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A rebelião das massas.

Copyright Autor: José Ortega y Gasset Tradutor: Herrera Filho Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org)

A REBELIÃO DAS MASSAS
Jose Ortega y Gasset

ÍNDICE

Apresentação Biografia do autor PRÓLOGO PARA FRANCESES PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I - O fato das aglomerações II - A ascensão do nível histórico III - A altura dos tempos IV - O crescimento da vida V - Um dado estatístico VI - Começa a dissecação do homem-massa

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A rebelião das massas. VII - Vida nobre e vida vulgar, ou esforço e inércia VIII - Porque as massas intervêm em tudo e porque só intervêm violentamente IX - Primitivismo e técnica X - Primitivismo e história XI - A época do "mocinho satisfeito" XII - A barbárie do "especialismo" XIII - O maior perigo, o Estado SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV - Quem manda no mundo? XV - Desemboca-se na verdadeira questão EPÍLOGO PARA INGLESES Quanto ao pacifismo DINÂMICA DO TEMPO As vitrinas mandam Juventude Masculino ou feminino? NOTAS

APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia

"A Rebelião das Massas", obra prima de José Ortega y Gasset, começou a ser publicado em 1926 num jornal madrilenho ("El Sol"). Retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Não se refere às classes sociais mas às multidões e aglomerações. Tendo esse contexto como pano de fundo, Ortega discute temas, aparentemente contrários

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A rebelião das massas.

entre si, mas que se fundem (ou devem fundir-se) numa unidade de sentido. É assim que contrapõe individualismo e submissão ao coletivo; comunidade, nação e estado; história, presente e porvir; homens cultos e especialistas; poder arbitrário e respeito à opinião pública; juventude e velhice; guerra e pacifismo; masculino e feminino. São tópicos que, inevitavelmente, nos induzem à reflexão crítica. Em alguns casos são apresentados de forma extremamente provocativa. Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e afirma: "É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules." Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam um certo desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se masculinizando: "A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil, uma espécie de atleta com seios. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX, quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura, extrema feminilidade. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista, e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita." Sobre a guerra, chega a afirmar: "O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida." Sua interpretação do modelo escravista é bastante sugestiva: "Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor." São essas aparentes contradições que estimulam nosso espírito crítico. Ortega defendeu suas concepções com vigor, fundamentos sólidos e uma lógica irreprensível. Em poucos momentos foi totalmente conclusivo, mas deixou uma enorme abertura para que possamos repensar as idéias que defendeu em seus dias, adaptando-as ao nosso tempo e ao que viveremos no futuro.

BIOGRAFIA DO AUTOR

José Ortega y Gasset nasceu em Madrid, a 9 de maio de 1883. A família de sua mãe era
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consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei de sua influência atmosférica. Há sobretudo épocas em que a realidade humana. Holanda. Com o início da guerra civil espanhola.A rebelião das massas. Começou a ser publicado num jornal madrilenho em 1926. PRÓLOGO PARA FRANCESES I Este livro . sempre instável. "Que és filosofia?". Buscando uma formação intelectual mais sólida continuou seus estudos em Marburgo. Muito do que nele se enuncia foi logo um presente e já é um passado..." A partir de 1910 iniciou uma vida pública repartida entre a docência universitária e atividades políticas e culturais extra acadêmicas. Nossa época é dessa classe porque é de descidas e quedas.. Daí que os fatos ultrapassaram o livro. Foi também co-fundador do diário "El Sol" e fundador e diretor da "Revista de Occidente". formulando um projeto pessoal de reforma da filosofia européia. viajando à França.supondo que seja um livro .htm (4 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Tendo adquirido as primeiras letras em Madrid foi enviado a cursar o bacharelado em um colégio jesuíta de Málaga. "Historia como sistema". Ortega. onde prevalecia o neokantismo. Essa relação com o jornalismo foi essencial para o desenvolvimento de sua formação intelectual e seu estilo de expressão literária. minha casa e minha prisão (. Portugal. em julho de 1936. "En torno a Galileo"."Rebelión de las masas". reagiu contra os tênues fundamentos da ciência adquirida. como este livro circulou muito durante estes anos fora da França. ao mesmo tempo.data. e o assunto de que trata é demasiado humano para que pudesse escapar à ação do tempo. proprietária do jornal madrilenho "El Imparcial" e seu pai jornalista e diretor desse mesmo diário. países onde proferiu inúmeras conferências. Argentina. além de considerado um dos maiores filósofos da língua espanhola também é lembrado como uma das maiores figuras do jornalismo espanhol do século XX. na Alemanha. Faleceu em Madrid no dia 18 de outubro de 1955. Ortega decidiu andar pelo mundo.. Terminando os estudos em Málaga iniciou seus estudos universitários em Deusto e depois na Universidade de Madrid. as mais polêmicas das quais foram: "Meditaciones del Quijote". se precipita em velocidade vertiginosa. Embora reconhecendo o valor da educação jesuítica recebida. não poucas de suas fórmulas chegaram ao leitor francês por vias file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. "Obras Completas". Suas obras se revestem de um caráter extremamente crítico.) Com grande esforço. onde se doutorou em Filosofia. Grande parte de seus escritos filosóficos foram produzidos a partir do contato com a imprensa. Acabou por adotar uma atitude crítica em relação aos seus mestres e a Kant. que se refletiu na afirmação: "Durante dez anos vivi no mundo do pensamento kantiano: eu o respirei com a uma atmosfera que foi. Além disso.

pois. Não estou convencido disso. Todo vocábulo é ocasional (l). Diz. que não entre na sua leitura com ilusões injustificadas. Não é sobremodo improvável que minhas palavras. já ao falar de física começa a ser equívoco e insuficiente. procurássemos adivinhar-nos. mais humanos. Serve bastantemente para enunciados e provas matemáticas. isso é o ilusório. Apenas. dar-lhe um murro. não usamos estas reservas. o engano vem a ser um humilde parasita da ingenuidade. uma parte do que pensamos e põe uma barreira infranqueável à transfusão do resto. o abuso aqui file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. esgota-se em esforços para chegar ao próximo. Ao contrário. mas não há motivo para formalismo. Dóceis ao prejuízo inveterado de que falando nos entendemos. excelente ocasião para praticar a obra de caridade mais adequada a nosso tempo: não publicar livros supérfluos. A linguagem não dá para tanto. Assim esta. Desses esforços é a linguagem que consegue às vezes declarar com maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós. anônimas e são puro lugar comum. Como em tantas outras coisas. O de menos é que a linguagem sirva também para ocultar nossos pensamentos. Por isso eu creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente. Mas uma definição. os quais não são indiferentes ao significado das palavras. A moeda falsa circula apoiada na verdadeira. sua inépcia e seu confusionismo. como diz alguém a alguém.htm (5 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . produz funestos resultados. Em todo dizer há um emissor e um receptor. se é verídica. Mas.vai para cinco anos a Casa Stock me propôs a sua versão -. dizemos e ouvimos com tão boa fé que acabamos muitas vezes por não nos entendermos. muito mais do que se. seria útil submetê-lo a sua meditação e a sua crítica. tanto mais aumenta sua imprecisão. No final das contas. e que. estas foram páginas escritas para uns quantos espanhóis que o destino colocou à minha frente. mas tampouco nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem impossível entender-se com seus semelhantes. Não se arrisca a tanto. pois. Este varia quando aquelas variam. Como quase tudo que escrevi. mas me fizeram ver que o organismo das idéias enunciadas nestas páginas não corresponde ao leitor francês. Pois bem. e todas as outras formas do falar destituem sua eficácia. Porém quanto mais a conversação se ocupa de temas mais importantes que esses. Porque ela mesma não nos assegura que mediante a linguagem possamos manifestar. Definimos a linguagem como o meio de que nos servimos para manifestar nossos pensamentos. A mentira seria impossível se o falar primário e normal não fosse sincero. Não posso esperar melhor sorte quando estou persuadido de que falar é uma operação muito mais ilusória do que se supõe. Conste. acertada ou erroneamente. quando o homem se põe a falar. entretanto. consigam dizer aos franceses o que elas pretendem exprimir. Teria sido. que quer acariciá-la . mais "reais". Não. certamente. para mentir. que se trata simplesmente de uma série de artigos publicados num jornal madrilenho de grande circulação. encerra tácitas reservas. Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. Esquece-se demasiadamente que todo autêntico dizer não só diz algo. o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista com que costumamos escutá-la. mudando agora de destinatário. Eu fiz tudo que me foi possível em tal sentido . é irônica. com suficiente justeza.A rebelião das massas. A linguagem é por essência diálogo. Duo si idem dicunt non est idem. habitualmente. em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente seu leitor e este percebe como se dentre as linhas saísse u'a mão ectoplástica que tateia sua pessoa. todos os nossos pensamentos. mui cortesmente. e quando não a interpretamos assim. mudos. Importa-me. estando condenado à radical solidão. isto faz porque crê que vai poder dizer tudo que pensa. mais ou menos.ou bem. como quase tudo que o homem faz.

II Esta tese que sustenta a exiguidade do raio de ação eficazmente concedido à palavra. representações de todas as nações. consistiu no uso sem preocupação. de outra grave coisa: da pavorosa homogeneidade de situações em que vai caindo todo o Ocidente. Outrora podia ventilar-se a atmosfera confinada de um país abrindo-se as janelas que dão para outro. com o cotovelo apoiado no rebordo de uma chaminé. multiplica ao infinito seu efeito deprimente quando quem o sofre adverte que apenas há lugar no continente onde não aconteça estritamente o mesmo. porque em outro país a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.htm (6 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e. Desde o aparecimento deste livro. ignorantes de seus próprios limites e que sendo. sem insistir demasiado sobre a realidade do fato. que não escrevi nem falei à Mesopotâmia. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo. Os representantes das nações adiantavam-se ao público e apresentavam sua homenagem ao vate da França. essa identidade cresceu de modo angustioso. ansiosas. podia parecer invalidada pelo fato mesmo de que este volume tenha encontrado leitores em quase todas as línguas da Europa. fizeram um grande giro circular como procurando em todo o cosmos algo que não encontrava. sem perceberem que a palavra é um sacramento de mui delicada administração. usaram dele sem respeito e precauções. os homens do dizer. L'Humanité!" Contei isso a fim de declarar. virando os olhos. do logos. a mais desprezível da demagogia. que este fato é de preferência sintoma de outra coisa. por seu ofício. O porteiro exclamou: "Monsieur le Représentant de la Mésopotamie!" Victor Hugo.A rebelião das massas. sem a solenidade de Victor Hugo. que até então permanecera impertérrito e seguro de si mesmo. Shakespeare!" O porteiro continuou: "Monsieur le Représentant de l'Espagne"! E Victor Hugo: "L'Espagne! Ah. em solene atitude de estátua. respondeu à homenagem do rotundo senhor dizendo: "La Mésopotamie! Ah. Suas pupilas. portanto. O grande poeta achava-se na grande sala de recepção. realmente. balofo e de andar desgracioso. levando suas homenagens. com a mesma convicção. isto é. Goethe!" Mas então chegou a vez de um senhor baixo. com o mesmo tom patético. a todos e a ninguém. sem consciência da limitação do instrumento. atarracado. com voz estentórica. da qual participaram. foi adotada até 1750 por intelectuais desajustados. Esse costume de falar para a Humanidade. Eu creio. com voz de dramático trêmulo. o que em cada país é sentido como circunstância dolorosa. Mas logo se viu que o achara e que recobrara o domínio da situação. Há quase dois séculos que se acredita que falar era falar urbi et orbi. Contam. que é a forma mais sublime. Efetivamente. anunciava-os: "Monsieur le Représentant de l'Anglaterre!" E Victor Hugo. Cervantes!" O porteiro: "Monsieur le Représentant de L'Allemagne!" E Victor Hugo: "L'Allemagne! Ah. pareceu vacilar. pela mecânica que nele mesmo se descreve. dizia: "L'Anglaterre! Ah. e nunca me dirigi à Humanidade. Um porteiro. que quando se celebrou o jubileu de Victor Hugo foi organizada uma grande festa no palácio do Elíseo. todavia. Mas agora esse expediente não serve de nada. Digo angustioso porque.

claramente desde o século XI. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. progressivamente homogêneos e progressivamente diversos. É de somenos importância que a esse espaço histórico comum.ter uma idéia muito confusa do que é o direito.é.não as idéias sobre ele do filósofo. Esta convivência tomava indiferentemente aspecto pacífico ou combativo. os viajores e mercadores que rodaram pelo mundo: Unde sapientia venit et quis est locus intelligentiae? "Sabeis de algum lugar do mundo onde a inteligência exista?" Convém.A rebelião das massas. Um pouco de outro modo. Evitam a aniquilação do inimigo. viver sempre foi . dessa sociedade preexistente. secreção espontânea da sociedade e não pode ser outra coisa. aproximadamente. Querer que o direito reja as relações entre seres que previamente não vivem em efetiva sociedade.perdoe-se-me a insolência . desde Óton III . que para cada um viver era conviver com os demais. Eadem sed aliter. o contrário daquela. jurista ou demagogo . Um dos mais graves erros do pensamento "moderno". que era um terrível pince-sans-rire. Ao contrário. corresponda um espaço físico que a geografia denomina Europa. lutas de emulação. poder público. a realidade "direito" . Este destino que os fazia. Este enxame de povos ocidentais que alçou vôo sobre a história desde as ruínas do mundo antigo. convivência e sociedade são termos equivalentes. caracterizou-se sempre por uma forma dual de vida. Isto é. De sua essência e inelutavelmente esta segrega costumes. de pessoas que convivem. a par. usos.é um espaço social. Pelo contrário: cada novo princípio uniforme fertilizava a diversificação. A idéia cristã engendra as igrejas nacionais. pergunta a seus amigos. Uma sociedade não se constitui do acordo das vontades. Pois aconteceu que à medida que cada um ia formando seu gênio peculiar. a "restauração das letras" no século XV impele as literaturas divergentes. que é. maneiras e entusiasmos. e o acordo não pode consistir senão em precisar uma ou outra forma dessa convivência. O espaço histórico a que aludo mede-se pelo raio de efetiva e prolongada convivência . Como Carlos V dizia de Francisco I: Meu primo Francisco e eu estamos de perfeito acordo: ambos queremos Milão". Sociedade é o que se produz automaticamente pelo simples fato da convivência. que vem a ser como estimular em cada um sua vocação particular. produz o efeito de despertar romanticamente a consciência diferencial das nacionalidades. entretanto. Porque neles a homogeneidade não foi alheia à diversidade. portanto jurídica. a ciência e o princípio unitário do homem como "razão pura" cria os distintos estilos intelectuais que modelam diferencialmente até as extremas abstrações da obra matemática. se me permitem a expressão barroca. Porque o direito. Ora. E é que para esses povos chamados europeus. Daí a sensação opressora de asfixia. cujas salpicaduras ainda padecemos. As guerras inter-européias mostraram quase sempre um curioso estilo que as faz parecer muito com as altercações domésticas. entre eles ou sobre eles se ia criando um repertório de idéias.htm (7 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Finalmente e para cúmulo: até a extravagante idéia do século XVIII. Mais ainda. direito. que nessa progressiva assimilação das circunstâncias distingamos duas dimensões diferentes e de valor contraposto. A idéia da sociedade como reunião contratual. atmosfera é tão irrespirável como no próprio. há de entender-se com certo superlativo de paradoxo. todo acordo de vontades pressupõe a existência de uma sociedade. onde todos os povos do Ocidente se sentiam como em sua casa. parece-me . a lembrança do Imperium romano inspira as diversas formas do Estado. e são verdadeiros certames. Job. línguas.mover-se e atuar em um espaço ou âmbito comum. tem sido confundir a sociedade com a associação. é o mais insensato ensaio que se fez de pôr o carro adiante dos bois. todos vão ao mesmo. segundo a qual todos os povos hão de ter uma constituição idêntica. como as dos jovens numa aldeia ou disputas de herdeiros pela partilha de um legado familiar.

A rebelião das massas.

Não deve estranhar, por outra parte, a preponderância dessa opinião confusa e ridícula sobre o direito, porque uma das máximas desditas do tempo é que, ao toparem os povos do Ocidente com os terríveis conflitos públicos do presente, se encontraram aparelhados com instrumental arcaico e ineficiente de noções sobre o que é sociedade, coletividade, indivíduo, usos, lei, justiça, revolução, etc. Boa parte da inquietação atual provém da incongruência entre a perfeição de nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso escandaloso das "ciências morais". O ministro, o professor, o físico ilustre e o novelista soem ter dessas coisas conceitos dignos de um barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro suburbano quem dê a tonalidade do tempo? (2) Mas voltemos a nossa rota. Queria insinuar que os povos europeus são há muito tempo uma sociedade, uma coletividade, no mesmo sentido que têm estas palavras aplicadas a cada uma das nações que a integram. Essa sociedade manifesta todos os atributos possíveis: há costumes europeus, usos europeus, opinião pública européia, direito europeu, poder público europeu. Mas todos esses fenômenos sociais se dão na forma adequada ao estado de evolução em que se encontra a sociedade européia, que não é, evidentemente, tão avançado como o de seus membros componentes, as nações. Por exemplo: a forma de pressão social que é o poder público funciona em toda sociedade, inclusive naquelas primitivas em que não existe ainda um organismo especial encarregado de manejá-lo. Se a esse órgão diferenciado a quem se entrega o exercício do poder público se quer chamar Estado, diga-se que em certas sociedades não há Estado, mas não se diga que nelas não há poder público. Onde há opinião pública, como poderá faltar um poder público se este não é mais que a violência coletiva suscitada por aquela opinião? Ora bem, que há séculos e com intensidade crescente existe uma opinião pública européia e até uma técnica para influir nela - é incômodo negá-lo. Por isso, recomendo ao leitor que poupe a malignidade de um sorriso ao deparar que nos últimos capítulos deste volume se faz com certo denodo, ante o cariz oposto das aparências atuais, a afirmação de uma possível, de uma provável unidade estatal da Europa. Não nego que os Estados Unidos da Europa são uma das fantasias mais módicas que existem e não me solidarizo com o que os outros pensaram sob esses signos verbais. Mas, por outra parte, é sumamente improvável que uma sociedade, uma coletividade tão madura como a que já formam os povos europeus, ande longe de criar para si seu artefato estatal mediante o qual formalize o exercício do poder público europeu já existente. Não é, pois, debilidade ante as solicitações da fantasia nem propensão a um "idealismo" que detesto, e contra o qual hei pugnado toda a minha vida, o que me leva a pensar assim. Foi o realismo histórico que me ensinou a ver que a unidade da Europa como sociedade não é um "ideal", mas um fato de velhíssima cotidianidade. Ora bem, uma vez que se viu isso, a probabilidade de um Estado geral europeu impõe-se necessariamente. A ocasião que leve subitamente a término o processo pode ser qualquer, por exemplo, a cólera de um chinês que apareça pelos Urais ou uma sacudida do grande magma islâmico. A figura desse Estado super-nacional será, é claro, muito diferente das usadas, como, segundo nesses mesmos capítulos se tenta mostrar, foi muito diferente o Estado nacional do Estado-cidade que os antigos conheceram. Eu procurei nestas páginas pôr em franquia as mentes para que saibam ser fiéis à sutil concepção do Estado e sociedade que a tradição européia nos propõe. Nunca foi fácil ao pensamento greco-romano conceber a realidade como dinamismo. Não podia

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desprender-se do visível ou seus sucedâneos, como um menino não entende do livro senão as ilustrações. Todos os esforços de seus filósofos autóctones para transcender essa limitação foram vãos. Em todos os seus ensaios para compreender atua, mais ou menos, como paradigma, o objeto corporal, que é, para eles, a "coisa" por excelência. Só conseguem ver uma sociedade, um Estado onde a unidade tenha caráter de continuidade visual; por exemplo, uma cidade. A vocação mental do europeu é oposta. Toda coisa visível lhe parece, como tal, simples máscara aparente de uma força latente que a está constantemente produzindo e que é sua verdadeira realidade. Ali onde a força, a dynamis, atua unitariamente, há real unidade, embora à vista se nos apareçam como manifestação dela apenas coisas diversas. Seria recair na limitação antiga não descobrir unidade de poder público apenas onde este tomou máscaras já conhecidas e como solidificadas de Estado; isto é, nas nações particulares da Europa. Nego redondamente que o poder público decisivo atuante em cada uma delas consista exclusivamente em seu poder público interior ou nacional. Convém cair de uma vez na compreensão de que há muitos séculos e com consciência disso há quatro - vivem todos os povos da Europa submetidos a um poder público que por sua própria pureza dinâmica não tolera outra denominação que a extraída da ciência mecânica: o "equilíbrio europeu" ou balance of Power. Esse é o autêntico governo da Europa que regula em seu vôo pela história o enxame de povos, solícitos e pugnazes como abelhas, escapados às ruínas do mundo antigo. A unidade da Europa não é uma fantasia, mas de fato a própria realidade, e a fantasia é precisamente a crença de que a França, a Alemanha, a Itália ou a Espanha são realidades substantivas e independentes. Compreende-se, entretanto, que nem todo o mundo perceba com evidência a realidade da Europa, porque a Europa não é uma "coisa", mas um equilíbrio. Já no século XVIII o historiador Robertson qualificou o equilíbrio europeu de the great secret of modern politics. Segredo grande e paradoxal, sem dúvida! Porque o equilíbrio ou balança de poderes é uma realidade que consiste essencialmente na existência de uma pluralidade. Se essa pluralidade se perde, aquela unidade dinâmica se desvaneceria. A Europa é, com efeito, enxame; muitas abelhas e um só vôo. Esse caráter unitário da magnífica pluralidade européia é o a que eu chamaria boa homogeneidade, a que é fecunda e desejável, a que fazia Montesquieu dizer: L'Europe n'est qu'une nation composée de plusieurs, (3) e Balzac, mais romanticamente, falava da grande famille continentale, dont tous les efforts tendent à je ne sais quel mystère de civilisation. (4)

III Esta multidão de modos europeus que brotam constantemente de sua radical unidade e reverte a ela mantendo-a, é o maior tesouro do Ocidente. Os homens de cabeças toscas não conseguem congeminar uma idéia tão acrobática como esta em que é preciso saltar, sem descanso, da afirmação da pluralidade ao reconhecimento da unidade e vice-versa. São cabeças pesadas nascidas para existir sob as perpétuas tiranias do Oriente.

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Triunfa hoje sobre toda a área continental uma forma de homogeneidade que ameaça consumir completamente aquele tesouro. Onde quer que tenha surgido o homem-massa de que este volume se ocupa, um tipo de homem feito de pressa, montado tão somente numas quantas e pobres abstrações e que, por isso mesmo, é idêntico em qualquer parte da Europa. A ele se deve o triste aspecto de asfixiante monotonia que vai tomando a vida em todo o continente. Esse homem-massa é o homem previamente despojado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas "internacionais". Mais do que um homem, é apenas uma carcaça de homem constituído por meros idola fori; carece de um "dentro", de uma intimidade sua, inexorável e inalienável, de um eu que não se possa revogar. Daí estar sempre em disponibilidade para fingir ser qualquer coisa. Tem só apetites, crê que só tem direitos e não crê que tem obrigações: é o homem sem nobreza que obriga - sine nobilitate - snob. (5) Este universal snobismo, que tão claramente aparece, por exemplo, no operário atual, cegou as almas para compreender que, embora toda estrutura dada da vida continental tenha de ser transcendida, tudo isso há de se fazer sem perda grave de sua interior pluralidade. Como o snob está vazio de destino próprio, como não sabe que existe sobre o planeta para fazer algo determinado e impermutável, é incapaz de entender que há missões particulares e mensagens especiais. Por essa razão é hostil ao liberalismo, com uma hostilidade que se assemelha à do surdo em relação à palavra. A liberdade significou sempre na Europa franquia para ser o que autenticamente somos. Compreende-se que aspire a prescindir dela quem sabe que não tem autêntico mister. Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque as pessoas não costumam pôr-se de acordo a não ser em coisas um pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores coletivistas, que começam por desconhecê-lo. Ademais, há nele uma intuição do que a Europa tem sido, altamente perspicaz. Quando Guizot, por exemplo, contrapõe a civilização européia às demais fazendo notar que nela não triunfou nunca em forma absoluta nenhum princípio, nenhuma idéia, nenhum grupo ou classe, e que a isso se deve o seu crescimento permanente e seu caráter progressivo, não podemos deixar de pôr o ouvido atento (6). Este homem sabe o que diz. A expressão é insuficiente porque é negativa, mas suas palavras chegam-nos carregadas de visões imediatas. Como do mergulhador emergente transcendem olores abismais, vemos que este homem chega efetivamente do profundo passado da Europa onde soube submergir. É, com efeito, incrível que nos primeiros anos do século XIX, tempo retórico e de grande confusão, se tenha composto um livro como a Histoire de la Civilisation en Europe. Todavia o homem de hoje pode aprender ali como a liberdade e o pluralismo são duas coisas recíprocas e como ambas constituem a permanente entranha da Europa. Mas Guizot teve sempre péssima publicidade, como em geral, os doutrinários. Não me surpreendo. Quando vejo que para um homem ou grupo se dirige fácil e insistente o aplauso, surge em mim a veemente suspeita de que nesse homem ou nesse grupo, talvez junto a dotes excelentes, há algo sobremodo impuro. Talvez isto seja um erro em que incorro, mas devo dizer que não o procurei, que o foi dentro de mim decantando a experiência. De qualquer maneira, quero ter a coragem de afirmar que este grupo de doutrinários, de quem todo o mundo riu e fez mofas truanescas, é, a meu ver, o mais

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ainda que me dirigindo a leitores franceses. sem poder abandonar-se. Numa época como a nossa. porque o passado é "o natural do homem que volta a galope". que encontram o absoluto em abstrações bon marché. no meio da rusticidade e da frivolidade crescente daquele século. enfim. abstrações e irrealidades. Condensam-se nele várias gerações de protestantes nimeses que haviam vivido em alerta perpétuo. quer dizer. defeito que é. Guizot soube ser. o homem que não ri (7). é muito possível que o porvir pertença a tendências de intelecto muito semelhantes às suas. ainda que pareça incrível. e constituíram o doutrinal político mais estimável de toda a centúria. Perdura neles ativa a melhor tradição racionalista em que o homem se compromete consigo mesmo a procurar coisas absolutas. Os doutrinários desprezavam os "direitos do homem" porque são absolutamente "metafísicos". Os verdadeiros direitos são os que absolutamente estão aí. descobrem eles o histórico com o verdadeiro absoluto. Não se abandona jamais. por sua vez. Pelo menos. Nem será possível reconstruir a história desta se não se estabelece intimidade com o modo em que se apresentaram as grandes questões ante estes homens (10). as noções sobremodo turvas. Igual desconhecimento do velho liberalismo sentem os coletivistas de agora quando supõem. E. Foram os únicos que viram claramente o que havia que fazer na Europa depois da Grande Revolução. e foram além disso homens que criaram em suas pessoas uma atitude digna e distante. Seu estilo intelectual não é só diferente em espécie. originalmente. mas o é de outro gênero e de outra essência em face de todos os demais triunfantes na Europa antes e depois deles. do que mais tem faltado aos intelectuais europeus desde 1750. Havia chegado a converter-se neles em um instinto a impressão radical de que existir é resistir. Rotas e sem vigência quase todas as normas com que a sociedade presta uma continência ao indivíduo. todavia. mas diferentemente do racionalismo linfático de enciclopedistas e revolucionários.htm (11 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . como eu disse. asseguro a quem se proponha formular com rigor sistemático as idéias dos doutrinários. (8) como. Mal pode fazer-se isso sem alguma exageração. sobre os problemas mais graves da vida pública européia. valioso que houve na política do continente durante o século XIX. fincar os calcanhares no chão para se opor à correnteza. É verdade que nem um nem o outro publicaram jamais um soneto. que era individualista. é bom tomar contacto com os homens que não "se deixam levar". mas os continentais ainda não chegamos a essa estação. pensaram profundamente. a legitimidade. Posso aludir ao doutrinarismo como a uma magnitude conhecida. Pois se dá o fato escandaloso de que não existe um só livro onde se tenha tentado precisar o que aquele grupo de homens pensava. Talvez desde o tempo de Alcuino tenhamos vivido cinqüenta anos pelo menos atrasados a respeito dos ingleses. nem mais nem menos. Por isso não os entenderam. Nela chegou a fazer-se tal e como é. não podia este constituir-se uma dignidade se não a extraía do fundo de si mesmo. apesar da sua clássica lucidez. ainda que seja somente para se defender do abandono orgiástico em que vivia seu contorno. não há tampouco um livro medianamente formal sobre Guizot nem sobre Royer-Collard (9). Se alentassem hoje reconheceriam o direito de greve (não política) e o contrato coletivo. como Buster Keaton. prazeres de pensamento não esperados e uma intuição da realidade social e política totalmente diferente das usadas. A história é a realidade do homem. Negar o passado é absurdo e ilusório. Não tem outra. Os russos desses anos passados costumavam chamar a Rússia de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. uma das causas profundas do presente desconcerto Mas eu não sei se. porque foram aparecendo e se consolidando na história: tais são as "liberdades".A rebelião das massas. O passado não está presente e não teve o trabalho de acontecer para que o neguemos. mas para que o integremos (11). como coisa inquestionável. Os doutrinários são um caso excepcional de responsabilidade intelectual. sem poder flutuar à deriva no ambiente social. A um inglês tudo isso pareceria óbvio. a magistratura. as "capacidades". Em todos estes temas andam. Mas.

os quais cevam para depois chupar-lhes a substância. Mas quando se viu com clareza o que no fenômeno social. "o coletivo". simplesmente e como tal. avançando pela centúria. de pavoroso. as seguintes teses: Primeira: o liberalismo individualista pertence à flora do século XVIII. No essencial é imediatamente aceita por todos. Amard. O descobrimento . o fato de que a coletividade é uma realidade diferente dos indivíduos e de sua simples soma. Nada mais. sem outra exceção que não seja Benjamim Constant. chegamos aos grandes teorizadores do liberalismo . bisogna aver una confusione nella testa? Diante disso tudo eu rogaria ao leitor que tomasse em conta. Daí que os "velhos liberais" se abrissem sem suficientes precauções ao coletivismo que respiravam. porém.A rebelião das massas.sem dúvida glorioso e essencial . em que interessa e beneficia à sociedade. um "atrasado" do século anterior. Terceira: esta idéia é de origem francesa. Aqueles homens apalpavam. Aparece pela primeira vez nos arquireacionários de Bonald e de Maistre. falará em 1821 do collectivisme em face do personnalisme (13). Até esse ponto era a primazia do coletivo o fundo por si mesmo evidente sobre o qual ingenuamente dançavam suas idéias! De onde se infere que minha defesa lohengrinesca do velho liberalismo é. porque então convinha a esta ocupar-se em cevar bem os indivíduos. do coletivo. no fato coletivo. Por outra parte. em parte.O indivíduo contra o Estado . É a primeira idéia que inventa apenas nascido e que ao longo de cem anos não fez senão crescer até inundar todo o horizonte. Porque indivíduo e Estado significam nesse titulo dois meros órgãos de um único sujeito . Por exemplo: um médico de Lyon. E o que se discute é se certas necessidades sociais são melhor servidas por um ou pelo outro órgão. só se pode aderir ao liberalismo de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O famoso "individualismo" de Spencer boxeia continuamente dentro da atmosfera coletivista de sua sociologia. Leiam-se os artigos que em 1830 e 1831 publica L'Avenir contra o individualismo. os fenômenos sociais do tempo camuflavam a verdadeira economia da coletividade. mas não sabiam bem em que consistia e quais eram seus efetivos atributos. da espoliação e da partilha em todas as ordens. porém. em Ballanche. por outro. Não chegara ainda a hora da nivelação. a legislação da Revolução francesa. como o capitão italiano de que falava Goethe. Não seria interessante averiguar que idéias ou imagens se espreguiçavam à invocação deste vocábulo na mente um tanto gasosa do homem russo que tão freqüentemente. O aspecto agressivo do título que Spencer escolhe para seu livro . Mas triunfa em Saint-Simon. no final. é que tanto ele como Stuart Mill tratam os indivíduos com a mesma crueldade socializante com que os termitas a certos de seus congêneres.tem sido causa de que o não entendam teimosamente os que não lêem dos livros senão os títulos. em Comte e pulula por toda a parte (12). Porque o caso é que eu não sou um "velho liberal". que tudo isso é outra coisa. mas para que sejam discutidas e passem depois à sentença. há por um lado de benefício. não para aceitá-las. era demasiado recente.surpreende-nos que sua suposta defesa não se baseia em mostrar que a liberdade beneficia ou interessa a este. Mais importante. M.a sociedade. mais do que viam.Stuart Mill ou Spencer . de terrível. completamente.do social. desinteressada e gratuita. inspira. mas morre com ela. Quando. O resultado. Segunda: a criação característica do século XIX foi precisamente o coletivismo.htm (12 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mas pelo contrário.

Tal e como vamos. digo. mestre de Cícero. Mas o sistema e documento mais terrível desta forma. que o estóico Possidônio. Nessa consciência se reconhece a si mesma como valor positivo. na linha mesma do horizonte. O processo vinha de tempos atrás. Isso o faz acolher-se a um grande pensamento emitido por Humboldt na sua juventude. Ora bem. Dentro de cada nação. caminhamos em linha reta para o Baixo Império. em Tocqueville. com a míngua progressiva da "variedade de situações". próximo a florescer. seja como concidadãos. A disposição dos homens. Para que o humano se enriqueça. que exista "variedade de situações" (16). A língua. que não nos serve para dizer suficientemente o que cada um de nós quiséramos dizer. ao contrário. este desbordamento não é um mal que tenda a desaparecer espontaneamente. menos sublinhado e analisado do que devera: os homens tornaram-se estúpidos. tende a fazer-se cada vez mais formidável. a menos que uma forte barreira de convicção moral não se eleve contra o mal. existe no mundo uma forte e crescente inclinação a estender em forma extrema o poder da sociedade sobre o indivíduo. a impor aos demais como regra de conduta sua opinião e seus gostos. devemos esperar. as cabeças se obliteram.htm (13 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . a condição mais arcana da sociedade que a fala.A rebelião das massas. como todas as mudanças que se operam no mundo têm por efeito o aumento da força social e a diminuição do poder individual. é preciso que se dêem circunstâncias diferentes. moveu sempre os lábios do perene liberalismo europeu. ninguém o procurou: no idioma. disposto a investigá-los. com alguma razão. que quase nunca se reprime senão quando lhe falta poder. matriz de nossos romances. revela pelo contrário e grita. a pluralidade continental. é o último homem antigo capaz de se colocar ante os fatos com a mente porosa e ativa. o que há mais de oitenta anos escrevia Stuart Mill: "À parte as doutrinas particulares de pensadores individuais. Já no tempo dos Antoninos se nota claramente um estranho fenômeno. estilo radicalmente novo. devemos esperar. Disse-se. não farão outra coisa senão repetir. Veja-se. a língua vigente é a que se chamou "latim vulgar". encontramos pré-desenhada nossa hora. em Comte. estereotipar. Na porção mais helenizada do povo romano. segundo Humboldt. menos ingênuo e de mais destra beligerância. se consolide e se aperfeiçoe é necessário. ao falhar uma restam outras possibilidades abertas. Nem era possível que sendo estes homens. E insensato pôr a vida européia numa só carta. que nas condições presentes do mundo esta disposição nada fará senão aumentar" (15). Contra o que sói acreditar-se tem sido normal na história que o porvir seja profetizado (14). como eram.que adota a vida de um a outro extremo do Império. um liberalismo que está germinando já. Importava-me esclarecer isso para que não se tergiverse a idéia de uma superação européia que este volume postula. num só tipo de homem. numa idêntica "situação". que eu saiba. Em Macaulay. seja como soberanos. fartamente perspicazes. a um tempo homogênea e estúpida . Assim. não entrevissem de quando em quando as angústias que seu tempo nos reservava. tanto por meio da força da opinião como pela legislativa.e uma eqüivale à outra . e tomando em conjunto as nações. sem que o queiramos. E como o poder não parece achar-se em via de declinar. como bem e não como mal. por exemplo. Evitar isso tem sido o secreto acerto da Europa até hoje. e salvo os Alexandrinos. mas de crescer. Mas o que mais nos interessa em Stuart Mill é sua preocupação pela homogeneidade de má classe que via crescer em todo o Ocidente. Também foi aquele um tempo de massa e de pavorosa homogeneidade. está onde menos se podia esperar e onde todavia. clara ou balbuciante. Não se conhece bem este file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Depois dele. mas. se acha tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana. e a consciência desse segredo é a que.

Tingitânia e Dalmácia. a esclarecer um pouco as coisas. ou por isso mesmo. como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias. gramática balbuciante e perifrástica. com efeito. testemunho de que uma vez a história agonizou sob o império homogêneo da vulgaridade por haver desaparecido a fértil "variedade de situações". já fala de per si. A obra intelectual aspira. E eu o fiz durante toda a minha vida. em boa parte. Eu. uma língua triste. Mas uma das coisas que agora se dizem .é que. latim vulgar e. não parecem admirar-se ante o fato de que falassem da mesma maneira países tão díspares como Cartago e Gália. O assunto de que aqui se fala é prévio à política e pertence a seu subsolo. como fartas de rolar pelas tabernas mediterrâneas. IV Nem este volume nem eu somos políticos. depois dos aviadores. incluso a custo da claridade mental. porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem.htm (14 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . que sou bastante tímido. procuro descobrir a realidade vivente de que esse fato é a quieta marca.uma "corrente" . Um é a incrível simplificação do seu mecanismo gramatical em comparação com o latim clássico. de mecanismo muito fácil. tranqüilamente. hispanismos. Ademais. galicismos. Meu trabalho é obscuro labor subterrâneo de mineiro. como um arrepiante empedernimento. E. Sempre estive na estacada. Isto. não posso reprimir ante esse fato um estremecimento medular. a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente. pelo contrário. com freqüência baldada. que são talvez. em certo modo. que havia africanismos. nulificando suas vidas? O latim vulgar está aí nos arquivos. porém. o morador de Hipona e o de Lutécia. Os vocábulos parecem velhas moedas de cobre. Mas o que se conhece basta e sobra para que nos espantem dois de seus caracteres. Há obrigações de trabalhar sobre as questões do tempo. apesar das distâncias. uma língua pueril ou gaga que não permite a fina aresta do raciocínio nem líricas cambiantes. Parece-me simplesmente atroz. é claro. enquanto a do político sói. Como podiam vir à coincidência o celtibero e o belga. Dizem-no. consistir em confundi-las mais do que estavam. pelo contrário. Mas ao constar isto quer dizer-se que o torso da língua era comum e idêntico. imundas e sem rotundidade. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o mauritânio e o dácio. efetivamente. condenadas à eterna cotidianidade se adivinham atrás desse seco artefato lingüístico! O outro caráter aterrador do latim vulgar é precisamente sua homogeneidade. uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas. Os lingüistas. Hispânia e Rumânia.A rebelião das massas. como material. pesadamente mecânico. sem dúvida. os homens menos dispostos a assustar-se com coisa alguma. E verdade que trato de me representar como era por dentro isso que olhado de fora nos aparece. A missão do chamado "intelectual" é. Ser da esquerda é. que avança às cegas. ao mesmo tempo. oposta à do político. todo o mundo tem de fazer política sensu stricto. senão em virtude de um achatamento geral. do escasso intercâmbio. que tremo quando vejo como o vento fatiga uns caniços. só se chega a ele mediante reconstruções. são formas da hemiplegia moral. como ser da direita. é claro. que conservava a linguagem das classes superiores. reduzindo a existência à sua base. A saborosa complexidade indo-européia. como homogeneidade. Consta. sem evidência e sem calor de alma. ficou suplantada por uma fala plebéia. da dificuldade de comunicações e de que não contribuía para fixá-lo uma literatura. É uma língua sem luz nem temperatura. desoladas. de ensaio e rodeio como a infantil. Que vidas evadidas de si mesmas.

as únicas coisas que por sua substância são aptas para ocupar o centro da mente humana -. nem de longe. e que eu chamei o homem-massa. ou. o uso. fora de si. como verá o leitor. que não está aberto de verdade a nenhuma instância superior. posto que pretenda suplantar o conhecimento. o direito. vestir o escafandro e descer ao mais profundo do homem. é uma e mesma coisa com o fenômeno de rebelião das massas que aqui se descreve. não para fazer o leque do pavão real nas reuniões acadêmicas. e por isso é a predicação do politicismo integral uma das técnicas que se usam para socializá-lo.A rebelião das massas. porque está demasiado virgem. nos adscreve simultaneamente em vez de responder devemos perguntar ao impertinente que pensa ele que é o homem e a natureza e a história. A outra pergunta decisiva. depende toda possibilidade de saúde. nada parecido. Quando alguém nos pergunta o que somos em política.htm (15 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Os termos com que deve ser levantado não constam na consciência file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. toleram ser corrigidos? Porque. a religião. o Estado. Mas há muito tempo que aprendi a ficar em guarda quando alguém cita Pascal. E é preciso que o faça prontamente ou. é esta: podem as massas. antecipando-se com a insolência que pertence ao estilo de nosso tempo. que é a sociedade e o indivíduo. mas com decisão. studiate il passo Mentre que l'Occidente non s'annera. é quando se suscitam as interrogações mais férteis e mais dramáticas: Pode-se reformar este tipo de homem? Quero dizer: os graves defeitos que há nele. Para falar sobre ele mais seriamente e mais profundamente não haveria mais remédio senão pôr-se em roupa abissal. a absorção de todas as coisas e de todo o homem pela política. Para isso está aí. (Purg. A massa em rebeldia perdeu toda a capacidade de religião e de conhecimento. XXVII. Não pode ter dentro mais que política exorbitada. que encontre a saída. Como suas últimas palavras fazem constar. 62-63) Isso seria o único de que poderia esperar-se com alguma probabilidade a solução do tremendo problema que as massas atuais aventam. se trata precisamente de um homem hermético. como dizia Dante. e eu o tentei num livro próximo a aparecer em outros idiomas sob o título El hombre y la gente. a coletividade. Uma vez que nos afiguramos bem de como é esse tipo humano hoje dominante. A política despoja o homem de solidão e intimidade.enfim. Este volume não pretende. a meu juízo. É preciso que o pensamento europeu proporcione sobre todos estes temas nova claridade. ainda que quisessem. A política apressa-se a apagar as luzes para que todos estes gatos sejam pardos. a sagesse . E uma cautela de higiene elemental. tão graves que se não os extirpamos produzirão de modo inexorável a aniquilação do Ocidente. O politicismo integral. os que não têm outra coisa que fazer. da qual. é só uma primeira aproximação ao problema do homem atual. E até o corroboram citando de Pascal o imperativo d'abêtissement. frenética. despertar a vida pessoal? Não cabe desenvolver aqui o tremendo tema. Importa fazer isso sem pretensões.

este pensamento: Pode hoje um homem de vinte anos formar um projeto de vida que tenha figura individual e que.A rebelião das massas. Não. É. mediante seus esforços particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem em sua fantasia. A grega e a romana sucumbiram nas mãos desta fauna repugnante. e talvez a estrutura da vida em nossa época impeça superlativamente que o homem possa viver como pessoa. o tema da "justiça social". ninguém pode mover um braço ou uma perna por iniciativa própria. caminhos que não parecem passar por uma miserável socialização. mas nulo historiador. pública. como até a todo desejo pessoal e buscará a solução oposta: imaginará para si uma vida standard. apesar de tão respeitável. com efeito. quase improvável. não notará que é. a história está cheia de retrocessos nesta ordem. ao mesmo tempo. Porque é pura inércia mental do "progressismo" supor que conforme avança a história. portanto. senão impossível. que vão e vêm por suas ruas ou se concentram em festivais e manifestações políticas. O desânimo o levará com a facilidade de adaptação própria de sua idade a renunciar não só a todo ato. A coisa é horrível. Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomerações de seres humanos. Daí a ação em massa. O formigueiro humano é impossível. pelo contrário ressuma só vagas filantropias. Nem sequer está esboçado o estudo da distinta margem de individualidade que cada época do passado deixou à existência humana. e o formigueiro sucumbiria como ao sopro de um deus torvo e vingativo. porque foi o chamado "individualismo". está visível. Só isto nos levará a atacar o mal nos estratos fundos de onde verdadeiramente se origina. os exemplos mais vis da natureza humana deparam-se entre os demagogos" (17). porque chocaria com os corpos dos demais. Herbert Spencer. assim cresce a folga que se concede ao homem para poder ser indivíduo pessoal. incorpora-se em mim. que fazia Macaulay exclamar: "Em todos os séculos. Os demagogos têm sido apenas os grandes estranguladores de civilizações. faria sua reaparição na Europa o esfomeamento gigantesco do Baixo Império. além do mais. Este último vocábulo é. Mas um homem não é demagogo somente porque se ponha a gritar ante a multidão. orienta sobre os caminhos acertados para conseguir o que dessa "justiça social". os movimentos têm de se executar em comum. é possível e é justo conseguir. inoperante. Em tal circunstância. Mas nem sequer esta cruel imagem é uma solução. queiramos ou não. e até os músculos respiratórios têm de funcionar a ritmo de regulamento. empalidece e se degrada até parecer retórico e insincero suspiro romântico. obsedante. como cria o honrado engenheiro. que o seriam um pouco mais. muito difícil salvar uma civilização quando lhe chegou a hora de cair sob o poder dos demagogos. Em uma prisão onde se amontoaram muito mais presos dos que cabem. mas não creio que exagera a situação efetiva em que se vão achando quase todos os europeus. A primeira condição para um melhoramento da situação presente é perceber bem sua enorme dificuldade. Restariam muito menos homens. necessitaria realizar-se mediante suas iniciativas independentes.htm (16 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Ante o feroz patetismo desta questão que. porque até hoje não se condensou nele um sistema enérgico de idéias históricas e sociais. como a vida do próximo aperta a sua. mas dirigir-se em linha reta para um magnânimo solidarismo. Isto seria a Europa convertida em formigueiro. Mas. Isso pode ser em ocasiões file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. porque não há a sua disposição espaço em que possa alojá-la e em que possa mover-se segundo seu próprio ditame? Logo advertirá que seu projeto tropeça com o próximo. Quando os restos desse "individualismo" desaparecessem. composta de desiderata comuns a todos e verá que para consegui-la tem de solicitá-la ou exigi-la em coletividade com os demais. que enriqueceu o mundo e a todos no mundo e foi esta riqueza que prolificou tão fabulosamente a planta humana.

desde então. mas. São problemas de máxima concreção. Algumas destas. A demagogia essencial do demagogo está dentro de sua mente. Não sei se algum dia sairão à luz estas Conversaciones con estatuas. conversei com elas sobre grandes temas humanos. Ao mesmo tempo tive a honra de receber o encargo de uma enérgica mensagem que esse busto dirige ao outro. antigas incitações ou perenes mestres de minha intimidade. a França tenha vivido mais que outro qualquer povo sob formas políticas. Mas o racionalismo físico-matemático tem sido na França demasiado glorioso para que não tiranize a opinião pública. deveu-se bem claramente à extravagância dos revolucionários de 1848 (20). Mas era natural que me interessasse sobretudo em ouvir uma vez mais a palavra do nosso sumo mestre Descartes. acertar seus historiadores. salta à vista que seus geômetras. Os problemas humanos não são. Sobretudo. cujas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. insuficientemente exercido por mandarins literários e por uma Universidade que ficou completamente excêntrica diante da efetiva vida das nações. a vontade de transformar de chofre tudo e em todos os gêneros (19). e que é o busto do falso Comte. chamado Endageest. Isso é o que. o que encontramos é que essas revoluções serviram principalmente para que durante todo um século. como os astronômicos ou os químicos. E o único método de pensamento que proporciona alguma probabilidade de acerto em sua manipulação é a "razão histórica". que está no Quai Conti. que dulcificaram uma etapa dolorosa e estéril de minha vida.A rebelião das massas. abstratos. Porque esse país tem ou crê que tem uma tradição revolucionária. uma magistratura sacrossanta. entendendo por tal o que já Leibnitz chamava uma "revolução geral" (18). O puro acaso que ciranda minha existência fez que eu redija estas linhas tendo à vista o lugar da Holanda em que habitou em 1642 o novo descobridor da raison. A demagogia é uma forma de degeneração intelectual. do oficial. seus físicos e seus médicos se equivocaram sempre em seus juízos políticos. em maior ou menor escala. o homem a quem a Europa mais deve. que como amplo fenômeno da história européia aparece na França em 1750.htm (17 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Quando se contempla panoramicamente a vida pública da França durante os últimos cento e cinqüenta anos. que o método para resolver os grandes problemas humanos é o método da revolução. e por sua irradiação. são velhas amizades. E se ser revolucionário é já coisa grave. salvo as estátuas. por isso é consubstancial às revoluções o fracasso. autoritárias e contra-revolucionárias. Nelas se raciocina com o marquês de Condorcet. entretanto. Com o pequeno busto de Comte que há em seu departamento da rue Monsieur-le-Prince falei sobre pouvoir spirituel. Nas revoluções tenta a abstração sublevar-se contra o concreto. Estes meses passados. grande parte dos quais confessou o próprio Raspail que haviam sido antes clientes seus. Graças a isso essa maravilha que é a França chega em más condições à difícil conjuntura do presente. e que conseguiram ao contrário. se nos atemos à verdade nua dos anais. Este lugar. quase todo o continente. mas recebeu dos verdadeiros criadores. Malebranche rompe com um amigo seu porque viu sobre sua mesa um Tucídides (21). paradoxalmente. porque são históricos. compreendi que eu não conhecia ninguém na grande cidade. do de Littré. Por que então? Por que na França? Este é um dos pontos nevrálgicos do destino ocidental e especialmente do destino francês. quanto mais sê-lo. crê a França. a grande depressão moral da história francesa que foram os vinte anos do Segundo Império. salvo uns dias ou umas semanas. ao grande. radica em sua irresponsabilidade ante as idéias mesmas que maneja e que ele não criou. impelindo minha solidão pelas ruas de Paris. erigido na praça de Sorbonne. E como não tinha com quem falar. por tradição! É verdade que na França fez-se uma Grande Revolução e várias torvas ou ridículas. sobre a perigosa idéia do progresso.

E a riqueza menor desse tesouro consiste no que dele pareça acertado e digno de conservar-se: o importante é a memória dos erros. Mas nem por isso é uma instituição vazia. Seus fabulosos triunfos sobre a natureza. Por isso Nietzsche define o homem superior como o ser "de memória mais desenvolvida. Ao método da revolução opõe o único digno da larga experiência que o europeu atual tem atrás de si. Apraz-me que seja um francês. árvores dão sombra a minha janela. O homem não é nunca um primeiro homem: começa desde logo a existir sobre certa altitude de pretérito amontoado. hipocritamente generosa. acumula seu próprio passado. carente de serviço. violaram sempre. mas porque têm muito menos memória que nós. Por isso o povo inglês. sempre pueris. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros. nunca maduros. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o tigre de hoje é idêntico ao de seis mil anos. mas isentos de serenidade. Três séculos de experiência "racionalista" obrigam-nos a rememorar o esplendor e os limites daquela prodigiosa raison cartesiana. Isso é verdade. Esta nos mostra a vaidade de toda revolução geral. falando rigorosamente. e ao fundo. a extensa experiência vital decantada gota a gota em milênios. de proclamar direitos. como pretendiam os confusonários do 89. atrás deles. a Monarquia não exerce no Império britânico nenhuma função material e palpável. Como sempre . mercê de seu poder de recordar. Semelhantemente. que nos permite não cometer os mesmos sempre. que em 1860 se atrevesse a clamar: "La continuité est un droit de l'homme. Deu-nos mais uma lição.vejo passar os idiotas e os dementes que arejam por momentos à intempérie sua malograda humanidade. o direito fundamental do homem. de tudo quanto seja tentar a transformação súbita de uma sociedade e começar de novo a história. efetivamente. biológica. Porque. cheios de gênio. Diz-se que há muito a Monarquia inglesa é uma instituição meramente simbólica. elle est un hommage à tout ce qui le distingue de la bête" (23). Seu papel não é governar. Este é o tesouro único do homem. As revoluções tão incontinentes em sua pressa. mas dizendo-o assim deixamos escapar o melhor. querer começar de novo. deu agora inusitada solenidade ao rito da coroação.A rebelião das massas.htm (18 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . é aspirar a descer e plagiar o orangotango. que é a "razão histórica" (22). seu privilégio e sua marca. nem administrar a justiça. A Monarquia da Inglaterra exerce uma função determinadíssima e de alta eficácia: a de simbolizar. a Inglaterra. Dupont-White. superiores a quanto pudera sonhar-se. os continentais. como a nurse da Europa. A única diferença radical entre a história humana e a "história natural" é que aquela não pode nunca começar de novo. é hoje um manicômio. Os pobres animais cada manhã esquecem quase tudo que viveram no dia anterior. Ante a turbulência atual do continente quis afirmar as normas permanentes que regulam sua vida. Diante de mim está um jornal em que acabo de ler o relato das festas com que a Inglaterra celebrou a coroação do novo rei. Köhler e outros mostraram como o chimpanzé e o orangotango não se diferenciam do homem pelo que. como se não houvesse outro antes.já que a Europa sempre pareceu um tropel de povos -. Esta raison é só matemática.. sublinham tanto mais seu fracasso ante os assuntos propriamente humanos e convidam a integrá-la em outra razão mais radical. física.. possui-o e o aproveita. nem mandar o Exército." Romper a continuidade com o passado. porque cada tigre tem de começar de novo a ser tigre. pelo contrário.em admoestadora vizinhança . Duas vezes ao dia . tão fundamental que é a definição mesma de sua substância: o direito à continuidade. e seu intelecto tem de trabalhar sobre um mínimo material de experiências. com deliberado propósito. O homem. espezinhado e esfarrapado. chamamos inteligência.

longe de ser o futuro. Este povo circula por todo o seu tempo. já que o presente é só a presença do passado e do porvir.htm (19 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . é não haver incorrido no inconcebível erro de ótica que sofreram então quase todos os europeus. que conserva em ativa posse.como me dizia uma naquela ocasião . E. era-o e o é muito mais a América do Norte do que a América do Sul. mas ainda parece uma de tantas. Porque não convém esquecer que então se pensava mui seriamente que os americanos haviam descoberto outra organização da vida que anulava para sempre as perpétuas pragas humanas que são as crises. a Inglaterra opôs.A rebelião das massas. continua existindo para ele. ao método revolucionário o método da continuidade. de sua pele. por assim dizer. um só fator: a caracterização do homem médio que hoje se vai apoderando de tudo. E eis aqui que este povo nos obriga."convencer-se de que na Europa não há nada interessante" (25). sobretudo. sustentando que a América. Hoje a coisa vai sendo clara e os Estados Unidos não enviam já ao velho continente senhoritas para . O velho lugar comum de que a América é o porvir havia nublado por instantes sua perspicácia. O leitor deveria. Violentando-me isolei neste quase-livro. Já começou a crise na Europa. poder existir no verdadeiro presente. do problema total que e para o homem e especialmente para o homem europeu seu imediato porvir. Tive então a coragem de me opor a semelhante deslize. Desde um futuro ao qual não chegamos mostra-nos a vigência louçã de seu pretérito (24). o único que pode evitar na marcha das coisas humanas esse aspecto patológico que faz da história uma luta ilustre e perene entre os paralíticos e os epiléticos. que se antecipou a todos em quase todas as ordens. E isso é ser um povo de homens: poder hoje continuar no seu ontem sem por isso deixar de viver para o futuro. Praticamente deveríamos omitir o quase. mostrassem carecer dele completamente. As pessoas ainda sentem-se em segurança. O único do que vai dito nestas páginas que me inspira algum orgulho. a coroa e o cetro que entre nós regem apenas a sorte do baralho. a presenciar seu vetusto cerimonial e a ver como atuam . E.porque não deixaram nunca de ser atuais os mais velhos e mágicos utensílios de sua história. pensava-se: aí está a América! Era a América da fabulosa prosperity. V Como nestas páginas se faz a anatomia do homem hoje dominante. Daí por que sejam os primeiros capítulos os que mais caducaram. um remoto passado porque era primitivismo. a hispânica. inventores do mais elevado que até agora se inventou . Com as festas simbólicas da coroação. porque lhe passou. Isto me obrigou a um duro ascetismo. à abstenção de expressar minhas convicções sobre tudo quanto toco de passagem. mais uma vez. ao ler esses capítulos. A pele do tempo mudou. precisamente porque passou. era.o sentido histórico -. na realidade. procedo partindo de seu aspecto externo. Ainda gozam os luxos da inflação. e depois penetro um pouco mais em direção a suas vísceras. Eu me envergonhava de que os europeus. retroceder aos anos 1926-1928. também contra o que se crê. Mais ainda: a apresentar freqüentemente as coisas em forma que se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. com certa impertinência do mais puro dandysmo. o lugar onde pretérito e futuro efetivamente existem. O inglês faz empenho de nos fazer constar que seu passado. inclusive os próprios economistas. é verdadeiramente senhor de seus séculos. Este é o povo que sempre chegou antes ao porvir.

cheios de espectadores. sublinhando uma feição de nossa época que é visível com os olhos da cara. desde que não sejam muito extemporâneos. 1937. Este fato é o advento das massas ao pleno poderio social. eu a denomino o fato da aglomeração. Os passeios.htm (20 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . para bem ou para mal. senão um ensaio de serenidade em meio à tormenta. Dir-se-ia que essas duas coisas . quer dizer-se que a Europa sofre agora a mais grave crise que a povos. etc. Oegstgeest-Holanda. cheios de transeuntes. econômica. JOSE ORTEGA Y GASSET. ainda que não de analisar. Como as massas. ao mesmo tempo e ainda antes. Sua fisionomia e suas conseqüências são conhecidas. está aí. um significado exclusivo ou primariamente político. O FATO DAS AGLOMERAÇÕES (26) Há um fato que. nações. Não deve. por definição. Para a inteligência do formidável fato convém que se evite dar. Há fato mais simples. culturas. embora fundamental. não devem nem podem dirigir sua própria existência. pois. cheios de viajantes. Os espetáculos. era a pior para deixar ver minha opinião sobre estas coisas. cheios de consumidores. intelectual. As casas cheias de inquilinos. As cidades estão cheias de gente. maio. mas. na vida atual? Vamos agora puncionar o corpo trivial desta observação. "massas". às palavras "rebelião". mais constante. Simplicíssima de enunciar. Mas eu não devia complicar os assuntos. Basta assinalar uma questão. religiosa. é o mais importante na vida pública européia da hora presente. Os trens. Os hotéis cheios de hóspedes. Esta crise sobreveio mais de uma vez na história. A verdade é que elas são precisamente o que ponho em questão quase desde meus primeiros estudos. Talvez a melhor maneira de aproximar-se a este fenômeno histórico consista em referir-nos a uma experiência visual. Por isso urgia isolar cruamente seus sintomas. cheias de banhistas. como um fator de primeira ordem com que se deve contar.A rebelião das massas. e nos surpreenderá ver como dele brota um repuxo inesperado. que não é. PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I. mais notório. Medi o homem médio quanto a sua capacidade para continuar a civilização moderna e quanto a sua adesão à cultura. As praias. a anomalia representada pelo homem-massa. cabe padecer. Os cafés. "poderio social". "Het Witte Huis". Chama-se a rebelião das massas. compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de vestir e o modo de gozar. e menos reger a sociedade. onde a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A vida pública não é só política. Nada mais. o leitor francês esperar mais deste volume.não são para mim questões. O que antes não era problema. As salas dos médicos famosos. cheias de enfermos. Também se conhece seu nome.a civilização e a cultura . era a mais favorável para aclarar o tema exclusivo deste estudo. no final das contas. começa a sê-lo quase de contínuo: encontrar lugar. desde já. moral. do "cheio". Qualquer que seja nossa atitude ante a civilização e a cultura.

