A rebelião das massas.

Copyright Autor: José Ortega y Gasset Tradutor: Herrera Filho Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org)

A REBELIÃO DAS MASSAS
Jose Ortega y Gasset

ÍNDICE

Apresentação Biografia do autor PRÓLOGO PARA FRANCESES PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I - O fato das aglomerações II - A ascensão do nível histórico III - A altura dos tempos IV - O crescimento da vida V - Um dado estatístico VI - Começa a dissecação do homem-massa

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A rebelião das massas. VII - Vida nobre e vida vulgar, ou esforço e inércia VIII - Porque as massas intervêm em tudo e porque só intervêm violentamente IX - Primitivismo e técnica X - Primitivismo e história XI - A época do "mocinho satisfeito" XII - A barbárie do "especialismo" XIII - O maior perigo, o Estado SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV - Quem manda no mundo? XV - Desemboca-se na verdadeira questão EPÍLOGO PARA INGLESES Quanto ao pacifismo DINÂMICA DO TEMPO As vitrinas mandam Juventude Masculino ou feminino? NOTAS

APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia

"A Rebelião das Massas", obra prima de José Ortega y Gasset, começou a ser publicado em 1926 num jornal madrilenho ("El Sol"). Retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Não se refere às classes sociais mas às multidões e aglomerações. Tendo esse contexto como pano de fundo, Ortega discute temas, aparentemente contrários

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A rebelião das massas.

entre si, mas que se fundem (ou devem fundir-se) numa unidade de sentido. É assim que contrapõe individualismo e submissão ao coletivo; comunidade, nação e estado; história, presente e porvir; homens cultos e especialistas; poder arbitrário e respeito à opinião pública; juventude e velhice; guerra e pacifismo; masculino e feminino. São tópicos que, inevitavelmente, nos induzem à reflexão crítica. Em alguns casos são apresentados de forma extremamente provocativa. Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e afirma: "É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules." Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam um certo desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se masculinizando: "A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil, uma espécie de atleta com seios. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX, quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura, extrema feminilidade. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista, e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita." Sobre a guerra, chega a afirmar: "O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida." Sua interpretação do modelo escravista é bastante sugestiva: "Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor." São essas aparentes contradições que estimulam nosso espírito crítico. Ortega defendeu suas concepções com vigor, fundamentos sólidos e uma lógica irreprensível. Em poucos momentos foi totalmente conclusivo, mas deixou uma enorme abertura para que possamos repensar as idéias que defendeu em seus dias, adaptando-as ao nosso tempo e ao que viveremos no futuro.

BIOGRAFIA DO AUTOR

José Ortega y Gasset nasceu em Madrid, a 9 de maio de 1883. A família de sua mãe era
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Grande parte de seus escritos filosóficos foram produzidos a partir do contato com a imprensa..A rebelião das massas.. "En torno a Galileo". Há sobretudo épocas em que a realidade humana. Ortega decidiu andar pelo mundo. PRÓLOGO PARA FRANCESES I Este livro . onde se doutorou em Filosofia. Com o início da guerra civil espanhola. onde prevalecia o neokantismo. Foi também co-fundador do diário "El Sol" e fundador e diretor da "Revista de Occidente". se precipita em velocidade vertiginosa. Holanda. Embora reconhecendo o valor da educação jesuítica recebida. Nossa época é dessa classe porque é de descidas e quedas. consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei de sua influência atmosférica. Muito do que nele se enuncia foi logo um presente e já é um passado." A partir de 1910 iniciou uma vida pública repartida entre a docência universitária e atividades políticas e culturais extra acadêmicas. "Obras Completas". reagiu contra os tênues fundamentos da ciência adquirida. Faleceu em Madrid no dia 18 de outubro de 1955.htm (4 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . na Alemanha.. que se refletiu na afirmação: "Durante dez anos vivi no mundo do pensamento kantiano: eu o respirei com a uma atmosfera que foi. viajando à França. não poucas de suas fórmulas chegaram ao leitor francês por vias file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Tendo adquirido as primeiras letras em Madrid foi enviado a cursar o bacharelado em um colégio jesuíta de Málaga."Rebelión de las masas". as mais polêmicas das quais foram: "Meditaciones del Quijote".. países onde proferiu inúmeras conferências. Daí que os fatos ultrapassaram o livro. formulando um projeto pessoal de reforma da filosofia européia. ao mesmo tempo. Ortega.) Com grande esforço. Argentina. proprietária do jornal madrilenho "El Imparcial" e seu pai jornalista e diretor desse mesmo diário. Além disso. Começou a ser publicado num jornal madrilenho em 1926. minha casa e minha prisão (. além de considerado um dos maiores filósofos da língua espanhola também é lembrado como uma das maiores figuras do jornalismo espanhol do século XX. em julho de 1936. Portugal.data. e o assunto de que trata é demasiado humano para que pudesse escapar à ação do tempo. Buscando uma formação intelectual mais sólida continuou seus estudos em Marburgo. Acabou por adotar uma atitude crítica em relação aos seus mestres e a Kant.supondo que seja um livro . Essa relação com o jornalismo foi essencial para o desenvolvimento de sua formação intelectual e seu estilo de expressão literária. sempre instável. "Que és filosofia?". Terminando os estudos em Málaga iniciou seus estudos universitários em Deusto e depois na Universidade de Madrid. Suas obras se revestem de um caráter extremamente crítico. "Historia como sistema". como este livro circulou muito durante estes anos fora da França.

quando o homem se põe a falar. esgota-se em esforços para chegar ao próximo. Diz. já ao falar de física começa a ser equívoco e insuficiente. Não estou convencido disso. Ao contrário. produz funestos resultados. habitualmente. mais "reais". Não posso esperar melhor sorte quando estou persuadido de que falar é uma operação muito mais ilusória do que se supõe. pois. Serve bastantemente para enunciados e provas matemáticas. mudando agora de destinatário. mas me fizeram ver que o organismo das idéias enunciadas nestas páginas não corresponde ao leitor francês. estando condenado à radical solidão. Como quase tudo que escrevi. Não se arrisca a tanto. Esquece-se demasiadamente que todo autêntico dizer não só diz algo. mas não há motivo para formalismo. Mas uma definição. se é verídica. os quais não são indiferentes ao significado das palavras.ou bem. Apenas. uma parte do que pensamos e põe uma barreira infranqueável à transfusão do resto. não usamos estas reservas. muito mais do que se. sua inépcia e seu confusionismo. em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente seu leitor e este percebe como se dentre as linhas saísse u'a mão ectoplástica que tateia sua pessoa. Este varia quando aquelas variam. como quase tudo que o homem faz. A mentira seria impossível se o falar primário e normal não fosse sincero. isso é o ilusório. Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. seria útil submetê-lo a sua meditação e a sua crítica.A rebelião das massas. Não. excelente ocasião para praticar a obra de caridade mais adequada a nosso tempo: não publicar livros supérfluos. como diz alguém a alguém. O de menos é que a linguagem sirva também para ocultar nossos pensamentos. acertada ou erroneamente. o engano vem a ser um humilde parasita da ingenuidade. Importa-me. No final das contas.htm (5 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Dóceis ao prejuízo inveterado de que falando nos entendemos. e todas as outras formas do falar destituem sua eficácia. Porque ela mesma não nos assegura que mediante a linguagem possamos manifestar. mais ou menos. dar-lhe um murro. A linguagem não dá para tanto. tanto mais aumenta sua imprecisão. Mas. Porém quanto mais a conversação se ocupa de temas mais importantes que esses. que se trata simplesmente de uma série de artigos publicados num jornal madrilenho de grande circulação.vai para cinco anos a Casa Stock me propôs a sua versão -. consigam dizer aos franceses o que elas pretendem exprimir. todos os nossos pensamentos. Definimos a linguagem como o meio de que nos servimos para manifestar nossos pensamentos. que quer acariciá-la . Todo vocábulo é ocasional (l). mais humanos. Duo si idem dicunt non est idem. mudos. Eu fiz tudo que me foi possível em tal sentido . mui cortesmente. encerra tácitas reservas. entretanto. com suficiente justeza. e que. Não é sobremodo improvável que minhas palavras. certamente. Assim esta. é irônica. Conste. Desses esforços é a linguagem que consegue às vezes declarar com maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós. estas foram páginas escritas para uns quantos espanhóis que o destino colocou à minha frente. o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista com que costumamos escutá-la. Como em tantas outras coisas. Teria sido. Por isso eu creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente. anônimas e são puro lugar comum. Em todo dizer há um emissor e um receptor. A moeda falsa circula apoiada na verdadeira. procurássemos adivinhar-nos. e quando não a interpretamos assim. que não entre na sua leitura com ilusões injustificadas. isto faz porque crê que vai poder dizer tudo que pensa. dizemos e ouvimos com tão boa fé que acabamos muitas vezes por não nos entendermos. o abuso aqui file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pois. mas tampouco nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem impossível entender-se com seus semelhantes. A linguagem é por essência diálogo. Pois bem. para mentir.

fizeram um grande giro circular como procurando em todo o cosmos algo que não encontrava. que não escrevi nem falei à Mesopotâmia. Goethe!" Mas então chegou a vez de um senhor baixo. sem consciência da limitação do instrumento. pareceu vacilar. ansiosas. sem perceberem que a palavra é um sacramento de mui delicada administração. da qual participaram. em solene atitude de estátua. respondeu à homenagem do rotundo senhor dizendo: "La Mésopotamie! Ah. Digo angustioso porque. a mais desprezível da demagogia. porque em outro país a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. usaram dele sem respeito e precauções. pela mecânica que nele mesmo se descreve. podia parecer invalidada pelo fato mesmo de que este volume tenha encontrado leitores em quase todas as línguas da Europa. consistiu no uso sem preocupação. foi adotada até 1750 por intelectuais desajustados. por seu ofício. balofo e de andar desgracioso. os homens do dizer. Os representantes das nações adiantavam-se ao público e apresentavam sua homenagem ao vate da França. levando suas homenagens. com o mesmo tom patético. L'Humanité!" Contei isso a fim de declarar. e. Eu creio. com a mesma convicção. Um porteiro. todavia. a todos e a ninguém. dizia: "L'Anglaterre! Ah. multiplica ao infinito seu efeito deprimente quando quem o sofre adverte que apenas há lugar no continente onde não aconteça estritamente o mesmo. Esse costume de falar para a Humanidade. e nunca me dirigi à Humanidade. II Esta tese que sustenta a exiguidade do raio de ação eficazmente concedido à palavra. Desde o aparecimento deste livro.htm (6 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . de outra grave coisa: da pavorosa homogeneidade de situações em que vai caindo todo o Ocidente. Shakespeare!" O porteiro continuou: "Monsieur le Représentant de l'Espagne"! E Victor Hugo: "L'Espagne! Ah. virando os olhos. Há quase dois séculos que se acredita que falar era falar urbi et orbi. portanto.A rebelião das massas. que este fato é de preferência sintoma de outra coisa. Mas logo se viu que o achara e que recobrara o domínio da situação. Mas agora esse expediente não serve de nada. Cervantes!" O porteiro: "Monsieur le Représentant de L'Allemagne!" E Victor Hugo: "L'Allemagne! Ah. essa identidade cresceu de modo angustioso. que até então permanecera impertérrito e seguro de si mesmo. o que em cada país é sentido como circunstância dolorosa. atarracado. sem insistir demasiado sobre a realidade do fato. com o cotovelo apoiado no rebordo de uma chaminé. O porteiro exclamou: "Monsieur le Représentant de la Mésopotamie!" Victor Hugo. Efetivamente. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo. do logos. realmente. que quando se celebrou o jubileu de Victor Hugo foi organizada uma grande festa no palácio do Elíseo. isto é. Contam. com voz de dramático trêmulo. O grande poeta achava-se na grande sala de recepção. anunciava-os: "Monsieur le Représentant de l'Anglaterre!" E Victor Hugo. Suas pupilas. com voz estentórica. Outrora podia ventilar-se a atmosfera confinada de um país abrindo-se as janelas que dão para outro. ignorantes de seus próprios limites e que sendo. representações de todas as nações. que é a forma mais sublime. sem a solenidade de Victor Hugo.

Como Carlos V dizia de Francisco I: Meu primo Francisco e eu estamos de perfeito acordo: ambos queremos Milão". Uma sociedade não se constitui do acordo das vontades. de pessoas que convivem. Pelo contrário: cada novo princípio uniforme fertilizava a diversificação.perdoe-se-me a insolência . é o mais insensato ensaio que se fez de pôr o carro adiante dos bois. secreção espontânea da sociedade e não pode ser outra coisa. A idéia cristã engendra as igrejas nacionais. segundo a qual todos os povos hão de ter uma constituição idêntica. Porque o direito. desde Óton III .A rebelião das massas. há de entender-se com certo superlativo de paradoxo. Este destino que os fazia. atmosfera é tão irrespirável como no próprio. E é que para esses povos chamados europeus. corresponda um espaço físico que a geografia denomina Europa. De sua essência e inelutavelmente esta segrega costumes. e o acordo não pode consistir senão em precisar uma ou outra forma dessa convivência. convivência e sociedade são termos equivalentes. Este enxame de povos ocidentais que alçou vôo sobre a história desde as ruínas do mundo antigo. a ciência e o princípio unitário do homem como "razão pura" cria os distintos estilos intelectuais que modelam diferencialmente até as extremas abstrações da obra matemática. Evitam a aniquilação do inimigo. poder público. produz o efeito de despertar romanticamente a consciência diferencial das nacionalidades. Daí a sensação opressora de asfixia.não as idéias sobre ele do filósofo.mover-se e atuar em um espaço ou âmbito comum. Sociedade é o que se produz automaticamente pelo simples fato da convivência. cujas salpicaduras ainda padecemos. o contrário daquela. Pois aconteceu que à medida que cada um ia formando seu gênio peculiar. se me permitem a expressão barroca. línguas. os viajores e mercadores que rodaram pelo mundo: Unde sapientia venit et quis est locus intelligentiae? "Sabeis de algum lugar do mundo onde a inteligência exista?" Convém. aproximadamente. Mais ainda. progressivamente homogêneos e progressivamente diversos. que é. maneiras e entusiasmos. a realidade "direito" . A idéia da sociedade como reunião contratual.claramente desde o século XI. É de somenos importância que a esse espaço histórico comum. onde todos os povos do Ocidente se sentiam como em sua casa. a "restauração das letras" no século XV impele as literaturas divergentes. pergunta a seus amigos. tem sido confundir a sociedade com a associação. Um pouco de outro modo. entretanto. Esta convivência tomava indiferentemente aspecto pacífico ou combativo. portanto jurídica. e são verdadeiros certames.é um espaço social. Um dos mais graves erros do pensamento "moderno".ter uma idéia muito confusa do que é o direito. parece-me . direito. dessa sociedade preexistente. usos. jurista ou demagogo . que vem a ser como estimular em cada um sua vocação particular. que nessa progressiva assimilação das circunstâncias distingamos duas dimensões diferentes e de valor contraposto.htm (7 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . como as dos jovens numa aldeia ou disputas de herdeiros pela partilha de um legado familiar. caracterizou-se sempre por uma forma dual de vida.é. Ora. As guerras inter-européias mostraram quase sempre um curioso estilo que as faz parecer muito com as altercações domésticas. viver sempre foi . Job. Porque neles a homogeneidade não foi alheia à diversidade. Ao contrário. a lembrança do Imperium romano inspira as diversas formas do Estado. Isto é. Finalmente e para cúmulo: até a extravagante idéia do século XVIII. entre eles ou sobre eles se ia criando um repertório de idéias. lutas de emulação. todos vão ao mesmo. a par. que era um terrível pince-sans-rire. Querer que o direito reja as relações entre seres que previamente não vivem em efetiva sociedade. O espaço histórico a que aludo mede-se pelo raio de efetiva e prolongada convivência . Eadem sed aliter. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que para cada um viver era conviver com os demais. todo acordo de vontades pressupõe a existência de uma sociedade.

A rebelião das massas.

Não deve estranhar, por outra parte, a preponderância dessa opinião confusa e ridícula sobre o direito, porque uma das máximas desditas do tempo é que, ao toparem os povos do Ocidente com os terríveis conflitos públicos do presente, se encontraram aparelhados com instrumental arcaico e ineficiente de noções sobre o que é sociedade, coletividade, indivíduo, usos, lei, justiça, revolução, etc. Boa parte da inquietação atual provém da incongruência entre a perfeição de nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso escandaloso das "ciências morais". O ministro, o professor, o físico ilustre e o novelista soem ter dessas coisas conceitos dignos de um barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro suburbano quem dê a tonalidade do tempo? (2) Mas voltemos a nossa rota. Queria insinuar que os povos europeus são há muito tempo uma sociedade, uma coletividade, no mesmo sentido que têm estas palavras aplicadas a cada uma das nações que a integram. Essa sociedade manifesta todos os atributos possíveis: há costumes europeus, usos europeus, opinião pública européia, direito europeu, poder público europeu. Mas todos esses fenômenos sociais se dão na forma adequada ao estado de evolução em que se encontra a sociedade européia, que não é, evidentemente, tão avançado como o de seus membros componentes, as nações. Por exemplo: a forma de pressão social que é o poder público funciona em toda sociedade, inclusive naquelas primitivas em que não existe ainda um organismo especial encarregado de manejá-lo. Se a esse órgão diferenciado a quem se entrega o exercício do poder público se quer chamar Estado, diga-se que em certas sociedades não há Estado, mas não se diga que nelas não há poder público. Onde há opinião pública, como poderá faltar um poder público se este não é mais que a violência coletiva suscitada por aquela opinião? Ora bem, que há séculos e com intensidade crescente existe uma opinião pública européia e até uma técnica para influir nela - é incômodo negá-lo. Por isso, recomendo ao leitor que poupe a malignidade de um sorriso ao deparar que nos últimos capítulos deste volume se faz com certo denodo, ante o cariz oposto das aparências atuais, a afirmação de uma possível, de uma provável unidade estatal da Europa. Não nego que os Estados Unidos da Europa são uma das fantasias mais módicas que existem e não me solidarizo com o que os outros pensaram sob esses signos verbais. Mas, por outra parte, é sumamente improvável que uma sociedade, uma coletividade tão madura como a que já formam os povos europeus, ande longe de criar para si seu artefato estatal mediante o qual formalize o exercício do poder público europeu já existente. Não é, pois, debilidade ante as solicitações da fantasia nem propensão a um "idealismo" que detesto, e contra o qual hei pugnado toda a minha vida, o que me leva a pensar assim. Foi o realismo histórico que me ensinou a ver que a unidade da Europa como sociedade não é um "ideal", mas um fato de velhíssima cotidianidade. Ora bem, uma vez que se viu isso, a probabilidade de um Estado geral europeu impõe-se necessariamente. A ocasião que leve subitamente a término o processo pode ser qualquer, por exemplo, a cólera de um chinês que apareça pelos Urais ou uma sacudida do grande magma islâmico. A figura desse Estado super-nacional será, é claro, muito diferente das usadas, como, segundo nesses mesmos capítulos se tenta mostrar, foi muito diferente o Estado nacional do Estado-cidade que os antigos conheceram. Eu procurei nestas páginas pôr em franquia as mentes para que saibam ser fiéis à sutil concepção do Estado e sociedade que a tradição européia nos propõe. Nunca foi fácil ao pensamento greco-romano conceber a realidade como dinamismo. Não podia

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desprender-se do visível ou seus sucedâneos, como um menino não entende do livro senão as ilustrações. Todos os esforços de seus filósofos autóctones para transcender essa limitação foram vãos. Em todos os seus ensaios para compreender atua, mais ou menos, como paradigma, o objeto corporal, que é, para eles, a "coisa" por excelência. Só conseguem ver uma sociedade, um Estado onde a unidade tenha caráter de continuidade visual; por exemplo, uma cidade. A vocação mental do europeu é oposta. Toda coisa visível lhe parece, como tal, simples máscara aparente de uma força latente que a está constantemente produzindo e que é sua verdadeira realidade. Ali onde a força, a dynamis, atua unitariamente, há real unidade, embora à vista se nos apareçam como manifestação dela apenas coisas diversas. Seria recair na limitação antiga não descobrir unidade de poder público apenas onde este tomou máscaras já conhecidas e como solidificadas de Estado; isto é, nas nações particulares da Europa. Nego redondamente que o poder público decisivo atuante em cada uma delas consista exclusivamente em seu poder público interior ou nacional. Convém cair de uma vez na compreensão de que há muitos séculos e com consciência disso há quatro - vivem todos os povos da Europa submetidos a um poder público que por sua própria pureza dinâmica não tolera outra denominação que a extraída da ciência mecânica: o "equilíbrio europeu" ou balance of Power. Esse é o autêntico governo da Europa que regula em seu vôo pela história o enxame de povos, solícitos e pugnazes como abelhas, escapados às ruínas do mundo antigo. A unidade da Europa não é uma fantasia, mas de fato a própria realidade, e a fantasia é precisamente a crença de que a França, a Alemanha, a Itália ou a Espanha são realidades substantivas e independentes. Compreende-se, entretanto, que nem todo o mundo perceba com evidência a realidade da Europa, porque a Europa não é uma "coisa", mas um equilíbrio. Já no século XVIII o historiador Robertson qualificou o equilíbrio europeu de the great secret of modern politics. Segredo grande e paradoxal, sem dúvida! Porque o equilíbrio ou balança de poderes é uma realidade que consiste essencialmente na existência de uma pluralidade. Se essa pluralidade se perde, aquela unidade dinâmica se desvaneceria. A Europa é, com efeito, enxame; muitas abelhas e um só vôo. Esse caráter unitário da magnífica pluralidade européia é o a que eu chamaria boa homogeneidade, a que é fecunda e desejável, a que fazia Montesquieu dizer: L'Europe n'est qu'une nation composée de plusieurs, (3) e Balzac, mais romanticamente, falava da grande famille continentale, dont tous les efforts tendent à je ne sais quel mystère de civilisation. (4)

III Esta multidão de modos europeus que brotam constantemente de sua radical unidade e reverte a ela mantendo-a, é o maior tesouro do Ocidente. Os homens de cabeças toscas não conseguem congeminar uma idéia tão acrobática como esta em que é preciso saltar, sem descanso, da afirmação da pluralidade ao reconhecimento da unidade e vice-versa. São cabeças pesadas nascidas para existir sob as perpétuas tiranias do Oriente.

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Triunfa hoje sobre toda a área continental uma forma de homogeneidade que ameaça consumir completamente aquele tesouro. Onde quer que tenha surgido o homem-massa de que este volume se ocupa, um tipo de homem feito de pressa, montado tão somente numas quantas e pobres abstrações e que, por isso mesmo, é idêntico em qualquer parte da Europa. A ele se deve o triste aspecto de asfixiante monotonia que vai tomando a vida em todo o continente. Esse homem-massa é o homem previamente despojado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas "internacionais". Mais do que um homem, é apenas uma carcaça de homem constituído por meros idola fori; carece de um "dentro", de uma intimidade sua, inexorável e inalienável, de um eu que não se possa revogar. Daí estar sempre em disponibilidade para fingir ser qualquer coisa. Tem só apetites, crê que só tem direitos e não crê que tem obrigações: é o homem sem nobreza que obriga - sine nobilitate - snob. (5) Este universal snobismo, que tão claramente aparece, por exemplo, no operário atual, cegou as almas para compreender que, embora toda estrutura dada da vida continental tenha de ser transcendida, tudo isso há de se fazer sem perda grave de sua interior pluralidade. Como o snob está vazio de destino próprio, como não sabe que existe sobre o planeta para fazer algo determinado e impermutável, é incapaz de entender que há missões particulares e mensagens especiais. Por essa razão é hostil ao liberalismo, com uma hostilidade que se assemelha à do surdo em relação à palavra. A liberdade significou sempre na Europa franquia para ser o que autenticamente somos. Compreende-se que aspire a prescindir dela quem sabe que não tem autêntico mister. Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque as pessoas não costumam pôr-se de acordo a não ser em coisas um pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores coletivistas, que começam por desconhecê-lo. Ademais, há nele uma intuição do que a Europa tem sido, altamente perspicaz. Quando Guizot, por exemplo, contrapõe a civilização européia às demais fazendo notar que nela não triunfou nunca em forma absoluta nenhum princípio, nenhuma idéia, nenhum grupo ou classe, e que a isso se deve o seu crescimento permanente e seu caráter progressivo, não podemos deixar de pôr o ouvido atento (6). Este homem sabe o que diz. A expressão é insuficiente porque é negativa, mas suas palavras chegam-nos carregadas de visões imediatas. Como do mergulhador emergente transcendem olores abismais, vemos que este homem chega efetivamente do profundo passado da Europa onde soube submergir. É, com efeito, incrível que nos primeiros anos do século XIX, tempo retórico e de grande confusão, se tenha composto um livro como a Histoire de la Civilisation en Europe. Todavia o homem de hoje pode aprender ali como a liberdade e o pluralismo são duas coisas recíprocas e como ambas constituem a permanente entranha da Europa. Mas Guizot teve sempre péssima publicidade, como em geral, os doutrinários. Não me surpreendo. Quando vejo que para um homem ou grupo se dirige fácil e insistente o aplauso, surge em mim a veemente suspeita de que nesse homem ou nesse grupo, talvez junto a dotes excelentes, há algo sobremodo impuro. Talvez isto seja um erro em que incorro, mas devo dizer que não o procurei, que o foi dentro de mim decantando a experiência. De qualquer maneira, quero ter a coragem de afirmar que este grupo de doutrinários, de quem todo o mundo riu e fez mofas truanescas, é, a meu ver, o mais

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Mal pode fazer-se isso sem alguma exageração. e foram além disso homens que criaram em suas pessoas uma atitude digna e distante. Negar o passado é absurdo e ilusório.htm (11 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . porque foram aparecendo e se consolidando na história: tais são as "liberdades". como coisa inquestionável. Havia chegado a converter-se neles em um instinto a impressão radical de que existir é resistir. pensaram profundamente. sem poder abandonar-se. Perdura neles ativa a melhor tradição racionalista em que o homem se compromete consigo mesmo a procurar coisas absolutas. Por isso não os entenderam. não há tampouco um livro medianamente formal sobre Guizot nem sobre Royer-Collard (9). como eu disse. Os russos desses anos passados costumavam chamar a Rússia de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas para que o integremos (11). Guizot soube ser. do que mais tem faltado aos intelectuais europeus desde 1750. A um inglês tudo isso pareceria óbvio. originalmente. Nela chegou a fazer-se tal e como é. É verdade que nem um nem o outro publicaram jamais um soneto. prazeres de pensamento não esperados e uma intuição da realidade social e política totalmente diferente das usadas. sobre os problemas mais graves da vida pública européia. Foram os únicos que viram claramente o que havia que fazer na Europa depois da Grande Revolução. Nem será possível reconstruir a história desta se não se estabelece intimidade com o modo em que se apresentaram as grandes questões ante estes homens (10). por sua vez. Seu estilo intelectual não é só diferente em espécie. Os doutrinários são um caso excepcional de responsabilidade intelectual. uma das causas profundas do presente desconcerto Mas eu não sei se. como Buster Keaton. mas diferentemente do racionalismo linfático de enciclopedistas e revolucionários. O passado não está presente e não teve o trabalho de acontecer para que o neguemos. Mas.A rebelião das massas. A história é a realidade do homem. Igual desconhecimento do velho liberalismo sentem os coletivistas de agora quando supõem. enfim. ainda que pareça incrível. e constituíram o doutrinal político mais estimável de toda a centúria. é bom tomar contacto com os homens que não "se deixam levar". valioso que houve na política do continente durante o século XIX. Rotas e sem vigência quase todas as normas com que a sociedade presta uma continência ao indivíduo. E. a legitimidade. (8) como. fincar os calcanhares no chão para se opor à correnteza. Pelo menos. ainda que me dirigindo a leitores franceses. porque o passado é "o natural do homem que volta a galope". mas o é de outro gênero e de outra essência em face de todos os demais triunfantes na Europa antes e depois deles. Pois se dá o fato escandaloso de que não existe um só livro onde se tenha tentado precisar o que aquele grupo de homens pensava. Os verdadeiros direitos são os que absolutamente estão aí. Condensam-se nele várias gerações de protestantes nimeses que haviam vivido em alerta perpétuo. quer dizer. Numa época como a nossa. ainda que seja somente para se defender do abandono orgiástico em que vivia seu contorno. descobrem eles o histórico com o verdadeiro absoluto. asseguro a quem se proponha formular com rigor sistemático as idéias dos doutrinários. a magistratura. as noções sobremodo turvas. Os doutrinários desprezavam os "direitos do homem" porque são absolutamente "metafísicos". Talvez desde o tempo de Alcuino tenhamos vivido cinqüenta anos pelo menos atrasados a respeito dos ingleses. no meio da rusticidade e da frivolidade crescente daquele século. Não se abandona jamais. todavia. abstrações e irrealidades. o homem que não ri (7). as "capacidades". que era individualista. Em todos estes temas andam. que encontram o absoluto em abstrações bon marché. mas os continentais ainda não chegamos a essa estação. Posso aludir ao doutrinarismo como a uma magnitude conhecida. é muito possível que o porvir pertença a tendências de intelecto muito semelhantes às suas. sem poder flutuar à deriva no ambiente social. Se alentassem hoje reconheceriam o direito de greve (não política) e o contrato coletivo. defeito que é. Não tem outra. apesar da sua clássica lucidez. nem mais nem menos. não podia este constituir-se uma dignidade se não a extraía do fundo de si mesmo.

