos gêneros líquidos e comestíveis havia nelas. essa é a posição do homem-massa quando fala. em El Espectador. farinha. 10. O Estado eclesiástico concorreu com igual eficácia. ficando a vila destruída: Segundo um papel do tempo em poder do senhor Sánchez de Toca. De fato. pois não restou nelas pão. Não creio que melhore minha situação ante leitores tão herméticos resumir toda uma maneira de pensar dizendo que o sentido primário e radical da palavra vida aparece quando a empregamos no sentido de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e o tabaco. Dali passaram ao Estanco do Tabaco e mandaram jogar fora o dinheiro da Mesada. para viver sua alegria monárquica. tomo II. nota 2.

pois. o que jamais foram as restaurações. pois. pelo menos. C. por outra parte. A maior parte dos investigadores mesmos não têm hoje a mais leve suspeita da gravíssima. pelo contrário. fora desejável um terceiro nome.A rebelião das massas. Claro que não se deve entender restauração como simples "volta ao antigo". preferências e gostos. Quando as idéias. (58) Já aqui entrevemos a diferença entre o estado das ciências de uma época e o estado de sua cultura. Se eu defendo o liberalismo do século XIX contra as massas que incivilmente o atacam. Esse seria o verdadeiro nome.todos os demais princípios vitais política. quer dizer. religião . não cabe desculpar o desapego por ela supondo o homem médio distraído por algum outro entusiasmo de cultura. arte.htm (133 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .) (53) Daí que. (54) A rigor. Uma das coisas que perturbam mais gravemente a consciência européia é o conjunto de juízos pueris sobre a América do Norte que se ouvem expendidos até pelas pessoas mais cultas. (59) Uma geração atua em média durante trinta anos. Veja-se o que. Só a ciência não falha. (60) Não se confunda o aumento. a meu juízo. que começa a injetar no ar público. mais genérico. É um caso particular da desproporção que mais adiante aponto entre a complexidade dos problemas atuais e a capacidade das mentes. finalmente. com a sobra. fantasia e mito. (56) Aristóteles: Metafísica. portanto. uma petulante rebeldia. a nova geração faz a propaganda de suas idéias. Mas a geração educada sob seu império traz consigo outras idéias. El Espectador. em. 893 a 10.como indiquei . preferências e gostos da geração imperante são extremistas.se acham efetivamente e por si mesmos em crise. dizia eu sobre isto no ensaio "Biologia e Pedagogia". Outra coisa é abstração. concorrência. adquirem vigência e são o dominante na segunda metade de sua carreira. uma claríssima obrigação de toda "época crítica". Pela fortíssima razão de que toda biologia é em definitivo só um capítulo de certas biografias. e por isso revolucionários. perigosíssima crise íntima que hoje atravessa sua ciência. que daqui a pouco ocupará a nossa atenção. a nova geração é anti-extremista e anti-revolucionária. não quero dizer que renuncie a uma plena liberdade diante desse próprio liberalismo. (52) Esta folga de movimentos ante o passado não é. "O paradoxo do selvagismo". (57) Centuplica a monstruosidade do fato que . transitória falha. e. de alma substancialmente restauradora. tomo III. (55) Não falemos de questões mais internas.desse período. biografia e não no de biologia. Não tem. que incluísse ambas. é o que em sua vida (biografável) fazem os biólogos. Mas essa atuação divide-se em duas etapas e toma duas formas: durante a primeira metade . os quais.aproximadamente . mas. preferências e gostos. direito. e ainda a abundância de meios. dia a dia cumpre com fabulosos acréscimos quanto promete e mais do que promete. pelo contrário. moral. não há poucos anos. não diz nada quem supõe haver dito algo definindo a América do Norte por sua "técnica". Vice-versa: o primitivismo que neste ensaio aparece sob seu pior aspecto é. No século XIX file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o substantivo da última centúria. (Página 281 do tomo II de O. e em certo sentido. a democracia liberal e a técnica se implicam e inter-supõem por sua vez tão estreitamente que não é concebível uma sem a outra. condição de todo grande avanço histórico.