a minorias. entretanto. Seu atributo são os olhos em pasmo. E evidente.htm (21 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . o mesmo número de pessoas existia há quinze anos. Que é o que vemos e ao vê-lo nos surpreende tanto? Vemos a multidão. Repartidos pelo mundo em pequenos grupos. Aqui topamos. Com efeito.a multidão . se decompõe em todo o seu rico cromatismo interior. e agora transbordam. Antes. de modo de ser nos indivíduos que a integram. uma inovação. Apenas refletimos um pouco. aparecem sob a espécie de aglomeração. que houve uma mudança. no bairro da grande cidade. Por isso. ocupava o fundo do cenário social. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem abertas. como tal.A rebelião das massas. mas não como multidão. portanto. Surpreender-se. por seleto que pretenda ser. que a formação normal de uma multidão implica a coincidência de desejos. Mas quê. branca luz do dia. ela é o personagem principal. os antigos deram a Minerva a coruja. Sim. não. As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. antes não era freqüente. maravilhar-se.indivíduo ou pequeno grupo ocupava o lugar. dissociada. Aproximadamente. divergente. estranhar. Por toda a parte? Não. talvez o seu. A multidão. natural. ao contrário. na vila. pois. deste dia. fica fora gente afanosa de usufruí-los. de repente. Dir-se-á que é o que acontece com todo grupo social. pelo menos no primeiro momento.numa determinação qualitativa: é a qualidade comum. criação realmente refinada da cultura humana. E o esporte e o luxo específico do intelectual. não há dúvida. Isso. se existia. possuidora dos locais e utensílios criados pela civilização. Agora. no campo. Os indivíduos que integram estas multidões preexistiam. não se pode desconhecer que antes não acontecia e agora sim. tornou-se visível. Por isso sua atitude gremial consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. na aldeia. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas o fato é que antes nenhum destes estabelecimentos e veículos costumavam estar cheios. e nossos olhos vêm por toda a parte multidões. mas que repete em si um tipo genérico. leva o intelectual pelo mundo em perpétua embriaguez de visionário. ou solitários. idéias. pelo visto. é o mostrengo social. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. nossa surpresa. A aglomeração. de repente. Que ganhamos com esta conversão da quantidade para a qualidade? Muito simples: por meio desta compreendemos a gênese daquela. A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e massas. Embora o fato seja lógico. E do mesmo modo os assentos o vagão ferroviário e seus quartos o hotel. por massas só nem principalmente "as massas operárias ". para que a sala esteja cheia. distante. levavam uma vida. Traduzamo-lo. é o homem enquanto não se diferencia de outros homens. do presente. O conceito de multidão é quantitativo e visual. não é o ideal? O teatro tem suas localidades para que se ocupem. Deste modo se converte o que era meramente quantidade . Massa é "o homem médio". reservados antes a grupos menores. nos surpreendemos de nossa surpresa. o pássaro com os olhos sempre deslumbrados. Então achamos a idéia de massa social. a qual justifica. portanto. é a delícia vedada ao futebolista e que. precisamente nos lugares melhores. passava inadvertida. Já não há protagonistas: só há coro. é começar a entender. agora adiantou-se até às gambiarras. sem alterá-lo. Não se entenda. em definitiva. à terminologia sociológica. Cada qual . com a primeira nota importante. até acaciano. Depois da guerra pareceria natural que esse número fosse menor. e instalou-se nos lugares preferentes da sociedade. Por que o é agora? Os componentes dessas multidões não surgiram do nada. ou cheio.

diz graciosamente Mallarmé que aquele público salientava com a presença de sua escassez a ausência multitudinária.A rebelião das massas. isto é. Falando do reduzido público que ouvia um músico refinado. que antes file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E é indubitável que a divisão mais radical que cabe fazer na humanidade. posterior a haver-se cada qual singularizado. mas não se sentirá "massa". O mesmo nos grupos sobreviventes da "nobreza" masculina e feminina. Assim. pois. a rigor.no bem ou no mal . embora não consiga cumprir em sua pessoa essas exigências superiores. portanto. e. a velhacaria habitual costuma tergiversar o sentido desta expressão. é característico do tempo o predomínio. é preciso que antes cada qual se separe da multidão por razões essenciais. bóias que vão à deriva. mas o que exige mais de si que os demais. da massa e do vulgo. mas em classes de homens. Este homem sentir-se-á medíocre e vulgar. uma divisão em classes sociais. A seu turno. Este ingrediente de juntarem-se os menos precisamente para separar-se dos demais vai sempre misturado na formação de toda minoria. a massa pode definir-se. A divisão da sociedade em massas ou minorias excelentes não é. idéia ou ideal. não se angustia. dentro de cada classe social há massa e minoria autêntica. a coincidência efetiva de seus membros consiste em algum desejo. Isto me lembra que o budismo ortodoxo se compõe de duas religiões distintas: uma. Quando se fala de "minorias seletas". Mas. secundário. Como veremos. O decisivo é se pomos nossa vida num ou no outro veículo. adverte-se o progressivo triunfo dos pseudo-intelectuais inqualificados. entretanto. quando chegam a sê-lo e enquanto o forem de verdade há mais verossimilitude em achar homens que adotam o "grande veículo". Para formar uma minoria. mas que se sente "como todo o mundo".htm (22 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mais rigorosa e difícil. "caminho menor". que por sua própria essência requer e supõe a qualificação."grande veículo" ou "grande carril" . Claro está que nas superiores. mas que para elas viver é ser em cada instante o que já são. na vida intelectual. A rigor. sente-se à vontade ao sentir-se idêntico aos demais. a agrupação dos que concordam só em sua desconformidade a respeito da multidão ilimitada. que por si exclui o grande número. Nos grupos que se caracterizam por não ser multidão e massa. em boa parte uma coincidência em não coincidir. mas há uma diferença essencial. inqualificáveis e desclassificados por sua própria contextura. Diante de uma só pessoa podemos saber se é massa ou não. sem esforço de perfeição em si mesmas. outra. se sobressai em alguma ordem . sem necessidade de esperar que apareçam os indivíduos em aglomeração.e o Hinayana "pequeno veículo".ao perguntar de si para si se tem talento para isto ou para aquilo. fingindo ignorar que o homem seleto não é o petulante que se supõe superior aos demais.adverte que não possui nenhuma qualidade excelente. e as que não exigem de si nada especial. mais frouxa e trivial. Sua coincidência com os outros que formam a minoria é. não é raro encontrar hoje entre os obreiros. e é. ainda nos grupos cuja tradição era seletiva. ou Mahayana . relativamente individuais. Massa é todo aquele que não se valoriza a si mesmo . como fato psicológico. a um máximo de exigências ou a um mínimo. Há casos em que esse caráter singularizador do grupo aparece a céu descoberto: os grupos ingleses que se chamam a si mesmos "não conformistas". Imagine-se um homem humilde que ao tentar valorizar-se por razões especiais . e não pode coincidir com a jerarquização em classes superiores e inferiores. e mal dotado.por razões especiais. é esta em duas classes de criaturas: as que exigem muito de si e acumulam sobre si mesmas dificuldades e deveres. portanto. seja qual seja. enquanto as inferiores estão normalmente constituídas por indivíduos sem qualidade.

antecipando o que logo veremos -. que são. suplanta as minorias. Assim . posto que sua dimensão seja muito reduzida e o povo transborde constantemente deles. tem o denodo de afirmar o direito de vulgaridade e o impõe por toda a parte. A massa atropela tudo que é diferente. já que têm para isso os apetites e os meios. qualificado e seleto. Por exemplo: certos prazeres de caráter artístico e luxuoso. eles nos aparecerão inequivocamente como núncios de uma mudança de atitude na massa. atividades. muito especialmente na intelectual. creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. Pelo contrário.qualificadas. sabendo-se vulgar. A massa não pretendia intervir nelas: percebia-se que se queria intervir teria congruentemente de adquirir esses dotes especiais e deixar de ser massa. em pretensão -. Se agora retrocedermos aos fatos enunciados a princípio. por exemplo. Agora. sem deixar de sê-lo. demonstrando aos olhos e com linguagem visível o fato novo: a massa. O mesmo acontece nas demais ordens. deplorará que as pessoas gozem hoje em maior medida e número que antes. Ninguém. as minorias dos políticos entendiam um pouco mais dos problemas públicos que ela. convivência legal. egrégio. podiam valer como o exemplo mais puro disto que chamamos "massa". que. creio eu. com todos os seus defeitos e vícios. Democracia e Lei. que nunca se ocupou do assunto. teríamos não mais de um caso de erro pessoal. É evidente que. não se manifesta. por sua vez. impondo suas aspirações e seus gostos. os locais não estavam premeditados para as multidões. Por isso falo de hiperdemocracia. mas o escritor. Isso era o que antes acontecia. Eu duvido que tenha havido outras épocas da história em que a multidão chegasse a governar tão diretamente como em nosso tempo. para sentenciar sobre ele quando não coincide com as vulgaridades que este leitor tem na cabeça. Ora bem: existem na sociedade operações. E claro está que esse "todo o mundo" não é "todo o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.htm (23 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Conhecia seu papel numa saudável dinâmica social. especiais. mas. funções da ordem mais diversa. mas não uma subversão sociológica. A massa presumia que. pelo menos. e. mas que é uma maneira geral do tempo. quem não pense como todo o mundo. O característico do momento é que a alma vulgar. A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. individual.A rebelião das massas. Como se diz na América do Norte: ser diferente é indecente. Quem não seja como todo o mundo. Ao servir a estes princípios o indivíduo obrigava-se a sustentar em si mesmo uma disciplina difícil. no final das contas. eram sinônimos. não é com o fim de aprender algo dele. É falso interpretar as situações novas como se a massa se houvesse cansado da política e encarregasse a pessoas especiais seu exercício. conseqüentemente. a massa crê que tem direito a impor e dar vigor de lei a seus tópicos de café. ou bem as funções de governo e de juízo político sobre os assuntos públicos. por sua mesma natureza. almas egregiamente disciplinadas. isso era a democracia liberal. pelo contrário. Ao amparo do princípio liberal e da norma jurídica podiam atuar e viver as minorias. Se os indivíduos que integram a massa se acreditassem especialmente dotados. Antes eram exercidas estas atividades especiais por minorias qualificadas . corre o risco de ser eliminado. Talvez cometa eu um erro. não podem ser bem executadas sem dotes também especiais. O mal é que esta decisão tomada pelas massas de assumir as atividades próprias das minorias. deve pensar que o leitor médio. nem pode manifestar-se. se o lê. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa atua diretamente sem lei. Todos eles indicam que esta resolveu avançar para o primeiro plano social e ocupar os locais e usar os utensílios e gozar dos prazeres antes adstritos aos poucos. só na ordem dos prazeres. por meio de pressões materiais. ao tomar da pena para escrever sobre um tema que estudou intensamente.

estrela de primeira grandeza no zodíaco da elegância madrilenha. como um fidalgote de Versalhes. A história do Império romano é também a história da subversão. Se temos de achar algo semelhante. ver por dentro o espetáculo. aceitavam-na como o tumor aceita o bisturi. mundo". mas muito mais que isso. especiais. II. ademais. completamente diferente do nosso. que a sociedade humana é aristocrática sempre. é o seu oposto: é a morte e a putrefação de uma magnífica aristocracia. em todo o seu desenvolvimento. Não: a quem sinta a missão profunda das aristocracias. Versalhes . porque eu não disse nunca que a sociedade humana deva ser aristocrática. Certamente que essa mesma "sociedade distinta" está de acordo com o tempo. que é só a fachada. do cheio.A rebelião das massas. queira ou não. de verdadeiramente aristocrático só restava naqueles seres a graça digna com que sabiam receber em seu pescoço a visita da guilhotina. em aparência tão sem sentido. Ou supunha-se que eu ia contentar-me com essa descrição. já chamamos duas vezes "brutal" a este império. mas uma missão muito subalterna e incomparável com a faina hercúlea das autênticas aristocracias. ficaria o leitor pensando. do império das massas que absorvem e anulam as minorias dirigentes e se colocam em seu lugar. toda juventude e atualidade. com o bilhete na mão. foi preciso construir. A ASCENSÃO DO NÍVEL HISTÓRICO Este é o fato formidável do nosso tempo. seja o aristocrático contentar-se com fazer um breve trejeito amaneirado. talvez exata.entende-se esse Versalhes dos trejeitos . e chegar a sua hora de declinação. Jamais. mas externa. Por isso. em um elemento vital. cada dia com mais enérgica convicção. porque me disse: "Eu não tolero um file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. um pouco de abominação e outro pouco de repugnância. podemos alegremente ingressar no tema.htm (24 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . A época das massas é a época do colossal (27). a unidade complexa de massa e minorias discrepantes. descrito sem ocultar a brutalidade de sua aparência. o frontispício sob os quais se apresenta o fato tremendo quando é olhado desde o passado? Se eu deixasse aqui este assunto e estrangulasse meu presente ensaio.não é aristocracia. mas nosso tema é agora outro de maiores proporções. Ninguém pode acreditar que diante deste fabuloso encrespamento da massa. também tem as suas dentro do vasto mundo este pequeno "mundo elegante". A aristocracia social não se parece nada a esse grupo reduzidíssimo que pretende assumir para si íntegro o nome de "sociedade". que este fabuloso advento das massas à superfície da história não me inspirava outra coisa senão algumas palavras displicentes. "Todo o mundo" era. desdenhosas. que se chama a si mesmo "a sociedade" e que vive simplesmente de convidar-se ou de não convidar-se. Por isso. teríamos de pular fora de nossa história e submergir-nos em um orbe. aconteceu nada semelhante. Eu disse e continuo crendo. a mim. normalmente. Bem entendido que falo da sociedade e não do Estado. e deixa de sê-lo na medida em que se desaristocratize. É. de uma absoluta novidade na história de nossa civilização. por sua própria essência. Muito me fez meditar certa damazinha em flor. Vivemos sob o brutal império das massas. como se faz agora. de quem é notório que sustento uma interpretação da história radicalmente aristocrática (28) É radical. agora. já pagamos nosso tributo ao deus dos tópicos. edifícios enormes. Eu não teria inconveniente em falar sobre o sentido que possui essa vida elegante. até o ponto de que é sociedade na medida em que seja aristocrática. muito justamente. Como tudo no mundo tem sua virtude e sua missão. como observou muito bem Spengler. o espetáculo da massa o incita e aviva como ao escultor a presença do mármore virgem. Agora todo o mundo é só a massa. teríamos de insinuar-nos no mundo antigo. Perfeitamente. Então se produz também o fenômeno da aglomeração.

a ser um estado psicológico constitutivo do homem médio. certas minorias descobriram que todo indivíduo humano. Todo outro direito imposto a dotes especiais ficava condenado como privilégio. esses poucos começaram a usar praticamente dessa idéia. não chegou à entranha do destino. mas. Quem não tenha sentido na mão palpitar o perigo do tempo. que são seu efeito sobre o homem. No século XVIII. não fez mais senão acariciar sua mórbida face.segundo então era chamado -. cósmico sinal de interrogação. pelo contrário. Repilo. Através desta frase vi que o estilo das massas triunfa hoje sobre toda a área da vida e se impõe ainda naqueles últimos rincões que pareciam reservados aos happy few. o que é mais importante. Analisemos a primeira rubrica. quaisquer que sejam as suas idéias. A meu juízo. a impô-la e reclamá-la: as minorias melhores. pois. os chamados direitos do homem e do cidadão. não lhes obedecem. colossal. com relativa suficiência. primeiro. instalada sobre nosso tempo como um gigante. durante todo o século XIX a massa. não os sentia em si. que são esquemas externos da vida pública. efetivamente. não os exercitava nem fazia valer senão de fato.htm (25 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . indomável e equívoca como todo destino. Todo destino é dramático e trágico em sua profunda dimensão. inclusive quando as suas idéias são reacionárias. Não obstante. toda interpretação de nosso tempo que não descubra a significação positiva oculta sob o atual império das massas e das que o aceitam. em grande parte. Para onde nos leva? É um mal absoluto. sem estremecer de espanto. com algo. baile ao qual tenham sido convidadas menos de oitocentas pessoas". Quero dizer com ela que as massas gozam dos prazeres e usam os utensílios inventados pelos grupos seletos e que antes só estes usufruíam. o qual tem sempre uma forma equívoca. ao mesmo tempo as massas tornaram-se indóceis diante das minorias. E não apenas as técnicas materiais. quem não entende esta curiosa situação das massas não pode compreender nada do que hoje começa a acontecer no mundo. não as seguem. E note-se bem: quando algo que foi ideal se faz ingrediente da realidade. não já nas legislações. que são atributos do ideal. No nosso. e que. possuía certos direitos políticos fundamentais. mas não acreditava nisso. beatamente. um puro teorema e idéia de uns poucos. estes direitos comuns a todos são os únicos existentes. mas. igualmente. do indivíduo humano genérico e como tal. Mais ainda: as massas conhecem e empregam hoje. de idéia ou ideal jurídico que era. inclusive quando esmaga e tritura as instituições onde aqueles direitos se sancionam. Sentem apetites e necessidades que antes se qualificavam de refinamentos. vejam-se as Memórias da comtesse de Boigne. se volatilizam.A rebelião das massas. porque eram patrimônios de poucos. a rigor. as puseram de lado e as suplantam. pelo mero fato de nascer. de guilhotina ou de forca mas também com algo que quisera ser um arco triunfal! O fato de que necessitamos submeter a anatomia pode formular-se sob estas duas rubricas: primeira. as técnicas jurídicas e sociais. passou. continuava vivendo. Hoje aquele ideal converteu-se numa realidade. sob as legislações democráticas. Um exemplo trivial: em 1820 não havia em Paris dez quartos de banho em casas particulares. não as respeitam. depois. A soberania do indivíduo não qualificado. o ingrediente terrível é posto pela atropelante e violenta sublevação moral das massas. Isto foi. quer dizer. o "povo" sabia já que era soberano. mas no coração de todo indivíduo. que se ia entusiasmando com a idéia desses direitos como com um ideal. O "povo" . com o que antes parecia reservado exclusivamente às minorias. continuava sentindo-se a si mesma como no antigo regime. O prestígio e a magia autorizante. as massas exercitam hoje um repertório vital que coincide. ou um bem possível? Aí está. imponente. e sem necessidade de qualificação alguma. segunda. inexoravelmente deixa de ser ideal. muitas das técnicas que antes só os indivíduos especializados manejavam. Os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.

A vida humana. O soldado do dia. de que o presente é broto. Basta ver a energia. senhor de si mesmo e de sua vida? Já está conseguido. tem muito de capitão. Hoje os achamos residindo no homem médio. em totalidade. constitucional. na consciência de igualdade jurídica. que componha sua indumentária: são alguns dos atributos perenes que acompanham a consciência de senhorio. direitos niveladores da generosa inspiração democrática converteram-se. com efeito. Todo o bem. na massa. Julgamos pois. que na Europa só os grupos preeminentes conseguiam adquirir. Ora bem: o homem médio representa a área sobre que se move a história de cada época. Não recebeu ainda influxo grande da América. quer dizer-se lisa e lhanamente que o nível da história ascendeu de repente . que cuide de sua pessoa e seus ócios. e. para ver clara minha intenção. Ora bem: o sentido daqueles direitos não era outro senão tirar as almas humanas de sua interna servidão e proclamar dentro delas certa consciência de senhorio e dignidade. que o nível médio da vida seja o das antigas minorias. Não era isto que se queria? Que o homem médio se sentisse amo. A Europa não se americanizou. é na história o que é o nível do mar na geografia. desorientados pelo parecido externo. o nível médio se acha hoje onde antes só tocavam as aristocracias. que imponha decidido sua vontade. a Europa se americanizou e que isto é devido a um influxo da América na Europa. a resolução. os progressistas de há 30 anos? Ou é que. Com isso. agarra o prazer que passa. Então não estranhe que atue por si. de um salto. em apetites de supostos inconscientes.depois de largas e subterrâneas preparações. todo o mal do presente e do imediato porvir tem neste ascenso geral do nível histórico sua causa e sua raiz. diríamos. mas em sua manifestação. ainda mais curiosa! Ao aparecer na Europa esse estado psicológico do homem médio. acreditavam que se tratava de uma leve mudança nos costumes. os democratas. o exército humano se compõe já de capitães. Esse estado psicológico de sentir-se amo e senhor de si e igual a qualquer outro indivíduo. o tom e maneiras da vida européia em todas as ordens adquire de repente uma fisionomia que fez muitos dizer: "A Europa está se americanizando". de repente -. o desembaraço com que qualquer indivíduo luta hoje pela existência. banalizou-se a questão. Pense o leitor. o atribuíam a não se sabe que influxo da América na Europa. impõe sua decisão. Mas agora nos ocorre uma advertência impremeditada.A rebelião das massas. E nova coincidência. mas não suas conseqüências? Quer-se que o homem médio seja senhor. de aspirações de ideais. iniciam-se agora mesmo. que é muito mais sutil e surpreendente e profunda. como os meninos querem uma coisa. é o que desde o século XVIII. dono. Há aqui um cúmulo desesperante de idéias falsas que nos estorvam a visão tanto aos americanos como aos europeus. Se. numa geração. da América. mas não se produziram no próximo passado. Tanto um como outro. Por que se queixam os liberais. mas era o fato nativo. depois de dois file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ao subir o nível de sua existência integral. a meu juízo. que não continue dócil. A galanteria tenta agora subornar-me para que eu diga aos homens de Ultramar que. Os que isto diziam não davam ao fenômeno importância maior. Mas não: a verdade entra agora em colisão com a galanteria. e deve triunfar. praticamente desde sempre. de uma moda.htm (26 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . O triunfo das massas e a conseguinte magnífica ascensão de nível vital aconteceu na Europa por razões internas. pois. que se negue a toda servidão. Isso. é um fato novo na história. ascendeu. eventualmente. que reclame todos os prazeres. que a vida do homem médio está agora constituída pelo repertório vital que antes caracterizava só as minorias culminantes. acontecia na América.

Convém que nos detenhamos neste ponto. se diferenciam menos em tom vital de um ianque ou de um argentino que há trinta anos. O fundamento era aquela entrevisão de um nível mais elevado na vida média de Ultramar. aconteceu que pela primeira vez o europeu entende a vida americana. da altitude média social e não das eminências. Portanto. embainhada no vocábulo decadência. procede desta intuição. mas do que menos se suspeita ainda: trata-se de uma nivelação. pois.htm (27 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Dita de outro modo.e talvez a frase supradita valha para eles -. pois. um aspecto favorável enquanto significa uma subida de todo o nível histórico. angustiam o homem de têmpera arcaica. Dos Estados e da cultura européia diremos algum vocábulo mais adiante . Diz-se. como dizem que as orquídeas se criam sem raízes no ar. O que nos faz compreender que a vida pode ter altitudes diferentes. Pois bem: também se nivelam os continentes. E este é um dado que os americanos não devem esquecer. que esta ou a outra coisa não é própria da altura dos tempos. Há quem se sinta nos modos da existência atual como um náufrago que não consegue sair a flutuar. nutre-se dos vales e não dos cumes. onde não se sabe bem de que se fala. com maior ou menor claridade. se dos Estados europeus. nesta nivelação não fez senão ganhar. e revela que a vida média se move hoje em altura superior à que ontem pisava. pois. a saber: da vitalidade européia. séculos de educação progressista das multidões e de um paralelo enriquecimento econômico da sociedade. ou cai por baixo. um alemão médio. Compreender-se-á que idéia tão ampla e tão arraigada não podia vir do vento. A imagem de cair. Do mesmo modo cada qual sente. eleva-se ontem sobre hoje. talvez minha afirmação pareça mais convincente e menos inverossímil. Mas a história. mas o tempo vital. que seria um refluxo. Com efeito: não o tempo abstrato da cronologia. que seria um pouco estranho. o ímpeto de energia com que se faz tudo. que antes lhe era um enigma e um mistério. que contrastava com o nível inferior das minorias melhores da América comparadas com as européias. deu origem à idéia. Desde sempre se entrevia obscuramente pelos europeus que o nível médio da vida era mais alto na América que no velho continente. A intuição. a subversão das massas significa um fabuloso aumento de vitalidade e possibilidades. olhada deste lado. digo. a relação em que sua própria vida se encontra com a altura do tempo onde transcorre. do que ouvimos tão amiúde sobre a decadência da Europa. A velocidade do tempo com que hoje marcham as coisas. Frase confusa e tosca. pouco analítica. nivela-se a cultura entre as diferentes classes sociais. tudo ao contrário. porque coincide a situação moral do homem médio europeu com a do americano. III. que é todo ele chão. por exemplo. que hoje um italiano médio. Não se trata. da cultura européia ou do que está sob tudo isso e importa infinitamente mais que tudo isto. pois. e por isso. como a agricultura. de que a América era o porvir. um espanhol médio. e que é uma frase cheia de sentido a que sem sentido sói repetir-se quando se fala da altura dos tempos. mas evidente deste fato. de um influxo. mas quanto à vitalidade. porque ele nos proporciona a maneira de fixar um dos caracteres mais surpreendentes de nossa época. convém desde logo fazer constar que se trata de um erro crasso. tem sempre certa altitude. E como o europeu se achava vitalmente mais baixo. nunca posta em dúvida. Mas isso é que o resultado coincide com o traço mais decisivo da existência americana. sempre aceita. A ALTURA DOS TEMPOS O império das massas apresenta. Vivemos em tempo de nivelações: nivelam-se as fortunas.A rebelião das massas. e esta angústia mede o desnível entre a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o que cada geração chama "nosso tempo". nivelam-se os sexos. ou se mantém a par.

mais rico. mox daturos progeniem vitiosorem. A impressão que Jorge Manrique declara tem sido certamente a mais geral. piores que nossos avós. Trata-se de um fenômeno muito curioso que nos importa muito definir. como mais baixas de nível que a sua. Isso revela que esses homens sentiam o pulso de sua própria vida mais ou menos falto de plenitude. sentiria que não contém em si o grau superior. Livro III. Mas isso tampouco é verdade. que há neste mais calorias que nele mesmo. decaído. soíam rechaçar esta ou outra medida de governo. se tivesse consciência. pois. É a "plenitude dos tempos". os tempos "clássicos ". acreditava o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. tem consciência da relação entre a altura de nosso tempo e a altura das diversas idades pretéritas. mas. bárbaros do Danúbio e do Reno. tal ou qual desmando. a completa madureza da vida histórica. de diminuição. cresce progressivamente no Império Romano. e foi necessário alugar para este ofício dálmatas. cuja existência se lhes apresentava como algo mais amplo. Houve. parecia-lhes não dominá-los. Bastaria recordar que. Desde cento e cinqüenta anos depois de Cristo esta impressão de encolhimento vital. com efeito. de existência mais plenária: a "idade de ouro". em que se cumpre um afã antigo e plenifica uma esperança. Cada idade histórica manifesta uma sensação diferente ante esse estranho fenômeno da altura vital. dizemos os educados por Grécia e Roma. Dois séculos mais tarde não havia em todo o Império bastantes itálicos medianamente valorosos com os quais preencher as praças de centuriões. simplesmente porque passadas. pelo menos se se toma grosso modo.htm (28 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Nem todas as idades se sentiram inferiores a algumas do passado. ficar debaixo deles. Vejamos agora outra classe de épocas que gozam de uma impressão vital ao parecer a mais oposta a essa. quem vive com plenitude e a gosto as formas do presente. ao contrário. Já Horácio havia cantado: "Nossos pais. de decair e perder pulso. e nós daremos uma progênie todavia mais incapaz". É curioso recordar que a mesma frase aparece empregada por Trajano na sua famosa carta a Plínio. o mais habitual tem sido que os homens suponham em um vago pretérito tempos melhores. as mulheres tornaram-se estéreis e a Itália se despovoou. 6. Enquanto isso. ao recomendar-lhe que não se perseguissem os cristãos em virtude de denúncias anônimas: Nec nostri saeculi est. À maior parte das épocas não lhes pareceu seu tempo mais elevado que outras idades antigas. Qualquer tempo passado foi melhor. Quando há não mais de trinta anos os políticos peroravam ante as multidões. nos engendraram ainda mais depravados. dizem os selvagens australianos. altura do seu pulso e a altura da época. Ao contrário. ao parecer de Jorge Manrique. Ao olhar para trás e imaginar esses séculos mais valiosos. dizendo que era imprópria da plenitude dos tempos. Há trinta anos. e depois. a Alcheringa. Por esta razão respeitavam o passado. Por outra parte. (Odes. definitiva: tempos em que se crê haver chegado ao término de uma viagem. incapaz de encher por completo o canal das veias. mas antes. mais perfeito e difícil que a vida de seu tempo.A rebelião das massas.) Aetas parentum peior avis tulit nos nequiores. como um grau de temperatura. e me surpreende que não tenham reparado nunca pensadores e historiógrafos em fato tão evidente e substancioso. nem todas se supuseram superiores a quantas foram e recordam. várias épocas na história que se sentiram como chegadas a uma altura plena. Qual é essa relação? Fora errôneo supor que sempre o homem de uma época sente as passadas.

às vezes. para sempre cristalizados. em sua raiz mesma encontra obscuramente a intuição de que não há tempos definitivos. Já dizia Cervantes que "o caminho é sempre melhor que a pousada". empedernido tomador de pulso de tempos. com efeito. o que teria já que ser sempre. à meta antecipada. modestas preparações e aspirações para ele! Setas sem brio que erram o alvo! (31). e que no século XIX parece finalmente realizar-se. na chegada. que se lhe secou a fonte do desejar. na posse. O desejo tão lentamente gestado. se denominou a si mesmo "cultura moderna". Daí que. seu ideal. é que já não deseja nada mais. o que desde muitas gerações se vinha anelando que fosse. resumindo. não se sente já definitivo.fosse definitivo. parece cumprir-se. sobre os quais vai montada esta hora bem granosa. de haver escapado. Os tempos de plenitude se sentem sempre como resultante de muitas outras idades preparatórias. definitivo. Há séculos que por não saber renovar seus desejos morre de satisfação. Isto é. com efeito. ao contrário. quem continua adscrito à outra margem. e sair de novo sob as estrelas ao mundo autêntico. sofrerá o espelhismo de sentir a idade presente como um cair desde a plenitude. A autêntica plenitude vital não consiste na satisfação. imprevisível e inesgotável. tão fruídos. o essencial para que exista "plenitude dos tempos" é que um desejo antigo. Não se esqueça disto: nosso tempo é um tempo que vem depois de um tempo de plenitude. Esta era a sensação que de sua própria vida tinham os nossos pais e toda a sua centúria. Daí o dado surpreendente de que essas etapas de chamada plenitude tenham sentido sempre no sedimento de si mesmas uma peculiaríssima tristeza. profundo. que a famosa plenitude é em realidade uma conclusão. o qual se vinha arrastando aneloso e querulante durante séculos. Um tempo que satisfez seu desejo.htm (29 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . a esse próximo plenário passado. de ardentes precursores. mas que pelo contrário essa pretensão de que um tempo de vida . Por fim chega um dia em que esse velho desejo. inferiores ao próprio. por fim um dia fica satisfeito. Mas um velho afeiçoado à história. último. às vezes milenário. Chegamos à altura entrevista. esses tempos plenos são também satisfeitos de si mesmos. Vistos de sua altura. Não se sonda já aqui a diferença essencial entre nosso tempo e esse que acaba de preterir. europeu que a vida humana havia chegado a ser o que devia ser. de contraste penoso entre uma civilização clara e a realidade que não lhe corresponde. a realidade o recolhe e lhe obedece. Já o nome é inquietante: que um tempo se chame a si mesmo "moderno". seguros. tudo é possível: o melhor e o pior. de "ainda não". Segundo eu disse. E ao sentir assim percebemos uma deliciosa impressão de nos havermos evadido de um recinto estreito e hermético. de outros tempos sem plenitude. terrível. Mas agora compreendemos que esses séculos tão satisfeitos. como morre o zângão afortunado depois do vôo nupcial (30). não se pode deixar alucinar por essa ótica da suposta plenitude. é o que. parece-nos uma obcecação e estreiteza inverossímeis do campo visual. Assim vê a Idade Média o século XIX. como uma decadência. ao cume do tempo! Ao "ainda não" sucedeu o "por fim". de transpor? Nosso tempo. e o olhe todo sob sua ótica. irremediavelmente.o chamado "cultura moderna" .A rebelião das massas. quer dizer. estão mortos por dentro. onde tudo. A fé na cultura moderna era triste: era saber que amanhã ia ser file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como no século XIX. aqueles períodos preparatórios aparecem como se neles se houvessem vivido de puro afã e ilusão não lograda. diante do qual todos os demais são puros pretéritos. E. tempos de só desejo insatisfeito. arquisatisfeitos (29).

o provinciano sensível percebia uma melancolia não menos penosa. sua outra metade. em todo o essencial igual a hoje. é certo. Roma era eterna. ou Sêneca . esse século XIX ficava. a rigor. ao qual falta.A rebelião das massas. como a culminação do passado. Outro dia veremos algumas. única até agora na história conhecida. Outros pontos de vista serão mais respeitáveis que este. Contrasta este diagnóstico. sobre cujos ombros acreditava estar. Mas. uma potência parecida às cósmicas. fiéis a uma ideologia. Diante desse estado emotivo. Pois acontece que precisamente o nosso goza neste ponto de uma sensação estranhíssima. portanto.e via as majestosas construções imperiais.Lucano. com efeito. em minha opinião perigosa. porque isso. debilitada e insípida. mas hoje quero antecipar a mais óbvia: provém de que. Daí que ainda acreditasse em épocas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. com efeito. como se conhece que uma vida se sente ou não decair? Para mim não cabe dúvida a respeito do sintoma decisivo: uma vida que não prefere outra nenhuma de antes. Ora bem: essa comparação pode fazer-se desde os pontos de vista mais diferentes e vários que caiba imaginar. olham da história só a política ou a cultura. E é que. ser um horizonte sempre aberto a toda possibilidade. E se há uma melancolia das ruínas. que a realidade histórica é. um puro afã de viver. Quando nos começos do Império algum fino provinciano chegava a Roma . elástica. embora sentindo-se. se dedicava a vagar imaginavelmente pelas vias históricas em busca de um tempo onde encaixar a gosto o perfil de sua existência. claro está. sentia contrair-se seu coração. via-se. mas. Toda a minha excursão sobre o problema da altitude dos tempos perseguia esta conclusão. fecunda a fera. põe flor na árvore. com o queixume de decadência que choraminga nas páginas de tantos contemporâneos. isto é. Diante dos diagnósticos de decadência eu recomendo o seguinte raciocínio: A decadência é. um conceito comparativo. Não há mais que um ponto de vista justificado e natural: instalar-se nessa vida. ser imprevisível. que se prefere a si mesma. Já nada novo podia haver no mundo. se alarga sem nos libertar. Nos salões do último século chegava indefectivelmente uma hora em que as damas e seus poetas amestrados faziam entre si esta pergunta: Em que época quisera você haver vivido? E eis aqui que cada um. é a verdadeira plenitude da vida. não a mesma. ligado ao passado. mas sim irmã da que inquieta o mar. é a vida autêntica. e isso secretamente nos regozija. ou por sentir-se em plenitude. antes que isso e mais fundo que isso. não é evidente que a sensação de nossa época se parece mais à alegria e alvoroço de meninos que escaparam da escola? Agora já não sabemos o que vai haver amanhã no mundo. embora olhada por dentro de si mesma.htm (30 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . não deixam de ser parciais. Para um fabricante de boquilhas de âmbar. símbolo de poder definitivo. ainda que de signo inverso: a melancolia dos edifícios eternos. que se levanta delas como a evaporação das águas mortas. minguada. arbitrários e externos à própria vida cujos quilates se trata precisamente de avaliar. encarnando a figura de sua própria vida. que o progresso consistia só em avançar com todos os sempres sobre um caminho idêntico ao que já estava sob nossos pés. Trata-se de um erro ótico que provém de múltiplas causas. faz tremeluzir a estrela. o mundo está em decadência porque já não se fuma apenas com boquilhas de âmbar. Decai-se de um estado superior para um estado inferior. que eu saiba. por exemplo. contemplá-la de dentro e ver se ela se sente a si mesma decaída. e não advertem que tudo isso é só a superfície da história. Um caminho assim é a bem dizer uma prisão que. não pode em nenhum sentido sério chamar-se decadente. não natural. portanto. de nenhum antes.

ou dito às avessas. perdeu todo o respeito. uma infância. um começo. É. O resto do espírito tradicional evaporou-se. E o que acontece sempre que chega o meio-dia (32) Qual é. sem estar segura de não ser agonia. em pleno atualismo . Os modelos. as normas. e com ele e nele. mas completamente. Este fato é quase grotesco e incrível em sua simples evidência. a altura de nosso tempo? Não é plenitude dos tempos. de maior tamanho que todas as vidas. onde se haviam preparado os valores vigentes.sejam de arte. que já não nos podem ajudar. que não reconhece em nada pretérito possível modelo ou norma. quero dizer que o conteúdo da vida no homem de tipo médio é hoje todo o planeta. como Pedro Schlehmil. Orgulhosa de suas forças e ao mesmo tempo temendo-as. e sobrevinda ao cabo de tantos séculos sem descontinuidade de evolução. parece. de atitudes vãs .por que não dizê-lo? -. que os mortos não morreram de brincadeira.htm (31 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mais ou menos confusa. sem excluir nenhum. a altitude do tempo que ele anuncia. simplesmente. Isto bastaria para nos fazer suspeitar dos tempos de plenitude. Pois bem: que diria sinceramente qualquer homem representativo do presente a quem se fizesse uma pergunta parecida? Eu creio que não é duvidoso: qualquer passado. Eu resumia. a vida. Nossa vida sente-se. Temos de resolver nossos problemas sem colaboração ativa do passado. entretanto. Não é fácil formular a impressão que de si mesma tem nossa época: crê ser mais que as demais. de repente.o século de Péricles. não obstante. em resumo. cresceu. provincial. os sevilhanos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Há pouco mais de um ano. Olhamos para trás e o famoso Renascimento nos parece um tempo angustiosíssimo. perdeu sua sombra. de ciência ou de política -. tal situação na forma seguinte: "Esta grave dissociação de pretérito e presente é o fato geral de nossa época e nela vai incluída a suspeita. que engendra a inquietude peculiar da vida nestes anos. toda a atenção ao passado. e entretanto. que o mundo. olham o passado que neles se cumpre. relativamente clássicas . levam a cara voltada para trás. as pautas não nos servem. Que expressão escolheremos? Talvez esta: mais que os demais tempos e inferior a si mesma. de mau gosto. sente-se sobre todos os tempos sidos e por cima de todas as conhecidas plenitudes. lhe daria a impressão de um recinto angustioso onde não podia respirar. Fortíssima e ao mesmo tempo insegura de seu destino. uma iniciação. há tempos. de tanto sentir-se mais vida. Esta intuição de nossa vida de hoje anula com sua claridade elemental toda lucubração sobre decadência que não seja muito cautelosa. sem mortos viventes perto de si. e ao mesmo tempo sente-se como um começo. A vida mundializou-se efetivamente. IV. Daí que pela primeira vez nos encontremos com uma época que faz tábua rasa de todo classicismo. o Renascimento -. uma alvorada. Sentimos que de repente ficamos sós sobre a terra os homens atuais. Isto é. não são por sua vez mais que sintoma de um fato mais completo e geral. Como poderá sentir-se decadente? Pelo contrário: o que aconteceu é que. que o homem do presente sente que sua vida é mais vida que todas as antigas. O europeu está só.A rebelião das massas. O CRESCIMENTO DA VIDA O império das massas e o ascenso de nível. que cada indivíduo vive habitualmente todo o mundo. que o passado íntegro ficou pequeno para a humanidade atual.

Segundo o princípio físico de que as coisas estão ali onde atuam. gozar de mais idas e mais vindas. careceria de sentido chamá-la assim. Se em cada momento não tivéssemos à nossa frente mais que uma só possibilidade. Cada pedaço de terra não está já recluído em seu lugar geométrico. Civilizações inteiras e impérios dos quais nem o nome se suspeitava. Quando se fala de nossa vida sói esquecer-se disto. com a qual matamos espaço e jugulamos tempo. Ao anulá-los. aumentou em proporção fabulosa o horizonte de cada vida. acompanhavam. O jornal ilustrado e o cinema trouxeram estes remotíssimos pedaços de mundo à visão imediata do vulgo. Mas ai está: esse estranhíssimo fato de nossa vida possui a condição radical de que sempre encontra ante si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A velocidade feita de espaço e tempo não é menos estúpida que seus ingredientes. A diferença é quase fabulosa. consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra como tais.tome-se a palavra em seu mais amplo sentido . vivificamo-los. O fato é falso. A quantidade de possibilidades que se abrem ante o comprador atual chega a ser praticamente ilimitada. tentar. O espaço e o tempo físicos são o absolutamente estúpido do universo. A pré-história e a arqueologia descobriram âmbitos históricos de longitude quimérica. mas para muitos efeitos vitais atua nos demais pontos do planeta. comprar. nomes todos que significam atividades vitais. Mas este aumento espácio-temporal do mundo não significaria por si nada. Uma estupidez não se pode dominar a não ser com outra. o homem de hoje não poderá comprar mais coisas que o do século XVIII. esta presença do ausente. Imaginem-se dois homens. Tome-se qualquer uma de nossas atividades. proporcionalmente ao valor do dinheiro em ambas as épocas. Era para o homem questão de honra triunfar no espaço e no tempo cósmicos (33). Hoje podem comprar-se muitas mais. reconheceremos hoje a qualquer ponto do globo a mais efetiva ubiqüidade. consumir em menos tempo vital mais tempo cósmico. gozar ou repelir. Não é fácil imaginar com o desejo um objeto que não exista no mercado. hora a hora. A atividade de comprar conclui em decidir-se por um objeto. pelo contrário. De onde resulta que a vida. e vice-versa: não é possível que um homem imagine e deseje quanto se acha à venda. mas em que inclua mais coisas. com fortuna proporcionalmente igual. tornamos possível ser o aproveitamento vital. em seus jornais populares. mas é também antes uma eleição. podemos estar em mais lugares que antes. mas serve para anular aqueles. foram anexados a nossa memória como novos continentes. que me parece essencialíssimo: nossa vida é em todo instante e antes que nada consciência do que nos é possível. e a eleição começa por perceber as possibilidades que oferece o mercado. e compare-se o repertório de coisas em venda que se oferece a um e a outro.A rebelião das massas. em seu modo "comprar". desfazer. em definitivo. encontrar. Mas finalmente não me importaria que o fato fosse certo. Esta proximidade do longínquo. o que estava acontecendo com uns homens junto ao Pólo. quero dizer. que possuam fortuna igual. Por isso é mais justificado do que sói crer-se o culto à velocidade que transitoriamente exercitam nossos contemporâneos. que carecem por completo de sentido. fazer. um do presente e outro do século XVIII. Cada coisa . Seria apenas pura necessidade. e não há razão para estranhar de que nos produza um pueril prazer fazer funcionar a vazia velocidade. Dir-me-ão que. que sobre o fundo ardente da campina bética passavam blocos de gelo à deriva. porque a indústria barateou quase todos os artigos. Mas. por exemplo.é algo que se pode desejar. o crescimento substantivo do mundo não consiste em suas maiores dimensões. sublinharia mais o que tento dizer.htm (32 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . E o mundo cresceu também temporalmente.

Não ressalto que a física de Einstein seja mais exata que a de Newton. E em tudo isto não me refiro ao que possa significar como perfeição da cultura . dentro dele. Não falei da atualidade da vida presente. de seu avanço quantitativo ou potencial. mais ciências. mas advertir a impressão de que o organismo humano possui em nosso tempo capacidades superiores às que nunca teve. Não quero dizer com o dito que a vida humana seja hoje melhor que em outros tempos. Toda vida é achar-se dentro da "circunstância" ou mundo (35). limite ontem do mundo. mas ao crescimento das potências subjetivas que tudo isso supõe. mais pontos de vista. o programa de misteres possíveis hoje é superlativamente grande. mas que é sua autêntica periferia. mas apenas de seu crescimento. A física de Einstein move-se em espaços tão vastos. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. chegamos a ser só uma parte mínima do que podemos ser. caçador.pastor. algo à parte e alheio a nossa vida. Aumentou também em um sentido mais imediato e misterioso. guerreiro. Tanto vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos em um ambiente de possibilidades determinadas. Representa o que podemos ser. os jornais e as conversações lhe fazem chegar a notícia destas performances intelectuais que os aparelhos técnicos recém-inventados confirmam desde as vitrinas. É um fato constante e notório que no esforço físico e esportivo se cumpram hoje performances que superam enormemente quantas se conhecem do passado. Mas agora importa-me só fazer notar como cresceu a vida do homem na dimensão de potencialidade. que por serem várias adquirem o caráter de possibilidades entre as quais havemos de decidir (34). do mesmo modo que o campeão de boxe dá hoje murros de maior calibre que jamais se deram. mago -. para o homem de vida média que habita as urbes . A este âmbito costuma chamar-se "as circunstâncias". mais dados. pois. O átomo.não é seu elenco tão exuberante como nos demais aspectos da vida. hoje inchou até se converter em todo um sistema planetário. mais problemas. Mas o crescimento da potencialidade vital não se reduz ao dito até aqui.htm (33 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e nós. O mundo ou nossa vida possível é sempre mais que nosso destino ou vida efetiva. as possibilidades de gozar aumentaram. Tudo isso decanta em sua mente a impressão de fabulosa prepotência. mas que o homem Einstein seja capaz de maior exatidão e liberdade de espírito (37) que o homem Newton. Não é. uma coisa tão pequena. de uma maneira fantástica. Não basta admirar cada uma delas e reconhecer o record que batem. Nos prazeres acontece coisa parecida.e as urbes são a representação da existência atual -. Creio com isso descrever rigorosamente a consciência do homem atual. seu tom vital que consiste em sentir-se com maior potencialidade que nunca e parecer-lhe todo o pretérito afetado de pequenez. Entretanto. Porque coisa similar acontece na ciência. ou. várias saídas.A rebelião das massas. Em um par de lustros tão somente. dito de outra maneira. Conta com um âmbito de possibilidade fabulosamente maior que nunca. Como o cinematógrafo e a ilustração põem ante os olhos do homem médio os lugares mais remotos do planeta. Porque este é o sentido originário da idéia (mundo).isso não me interessa agora -. portanto. enfim. nossa potencialidade vital. Mundo é o repertório de nossas possibilidades vitais. Daí que nos parece o mundo uma coisa tão enorme. Esta tem de se concretizar para realizar-se. A física de Einstein está feita atendendo às mínimas diferenças que antes se desprezavam e não entravam em conta por parecer sem importância.e o fenômeno tem mais gravidade do que se supõe . no que vai de século. esta ampliou e inverossimilmente seu horizonte cósmico. que a antiga física de Newton ocupa neles apenas um sótão (36) E este crescimento extensivo se deve a um crescimento intensivo na precisão científica. Enquanto os ofícios ou carreiras na vida primitiva se numeram quase com os dedos de u'a mão . Na ordem intelectual encontra mais caminho de possível ideação. se bem .

Se se sentisse decaído. relativas a elementos secundários da história .que tinha todos os talentos. firme em sua fé progressista. que parece imperar um maior silêncio ao silêncio noturno. Porque são estas decadências diminuições parciais. sentirá certo gênero de insegurança que o incita a permanecer alerta. ainda que fosse incapaz de realizá-los. Bastaria isso para falar da decadência ocidental? De modo algum. Recorde-se o raciocínio que eu fazia. Domina todas as coisas. pois. a decadência (38). veria outras épocas como superiores a ele e isto seria uma e mesma coisa com estimá-las e admirá-las e venerar os princípios que as informaram. se viam a si mesmos como decaídos de maiores alturas. em espécie. Isto nos leva a falar da "plenitude" que sentiram alguns séculos diante de outros que. Sente-se perdido em sua própria abundância. sobre decadência ocidental que pulularam no ar do último decênio. a barbárie. o mundo atual vai como o mais infeliz que tenha havido: puramente ao acaso. menos o talento para usar deles. vertendo sobre ele o costume. senão ver-se a si mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a elas. A segurança das épocas de plenitude - file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.cultura e nações -.A rebelião das massas. pressentimos que é possível o pior: o retrocesso.todos os clorofórmios . e que me parece tão simples como evidente. de antigas e deslumbrantes idades de ouro. benéfico que pela primeira vez depois de quase três séculos nos surpreendamos com a consciência de não saber o que vai acontecer amanhã.. mas não é dono de si mesmo. Geralmente. Era necessária esta descrição para obviar as lucubrações sobre decadência. o uso. esforçando-nos por ganhar segurança e insensibilizar-nos para o dramatismo radical do nosso destino. Por si mesmo não seria isto um mau sintoma: significaria que voltamos a tomar contato com a insegurança essencial a todo viver. e esta só existe quando se sente. Não está mal esse ademane. o tópico . Só há uma decadência absoluta: a que consiste numa vitalidade minguante. mas que não sabe o que realizar. Muitas coisas pareciam já impossíveis ao século XIX. mais saber.htm (34 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . E concluía eu fazendo notar o fato evidentíssimo de que nosso tempo se caracteriza por uma estranha presunção de ser mais que todo o tempo passado. A atitude que a ordenança romana impunha à sentinela da legião era manter o indicador sobre os lábios para evitar a sonolência e manter-se atenta. mais técnicas que nunca. Porque esse é precisamente seu problema. Acontece-lhe como se dizia do Regente durante a infância de Luiz XV . Refere-se o pessimista vocábulo à cultura? Há uma decadência da cultura européia? Há somente uma decadência das organizações nacionais européias? Suponhamos que sim. mais ainda: por desentender-se de todo pretérito. Não vale falar de decadência sem precisar que é o que decai. para poder ouvir a secreta germinação do futuro. Por esta razão me detive a considerar um fenômeno que sói desatender-se: a consciência ou sensação que toda época tem de sua altitude vital. e. Com mais meios. Mas a verdade é estritamente o contrário: vivemos em um tempo que se sente fabulosamente capaz para realizar. Duvido que sem se afiançar bem nesta advertência se possa entender o nosso tempo. com a inquietude a um tempo dolorosa e deliciosa que vai encerrada em cada minuto se sabemos vivê-lo até o seu centro. não reconhecer épocas clássicas e normativas. Hoje. inversamente. recusamos tomar essa pulsação pavorosa que faz de cada instante sincero um miúdo coração transeunte.É. Nosso tempo teria ideais claros e firmes. de tanto nos parecer tudo possível. Daí essa estranha dualidade de prepotência e insegurança que se aninha na alma contemporânea. até sua pequena víscera palpitante e cruenta. Todo aquele que se coloque ante a existência numa atitude séria e se faça dela plenamente responsável.

normas e ideais legados pela tradição.consiste em todo o contrário. que pode resumir-se assim: nossa vida. O mesmo que o liberalismo progressista é o socialismo de Marx. Protegidos ante sua própria consciência por essa idéia. Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. nos força. mais perigosa. Não poderá estranhar que hoje o mundo pareça vazio de projetos. inexoravelmente.o mundo é sempre este. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. antecipações e ideais. antes de tudo. Tal tem sido a deserção das minorias dirigentes. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão. primeiro.. falso dizer que na vida "decidem as circunstâncias ". e por isso mesmo. sem desvios nem retrocessos. princípios. É mais vida que todas as vidas. soltaram o leme da história. sem rumo conhecido. A vida. transbordou todos os caminhos. decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser.é o que de nossa vida nos é dado e imposto. a eleger. é também. Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema. superior a todas as historicamente conhecidas. cuja trajetória está absolutamente predeterminada.as possibilidades . A vida não elege seu mundo.. como repertório de possibilidades. mas viver é encontrar-se. encarregando de sua direção a mecânica do universo. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo . a vida se lhes escapou dentre as mãos. e por isso mesmo mais problemática. certo de que já o mundo irá em linha reta. sempre novo.é uma ilusão ótica que leva a despreocupar-se do porvir. Assim. Sob sua máscara de generoso futurismo. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir. este de agora .A rebelião das massas. Mas assim como seu formato é maior. retrai sua inquietude do porvir e se instala num definitivo presente. vida possível. Vai enunciada a primeira parte dele. Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. consequentemente. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil. Em vez de impor-nos uma trajetória. que se acha sempre ao reverso da rebelião das massas. Depois de haver insistido na vertente favorável que apresenta o triunfo das massas. Não pode orientar-se no pretérito (39). imediatamente. Tudo isto vale também para a vida coletiva. fez-se por completo insubmissa. com necessidade parelha à astronômica. de nossa vida atual. e hoje anda solta. decidimos não decidir. impõe-nos várias e. Tem de inventar seu próprio destino. exuberante. É. Mas agora é preciso completar o diagnóstico. Ninguém se preocupou de preveni-los. supõem que o desejado por eles como futuro ótimo se realizará. V. A circunstância . Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade. UM DADO ESTATÍSTICO Este ensaio quisera vislumbrar o diagnóstico de nosso tempo.htm (35 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . convencido de que não tem surpresa nem segredos. o progressista não se preocupa do futuro. a decidir o que vamos ser neste mundo. peripécias nem inovações essenciais. Mas já é tempo de que voltemos a falar desta. o que podemos ser. convém que nos deslizemos por sua outra ladeira. pois. é magnífica. perderam a agilidade e a eficácia. Isso constitui o que chamamos o mundo. um horizonte de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ante o qual temos de nos decidir. Também nela há. em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. Mas quem decide é o nosso caráter. deixaram de estar alerta. assim na última centúria . que é.

não por cálculos do futuro. não significa um anúncio claro de futuro. não a resolvê-lo. Não se diga que isto era o que acontecia já na época da democracia. Maravilha-nos seu crescimento. Bastaria. ainda à custa de acumular com seu emprego maiores conflitos sobre a hora próxima. vive ao dia.portanto. Estas são tão poderosas. do sufrágio universal. não alude para nada ao futuro. a rigor. Assim tem sido sempre o Poder público quando o exerceram diretamente as massas: onipotente e efêmero. ou. Estas apresentavam seus "programas" . O dado é o seguinte: desde que no século VI começa a história européia até o ano 1800 portanto. não vai. Em suma. pelo contrário. Em nosso tempo. pois. O Poder público acha-se em mãos de um representante de massas. Esta resolução emana do caráter que a sociedade tenha. Pois bem: de 1800 a 1914 .htm (36 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . vive sem programa de vida. programas de vida coletiva. que é estranho não conste em toda cabeça que se preocupe dos assuntos contemporâneos. em pouco mais de um século. trajetória antecipada. lançada como uma torrente sobre a área histórica. Convém. Mas ao mesmo tempo nos mostra esse dado que é infundada a admiração com que ressaltamos o crescimento de países novos como os Estados Unidos da América. e. Quando esse poder público tenta justificar-se. do tipo de homem dominante nela. Quer dizer. Os programas eram. surpreende notar que neles se vive politicamente ao dia. com efeito. põe na pista de todo esclarecimento. é ele quem decide.A rebelião das massas. retrocedendo ao começo deste ensaio. Não sabe aonde vai porque. Daí que sua atuação se reduza a evitar o conflito de cada hora. este dado para compreender o triunfo das massas e quanto nele se reflete e se anuncia. a inundou. possibilidades. a Europa não consegue chegar a outra cifra de povoação senão a de 180 milhões de habitantes. Se se observa a vida pública dos países onde o triunfo das massas avançou mais . E este tipo de homem decide em nosso tempo. repito. senão. entretanto. O fenômeno é sobremaneira estranho. senão que seu papel consistiu em aderir à decisão de uma ou outra minoria. No sufrágio universal não decidem as massas. uma resolução que elege e decide o modo efetivo da existência coletiva. pela urgência do presente. nos perguntamos: de onde vieram todas estas multidões que agora enchem e transbordam o cenário histórico? Há alguns anos destacava o grande economista Werner Sombart um dado simplicíssimo. Este simplicíssimo dado basta por si só para esclarecer nossa visão da Europa atual. Em três gerações produziram gigantescamente massa humana que. ainda que suas possibilidades. que seria difícil encontrar na história situações de governo tão prepotentes como estas. sejam enormes. A chave para esta análise encontra-se quando. fecha-se no presente e diz com perfeita sinceridade: "Sou um modo anormal de governo que é imposto pelas circunstâncias". Neles convidava-se a massa a aceitar um projeto de decisão. não aparece como começo de algo cujo desenvolvimento ou evolução seja imaginável. domina o homem-massa. que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sem projeto. São donas do Poder público em forma tão incontrastável e superlativa. Por isso não constrói nada. deve ser acrescido como o somando mais concreto ao crescimento da vida como antes fiz constar. Por outra parte. O homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e caminha ao acaso. empregando os meios que sejam. o Governo. E. mas a escapar dele imediatamente. Hoje acontece uma coisa muito diferente. o que é o mesmo.excelente vocábulo -. a população européia ascende de 180 a 460 milhões! Presumo que o contraste destas cifras não deixa lugar a dúvidas a respeito dos dotes prolíficos da última centúria. e se não basta. não tem caminho prefixado. que analisemos seu caráter. depois.são os países mediterrâneos -. não se apresenta como um porvir franco. que aniquilaram toda possível oposição. seus poderes. em toda a longitude de doze séculos -. o Poder público.

devia haver nela quando na sua atmosfera se produzem tais colheitas de fruto humano. pois. Deram-se-lhe instrumentos para viver intensamente. Nem sequer o traço que pudera aparecer mais evidente para caracterizar a América . Uma vez reconhecido isto com toda a claridade que demanda a claridade do próprio fato. que esse tipo de vida não será o melhor imaginável.os homens-massa rebeldes . Aparece a história inteira como um gigantesco laboratório onde se fizeram os ensaios imagináveis para obter uma fórmula de vida pública que favorecesse a planta "homem". que não era fácil saturá-los da cultura tradicional. bastarão trinta anos para que nosso continente retroceda à barbárie. que é suicida todo retorno a formas de vida inferiores à do século XIX. Daí que às vezes produza a impressão de um homem primitivo surgido inesperadamente em meio a uma velhíssima civilização. inoculou-se-lhes atropeladamente o orgulho e o poder dos meios modernos.A rebelião das massas. porém muito mais simples. a tirar estas conseqüências: primeira. que a democracia liberal fundada na criação técnica é o tipo superior de vida pública até agora conhecido. mas o que imaginemos melhor terá de conservar o essencial daqueles princípios. segunda. E ultrapassando toda possível sofisticação.que põem em perigo iminente os princípios mesmos a que deveram a vida. era de sobra notório o fato confuso de haver aumentado consideravelmente a povoação européia para insistir nele. com efeito. triplicasse a espécie européia. Se é evidente que havia nele algo extraordinário e incomparável. E. não o é menos que deveu padecer certos vícios radicais. Eis aqui outra razão para corrigir o espelhismo que supõe uma americanização da Europa. sem problemas tradicionais e complexos.a velocidade de aumento em sua povoação lhe é peculiar. É frívola e ridícula toda preferência dos princípios que inspiraram qualquer outra idade pretérita se antes não demonstra que se encarregou deste fato magnífico e tentou digeri-lo. Nas escolas que tanto orgulhavam o passado século. Porque esta impetuosidade significa que têm sido projetados a magotes sobre a história montões e montões de homens em ritmo tão acelerado. se não preferirmos ser dementes. e as novas gerações dispõem-se a tomar o comando do mundo como se o mundo fosse um paraíso sem rastros antigos. senão que mercê a seu contraste põe em relevo a impetuosidade do crescimento. Fato tão exuberante força-nos. Por essa razão oferece este fato a perspectiva mais adequada para julgar com eqüidade essa centúria. num só século. Não é. Se esse tipo humano continua dono da Europa e é definitivamente quem decide. A Europa cresceu no século passado muito mais que a América. certas constitutivas insuficiências quando engendrou uma casta de homens . num século chegou a 100 milhões de homens. A América está feita com a sobra da Europa. terceira. o aumento de população o que nas cifras transcritas me interessa. Esta é a que agora nos importa. quando o maravilhoso é a proliferação da Europa. mas não o espírito. é preciso revolver-se contra o século XIX. As técnicas jurídicas e materiais se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas ainda que não seja tão conhecido como devera o dado calculado por Werner Sombart. Algo extraordinário. Corresponde. incomparável. ao século passado a glória e a responsabilidade de haver soltado sobre a face da história as grandes multidões. democracia liberal e técnica.htm (37 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . pois. mas não sensibilidade para os grandes deveres históricos. Por isto não querem nada com o espírito. o tipo médio do atual homem europeu possui uma alma mais sã e mais forte que as do passado século. não se pode fazer outra coisa senão ensinar às massas as técnicas da vida moderna. encontramo-nos com a experiência de que ao submeter a semente humana ao tratamento destes dois princípios. mas não foi possível educá-las.