da espoliação e da partilha em todas as ordens. um "atrasado" do século anterior. completamente. em Comte e pulula por toda a parte (12). Porque o caso é que eu não sou um "velho liberal". Porque indivíduo e Estado significam nesse titulo dois meros órgãos de um único sujeito . avançando pela centúria.A rebelião das massas. que tudo isso é outra coisa. de terrível. o fato de que a coletividade é uma realidade diferente dos indivíduos e de sua simples soma. só se pode aderir ao liberalismo de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. era demasiado recente. do coletivo. E o que se discute é se certas necessidades sociais são melhor servidas por um ou pelo outro órgão. os fenômenos sociais do tempo camuflavam a verdadeira economia da coletividade.surpreende-nos que sua suposta defesa não se baseia em mostrar que a liberdade beneficia ou interessa a este. mas morre com ela. O famoso "individualismo" de Spencer boxeia continuamente dentro da atmosfera coletivista de sua sociologia. É a primeira idéia que inventa apenas nascido e que ao longo de cem anos não fez senão crescer até inundar todo o horizonte. os quais cevam para depois chupar-lhes a substância.htm (12 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . a legislação da Revolução francesa. Mais importante. em Ballanche. no fato coletivo. no final. mas não sabiam bem em que consistia e quais eram seus efetivos atributos. simplesmente e como tal. No essencial é imediatamente aceita por todos. O descobrimento . Por outra parte. desinteressada e gratuita. Nada mais.sem dúvida glorioso e essencial . mais do que viam. sem outra exceção que não seja Benjamim Constant. Daí que os "velhos liberais" se abrissem sem suficientes precauções ao coletivismo que respiravam.do social.a sociedade. mas para que sejam discutidas e passem depois à sentença. Por exemplo: um médico de Lyon. O aspecto agressivo do título que Spencer escolhe para seu livro . O resultado. Aqueles homens apalpavam. Não seria interessante averiguar que idéias ou imagens se espreguiçavam à invocação deste vocábulo na mente um tanto gasosa do homem russo que tão freqüentemente. Até esse ponto era a primazia do coletivo o fundo por si mesmo evidente sobre o qual ingenuamente dançavam suas idéias! De onde se infere que minha defesa lohengrinesca do velho liberalismo é. Mas quando se viu com clareza o que no fenômeno social. é que tanto ele como Stuart Mill tratam os indivíduos com a mesma crueldade socializante com que os termitas a certos de seus congêneres.O indivíduo contra o Estado . Leiam-se os artigos que em 1830 e 1831 publica L'Avenir contra o individualismo. "o coletivo". porque então convinha a esta ocupar-se em cevar bem os indivíduos. como o capitão italiano de que falava Goethe. porém. por outro. Segunda: a criação característica do século XIX foi precisamente o coletivismo. mas pelo contrário. falará em 1821 do collectivisme em face do personnalisme (13). as seguintes teses: Primeira: o liberalismo individualista pertence à flora do século XVIII. bisogna aver una confusione nella testa? Diante disso tudo eu rogaria ao leitor que tomasse em conta. em parte. Terceira: esta idéia é de origem francesa. de pavoroso. M. inspira.tem sido causa de que o não entendam teimosamente os que não lêem dos livros senão os títulos. há por um lado de benefício. Mas triunfa em Saint-Simon.Stuart Mill ou Spencer . Aparece pela primeira vez nos arquireacionários de Bonald e de Maistre. não para aceitá-las. em que interessa e beneficia à sociedade. chegamos aos grandes teorizadores do liberalismo . Quando. Não chegara ainda a hora da nivelação. porém. Amard.

a um tempo homogênea e estúpida .e uma eqüivale à outra . a pluralidade continental. mas. que quase nunca se reprime senão quando lhe falta poder. Também foi aquele um tempo de massa e de pavorosa homogeneidade. Evitar isso tem sido o secreto acerto da Europa até hoje. fartamente perspicazes. Contra o que sói acreditar-se tem sido normal na história que o porvir seja profetizado (14). Disse-se. é o último homem antigo capaz de se colocar ante os fatos com a mente porosa e ativa. e tomando em conjunto as nações. em Tocqueville. caminhamos em linha reta para o Baixo Império. mestre de Cícero. que o estóico Possidônio. é preciso que se dêem circunstâncias diferentes. a língua vigente é a que se chamou "latim vulgar".A rebelião das massas. devemos esperar. a menos que uma forte barreira de convicção moral não se eleve contra o mal. como bem e não como mal. que eu saiba. em Comte. estereotipar. e a consciência desse segredo é a que. como todas as mudanças que se operam no mundo têm por efeito o aumento da força social e a diminuição do poder individual. um liberalismo que está germinando já. tende a fazer-se cada vez mais formidável. A língua. está onde menos se podia esperar e onde todavia. por exemplo. mas de crescer. Isso o faz acolher-se a um grande pensamento emitido por Humboldt na sua juventude. Para que o humano se enriqueça. segundo Humboldt. Mas o que mais nos interessa em Stuart Mill é sua preocupação pela homogeneidade de má classe que via crescer em todo o Ocidente. O processo vinha de tempos atrás. A disposição dos homens. seja como soberanos. sem que o queiramos.htm (13 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Nessa consciência se reconhece a si mesma como valor positivo. se consolide e se aperfeiçoe é necessário. este desbordamento não é um mal que tenda a desaparecer espontaneamente. a impor aos demais como regra de conduta sua opinião e seus gostos. Tal e como vamos. num só tipo de homem. ao falhar uma restam outras possibilidades abertas. Na porção mais helenizada do povo romano. disposto a investigá-los. menos ingênuo e de mais destra beligerância. não entrevissem de quando em quando as angústias que seu tempo nos reservava. numa idêntica "situação". matriz de nossos romances. como eram. revela pelo contrário e grita. Assim. com alguma razão. digo. Ora bem. moveu sempre os lábios do perene liberalismo europeu. o que há mais de oitenta anos escrevia Stuart Mill: "À parte as doutrinas particulares de pensadores individuais. Não se conhece bem este file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.que adota a vida de um a outro extremo do Império. clara ou balbuciante. ao contrário. Já no tempo dos Antoninos se nota claramente um estranho fenômeno. E como o poder não parece achar-se em via de declinar. com a míngua progressiva da "variedade de situações". Em Macaulay. na linha mesma do horizonte. existe no mundo uma forte e crescente inclinação a estender em forma extrema o poder da sociedade sobre o indivíduo. e salvo os Alexandrinos. Nem era possível que sendo estes homens. próximo a florescer. que exista "variedade de situações" (16). as cabeças se obliteram. a condição mais arcana da sociedade que a fala. E insensato pôr a vida européia numa só carta. Mas o sistema e documento mais terrível desta forma. Veja-se. ninguém o procurou: no idioma. não farão outra coisa senão repetir. encontramos pré-desenhada nossa hora. que nas condições presentes do mundo esta disposição nada fará senão aumentar" (15). estilo radicalmente novo. menos sublinhado e analisado do que devera: os homens tornaram-se estúpidos. tanto por meio da força da opinião como pela legislativa. devemos esperar. se acha tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana. seja como concidadãos. Dentro de cada nação. que não nos serve para dizer suficientemente o que cada um de nós quiséramos dizer. Importava-me esclarecer isso para que não se tergiverse a idéia de uma superação européia que este volume postula. Depois dele.

não parecem admirar-se ante o fato de que falassem da mesma maneira países tão díspares como Cartago e Gália. pelo contrário. é claro. em boa parte. a esclarecer um pouco as coisas. latim vulgar e. E. que tremo quando vejo como o vento fatiga uns caniços. o morador de Hipona e o de Lutécia. condenadas à eterna cotidianidade se adivinham atrás desse seco artefato lingüístico! O outro caráter aterrador do latim vulgar é precisamente sua homogeneidade. porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem. que avança às cegas. gramática balbuciante e perifrástica. pesadamente mecânico. uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas. O assunto de que aqui se fala é prévio à política e pertence a seu subsolo. testemunho de que uma vez a história agonizou sob o império homogêneo da vulgaridade por haver desaparecido a fértil "variedade de situações". sem dúvida. Meu trabalho é obscuro labor subterrâneo de mineiro. que conservava a linguagem das classes superiores.htm (14 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . senão em virtude de um achatamento geral. ou por isso mesmo. ficou suplantada por uma fala plebéia. do escasso intercâmbio. Parece-me simplesmente atroz. que são talvez. a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente. nulificando suas vidas? O latim vulgar está aí nos arquivos. é claro. Um é a incrível simplificação do seu mecanismo gramatical em comparação com o latim clássico. hispanismos. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. galicismos.é que. Sempre estive na estacada. efetivamente. E verdade que trato de me representar como era por dentro isso que olhado de fora nos aparece. como ser da direita. pelo contrário. Mas o que se conhece basta e sobra para que nos espantem dois de seus caracteres. E eu o fiz durante toda a minha vida. da dificuldade de comunicações e de que não contribuía para fixá-lo uma literatura. A obra intelectual aspira. enquanto a do político sói. Consta. são formas da hemiplegia moral. tranqüilamente. Eu. consistir em confundi-las mais do que estavam. reduzindo a existência à sua base. como homogeneidade. uma língua pueril ou gaga que não permite a fina aresta do raciocínio nem líricas cambiantes. sem evidência e sem calor de alma. como material. Como podiam vir à coincidência o celtibero e o belga. oposta à do político. não posso reprimir ante esse fato um estremecimento medular. É uma língua sem luz nem temperatura. com efeito. com freqüência baldada. incluso a custo da claridade mental. A missão do chamado "intelectual" é. já fala de per si. ao mesmo tempo. como um arrepiante empedernimento. uma língua triste. que sou bastante tímido. Os vocábulos parecem velhas moedas de cobre. em certo modo. como fartas de rolar pelas tabernas mediterrâneas. IV Nem este volume nem eu somos políticos. Que vidas evadidas de si mesmas. Os lingüistas. como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias. só se chega a ele mediante reconstruções. Mas ao constar isto quer dizer-se que o torso da língua era comum e idêntico.uma "corrente" . depois dos aviadores. A saborosa complexidade indo-européia.A rebelião das massas. Há obrigações de trabalhar sobre as questões do tempo. porém. todo o mundo tem de fazer política sensu stricto. Mas uma das coisas que agora se dizem . Dizem-no. procuro descobrir a realidade vivente de que esse fato é a quieta marca. Hispânia e Rumânia. apesar das distâncias. o mauritânio e o dácio. Ser da esquerda é. imundas e sem rotundidade. de mecanismo muito fácil. os homens menos dispostos a assustar-se com coisa alguma. de ensaio e rodeio como a infantil. Isto. Tingitânia e Dalmácia. Ademais. desoladas. que havia africanismos.

O politicismo integral. studiate il passo Mentre que l'Occidente non s'annera. que é a sociedade e o indivíduo. o direito. E até o corroboram citando de Pascal o imperativo d'abêtissement.A rebelião das massas. ou. o uso. toleram ser corrigidos? Porque. que não está aberto de verdade a nenhuma instância superior. a religião. A outra pergunta decisiva. mas com decisão. frenética. como dizia Dante. A massa em rebeldia perdeu toda a capacidade de religião e de conhecimento. e que eu chamei o homem-massa. a absorção de todas as coisas e de todo o homem pela política. nem de longe. tão graves que se não os extirpamos produzirão de modo inexorável a aniquilação do Ocidente. E uma cautela de higiene elemental. a coletividade. a sagesse . Para falar sobre ele mais seriamente e mais profundamente não haveria mais remédio senão pôr-se em roupa abissal. os que não têm outra coisa que fazer. é quando se suscitam as interrogações mais férteis e mais dramáticas: Pode-se reformar este tipo de homem? Quero dizer: os graves defeitos que há nele. nos adscreve simultaneamente em vez de responder devemos perguntar ao impertinente que pensa ele que é o homem e a natureza e a história. XXVII. posto que pretenda suplantar o conhecimento.htm (15 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . a meu juízo. e eu o tentei num livro próximo a aparecer em outros idiomas sob o título El hombre y la gente. É preciso que o pensamento europeu proporcione sobre todos estes temas nova claridade. as únicas coisas que por sua substância são aptas para ocupar o centro da mente humana -. Mas há muito tempo que aprendi a ficar em guarda quando alguém cita Pascal. é uma e mesma coisa com o fenômeno de rebelião das massas que aqui se descreve. vestir o escafandro e descer ao mais profundo do homem. e por isso é a predicação do politicismo integral uma das técnicas que se usam para socializá-lo. Quando alguém nos pergunta o que somos em política. é esta: podem as massas. despertar a vida pessoal? Não cabe desenvolver aqui o tremendo tema. não para fazer o leque do pavão real nas reuniões acadêmicas. é só uma primeira aproximação ao problema do homem atual. ainda que quisessem. porque está demasiado virgem. depende toda possibilidade de saúde.enfim. A política despoja o homem de solidão e intimidade. Uma vez que nos afiguramos bem de como é esse tipo humano hoje dominante. Os termos com que deve ser levantado não constam na consciência file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Importa fazer isso sem pretensões. como verá o leitor. fora de si. E é preciso que o faça prontamente ou. 62-63) Isso seria o único de que poderia esperar-se com alguma probabilidade a solução do tremendo problema que as massas atuais aventam. o Estado. se trata precisamente de um homem hermético. A política apressa-se a apagar as luzes para que todos estes gatos sejam pardos. Como suas últimas palavras fazem constar. nada parecido. Não pode ter dentro mais que política exorbitada. (Purg. da qual. Para isso está aí. Este volume não pretende. antecipando-se com a insolência que pertence ao estilo de nosso tempo. que encontre a saída.

e o formigueiro sucumbiria como ao sopro de um deus torvo e vingativo. Os demagogos têm sido apenas os grandes estranguladores de civilizações. a história está cheia de retrocessos nesta ordem. Mas um homem não é demagogo somente porque se ponha a gritar ante a multidão. apesar de tão respeitável.htm (16 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e até os músculos respiratórios têm de funcionar a ritmo de regulamento. Mas nem sequer esta cruel imagem é uma solução. que fazia Macaulay exclamar: "Em todos os séculos. como cria o honrado engenheiro. Porque é pura inércia mental do "progressismo" supor que conforme avança a história. senão impossível. como a vida do próximo aperta a sua. além do mais. pública. Isso pode ser em ocasiões file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. está visível. faria sua reaparição na Europa o esfomeamento gigantesco do Baixo Império. não notará que é. mas dirigir-se em linha reta para um magnânimo solidarismo. portanto. Daí a ação em massa. Herbert Spencer.A rebelião das massas. como até a todo desejo pessoal e buscará a solução oposta: imaginará para si uma vida standard. empalidece e se degrada até parecer retórico e insincero suspiro romântico. muito difícil salvar uma civilização quando lhe chegou a hora de cair sob o poder dos demagogos. incorpora-se em mim. este pensamento: Pode hoje um homem de vinte anos formar um projeto de vida que tenha figura individual e que. o tema da "justiça social". Este último vocábulo é. Isto seria a Europa convertida em formigueiro. composta de desiderata comuns a todos e verá que para consegui-la tem de solicitá-la ou exigi-la em coletividade com os demais. porque foi o chamado "individualismo". os movimentos têm de se executar em comum. ao mesmo tempo. ninguém pode mover um braço ou uma perna por iniciativa própria. porque até hoje não se condensou nele um sistema enérgico de idéias históricas e sociais. A coisa é horrível. é possível e é justo conseguir. mediante seus esforços particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem em sua fantasia. quase improvável. Quando os restos desse "individualismo" desaparecessem. pelo contrário ressuma só vagas filantropias. e talvez a estrutura da vida em nossa época impeça superlativamente que o homem possa viver como pessoa. Mas. Em tal circunstância. Ante o feroz patetismo desta questão que. A primeira condição para um melhoramento da situação presente é perceber bem sua enorme dificuldade. porque não há a sua disposição espaço em que possa alojá-la e em que possa mover-se segundo seu próprio ditame? Logo advertirá que seu projeto tropeça com o próximo. que enriqueceu o mundo e a todos no mundo e foi esta riqueza que prolificou tão fabulosamente a planta humana. Não. porque chocaria com os corpos dos demais. com efeito. orienta sobre os caminhos acertados para conseguir o que dessa "justiça social". queiramos ou não. que o seriam um pouco mais. necessitaria realizar-se mediante suas iniciativas independentes. Só isto nos levará a atacar o mal nos estratos fundos de onde verdadeiramente se origina. obsedante. O formigueiro humano é impossível. mas nulo historiador. Nem sequer está esboçado o estudo da distinta margem de individualidade que cada época do passado deixou à existência humana. O desânimo o levará com a facilidade de adaptação própria de sua idade a renunciar não só a todo ato. os exemplos mais vis da natureza humana deparam-se entre os demagogos" (17). que vão e vêm por suas ruas ou se concentram em festivais e manifestações políticas. Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomerações de seres humanos. A grega e a romana sucumbiram nas mãos desta fauna repugnante. Restariam muito menos homens. mas não creio que exagera a situação efetiva em que se vão achando quase todos os europeus. caminhos que não parecem passar por uma miserável socialização. assim cresce a folga que se concede ao homem para poder ser indivíduo pessoal. É. Em uma prisão onde se amontoaram muito mais presos dos que cabem. inoperante.

Com o pequeno busto de Comte que há em seu departamento da rue Monsieur-le-Prince falei sobre pouvoir spirituel. que como amplo fenômeno da história européia aparece na França em 1750. seus físicos e seus médicos se equivocaram sempre em seus juízos políticos. paradoxalmente. E como não tinha com quem falar. entendendo por tal o que já Leibnitz chamava uma "revolução geral" (18). mas recebeu dos verdadeiros criadores. o homem a quem a Europa mais deve. por tradição! É verdade que na França fez-se uma Grande Revolução e várias torvas ou ridículas. e que é o busto do falso Comte. E o único método de pensamento que proporciona alguma probabilidade de acerto em sua manipulação é a "razão histórica".A rebelião das massas. quase todo o continente. chamado Endageest. Mas era natural que me interessasse sobretudo em ouvir uma vez mais a palavra do nosso sumo mestre Descartes. porque são históricos. erigido na praça de Sorbonne. entretanto. Este lugar. desde então. Nas revoluções tenta a abstração sublevar-se contra o concreto. cujas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. impelindo minha solidão pelas ruas de Paris. mas.htm (17 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . A demagogia é uma forma de degeneração intelectual. salta à vista que seus geômetras. antigas incitações ou perenes mestres de minha intimidade. Graças a isso essa maravilha que é a França chega em más condições à difícil conjuntura do presente. são velhas amizades. Mas o racionalismo físico-matemático tem sido na França demasiado glorioso para que não tiranize a opinião pública. a vontade de transformar de chofre tudo e em todos os gêneros (19). Por que então? Por que na França? Este é um dos pontos nevrálgicos do destino ocidental e especialmente do destino francês. compreendi que eu não conhecia ninguém na grande cidade. e que conseguiram ao contrário. São problemas de máxima concreção. salvo as estátuas. como os astronômicos ou os químicos. deveu-se bem claramente à extravagância dos revolucionários de 1848 (20). que o método para resolver os grandes problemas humanos é o método da revolução. uma magistratura sacrossanta. insuficientemente exercido por mandarins literários e por uma Universidade que ficou completamente excêntrica diante da efetiva vida das nações. a França tenha vivido mais que outro qualquer povo sob formas políticas. sobre a perigosa idéia do progresso. abstratos. ao grande. quanto mais sê-lo. Sobretudo. autoritárias e contra-revolucionárias. Não sei se algum dia sairão à luz estas Conversaciones con estatuas. A demagogia essencial do demagogo está dentro de sua mente. do oficial. Ao mesmo tempo tive a honra de receber o encargo de uma enérgica mensagem que esse busto dirige ao outro. se nos atemos à verdade nua dos anais. conversei com elas sobre grandes temas humanos. grande parte dos quais confessou o próprio Raspail que haviam sido antes clientes seus. Malebranche rompe com um amigo seu porque viu sobre sua mesa um Tucídides (21). Isso é o que. por isso é consubstancial às revoluções o fracasso. crê a França. Estes meses passados. e por sua irradiação. salvo uns dias ou umas semanas. Os problemas humanos não são. que dulcificaram uma etapa dolorosa e estéril de minha vida. do de Littré. que está no Quai Conti. o que encontramos é que essas revoluções serviram principalmente para que durante todo um século. Algumas destas. Porque esse país tem ou crê que tem uma tradição revolucionária. Nelas se raciocina com o marquês de Condorcet. radica em sua irresponsabilidade ante as idéias mesmas que maneja e que ele não criou. E se ser revolucionário é já coisa grave. Quando se contempla panoramicamente a vida pública da França durante os últimos cento e cinqüenta anos. a grande depressão moral da história francesa que foram os vinte anos do Segundo Império. O puro acaso que ciranda minha existência fez que eu redija estas linhas tendo à vista o lugar da Holanda em que habitou em 1642 o novo descobridor da raison. em maior ou menor escala. acertar seus historiadores.

A Monarquia da Inglaterra exerce uma função determinadíssima e de alta eficácia: a de simbolizar. e ao fundo. árvores dão sombra a minha janela. E a riqueza menor desse tesouro consiste no que dele pareça acertado e digno de conservar-se: o importante é a memória dos erros.. mercê de seu poder de recordar. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de tudo quanto seja tentar a transformação súbita de uma sociedade e começar de novo a história.vejo passar os idiotas e os dementes que arejam por momentos à intempérie sua malograda humanidade. pelo contrário. biológica. sublinham tanto mais seu fracasso ante os assuntos propriamente humanos e convidam a integrá-la em outra razão mais radical. elle est un hommage à tout ce qui le distingue de la bête" (23).A rebelião das massas. Duas vezes ao dia . Dupont-White. o tigre de hoje é idêntico ao de seis mil anos. Ao método da revolução opõe o único digno da larga experiência que o europeu atual tem atrás de si. de proclamar direitos. mas isentos de serenidade. falando rigorosamente. chamamos inteligência. violaram sempre. O homem. sempre pueris. e seu intelecto tem de trabalhar sobre um mínimo material de experiências. Os pobres animais cada manhã esquecem quase tudo que viveram no dia anterior. Mas nem por isso é uma instituição vazia. como a nurse da Europa. que é a "razão histórica" (22). Köhler e outros mostraram como o chimpanzé e o orangotango não se diferenciam do homem pelo que. os continentais. espezinhado e esfarrapado. com deliberado propósito. Diz-se que há muito a Monarquia inglesa é uma instituição meramente simbólica. Apraz-me que seja um francês. tão fundamental que é a definição mesma de sua substância: o direito à continuidade. acumula seu próprio passado. é aspirar a descer e plagiar o orangotango. porque cada tigre tem de começar de novo a ser tigre. que nos permite não cometer os mesmos sempre. As revoluções tão incontinentes em sua pressa. que em 1860 se atrevesse a clamar: "La continuité est un droit de l'homme. nunca maduros. deu agora inusitada solenidade ao rito da coroação. atrás deles. Seus fabulosos triunfos sobre a natureza. O homem não é nunca um primeiro homem: começa desde logo a existir sobre certa altitude de pretérito amontoado. carente de serviço. Por isso o povo inglês. efetivamente. nem administrar a justiça. A única diferença radical entre a história humana e a "história natural" é que aquela não pode nunca começar de novo. física. nem mandar o Exército. Esta raison é só matemática. Isso é verdade. Diante de mim está um jornal em que acabo de ler o relato das festas com que a Inglaterra celebrou a coroação do novo rei. é hoje um manicômio. Deu-nos mais uma lição." Romper a continuidade com o passado. Esta nos mostra a vaidade de toda revolução geral. possui-o e o aproveita. a Inglaterra. Por isso Nietzsche define o homem superior como o ser "de memória mais desenvolvida. mas porque têm muito menos memória que nós.já que a Europa sempre pareceu um tropel de povos -. seu privilégio e sua marca. Este é o tesouro único do homem. o direito fundamental do homem.. como pretendiam os confusonários do 89. a extensa experiência vital decantada gota a gota em milênios. a Monarquia não exerce no Império britânico nenhuma função material e palpável. mas dizendo-o assim deixamos escapar o melhor. Seu papel não é governar.em admoestadora vizinhança . Três séculos de experiência "racionalista" obrigam-nos a rememorar o esplendor e os limites daquela prodigiosa raison cartesiana. como se não houvesse outro antes. Como sempre . superiores a quanto pudera sonhar-se. hipocritamente generosa.htm (18 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros. querer começar de novo. Ante a turbulência atual do continente quis afirmar as normas permanentes que regulam sua vida. cheios de gênio. Semelhantemente. Porque.

porque não deixaram nunca de ser atuais os mais velhos e mágicos utensílios de sua história. a Inglaterra opôs. Hoje a coisa vai sendo clara e os Estados Unidos não enviam já ao velho continente senhoritas para . Porque não convém esquecer que então se pensava mui seriamente que os americanos haviam descoberto outra organização da vida que anulava para sempre as perpétuas pragas humanas que são as crises. mostrassem carecer dele completamente. ao ler esses capítulos. Ainda gozam os luxos da inflação.como me dizia uma naquela ocasião . inventores do mais elevado que até agora se inventou . é não haver incorrido no inconcebível erro de ótica que sofreram então quase todos os europeus. a presenciar seu vetusto cerimonial e a ver como atuam . Mais ainda: a apresentar freqüentemente as coisas em forma que se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. era-o e o é muito mais a América do Norte do que a América do Sul. na realidade. O inglês faz empenho de nos fazer constar que seu passado. procedo partindo de seu aspecto externo. E eis aqui que este povo nos obriga. com certa impertinência do mais puro dandysmo. poder existir no verdadeiro presente. era. também contra o que se crê. e depois penetro um pouco mais em direção a suas vísceras. porque lhe passou. precisamente porque passou. Já começou a crise na Europa. a hispânica."convencer-se de que na Europa não há nada interessante" (25). Isto me obrigou a um duro ascetismo. continua existindo para ele. E. A pele do tempo mudou. O leitor deveria. que conserva em ativa posse. Praticamente deveríamos omitir o quase.A rebelião das massas. que se antecipou a todos em quase todas as ordens.htm (19 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . longe de ser o futuro. Desde um futuro ao qual não chegamos mostra-nos a vigência louçã de seu pretérito (24). As pessoas ainda sentem-se em segurança. mas ainda parece uma de tantas. à abstenção de expressar minhas convicções sobre tudo quanto toco de passagem. Daí por que sejam os primeiros capítulos os que mais caducaram. já que o presente é só a presença do passado e do porvir. Violentando-me isolei neste quase-livro. Eu me envergonhava de que os europeus. por assim dizer. E. um remoto passado porque era primitivismo. sobretudo. um só fator: a caracterização do homem médio que hoje se vai apoderando de tudo. mais uma vez. o lugar onde pretérito e futuro efetivamente existem. ao método revolucionário o método da continuidade. Este povo circula por todo o seu tempo. a coroa e o cetro que entre nós regem apenas a sorte do baralho.o sentido histórico -. O único do que vai dito nestas páginas que me inspira algum orgulho. do problema total que e para o homem e especialmente para o homem europeu seu imediato porvir. Com as festas simbólicas da coroação. Tive então a coragem de me opor a semelhante deslize. o único que pode evitar na marcha das coisas humanas esse aspecto patológico que faz da história uma luta ilustre e perene entre os paralíticos e os epiléticos. pensava-se: aí está a América! Era a América da fabulosa prosperity. retroceder aos anos 1926-1928. E isso é ser um povo de homens: poder hoje continuar no seu ontem sem por isso deixar de viver para o futuro. O velho lugar comum de que a América é o porvir havia nublado por instantes sua perspicácia. Este é o povo que sempre chegou antes ao porvir. inclusive os próprios economistas. é verdadeiramente senhor de seus séculos. sustentando que a América. V Como nestas páginas se faz a anatomia do homem hoje dominante. de sua pele.

um significado exclusivo ou primariamente político.A rebelião das massas. econômica. cheios de transeuntes. Medi o homem médio quanto a sua capacidade para continuar a civilização moderna e quanto a sua adesão à cultura. compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de vestir e o modo de gozar. no final das contas. era a mais favorável para aclarar o tema exclusivo deste estudo. Este fato é o advento das massas ao pleno poderio social. As casas cheias de inquilinos. Os cafés. desde já. Basta assinalar uma questão. pois. Qualquer que seja nossa atitude ante a civilização e a cultura. Sua fisionomia e suas conseqüências são conhecidas. está aí.não são para mim questões. Simplicíssima de enunciar. Os passeios. Como as massas. religiosa. começa a sê-lo quase de contínuo: encontrar lugar. do "cheio". PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I. "Het Witte Huis". Esta crise sobreveio mais de uma vez na história. quer dizer-se que a Europa sofre agora a mais grave crise que a povos. Há fato mais simples. A vida pública não é só política. desde que não sejam muito extemporâneos. intelectual. Os espetáculos. cheias de banhistas. maio. cheios de viajantes. Dir-se-ia que essas duas coisas . mais notório. como um fator de primeira ordem com que se deve contar. etc. mais constante. "poderio social". Nada mais. era a pior para deixar ver minha opinião sobre estas coisas. Mas eu não devia complicar os assuntos. JOSE ORTEGA Y GASSET. culturas. Não deve. embora fundamental. Por isso urgia isolar cruamente seus sintomas. cheios de espectadores. por definição. O FATO DAS AGLOMERAÇÕES (26) Há um fato que. As salas dos médicos famosos. cheios de consumidores. Também se conhece seu nome.a civilização e a cultura . na vida atual? Vamos agora puncionar o corpo trivial desta observação. As praias. As cidades estão cheias de gente. às palavras "rebelião". ainda que não de analisar. a anomalia representada pelo homem-massa. Chama-se a rebelião das massas. para bem ou para mal. o leitor francês esperar mais deste volume. ao mesmo tempo e ainda antes. Os hotéis cheios de hóspedes. senão um ensaio de serenidade em meio à tormenta. 1937. cabe padecer. "massas". eu a denomino o fato da aglomeração. Oegstgeest-Holanda. onde a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. é o mais importante na vida pública européia da hora presente. e nos surpreenderá ver como dele brota um repuxo inesperado. cheias de enfermos. não devem nem podem dirigir sua própria existência. A verdade é que elas são precisamente o que ponho em questão quase desde meus primeiros estudos. nações. sublinhando uma feição de nossa época que é visível com os olhos da cara. mas.htm (20 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . O que antes não era problema. que não é. e menos reger a sociedade. moral. Os trens. Para a inteligência do formidável fato convém que se evite dar. Talvez a melhor maneira de aproximar-se a este fenômeno histórico consista em referir-nos a uma experiência visual.