O envilecido é o suicida sobrevivente. E ao aceitar essa porção de inautenticidade cumpre com seu dever. e a não ater-se aos privilégios.htm (134 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O "mocinho satisfeito". posto em relação com a capacidade do homem médio. mais claras e volumosas do "senhoritismo" vigente é. pelo contrário. aumentavam as facilidades de vida. Uma das manifestações. (63) 0 que é a casa ante a sociedade. a ocupação comercial e industrial . este católico nega com sua crença dogmática. A nobreza salvou-se por isso mesmo. Coincide com este só num ponto. em fantasma. O que lanço em rosto ao "mocinho satisfeito" é a falta de autenticidade em quase todo o seu ser. (66) Para que a filosofia impere. a nobreza inglesa tem sido a menos "sobrada" da Europa e tem vivido em mais constante perigo que nenhuma outra. Apenas um exemplo disto: a segurança que parecia oferecer o progresso (aumento sempre crescente de vantagens vitais) desmoralizou o homem médio. viciosa. ao "mocinho satisfeito". atrófica. deserta de si mesmo por mera frivolidade e de tudo . Mas. Este seu autêntico ser não morre por isso. (64) Quem crê copernicamente que o sol não cai no horizonte. não é mister que os filósofos imperem . adquiria um aspecto demasiado. a decisão que algumas nações tomaram de "fazer o que está na sua vontade" na convivência internacional. Como não era abundante de meios. A isso chamam ingenuamente "nacionalismo". (65) Envilecimento. decidiu-se muito cedo a viver economicamente em forma criadora. E porque tem vivido sempre em perigo soube e conseguiu sempre fazer-se respeitar . a aristocracia inglesa parece uma exceção do dito.como Platão quis primeiro -. o país mais pobre do Ocidente.quantitativo e qualitativo da própria vida como apontei acima. até mui avançado o século XVIII. o ser seu caso admirabilíssimo. e como o ver implica uma convicção primária. Esquece-se o dado fundamental de que a Inglaterra tem sido. (62) Veja-se Olbricht: Klima und Entwicklung. queira ou não. O que acontece é que sua crença científica detém. mas converte-se em sombra acusadora.A rebelião das massas. que lhe faz sentir constantemente a inferioridade da existência que leva a respeito da que tinha que levar. por outra parte. mas não se refere a ele a censura radical que dirijo ao homem-massa de nosso tempo. supérfluo. O católico não é autêntico em uma parte de seu ser .tudo que tem. como em outras coisas. acanalhamento.porque quer ser fiel a outra parte efetiva de seu ser que é sua fé religiosa. como veremos. E eu. os efeitos de sua crença primária ou espontânea. Esta alusão ao caso desse católico vai aqui só como exemplo para esclarecer a idéia que agora exponho. Mas chegou um momento em que o mundo civilizado. que sinto asco pela sujeição beata à internacionalidade.precisamente para escapulir a toda tragédia. constantemente. de homem moderno . é-o em escala maior a nação ante o conjunto das nações.ignóbil no continente -. excessivamente rico. bastaria desenhar as linhas gerais da história britânica para patentear que esta exceção.o que supõe haver permanecido sem descanso na brecha -. (61) Nisto. Assim. Isto significa que o destino desse católico é em si mesmo trágico. acho. confirma a regra. embora o seja. Contra o que sói dizer-se. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. autêntica crença liberal. teve de aceitar. ao mesmo tempo. inspirando-lhe uma confiança que é já falsa. isto é. é evidente. grotesco esse transitório "senhoritismo" das nações menos gradas. 1923. não é outra coisa senão o modo de vida que resta a quem se negou a ser o que tem que ser. Mas ainda esta coincidência parcial é só aparente. continua vendo-o cair. continua crendo. e isso produz o prodigioso crescimento . sua própria.