Situação de tal modo aberta e franca tinha por força que decantar no estrato mais profundo dessas da história. nada novo acontece que não tenha sido previsto há cem anos. por isso mesmo é o único que. Entretanto. COMEÇA A DISSECAÇÃO DO HOMEM-MASSA Como é este homem-massa que domina hoje a vida pública . mas foi produzido e preparado no século XIX. produzirá uma catástrofe ". E. que é uma época revolucionária. como se produziu? Convém responder conjuntamente a ambas as questões. prever a gravidade da situação histórica atual. A atual abundância de possibilidades se converterá em efetiva míngua. Enquanto em proporção diminuíam as grandes fortunas e se tornava mais dura a existência do operário industrial. que com progressiva abundância vai engendrando o século XIX? Desde já. Por isso. Se o porvir não oferecesse um flanco à profecia. VI. com um bem-estar posto diante dele solicitamente por uma sociedade e um Estado que são um portento de organização. com efeito. Que aspecto oferece a vida desse homem multitudinário. apocalíptico. em verdadeira decadência.A rebelião das massas. "As massas avançam!" dizia. pode. como o homem médio. Cada dia ajuntava um novo luxo ao repertório de seu standard vital. o homem médio de qualquer classe social encontrava cada dia mais franco seu horizonte econômico. Certamente que só cabe antecipar a estrutura geral do futuro. Importa. Porque a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o que Rathenau chamava "a invasão vertical dos bárbaros". porque se prestam mútuo esclarecimento. 1880. volatilizarão com a mesma facilidade com que se perderam tantas vezes segredos de fabricação (40). file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que é pura potência do maior bem e do maior mal. nossa época.a vida política e a não política -? Por que é como é. Qualquer mente perspicaz de 1820. muito conhecer a fundo este homem-massa. gritava de um penhasco alcantilado da Engadina o bigodudo Nietzche. por um simples raciocínio a priori. mas que se exige. pois. O que antes se houvera considerado comum benefício da sorte que inspirava humilde gratidão ao destino. Cada dia sua posição era mais segura e mais independente do arbítrio alheio. converteu-se num direito que não se agradece. não poderíamos tampouco compreendê-la quando logo se cumpre e se faz passado. A que distância? Muito simples: à distância justa que o impeça ver o nariz de Cleópatra. em verdade. quero dizer. Não se encontra. Nunca pode o homem médio resolver com tanta folga seu problema econômico. É falso dizer que a história não é previsível. Inúmeras vezes tem sido profetizada. anunciava Augusto Comte. olhe-a de longe.htm (38 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . de 1850. A idéia de que o historiador é um profeta pelo avesso resume toda a filosofia. A vida toda se contrairá. impotência angustiosa. compreendemos do pretérito ou do presente. O homem que agora tenta pôr-se à frente da existência européia é muito diferente daquele que dirigiu o século XIX. Desde 1900 começa também o operário a ampliar e assegurar a sua vida. "Sem um novo poder espiritual. tem de lutar para consegui-lo. escassez. "Vejo subir a preamar do nihilismo! ". Hegel. um aspecto de omnimoda facilidade material. se o senhor quer ver bem sua época.

de uma inovação radical no destino humano. Se se quer. Ninguém desconhece isso. tampouco nas formas da vida pública encontra-se ao nascer com entraves e limitações. que. A revolução não é a sublevação contra a ordem preexistente. Virou pelo avesso a existência pública. mas em sua implantação. antes de tudo. e este do que caracteriza ao XVI. para os efeitos da vida pública. Mas é ainda mais clara a contraposição de situações se do material passamos ao civil e moral. Tal imagem limita-se a incutir nas almas médias uma impressão vital. Cria-se um novo cenário para a existência do homem. e assim é preciso compreender perfeitamente suas inexoráveis conseqüências.física e administrativa -. A vida marcha sobre cômodos carris. pelo contrário. A honra do século XIX não estriba em sua invenção. contanto que não se entenda por esta só a jurídica e social. desde a segunda metade do século XIX. A compreensão deste fato e sua importância surgem automaticamente quando se recorda que essa franquia vital faltou por completo aos homens vulgares do passado. Os dois últimos podem resumir-se num: a técnica. Trata-se. até mesmo para o rico e poderoso. Por isso não há exageração nenhuma em dizer que o homem engendrado pelo século XIX. Não existem os "estados" nem as "castas". diga-se opressão. Foi. um homem à parte de todos os demais homens. com efeito. mas todos eles são parentes. similares e ainda idênticos no essencial se se confronta com eles este homem novo. novo no físico e no social. mas a implantação de uma nova ordem que tergiversa a tradicional. Ao contrário. Sentiram o viver a nativitate como um cúmulo de impedimentos que era forçoso suportar. esquecendo a cósmica. numa palavra. Nada o obriga a conter sua vida. Mas não basta com o reconhecimento abstrato. O do século XVIII se diferencia. que podia expressar-se com a perífrase. alojar-se na estreiteza que deixavam. do dominante no XVII. O homem médio aprende que todos os homens são legalmente iguais. praticamente ilimitada. que é implantada pelo século XIX. Também aqui "ampla é Castela". O homem médio. Quer dizer. Nenhum desses princípios foi inventado pelo século XIX.A rebelião das massas. simplesmente. O século XIX foi essencialmente revolucionário. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. está claro. Jamais em toda a história havia sido posto o homem numa circunstância ou contorno vital que se parecesse nem de longe ao que essas condições determinam. obrigação. e não há verossimilitude de que intervenha nela nada violento e perigoso. para eles a vida um destino angustiante . não constituem uma revolução.em condições de vida radicalmente opostas às que sempre a haviam rodeado. dependência. "vida" havia significado. O que teve de tal não deve ser buscado no espetáculo de suas barricadas. não acha ante si barreiras sociais nenhumas. limitação.htm (39 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . é. mas que colocou o homem médio . Para o "vulgo" de todas as épocas. Quer dizer que em todas essas ordens elementares e decisivas a vida se apresentou ao homem novo isenta de impedimentos. tão graciosa e aguda.a grande massa social . Não há ninguém civilmente privilegiado.no econômico e no físico -. Porque esta última é a que não faltou nunca até cem anos científica . a experimentação científica e o industrialismo. o mundo era um âmbito de pobreza. dificuldade e perigo (41) O mundo que desde o nascimento rodeia o homem novo não o move a limitar-se em nenhum sentido. pressão. mas procedem das duas centúrias anteriores. sem que coubera outra solução que não fosse adaptar-se a eles. de nosso velho povo: "ampla é Castela". A esta facilidade e segurança econômica ajuntam-se as físicas: o confort e a ordem pública. Três princípios fizeram possível esse novo mundo: a democracia liberal.

e se acostuma a não contar com os demais.genial de inspirações e de esforços -. abundante nem estável. portanto. Nos motins que a escassez provoca soem as massas populares buscar pão. Herdeiro de um passado extensíssimo e genial . não erraria quem utilizasse esta como uma quadrícula para olhar através dela a alma das massas atuais.htm (40 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . dos quais o menor malogro volatilizaria rapidissimamente a magnífica construção. como achamos o sol no alto sem que nós o tenhamos subido ao ombro. e a radical ingratidão a tudo quanto tornou possível a facilidade de sua existência. é origem de que as massas beneficiárias não a considerem como organização. sobretudo a não contar com ninguém como superior a ele. que as catástrofes eram freqüentes e não havia nele nada seguro. como se gozasse de um espontâneo e inesgotável crescimento. Assim se explica e define o absurdo estado de ânimo que essas massas revelam: não lhes preocupa mais que seu bem-estar e ao mesmo tempo são insolidárias das causas desse bem-estar. de sua pessoa. que só com grandes esforços e cautelas se pode sustentar. sem depender de seu prévio esforço. posta a sua disposição como o ar. ao encontrar-se com esse mundo técnica e socialmente tão perfeito. No mundo. porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao conjunto do que "está aí". Todavia hoje. Como não vêem nas vantagens da civilização um invento e construção prodigiosos. e tudo isso presto. esta: a própria perfeição com que o século XIX deu uma organização a certas ordens da vida. mais forte que ele. porque não falta. Acredita-se nisto tão firmemente como na próxima saída do sol. e o meio que empregam sói ser destruir as padarias. a conter-se. crê que o produziu a natureza. e não pensa nunca nos esforços geniais de indivíduos excelentes que supõe sua criação. já que tampouco falha. Minha tese é. é de sua própria origem. O sinal é formal. apesar de alguns signos que iniciam uma pequena brecha nessa fé rotunda.A rebelião das massas. com efeito. todo choque com outros seres. podem crescer indefinidamente. dar a impressão a um ser de que tudo lhe está permitido e a nada está obrigado. À força de evitar-lhe toda pressão em redor. pois. Pois acontece . A criatura submetida a este regime não tem a experiência de suas próprias limitações. a sua disposição. Esta sensação da superioridade alheia só podia ser-lhe proporcionada por quem. Estas massas mimadas são suficientemente pouco inteligentes para crer que essa organização material e social. mas perfeito e mais amplo. Nenhum ser humano agradece a outro o ar que respira. Mimar não é limitar os desejos. com efeito. o homem vulgar. Porque. chega a crer efetivamente que só ele existe. Isto nos leva a apontar no diagrama psicológico do homem-massa atual dois primeiros traços: a livre expansão de seus desejos vitais. e é quase tão perfeita como a natural. ao que parece.e isto é muito importante . não lhe apresenta veto nem contenção alguma. que. pelo visto. Menos ainda admitirá a idéia de que todas estas facilidades continuam apoiando-se em certas difíceis virtudes dos homens. o novo vulgo tem sido mimado pelo mundo circunstante. Isto pode servir como símbolo do comportamento que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E. do que dizemos "é natural". Ao homem médio de outras épocas ensinava-lhe quotidianamente seu mundo esta elemental sabedoria. lhe houvesse obrigado a renunciar a um desejo. como se fossem direitos nativos. todavia hoje muito poucos homens duvidam de que os automóveis serão dentro de cinco anos mais confortáveis e mais baratos que os do dia. Um e outro traço compõem a conhecida psicologia da criança mimada. a reduzir-se. há dois: eu e outro superior a mim". em princípio. crêem que seu papel se reduz a exigi-las peremptoriamente. Assim teria aprendido esta essencial disciplina: "Aí termino eu e começa outro que pode mais do que eu. mas que além disso sugere a seus habitantes uma segurança radical em que amanhã será ainda mais rico. mas como natureza. Mas as novas massas encontram uma paisagem cheia de possibilidades e além disso segura. porque era um mundo tão toscamente organizado. mas pelo contrário fustiga seus apetites.que esse mundo do século XIX e começos do XX não tem apenas as perfeições e amplitudes que de fato possui.

Porque esta impressão fundamental se converte em voz interior que murmura sem cessar umas como palavras no mais profundo da pessoa e lhe insinua tenazmente uma definição da vida que é. como em volta da oposta se formaram as antigas. a um enorme esforço e ele sabia muito bem quanto lhe havia custado. Isto era. ter de contar com o que nos limita". por isso mesmo. em princípio. se ascendia socialmente. a contar em todo momento com outras instâncias. Por isso insisto tanto em fazer notar que o mundo de onde nasceram as massas atuais mostrava uma fisionomia radicalmente nova na história. OU ESFORÇO E INÉRCIA Somos aquilo que nosso mundo nos convida a ser. limitações de destino e dependência. abandonar-se tranqüilamente a si mesmo. perene. Por que não. sua vida era constantemente regulada por esta instância suprema de que dependia. sem dúvida. um imperativo.A rebelião das massas. a seus olhos. ao mesmo tempo. Está satisfeito tal como é. nos quais baseia tal afirmação de sua pessoa? Nunca o homem-massa teria apelado a nada fora dele se a circunstância não lhe houvesse forçado violentamente a isso. escassez. apetites. Contrariamente. À volta desta impressão primária e permanente vai se formar cada alma contemporânea. Ingenuamente. o mundo novo aparece como um âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas. Portanto. onde não se depende de ninguém. em mais vastas e sutis proporções usam as massas atuais ante a civilização que as nutre (42). Mas o homem que analisamos habitua-se a não apelar de si mesmo a nenhuma instância fora dele. conseqüente com sua índole. Naturalmente: viver não é mais que tratar com o mundo. como a coisa mais natural do mundo. o homem seleto ou excelente está constituído por uma íntima necessidade de apelar de si mesmo a uma norma além dele. portanto.htm (41 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . segundo vemos. nada é perigoso e. do homem-massa. tenderá a afirmar e considerar bom tudo quanto em si acha. VIDA NOBRE E VIDA VULGAR. nada nem ninguém o força a compreender que ele é um homem de segunda classe. Mas a nova massa encontra a plena franquia vital como estado nativo e estabelecido. deixa de apelar e sente-se soberano de sua vida. como tal. Esta experiência básica modifica por completo a estrutura tradicional. Nada de fora a incita a reconhecer nela própria limites e. E quando não a isto. Enquanto no pretérito viver significava para o homem médio encontrar a sua volta dificuldades. preferências ou gostos. perigos. limitadíssimo. E se a impressão tradicional dizia: "Viver é sentir-se limitado e. atribuía-o a um golpe da sorte. se. O labrego chinês acreditava. era devida a alguma causa especialíssima. Em um e outro caso tratava-se de uma exceção à índole normal da vida e do mundo. VII. sem necessidade de ser vão. Porque este se sentiu sempre constitutivamente condicionado a limitações materiais e a poderes superiores sociais. até há pouco. portanto. incapaz de criar nem conservar a organização mesma que dá à sua vida essa amplitude e esse contentamento. sem causa especial nenhuma. O semblante geral que ele nos apresenta será o semblante geral de nossa vida. Se lograva melhorar sua situação. ninguém é superior a ninguém". exceção que. Praticamente nada é impossível. que lhe era nominativamente favorável. a voz novíssima grita: "Viver é não encontrar limitação alguma. a vida. superior a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Como agora a circunstância não o obriga. opiniões. que o bem-estar de sua vida dependia das virtudes privadas que possuísse o seu Imperador. sobretudo com instâncias superiores. e as feições fundamentais de nossa alma são impressas nela pelo perfil do contorno como por um molde. o eterno homem-massa.

o que não exige nada. Noblesse oblige.A rebelião das massas. o étimo do vocábulo "nobreza" é essencialmente dinâmico. mas o filho quem. É conhecido por reflexo. autêntico. apenas contenta-se com o que é e está encantado consigo mesmo (43). é nobreza lunar como feita com mortos. a vida nobre fica contraposta à vida vulgar e inerte. ele. e que não corresponde a esforço algum.a vida nobre -. dinâmico. são conquistas. por infelicidade. ainda neste sentido desvirtuado. que a oprimam. a nobreza hereditária tem um caráter indireto. sente desassossego e inventa novas normas mais difíceis. eqüivale a esforçado ou excelente. A nobreza define-se pela exigência. entende-se o conhecido de todo o mundo. pois. a incitação que produz no descendente a manter o nível de esforço que o antepassado alcançou. não pelos direitos. a cujo serviço livremente se põe. O filho é conhecido porque seu pai conseguiu ser famoso. nobreza é sinônimo de vida esforçada. em suma: é. Sempre. o famoso. se fosse necessário e alguém se lho disputasse (44). quem vive em essencial servidão. condenada à perpétua imanência. foi (45). Eu diria. e este. mas representam o perfil onde chega o esforço da pessoa. Implica um esforço insólito que motivou a fama. pelo contrário. A "nobreza" não aparece como termo formal até o Império romano. que se recebe e transmite como uma coisa inerte. pois. Os direitos privados ou privilégios não são. Desta maneira. A nobreza ou fama do filho já é puro benefício. e. em princípio. tão generoso do destino com que todo homem se encontra. Para mim. pelas obrigações. destacando com o seu esforço sua estirpe humilde. pois. Mais lógicos os chineses. e precisamente para opô-lo à nobreza hereditária. a comunica a seus antepassados. Quando esta. Nobre significa o "conhecido". é a criatura de seleção. distinguíamos o homem excelente do homem vulgar dizendo: que aquele é o que exige muito de si mesmo. ao conseguir a nobreza. Só fica nela de vivo. quanto porque é inerte. invertem a ordem da transmissão. certa contradição na transferência da nobreza. Daí que chamemos massa a este modo de ser homem . já em decadência. cuja nobreza é efetiva. noblesse oblige. O nobre originário obriga-se a si mesmo. Contra o que sói crer-se.não tanto porque seja multitudinário. no início. Contrariamente. os direitos comuns. numa qualidade estática e passiva. mais exigentes. que. Mas o sentido próprio. e há quem só torna nobre seu pai e quem alonga sua fama até o quinto ou décimo avô. Sua vida não lhe apraz se não a faz consistir em serviço a algo transcendente.htm (42 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . não. a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência. mas. Nobre. que se deu a conhecer sobressaindo sobre a massa anônima. estaticamente. e não a massa. Por isso não estima a necessidade de servir como uma opressão. ao conceder os níveis de nobreza. posta sempre a superar-se a si mesma. atuante. É irritante a degeneração sofrida no vocabulário usual por uma palavra tão inspiradora como "nobreza". Os privilégios da nobreza não são originariamente concessões ou favores. como não seja o respirar e evitar a demência. supõe sua conservação que o privilegiado seria capaz de reconquistá-las em todo instante. com efeito. como são os "do homem e do cidadão". file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. "Viver a gosto é de plebeu: o nobre aspira a ordenação e a lei" (Goethe). Por isso. Os antepassados vivem do homem atual. e não é o pai quem enobrece o filho. são propriedade passiva. puro usufruto e benefício. de qualquer modo. Porque ao significar para muitos "nobreza de sangue" hereditária. desde o nobre inicial a seus sucessores. Isto é a vida como disciplina . caso uma força exterior não a obrigue a sair de si. e ao nobre hereditário obriga-o a herança. Lembre-se de que. converte-se em algo parecido aos direitos comuns. se reclui a si mesma. é luz espelhada. Há. posse passiva e simples gozo. e. lhe falta. que o direito impessoal se tem e o pessoal se mantém. graduam-se pelo número de gerações passadas que ficam prestigiadas.

Mal pode governá-lo este homem-massa que aprendeu a usar muitos aparelhos de civilização. Quererão ouvir. sejam fatos. paciente. é ilusório pensar que o homem médio vigente. Agora podemos caminhar mais depressa. e não poderão. ao produzir automaticamente um homem novo. porque lhe falta de nascença a função de atender ao que está além dela. a indocilidade política não seria grave se não proviesse de uma mais profunda e decisiva indocilidade intelectual e moral. resultante de outras mais íntimas e impalpáveis. enquanto não tenhamos analisado esta. A atividade política. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. encontramo-nos com uma massa mais forte que a de nenhuma época. e descobrirão que são surdas. os pouquíssimos seres que conhecemos capazes de um esforço espontâneo e luxuoso. intrometeu nele formidáveis apetites. é possível que. mas que se caracteriza por ignorar de raiz os princípios mesmos da civilização. um significado político. que é tão massa como o de sempre. é preciso contrapô-lo às duas formas puras que nele se mesclam: a massa normal e o autêntico nobre ou esforçado. São os ascetas (46). saúde média superior à de todos os tempos). poderosos meios de toda ordem para satisfazê-los .econômico.e por reflexo em todo o mundo . o processo da civilização. e então. subitamente angustiadas. Por isso. Continuando as coisas como até aqui. os nobres. Depois de haver estabelecido nele todas estas potências. que é de toda a vida pública a mais eficiente e mais visível. Por outra parte. por muito que tenha ascendido seu nível vital em comparação com o de outros tempos.são incapazes de outro esforço que o estritamente imposto como reação a uma necessidade externa. vamos nos fartando de advertir que a maior parte dos homens . Nas horas difíceis que chegam para nosso continente. mas quer suplantar os excelentes. Quererão acompanhar a alguém. Reitero ao leitor que. fechou-se dentro de si. Mas ainda essa boa vontade fracassará. não já progresso. corporais (higiene. a derradeira. acreditando que se basta . Não surpreenda esta aparente digressão. em certas matérias especialmente angustiosas. tenha lido até aqui. São os homens seletos. À medida que se avança pela vida. Porque a disposição radical de sua alma está feita de hermetismo e indocilidade. sejam pessoas. Por isso mesmo ficam mais isolados.e das mulheres . Assim. um incessante treinamento. e como monumentalizados em nossa experiência. Para definir o homem-massa atual. a meu juízo. contrariamente. cada dia se notará mais em toda a Europa . tenham um momento a boa vontade de aceitar. Treinamento = áskesis. faltará a última claridade ao teorema deste ensaio. para os quais viver é uma perpétua tensão. é a chave ou equação psicológica do tipo humano dominante hoje. os únicos ativos e não só reativos. a conveniência de não entender todos estes enunciados atribuindo-lhes. mas. O simples processo de manter a civilização atual é superlativamente complexo e requer sutilezas incalculáveis. Digo processo.A rebelião das massas. porque já somos donos do que. o século XIX o abandonou a si mesmo. Tudo que vem depois é conseqüência ou corolário dessa estrutura radical que poderia resumir-se assim: o mundo organizado pelo século XIX.em suma: indócil (47). seguindo o homem médio sua índole natural. é. poderá reger. Desta sorte. a direção de minorias superiores. por si mesmo. a diferença da tradicional.htm (43 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . incapaz de atender a nada nem a ninguém. hermética em si mesma. civis e técnicos (entendo por estes a enormidade de conhecimentos parciais e de eficiência prática que hoje o homem médio possui e de que sempre careceu no passado) -. imediatamente.que as massas são incapazes de se deixar dirigir em nenhuma ordem.

Mas essa capacidade não lhe serve de nada. necessita ser especialmente vaidoso. Decide contentar-se com elas e considerar-se intelectualmente completa. Contrariamente ao homem medíocre de nossos dias. com a mesma diferença que eternamente existe entre o tolo e o perspicaz.htm (44 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . o néscio. paradisíaca. jamais (48). Sua confiança em si é. a alma. A pessoa encontra-se com um repertório de idéias dentro de si. tem mais capacidade intelectiva que o de nenhuma outra época. VIII. Pelo contrário. Mas a alma medíocre é incapaz de transmigrações . Como esses insetos que não há maneira de extrair do orifício em que habitam. mas chega-lhe de sua vaidade e ainda para ele mesmo tem um caráter fictício. Isso é precisamente ter obliterada. imaginário e problemático. como de Adão. sempre ficaria o fato de que muitos destes leitores discrepantes não pensaram cinco minutos sobre tão complexa matéria. e daí a invejável tranqüilidade com que o néscio se assenta e instala em sua inépcia. Também isto é naturalíssimo e confirma o teorema. ao novo Adão. pois.esporte supremo. Pois ainda que em definitivo minha opinião fosse errônea. por isso faz um esforço para escapar à iminente tolice. e a crença na sua perfeição não está consubstancialmente unida a ele. ao contrário.A rebelião das massas. O tolo é vitalício e impermeável. Um homem de seleção. POR QUE AS MASSAS INTERVÉM EM TUDO E POR QUE SÓ INTERVÊM VIOLENTAMENTE Ficamos em que aconteceu algo sobremodo paradoxal. e nesse esforço consiste a inteligência. não suspeita de si mesmo: julga-se discretíssimo. Encontramo-nos. não é ingênua. Comparar-se seria sair um pouco de si mesmo e trasladar-se ao próximo. Neste caso tratar-se-ia de hermetismo intelectual. Eis aí o mecanismo da obliteração. a vaga sensação de possuí-la apenas lhe serve para fechar-se mais em si mesmo e não usá-la. O tolo. busca neles a confirmação da idéia que quer ter de si mesmo. manifestam seu exemplar senhorio ao modo absurdo de ser homem que eu chamei "massa rebelde". consiste o gigantesco problema hoje levantado para a humanidade. não se lhe ocorre duvidar de sua própria plenitude. O homem-massa sente-se perfeito. Porque o malvado descansa algumas vezes. Por isso o vaidoso necessita dos demais. não há modo de desalojar o tolo de sua tolice. para sentir-se perfeito. Não se trata de que o homem-massa seja tolo. De sorte que nem ainda neste caso mórbido nem ainda "cegado" pela vaidade. Não sentindo nada de menos fora de si. instala-se definitivamente naquele repertório. consegue o homem nobre sentir-se em verdade completo. Pois bem: eu sustento que nessa obliteração das almas médias consiste a rebeldia das massas em que. a rigor. Já sei que muitos dos que me lêem não pensam como eu. mas que em verdade era naturalíssimo: de tanto se mostrarem abertos mundo e vida ao homem medíocre. por sua vez. levá-lo de passeio um pouco além de sua cegueira e obrigá-lo a que contraste sua visão grosseira habitual com outros modos de ver mais sutis. hermética. Por isso dizia Anatole France que o néscio é muito mais funesto que o malvado. O hermetismo nato de sua alma lhe impede o que seria condição prévia para descobrir sua insuficiência: comparar-se com outros seres. o atual é mais esperto. Este surpreende-se a si mesmo sempre a dois passos de ser tolo. a alma fechou-se para ele. Como poderiam pensar como eu? Mas ao supor-se com direito a ter uma opinião sobre o assunto sem prévio esforço para forjá-la. De file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.

Não há normas bárbaras propriamente ditas. Quando faltam todas essas coisas. mas que o vulgar proclame e imponha o direito da vulgaridade. ou. provérbios. Isto é o que no primeiro capítulo enunciava eu como característico em nossa época: não que o vulgar creia que é destacado e não vulgar. Nunca se lhe ocorreu opor às "idéias" do político outras suas. Não há cultura onde não há acatamento de certas últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa (50). nem sua posse é cultura. cego e surdo como é. é talvez o fator da presente situação mais novo. sobre política ou sobre literatura -. positiva ou negativamente. não há cultura. nem sequer julgar as "idéias" do político do tribunal de outras "idéias" que cria possuir. o homem médio tem as "idéias" mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. A que nossos próximos possam recorrer. prejuízos. Por isso perdeu o uso da audição. mas sua atitude reduzia-se a repercutir. Pelo menos na história européia até hoje. que sejam cultas? De maneira alguma. A mesma coisa em arte e nas demais ordens da vida pública. uma vez para sempre consagra o sortimento de tópicos. de sentenciar. pelo contrário. de julgar. Onde há pouca. vocábulos ocos que o acaso amontoou no seu interior. que em sua maior parte são de índole teórica. E isto é. regulam estas a vida só grosso modo. O que digo é que não há cultura onde não há normas. Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham "idéias". menos assimilável a nada do pretérito. Para que ouvir.por exemplo. nem de longe. A conseqüência automática disto era que o vulgo não pensava. não tenhamos ilusões. impô-los-á por toda a parte. vedava-o completamente. no sentido mais estrito da palavra. tradições. Não há questão de vida pública em que não intervenha. Tinha crenças.htm (45 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. mas. isto é. a ação criadora de outros. de decidir. nunca o vulgo havia crido ter "idéias" sobre as coisas. e com um audácia que só se explica pela ingenuidade. A escassez da cultura intelectual espanhola. experiências. do cultivo ou exercício disciplinado do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. Uma e inata consciência de sua limitação. penetram até o pormenor no exercício de todas as atividades. hábitos mentais. Não há cultura quando as relações econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual possam amparar-se. O império que sobre a vida pública hoje exerce a vulgaridade intelectual. Não me importa quais são. barbárie. Não vale falar de idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula. o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas. Hoje. Estas normas são os princípios da cultura. se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir. Não há cultura onde as polêmicas estéticas não reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte. onde há muita. de não estar qualificado para teorizar (49). quer dizer. As "idéias" deste homem médio não são autenticamente idéias. a barbárie é ausência de norma e de possível apelação. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que ela imponha. sabe que naquele território não regem princípios aos quais possa recorrer. O viajante que chega a um país bárbaro. Parecia-lhe bem ou mal o que o político projetava e fazia. mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobre o que as coisas são ou devem ser . A idéia é um xeque-mate à verdade. pelo contrário. impondo suas "opiniões". decidir em quase nenhuma das atividades públicas. simplesmente. há. O mais e o menos de cultura mede-se pela maior ou menor precisão das normas. ou a vulgaridade como um direito. Não há cultura onde não há princípios de legali5àde civil a que apelar. dava ou retirava sua adesão.

e instintivamente repudia a obrigação de acatar essa instância suprema que se acha fora dele. em que se acerte ou não . Para dar algum exemplo concreto destas coisas esquisitas mencionarei certos movimentos políticos. mas é inegável que ela significa a maior homenagem à razão e à justiça. passando pela ciência. que o levou a produzir a história mais inquieta de quantas se conhecem. A força era. Eu vejo nisso a manifestação mais palpável do novo modo de ser das massas. O hermetismo da alma. por haverem resolvido dirigir a sociedade sem ter capacidade para isso. intelecto. Sob as espécies de sindicalismo e fascismo aparece pela primeira vez na Europa um tipo de homem que não quer dar razões nem quer ter razão. Em sua conduta política revela-se a estrutura da alma nova da maneira mais crua e contundente. mas na habitual falta de cautela e cuidados para ajustar-se à verdade que soem mostrar os que falam e escrevem. leva-a também. Eis aqui o novo: o direito a não ter razão. propele a massa para que intervenha em toda a vida pública. não em que se saiba mais ou menos. aceitar seu Código e sua sentença. há alguns anos. Perpetuamente o homem tem recorrido à violência: às vezes este recurso era simplesmente um crime. Continuamos sendo o eterno padre de aldeia que rebate triunfante o maniqueu. Ter uma idéia é crer que se possuem as razões dela. um orbe de verdades inteligíveis. crer que existe uma razão. a ultima ratio.htm (46 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Um pouco estupidamente tem se entendido com ironia esta expressão. Em outras era a violência o meio a que recorria a quem havia esgotado todos os demais para defender a razão e a justiça que cria ter. submeter-se a ela. crer. mas na falta de escrúpulo que leva a não cumprir os requisitos elementais para acertar. se mostra resolvido a impor suas opiniões. mas que. manifesta-se. desde a conversação até o Parlamento. Isso quer dizer que se renuncia à convivência de cultura. sem haver procurado antes averiguar o que pensa o maniqueu. portanto. e não nos interessa. que a forma superior da convivência é o diálogo em que se discutem as razões de nossas idéias. opinar. mas a chave está no hermetismo intelectual. começaram a acontecer "coisas esquisitas". Não se atribua. mas não quer aceitar as condições e supostos de todo opinar. a razão da sem-razão. e é. mas carece da função de idear. porque a "ação direta" consiste em inverter a ordem e proclamar a violência como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O dia em que se reconstrua a gênese de nosso tempo. simplesmente. A civilização não é outra coisa senão o ensaio de reduzir a força a ultima ratio. inventores da maneira e da palavra "ação direta". Quer opinar. Não se diga que parecem esquisitos simplesmente porque são novos. como o sindicalismo e o fascismo. Nem sequer suspeita qual é o elemento sutilíssimo em que as idéias vivem. e detesta-se toda forma de convivência que por si mesma implique acatamento de normas objetivas.A rebelião das massas. que. pois. a um procedimento único de intervenção: a ação direta.a verdade não está em nossa mão -. Por isso. Mas o homem-massa sentir-se-ia perdido se aceitasse a discussão. Idear. O homem médio encontra-se com "ideais" dentro de si. o que estes novos fatos têm de esquisito ao que têm de novo. pois. é uma mesma coisa como apelar a tal instância. portanto. que declara muito bem o prévio rendimento da força às normas racionais. como vimos antes. Suprimem-se todos os trâmites normais e se vai diretamente à imposição do que se deseja. Não. Será muito lamentável que a condição humana leve volta e meia a esta forma de violência. Qualquer pessoa pode perceber que na Europa. advertir-se-á que as primeiras notas de sua peculiar melodia soaram naqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta de 1900. mas à estranhíssima bitola destas novidades. com efeito. o "novo" é na Europa "acabar com as discussões". O entusiasmo pela inovação é de tal modo ingênito no europeu. Agora começamos a ver isto com bastante clareza. e retrocede-se a uma convivência bárbara. que é uma convivência sob normas. como as romanças musicais. inexoravelmente. Daqui que suas "idéias" não sejam efetivamente senão apetites ou palavras. Tal violência não é outra coisa senão a razão exasperada.

que. Civilização é. como "ação direta". deixar espaço no Estado que ele impera para que possam viver os que nem pensam nem sentem como ele. que suprime tudo que medeia entre nosso propósito e sua imposição. atuou na vida pública. Proclama a decisão de conviver com o inimigo. Foi.E assim todas as épocas bárbaras têm sido tempo de espalhamento humano. normas. A massa . Toda a convivência humana vai caindo sob este novo regime em que se suprimem as instâncias indiretas. pois. o cidadão. portanto. vontade de convivência. não deve surpreender que tão rapidamente pareça essa mesma espécie decidida a abandoná-la. a comunidade. PRIMITIVISMO E TÉCNICA file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Por isso. a rigor. uma massa homogênea pesa sobre o Poder público e esmaga. como os mais fortes. O liberalismo convém hoje recordar isto . Trata-se com tudo isso de fazer possível a cidade. No trato social suprime-se a "boa educação". cortesia. quer dizer. quando a massa por um ou outro motivo. não obstante ser onipotente. com efeito. tão paradoxal. prima ratio. supõem o desejo radical e progressivo de cada pessoa contar com as demais. acharemos uma mesma entranha em todos. como a maioria. Odeia de morte o que não é ela.não deseja a convivência com o que não é ela. Era inverossímil que a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão bonita. É se incivil e bárbaro na medida em que não se conte com os demais. apareça a "ação direta" oficialmente como norma reconhecida. Em quase todos. Trâmites. limita-se a si mesmo e procura. quando a intervenção direta das massas na vida pública passou de casual e infreqüente a ser o normal. Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Não começa a ser já incompreensível semelhante ternura? Nada acusa com maior clareza a fisionomia do presente como o fato de que vão sendo tão poucos os países onde existe a oposição. justiça. A literatura. como única razão é ela a norma que propõe a anulação de toda norma. mais ainda. . A barbárie é tendência à dissociação. o fez em forma de "ação direta".htm (47 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Todos. razão! de que veio inventar tudo isso. tão acrobática. aniquila todo o grupo opositor. criar tanta complicação? Tudo isso se resume na palavra "civilização". usos intermediários. E um exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na terra. As relações sexuais reduzem seus trâmites. sempre o modo de operar natural às massas. O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o Poder público. constitui-se no insulto. o mais nobre grito que soou no planeta. Convém recordar que em todos os tempos. É a Charta magna da barbárie. Ela leva ao extremo a resolução de contar com o próximo e é protótipo da "ação indireta". tão antinatural. A forma que na política representou a mais alta vontade de convivência é a democracia liberal. pululação de mínimos grupos separados e hostis.A rebelião das massas. se olhamos por dentro cada um desses instrumentos da civilização que acabo de enumerar. com o inimigo débil.é a suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga à minoria e é. Por isso. descobre sua própria origem.quem o diria ao ver seu aspecto compacto e multitudinário? . através da idéia de civis. tão elegante. ainda à sua custa. antes de tudo. E corrobora energicamente a tese deste ensaio o fato patente de que agora. a convivência. IX.

a história. Por isso a princípio insinuei que todos os traços atuais e. A rebelião das massas pode. por outro mal. mas na própria realidade. individual ou coletiva. Não é coisa de lastrear este ensaio com toda uma metafísica da história. É claro que toda velha cultura arrasta no seu avanço tecidos caducos e não pequena carregação de matéria córnea. com efeito. Há instituições mortas. Importa-me muito recordar aqui que estamos submersos na análise de uma situação . É. Qualquer deles não só tolera. é a única entidade do universo cuja substância é perigo. A sobrecasaca e o plastrão românticos solicitam uma vingança por meio do atual deshabillé e o "em mangas de camisa". Mas é claro que o vou construindo sobre a base subterrânea de minhas convicções filosóficas. de autenticidade. soluções indevidamente complicadas. E assim os sintomas de nova conduta que sob o império atual das massas vão aparecendo e agrupávamos sob o título "ação direta". mas até reclama uma dupla interpretação. volutas. e portanto.a do presente substancialmente equívoca. estorvo à vida e tóxico resíduo. requeria urgentemente uma redução ao autêntico. sobretudo a política. pessoal ou histórica. que é verdade em geral. normas que provaram sua insubstancialidade.htm (48 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . em espécie. se compõe de puros instantes. E este equívoco não reside em nosso juízo. adquire maior intensidade nos "momentos críticos". cada um dos quais está relativamente indeterminado com respeito ao anterior. sem a ameaça de involução e retrocesso. mas também pode ser uma catástrofe no destino humano. mas é que em si mesma a situação presente é potência bifronte de triunfo ou de morte. Todos estes elementos da ação indireta. ser trânsito de uma nova e sem par organização da humanidade. e não sabe bem se se decidir por uma ou outra entre várias possibilidades. Não creio na absoluta determinação da história.A rebelião das massas. de sorte que nele a realidade vacila. a simplificação é higiene e melhor gosto. drama (51). Não é que possa parecer-nos por um lado bem. expostas ou aludidas em outros lugares.tanto o progresso triunfal e indefinido como a periódica regressão -. podem anunciar também futuras perfeições. a vida pública. piétine sur place. nenhuma evolução. O entusiasmo que sinto por esta disciplina de nudificação. Aqui. apresentam duplo aspecto. Este titubeio metafísico proporciona a todo o vital essa inconfundível qualidade de vibração e estremecimento. penso que toda vida. Mais congruente com os fatos é pensar que não há nenhum progresso seguro. demandam uma época de frenesi simplificador. É o porvir que deve imperar sobre o pretérito. rigorosamente falando. Tudo. a rebelião das massas. Mas é preciso evitar o pecado maior dos que dirigiram o século XIX: a defeituosa consciência de sua file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Porque a vida. portanto. Não há razão para negar a realidade do progresso. e dele recebermos a ordem para nossa conduta diante de tudo quanto foi (52). como sempre que com menos meios se consegue mais. Em geral. retorcimentos e intrincações que não a deixavam tomar sol. até coincidir consigo mesma. Compõem-se de peripécias. Pelo contrário. tudo é possível na história . Isto. valorizações e respeitos sobreviventes e já sem sentido. se não se aligeira até sua pura essencialidade. favorável e pejorativa. e a humanidade européia não poderia dar o salto elástico que o otimista reclama dela se antes não se desnuda. como é o presente. da civilização. me faz reivindicar plena liberdade de ideador diante de todo o passado. mas é preciso corrigir a noção que crê seguro este progresso. uma solução mais perfeita. A árvore do amor romântico exigia também uma poda para que caíssem as demasiadas magnólias falsas cerzidas a seus ramos e o furor de lianas. a consciência de que é imprescindível para franquear o passo a um futuro estimável.

nem ainda para retificá-las. os automóveis e algumas coisas mais. parece-me neste ponto demasiado otimista. Baste fazer constar este fato: desde que existem as nuove scienze. é tão remota da pressuposta neste ensaio. tão sutil e tão profundo . Deixar-se deslizar pela pendente favorável que apresenta o curso dos acontecimentos e embotar-se para a dimensão de perigo e carranca que mesmo a hora mais jocunda possui.htm (49 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . nem pelos melhores. com efeito. E isso acontece quando a indústria alcança seu maior desenvolvimento e quando as pessoas mostram maior apetite pelo uso de aparelhos e medicinas criados pela ciência. ao longo do tempo. da civilização. No fundo de sua alma desconhece o caráter artificial. Mas isto confirma seu radical desinteresse pela civilização. O próprio Spengler. Pois estas coisas são só produtos dela. O civilizado é o mundo. seu habitante não o é: nem sequer vê nele a civilização. A idéia que Spengler tem da cultura. mas . mas usa dela como se fosse natureza. na religião e nas zonas cotidianas da vida. se o cálculo se faz não tanto pensando no presente como no que anunciam e prometem. Nos laboratórios de ciência pura começa a ser difícil atrair discípulos. poderia demonstrar-se semelhante incongruência na política. pode julgar-se . na moral. Se não fora prolixo. Só saltando sobre distâncias e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. as ciências físicas . É indubitável que num balanço diagnóstico de nossa vida pública os fatores adversos superem em muito os favoráveis. proporcional . Pois crê que à "cultura" vai suceder uma época de "civilização". quase inverossímil. desde o Renascimento -. Quando mais acima. que os fez não se manterem alertas e em vigilância.portanto. A toda hora se fala hoje dos progressos fabulosos da técnica.os de nenhuma. e o fervor que se lhes dedica faz ressaltar mais cruamente a insensibilidade para os princípios de que nascem.A rebelião das massas.como é habitual . Agora se vê que a expressão poderá enunciar uma verdade ou um erro.ainda que tão maníaco -. mas eu não vejo que se fale. Que nos significa situação tão paradoxal? Este ensaio pretende haver preparado a resposta a tal pergunta.repito. que não é fácil. um Naturmensch emergindo em meio de um mundo civilizado. a saber: uma definição formal que condena toda uma complicada análise. um primitivo que pelos bastidores deslizou no velho cenário da civilização. Interessam-lhe evidentemente os anestésicos. O homem-massa atual é. é precisamente faltar à missão de responsável. Não os desta ou os daquela. mas que é o contrário de uma "frase". Todo o crescimento de possibilidades concretas que a vida experimentou corre risco de anular-se a si mesmo ao topar com o mais pavoroso problema sobrevindo no destino europeu e que de novo formulo: apoderou-se da direção social um tipo de homem a quem não interessam os princípios da civilização. O primeiro caso de retrocesso . trazer aqui a comento suas conclusões. com uma consciência de seu futuro suficientemente dramático. sob a qual entende sobretudo a técnica. e em geral da história.que se tratava apenas de uma "frase". Significa que o homem hoje dominante é um primitivo. Mais concretamente: o número de pessoas que em proporção se dedicavam a essas puras investigações era maior em cada geração.ao que hoje pode julgar-se . mas crê que é fruta espontânea de uma árvore edênica. transpondo umas palavras de Rathenau.produziu-se na geração que hoje vai dos vinte aos trinta anos. na arte. O novo homem deseja o automóvel e goza dele. responsabilidade. e parece o mais urgente sublinhar o lado palmariamente funesto dos sintomas atuais. Hoje torna-se mister suscitar uma hiperestesia de responsabilidade nos que sejam capazes de senti-la. porém. e não estenderá seu entusiasmo pelos aparelhos até os princípios que os tornam possíveis. dizia eu que assistimos à "invasão vertical dos bárbaros". o entusiasmo por elas havia aumentado sem colapso.

htm (50 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Vive-se com a técnica. a própria moral -. as normas sociais. a técnica só pode perviver um pouco de tempo. Mas esta fauna do homem experimental requer. aquele que lhe dure a inércia do impulso cultural que a criou. da maneira mais indiscutível e mais própria para fazer efeito no homem-massa. pudera estabelecer-se assim a divergência: Spengler crê que a técnica pode continuar vivendo quando morreu o interesse pelos princípios da cultura. embora esclarecida a questão. E ainda dentro deste quadrilátero. e menos que nada. Eu não posso resolver-me a crer tal coisa. Mas não espere que. sobressai já o claríssimo fato de que em toda a amplitude da terra e em toda a do tempo. de preocupações supérfluas. prático. para reduzir ambos os pontos de vista a um comum denominador. Cada dia facilita um novo invento.como parece ocorrer -. espontaneamente e sem prédicas. que beneficia esse homem médio. e a ciência não existe se não interessa em sua pureza e por ela mesma. o qual vem a ser materialmente aproveitável. Não é demasiado absurdo que nas circunstâncias atuais não sinta o homem médio. consequentemente. A técnica é consubstancialmente ciência. evaporante. e não pode interessar se as pessoas não continuam entusiasmadas com os princípios gerais da cultura. Viena e Paris. que é mister reunir e agitar para obter coquetel da ciência físico-química! Ainda contentando-se com a pressão mais débil e sumária do tema. Por isso. o homem-massa se daria por inteirado. há uma que cada dia comprova. sacerdotes. Pensou-se em todas as coisas que precisam continuar vigentes nas almas para que possa continuar havendo de verdade "homens de ciência"? Acredita-se seriamente que enquanto haja dollars haverá ciência? Esta idéia em que muitos se tranqüilizam não é senão uma prova mais de primitivismo. pelo visto. para se produzir. os mais díspares entre si. que a foro de racionais teriam que ser sutis.a política. Berlim. quer dizer. que esse homem médio utiliza. mas precipitado útil. um conjunto de condições mais insólito que o que engendra o unicórnio. Uma observação impede-me iludir-me sobre a eficácia de tais prédicas. Cada dia produz um novo analgésico ou vacina. precisões. Bem arranjado está quem creia que se a Europa desaparecesse poderiam os norte-americanos continuar a ciência! Importaria muito tratar a fundo o assunto e especificar com toda a minúcia quais são os supostos históricos vitais da ciência experimental e. ao resumir a fisionomia novíssima da vida implantada pelo século XIX. da técnica. sua maravilhosa eficiência: a ciência empírica. mas não da técnica. Fato tão sóbrio e tão magro devia fazer refletir um pouco sobre o caráter supervolátil. à advertência de que o atual interesse pela técnica não garante nada. guerreiros e pastores têm pululado por toda a parte e à vontade. Mas repito que surpreende a frivolidade com que ao falar da técnica se esquece que sua víscera cordial é a ciência pura. eu ficava com estas só duas feições: democracia liberal e técnica (54). O homem-massa não atende a razões e só aprende em sua própria carne. Isto demonstra que a ciência experimental é um dos produtos mais improváveis da história. a físico-química só conseguiu constituir-se. Se se embota esse fervor . não práticas (53). só no século XIX. Está bem que se considere o tecnicismo como um dos traços característicos da "cultura moderna". Magos. não é causa sui. da inspiração científica (55). fervor superlativo por aquelas ciências e suas congêneres as biológicas? Porque repare-se em qual é a situação atual: enquanto evidentemente todas as demais coisas da cultura se tornaram problemáticas . Vou. Todo o mundo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o progresso mesmo ou a perduração da técnica. e que as condições de sua perpetuação englobam as que tornam possível o puro exercício científico. de uma cultura que contém um gênero de ciência.A rebelião das massas. estabelecer-se plenamente no breve quadrilátero que inscrevem Londres. Aí é nada a quantidade de ingredientes. Esta não se nutre nem se respira a si mesma. a arte. pois.

Mas as ciências experimentais necessitam da massa. Podemos inclusive resolver a não deixar de sê-lo nunca.de médicos. Se alguém de boa mente a aproveita para algo. Como vai pretender que alguém a tome em sério. X.. suas dores? A desproporção entre o benefício constante e patente que a ciência lhes procura e o interesse que por ela mostram é tal. A filosofia não necessita de proteção. um bárbaro emergindo por um alçapão. Sustenta-se a si mesma. engenheiros. como tal aparece. E conste que me refiro a físicos. podemos impunemente ser selvagens. se ela começa por duvidar de sua própria existência. são possíveis povos perenemente primitivos. congelada. não obstante. os quais soem exercer sua profissão com um estado de espírito idêntico no essencial ao de quem se contenta com usar do automóvel ou comprar o tubo de aspirina -.seria. biólogos . sabe que. Nela. Mas. bem-estar. que não há modo de subornar-se a si mesmo com ilusórias esperanças. mas não vive desse proveito alheio. PRIMITIVISMO E HISTÓRIA A natureza está sempre aí. saltam mais aos olhos e se materializam em espetáculo. e a injeção de pantopom que fulmina. Maxime se.o mais aterrador (57). pois. em princípio. comodidades. O europeu que começa a predominar . Cuida de seu aspecto de perfeita inutilidade (56). o após-guerra converteu o homem de ciência no novo pária social.esta é minha hipótese . segundo veremos. Para mim é este da desproporção entre o proveito que o homem médio recebe da ciência e a gratidão que lhe dedica .htm (51 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . um "invasor vertical". Haverá quem se sinta mais sobrecolhido por outros sintomas de barbárie emergente que. um homem primitivo. sendo de qualidade positiva. na. e abraça alegre seu livre destino de pássaro do bom Deus. nem recomendar-se. relativamente à complexa civilização em que nasceu.não aos filósofos -. multiplicar-se-iam automaticamente riqueza. nem o premedita. etc. em que se desvive a si mesma? Deixemos. Que raciocínios podem conseguir o que não consegue o automóvel. da civilização. os que ficaram numa alvorada estática. massa dos técnicos mesmos . talvez com maior clareza que em nenhuma outra parte. já que num planeta sem físico-química não se pode sustentar o número de homens hoje existentes. sem pedir a ninguém que conte com ela.. nem de simpatia da massa. e não de omissão. sem a menor solidariedade íntima com o destino da ciência. Só posso explicar-me esta ausência do adequado reconhecimento se recordo que no centro da África os negros vão também em automóvel e se aspirinizam. e esperar mais que barbárie de quem assim se comportar. se não vive mais que na medida em que se combata a si mesma. de lado a filosofia. regozija-se por simples simpatia humana. nem o espera. como esta necessita delas. de ação. saúde.A rebelião das massas. sem mais risco que o advento de outros seres que não o sejam. milagrosa. Sabe que é por essência problemática. sob pena de sucumbir. e como isso se liberta de toda submissão do homem médio. Breyssig chamou-os de "os povos da perpétua aurora". nem de atenção. na selva. nem defender-se. Pode imaginar-se propaganda mais formidável e contundente em favor de um princípio vital? Como. este desapego pela ciência. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. não há sombra de que as massas peçam a si mesmas um sacrifício de dinheiro e de atenção para dotar melhor a ciência? Longe disso. se se triplicassem ou decuplicassem os laboratórios. Há-os.que não lhe dedica . químicos. que é aventureira de outro nível. onde esses homens vão e vêm. não cedendo à inspiração científica.

O homem-massa crê que a civilização em que nasceu e que usa é tão espontânea e primigênea como a Natureza. É artifício e requer um artista ou artesão. e pintavam o cisne sobre Lêda. Ele anuncia que. quanto mais avança. entre o racional e o cósmico. e ipso facto converte-se em primitivo. Este desequilíbrio entre a sutileza complicada dos problemas e a das mentes será cada vez maior se não se remedeia. A civilização não está aí..não existem para o homem médio atual. De tanto ser férteis e certeiros os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. tudo é terra. se afoga sob o abraço da silvestre vegetação. torna-se tanto mais complexa e mais difícil. Hoje os orçamentos da Oceania sobrecarregam-se com verbas onerosas destinadas à guerra contra a figueira. Se o senhor quer aproveitar-se das vantagens da civilização.. um emigrante meridional. Os românticos de todos os tempos se desarticulavam ante esta cena de desolação. Mais exatamente: há algumas cabeças.é um assunto demasiado algébrico. como é sabido.Málaga? Sicília? -. A civilização se lhe antolha selva. Quando um bom romântico divisa um edifício. A reconstituição da Europa . nostálgico de sua paisagem . como o nosso. muito poucas. e não se faz solidário deles. O "bom europeu" tem de se dedicar agora ao que constitui. o "amarelo saramago". levou para a Austrália num vaso de barro uma figueirazinha.A rebelião das massas. não se sustenta a si mesma. em que o natural e subumano tornava a oprimir a palidez humana da mulher.a Natureza -. Tudo que é primitivo é selva. que não avança para nenhum meio-dia. Não é que faltem meios para a solução. Sob essas imagens inocentemente perversas palpita um enorme e sempiterno problema: o das relações entre a civilização e o que ficou depois dela . e constitui a mais elementar tragédia da civilização.está se vendo . Cada vez é menor o número de pessoas cuja mente está à altura desses problemas. em definitivo. Generalizando acharam um espetáculo mais sutilmente indecente na paisagem com ruínas. onde a pedra civilizada. Mas agora encontro-me em faina oposta. que invadiu o continente e cada ano ganha em corte mais de um quilômetro. Não lhe interessam os valores fundamentais da cultura. A selva sempre é primitiva. E vice-versa. o touro com Pasifae e Antíope sob o capro. A civilização. a franquia para ocupar-me dele em outra ocasião e para ser na hora oportuna romântico. Um descuido. Mas não acontece no mundo que é civilização. grave preocupação dos Estados australianos: impedir que as figueiras ganhem terreno e joguem os homens ao mar. sobre o acrotério ou o telhado. Faltam cabeças. Também o romântico tem razão. e o europeu vulgar revela-se inferior à tão sutil empresa. Os problemas que hoje levanta são arqui-intrincados. e quando o senhor olha à sua volta tudo se volatilizou! Como se houvessem recolhido uns tapetes que tapavam a pura Natureza. Seria estúpido rir do romântico. Os princípios em que se apoia o mundo civilizado . mas agora vou destacar apenas uma. A três por dois o senhor fica sem civilização. Não está disposto a pôr-se a seu serviço. Reclamo.. O após-guerra nos oferece um exemplo bem claro disso.htm (52 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . o senhor está enfarado. Pelo ano quarenta e tantos. a primeira coisa que seus olhos procuram é. pois. mas não se preocupa de sustentar a civilização. Como aconteceu isto? Por muitas causas. que por toda a parte a selva rebrota. Isso acontece no mundo que é só Natureza. geométrica.o que é preciso sustentar . reaparece repristinada a selva primitiva. mas o corpo vulgar da Europa central não quer pô-las sobre os ombros. estremecido. Eu já o disse. mas agora é preciso acrescentar algumas precisões. Trata-se de conter a selva invasora.

está ideada em vista desses erros. Daí que quanto maior seja o progresso. a retroceder e consumir-se.embora subterraneamente . anacrônica. em suma: história.a vida é sempre diferente do que foi -. As pessoas mais "cultas" de hoje padecem uma ignorância histórica incrível. Movimentos típicos de homens-massa dirigidos. Mas se o senhor. então tudo é desvantagem.governantes sensu lato . A questão não está em ser ou não ser comunista e bolchevista. vão-se aperfeiçoando também os meios para resolvê-los. os temas políticos e sociais com o instrumental de conceitos rombudos que serviram a duzentos anos para enfrentar situações de fato duzentas vezes menos sutis.tornou possível o avanço prodigioso do século XIX. Não discuto o credo. muita experiência. princípios que a informam. aumenta sua colheita em quantidade e em agudeza até ultrapassar a receptividade do homem normal. Pois eu creio que esta é a situação da Europa. cada vez mais complicada. como se sucedendo nesta hora pertencessem à fauna de antanho. Mas é mister que cada nova geração se torne senhora desses meios adiantados. mas porque evita cometer os erros ingênuos de outros tempos. Mas já o século XIX começou a perder "cultura histórica". dois claros exemplos de regressão substancial. tanto mais em perigo está. Não tanto pelo conteúdo positivo de suas doutrinas. O Império romano finda por falta de técnica. o retrocesso à barbárie.a involução. Em seu último terço iniciou-se . mas. isolado.A rebelião das massas. que hoje gravitam sobre nós. Entre estes para concretizar um pouco . que. Não por que dê soluções positivas ao novo aspecto dos conflitos vitais . apesar de que no seu transcurso os especialistas a fizeram avançar muitíssimo como ciência (58). bem entendido. as duas tentativas "novas" de política que na Europa e seus confinantes se estão fazendo.há um banalmente unido ao avanço da civilização. como pela maneira anti-histórica. por exemplo. Na Grécia e em Roma não fracassou o homem. começou o mundo a involuir. Sua política está pensada . o senhor não aproveita sua experiência. tem naturalmente uma verdade parcial . A este abandono se devem em boa parte seus peculiares erros. que só a técnica podia achar.htm (53 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Não creio que isto tenha acontecido jamais no passado. Eu sustento que hoje sabe o europeu dirigente muito menos história que o homem do século XVIII e mesmo do XVII. isto é. com que tratam sua parte de razão. que é ter muito passado às suas costas. comportam-se desde o início como se houvessem passado já. Parecem toscos labregos que com dedos grossos e desajeitados querem colher uma agulha que está sobre uma mesa. mas seus princípios. É claro que ao complicarem-se os problemas. Aquele saber histórico das minorias governantes . A européia ameaça sucumbir pelo contrário. por homens medíocres. além de ser velho.quem no universo não possui uma porciúncula de razão? -. e resume em sua substância a mais longa experiência. à ingenuidade e primitivismo de quem não tem ou esquece seu passado. A vida é cada vez melhor. sem "consciência histórica". perdeu a memória do passado. e. portanto.pelo XVIII precisamente para evitar erros de todas as políticas antigas. O que é file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Todas as civilizações feneceram pela insuficiência de seus princípios. como todos os que o são. extemporâneos e sem memória extensa. Ao chegar a um grau de povoação grande e exigir tão vasta convivência a solução de certas urgências materiais. O saber histórico é uma técnica de primeira ordem para conservar e continuar uma civilização provecta. Manejam-se. de que sua vida começa a ser difícil. Causa inquietude ouvir falar sobre os temas mais elementais do dia por pessoas relativamente mais cultas. Mas agora é o homem quem fracassa por não poder continuar emparelhado com o progresso de sua própria civilização. Por isso são bolchevismo e fascismo. Civilização avançada é uma e mesma coisa com problemas árduos.

Com o passado não se luta corpo a corpo. depois de seu pai. Mas a inovação que o anti representa se desvanece no vazio ademane negador e deixa só como conteúdo positivo uma "antigualha". Se deixar algo dele fora está perdido. em vista de que todas as "leis" de sua ciência aparecem caducadas. O porvir o vence porque o devora. Desde já. ao cabo da qual está inexoravelmente o reaparecimento de Pedro. "A revolução devora seus próprios filhos !" "A revolução começa por um partido moderado. por isso é estritamente o contrário de um começo de vida humana. E isto serão todos os movimentos que recaiam na simplicidade de travar uma luta com tal ou qual porção do passado. Mas isso é justamente o que não pode fazer quem. pelo contrário. Acontece. se declara anti-liberal. coloca-se antes e retrocede toda a película à situação passada. Por isso .bolchevismo e fascismo . E como já uma vez este triunfou daquela. Nem um nem outro ensaio estão "à altura dos tempos". interrompidas e feitas cisco.é o que fazia o homem anterior ao liberalismo. que não receba deplorável confirmação quando se aplica a esta. etc. etc. a seguir passa aos extremistas e começa mui rapidamente a retroceder para uma restauração". das muitas que sobre as revoluções a velha experiência humana fez. senão declarar-se partidário de um mundo onde Pedro não existe. não levam dentro de si resumido todo o pretérito. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. entre elas esta: uma revolução não dura mais de quinze anos. poderíamos dizer coisas similares do fascismo. ou. naturalmente. mas. inconcebível e anacrônico é que um comunista de 1917 se atire a fazer uma revolução que é em sua forma idêntica a todas as que houve antes e na qual não se corrigem os mínimos defeitos e erros das antigas.são duas falsas alvoradas. como o canhão é mais arma que a lança. A esses tópicos veneráveis podiam ajuntar-se algumas outras verdades menos notórias. necessita preocupar-se antes de tudo de que esses humílimos lugares comuns da experiência histórica fiquem invalidados pela situação que ele suscita. são primitivismo. Mas isso é precisamente o que acontecia ao mundo quando ainda não havia nascido Pedro. posto que signifique uma reação contra ele e supõe sua prévia existência. pois. Invertendo o signo que afeta o bolchevismo.ser antiliberal ou não liberal . como o fascismo. uma atitude anti-algo parece posterior a este algo. Quem aspire verdadeiramente a criar uma nova realidade social ou política. porém não menos prováveis. Não há dúvida de que é preciso superar o liberalismo do século XIX. O antipedrista. já usado uma ou muitas vezes.. É. Há uma cronologia vital inexorável. segundo a lenda. Por isso não é interessante historicamente o acontecido na Rússia. é o perfeito lugar comum das revoluções. traduzindo sua atitude à linguagem positiva. uma monótona repetição da revolução de sempre. mas a de um arcaico dia. é mais vida que este. condição irremissível para superá-lo. repetirá sua vitória inumeráveis vezes ou se acabará tudo . O qual nasceu. o que é o mesmo.htm (54 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .liberalismo e anti-liberalismo . em vez de colocar-se depois de Pedro. Um e outro . nasceu já com oitenta anos enquanto seu progenitor não tinha mais que trinta. diabo!.A rebelião das massas. período que coincide com a vigência de uma geração (59). O liberalismo é nela posterior ao anti-liberalismo. Todo anti não é mais que um simples e vazio não. De minha parte reservarei a qualificação de genial ao político que mal comece a operar comecem a ficar loucos os professores de História dos Institutos.numa destruição da Europa. com todos estes anti o que. Quem se declara anti-Pedro não faz. em vez de proceder a sua digestão. aconteceu a Confúcio. Até o ponto de que não há frase feita. não trazem a manhã do amanhã.