portanto. mas não como multidão. ocupava o fundo do cenário social. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. natural. pelo visto. Sim. idéias. Surpreender-se. no campo. Aproximadamente. para que a sala esteja cheia. nos surpreendemos de nossa surpresa. precisamente nos lugares melhores. Com efeito. entretanto. Os indivíduos que integram estas multidões preexistiam. agora adiantou-se até às gambiarras.A rebelião das massas. E evidente. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o mesmo número de pessoas existia há quinze anos. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem abertas. por massas só nem principalmente "as massas operárias ". de modo de ser nos indivíduos que a integram. Cada qual . mas que repete em si um tipo genérico. Então achamos a idéia de massa social. que houve uma mudança. Seu atributo são os olhos em pasmo. Mas quê. levavam uma vida. como tal. com a primeira nota importante. criação realmente refinada da cultura humana. e agora transbordam. se existia. Que ganhamos com esta conversão da quantidade para a qualidade? Muito simples: por meio desta compreendemos a gênese daquela. e instalou-se nos lugares preferentes da sociedade. divergente. é a delícia vedada ao futebolista e que. aparecem sob a espécie de aglomeração. de repente. possuidora dos locais e utensílios criados pela civilização. é o homem enquanto não se diferencia de outros homens. ao contrário. ou cheio. E do mesmo modo os assentos o vagão ferroviário e seus quartos o hotel. Por toda a parte? Não.indivíduo ou pequeno grupo ocupava o lugar.htm (21 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . ou solitários.numa determinação qualitativa: é a qualidade comum. na aldeia. Isso. a qual justifica. de repente. é o mostrengo social. a minorias. tornou-se visível. estranhar. Antes. é começar a entender. leva o intelectual pelo mundo em perpétua embriaguez de visionário. uma inovação. pelo menos no primeiro momento. Depois da guerra pareceria natural que esse número fosse menor. por seleto que pretenda ser. branca luz do dia. não há dúvida. na vila. Traduzamo-lo. até acaciano. A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e massas. Por isso sua atitude gremial consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. fica fora gente afanosa de usufruí-los. reservados antes a grupos menores. O conceito de multidão é quantitativo e visual. passava inadvertida. Mas o fato é que antes nenhum destes estabelecimentos e veículos costumavam estar cheios. Embora o fato seja lógico. antes não era freqüente. sem alterá-lo. Apenas refletimos um pouco. Deste modo se converte o que era meramente quantidade . do presente. A aglomeração. As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. Que é o que vemos e ao vê-lo nos surpreende tanto? Vemos a multidão. Repartidos pelo mundo em pequenos grupos. e nossos olhos vêm por toda a parte multidões. os antigos deram a Minerva a coruja. Por isso.a multidão . A multidão. portanto. Massa é "o homem médio". maravilhar-se. se decompõe em todo o seu rico cromatismo interior. ela é o personagem principal. não. não é o ideal? O teatro tem suas localidades para que se ocupem. pois. Já não há protagonistas: só há coro. Não se entenda. distante. talvez o seu. Aqui topamos. Agora. E o esporte e o luxo específico do intelectual. nossa surpresa. deste dia. Dir-se-á que é o que acontece com todo grupo social. não se pode desconhecer que antes não acontecia e agora sim. em definitiva. Por que o é agora? Os componentes dessas multidões não surgiram do nada. o pássaro com os olhos sempre deslumbrados. no bairro da grande cidade. dissociada. à terminologia sociológica. que a formação normal de uma multidão implica a coincidência de desejos.

ao perguntar de si para si se tem talento para isto ou para aquilo. não se angustia. fingindo ignorar que o homem seleto não é o petulante que se supõe superior aos demais. posterior a haver-se cada qual singularizado. a coincidência efetiva de seus membros consiste em algum desejo. isto é. mas há uma diferença essencial. mas não se sentirá "massa".A rebelião das massas. mais frouxa e trivial.por razões especiais. A rigor. sem necessidade de esperar que apareçam os indivíduos em aglomeração. a um máximo de exigências ou a um mínimo. Este homem sentir-se-á medíocre e vulgar. como fato psicológico. ou Mahayana . Imagine-se um homem humilde que ao tentar valorizar-se por razões especiais . é esta em duas classes de criaturas: as que exigem muito de si e acumulam sobre si mesmas dificuldades e deveres. a agrupação dos que concordam só em sua desconformidade a respeito da multidão ilimitada. que por sua própria essência requer e supõe a qualificação.e o Hinayana "pequeno veículo". portanto. quando chegam a sê-lo e enquanto o forem de verdade há mais verossimilitude em achar homens que adotam o "grande veículo". Como veremos. diz graciosamente Mallarmé que aquele público salientava com a presença de sua escassez a ausência multitudinária. A seu turno. a rigor. e mal dotado.htm (22 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Assim. adverte-se o progressivo triunfo dos pseudo-intelectuais inqualificados. portanto. mais rigorosa e difícil. que por si exclui o grande número."grande veículo" ou "grande carril" . Mas. na vida intelectual. e não pode coincidir com a jerarquização em classes superiores e inferiores.adverte que não possui nenhuma qualidade excelente. se sobressai em alguma ordem . Diante de uma só pessoa podemos saber se é massa ou não. sem esforço de perfeição em si mesmas. seja qual seja. A divisão da sociedade em massas ou minorias excelentes não é. é preciso que antes cada qual se separe da multidão por razões essenciais. O mesmo nos grupos sobreviventes da "nobreza" masculina e feminina. e as que não exigem de si nada especial. Massa é todo aquele que não se valoriza a si mesmo . que antes file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sente-se à vontade ao sentir-se idêntico aos demais. da massa e do vulgo. O decisivo é se pomos nossa vida num ou no outro veículo. Claro está que nas superiores. entretanto. ainda nos grupos cuja tradição era seletiva. pois. mas em classes de homens. Falando do reduzido público que ouvia um músico refinado. e. uma divisão em classes sociais. E é indubitável que a divisão mais radical que cabe fazer na humanidade. Isto me lembra que o budismo ortodoxo se compõe de duas religiões distintas: uma. mas que para elas viver é ser em cada instante o que já são. em boa parte uma coincidência em não coincidir. a massa pode definir-se. não é raro encontrar hoje entre os obreiros. Nos grupos que se caracterizam por não ser multidão e massa. relativamente individuais. "caminho menor". idéia ou ideal. mas o que exige mais de si que os demais. Há casos em que esse caráter singularizador do grupo aparece a céu descoberto: os grupos ingleses que se chamam a si mesmos "não conformistas". Quando se fala de "minorias seletas". secundário. inqualificáveis e desclassificados por sua própria contextura. e é. bóias que vão à deriva. Este ingrediente de juntarem-se os menos precisamente para separar-se dos demais vai sempre misturado na formação de toda minoria. enquanto as inferiores estão normalmente constituídas por indivíduos sem qualidade. mas que se sente "como todo o mundo". é característico do tempo o predomínio. Sua coincidência com os outros que formam a minoria é. dentro de cada classe social há massa e minoria autêntica. embora não consiga cumprir em sua pessoa essas exigências superiores.no bem ou no mal . a velhacaria habitual costuma tergiversar o sentido desta expressão. outra. Para formar uma minoria.

O mal é que esta decisão tomada pelas massas de assumir as atividades próprias das minorias. teríamos não mais de um caso de erro pessoal. se o lê. mas não uma subversão sociológica. A massa atropela tudo que é diferente. A massa não pretendia intervir nelas: percebia-se que se queria intervir teria congruentemente de adquirir esses dotes especiais e deixar de ser massa. O mesmo acontece nas demais ordens. Ao amparo do princípio liberal e da norma jurídica podiam atuar e viver as minorias. Isso era o que antes acontecia. Todos eles indicam que esta resolveu avançar para o primeiro plano social e ocupar os locais e usar os utensílios e gozar dos prazeres antes adstritos aos poucos. É evidente que. egrégio. Antes eram exercidas estas atividades especiais por minorias qualificadas . que. posto que sua dimensão seja muito reduzida e o povo transborde constantemente deles. deplorará que as pessoas gozem hoje em maior medida e número que antes. a massa crê que tem direito a impor e dar vigor de lei a seus tópicos de café. Por isso falo de hiperdemocracia. mas que é uma maneira geral do tempo. tem o denodo de afirmar o direito de vulgaridade e o impõe por toda a parte. com todos os seus defeitos e vícios. atividades. deve pensar que o leitor médio.antecipando o que logo veremos -. Ao servir a estes princípios o indivíduo obrigava-se a sustentar em si mesmo uma disciplina difícil. sabendo-se vulgar. O característico do momento é que a alma vulgar. que nunca se ocupou do assunto.A rebelião das massas. Democracia e Lei. demonstrando aos olhos e com linguagem visível o fato novo: a massa. Talvez cometa eu um erro. mas o escritor. A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. que são. os locais não estavam premeditados para as multidões. não podem ser bem executadas sem dotes também especiais. sem deixar de sê-lo.qualificadas. quem não pense como todo o mundo. corre o risco de ser eliminado. ao tomar da pena para escrever sobre um tema que estudou intensamente. especiais.htm (23 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . E claro está que esse "todo o mundo" não é "todo o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. nem pode manifestar-se. pelo menos. por sua mesma natureza. Assim . Quem não seja como todo o mundo. Por exemplo: certos prazeres de caráter artístico e luxuoso. não se manifesta. para sentenciar sobre ele quando não coincide com as vulgaridades que este leitor tem na cabeça. Se agora retrocedermos aos fatos enunciados a princípio. creio eu. pelo contrário. no final das contas. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa atua diretamente sem lei. Agora. Pelo contrário. e. ou bem as funções de governo e de juízo político sobre os assuntos públicos. impondo suas aspirações e seus gostos. Ora bem: existem na sociedade operações. Eu duvido que tenha havido outras épocas da história em que a multidão chegasse a governar tão diretamente como em nosso tempo. almas egregiamente disciplinadas. individual. eram sinônimos. não é com o fim de aprender algo dele. Como se diz na América do Norte: ser diferente é indecente. as minorias dos políticos entendiam um pouco mais dos problemas públicos que ela. conseqüentemente. em pretensão -. por meio de pressões materiais. É falso interpretar as situações novas como se a massa se houvesse cansado da política e encarregasse a pessoas especiais seu exercício. suplanta as minorias. por sua vez. mas. muito especialmente na intelectual. A massa presumia que. convivência legal. Ninguém. Conhecia seu papel numa saudável dinâmica social. isso era a democracia liberal. Se os indivíduos que integram a massa se acreditassem especialmente dotados. podiam valer como o exemplo mais puro disto que chamamos "massa". funções da ordem mais diversa. já que têm para isso os apetites e os meios. só na ordem dos prazeres. por exemplo. qualificado e seleto. eles nos aparecerão inequivocamente como núncios de uma mudança de atitude na massa.

Perfeitamente. porque eu não disse nunca que a sociedade humana deva ser aristocrática. Então se produz também o fenômeno da aglomeração. podemos alegremente ingressar no tema. Muito me fez meditar certa damazinha em flor. ver por dentro o espetáculo. Eu não teria inconveniente em falar sobre o sentido que possui essa vida elegante. em um elemento vital. de verdadeiramente aristocrático só restava naqueles seres a graça digna com que sabiam receber em seu pescoço a visita da guilhotina.não é aristocracia. por sua própria essência. Não: a quem sinta a missão profunda das aristocracias. especiais. A ASCENSÃO DO NÍVEL HISTÓRICO Este é o fato formidável do nosso tempo. Ou supunha-se que eu ia contentar-me com essa descrição. e chegar a sua hora de declinação. Agora todo o mundo é só a massa. completamente diferente do nosso. a mim. aconteceu nada semelhante. cada dia com mais enérgica convicção. teríamos de insinuar-nos no mundo antigo. foi preciso construir. do império das massas que absorvem e anulam as minorias dirigentes e se colocam em seu lugar. que este fabuloso advento das massas à superfície da história não me inspirava outra coisa senão algumas palavras displicentes. Certamente que essa mesma "sociedade distinta" está de acordo com o tempo. Por isso. mas muito mais que isso. Vivemos sob o brutal império das massas. Eu disse e continuo crendo. é o seu oposto: é a morte e a putrefação de uma magnífica aristocracia. edifícios enormes. queira ou não. até o ponto de que é sociedade na medida em que seja aristocrática. Ninguém pode acreditar que diante deste fabuloso encrespamento da massa. de uma absoluta novidade na história de nossa civilização. Se temos de achar algo semelhante. seja o aristocrático contentar-se com fazer um breve trejeito amaneirado. que é só a fachada. como um fidalgote de Versalhes. A aristocracia social não se parece nada a esse grupo reduzidíssimo que pretende assumir para si íntegro o nome de "sociedade". A história do Império romano é também a história da subversão.A rebelião das massas. talvez exata. e deixa de sê-lo na medida em que se desaristocratize. também tem as suas dentro do vasto mundo este pequeno "mundo elegante". já chamamos duas vezes "brutal" a este império. II. Como tudo no mundo tem sua virtude e sua missão. mas uma missão muito subalterna e incomparável com a faina hercúlea das autênticas aristocracias. já pagamos nosso tributo ao deus dos tópicos. descrito sem ocultar a brutalidade de sua aparência. agora. "Todo o mundo" era. que se chama a si mesmo "a sociedade" e que vive simplesmente de convidar-se ou de não convidar-se. com o bilhete na mão. porque me disse: "Eu não tolero um file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. estrela de primeira grandeza no zodíaco da elegância madrilenha. o frontispício sob os quais se apresenta o fato tremendo quando é olhado desde o passado? Se eu deixasse aqui este assunto e estrangulasse meu presente ensaio. Jamais. Por isso. desdenhosas. em aparência tão sem sentido. o espetáculo da massa o incita e aviva como ao escultor a presença do mármore virgem. um pouco de abominação e outro pouco de repugnância. teríamos de pular fora de nossa história e submergir-nos em um orbe. como observou muito bem Spengler.htm (24 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . de quem é notório que sustento uma interpretação da história radicalmente aristocrática (28) É radical. mas externa. mundo". Versalhes . mas nosso tema é agora outro de maiores proporções. É. em todo o seu desenvolvimento. toda juventude e atualidade. aceitavam-na como o tumor aceita o bisturi. normalmente. do cheio. a unidade complexa de massa e minorias discrepantes. ficaria o leitor pensando. Bem entendido que falo da sociedade e não do Estado. que a sociedade humana é aristocrática sempre. muito justamente. como se faz agora. A época das massas é a época do colossal (27).entende-se esse Versalhes dos trejeitos . ademais.

vejam-se as Memórias da comtesse de Boigne. imponente. Não obstante. um puro teorema e idéia de uns poucos. esses poucos começaram a usar praticamente dessa idéia. efetivamente. porque eram patrimônios de poucos. passou. inexoravelmente deixa de ser ideal. o ingrediente terrível é posto pela atropelante e violenta sublevação moral das massas. o "povo" sabia já que era soberano. Quero dizer com ela que as massas gozam dos prazeres e usam os utensílios inventados pelos grupos seletos e que antes só estes usufruíam. segunda. que são seu efeito sobre o homem. mas. Todo outro direito imposto a dotes especiais ficava condenado como privilégio. muitas das técnicas que antes só os indivíduos especializados manejavam. e que. Através desta frase vi que o estilo das massas triunfa hoje sobre toda a área da vida e se impõe ainda naqueles últimos rincões que pareciam reservados aos happy few. E note-se bem: quando algo que foi ideal se faz ingrediente da realidade. pois. baile ao qual tenham sido convidadas menos de oitocentas pessoas". não os sentia em si. mas não acreditava nisso. do indivíduo humano genérico e como tal. cósmico sinal de interrogação. e sem necessidade de qualificação alguma. a rigor. não lhes obedecem. Todo destino é dramático e trágico em sua profunda dimensão. os chamados direitos do homem e do cidadão. E não apenas as técnicas materiais. de idéia ou ideal jurídico que era. com algo. No século XVIII. depois. Um exemplo trivial: em 1820 não havia em Paris dez quartos de banho em casas particulares. A meu juízo. pelo contrário. No nosso. a impô-la e reclamá-la: as minorias melhores. durante todo o século XIX a massa. o qual tem sempre uma forma equívoca. as técnicas jurídicas e sociais. não já nas legislações. Sentem apetites e necessidades que antes se qualificavam de refinamentos. se volatilizam. as puseram de lado e as suplantam.segundo então era chamado -. possuía certos direitos políticos fundamentais.htm (25 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . instalada sobre nosso tempo como um gigante. Hoje aquele ideal converteu-se numa realidade. O "povo" . ou um bem possível? Aí está. quaisquer que sejam as suas idéias. não os exercitava nem fazia valer senão de fato. com relativa suficiência.A rebelião das massas. estes direitos comuns a todos são os únicos existentes. toda interpretação de nosso tempo que não descubra a significação positiva oculta sob o atual império das massas e das que o aceitam. em grande parte. Mais ainda: as massas conhecem e empregam hoje. Analisemos a primeira rubrica. colossal. inclusive quando as suas idéias são reacionárias. de guilhotina ou de forca mas também com algo que quisera ser um arco triunfal! O fato de que necessitamos submeter a anatomia pode formular-se sob estas duas rubricas: primeira. com o que antes parecia reservado exclusivamente às minorias. não as respeitam. que são esquemas externos da vida pública. igualmente. que se ia entusiasmando com a idéia desses direitos como com um ideal. Isto foi. as massas exercitam hoje um repertório vital que coincide. que são atributos do ideal. O prestígio e a magia autorizante. Os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sob as legislações democráticas. inclusive quando esmaga e tritura as instituições onde aqueles direitos se sancionam. Repilo. pelo mero fato de nascer. indomável e equívoca como todo destino. quer dizer. primeiro. mas no coração de todo indivíduo. certas minorias descobriram que todo indivíduo humano. não as seguem. beatamente. o que é mais importante. Quem não tenha sentido na mão palpitar o perigo do tempo. quem não entende esta curiosa situação das massas não pode compreender nada do que hoje começa a acontecer no mundo. continuava sentindo-se a si mesma como no antigo regime. Para onde nos leva? É um mal absoluto. a ser um estado psicológico constitutivo do homem médio. A soberania do indivíduo não qualificado. continuava vivendo. mas. não fez mais senão acariciar sua mórbida face. sem estremecer de espanto. não chegou à entranha do destino. ao mesmo tempo as massas tornaram-se indóceis diante das minorias.

Esse estado psicológico de sentir-se amo e senhor de si e igual a qualquer outro indivíduo. que imponha decidido sua vontade. mas não suas conseqüências? Quer-se que o homem médio seja senhor. é um fato novo na história. Ora bem: o homem médio representa a área sobre que se move a história de cada época. a Europa se americanizou e que isto é devido a um influxo da América na Europa. que na Europa só os grupos preeminentes conseguiam adquirir. como os meninos querem uma coisa. A vida humana. banalizou-se a questão. de repente -. mas não se produziram no próximo passado. os progressistas de há 30 anos? Ou é que. que não continue dócil. pois. Pense o leitor. Então não estranhe que atue por si. na consciência de igualdade jurídica. de uma moda. o nível médio se acha hoje onde antes só tocavam as aristocracias. O soldado do dia. ainda mais curiosa! Ao aparecer na Europa esse estado psicológico do homem médio. em apetites de supostos inconscientes. desorientados pelo parecido externo. Isso. Não recebeu ainda influxo grande da América. que cuide de sua pessoa e seus ócios. mas era o fato nativo. A galanteria tenta agora subornar-me para que eu diga aos homens de Ultramar que. que componha sua indumentária: são alguns dos atributos perenes que acompanham a consciência de senhorio. de que o presente é broto. praticamente desde sempre. Todo o bem. todo o mal do presente e do imediato porvir tem neste ascenso geral do nível histórico sua causa e sua raiz. Basta ver a energia. o atribuíam a não se sabe que influxo da América na Europa. que a vida do homem médio está agora constituída pelo repertório vital que antes caracterizava só as minorias culminantes. Com isso. acreditavam que se tratava de uma leve mudança nos costumes. Se. que é muito mais sutil e surpreendente e profunda. eventualmente.depois de largas e subterrâneas preparações. quer dizer-se lisa e lhanamente que o nível da história ascendeu de repente . Não era isto que se queria? Que o homem médio se sentisse amo. depois de dois file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Há aqui um cúmulo desesperante de idéias falsas que nos estorvam a visão tanto aos americanos como aos europeus. mas em sua manifestação. de aspirações de ideais. da América. e. o desembaraço com que qualquer indivíduo luta hoje pela existência. o tom e maneiras da vida européia em todas as ordens adquire de repente uma fisionomia que fez muitos dizer: "A Europa está se americanizando".htm (26 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . agarra o prazer que passa. Mas agora nos ocorre uma advertência impremeditada. ao subir o nível de sua existência integral. que se negue a toda servidão. Os que isto diziam não davam ao fenômeno importância maior. impõe sua decisão. constitucional. iniciam-se agora mesmo. que o nível médio da vida seja o das antigas minorias. na massa. ascendeu. diríamos. acontecia na América. Mas não: a verdade entra agora em colisão com a galanteria. dono. O triunfo das massas e a conseguinte magnífica ascensão de nível vital aconteceu na Europa por razões internas. A Europa não se americanizou. que reclame todos os prazeres. o exército humano se compõe já de capitães. Ora bem: o sentido daqueles direitos não era outro senão tirar as almas humanas de sua interna servidão e proclamar dentro delas certa consciência de senhorio e dignidade. e deve triunfar. E nova coincidência. é na história o que é o nível do mar na geografia. Hoje os achamos residindo no homem médio. numa geração. tem muito de capitão. de um salto. é o que desde o século XVIII. Por que se queixam os liberais. com efeito. Tanto um como outro. os democratas. senhor de si mesmo e de sua vida? Já está conseguido. para ver clara minha intenção.A rebelião das massas. a resolução. a meu juízo. Julgamos pois. direitos niveladores da generosa inspiração democrática converteram-se. em totalidade.

nesta nivelação não fez senão ganhar. um espanhol médio. nivelam-se os sexos. pois. que hoje um italiano médio. A imagem de cair. nunca posta em dúvida. deu origem à idéia. ou se mantém a par. Mas a história. como a agricultura. se dos Estados europeus. A intuição. angustiam o homem de têmpera arcaica. a saber: da vitalidade européia. Mas isso é que o resultado coincide com o traço mais decisivo da existência americana. um aspecto favorável enquanto significa uma subida de todo o nível histórico. onde não se sabe bem de que se fala. Desde sempre se entrevia obscuramente pelos europeus que o nível médio da vida era mais alto na América que no velho continente. procede desta intuição. Pois bem: também se nivelam os continentes. a subversão das massas significa um fabuloso aumento de vitalidade e possibilidades. que esta ou a outra coisa não é própria da altura dos tempos. olhada deste lado. um alemão médio. por exemplo. o ímpeto de energia com que se faz tudo. que contrastava com o nível inferior das minorias melhores da América comparadas com as européias. e por isso. Frase confusa e tosca. O que nos faz compreender que a vida pode ter altitudes diferentes. porque coincide a situação moral do homem médio europeu com a do americano. E este é um dado que os americanos não devem esquecer.A rebelião das massas. que antes lhe era um enigma e um mistério. E como o europeu se achava vitalmente mais baixo. Com efeito: não o tempo abstrato da cronologia. com maior ou menor claridade. da cultura européia ou do que está sob tudo isso e importa infinitamente mais que tudo isto. embainhada no vocábulo decadência. tudo ao contrário. mas o tempo vital. Convém que nos detenhamos neste ponto. nutre-se dos vales e não dos cumes. ou cai por baixo. e que é uma frase cheia de sentido a que sem sentido sói repetir-se quando se fala da altura dos tempos. Dos Estados e da cultura européia diremos algum vocábulo mais adiante . se diferenciam menos em tom vital de um ianque ou de um argentino que há trinta anos. pois. Diz-se. tem sempre certa altitude. e esta angústia mede o desnível entre a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como dizem que as orquídeas se criam sem raízes no ar. A velocidade do tempo com que hoje marcham as coisas. talvez minha afirmação pareça mais convincente e menos inverossímil. O fundamento era aquela entrevisão de um nível mais elevado na vida média de Ultramar. Vivemos em tempo de nivelações: nivelam-se as fortunas. convém desde logo fazer constar que se trata de um erro crasso. mas quanto à vitalidade. o que cada geração chama "nosso tempo". pouco analítica. de um influxo. e revela que a vida média se move hoje em altura superior à que ontem pisava. mas do que menos se suspeita ainda: trata-se de uma nivelação. Dita de outro modo. sempre aceita. aconteceu que pela primeira vez o europeu entende a vida americana. a relação em que sua própria vida se encontra com a altura do tempo onde transcorre. A ALTURA DOS TEMPOS O império das massas apresenta.e talvez a frase supradita valha para eles -. que seria um refluxo. pois. que é todo ele chão. da altitude média social e não das eminências. porque ele nos proporciona a maneira de fixar um dos caracteres mais surpreendentes de nossa época. séculos de educação progressista das multidões e de um paralelo enriquecimento econômico da sociedade. digo. Compreender-se-á que idéia tão ampla e tão arraigada não podia vir do vento.htm (27 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mas evidente deste fato. pois. eleva-se ontem sobre hoje. que seria um pouco estranho. III. Do mesmo modo cada qual sente. Não se trata. de que a América era o porvir. Há quem se sinta nos modos da existência atual como um náufrago que não consegue sair a flutuar. do que ouvimos tão amiúde sobre a decadência da Europa. Portanto. nivela-se a cultura entre as diferentes classes sociais.

soíam rechaçar esta ou outra medida de governo. ao recomendar-lhe que não se perseguissem os cristãos em virtude de denúncias anônimas: Nec nostri saeculi est. e depois. cuja existência se lhes apresentava como algo mais amplo. Cada idade histórica manifesta uma sensação diferente ante esse estranho fenômeno da altura vital. a Alcheringa. várias épocas na história que se sentiram como chegadas a uma altura plena.) Aetas parentum peior avis tulit nos nequiores. acreditava o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mais perfeito e difícil que a vida de seu tempo. mox daturos progeniem vitiosorem. Trata-se de um fenômeno muito curioso que nos importa muito definir. definitiva: tempos em que se crê haver chegado ao término de uma viagem. cresce progressivamente no Império Romano. mas antes. Enquanto isso. parecia-lhes não dominá-los. a completa madureza da vida histórica. Nem todas as idades se sentiram inferiores a algumas do passado. quem vive com plenitude e a gosto as formas do presente. ao contrário. as mulheres tornaram-se estéreis e a Itália se despovoou.A rebelião das massas. Mas isso tampouco é verdade. É a "plenitude dos tempos". decaído. pelo menos se se toma grosso modo. (Odes. A impressão que Jorge Manrique declara tem sido certamente a mais geral. dizemos os educados por Grécia e Roma. de diminuição. simplesmente porque passadas. nos engendraram ainda mais depravados. Dois séculos mais tarde não havia em todo o Império bastantes itálicos medianamente valorosos com os quais preencher as praças de centuriões. e foi necessário alugar para este ofício dálmatas. Bastaria recordar que. de existência mais plenária: a "idade de ouro". Livro III. que há neste mais calorias que nele mesmo. Por esta razão respeitavam o passado. de decair e perder pulso. dizendo que era imprópria da plenitude dos tempos. mas. tal ou qual desmando. como mais baixas de nível que a sua. Desde cento e cinqüenta anos depois de Cristo esta impressão de encolhimento vital. dizem os selvagens australianos. 6. em que se cumpre um afã antigo e plenifica uma esperança. e nós daremos uma progênie todavia mais incapaz". se tivesse consciência. tem consciência da relação entre a altura de nosso tempo e a altura das diversas idades pretéritas. como um grau de temperatura. Já Horácio havia cantado: "Nossos pais. Ao contrário. ao parecer de Jorge Manrique. mais rico. incapaz de encher por completo o canal das veias. nem todas se supuseram superiores a quantas foram e recordam. Quando há não mais de trinta anos os políticos peroravam ante as multidões. Qual é essa relação? Fora errôneo supor que sempre o homem de uma época sente as passadas. e me surpreende que não tenham reparado nunca pensadores e historiógrafos em fato tão evidente e substancioso. Vejamos agora outra classe de épocas que gozam de uma impressão vital ao parecer a mais oposta a essa. Qualquer tempo passado foi melhor. bárbaros do Danúbio e do Reno. Por outra parte. À maior parte das épocas não lhes pareceu seu tempo mais elevado que outras idades antigas. Isso revela que esses homens sentiam o pulso de sua própria vida mais ou menos falto de plenitude. o mais habitual tem sido que os homens suponham em um vago pretérito tempos melhores. Houve. pois. sentiria que não contém em si o grau superior. É curioso recordar que a mesma frase aparece empregada por Trajano na sua famosa carta a Plínio. altura do seu pulso e a altura da época. Ao olhar para trás e imaginar esses séculos mais valiosos. Há trinta anos.htm (28 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . piores que nossos avós. com efeito. os tempos "clássicos ". ficar debaixo deles.