A invenção da carga num tubo deveu-se a alguém da Lombardia. 563 do tomo II de O. Como se explica isto? Já a sociedade em torno começava a crescer. 1912). pagai ao soldado e desprezai o resto. C. em El Espectador. nem sequer que os imperadores filosofem . Ainda assim. (71) Veja-se Elie Halévy: Histoire du peuple anglais au XIXe. que formaram os suíços. (69) Mereceria a pena insistir sobre este ponto e fazer notar que a época das Monarquias absolutas européias operou com Estados muito débeis.. (68) Esta imagem simples da grande mudança histórica em que se substitui a supremacia dos nobres pelo predomínio dos burgueses deve-se a Ranke. (70) Recordem-se as últimas palavras de Septimio Severo a seus filhos: Permanecei unidos. 537 do tomo II de O. pág. 1930. basta que haja filosofia. (Veja-se pág. o ensaio Historia como sistema (R. Fica. melhor organizados economicamente. são pedagogos. se o Estado tudo podia .) (75) Seria interessante mostrar como na Catalunha colaboram duas inspirações antagônicas: o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A pólvora é conhecida de tempo imemorial. de O. Porque esta.htm (135 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . depois -. funestíssimas. não representados pelo exército de tipo medieval dos borguinhãos. C.como quis. 35 do tomo III das Obras Completas). (Veja-se pág. Veja-se. Para ela. quer dizer. 1927. demonstrando com isso que é menos razoável que a "razão histórica". 40.A rebelião das massas. (67) Veja-se España invertebrada.era "absoluto" -. 2a. Mas não basta isso. quando trata a fundo das coisas e não de soslaio como nestas páginas. Por que. Para que a filosofia impere. Há quase uma centúria os filósofos são tudo. são literatos ou são homens de ciência. racionalizadora. mas claro é que sua verdade simbólica e esquemática requer não poucos aditamentos para ser completamente verdadeira. (Veja-se o tomo VI de O. das aristocracias de sangue. não se fazia mais forte? Uma das causas é a apontada: incapacidade técnica. o Estado absoluto respeita instintivamente a sociedade muito mais que o nosso Estado democrático. burocrática.) (74) Isto é o que faz a razão física e biológica. nega-se a reconhecer como absoluto nenhum fato. Ambas as coisas são.) (73) Veja-se o ensaio Sobre la muerte de Roma. não obstante.são políticos. do autor. 1a. como literalmente certo que os nobres foram derrotados de maneira definitiva pelo novo exército. mas de burgueses. a rigor. mais modestamente. Sua força primária consistiu na nova disciplina e na nova racionalização da tática. edição. raciocinar consiste em fluidificar todo fato descobrindo sua gênese. Só os exércitos burgueses. siècle (tomo I. 1921. Os "nobres" usaram em pequenas doses a arma de fogo mas era demasiado cara. (Veja-se pag. Contra o que se crê. a "razão naturalista". menos isso . basta que os filósofos sejam filósofos. não foi eficaz até que se inventou a bala fundida. edição). Além disso aconteceu no Estado absoluto que aquelas aristocracias não quiseram ampliar o Estado à custa da sociedade. mas com menos sentido da responsabilidade histórica. Tomo VII. puderam empregá-la em grande escala. profissional. mais inteligente. Tomo VI. C. (72) Veja-se o ensaio "Hegel y América" em El Espectador.

nem todos os alemães alto-alemão. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que não são linguagens nacionais.a "boa" como a má . César. (82) Nem sequer como puro fato é verdade que todos os espanhóis falem espanhol. (81) Sabido é que o Império de Augusto é o contrário do que seu pai adotivo. não podem anular nosso verdadeiro ser. mas especificamente internacionais. nossas idéias. Chamavam-nas "faute de mieux". aparente contradição entre uma e outra tese. e este. nacionalismo europeu e o cidadanismo de Barcelona. por outro tem idéias sobre si mesmo que coincidem mais ou menos com sua autêntica realidade. (83) Ficam fora. sedes aratorum. mas sim complicá-lo ou modulá-lo. desejos. Surge essa aparência quando se esquece que o homem é um ente de dois andares: por um lado é o que é. (80) Os romanos não se resolveram a chamar cidades às povoações dos bárbaros. É revelador que apenas o europeu desperta e toma posse de si. Até hoje. o ser humano tem irremediavelmente uma constituição futurista. Segunda edição 1924. relativamente aberto. em El Espectador. (Veja-se página 607 do tomo II de O. pelo contrário. começa a chamar a sua vida "época moderna". (78) Veja-se do autor "El origen deportivo del Estado". preferências. (76) Homogeneidade jurídica que não implica forçosamente centralismo. dos inimigos de César. os casos de Koinón e língua franca. Como é sabido. em que pervive sempre a tendência do velho homem mediterrâneo. O antigo e o europeu estão igualmente preocupados com o porvir. mas no preferir. nem todos os ingleses inglês. dizendo que aquele é relativamente fechado ao futuro. Augusto opera no sentido de Pompeu. Para nossas "nações". por mui denso que fosse o casario. aspirou a instaurar. 