Se não se lhe dá essa que tem. Mas o passado é pura essência revenant.. saturadas de seu estilo primitivo. a considerar bom e completo seu haver moral e intelectual. O máximo que este ensaio se atreve a solicitar é que revolução ou evolução sejam históricas e não anacrônicas. estuda-se a estrutura psicológica deste novo tipo de homem-massa. Em suma. Contar com ele. Necessitamos da história íntegra para ver se conseguimos escapar dela. vulgo rebelde.. Este contentamento consigo o leva a fechar-se em si mesmo para toda instância exterior. Esta é a condição para superá-lo. Esta resolução de avançar para o primeiro plano social produziu-se nele. e. O liberalismo tinha uma razão. Esta é. trâmites nem reservas. a não pôr em tela de juízo suas opiniões e a não contar com os demais. a sua. só tentativas por eles informadas. inseparável de tudo que hoje parece triunfar. e esta diferença . A ÉPOCA DO "MOCINHO SATISFEITO" Resumo: O novo fato social que aqui se analisa é este: a história européia parece.htm (55 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . A Europa necessita conservar seu essencial liberalismo. 3o. que conheçam a latitude presente da vida e repugnem toda atitude arcaica e silvestre. intervirá em tudo impondo sua vulgar opinião. à parte isso. antes dirigido. volta irremediavelmente. Por isso sua única autêntica superação é não mandá-lo embora. segundo um regime de "ação direta". a meu juízo. como não pretendo dirimir o perene dilema entre revolução e evolução. a não ouvir. O passado tem razão. Se o mandamos embora. automaticamente. uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil. "a altura dos tempos". XI. não discuto agora a entranha de um nem a do outro. encontra-se o seguinte: 1o. como se somente ele e seus congêneres existissem no mundo. podem celebrar uma aparente vitória. Se atendendo aos defeitos da vida pública. pela primeira vez. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. voltará a reclamá-la. Mas não tinha toda a razão. entregue à decisão do homem vulgar como tal. sem considerações. A Europa não tem remissão se seu destino não é posto nas mãos de pessoas verdadeiramente "contemporâneas" que sintam palpitar debaixo de si todo o subsolo histórico. porque alenta em estrato muito mais profundo que a política e suas dissensões. e essa que não tinha é a que se devia tirar-lhe. Sua sensação íntima de domínio o incita constantemente a exercer predomínio. Se falei aqui de fascismo e bolchevismo não foi senão obliquamente. O tema que verso nestas páginas é politicamente neutro. e essa é preciso dá-la per saecula saecculorum. portanto. o convida a afirmar-se a si mesmo tal qual é. portanto.A rebelião das massas. não recair nela. quer dizer. pois. Porque hoje triunfa o homem-massa. contemplações. fixando-me só na sua feição anacrônica. mal chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. com hiperestésica consciência da conjuntura histórica. Não é mais nem menos massa o conservador que o radical.que em toda época tem sido muito superficial . e de passagem a impor a que não tem. portanto. Ou dito em voz ativa: o homem vulgar. 2o.. sem limitações trágicas. evitá-lo.não impede nem de longe que ambos sejam um mesmo homem. cada indivíduo médio encontra em si uma sensação de domínio e triunfo que. Comportar-se à sua vista para sorteá-lo. Mas. Seria tudo muito fácil se com um não puro e simples aniquilássemos o passado. abastada. resolveu governar o mundo. volta. Atuará.

portanto. fantasmática. atrofia sua vida.religião. muito mais amplo e radical. Por razões muito rigorosas e arquifundamentais que agora não é oportuno enunciar. em vez dessas razões. Este repertório de feições fez com que pensássemos em certos modos deficientes de ser homem. Como vimos. precisamente. fofa. com efeito. é. Está condenado a representar o outro. Assim.os que se podem reunir na classe geral "homem-herdeiro". talvez muito breve. Tenderíamos ilusoriamente a crer que uma vida nascida em um mundo abastado seria melhor. como o "menino mimado" e o primitivo rebelde. que o veja diante de si e não suspeite que aquilo. a não ser nem o outro nem ele mesmo. São a carapaça gigantesca de outra pessoa. mostrando como muitos dos traços característicos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O garoto mimado é o herdeiro que se comporta exclusivamente como herdeiro. precisamente aquilo. Um mundo abundoso (60) de possibilidades produz automaticamente graves deformações e viciosos tipos de existência humana . o homem-massa de nosso tempo -. inspirado por tal caráter. isto é.o interno e trágico mecanismo que conduz toda a aristocracia hereditária à sua irremediável degeneração. Se meu corpo não me pesasse eu não poderia andar. só dentro da folga social que esta fabricou no mundo. seu antepassado. intimamente. em forma muito diferente da que este ensaio reveste. (O primitivo normal. que não se produzem organicamente unidas a sua vida pessoal e própria. sentiria meu corpo como uma coisa vaga. em meio de sua riqueza e de suas prerrogativas. de que o "aristocrata" não é senão um caso particular. em lutar com a escassez. costumes -.as comodidades. Este personagem. esforço por ser ela mesma. o bárbaro. As dificuldades com que tropeço para realizar minha vida são. tabus. É uma de tantas deformações como o luxo produz na matéria humana. em suma. o garoto mimado da história humana. quer dizer. Por enquanto trata-se de um ensaio de ataque: o ataque a fundo virá depois. pode surgir um homem constituído por aquele repertório de feições.A rebelião das massas. Em que ficamos? Que vida vai viver o "aristocrata" de herança. mais vida e de superior qualidade à que consiste. Mas não é verdade. (Por outra parte. Ele não tem. porque não vêm dele.) Não é necessário estranhar que eu acumule dictérios sob esta figura de ser humano. é o ataque a fundo. O resultado é essa específica parvoíce das velhas nobrezas. O aristocrata herda. O ataque a fundo tem de vir de maneira que o homem-massa não se possa precaver contra ele. as vantagens da civilização -. a segurança. e outro um menino mimado e outro. no "aristocrata" herdeiro toda a sua pessoa vai se desvanecendo. Acha-se ao nascer instalado. de repente e sem saber como. que agora anda por toda a parte e onde quer impor sua barbárie íntima. portanto. que não se assemelha a nada e que. quer dizer. Se a atmosfera não me oprimisse. de outro ser vivente. caberia aproveitar mais detalhadamente a anterior alusão ao "aristocrata". Sua vida perde inexoravelmente autenticidade. minhas capacidades. encontra atribuídas a sua pessoa umas condições de vida que ele não criou. E tem de viver como herdeiro. Agora. a rigor. e converte-se em pura representação ou ficção de outra vida.htm (56 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . e o anúncio de que uns quantos europeus vão reagir energicamente contra sua pretensão de tirania. a sua ou a do prócer inicial? Nem uma nem outra. Valha isto tão somente para enfrentar nossa ingênua tendência a crer que a abundância de meios favorece a vida. Pelo contrário. basta recordar o fato sempre repetido que constitui a tragédia de toda a aristocracia hereditária. tradição social. Toda vida é luta. nada que ver com elas. A abundância de meios que está obrigado a manejar não o deixa viver seu próprio e pessoal destino. O presente ensaio não é mais que um primeiro ensaio de ataque a esse homem triunfante. por falta de uso e esforço vital. precisamente. é o homem mais dócil a instâncias superiores que jamais existiu . Agora a herança é a civilização . pelo contrário. tem de usar a carapaça de outra vida. o que desperta e mobiliza minhas atividades. ninguém descreveu ainda em seu interno e trágico mecanismo .

etc. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos. Isto. com leal desgosto em fazer ver que este homem cheio de tendências incivis. não estimá-lo e mandar que os lacaios ou os esbirros o açoitem. mas não as angústias. de relativa morte. Neste ponto possuímos apenas uma liberdade negativa de arbítrio . até os maiores delitos. porém. de medicinas benéficas. recordarei que a espécie humana brotou em zonas do planeta onde a estação quente ficava compensada por uma estação de frio intenso. Grande equívoco! Vossa Mercê irá aonde o levem. Com efeito. tanto na ordem espiritual como na física. Não veio de fora ao mundo civilizado como os "grandes bárbaros brancos" do século V. irremediável e irrevogável. os pigmeus . Insisto. penso. de Estados previdentes. de direitos cômodos. deste. fazendo-o perder contacto com a substância mesma da vida. no fundo. o animal-homem degenera. e tolera dentro de si muitos atos que na sociedade. as raças inferiores . vicia-o em sua raiz de ser vivente.htm (57 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mas se olhamos o porvir. o "filho de família" forja para si esta ilusão. para me referir a uma dimensão muito concreta da vida corporal. Cabe unicamente negar-se a fazer isso que é preciso fazer. especialmente da forma que esta civilização no século XIX. mas é o seu fruto natural. Ignora. a civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se em um mundo abundante. mas.foram repelidas para os trópicos por raças nascidas depois delas e superiores na escala da evolução (62). quando se torna figura predominante. pelo contrário. faz ver com suficiente clareza a anormalidade superlativa que representa o "mocinho satisfeito". faz temer que nem conserve sua altura nem produza outro nível mais elevado. do qual percebe só a superabundância de meios. tudo.a nolição -. Por isso acredita que pode fazer o que bem entende (63). no ar da rua trariam automaticamente conseqüências desastrosas e iniludíveis para seu autor.). o nível vital que representa a Europa de hoje é superior a todo o passado humano.A rebelião das massas. Isto é verdade. Assim. como se diz ao papagaio no conto do português. Este desequilíbrio o falsifica. Mas o "mocinho" é aquele que acredita poder comportar-se fora de casa como em casa. de maneira germinal. os girinos na alverca. e mal sente dentro de si obrigações. tem que ser. pode ficar no final das contas impune. Já sabemos por que: no âmbito familiar. Nos trópicos. Pois bem. Cabe formular esta lei que a paleontologia e a biogeografia confirmam: a vida humana surgiu e progrediu só quando os meios com que contava estavam equilibrados pelos problemas que sentia. Porque é um homem que veio à vida para fazer o que bem entende. o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e assegurar para o futuro sua produção. é preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se acha ameaçada de degeneração. segundo Aristóteles. divertir-se com o intelectual. não nasceu tampouco dentro dele por geração espontânea e misteriosa. em todos os povos e tempo. é que não se pode fazer senão o que cada qual tem que fazer. no homem-massa. O âmbito familiar é relativamente artificial. preferir a vida sob a autoridade absoluta a um regime de discussão (61). mas isto não nos deixa em liberdade para fazer outra coisa que esteja na nossa vontade.por exemplo. falta de romanticismo na relação com a mulher. Podemos perfeitamente file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. por seu turno. não percebe o instável que é a organização do Estado. e vice-versa. Segundo isto. aquele que acredita que nada é fatal. quer dizer. A forma mais contraditória da vida humana que pode aparecer na vida humana é o "mocinho satisfeito". como. Por exemplo: a propensão de fazer ocupação central da vida os jogos e os esportes. Por isso. que este novíssimo bárbaro é um produto automático da civilização moderna.regime higiênico e atenção à beleza do traje -. que retroceda e recaia em altitudes inferiores. pois. que é absoluto perigo. o cultivo do seu corpo . se dão. Não é o que não se deva fazer o que esteja na vontade da pessoa. etc. radical problematismo.

algo iniludível. Se alguém se obstina em afirmar que dois mais dois é igual a cinco e não há motivo para supô-lo clemente. rigoroso perfil na consciência de ter que fazer o que não está na nossa vontade. no fundo de sua consciência. com plena e incontrastável verdade. Por exemplo: todo europeu atual sabe. que o homem europeu atual tem de ser liberal. fingir com seus atos e palavras a convicção contrária. que isso que a Europa tentou no último século com o nome de liberalismo é. é só a aparência. fica em pé a última evidência de que no século último tinha substancialmente razão. que são falsas e funestas todas as maneiras concretas em que se tentou até agora realizar esse imperativo irremissível de ser politicamente livre. irremediavelmente. e que nela se recairá sempre que a verdade seja necessária. que o homem ocidental de hoje é. fazem-no sem o caráter de irrevogável. últimas. Quase todas as posições que se tomam e ostentam são internamente falsas. porque não conheço a cada leitor. entretanto. Refiro-me a que o europeu mais reacionário sabe. a "piada". uma verdade de destino -.não se discute. mas é possível fazê-lo ver naquelas porções ou facetas de seu destino que são idênticas às de outros. precisamente porque sabe que esta não faltará nunca no fim das contas e em sério. por muitas atitudes que tenham para nos convencer e convencer-se do contrário. queira ou não queira. As verdades teóricas não são discutíveis. O fascista se mobilizará contra a liberdade política. mas todo seu sentido e sua força estão em ser discutidas. Pois bem: "o mocinho-satisfeito" caracteriza-se por "saber" que certas coisas não podem ser e. Um furacão de farsa geral e onímoda sopra sobre o torrão europeu. mas é para cair prisioneiro nos graus inferiores de nosso destino. Todos "sabem" que além das justas críticas com que se combatem as manifestações do liberalismo fica a irrevogável verdade deste. Os únicos esforços que fazem destinam-se a fugir do próprio destino. na substância mesma da vida européia. uma verdade que não é teórica.htm (58 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mas sim aceita-se ou não. se não o aceitamos. em última instância. Se o aceitamos. intelectual. na hora das seriedades. por muito que grite e ainda se deixe matar para sustentá-lo.a saber. O que fazem.no católico que presta mais leal adesão ao Syllabus (64). Não discutamos se esta ou a outra forma de liberdade é a que tem de ser.queira ou não queira. Esta evidência última atua tanto no comunista europeu como no fascista. mas de uma ordem radicalmente diferente e mais decisiva de tudo isso . desertar de nosso destino mais autêntico. a cegar-se ante sua evidência e sua chamada profunda.A rebelião das massas. Vive-se humoristicamente e tanto mais quanto mais trágica seja a máscara adotada. O destino não consiste naquilo que temos vontade de fazer. mas que está aí. somos a negação.o que vitalmente se tem que ser ou não se tem que ser . nascem da discussão. científica. Embora se demonstre. como faz suas travessuras o "filho de família". devemos afirmar que não o crê. Há file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. inexorável. a falsificação de nós mesmos (65). Brincam de tragédia porque crêem que não é verossímil a tragédia efetiva no mundo civilizado. Eu não posso fazer isto evidente a cada leitor no que seu destino individualíssimo tem como tal. mas melhormente se reconhece e mostra seu claro. talhantes. a evitar cada qual o confronto com isso que tem que ser. Porque esta é a tônica da existência no homem-massa: a inseriedade. vivem enquanto se discutem e estão feitas exclusivamente para a discussão. Toda essa pressa para adotar em todas as ordens atitudes aparentemente trágicas. e por isso mesmo. somos autênticos. creia-o ou não . inscrito no destino europeu. Seria bom que estivéssemos forçados a aceitar como autêntico ser de uma pessoa o que ela pretendia mostrar-nos como tal. como atua . Mas o destino . com uma certeza muito mais vigorosa que a de todas as suas idéias e "opiniões" expressas.

criou uma técnica. Assim acontece que mal chega à sua máxima atitude a civilização mediterrânea . num caso particular. Só a técnica moderna da Europa possui uma raiz científica. que incite a ouvir instâncias externas superiores a ele.déracinées de seu destino . É a época das "correntes" e do "deixar-se ir". XII. Tomemos agora somente a última. cisnes e faunesas". tentar desfazer. A BARBÁRIE DO "ESPECIALISMO" A tese era que a civilização do século XIX produziu automaticamente o homem-massa. Por isso é que nunca como agora estas vidas sem peso e sem raiz . Por isso. Esclarece a situação atual advertir. C. O contorno o mima. Era o nihilista do helenismo. mais que nunca triunfa a retórica.espraiam-se até um ponto de desenvolvimento que não podem ultrapassar. Quase ninguém apresenta resistência aos superficiais torvelinhos que se formam em arte ou em idéias. Ora bem. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.O cínico.htm (59 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o cínico não fazia outra coisa senão sabotar aquela civilização. a tese ganha em força persuasiva.A rebelião das massas.melhor dito. não obstante. humorismo onde quer que se vive de atitudes revogáveis. nilota. Aquele que fabricou os machados de pedra. porque é "civilização" . porque tampouco conseguiu seu propósito -. seu papel era desfazer .se deixem arrastar pela mais inconstante corrente. grega. pode resumir-se em duas grandes dimensões: democracia liberal e técnica. e muito menos que o obrigue a tomar contato com o fundo inexorável de seu próprio destino. do qual só percebe as vantagens e não os perigos. A técnica contemporânea nasce da copulação entre o capitalismo e a ciência experimental. em que a pessoa não se finca inteira e sem reservas. no período chelense. Mas é claro que com isso só fez extrair outra retórica que até agora jazia nas latrinas. que se achava atrás de cada esquina e em todas as alturas. oriental . ou nos usos sociais. pela mesma razão de que está convencido de que ela não desaparecerá. a mecânica dessa produção. não obstante a singularidade de sua fisionomia. Não toda técnica é científica. dizia eu. Que faria o cínico num povo selvagem onde todos. e apenas o tocam começam a retroceder em lamentável involução. a possibilidade de um ilimitado progresso. e. romana.por volta do século III A. ao concretizar-se. A China chegou a um alto grau de tecnicismo sem suspeitar em nada a existência da física. e o "filho de família" não sente nada que o faça sair de sua índole caprichosa. Diógenes pateia com suas sandálias sujas de lama os tapetes de Arístipo.mesopotâmica. vegeta suspenso ficticiamente no espaço. Esta civilização do século XIX. As demais técnicas . Jamais criou nem fez nada. . carecia de ciência. uma casa -. vive de negá-la. e dessa raiz lhe vem seu caráter específico. ou em política. O homem-massa não afirma o pé sobre a firmeza incomovível de seu signo. naturalmente e a sério. fazem o que ele em farsa. Convém não fechar sua exposição geral sem analisar. considera como seu papel pessoal? Que é um fascista se não fala mal da liberdade e um superrealista se não perjura da arte! Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem nascido no mundo demasiadamente bem organizado. a porção que de comum tinha com outras do passado. O cínico tornou-se um personagem pululante.isto é.aparece o cínico. O superrealista acredita haver superado toda a história literária quando escreveu "aqui uma palavra que não é necessário escrever" onde outros escreveram "jasmins. pelo contrário. parasita da civilização. Desta sorte.

que por isso mesmo representa o nosso tempo. é verdadeira se a separamos da matemática.junto com a democracia liberal . Pois bem: o homem de ciência atual é o protótipo do homem-massa. um bárbaro moderno.especializado. Agora vamos ver isso com sobrada evidência. geração após geração. Quem exerce o poder social? Quem impõe a estrutura de seu espírito na época? Sem dúvida. não designa aqui uma classe social. nome coletivo da ciência experimental.raiz da civilização . tomada na sua integridade. De 1800 a 1914 ascende a mais de 460 milhões. quero dizer. E não por casualidade. Mas não é isto o importante que essa história nos ensinaria. mas justamente o inverso: como em cada geração o científico. dentro dessa burguesia é considerado como o grupo superior. o homem de ciência tem sido constrangido. Isso faria ver como. a burguesia. somente articulada no organismo deste ensaio. da filosofia. mostrando o processo de crescente especialização no trabalho dos investigadores. não a ciência. Por "massa" . encerrado num campo de ocupação intelectual cada vez mais estreito. encerra germinalmente todas estas meditações. Esta maravilhosa técnica ocidental tornou possível a maravilhosa proliferação da casta européia.irremissivelmente . o representa com maior altitude e pureza? Sem dúvida. ia progressivamente perdendo contato com as demais partes da ciência. mas procuraria a regra. Nem sequer a ciência empírica. A ciência não é especialista. consegue constituir-se nos finais do XVII (Newton) e começa a desenvolver-se nos meados do XVIII. Quem. Se um personagem astral visitasse a Europa. financista. A ciência experimental inicia-se ao finalizar o século XVI (Galileu). preferia ser julgada. Recorde-se o dado de que tomou seu vôo este ensaio e que. Os homens de ciência. Mas o desenvolvimento da física iniciou uma faina de caráter oposto à unificação para progredir. Quem. É claro que o personagem astral não perguntaria por indivíduos excepcionais. mas porque a técnica mesma . como eu disse. sobre o qual predomina e impera. A coisa é muito conhecida: fez-se constar inúmeras vezes. dentro do grupo técnico.htm (60 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o técnico: engenheiro.engendrou o homem-massa no sentido quantitativo desta expressão. a constituição da física. mas uma classe ou modo de ser homem que se dá hoje em todas as classes sociais. médico. e maior utilidade que a aparente à primeira vista. o homem de ciência. Não há dúvida de que a técnica . entre os que a habitam.não se entende especialmente o obreiro. a ciência necessitava que os homens de ciência se especializassem. cume da humanidade européia.A rebelião das massas.o converte automaticamente em homem-massa. da lógica. obrigou a um esforço de unificação. etc. nem por defeito unipessoal de cada homem de ciência. faz dele um primitivo. O desenvolvimento de algo é coisa diferente de sua constituição e está submetido a condições diferentes. Tal foi a obra de Newton e demais homens de seu tempo. professor etc. O pulo é único na história humana. fazer uma história das ciências físicas e biológicas. Mas estas páginas tentaram mostrar que também é responsável da existência do homem-massa no sentido qualitativo e pejorativo do termo. seus homens de ciência. por ter de reduzir sua órbita de trabalho. e com ânimo de julgá-la lhe perguntasse por que tipo de homem. com a aristocracia do presente? Sem dúvida. Do século V a 1800 a Europa não consegue ter uma população superior a 180 milhões. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas.prevenia eu no princípio . adquire a plenitude de seu sentido e a evidência de sua gravidade. Mas o trabalho nela tem de ser . Ipso facto deixaria de ser verdadeira. Assim. o tipo genérico "homem de ciência". não há dúvida de que a Europa apontaria satisfeita e certa de uma sentença favorável. Seria de grande interesse.

que ele apenas conhece. A razão disso está no que é. encontramo-nos com um tipo de científico sem exemplo na história. Trabalha-se com um desses métodos como com uma máquina. e com ela a enciclopédia do pensamento. precisamente. fechado na estreiteza de seu campo visual. nele se dá um pedaço de algo que. Assim a maior parte dos científicos propelem o progresso geral da ciência encerrados num nicho de seu laboratório. que é o único merecedor dos nomes de ciência. deu guarida dentro de si ao homem intelectualmente médio e lhe permite operar com bom êxito. Devemos dizer que é um sábio ignorante. raiz e símbolo da civilização atual. que nos primeiros anos deste século chegou à sua mais frenética exageração. pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora. porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade. Para os efeitos de inúmeras investigações é possível dividir a ciência em pequenos segmentos. Chega a proclamar como uma virtude o não tomar conhecimento de quanto fique fora da estreita paisagem que especialmente cultiva. Esta é a situação íntima do especialista. civilização européia. vantagem maior e perigo máximo da ciência nova e de toda civilização que esta dirige e representa: a mecanização. não como um ignorante. e denomina diletantismo a curiosidade pelo conjunto do saber. Quer dizer. coisa sobremodo grave. O caso é que. O especialista "sabe" muito bem seu mínimo rincão de universo. conhece apenas determinada ciência. Com certa aparente justiça se considerará como "um homem que sabe". Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. Não é um sábio. A especialização começa. a equação se deslocou. porque é "um homem de ciência" e conhece muito bem sua porciúncula de universo. Como foi e é possível coisa semelhante? Porque convém repisar a extravagância deste fato inegável: a ciência experimental progrediu em boa parte mercê do trabalho de homens fabulosamente medíocres. A firmeza e exatidão dos métodos permitem esta transitória e prática desarticulação do saber. Por isso cria uma casta de homens sobremodo estranhos. ao mesmo tempo. Quando em 1890 uma terceira geração assume o comando intelectual da Europa. que a ciência moderna. Na geração seguinte. em sábios e ignorantes. O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e fazendo ver todo o radicalismo de sua novidade. Eis aqui um precioso exemplar deste estranho homem novo que eu tentei. descobrir novos fatos e fazer avançar sua ciência. consegue. constituem verdadeiramente o saber. em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. com efeito. mas com toda a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. com efeito.htm (61 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Uma boa parte das coisas que é preciso fazer em física e em biologia é faina mecânica de pensamento que pode ser executada por qualquer pessoa. num tempo que chama homem civilizado ao homem "enciclopédico". com uma interpretação integral do universo. por uma e outra de suas vertentes e aspectos. encerrar-se em um e desinteressar-se dos demais. como a abelha no seu alvéolo. mas tampouco é um ignorante. mas ignora basicamente todo o resto. que conscienciosamente desconhece. e nem sequer é forçoso para obter abundantes resultados possuir idéias rigorosas sobre o sentido e fundamento deles. E. e menos que medíocres. e a especialidade começa a desalojar dentro de cada homem de ciência a cultura integral. de tudo quanto há de saber para ser um personagem discreto. O investigador que descobriu um novo fato da Natureza tem por força de sentir uma impressão de domínio e de segurança em sua pessoa. cultura. simplesmente. e ainda dessa ciência só conhece bem a pequena porção em que ele é ativo investigador. Porque outrora os homens podiam dividir-se. embora sua produção tenha já um caráter de especialismo. É um homem que. junto com outros pedaços não existentes nele. O século XIX inicia seus destinos sob a direção de criaturas que vivem enciclopedicamente. Eu disse que era uma configuração humana sem igual em toda a história. definir.

Por outra parte. Em política. haja muito menos homens "cultos" que. médicos. este é o comportamento do especialista. pois. Mas Einstein não é suficiente. como eu disse. na arte. que representa um maximum de homem qualificado . E.especialistas dessas coisas. um trabalho de reconstituição.especialismo . e sua barbárie é a causa mais imediata da desmoralização européia. e. portanto. cada vez mais difícil. a idéia que sói faltar ao típico "homem de ciência". Newton pode criar seu sistema físico sem saber muita filosofia. o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida. aproxima-se a uma etapa em que não poderá avançar por si mesmo se não se encarrega uma geração melhor de construir-lhe um novo forno mais poderoso. A advertência não é vaga.htm (62 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mas Einstein precisou saturar-se de Kant e de Mach para poder chegar a sua aguda síntese.é um sintoma preocupador para todo aquele que tenha uma idéia clara do que é civilização. e só poderá salvá-la uma nova enciclopédia mais sistemática que a primeira. Quem quiser pode observar a estupidez com que pensam. com efeito. cume de nossa atual civilização. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.e. simplesmente. Porque esta necessita de tempo em tempo. Eles simbolizam. e ignorantíssimo. que tornou possível o progresso da ciência experimental durante um século. A decadência de vocação científica que se observa nestes anos . sem admitir . em 1750. professores. isto é. chega ao cúmulo nesses homens parcialmente qualificados.à qual já aludi . quando há maior número de "homens de ciência" que nunca. como orgânica regulação de seu próprio incremento.com estes nomes simboliza-se só a massa enorme de pensamentos filosóficos e psicológicos que influíram em Einstein . para que possa continuar havendo investigadores. mas as tomará com energia e suficiência. nas outras ciências tomará posições de primitivo. significam o mais claro e preciso exemplo de como a civilização do último século abandonada à sua própria inclinação. e em grande parte constituem o império atual das massas. Kant e Mach . isso requer um esforço de unificação. por exemplo. Também ele acredita que a civilização está aí. O resultado mais imediato desse especialismo não compensado tem sido que hoje. que cada vez complica regiões mais vastas do saber total. financistas. na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os "homens de ciência". como a crosta terrestre e a selva primigênea. muito mais radicalmente ignora as condições históricas de sua perduração.e isto é o paradoxal . E a conseqüência é que. engenheiros. O especialismo. etc. mas essa mesma sensação íntima de domínio e valia o levará a querer predominar fora de sua especialidade. nos usos sociais. petulância de quem na sua questão especial é um sábio. em arte. e é claro. Essa condição de "não ouvir". como devem estar organizados a sociedade e o coração do homem. ainda neste caso. o mais oposto ao homem-massa. Mas se o especialista desconhece a fisiologia interna da ciência que cultiva. A física entra na crise mais profunda de sua história. de não se submeter a instâncias superiores que reiteradamente apresentei como característica do homem-massa. E o pior é que com esses perdigueiros do forno científico nem sequer está garantido o progresso íntimo da ciência.serviram para liberar a mente desse e deixar-lhe a via livre para sua inovação. produziu esse broto de primitivismo e barbárie. julgam e atuam hoje na política.A rebelião das massas. Ao especializá-lo a civilização o tornou hermético e satisfeito dentro de sua limitação. depois deles.

o que não era seu destino .htm (63 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . como Tolstoi. Mas ainda quando não seja impossível que tenha começado a minguar o prestígio da violência como norma cinicamente estabelecida. naufragou e morreu. é. Discuta-se quanto se queira quem são os homens excelentes. Porque não se trata de uma opinião fundada em fatos mais ou menos freqüentes e prováveis. representada. tenha ou não vontade disso. onde.única coisa que pode salvá-la -. em rebelar-se contra si mesmo. a única doutrina. Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si. quando as massas triunfam.A rebelião das massas. mas que sem eles . triunfe a violência e se faça dela a única ratio. também este nasceu dela. compreender-se-á que o homem é. Se consegue por si mesmo encontrá-la. pervive largamente. A retórica é o cemitério das realidades humanas. influída. Não é completamente casual que a lei de Lynch seja americana. Nem muito menos poderá estranhar que agora. À realidade sobrevive seu nome que. ainda sendo sua palavra. O MAIOR PERIGO. nada menos que palavra e conserva sempre algo de seu poder mágico. constituída pelas minorias excelentes. A rigor. pelo menos. Encontramo-nos. (Se Luzbel tivesse sido russo. bem que em outra forma. que tampouco o era. ao modo dos estrúcios para ver se consegue não ver tão radiante evidência. a fazem sua.sejam uns ou outros . Hoje é já a violência a retórica do tempo. os inanes. ou. Pretender a massa atuar por si mesma é. aspirar a isso -. pois. Veio ao mundo para ser dirigida.a humanidade não existiria no que tem de mais essencial. mas numa lei da "física" social. é coisa sobre a qual convém que não haja dúvida alguma. que não é mais nem menos contra Deus que o outro tão famoso). a rebelião do arcanjo Luzbel não o houvera sido menos se em vez de empenhar-se em ser Deus . é que é um homem excelente. a massa é o que não atua por si mesma. falo eu da rebelião das massas. Quando a massa atua por si mesma. continuaremos sob seu regime. no mínimo. Como todos os demais perigos que ameaçam esta civilização. rebelar-se contra seu próprio destino. Refiro-me ao perigo maior que hoje ameaça a civilização européia. já que a América é de certo modo o paraíso das massas. as ondas a cospem nas costas da retórica. muito mais incomovível que as leis da física de Newton. No dia em que volte a imperar na Europa uma autêntica filosofia (66) . é o Estado contemporâneo. fá-lo só de uma maneira. porque não tem outra: lincha.se houvesse obstinado em ser o mais ínfimo dos anjos. é que é um homem-massa e necessita recebê-la daquele. Mais ainda: constitui uma de suas glórias. seu hospital de inválidos. pois. mas este impõe file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e como isso é o que faz agora.até para deixar de ser massa. teria talvez preferido este último estilo de rebeldia. Hoje chegou a seu máximo desenvolvimento. embora leve a Europa todo um século metendo a cabeça debaixo da asa. Porque no final das contas a única coisa que substancialmente e com verdade pode chamar-se é a que consiste em não aceitar cada qual seu destino. XIII. organizada . um ser constitutivamente forçado a procurar uma instância superior. Há muito tempo que eu fazia notar este comércio da violência como norma (67). senão. cadáver. com uma réplica do que no capítulo anterior se disse sobre a ciência: a fecundidade de seus princípios a propelem a um fabuloso progresso. e isso é um bom sintoma. Quando uma realidade humana cumpriu sua história. Necessita referir sua vida à instância superior. os retóricos. afinal de contas. O ESTADO Numa boa ordenação das coisas públicas. porque significa que automaticamente vai iniciar-se seu descenso. Tal é a sua missão.

o "antigo regime" chega aos fins do século XVIII com um Estado fraquíssimo. Sabia organizar. o Estado chegou a ser máquina formidável que funciona prodigiosamente. a sociedade que o rodeava não tinha força nenhuma (69). e a especialização ameaça afogar a ciência. A mesma coisa acontece com o Estado. mal de cabeça. A desproporção entre o poder do Estado e o poder social é tal nesse momento. Rememore-se o que era o Estado nos fins do século XVIII em todas as nações européias. Bem pouca coisa! O primeiro capitalismo e suas organizações industriais.A rebelião das massas. Viviam da outra víscera. inexoravelmente a especialização. Desde 1848. está claro. talento prático. coberto estupidamente de ferro. açoitado de todos os lados por uma ampla e revolta sociedade. por seu sentido de responsabilidade.tomando-as do Oriente ou outro lugar . deixaram que os burgueses . Plantada no meio da sociedade. aparece o Estado do século XVIII como uma degeneração. e com isso. ao "cavalheiro". O Estado carolíngio era.htm (64 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mas. antes de tudo e sobretudo uma coisa: talento. quer dizer. navegava ao azar a "nave do Estado". intuitivos. instintivos. e a quem não ocorrera que o segredo eterno da guerra não consiste tanto nos meios de defesa como nos de agressão (segredo que Napoleão redescobriria) (68) Como o Estado é uma técnica . sentimentais. De inteligência muito limitada. como num oceano. e em pouco mais de uma geração criou um Estado poderoso. em compensação. Nivelou-se o Poder público com o poder social. Incapazes de inventar novas armas. O enorme desnível entre a força social e a do poder público tornou possível a Revolução. Mas com a Revolução apossou-se do Poder público a burguesia e aplicou ao Estado suas inegáveis virtudes. disciplinar. Mas com todas essas virtudes do coração. Esta burguesia sem mérito possuía. por seu dom de mando. desde que começa a segunda geração de governos burgueses não há na Europa verdadeiras revoluções. A nave do Estado é uma metáfora reinventada pela burguesia. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. No meio dela. que acabou com as revoluções. ganharam a batalha ao guerreiro nobre. a racionalizada. E não certamente porque não houvesse motivos para elas. Havia sido fabricada na Idade Média por uma classe de homens muito diferentes dos burgueses: os nobres. Entediaram-se. Adeus revoluções para sempre! Já não cabe na Europa mais que o contrário: o golpe de Estado. E tudo que com posterioridade pode dar-se ares de revolução. de uma maravilhosa eficiência pela quantidade e precisão dos seus meios. não foi mais que um golpe de Estado com máscara. que comparando a situação com a vigente em tempo de Carlos Magno. que apenas podia mover-se na lida. "irracionais". Não inventaram a pólvora. as revoluções (até 1848). mais poderosa em número e potência que as preexistentes: a burguesia.utilizassem a pólvora. gente admirável por sua coragem. em suma. basta tocar u'a mola para que atuem suas enormes alavancas e operem fulminantes sobre qualquer parte do corpo social. haviam produzido um primeiro crescimento da sociedade. onipotente e grávida de tormentas. apenas tinha burocratas. Em nosso tempo. mas porque não havia meios. dar continuidade e articulação ao esforço. que se sentia a si mesma oceânica. a nova técnica. apenas tinha dinheiro. muito menos poderoso que o de Luís XVI. automaticamente. onde pela primeira vez triunfa a técnica.de ordem pública e de administração -. Aquela nave era coisa de nada ou pouco mais: apenas tinha soldados. Sem eles não existiriam as nações da Europa. sempre andaram. os nobres andavam. Por isso não puderam desenvolver nenhuma técnica. coisa que obriga à racionalização. Uma nova classe social apareceu.

que ele é o Estado. o exército tem de ser recrutado entre estrangeiros. Por isso é. e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto. o Estado. o homem-massa vê no Estado um poder anônimo. luta. Imagine-se que sobrevem na vida pública de um país qualquer dificuldade. conflito ou problema: o homem-massa tenderá a exigir que imediatamente o assuma o Estado. de origem africana. Depois dos Severos. ficará héctico. é revelador. apenas chegou a seu pleno desenvolvimento. Faltam até soldados. o homem. dúvida nem risco . produtor de segurança (a segurança de que nasce o homem-massa. ou simplesmente algum forte apetite. para viver melhor. a anulação da espontaneidade histórica. O Estado contemporâneo é o produto mais visível e notório da civilização. para a máquina do Governo. A espontaneidade social ficará violentada uma vez e outra pela intervenção do Estado. admira-o. incomparavelmente superior como artefato ao velho Estado republicano das famílias patrícias. como um utensílio. é uma grande tentação para ela essa permanente e segura possibilidade de conseguir tudo . Adverte-se qual é o processo paradoxal e trágico do estatismo? A sociedade. Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatificação da vida. sabe que está aí. Este o vê. A vida toda se burocratiza. a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado. nutre e impele os destinos humanos. o que é um perfeito erro. O Estado é. mas não tem consciência de que é uma criação humana inventada por certos homens e mantida por certas virtudes e por certo que houve ontem nos homens e que pode evaporar-se amanhã. curiosa coincidência. e a sociedade tem de começar a viver para o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. as matrizes são cada vez menos fecundas. não se esqueça). Mas. em idéias. seu exército. que se encarregue diretamente de resolvê-lo com seus gigantescos e incontrastáveis meios. antes de tudo. com efeito. A urgência maior do Estado é seu aparato bélico. Os Severos. A riqueza diminui e as mulheres parem pouco. e como ele se sente a si mesmo anônimo vulgo -. o Estado. Estado contemporâneo e massa coincidem só em ser anônimos. militarizam o mundo. quer dizer. E é muito interessante. o intervencionismo do Estado. A sociedade terá de viver para o Estado. E como no final das contas não é senão u'a máquina cuja existência e manutenção dependem da vitalidade circundante que a mantenha. Não há dúvida que o Estado imperial criado pelos Júlios e os Cláudios foi u'a máquina admirável. Mas o caso é que o homem-massa crê. Faina vã! A miséria aumenta. esquelético. garantindo sua vida. Este foi o signo lamentável da civilização antiga. em indústria. Esta começa a ser escravizada.em todas as ordens -. precatar-se da atitude que ante ele adota o homem-massa. Que acontece? A burocratização da vida produz sua diminuição absoluta . Quando a massa sente uma desventura. Por outra parte. A massa diz a si mesma: "o Estado sou eu". O Estado é a massa só no sentido em que se pode dizer de dois homens que são idênticos porque nenhum dos dois se chama João. para subvencionar suas próprias necessidades. antes de tudo. crê que o Estado é coisa sua. que em definitivo sustenta.apenas ao premir a mola e fazer funcionar a portentosa máquina. força mais a burocratização da existência humana. Esta burocratização em segunda potência é a militarização da sociedade. depois de sugar a medula da sociedade. exército. cria. morto com essa morte ferrugenta da máquina. Depois. nenhuma nova semente poderá frutificar.que o perturbe em qualquer ordem: em política. a não poder viver mais que em serviço do Estado. o Estado se sobrepõe. a esmagar com ele toda minoria criadora que o perturbe .A rebelião das massas. muito mais cadavérica que a do organismo vivo. Já nos tempos dos Antoninos (século II) o Estado gravita com uma antivital supremacia sobre a sociedade.sem esforço. Então o Estado.htm (65 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . começa a decair o corpo social. O resultado desta tendência será fatal.

uma Polícia que regule a circulação. O inevitável é que acabem por definir e decidir elas a ordem que vão impor . Através e por meio do Estado. vão contentar-se com impor sempre o que aquelas queiram. como um prodigioso descobrimento feito agora na Itália. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. sobressalta um pouco ouvir que Mussolini apregoa com exemplar petulância. jurídicos e de ordem pública sobremodo árduos. Governam os conservadores. Mussolini encontrou um Estado admiravelmente construído . para caminhar pacificamente e atender a seus negócios. O andaime se torna proprietário e inquilino da casa. germanos. do grupo. as massas atuam por si mesmas. é tão miúdo. Os estrangeiros tornaram-se donos do Estado. Quando. O esqueleto come a carne que o rodeia. considerando-a como resgate da liberdade". Em 1810 surge na Inglaterra. a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. Entretanto. a nova indústria começa a criar um tipo de homem . no final das contas.o obreiro industrial . pouco visível e nada substantivo. Se algo conseguiu. Por muito habitual que nos seja. A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina que é o Estado. e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. "Em Paris escreve John William Ward . Quando se sabe disso. Mas. sem que eu me permita agora julgar os detalhes de sua obra. o crime. O crescimento social obrigou iniludivelmente a isso. a fórmula Tudo pelo Estado. é indiscutível que os resultados obtidos até o presente não podem ser comparados aos obtidos na função política e administrativa pelo Estado liberal. têm de viver escravo deles. pelas mesmas causas. naturalmente. do povo inicial. Ele se limita a usá-lo incontinentemente. Como não temer que sob o império das massas se encarregue o Estado de esmagar a independência do indivíduo.e que será.não por ele. o que lhes convenha. sem remédio. O estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação direta constituídas em normas. nada contra o Estado. de gente com a qual não tem nada que ver. o Estado se compõe ainda dos homens daquela sociedade. mas pagam caro suas vantagens. não deve perder seu terrível paradoxismo ante nosso espírito o fato de que a população de uma grande urbe atual. em 1800. Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma ou outra sociedade.htm (66 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . dálmatas. Mas é uma inocência das pessoas de "ordem" pensar que essas "forças de ordem pública". um aumento da criminalidade. máquina anônima. necessita. Estado (70).têm uma Polícia admirável. problemas econômicos. e. criadas para a ordem. até onde se possa. "As pessoas conformam-se em se adaptar à desordem. Bastaria isso para descobrir no fascismo um típico movimento de homens-massa. Preferem agüentar. a estar submetido a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. As nações européias têm diante de si uma etapa de grande dificuldade em sua vida interior. depois.A rebelião das massas. que dificilmente equilibra a acumulação de poderes anormais que lhe consentem empregar aquela máquina em forma extrema. e extinguir assim definitivamente o porvir? Um exemplo concreto deste mecanismo achamo-lo num dos fenômenos mais alarmantes destes últimos trinta anos: o aumento enorme em todos os países das forças de Polícia. nada fora do Estado. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road. mas precisamente pelas forças e idéias que ele combate: pela democracia liberal -.mais criminoso que os tradicionais. e os restos da sociedade. estes não bastam para sustentar o Estado e é preciso chamar estrangeiros: primeiro.

Por isso. Por seu anverso. que em nossos dias chegou a seu término insuperável. Esse tem sido o papel do grupo homogêneo formado pelos povos europeus durante três séculos. QUEM MANDA NO MUNDO? A civilização européia .tenho repetido uma e outra vez . que formam mundos interiores e independentes. já o dissemos: a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o crescimento fabuloso que a vida humana experimentou em nosso tempo. pelo contrário.A rebelião das massas. pelo menos. tem à sua disposição esse aparato ou file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.do homem e de seu espírito -. visitas domiciliárias. uma de nossas primeiras perguntas deve ser esta: "Quem manda no mundo atualmente?" Poderá ocorrer que neste momento a humanidade esteja dispersa em vários pedaços sem comunicação entre si. é a deslocação do poder. Mas desde o século XVI entrou a humanidade toda num processo gigantesco de unificação. progressivamente unificado. quase sem dúvida. de coação física. Mas o reverso do mesmo fenômeno é tremebundo. e sob sua unidade de mando o mundo vivia com um estilo unitário. pelo menos as mais ordinárias e palmares. porque um homem ou grupo de homens exerce o mando. à espionagem e a todas as maquinações de Fouché (71) "São duas idéias diferentes do Estado. mas.htm (67 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Portanto. ao aparecermos a um tempo com ânimo de compreendê-lo. o fato desta rebelião apresenta um aspecto ótimo. Porque aqui aspira-se a evitar estupidezes. Já não há pedaço de humanidade que viva à parte . SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV. nome incolor e inexpressivo sob o qual se oculta esta realidade: época da hegemonia européia. A Europa mandava. ou. I A substância ou índole de uma nova época histórica é resultante de variações internas . Nestes casos teríamos que estabelecer nossa pergunta: "Quem manda no mundo?" a cada grupo de convivência. Esse estilo de vida sói denominar-se "Idade Moderna". olhada por esse lado a rebelião das massas é uma e mesma coisa com a desmoralização radical da humanidade. No tempo de Milcíades. Mas este traz consigo uma deslocação do espírito. Ora bem: essa relação estável e normal entre homens que se chama "mando" não descansa nunca na força. Entre estas últimas. O inglês quer que o Estado tenha limites. efetivamente. desde aquele século pode dizer-se que quem manda no mundo exerce.padeceu automaticamente a rebelião das massas. Por "mando" não se entende aqui primordialmente exercícios de poder material.não há ilhas de humanidade -. seu influxo autoritário em todo ele. a mais importante. o mundo mediterrâneo ignorava a existência do mundo extremo oriental. Olhemos esta agora de vários pontos de vista.

E isso porque tinha a força e precisamente porque só tinha a força. convém ter em conta esses casos de ausência. Pois até quem pretende governar com os janízaros depende da opinião destes e da que tenham sobre estes os demais habitantes. O que sucede é que às vezes a opinião pública não existe. na física de Newton a gravitação é a força que produz o movimento. esse oco que deixa a força ausente de opinião pública enche-se com a força bruta. banco azul. se se quer expressar com toda a precisão a lei da opinião pública como lei da gravitação histórica. Tomás de Aquino no século XIII? A noção desta soberania terá sido descoberta aqui ou ali. Ou acredita-se que a soberania da opinião pública foi um invento feito pelo advogado Danton em 1789 ou por S. Isso nos faz cair na conclusão de que mando significa prepotência de uma opinião. Napoleão dirigiu à Espanha uma agressão.A rebelião das massas. avança esta como substituta daquela. Em suma. O Estado é.htm (68 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . é o que pesou sempre e a toda hora nas sociedades humanas. O mando é o exercício normal da autoridade. convêm no acordo de se instalar cada um em um modo de tempo: o temporal e o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. vigência de certas idéias. opinião. Assim. Talleyrand a Napoleão: "Com as baionetas. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes. mas tranqüilo exercício dele. pode-se fazer tudo.sempre. não podendo diferenciar-se na substância ambos são espírito -. cuja força de opinião fica reciprocamente anulada. portanto. sustentou esta agressão durante algum tempo. entre os ingleses como entre os botocudos -. mandar é sentar-se. idéia. Jamais alguém mandou na terra nutrindo seu mando essencialmente de outra coisa que não fosse a opinião pública. cadeira curul. O qual se funda sempre na opinião pública . E a lei da opinião pública é a gravitação universal da história política. o estado da opinião: uma situação de equilíbrio. Todo mando primitivo tem um caráter "sacro". mas o fato de que a opinião pública é a força radical que nas sociedades humanas produz o fenômeno de mandar. Os casos em que à primeira vista parece ser a força o fundamento do mando. o mandar não é tanto questão de punhos como de nádegas. nesta ou naquela data. nem a ciência histórica seria possível. pois. e então chega-se a uma fórmula que é o conhecido." E mandar não é atitude de arrebatar o poder. venerável e verídico lugar comum: não se pode mandar contrariando a opinião pública. e o religioso é a forma primeira sob a qual aparece sempre o que depois vai ser espírito. sede. A verdade é que não se manda com os janízaros. e cria-se o Sacro Romano Império. de um espírito. mas não mandou propriamente na Espanha nem um dia sequer. E como a Natureza tem horror ao vácuo. menos uma coisa: sentar-se sobre elas. longe de ser uma aspiração utópica. Os fatos históricos confirmam isso escrupulosamente. outra coisa senão poder espiritual. Sire. Na Idade Média se reproduz com formato maior o mesmo fenômeno. Por isso muito agudamente insinua Hume que o tema da história consiste em demonstrar como a soberania da opinião pública. de estática. no final das contas. Trono.com seu caráter específico e já nominativo de "poder espiritual" -. em suma. Convém distinguir entre um fato ou processo de agressão e uma situação de mando. é coisa tão antiga e perene como o próprio homem. máquina social que se chama "força". poltrona ministerial. revelam-se ante uma inspeção ulterior como os melhores exemplos para confirmar aquela tese. Em suma. O Estado ou Poder público primeiro que se forma na Europa é a Igreja . porque se funda no religioso. Deste modo lutam dois poderes igualmente espirituais que. hoje como há dez mil anos. Sem ela. Contra o que uma ótica inocente e folhetinesca supõe. Assim. Da Igreja aprende o Poder político que ele também não é originariamente senão poder espiritual. em definitivo. Por isso. não dá lugar a que se constitua um mando. o imaterial e ultra-físico. de que mando não é.

Voltemos agora ao começo. toda mudança de imperantes.opine. se repugna. Ela pôs ordem no Mediterrâneo e confinantes. portanto. um erro. e. consequentemente. Durante vários séculos mandou no mundo a Europa.e é a maioria .a opinião de Deus. e por isso há ordem. ironicamente. Mas assim como é impossível conhecer diretamente a plenitude do real. conseguimos uma visão aproximada dela. Poder temporal e poder religioso são identicamente espirituais. pois. reina na humanidade o caos. embora sobre uma porção limitada do mundo: Roma. agora.tenha poder e o exerça. preferências. dizer: em tal data manda tal homem. A pretensão de dizer o que é que acontece agora no mundo deve ser entendida. Porque Pedro significa para nós um esquemático repertório de modos de se comportar física e moralmente . Quando ao ver chegar nosso amigo pela vereda do jardim dizemos: "Este é Pedro».o que chamamos "caráter" -. mas um é espírito do tempo opinião pública intramundana e cambiante -. e. a que Deus tem sobre o homem e seus destinos. Com ele.htm (69 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não temos mais remédio senão construir arbitrariamente uma realidade. como ironizando-se a si mesma. é ao mesmo uma mudança de opiniões.idéias. um déficit de opinião. propósitos. infinidade de coisas. como na Moderna. enquanto o outro é espírito de eternidade . como através de uma quadrícula. Sem opiniões. manda alguém. São tempos em que se ama. tal povo ou tal grupo homogêneo de povos. só então. e é preciso que esta lhe venha de fora a pressão. e a pura verdade é que nosso file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Isto nos proporciona um esquema. e na medida que isso seja necessário. supor que as coisas são de certa maneira. Por isso é preciso que o espírito . Tempos assim não carecem de delícias. Mais ainda: nisto consiste todo uso do intelecto. se anseia. que aconteceria? II A pura verdade é que no mundo acontece a todo instante. e tudo isso em grande escala. um conglomerado de povos com um espírito afim. Como há de se entender este predomínio? A maior parte dos homens não têm opinião. como dizer: em tal data predomina no mundo tal sistema de opiniões . Mas. Sem opiniões. Por isso. a grande mandona. Nisto consiste o método científico. menos ainda: o nada histórico. toda deslocação de poder. para que a gente que não opina . Adverte-se toda a gravidade deste diagnóstico? Com ele anuncia-se uma deslocação do poder. como entra o lubrificante nas máquinas. pois. de organicidade. sem alguém que mande. Mas nos grandes tempos a humanidade vive da opinião. sem um poder espiritual. nada menos que uma mudança de gravitação histórica. E paralelamente. Para onde se dirige? Quem vai suceder a Europa no mando do mundo? Mas há mesmo certeza de que alguém vai suceder à Europa? E se não fosse ninguém. olhamos depois a efetiva realidade. eterno. É o que aconteceu em todas as idades médias da história. Tanto vale. em compensação. opina-se pouco. aspirações. a convivência humana seria o caos. Na Idade Média não mandava ninguém no mundo temporal. Nestas jornadas de após-guerra começa a dizer-se que a Europa não manda mais no mundo. se odeia. a vida dos homens careceria de arquitetura. quer dizer. Por isso representam sempre um relativo caos e uma relativa barbárie. um conceito ou entretecido de conceitos. cometemos deliberadamente.seja qual seja . Do outro lado da Idade Média achamos novamente uma época em que. e então.A rebelião das massas.

Os conceitos são o plano estratégico que nos formamos para responder a seu ataque. queira-se ou não. mas. Por isso. Creio. exagerar.é exclusivamente isto: durante três séculos a Europa mandou no mundo. falando com todo rigor. a que tal suspeita ou preocupação preexistia em todas as cabeças. não foi até agora. e que tudo o mais é conseqüência. sintoma ou anedota disso. Vida é luta com as coisas para sustentar-se entre elas." Mas é a sua a seriedade de um pince-sans-rire. é sem dúvida e no melhor caso uma exageração. e o êxito de seu livro deveu-se. Ele sabe muito bem que nem esta coisa é A. é um instrumento doméstico do homem. Esta opinião taxativa. Ele diz muito seriamente: "Esta coisa é A. se se escruta bem a entranha última de qualquer conceito. sobre se amanhã mandará. amigo Pedro não se parece. vai incluso na ironia de si mesmo. parecer-nos-á que no fundo todos os filósofos disseram a mesma coisa. esta coisa não é A. O que o conceito pensa a rigor é um pouco outra coisa que o que diz. Esta teoria do conhecimento da razão houvera irritado a um grego. e esta outra coisa é B. e nesta duplicidade consiste a ironia. no conceito. Porque o grego acreditou haver descoberto na razão. à valentona. Eu suplico fervorosamente que não se continue cometendo a ingenuidade de pensar em Spengler simplesmente porque se fale da decadência da Europa ou do Ocidente. segundo a qual o conteúdo de todo conceito é sempre vital. é sempre ação possível. sem reservas. todo o mundo falava disso. Todo conceito. todo descobrimento filosófico não é mais que um descobrimento e um trazer à superfície o que estava no fundo. condição. nem aquela B. É a seriedade instável de quem engoliu uma gargalhada e se não aperta bem os lábios a vomita. Mas semelhante intróito é desmesurado para o que vou dizer. com os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que nestes anos a Europa sente graves dúvidas sobre se manda ou não.entende-se.A rebelião das massas. acreditamos que a razão. eu me entendo comigo mesmo para os efeitos de meu comportamento vital diante de uma ou de outra coisa. A isto corresponde nos demais povos da Terra um estado de espírito congruente: duvidar de se agora são mandados por alguém. com efeito. mas. Eu ia dizer simplesmente que o que agora acontece no mundo . o histórico . o término indefectível do processo filosófico que se inicia com Kant. O que verdadeiramente pensa é isto: eu sei que. Por isso. Tampouco estão certos disso.htm (70 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . e eu necessitava por isso recordar que pensar é. Reduzir a fórmula tão simples a infinitude de coisas que integram a realidade histórica atual. que eu saiba. assim. que este necessita e usa para esclarecer sua própria situação em meio da infinita e arqui-problemática realidade que é sua vida. nem a outra é B. se revisamos a sua luz todo o passado da filosofia até Kant. sustentada por ninguém. o mais vulgar como o mais técnico. Quem prefira não exagerar deve calar-se. admitindo que são A e B. a meu juízo. o conceito. em quase nada à idéia "nosso amigo Pedro". em certos momentos. Ora bem. como é notório. a realidade mesma. Falou-se muito nestes anos da decadência da Europa. Antes de que seu livro aparecera. e agora a Europa não está convicta de mandar nem de continuar mandando. como o geométrico diamante vai implícito na dentadura de ouro de seu engaste. mas é. contrariamente. mas que resume o que um homem pode fazer com essa coisa ou padecer dela. tão alheio a problemas filosóficos. ou padecimento possível de um homem. que é aquilo que realmente está acontecendo no mundo. acha-se que não nos diz nada da coisa mesma. Nós. mais ainda: tem de paralisar seu intelecto e ver a maneira de idiotizar-se. Eu não disse que a Europa tenha deixado de mandar. nos entredentes de um sorriso tranqüilo. estritamente.