último. quem continua adscrito à outra margem. estão mortos por dentro. resumindo. empedernido tomador de pulso de tempos. como uma decadência. que se lhe secou a fonte do desejar. e que no século XIX parece finalmente realizar-se. sobre os quais vai montada esta hora bem granosa. às vezes. terrível. parece cumprir-se. E ao sentir assim percebemos uma deliciosa impressão de nos havermos evadido de um recinto estreito e hermético. se denominou a si mesmo "cultura moderna". tempos de só desejo insatisfeito. o que desde muitas gerações se vinha anelando que fosse. Chegamos à altura entrevista. Segundo eu disse. Mas agora compreendemos que esses séculos tão satisfeitos. Daí o dado surpreendente de que essas etapas de chamada plenitude tenham sentido sempre no sedimento de si mesmas uma peculiaríssima tristeza. irremediavelmente. O desejo tão lentamente gestado. como no século XIX. Mas um velho afeiçoado à história. tão fruídos. à meta antecipada. e o olhe todo sob sua ótica. Por fim chega um dia em que esse velho desejo. com efeito. por fim um dia fica satisfeito. onde tudo. seu ideal. que a famosa plenitude é em realidade uma conclusão. Não se esqueça disto: nosso tempo é um tempo que vem depois de um tempo de plenitude. inferiores ao próprio. mas que pelo contrário essa pretensão de que um tempo de vida . o que teria já que ser sempre.htm (29 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . diante do qual todos os demais são puros pretéritos. é o que. definitivo. de transpor? Nosso tempo. modestas preparações e aspirações para ele! Setas sem brio que erram o alvo! (31). A autêntica plenitude vital não consiste na satisfação. de haver escapado. imprevisível e inesgotável. Isto é. o qual se vinha arrastando aneloso e querulante durante séculos. é que já não deseja nada mais.o chamado "cultura moderna" . a realidade o recolhe e lhe obedece. Daí que. na posse. arquisatisfeitos (29). aqueles períodos preparatórios aparecem como se neles se houvessem vivido de puro afã e ilusão não lograda. Um tempo que satisfez seu desejo. de outros tempos sem plenitude. às vezes milenário. E. e sair de novo sob as estrelas ao mundo autêntico.fosse definitivo. como morre o zângão afortunado depois do vôo nupcial (30). quer dizer. europeu que a vida humana havia chegado a ser o que devia ser. tudo é possível: o melhor e o pior. de "ainda não". ao contrário. Os tempos de plenitude se sentem sempre como resultante de muitas outras idades preparatórias. Vistos de sua altura. Já o nome é inquietante: que um tempo se chame a si mesmo "moderno". Já dizia Cervantes que "o caminho é sempre melhor que a pousada". parece-nos uma obcecação e estreiteza inverossímeis do campo visual. para sempre cristalizados. Há séculos que por não saber renovar seus desejos morre de satisfação. A fé na cultura moderna era triste: era saber que amanhã ia ser file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o essencial para que exista "plenitude dos tempos" é que um desejo antigo. de ardentes precursores. Não se sonda já aqui a diferença essencial entre nosso tempo e esse que acaba de preterir. não se sente já definitivo. de contraste penoso entre uma civilização clara e a realidade que não lhe corresponde. com efeito. profundo. Esta era a sensação que de sua própria vida tinham os nossos pais e toda a sua centúria. seguros. sofrerá o espelhismo de sentir a idade presente como um cair desde a plenitude.A rebelião das massas. Assim vê a Idade Média o século XIX. a esse próximo plenário passado. não se pode deixar alucinar por essa ótica da suposta plenitude. em sua raiz mesma encontra obscuramente a intuição de que não há tempos definitivos. na chegada. ao cume do tempo! Ao "ainda não" sucedeu o "por fim". esses tempos plenos são também satisfeitos de si mesmos.

com efeito. um conceito comparativo. ou por sentir-se em plenitude. Daí que ainda acreditasse em épocas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Pois acontece que precisamente o nosso goza neste ponto de uma sensação estranhíssima. elástica. portanto. Já nada novo podia haver no mundo. E se há uma melancolia das ruínas. com efeito. não natural. Trata-se de um erro ótico que provém de múltiplas causas. como se conhece que uma vida se sente ou não decair? Para mim não cabe dúvida a respeito do sintoma decisivo: uma vida que não prefere outra nenhuma de antes.Lucano. Não há mais que um ponto de vista justificado e natural: instalar-se nessa vida. não deixam de ser parciais. que se levanta delas como a evaporação das águas mortas.e via as majestosas construções imperiais. Outros pontos de vista serão mais respeitáveis que este. em minha opinião perigosa. minguada. ao qual falta. Ora bem: essa comparação pode fazer-se desde os pontos de vista mais diferentes e vários que caiba imaginar. não é evidente que a sensação de nossa época se parece mais à alegria e alvoroço de meninos que escaparam da escola? Agora já não sabemos o que vai haver amanhã no mundo. Diante desse estado emotivo. ser um horizonte sempre aberto a toda possibilidade. a rigor. Para um fabricante de boquilhas de âmbar. olham da história só a política ou a cultura. e não advertem que tudo isso é só a superfície da história. com o queixume de decadência que choraminga nas páginas de tantos contemporâneos. antes que isso e mais fundo que isso. Roma era eterna. encarnando a figura de sua própria vida. sua outra metade. esse século XIX ficava. Diante dos diagnósticos de decadência eu recomendo o seguinte raciocínio: A decadência é. Contrasta este diagnóstico. que o progresso consistia só em avançar com todos os sempres sobre um caminho idêntico ao que já estava sob nossos pés. mas.htm (30 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . fecunda a fera. E é que. que se prefere a si mesma. isto é. mas hoje quero antecipar a mais óbvia: provém de que. Nos salões do último século chegava indefectivelmente uma hora em que as damas e seus poetas amestrados faziam entre si esta pergunta: Em que época quisera você haver vivido? E eis aqui que cada um. como a culminação do passado. Mas. ser imprevisível. fiéis a uma ideologia. que a realidade histórica é. um puro afã de viver. Toda a minha excursão sobre o problema da altitude dos tempos perseguia esta conclusão. é a verdadeira plenitude da vida. sobre cujos ombros acreditava estar. é a vida autêntica. ou Sêneca . via-se. embora sentindo-se. se alarga sem nos libertar. de nenhum antes. ligado ao passado. claro está. ainda que de signo inverso: a melancolia dos edifícios eternos. debilitada e insípida. não a mesma. Um caminho assim é a bem dizer uma prisão que. arbitrários e externos à própria vida cujos quilates se trata precisamente de avaliar. Outro dia veremos algumas. o mundo está em decadência porque já não se fuma apenas com boquilhas de âmbar.A rebelião das massas. portanto. e isso secretamente nos regozija. que eu saiba. única até agora na história conhecida. Decai-se de um estado superior para um estado inferior. sentia contrair-se seu coração. Quando nos começos do Império algum fino provinciano chegava a Roma . é certo. o provinciano sensível percebia uma melancolia não menos penosa. em todo o essencial igual a hoje. por exemplo. se dedicava a vagar imaginavelmente pelas vias históricas em busca de um tempo onde encaixar a gosto o perfil de sua existência. não pode em nenhum sentido sério chamar-se decadente. mas sim irmã da que inquieta o mar. embora olhada por dentro de si mesma. uma potência parecida às cósmicas. põe flor na árvore. símbolo de poder definitivo. faz tremeluzir a estrela. porque isso. contemplá-la de dentro e ver se ela se sente a si mesma decaída.

simplesmente. que cada indivíduo vive habitualmente todo o mundo. as pautas não nos servem. mais ou menos confusa. mas completamente. Olhamos para trás e o famoso Renascimento nos parece um tempo angustiosíssimo. e entretanto. Pois bem: que diria sinceramente qualquer homem representativo do presente a quem se fizesse uma pergunta parecida? Eu creio que não é duvidoso: qualquer passado. Orgulhosa de suas forças e ao mesmo tempo temendo-as. Temos de resolver nossos problemas sem colaboração ativa do passado. toda a atenção ao passado. a altitude do tempo que ele anuncia.o século de Péricles.A rebelião das massas. Isto bastaria para nos fazer suspeitar dos tempos de plenitude. A vida mundializou-se efetivamente. Como poderá sentir-se decadente? Pelo contrário: o que aconteceu é que. sem estar segura de não ser agonia. perdeu sua sombra. de tanto sentir-se mais vida. ou dito às avessas. sem excluir nenhum. Eu resumia. perdeu todo o respeito. Esta intuição de nossa vida de hoje anula com sua claridade elemental toda lucubração sobre decadência que não seja muito cautelosa. um começo. onde se haviam preparado os valores vigentes. Daí que pela primeira vez nos encontremos com uma época que faz tábua rasa de todo classicismo. que já não nos podem ajudar. Os modelos. uma alvorada. Sentimos que de repente ficamos sós sobre a terra os homens atuais. parece. que não reconhece em nada pretérito possível modelo ou norma. as normas. Fortíssima e ao mesmo tempo insegura de seu destino. há tempos. Que expressão escolheremos? Talvez esta: mais que os demais tempos e inferior a si mesma. que o mundo. a altura de nosso tempo? Não é plenitude dos tempos. uma iniciação. É. uma infância. e com ele e nele. Isto é. Não é fácil formular a impressão que de si mesma tem nossa época: crê ser mais que as demais. de ciência ou de política -. entretanto. que engendra a inquietude peculiar da vida nestes anos. em resumo. O europeu está só. lhe daria a impressão de um recinto angustioso onde não podia respirar.por que não dizê-lo? -. sente-se sobre todos os tempos sidos e por cima de todas as conhecidas plenitudes. o Renascimento -. de maior tamanho que todas as vidas. e ao mesmo tempo sente-se como um começo. os sevilhanos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O resto do espírito tradicional evaporou-se.sejam de arte. que os mortos não morreram de brincadeira. que o homem do presente sente que sua vida é mais vida que todas as antigas. em pleno atualismo . e sobrevinda ao cabo de tantos séculos sem descontinuidade de evolução. Nossa vida sente-se. Há pouco mais de um ano. E o que acontece sempre que chega o meio-dia (32) Qual é. de mau gosto. não são por sua vez mais que sintoma de um fato mais completo e geral. como Pedro Schlehmil. tal situação na forma seguinte: "Esta grave dissociação de pretérito e presente é o fato geral de nossa época e nela vai incluída a suspeita. que o passado íntegro ficou pequeno para a humanidade atual. cresceu. olham o passado que neles se cumpre. O CRESCIMENTO DA VIDA O império das massas e o ascenso de nível. não obstante. a vida.htm (31 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . provincial. de repente. Este fato é quase grotesco e incrível em sua simples evidência. quero dizer que o conteúdo da vida no homem de tipo médio é hoje todo o planeta. de atitudes vãs . IV. levam a cara voltada para trás. sem mortos viventes perto de si. relativamente clássicas .

proporcionalmente ao valor do dinheiro em ambas as épocas. Esta proximidade do longínquo. e a eleição começa por perceber as possibilidades que oferece o mercado. A quantidade de possibilidades que se abrem ante o comprador atual chega a ser praticamente ilimitada. Mas. o homem de hoje não poderá comprar mais coisas que o do século XVIII. que me parece essencialíssimo: nossa vida é em todo instante e antes que nada consciência do que nos é possível. podemos estar em mais lugares que antes. em definitivo. desfazer. mas é também antes uma eleição. consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra como tais. comprar. em seu modo "comprar". o que estava acontecendo com uns homens junto ao Pólo. por exemplo. Cada pedaço de terra não está já recluído em seu lugar geométrico. acompanhavam. Uma estupidez não se pode dominar a não ser com outra. De onde resulta que a vida. pelo contrário. Quando se fala de nossa vida sói esquecer-se disto. Mas este aumento espácio-temporal do mundo não significaria por si nada. mas para muitos efeitos vitais atua nos demais pontos do planeta.A rebelião das massas. e não há razão para estranhar de que nos produza um pueril prazer fazer funcionar a vazia velocidade. e vice-versa: não é possível que um homem imagine e deseje quanto se acha à venda. nomes todos que significam atividades vitais. esta presença do ausente. sublinharia mais o que tento dizer. Imaginem-se dois homens. foram anexados a nossa memória como novos continentes. O fato é falso. o crescimento substantivo do mundo não consiste em suas maiores dimensões. O jornal ilustrado e o cinema trouxeram estes remotíssimos pedaços de mundo à visão imediata do vulgo. A diferença é quase fabulosa. encontrar. careceria de sentido chamá-la assim.htm (32 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Cada coisa . gozar de mais idas e mais vindas. e compare-se o repertório de coisas em venda que se oferece a um e a outro. A atividade de comprar conclui em decidir-se por um objeto. Civilizações inteiras e impérios dos quais nem o nome se suspeitava. vivificamo-los. Mas ai está: esse estranhíssimo fato de nossa vida possui a condição radical de que sempre encontra ante si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. tornamos possível ser o aproveitamento vital. com fortuna proporcionalmente igual. fazer. A velocidade feita de espaço e tempo não é menos estúpida que seus ingredientes. tentar. E o mundo cresceu também temporalmente. Segundo o princípio físico de que as coisas estão ali onde atuam. um do presente e outro do século XVIII. gozar ou repelir. em seus jornais populares. Ao anulá-los. porque a indústria barateou quase todos os artigos. aumentou em proporção fabulosa o horizonte de cada vida. consumir em menos tempo vital mais tempo cósmico. Por isso é mais justificado do que sói crer-se o culto à velocidade que transitoriamente exercitam nossos contemporâneos. Se em cada momento não tivéssemos à nossa frente mais que uma só possibilidade. Hoje podem comprar-se muitas mais. A pré-história e a arqueologia descobriram âmbitos históricos de longitude quimérica. Não é fácil imaginar com o desejo um objeto que não exista no mercado. que carecem por completo de sentido.é algo que se pode desejar. hora a hora. Dir-me-ão que. quero dizer.tome-se a palavra em seu mais amplo sentido . mas em que inclua mais coisas. Era para o homem questão de honra triunfar no espaço e no tempo cósmicos (33). Mas finalmente não me importaria que o fato fosse certo. reconheceremos hoje a qualquer ponto do globo a mais efetiva ubiqüidade. com a qual matamos espaço e jugulamos tempo. mas serve para anular aqueles. Tome-se qualquer uma de nossas atividades. que sobre o fundo ardente da campina bética passavam blocos de gelo à deriva. Seria apenas pura necessidade. O espaço e o tempo físicos são o absolutamente estúpido do universo. que possuam fortuna igual.

A este âmbito costuma chamar-se "as circunstâncias". esta ampliou e inverossimilmente seu horizonte cósmico. guerreiro. mais pontos de vista. Creio com isso descrever rigorosamente a consciência do homem atual. mas que o homem Einstein seja capaz de maior exatidão e liberdade de espírito (37) que o homem Newton. o programa de misteres possíveis hoje é superlativamente grande. Nos prazeres acontece coisa parecida. do mesmo modo que o campeão de boxe dá hoje murros de maior calibre que jamais se deram. Não falei da atualidade da vida presente. mais problemas. Conta com um âmbito de possibilidade fabulosamente maior que nunca. Daí que nos parece o mundo uma coisa tão enorme. mas apenas de seu crescimento. os jornais e as conversações lhe fazem chegar a notícia destas performances intelectuais que os aparelhos técnicos recém-inventados confirmam desde as vitrinas. nossa potencialidade vital. Não basta admirar cada uma delas e reconhecer o record que batem. Porque coisa similar acontece na ciência. portanto. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não quero dizer com o dito que a vida humana seja hoje melhor que em outros tempos. mais dados. Representa o que podemos ser. as possibilidades de gozar aumentaram. Toda vida é achar-se dentro da "circunstância" ou mundo (35). Não é. Como o cinematógrafo e a ilustração põem ante os olhos do homem médio os lugares mais remotos do planeta. enfim. E em tudo isto não me refiro ao que possa significar como perfeição da cultura . mas ao crescimento das potências subjetivas que tudo isso supõe. Porque este é o sentido originário da idéia (mundo). chegamos a ser só uma parte mínima do que podemos ser. seu tom vital que consiste em sentir-se com maior potencialidade que nunca e parecer-lhe todo o pretérito afetado de pequenez.A rebelião das massas. que por serem várias adquirem o caráter de possibilidades entre as quais havemos de decidir (34). dito de outra maneira. É um fato constante e notório que no esforço físico e esportivo se cumpram hoje performances que superam enormemente quantas se conhecem do passado.e o fenômeno tem mais gravidade do que se supõe . Tanto vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos em um ambiente de possibilidades determinadas. de uma maneira fantástica. caçador. mais ciências. e nós. Mas o crescimento da potencialidade vital não se reduz ao dito até aqui. Em um par de lustros tão somente. hoje inchou até se converter em todo um sistema planetário. Aumentou também em um sentido mais imediato e misterioso. mas que é sua autêntica periferia. A física de Einstein está feita atendendo às mínimas diferenças que antes se desprezavam e não entravam em conta por parecer sem importância. que a antiga física de Newton ocupa neles apenas um sótão (36) E este crescimento extensivo se deve a um crescimento intensivo na precisão científica. Mas agora importa-me só fazer notar como cresceu a vida do homem na dimensão de potencialidade. no que vai de século.e as urbes são a representação da existência atual -. pois. limite ontem do mundo. Entretanto. para o homem de vida média que habita as urbes . Tudo isso decanta em sua mente a impressão de fabulosa prepotência. Mundo é o repertório de nossas possibilidades vitais. de seu avanço quantitativo ou potencial. Na ordem intelectual encontra mais caminho de possível ideação. se bem . Enquanto os ofícios ou carreiras na vida primitiva se numeram quase com os dedos de u'a mão . mas advertir a impressão de que o organismo humano possui em nosso tempo capacidades superiores às que nunca teve. dentro dele. mago -. O átomo. ou.isso não me interessa agora -. Esta tem de se concretizar para realizar-se. uma coisa tão pequena.htm (33 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .não é seu elenco tão exuberante como nos demais aspectos da vida. várias saídas. Não ressalto que a física de Einstein seja mais exata que a de Newton. A física de Einstein move-se em espaços tão vastos.pastor. algo à parte e alheio a nossa vida. O mundo ou nossa vida possível é sempre mais que nosso destino ou vida efetiva.

Hoje. Não vale falar de decadência sem precisar que é o que decai. que parece imperar um maior silêncio ao silêncio noturno. e que me parece tão simples como evidente. Porque esse é precisamente seu problema. a decadência (38). vertendo sobre ele o costume. Geralmente. Só há uma decadência absoluta: a que consiste numa vitalidade minguante.cultura e nações -. Porque são estas decadências diminuições parciais.. mais saber. o tópico . Bastaria isso para falar da decadência ocidental? De modo algum.É. não reconhecer épocas clássicas e normativas. A atitude que a ordenança romana impunha à sentinela da legião era manter o indicador sobre os lábios para evitar a sonolência e manter-se atenta. mas que não sabe o que realizar. benéfico que pela primeira vez depois de quase três séculos nos surpreendamos com a consciência de não saber o que vai acontecer amanhã. A segurança das épocas de plenitude - file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mais ainda: por desentender-se de todo pretérito. pressentimos que é possível o pior: o retrocesso. sobre decadência ocidental que pulularam no ar do último decênio. com a inquietude a um tempo dolorosa e deliciosa que vai encerrada em cada minuto se sabemos vivê-lo até o seu centro.todos os clorofórmios . mais técnicas que nunca. Muitas coisas pareciam já impossíveis ao século XIX. e esta só existe quando se sente. e. sentirá certo gênero de insegurança que o incita a permanecer alerta. esforçando-nos por ganhar segurança e insensibilizar-nos para o dramatismo radical do nosso destino. Domina todas as coisas. Por si mesmo não seria isto um mau sintoma: significaria que voltamos a tomar contato com a insegurança essencial a todo viver. de antigas e deslumbrantes idades de ouro. até sua pequena víscera palpitante e cruenta. Não está mal esse ademane. de tanto nos parecer tudo possível. firme em sua fé progressista. Era necessária esta descrição para obviar as lucubrações sobre decadência. recusamos tomar essa pulsação pavorosa que faz de cada instante sincero um miúdo coração transeunte. ainda que fosse incapaz de realizá-los. Sente-se perdido em sua própria abundância. Mas a verdade é estritamente o contrário: vivemos em um tempo que se sente fabulosamente capaz para realizar. em espécie. Refere-se o pessimista vocábulo à cultura? Há uma decadência da cultura européia? Há somente uma decadência das organizações nacionais européias? Suponhamos que sim. veria outras épocas como superiores a ele e isto seria uma e mesma coisa com estimá-las e admirá-las e venerar os princípios que as informaram. mas não é dono de si mesmo. Nosso tempo teria ideais claros e firmes. Todo aquele que se coloque ante a existência numa atitude séria e se faça dela plenamente responsável. Com mais meios. senão ver-se a si mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a elas. inversamente. menos o talento para usar deles. Isto nos leva a falar da "plenitude" que sentiram alguns séculos diante de outros que. Se se sentisse decaído. pois. E concluía eu fazendo notar o fato evidentíssimo de que nosso tempo se caracteriza por uma estranha presunção de ser mais que todo o tempo passado. relativas a elementos secundários da história . Daí essa estranha dualidade de prepotência e insegurança que se aninha na alma contemporânea. o mundo atual vai como o mais infeliz que tenha havido: puramente ao acaso. para poder ouvir a secreta germinação do futuro. Duvido que sem se afiançar bem nesta advertência se possa entender o nosso tempo. a barbárie.A rebelião das massas.que tinha todos os talentos. se viam a si mesmos como decaídos de maiores alturas. Recorde-se o raciocínio que eu fazia. Por esta razão me detive a considerar um fenômeno que sói desatender-se: a consciência ou sensação que toda época tem de sua altitude vital.htm (34 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Acontece-lhe como se dizia do Regente durante a infância de Luiz XV . o uso.

o mundo é sempre este. Mas assim como seu formato é maior. Tal tem sido a deserção das minorias dirigentes. o que podemos ser. Não poderá estranhar que hoje o mundo pareça vazio de projetos. a eleger.htm (35 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema. em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. Isso constitui o que chamamos o mundo... Não pode orientar-se no pretérito (39). É mais vida que todas as vidas. certo de que já o mundo irá em linha reta. perderam a agilidade e a eficácia. Também nela há. imediatamente. ante o qual temos de nos decidir.A rebelião das massas. que é. Ninguém se preocupou de preveni-los. Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. falso dizer que na vida "decidem as circunstâncias ". Mas quem decide é o nosso caráter.consiste em todo o contrário. a decidir o que vamos ser neste mundo. que se acha sempre ao reverso da rebelião das massas. a vida se lhes escapou dentre as mãos. Vai enunciada a primeira parte dele. encarregando de sua direção a mecânica do universo. impõe-nos várias e. Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade. A circunstância . de nossa vida atual. como repertório de possibilidades.é o que de nossa vida nos é dado e imposto. consequentemente. Tudo isto vale também para a vida coletiva. A vida não elege seu mundo. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil. sem desvios nem retrocessos. mais perigosa. Assim. supõem que o desejado por eles como futuro ótimo se realizará. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. mas viver é encontrar-se. é também. com necessidade parelha à astronômica. A vida. superior a todas as historicamente conhecidas. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão. nos força. Em vez de impor-nos uma trajetória. sempre novo. exuberante. pois. fez-se por completo insubmissa. sem rumo conhecido. um horizonte de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o progressista não se preocupa do futuro. antes de tudo. princípios. e por isso mesmo mais problemática. Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. assim na última centúria . transbordou todos os caminhos. Mas já é tempo de que voltemos a falar desta. UM DADO ESTATÍSTICO Este ensaio quisera vislumbrar o diagnóstico de nosso tempo. convém que nos deslizemos por sua outra ladeira. Depois de haver insistido na vertente favorável que apresenta o triunfo das massas. É. primeiro. convencido de que não tem surpresa nem segredos. decidimos não decidir. Tem de inventar seu próprio destino. Sob sua máscara de generoso futurismo. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo . vida possível. e hoje anda solta. deixaram de estar alerta. decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. que pode resumir-se assim: nossa vida. inexoravelmente. Protegidos ante sua própria consciência por essa idéia. retrai sua inquietude do porvir e se instala num definitivo presente. O mesmo que o liberalismo progressista é o socialismo de Marx. antecipações e ideais.as possibilidades . soltaram o leme da história. este de agora . normas e ideais legados pela tradição. é magnífica. e por isso mesmo.é uma ilusão ótica que leva a despreocupar-se do porvir. V. Mas agora é preciso completar o diagnóstico. peripécias nem inovações essenciais. cuja trajetória está absolutamente predeterminada.

que analisemos seu caráter. Não sabe aonde vai porque. O fenômeno é sobremaneira estranho. é ele quem decide. põe na pista de todo esclarecimento. entretanto.A rebelião das massas. A chave para esta análise encontra-se quando. pois. seus poderes. ainda que suas possibilidades. ou. não por cálculos do futuro. que aniquilaram toda possível oposição. o Poder público. mas a escapar dele imediatamente. Bastaria. pelo contrário. retrocedendo ao começo deste ensaio. Não se diga que isto era o que acontecia já na época da democracia.portanto. e se não basta. vive ao dia. Por outra parte. Pois bem: de 1800 a 1914 . o Governo. deve ser acrescido como o somando mais concreto ao crescimento da vida como antes fiz constar. programas de vida coletiva. Este simplicíssimo dado basta por si só para esclarecer nossa visão da Europa atual. sejam enormes. Mas ao mesmo tempo nos mostra esse dado que é infundada a admiração com que ressaltamos o crescimento de países novos como os Estados Unidos da América. E este tipo de homem decide em nosso tempo. Por isso não constrói nada. não significa um anúncio claro de futuro. não se apresenta como um porvir franco. do sufrágio universal. sem projeto. Quer dizer. São donas do Poder público em forma tão incontrastável e superlativa. surpreende notar que neles se vive politicamente ao dia. Convém. Neles convidava-se a massa a aceitar um projeto de decisão. o que é o mesmo. Estas são tão poderosas. No sufrágio universal não decidem as massas. Quando esse poder público tenta justificar-se. não aparece como começo de algo cujo desenvolvimento ou evolução seja imaginável. e. fecha-se no presente e diz com perfeita sinceridade: "Sou um modo anormal de governo que é imposto pelas circunstâncias". uma resolução que elege e decide o modo efetivo da existência coletiva. lançada como uma torrente sobre a área histórica. não tem caminho prefixado. Em suma. O homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e caminha ao acaso. Os programas eram.htm (36 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Esta resolução emana do caráter que a sociedade tenha. Maravilha-nos seu crescimento. senão que seu papel consistiu em aderir à decisão de uma ou outra minoria. que é estranho não conste em toda cabeça que se preocupe dos assuntos contemporâneos. vive sem programa de vida. empregando os meios que sejam. O dado é o seguinte: desde que no século VI começa a história européia até o ano 1800 portanto. domina o homem-massa. do tipo de homem dominante nela. Daí que sua atuação se reduza a evitar o conflito de cada hora. Se se observa a vida pública dos países onde o triunfo das massas avançou mais . com efeito.são os países mediterrâneos -. Hoje acontece uma coisa muito diferente. em toda a longitude de doze séculos -. a Europa não consegue chegar a outra cifra de povoação senão a de 180 milhões de habitantes. E. Assim tem sido sempre o Poder público quando o exerceram diretamente as massas: onipotente e efêmero. este dado para compreender o triunfo das massas e quanto nele se reflete e se anuncia. pela urgência do presente. O Poder público acha-se em mãos de um representante de massas. não alude para nada ao futuro. Estas apresentavam seus "programas" .excelente vocábulo -. Em três gerações produziram gigantescamente massa humana que. em pouco mais de um século. a rigor. senão. a inundou. não a resolvê-lo. que seria difícil encontrar na história situações de governo tão prepotentes como estas. trajetória antecipada. depois. nos perguntamos: de onde vieram todas estas multidões que agora enchem e transbordam o cenário histórico? Há alguns anos destacava o grande economista Werner Sombart um dado simplicíssimo. possibilidades. não vai. repito. Em nosso tempo. ainda à custa de acumular com seu emprego maiores conflitos sobre a hora próxima. que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a população européia ascende de 180 a 460 milhões! Presumo que o contraste destas cifras não deixa lugar a dúvidas a respeito dos dotes prolíficos da última centúria.