1918. vive antes de tudo no futuro e do futuro. tomo II páginas 3 e 4. 1930. Há. toda política .) (79) Veja-se Dopsch: Fundamentos económicos y sociales de la civilización europea. eu contrapus o homem antigo ao europeu.A rebelião das massas. foi a escravidão um simples fato residual. não no ser. o melhor livro sobre o assunto é o de Eduardo Meyer: La Monarquia de César y el Principado de Pompeyo. ao novo como tal este antagonismo. justifica que qualifiquemos o europeu de futurista e o antigo de arcaizante. enquanto nós deixamos maior autonomia ao futuro. (85) Segundo isso. (77) 0 sentido desta abrupta asseveração supõe que uma idéia clara sobre o que é a política. o que nega o uso antigo. De uma civilização em que a escravidão tinha valor de princípio não se podia esperar outra coisa. mas aquele submete o futuro ao regime do passado. Pois a conseqüência é que esta concessão foi feita precisamente à medida que ia perdendo seu caráter de estatuto político. "moderno" quer dizer o novo. Eu já disse outra vez que o levantino é o resto do homo antiquus que há na Península. (84) Confirma isto o que a primeira vista parece controvertê-lo: a concessão da cidadania a todos os habitantes do Império. para se converter ou em simples carga e serviço do Estado ou em mero título de direito civil. Já nos fins do século XW começa-se a sublinhar a modernidade. pois. tomo VII.se achará no tratado sociológico do autor intitulado El Hombre y la Gente. Evidentemente. C.htm (136 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Não obstante. quer dizer. está claro.

(97) Ficam fora da consideração os que podemos chamar de "inventos elementais" . e muito menos mereça agora. Como em toda autêntica sociedade. aos "experts" e aos técnicos. uma espécie de vanguardismo na "mística teologia". o canastro. preferiram chamá-la de "liga". que tão freqüentemente fazem sua cômica aparição nas cartas ao diretor de The Times. a vasilha. precisamente nas questões que mais agudamente interessavam ao tempo. É esta um fenômeno coletivo. (91) Certa dose de anacronismo é conatural à política.htm (137 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . etc. indivíduos humanos. obrigados a desenvolver e executar os desatinos daqueles políticos. situa a agrupação de Estados fora do direito. "mulheres e crianças. vamos ver se a Inglaterra acerta a manter em unidade soberana de convivência as diferentes porções de seu Império. Precisamente por ser o suposto de todos os demais e haver sido conseguidos em períodos milenares. e fala-se. (86) 0 princípio das nacionalidades é. eis ai um exemplo. mas. e todo o coletivo ou social é arcaico relativamente à vida pessoal das minorias inventoras. Se se repassa a lista das pessoas que intervieram na criação da Sociedade das Nações. (94) A sociedade européia não é. um dos primeiros sintomas do romanticismo . (90) Estas páginas foram publicadas no número de junho de 1937 na revista The Nineteenth Century. (96) Há cento e cinqüenta anos a Inglaterra fertiliza sua política internacional mobilizando sempre que lhe convém e só quando lhe convém . constitutiva. nesta obra. por exemplo. como de laboratório. veja-se o Prólogo para franceses. pois. Na medida em que as massas se distanciam destas aumenta o arcaísmo da sociedade. conclui-se que é muito difícil encontrar alguma que merecesse então. (89) Bastaria isso para se convencer de uma vez para sempre que o socialismo de Marx e o bolchevismo são dois fenômenos históricos que apenas têm alguma dimensão comum. é claro. de devotio moderna. seus membros são homens. Não me refiro. e de uma magnitude normal. -. Isso evita o equívoco. uma sociedade cujos membros sejam as nações. passa a ser um caráter patológico.fins do século XVIII. alemães. a roda. com bom acordo. é muito difícil sua comparação com a massa dos inventos derivados ou históricos.o machado. contempladas de outra perspectiva. os europeus. a saber. propondo-lhe um programa atrativo. ao mesmo tempo. cronologicamente. que além de ser europeus são ingleses. (93) Sobre a unidade e a pluralidade da Europa.A rebelião das massas. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. espanhóis. (92) Os ingleses. (88) Se bem essa homogeneidade respeita e não anula a pluralidade de condições originárias. (95) Por exemplo: as apelações a um suposto "mundo civilizado" ou a uma "consciência moral do mundo". (87) Agora vamos assistir a um exemplo gigantesco e claro.o princípio melodramático de "women and children". consignando-a francamente à política. estimação intelectual. o fogo.