Sobretudo. definitivas enquanto não existam ou se divisem outras. de modo algum. fica de cabeça para baixo. Mas são. Esta é a primeira conseqüência que sobrevem quando no mundo deixa de mandar alguém: que os demais.htm (71 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . proclama o direito à vulgaridade e nega-se a reconhecer instâncias superiores a ele. Os lugares comuns são os bondes do transporte intelectual. quando alguém notifica que o mestre saiu. Também há. sem programa de vida. Nos capítulos anteriores tentei filiar um novo tipo do homem que hoje predomina no mundo: chamei-o homem-massa. Qual é o resultado? A Europa havia criado um sistema de normas cuja eficácia e fertilidade os séculos demonstraram. sentidos e pelas razões mais heterogêneas. É verdadeiramente cômico contemplar como esta ou a outra republiqueta. Sem mais averiguações. relativamente. desde seu perdido rincão. fazem-no os povos. portanto. Para superá-las é imprescindível parir outras. de sentir-se dono do próprio destino. as melhores possíveis. longe disso. ao rebelar-se. a turba parvular faz bagunça. Estas normas não são. E esta ingenuidade no ponto de partida basta-me para pensar que Frank não está convencido da decadência da Europa. O recente livro de Waldo Frank. minorias de estirpes humanas que organizaram a história. não sabem o que fazer. Frank nem analisa nem discute. Ora. uma ocupação formal. de sacudir os jugos das normas. cada nação e naçãozinha brinca. embora não recordem sinceramente haver-se convencido resolutamente disso em nenhuma data determinada. Não obstante. Era natural que se esse modo de ser predomina dentro de cada povo. povos-massa resolvidos a rebelar-se contra os grandes povos criadores. dando-se ares de pessoa maior que rege seus próprios destinos. parte dele como de algo inconcusso. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E uma paisagem de exemplar puerilidade a que agora oferece o mundo. Não que acreditavam a sério e com evidência nele. continuidade e trajetória. Redescobrimento da América. sentindo-se vulgar. Na escola. e para encher o tempo entregam-se à cabriola. a Europa decai e. o fenômeno também se produza quando olhamos o conjunto das nações. e fiz notar que sua principal característica consiste em que. que muitos chegaram a dá-la como um fato. ficam sem tarefa. se põe na ponta dos pés a increpar a Europa e declarar sua cessação na história universal. de ficar de cabeça para baixo. nem sequer levantou tal questão. É deplorável o frívolo espetáculo que os povos menores oferecem. nem faz questão de tão enorme fato. segundo se diz. Toma-a como um bonde. Mas. Cada um sente a delícia de evadir-se da pressão que a presença do mestre impunha. E como ele fazem muitas pessoas. povos inteiros. gesticula. mas que se habituaram a dá-lo como certo. deixa de mandar. sem dúvida. entesa-se. Falou-se tanto da decadência européia. consequentemente só pode executar uma só coisa: a cabriola. que lhe vai servir de formidável premissa. os povos-massa resolveram dar como caduco aquele sistema de normas que é a civilização européia. mas como são incapazes de criar outro. apoia-se integralmente no suposto de que a Europa agoniza. a turba parvular não tem um afazer próprio. uma tarefa com sentido. À vista de que. como tirada a norma que fixava as ocupações e as tarefas. Daí o vibriônico panorama de "nacionalismos" que se nos oferece por toda a parte.A rebelião das massas.

como outras vezes aconteceu uma germinação de normas novas substitui as antigas e um fervor novíssimo absorva em seu fogo jovem os velhos entusiasmos de minguante temperatura. Porque viver é ter que fazer algo determinado . Nova York e Moscou não são nada novo com respeito à Europa. esses três povos estão em decadência e seu programa de vida perdeu validez. Mas a festa dura pouco. quem tem o encargo. começou por interrogá-lo sobre os mandamentos de Deus. e na medida em que iludamos pôr em algo nossa existência desocupamos nossa vida. perderam seu sentido. simplesmente porque os inventos da técnica automobilística têm ocorrido com mais rapidez. como uivo de cães inumeráveis. Os decálogos conservam do tempo em que eram inscritos sobre pedra ou bronze seu caráter de pesadume. Uma vida em disponibilidade é maior negação que a morte.A rebelião das massas. vida vazia. ao dissociar-se do resto. impedir sua extravagância. A etimologia de mandar significa carregar. pôr em alguém algo nas mãos.é cumprir um encargo -. Se não tivéssemos filhos. De puro sentir-se livres.homens e povos .diz-se . a trindade França. não é de estranhar que o mundo se desmoralize. Vá isto dito para os que. Ao que o cigano respondeu: "Olhe aqui. Se. E esta é a pura verdade. III O cigano foi se confessar. Porque existiam só os europeus. A Europa .está desmoralizado. Esta descendência oriunda do broto de novas juventudes é um sintoma de saúde. esta desmoralização diverte e até vagamente ilude. antes de tudo e propriamente. que apenas com sua novidade avantaja-se de repente ao preexistente. e em vista disso. isentas de entraves. Não se trata de que . que subirá.deixa de mandar. Todo o mundo . com inconsciência de crianças. Não importaria que a Europa deixasse de mandar se houvesse alguém capaz de substituí-la. até as estrelas. e aproveitam com ar festivo este tempo de pesados imperativos. Dentro de pouco ouvir-se-á um grito formidável em todo o planeta. Mais ainda: o velho advém velho não por sua senectude. A rigor. desolação. Os inferiores pensam que lhes tiraram um peso de cima. como agora se diz. Os inferiores do mundo inteiro já estão fartos de que os encarreguem e sobrecarreguem. indivíduos . sentem-se vazias. Os mandamentos europeus perderam vigência sem que se vislumbrem outros no horizonte. a qual sói ser vacância. Quem manda é. mas porque já está aí um princípio novo. Mas não há sombra de tal. e não se vê quem possa substituí-la. eu ia aprender isso. nos anunciam que a Europa já não manda. Inglaterra. em seu eixo. fica nossa vida em pura disponibilidade. Sem mandamentos que nos obriguem a viver de um certo modo.aproveitam a ocasião para viver sem imperativos. Mandar é dar ocupação às gentes. sem remissão. Alemanha.htm (72 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não seríamos velhos ou levaríamos mais tempo a sê-lo. mas o padre. pedindo alguém e algo que mande. mas depois ouvi um zum-zum de que tinha perdido o valor". Durante uma temporada. Mas o que agora acontece na Europa é coisa insalubre e estranha. precavido. metê-las em seu destino. Isso seria o admitido. Esta é a horrível situação íntima em que se encontram já as juventudes melhores do mundo. A mesma coisa acontece com os artefatos. seu padre. São um e outro duas parcelas do mandamento europeu que. que imponha um afazer ou obrigação. as pessoas .nações. causa file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Um automóvel envelhece em dez anos mais do que uma locomotiva em vinte. Na região do globo que elas ocupam amadureceu o módulo de existência humana conforme ao qual foi organizado o mundo. Não é essa a situação presente do mundo? Corre o zum-zum de que não vigorem mais os mandamentos europeus. Por Europa entende-se.

A rebelião das massas. quer dizer.htm (73 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .pensadas na Europa em vista de realidades e problemas europeus. horror falar de Nova York e de Moscou. profunda. E a atitude aprendida.onde não há indústria . Daí que para entender as camouflages seja mister também um olhar oblíquo: o de quem traduz um texto com um dicionário ao lado. como podia haver-se posto a serviço do budismo se este fosse a ordem do dia. Mas ainda sem saber plenamente o que são. A mesma coisa acontece com o espelhismo. não americano. tudo é autóctone. O conceito corrige os olhos. porque não há tal triunfo. como sempre as colônias. que a camouflage existe. Porque não se sabe com plenitude o que são: só se sabe que nem sobre um nem sobre outro se disseram palavras decisivas. Porque carece ainda de mandamentos necessitou fingir sua adesão ao princípio europeu de Marx. Vá lá saber o que será! O único que cabe afirmar é que a Rússia necessita de séculos ainda para optar ao mando. quando é uma coisa tão efetiva como a juventude de um homem. só necessita de pretextos. Quando crescem num âmbito onde existe ou acaba de existir uma velha cultura. Por isso engana a maior parte das pessoas. sobretudo da Europa. juvenil. Também é um erro atribuir sua força atual aos mandamentos a que obedece. não só diferente como matéria étnica do europeu. acidental e de superfície. Porque lhe sobra juventude bastou-lhe essa ficção. recebida. substancial. Assim Roma. pertencem de cheio ao que algumas vezes chamei "fenômenos de camouflage histórica". por essência. os Estados Unidos significam também um caso dessa específica realidade histórica que chamamos "povo novo". Que o marxismo tenha triunfado na Rússia . Só se pode livrar da equivocação que produz a camouflage quem saiba de antemão.o marxismo . por exemplo. Porque isso. Seu aspecto oculta. A América é forte por sua juventude. Num povo assim. em vez de declarar. Quem faz um gesto aprendido . que se pôs a serviço do mandamento contemporâneo "técnica". Que casualidade! Outro invento europeu. E a sério nos dizem que a essência da América é sua concepção praticista e técnica da vida! Em vez de nos dizer: A América é. um vocábulo de outro idioma . efetiva. Os povos novos não têm idéias.de uma idade diferente da nossa. outra. A camouflage é. em Moscou há uma película de idéias européias . Agora vão começar suas angústias. Que casualidade! Os séculos em que a América nasce. e suas atitudes têm um sentido claro e direto. mas .seria a contradição maior que podia sobrevir ao marxismo. o autêntico. Assim. Aqui está a camouflage e sua razão. alcança-se o bastante para compreender seu caráter genérico.como notei várias vezes . disfarçam-se na idéia que esta lhes oferece. com efeito. e em geral. Exemplo: o egípcio ou o chinês. Mas não há tal contradição. Daqui que a metade das atitudes romanas não sejam suas. aparente.que há dois grandes tipos de evolução para um povo.o que importa muito mais . o que tem de russo. A técnica é inventada pela Europa durante os séculos XVIII e XIX. A Rússia é marxista aproximadamente como eram romanos os tudescos do Sacro Império Romano. Um povo ainda em fermento. cujas águas estavam impregnadas de civilização greco-oriental.faz por baixo dele o seu gesto. O jovem não necessita de razões para viver. uma repristinação ou rejuvenescimento de raças antigas. mas aprendidas. Mas a América não faz com isso senão começar sua história. suas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Em última instância reduz-se a este: a técnica. traduz a sua própria linguagem o vocábulo exótico. Esquece-se . Em todo fato de camouflage histórica há duas realidades que se superpõem: uma. Coisa muito semelhante acontece com Nova York. uma realidade que não é a que parece. Há o povo que nasce em um "mundo" vazio de toda civilização. Supõe-se que isso seja uma frase. Debaixo dela há um povo. e sua verdadeira significação não é direta. e não o que tem de comunista. mas oblíqua. Em virtude de razões diferentes da Rússia.por exemplo. é o que tem de forte. sua substância. é sempre dupla. que cresce em pleno Mediterrâneo. Ambos. Eu espero um livro em que o marxismo de Stalin apareça traduzido à história da Rússia. Mas há outros povos que germinam e se desenvolvem num âmbito ocupado já por uma cultura de história anosa.

uma simples vacilação sobre file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. preferiu falsificar todo o resto de seu ser para o acomodar àquela fraude inicial. e. tem de retroceder ao ponto de partida e perguntar-se a sério: É tão certo como se diz que a Europa está em decadência e resigne o mandato. O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação como estado habitual e constituído de uma irregularidade. é vão esperar nada dos homens de nossa raça. pois. o declara francamente. Ainda tem de ser muitas coisas. Eu sempre. fazendo-se totalmente homogêneo com o crime ou irregularidade que arrasta. entre elas. não obstante. sustentei que era um povo primitivo camuflado pelos últimos inventos (72).htm (74 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Em um mecanismo parecido ao que o adágio popular enuncia quando diz: "Uma mentira faz cento". Mas. deprimente. cujo império ou mando. Não há. como é social em sua mais elementar estrutura. Daí que se tomamos à parte um indivíduo e o analisamos. Fora interessante e até útil submeter a este exame o caráter individual do espanhol médio. Não pode ter vigor elástico para a difícil faina de sustentar-se com decoro na história uma sociedade cujo Estado. algumas as mais opostas à técnica e ao praticismo. o mundo histórico volta ao caos. é ilusório pensar que possa possuir as virtudes do mando. Todas as nações atravessaram jornadas em que aspirou a mandar sobre elas quem não devia mandar. tudo o mais marchará impura e torpemente. Quem evite cair na conseqüência pessimista de que ninguém vai mandar. do Poder. em seu Redescobrimento da América. a pluralidade européia substituída por uma formal unidade? IV A função de mandar e obedecer é a decisiva em toda sociedade. A América conta menos anos que a Rússia. ficará perturbada e falsificada. enfadonha. por isso a evito. salvas geniais exceções. Mas o espanhol fez o contrário: em vez de opor-se a ser imperado por quem sua íntima consciência rechaçava. e que. seus conflitos. dissenções. Se o homem fosse um ser solitário que acidentalmente se acha travado em convivência com outros. não era a priori necessária se algum dia haviam de ser possível os Estados Unidos da Europa. de acanalhamento que no homem médio do nosso país produz o fato de ser a Espanha uma nação que vive há séculos com uma consciência suja na questão de mando e obediência. Como ande nesta turvação a questão de quem manda e quem obedece. oriundas dos deslocamentos e crises do imperar. de algo que enquanto se aceita continua parecendo indevido. fica transtornado em sua índole privada por mutações que a rigor só afetam imediatamente à coletividade. Como não é possível converter em sã normalidade o que em sua essência é criminoso e anormal. é constitutivamente fraudulento. embora útil. A América ainda não sofreu. o indivíduo opta por adaptar-se ao indevido. Mas faria ver a enorme dose de desmoralização íntima. Enquanto isso persistir em nosso país. cabe coligir sem mais dados como anda em seu país a consciência de mando e obediência. portanto. Até a mais íntima intimidade de cada indivíduo. com medo de exagerar. abdique? Não será esta aparente decadência a crise benfeitora que permita à Europa ser literalmente Europa? A evidente decadência das nações européias. A operação seria. nada de estranho em que bastasse uma ligeira dúvida. mas um forte instinto lhes fez concentrar ao ponto suas energias e expelir aquela irregular pretensão de mando. Rechaçaram a irregularidade transitória e reconstituíram assim sua moral pública. Agora Waldo Frank. talvez permanecesse intacto de tais repercussões.

um caminho que não leva a nada. para vagar a si mesma. tem de estar posta em algo. que participe em uma empresa.haja começado a desmoralizar-se. Trata-se de uma condição estranha. Livrada a si mesma. pois cada vida fica em absoluta franquia para fazer o que lhe der na vontade. o europeu fechou-se em seu interior. dou voltas e mais voltas em um mesmo lugar. Se fosse isto só. A meta não é o meu caminhar. não avanço. para que todo o mundo . que nada íntimo. se essa vida minha. oposta à primeira. embarcar na opinião trivial que crê ver na atuação dos grandes povos . O egoísmo é labiríntico. outra. seria violência. inscrita em nossa existência. e ninguém. com freqüência o perguntado deixa o caminho que leva e generosamente se sacrifica pelo estranho. e me alegro que o estrangeiro interprete assim sua conduta. E como há de se encher com algo. que se perde em si mesmo. viver é algo que cada qual faz por si e para si. por sua natureza própria. no final das contas. o espanhol não está file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Se resolvo andar só por dentro de minha vida. Depois da guerra. em muitos casos. amanhã. Não é tão fácil como se crê ser puro egoísta. Viver é ir arrojado para alguma direção. cada vida fica sem si mesma. Parece que a situação devia ser ideal. sem tensão e sem "forma". inventa-se ou finge frivolamente a si mesma. de tanto não ser mais que caminhar por dentro de si. em um destino ilustre ou trivial. Por outro lado. sem ter o que fazer. caminhará desvencilhada. egoisticamente. ficou sem empresa para si e para os demais. Estes anos assistimos ao gigantesco espetáculo de inumeráveis vidas humanas que marcham perdidas no labirinto de si mesmas por não ter a que se entregar. Está perdida ao encontrar-se só consigo. Não convém. é algo a que ponho esta e que por isso mesmo está fora dela. todas as ordens ficaram em suspenso. Eu não nego que possa haver nesta índole do bom celtibero algum fator de generosidade. não se nos pode pedir que estejamos em disponibilidade para atender aos transeuntes e que nos dediquemos a pequenos altruísmos ocasionais. mas manda-se-lhe algo. Todos os imperativos. mas inexorável. Mas o resultado foi contrário ao que se poderia esperar.em sua vida pública e em sua vida privada . Como diz o verso de Schiller: Quando os reis constróem. A vida humana. não é a minha vida. Compreende-se. mais além.A rebelião das massas. em um grande destino histórico. conduzindo-o ao lugar que a este interessa. Hoje é uma coisa. sendo-o. O mando consiste em uma pressão que se exerce sobre os demais. em uma empresa gloriosa ou humilde. é caminhar para uma meta. vazia. que só a mim me importa. Não se esqueça que mandar tem duplo efeito: manda-se em alguém. precisamente sem um plano de vida imperial. E o que se lhe manda é. Quando de verdade se vai fazer algo e nos entregamos a um projeto.como dos homens . Mas nunca ao ouvi-lo ou lê-lo pude reprimir este receio: é que o compatriota perguntado ia de fato a alguma parte? Porque poderia ocorrer muito bem que. triunfou jamais.uma inspiração puramente egoísta. Por isso não há império sem programa de vida. não é entregue por mim a algo. Por um lado. Não se manda em seco. dedica-se a falsas ocupações. A Europa afrouxou sua pressão sobre o mundo. os carreiros têm o que fazer. Por isso continuamos historicamente como há dez anos.htm (75 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Isto é o labirinto. impõe. Mas não consiste só nisso. não vou a parte alguma. sincero. O egoísmo aparente dos grandes povos e dos grandes homens é a dureza inevitável com que se deve comportar quem tem sua vida posta em uma empresa. pois. quem manda no mundo. Uma das coisas que mais encantam os viajantes quando cruzam a Espanha é que se perguntam a alguém na rua onde fica uma praça ou edifício. Sucede o mesmo a cada povo.

e hoje todo o mundo fala da decadência européia como de uma realidade inconcussa. caía na inércia moral. se isso não trouxesse consigo a volatilização de todas as virtudes e de todos os dotes do homem europeu. V Convém que agora retrocedamos ao ponto de partida destes artigos: ao fato. salvo aqueles que por sua juventude estão ainda em sua pré-história. Incapaz de esforço criador e luxuoso. fazendo nada. Nada me importaria a cessação do mando europeu se existisse hoje outro grupo de povos capaz de substitui-lo no Poder e na direção do planeta. a técnica e tudo o mais vivem da atmosfera tônica que cria a consciência de mando. pelo contrário. recairá sempre no ontem. Prontamente vereis a pessoa fazer vagos ademanes e praticar essa agitação de braços para a rotundidade do universo que é característica de todo náufrago. Não penso assim porque eu seja europeu ou coisa parecida. esta sugestiva idéia: Não será que começamos a decair? A idéia teve boa Imprensa. ocorreu a alguns homens da Alemanha. Já é surpreendente o detalhe de que esta decadência não tenha sido notada primeiramente pelos estranhos. isso é irremissível. o europeu se irá envilecendo. a arte. pelo contrário. O europeu se fará definitivamente cotidiano. A vida criadora é vida enérgica. como os gregos da decadência e como os de toda a história bizantina.htm (76 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . de que no mundo se fale estes anos tanto sobre a decadência da Europa. exercido até agora pela Europa.A rebelião das massas. A vida criadora supõe um regime de alta higiene. Quando ninguém. Mas é muito mais grave que este piétenement sur place chegue a desmoralizar por completo o europeu mesmo. Aceitaria que não mandasse ninguém. da França. Tornar-se-á vulgar. Ora bem. A ciência. situando-se com fervor sob o drapejar de sua bandeira. estimar quem manda e acompanhá-lo. e esta só é possível em uma destas situações: ou sendo quem manda ou achando-se alojado em um mundo onde manda alguém a quem reconhecemos pleno direito para tal função. formulista. da Inglaterra. Grave é que esta dúvida sobre o mando do mundo. com file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. oco. Já não terão as mentes essa fé radical em si mesmas que as lança enérgicas. na rotina. Em muitos casos consta-me que meus compatriotas saem à rua para ver se encontram algum forasteiro a quem acompanhar. à captura de grandes idéias. de grande decoro. bastarão geração e meia para que o velho continente. no hábito. solidarizando-se com ele. audazes.mas. Mas nem sequer isso pediria. sai à vida para ver se as dos outros enchem um pouco a sua. Se falta esta. Mas obedecer não é agüentar agüentar é envilecer-se . Só a ilusão do império e a disciplina de responsabilidade que ela inspira podem manter em tensão as almas do Ocidente. mas que o descobrimento dela se deva aos europeus mesmos. não me interessa a vida do mundo. Não é que diga: se o europeu não há de mandar no futuro próximo. na esterilidade intelectual e na barbárie omnímoda. e atrás dele o mundo todo. de constantes estímulos. fora do velho continente. pensava nisso. não tem projeto nem missão. que excitam a consciência da dignidade. ou mando ou obedeço. Se o europeu se habitua a não mandar. tenha desmoralizado o resto dos povos. tenazes. Não sabe. Mas detende ao que a enunciar com um leve gesto e perguntai-lhe em que fenômenos concretos e evidentes funda seu diagnóstico. novas em toda ordem. tão curioso.

e importa muito filiar o estado de espírito desse alemão ou desse inglês nesta dimensão do econômico. pois. inglesa. as que vão mal na Europa. neste ou no outro problema econômico que esteja levantado. Na ordem da política interior acontece a mesma coisa. e preferiria. o alemão ou o inglês não se sentem hoje capazes de produzir mais e melhor que nunca? Em modo algum. Todo bom intelectual da Alemanha. pois. de verbal formalismo. É que. de impotência que abruma inegavelmente estes anos à vitalidade européia.A rebelião das massas. Não se analisou ainda a fundo a estranhíssima questão de por que anda tão em agonia a vida política de todas as grandes nações. e sente falta da superior liberdade de expressão que desfrutam o escritor francês ou o ensaísta inglês. porque enfara escutar as inépcias que a toda hora se diz. vê-se que nem uma delas permite a conclusão de que deve suprimir-se o Parlamento. de que sentindo-se com mais potencialidade do que nunca. sente sua nacionalidade como uma limitação absoluta. integrá-la com algumas virtudes do professor alemão. todas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O pessimismo. o homem de letras parisiense começa a compreender que está esgotada a tradição de mandarinismo literário. são as fronteiras políticas dos Estados respectivos. mas as tarefas em que empregá-las. O professor alemão já viu claro que é absurdo o estilo de produção a que o obriga seu público imediato de professores alemães. nem sequer que existam perfis utópicos de outras formas de Estado que. a que se agarrar. Por exemplo. Fala-se mal do Parlamento em toda a parte. Diz-se que as instituições democráticas caíram em desprestígio. Existe toda uma série de objeções válidas ao modo de conduzir-se os Parlamentos tradicionais. mas não se vê que em nem uma das que contam se intente sua substituição. na vida intelectual. Essas fronteiras fatais da economia atual alemã.htm (77 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que crer muito na autenticidade deste aparente desprestígio. mas pelo contrário. Mas isso é justamente o que conviria explicar. O arranco para resolver as graves questões urgentes é tão vigoroso como quando mais o tenha sido. mas se se tomam uma a uma. a propósito do Parlamento. adverte-se que nenhuma delas afeta seriamente o poder de criação da riqueza e que o velho continente passou por uma crise muito mais grave nesta ordem. Há aqui um erro de ótica que convém corrigir de uma vez para sempre. A prova disso é que a combinação se repete em todas as demais ordens. Porque é um desprestígio estranho. a sensação de menoscabo. com as pequenas nações em que até agora vivia organizada a Europa. Pois o curioso é. mas em que na forma da vida pública em que se haviam de mover as capacidades econômicas é incongruente como o tamanho destas. o desânimo que hoje pesa sobre a alma continental parece-me muito ao da ave de asa larga que ao bater os remígios se fere contra as grades da jaula. precisamente. Não há. conservando as melhores qualidades dessa tradição. é o conjunto de dificuldades econômicas que encontra hoje diante de cada uma das nações européias. A meu ver. pareçam preferíveis. francesa. nutre-se dessa desproporção entre o tamanho da potencialidade européia atual e o formato da organização política em que tem de atuar. Mas quando se vai precisar um pouco o caráter dessas dificuldades. tropecem com certas barreiras fatais que os impedem de realizar o que muito bem poderiam. Vice-versa. da Inglaterra ou da França sente-se hoje afogado nos limites de sua nação. efeito. A única coisa que sem grandes precisões aparece quando se quer definir a atual decadência européia. mas. pelo contrário. A dificuldade autêntica não radica. por exemplo. mas tropeça no mesmo instante com as reduzidas jaulas em que está alojado. porventura. ao menos idealmente. Faltam programas de tamanho congruente com as dimensões efetivas que a vida chegou a ter dentro de cada indivíduo europeu. cujos fatores são em aparência tão diferentes do econômico. em quanto instrumento de vida pública. que a depressão indiscutível de seus ânimos não provém de que se sintam pouco capazes. a que o condena sua proveniência francesa. Não são as instituições.

políticos. Procede de outra causa. com declarar sua inutilidade. Conseqüência: o automóvel europeu está em decadência. com os limites de sua nação. O automóvel atual saiu das objeções que se opuseram ao automóvel de 1910. mas apenasmente de que a fábrica americana pode oferecer seu produto sem dificuldade alguma a cento e vinte milhões de homens.htm (78 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que eram o universo. que não é eficaz. a possibilidade e a urgência de reformar profundamente as Assembléias legislativas. se em nenhum país está hoje claro. pois. Não se confunda. nem ainda teoricamente. de que não sente ilusão pelos Estados nacionais em que está inscrito e prisioneiro. com que é "menos" que antes. A situação autêntica da Europa viria. o francês e o alemão acreditavam. não tem sentido acusar de ineficácia os instrumentos institucionais. a fabricação de automóveis. alemão ou francês é ser provinciano. dentro da qual já não cabe. pois. Entretanto. E então descobriu que ser inglês. O desprestígio dos Parlamentos não tem nada que ver com seus notórios defeitos. em que consiste o que há que fazer. Porque do contrário. na maior parte dos países. cada qual por si. por exemplo. não sente respeito a seu Estado. mais eficientes que os Estados parlamentares do século XIX.A rebelião das massas. Imagine-se que uma fábrica européia visse ante si uma área mercantil formada por todos os Estados europeus e suas colônias e seus protetorados. a ser esta: seu magnífico e longo passado a faz chegar file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. porque isso implica que é imprescindível e que é capaz de nova vida. Mais valia recordar que jamais instituição alguma criou na história Estados mais formidáveis.de automóveis sabe muito bem que a superioridade do produto americano não procede de nenhuma virtude específica usufruída pelo homem de ultramar.quer dizer. sente que aqueles . portanto. o fabricante europeu . Portanto. de que não estima as finalidades da vida pública tradicional. Deparou-se. levam por via direta e evidente à necessidade de reformá-lo. tome-se qualquer atividade concreta: por exemplo. uma origem puramente íntima e paradoxal. intelectuais. para fazê-las "ainda mais" eficazes. Este é. porque o irrespeitável não são estas. Ninguém duvida de que esse automóvel previsto para quinhentos ou seiscentos milhões de homens seria muito melhor e mais barato que o "Ford". alheia de todo a eles no que diz respeito a utensílios políticos. seria inútil substituir o detalhe de suas instituições. O automóvel é invento puramente europeu. Por isso exigimos de quem proclama a ineficácia dos Parlamentos que ele possua uma idéia clara de qual é a solução dos problemas públicos atuais. porque antes o inglês.industrial e técnico . Todavia. o que se vê é que o cidadão. hoje é superior a fabricação norte-americana desse artefato. Ora bem: o melhor que humanamente pode dizer-se de algo é que necessita ser reformado. Fala-se. Procede de que o europeu não sabe em que empregá-los. ao tropeçar o europeu em seus projetos econômicos.são incomensuráveis com o tamanho do corpo coletivo em que está encerrado. que se ananicou. Neste caso a finalidade seria a solução dos problemas públicos em cada nação. já que a presunção de haver minguado nasce precisamente de que cresceu sua capacidade e tropeça com uma organização antiga. seu estilo vital . mas o Estado mesmo. suas possibilidades de vida. em suma. a autêntica origem dessa impressão de decadência que achaca o europeu. parece-me. Todas as graças peculiares da técnica americana são quase positivamente efeitos e não causas da amplitude e homogeneidade de seu mercado. Pela primeira vez. A "racionalização" da indústria é conseqüência automática de seu tamanho. Para dar ao dito um apoio plástico que o sustente. Mas a desestima vulgar em que caiu o Parlamento não procede dessas objeções. Se se olha com um pouco de cuidado esse famoso desprestígio. Nós devemos então perguntar: Para que não é eficaz? Porque a eficácia é a virtude que um utensílio tem para produzir uma finalidade. O fato é tão indiscutível que esquecê-lo demonstra franca estupidez.

puramente rural e sem caráter específico. É o espaço civil. Mas agora podemos considerar o assunto desde outro aspecto. É este o esquema do drama enorme que se representará nos anos vindouros. fica arcano. ao brotar da cidade. muito mais nova que o espaço de Einstein. o ágora. E agora vê-se obrigada a superar-se a si mesma. que prescinde do resto e se opõe a ele. em que o homem se liberta de toda comunidade com a planta e o animal. O mesmo acontece com a urbe ou polis que começa por ser um buraco: o foro. nem sequer está claro o nexo étnico entre aqueles povos proto-históricos e essas estranhas comunidades. mas para discutir sobre a coisa pública. novíssimo. como a casa. é um pedaço de campo que volta costas ao resto. ao passo que a abelha vermelha só existe em enxame construtor de favos (74). Sua existência. deixa estes fora e cria um âmbito à parte puramente humano. Não é. e quanto a certos pormenores. Em certo modo. do cosmos geobotânico. dirá: "Eu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sente e quer conserva a modorra inconsciente em que vive a planta. mas que é pura e simplesmente a negação do campo. um espaço demarcado para funções públicas. Até então só existia um espaço: o campo. mas um lugar de ajuntamento civil.. mercê dos muros que a balizam. e nele se vivia com todas as conseqüências que isso traz para o ser do homem. é campo abolido. Mas o greco-romano decide separar-se do campo. A Europa fez-se em forma de pequenas nações. e tudo o mais é pretexto para assegurar esse buraco.. que aportam ao repertório humano uma grande inovação: a de construir uma praça pública e em torno uma cidade fechada ao campo. se é o ilimitado? Muito simples: limitando um pedaço de campo mediante uns muros que oponham o espaço incluso e finito ao espaço amorfo e sem fim. peregrino. errabundo. e. o grande urbano. igual às covas que existem no campo. Este é um fato que nestas páginas necessitamos tomar como absoluto e de gênese misteriosa. Como é isso possível? Como pode o homem subtrair-se ao campo? Onde irá. Este campo menor e rebelde. O homem campesino é todavia um vegetal. Porque. que pratica secção do campo infinito e se reserva a si mesmo diante dele. ou ficará prisioneira para sempre delas? Porque já ocorreu uma vez na história que uma grande civilização morreu por não poder substituir sua idéia tradicional de Estado. para delimitar seu contorno. Mas o trânsito desta pré-história. Note-se que isto significa nada menos que a invenção de uma nova classe de espaço. com efeito. fruta de nova espécie que dá o solo de ambas as penínsulas. Por isso Sócrates.htm (79 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . dentro de urbes. a um novo estádio de vida onde tudo cresceu. da "natureza". mas às vezes as estruturas sobreviventes desse passado são anãs e impedem a atual expansão.A rebelião das massas. 0 caso é que a escavação e a arqueologia nos permitem ver algo do que havia no solo de Atenas e no de Roma antes de que Atenas e Roma existissem. que são misteres privados e familiares. se o campo é toda a terra. Gregos e latinos aparecem na história alojados. A urbe não está feita. VI Contei em outro lugar a paixão e morte do mundo greco-romano. reporto-me ao que ali disse (73). Saberá libertar-se de sobrevivências. como abelhas em sua colmeia. a definição mais certa do que é a urbe e a polis parece-se muito com a que comicamente se dá do canhão: rodeia-se o bocal de um poço com arame muito apertado e tem-se um canhão. A praça. A polis não é primordialmente um conjunto de casas habitáveis. como a cabana ou o domus. um espaço sui generis. de poleis. um "interior" fechado por cima. para proteger-se da intempérie e engendrar. Eis aqui a praça. tríplice extrato do sumo que ressuma a polis. um fato de que há que partir tal como o zoólogo parte do dado bruto e inexplicado de que o sphex vive solitário. portanto. a idéia e o sentimento nacionais foram sua invenção mais característica. As grandes civilizações asiáticas e africanas foram neste sentido grandes vegetações antropomorfas. quanto pensa.

Assim. oferece-se ao existir humano. Ao Estado constituído precede o Estado constituinte. Uma dimensão nova. no extrato primário e mais fundo de sua memória conservam os habitantes da cidade greco-latina a lembrança de um synoikismos. eu só tenho quer ver com os homens na cidade". Com rara insistência. Não se pense que esta origem da urbe é uma pura construção minha e que só lhe corresponde uma verdade simbólica. o dinamismo que produziu e sustém o Estado. constituída. pela relativa pequenez de seus ingredientes. o idioma. Que souberam disso jamais o hindu. Com mais ou menos pureza. de assento. Originariamente o Estado consiste na mescla de sangues e línguas. E quem diz o sangue. que não se compõe de homens e mulheres. portanto. Está claro que a unidade jurídica não é a aspiração que propele o movimento criador do Estado. irredutível às primigênias e mais próximas ao animal. É superação de toda sociedade natural. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não é como a horda ou a tribo e demais sociedades fundadas na consangüinidade que a Natureza se encarrega de fazer sem colaboração com o esforço humano. de forma quieta e definida. Neste sentido significa o contrário do movimento histórico: o Estado é convivência estabilizada. O Estado-cidade. Faz esquecer. mas que necessita forjá-la penosamente.A rebelião das massas. de esforços. entre o ius e o rus. oculta.htm (80 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . estática. o persa. respectivamente. nem o egípcio? Até Alexandre e César. nem o chinês. Não há. é o propósito de empresas vitais maiores que as possíveis às minúsculas sociedades consangüíneas. desde logo como Estado. em suma. estritamente no duplo sentido físico e jurídico desse vocábulo. Pelo contrário. e nosso Levante cai em quanto pode no cantonalismo. O impulso é mais substantivo que todo direito. Por uma parte. como todo equilíbrio. Constrói sobre a heterogeneidade zoológica uma homogeneidade abstrata de jurisprudência (76). Itália não saiu até o século XIX do Estado-cidade. É mestiço e plurilíngüe. o Norte da África (Cartago = a cidade) repete o mesmo fenômeno. basta traduzi-los. Synoikismos é acordo de ir viver juntos. e nela vão pôr os que antes só eram homens suas melhores energias. o Estado começa quando o homem se afana por fugir da sociedade nativa dentro da qual o sangue o inscreveu. a criação de uma entidade mais abstrata e mais alta que o oikos familiar. permite ver claramente o específico do princípio estatal. toda a costa mediterrânea mostrou sempre uma espontânea tendência a este tipo estatal. A urbe é a super-casa. ajuntamento. a cidade nasce por reunião de povos diversos. a politea. diz também qualquer outro princípio natural. a palavra "estado" indica que as forças históricas conseguem uma combinação de equilíbrio. mas de cidadãos. Em certo modo. entre o jurista e o labrego. Mas este caráter de imobilidade. que a ele tendiam. É a república. não tenho nada que ver com as árvores no campo. que o Estado constituído é só o resultado de um movimento anterior de luta. pois. que solicitar os textos. a história da Grécia e de Roma consiste na luta incessante entre esses dois espaços: entre a cidade racional e o campo vegetal. a superação da casa ou ninho infra-humano. por exemplo. Desta maneira nasce a urbe. Na gênese de todo Estado vemos ou entrevemos sempre o perfil de um grande empresário. A dispersão vegetativa pela campina sucede a concentração civil na cidade. e este é um princípio de movimento. que é um ressábio daquela milenária inspiração (75). Com isto quero dizer que o Estado não é uma forma de sociedade que o homem acha presenteada.

VII Mentes lúcidas. esse é de verdade uma mente lúcida. mas foi vão empenho. o princípio estatal é o movimento que leva a aniquilar as formas sociais de convivência interna. Porém. dentro de sua boa ou má sorte. Observai os que vos rodeiam e vereis como avançam perdidos em sua vida. mas parte de sua vida está travada com indivíduos de outras coletividades com os quais comercia mercantil e intelectualmente. capazes de imaginar a cidade que triunfa da dispersão campesina. e se aprofundais na análise achareis que nem sequer pretendem file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Nesta situação. representada por Bruto.htm (81 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . sem dúvida. Ouvi-los-eis falar em fórmulas taxativas sobre si mesmos e sobre seu contorno. o político. precisamente o limite imposto pela Natureza a sua fantasia. O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. O grego e o romano. sem mais contatos que os excepcionais com as limítrofes. encontraremos sempre o seguinte esquema: várias coletividades pequenas cuja estrutura social está feita para que viva cada qual dentro de si mesma. matemáticos. quem não se perca na vida. Por isso é autêntica criação. cada uma por si e para si. é político precisamente porque é torpe (77). Aplique-se isto ao momento atual europeu. substituindo-as por uma forma social adequada à nova convivência externa. e as coisas abstratas são sempre claras. em suma. além disso. Se observamos a situação histórica que precede imediatamente o nascimento de um Estado. Importa-nos muito aos europeus de hoje recordar esta história. Todas as coisas de que fala a ciência. O indivíduo de cada coletividade não vive já só desta. e estas expressões abstratas adquirirão figura e cor. isto é. A coisa é surpreendente porque. porque a nossa chegou ao mesmo capítulo. quem tentou libertá-las da cidade.A rebelião das massas. incluso o famoso. que é sempre única. são abstratas. "costumes" e religião . Quem seja capaz de orientar-se com precisão nela. seja ela qual for. mais ampla e nova. em geral. de imaginar outra nunca sida.favorece a interna e dificulta a externa. A forma social de cada uma serve só para uma convivência interna. Um povo é capaz de Estado na medida em que saiba imaginar. Houve. e. o que indicaria que possuem idéias sobre tudo isso. Houve quem quis levar as mentes greco-romanas mais além. na Grécia e em Roma outros homens que pensaram idéias claras sobre muitas coisas . encarregou-se de assassinar César . sem ter a mais leve suspeita do que lhes acontece. naturalistas -. aquele que vislumbre sob o caos que apresenta toda situação vital a anatomia secreta do instante. A imaginação é o poder libertador que o homem tem. O essencialmente confuso. o que se chama mentes lúcidas.direitos. intricado. vão como sonâmbulos.a maior fantasia da antigüidade -. uma claridade sobre coisas abstratas.filósofos. A escuridão imaginativa do romano. Sobrevem. não houve provavelmente em todo o mundo antigo mais que duas: Temístocles e César. pois. detiveram-se nos muros urbanos. se analisais superficialmente essas idéias. Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência. dois políticos. De sorte que a claridade da ciência não está tanto na cabeça dos que a fazem como nas coisas de que falam. A forma social estabelecida . Mas a este isolamento efetivo sucedeu de fato uma convivência externa. Daí que todos os povos tenham tido um limite em sua evolução estatal. sobretudo econômica. Isto indica que no passado viveram efetivamente isoladas. Mas sua claridade foi de ordem científica. é a realidade vital concreta. um desequilíbrio entre duas convivências: a interna e a externa. notareis que não refletem muito nem pouco a realidade a que parecem referir-se.

é onipotente. como o náufrago. pôs a sua direita uma magnífica cabeça de intelectual. dona da Itália. postura. não tem inimigos à sua frente. de seu. em lemas nem vocábulos. não obstante ser a ciência. buscará algo para se agarrar.htm (82 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . dedicada durante toda a sua vida a confundir as coisas. as idéias dos náufragos. e se convence de que tudo nela é problemático. e se sente perdido. da Ásia Menor. Quem descobre uma nova verdade científica teve antes que triturar quase tudo que havia aprendido e chega a essa nova verdade com as mãos sangrentas por haver jugulado inumeráveis lugares comuns. sob pena de consunção. uma fuga da vida (a maior parte dos homens de ciência dedicaram-se a ela por terror a defrontar sua própria vida. A cidade tiberina.a saber. tudo vai mal. queira ou não queira. Porque a vida é inteiramente um caos onde a criatura está perdida. O excesso de boa fortuna havia deslocado o corpo político romano. se se ajusta à realidade. lhe facultará pôr ordem no caos de sua vida. Nossas idéias científicas valem na medida em que nos tenhamos sentido perdidos ante uma questão. adscritas à árvore que tutelam. Homem de mente lúcida é aquele que se liberta dessas "idéias" fantasmagóricas e olha de frente a vida. Tudo o mais é secundário. Isto é certo em todas as ordens.A rebelião das massas. peremptório. está a ponto de fenecer porque se obstina em conservar um regime eleitoral estúpido. e procura ocultá-la com um véu fantasmagórico onde tudo está muito claro. emprega-as como trincheiras para defender-se de sua vida. porque se compõe de situações únicas em que o homem se encontra de repente submerso. Não são mentes claras. como as amadríadas estão. Pelo contrário: o indivíduo trata com elas de interceptar sua própria visão do real. ajustar-se a tal realidade. A política é muito mais real que a ciência. estava a ponto de rebentar. daí sua notória falta de jeito ante qualquer situação concreta). íntima farsa. depende de um mísero detalhe técnico: o procedimento eleitoral. ao começar o século I antes de Cristo. Estas são as únicas idéias verdadeiras. de sua vida mesma. que viver é sentir-se perdido -. ainda na ciência. do Oriente clássico e helenístico. como espantalhos para afugentar a realidade. absolutamente veraz porque se trata de salvar-se. tudo vai bem. Suas instituições públicas tinham uma força municipal e eram inseparáveis da urbe. Um regime eleitoral é estúpido quando é falso. rica. quem o aceita já começou a encontrar-se. Não lhe interessa que suas "idéias" não sejam verdadeiras. embora o resto marche otimamente. César é o exemplo máximo que conhecemos de dom para encontrar o perfil da realidade substantiva em um momento de confusão pavorosa. A saúde das democracias. já começou a descobrir sua autêntica realidade. Instintivamente. é dizer. Roma. Mas muito menos os que viviam repartidos por todo o mundo romano. não topa nunca com a própria realidade. da Espanha. Já os cidadãos do campo não podiam assistir aos comícios. Se o regime de comícios é acertado. Entretanto. já está no firme. em receitas. quaisquer que sejam seu tipo e seu grau. em uma hora das mais caóticas que há vivido a humanidade. a de Cícero. Como isso é a pura verdade . Por isso é o tema que nos permite distinguir melhor quais as mentes lúcidas e quais as mentes rotineiras. E como se o destino se houvesse comprazido em sublinhar a exemplaridade. Quem não se sente de verdade perdido perde-se inexorávelmente. se não. e esse olhar trágico. mas aterra-o encontrar-se cara a cara com essa terrível realidade. em que tenhamos visto bem seu caráter problemático e compreendamos que não podemos apoiar-nos em idéias recebidas. não se encontra jamais. O homem o suspeita. Havia que votar na cidade. Como as eleições eram file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O resto é retórica.

com veteranos do exército. e Salústio. Antes de fazer agora algo dá um passo atrás. A expressão é de César. transferiu-se do homem antigo ao filósofo moderno. A cidade não pode governar tantas nações.Mário e Sila . busca no passado um modelo para a situação presente. começa pelo "depois" e não pelo "antes". Significa simplesmente um cronismo incompleto. Compreende que para curar as conseqüências das anteriores conquistas romanas não havia mais remédio senão prossegui-las aceitando até o fim tão enérgico destino. impossíveis. os fiéis ao Estado-cidade. vive radicalmente no pretérito.que se encarregavam de romper as urnas. em seus memoriais a César. César sustentará a necessidade de romanizar a fundo os povos bárbaros do Ocidente. O segredo está em sua façanha capital: a conquista das Gálias. "A República não era mais que uma palavra". Sobretudo urgia conquistar os povos novos. para evitar a dissolução das instituições é preciso um príncipe. Não temos mais remédio. Compreende-se. como Lagartijo ao projetar-se para matar. em compensação. César não explicou nunca sua política. um moderator. Os generais da esquerda e da direita . Isto é ser arcaizante e isto o foi quase sempre o antigo. Sua política pode resumir-se em duas cláusulas: Primeira. Por que? Constituíam o Poder os republicanos. Cícero. Este entendia por tal precisamente um cidadão como os demais. Para empreendê-la teve de se declarar rebelde ante o Poder constituído. Não o vê. Mas. Eu suspeito que esse diagnóstico é errôneo. Daí que todo o seu viver é em certo modo reviver. em seus livros Sobre a República. pois. Os europeus sempre gravitamos em direção ao futuro e sentimos que é esta a dimensão mais substancial do tempo. Também ele retrograda. os conservadores. protegido e deformado pelo escafandro ilustre. que confunde duas coisas. Existiam em um presente pontual. O greco-romano padece de uma surpreendente cegueira para o futuro. quer dizer. um rector rerum publicarum. Sem o apoio de autêntico sufrágio as instituições democráticas estão no ar. Nenhuma magistratura gozava de autoridade. que tomar seus atos e dar-lhes seu nome. Dava a casualidade de que era precisamente César e não o manual de cesarismo que sói vir depois. pelo menos. Segunda. e os candidatos organizavam partidas de cacete . Toda nova conquista é um delito de lesa-república. o qual. entreteve-se em fazê-la. Mas isso não é ser insensível ao tempo. e informado por aquele mergulha na atualidade. para nós. a fim de regular o funcionamento das instituições republicanas.A rebelião das massas. No ar estão as palavras. defeituoso da asa futurista e com hipertrofia de antanhos. se queremos entender aquela política. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.exibiam insolências em vazias ditaduras que não levavam a nada. Disse-se (Spengler) que os greco-romanos eram incapazes de sentir o tempo. ou. resumem o pensamento de todos os publicistas pedindo um princips civitatis. Para nós a palavra "príncipe" tem um sentido quase oposto ao que tinha para um romano. foi necessário falsificá-las. como o daltonista não vê a cor vermelha. A solução de César é totalmente oposta à conservadora. de ver sua vida como uma dilatação na temporalidade. com atletas do circo . Esta como mania de tomar todo presente com as pinças de um exemplo pretérito. os transtornos da vida pública romana provêem de sua excessiva expansão. mas que era investido de poderes superiores. que ao olhar a vida greco-romana nos pareça anacrônica. indaga em toda atualidade um precedente.htm (83 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mais perigosos em um futuro não muito remoto que as nações corruptas do Oriente.

A rebelião das massas.

ao qual denomina, com lindo vocábulo de égloga, sua "fonte". Digo isto porque já os antigos biógrafos de César se fecham à compreensão desta enorme figura supondo que tratava de imitar Alexandre. A equação impunha-se: se Alexandre não podia dormir pensando nos lauréis de Milcíades, César devia forçosamente sofrer de insônia pelos de Alexandre. E assim sucessivamente. Sempre o passo atrás e o pé de hoje na pegada de ontem. O filólogo contemporâneo repercute o biógrafo clássico. Crer que César aspirava a fazer algo assim como o que fez Alexandre - e isto creram quase todos os historiadores - é renunciar radicalmente a entendê-lo. César é aproximadamente o contrário de Alexandre. A idéia de um reino universal é o único que os emparelha. Mas esta idéia não é de Alexandre, mas vem da Pérsia. A imagem de Alexandre teria empurrado César para o Oriente, para o prestigioso passado. Sua preferência radical pelo Ocidente revela melhor a vontade de contradizer o macedônio. Mas, ainda mais, não é um reino universal, apenas, o que César se propõe. Seu propósito é mais profundo. Quer um Império romano que não viva de Roma, mas da periferia, das províncias, e isso implica a superação absoluta do Estado-cidade. Um Estado onde os povos mais diversos colaborem, de que todos se sintam solidários. Não um centro que manda e uma periferia que obedece, mas um gigantesco corpo social, onde cada elemento seja por sua vez passivo e ativo do Estado. Tal é o Estado moderno, e esta foi a fabulosa antecipação de seu gênio futurista. Mas isso supunha um poder extraromano, anti-aristocrata, infinitamente elevado sobre a oligarquia republicana, sobre seu príncipe, que era só um primus inter pares. Este poder executor e representante da democracia universal só podia ser a Monarquia com sua sede fora de Roma. República! Monarquia! Duas palavras que na história trocam constantemente de sentido autêntico, e que por isso é preciso a todo instante triturar para certificar-se de sua eventual força. Seus homens de confiança, seus instrumentos mais imediatos, não eram arcaicas ilustrações da urbe, mas gente nova, provinciais, personagens enérgicos e eficientes. Seu verdadeiro ministro foi Cornélio Balbo, um homem de negócios gaditano, um atlântico, um "colonial ". Mas a antecipação do novo Estado era excessiva: as cabeças lentas do Lácio não podiam dar brinco tão grande. A imagem da cidade, com seu tangível materialismo, impediu que os romanos "vissem" aquela organização novíssima do corpo público. Como podiam formar um Estado homens que não viviam numa cidade? Que gênero de unidade era essa, tão sutil e tão mística? Repito uma vez mais: a realidade que chamamos Estado não é a espontânea convivência de homens que a consangüinidade uniu. O Estado começa quando se obriga a conviver a grupos nativamente separados. Esta obrigação não é desnuda violência, mas que supõe um processo incitativo, uma tarefa comum que se propõe aos grupos dispersos. Antes que nada é o Estado projeto de um fazer e programa de colaboração. Chama-se às pessoas para que juntas façam algo. O Estado não é consangüinidade, nem unidade lingüística, nem unidade territorial, nem contiguidade de habitação. Não é nada material, inerte, dado e limitado. É um puro dinamismo - a vontade do fazer algo em comum -, e mercê a isso a idéia estatal não está por nenhum termo físico (78). Agudíssima a conhecida empresa política de Saavedra Fajardo: uma flecha, e debaixo: "Ou sobe ou desce". Isso é o Estado. Não uma coisa, mas um movimento. O Estado é em todo instante algo que vem de e vai para. Como todo movimento, tem um terminus a quo e um terminus ad quem. Corte-se por

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A rebelião das massas.

qualquer hora a vida de um Estado que o seja verdadeiramente, e se achará uma unidade de convivência que parece fundada em tal ou qual atributo material: sangue, idioma, "fronteiras naturais". A interpretação estática nos levará a dizer: isso é o Estado. Mas logo advertimos que essa agrupação humana está fazendo algo comunal: conquistando outros povos, fundando colônias, federando-se com outros Estados; quer dizer, que em toda hora está superando o que parecia princípio material de sua unidade. E o terminus ad quem, é o verdadeiro Estado, cuja unidade consiste precisamente em superar toda unidade dada. Quando esse impulso para o mais além cessa, o Estado automaticamente sucumbe, e a unidade que já existia e parecia fisicamente cimentada - raça, idioma, fronteira natural - não serve de nada: o Estado se desagrega, se dispersa, se atomiza. Só essa duplicidade de momentos no Estado - a unidade que já é e a mais ampla que projeta - permite compreender a essência do Estado nacional. Sabido é que ainda não se logrou dizer em que consiste uma nação, se damos a este vocábulo uma acepção moderna. O Estado-cidade era uma idéia muito clara, que se via com os olhos da cara. Mas o novo tipo de unidade pública que germinava em galos e germanos, a inspiração política do Ocidente, é coisa muito mais vaga e fugidia. O filólogo, o historiador atual, que é de seu arcaizante, encontra-se ante este formidável fato quase tão perplexo como César e Tácito quando com sua terminologia romana queriam dizer o que eram aqueles Estados incipientes, transalpinos e ultra-renanos, ou bem os espanhóis. Chamam-nos civitas, gens, natio, percebendo que nenhum destes nomes coincide com a coisa (79). Não são civitas, pela simples razão de que não são cidades (80). Mas nem sequer cabe indefinir o termo e aludir com ele um território delimitado. Os povos novos trocam com suma facilidade de torrão, ou pelo menos ampliam e reduzem o que ocupavam. Tampouco são unidades étnicas - gentes, nationes. - Por muito longe que recorramos, os novos Estados aparecem já formados por grupos de nacionalidades independentes. São combinações de sangues diferentes. Que é, pois, uma nação, já que não é nem comunidade de sangue, nem adscrição a um território, nem coisa alguma desta ordem? Como sempre acontece, também neste caso uma pulcra submissão aos fatos nos dá a chave. Que é que salta aos olhos quando repassamos a evolução de qualquer "nação moderna" - França, Espanha, Alemanha -? Simplesmente isto: o que em certa data parecia constituir a nacionalidade aparece negado numa data posterior. Primeiro, a nação parece a tribo, e a não-nação a tribo de ao lado. Depois a nação se compõe de duas tribos, mais tarde é uma comarca e pouco depois é já todo um condado ou ducado ou "reino". A nação é Leão, mas não Castela; depois é Leão e Castela, mas não Aragão. É evidente a presença de dois princípios: um, variável e sempre superado - tribo, comarca, ducado, "reino", com seu idioma ou dialeto -; outro, permanente, que salta libérrimo sobre todos esses limites e postula como unidade o que aquele considerava precisamente como radical contraposição. Os filólogos - chamo assim aos que hoje pretendem denominar-se "historiadores" - praticam o mais delicioso truísmo quando partem do que agora, nesta data fugaz, nestes dois ou três séculos, são as nações do Ocidente e supõem que Vercingetorix ou que Cid Campeador queriam já uma França deste Saint-Malo a Estrasburgo - precisamente - ou uma Spania desde Finisterre a Gibraltar. Estes filólogos como o ingênuo dramaturgo - fazem quase sempre que seus heróis partam para a guerra dos Trinta Anos. Para nos explicar como se formaram a França e a Espanha, supõem que a França e a Espanha preexistiam como unidades no fundo das almas francesas e espanholas. Como se existissem franceses e espanhóis originariamente antes de que a França e a Espanha existissem! Como se o francês e o espanhol não fossem simplesmente coisas que foram formadas em dois mil anos de faina!

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A rebelião das massas.

A verdade pura é que as nações atuais são apenas a manifestação atual daquele princípio variável, condenado à perpétua superação. Esse princípio não é agora o sangue nem o idioma, posto que a comunidade de sangue e de idioma na França ou na Espanha foi efeito, e não causa, da unificação estatal; esse princípio é agora a "fronteira natural". Está bem que um diplomata empregue em sua esgrima astuta este conceito de fronteiras naturais, como ultima ratio de suas argumentações. Mas um historiador não pode entrincheirar-se atrás dele como se fosse um reduto definitivo. Nem é definitivo, nem sequer suficientemente específico. Não se esqueça qual é, rigorosamente proposta, a questão. Trata-se de averiguar que é o Estado nacional - o que hoje costumamos chamar nação -, a diferença de outros tipos de Estado, como o Estado-cidade ou, indo ao outro extremo, como o Império que Augusto fundou (81). Se se quer formular o tema de modo ainda mais claro e preciso, diga-se assim: Que força real produziu essa convivência de milhões de homens sob uma soberania de Poder público que chamamos França, ou Inglaterra, ou Espanha, ou Itália, ou Alemanha? Não foi a prévia comunidade de sangue, porque cada um desses corpos coletivos está regado por torrentes cruentas muito heterogêneas. Não foi tampouco a unidade lingüística, porque os povos hoje reunidos em um Estado falavam ou falam ainda idiomas diferentes. A relativa homogeneidade de raça e língua de que hoje gozam - supondo que isso seja um gozo - é resultado da prévia unificação política. Portanto, nem o sangue nem o idioma fazem o Estado nacional; pelo contrário, é o Estado nacional quem nivela as diferenças originárias de glóbulo vermelho e som articulado. E sempre aconteceu assim. Poucas vezes, para não dizer nunca, terá o Estado coincidido com uma identidade prévia de sangue ou idioma. Nem a Espanha é hoje um Estado nacional porque se fale em toda ela o espanhol (82), nem foram Estados nacionais Aragão e Catalunha porque em certo dia, arbitrariamente escolhido, coincidissem os limites territoriais de sua soberania com os da fala aragonesa ou catalã. Estaríamos mais próximos da verdade se, respeitando a casuística que toda realidade oferece, nos inclinássemos a esta presunção: toda unidade lingüística que abarca um território de alguma extensão é quase certamente precipitado de alguma unificação política precedente (83). O Estado tem sido sempre o grande turgimão. Há muito tempo que isto consta, e é muito estranha a obstinação com que, entretanto, se persiste em dar à nacionalidade como fundamentos o sangue e o idioma. Nisso eu vejo tanta ingratidão como incongruência. Porque o francês deve sua França atual, e o espanhol sua atual Espanha, a um princípio X, cujo impulso consistiu precisamente em superar a estreita comunidade de sangue e de idioma. De sorte que a França e a Espanha consistiriam hoje no contrário do que as tornou possíveis. Igual tergiversação comete-se ao querer fundar a idéia de nação numa grande figura territorial, descobrindo o princípio de unidade, que sangue e idioma não proporcionam, no misticismo geográfico das "fronteiras naturais". Tropeçamos aqui com o mesmo erro de ótica . O acaso da data atual mostra-nos as chamadas nações instaladas em amplos torrões do continente ou nas ilhas adjacentes. Desses limites atuais quer fazer-se algo definitivo e espiritual. São, dizem, "fronteiras naturais", e com sua "naturalidade" significa-se uma como mágica predeterminação da história pela via telúrica. Mas este mito volatiliza-se imediatamente submetendo-o ao mesmo raciocínio que invalidou a comunidade de sangue e de idioma como fontes da nação. Também aqui, se retrocedemos alguns séculos, surpreende-nos a França e a Espanha dissociadas em nações menores, com suas inevitáveis "fronteiras

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Nação . se se interpreta a realidade efetiva da situação política em cada época e se revive seu espírito. A montanha fronteiriça seria menos prócer que o Pirineu ou os Alpes e barreira líquida menos caudalosa que o Reno. Não é a comunidade nativa de uma ou outra o que constituiu a nação. provincianos. As fronteiras de ontem e de anteontem não nos parecem hoje fundamentos da nação francesa ou espanhola. mas.eram apenas súditos. afinal das contas. uno com ele. tem sido muito diferente conforme os tempos. A forma. Dominados estes energicamente. pelo contrário: estorvos que a idéia nacional encontrou em seu processo de unificação. já que não têm sido o fundamento positivo destas? A coisa é clara e de suma importância para entender a autêntica inspiração do Estado nacional diante do Estado-cidade. Não há. A realidade histórica da famosa "fronteira natural" consiste simplesmente em ser um estorvo à expansão do povo A sobre o povo B. mas sempre participou dele. porque nestas achamos uma intimidade e solidariedade radical dos indivíduos com o Poder público desconhecidas no Estado antigo. Tem havido grandes diferenças de condição social e estatuto pessoal. se acreditou necessário recorrer a raça. Por que. Pois bem: exatamente o mesmo papel corresponde à raça e à língua. pois. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. participe e colaborador. e depois.significa a "união hipostática" do Poder público e a coletividade por ele regida.de convivência ou de guerra . colonos . desta união com e no Estado. Não obstante o que. e não em princípios forasteiros de caráter biológico ou geográfico. Porque é um estorvo .A rebelião das massas. língua e território nativos para compreender o fato maravilhoso das modernas nações? Pura e simplesmente. produziu uma relativa unificação de sangues e idiomas que serviu para consolidar a unidade. princípio da nação.htm (87 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Qual tem sido então o papel das fronteiras na formação das nacionalidades. o passo de Calais ou o estreito de Gibraltar. a possibilidade da expansão e fusão ilimitada entre os povos.para A. Não foram. Em Atenas e em Roma só uns quantos homens eram o Estado. aliados. Pelo visto. E claro que ao desfazer uma tergiversação serei eu quem pareça cometê-la agora. foram meio material para assegurar a unidade. os demais . sobretudo jurídica. em sua política mesma. é uma defesa para B. As fronteiras serviram para consolidar em cada momento a unificação política já alcançada. frente às muitas raças e às muitas línguas. mas ao contrário: a princípio foram estorvo. pois. pois.escravos. outro remédio senão desfazer a tergiversação tradicional padecidas pela idéia de Estado nacional e habituar-se a considerar como estorvos primários para a nacionalidade precisamente as três coisas em que se acreditava consistir. aparece evidente que todo indivíduo se sentia sujeito ativo do Estado. mas ao contrário: o Estado nacional encontrou-se sempre. uma vez alheada. na Espanha. ninguém foi nunca só súdito do Estado. só um obstáculo material lhes põe um freio. naturais".no sentido que este vocábulo emite no Ocidente de há mais de um século . em seu afã de unificação. como mais natural ainda que a fronteira. Depende dos meios econômicos e bélicos da época. ingenuamente. É preciso resolver-se a procurar o segredo do Estado nacional em sua peculiar inspiração como tal Estado. queremos atribuir um caráter definitivo e fundamental às fronteiras de hoje. Na Inglaterra. classes relativamente privilegiadas e classes relativamente postergadas. A idéia de "fronteira natural" implica. como com outros tantos estorvos. na França. apesar de que os novos meios de tráfego e guerra anularam sua eficácia como estorvos. Mas isso apenas demonstra que a "naturalidade" das fronteiras é meramente relativa.