Deram-se-lhe instrumentos para viver intensamente. mas não o espírito. Uma vez reconhecido isto com toda a claridade que demanda a claridade do próprio fato. encontramo-nos com a experiência de que ao submeter a semente humana ao tratamento destes dois princípios. ao século passado a glória e a responsabilidade de haver soltado sobre a face da história as grandes multidões. que não era fácil saturá-los da cultura tradicional. não o é menos que deveu padecer certos vícios radicais. Eis aqui outra razão para corrigir o espelhismo que supõe uma americanização da Europa. que a democracia liberal fundada na criação técnica é o tipo superior de vida pública até agora conhecido. mas não foi possível educá-las. A América está feita com a sobra da Europa. Por isto não querem nada com o espírito. que é suicida todo retorno a formas de vida inferiores à do século XIX. sem problemas tradicionais e complexos. triplicasse a espécie européia. e as novas gerações dispõem-se a tomar o comando do mundo como se o mundo fosse um paraíso sem rastros antigos. É frívola e ridícula toda preferência dos princípios que inspiraram qualquer outra idade pretérita se antes não demonstra que se encarregou deste fato magnífico e tentou digeri-lo. senão que mercê a seu contraste põe em relevo a impetuosidade do crescimento. Algo extraordinário. Mas ainda que não seja tão conhecido como devera o dado calculado por Werner Sombart. Não é. As técnicas jurídicas e materiais se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. num só século. democracia liberal e técnica. não se pode fazer outra coisa senão ensinar às massas as técnicas da vida moderna. Por essa razão oferece este fato a perspectiva mais adequada para julgar com eqüidade essa centúria. devia haver nela quando na sua atmosfera se produzem tais colheitas de fruto humano. mas o que imaginemos melhor terá de conservar o essencial daqueles princípios. Corresponde. quando o maravilhoso é a proliferação da Europa. Daí que às vezes produza a impressão de um homem primitivo surgido inesperadamente em meio a uma velhíssima civilização.htm (37 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . A Europa cresceu no século passado muito mais que a América. era de sobra notório o fato confuso de haver aumentado consideravelmente a povoação européia para insistir nele. pois. segunda. é preciso revolver-se contra o século XIX. Aparece a história inteira como um gigantesco laboratório onde se fizeram os ensaios imagináveis para obter uma fórmula de vida pública que favorecesse a planta "homem". pois. Fato tão exuberante força-nos.a velocidade de aumento em sua povoação lhe é peculiar. Se é evidente que havia nele algo extraordinário e incomparável. Nem sequer o traço que pudera aparecer mais evidente para caracterizar a América . porém muito mais simples.que põem em perigo iminente os princípios mesmos a que deveram a vida. inoculou-se-lhes atropeladamente o orgulho e o poder dos meios modernos. o aumento de população o que nas cifras transcritas me interessa. que esse tipo de vida não será o melhor imaginável.os homens-massa rebeldes . com efeito. se não preferirmos ser dementes. Se esse tipo humano continua dono da Europa e é definitivamente quem decide.A rebelião das massas. a tirar estas conseqüências: primeira. certas constitutivas insuficiências quando engendrou uma casta de homens . E. bastarão trinta anos para que nosso continente retroceda à barbárie. mas não sensibilidade para os grandes deveres históricos. num século chegou a 100 milhões de homens. Esta é a que agora nos importa. Porque esta impetuosidade significa que têm sido projetados a magotes sobre a história montões e montões de homens em ritmo tão acelerado. terceira. incomparável. o tipo médio do atual homem europeu possui uma alma mais sã e mais forte que as do passado século. Nas escolas que tanto orgulhavam o passado século. E ultrapassando toda possível sofisticação.

se o senhor quer ver bem sua época. por isso mesmo é o único que. Certamente que só cabe antecipar a estrutura geral do futuro. por um simples raciocínio a priori. em verdadeira decadência. pois. Qualquer mente perspicaz de 1820. Importa. Por isso. E. Hegel. porque se prestam mútuo esclarecimento. Se o porvir não oferecesse um flanco à profecia. A atual abundância de possibilidades se converterá em efetiva míngua. COMEÇA A DISSECAÇÃO DO HOMEM-MASSA Como é este homem-massa que domina hoje a vida pública . o homem médio de qualquer classe social encontrava cada dia mais franco seu horizonte econômico. que é uma época revolucionária. de 1850. mas que se exige. "As massas avançam!" dizia. muito conhecer a fundo este homem-massa. Porque a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o que Rathenau chamava "a invasão vertical dos bárbaros". prever a gravidade da situação histórica atual. VI. olhe-a de longe. tem de lutar para consegui-lo. que é pura potência do maior bem e do maior mal. O que antes se houvera considerado comum benefício da sorte que inspirava humilde gratidão ao destino. É falso dizer que a história não é previsível. com efeito. O homem que agora tenta pôr-se à frente da existência européia é muito diferente daquele que dirigiu o século XIX.A rebelião das massas. produzirá uma catástrofe ". Não se encontra. Cada dia ajuntava um novo luxo ao repertório de seu standard vital. como o homem médio.htm (38 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mas foi produzido e preparado no século XIX.a vida política e a não política -? Por que é como é. Que aspecto oferece a vida desse homem multitudinário. Entretanto. 1880. nada novo acontece que não tenha sido previsto há cem anos. Enquanto em proporção diminuíam as grandes fortunas e se tornava mais dura a existência do operário industrial. converteu-se num direito que não se agradece. gritava de um penhasco alcantilado da Engadina o bigodudo Nietzche. A idéia de que o historiador é um profeta pelo avesso resume toda a filosofia. Cada dia sua posição era mais segura e mais independente do arbítrio alheio. Nunca pode o homem médio resolver com tanta folga seu problema econômico. Desde 1900 começa também o operário a ampliar e assegurar a sua vida. um aspecto de omnimoda facilidade material. "Sem um novo poder espiritual. não poderíamos tampouco compreendê-la quando logo se cumpre e se faz passado. que com progressiva abundância vai engendrando o século XIX? Desde já. como se produziu? Convém responder conjuntamente a ambas as questões. com um bem-estar posto diante dele solicitamente por uma sociedade e um Estado que são um portento de organização. anunciava Augusto Comte. quero dizer. nossa época. "Vejo subir a preamar do nihilismo! ". escassez. volatilizarão com a mesma facilidade com que se perderam tantas vezes segredos de fabricação (40). compreendemos do pretérito ou do presente. A vida toda se contrairá. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. apocalíptico. pode. em verdade. Situação de tal modo aberta e franca tinha por força que decantar no estrato mais profundo dessas da história. impotência angustiosa. A que distância? Muito simples: à distância justa que o impeça ver o nariz de Cleópatra. Inúmeras vezes tem sido profetizada.

limitação. Quer dizer. Tal imagem limita-se a incutir nas almas médias uma impressão vital. mas que colocou o homem médio . A esta facilidade e segurança econômica ajuntam-se as físicas: o confort e a ordem pública. O homem médio. Não há ninguém civilmente privilegiado.htm (39 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . O que teve de tal não deve ser buscado no espetáculo de suas barricadas. do dominante no XVII. de nosso velho povo: "ampla é Castela". o mundo era um âmbito de pobreza. Virou pelo avesso a existência pública. novo no físico e no social. um homem à parte de todos os demais homens. mas em sua implantação. obrigação. Ao contrário. mas a implantação de uma nova ordem que tergiversa a tradicional. com efeito. Os dois últimos podem resumir-se num: a técnica. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Quer dizer que em todas essas ordens elementares e decisivas a vida se apresentou ao homem novo isenta de impedimentos. a experimentação científica e o industrialismo. esquecendo a cósmica. Ninguém desconhece isso. A compreensão deste fato e sua importância surgem automaticamente quando se recorda que essa franquia vital faltou por completo aos homens vulgares do passado. e não há verossimilitude de que intervenha nela nada violento e perigoso. para eles a vida um destino angustiante . é. Nenhum desses princípios foi inventado pelo século XIX.a grande massa social . O homem médio aprende que todos os homens são legalmente iguais. que é implantada pelo século XIX. Mas não basta com o reconhecimento abstrato. Sentiram o viver a nativitate como um cúmulo de impedimentos que era forçoso suportar. similares e ainda idênticos no essencial se se confronta com eles este homem novo. que. A honra do século XIX não estriba em sua invenção. que podia expressar-se com a perífrase. O do século XVIII se diferencia. Para o "vulgo" de todas as épocas. desde a segunda metade do século XIX.A rebelião das massas. A revolução não é a sublevação contra a ordem preexistente.no econômico e no físico -. numa palavra. antes de tudo. alojar-se na estreiteza que deixavam. Cria-se um novo cenário para a existência do homem. simplesmente. Nada o obriga a conter sua vida. mas todos eles são parentes. Foi. Três princípios fizeram possível esse novo mundo: a democracia liberal. para os efeitos da vida pública. diga-se opressão. tão graciosa e aguda. dificuldade e perigo (41) O mundo que desde o nascimento rodeia o homem novo não o move a limitar-se em nenhum sentido. Não existem os "estados" nem as "castas". está claro. até mesmo para o rico e poderoso. Porque esta última é a que não faltou nunca até cem anos científica . tampouco nas formas da vida pública encontra-se ao nascer com entraves e limitações. e este do que caracteriza ao XVI. Trata-se. dependência.física e administrativa -. contanto que não se entenda por esta só a jurídica e social. pressão. "vida" havia significado. sem que coubera outra solução que não fosse adaptar-se a eles. não constituem uma revolução. Mas é ainda mais clara a contraposição de situações se do material passamos ao civil e moral. mas procedem das duas centúrias anteriores. praticamente ilimitada. Também aqui "ampla é Castela". Por isso não há exageração nenhuma em dizer que o homem engendrado pelo século XIX. e assim é preciso compreender perfeitamente suas inexoráveis conseqüências. Jamais em toda a história havia sido posto o homem numa circunstância ou contorno vital que se parecesse nem de longe ao que essas condições determinam.em condições de vida radicalmente opostas às que sempre a haviam rodeado. A vida marcha sobre cômodos carris. O século XIX foi essencialmente revolucionário. de uma inovação radical no destino humano. não acha ante si barreiras sociais nenhumas. pelo contrário. Se se quer.

Herdeiro de um passado extensíssimo e genial . Assim se explica e define o absurdo estado de ânimo que essas massas revelam: não lhes preocupa mais que seu bem-estar e ao mesmo tempo são insolidárias das causas desse bem-estar. e se acostuma a não contar com os demais. o homem vulgar. sobretudo a não contar com ninguém como superior a ele. Menos ainda admitirá a idéia de que todas estas facilidades continuam apoiando-se em certas difíceis virtudes dos homens. Nos motins que a escassez provoca soem as massas populares buscar pão.genial de inspirações e de esforços -. como se gozasse de um espontâneo e inesgotável crescimento. mais forte que ele. sem depender de seu prévio esforço. Minha tese é. não lhe apresenta veto nem contenção alguma. Isto nos leva a apontar no diagrama psicológico do homem-massa atual dois primeiros traços: a livre expansão de seus desejos vitais. porque não falta. ao que parece. que. À força de evitar-lhe toda pressão em redor. abundante nem estável. como achamos o sol no alto sem que nós o tenhamos subido ao ombro.e isto é muito importante . não erraria quem utilizasse esta como uma quadrícula para olhar através dela a alma das massas atuais. que as catástrofes eram freqüentes e não havia nele nada seguro. crê que o produziu a natureza. todavia hoje muito poucos homens duvidam de que os automóveis serão dentro de cinco anos mais confortáveis e mais baratos que os do dia. Ao homem médio de outras épocas ensinava-lhe quotidianamente seu mundo esta elemental sabedoria. Estas massas mimadas são suficientemente pouco inteligentes para crer que essa organização material e social. chega a crer efetivamente que só ele existe. e não pensa nunca nos esforços geniais de indivíduos excelentes que supõe sua criação. pois. lhe houvesse obrigado a renunciar a um desejo.htm (40 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . é de sua própria origem. com efeito. crêem que seu papel se reduz a exigi-las peremptoriamente. mas que além disso sugere a seus habitantes uma segurança radical em que amanhã será ainda mais rico. porque era um mundo tão toscamente organizado. já que tampouco falha. posta a sua disposição como o ar. e a radical ingratidão a tudo quanto tornou possível a facilidade de sua existência. Esta sensação da superioridade alheia só podia ser-lhe proporcionada por quem. Todavia hoje. Mas as novas massas encontram uma paisagem cheia de possibilidades e além disso segura. e tudo isso presto. pelo visto. apesar de alguns signos que iniciam uma pequena brecha nessa fé rotunda. como se fossem direitos nativos. Porque. Como não vêem nas vantagens da civilização um invento e construção prodigiosos. dar a impressão a um ser de que tudo lhe está permitido e a nada está obrigado. Nenhum ser humano agradece a outro o ar que respira. portanto. todo choque com outros seres. Um e outro traço compõem a conhecida psicologia da criança mimada. esta: a própria perfeição com que o século XIX deu uma organização a certas ordens da vida. Pois acontece . mas perfeito e mais amplo. que só com grandes esforços e cautelas se pode sustentar.A rebelião das massas. com efeito. Acredita-se nisto tão firmemente como na próxima saída do sol. mas como natureza. em princípio.que esse mundo do século XIX e começos do XX não tem apenas as perfeições e amplitudes que de fato possui. Mimar não é limitar os desejos. e o meio que empregam sói ser destruir as padarias. do que dizemos "é natural". Assim teria aprendido esta essencial disciplina: "Aí termino eu e começa outro que pode mais do que eu. e é quase tão perfeita como a natural. dos quais o menor malogro volatilizaria rapidissimamente a magnífica construção. a sua disposição. O sinal é formal. podem crescer indefinidamente. A criatura submetida a este regime não tem a experiência de suas próprias limitações. a conter-se. No mundo. Isto pode servir como símbolo do comportamento que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ao encontrar-se com esse mundo técnica e socialmente tão perfeito. porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao conjunto do que "está aí". E. mas pelo contrário fustiga seus apetites. a reduzir-se. é origem de que as massas beneficiárias não a considerem como organização. há dois: eu e outro superior a mim". de sua pessoa. o novo vulgo tem sido mimado pelo mundo circunstante.

sem causa especial nenhuma. e as feições fundamentais de nossa alma são impressas nela pelo perfil do contorno como por um molde. nada é perigoso e. Nada de fora a incita a reconhecer nela própria limites e. como a coisa mais natural do mundo. Portanto. portanto. conseqüente com sua índole. nada nem ninguém o força a compreender que ele é um homem de segunda classe. opiniões. Enquanto no pretérito viver significava para o homem médio encontrar a sua volta dificuldades. Como agora a circunstância não o obriga. Naturalmente: viver não é mais que tratar com o mundo. deixa de apelar e sente-se soberano de sua vida. sua vida era constantemente regulada por esta instância suprema de que dependia. abandonar-se tranqüilamente a si mesmo. um imperativo. Por isso insisto tanto em fazer notar que o mundo de onde nasceram as massas atuais mostrava uma fisionomia radicalmente nova na história. Ingenuamente. a vida. atribuía-o a um golpe da sorte. como em volta da oposta se formaram as antigas. O labrego chinês acreditava. apetites. Porque este se sentiu sempre constitutivamente condicionado a limitações materiais e a poderes superiores sociais. ter de contar com o que nos limita". À volta desta impressão primária e permanente vai se formar cada alma contemporânea. onde não se depende de ninguém. limitadíssimo. se. perene. em mais vastas e sutis proporções usam as massas atuais ante a civilização que as nutre (42). VIDA NOBRE E VIDA VULGAR. sem dúvida. era devida a alguma causa especialíssima. a contar em todo momento com outras instâncias. por isso mesmo. até há pouco. sem necessidade de ser vão. preferências ou gostos. Por que não. Está satisfeito tal como é. Esta experiência básica modifica por completo a estrutura tradicional.htm (41 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . limitações de destino e dependência. Praticamente nada é impossível. como tal. Porque esta impressão fundamental se converte em voz interior que murmura sem cessar umas como palavras no mais profundo da pessoa e lhe insinua tenazmente uma definição da vida que é.A rebelião das massas. incapaz de criar nem conservar a organização mesma que dá à sua vida essa amplitude e esse contentamento. o mundo novo aparece como um âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas. tenderá a afirmar e considerar bom tudo quanto em si acha. que o bem-estar de sua vida dependia das virtudes privadas que possuísse o seu Imperador. o eterno homem-massa. se ascendia socialmente. Mas o homem que analisamos habitua-se a não apelar de si mesmo a nenhuma instância fora dele. perigos. nos quais baseia tal afirmação de sua pessoa? Nunca o homem-massa teria apelado a nada fora dele se a circunstância não lhe houvesse forçado violentamente a isso. que lhe era nominativamente favorável. superior a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ao mesmo tempo. Se lograva melhorar sua situação. em princípio. Contrariamente. sobretudo com instâncias superiores. Mas a nova massa encontra a plena franquia vital como estado nativo e estabelecido. a seus olhos. o homem seleto ou excelente está constituído por uma íntima necessidade de apelar de si mesmo a uma norma além dele. VII. O semblante geral que ele nos apresenta será o semblante geral de nossa vida. portanto. exceção que. OU ESFORÇO E INÉRCIA Somos aquilo que nosso mundo nos convida a ser. Isto era. escassez. E se a impressão tradicional dizia: "Viver é sentir-se limitado e. a voz novíssima grita: "Viver é não encontrar limitação alguma. ninguém é superior a ninguém". E quando não a isto. Em um e outro caso tratava-se de uma exceção à índole normal da vida e do mundo. segundo vemos. do homem-massa. a um enorme esforço e ele sabia muito bem quanto lhe havia custado.

a vida nobre -. desde o nobre inicial a seus sucessores. a vida nobre fica contraposta à vida vulgar e inerte. a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência.htm (42 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . se reclui a si mesma. ele. não. quem vive em essencial servidão. atuante. a comunica a seus antepassados. mas. Eu diria. o étimo do vocábulo "nobreza" é essencialmente dinâmico. É conhecido por reflexo. são conquistas. Mais lógicos os chineses. a incitação que produz no descendente a manter o nível de esforço que o antepassado alcançou. mais exigentes. puro usufruto e benefício. que se deu a conhecer sobressaindo sobre a massa anônima. com efeito. Isto é a vida como disciplina . caso uma força exterior não a obrigue a sair de si. A nobreza define-se pela exigência. Sua vida não lhe apraz se não a faz consistir em serviço a algo transcendente. apenas contenta-se com o que é e está encantado consigo mesmo (43).não tanto porque seja multitudinário. Sempre. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. no início. pois. cuja nobreza é efetiva. Mas o sentido próprio. foi (45). não pelos direitos. O nobre originário obriga-se a si mesmo. ao conceder os níveis de nobreza. Há. pois. entende-se o conhecido de todo o mundo. como são os "do homem e do cidadão". posse passiva e simples gozo. é luz espelhada. de qualquer modo. Por isso não estima a necessidade de servir como uma opressão. a nobreza hereditária tem um caráter indireto. pois. Para mim. é a criatura de seleção. eqüivale a esforçado ou excelente. que se recebe e transmite como uma coisa inerte. supõe sua conservação que o privilegiado seria capaz de reconquistá-las em todo instante. é nobreza lunar como feita com mortos. posta sempre a superar-se a si mesma. sente desassossego e inventa novas normas mais difíceis. mas representam o perfil onde chega o esforço da pessoa. autêntico. e há quem só torna nobre seu pai e quem alonga sua fama até o quinto ou décimo avô. a cujo serviço livremente se põe. Lembre-se de que. e. tão generoso do destino com que todo homem se encontra. e este. condenada à perpétua imanência. quanto porque é inerte. "Viver a gosto é de plebeu: o nobre aspira a ordenação e a lei" (Goethe). pelo contrário. e não a massa. invertem a ordem da transmissão. por infelicidade. estaticamente. e. são propriedade passiva. ao conseguir a nobreza. Implica um esforço insólito que motivou a fama. o famoso. Nobre significa o "conhecido". A "nobreza" não aparece como termo formal até o Império romano. destacando com o seu esforço sua estirpe humilde. Por isso. Os direitos privados ou privilégios não são. mas o filho quem. que a oprimam. que o direito impessoal se tem e o pessoal se mantém. Quando esta. noblesse oblige. nobreza é sinônimo de vida esforçada. lhe falta. e não é o pai quem enobrece o filho. A nobreza ou fama do filho já é puro benefício. Só fica nela de vivo. Contra o que sói crer-se. converte-se em algo parecido aos direitos comuns. O filho é conhecido porque seu pai conseguiu ser famoso. o que não exige nada. e ao nobre hereditário obriga-o a herança. em suma: é. ainda neste sentido desvirtuado. Desta maneira. Contrariamente. como não seja o respirar e evitar a demência. se fosse necessário e alguém se lho disputasse (44). graduam-se pelo número de gerações passadas que ficam prestigiadas. já em decadência. Noblesse oblige. e precisamente para opô-lo à nobreza hereditária. Nobre. que. pelas obrigações. e que não corresponde a esforço algum. dinâmico. Porque ao significar para muitos "nobreza de sangue" hereditária. em princípio. os direitos comuns. Daí que chamemos massa a este modo de ser homem . Os antepassados vivem do homem atual. É irritante a degeneração sofrida no vocabulário usual por uma palavra tão inspiradora como "nobreza". distinguíamos o homem excelente do homem vulgar dizendo: que aquele é o que exige muito de si mesmo. Os privilégios da nobreza não são originariamente concessões ou favores. numa qualidade estática e passiva. certa contradição na transferência da nobreza.A rebelião das massas.

hermética em si mesma. é a chave ou equação psicológica do tipo humano dominante hoje. enquanto não tenhamos analisado esta. os únicos ativos e não só reativos. incapaz de atender a nada nem a ninguém. porque lhe falta de nascença a função de atender ao que está além dela. São os homens seletos.A rebelião das massas. fechou-se dentro de si. Quererão acompanhar a alguém. porque já somos donos do que. poderosos meios de toda ordem para satisfazê-los . Digo processo.htm (43 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . tenha lido até aqui. os nobres. À medida que se avança pela vida. a direção de minorias superiores. intrometeu nele formidáveis apetites.econômico. Por outra parte. Reitero ao leitor que. é preciso contrapô-lo às duas formas puras que nele se mesclam: a massa normal e o autêntico nobre ou esforçado. paciente. Desta sorte. a meu juízo. e não poderão. imediatamente. e como monumentalizados em nossa experiência. é possível que. o século XIX o abandonou a si mesmo. a indocilidade política não seria grave se não proviesse de uma mais profunda e decisiva indocilidade intelectual e moral. São os ascetas (46).são incapazes de outro esforço que o estritamente imposto como reação a uma necessidade externa. cada dia se notará mais em toda a Europa . Por isso mesmo ficam mais isolados. e então. A atividade política.que as massas são incapazes de se deixar dirigir em nenhuma ordem. Tudo que vem depois é conseqüência ou corolário dessa estrutura radical que poderia resumir-se assim: o mundo organizado pelo século XIX. Para definir o homem-massa atual. contrariamente. e descobrirão que são surdas. mas quer suplantar os excelentes. não já progresso. por si mesmo. Depois de haver estabelecido nele todas estas potências. sejam pessoas. um incessante treinamento. que é tão massa como o de sempre. poderá reger. é. Quererão ouvir. Por isso. O simples processo de manter a civilização atual é superlativamente complexo e requer sutilezas incalculáveis. o processo da civilização. em certas matérias especialmente angustiosas. Nas horas difíceis que chegam para nosso continente. Assim. corporais (higiene. Treinamento = áskesis. um significado político.e das mulheres . Mal pode governá-lo este homem-massa que aprendeu a usar muitos aparelhos de civilização. sejam fatos. seguindo o homem médio sua índole natural. acreditando que se basta . faltará a última claridade ao teorema deste ensaio. Não surpreenda esta aparente digressão. civis e técnicos (entendo por estes a enormidade de conhecimentos parciais e de eficiência prática que hoje o homem médio possui e de que sempre careceu no passado) -. por muito que tenha ascendido seu nível vital em comparação com o de outros tempos. vamos nos fartando de advertir que a maior parte dos homens . Continuando as coisas como até aqui. a diferença da tradicional. Mas ainda essa boa vontade fracassará. mas que se caracteriza por ignorar de raiz os princípios mesmos da civilização. Porque a disposição radical de sua alma está feita de hermetismo e indocilidade. a conveniência de não entender todos estes enunciados atribuindo-lhes. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. saúde média superior à de todos os tempos). para os quais viver é uma perpétua tensão. tenham um momento a boa vontade de aceitar. encontramo-nos com uma massa mais forte que a de nenhuma época. ao produzir automaticamente um homem novo. Agora podemos caminhar mais depressa. que é de toda a vida pública a mais eficiente e mais visível. os pouquíssimos seres que conhecemos capazes de um esforço espontâneo e luxuoso. mas. subitamente angustiadas.e por reflexo em todo o mundo . é ilusório pensar que o homem médio vigente. a derradeira. resultante de outras mais íntimas e impalpáveis.em suma: indócil (47).

Sua confiança em si é. Por isso dizia Anatole France que o néscio é muito mais funesto que o malvado. Como esses insetos que não há maneira de extrair do orifício em que habitam. o atual é mais esperto. tem mais capacidade intelectiva que o de nenhuma outra época. pois. Mas a alma medíocre é incapaz de transmigrações . e a crença na sua perfeição não está consubstancialmente unida a ele. por sua vez. a rigor. hermética. não se lhe ocorre duvidar de sua própria plenitude. Neste caso tratar-se-ia de hermetismo intelectual.htm (44 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Encontramo-nos. levá-lo de passeio um pouco além de sua cegueira e obrigá-lo a que contraste sua visão grosseira habitual com outros modos de ver mais sutis. Também isto é naturalíssimo e confirma o teorema. instala-se definitivamente naquele repertório. Pois bem: eu sustento que nessa obliteração das almas médias consiste a rebeldia das massas em que. Isso é precisamente ter obliterada. imaginário e problemático. Decide contentar-se com elas e considerar-se intelectualmente completa. A pessoa encontra-se com um repertório de idéias dentro de si. Não sentindo nada de menos fora de si. Eis aí o mecanismo da obliteração. consiste o gigantesco problema hoje levantado para a humanidade. paradisíaca. não suspeita de si mesmo: julga-se discretíssimo. Como poderiam pensar como eu? Mas ao supor-se com direito a ter uma opinião sobre o assunto sem prévio esforço para forjá-la. a alma fechou-se para ele. manifestam seu exemplar senhorio ao modo absurdo de ser homem que eu chamei "massa rebelde". ao novo Adão. mas que em verdade era naturalíssimo: de tanto se mostrarem abertos mundo e vida ao homem medíocre. O tolo. Por isso o vaidoso necessita dos demais. não há modo de desalojar o tolo de sua tolice. O tolo é vitalício e impermeável. e daí a invejável tranqüilidade com que o néscio se assenta e instala em sua inépcia. Este surpreende-se a si mesmo sempre a dois passos de ser tolo. a alma. O homem-massa sente-se perfeito. como de Adão. De sorte que nem ainda neste caso mórbido nem ainda "cegado" pela vaidade. busca neles a confirmação da idéia que quer ter de si mesmo.A rebelião das massas. Já sei que muitos dos que me lêem não pensam como eu. VIII. consegue o homem nobre sentir-se em verdade completo. Comparar-se seria sair um pouco de si mesmo e trasladar-se ao próximo.esporte supremo. por isso faz um esforço para escapar à iminente tolice. jamais (48). Pelo contrário. Pois ainda que em definitivo minha opinião fosse errônea. necessita ser especialmente vaidoso. Mas essa capacidade não lhe serve de nada. com a mesma diferença que eternamente existe entre o tolo e o perspicaz. Contrariamente ao homem medíocre de nossos dias. ao contrário. POR QUE AS MASSAS INTERVÉM EM TUDO E POR QUE SÓ INTERVÊM VIOLENTAMENTE Ficamos em que aconteceu algo sobremodo paradoxal. para sentir-se perfeito. sempre ficaria o fato de que muitos destes leitores discrepantes não pensaram cinco minutos sobre tão complexa matéria. mas chega-lhe de sua vaidade e ainda para ele mesmo tem um caráter fictício. Porque o malvado descansa algumas vezes. O hermetismo nato de sua alma lhe impede o que seria condição prévia para descobrir sua insuficiência: comparar-se com outros seres. e nesse esforço consiste a inteligência. Não se trata de que o homem-massa seja tolo. Um homem de seleção. De file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. não é ingênua. a vaga sensação de possuí-la apenas lhe serve para fechar-se mais em si mesmo e não usá-la. o néscio.