(107) Um exemplo destes combates em que a vitória efetiva não deu. Londres. e ao mesmo tempo. ou que na juventude culmina a vida. o haver sido nossos antepassados os mouros. um que só falam os homens e o outro só para as mulheres. com efeito. Mas não mostram nenhuma pressa.500 a 1. Basta isso para demonstrar que esse correspondente. entre elas o Estado. Se no estilo pictórico as figuras aparecem em posição vertical. a meu juízo.htm (138 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . É evidente que uma nova técnica de mútuo conhecimento entre os povos reclama uma reforma profunda da fauna jornalística. reforma das instituições. Mas todo o raciocínio do artigo que mobiliza e dá um sentido a esses dados minuciosos e a essas cifras exatas. mas resisto a considerá-lo decisivo. é absolutamente incapaz de informar sobre a realidade da vida espanhola. faria uma boa obra. que. o triunfo ao combatente. reabilitar-se para o estímulo oposto. (100) Os perigos maiores que como nuvens negras ainda se amontoam no horizonte. de se embotar para um estímulo. sem embargo. Mas isto vale para um conceito mais minucioso de juventude que o habitualmente usado e ao qual este ensaio se acolhe.A rebelião das massas. sem dúvida. um fator que colabora nestas mudanças como em todos os do organismo vivo. George Allen & Unwin. entretanto.. e o resto é desviver. as conseqüências que trouxe para a vida romana.600). (104) Não se explica. A vida tem a condição inexorável de se cansar. (102) Até o ponto de existir em certos povos primitivos dois idiomas. foram os "intelectuais" dessa geração. portanto. se não se supõe em épocas muito primitivas uma etapa de enorme predomínio dos jovens que deixou. mas do econômico. como de coisa sabida e que tudo explica. etc. E. o triunfo foi gozado pelos que não combateram nunca esse regime enquanto foi file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. (99) Neste mês de abril. o correspondente de The Times em Barcelona envia a seu jornal uma informação onde procura os dados mais minuciosos e as cifras mais exatas para descrever a situação. Porque o paralelismo com o momento presente da Espanha é surpreendente e luminoso. é sumamente provável que pouco tempo depois surgirá outro estilo com as figuras em posição diagonal (mudança da pintura italiana de 1. (98) Acrescente-se que nessas opiniões jogavam sempre grande papel as vigências comuns a todo Ocidente. não provêem diretamente do quadrante político. pode ser visto na ordem pública. a origem de certas coisas humanas. ou que viver é ser jovem. muitos vestígios positivos nos povos selvagens do presente. mudanças políticas. (103) Há. (106) Do ponto de vista mais geral. não contradiz o dito agora. Até que ponto é inevitável uma pavorosa catástrofe econômica em todo o mundo? Os economistas deviam dar-nos ocasião para que cobrássemos confiança em seu diagnóstico. por razões de curioso espelhismo histórico. (105) Quem quisesse contar-nos com algum detalhe a guerra de Numância. Os que combateram e em realidade venceram a velha política pseudo-parlamentária. parte de supor. É o contraste. qualquer que seja sua operosidade e sua imparcialidade. tem sentido dizer que a vida não é senão juventude. (101) Tradução inglesa do presente livro.

Simplesmente porque os franceses entendem de literatura. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. diz o trovador Giraud de Bornelh. (109) Tenho idéia de que Freud se ocupa minuciosamente deste fato. poderoso. ver-se-á que essa geração é a efetivamente culpada do desajuste atual da Europa. na França tem o escritor um formidável poder social. mas com alguma probabilidade dirijo o leitor à que então se intitulava Três ensaios sobre teoria sexual. Como fazem dezesseis anos que li esse autor. La société française au temps de Philippe Auguste. não recordo bem em que obra trata o assunto.A rebelião das massas. (112) Por isto a estimação do escritor na Espanha é sempre falsa e a rigor mais obra da boa vontade que de sincero entusiasmo. páginas 94/102).htm (139 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . (111) "Só para louvar as damas". 376. (113) Achille Luchaire. (108) 0 dia que se faça em sério a história do último século. (110) Veja-se a Cronaca. de Fra Salimbene (Parma. 1957. pág. Pelo contrário.

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