Tendência política tal avançará inexoravelmente para unificações cada vez mais amplas. Se ele é um projeto de empresa comum. e se diz que é um "plebiscito cotidiano". Não o que fomos ontem. duas Romas: o Senado e o povo. simplesmente porque nela se ajunta ao sangue. E é que o europeu. pretérita. acaba-se sempre por aceitar como a melhor a fórmula de Renan. Não é a comunidade anterior.primitiva. ficam em segundo plano. e teve de se defender exclusivamente com seus meios burocráticos de administração e de guerra. classe social. a saber: como dualidade de dominantes e dominados (84). entretanto. relativamente ao homo antiquus. mas o que é mais característico ainda do Estado nacional: a fusão de todas as classes sociais dentro de cada corpo político. Por isso o Império ameaçado não pode contar com o patriotismo dos outros. Roma manda e educa os italiotas e as províncias. que vive conscientemente instalado nele e dele decide sua conduta presente. Não só de um povo com outro. A capacidade de fusão é ilimitada. num sentido mais decisivo que todas as diferenças nas formas de governo. Mas. programa de ação ou conduta humanos. ao definir a nação fundando-a numa comunidade de pretérito. medieval ou moderna -. Daí a facilidade com que a unidade política brinca no Ocidente sobre todos os limites que aprisionaram o Estado antigo. mas a comunidade futura no efetivo fazer. A unificação estatal não passou nunca de mera articulação entre os grupos que permaneceram externos e estranhos uns aos outros. elemental e tosca. mas o que vamos fazer amanhã juntos. sem que haja nada que em princípio a detenha. Não se esqueça que. é sujeito político.a que proporciona título para a convivência política. a rigor. E curioso notar que. tradicional e imemorial . o Estado consiste. de uma maneira simples. Desta sorte. Conforme cresce a nação. forma parte ativa do Estado. vai-se fazendo mais una a colaboração interior. O Estado é sempre. no corpo urbano que uns muros delimitam fisicamente. fatal e irreformável . antiga. muito mais verdadeiro? file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. entende-se bem o que esta expressão significa? Não podemos dar-lhe agora um conteúdo de signo oposto ao que Renan lhe insufla. Esta empresa. a comunidade na atuação. Roma foi.htm (88 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Assim.A rebelião das massas. e que é. finalmente. em organizar certo tipo de vida comum. Esta incapacidade de todo grupo grego e romano para fundir-se com outros provém de causas profundas que não convém perscrutar agora. Na mesma urbe não conseguiu a fusão política dos cidadãos. nos reúne em Estado. mas não os eleva a união consigo. O Estado nacional é em sua raiz mesma democrático. consiste. se comporta como um homem aberto ao futuro.raça. o convite que um grupo de homens faz a outros grupos humanos para juntos executar uma empresa. Mas os povos novos trazem uma interpretação do Estado menos material. o idioma e as tradições comuns um atributo novo. obedecer e não mandar. A Roma tocava mandar e não obedecer. queira-se ou não. o Estado se materializa no pomoerium. Segundo isto. o Estado antigo não acerta nunca a fundir-se com os outros. qualquer que seja sua forma . sua realidade é puramente dinâmica: um fazer. durante a República. Estado e projeto de vida. aos demais. são termos inseparáveis. adscrição geográfica.em suma. territorial e etnicamente. quaisquer que sejam seus trâmites intermediários. As diferentes classes de Estado nascem das maneiras segundo as quais o grupo empresário estabeleça a colaboração com os outros. e que finalmente se resumem em uma: o homem antigo interpretou a colaboração em que. sangue. todo aquele que preste adesão à empresa .

Se a nação consistisse nisso e em mais nada. a vida humana é constante ocupação com algo futuro. fazer. mas por isso mesmo é surpreendente notar como nela triunfa o puro princípio de unificação humana em torno a um incitante programa de vida. sempre. Se para que exista uma nação é preciso que um grupo de homens conte com um passado comum. uma herança de glórias e remorsos. a idéia nacional conserva não pouco lastro de adscrição ao passado. rígidos. Que neste caso o futuro consista numa perduração do passado não modifica em nada a questão. De fato. Se a nação consistisse não mais que em passado e presente. teriam ficado inexistentes (86).htm (89 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Porque essa interpretação confunde o que impulsa e constitui uma nação com o que meramente a consolida e conserva. Mas acontece que o passado nacional projeta aliciantes . não nosso ontem. No passado. ao território. Parece-nos desejável um porvir no qual nossa nação continue existindo. Por que não se reparou em que fazer. Tal é a conhecidíssima sentença de Renan. Como se explica sua excepcional fortuna? Sem dúvida. Conste. não pelo sangue. Desde o instante atual nos ocupamos do que sobrevem. Queira-se ou não. circunscrita pelo sangue. O plebiscito decide um futuro. ainda que não seja mais que o prazer de reviver o passado.diga-se de uma vez . querer fazer outras mais. a Alemanha. pois: nada tem sentido para o homem. Não é o patriotismo .. significa realizar um futuro? Inclusive quando nos entregamos a recordar. VIII "Ter glórias comuns no passado. Por isso viver é sempre.. com o que não teríamos nada que fazer. De haver existido na Idade Média esse conceito oitocentista de nacionalidade. todo fazer. A existência de uma nação é um plebiscito cotidiano".reais ou imaginários . uma vontade comum no presente. a nação seria uma coisa situada às nossas costas. ninguém se ocuparia de defendê-la contra um ataque. inertes.quem fez as nações. por isso o fazemos. haver feito juntos grandes coisas. Isso é o que reverbera na frase de Renan: a nação como excelente programa para amanhã. a Espanha. fatais. pela graça da nota. a Inglaterra. Mais: eu diria que esse lastro de pretérito e essa relativa limitação dentro de princípios materiais não têm sido nem são por completo espontâneos nas almas do Ocidente. língua e passado comuns são princípios estáticos. Esta idéia de que a nação consiste num plebiscito cotidiano opera sobre nós como uma liberação.. Crer o contrário é o truísmo a que já aludi e que o próprio Renan admite em sua famosa definição. mas que procedem da interpretação erudita dada pelo romanticismo à idéia de nação. o Estado nacional representaria um princípio estatal mais próximo à pura idéia de Estado que a antiga polis ou que a "tribo" dos árabes. nem pelo comum passado. A nação seria algo que se é.A rebelião das massas.. Os que afirmam o contrário são hipócritas ou mentecaptos. eis aqui as condições essenciais para ser um povo. Nem sequer teria sentido defendê-la quando alguém a ataca. à raça. Portanto. um mesmo programa para realizar. no porvir. Ao defender a nação defendemos nosso amanhã. Fazemos memória neste segundo para lograr algo no imediato.no futuro. Este modesto prazer solitário se nos apresentou há pouco como um futuro desejável. sem pausa nem descanso. nem pelo idioma. eu me pergunto como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. são prisões. unicamente revela que também a definição de Renan é arcaizante. a França. Sangue. senão em função do porvir (85). mas não algo que se faz. Por isso nos mobilizamos em sua defesa.

Mas no Ocidente a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o maravilhoso.como algo estranhos a eles. como aconteceu tantas vezes. pois. entretanto. Pelo visto era forçoso que essa existência comum fenecesse. que.htm (90 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Com os povos do Centro e da América Meridional tem a Espanha um passado comum. não estava sujeita a outras condições senão à eficácia bélica e administrativa do conquistador. Esta é a ótica decisiva. Eu preferiria trocar-lhe o signo e fazê-lo valer para a nação in statu nascendi. uma nação não está nunca feita. tem um valor transitório e cambiante. em verdade. para que pudessem dizer: somos uma nação. Nisto se diferencia de outros tipos de Estado. Por isso o mais instrutivo seria reconstruir a série de empresas unitivas que sucessivamente inflamaram os grupos humanos do Ocidente. linguagem comum. cuja perpetuação decide. da nacionalidade . Um povo . na medida de que houvesse ou não empresa à vista. Ou está ganhando adesões ou está perdendo-as. é a essencial: o futuro comum. passasse. segundo. Vejo. e. O plebiscito futurista foi adverso à Espanha. tudo isso serve de forças de consolidação.tribo ou urbe -. Como a unidade não era autêntica. representa o conteúdo. Por que? Falta só uma coisa.podia submeter à unidade de soberania quaisquer porções do planeta. antes de tudo. Tudo que além disso pareça ser. as memórias. não só no público. não forma com eles uma nação. a "pátria". ainda que fracasse a execução. Falaríamos em tal caso de uma nação malograda (por exemplo. Renan encontrou a palavra mágica. interna nem definitiva. o macedônio ou o romano . por isso que o Estado propriamente tal ficava sempre inscrito em uma limitação fatal . a adesão dos homens a esse projeto incitativo. e de nada valeram então os arquivos. mas tão somente (87). A Espanha não soube inventar um programa de porvir coletivo que atraísse esses grupos zoologicamente afins. A nação está sempre ou fazendo-se ou desfazendo-se. os súditos são já o Estado e não o podem sentir . teve de criar essa comunidade. Quando há aquilo. Esta adesão de todos engendra a interna solidez que distingue o Estado nacional de todos os antigos.isto é o novo. Então ver-se-ia como delas têm vivido os europeus. Não se adverte aqui o vício gremial do filósofo. Renan anula ou quase seu acerto. Borgonha). Outra coisa mostraria claramente esse estudo. que se compõe destes dois ingredientes: primeiro. que se refere a uma nação já feita. Tertium non datur. exista um passado. conforme seu Estado represente ou não no momento uma empresa vivaz.A rebelião das massas. e antes de criá-la teve de sonhá-la. os antepassados. como "treinaram" ou se desmoralizaram. mas até em sua existência mais privada. um projeto de convivência total numa empresa comum. que estoura de luz. enquanto aqui nasce o vigor estatal da coesão espontânea e profunda entre os "súditos". no Estado nacional uma estrutura histórica de caráter plebiscitário. dando ao plebiscito um conteúdo retrospectivo. nos quais a união se produz e mantém por pressão externa do Estado sobre os grupos díspares. eram praticamente limitadas. raça comum.o persa. de querê-la. ou a forma. ainda que não se alcance. antes de possuir um passado comum. mas a nação. E até que tenha o projeto de si mesma para que a nação exista. do arquivista. Na realidade. Porque. sua ótica profissional que lhe impede ver a realidade quando não é pretérita? O filólogo é quem necessita para ser filólogo que. pelo visto. por isso que não implicavam a adesão fundente dos grupos humanos sobre os quais se tentavam. Entretanto. de projetá-la. Ela nos permite vislumbrar catodicamente o segredo essencial de uma nação. chamaremos a esse mesmo grupo de homens enquanto vivia em presente isso que visto hoje é um passado. As empresas estatais dos antigos. ou a consolidação que em cada momento requer o plebiscito.

O Estado goza de plena consolidação. em todo caso. As guerras nacionalistas servem para nivelar as diferenças de técnica e de espírito. Pouco a pouco vai se destacando no horizonte a consciência de que estes povos inimigos pertencem ao mesmo círculo humano que o nosso Estado. A meu ver. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E. reconhecer-se-á que não chega sequer ao vigor e precisão que já tem para os gregos do IV a idéia da Hélade. que faz sentir o Estado como fusão de vários povos em uma unidade de convivência política e moral.A rebelião das massas. Sói afirmar-se que em tempo do Cid era já a Espanha Spania . mas porque a diversidade entre próximos é mais fácil de dominar. começa a atuar sobre os grupos mais próximos geográfica. A efetiva correspondência histórica seria melhor esta: a Hélade foi para os gregos do século IV. Por muita realidade que se queira dar a essa idéia no século XI. e em modo algum aspiração. Mas esta noção geográfico-administrativa era pura recepção. intelectual e moralmente com eles.htm (91 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Cresce a convicção de que são afins com o nosso em moral e interesses. em que se sentem os outros povos além do novo Estado como estranhos e mais ou menos inimigos. unificação nacional teve de seguir uma série inexorável de etapas. continuamos considerando-os como estranhos e hostis. Deveria estranhar mais o fato de que na Europa não tenha sido possível nenhum império do tamanho que alcançaram o persa. em suma. não íntima inspiração. por seu turno. e que juntos formamos um círculo nacional ante outros grupos mais distantes e ainda mais estrangeiros. Então surge a nova empresa: unir-se aos povos que até então eram seus inimigos. Spania. era uma idéia principalmente erudita. Não obstante. a Hélade não foi nunca verdadeira idéia nacional. não obstante. Terceiro momento. E é muito menos utópico crer nisso hoje assim como o houvera sido vaticinar no século XI a unidade da Espanha e da França. convive-se econômica. numa diocese do Baixo Império. Mas. Segundo momento. O peculiar instinto ocidental. e Spania para os "espanhóis" do XI e ainda do XIV. étnica e lingüisticamente. e esta unidade leon-castelã era a idéia nacional do tempo. O processo criador de nações teve sempre na Europa este ritmo: Primeiro momento. a idéia politicamente eficaz. O Estado nacional do Ocidente. A mera afinidade de ontem terá de esperar até amanhã para entrar em erupção de inspirações nacionais. o que a Europa foi para os "europeus" no século XIX. Mostra isto como as empresas de unidade nacional vão chegando à sua hora do modo como os sons em uma melodia. Isidoro falava da "mãe Espanha". Eis aqui madura a nova idéia nacional. o que hoje denominamos nacionalismo. e para superfetação da tese acrescenta-se que séculos antes já S. Não porque esta proximidade funde a nação. Mas o fato é que enquanto se sente politicamente os outros como estranhos e concorrentes. ao contrário. É o período em que o processo nacional toma um aspecto de exclusivismo. isso é um erro crasso de perspectiva histórica. quanto mais fiel permaneça a sua autêntica substância. Os inimigos habituais vão se fazendo historicamente homogêneos (88). tanto mais diretamente caminha para se depurar num gigantesco Estado continental.uma idéia nacional. de fechar-se em si mesmo dentro do Estado. Agora chega para os europeus a sazão em que a Europa pode converter-se em idéia nacional. o de Alexandre ou o de Augusto. Período de consolidação. uma de tantas idéias fecundas que deixou semeadas no Ocidente o Império romano. é quase certo que chegará sua hora. Um exemplo esclarecerá o que tento dizer. No tempo do Cid estava se começando a urdir o Estado Leão-Castela. Os "espanhóis" haviam se acostumado a ser reunidos por Roma numa unidade administrativa.

a política. Agora se vai ver se os europeus são também filhos da mulher de Lot e se obstinam em fazer história com a cabeça virada para trás. a idéia do Estado nacional que o europeu. permutavam-se idéias e formas de arte e artigos da fé. que sem adverti-lo começam já a abstrair de sua belicosa pluralidade. Uma das principais. pesa muito mais em cada um de nós o que tem de europeu que sua porção diferencial de francês. ao homem antigo. Afortunadamente. serviu-nos de admoestação. em cem se comerciava com o inimigo. Dir-se-ia que aquele fragor de batalhas foi só uma tela atrás da qual tanto mais tenazmente trabalhava a pacífica polipeira da paz. sentiria terror.opiniões. a homogeneidade das almas se acrescentava. Mas tudo isso. Espanha. mas do fundo comum europeu. enquanto se batalhava numa gleba. Veria que não lhe era possível viver só disso. Se se fizesse a experiência imaginária de se reduzir a viver puramente com o que somos.htm (92 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . em geral. etc. IX Apenas as nações do Ocidente preenchem seu atual perfil surge em torno delas e sob elas. mas possuem um mesmo plano ou arquitetura psicológicos e. pois. é muito difícil que certo tipo de homem abandone a idéia de Estado uma vez que ela se lhe encasquetou. normas. sente. Só se opõe a isso o prejuízo das velhas "nações". o deslocamento do poder que outrora exercia sobre o resto do mundo e sobre si mesmo nosso continente. nem o resto do mundo de ser mandado. o que nem na paz nem na guerra pode nunca fazer Roma com o celtibero. A soberania histórica acha-se em dispersão. formam ligas contrapostas. espanhol. em virtude de recepção dos outros países continentais. Se hoje fizéssemos balanço de nosso conteúdo mental . maior que se as almas fossem de idêntico calibre. A Europa não está certa de mandar. diga-se deste modo: as almas francesas e inglesas e espanholas eram. A alusão a Roma. A homogeneidade redunda. arte. ciência. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Alemanha. Ora bem: essas são as coisas espirituais de que se vive. são e serão tão diferentes como se queira. e essa paisagem européia são elas mesmas. mas. pensa. que entre outros sintomas se manifesta por uma desatorada rebelião das massas. o galo.A rebelião das massas. a idéia de nação como passado. vão adquirindo um conteúdo comum. Resumo agora a tese deste ensaio. Não se vislumbra que outra coisa de monta possamos fazer os que existimos neste lado do planeta se não é realizar a promessa que há quatro séculos significa o vocábulo Europa. trouxe ao mundo. com efeito. notaríamos que a maior parte de tudo isso não vem para o francês de sua França. a Europa. direito. Inglaterra. presunções -. recompõem-nas. é conviver de igual para igual. e tem sua origem na desmoralização da Europa. entretecendo a vida das nações hostis. A história destacou em primeiro termo as querelas e. não é a idéia erudita. pelejam entre si. que se lhe predicou. nem para o espanhol de sua Espanha. Se se quer mais exatidão e mais cautela. França. e em obra de mera fantasia se extirpasse do homem médio francês tudo que usa. Itália. e. filológica. desejos. como um fundo. guerra como paz. que as quatro quintas partes de seu haver íntimo são bens jacentes europeus. como "nacionais". em geral. Em cada nova geração. Sofre hoje o mundo uma grave desmoralização. Religião. que é o terreno mais tardio para a espiga da unidade. apercebendo-se dela ou não. As causas desta última são muitas. desfazem-nas. o britânico e o germano. valores sociais e eróticos vão sendo comuns. Hoje. E esta a unidade de paisagem em que se vai mover desde o Renascimento. sobretudo.

se ostenta. Dá-se o caso contraditório de um estilo de vida que cultiva a sinceridade e ao mesmo tempo é uma falsificação. nem as mulheres que tipo de homens preferem realmente. Não é criação do fundo substancial da vida. é precisamente falsificação da vida.as fronteiras militares e as econômicas. as fronteiras se hiperestesiam . a pluralidade atual não pode nem deve desaparecer. de molas vitais. e por isso a vida do mundo entrega-se a uma escandalosa interinidade. como se vai articular o poder sobre a terra. Tente-se projetá-los para o futuro e sentir-se-á o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Por isso é essencialmente provisória. afrouxam. tudo que hoje se faz em público e na vida privada . o que está em nossa mão pegar ou largar ou substituir. é provisional. A véspera de desaparecer. envilecem-se. desconjunta-se-lhes a alma. prefixado. Acertará quem não se fie de quanto hoje se apregoa. O derradeiro suspiro. Com mais liberdade vital que nunca sentimos todos que o ar é irrespirável dentro de cada povo. não há mais vida autóctone que a que se compõe de cenas iniludíveis. A atual é fruto de interregno. Tudo. como era o do século XIX. Cada nação que antes era a grande atmosfera aberta.repito . que povo ou grupo de povos. isto é.. posto que não se sabe quem vai mandar.htm (93 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A última chama. Tudo isso irá com mais celeridade do que veio. Já não se pode fazer nada com eles a não ser transcendê-los. a que vai ser. Já não há "plenitude dos tempos". se ensaia e se encomia. mais puramente dinâmica. e quanto mais extremo é seu gesto. Não há mais vida com raízes próprias. no mau sentido da palavra. E sempre . Não há hoje nenhum político que sinta a inevitabilidade de sua política. transformou-se em província e "interior". Mas . Tudo. Mas agora abre-se outra vez o horizonte para novas linhas incógnitas. menos exigido pelo destino. portanto. O resto.A rebelião das massas. Não se sabe para que centro de gravitação vão ponderar em um futuro próximo as coisas humanas. inequívoco. Nada disso tem raízes. Os círculos que até agora se chamaram nações chegaram há um século ou pouco menos à sua máxima expansão. aprisionando-o. porque tudo isso é pura invenção.alguns ensaiam salvar o momento por uma intensificação extremada e artificial. que a faz eqüivaler a capricho leviano. Quem. arejada. lastrando-o. de normas. não o esporte em si) até a violência em política. a idéia nacional. a mais extensa. que tipo étnico. exige a permanência ativa desse plural que sempre foi a vida do Ocidente.até no íntimo -. desde a "arte nova" até os banhos de sol nas ridículas praias da moda. Já não são senão passado que se acumula em torno e debaixo do europeu. não é afã nem mister autêntico. porque é um ar confinado. Na supernação européia que imaginamos. sem mais exceção que algumas partes de algumas ciências. tanto mais frívolo. desde a mania do esporte físico (a mania. que sistema de preferências. E nem os homens sabem bem a que instituições de verdade servir. portanto. Em suma: tudo isso é vitalmente falso. Todo o mundo percebe a urgência de um novo princípio de vida. Um começo disto oferece-se hoje a nossos olhos. Este é o sentido da erupção "nacionalista" nos anos que correm. que ideologia. Quando esta falta. Os europeus não sabem viver se não se lançam numa grande empresa unitiva. precisamente do princípio caduco. Então acreditava-se saber o que ia acontecer amanhã. o mais profundo. de um vazio entre duas organizações do mundo histórico: a que foi. Só há verdade na existência quando sentimos seus atos como irrevogavelmente necessários. Mas todos estes nacionalismos são becos sem saída. Enquanto o Estado antigo aniquilava o diferencial dos povos ou o deixava inativo fora ou em suma o conservava mumificado.aconteceu assim..como sempre acontece em crises parelhas . porque isto supõe um porvir claro.

Eu não participei de semelhante prognóstico. Minha presunção é a seguinte: agora. revelou-se como mais violento que todo o obreirismo junto. enquanto este é inclusivista. Não por ele mesmo. Não é. como sempre aconteceu no processo de nacionalização. Só a decisão de construir uma grande nação com o grupo dos povos continentais tornaria a dar tom à pulsação da Europa. A simplicidade de meios com que opera e a categoria dos homens que exalta revelam de sobra que é o contrário de uma criação histórica. Entretanto . as classes conservadoras.htm (94 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a disciplinar-se. por sua vez. que é um movimento petit bourgeois. Mas na Europa tudo está de sobra consolidado. acostume-se a não mandar nem se mandar. Porque agora sim pode derramar-se sobre a Europa o comunismo de roldão e vitorioso. um valor positivo e é uma alta norma. ajunta-se outro muito concreto e iminente. e automaticamente a exigir muito de si. não atrai. foi porque na Rússia não havia burgueses (89). pois ao perigo genérico de que a Europa se desmoralize definitivamente e perca toda a sua energia histórica. surdos e sem veracidade. Em tal caso. Esta: que o europeu não vê na organização comunista um aumento da felicidade humana. ir-se-iam volatilizando todas as suas virtudes e capacidades superiores. e atualmente está mais disposto à violência que os operários.A rebelião das massas. mas apesar dele.repito -. não desenha um porvir desejável aos europeus. Isto pode trazer para elas a catástrofe. nem é muito menos temor. como todos os apóstolos. Pelo contrário: por aqueles anos escrevi que o comunismo russo era uma substância inassimilável para os europeus. Ninguém ignora que se triunfou na Rússia o bolchevismo. Qualquer que seja o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. nada disso o que impede ao europeu embalar-se comunisticamente. e o nacionalismo não é mais que uma mania. o conteúdo do credo comunista à russa não interessa. Em época de consolidação tem. choque. Hoje parecem-nos bastante ridículos os arbitrários supostos em que há vinte anos fundava Sorel sua tática da violência. porfiados. Voltaram à tranqüilidade quando chega justamente a época para que a perdessem. O fascismo. Mas a situação é muito mais perigosa do que se pode apreciar. E não pelas razões triviais que seus apóstolos. O burguês não é covarde. o homem que vive exclusivamente de suas rendas e que as transmite a seus filhos tem os dias contados. soem verbificar. O nacionalismo é sempre um impulso de direção oposta ao princípio nacionalizador. mesmo sem comunismo. o pretexto que se oferece para iludir o dever de invenção e de grandes empresas. Vão passando os anos e corre-se o risco de que o europeu se habitue a este tom menor de existência que leva agora. Imagine-se que o "plano qüinqüenal" seguido herculeamente pelo Governo soviético conseguisse suas previsões e a enorme economia russa ficasse não só restaurada. Os bourgeois do Ocidente sabem muito bem que. Não é isso o que imuniza a Europa para a fé russa. Quando o comunismo triunfou na Rússia muitos acreditaram que todo o Ocidente ficaria inundado pela torrente vermelha. e hoje voltaram à tranqüilidade os temerosos de outrora. parece-me muitíssimo possível que nos anos próximos a Europa se entusiasme pelo bolchevismo. Mas à unidade da Europa opõem-se. Por aí não se sai para lado nenhum. como ele cria. mas uma razão muito mais simples e prévia. pois. casta que pôs todos os esforços e fervores de sua história na carta Individualidade. Voltaria ela a crer em si mesma. mas exuberante. como antes. É exclusivista. O tempo correu.

Não parece mais decente e fecundo opor a essa moral eslava uma nova moral do Ocidente. tão só que lhe deixe via um pouco franca.todos os grupos que significam sobrevivências do passado . -.htm (95 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Qualquer substância que caia sobre uma alma assim. conteúdo do bolchevismo. seu esplêndido caráter de magnífica empresa irradiará sobre o horizonte continental como uma ardente e nova constelação. etc. se sinta arrastado por sua atitude moral. os velhos liberais. entretanto. seu estado de ânimo consistirá. decisivamente. os "idealistas". como poderia evitar o efeito contaminador daquela empresa tão prócer? E não conhecer o europeu esperar que possa ouvir sem se acender essa chamada a novo fazer quando ele não tem outra bandeira de semelhante altaneria que desfraldar ovante. em ignorar toda obrigação e sentir-se. Os técnicos da economia política garantem que essa vitória tem mui escassas probabilidades de sua parte. Se a Europa. indócil aos entusiasmos do homem. O fracasso deste equivaleria à derrota universal: de todos e de tudo. representa um ensaio gigantesco de empresa humana. Nele os homens abraçaram resolutamente um destino de reforma e vivem tensos sob a alta disciplina que essa fé lhes injeta. Não acrediteis uma palavra quando ouvirdes os jovens falar da "nova moral". do homem atual.os cristãos. o lisonjearia. É indiferente que se mascare de reacionário ou de revolucionário: por ativa ou por passiva. e já que não por sua substância. Se a matéria cósmica. a única empresa que poderia contrapor-se à vitória do "plano qüinqüenal". Contanto que sirva a algo que dê um sentido à vida e fugir do próprio vazio existencial.A rebelião das massas. Nego rotundamente que exista em lugar algum do continente grupo algum informado por um novo ethos que tenha visos de u'a moral. mas que o centro de seu regime vital consiste precisamente na aspiração a viver sem sujeitar-se a moral alguma. ao cabo de umas ou outras voltas. Quando se fala da "nova" não se faz senão cometer uma imoralidade mais e buscar o meio mais cômodo para passar contrabando. a incitação de um novo programa de vida? XV. sem que ele mesmo suspeite por que sujeito de ilimitados direitos.como se fez neste ensaio . sem projeto de vida nova. Mas seria demasiado vil que o anticomunismo esperasse tudo das dificuldades materiais encontradas por seu adversário. não é difícil que o europeu engula suas objeções ao comunismo. DESEMBOCA-SE NA VERDADEIRA QUESTÃO Esta é a questão: a Europa ficou sem moral. e se converterá em file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ou melhor. dará um mesmo resultado.algo assim como uma moral -. O imoralismo chegou a ser tão barato que qualquer um alardeia exercitá-lo. Não é que o homem-massa menospreze uma antiquada em benefício de outra emergente. como grande Estado nacional. persiste no ignóbil regime vegetativo destes anos. Por essa razão seria uma ingenuidade lançar em rosto ao homem de hoje sua falta de moral. não se achará entre todos os que representam a época atual um só cuja atitude ante a vida não se reduza a crer que tem todos os direitos e nenhuma obrigação. A imputação não lhe causaria a menor impressão. não faz fracassar gravemente a tentativa. Eu vejo na construção da Europa. O comunismo é uma "moral" extravagante . frouxos os nervos por falta de disciplina. Se deixamos de um lado .

Embalou-se sem reservas pelo declive de uma cultura magnífica. entre irônico e terno. como tal. Quanto às outras Didaturas. O que com um vocábulo falto até de gramática se chama amoralidade. Sempre viveu de crédito.htm (96 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mas imoral. analisando sobretudo seu comportamento ante a civilização mesma em que nasceu. uma caduca e a outra em alvor. negação que oculta um efetivo parasitismo. o respeito ou estimação dos indivíduos superiores. de sujeitar-se à norma de negar toda moral. que o homem vulgar possa sentir-se livre de toda sujeição. já que pode demorar o cumprimento destas até as calendas gregas da madureza. sobretudo se o próximo possui uma personalidade valiosa. Quiçá não ofereça nosso tempo traço mais grotesco. Agora recolhe a Europa as penosas conseqüências de sua conduta espiritual. Como se pode acreditar na amoralidade da vida? Sem dúvida porque toda a cultura e a civilizacão moderna levam a esse convencimento. consciência de serviço e obrigação.A rebelião das massas. precisamente para atribuir-se todos os demais que pertencem só a quem tenha feito já alguma coisa. dá direito a alhear todas as outras normas e a massacrar o próximo.como a cortesia. que os não jovens concediam aos moços. tem. Não. e isto não é amoral. Com um ou com outro aspira-se sempre ao mesmo: que o inferior. O homem-massa carece simplesmente de moral. velis nolis. o miserável e a justiça social. mas uma simples negação. é uma coisa que não existe. Isto se acha na natureza do humano. por essência. será para poder afirmar que a salvação da pátria. As pessoas. considerou-se isento de fazer ou haver feito façanhas. chegou a fazer-se da juventude uma chantagem. Se você não quer submeter-se a nenhuma norma. se declaram "jovens" porque ouviram que o jovem tem mais direitos que obrigações. Eu sei de não poucos que ingressaram em um ou outro partido operário apenas para conquistar dentro de si mesmos o direito a desprezar a inteligência e poupar-se aos salamaleques diante dela. não lhe façamos tão fácil a tarefa. que é sempre. Era como um falso direito. Em realidade. sobretudo. Mas talvez é um erro dizer "simplesmente". entre ridículo e escandaloso. comicamente. O homem-massa está ainda vivendo precisamente do que nega e outros construíram ou acumularam. Da moral não é possível desentender-se simplesmente. Porque não se trata só de que este tipo de criatura se desentenda da moral. Mas é estupefaciente que agora o tomem estes como um direito efetivo. de que se tenha feito em nossos dias uma plataforma da "juventude" como tal. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E uma moral negativa que conserva da outra a forma em oco. Sempre o jovem. bem vimos como afagam o homem-massa. Importava fazer assim porque esse personagem não representa outra civilização que lute com a antiga. e. a veracidade. Se se apresenta como reacionário ou antiliberal. vivemos um tempo de chantagem universal que toma duas formas de esgar complementário: há a chantagem da violência e a chantagem do humorismo. em parte. pateando quanto parecia eminência. do Estado. lhe serve de disfarce para poder desentender-se de toda obrigação . em última instância. delas provém esta forma humana agora dominante. sentimento de submissão a algo. Por isso não convinha mesclar seu psicograma com a grande questão: que insuficiências radicais padece a cultura européia moderna? Porque é evidente que. Neste ensaio desejou-se desenhar certo tipo de europeu. Essa esquivança a toda obrigação explica. Por isso não cabe enobrecer a crise presente mostrando-a como o conflito entre duas morais ou civilizações. mas sem raízes. o fenômeno. pretexto para não se sujeitar a nada concreto. Mas a mesma coisa acontece se dá para ser revolucionário: seu aparente entusiasmo pelo operário manual. Embora pareça mentira.

com efeito. incluso das que acabo de proferir. O interessante seria precisar quais são os atributos surpreendentes. E como a sociologia é uma das disciplinas sobre as quais as pessoas têm em todas as partes menos idéias claras. Talvez possa em breve ser exaltada. como tudo que é humano. que se corrige. o maravilhoso não pertence. Ainda menos tentar a explicação de como chegou a ser essa estranha coisa que é. a que tivera durante dois séculos e que em forma superlativa estava chamado a exercer hoje. a nação não nasce. pelo menos. Obrigaria a desenvolver com plenitude a doutrina sobre a vida humana que. eu assinalava com fé robusta a missão européia do povo inglês. porque é excessiva. mas à ordem sociológica. Não me refiro ao inglês individual. O excepcional da Inglaterra não jaz no tipo de indivíduo humano que soube criar. mas ao corpo social. que se desenvolve. Mas mesmo aquele que estime o modo de ser dos homens ingleses acima de todos os demais. dizer por que é estranha e por que é maravilhosa a Inglaterra. mas uma fabricação. É uma empresa que dá bem ou mal. não é um dom inato. coçando a cabeça. O estranho. Mas essa grande questão tem de permanecer fora destas páginas. murmurada nelas. cinge-se ao vento e a guinada de seu leme modifica o destino do mundo. é portentosa. Enquanto se acredite que um povo possui um "caráter" prévio e que sua história é uma emanação deste caráter.A rebelião das massas. Dizia-se que era um povo em decadência. É evidente que há muitas maneiras de fazer história. quase tantas como de desfazê-las. não haverá maneira nem sequer de iniciar a conversação. sem muitas preparações.htm (97 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . EPÍLOGO PARA INGLESES Daqui a pouco faz um ano que numa paisagem holandesa. Em que pese esta vez à etimologia. se faz. da vida inglesa nos últimos cem anos. por inércia mental. apesar do pedante que é. e tem de voltar a começar.. usando um símil humorístico. Naquela data começava para a Inglaterra uma das etapas mais problemáticas de sua história e havia muito poucas pessoas na Europa que confiassem nas suas virtudes latentes. desde já. reatar. O que então não imaginava é que tão rapidamente viessem os fatos confirmar meu prognóstico e a incorporar minha esperança. não seria possível. Há várias centúrias acontece periodicamente que os continentais acordam uma manhã e. exclamam: "Esta Inglaterra!. reduz o assunto file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. atribuía eu a Inglaterra ante o Continente. o fato mais estranho que há no planeta. sobressalto e a consciência de ter a sua frente algo admirável. A manobra de saneamento histórico que tenta a Inglaterra.. Tudo isso sem uma gesticulação e muito além de todas as frases. O "caráter nacional". pois. No meio da mais atroz tormenta. Durante os últimos tempos falharam tantas coisas que. O caráter nacional vai se fazendo e desfazendo e refazendo na história. Depois viria a tentativa de mostrar como adquiriu a Inglaterra essas qualidades sociológicas. como um contraponto. que já foi afugentado de outros acontecimentos. Não obstante . É sobremaneira discutível que o inglês individual valha mais que outras formas de individualidade aparecidas no Oriente e no Ocidente. em seu interior. se tende a duvidar de tudo. que "perde o fio" uma ou várias vezes. escrevi o Prólogo para franceses à primeira edição popular deste livro. por insólitos. ou. onde o destino me havia centrifugado." É uma expressão que significa surpresa. vira dois quadrantes. Insisto em empregar esta palavra. insinuada. fica entrelaçada. o navio inglês troca todas as suas velas. até da Inglaterra. à ordem psicológica. mas incompreensível. à coletividade dos ingleses. E preciso extirpar da história o psicologismo.e ainda arrostando certos riscos de que não quero falar agora -. Muito menos que se comprazessem com tal precisão em ajustar-se ao papel determinadíssimo que. que se inicia após um período de ensaios. porque atrás dela está o verdadeiramente essencial e fértil. O povo inglês é.

a uma questão de mais ou de menos. Eu sustento. postos atrás de seus cachimbos. Nisto sim é que se contrapõe a todos os demais povos e não é questão de mais ou de menos. mas sim nos países . como as de um homem. línguas feitas à força de palavreados infindáveis . o mais estimável que há no mundo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que o excepcional. que nos educou. esganiçar-se. velam os ingleses alerta sobre seus próprios segredos para que não escape nenhum. o leitor não esquecerá o destinatário. o primeiro que vemos são as suas fronteiras. que é. que a originalidade extrema do povo inglês radica em sua maneira de tomar o lado social ou coletivo da vida humana. por minha vez. O homem do Sul propende a ser gárrulo. no modo como sabe ser uma sociedade. Dirigidas a ingleses. mas deliciosas.em ágora e praça.já a suspicácia do público inglês não tolerava outra coisa . O que mais me surpreendeu é a decidida vontade de não tomar conhecimento das coisas que há na opinião pública desses países. Tenha-se presente que a Inglaterra não é um povo de escritores mas de comerciantes. quer dizer. e importa sobremaneira à espécie humana que se conserve intacto esse tesouro e essa energia de taciturnidade.htm (98 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . dando ao vento em formas claras e eufônicas a mais arcana intimidade.A rebelião das massas. os ouvimos emitir a série de leves miados displicentes em que consiste seu idioma. a dureza de cabeça. representam um esforço de acomodação a seus usos. O nervosismo dos últimos meses fez que quase todas as nações tivessem vivido encarapitadas em suas fronteiras. tem havido a radical decisão de não querer ouvir nenhuma voz espanhola capaz de esclarecer as coisas. e o que mais falta tenho sentido. se me ofereça oportunidade para fazer ver tudo que quero dizer com isto. dizer. ou de ouvi-la depois de deformá-la. que. e a retórica acabou sendo para a civilização antiga o que tem sido a física para nós nestes últimos séculos.. Por isso divinizaram o dizer. não seja insuportável. no moral como no físico. para silenciar. olhado desde outro. de insinuar e ainda mais de iludir. taberna e tertúlia. compreender-se-á até que ponto hei sofrido de quanto na Inglaterra. Se é benévolo. os povos românicos forjaram línguas complicadas. dando um espetáculo exagerado de seus mais congênitos defeitos. a meu juízo. Se se ajunta a isso que um dos principais temas de disputa tem sido a Espanha.tem se deixado circular a intriga. Sob esta disciplina. No anglo-saxão . Isto é uma força magnífica. E é que as virtudes de um povo. entrementes. vão elevadas. exasperantes.não em seus governos. ainda convencido de que forçava um pouco a conjuntura. consolidadas. Não há povo que. E por este lado talvez são os ingleses. são seus limites. de engenheiros e de homens piedosos. O aticismo havia triunfado sobre o laconismo. no tempo próximo. na França. mas. dificultam enormemente a inteligência com outros povos. na América do Norte representa atonia. a respeito da Espanha. ao qual atribuíam mágica potência. e para o ateniense viver era falar. ao mesmo tempo. acrescentadas a seguir. em palanque. a frivolidade. e. e em certa maneira. Soube por isso forjar uma língua e uma elocução em que se trata principalmente de não dizer o que se diz. Isto me levou. vício e falha. uma plasticidade e um garbo incomparáveis.. A Grécia. sobre seus defeitos e limitações. a aproveitar o primeiro pretexto para falar sobre a Espanha e . soltou nossas línguas e nos fez indiscretos a nativitate. Quando chegamos a esse povo. sobretudo com os nossos. O inglês não veio ao mundo para dizer.falar sem parecer que dela falava nas páginas intituladas "Quanto ao pacifismo. composto de cautelas e eufemismos. entorpecimento. Renunciou-se nelas a todo "brilho" e vão escritas em estilo bastante pickwickiano. aproximando-nos destes esplêndidos ingleses. o logos. ao contrário. Respeito semelhante à Inglaterra não nos exime da irritação ante seus defeitos. Mas. o prejuízo arcaico e a hipocrisia nova sem lhes pôr um limite. tem sido alguma atitude de graça generosa. Talvez. Daí que nos sintamos sôfregos quando. em grau especial. Com faces impassíveis. ". de uma sonoridade. Escutaram-se em sério as maiores imbecilidades com tanto que fossem indígenas.

O fato é estupefaciente. E o caso é que . É. Porque a Europa foi sempre como uma casa da vizinhança. Como puderam chegar a não se entender tão radicalmente? A gênese de tão feia situação é longa e complexa. se não erro. 1938.quer dizer. povos que convivem desde sua infância. Porventura tenha contribuído para que adote esta resolução a consciência da responsabilidade contraída. de se desprezar e injuriar porque são diferentes. O cosmopolitismo de Fergusson. cometesse o gigantesco de seu pacifismo. Herder. O romanticismo que lhe sucedeu não é senão sua exaltação. mas se misturam a toda hora sua doméstica existência. advirta-se que o uso de se converterem uns povos em juizes dos outros. de entusiasmo por elas. operação que habitualmente se dignifica denominando-a de "golf". Busca a pluralidade de formas vitais com vistas não à sua anulação. tão parco em erros históricos graves. Estes povos que agora se ignoram tão gravemente brincaram juntos quando eram crianças nos corredores da grande mansão comum. sem excessiva presunção. mas com o entranhável desejo de colaborar na reconstituição da Europa.A rebelião das massas. indubitável que o inglês de hoje. que o unicamente civilizado é vestir umas bombachas e dar pancadas numa bolinha com uma vara. apesar de supor-se dono da verdade absoluta. Paris. nas diferenças de poderio diferença de nível humano. de se permitirem crer as nações hoje poderosas que o estilo ou o "caráter" de um povo menor é absurdo porque é bélica ou economicamente débil.tinha razão. Devo advertir ao leitor que todas as notas foram acrescentadas agora e suas alusões cronológicas hão de ser referidas ao corrente mês. Quando alguém o fazia. de muito peso. enfim. jamais se haviam produzido até os últimos cinqüenta anos. De todas as causas que geraram as presentes desgraças do mundo. O tema do ensaio que segue é a incompreensão mútua em que caíram os povos do Ocidente . Ao enciclopedista francês do século XVIII. não é muito capaz de ver o que há de cultura refinada. pelo contrário.em princípio . mas à sua integração. mas. Para enunciar só um dos mil fios que naquele fato se atam. Esse mútuo desconhecimento tornou possível que o povo inglês. Sobretudo isto se raciocina tranqüilamente nas páginas imediatas.htm (99 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O assunto é. sutilíssima e de alto alcance nessa ocupação . e no uso mais exótico e incompreensível suspeitava mistérios de grande sabedoria. e as páginas que seguem não fazem outra coisa senão tomá-lo pelo lado mais urgente. por exemplo. não obstante sua petulância e sua escassa ductilidade intelectual. o escândalo que provocava era prova de que o homem normal de então não via. não se lhe ocorria desdenhar um povo "inculto" e depauperado como a Espanha.que a ele lhe parece a exemplar desocupação de "tomar sol" a que o castiço espanhol sói dedicar-se conscientemente. são fenômenos que. O romântico enamorava-se dos outros povos precisamente porque eram outros. a que talvez pode concretizar-se mais é o desarmamento da Inglaterra.é o oposto do atual "internacionalismo". file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Lema dele foram estas palavras de Goethe: "Só todos os homens vivem o humano". hermetizado pela consciência de seu poder político. porventura. Nutre-se não da exclusão das diferenças nacionais. como um parvenu. onde as famílias não vivem nunca separadas. Ele crê. abril. Goethe . Este foi o sentido do cosmopolitismo que coagula no seu último terço. Seu gênio político permitiu-lhe nestes meses corrigir com um esforço incrível de self-control o mais extremo do mal. pois. Pelo contrário: é o século das viagens cheias de curiosidade amável e prazenteira pela divergência do próximo.

o desânimo. É um fato demasiado notório que esse pacifismo inglês fracassou. O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.seu Governo e sua opinião pública . a descobrir sem piedade suas raízes e a construir energicamente a nova concepção das coisas que isto nos proporciona. Isso quer dizer que esse pacifismo foi um erro. que foi a disciplina militar. Eu suponho que os ingleses se dispõem já. Contra o que acreditem os jeremias. se converte magicamente em uma nova vitória para o homem.embarcou há vinte anos. dos que se apresentam como titulares do pacifismo . apenas reconhecendo-o. muitas formas de pacifismo. como a ciência e a administração. o defeito maior do pacifismo inglês . tão rotundo. como é haver cometido um erro. Em vez de chorar sobre ele convém apressar-se a explorá-lo. O fracasso foi tão grande. Mas isso sublinha tanto mais quanto houve de erro no resto.e. a saber. base de toda civilização: ao descobrimento da disciplina. Ao dizer isto não sugiro nada que possa levar ao desânimo. Todas as demais formas de disciplina procedem da primigênia. de verdade. Mas eu prefiro agora adaptar-me quanto possa ao ponto de vista inglês. pacifista. A única que entre elas existe de comum é uma coisa muito vaga: a crença em que a guerra é um mal e a aspiração a eliminá-la como meio de trato entre os homens. Por que desanimar? Talvez as duas únicas coisas a que o homem não tem direito são a petulância e seu oposto. Há. Talvez fosse muito mais útil do que se imagina um estudo completo sobre as diversas formas do pacifismo. um crime ou um vício. Para isso é preciso que nos resolvamos a estudá-lo a fundo. Ela levou a um dos maiores descobrimentos.htm (100 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . entretanto.A rebelião das massas. Os animais a desconhecem e é de pura instituição humana. Por outra parte. a retificar o enorme erro que durante vinte anos tem sido seu peculiar pacifismo e a substituí-lo por outro pacifismo mais perspicaz. mas um invento. a realidade atual facilita desgraçadamente o assunto. Esta subestima lhes inspirou um diagnóstico falso. O pacifista vê na guerra um dano. Mas é evidente que não me corresponde agora nem aqui fazer um estudo no qual ficaria definido com certa precisão o peculiar pacifismo em que a Inglaterra . tão diferentes que na prática vêem a ser com freqüência antagônicas. antes disso e acima disso. QUANTO AO PACIFISMO Há vinte anos (90) a Inglaterra . a guerra é um enorme esforço que os homens fazem para resolver certos conflitos. Mas os pacifistas começam a discrepar quando dão o passo imediato e interrogam-se até que ponto é em absoluto possível o desaparecimento das guerras. com efeito. Enfim: a divergência torna-se superlativa quando se põem a pensar nos meios que exige uma instauração de paz sobre este pugnacíssimo globo terráqueo.seu Governo e sua opinião pública . na apreciação das possibilidades de paz que o mundo atual oferecia e na determinação da conduta que há de seguir quem pretenda ser. Baste advertir o estranho mistério da condição humana consistente em que uma situação tão negativa e de derrota. Como quase sempre acontece. Mas esquece que. serenamente. Pelo contrário. em geral. todo erro é uma propriedade que acresce nosso haver. Dele emergiria não escassa claridade. A guerra não é um instinto.embarcaram no pacifismo. Não há nunca razão suficiente nem para um nem para o outro. que alguém teria direito a revisar rapidamente a questão e a se perguntar se não é um erro todo pacifismo. e vou supor que sua aspiração à paz do mundo era uma excelente aspiração.tem sido subestimar o inimigo. mas decididamente. Cometemos o erro de designar com este único nome atitudes mui diferentes. O reconhecimento de um erro é por si mesmo uma nova verdade é como uma luz que dentro deste se acende.

mui finamente. Augusto Comte. Por isso. Nada importante é apresentado ao homem.A rebelião das massas. sua rusticidade. um sistema de esforços complicadíssimos. pondo na faina todas as potências humanas. então. como a Inglaterra. sem mais reflexão. guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida. Hoje. tem ele de fazê-lo. também a paz é uma coisa que importa fazer. a vontade de paz o que importa ultimamente no pacifismo. quer dizer. a vontade pacífica de todos os homens seriam completamente ineficazes. aprendendo a olhar todas as coisas humanas sob essa dupla perspectiva. Acredita-se que basta isso. Não é. Do mesmo modo. Na hora de sua invenção significou um progresso incalculável. a guerra reapareceria inexoravelmente nesse imaginário planeta habitado só por pacifistas. repitamos. sua insuficiência. encarregaram duas divindades de consagrar esses dois instantes .libertando-se das tolices que Rousseau disse sobre ela . A ausência de paixões. Por desconhecer tudo isso. que tinha um grande sentido humano. a saber: o aspecto que têm ao chegar e o aspecto que têm ao ir. pelo contrário. Mas o enorme esforço que é a guerra. Imaginemos. maldizer da escravidão. Não se espere nesta ordem nada fértil enquanto o pacifismo. conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor. não passe a ser um difícil conjunto de novas técnicas. que é elementar.e a nós nos corresponde generalizar sua advertência. Como toda forma histórica. creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. em parte. pronta para que o homem a goze. que em certo momento todos os homens renunciassem à guerra. em suma. enquanto não se inventasse outro meio.Adeona e Abeona. pois. portanto. a saber: a idéia de que a guerra procede simplesmente das paixões dos homens. e. tem a guerra dois aspectos: o da hora de sua invenção e o da hora de sua superação. A paz não "está aí". trabalhar em que não se fizesse. o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. Os romanos. seu horror. viu já deste modo a instituição da escravidão . quando aspiramos a superá-la. Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse. histórico. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. que com isso se havia dado o mais breve passo eficiente no sentido da paz? Grande erro! A guerra. Pelo contrário. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano. O outro é puro erro. requerem a venturosa intervenção do gênio. o deus do chegar e o deus de ir. por sua parte. o belicismo ficará asfixiado. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou. só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior. vemos dela apenas a suja espádua. costumamos. de ser um gratuito e cômodo desejo. um fazer que se assemelha tanto a um puro omitir? Essa crença é incompreensível se não se adverte o erro de diagnóstico que lhe serve de base. deixa-os mais intactos e menos resolvidos que nunca. o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. que há que fabricar. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. porque os conflitos reclamariam solução. É preciso que este vocábulo deixe de significar uma boa intenção e represente um sistema de novos meios de trato entre os homens. em vez de matar os prisioneiros. de construí-lo. e que. ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz. era um meio que haviam inventado os homens para solucionar certos conflitos. não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada.htm (101 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A renúncia à guerra não suprime estes conflitos. mais ainda. Se se atende a tudo isso. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e que se se reprime o apaixonamento. não parecerá surpreendente a crença em que esteve a Inglaterra de que o mais que podia fazer a favor da paz era desarmar. tentou fazer. Para ver com clareza a questão façamos o que fazia lord Kelvin para resolver seus problemas de física: construamos um modelo imaginário. simplesmente.

htm (102 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Ora bem: isto é gravemente oposto à verdade. entende-se. Para que o direito ou um ramo dele exista é preciso: 1o. e só então. especialmente inspirados.. não importa que não haja juizes. para só nos referirmos aos dois maiores e mais recentes cadáveres. Repugna-me atrair a atenção do leitor sobre coisas falidas. que alguns homens. 2o. semelhante pretensão. Mas é indispensável para contribuir um pouco a despertar o interesse para novas grandes empresas. para novas tarefas construtivas e salutíferas. simplesmente porque a desejamos. que aquelas idéias de direito se consolidem em forma de "opinião pública". Não significam progresso algum importante no que é essencial: na criação de um direito para a peculiar realidade que são as nações. E esta é a verdadeira substância do direito. O direito que administram é. de imoral. que estava aí à disposição dos homens e que só as paixões destes e seus instintos de violência induziam a ignorá-lo. no essencial. a importância dessas magistraturas. por exemplo. Sempre é importante para o progresso de uma função moral que apareça materializada em um órgão especial claramente visível. Mas a importância desses tribunais internacionais tem se reduzido a isso até hoje. Se aquelas idéias senhoreiam de verdade as almas. de maneira nenhuma. que não se tenha consolidado como norma firme na "opinião pública". a propaganda e expansão dessas idéias de direito sobre a coletividade em questão (em nosso caso. é o direito como forma de trato entre os povos. Com efeito: se se passa revista às matérias julgadas por esses tribunais. chamamos de paz. Não desestimo. Nem era lícito esperar maior fertilidade nesta ordem. adverte-se que são as mesmas resolvidas de há muito pela diplomacia. descubram certas idéias ou princípios de direito. a coletividade que formam os povos europeus e americanos. Pois bem: um direito referente às matérias que originam inevitavelmente as guerras não existe.A rebelião das massas. E não havendo nada disso. É preciso que não se volte a cometer um erro como foi a criação da Sociedade das Nações. incluindo os domínios ingleses da Oceania). de norma vigente.. como puro teorema incubado na mente de algum pensador. atuarão inevitavelmente como instâncias para a conduta às quais se pode recorrer. E não só não existe no sentido de que não haja alcançado ainda "vigência".. como não existe nem sequer como idéia. pretende-se que desapareçam as guerras entre eles? Permita-se-me que qualifique de frívola. Só é moral o desejo que é acompanhado da severa vontade de aprontar os meios de sua execução. isto é. quer dizer. Então. de uma etapa que se iniciou com o Tratado de Versalhes e com a instituição da Sociedade das Nações. com um vago nome. Pois bem: o pacifismo usual dava como suposto que esse direito existia. contribui a ocultar-nos a indigência de verdadeiro direito internacional que padecemos. que essa expansão chegue de tal modo a ser predominante. de direito. Não sabemos quais são os "direitos subjetivos" das nações e não temos nem indícios de como seria o "direito objetivo" que possa regular seus movimentos. que os últimos cinqüenta anos presenciaram. não havendo nem em teoria um direito dos povos. pelo menos. Porque é imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente. na plenitude do termo. A proliferação de tribunais internacionais. O enorme dano que aquele pacifismo trouxe à causa da paz consistiu em não deixar-nos ver a carência das técnicas mais elementais. 3o. de órgãos de arbitragem entre Estados. Não importa que não haja legislador. podemos falar. A paz. maltratadas ou em ruínas. o que concretamente foi e significou esta instituição na hora de seu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o mesmo que já existia antes de seu estabelecimento. cujo exercício concreto e preciso constitui isso que.

e entre os povos estalam as guerras. puro movimento. uma vez mais. Foi um erro que reclama o atributo de profundo. Sua vacuidade de justiça encheu-se fraudulentamente com a sempiterna diplomacia. sem remédio. de uma física de quatro dimensões e de uma mecânica do descontínuo. resolvê-lo. a esta altura da história e da civilização. mas importa muito aos destinos humanos que o político ouça sempre o que o profeta grita ou insinua. os quais.dizia eu. é estático. Cada vez é menos possível uma sã política sem larga antecipação histórica. por exemplo. e não o profeta. Mas. recentemente -. Em certo modo.o direito .htm (103 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . com a qual coincide. O homem não conseguiu ainda elaborar uma forma de justiça que não esteja circunscrita na cláusula rebus sic stantibus. com a estabilidade do direito. Evito precisar a que grêmio pertenciam os profetas. A Sociedade das Nações foi um gigantesco aparelho jurídico criado para um direito inexistente. Daí . sem profecia. quer dizer. Mas é o caso que as coisas humanas não são res stantes. mutação perpétua. sociológicas e jurídicas de que emanaram seu projeto e sua figura estava já historicamente morto naquela data. Se fosse fácil existiria há muito tempo. navegue o mundo mais à deriva que nunca.A rebelião das massas. históricas. Também aqui se trataria de libertar uma atividade humana . que se converte em uma camisa de força. como os habituais na difícil faina que é a política. E não se diga que é coisa fácil proclamar isto agora. esse estranho aspecto patológico que tem a história e que a faz parecer como uma luta sempiterna entre os paralíticos e os epilépticos. E como a realidade histórica muda periodicamente de modo radical. põem bem à vista o caráter ilusório de todo pacifismo que não comece por ser uma nova técnica jurídica. Dentro do povo produzem-se as revoluções. e diga-se a si mesmo se encontra em sua mente uma possível norma jurídica que permita. nascimento. que ao disfarçar-se de direito contribuiu à universal desmoralização. como já nos ensina a Bíblia: "Por que tomastes o direito file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. exatamente tão difícil como a paz. pelos temas de que habitualmente se ocupam. choca. recebem antes que os demais a visita do porvir (91). Houve homens na Europa que já então denunciaram seu inevitável fracasso. Todas as grandes épocas da história nasceram da sutil colaboração entre esses dois tipos de homem. O direito.de certa radical limitação que sempre padeceu. É difícil. sequer teoricamente. Formule-se o leitor qualquer dos grandes conflitos que há atualmente estabelecidos entre as nações. pertencia ao passado. os mais toscos e elementais que podem ser apontados. Baste dizer que na fauna humana representam a espécie mais oposta ao político. Não foi um erro qualquer. o sistema de idéias filosóficas. a saber: que foi predita. enfrentar aquela empresa e resolver-se a acometê-la. Quais são. o direito que aqui se postula é uma invenção muito difícil. e não debalde seu órgão principal se chama Estado. Talvez as catástrofes presentes abram de novo os olhos dos políticos para o fato evidente de que há homens. também os políticos não fizeram caso desses homens. Mercê disso produziu-se o vergonhoso fenômeno de que. Mas uma época que assistiu ao invento das geometrias não-euclidianas. O bem que pretende ser o direito se converte em um mal. Sempre será este quem deva governar. O direito tradicional é só regulamento para uma realidade paralítica. ou por possuir almas sensíveis como finos registradores sísmicos. e longe de antecipar o futuro era já arcaico. Sem dúvida. sem espanto. Uma vez mais aconteceu o que é quase normal na história. Mas uma camisa de força posta num homem são tem a virtude de torná-lo louco furioso. com efeito. o problema do novo direito internacional pertence ao mesmo estilo que esses recentes progressos doutrinais. O "espírito" que propeliu para aquela criação. pode. coisas históricas. É talvez uma das causas profundas do atual desconcerto seja que há duas gerações os políticos se declararam independentes e cancelaram essa colaboração. Foi um erro histórico. mas pelo contrário. os direitos de um povo que ontem tinha vinte milhões de homens e hoje tem quarenta ou oitenta? Quem tem direito ao espaço não habitado do mundo? Estes exemplos. entregue a uma cega mecânica.

extrair a teoria que nele jaz muda ." Seria um erro não ver nestas duas fórmulas senão emanações do oportunismo político. regulem satisfatoriamente essas mudanças do poderio. todo pacifismo é pena de amor perdida. a meu juízo. O que não fazem é defini-la. não é mais nem menos difícil definir o triângulo que a névoa. pois. o formulado por Balfour em 1926 com suas famosas palavras: Nas questões do Império é preciso evitar o refining. A capacidade para descobrir a nova técnica de justiça que aqui se postula está pré-formada em toda a tradição jurídica da Inglaterra mais intensamente que na de nenhum outro país. convém recordá-lo. chega a sua máxima potência. substituir o que não parece ser senão "coisa" jacente. quieta e fixa por forças. Em princípio. em fel e o fruto da justiça em absinto?" (Oseas. Porque queremos conservar a toda coisa uma margem e uma elasticidade. Há mais de setenta anos. Porque se a realidade histórica é isso ante tudo. é que se prevê seu movimento. Mas é evidente que há outros homens cuja missão é fazer o que ao político. tanto civil como político. discussing or defining. a constituição do Império britânico parece-se muito ao "molusco de referência" de que falou Einstein. capaz de acompanhar a história em sua metamorfose. e se se lhe atribui uma margem. Provavelmente. a saber: interpretar tudo que é inerte e material como puro dinamismo. O homem necessita um direito dinâmico. o direito. porque nele se declara a aspiração a um direito semovente. que o pacifista quer submeter àquela. nem utópica. Se em vez de entender estes dois caracteres como meras ilusões e como insuficiências de um direito. A maneira inglesa de ver o direito não é senão um caso particular do estilo geral que caracteriza o pensamento britânico. A demanda não é exorbitante.A rebelião das massas. o fracasso da Sociedade das Nações. movimentos e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. enunciado por sir Austin Chamberlain em seu histórico discurso de 12 de setembro de 1925: "Vejam-se as relações entre as diferentes seções do Império britânico. porque um político não veio ao mundo para isso. Não está sequer baseada numa Constituição. gigantesco aparelho construído para administrar o statu quo. E enquanto não existam princípios de justiça que. a mudança na divisão do poder sobre a terra. antes de tudo. isto é. Não estranhe. Porque a elasticidade é a condição que permite a um direito ser plástico. Longe disso. 12). a história é. esta incongruência entre a estabilidade da justiça e a mobilidade da realidade. E isso não certamente por casualidade. nem sequer nova. a unidade do Império britânica não está feita sobre uma constituição lógica. Importaria muito reduzir a conceitos claros essa situação efetiva de direito que consiste em puras "margens" e simples "elasticidades". porque precisamente esse estranho fenômeno jurídico foi forjado mediante estes dois princípios: um. Por exemplo: quase todas as constituições contemporâneas procuram ser "abertas".htm (104 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . uma idéia de que a princípio se julgou inteligível e que é hoje base da nova mecânica. está proibido: definir as coisas. no qual adquire sua expressão mais extrema e depurada o que talvez é o destino intelectual do Ocidente. O outro. o princípio "da margem e da elasticidade". Embora o expediente seja um pouco ingênuo. parecerá evidente que a injúria máxima seja o statu quo. expressam mui adequadamente a formidável realidade que é a British Commonwealth of Nations e a designam precisamente sob seu aspecto jurídico. e se o político é inglês sente que definir algo é quase cometer uma traição.o fenômeno jurídico mais avançado que se produziu até hoje no planeta: a British Commonwealth of Nations. Mas. o mais fértil seria analisar a fundo e tentar definir com precisão -. as tomamos como realidades positivas. 6. é possível que se abram diante de nós as mais férteis perspectivas. Considerada no que ao direito importa. ao menos em teoria. No direito internacional. Dir-me-ão que isto é impossível. um direito plástico e em movimento. e especialmente ao inglês. embora estas se apresentem com a pretensão de ser essencialmente vagas. evolui neste sentido.

constituído por uma linha simples e clara. Nesse vazio social as nações se reuniriam. Suponho que cem vezes se terá feito constar e terá sido demonstrado com suficiente pormenor. A tal ponto é assim. em todas as demais ordens da vida. que não é obra de nenhum pacto. as questões mais intrincadas da filosofia do direito e da sociologia. quando alguém lhe fale de um fato jurídico. o próprio nome de direito internacional estorva uma clara visão do que seria em sua plena realidade um direito das nações. que lhe indique a sociedade portadora desse direito e prévia a ele. de passagem e avoadamente. tal como o uso e o costume. uma associação. No vazio social não há nem nasce direito. Desgraçadamente. A primeira delas é uma nova técnica jurídica que comece por descobrir princípios de eqüidade referentes às mudanças da divisão do poder sobre a terra. Mas uma associação não pode existir como realidade jurídica se não surge sobre uma área onde previamente tem vigência certo direito civil. num vazio social. funções. Está bem que o homem pacífico se ocupe diretamente em evitar esta ou aquela guerra. em todas as ordens da vida. fora da física. Permita-se-me apenas que. mas é necessário enunciar ante leitores ingleses que o direito existe sem o Estado e sua atividade estatutária. como empedernido leitor. À técnica do puro pensamento jurídico devem acompanhar muitas outras técnicas ainda mais complicadas. formam parte dele os bíceps dos gendarmes ou seus sucedâneos. a imaginar um direito que acontece entre elas. mas num estádio muito avançado de sua evolução. Quando falamos das nações tendemos a representá-las como sociedades separadas e fechadas em si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Se resumo agora meu raciocínio. e o chamado "internacional" nos convida. que não existe sintoma mais seguro para descobrir a existência de uma autêntica sociedade que a existência de um fato jurídico. Este requer como substrato uma unidade de convivência humana. e mediante um pacto criariam uma sociedade nova. manifeste meu desideratum de ler um livro cujo tema seja este: o newtonismo inglês. creio eu. newtoniana. mas é o resultado de uma convivência inveterada. a Sociedade das Nações. dos quais o direito é irmão menor. atrevo-me a insinuar que caminha seguro quem exija. quer dizer. Porque o direito nos pareceria ser um fenômeno que acontece dentro das sociedades.htm (105 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pelo contrário.A rebelião das massas. Mas a idéia de um novo direito não é ainda um direito. mas mais enérgico. Turva a evidência disto a confusão habitual que padecemos ao crer que toda autêntica sociedade tem forçosamente de possuir um Estado autêntico. mas em construir a outra forma de convivência humana que é a paz. A Inglaterra tem sido. portanto. Esta autêntica sociedade e não associação só se parece à outra no nome. Essa área onde a sociedade ajustada surge é outra sociedade preexistente. Sem que eu pretenda resolver agora com atitude dogmática. Não esqueçamos que o direito se compõe de muitas coisas mais que uma idéia: por exemplo. por mágica virtude dos vocábulos. que seria. mas o pacifismo não consiste nisso. Daí o calembour. parecerá. Outra coisa são puras fantasmagorias. Uma sociedade constituída mediante um pacto só é sociedade no sentido que este vocábulo tem para o direito civil. Mas não creio que seja necessário deter-me neste ponto. isto é. Mas é bem claro que o aparelho estatal não se produz dentro de uma sociedade. Talvez o Estado proporciona ao direito certas perfeições. Mas isso tudo tem o ar de um calembour (92). Isto significa a invenção e exercício de toda uma série de novas técnicas.