Por isso perdeu o uso da audição. o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas. A escassez da cultura intelectual espanhola.htm (45 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .por exemplo. O viajante que chega a um país bárbaro. decidir em quase nenhuma das atividades públicas. Onde há pouca. uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. ou. Estas normas são os princípios da cultura. é talvez o fator da presente situação mais novo. Não há cultura onde as polêmicas estéticas não reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte. isto é. Não me importa quais são. onde há muita. sobre política ou sobre literatura -. o homem médio tem as "idéias" mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. barbárie. nem sua posse é cultura. Não há questão de vida pública em que não intervenha. simplesmente. sabe que naquele território não regem princípios aos quais possa recorrer. de decidir. mas sua atitude reduzia-se a repercutir. impô-los-á por toda a parte. nunca o vulgo havia crido ter "idéias" sobre as coisas. dava ou retirava sua adesão. Tinha crenças. Não há cultura onde não há princípios de legali5àde civil a que apelar. Parecia-lhe bem ou mal o que o político projetava e fazia. de julgar. uma vez para sempre consagra o sortimento de tópicos. não há cultura. vedava-o completamente. mas. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que ela imponha. A idéia é um xeque-mate à verdade. cego e surdo como é. O mais e o menos de cultura mede-se pela maior ou menor precisão das normas. a ação criadora de outros. que sejam cultas? De maneira alguma. a barbárie é ausência de norma e de possível apelação. ou a vulgaridade como um direito. provérbios. Pelo menos na história européia até hoje. no sentido mais estrito da palavra. O que digo é que não há cultura onde não há normas. Não vale falar de idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula. mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobre o que as coisas são ou devem ser . de não estar qualificado para teorizar (49). do cultivo ou exercício disciplinado do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. experiências. quer dizer. Quando faltam todas essas coisas. nem sequer julgar as "idéias" do político do tribunal de outras "idéias" que cria possuir. Para que ouvir. se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir. Isto é o que no primeiro capítulo enunciava eu como característico em nossa época: não que o vulgar creia que é destacado e não vulgar. de sentenciar. pelo contrário. há. positiva ou negativamente. que em sua maior parte são de índole teórica. prejuízos. e com um audácia que só se explica pela ingenuidade. menos assimilável a nada do pretérito. regulam estas a vida só grosso modo. Nunca se lhe ocorreu opor às "idéias" do político outras suas. mas que o vulgar proclame e imponha o direito da vulgaridade. nem de longe. tradições. E isto é.A rebelião das massas. pelo contrário. Não há cultura quando as relações econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual possam amparar-se. impondo suas "opiniões". penetram até o pormenor no exercício de todas as atividades. Hoje. A mesma coisa em arte e nas demais ordens da vida pública. Não há cultura onde não há acatamento de certas últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa (50). A que nossos próximos possam recorrer. Uma e inata consciência de sua limitação. A conseqüência automática disto era que o vulgo não pensava. As "idéias" deste homem médio não são autenticamente idéias. Não há normas bárbaras propriamente ditas. hábitos mentais. não tenhamos ilusões. Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham "idéias". O império que sobre a vida pública hoje exerce a vulgaridade intelectual. vocábulos ocos que o acaso amontoou no seu interior.

como as romanças musicais. que declara muito bem o prévio rendimento da força às normas racionais. crer que existe uma razão. pois. submeter-se a ela. advertir-se-á que as primeiras notas de sua peculiar melodia soaram naqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta de 1900. Um pouco estupidamente tem se entendido com ironia esta expressão. o que estes novos fatos têm de esquisito ao que têm de novo. inexoravelmente. é uma mesma coisa como apelar a tal instância. o "novo" é na Europa "acabar com as discussões". Continuamos sendo o eterno padre de aldeia que rebate triunfante o maniqueu. como o sindicalismo e o fascismo. a razão da sem-razão. Em sua conduta política revela-se a estrutura da alma nova da maneira mais crua e contundente. que a forma superior da convivência é o diálogo em que se discutem as razões de nossas idéias. não em que se saiba mais ou menos. O hermetismo da alma. desde a conversação até o Parlamento. como vimos antes. e não nos interessa. Idear. A civilização não é outra coisa senão o ensaio de reduzir a força a ultima ratio. pois. Nem sequer suspeita qual é o elemento sutilíssimo em que as idéias vivem. mas que. Mas o homem-massa sentir-se-ia perdido se aceitasse a discussão. Tal violência não é outra coisa senão a razão exasperada. portanto. Eis aqui o novo: o direito a não ter razão. Ter uma idéia é crer que se possuem as razões dela. começaram a acontecer "coisas esquisitas". crer. manifesta-se. Eu vejo nisso a manifestação mais palpável do novo modo de ser das massas. O entusiasmo pela inovação é de tal modo ingênito no europeu. intelecto. mas carece da função de idear. Quer opinar. Agora começamos a ver isto com bastante clareza. há alguns anos. Será muito lamentável que a condição humana leve volta e meia a esta forma de violência. mas é inegável que ela significa a maior homenagem à razão e à justiça. A força era.a verdade não está em nossa mão -. e detesta-se toda forma de convivência que por si mesma implique acatamento de normas objetivas. mas a chave está no hermetismo intelectual. por haverem resolvido dirigir a sociedade sem ter capacidade para isso. leva-a também. mas na habitual falta de cautela e cuidados para ajustar-se à verdade que soem mostrar os que falam e escrevem. inventores da maneira e da palavra "ação direta". com efeito. mas não quer aceitar as condições e supostos de todo opinar. Por isso. propele a massa para que intervenha em toda a vida pública. O dia em que se reconstrua a gênese de nosso tempo. portanto. e é. mas na falta de escrúpulo que leva a não cumprir os requisitos elementais para acertar. Não se atribua. e instintivamente repudia a obrigação de acatar essa instância suprema que se acha fora dele.A rebelião das massas. sem haver procurado antes averiguar o que pensa o maniqueu. que é uma convivência sob normas. que o levou a produzir a história mais inquieta de quantas se conhecem. Não. simplesmente. Para dar algum exemplo concreto destas coisas esquisitas mencionarei certos movimentos políticos. Sob as espécies de sindicalismo e fascismo aparece pela primeira vez na Europa um tipo de homem que não quer dar razões nem quer ter razão. Não se diga que parecem esquisitos simplesmente porque são novos.htm (46 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . se mostra resolvido a impor suas opiniões. a ultima ratio. Isso quer dizer que se renuncia à convivência de cultura. mas à estranhíssima bitola destas novidades. Em outras era a violência o meio a que recorria a quem havia esgotado todos os demais para defender a razão e a justiça que cria ter. porque a "ação direta" consiste em inverter a ordem e proclamar a violência como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Daqui que suas "idéias" não sejam efetivamente senão apetites ou palavras. em que se acerte ou não . que. Qualquer pessoa pode perceber que na Europa. aceitar seu Código e sua sentença. a um procedimento único de intervenção: a ação direta. e retrocede-se a uma convivência bárbara. O homem médio encontra-se com "ideais" dentro de si. Perpetuamente o homem tem recorrido à violência: às vezes este recurso era simplesmente um crime. Suprimem-se todos os trâmites normais e se vai diretamente à imposição do que se deseja. um orbe de verdades inteligíveis. passando pela ciência. opinar.

Civilização é. pois. deixar espaço no Estado que ele impera para que possam viver os que nem pensam nem sentem como ele. não obstante ser onipotente. atuou na vida pública. supõem o desejo radical e progressivo de cada pessoa contar com as demais. apareça a "ação direta" oficialmente como norma reconhecida. constitui-se no insulto. Foi. com efeito. O liberalismo convém hoje recordar isto . a convivência. que. aniquila todo o grupo opositor. Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Não começa a ser já incompreensível semelhante ternura? Nada acusa com maior clareza a fisionomia do presente como o fato de que vão sendo tão poucos os países onde existe a oposição. Era inverossímil que a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão bonita. quando a intervenção direta das massas na vida pública passou de casual e infreqüente a ser o normal. Trâmites. . E um exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na terra. limita-se a si mesmo e procura. através da idéia de civis. E corrobora energicamente a tese deste ensaio o fato patente de que agora. cortesia. prima ratio. o fez em forma de "ação direta". mais ainda. usos intermediários. A massa . A literatura. como "ação direta". Todos. Proclama a decisão de conviver com o inimigo. Toda a convivência humana vai caindo sob este novo regime em que se suprimem as instâncias indiretas. quer dizer. uma massa homogênea pesa sobre o Poder público e esmaga.é a suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga à minoria e é.A rebelião das massas. com o inimigo débil. tão acrobática.não deseja a convivência com o que não é ela. tão elegante. Trata-se com tudo isso de fazer possível a cidade. portanto. pululação de mínimos grupos separados e hostis. como os mais fortes. Convém recordar que em todos os tempos. As relações sexuais reduzem seus trâmites. como única razão é ela a norma que propõe a anulação de toda norma. É se incivil e bárbaro na medida em que não se conte com os demais.E assim todas as épocas bárbaras têm sido tempo de espalhamento humano. criar tanta complicação? Tudo isso se resume na palavra "civilização". descobre sua própria origem. IX. Por isso. Por isso. Ela leva ao extremo a resolução de contar com o próximo e é protótipo da "ação indireta". tão antinatural.quem o diria ao ver seu aspecto compacto e multitudinário? . Em quase todos. a comunidade. antes de tudo. sempre o modo de operar natural às massas. tão paradoxal. ainda à sua custa. como a maioria. o mais nobre grito que soou no planeta. que suprime tudo que medeia entre nosso propósito e sua imposição. se olhamos por dentro cada um desses instrumentos da civilização que acabo de enumerar. a rigor. justiça.htm (47 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o Poder público. razão! de que veio inventar tudo isso. quando a massa por um ou outro motivo. No trato social suprime-se a "boa educação". o cidadão. PRIMITIVISMO E TÉCNICA file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. normas. não deve surpreender que tão rapidamente pareça essa mesma espécie decidida a abandoná-la. acharemos uma mesma entranha em todos. A forma que na política representou a mais alta vontade de convivência é a democracia liberal. É a Charta magna da barbárie. Odeia de morte o que não é ela. vontade de convivência. A barbárie é tendência à dissociação.

a vida pública. Há instituições mortas. se compõe de puros instantes. Tudo.A rebelião das massas. Não há razão para negar a realidade do progresso. Importa-me muito recordar aqui que estamos submersos na análise de uma situação . Não é que possa parecer-nos por um lado bem. pessoal ou histórica. tudo é possível na história . como sempre que com menos meios se consegue mais. sem a ameaça de involução e retrocesso. E assim os sintomas de nova conduta que sob o império atual das massas vão aparecendo e agrupávamos sob o título "ação direta". penso que toda vida. retorcimentos e intrincações que não a deixavam tomar sol. até coincidir consigo mesma. sobretudo a política. podem anunciar também futuras perfeições. É claro que toda velha cultura arrasta no seu avanço tecidos caducos e não pequena carregação de matéria córnea. E este equívoco não reside em nosso juízo. volutas. ser trânsito de uma nova e sem par organização da humanidade. valorizações e respeitos sobreviventes e já sem sentido. Aqui. adquire maior intensidade nos "momentos críticos". individual ou coletiva. Mais congruente com os fatos é pensar que não há nenhum progresso seguro. Em geral. Por isso a princípio insinuei que todos os traços atuais e. Mas é preciso evitar o pecado maior dos que dirigiram o século XIX: a defeituosa consciência de sua file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e dele recebermos a ordem para nossa conduta diante de tudo quanto foi (52). e não sabe bem se se decidir por uma ou outra entre várias possibilidades. Todos estes elementos da ação indireta. apresentam duplo aspecto. como é o presente. favorável e pejorativa. piétine sur place. normas que provaram sua insubstancialidade. Pelo contrário. Este titubeio metafísico proporciona a todo o vital essa inconfundível qualidade de vibração e estremecimento. estorvo à vida e tóxico resíduo. nenhuma evolução. mas até reclama uma dupla interpretação. expostas ou aludidas em outros lugares. a história. mas é que em si mesma a situação presente é potência bifronte de triunfo ou de morte. se não se aligeira até sua pura essencialidade. em espécie. demandam uma época de frenesi simplificador. a consciência de que é imprescindível para franquear o passo a um futuro estimável. rigorosamente falando. mas é preciso corrigir a noção que crê seguro este progresso. Isto. por outro mal. É. A sobrecasaca e o plastrão românticos solicitam uma vingança por meio do atual deshabillé e o "em mangas de camisa". e portanto. Porque a vida. Não é coisa de lastrear este ensaio com toda uma metafísica da história. A árvore do amor romântico exigia também uma poda para que caíssem as demasiadas magnólias falsas cerzidas a seus ramos e o furor de lianas. a simplificação é higiene e melhor gosto. Qualquer deles não só tolera. que é verdade em geral. drama (51).a do presente substancialmente equívoca. A rebelião das massas pode. de sorte que nele a realidade vacila. mas também pode ser uma catástrofe no destino humano. me faz reivindicar plena liberdade de ideador diante de todo o passado. cada um dos quais está relativamente indeterminado com respeito ao anterior. a rebelião das massas. Não creio na absoluta determinação da história. requeria urgentemente uma redução ao autêntico. da civilização. portanto. de autenticidade. e a humanidade européia não poderia dar o salto elástico que o otimista reclama dela se antes não se desnuda. Compõem-se de peripécias. é a única entidade do universo cuja substância é perigo. soluções indevidamente complicadas.tanto o progresso triunfal e indefinido como a periódica regressão -. mas na própria realidade. com efeito. uma solução mais perfeita. É o porvir que deve imperar sobre o pretérito.htm (48 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . O entusiasmo que sinto por esta disciplina de nudificação. Mas é claro que o vou construindo sobre a base subterrânea de minhas convicções filosóficas.

mas que é o contrário de uma "frase". Deixar-se deslizar pela pendente favorável que apresenta o curso dos acontecimentos e embotar-se para a dimensão de perigo e carranca que mesmo a hora mais jocunda possui. tão sutil e tão profundo . Interessam-lhe evidentemente os anestésicos. com uma consciência de seu futuro suficientemente dramático. Se não fora prolixo. que não é fácil. e não estenderá seu entusiasmo pelos aparelhos até os princípios que os tornam possíveis. Pois estas coisas são só produtos dela. e em geral da história. se o cálculo se faz não tanto pensando no presente como no que anunciam e prometem. O próprio Spengler. quase inverossímil. a saber: uma definição formal que condena toda uma complicada análise. Pois crê que à "cultura" vai suceder uma época de "civilização". Nos laboratórios de ciência pura começa a ser difícil atrair discípulos.ainda que tão maníaco -. mas eu não vejo que se fale. Significa que o homem hoje dominante é um primitivo.repito. O homem-massa atual é. O civilizado é o mundo. Mais concretamente: o número de pessoas que em proporção se dedicavam a essas puras investigações era maior em cada geração. poderia demonstrar-se semelhante incongruência na política. e parece o mais urgente sublinhar o lado palmariamente funesto dos sintomas atuais. os automóveis e algumas coisas mais. Não os desta ou os daquela. trazer aqui a comento suas conclusões. Hoje torna-se mister suscitar uma hiperestesia de responsabilidade nos que sejam capazes de senti-la.produziu-se na geração que hoje vai dos vinte aos trinta anos. O novo homem deseja o automóvel e goza dele. Agora se vê que a expressão poderá enunciar uma verdade ou um erro.ao que hoje pode julgar-se . responsabilidade. transpondo umas palavras de Rathenau. O primeiro caso de retrocesso . é precisamente faltar à missão de responsável. Quando mais acima. as ciências físicas . A idéia que Spengler tem da cultura. mas usa dela como se fosse natureza. e o fervor que se lhes dedica faz ressaltar mais cruamente a insensibilidade para os princípios de que nascem. da civilização. desde o Renascimento -. o entusiasmo por elas havia aumentado sem colapso. que os fez não se manterem alertas e em vigilância. com efeito. Que nos significa situação tão paradoxal? Este ensaio pretende haver preparado a resposta a tal pergunta. Mas isto confirma seu radical desinteresse pela civilização.os de nenhuma. na arte. seu habitante não o é: nem sequer vê nele a civilização.htm (49 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . é tão remota da pressuposta neste ensaio.portanto. Só saltando sobre distâncias e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas.como é habitual . A toda hora se fala hoje dos progressos fabulosos da técnica. na religião e nas zonas cotidianas da vida. E isso acontece quando a indústria alcança seu maior desenvolvimento e quando as pessoas mostram maior apetite pelo uso de aparelhos e medicinas criados pela ciência. porém. ao longo do tempo. Baste fazer constar este fato: desde que existem as nuove scienze. Todo o crescimento de possibilidades concretas que a vida experimentou corre risco de anular-se a si mesmo ao topar com o mais pavoroso problema sobrevindo no destino europeu e que de novo formulo: apoderou-se da direção social um tipo de homem a quem não interessam os princípios da civilização. na moral. um primitivo que pelos bastidores deslizou no velho cenário da civilização. É indubitável que num balanço diagnóstico de nossa vida pública os fatores adversos superem em muito os favoráveis. proporcional . nem ainda para retificá-las. No fundo de sua alma desconhece o caráter artificial. dizia eu que assistimos à "invasão vertical dos bárbaros". nem pelos melhores. mas crê que é fruta espontânea de uma árvore edênica. sob a qual entende sobretudo a técnica. um Naturmensch emergindo em meio de um mundo civilizado. parece-me neste ponto demasiado otimista. pode julgar-se . mas .que se tratava apenas de uma "frase".

a físico-química só conseguiu constituir-se. só no século XIX. Uma observação impede-me iludir-me sobre a eficácia de tais prédicas. mas não da técnica. ao resumir a fisionomia novíssima da vida implantada pelo século XIX. e a ciência não existe se não interessa em sua pureza e por ela mesma. Aí é nada a quantidade de ingredientes. A técnica é consubstancialmente ciência. que esse homem médio utiliza. mas precipitado útil. Berlim. que beneficia esse homem médio. da maneira mais indiscutível e mais própria para fazer efeito no homem-massa. Cada dia produz um novo analgésico ou vacina.htm (50 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . pudera estabelecer-se assim a divergência: Spengler crê que a técnica pode continuar vivendo quando morreu o interesse pelos princípios da cultura. Todo o mundo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. estabelecer-se plenamente no breve quadrilátero que inscrevem Londres. não práticas (53). O homem-massa não atende a razões e só aprende em sua própria carne. Cada dia facilita um novo invento. não é causa sui. de uma cultura que contém um gênero de ciência. que é mister reunir e agitar para obter coquetel da ciência físico-química! Ainda contentando-se com a pressão mais débil e sumária do tema. sobressai já o claríssimo fato de que em toda a amplitude da terra e em toda a do tempo. Esta não se nutre nem se respira a si mesma. a técnica só pode perviver um pouco de tempo. Por isso. e menos que nada. embora esclarecida a questão. pois. Eu não posso resolver-me a crer tal coisa. as normas sociais. e que as condições de sua perpetuação englobam as que tornam possível o puro exercício científico. Viena e Paris. há uma que cada dia comprova.A rebelião das massas. Mas repito que surpreende a frivolidade com que ao falar da técnica se esquece que sua víscera cordial é a ciência pura. Mas esta fauna do homem experimental requer. Se se embota esse fervor . E ainda dentro deste quadrilátero. guerreiros e pastores têm pululado por toda a parte e à vontade. Mas não espere que. que a foro de racionais teriam que ser sutis. Vou. precisões. Fato tão sóbrio e tão magro devia fazer refletir um pouco sobre o caráter supervolátil. os mais díspares entre si.como parece ocorrer -. da inspiração científica (55). Está bem que se considere o tecnicismo como um dos traços característicos da "cultura moderna". para reduzir ambos os pontos de vista a um comum denominador. e não pode interessar se as pessoas não continuam entusiasmadas com os princípios gerais da cultura. o progresso mesmo ou a perduração da técnica. a própria moral -. pelo visto. para se produzir. o qual vem a ser materialmente aproveitável. espontaneamente e sem prédicas. Pensou-se em todas as coisas que precisam continuar vigentes nas almas para que possa continuar havendo de verdade "homens de ciência"? Acredita-se seriamente que enquanto haja dollars haverá ciência? Esta idéia em que muitos se tranqüilizam não é senão uma prova mais de primitivismo. eu ficava com estas só duas feições: democracia liberal e técnica (54). a arte. sacerdotes. o homem-massa se daria por inteirado. consequentemente. um conjunto de condições mais insólito que o que engendra o unicórnio. da técnica. fervor superlativo por aquelas ciências e suas congêneres as biológicas? Porque repare-se em qual é a situação atual: enquanto evidentemente todas as demais coisas da cultura se tornaram problemáticas . à advertência de que o atual interesse pela técnica não garante nada. quer dizer. evaporante. Isto demonstra que a ciência experimental é um dos produtos mais improváveis da história. sua maravilhosa eficiência: a ciência empírica.a política. Bem arranjado está quem creia que se a Europa desaparecesse poderiam os norte-americanos continuar a ciência! Importaria muito tratar a fundo o assunto e especificar com toda a minúcia quais são os supostos históricos vitais da ciência experimental e. Magos. prático. de preocupações supérfluas. Não é demasiado absurdo que nas circunstâncias atuais não sinta o homem médio. Vive-se com a técnica. aquele que lhe dure a inércia do impulso cultural que a criou.

engenheiros. etc. X. nem de atenção.que não lhe dedica . se não vive mais que na medida em que se combata a si mesma. não cedendo à inspiração científica. Mas as ciências experimentais necessitam da massa. um "invasor vertical". químicos. que é aventureira de outro nível. e a injeção de pantopom que fulmina. talvez com maior clareza que em nenhuma outra parte. O europeu que começa a predominar . são possíveis povos perenemente primitivos. os que ficaram numa alvorada estática. sem a menor solidariedade íntima com o destino da ciência. relativamente à complexa civilização em que nasceu. que não há modo de subornar-se a si mesmo com ilusórias esperanças. PRIMITIVISMO E HISTÓRIA A natureza está sempre aí. Podemos inclusive resolver a não deixar de sê-lo nunca. sem mais risco que o advento de outros seres que não o sejam. e esperar mais que barbárie de quem assim se comportar.. comodidades. saltam mais aos olhos e se materializam em espetáculo. um bárbaro emergindo por um alçapão. suas dores? A desproporção entre o benefício constante e patente que a ciência lhes procura e o interesse que por ela mostram é tal. congelada. Breyssig chamou-os de "os povos da perpétua aurora". nem defender-se. biólogos . como tal aparece. Cuida de seu aspecto de perfeita inutilidade (56). A filosofia não necessita de proteção. Sustenta-se a si mesma.seria. de ação. podemos impunemente ser selvagens. em que se desvive a si mesma? Deixemos. Sabe que é por essência problemática. Só posso explicar-me esta ausência do adequado reconhecimento se recordo que no centro da África os negros vão também em automóvel e se aspirinizam. não obstante.htm (51 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e como isso se liberta de toda submissão do homem médio. Para mim é este da desproporção entre o proveito que o homem médio recebe da ciência e a gratidão que lhe dedica .. se ela começa por duvidar de sua própria existência.de médicos. na. Há-os. se se triplicassem ou decuplicassem os laboratórios. da civilização. sob pena de sucumbir. E conste que me refiro a físicos.A rebelião das massas. de lado a filosofia. segundo veremos. o após-guerra converteu o homem de ciência no novo pária social. onde esses homens vão e vêm. sem pedir a ninguém que conte com ela. e abraça alegre seu livre destino de pássaro do bom Deus. bem-estar. como esta necessita delas. regozija-se por simples simpatia humana. sendo de qualidade positiva.o mais aterrador (57). multiplicar-se-iam automaticamente riqueza.esta é minha hipótese . massa dos técnicos mesmos . Haverá quem se sinta mais sobrecolhido por outros sintomas de barbárie emergente que. milagrosa. este desapego pela ciência. Se alguém de boa mente a aproveita para algo. nem o premedita. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. nem recomendar-se. e não de omissão. mas não vive desse proveito alheio. nem o espera. Mas. pois. sabe que. Maxime se. não há sombra de que as massas peçam a si mesmas um sacrifício de dinheiro e de atenção para dotar melhor a ciência? Longe disso. Nela. um homem primitivo. saúde. os quais soem exercer sua profissão com um estado de espírito idêntico no essencial ao de quem se contenta com usar do automóvel ou comprar o tubo de aspirina -. Pode imaginar-se propaganda mais formidável e contundente em favor de um princípio vital? Como. Que raciocínios podem conseguir o que não consegue o automóvel.não aos filósofos -. já que num planeta sem físico-química não se pode sustentar o número de homens hoje existentes. na selva. em princípio. nem de simpatia da massa. Como vai pretender que alguém a tome em sério.

e ipso facto converte-se em primitivo. Hoje os orçamentos da Oceania sobrecarregam-se com verbas onerosas destinadas à guerra contra a figueira. O "bom europeu" tem de se dedicar agora ao que constitui. Eu já o disse. o "amarelo saramago". a franquia para ocupar-me dele em outra ocasião e para ser na hora oportuna romântico. E vice-versa. geométrica. Pelo ano quarenta e tantos. Mais exatamente: há algumas cabeças. pois. em definitivo. Este desequilíbrio entre a sutileza complicada dos problemas e a das mentes será cada vez maior se não se remedeia.htm (52 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .é um assunto demasiado algébrico.não existem para o homem médio atual. entre o racional e o cósmico. que por toda a parte a selva rebrota. Não é que faltem meios para a solução. muito poucas. Faltam cabeças. um emigrante meridional.. grave preocupação dos Estados australianos: impedir que as figueiras ganhem terreno e joguem os homens ao mar. reaparece repristinada a selva primitiva.. Como aconteceu isto? Por muitas causas. o senhor está enfarado. Mas agora encontro-me em faina oposta.. Trata-se de conter a selva invasora. o touro com Pasifae e Antíope sob o capro. torna-se tanto mais complexa e mais difícil. mas o corpo vulgar da Europa central não quer pô-las sobre os ombros. e quando o senhor olha à sua volta tudo se volatilizou! Como se houvessem recolhido uns tapetes que tapavam a pura Natureza. mas agora é preciso acrescentar algumas precisões. estremecido. mas agora vou destacar apenas uma. É artifício e requer um artista ou artesão. O homem-massa crê que a civilização em que nasceu e que usa é tão espontânea e primigênea como a Natureza. Se o senhor quer aproveitar-se das vantagens da civilização. e constitui a mais elementar tragédia da civilização. e não se faz solidário deles. quanto mais avança. A civilização não está aí. O após-guerra nos oferece um exemplo bem claro disso. Sob essas imagens inocentemente perversas palpita um enorme e sempiterno problema: o das relações entre a civilização e o que ficou depois dela .Málaga? Sicília? -. Seria estúpido rir do romântico. Os problemas que hoje levanta são arqui-intrincados. onde a pedra civilizada. nostálgico de sua paisagem . Mas não acontece no mundo que é civilização. De tanto ser férteis e certeiros os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a primeira coisa que seus olhos procuram é. Tudo que é primitivo é selva. se afoga sob o abraço da silvestre vegetação. levou para a Austrália num vaso de barro uma figueirazinha.está se vendo . Não lhe interessam os valores fundamentais da cultura. A selva sempre é primitiva. tudo é terra. Os românticos de todos os tempos se desarticulavam ante esta cena de desolação. que invadiu o continente e cada ano ganha em corte mais de um quilômetro. Não está disposto a pôr-se a seu serviço. mas não se preocupa de sustentar a civilização. Um descuido. sobre o acrotério ou o telhado. em que o natural e subumano tornava a oprimir a palidez humana da mulher. que não avança para nenhum meio-dia.A rebelião das massas. A civilização. e pintavam o cisne sobre Lêda. Quando um bom romântico divisa um edifício.o que é preciso sustentar . A três por dois o senhor fica sem civilização. A reconstituição da Europa . como é sabido. Também o romântico tem razão. Ele anuncia que. Isso acontece no mundo que é só Natureza. A civilização se lhe antolha selva. Os princípios em que se apoia o mundo civilizado . Cada vez é menor o número de pessoas cuja mente está à altura desses problemas. não se sustenta a si mesma. como o nosso. Generalizando acharam um espetáculo mais sutilmente indecente na paisagem com ruínas.a Natureza -. e o europeu vulgar revela-se inferior à tão sutil empresa. Reclamo.

isto é. Manejam-se. então tudo é desvantagem. os temas políticos e sociais com o instrumental de conceitos rombudos que serviram a duzentos anos para enfrentar situações de fato duzentas vezes menos sutis. mas seus princípios. Causa inquietude ouvir falar sobre os temas mais elementais do dia por pessoas relativamente mais cultas. É claro que ao complicarem-se os problemas. Pois eu creio que esta é a situação da Europa.a involução.quem no universo não possui uma porciúncula de razão? -. Mas é mister que cada nova geração se torne senhora desses meios adiantados. Em seu último terço iniciou-se . A questão não está em ser ou não ser comunista e bolchevista. A este abandono se devem em boa parte seus peculiares erros. As pessoas mais "cultas" de hoje padecem uma ignorância histórica incrível.embora subterraneamente . de que sua vida começa a ser difícil. que hoje gravitam sobre nós. perdeu a memória do passado. que é ter muito passado às suas costas. Aquele saber histórico das minorias governantes . vão-se aperfeiçoando também os meios para resolvê-los. Não creio que isto tenha acontecido jamais no passado. O saber histórico é uma técnica de primeira ordem para conservar e continuar uma civilização provecta. Eu sustento que hoje sabe o europeu dirigente muito menos história que o homem do século XVIII e mesmo do XVII. bem entendido. com que tratam sua parte de razão. Mas agora é o homem quem fracassa por não poder continuar emparelhado com o progresso de sua própria civilização. Não tanto pelo conteúdo positivo de suas doutrinas. por homens medíocres. que só a técnica podia achar. a retroceder e consumir-se. extemporâneos e sem memória extensa. Não por que dê soluções positivas ao novo aspecto dos conflitos vitais . tem naturalmente uma verdade parcial . e resume em sua substância a mais longa experiência. como pela maneira anti-histórica. Não discuto o credo.A rebelião das massas. Daí que quanto maior seja o progresso. e. A européia ameaça sucumbir pelo contrário. mas. em suma: história. Mas se o senhor.há um banalmente unido ao avanço da civilização. Na Grécia e em Roma não fracassou o homem. que. Movimentos típicos de homens-massa dirigidos. além de ser velho. princípios que a informam. dois claros exemplos de regressão substancial. está ideada em vista desses erros. à ingenuidade e primitivismo de quem não tem ou esquece seu passado. mas porque evita cometer os erros ingênuos de outros tempos. como todos os que o são.a vida é sempre diferente do que foi -. tanto mais em perigo está. A vida é cada vez melhor. Sua política está pensada . Entre estes para concretizar um pouco . O que é file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.governantes sensu lato . o senhor não aproveita sua experiência. muita experiência. aumenta sua colheita em quantidade e em agudeza até ultrapassar a receptividade do homem normal.pelo XVIII precisamente para evitar erros de todas as políticas antigas. portanto. anacrônica. sem "consciência histórica". o retrocesso à barbárie. apesar de que no seu transcurso os especialistas a fizeram avançar muitíssimo como ciência (58).htm (53 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . cada vez mais complicada. comportam-se desde o início como se houvessem passado já. Todas as civilizações feneceram pela insuficiência de seus princípios. como se sucedendo nesta hora pertencessem à fauna de antanho. começou o mundo a involuir. por exemplo. Ao chegar a um grau de povoação grande e exigir tão vasta convivência a solução de certas urgências materiais. isolado.tornou possível o avanço prodigioso do século XIX. Mas já o século XIX começou a perder "cultura histórica". Civilização avançada é uma e mesma coisa com problemas árduos. as duas tentativas "novas" de política que na Europa e seus confinantes se estão fazendo. O Império romano finda por falta de técnica. Parecem toscos labregos que com dedos grossos e desajeitados querem colher uma agulha que está sobre uma mesa. Por isso são bolchevismo e fascismo.

senão declarar-se partidário de um mundo onde Pedro não existe. que não receba deplorável confirmação quando se aplica a esta. mas.liberalismo e anti-liberalismo . condição irremissível para superá-lo. uma monótona repetição da revolução de sempre.ser antiliberal ou não liberal . já usado uma ou muitas vezes. Por isso . não trazem a manhã do amanhã. pois. O porvir o vence porque o devora. porém não menos prováveis. das muitas que sobre as revoluções a velha experiência humana fez. traduzindo sua atitude à linguagem positiva. coloca-se antes e retrocede toda a película à situação passada. nasceu já com oitenta anos enquanto seu progenitor não tinha mais que trinta. Um e outro . Mas isso é precisamente o que acontecia ao mundo quando ainda não havia nascido Pedro. como o fascismo. naturalmente. inconcebível e anacrônico é que um comunista de 1917 se atire a fazer uma revolução que é em sua forma idêntica a todas as que houve antes e na qual não se corrigem os mínimos defeitos e erros das antigas. interrompidas e feitas cisco. É. uma atitude anti-algo parece posterior a este algo. Invertendo o signo que afeta o bolchevismo. O qual nasceu.bolchevismo e fascismo . Quem aspire verdadeiramente a criar uma nova realidade social ou política. Mas a inovação que o anti representa se desvanece no vazio ademane negador e deixa só como conteúdo positivo uma "antigualha". em vez de proceder a sua digestão. em vista de que todas as "leis" de sua ciência aparecem caducadas.. são primitivismo. Por isso não é interessante historicamente o acontecido na Rússia. mas a de um arcaico dia. diabo!. A esses tópicos veneráveis podiam ajuntar-se algumas outras verdades menos notórias. ao cabo da qual está inexoravelmente o reaparecimento de Pedro. necessita preocupar-se antes de tudo de que esses humílimos lugares comuns da experiência histórica fiquem invalidados pela situação que ele suscita. posto que signifique uma reação contra ele e supõe sua prévia existência. aconteceu a Confúcio. E como já uma vez este triunfou daquela. "A revolução devora seus próprios filhos !" "A revolução começa por um partido moderado.são duas falsas alvoradas. em vez de colocar-se depois de Pedro. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Acontece. Não há dúvida de que é preciso superar o liberalismo do século XIX. etc. período que coincide com a vigência de uma geração (59). é mais vida que este. segundo a lenda. etc. por isso é estritamente o contrário de um começo de vida humana. entre elas esta: uma revolução não dura mais de quinze anos. Até o ponto de que não há frase feita. Nem um nem outro ensaio estão "à altura dos tempos". depois de seu pai. Quem se declara anti-Pedro não faz. De minha parte reservarei a qualificação de genial ao político que mal comece a operar comecem a ficar loucos os professores de História dos Institutos.A rebelião das massas. O liberalismo é nela posterior ao anti-liberalismo. Mas isso é justamente o que não pode fazer quem. Desde já. não levam dentro de si resumido todo o pretérito. Com o passado não se luta corpo a corpo.é o que fazia o homem anterior ao liberalismo. poderíamos dizer coisas similares do fascismo. como o canhão é mais arma que a lança. é o perfeito lugar comum das revoluções. o que é o mesmo. Há uma cronologia vital inexorável. O antipedrista. pelo contrário. se declara anti-liberal.htm (54 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Se deixar algo dele fora está perdido.numa destruição da Europa. com todos estes anti o que. a seguir passa aos extremistas e começa mui rapidamente a retroceder para uma restauração". E isto serão todos os movimentos que recaiam na simplicidade de travar uma luta com tal ou qual porção do passado. repetirá sua vitória inumeráveis vezes ou se acabará tudo . ou. Todo anti não é mais que um simples e vazio não.

O tema que verso nestas páginas é politicamente neutro. evitá-lo. Mas não tinha toda a razão. Se não se lhe dá essa que tem. a sua. e esta diferença . A ÉPOCA DO "MOCINHO SATISFEITO" Resumo: O novo fato social que aqui se analisa é este: a história européia parece. a não pôr em tela de juízo suas opiniões e a não contar com os demais. a não ouvir. uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil. encontra-se o seguinte: 1o. Esta é a condição para superá-lo. Não é mais nem menos massa o conservador que o radical. A Europa não tem remissão se seu destino não é posto nas mãos de pessoas verdadeiramente "contemporâneas" que sintam palpitar debaixo de si todo o subsolo histórico. antes dirigido. não discuto agora a entranha de um nem a do outro. Se atendendo aos defeitos da vida pública. Sua sensação íntima de domínio o incita constantemente a exercer predomínio. pois. O máximo que este ensaio se atreve a solicitar é que revolução ou evolução sejam históricas e não anacrônicas. resolveu governar o mundo. Atuará. à parte isso.que em toda época tem sido muito superficial . como se somente ele e seus congêneres existissem no mundo. portanto. XI. voltará a reclamá-la. Ou dito em voz ativa: o homem vulgar. abastada. Seria tudo muito fácil se com um não puro e simples aniquilássemos o passado. que conheçam a latitude presente da vida e repugnem toda atitude arcaica e silvestre. e. mal chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. fixando-me só na sua feição anacrônica. "a altura dos tempos". porque alenta em estrato muito mais profundo que a política e suas dissensões.. O passado tem razão. Comportar-se à sua vista para sorteá-lo. como não pretendo dirimir o perene dilema entre revolução e evolução. contemplações. Esta é. saturadas de seu estilo primitivo. Em suma. vulgo rebelde. com hiperestésica consciência da conjuntura histórica.não impede nem de longe que ambos sejam um mesmo homem. e de passagem a impor a que não tem. Porque hoje triunfa o homem-massa.. Por isso sua única autêntica superação é não mandá-lo embora.A rebelião das massas. A Europa necessita conservar seu essencial liberalismo. 3o. a meu juízo. volta irremediavelmente. Se falei aqui de fascismo e bolchevismo não foi senão obliquamente. inseparável de tudo que hoje parece triunfar. volta. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sem considerações. podem celebrar uma aparente vitória. e essa que não tinha é a que se devia tirar-lhe. pela primeira vez. estuda-se a estrutura psicológica deste novo tipo de homem-massa. Necessitamos da história íntegra para ver se conseguimos escapar dela. segundo um regime de "ação direta". automaticamente. entregue à decisão do homem vulgar como tal. portanto. Se o mandamos embora. Este contentamento consigo o leva a fechar-se em si mesmo para toda instância exterior. Contar com ele. 2o.htm (55 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . o convida a afirmar-se a si mesmo tal qual é. trâmites nem reservas.. Mas o passado é pura essência revenant. sem limitações trágicas. a considerar bom e completo seu haver moral e intelectual. intervirá em tudo impondo sua vulgar opinião. só tentativas por eles informadas. Mas. portanto. cada indivíduo médio encontra em si uma sensação de domínio e triunfo que. Esta resolução de avançar para o primeiro plano social produziu-se nele. não recair nela. e essa é preciso dá-la per saecula saecculorum. O liberalismo tinha uma razão. quer dizer.

o homem-massa de nosso tempo -. de repente e sem saber como. as vantagens da civilização -. (Por outra parte. é o homem mais dócil a instâncias superiores que jamais existiu . Tenderíamos ilusoriamente a crer que uma vida nascida em um mundo abastado seria melhor. O presente ensaio não é mais que um primeiro ensaio de ataque a esse homem triunfante. é. em lutar com a escassez.as comodidades. portanto.htm (56 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o bárbaro. Valha isto tão somente para enfrentar nossa ingênua tendência a crer que a abundância de meios favorece a vida. Um mundo abundoso (60) de possibilidades produz automaticamente graves deformações e viciosos tipos de existência humana . a rigor. esforço por ser ela mesma. só dentro da folga social que esta fabricou no mundo. de outro ser vivente. (O primitivo normal. isto é. em vez dessas razões. inspirado por tal caráter. a sua ou a do prócer inicial? Nem uma nem outra. minhas capacidades. Agora. em forma muito diferente da que este ensaio reveste. atrofia sua vida. Este personagem. fofa. O aristocrata herda. Este repertório de feições fez com que pensássemos em certos modos deficientes de ser homem. O ataque a fundo tem de vir de maneira que o homem-massa não se possa precaver contra ele. O garoto mimado é o herdeiro que se comporta exclusivamente como herdeiro. E tem de viver como herdeiro. caberia aproveitar mais detalhadamente a anterior alusão ao "aristocrata". intimamente.o interno e trágico mecanismo que conduz toda a aristocracia hereditária à sua irremediável degeneração. que o veja diante de si e não suspeite que aquilo. São a carapaça gigantesca de outra pessoa. basta recordar o fato sempre repetido que constitui a tragédia de toda a aristocracia hereditária. sentiria meu corpo como uma coisa vaga. precisamente. como o "menino mimado" e o primitivo rebelde. fantasmática. em suma. A abundância de meios que está obrigado a manejar não o deixa viver seu próprio e pessoal destino. Sua vida perde inexoravelmente autenticidade. precisamente aquilo. Pelo contrário. em meio de sua riqueza e de suas prerrogativas. Se meu corpo não me pesasse eu não poderia andar. pode surgir um homem constituído por aquele repertório de feições. talvez muito breve. Assim. O resultado é essa específica parvoíce das velhas nobrezas. seu antepassado. tabus. que não se produzem organicamente unidas a sua vida pessoal e própria. o que desperta e mobiliza minhas atividades. Mas não é verdade. quer dizer.) Não é necessário estranhar que eu acumule dictérios sob esta figura de ser humano. costumes -. quer dizer. muito mais amplo e radical. que agora anda por toda a parte e onde quer impor sua barbárie íntima. Está condenado a representar o outro. de que o "aristocrata" não é senão um caso particular. tem de usar a carapaça de outra vida. é o ataque a fundo. Se a atmosfera não me oprimisse. É uma de tantas deformações como o luxo produz na matéria humana. o garoto mimado da história humana. Como vimos. e converte-se em pura representação ou ficção de outra vida. Toda vida é luta. que não se assemelha a nada e que. e o anúncio de que uns quantos europeus vão reagir energicamente contra sua pretensão de tirania. nada que ver com elas. Agora a herança é a civilização . mais vida e de superior qualidade à que consiste. precisamente. pelo contrário. portanto. Acha-se ao nascer instalado. encontra atribuídas a sua pessoa umas condições de vida que ele não criou. Por razões muito rigorosas e arquifundamentais que agora não é oportuno enunciar. a segurança. ninguém descreveu ainda em seu interno e trágico mecanismo . tradição social. Ele não tem. no "aristocrata" herdeiro toda a sua pessoa vai se desvanecendo.religião. com efeito.A rebelião das massas. mostrando como muitos dos traços característicos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e outro um menino mimado e outro. por falta de uso e esforço vital. As dificuldades com que tropeço para realizar minha vida são.os que se podem reunir na classe geral "homem-herdeiro". porque não vêm dele. Em que ficamos? Que vida vai viver o "aristocrata" de herança. Por enquanto trata-se de um ensaio de ataque: o ataque a fundo virá depois. a não ser nem o outro nem ele mesmo.

o nível vital que representa a Europa de hoje é superior a todo o passado humano. Por isso. as raças inferiores . e mal sente dentro de si obrigações.por exemplo. tem que ser. o animal-homem degenera. Com efeito. Este desequilíbrio o falsifica. vicia-o em sua raiz de ser vivente.A rebelião das massas. que é absoluto perigo. Já sabemos por que: no âmbito familiar. os girinos na alverca.regime higiênico e atenção à beleza do traje -. no fundo. do qual percebe só a superabundância de meios. fazendo-o perder contacto com a substância mesma da vida. não estimá-lo e mandar que os lacaios ou os esbirros o açoitem. porém. no ar da rua trariam automaticamente conseqüências desastrosas e iniludíveis para seu autor. que retroceda e recaia em altitudes inferiores. Não veio de fora ao mundo civilizado como os "grandes bárbaros brancos" do século V. não nasceu tampouco dentro dele por geração espontânea e misteriosa. pelo contrário. tudo. de Estados previdentes. os pigmeus . de direitos cômodos. e tolera dentro de si muitos atos que na sociedade. especialmente da forma que esta civilização no século XIX. para me referir a uma dimensão muito concreta da vida corporal. como. é preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se acha ameaçada de degeneração.a nolição -. quando se torna figura predominante. Isto é verdade. faz temer que nem conserve sua altura nem produza outro nível mais elevado.htm (57 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos. a civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se em um mundo abundante. pois. que este novíssimo bárbaro é um produto automático da civilização moderna. Não é o que não se deva fazer o que esteja na vontade da pessoa. Isto. radical problematismo. mas. no homem-massa. de relativa morte. Mas o "mocinho" é aquele que acredita poder comportar-se fora de casa como em casa.). de maneira germinal. recordarei que a espécie humana brotou em zonas do planeta onde a estação quente ficava compensada por uma estação de frio intenso. Pois bem. como se diz ao papagaio no conto do português. Grande equívoco! Vossa Mercê irá aonde o levem. mas não as angústias. mas é o seu fruto natural. A forma mais contraditória da vida humana que pode aparecer na vida humana é o "mocinho satisfeito". o cultivo do seu corpo . quer dizer. Por exemplo: a propensão de fazer ocupação central da vida os jogos e os esportes. deste. de medicinas benéficas. com leal desgosto em fazer ver que este homem cheio de tendências incivis. até os maiores delitos.foram repelidas para os trópicos por raças nascidas depois delas e superiores na escala da evolução (62). mas isto não nos deixa em liberdade para fazer outra coisa que esteja na nossa vontade. mas se olhamos o porvir. Cabe unicamente negar-se a fazer isso que é preciso fazer. o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e assegurar para o futuro sua produção. Ignora. etc. Assim. Nos trópicos. Segundo isto. aquele que acredita que nada é fatal. etc. não percebe o instável que é a organização do Estado. pode ficar no final das contas impune. irremediável e irrevogável. preferir a vida sob a autoridade absoluta a um regime de discussão (61). em todos os povos e tempo. é que não se pode fazer senão o que cada qual tem que fazer. o "filho de família" forja para si esta ilusão. Insisto. faz ver com suficiente clareza a anormalidade superlativa que representa o "mocinho satisfeito". divertir-se com o intelectual. segundo Aristóteles. Neste ponto possuímos apenas uma liberdade negativa de arbítrio . penso. Podemos perfeitamente file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Por isso acredita que pode fazer o que bem entende (63). Porque é um homem que veio à vida para fazer o que bem entende. se dão. e vice-versa. tanto na ordem espiritual como na física. por seu turno. Cabe formular esta lei que a paleontologia e a biogeografia confirmam: a vida humana surgiu e progrediu só quando os meios com que contava estavam equilibrados pelos problemas que sentia. O âmbito familiar é relativamente artificial. falta de romanticismo na relação com a mulher.

e por isso mesmo. intelectual. irremediavelmente. Todos "sabem" que além das justas críticas com que se combatem as manifestações do liberalismo fica a irrevogável verdade deste. com uma certeza muito mais vigorosa que a de todas as suas idéias e "opiniões" expressas. Se alguém se obstina em afirmar que dois mais dois é igual a cinco e não há motivo para supô-lo clemente. algo iniludível. Seria bom que estivéssemos forçados a aceitar como autêntico ser de uma pessoa o que ela pretendia mostrar-nos como tal. creia-o ou não . O fascista se mobilizará contra a liberdade política. inexorável. uma verdade que não é teórica. talhantes. Quase todas as posições que se tomam e ostentam são internamente falsas. Eu não posso fazer isto evidente a cada leitor no que seu destino individualíssimo tem como tal. mas melhormente se reconhece e mostra seu claro. na hora das seriedades. como faz suas travessuras o "filho de família". Por exemplo: todo europeu atual sabe. mas todo seu sentido e sua força estão em ser discutidas. Embora se demonstre. em última instância. que são falsas e funestas todas as maneiras concretas em que se tentou até agora realizar esse imperativo irremissível de ser politicamente livre. na substância mesma da vida européia. por muito que grite e ainda se deixe matar para sustentá-lo. Porque esta é a tônica da existência no homem-massa: a inseriedade. Não discutamos se esta ou a outra forma de liberdade é a que tem de ser. mas é possível fazê-lo ver naquelas porções ou facetas de seu destino que são idênticas às de outros.queira ou não queira. entretanto. Vive-se humoristicamente e tanto mais quanto mais trágica seja a máscara adotada. rigoroso perfil na consciência de ter que fazer o que não está na nossa vontade. Refiro-me a que o europeu mais reacionário sabe. últimas. por muitas atitudes que tenham para nos convencer e convencer-se do contrário. mas sim aceita-se ou não. a evitar cada qual o confronto com isso que tem que ser. porque não conheço a cada leitor. Toda essa pressa para adotar em todas as ordens atitudes aparentemente trágicas. vivem enquanto se discutem e estão feitas exclusivamente para a discussão. a cegar-se ante sua evidência e sua chamada profunda. devemos afirmar que não o crê. Brincam de tragédia porque crêem que não é verossímil a tragédia efetiva no mundo civilizado. Se o aceitamos. fazem-no sem o caráter de irrevogável. que o homem ocidental de hoje é. inscrito no destino europeu. a falsificação de nós mesmos (65). somos a negação. desertar de nosso destino mais autêntico. mas que está aí. que o homem europeu atual tem de ser liberal. Um furacão de farsa geral e onímoda sopra sobre o torrão europeu.no católico que presta mais leal adesão ao Syllabus (64). fingir com seus atos e palavras a convicção contrária.htm (58 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mas de uma ordem radicalmente diferente e mais decisiva de tudo isso . uma verdade de destino -. Esta evidência última atua tanto no comunista europeu como no fascista. que isso que a Europa tentou no último século com o nome de liberalismo é. é só a aparência. se não o aceitamos.o que vitalmente se tem que ser ou não se tem que ser . As verdades teóricas não são discutíveis. Mas o destino . Há file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Os únicos esforços que fazem destinam-se a fugir do próprio destino. com plena e incontrastável verdade. e que nela se recairá sempre que a verdade seja necessária. nascem da discussão. mas é para cair prisioneiro nos graus inferiores de nosso destino. a "piada".a saber. como atua . O destino não consiste naquilo que temos vontade de fazer. O que fazem. fica em pé a última evidência de que no século último tinha substancialmente razão. somos autênticos. queira ou não queira.A rebelião das massas. no fundo de sua consciência. precisamente porque sabe que esta não faltará nunca no fim das contas e em sério. científica.não se discute. Pois bem: "o mocinho-satisfeito" caracteriza-se por "saber" que certas coisas não podem ser e.

C. que incite a ouvir instâncias externas superiores a ele. Por isso. pode resumir-se em duas grandes dimensões: democracia liberal e técnica. nilota. no período chelense. As demais técnicas . a porção que de comum tinha com outras do passado. humorismo onde quer que se vive de atitudes revogáveis.por volta do século III A. Não toda técnica é científica. Só a técnica moderna da Europa possui uma raiz científica. e dessa raiz lhe vem seu caráter específico. vegeta suspenso ficticiamente no espaço. vive de negá-la. carecia de ciência. O contorno o mima. Que faria o cínico num povo selvagem onde todos. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. porque é "civilização" . ou em política. porque tampouco conseguiu seu propósito -. Desta sorte. uma casa -. mais que nunca triunfa a retórica. seu papel era desfazer . e. ou nos usos sociais. criou uma técnica. ao concretizar-se.isto é. Por isso é que nunca como agora estas vidas sem peso e sem raiz .melhor dito. Tomemos agora somente a última.O cínico. pela mesma razão de que está convencido de que ela não desaparecerá. É a época das "correntes" e do "deixar-se ir". não obstante. O cínico tornou-se um personagem pululante. fazem o que ele em farsa. oriental . Jamais criou nem fez nada. o cínico não fazia outra coisa senão sabotar aquela civilização. considera como seu papel pessoal? Que é um fascista se não fala mal da liberdade e um superrealista se não perjura da arte! Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem nascido no mundo demasiadamente bem organizado. num caso particular.aparece o cínico. Esclarece a situação atual advertir. Ora bem. A técnica contemporânea nasce da copulação entre o capitalismo e a ciência experimental. A China chegou a um alto grau de tecnicismo sem suspeitar em nada a existência da física. que se achava atrás de cada esquina e em todas as alturas. tentar desfazer. Esta civilização do século XIX. O homem-massa não afirma o pé sobre a firmeza incomovível de seu signo. dizia eu. cisnes e faunesas". Quase ninguém apresenta resistência aos superficiais torvelinhos que se formam em arte ou em idéias. Convém não fechar sua exposição geral sem analisar. Mas é claro que com isso só fez extrair outra retórica que até agora jazia nas latrinas. grega. e apenas o tocam começam a retroceder em lamentável involução. a tese ganha em força persuasiva. Assim acontece que mal chega à sua máxima atitude a civilização mediterrânea . parasita da civilização. Aquele que fabricou os machados de pedra. não obstante a singularidade de sua fisionomia. Era o nihilista do helenismo. XII.mesopotâmica. do qual só percebe as vantagens e não os perigos. . naturalmente e a sério. Diógenes pateia com suas sandálias sujas de lama os tapetes de Arístipo. a mecânica dessa produção.htm (59 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .déracinées de seu destino . romana.espraiam-se até um ponto de desenvolvimento que não podem ultrapassar. e o "filho de família" não sente nada que o faça sair de sua índole caprichosa. a possibilidade de um ilimitado progresso. A BARBÁRIE DO "ESPECIALISMO" A tese era que a civilização do século XIX produziu automaticamente o homem-massa.A rebelião das massas. em que a pessoa não se finca inteira e sem reservas. O superrealista acredita haver superado toda a história literária quando escreveu "aqui uma palavra que não é necessário escrever" onde outros escreveram "jasmins. e muito menos que o obrigue a tomar contato com o fundo inexorável de seu próprio destino. pelo contrário.se deixem arrastar pela mais inconstante corrente.

A coisa é muito conhecida: fez-se constar inúmeras vezes. sobre o qual predomina e impera.engendrou o homem-massa no sentido quantitativo desta expressão. Pois bem: o homem de ciência atual é o protótipo do homem-massa.A rebelião das massas. quero dizer. A ciência não é especialista. Quem. dentro do grupo técnico. o tipo genérico "homem de ciência".prevenia eu no princípio . Agora vamos ver isso com sobrada evidência. O pulo é único na história humana. obrigou a um esforço de unificação. mostrando o processo de crescente especialização no trabalho dos investigadores.raiz da civilização . somente articulada no organismo deste ensaio. Seria de grande interesse. Nem sequer a ciência empírica. Do século V a 1800 a Europa não consegue ter uma população superior a 180 milhões. com a aristocracia do presente? Sem dúvida. Não há dúvida de que a técnica . Quem. A ciência experimental inicia-se ao finalizar o século XVI (Galileu). médico. o representa com maior altitude e pureza? Sem dúvida. cume da humanidade européia. Recorde-se o dado de que tomou seu vôo este ensaio e que. financista. E não por casualidade.irremissivelmente . consegue constituir-se nos finais do XVII (Newton) e começa a desenvolver-se nos meados do XVIII. dentro dessa burguesia é considerado como o grupo superior. O desenvolvimento de algo é coisa diferente de sua constituição e está submetido a condições diferentes. Esta maravilhosa técnica ocidental tornou possível a maravilhosa proliferação da casta européia. um bárbaro moderno. Tal foi a obra de Newton e demais homens de seu tempo. nem por defeito unipessoal de cada homem de ciência. professor etc. ia progressivamente perdendo contato com as demais partes da ciência. faz dele um primitivo. e maior utilidade que a aparente à primeira vista. por ter de reduzir sua órbita de trabalho. encerrado num campo de ocupação intelectual cada vez mais estreito. não designa aqui uma classe social. Se um personagem astral visitasse a Europa. não a ciência. fazer uma história das ciências físicas e biológicas. Mas o trabalho nela tem de ser . a constituição da física. como eu disse. a ciência necessitava que os homens de ciência se especializassem. mas uma classe ou modo de ser homem que se dá hoje em todas as classes sociais. É claro que o personagem astral não perguntaria por indivíduos excepcionais. adquire a plenitude de seu sentido e a evidência de sua gravidade. mas justamente o inverso: como em cada geração o científico. mas. que por isso mesmo representa o nosso tempo. mas porque a técnica mesma . preferia ser julgada. Mas estas páginas tentaram mostrar que também é responsável da existência do homem-massa no sentido qualitativo e pejorativo do termo. Mas não é isto o importante que essa história nos ensinaria. da filosofia. nome coletivo da ciência experimental. o técnico: engenheiro. Mas o desenvolvimento da física iniciou uma faina de caráter oposto à unificação para progredir. e com ânimo de julgá-la lhe perguntasse por que tipo de homem. Isso faria ver como. Por "massa" . entre os que a habitam.não se entende especialmente o obreiro.htm (60 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Ipso facto deixaria de ser verdadeira. mas procuraria a regra. Assim.junto com a democracia liberal . o homem de ciência tem sido constrangido. etc. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. não há dúvida de que a Europa apontaria satisfeita e certa de uma sentença favorável.especializado. Quem exerce o poder social? Quem impõe a estrutura de seu espírito na época? Sem dúvida. tomada na sua integridade. encerra germinalmente todas estas meditações. o homem de ciência. geração após geração. da lógica.o converte automaticamente em homem-massa. é verdadeira se a separamos da matemática. a burguesia. seus homens de ciência. De 1800 a 1914 ascende a mais de 460 milhões. Os homens de ciência.

que a ciência moderna. e menos que medíocres. mas ignora basicamente todo o resto. junto com outros pedaços não existentes nele. raiz e símbolo da civilização atual. que conscienciosamente desconhece. Para os efeitos de inúmeras investigações é possível dividir a ciência em pequenos segmentos. Quando em 1890 uma terceira geração assume o comando intelectual da Europa. vantagem maior e perigo máximo da ciência nova e de toda civilização que esta dirige e representa: a mecanização. em sábios e ignorantes. A especialização começa. nele se dá um pedaço de algo que. mas com toda a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Eu disse que era uma configuração humana sem igual em toda a história. encerrar-se em um e desinteressar-se dos demais. descobrir novos fatos e fazer avançar sua ciência. É um homem que. O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e fazendo ver todo o radicalismo de sua novidade. consegue. e nem sequer é forçoso para obter abundantes resultados possuir idéias rigorosas sobre o sentido e fundamento deles. e denomina diletantismo a curiosidade pelo conjunto do saber. com efeito. ao mesmo tempo. como a abelha no seu alvéolo. constituem verdadeiramente o saber. que nos primeiros anos deste século chegou à sua mais frenética exageração. Trabalha-se com um desses métodos como com uma máquina. E. A firmeza e exatidão dos métodos permitem esta transitória e prática desarticulação do saber. e com ela a enciclopédia do pensamento. cultura. Por isso cria uma casta de homens sobremodo estranhos.A rebelião das massas. fechado na estreiteza de seu campo visual. conhece apenas determinada ciência. e ainda dessa ciência só conhece bem a pequena porção em que ele é ativo investigador. mas tampouco é um ignorante. Assim a maior parte dos científicos propelem o progresso geral da ciência encerrados num nicho de seu laboratório. com uma interpretação integral do universo. Chega a proclamar como uma virtude o não tomar conhecimento de quanto fique fora da estreita paisagem que especialmente cultiva. O século XIX inicia seus destinos sob a direção de criaturas que vivem enciclopedicamente. a equação se deslocou. Como foi e é possível coisa semelhante? Porque convém repisar a extravagância deste fato inegável: a ciência experimental progrediu em boa parte mercê do trabalho de homens fabulosamente medíocres. O especialista "sabe" muito bem seu mínimo rincão de universo. Eis aqui um precioso exemplar deste estranho homem novo que eu tentei. civilização européia. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. Não é um sábio. A razão disso está no que é. simplesmente. coisa sobremodo grave. deu guarida dentro de si ao homem intelectualmente médio e lhe permite operar com bom êxito. que é o único merecedor dos nomes de ciência. Devemos dizer que é um sábio ignorante. embora sua produção tenha já um caráter de especialismo. O caso é que. Com certa aparente justiça se considerará como "um homem que sabe". Quer dizer. porque é "um homem de ciência" e conhece muito bem sua porciúncula de universo. num tempo que chama homem civilizado ao homem "enciclopédico". Esta é a situação íntima do especialista. Uma boa parte das coisas que é preciso fazer em física e em biologia é faina mecânica de pensamento que pode ser executada por qualquer pessoa.htm (61 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Na geração seguinte. O investigador que descobriu um novo fato da Natureza tem por força de sentir uma impressão de domínio e de segurança em sua pessoa. por uma e outra de suas vertentes e aspectos. que ele apenas conhece. pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora. em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. não como um ignorante. Porque outrora os homens podiam dividir-se. com efeito. de tudo quanto há de saber para ser um personagem discreto. porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade. definir. e a especialidade começa a desalojar dentro de cada homem de ciência a cultura integral. encontramo-nos com um tipo de científico sem exemplo na história. precisamente.

nas outras ciências tomará posições de primitivo. professores. e só poderá salvá-la uma nova enciclopédia mais sistemática que a primeira.e. significam o mais claro e preciso exemplo de como a civilização do último século abandonada à sua própria inclinação.com estes nomes simboliza-se só a massa enorme de pensamentos filosóficos e psicológicos que influíram em Einstein . A física entra na crise mais profunda de sua história. muito mais radicalmente ignora as condições históricas de sua perduração. Mas Einstein não é suficiente. petulância de quem na sua questão especial é um sábio. em 1750.htm (62 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . com efeito. e em grande parte constituem o império atual das massas. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. haja muito menos homens "cultos" que. financistas. e. Mas se o especialista desconhece a fisiologia interna da ciência que cultiva. engenheiros. este é o comportamento do especialista. Ao especializá-lo a civilização o tornou hermético e satisfeito dentro de sua limitação. Por outra parte. julgam e atuam hoje na política. chega ao cúmulo nesses homens parcialmente qualificados. mas Einstein precisou saturar-se de Kant e de Mach para poder chegar a sua aguda síntese.e isto é o paradoxal . Essa condição de "não ouvir". cume de nossa atual civilização. para que possa continuar havendo investigadores. na arte.especialismo . aproxima-se a uma etapa em que não poderá avançar por si mesmo se não se encarrega uma geração melhor de construir-lhe um novo forno mais poderoso. de não se submeter a instâncias superiores que reiteradamente apresentei como característica do homem-massa. pois.serviram para liberar a mente desse e deixar-lhe a via livre para sua inovação. mas essa mesma sensação íntima de domínio e valia o levará a querer predominar fora de sua especialidade. o mais oposto ao homem-massa. A advertência não é vaga.A rebelião das massas. e sua barbárie é a causa mais imediata da desmoralização européia. isto é. em arte. mas as tomará com energia e suficiência. como a crosta terrestre e a selva primigênea. Kant e Mach . quando há maior número de "homens de ciência" que nunca. Também ele acredita que a civilização está aí. como orgânica regulação de seu próprio incremento. nos usos sociais. sem admitir . E a conseqüência é que. Em política. a idéia que sói faltar ao típico "homem de ciência". na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os "homens de ciência". e ignorantíssimo. A decadência de vocação científica que se observa nestes anos . um trabalho de reconstituição. ainda neste caso. depois deles. isso requer um esforço de unificação. Newton pode criar seu sistema físico sem saber muita filosofia. Porque esta necessita de tempo em tempo. e é claro. O especialismo. etc.é um sintoma preocupador para todo aquele que tenha uma idéia clara do que é civilização. como eu disse. o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida. cada vez mais difícil. médicos. Eles simbolizam. Quem quiser pode observar a estupidez com que pensam.especialistas dessas coisas. que tornou possível o progresso da ciência experimental durante um século. que representa um maximum de homem qualificado . como devem estar organizados a sociedade e o coração do homem. por exemplo. O resultado mais imediato desse especialismo não compensado tem sido que hoje. simplesmente. E. que cada vez complica regiões mais vastas do saber total.à qual já aludi . E o pior é que com esses perdigueiros do forno científico nem sequer está garantido o progresso íntimo da ciência. produziu esse broto de primitivismo e barbárie. portanto.