Pois bem: uma sociedade é um conjunto de indivíduos que mutuamente se sabem submetidos à vigência de certas opiniões e avaliações. como o bilhar. não nos promete mais eventualidade que a "carambola".htm (106 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não significa sociedade.convicções comuns e tábuas de valores .dotadas dessa força coactiva tão estranha em que consiste "o social". Os ingleses podem ver isto com alguma clareza no livro do Dawson: The Making of Europe. a convivência ou trato dos ingleses entre si é muito mais intensa que. Corrijamo-la. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. por exemplo. Sem dúvida.a Europa -. Se a Europa é só uma pluralidade de nações. foi a convivência ocidental. O caráter geral do uso consiste em ser uma norma do comportamento . Esta metáfora de jogador de bilhar deveria desesperar ao bom pacifista. podem os pacíficos despedir-se rapidamente de suas esperanças (93). com efeito. e. Mas isto é uma abstração que deixa de fora o mais importante da realidade. essa convivência (94). pois. resistir ao uso. Convivência implica só relações entre indivíduos.as nações .que só mantêm alguns contatos externos. porque. Esta sociedade geral possui um grau ou índice de socialização menos elevado que o alcançado desde o século XVI pelas sociedades particulares chamadas nações européias. mas de dar expressão gráfica ao que realmente foi desde a sua iniciação. Por esta razão censuro essa figura da Europa em que esta aparece constituída por uma multidão de esferas . portanto. mercê ao qual pensamos as realidades morais. queiram ou não queiram. O indivíduo poderá. velha de muitos séculos e que tem uma história própria como possa tê-la cada nação particular. Introduction to the History of European Society.intelectual. Em vez de nos afigurarmos as nações européias como uma série de sociedades livres. Não seria nada exagerado dizer que a sociedade européia existe antes que as nações européias. após a morte do período romano. porque jamais faltou esse fundo ou tesouro de "vigências coletivas" . que a Europa é uma sociedade. porque as únicas possibilidades de paz que existem dependem de que exista ou não efetivamente uma sociedade européia. que são os usos . Não se trata com isso de desenhar um ideal. viver em sociedade ou formar parte de uma sociedade. não é preciso dizer o dano que engendra uma errônea imagem visual convertida em hábito de nossa mente. Mas não pode haver convivência duradoura e estável sem que se produza automaticamente o fenômeno social por excelência. mas não se ignore seu efetivo caráter de sociedade. e que estas nasceram e se desenvolveram no regaço maternal daquela. Segundo isto. que a Europa é uma sociedade mais tênue que a Inglaterra ou que a França. Como os fenômenos corporais são o idioma e o hieróglifo. o que chamaremos sua "vigência". a convivência entre os homens da Inglaterra e os homens da Alemanha ou da França. O que costumamos chamar assim não é mais do que um estado de guerra mínima ou latente. Entre sociedades independentes não pode existir verdadeira paz. Diga-se. não há sociedade sem a vigência efetiva de certa concepção do mundo. mas precisamente este esforço de resistência demonstra melhor que nada a realidade coactiva do uso. a qual atua como uma última instância a que se pode recorrer em casos de conflito. por sua conta e risco. tão somente. A Europa tem sido sempre um âmbito social unitário. usos que a imperam ou "direito -. pois. A coisa importa superlativamente. Esta figura corresponde muito mais aproximadamente que a outra ao que. usos que dirigem a conduta ou "moral".usos intelectuais ou "opinião pública". imaginemos uma sociedade única .A rebelião das massas. mesmas. dentro da qual se produziram grumos ou núcleos de condensação mais intensa. A convivência. usos de técnica vital ou "costumes". sentimental ou físico que se impõe aos indivíduos. sem fronteiras absolutas nem descontinuidades. Mas é evidente que existe uma convivência geral dos europeus entre si.

é possível diagnosticar com certa precisão o lugar ou estrato do corpo histórico onde a enfermidade radica. Que profano. mas não está em mim evitá-lo. como. organização. aparece no título de Ranke: História dos povos germânicos e românicos.htm (107 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Poderia acontecer que hoje em dia faltassem essas instâncias em uma proporção sem exemplo. mas que possui uma estrita anatomia e uma clara estrutura. O anterior diagnóstico. É uma das muitas coisas cuja grave importância os políticos não souberam ver. ao longo de toda a história européia. atuava nas camadas profundas do Ocidente. em parte. que é por si um dos males do nosso tempo. em ocasiões. instituto anti-histórico que um maldizente poderia supor inventado em um clube cujos membros principais fossem M. mas a sociedade é convivência sob instâncias. Tudo o mais por exemplo. por exemplo. São fatos soltos aos quais o físico tem que inventar uma estrutura imaginária. Neste caso a enfermidade seria a mais grave que sofreu o Ocidente desde Diocleciano ou os Severos. o que sucede no mundo humano. não é um amontoado de fatos soltos. sensu stricto. A verdade é que esses povos em plural flutuam como ludiões dentro do único espaço social que é a Europa: "nele se movem. irradiaram durante gerações sobre o resto do planeta. por causas profundas. sobretudo. Quando a estudamos bem. com efeito. Entretanto. como a dose de paz em cada época esteve na razão direta desse índice. estava constituída por uma ordem básica devido à eficiência de certas instâncias últimas . Homais e congêneres. como.A rebelião das massas. respeitáveis. A foro de sociedade. os fenômenos físicos . Os editoriais dos jornais e os discursos de ministros e demagogos não nos dão notícia dela. que é um excessivo exoterismo. mas que não se liberou de modo completo do arsenal de conceitos tradicionais na historiografia. vivem e são". Esta ordem que. toda a ordem de que esse resto era capaz. Por file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em maior ou menor escala. quer só dizer que fora necessário chamar médicos ótimos e não qualquer transeunte. por baixo de todas as suas superficiais desordens. sem "idealizações". Mas essa anatomia da realidade histórica necessita ser estudada. sobretudo. vê ali definida uma terrível enfermidade? Esforcei-me sempre em combater o esoterismo. Poucas coisas contribuiriam a apaziguar o horizonte como uma história da sociedade européia. Eu o lamento. mais vulgarmente dito. as ciências derivam irresistivelmente em direção esotérica. A história que eu postulo nos contaria as vicissitudes desse espaço humano e nos faria ver como seu índice de socialização variou. Havia no mundo uma amplíssima e potente sociedade .as nações -. porque as formas tradicionais da ótica histórica tapavam esta realidade unitária que chamei. conforme foi e continua sendo. independente de que seja acertado ou errôneo. M. e pôs nele. qual é seu índice atual de socialização. as realidades históricas. Quer dizer. Está escrito por uma mente alerta e ágil. Mas este assunto nunca foi visto. e. em vez de revelar. o livro de Dawson é insuficiente. Pois bem: nada hoje deveria importar tanto ao pacifista como averiguar que é o que acontece nessas camadas profundas do corpo ocidental.o credo intelectual e moral da Europa -. Pickwick. entendida como acabo de apontar. embora achacados do vício oposto. desceu gravemente fazendo temer a cisão radical da Europa e. a despeito das aparências. parecerá abstruso. Porque o direito é operação espontânea da sociedade. Há um século. ao ler um fino exame de sangue. uma história realista. "sociedade européia" e a suplantavam por um plural .a sociedade européia -. Também os diagnósticos mais rigorosos da medicina atual são abstrusos.carece dela. conceitos mais ou menos melodramáticos e míticos que ocultam. conserva alguma destas latente vivacidade. por que se volatilizou o sistema tradicional de "vigências coletivas". Mais: talvez é o único no Universo que tem por si mesmo estrutura. Isso não quer dizer que seja incurável. que não se pode esperar remédio algum da Sociedade das Nações. Mas não forjemos ilusões. E o é. Este último aspecto é o que mais nos importa para as aflições atuais. A realidade histórica ou. e se.

htm (108 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . quietas e jacentes no fundo das almas. impessoal. uma grave discórdia. É frívolo interpretar os regimes autoritários do dia como engendrados pelo capricho ou pela intriga. Ora bem. o que é o mesmo. quando uma idéia perdeu esse caráter de instância coletiva. mas é inquestionável e constitui o fato fundamental da sociedade. Quando uma opinião ou norma chegou a ser de verdade "vigência coletiva". ou uma ficção deliberada? É inocência ou é tática? Não sabemos a que nos ater. Esta conduta significa erro. seja um ou outro o sentido desse comportamento. temo que seja funesto para o pacifismo. Mas. interposta. declarada ou preparando-se. talvez represente um papel diferente que nos demais povos europeus. Enquanto. como um éter benéfico entre eles. ou. Vice-versa. ficamos perplexos. pois. produz uma impressão entre cômica e inquietante ver que alguém considera suficiente aludir a ela para se sentir justificado ou fortalecido. aniquilou-se. lhes permita comunicar suavemente. porque não as há. como se faz com a lei de gravidade. Ora bem: isto acontece ainda hoje. não recebe seu vigor do esforço senão impô-la ou sustentá-la empregam grupos determinados dentro da sociedade. esta é a melhor prova de que nem uns nem os outros são vigentes e perderam ou não alcançaram a virtude de instâncias. anônimo. porque no homem anglo-saxão a função de se expressar. Ficam. No momento em que é preciso lutar em prol de um princípio. Isso é que o pacifista precisa compreender. Ao adverti-lo. Bem claro está que são manifestações iniludíveis do estado de guerra civil em que quase todos os países se encontram hoje. E a origem que atribui a esta situação parece-me confirmado pelo fato de que não somente existe uma guerra virtual entre os povos. Agora se vê como a coesão interna de cada nação se nutria em boa parte das vigências coletivas européias. mas dentro de cada povo há. quer dizer que este não é ainda ou deixou de ser vigente. a outra esforça-se em defender os tradicionais. as fronteiras eram para o viajor pouco mais que coluros imaginários. inversamente. A Europa está hoje dissocializada. na Inglaterra e na América do Norte (95). faltam princípios de convivência que sejam vigentes e a que caiba recorrer. de "dizer". No trato de uns povos com outros não cabe recorrer a instâncias superiores. de que se encontra em um mundo onde falta ou está muito debilitado o requisito principal para a organização da paz. amparar-se nele. em um estado de guerra substancialmente mais radical que em todo o seu passado. Pelo contrário: todo grupo determinado procura sua máxima fortaleza reclamando para si essas vigências. e às vezes crendo inclusive que combatem contra elas. separados e frente a frente. convertendo-se em matéria córnea. referir-se a ele. todos vimos como iam rapidamente endurecendo-se. enquanto não há senão aceitar a situação e reconhecer que o conhecimento distanciou-se radicalmente das conversações de beer-table. independente de todo grupo ou indivíduo determinado. a Europa se encontra em estado de guerra. Mas. teria de ver se não foi um dos fatores que contribuíram ao desprestígio das vigências européias o peculiar uso que delas tem feito a Inglaterra. Mais ainda. há somente que usá-lo. Uma parte da Europa esforça-se em fazer triunfar uns princípios que considera "novos". O fenômeno é surpreendente. que anulava a porosidade das nações e as tornava herméticas. As vigências são o autêntico poder social. mas não agora nem por mim (96). A pura verdade é que. quando é com plenitude vigente. há anos. com excessiva freqüência. há trinta anos. às vezes sem que estas se apercebam de que estão dominadas por elas. A atmosfera de sociabilidade em que flutuavam e que.A rebelião das massas. Esta debilitação subitânea da comunidade entre os povos do Ocidente eqüivale a um enorme file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A questão deverá algum dia ser estudada a fundo. As vigências operam seu mágico influxo sem polêmica nem agitação.

O número e importância dos descobrimentos.suas conseqüências radicais (97). Isso mesmo aconteceu com as comunicações. E isso em todas as ordens. etc. tão necessário que cada povo conhecesse bem a singulatim a cada um dos demais. nem sequer se haviam inventado os mais decisivos. Dito de outro modo: para os efeitos da vida pública universal. afinal. O século XIX. supera em muito todo o pretérito humano tomado em conjunto. Há quase meio século fala-se de que os novos meios de comunicação . cuja parte mais notória e visível é a saudação. que a efetiva transformação técnica do mundo é um fato recentíssimo. Isto ocasionou um curioso erro de ótica histórica que impede a compreensão de muitos conflitos atuais. aproximar-se a outro ser humano. tal quantidade de notícias e tão recentes sobre o que se passa nos outros.vapores. Não adverte o leitor. e só mais tarde se convertem em realidades. portanto. Alguns dos meios que haviam de tornar efetiva essa aproximação existiam já em princípio . monstruoso. reduziu-se. Porque esse distanciamento moral se complica perigosamente com outro fenômeno oposto. isto é. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de sopetão. De tal sorte que. sem mais nem menos. Os povos se encontram de improviso dinamicamente mais próximos. da distância normal a que estão uns homens dos outros. entretanto. que provocou nele a ilusão de que. o "progresso material". tendemos a esquecer que sempre foram mister grandes precauções para aproximar-se dessa fera com veleidades de arcanjo que costuma ser o homem.aproximaram os povos e unificaram a vida no planeta. e o ritmo de seu efetivo emprego nessa brevíssima etapa. Quer dizer. Que uma só fábrica seja capaz de produzir todas as lâmpadas elétricas ou todos os sapatos de que necessita meio continente é um fato demasiado afortunado para não ser. Quase sempre as coisas humanas começam por ser lendas. como são o motor a explosão e a rádio-comunicação. apressou-se a emitir torrentes de retórica sobre os "avanços".deslocamento de pessoas. pois. nestes últimos anos recebe cada povo. com certas reservas. as almas começaram a se cansar desses lugares comuns. Não era. O trato entre eles é dificílimo. pudesse dizer-se que as formas da saudação são função da densidade de povoação. não se apercebeu de que a época sem par dos inventos técnicos e de sua realização foram os últimos quarenta anos. realizado já o que aquela fraseologia proclamava. está em os outros povos ou em sua absoluta imediação. mudança à qual não teve tempo de se adaptar o organismo econômico. e que essa mudança está produzindo agora . com efeito. a tempo e hora. com efeito. Como vimos de uma das épocas históricas em que a aproximação era aparentemente mais fácil. Convencido o homem médio de que a centúria anterior era a que havia dado cume aos grandes empreendimentos. está visto claramente hoje que se tratava só de uma entusiasta antecipação. Mas como sempre acontece. Mas com isto frisamos a linha de nossas considerações iniciais. Os princípios comuns constituíam uma espécie de linguagem que lhes permitia entender-se. E isto acontece precisamente na hora em que os povos europeus mais se distanciaram moralmente. ainda que haviam chegado a persuadir-se de que o século XIX havia.htm (109 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . essa opinião era um exagero. emocionado ante as primeiras grandes conquistas da técnica científica. o tamanho do mundo subitamente se contraiu. telefone -. telégrafo. Refiro-me a um gigantesco fato. o perigoso de semelhante conjuntura? Sabido é que o ser humano não pode. Não poucos dos profundos desajustes na economia atual advêm da súbita mudança que causaram na produção estes inventos. que é o que inspirou de modo concreto todo este artigo. ferrocarris. Mas nem se havia ainda aperfeiçoado sua invenção nem se haviam posto amplamente em serviço. transferência de produtos e transmissão de notícias . cujas características convém precisar um pouco. Neste caso.agora e não de há um século . Por isso corre ao longo de toda a história a evolução da técnica da aproximação. Talvez.A rebelião das massas. Sem tardança e de verdade. distanciamento moral. embora os aceitassem como verídicos.

a saber: uma informação suficiente. A saudação do tuaregue começa a cem jardas e dura três quartos de hora. Esta "razão" ou "verdade" viventes. um órgão relativamente "racionalizado" dentro de cada sociedade.htm (110 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . no essencial. Nessa proximidade superlativa tudo é feridor e perigoso: até os pronomes pessoais se convertem em impertinências. a primeira causa de uma inevitável incongruência. Na China e no Japão. temos de reconhecer a toda autêntica "opinião pública" consiste. ao menos com suficiente ênfase. sobrevinda nos últimos quinze ou vinte anos. lá do fundo de suas próprias experiências vitais. aos quais não pode faltar um mínimo de reflexão e sentido de responsabilidade. por conseguinte. haveria que substitui-la por uma verdade de conhecimento. em sua congruência. onde os homens vivem. precipitam nesta uma "verdade" vital. que são diferentes das do povo B. quando opina sobre a vida de seu próprio país tem sempre "razão" no sentido de que nunca é incongruente com as realidades que ajuíza. e estas suscitar opiniões partidistas sustentadas por grupos particulares. indefeso. Eu creio que não se reparou devidamente neste novo fator e que urge prestar-lhe atenção. O povo inglês. Porque o Estado é. da intervenção que exerce hoje de fato a opinião de umas nações na vida de outras. que experimentou em sua própria carne e em sua própria alma. que é a realidade histórica mesma e tem um valor e uma força superiores a todas as doutrinas. imaginem-se os perigos que engendra sua súbita aproximação entre os povos. em compacto formigueiro. nariz contra nariz. povos pululantes. que ademais oferece. com quem. irreflexivo e irresponsável. que só poderia contrariar mediante uma coisa muito difícil. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em suma. por assim dizer. sua inércia ao influxo de todas as intrigas. são ele mesmo. Se uma simples mudança da distância entre dois homens comporta semelhantes riscos. Padecerá erros secundários e de detalhe. tóxica. como atributo. às vezes mui remotas. Suas atuações são deliberadas e dosificadas pela vontade dos indivíduos determinados os homens políticos -. pois. só o combate é possível. afinal das contas. que ao extremo oriental lhe produz o europeu a impressão de ser um grosseiro e insolente. Como aqui falta a "verdade" do vivido. empilhados. e em vez de "tu" dirá algo assim como "a maravilha presente". A causa disso é óbvia. mas. No Saara cada tuaregue possui um raio espacial que alcança bastantes milhas. É maximamente provável que essa opinião surta em alto grau incongruente. Mas não se falou. tão refinada. Por isso o japonês chegou a exclui-los de seu idioma. As realidades que ajuíza são o que efetivamente passou o mesmo sujeito que as ajuíza. a opinião pública sensu stricto de um país. que. a saudação e o trato complicaram-se na mais sutil e complexa técnica de cortesia. equivocar-se? A interpretação doutrinal desses fatos poderá dar oportunidade às maiores divergências teóricas.A rebelião das massas. por baixo dessas discrepâncias "teóricas". opina sobre fatos que lhe aconteceram. mas tomada com atitude microscópica não é verossímil que seja uma reação incongruente com a realidade inorgânica a respeito dela e. a rigor. como se vê. Tem se falado muito estes meses da intervenção ou não-intervenção de uns Estados na vida de outros países. que viveu e. Estritamente o contrário acontece quando se trata da opinião de um país sobre o que acontece em outro. Dito com outras palavras obtemos esta proposição: é maximamente improvável que em assuntos graves de seu país a "opinião pública" careça da informação mínima necessária para que seu juízo não corresponda organicamente à realidade julgada. os fatos insofisticáveis. Pode levar isto a outra coisa que não o jogo dos despropósitos? Eis aqui. ao opinar sobre as grandes questões que afetam sua nação. a meu juízo. muito mais grave que aquela. O povo A pensa e opina. Como vai. gozados ou sofridos pela nação. Mas a opinião de todo um povo ou de grandes grupos sociais é um poder elementar. E esta é hoje. Isso não obstante. e em lugar de "eu" fará um salamaleque e dirá "a miséria que há aqui".

Como será fácil persuadir ao homem inglês de que não está informado sobre o fenômeno histórico que é a guerra civil espanhola ou outra emergência análoga? Sabe que os jornais ingleses gastam somas fortíssimas em sustentar correspondentes dentro de todos os países. e porque o é.htm (111 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . abundância e freqüência. de vinte anos de política internacional inglesa. mas esse direito é uma injuria e não se aceita uma obrigação correspondente: a de estar bem informado sobre a realidade da guerra civil espanhola.A rebelião das massas. A distância dinâmica entre povo e povo é tão grande. O mesmo digo da opinião inglesa. mas. Representemo-nos esquematicamente. simplesmente. essa opinião era inoperante sobre os destinos da Grécia. a opinião incongruente perdia toxidez (98). os povos entraram numa extrema proximidade dinâmica. Sustenta que a ingerência da opinião pública de uns países na vida dos outros é hoje um fator impertinente. discutindo seu "direito" a opinar quanto estimem sobre quanto lhes apraza. desde logo. e não seu Governo . por suas formidáveis dimensões. Vice-versa. a complicação do processo que tem lugar. e que essa opinião estivesse mal informada. Mas como essas notícias chegam hoje com superlativa rapidez. venenoso e gerador de paixões bélicas. Nada mais longe de minha pretensão que toda intenção de podar o arbítrio a ingleses e americanos. Enquanto o Governo americano não atuasse. sem fina perspectiva. além disso. de bom sentido. ou que essa informação tão copiosa se compõe de dados externos. por motivos particulares. as causas que a produziram. há muitos outros cuja imparcialidade é inquestionável e cuja exatidão em transmitir dados exatos não é fácil de superar. O mundo era então "maior".diretamente como tal opinião. menos compacto e elástico. por exemplo. não seria excessiva suspicácia no homem inglês admitir a hipótese de que está muito menos informado do que supõe crer. e que a surpreenderam. intrigantes que. As notícias que o povo A recebe do povo B suscitam nele um estado de opinião . como há um século. ao atravessá-la.sabia pouco do que realmente estava acontecendo nos demais povos. irremediavelmente. Mas. e a opinião.seja de amplos grupos ou de todo o país -. Porque a quantidade de notícias que constantemente recebe um povo sobre o que sucede em outro é enorme. Tudo isto é verdade. Sempre há. a fim de entendê-la bem. de grandes grupos sociais norte-americanos está intervindo. porque essa opinião não está ainda regida por uma técnica adequada à troca de distância entre os povos. essa opinião não se mantém num plano mais ou menos "contemplativo". cujo primeiro e mais substancial capítulo é sua origem. Mas aqui é onde os meios atuais de comunicação produzem seus efeitos. é perigoso (99). Pois é o caso que se o homem inglês rememora num lance d'olhos encontrará que aconteceram no mundo coisas de grave importância para a Inglaterra. Como na história nada de algum relevo acontece de repente. sobrecarrega-se de intenções ativas e adota imediatamente um caráter de intervenção. o povo B recebe também com abundância. entre os quais escapole o mais autenticamente real da realidade. nestes últimos anos. rapidez e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. é o fato gigantesco que serviu a este artigo de ponto de partida: o fracasso do pacifismo inglês. Sabe que. daninhos. O exemplo mais claro disto. ainda que entre esses correspondentes não poucos exercem seu ofício de maneira apaixonada e partidista. de fato .na guerra civil espanhola. Não é questão de "direito" ou da desprezível fraseologia que sói amparar-se nesse título: é uma questão. se ocupam deliberadamente em fustigá-la.apesar de seus inúmeros correspondentes . que. Terá o inglês ou o americano todo o direito que entenda para opinar sobre o que passou e deve acontecer na Espanha. Dito fracasso declara estrondosamente que o povo inglês . Há um século não importava que o povo dos Estados Unidos se permitisse ter uma opinião sobre o que acontecia na Grécia.

que. Note-se que falo da guerra civil espanhola como um exemplo entre muitos. cuidei durante toda minha vida de montar em meu aparelho psico-físico um sistema muito forte de inibições e de freios . atuando. não é uma questão de mais ou de menos. não é "natural". há séculos e sempre.A rebelião das massas. a falar nas rádios. Ora bem. mas que a considerariam como uma doença terrível para a nação inglesa. a "Frente Popular". Evitemos os espaventos e as frases. de seu nervosismo. Enquanto em Madri os comunistas e seus afins obrigavam. e me reduzo a procurar que o leitor inglês admita por um momento a possibilidade de que não está bem informado. segundo Hegel. quase presente. esse file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Alberto Einstein acreditou ter "direito" a opinar sobre a guerra civil espanhola e tomar possessão ante ela.100. falto de pouvoir spirituel. sua audácia provoca em nós frenesi. o Congresso do Partido Laborista rechaçou. além disso. freqüência notícias dessa opinião remota. e me reduzo a confrontar dois comportamentos de um mesmo grupo de opinião. a "Frente Popular" que se formou em outros países. Há pouco. com intolerável impertinência. a formação na Inglaterra de uma "Frente Popular". faz com que o mundo vá à deriva.talvez a civilização não seja outra que essa montagem . do modo mais concreto e eficaz. Mas esta reação de aborrecimento multiplica-se até à exasperação porque o povo B adverte ao mesmo tempo a incongruência entre a opinião A e o que em B. invadiu seu país.. de seus movimentos e tem a impressão de que o estranho. a união com o comunismo. para o bloco do Partido Laborista. Porque não é fácil encontrar maior incongruência. se convertem automaticamente em diferenças qualitativas. Deixo intacta a questão de se uma "Frente Popular" é uma coisa benéfica ou catastrófica. Mas esta moderação que por sorte posso ostentar. Já é irritante que o próximo pretenda intervir em nossa vida. Há uns dias. mas se além disso revela ignorar completamente nossa vida. etc. por sua vez. efetivamente. e a sublinhar sua nociva incongruência. a despeito de suas copiosas "informações". por 2. Felizmente. Mas eis aqui outro exemplo mais geral. que denunciei como um fator de primeira grandeza entre as causas da presente desordem. Alberto Einstein usufrui uma ignorância radical sobre o que acontece na Espanha agora. Mas é o caso que. não contribuiu a debilitar minha surpresa.000. Essas cifras mostram que. isentos de toda pressão. Talvez isto o mova a corrigir seu insuficiente conhecimento das demais nações. escritores e professores a assinar manifestos. Há muitos anos que me ocupo em fazer notar a frivolidade e a irresponsabilidade freqüentes no intelectual europeu. o exemplo que mais exatamente me consta.000 votos contra 300.htm (112 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas esse mesmo partido e a massa de opinião que pastoreia ocupam-se em favorecer e fomentar. aconteceu. mas permita-se-me convidar o leitor inglês a que imagine qual pode ser meu primeiro movimento ante semelhante fato. que oscila entre o grotesco e o trágico. Por isso é um exemplo concreto do mecanismo belicoso que criou o mútuo desconhecimento entre os povos. quer dizer. O espírito que o leva a esta insolente intervenção é o mesmo que há muito tempo vem causando o desprestígio universal do homem intelectual. A diferença numérica na votação é daquelas diferenças quantitativas que.e. que está ali. alguns dos principais escritores ingleses assinavam outro manifesto onde se garantia que esses comunistas e seus afins eram os defensores da liberdade. a união com os comunistas. O natural seria que eu estivesse agora em guerra apaixonada contra esses escritores ingleses. sob as mais graves ameaças. como dizia Dante: che saetta previsa vien più lenta. comodamente sentados em seus escritórios ou em seus clubes. suposto o mais decisivo para que no mundo volte a reinar uma ordem. ao mesmo tempo.

mais ainda. pois. embora me exponha a todos os riscos de uma enunciação esquemática. poderia dizer-se que é uma intervenção guerreira. Era um curioso internacionalismo aquele que em suas contas esquecia sempre o detalhe de que há nações (100). file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E não será uma insensatez crer coisa fácil o conhecimento da realidade política de um país estranho? Sustento. todas as esperanças de que a paz reine no mundo são. Esta só pode esperar agradecimento perdurável na medida em que. Claro que isto supõe estar de acordo sobre um princípio básico.movimentos que antes eram quase inócuos .htm (113 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Outra coisa seria pura tolice. e isto é uma intervenção.portanto. o oposto. A parte do país favorecida momentaneamente pela opinião estrangeira procurará. que a nova estrutura do mundo converte os movimentos da opinião de um país sobre o que acontece em outro . como uma pessoa. quando as nações européias pareciam mais próximas a uma superior unificação. Por isso será funesta toda tentativa de desconhecer que um povo é. Sobre este: que os povos. pensava. Não pense o leitor em nada vago nem místico. no fundo. Bem notório é que surte praticamente impossível conhecer intimamente um idioma estrangeiro por muito que o estudemos. penas de amor perdidas. Tome qualquer função coletiva. declarando-o ou não. versado mais acima. que as nações existem. umas frente às outras. aqui reclamamos uma nova técnica de trato entre os povos. Toda realidade desconhecida prepara sua vingança. A nação acaba por estabilizar-se em "sua verdade". e a converter-se as fronteiras em escafandros isoladores. Não há razão para que não sofra análoga regulamentação a opinião de um povo sobre outro. Como antes postulávamos uma nova técnica jurídica. Não tenho inconveniente em declarar qual é a minha. Eu creio que há aqui um novo problema de primeira ordem para a disciplina internacional. Ora bem: o velho e barato "internacionalismo". repito. Talvez o leitor reclame agora uma doutrina positiva. Na Inglaterra o indivíduo aprendeu a guardar certas cautelas quando se permite opinar sobre outro indivíduo. Nenhuma de suas doutrinas ou atuações é compreensível se não se descobre em sua raiz o desconhecimento do que é uma nação e de que isso que são as nações constitui uma formidável realidade situada no mundo e com a qual há que contar. Mas por baixo dessa aparente e transitória gratidão corre o processo real do vivido pelo país inteiro. Enquanto se produzam fenômenos como este.em autênticas incursões. a hermetizar suas existências. que engendrou as presentes angústias. E me pareceria vão objetar que essas intervenções irritam uma parte do povo que as sofre. Daí que acabam por se unir contra a incongruência da opinião estrangeira. mas comprazem à outra. a língua. acerte ou seja menos incongruente com essa vivente "verdade". essa duplicidade da opinião laborista só irritação pode inspirar fora da Inglaterra. claro está. por sorte. Há a lei do libelo e há a formidável ditadura das "boas maneiras". começaram repentinamente a fechar-se dentro de si mesmas. por exemplo. e ambos os partidos hostis coincidem nela. mesmo grupo de opinião se ocupa em cultivar esse mesmo micróbio em outros países. embora de outro modo e por outras razões. Não outra é a origem das catástrofes na história humana. um sistema de segredos que não pode ser descoberto. no que efetivamente aconteceu. Isto bastaria para explicar por que. uma intimidade . à-toa.A rebelião das massas. posto que tem não poucos caracteres da guerra química. Esta é uma observação demasiado óbvia para que seja verídica. que corre paralelo ao do direito. beneficiar-se dessa intervenção. Porque essa incongruente conduta. de fora -.

A mesma inspiração que formou as nações do Ocidente continua atuando no subsolo com a lenta e silente proliferação dos corais. destilando sobre ele. no fundo de bosque que as almas possuem. e sim no recato do ensinamento. e então não há inconveniente em aceitar essa terrível sentença. Uma nova forma de vida não consegue instalar-se no planeta até que a anterior e tradicional não se tenha ensaiado em seu modo extremo. Isto salvará a Europa. e graças a isso veremos dentro em breve um novo liberalismo temperar os regimes autoritários.htm (114 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . depurando-o. a proposição é mais falsa que verídica. das vigências em que sua socialização consiste. Paris. que foi bastante lido em língua inglesa. imprescindível para que volte a brotar. 1937. Mais uma vez ficará patente que toda forma de vida precisa de sua antagonista. propugno e anuncio o advento de uma forma mais avançada de convivência européia. Não se trata de que a Europa está enferma. O estado atual de anarquia e superlativa dissociação na sociedade européia é uma prova mais da realidade que esta possui. A enfermidade por que atravessa é. Desde já. deixando ao Ocidente todo seu rico relevo. Porque é disso que se trata. a sociedade européia parece volatilizada. sê-lo-á também o restabelecimento. um vazio e nada. pois. dezembro. DINÂMICA DO TEMPO AS VITRINAS MANDAM Dizem que o dinheiro é o único poder que atua sobre a vida social. A Europa não é. com um nome impróprio. Entretanto. comum. não será. As nações européias chegam agora a seus pontos cruciais e a cabeçada será a nova integração da Europa. Este equilíbrio mecânico e provisório permitirá uma nova etapa de mínimo repouso. teríamos de lhe tirar e lhe pôr alguns ingredientes para que a idéia fosse luminosa. porque isso significa. da fé européia. mas que gozem de plena saúde estas ou as outras nações. Porque é estranho que tempos sobremodo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.por exemplo: as nações soltas ou uma Europa oriental dissociada até à raiz de uma Europa ocidental. em claras noções de história. Pois acontece que em muitas épocas históricas se falou o que agora se fala. Nada disto se oferece no horizonte -. um oco. A Europa será a ultra-nação.A rebelião das massas. e que. seja provável o desaparecimento da Europa e sua substituição por outra forma de realidade histórica . como acabo de insinuar. se costuma chamar de "totalitária". Porque se isso acontece na Europa é porque sofre uma crise de sua fé comum. Nesta data. a inter-nação. portanto. O extravio metódico que representa o internacionalismo impediu ver que só através de uma etapa de nacionalismo exacerbados se pode chegar à unidade concreta e cheia da Europa. Esta idéia européia é de signo inverso àquele abstruso internacionalismo. mas de integrá-las. e isto convida a suspeitar ou que nunca foi verdade ou que o tem sido em sentidos mui diversos. Esta é o autêntico poder de criação histórica. Mas tem também seus direitos a visão de retícula grossa. Mas seria um erro crer que isto significa seu desaparecimento ou definitiva dispersão. mas como é comum e européia a enfermidade. Não de laminar as nações. Os povos menores adotarão figuras de transição e intermediárias. No livro The Revolt of the Masses (101). um passo à frente na organização jurídica e política de sua unidade. virá uma articulação da Europa em duas formas diferentes de vida pública: a forma de um novo liberalismo e a forma que. Se olhamos a realidade com uma ótica de retícula fina. mas não mana no meio da alteração. o manancial de uma nova fé. O "totalitarismo" salvará o "liberalismo".

Os princípios sociais que regeram uma idade perderam seu vigor e ainda não amadureceram os que vão imperar na seguinte. Se hoje os judeus possuem o dinheiro e são os donos do mundo. Em todas estas lamentações insinua-se algo mais.htm (115 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Não se diga que o dinheiro não era a forma principal da riqueza. deplorando-o. A questão é sobretudo complicada e não pode ser resolvida em dois tempos. ainda sendo isto verdade e calibrando na devida cifra o peso puramente econômico do dinheiro na dinâmica da economia medieval. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela. tempos muito transitórios entre duas etapas. pelo menos. O importante é evitar a concepção econômica da história. são. muito diferentes.eram mui pouco inteligentes a respeito de si. mas usurpado às outras forças ausentes. porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde. ante o poder do dinheiro encerra uma porção de problemas curiosos ainda não aclarados. pode descobrir-se nelas uma nota comum: são sempre épocas de crise moral. diferentes coincidam em ponto tão principal. fazendo da história inteira uma monótona conseqüência do dinheiro. Só como uma possibilidade de interpretação vai tudo isto que digo. chrémata aner! "Seu dinheiro. Os marxistas. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. esta clarividência para o próprio destino é coisa relativamente nova na história. Eu creio que esta surpresa. Porque. sua surpresa de que o dinheiro tenha mais força da que devia ter. Gôngora faz disso letras. mas não nos inspira asco. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. No século VII antes de Cristo corria já por todo o Oriente do Mediterrâneo o apotegma famoso: Chrémata. entre si. Entretanto. Como? Será que o dinheiro não possui. talvez. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência. seu dinheiro é o homem!" No tempo de César dizia-se o mesmo. porque . E de onde nos vem essa convicção. no século XIV o põe em circulação nosso turbulento tonsurado de Hita. o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. e que sempre nos colhe de surpresa? É. não se deve fazer muito caso do que as épocas passadas disseram de si mesmas. Esta perspicácia sobre o próprio modo de ser. Em geral. para adubar as coisas segundo a pauta de sua tese. não o deve ter porque não é seu. As épocas em que mais autenticamente e com mais dolentes gritos se lamentou esse poderio. Que conseqüência tiramos desta monótona insistência? Que o dinheiro. Quem as usa expressa com elas. desde que se inventou. um magnífico atributo do ser vivente. essa surpresa e essa insinuação perene de que o poder exercido não lhe corresponde. não há correspondência entre a riqueza daqueles judeus e sua posição social.é forçoso declará-lo . se lhe atribui e que seu influxo só é decisivo quando os demais poderes organizadores da sociedade se retiraram? Se assim fosse entenderíamos um pouco melhor essa estranha mescla de submissão e de asco que ante ele sente a humanidade. também o possuíam na Idade Média e eram o excremento da Europa. da realidade econômica nos tempos feudais.A rebelião das massas. segundo a qual o dinheiro devia ter menos influência da que efetivamente possui? Como não nos habituamos ao fato constante depois de tantos e tantos séculos. menosprezaram excessivamente a importância da moeda na etapa pré-capitalista da evolução econômica. é uma grande força social? Isso não era necessário sublinhar: seria uma calinada. o poder que. e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules. que alheia toda a graça do problema. Pelo visto. e foi necessário depois refazer a história econômica daquela idade para mostrar a importância efetiva que nos Estados medievais tinha o dinheiro hebreu. Porque é demasiado evidente que em muitas épocas humanas o poder social do dinheiro foi muito reduzido e outras energias alheias ao econômico informaram a convivência humana. sempre renovada. e no XVII. a rigor.

mas. mas não é a musa de seu estilo tectônico. Pois bem: no século XVI. Se nos envaidecemos. pode duvidar da importância que o dinheiro tem na história. como indiquei. inventa sempre algum novo tema de desigualdade. A fantasia humana. e no tempo de César os "cavaleiros". Há. toda a energia social vacante é absorvida por ele. se reparte segundo se acha repartido o poder social. o exclusivo do presente é esta outra conjuntura. religião. pois. fustigada por esse instinto irreprimível de jerarquia. ainda limitando de tal sorte a frase inicial que dá ocasião a esta nota. entretanto. se queria algo mais que o breve repertório de mercadorias existente.raça. Ora bem: isto é impossível.ceteris paribus . em sua combinação com os fabulosos progressos da técnica. o homem mais invejado era aquele que possuía certa tulipa rara. vice-versa. nem o mais idealista. Qual seja o princípio desta é outra questão. Nem a religião nem a moral dominam a vida social nem o coração da multidão. mas havia pouco para comprar. mas talvez possa duvidar-se de que seja um poder primário e substantivo. No século XVIII existiam também grandes fortunas. Morta uma constituição política e moral. de outro modo: o dinheiro não manda mais senão quando não há outro princípio que mande. Onde há cinco homens em estado normal produz-se automaticamente uma estrutura jerarquizada. Ou. continuava sendo um infra-homem.o século XVII . por muito dinheiro que haja e por muito livre que se encontre sua ação de conflitos com outras potências. incapaz por si mesmo de inspirar a grande arquitetura da sociedade. se cedem os verdadeiros e normais poderes históricos . fica a sociedade sem motivo que jerarquize os homens. Isto nos permite formar uma escala com as épocas de crematismo e dizer: o poder social do dinheiro . Se há poucas coisas para comprar. não pode volatilizar-se. O novo. A cultura intelectual e artística é avaliada menos que há vinte anos. para seu poder. isto aconteceu várias vezes na história. Durante um momento . um limite automático em sua própria essência. O sintoma de um poder social autêntico é que cria jerarquias. não quanto maior seja a quantidade do dinheiro mesmo. por muito dinheiro que tivesse um judeu. uma razão que dá probabilidade clara à suspeita de ser nosso tempo o mais crematístico de quantos foram. tudo que acontece em nossa hora parecer-nos-á único e excepcional na série dos tempos. por ser elemento material.htm (116 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . produziu nestes anos um cúmulo tal de objetos mercáveis. Ora bem: não há dúvida que o industrialismo moderno.na Holanda. Mas. de tantas classes e qualidades. O dinheiro é apenas um meio para comprar coisas. Se os normais faltam. Mas algum terá de existir sempre. eu me pergunto se há alguma razão para afirmar que em nosso tempo goza o dinheiro de um poder social maior que em tempo algum do passado. a meu juízo. idéias -. Ninguém. Parece o mais verossímil que seja o dinheiro um fator social secundário. Contra a ingenuidade igualitária é preciso fazer notar que a jerarquização é o impulso essencial da socialização. É também idade de crise: os prestígios há anos ainda vigentes perderam sua eficiência. não ascendiam ao cume da sociedade. Mas. Assim se explica essa nota comum a todas as épocas submetidas ao império crematístico que consiste em ser tempos de transição. tinha de inventar um apetite e o objeto que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e vai para o guerreiro na sociedade belicosa. O dinheiro teve. Pelo contrário. O rico.será tanto maior quantas mais coisas haja para comprar.A rebelião das massas. Talvez o poder social não depende normalmente do dinheiro. mas vai para o sacerdote na teocrática. que eram os mais ricos como classe. que. que quando se volatilizam os demais prestígios resta sempre o dinheiro. É uma das forças principais que atuam no equilíbrio de todo ofício coletivo. Também esta curiosidade é exposta e difícil de satisfazer. que seja ele quem destaca o indivíduo no corpo público. um pseudo princípio se encarrega de modelar a jerarquia e definir as classes. que o dinheiro pode desenvolver fantasticamente sua essência: o comprar. política. Diríamos. seu influxo será escasso. Resta só o dinheiro.

escolher os objetos melhores . pelo menos dentro de um mesmo período histórico zoológico. por assim dizer. o efeito por elas produzido transcendeu os limites do histórico e transtornou a espécie como tal. . As formas biológicas mesmas foram. o decisivo influxo das diferenças biológicas mais elementais. e esta reação de dentro do organismo à mudança física do contorno. Se houve catástrofes telúricas . Em todo este intrincamento intercalado entre o dinheiro e objeto complicava-se aquele com outras forças espirituais fantasia criadora de desejos no rico. trabalho técnico deste.htm (117 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . vai para trinta anos. jovens e velhos. portanto. é uma operação que se faz de dentro para fora. sem querer. é a verdadeira variação histórica. mecanicamente. quando se advertiu que a organização social mais primitiva não é senão a marca na massa coletiva dessas grandes categorias vitais: sexos e idades. o melhor isqueiro. tinha de buscar o artífice que o realizasse e dar tempo a sua fabricação. e mesmo cada indivíduo.o melhor automóvel. A estrutura mais primitiva da sociedade se reduz a dividir os indivíduos que a integram em homens e mulheres. A lentidão e suavidade deste processo dá tempo a que o organismo reaja. a meu juízo. a bem dizer. e cada uma destas classes sexuais (102) em meninos. aprontará uma resposta mais ou menos diferente. 15 de maio de 1927. dependente.dilúvios. e por isso as causas ou princípios de suas variações devem ser buscados no interior do organismo. Em definitivo. As mudanças mais violentas que nossa espécie conheceu. em classes de idade. Caberia imaginar um autômato provido de um bolso em que metesse mecanicamente a mão e chegasse a ser o personagem mais ilustre da urbe.A rebelião das massas. os períodos glaciais. As modificações externas atuam só como excitantes de modificações intraorgânicas. Convém abandonar a idéia de que o meio. são. Como se pode pensar que estes módulos elementaríssimos e divergentes da vitalidade não sejam gigantescos poderes plásticos da história? Foi. as primeiras file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que a vida seja um processo de fora para dentro. El Sol. modele a vida. A existência tem sido. submersão de continentes. e mesmo cada variedade. . satisfaria. A vida é masculina ou feminina. O mais provável é que o homem não assistiu nunca a semelhantes catástrofes. perguntas que o ser vivo responde com uma ampla margem de originalidade imprevisível. Cada espécie. Viver. o melhor chapéu. nunca idêntica. Basta que durante algum tempo a temperatura média do ano desça cinco ou seis graus para que a glacialização se produza. em suma. Pensando assim. não tiveram caráter de grande espetáculo.de que se fazia. súbitas mudanças extremas de clima -. mais ou menos claro. etc. JUVENTUDE I As variações históricas não procedem nunca de causas externas ao organismo humano. um dos descobrimentos sociológicos mais importantes o que se fez. havia de parecer-me sobremodo verossímil que nos mais profundos e amplos fenômenos históricos apareça. é jovem ou é velha. que os verões sejam um pouco mais frescos. pelo visto. seleção do artífice.e comprá-los. como nos mitos mais arcaicos pode se recordar confusamente. etc. sempre muito cotidiana. Agora um homem chega a uma cidade e aos quatro dias pode ser o mais famoso e invejado habitante dela sem mais trabalho que passear ante as vitrinas.

o jovem atua sempre diante do senador em forma de oposição. são duas parelhas de potências antagônicas. toma a vida de repente um aspecto de triunfante juventude. No ser humano a vida se duplica porque ao intervir a consciência a vida primária se reflete nela: é interpretada por ela em forma de idéia. este império dos jovens vinha se preparando desde 1890. juventude e senectude. um forcejar em que cada qual tenta arrastar. Para compreender bem uma época é preciso determinar a equação dinâmica que nela dão essas quatro potências. E como a história é. desestima as da vida madura. o é também a história. O fenômeno é demasiado recente e ainda não se pode ver se esta nova vida in modo juventutis será capaz do que depois direi. sendo rítmica toda vida. mas sob condição de servir ao espírito que Sócrates representa. e que os ritmos fundamentais são precisamente os biológicos. mas junto a ele. produz-se entre eles uma colisão. a graça e o vigor juvenis são postos a serviço de algo acima deles. Hoje de um lugar. Na realidade. Cada uma destas potências significa a mobilização da vida toda em um sentido divergente do que possui sua contrária. íntegra. o interessante será descrever a projeção na consciência desses predomínios rítmicos. sem o que não é possível a perduração de seu triunfo. pelo contrário. E como todos coexistem em qualquer instante da história. A parelha Sócrates-Alcibíades simboliza muito bem a equação dinâmica de juventude e madureza desde o século V no tempo de Alexandre. às vezes súbitas? Eis aqui uma questão sobre a qual não podemos ainda dizer uma só palavra clara (103). em seu sentido. que há tempos de jovens e tempos de velhos. quer dizer. sentimento. Eu não sei se este triunfo da juventude será um fenômeno passageiro ou uma atitude profunda que a vida humana tomou e que chegará a qualificar toda uma época. Os dois nomes que enunciam os partidos da file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e como potência compensatória. história da mente. Roma. imagem. O jovem Alcibíades triunfa sobre a sociedade. e pospõe. mas nunca. O que realmente me parece evidente é que nosso tempo se caracteriza pelo extremo predomínio dos jovens. a masculinidade e a feminilidade. amanhã de outro. que lhes serve de norma. entre as bem conhecidas. entretanto. está o homem maduro que o educa e dirige.htm (118 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a vida toda organiza-se em torno do efebo. Vêem a ser como estilos diversos do viver. Chega uma época em que prefere. desde o fin de siècle. O "filho". os homens maduros? O varonil ou o feminino? É sobremaneira interessante perseguir nos séculos as deslocações do poder para uma ou a outra dessas potências. que há épocas em que predomina o masculino e outras senhoreadas pelos instintos da feminilidade. e depois de uma guerra mais triste que heróica.A rebelião das massas. a existência humana. seremos forçados a dizer: tem havido na história outras épocas em que predominaram os jovens. Deste modo. A luta misteriosa que mantém nas secretas oficinas do organismo a juventude e a senectude. reflete-se na consciência sob a espécie de preferências e desdéns. prefere o velho ao jovem e submete-se à figura do senador. que estima mais as qualidades da vida jovem. quer dizer. Masculinidade e feminilidade. do pai de família. Por que acontecem estas variações da preferência. e perguntar: Quem pode mais? Os jovens ou os velhos. de incitação e de freio. Nos séculos clássicos da Grécia. Mas se fossemos atender só ao aspecto do momento atual. É surpreendente que em povos tão velhos como os nossos. Então adverte-se o que de antemão devia presumir-se: que. foram desalojadas a madureza e a ancianidade: em seu oposto se instalava o homem jovem com seus peculiares atributos. da alma. como tantas outras coisas. antes de tudo. E preciso que passe algum tempo para poder aventurar este prognóstico. ou bem acha a graça máxima nos modos femininos diante dos masculinos. instituições. (104) o predomínio tem sido tão extremado e exclusivo.

prefere suas atitudes fatigadas e apressa-se a abandonar sua mocidade. e a peruca empoada cobre toda testa primaveril . II Todo gesto vital.varões e fêmeas . Busca-se por toda a parte a raison e interessa mais que nada a teologia: jesuítas contra Jansênio. É o século do entusiasmo pelos decrépitos. vestido à espanhola. Tertium non datur. O gesto de combate que parece interpolar-se entre ambos pertence. Repasse o leitor rapidamente a série de épocas européias. Para achar outra época de juventude como a nossa. o garoto genial. Há nele. prole. A Revolução fizera tábua rasa da geração precedente e permitiu durante quinze anos que ocupassem todas as eminências sociais homens muito moços. ingenuamente surpresos: Para onde foram os jovens? Quanto vale nesta idade parece ter quarenta anos: o traje.com uma suposição de sessenta anos. não é filho de "alguém" reconhecido. O que o jovem afirma então não é a sua juventude. o corpo elástico e nu. é mero descendente e não herdeiro. O jacobino e o general de Bonaparte são rapazes. luta multissecular aludem a esta dualidade de potências: patrícios e proletários. ou é um gesto de domínio ou um gesto de servidão. é genial porque antecipa a ancianidade dos geômetras. Esta é a causa que decide file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O jovem imita em si o velho. e os jovens ao olhar dentro de si só acham inapetência vital. a um ou outro estilo. Entretanto.homem ou mulher . casado segundo lei do Estado e por isso herdeiros de bens. uma subversão contra o passado e é um ensaio de se afirmar a si mesma a juventude. Para extremar tal estilo de vida finge-se na cabeça a neve da idade. Pascal. Ao chegar ao século XVIII neste virtual processo temos de nos interrogar. que com uma ou outra intensidade impregna todo o século XIX. seria preciso descer até o Renascimento. não a confusa juventude. efetivamente. os modos. O romanticismo. 9 de junho de 1927. Todas as gerações do século XIX aspiraram a ser maduras o mais depressa possível e sentiam uma estranha vergonha de sua própria juventude. de negro. Ambos significam "filhos". que estremece ao passo de Voltaire.A rebelião das massas. De Ninon estima-se a madureza. ao passo que o proletário é filho no sentido da carne. Quando no romanticismo se reage contra o século XVIII é para voltar a um passado mais antigo. são só adequados à gente dessa idade. mas princípios recebidos: nada tão representativo como Robespierre. O jovem revolucionário é só o executor das velhas idéias confeccionadas nos dois séculos anteriores. que abomina de toda qualidade juvenil. A guerra ofensiva vai inspirada pela segurança na vitória e antecipa o domínio. detesta o sentimento e a paixão. pode parecer em sua iniciação um tempo de jovens. oferece este tempo o exemplo de um falso triunfo juvenil. e o romanticismo porá de manifesto sua carência de autenticidade. E a época dos blasés. dos suicídios. Domina a centúria Descartes.htm (119 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o ar prematuramente caduco no andar e no sentir. Se damos um passo atrás caímos no século vieillot por excelência. Compare-se com os jovens atuais . o velho de nascimento. El Sol. A guerra defensiva sói empregar táticas vis. a rigor. uns são filhos de pai cidadão. o uso.que tendem a prolongar ilimitadamente sua mocidade e se instalam nela como definitivamente. porque no fundo de sua alma o atacado estima mais que a si mesmo o ofensor. (Como se vê a tradição exata de patrício seria fidalgo). o XVIII. cadáver vivente que passa sorrindo de si mesmo no sorriso inumerável de suas rugas.

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um ou outro estilo de atitude. O gesto servil o é porque o ser não gravita sobre si mesmo, não está seguro de seu próprio valor e em todo instante vive comparando-se com outros. Necessita deles em uma ou outra forma; necessita de sua aprovação para se tranqüilizar, quando não de sua benevolência e de seu perdão. Por isso o gesto leva sempre uma referência ao próximo. Servir é encher nossa vida de atos que têm valor só porque outro ser os aprova ou aproveita. Têm sentido olhados da vida deste outro ser, não da nossa vida. E esta é, em princípio, a servidão: viver desde outro, não desde si mesmo. O estilo de domínio, por seu turno, não implica a vitória. Por isso aparece com mais pureza que nunca em certos casos de guerra defensiva que concluíram com a completa derrota do defensor. O caso de Numância é exemplar. Os numantinos possuem uma fé inquebrantável em si mesmos. Sua longa campanha contra Roma começou por ser de ofensiva. Desprezavam o inimigo e, com efeito, o derrotavam uma vez e outra (105). Quando mais tarde, recolhendo e organizando melhor suas forças superiores, Roma aperta Numância, esta, dir-se-á, toma a defensiva, mas propriamente não se defende, efetivamente aniquila-se, suprime-se. O fato material da superioridade de forças no inimigo convida ao povo de alma dominante a preferir sua própria anulação. Porque só sabe viver desde si mesmo, e a nova forma de existência que o destino lhe propõe - servidão - lhe é inconcebível, lhe sabe a negação do viver mesmo; portanto, é a morte. Nas gerações anteriores a juventude vivia preocupada com a madureza. Admirava os maiores, recebia deles as normas - em arte, ciência, política, usos e regime de vida -, esperava sua aprovação e temia seu enfado. Só se entregava a si mesma, ao que é peculiar a tal idade, subrepticiamente e como à margem. Os jovens sentiam sua própria juventude como uma transgressão do que é devido. Objetivamente se manifestava isto no fato de que a vida social não estava organizada em vista deles. Os costumes, os prazeres públicos haviam sido ajustados ao tipo de vida próprio para as pessoas maduras, e eles tinham de se contentar com as zurrapas que estas lhes deixavam ou lançar-se às estroinices. Até no vestir viam-se forçados a imitar os velhos: as modas estavam inspiradas na conveniência da gente maior. As moças sonhavam com o momento em que se vestiriam "à vontade", quer dizer, em que adotariam o traje de suas mães. Em suma, a juventude vivia a serviço da madureza. A mudança operada neste ponto é fantástica. Hoje a juventude parece dona indiscutível da situação, e todos os seus movimentos vão saturados de domínio. Em sua atitude transparece bem claramente que não se preocupa o mínimo com a outra idade. O jovem atual habita hoje sua juventude com tal resolução e denodo, com tal abandono e segurança, que parece existir só nela. O que a madureza pense dela não lhe importa um caracol; mais ainda: a madureza possui a seus olhos um valor próximo ao cômico. Mudaram-se as tornas. Hoje o homem e a mulher maduros vivem quase sobressaltados, com a vaga impressão de que quase não têm direito a existir. Advertem a invasão do mundo pela mocidade como tal e começam a fazer gestos servis. Desde logo, imitam-na no trajar. (Tenho sustentado muitas vezes que as modas não eram um fato frívolo, mas um fenômeno de grande transcendência histórica, obediente a causas profundas. O exemplo presente esclarece com exaustiva evidência essa afirmação). As modas atuais estão pensadas para corpos juvenis, e é tragicômica a situação de pais e mães que se vêem obrigados a imitar seus filhos e filhas na indumentária. Os que já andamos na curva descendente da

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vida vemo-nos na inaudita necessidade de ter de desandar um pouco o caminho percorrido, como se o houvéssemos errado, e fazer-nos - de grado ou não - mais jovens do que somos. Não se trata de fingir uma mocidade que se ausenta de nossa pessoa, mas que o módulo adotado pela vida objetiva é o juvenil e nos força a sua adoção. Como com o vestir, acontece com tudo o resto. Os usos, prazeres, costumes, modos, estão talhados à medida dos efebos. É curioso, formidável, o fenômeno, e convida a essa humildade e devoção ante o poder, ao mesmo tempo criador e irracional, da vida que eu fervorosamente recomendei durante toda a minha. Note-se que em toda a Europa a existência social está hoje organizada para que possam viver a gosto só os jovens das classes médias. Os maiores e as aristocracias ficaram fora da circulação vital, sintoma em que se enlaçam dois fatores distintos - juventude e massa - dominantes na dinâmica deste tempo. O regime de vida média aperfeiçoou-se - por exemplo, os prazeres -, e, em troca, as aristocracias não souberam criar para si novos refinamentos que as distanciem da massa. Só lhe resta a compra de objetos mais caros, mas do mesmo tipo geral que os usados pelo homem médio. As aristocracias, desde 1800 no político, e desde 1900 no social, têm sido levadas de roldão, e é lei da história que as aristocracias não podem ser levadas de roldão senão quando previamente caíram em irremediável degeneração. Mas há um fato que sublinha mais que outro algum este triunfo da juventude e revela até que ponto é profundo o transtorno de valores na Europa. Refiro-me ao entusiasmo pelo corpo. Quando se pensa na juventude, pensa-se antes de tudo no corpo. Por várias razões: em primeiro lugar, a alma tem uma frescura mais prolongada, que às vezes chega a ornar a velhice da pessoa; em segundo lugar, a alma é mais perfeita em certo momento da madureza que na juventude. Sobretudo, o espírito - inteligência e vontade - é, sem dúvida, mais vigoroso na plenitude da vida que em sua etapa ascensional. Por seu turno, o corpo tem sua flor - seu akmé, diziam os gregos - na estrita juventude, e, vice-versa, decai infalivelmente quando esta se transpõe. Por isso, desde um ponto de vista superior às oscilações históricas, por assim dizer, sub specie aeternitatis, é indiscutível que a juventude rende a maior delícia ao ser olhada, a madureza, ao ser ouvida. O admirável do moço é o seu exterior; o admirável do homem feito é sua intimidade. Pois bem: hoje prefere-se o corpo ao espírito. Não creio que haja sintoma mais importante na existência européia atual. Talvez as gerações anteriores rendessem demasiado culto ao espírito e - salvo a Inglaterra - desdenharam excessivamente a carne. Era conveniente que o ser humano fosse admoestado e se lhe recordasse que não é só alma, mas união mágica de espírito e corpo. O corpo é por si puerilidade. O entusiasmo que hoje desperta inundou de infantilismo a vida continental, afrouxou a tensão do intelecto e vontade em que se retorceu o século XIX, arco demasiado retesado para metas demasiado problemáticas. Vamos dar um descanso ao corpo. A Europa - quando tem diante de si os problemas mais pavorosos - entrega-se a umas férias. Brinda elástico o músculo do corpo desnudo atrás de uma bola de futebol que declara francamente seu desdém a toda transcendência voando pelo ar com ar em seu interior. As associações de estudantes alemães solicitaram energicamente que se reduza o plano de estudos universitários. A razão que davam não era hipócrita: urgia diminuir as horas de estudo porque eles precisavam do tempo para seus jogos e diversões, para "viver a vida". Esta atitude dominante que hoje tem a juventude parece-me significativo. Só me ocorre uma reserva
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mental. Entrega tão completa a seu próprio momento é justa enquanto afirma o direito da mocidade como tal, ante a sua antiga servidão. Mas, não é exorbitante? A juventude, estádio da vida, tem direito a si mesma; mas por ser um estádio vai afetada inexoravelmente de um caráter transitório. Fechando-se em si mesma, cortando as pontes e queimando as naves que conduzem aos estádios subseqüentes, parece declarar-se em rebeldia e separatismo do resto da vida. Se é falso que o jovem não deve fazer outra coisa senão preparar-se para ser velho, também é erro parvo iludir por completo esta cautela. Pois é o caso que a vida, objetivamente, necessita da madureza; portanto, que a juventude também a necessita. É preciso organizar a existência: ciência, técnica, riqueza, saber vital, criações de toda ordem, são requeridas para que a juventude possa alojar-se e divertir-se. A juventude de agora, tão gloriosa, corre o risco de arribar a uma madureza inepta. Hoje goza o ócio florescente que lhe criaram gerações sem juventude (106). Meu entusiasmo pelo aspecto juvenil que a vida adotou não se detém senão ante esse temor. Que vão fazer aos quarenta os europeus futebolistas? Porque o mundo é certamente uma bola, mas tendo dentro de si mais do que simples ar. El Sol, 19 de junho de 1927.

MASCULINO OU FEMININO? Não há dúvida que nosso tempo é tempo de jovens. O pêndulo da história, sempre inquieto, ascende agora pelo quadrante "mocidade". O novo estilo de vida começou não há muito, e ocorre que a geração próxima já aos quarenta anos tem sido uma das mais infortunadas que existiram. Porque quando era jovem reinavam ainda na Europa os velhos, e agora que entrou na madureza depara que o império se transferiu para a mocidade. Faltou-lhe, pois, a hora de triunfo e de domínio, a oportunidade de grata coincidência com a ordem reinante na vida. Em suma: que viveu sempre ao revés com o mundo, e, como o esturjão, teve de nadar sem descanso contra a correnteza do tempo. Os mais velhos e os mais jovens desconhecem este duro destino de não haver flutuado nunca; quero dizer, de nunca haver sentido a pessoa como levada por um elemento favorável, e que pelo contrário dia após dia e lustro após lustro teve de viver em suspenso, sustentando-se a pulso sobre o nível da existência. Mas talvez esta mesma impossibilidade de se abandonar um só instante a disciplinou e purificou sobremaneira. É a geração que mais combateu, que ganhou a rigor mais batalhas e menos triunfos tem gozado (107). Mas deixemos por enquanto intacto o tema dessa geração intermediária e retenhamos a atenção sobre o momento atual. Não basta dizer que vivemos em tempo de juventude. Com isso não fizemos mais do que defini-lo dentro do ritmo das idades. Mas ao lado deste atua sobre a substância histórica o ritmo dos sexos. Tempo de juventude! Perfeitamente. Mas, masculino ou feminino? O problema é mais sutil, mais delicado - quase indiscreto. Trata-se de filiar o sexo de uma época. Para acertar nesta, como em todas as empresas da psicologia histórica, é preciso tomar um ponto de vista elevado e libertar-se de idéias estreitas sobre o que é masculino e o que é feminino. Antes de tudo é urgente desasir do trivial erro que entende a masculinidade principalmente em sua relação com a mulher. Para quem pensa assim, é muito masculino o fanfarrão que se ocupa acima de tudo de cortejar as damas e falar das boas fêmeas. Este era o tipo de varão dominante em 1890: traje barroco, sobrecasaca cujas abas
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etc. quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura. A veracidade. extrema feminilidade. o adolescente bebe no ar ático a fluência de palavras agudas que brota dos velhos dialéticos. Sim. e.. ginásio. (O bom fisionomista das modas descobre logo a idéia que inspirava esta: a ocultação do corpo viril sob uma profusa vegetação de tela e pelame.sensualidade. com efeito. que nessa época predominavam os valores de feminilidade. apenas a vê. É uma época de profunda insinceridade: discursos parlamentários e prosa de "artigo de fundo") (108). um duelo por mês. me força a dizer que todas as épocas masculinas da história se caracterizam pela falta de interesse pela mulher. e se recolhe na treva. No frontispício histórico aparecem só homens. familiaridade -. política. A mulher?. Por que? Porque aprendeu o saber dos homens. Alguma vez. a uma nativa cegueira do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. quando mais tarde separa a forma masculina sofre . Embora o grego tenha sabido esculpir famosos corpos de mulher. Seria um erro atribuir este masculinismo. tem este o privilégio de que a maior e a melhor porção de si mesmo é independente por completo de que a mulher exista ou não. como tal. nariz e olhos. pois. que culmina no século de Péricles. que o escultor vai comentar no mármore. até o ponto de que o historiador. porque se masculinizou. Vive-se em público: ágora. sentados nos pórticos com o cajado na axila. forçado a uma ótica de lonjura.. sem que a mulher tenha intervenção substantiva. mas tampouco o invento. e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita. como algo incompleto e vulnerado) (109). entregues aos puros instintos . literatura textil. a mulher se adianta um pouco: Aspásia. portanto. uma espécie de atleta com seios. A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil.A rebelião das massas. que lhe permite em ampla medida bastar-se a si mesmo.amarga desilusão. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX. É possível que o seja. Este privilégio do masculino. talvez pareça irritante. Século só para homens. paternidade. inexorável em suas vontades. no banquete varonil. como apoio e pausa à conversação que languidece. Eu não o aplaudo nem o vitupero. É uma realidade de primeira grandeza com que a Natureza. Seu trato normal com a mulher fica excluído na zona diurna e luminosa em que acontece o mais valioso da vida. os homens vivem na época só com homens. Esta fica relegada ao fundo da vida. sua interpretação da beleza feminina não conseguiu desprender-se da preferência que sentia pela beleza do varão. esporte. Não há sintoma mais evidente de que o masculino. Ciência. O fato de que ao pensar no homem se destaque primeiramente seu afã pela mulher revela. A forma feminina lhe parece como uma mutilação da masculina. capeavam o vento. por si só. são coisas em que o homem se ocupa com o centro vital de sua pessoa. Só quando a mulher é o que mais se estima e encanta tem sentido apreciar o varão pelo serviço e culto que a esta renda. nos obriga a contar. aparece sob a espécie de flautistas e dançarinas que executam suas humildes destrezas ao fundo. (É curioso advertir que a sensualidade noviça da criança a faz normalmente sonhar com o hermafrodita. Ficavam só à vista mãos. guerra. Egrégia ocasião de masculinidade foi o século de Péricles.htm (123 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O homem maduro assiste aos jogos dos efebos nus e habitua-se a discernir as mais finas qualidades da beleza varonil. técnica. muito ao fundo da cena. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista. O resto era falsificação. trirreme. barbearia. no subterrâneo das horas inferiores.por um instante . Porque assim como a mulher não pode em nenhum caso ser definida sem referi-la ao varão. à última hora. barba de mosqueteiro.. acampamento. Por sua parte. plastrão. cabelo em volutas. é preterido e desestimado.

grácil. Já não se aprecia o gesto bronco. A Corte dos Carolíngios era exclusivamente feminina. Assim nesta bronca idade. de todo um novo estilo de cultura e de vida.conservavam. não "deve separar-se. muda a face da história. mas "corte de amor". nada mais nada menos. nada mais nada menos. contar com um pouco de ordem. virago musculosa que possui atitudes e destrezas de varão. e opor-lhe o suposto rendimento do germano ante a mulher. Os homens começam a polir-se na palavra e nos modos. E eis aqui que rapidamente. a segunda. O homem. imagina a valquíria. À contínua pendência substitui o solatz e deport que quer dizer conversação e jogo. a fêmea beligerante. bebida. o valor específico da pura feminilidade.htm (124 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . contém o germe do que.. Precisamente esclarece melhor que outro exemplo a diferença entre épocas de um e outro sexo o acontecido na Idade Média. com efeito. o subsolo do porvir europeu. os Soldanieri . Esta existência de áspero regime cria as bases primeiras. antes de tudo. E preciso guerrear cotidianamente e à noite compensar o esforço com o abandono e o frenesi da orgia. ante o Estado dos guerreiros e ante a Igreja dos clérigos. Agora aparece a "cortesia" triunfadora da "clerezia". A verdade é que em outras épocas da Grécia anteriores à clássica triunfou o feminino. Sem a violência do combate ou do anátema. em perpétua emulação com eles sobre temas viris: esgrima. Como aceitam este jugo o guerreiro e o sacerdote. Mas no século XII as altas damas de Provença e Borgonha têm a audácia surpreendente de afirmar. como em certas etapas do germanismo domina o varonil. II Trata-se. O homem vive quase sempre em acampamentos. mas o gesto mesurado. El Sol. a mulher carece de papel e não intervém no que podemos chamar vida de primeira classe. da crina de seu cavalo e passará sua vida à sombra da lança". onde a mulher é o centro. Vê-se nela a norma e o centro da criação. Esta nova forma de vida pública. cavalaria. Quando o germano destes séculos se ocupa em idealizar a mulher. que por si mesma se divide em duas porções: a primeira. E a "cortesia" é. até a morte. caça. de todo um novo estilo de cultura e de vida. em cujas mãos se achavam todos os meios da luta? Não cabe mais claro exemplo da força indomável que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. feminina. a feminilidade eleva-se a máximo poder histórico. o privilégio de ser enterrados a cavalo (110). Na primeira Idade Média a vida tem o mais rude aspecto. Em tal paisagem moral. Trata-se. masculina.. Todavia em tempos de Dante alguns nobres os Lamberti. A mutação se deve ao ingresso da mulher no cenário da vida pública. mas não em todas foi estimada. suavissimamente. de paz.mas não como a antiga corte de guerra e de justiça. 26 de junho de 1927. A mulher é presa de guerra. Porque até o século XII não se havia encontrado a maneira de afirmar a delícia da existência. vai se chamar séculos mais tarde "sociedade".A rebelião das massas. o regime de vida que vai inspirado pelo entusiasmo pela mulher. do mundanal ante o enérgico "tabu" que sobre todo o terreno fizera cair a Igreja. desde o século XII. ante o Estado e a Igreja. como diz um texto da época. Mercê a ela conseguiu-se já no século XII acumular alguma riqueza. como em certas jornadas de primavera. homem grego para os valores da feminilidade. só com outros homens. Entendamo-nos: em todas as épocas desejou-se a mulher. Chamou-se então "corte" . de bem-estar.

salvo à idéia mesma da mocidade. de tudo que é aspiração. mas a força de desdém. efeminamento. o homem muito preocupado com a mulher. a figura feminina absorve o ofício alegórico de tudo que é sublime. ajustam-se à cintura e se decotam até o colo. pois. simplesmente se instala no mundo como uma propriedade indiscutida. em perpétuo concurso e emulação. Os rapazes convivem juntos nos estádios e áreas de esportes. Não lhes interessa mais que seu jogo e a maior ou menor perfeição na postura ou na destreza.A rebelião das massas. Por isso. Desta época provém o culto à Virgem Maria.htm (125 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que facilmente poderíamos multiplicar. e seu caráter patológico os impede de representar a normalidade de nenhuma época. mas de juventude masculina. O velho "efeminado" denomina este novo entusiasmo dos jovens pelo corpo viril e esse esmero com que o tratam. volta-se ao panorama atual e conhece no mesmo instante que nosso tempo não é só tempo de juventude. retorcida como um caracol. E o é. como desviação fisiológica da espécie. em seu outro sentido. sem acatar ou render culto a nada que não seja sua própria juventude. sem se preocupar com o resto. no tempo do Dante. adquirem uma fina percepção da física file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e chega a ser a forma de todo ideal. entrega-se a seus gostos e apetites. No final das contas. "efeminado" significa simplesmente homme à femmes. As moças perderam o hábito de ser galanteadas. A rigor. Mas. Estes indivíduos monstruosos existem em todos tempos. apesar de seu aspecto de mata-mouros. O dono do mundo é hoje o rapaz. que gira em torno dela e dispõe suas atitudes e pessoa em vista de um público feminino. montado sobre os nervos de uma nova geração. mas quando sobrevêm etapas de masculinismo descobre-se o que neles há de efetivo efeminamento. Suas armas preferem ao combate a justiça e o torneio. acontecida na ordem sublunar. Em tempos deste sexo. não porque o tenha conquistado. Exercitada a pupila nestes esquemas do pretérito. a seus exercícios e preferências. A vida do varão perde o módulo da etapa masculina e se conforma ao novo estilo. A mocidade masculina afirma-se a si mesma. consta pelo Gênese que a mulher não está feita de barro como o varão. O poeta deixa um pouco a gesta em que se canta o herói varonil e torneia a trova que foi inventada sol per domnas lauzar (111). cheiraria hoje a efeminamento. cuida de seu corpo e tende a ostentá-lo. Por um deles significa o homem anormal que fisiologicamente é um pouco mulher. A mulher torna-se ideal do homem. como sempre que os valores masculinos predominaram. À força de contemplar-se nos exercícios onde o corpo aparece isento de falsificações têxteis. Quando chega. Porque a palavra "efeminado" tem dois sentidos muito diversos. o homem estima sua figura mais que a do sexo contrário e. consequentemente. O cavalheiro desvia suas idéias feudais para a mulher e decide "servir" a uma dama. é tão poderoso que não necessita combater. mas feita de sonho do varão. É surpreendente a resolução e a unanimidade com que os jovens decidiram não "servir" a nada nem a ninguém. Os trajes dos homens começam a imitar as linhas do traje feminino. que versam sobre qualidades viris. Hoje. Convivem. Nada pareceria mais obsoleto que o gesto rendido e curvo com que o cavalheiro fanfarrão de 1890 se aproximava da mulher para lhe dizer uma frase galante. e esse gesto em que há trinta anos ressumavam todas as resinas da virilidade. quando é o contrário. esses homens parecem muito homens. que projeta nas regiões transcendentes a entronização do feminino. "sentir do tempo" possui. cuja cifra põe no escudo. que estão ordenados para ser vistos pelas damas.

apontar que a sentiam muito menos que na atualidade. porque se esfalfa em esportes físicos. Note-se que só se estima a excelência nas coisas de que se entende. Só estas excelências. um sintoma de primeira categoria. Daí que as modas masculinas tenham tendido estes anos a sublinhar a arquitetura masculina do homem jovem. ainda.htm (126 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Cada qual crê viver por sua conta. É uma equivocação psicológica explicar as modas vigentes por um suposto afã de excitar os sentidos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Ao ouvir hoje com tanta freqüência o cínico elogio do homem simpático brotando dos lábios femininos. que revela o predomínio do ponto de vista varonil. arrastam o ânimo e o sobrecolhem (112). aparentemente tão generoso na nudificação. mas o oposto. cingia e ostentava o atributo feminino por excelência: aquela túnica era o mais sóbrio talhe para sustentar a flor do seio. que tenha alguma verdade. oculta. que cobra a seus olhos um valor enorme. reconhecesse que não se apercebia de ser influída em sua estima da beleza masculina pelo apreço que dela fazem os jovens. De tudo aquilo que é um impulso coletivo e propele a vida histórica inteira em uma ou outra direção. Se no século XII o varão se vestia como a mulher e fazia sob sua inspiração versinhos dulcífluos. se afirmasse o corpo do futebolista. simplificando um tipo de traje tão pouco propício para isso como o herdado do século XIX. porque se veste como se veste. E o bom observador nota que nunca as mulheres falaram tanto e com tanto descaro como agora dos homens simpáticos. Por isso o mais característico das modas atuais não é a exiguidade do encobrimento. os poderosos alísios da história. por seu turno.para descobrir a essência variante. em vez de colegir ingênua e simplesmente: "A mulher de 1927 gosta superlativamente dos homens simpáticos". nem a faina química em que se ocupam nossas células. O traje Diretório era também uma simples túnica. sopros gigantescos que nos mobilizam a seu capricho. aquele nu era um perverso nu de mulher. o seio feminino. quase como a de agora.A rebelião das massas. pois. Um velho psicólogo habituado a meditar sobre estes assuntos sabe que o entusiasmo da mulher pela beleza corporal do homem. Antes. Era mister que sob os tubos ou cilindros de tela em que este horrível traje existe. Talvez desde os tempos gregos não se tenha estimado tanto a beleza masculina como agora. anula. É muita casualidade que atualmente o regime da assistência feminina nas ordens mais diversas coincida sempre nisto: a assimilação ao homem. faz um descobrimento mais profundo: a mulher de 1927 deixou de cunhar os valores por si mesma e aceita o ponto de vista dos homens que nesta data sentem. Também sabe bem a mulher de hoje porque fuma. como não nos apercebemos do movimento estelar de nosso planeta. mas não a bastante. A mulher procura achar em sua compleição as linhas do outro sexo. não é quase nunca espontâneo. não nos apercebemos nunca. se é que a sentiam. sobretudo pela beleza fundada na correção atlética. tanto mais expressiva quanto maior é a semelhança. Basta comparar o traje de hoje com o usado na época de outro Diretório maior . com efeito. Entretanto. Agora a mulher vai nua como um rapaz. Não seria objeção contra isto que alguma leitora. O traje atual. Convém. varonil. bastante curta. Mas o fato é que sob essa superfície de nossa consciência atuam as grandes forças anônimas. sabiam calar seu entusiasmo pela beleza de um varão. entusiasmo pela esplêndida figura do atleta. claramente percebidas. perscrutando sinceramente em seu interior. Vê. A dama Diretório acentuava. em virtude de razões que supõe personalíssimas. Cada uma poderá dar sua razão diferente. escamoteia.1800 . nisso. hoje a mulher imita o homem no vestir e adota seus ásperos jogos.

Inventora a mulher da "cortesia". É. Assim foi no tempo de Péricles. 3 de julho de 1927. A este fim aceita na conversação os temas de preferência dos moços e fala de esportes e de automóveis. edição espanhola Historia como sistema. as relações entre os sexos nunca foram tão sadias. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. onde se iniciou um esclarecimento e mise au point de todos estes conceitos. a uma exibição lúbrica e viciosa. que são. ainda mais. pag. dizem. pois. e quando passa a ronda dos coquetéis bebe como gente grande. O perigo está verdadeiramente na direção inversa. Há nos sacerdotes uma mania milenar contra os modismos. o descaro e impudor de um rapaz que entrega à intempérie sua carne elástica. uma invenção diabólica" (113). Tudo contrário. Homages to Ernst Cassirer. El Sol. e eu não nego que no detalhe da indumentária e das atitudes influa esse propósito incitativo: mas as linhas gerais da atual figura feminina estão inspiradas por uma intenção oposta: a de se parecer um pouco com o homem jovem. no de César. paradisíacas e moderadas como agora. A princípios do século XIII. que se tornaram um pouco indolentes. Madrid. procura insinuar-se e ser tolerada na sociedade dos homens. Em outro lugar achará o leitor alguma indicação sobre isto e. (3) Monarchie universelle: deux opuscules. desinteressadas da mulher. NOTAS (1) Veja-se o ensaio do autor intitulado "History as a System".A rebelião das massas. Porque aconteceu sempre que as épocas masculinas da história.htm (127 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O resultado de minhas reflexões acha-se no livro. El hombre y la gente. no Renascimento. uma bobagem perseguir em nome da moral a brevidade das saias em uso. destronada. Veja-se o tomo VI das Obras Completas do autor. 1942).entre eles. De minha parte procurei colaborar neste esforço de esclarecimento partindo da recente tradição francesa. S. (2) É justo dizer que foi na França. 1891. Santo Inácio. "os sermonários não cessam de fulminar contra a longitude exagerada das saias. Provavelmente. 1939 (V. superior nesta ordem de temas às demais. 36. O descaro e impudor da mulher contemporânea são. renderam estranho culto ao amor dórico. Neste encontrará o leitor o desenvolvimento e justificação de tudo que acabo de dizer. Em que ficamos? Qual a saia diabólica? A curta ou a longa? Quem passou sua juventude numa época feminina consterna-se de ver a humildade com que hoje a mulher. Hoje não se compreenderia um fato como o acontecido no século XVII por motivo da beatificação de vários santos espanhóis . de próxima publicação. Francisco Xavier e Santa Teresa de Jesus -. no volume Philosophy and History. London. sobre a causa de que essa iniciação se malograsse. só na França. nota Luchaire. Esta diminuição do poder feminino sobre a sociedade é causa de que a convivência seja em nossos dias tão áspera. pois. O fato foi que a beatificação sofreu uma longa demora pela disputa surgida entre os cardeais sobre quem devia entrar primeiro na oficial beatitude: a dama Cepeda ou os varões jesuítas. sua retirada do primeiro plano social trouxe o império da descortesia. mais que femininos. Esta indolência é um fato. do varão.

de Gasparin.. No fim de tudo é preciso recorrer aos estudos de Faguet sobre o idearium de um e outro. (Veja-se de Barante: La vie et les discours de Royer-Collard. junto ao nome dos simples burgueses aparecia a abreviatura s.entende-se que tenha "consciência" intelectual . dizia aludindo a ele: "E un gran ministro. Em um homem tão diferente de Guizot como Ranke encontramos a mesma idéia: "Logo que na Europa um princípio. Talvez o resultado desse estudo revelasse que a Alemanha recebeu nessa época muito mais da França que inversamente. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. p." Oeuvres complètes. Pouthas tomou sobre si a fatigante tarefa de despojar os arquivos de Guizot e oferecer-nos numa série de volumes um material sem o qual seria impossível empreender a ulterior faina de reconstrução.. uma e outra vez. Mas os discursos de Royer-Collard são hoje tão pouco lidos que parecerá impertinência se digo que são maravilhosos. ninguém pode ficar com a consciência tranqüila . não eram conservadores à-toa. (8) Se o leitor deseja informar-se. pág. p. que sua leitura é uma pura delícia de intelecção. de Gasparin que falando o Papa Gregório XVI com o embaixador francês. seja qual for. são absolutamente insuficientes. (10) Por exemplo. 3): "0 mundo europeu se compõe de elementos de origem diversa. toma. Guizot. e embora sejam sumamente vivazes. Broglie. em cuja ulterior contraposição e luta vêem precisamente desenvolver-se as mudanças das épocas históricas". M. Guizot.quando interpretou a política de "resistência" como pura e simplesmente conservadora. 283. 38. que ao aparecer na citação de Ranke documenta o influxo de Guizot sobre este grande historiador. Correspondance avec Mme. (4) Oeuvres completes (Calman-Lévy). Dicono que non ride mai". 35. Sobre Royer-Collard não há nem isso. Histoire de La Civilisation en Europe. por sua vez. A palavra "resistência". 110. encontra sempre uma resistência que se lhe opõe desde os mais profundos seios vitais. nob. por assim dizer. O estado de liberdade surte de uma pluralidade de forças que mutuamente se resistem. pág. 130).A rebelião das massas. pag. digamos de 1790 a 1830. que é divertida e até alegre. exibe-nos suas arcanas vísceras quando em um discurso de Royer-Collard lemos: "Les libertés publiques ne sont pas autre chose que des resistences". É demasiado evidente que os homens Royer-Collard. Em outro lugar (tomos 8 e 10. Charles H. II. sem nobreza.htm (128 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Não há nada melhor. (6) "La coexistence et le combat de principes divers". tenta o domínio absoluto. 248. Como se isto não acontecesse em toda escola intelectual e não constituísse a diferença mais importante entre um grupo de homens e um grupo de gramofones (9) Nestes últimos anos. Esta é a origem da palavra snob. Não há nestas palavras de Ranke uma clara influência de Guizot? Um fator que impede ver certos estratos profundos da história do século XIX é que não esteja bem estudado o intercâmbio de idéias entre a França e a Alemanha. quer dizer. (5) Na Inglaterra as listas de residências indicavam junto a cada nome o ofício e classe da pessoa. Eis aqui uma vez mais a melhor inspiração européia reduzindo a dinamismo tudo que é estático. Por isso. uma súbita mudança de sentido e. com a fórmula ilusória de que os doutrinários não possuíam uma doutrina idêntica. encontrar-se-á. mas que variava de um para outro. XXII. (7) Com certa satisfação refere-se Mme. e que constituem a última manifestação do melhor estilo cartesiano. Vol.

et se glissant dans les livres à la mode disposent toutes choses à la révolution générale dont d'Europe est menacée". é uma das obras mais geniais do século. I." D'Alembert: Discours préliminaire à l'Enciclopédie. (21) J. (16) Gesammelte Schriften. le moins clairvoyant. XVI. mais imprévoyante et superficielle révolution de 1848 eut pour conséquence. o trabalho acumulado nas notas por MM. Renan. (14) Obra fácil e útil que alguém deveria empreender. 106. Oeuvres: 1. de donner le pouvoir à l'élement le plus pesant. seria reunir os prognósticos que em cada época se fazem sobre o futuro próximo. era capaz de prever o que aconteceu um século depois. (12) Pretendem os alemães que foram eles os descobridores do social como realidade diferente dos indivíduos e "anterior" a estes. (22) Veja-se História como sistema. 143. (11) Veja-se o citado ensaio do autor: História como sistema. pág. que em 1848 era jovem e simpatizou com aquele movimento. (13) Veja-se Doctrine de Saint-Simon. vê-se obrigado na sua madureza a fazer algumas reservas benévolas a seu favor.. trad. le plus obstinément conservateur de notre pays". Chap. segunda: que os males presentes da Europa são oriundos de regiões mais profundas cronológica e virtualmente do que sói presumir-se. Bouglé e E. qui réglent les autres et dont dépendent les affaires.htm (129 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . 16. 843. O Volksgeist parece-lhes uma de suas idéias mais autóctones. Dupont-White (páginas 131-132). I. IV. Primeira: que um homem. Carré: La Philosophie de Fontenelle. Halévy (p. (17) Histoire de Jacques II. 204. Mas o termo Volksgeist mostra demasiado claramente que é a tradução do voltairiano esprit des nations. Bouglé e Halévy constitui uma das contribuições mais importantes que eu conheço ao efetivo esclarecimento da alma européia entre 1800 e 1830. Nouveaux Essais sur l'entendement humain. supondo que foi "honrado e irreprochável ". nota).56 (1821).. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. Renan: Questions contemporaines. Este é um dos casos que mais recomendam o estudo minucioso do intercâmbio intelectual franco-germânico de 1790 a 1830 a que em nota anterior me refiro. Além de que esta exposição do saint-simonismo. feita em 1829. em 1700. (15) Stuart Mill: La liberté. A origem francesa do coletivismo não é uma casualidade e obedece às mesmas causas que fizeram da França o berço da sociologia e de seu renovo em 1890 (Durkheim). Eu colecionei os suficientes para ficar estupefato ante o fato de que tenha havido sempre alguns homens que prevêem o futuro. B. com introdução e notas de C. (19) ". au bout de moins d'un an. (18) "Je trouve même que des opinions approchantes s'insinuant peu à peu dans l'esprit des hommes du grand monde. irreprochable. (20) "Cette honnête. notre siècle qui se croit destiné à changer les lois en tout genre. data aproximada em que Leibniz escrevia isto... 0 que demonstra duas coisas.

A palavra "moderno" expressa. 353 do tomo III de Obras Completas). págs. num artigo de El Sol. (Veja-se pág. os tomos II e IV de Obras Completas). dificuldades para precisar a data de seu primeiro aparecimento. modificação ou moda que em tal presente tenha surgido ante os modos velhos. Temporum felicitas. nota 6. I. no direito. Le droit anglais est un droit historique. de modo que surta uma doutrina orgânica sobre o fato mais importante de nosso tempo. 1928. Juridiquement parlant. que agora analiso. tradução de José Gaos. "modernidade" com que os últimos tempos se batizaram a si mesmos. Sans discontinuité le droit positif remonte dans l'histoire jusqu'aux temps immémoriaux. expressa mui agudamente essa sensação de "altura dos tempos". e encontram. lâmina LII e 588. 44. às vezes. e os artigos sobre Los Estados Unidos. en Anglaterre tout le droit est actuel. (31) O sentido original de "moderno". vejam-se algumas moedas reproduzidas em Rostovtzeff: The social and economic history of the Roman Empire. mas sim verdade ao pé da letra. págs.A rebelião das massas. 35 do tomo III das Obras Completas). respectivamente. muita parte dela levou muitos anos em atrever-se a ser livro (1946). a consciência de uma nova vida. (28) Veja-se España invertebrada. (23) Em seu prólogo a sua tradução de La Liberté. superior à antiga. (24) Não é uma simples maneira de falar.htm (130 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . tomo I. 41 e seguintes. Na Inglaterra. intitulado "Masas" (1926) e em duas conferências dadas na Associação Amigos del Arte. (29) Nos cunhos das moedas de Adriano lêem-se coisas como estas: Italia Felix. publicado em 1921. À parte o grande repertório numismático de Cohen. o fato de que quase toda a minha obra saiu ao mundo usando a máscara de artigos jornalísticos. ocupei-me do tema que o presente ensaio desenvolve. Revista de Occidente. Moderno é o que está posto segundo o modo: entende-se o modo novo. tradicionais. pois. quel qu'en soit l'âge". 1921. (Veja-se pág. (Vejam-se. il n'y a pas "d'ancien droit anglais". file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e ao mesmo tempo o imperativo de estar à altura dos tempos. Para o "moderno". em Buenos Aires (1928). (30) Não se deixem de ler as maravilhosas páginas de Hegel sobre os tempos satisfeitos em sua Filosofia de la historia. que havia de trazer a diminuição absoluta no número dos habitantes do Império. Lévy-Ullmann: Le système juridique de l'Anglaterre. (26) Em meu livro España Invertebrada. de Stuart Mill. 38/39. Aproveito esta oportunidade para fazer notar aos estrangeiros que generosamente escrevem sobre meus livros. (25) Veja-se o ensaio Hegel y América. data de sua primeira publicação como série de artigos no jornal diário El Sol. que se usaram no passado. edição. enquanto se formavam estas aglomerações. publicados pouco depois. (27) 0 trágico daquele processo é que. 1a. (32) La deshumanización del arte. não sê-lo eqüivale a cair baixo o nível histórico. Meu propósito agora é recolher e completar o que eu disse então. Tellus stabilita. 1926. pag. posto que valha na ordem onde a palavra "vigência" tem hoje seu sentido mais imediato. "aucune barrière entre le présent et le passé. Don. Saeculum aureum. começava o despovoamento das campinas. a saber.

(37) A liberdade de espírito. uma utopia abstrata e inane. um mundo mais rico de coisas e. mas que. quando. (39) Veremos. sempre haveria duas: essa e sair do mundo. se proclamou rei a Carlos III. certos conselhos negativos. Que lhe importa não ser mais rico que outros. O mundo de Einstein é finito. Jamais o entendimento humano teve como agora maior capacidade de dissociação. plebéia ou "aristocrática". Veja-se o ensaio El origen deportivo del Estado. necessita triunfar da distância e da tardança. dispostos a admitir toda possibilidade. mede-se por sua capacidade de dissociar idéias tradicionalmente inseparáveis. precisamente porque é mortal. é quase certo que a maravilha da física atual se perderia para sempre na humanidade. a esfera de facilidades e comodidades que sua riqueza podia proporcionar-lhe era muito reduzida. base da técnica futura. "Depois mandaram trazer de beber a todo aquele grande concurso. tende sempre. (35) Assim. entretanto. 1926. Fez-se a proclamação na praça da vila. (34) No pior caso. vivendi perdere causas. recolhido no tomo VII del El Espectador. mas uma vazia generalização. se o mundo o é e lhe proporciona magnificas estradas de rodagem. a destruir as causas de sua vida. 1916. Foi necessária uma preparação de muitos séculos para acomodar o órgão mental à abstrata complicação da teoria física. de ferro. que com repetidos "vivas!" se encaminharam ao depósito municipal de trigo e de suas janelas arrojaram o cereal file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como cabe receber do passado. mas cheio e concreto em todas as partes. costuma dizer em conversação privada que se morressem subitamente dez ou doze determinadas pessoas. já no prólogo de meu primeiro livro: Meditaciones del Quijote. Sempre me pareceu uma caricatura engraçada dessa tendência a propter vitam. um dos maiores físicos atuais. A vida do homem médio é hoje mais fácil. a potência do intelecto. telégrafo. mas o que devemos evitar. Para um Deus cuja existência é imortal. o qual consumiu setenta e sete arrobas de vinhos e quatro odres de aguardente. (36) 0 mundo de Newton era infinito. Não que sejamos decadentes. 607 do tomo II de Obras Completas). além do mais. Mas a saída do mundo forma parte deste. Dissociar idéias custa muito mais que associá-las. como de uma habitação a porta. Não nos dirá o pretérito o que devemos fazer. de maior tamanho. Nas Atlântidas aparece sob o nome de horizonte. já que não uma orientação positiva. cômoda e segura que a do mais poderoso em outro tempo.htm (131 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não excluímos a da decadência. portanto. companheiro e continuador de Einstein. hotéis. (40) Hermann Weyl. (Veja-se a pág. mas essa infinitude não era um tamanho. e quando o mundo parecera reduzido a uma única saída. (41) Por muito rico que um indivíduo fosse em relação com os demais. (38) Esta é a origem radical dos diagnósticos de decadência. que é. Qualquer evento poderia aniquilar tão prodigiosa possibilidade humana. seja qual seja. careceria de sentido o automóvel. o que aconteceu em Nijar.A rebelião das massas. efetivamente. por afã de viver. (33) Precisamente porque o tempo vital do homem é limitado. segurança física e aspirina? (42) Abandonada à sua própria inclinação. cujo espírito os acalorou de tal modo. em 13 de setembro de 1759. quer dizer. povoado próximo a Almería. como a totalidade do mundo era pobre. como demonstrou Köhler em suas investigações sobre a inteligência dos chimpanzés. a massa.

egrégio aquele que desestima o que acha sem prévio esforço em sua mente. (46) Veja-se El origen deportivo del Estado. pelo senhor Manuel Danvila. ou. se não tem vontade de ser verídico. Admirável Nijar! Teu é o porvir! (43) É intelectualmente massa aquele que ante um problema qualquer se contenta com pensar o que boamente encontra em sua cabeça. O Estado eclesiástico concorreu com igual eficácia. que exclui a herança. e ao dito ali remeto-me. almofarizes.verdadeiras ou falsas .cevada. Nas lojas fizeram o mesmo. é intelectualmente um bárbaro. Entre os demais reinará a mais efusiva unanimidade.A rebelião das massas. vida é o processo existencial de uma alma. dá conferências ou escreve.htm (132 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Não creio que melhore minha situação ante leitores tão herméticos resumir toda uma maneira de pensar dizendo que o sentido primário e radical da palavra vida aparece quando a empregamos no sentido de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.) (47) Sobre a indocilidade das massas. que é uma sucessão de reações químicas. É. (Veja-se página 607 do tomo II de O. para mais autorizar a função. (44) Veja-se España invertebrada (1922). 35 do tomo III de O. um ensaio sobre a imbecilidade? (49) Não se pretenda escamotear a questão: todo opinar é teorizar. o que não é. C. quantos gêneros líquidos e comestíveis havia nelas. já falei em España invertebrada (1922). pratos.as entenda. pois não restou nelas pão. (50) Se alguém em sua discussão conosco se desinteressasse de se ajustar à verdade. (Veja-se pag. tomo II. especialmente das espanholas. citado em Reinado de Carlos III. Só algum leitor bastante ingênuo para não crer que sabe já definitivamente o que é a vida.um estudo sobre ela. Como é possível. trigo. que não se tenha tentado nunca . não há oportunidade para estudar o fato de que tantas vezes apareça na história uma "nobreza de sangue". 156. pág. falando a sério. 10. Este povoado. De fato. nota 2. C. para viver sua alegria monárquica. C. (51) Não é preciso dizer que quase ninguém levará a sério estas expressões. pelo contrário. (45) Como no anterior trata-se só de retrotrazer o vocábulo "nobreza" a seu sentido primordial.parece-me . mandando derramar. pois. pois em altas vozes induziram as mulheres a sacudir fora o que havia nas suas casas. e os melhores intencionados as entenderão como simples metáforas. pág. pelo menos. ficando a vila destruída: Segundo um papel do tempo em poder do senhor Sánchez de Toca. essa é a posição do homem-massa quando fala.) (48) Muitas vezes levantei de mim para mim a seguinte questão: é indubitável que sempre teve de ser para muitos homens um dos tormentos mais angustiosos de sua vida o contacto. em El Espectador. e os outros. Dali passaram ao Estanco do Tabaco e mandaram jogar fora o dinheiro da Mesada. 35 do tomo III de O. intacta esta questão. com esta única diferença: uns pensarão que. e o tabaco. entretanto. o choque com a imbecilidade alheia. que nele havia e 900 reais de suas caixas. talvez comoventes. nem cadeiras. e só aceita como digno dele aquilo que está acima dele e exige um novo estirão para alcançá-lo. caçarolas. tomo VII. (Veja-se pág. aniquila-se a si mesmo. o que executaram com o maior desinteresse. Fica. farinha. se deixará ganhar pelo sentido primário destas frases e será precisamente quem . morteiros.).

com a sobra. fora desejável um terceiro nome. é o que em sua vida (biografável) fazem os biólogos. uma claríssima obrigação de toda "época crítica". Não tem. e ainda a abundância de meios. dia a dia cumpre com fabulosos acréscimos quanto promete e mais do que promete. preferências e gostos. direito. arte. o que jamais foram as restaurações. e em certo sentido. em. preferências e gostos. por outra parte. Vice-versa: o primitivismo que neste ensaio aparece sob seu pior aspecto é. que daqui a pouco ocupará a nossa atenção. pois. Mas a geração educada sob seu império traz consigo outras idéias. Quando as idéias. No século XIX file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. C. não há poucos anos. não cabe desculpar o desapego por ela supondo o homem médio distraído por algum outro entusiasmo de cultura.como indiquei . É um caso particular da desproporção que mais adiante aponto entre a complexidade dos problemas atuais e a capacidade das mentes. mais genérico. o substantivo da última centúria.) (53) Daí que. concorrência. não quero dizer que renuncie a uma plena liberdade diante desse próprio liberalismo. finalmente. El Espectador. (54) A rigor. preferências e gostos da geração imperante são extremistas. Mas essa atuação divide-se em duas etapas e toma duas formas: durante a primeira metade . perigosíssima crise íntima que hoje atravessa sua ciência. "O paradoxo do selvagismo". (52) Esta folga de movimentos ante o passado não é. (56) Aristóteles: Metafísica. tomo III. Só a ciência não falha. e por isso revolucionários. mas.todos os demais princípios vitais política. Se eu defendo o liberalismo do século XIX contra as massas que incivilmente o atacam.htm (133 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Outra coisa é abstração. Esse seria o verdadeiro nome. (59) Uma geração atua em média durante trinta anos. condição de todo grande avanço histórico. quer dizer. não diz nada quem supõe haver dito algo definindo a América do Norte por sua "técnica". (55) Não falemos de questões mais internas. pelo contrário. fantasia e mito. Veja-se o que. a nova geração faz a propaganda de suas idéias. Pela fortíssima razão de que toda biologia é em definitivo só um capítulo de certas biografias. que incluísse ambas. transitória falha. portanto. dizia eu sobre isto no ensaio "Biologia e Pedagogia". A maior parte dos investigadores mesmos não têm hoje a mais leve suspeita da gravíssima. de alma substancialmente restauradora. adquirem vigência e são o dominante na segunda metade de sua carreira. pois. e. (57) Centuplica a monstruosidade do fato que . Uma das coisas que perturbam mais gravemente a consciência européia é o conjunto de juízos pueris sobre a América do Norte que se ouvem expendidos até pelas pessoas mais cultas. religião . Claro que não se deve entender restauração como simples "volta ao antigo". 893 a 10. que começa a injetar no ar público.desse período. pelo menos. biografia e não no de biologia. pelo contrário.se acham efetivamente e por si mesmos em crise. a nova geração é anti-extremista e anti-revolucionária. (Página 281 do tomo II de O. os quais. moral.aproximadamente . a democracia liberal e a técnica se implicam e inter-supõem por sua vez tão estreitamente que não é concebível uma sem a outra.A rebelião das massas. a meu juízo. uma petulante rebeldia. (60) Não se confunda o aumento. (58) Já aqui entrevemos a diferença entre o estado das ciências de uma época e o estado de sua cultura.

a aristocracia inglesa parece uma exceção do dito. 1923.A rebelião das massas. como veremos. é-o em escala maior a nação ante o conjunto das nações. O que lanço em rosto ao "mocinho satisfeito" é a falta de autenticidade em quase todo o seu ser. Mas chegou um momento em que o mundo civilizado. a ocupação comercial e industrial . é evidente. confirma a regra. deserta de si mesmo por mera frivolidade e de tudo . de homem moderno . inspirando-lhe uma confiança que é já falsa. (65) Envilecimento. isto é.quantitativo e qualitativo da própria vida como apontei acima. (63) 0 que é a casa ante a sociedade. (61) Nisto. e a não ater-se aos privilégios. E eu. viciosa. acho. ao "mocinho satisfeito". E ao aceitar essa porção de inautenticidade cumpre com seu dever. Assim. Isto significa que o destino desse católico é em si mesmo trágico. pelo contrário. não é outra coisa senão o modo de vida que resta a quem se negou a ser o que tem que ser. Esta alusão ao caso desse católico vai aqui só como exemplo para esclarecer a idéia que agora exponho. sua própria. Como não era abundante de meios. queira ou não. Esquece-se o dado fundamental de que a Inglaterra tem sido. acanalhamento. até mui avançado o século XVIII.ignóbil no continente -. mas não se refere a ele a censura radical que dirijo ao homem-massa de nosso tempo. continua vendo-o cair. os efeitos de sua crença primária ou espontânea. O envilecido é o suicida sobrevivente. que sinto asco pela sujeição beata à internacionalidade. Mas ainda esta coincidência parcial é só aparente. não é mister que os filósofos imperem . (64) Quem crê copernicamente que o sol não cai no horizonte. em fantasma. grotesco esse transitório "senhoritismo" das nações menos gradas. supérfluo. a nobreza inglesa tem sido a menos "sobrada" da Europa e tem vivido em mais constante perigo que nenhuma outra. Coincide com este só num ponto. bastaria desenhar as linhas gerais da história britânica para patentear que esta exceção. o ser seu caso admirabilíssimo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Este seu autêntico ser não morre por isso. por outra parte. continua crendo.tudo que tem.porque quer ser fiel a outra parte efetiva de seu ser que é sua fé religiosa. O católico não é autêntico em uma parte de seu ser . A isso chamam ingenuamente "nacionalismo". Contra o que sói dizer-se. este católico nega com sua crença dogmática. e como o ver implica uma convicção primária. Apenas um exemplo disto: a segurança que parecia oferecer o progresso (aumento sempre crescente de vantagens vitais) desmoralizou o homem médio. constantemente. A nobreza salvou-se por isso mesmo. excessivamente rico. teve de aceitar. posto em relação com a capacidade do homem médio. ao mesmo tempo. a decisão que algumas nações tomaram de "fazer o que está na sua vontade" na convivência internacional. e isso produz o prodigioso crescimento . o país mais pobre do Ocidente. que lhe faz sentir constantemente a inferioridade da existência que leva a respeito da que tinha que levar. adquiria um aspecto demasiado. O que acontece é que sua crença científica detém. (62) Veja-se Olbricht: Klima und Entwicklung. autêntica crença liberal. O "mocinho satisfeito". embora o seja. como em outras coisas. mas converte-se em sombra acusadora. Uma das manifestações. atrófica. E porque tem vivido sempre em perigo soube e conseguiu sempre fazer-se respeitar . aumentavam as facilidades de vida. mais claras e volumosas do "senhoritismo" vigente é.o que supõe haver permanecido sem descanso na brecha -. decidiu-se muito cedo a viver economicamente em forma criadora.como Platão quis primeiro -. Mas. (66) Para que a filosofia impere.precisamente para escapulir a toda tragédia.htm (134 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .

mais inteligente. em El Espectador. menos isso . A invenção da carga num tubo deveu-se a alguém da Lombardia. Fica. mas claro é que sua verdade simbólica e esquemática requer não poucos aditamentos para ser completamente verdadeira. 1a. se o Estado tudo podia . Tomo VII. edição. são pedagogos. depois -. (67) Veja-se España invertebrada. (Veja-se pág. demonstrando com isso que é menos razoável que a "razão histórica". Veja-se. Além disso aconteceu no Estado absoluto que aquelas aristocracias não quiseram ampliar o Estado à custa da sociedade. burocrática. 35 do tomo III das Obras Completas). C. nega-se a reconhecer como absoluto nenhum fato. não representados pelo exército de tipo medieval dos borguinhãos. 1921. basta que os filósofos sejam filósofos..) (75) Seria interessante mostrar como na Catalunha colaboram duas inspirações antagônicas: o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. das aristocracias de sangue. (68) Esta imagem simples da grande mudança histórica em que se substitui a supremacia dos nobres pelo predomínio dos burgueses deve-se a Ranke. mais modestamente. Ambas as coisas são. a rigor. o ensaio Historia como sistema (R. nem sequer que os imperadores filosofem . puderam empregá-la em grande escala. funestíssimas. profissional. 1912). 2a. (70) Recordem-se as últimas palavras de Septimio Severo a seus filhos: Permanecei unidos. mas de burgueses. Mas não basta isso. o Estado absoluto respeita instintivamente a sociedade muito mais que o nosso Estado democrático. raciocinar consiste em fluidificar todo fato descobrindo sua gênese. siècle (tomo I. A pólvora é conhecida de tempo imemorial. 1927. 1930.são políticos. Contra o que se crê. de O.A rebelião das massas. Tomo VI. do autor. Para que a filosofia impere.htm (135 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não se fazia mais forte? Uma das causas é a apontada: incapacidade técnica. pagai ao soldado e desprezai o resto. Há quase uma centúria os filósofos são tudo. que formaram os suíços. como literalmente certo que os nobres foram derrotados de maneira definitiva pelo novo exército. edição). (72) Veja-se o ensaio "Hegel y América" em El Espectador. Porque esta. 537 do tomo II de O. melhor organizados economicamente. Como se explica isto? Já a sociedade em torno começava a crescer. 40. (71) Veja-se Elie Halévy: Histoire du peuple anglais au XIXe. Sua força primária consistiu na nova disciplina e na nova racionalização da tática. Só os exércitos burgueses. racionalizadora. a "razão naturalista". (Veja-se o tomo VI de O. 563 do tomo II de O. C.como quis. mas com menos sentido da responsabilidade histórica. (69) Mereceria a pena insistir sobre este ponto e fazer notar que a época das Monarquias absolutas européias operou com Estados muito débeis. não obstante. Por que. pág. Os "nobres" usaram em pequenas doses a arma de fogo mas era demasiado cara. Ainda assim.era "absoluto" -. C. quando trata a fundo das coisas e não de soslaio como nestas páginas. não foi eficaz até que se inventou a bala fundida.) (74) Isto é o que faz a razão física e biológica. Para ela. são literatos ou são homens de ciência.) (73) Veja-se o ensaio Sobre la muerte de Roma. (Veja-se pag. (Veja-se pág. quer dizer. basta que haja filosofia.

dos inimigos de César. o que nega o uso antigo. que não são linguagens nacionais. (84) Confirma isto o que a primeira vista parece controvertê-lo: a concessão da cidadania a todos os habitantes do Império.se achará no tratado sociológico do autor intitulado El Hombre y la Gente. sedes aratorum. mas sim complicá-lo ou modulá-lo. Até hoje. 1918. Para nossas "nações". É revelador que apenas o europeu desperta e toma posse de si. C. desejos. por mui denso que fosse o casario. toda política . Chamavam-nas "faute de mieux". Há. Eu já disse outra vez que o levantino é o resto do homo antiquus que há na Península. vive antes de tudo no futuro e do futuro. o melhor livro sobre o assunto é o de Eduardo Meyer: La Monarquia de César y el Principado de Pompeyo. mas aquele submete o futuro ao regime do passado. tomo II páginas 3 e 4. nossas idéias. não podem anular nosso verdadeiro ser. o ser humano tem irremediavelmente uma constituição futurista. De uma civilização em que a escravidão tinha valor de princípio não se podia esperar outra coisa. Segunda edição 1924. eu contrapus o homem antigo ao europeu. pois. justifica que qualifiquemos o europeu de futurista e o antigo de arcaizante. relativamente aberto. foi a escravidão um simples fato residual. para se converter ou em simples carga e serviço do Estado ou em mero título de direito civil. tomo VII. aparente contradição entre uma e outra tese. (81) Sabido é que o Império de Augusto é o contrário do que seu pai adotivo. Como é sabido. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em El Espectador. dizendo que aquele é relativamente fechado ao futuro. Não obstante. mas especificamente internacionais. nacionalismo europeu e o cidadanismo de Barcelona.htm (136 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .) (79) Veja-se Dopsch: Fundamentos económicos y sociales de la civilización europea.a "boa" como a má . em que pervive sempre a tendência do velho homem mediterrâneo. os casos de Koinón e língua franca. está claro. preferências. Surge essa aparência quando se esquece que o homem é um ente de dois andares: por um lado é o que é. enquanto nós deixamos maior autonomia ao futuro. (83) Ficam fora. ao novo como tal este antagonismo. por outro tem idéias sobre si mesmo que coincidem mais ou menos com sua autêntica realidade. (85) Segundo isso. aspirou a instaurar. César. (78) Veja-se do autor "El origen deportivo del Estado". não no ser. nem todos os alemães alto-alemão. e este. começa a chamar a sua vida "época moderna". Pois a conseqüência é que esta concessão foi feita precisamente à medida que ia perdendo seu caráter de estatuto político. (82) Nem sequer como puro fato é verdade que todos os espanhóis falem espanhol. Augusto opera no sentido de Pompeu. Evidentemente. quer dizer. "moderno" quer dizer o novo. (76) Homogeneidade jurídica que não implica forçosamente centralismo. (80) Os romanos não se resolveram a chamar cidades às povoações dos bárbaros. 1930. pelo contrário. mas no preferir. nem todos os ingleses inglês. Já nos fins do século XW começa-se a sublinhar a modernidade. (Veja-se página 607 do tomo II de O. (77) 0 sentido desta abrupta asseveração supõe que uma idéia clara sobre o que é a política.A rebelião das massas. O antigo e o europeu estão igualmente preocupados com o porvir.

aos "experts" e aos técnicos. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. uma sociedade cujos membros sejam as nações. espanhóis. (92) Os ingleses. eis ai um exemplo.o machado. vamos ver se a Inglaterra acerta a manter em unidade soberana de convivência as diferentes porções de seu Império. a roda. Não me refiro. e fala-se. Na medida em que as massas se distanciam destas aumenta o arcaísmo da sociedade. (89) Bastaria isso para se convencer de uma vez para sempre que o socialismo de Marx e o bolchevismo são dois fenômenos históricos que apenas têm alguma dimensão comum. veja-se o Prólogo para franceses. contempladas de outra perspectiva. alemães. como de laboratório. que além de ser europeus são ingleses. ao mesmo tempo.A rebelião das massas. seus membros são homens. uma espécie de vanguardismo na "mística teologia". (95) Por exemplo: as apelações a um suposto "mundo civilizado" ou a uma "consciência moral do mundo". passa a ser um caráter patológico. Se se repassa a lista das pessoas que intervieram na criação da Sociedade das Nações. é muito difícil sua comparação com a massa dos inventos derivados ou históricos. Precisamente por ser o suposto de todos os demais e haver sido conseguidos em períodos milenares. pois.fins do século XVIII. preferiram chamá-la de "liga". "mulheres e crianças. Como em toda autêntica sociedade. os europeus. (88) Se bem essa homogeneidade respeita e não anula a pluralidade de condições originárias. (87) Agora vamos assistir a um exemplo gigantesco e claro. o canastro. etc. propondo-lhe um programa atrativo. nesta obra. (94) A sociedade européia não é. a vasilha. situa a agrupação de Estados fora do direito. um dos primeiros sintomas do romanticismo . a saber. cronologicamente. (91) Certa dose de anacronismo é conatural à política. e todo o coletivo ou social é arcaico relativamente à vida pessoal das minorias inventoras. que tão freqüentemente fazem sua cômica aparição nas cartas ao diretor de The Times. (96) Há cento e cinqüenta anos a Inglaterra fertiliza sua política internacional mobilizando sempre que lhe convém e só quando lhe convém . (90) Estas páginas foram publicadas no número de junho de 1937 na revista The Nineteenth Century. constitutiva. indivíduos humanos. com bom acordo. obrigados a desenvolver e executar os desatinos daqueles políticos.o princípio melodramático de "women and children". consignando-a francamente à política. de devotio moderna. mas. (93) Sobre a unidade e a pluralidade da Europa. e muito menos mereça agora. estimação intelectual. (86) 0 princípio das nacionalidades é. É esta um fenômeno coletivo. -.htm (137 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . é claro. Isso evita o equívoco. por exemplo. e de uma magnitude normal. o fogo. (97) Ficam fora da consideração os que podemos chamar de "inventos elementais" . precisamente nas questões que mais agudamente interessavam ao tempo. conclui-se que é muito difícil encontrar alguma que merecesse então.

(102) Até o ponto de existir em certos povos primitivos dois idiomas. um fator que colabora nestas mudanças como em todos os do organismo vivo. o correspondente de The Times em Barcelona envia a seu jornal uma informação onde procura os dados mais minuciosos e as cifras mais exatas para descrever a situação. Porque o paralelismo com o momento presente da Espanha é surpreendente e luminoso. reabilitar-se para o estímulo oposto. (101) Tradução inglesa do presente livro. o haver sido nossos antepassados os mouros.600). Mas não mostram nenhuma pressa. portanto. com efeito.. o triunfo ao combatente.A rebelião das massas. o triunfo foi gozado pelos que não combateram nunca esse regime enquanto foi file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. muitos vestígios positivos nos povos selvagens do presente. de se embotar para um estímulo. Mas todo o raciocínio do artigo que mobiliza e dá um sentido a esses dados minuciosos e a essas cifras exatas. não contradiz o dito agora. Basta isso para demonstrar que esse correspondente. (98) Acrescente-se que nessas opiniões jogavam sempre grande papel as vigências comuns a todo Ocidente. um que só falam os homens e o outro só para as mulheres. como de coisa sabida e que tudo explica. reforma das instituições. a origem de certas coisas humanas. George Allen & Unwin. Mas isto vale para um conceito mais minucioso de juventude que o habitualmente usado e ao qual este ensaio se acolhe. etc. Se no estilo pictórico as figuras aparecem em posição vertical. ou que viver é ser jovem. parte de supor. foram os "intelectuais" dessa geração. qualquer que seja sua operosidade e sua imparcialidade. (103) Há. se não se supõe em épocas muito primitivas uma etapa de enorme predomínio dos jovens que deixou. ou que na juventude culmina a vida. Londres. mas resisto a considerá-lo decisivo. Até que ponto é inevitável uma pavorosa catástrofe econômica em todo o mundo? Os economistas deviam dar-nos ocasião para que cobrássemos confiança em seu diagnóstico. É o contraste.500 a 1.htm (138 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . É evidente que uma nova técnica de mútuo conhecimento entre os povos reclama uma reforma profunda da fauna jornalística. é absolutamente incapaz de informar sobre a realidade da vida espanhola. E. sem embargo. e o resto é desviver. entretanto. (107) Um exemplo destes combates em que a vitória efetiva não deu. a meu juízo. entre elas o Estado. pode ser visto na ordem pública. tem sentido dizer que a vida não é senão juventude. (100) Os perigos maiores que como nuvens negras ainda se amontoam no horizonte. (106) Do ponto de vista mais geral. (104) Não se explica. é sumamente provável que pouco tempo depois surgirá outro estilo com as figuras em posição diagonal (mudança da pintura italiana de 1. (105) Quem quisesse contar-nos com algum detalhe a guerra de Numância. (99) Neste mês de abril. as conseqüências que trouxe para a vida romana. sem dúvida. mudanças políticas. e ao mesmo tempo. faria uma boa obra. não provêem diretamente do quadrante político. por razões de curioso espelhismo histórico. A vida tem a condição inexorável de se cansar. mas do econômico. que. Os que combateram e em realidade venceram a velha política pseudo-parlamentária.

poderoso.htm (139 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .A rebelião das massas. 1957. (113) Achille Luchaire. diz o trovador Giraud de Bornelh. (108) 0 dia que se faça em sério a história do último século. (110) Veja-se a Cronaca. não recordo bem em que obra trata o assunto. de Fra Salimbene (Parma. (111) "Só para louvar as damas". (112) Por isto a estimação do escritor na Espanha é sempre falsa e a rigor mais obra da boa vontade que de sincero entusiasmo. pág. Pelo contrário. Como fazem dezesseis anos que li esse autor. Simplesmente porque os franceses entendem de literatura. na França tem o escritor um formidável poder social. páginas 94/102). 376. mas com alguma probabilidade dirijo o leitor à que então se intitulava Três ensaios sobre teoria sexual. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. La société française au temps de Philippe Auguste. (109) Tenho idéia de que Freud se ocupa minuciosamente deste fato. ver-se-á que essa geração é a efetivamente culpada do desajuste atual da Europa.

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