ainda sendo sua palavra. Hoje é já a violência a retórica do tempo. À realidade sobrevive seu nome que. os retóricos. continuaremos sob seu regime. Se consegue por si mesmo encontrá-la. compreender-se-á que o homem é. rebelar-se contra seu próprio destino.até para deixar de ser massa. pois. Encontramo-nos. fá-lo só de uma maneira. bem que em outra forma. Hoje chegou a seu máximo desenvolvimento. é. Quando uma realidade humana cumpriu sua história. Nem muito menos poderá estranhar que agora. os inanes. pois. representada. um ser constitutivamente forçado a procurar uma instância superior. é que é um homem-massa e necessita recebê-la daquele. constituída pelas minorias excelentes. já que a América é de certo modo o paraíso das massas. A retórica é o cemitério das realidades humanas. Veio ao mundo para ser dirigida. em rebelar-se contra si mesmo.o que não era seu destino . organizada .sejam uns ou outros . (Se Luzbel tivesse sido russo. que não é mais nem menos contra Deus que o outro tão famoso). como Tolstoi. Há muito tempo que eu fazia notar este comércio da violência como norma (67). a massa é o que não atua por si mesma. Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si.htm (63 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . teria talvez preferido este último estilo de rebeldia. as ondas a cospem nas costas da retórica. No dia em que volte a imperar na Europa uma autêntica filosofia (66) . pervive largamente. senão. a rebelião do arcanjo Luzbel não o houvera sido menos se em vez de empenhar-se em ser Deus . muito mais incomovível que as leis da física de Newton. quando as massas triunfam. a única doutrina. Porque no final das contas a única coisa que substancialmente e com verdade pode chamar-se é a que consiste em não aceitar cada qual seu destino. porque significa que automaticamente vai iniciar-se seu descenso.se houvesse obstinado em ser o mais ínfimo dos anjos. A rigor. O MAIOR PERIGO. mas este impõe file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. seu hospital de inválidos. é que é um homem excelente. porque não tem outra: lincha. ou. falo eu da rebelião das massas. influída. Não é completamente casual que a lei de Lynch seja americana. e como isso é o que faz agora. Quando a massa atua por si mesma. a fazem sua. Tal é a sua missão. Discuta-se quanto se queira quem são os homens excelentes. afinal de contas. com uma réplica do que no capítulo anterior se disse sobre a ciência: a fecundidade de seus princípios a propelem a um fabuloso progresso. Mas ainda quando não seja impossível que tenha começado a minguar o prestígio da violência como norma cinicamente estabelecida. tenha ou não vontade disso. naufragou e morreu. e isso é um bom sintoma. embora leve a Europa todo um século metendo a cabeça debaixo da asa. O ESTADO Numa boa ordenação das coisas públicas. pelo menos. no mínimo. Porque não se trata de uma opinião fundada em fatos mais ou menos freqüentes e prováveis.única coisa que pode salvá-la -. triunfe a violência e se faça dela a única ratio. é coisa sobre a qual convém que não haja dúvida alguma. ao modo dos estrúcios para ver se consegue não ver tão radiante evidência.a humanidade não existiria no que tem de mais essencial. onde. Como todos os demais perigos que ameaçam esta civilização. Mais ainda: constitui uma de suas glórias. é o Estado contemporâneo. nada menos que palavra e conserva sempre algo de seu poder mágico. mas numa lei da "física" social. mas que sem eles . aspirar a isso -. Refiro-me ao perigo maior que hoje ameaça a civilização européia. Pretender a massa atuar por si mesma é. cadáver. também este nasceu dela. que tampouco o era. Necessita referir sua vida à instância superior. XIII.

automaticamente. Sabia organizar. haviam produzido um primeiro crescimento da sociedade. coisa que obriga à racionalização.A rebelião das massas. Bem pouca coisa! O primeiro capitalismo e suas organizações industriais. quer dizer. como num oceano. Havia sido fabricada na Idade Média por uma classe de homens muito diferentes dos burgueses: os nobres. E não certamente porque não houvesse motivos para elas. mal de cabeça. Não inventaram a pólvora. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Plantada no meio da sociedade. A mesma coisa acontece com o Estado. Aquela nave era coisa de nada ou pouco mais: apenas tinha soldados. basta tocar u'a mola para que atuem suas enormes alavancas e operem fulminantes sobre qualquer parte do corpo social. ganharam a batalha ao guerreiro nobre. Desde 1848. e com isso. e a especialização ameaça afogar a ciência.de ordem pública e de administração -. A desproporção entre o poder do Estado e o poder social é tal nesse momento. e a quem não ocorrera que o segredo eterno da guerra não consiste tanto nos meios de defesa como nos de agressão (segredo que Napoleão redescobriria) (68) Como o Estado é uma técnica . de uma maravilhosa eficiência pela quantidade e precisão dos seus meios. que acabou com as revoluções. ao "cavalheiro". mais poderosa em número e potência que as preexistentes: a burguesia. gente admirável por sua coragem. açoitado de todos os lados por uma ampla e revolta sociedade. Viviam da outra víscera. deixaram que os burgueses . O enorme desnível entre a força social e a do poder público tornou possível a Revolução.tomando-as do Oriente ou outro lugar . Incapazes de inventar novas armas. antes de tudo e sobretudo uma coisa: talento. Mas com todas essas virtudes do coração. Uma nova classe social apareceu. apenas tinha burocratas. por seu dom de mando. e em pouco mais de uma geração criou um Estado poderoso. as revoluções (até 1848). a racionalizada. que comparando a situação com a vigente em tempo de Carlos Magno. mas. a nova técnica. aparece o Estado do século XVIII como uma degeneração. Sem eles não existiriam as nações da Europa. por seu sentido de responsabilidade. A nave do Estado é uma metáfora reinventada pela burguesia. navegava ao azar a "nave do Estado". Rememore-se o que era o Estado nos fins do século XVIII em todas as nações européias. não foi mais que um golpe de Estado com máscara. disciplinar. que apenas podia mover-se na lida. talento prático. muito menos poderoso que o de Luís XVI. E tudo que com posterioridade pode dar-se ares de revolução. que se sentia a si mesma oceânica. Entediaram-se. No meio dela. inexoravelmente a especialização. instintivos. a sociedade que o rodeava não tinha força nenhuma (69). mas porque não havia meios. Por isso não puderam desenvolver nenhuma técnica. sempre andaram. em suma. intuitivos. Esta burguesia sem mérito possuía. De inteligência muito limitada. o "antigo regime" chega aos fins do século XVIII com um Estado fraquíssimo. "irracionais". Nivelou-se o Poder público com o poder social. dar continuidade e articulação ao esforço. O Estado carolíngio era. desde que começa a segunda geração de governos burgueses não há na Europa verdadeiras revoluções. Em nosso tempo. em compensação. Mas com a Revolução apossou-se do Poder público a burguesia e aplicou ao Estado suas inegáveis virtudes. o Estado chegou a ser máquina formidável que funciona prodigiosamente. onipotente e grávida de tormentas. apenas tinha dinheiro.utilizassem a pólvora. sentimentais.htm (64 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . está claro. Adeus revoluções para sempre! Já não cabe na Europa mais que o contrário: o golpe de Estado. coberto estupidamente de ferro. onde pela primeira vez triunfa a técnica. os nobres andavam.

que ele é o Estado. o homem-massa vê no Estado um poder anônimo. Mas. ficará héctico. as matrizes são cada vez menos fecundas. O resultado desta tendência será fatal. e a sociedade tem de começar a viver para o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.sem esforço.htm (65 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Que acontece? A burocratização da vida produz sua diminuição absoluta . A riqueza diminui e as mulheres parem pouco. A espontaneidade social ficará violentada uma vez e outra pela intervenção do Estado.em todas as ordens -. A sociedade terá de viver para o Estado. que se encarregue diretamente de resolvê-lo com seus gigantescos e incontrastáveis meios. Por isso é. em idéias. Então o Estado. é revelador. conflito ou problema: o homem-massa tenderá a exigir que imediatamente o assuma o Estado. mas não tem consciência de que é uma criação humana inventada por certos homens e mantida por certas virtudes e por certo que houve ontem nos homens e que pode evaporar-se amanhã. a esmagar com ele toda minoria criadora que o perturbe .que o perturbe em qualquer ordem: em política. quer dizer. ou simplesmente algum forte apetite. o exército tem de ser recrutado entre estrangeiros. o que é um perfeito erro. Este foi o signo lamentável da civilização antiga. não se esqueça). e como ele se sente a si mesmo anônimo vulgo -. curiosa coincidência. o homem. a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado. para viver melhor. Os Severos. apenas chegou a seu pleno desenvolvimento. o Estado. nutre e impele os destinos humanos. seu exército. Faltam até soldados. Este o vê. militarizam o mundo. Quando a massa sente uma desventura. O Estado é. Depois. incomparavelmente superior como artefato ao velho Estado republicano das famílias patrícias. o intervencionismo do Estado. antes de tudo. sabe que está aí. o Estado se sobrepõe. Já nos tempos dos Antoninos (século II) o Estado gravita com uma antivital supremacia sobre a sociedade. Depois dos Severos. A urgência maior do Estado é seu aparato bélico. produtor de segurança (a segurança de que nasce o homem-massa. em indústria. dúvida nem risco . depois de sugar a medula da sociedade. nenhuma nova semente poderá frutificar. Esta burocratização em segunda potência é a militarização da sociedade. cria. para a máquina do Governo. Não há dúvida que o Estado imperial criado pelos Júlios e os Cláudios foi u'a máquina admirável. O Estado é a massa só no sentido em que se pode dizer de dois homens que são idênticos porque nenhum dos dois se chama João. E como no final das contas não é senão u'a máquina cuja existência e manutenção dependem da vitalidade circundante que a mantenha. Faina vã! A miséria aumenta. admira-o. como um utensílio. crê que o Estado é coisa sua. precatar-se da atitude que ante ele adota o homem-massa. o Estado. Adverte-se qual é o processo paradoxal e trágico do estatismo? A sociedade. E é muito interessante. morto com essa morte ferrugenta da máquina. Estado contemporâneo e massa coincidem só em ser anônimos. luta. de origem africana. para subvencionar suas próprias necessidades. é uma grande tentação para ela essa permanente e segura possibilidade de conseguir tudo . começa a decair o corpo social. exército. Esta começa a ser escravizada. O Estado contemporâneo é o produto mais visível e notório da civilização. A vida toda se burocratiza. que em definitivo sustenta. muito mais cadavérica que a do organismo vivo. força mais a burocratização da existência humana. e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto. Por outra parte. esquelético. garantindo sua vida. Mas o caso é que o homem-massa crê.A rebelião das massas.apenas ao premir a mola e fazer funcionar a portentosa máquina. A massa diz a si mesma: "o Estado sou eu". a anulação da espontaneidade histórica. com efeito. Imagine-se que sobrevem na vida pública de um país qualquer dificuldade. a não poder viver mais que em serviço do Estado. antes de tudo. Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatificação da vida.

estes não bastam para sustentar o Estado e é preciso chamar estrangeiros: primeiro.o obreiro industrial . têm de viver escravo deles. O crescimento social obrigou iniludivelmente a isso. para caminhar pacificamente e atender a seus negócios. a estar submetido a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Em 1810 surge na Inglaterra. e os restos da sociedade. a nova indústria começa a criar um tipo de homem . até onde se possa. O andaime se torna proprietário e inquilino da casa. e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. Quando se sabe disso. sobressalta um pouco ouvir que Mussolini apregoa com exemplar petulância. considerando-a como resgate da liberdade". Como não temer que sob o império das massas se encarregue o Estado de esmagar a independência do indivíduo. depois. Se algo conseguiu. como um prodigioso descobrimento feito agora na Itália. Entretanto. pelas mesmas causas. mas precisamente pelas forças e idéias que ele combate: pela democracia liberal -. Os estrangeiros tornaram-se donos do Estado. do povo inicial. não deve perder seu terrível paradoxismo ante nosso espírito o fato de que a população de uma grande urbe atual. mas pagam caro suas vantagens. o crime. uma Polícia que regule a circulação. O inevitável é que acabem por definir e decidir elas a ordem que vão impor . "Em Paris escreve John William Ward . Estado (70). Mas. Preferem agüentar.htm (66 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que dificilmente equilibra a acumulação de poderes anormais que lhe consentem empregar aquela máquina em forma extrema. pouco visível e nada substantivo. Quando. Mas é uma inocência das pessoas de "ordem" pensar que essas "forças de ordem pública". é tão miúdo. necessita. "As pessoas conformam-se em se adaptar à desordem. problemas econômicos. As nações européias têm diante de si uma etapa de grande dificuldade em sua vida interior. do grupo. jurídicos e de ordem pública sobremodo árduos. Governam os conservadores. o que lhes convenha. e extinguir assim definitivamente o porvir? Um exemplo concreto deste mecanismo achamo-lo num dos fenômenos mais alarmantes destes últimos trinta anos: o aumento enorme em todos os países das forças de Polícia.e que será. em 1800.mais criminoso que os tradicionais. A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina que é o Estado. Por muito habitual que nos seja. Mussolini encontrou um Estado admiravelmente construído .têm uma Polícia admirável. o Estado se compõe ainda dos homens daquela sociedade. é indiscutível que os resultados obtidos até o presente não podem ser comparados aos obtidos na função política e administrativa pelo Estado liberal. sem que eu me permita agora julgar os detalhes de sua obra. criadas para a ordem. máquina anônima. dálmatas. naturalmente. O esqueleto come a carne que o rodeia.não por ele. Através e por meio do Estado. e. as massas atuam por si mesmas. de gente com a qual não tem nada que ver. O estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação direta constituídas em normas. Ele se limita a usá-lo incontinentemente. no final das contas. Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma ou outra sociedade. a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. um aumento da criminalidade. vão contentar-se com impor sempre o que aquelas queiram.A rebelião das massas. germanos. Bastaria isso para descobrir no fascismo um típico movimento de homens-massa. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. sem remédio. nada contra o Estado. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road. a fórmula Tudo pelo Estado. nada fora do Estado.

progressivamente unificado.não há ilhas de humanidade -. SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV. nome incolor e inexpressivo sob o qual se oculta esta realidade: época da hegemonia européia. Ora bem: essa relação estável e normal entre homens que se chama "mando" não descansa nunca na força. Porque aqui aspira-se a evitar estupidezes. de coação física. pelo menos as mais ordinárias e palmares.padeceu automaticamente a rebelião das massas. porque um homem ou grupo de homens exerce o mando. pelo menos. que em nossos dias chegou a seu término insuperável. Portanto. Mas desde o século XVI entrou a humanidade toda num processo gigantesco de unificação. efetivamente. Por "mando" não se entende aqui primordialmente exercícios de poder material. Olhemos esta agora de vários pontos de vista. Entre estas últimas. o mundo mediterrâneo ignorava a existência do mundo extremo oriental. Esse tem sido o papel do grupo homogêneo formado pelos povos europeus durante três séculos. Por seu anverso.htm (67 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a mais importante. tem à sua disposição esse aparato ou file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas o reverso do mesmo fenômeno é tremebundo. A Europa mandava. e sob sua unidade de mando o mundo vivia com um estilo unitário. pelo contrário. olhada por esse lado a rebelião das massas é uma e mesma coisa com a desmoralização radical da humanidade. Por isso.do homem e de seu espírito -. ao aparecermos a um tempo com ânimo de compreendê-lo. I A substância ou índole de uma nova época histórica é resultante de variações internas . mas.tenho repetido uma e outra vez . seu influxo autoritário em todo ele. que formam mundos interiores e independentes. quase sem dúvida. uma de nossas primeiras perguntas deve ser esta: "Quem manda no mundo atualmente?" Poderá ocorrer que neste momento a humanidade esteja dispersa em vários pedaços sem comunicação entre si. O inglês quer que o Estado tenha limites. Já não há pedaço de humanidade que viva à parte .A rebelião das massas. No tempo de Milcíades. o fato desta rebelião apresenta um aspecto ótimo. Mas este traz consigo uma deslocação do espírito. Nestes casos teríamos que estabelecer nossa pergunta: "Quem manda no mundo?" a cada grupo de convivência. visitas domiciliárias. à espionagem e a todas as maquinações de Fouché (71) "São duas idéias diferentes do Estado. Esse estilo de vida sói denominar-se "Idade Moderna". ou. desde aquele século pode dizer-se que quem manda no mundo exerce. QUEM MANDA NO MUNDO? A civilização européia . é a deslocação do poder. já o dissemos: a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o crescimento fabuloso que a vida humana experimentou em nosso tempo.

no final das contas. mas o fato de que a opinião pública é a força radical que nas sociedades humanas produz o fenômeno de mandar. Na Idade Média se reproduz com formato maior o mesmo fenômeno. na física de Newton a gravitação é a força que produz o movimento. Os casos em que à primeira vista parece ser a força o fundamento do mando. convém ter em conta esses casos de ausência. revelam-se ante uma inspeção ulterior como os melhores exemplos para confirmar aquela tese. Napoleão dirigiu à Espanha uma agressão. opinião. e cria-se o Sacro Romano Império. Isso nos faz cair na conclusão de que mando significa prepotência de uma opinião. E como a Natureza tem horror ao vácuo. de estática. entre os ingleses como entre os botocudos -. Talleyrand a Napoleão: "Com as baionetas. Tomás de Aquino no século XIII? A noção desta soberania terá sido descoberta aqui ou ali. vigência de certas idéias. não podendo diferenciar-se na substância ambos são espírito -. Por isso muito agudamente insinua Hume que o tema da história consiste em demonstrar como a soberania da opinião pública. não dá lugar a que se constitua um mando. cadeira curul.com seu caráter específico e já nominativo de "poder espiritual" -. Assim. Em suma. de um espírito. mas tranqüilo exercício dele. esse oco que deixa a força ausente de opinião pública enche-se com a força bruta. banco azul. se se quer expressar com toda a precisão a lei da opinião pública como lei da gravitação histórica. máquina social que se chama "força". O que sucede é que às vezes a opinião pública não existe. outra coisa senão poder espiritual. cuja força de opinião fica reciprocamente anulada. idéia. Ou acredita-se que a soberania da opinião pública foi um invento feito pelo advogado Danton em 1789 ou por S.A rebelião das massas. hoje como há dez mil anos. Convém distinguir entre um fato ou processo de agressão e uma situação de mando. mas não mandou propriamente na Espanha nem um dia sequer." E mandar não é atitude de arrebatar o poder. E isso porque tinha a força e precisamente porque só tinha a força. O mando é o exercício normal da autoridade. convêm no acordo de se instalar cada um em um modo de tempo: o temporal e o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Trono. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes. O Estado ou Poder público primeiro que se forma na Europa é a Igreja . Todo mando primitivo tem um caráter "sacro". Em suma. Deste modo lutam dois poderes igualmente espirituais que. sede. o imaterial e ultra-físico. é coisa tão antiga e perene como o próprio homem. Sire. porque se funda no religioso.sempre. Jamais alguém mandou na terra nutrindo seu mando essencialmente de outra coisa que não fosse a opinião pública. Da Igreja aprende o Poder político que ele também não é originariamente senão poder espiritual. O qual se funda sempre na opinião pública . menos uma coisa: sentar-se sobre elas. Contra o que uma ótica inocente e folhetinesca supõe. Pois até quem pretende governar com os janízaros depende da opinião destes e da que tenham sobre estes os demais habitantes. E a lei da opinião pública é a gravitação universal da história política. Os fatos históricos confirmam isso escrupulosamente. pode-se fazer tudo. e o religioso é a forma primeira sob a qual aparece sempre o que depois vai ser espírito. Por isso. avança esta como substituta daquela. Sem ela. longe de ser uma aspiração utópica. poltrona ministerial. sustentou esta agressão durante algum tempo. em definitivo. Assim. o mandar não é tanto questão de punhos como de nádegas. pois. nem a ciência histórica seria possível. A verdade é que não se manda com os janízaros. O Estado é. de que mando não é.htm (68 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . é o que pesou sempre e a toda hora nas sociedades humanas. portanto. nesta ou naquela data. mandar é sentar-se. o estado da opinião: uma situação de equilíbrio. em suma. venerável e verídico lugar comum: não se pode mandar contrariando a opinião pública. e então chega-se a uma fórmula que é o conhecido.

São tempos em que se ama. como na Moderna.A rebelião das massas. e na medida que isso seja necessário. enquanto o outro é espírito de eternidade . que aconteceria? II A pura verdade é que no mundo acontece a todo instante. um déficit de opinião. nada menos que uma mudança de gravitação histórica. e é preciso que esta lhe venha de fora a pressão. Mas nos grandes tempos a humanidade vive da opinião. só então. Poder temporal e poder religioso são identicamente espirituais. um conceito ou entretecido de conceitos. tal povo ou tal grupo homogêneo de povos. menos ainda: o nada histórico. a vida dos homens careceria de arquitetura. Durante vários séculos mandou no mundo a Europa. É o que aconteceu em todas as idades médias da história. a grande mandona. consequentemente. e por isso há ordem. como dizer: em tal data predomina no mundo tal sistema de opiniões . Adverte-se toda a gravidade deste diagnóstico? Com ele anuncia-se uma deslocação do poder. propósitos. Na Idade Média não mandava ninguém no mundo temporal. Como há de se entender este predomínio? A maior parte dos homens não têm opinião. pois. Tempos assim não carecem de delícias. se repugna. mas um é espírito do tempo opinião pública intramundana e cambiante -. um erro. Com ele. Mas. um conglomerado de povos com um espírito afim. A pretensão de dizer o que é que acontece agora no mundo deve ser entendida. Nestas jornadas de após-guerra começa a dizer-se que a Europa não manda mais no mundo.tenha poder e o exerça. agora. portanto. Por isso é preciso que o espírito .idéias. e a pura verdade é que nosso file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. olhamos depois a efetiva realidade. em compensação.e é a maioria . Porque Pedro significa para nós um esquemático repertório de modos de se comportar física e moralmente . e tudo isso em grande escala. não temos mais remédio senão construir arbitrariamente uma realidade. supor que as coisas são de certa maneira. pois. cometemos deliberadamente. como entra o lubrificante nas máquinas. Isto nos proporciona um esquema. Por isso. é ao mesmo uma mudança de opiniões. Mais ainda: nisto consiste todo uso do intelecto. Tanto vale. para que a gente que não opina . E paralelamente. e então. manda alguém. e. como através de uma quadrícula. sem um poder espiritual.htm (69 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . embora sobre uma porção limitada do mundo: Roma. aspirações. Por isso representam sempre um relativo caos e uma relativa barbárie. preferências. Mas assim como é impossível conhecer diretamente a plenitude do real. Nisto consiste o método científico. Do outro lado da Idade Média achamos novamente uma época em que.opine. Ela pôs ordem no Mediterrâneo e confinantes. como ironizando-se a si mesma. Quando ao ver chegar nosso amigo pela vereda do jardim dizemos: "Este é Pedro». Voltemos agora ao começo. reina na humanidade o caos.o que chamamos "caráter" -. dizer: em tal data manda tal homem. se odeia. Para onde se dirige? Quem vai suceder a Europa no mando do mundo? Mas há mesmo certeza de que alguém vai suceder à Europa? E se não fosse ninguém. de organicidade. eterno. infinidade de coisas. toda mudança de imperantes. a que Deus tem sobre o homem e seus destinos. a convivência humana seria o caos. Sem opiniões. toda deslocação de poder. opina-se pouco.a opinião de Deus. se anseia. quer dizer. sem alguém que mande. conseguimos uma visão aproximada dela.seja qual seja . e. Sem opiniões. ironicamente.

mas é. eu me entendo comigo mesmo para os efeitos de meu comportamento vital diante de uma ou de outra coisa. o término indefectível do processo filosófico que se inicia com Kant. amigo Pedro não se parece. Os conceitos são o plano estratégico que nos formamos para responder a seu ataque. é um instrumento doméstico do homem. se se escruta bem a entranha última de qualquer conceito. Tampouco estão certos disso. e o êxito de seu livro deveu-se. todo descobrimento filosófico não é mais que um descobrimento e um trazer à superfície o que estava no fundo. nos entredentes de um sorriso tranqüilo. que nestes anos a Europa sente graves dúvidas sobre se manda ou não. É a seriedade instável de quem engoliu uma gargalhada e se não aperta bem os lábios a vomita. Vida é luta com as coisas para sustentar-se entre elas. mas. Ora bem. e esta outra coisa é B. que este necessita e usa para esclarecer sua própria situação em meio da infinita e arqui-problemática realidade que é sua vida. acha-se que não nos diz nada da coisa mesma. Quem prefira não exagerar deve calar-se. Creio. sobre se amanhã mandará. queira-se ou não. sustentada por ninguém. como o geométrico diamante vai implícito na dentadura de ouro de seu engaste. Porque o grego acreditou haver descoberto na razão. a que tal suspeita ou preocupação preexistia em todas as cabeças. admitindo que são A e B. o conceito. é sem dúvida e no melhor caso uma exageração. Esta teoria do conhecimento da razão houvera irritado a um grego. a meu juízo. ou padecimento possível de um homem. Falou-se muito nestes anos da decadência da Europa. em quase nada à idéia "nosso amigo Pedro".é exclusivamente isto: durante três séculos a Europa mandou no mundo. com efeito. parecer-nos-á que no fundo todos os filósofos disseram a mesma coisa.entende-se. falando com todo rigor. Todo conceito. e que tudo o mais é conseqüência. a realidade mesma. nem a outra é B. assim. que é aquilo que realmente está acontecendo no mundo. sem reservas. no conceito. Mas semelhante intróito é desmesurado para o que vou dizer. segundo a qual o conteúdo de todo conceito é sempre vital. à valentona.htm (70 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . condição. Esta opinião taxativa. O que o conceito pensa a rigor é um pouco outra coisa que o que diz." Mas é a sua a seriedade de um pince-sans-rire. como é notório. vai incluso na ironia de si mesmo. todo o mundo falava disso. nem aquela B. sintoma ou anedota disso. Reduzir a fórmula tão simples a infinitude de coisas que integram a realidade histórica atual. mais ainda: tem de paralisar seu intelecto e ver a maneira de idiotizar-se. e agora a Europa não está convicta de mandar nem de continuar mandando. Ele sabe muito bem que nem esta coisa é A. Nós. se revisamos a sua luz todo o passado da filosofia até Kant. em certos momentos. A isto corresponde nos demais povos da Terra um estado de espírito congruente: duvidar de se agora são mandados por alguém. exagerar. Eu suplico fervorosamente que não se continue cometendo a ingenuidade de pensar em Spengler simplesmente porque se fale da decadência da Europa ou do Ocidente. estritamente. o histórico . acreditamos que a razão. o mais vulgar como o mais técnico. que eu saiba. mas que resume o que um homem pode fazer com essa coisa ou padecer dela. Eu ia dizer simplesmente que o que agora acontece no mundo . com os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. Por isso. mas. tão alheio a problemas filosóficos. Antes de que seu livro aparecera. O que verdadeiramente pensa é isto: eu sei que. Eu não disse que a Europa tenha deixado de mandar. não foi até agora. é sempre ação possível. esta coisa não é A. Ele diz muito seriamente: "Esta coisa é A. contrariamente. Por isso. e eu necessitava por isso recordar que pensar é. e nesta duplicidade consiste a ironia.

nem faz questão de tão enorme fato. Falou-se tanto da decadência européia. O recente livro de Waldo Frank. apoia-se integralmente no suposto de que a Europa agoniza. definitivas enquanto não existam ou se divisem outras. E uma paisagem de exemplar puerilidade a que agora oferece o mundo. sentindo-se vulgar. sem programa de vida. segundo se diz. Também há. Estas normas não são. Nos capítulos anteriores tentei filiar um novo tipo do homem que hoje predomina no mundo: chamei-o homem-massa. as melhores possíveis. uma tarefa com sentido. a turba parvular faz bagunça. Os lugares comuns são os bondes do transporte intelectual. À vista de que. Não obstante.htm (71 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . É verdadeiramente cômico contemplar como esta ou a outra republiqueta. que lhe vai servir de formidável premissa. Mas são. a Europa decai e. desde seu perdido rincão. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. longe disso. ao rebelar-se. Frank nem analisa nem discute. Para superá-las é imprescindível parir outras. continuidade e trajetória.A rebelião das massas. ficam sem tarefa. nem sequer levantou tal questão. Mas. sentidos e pelas razões mais heterogêneas. E como ele fazem muitas pessoas. E esta ingenuidade no ponto de partida basta-me para pensar que Frank não está convencido da decadência da Europa. Na escola. Daí o vibriônico panorama de "nacionalismos" que se nos oferece por toda a parte. parte dele como de algo inconcusso. a turba parvular não tem um afazer próprio. proclama o direito à vulgaridade e nega-se a reconhecer instâncias superiores a ele. gesticula. o fenômeno também se produza quando olhamos o conjunto das nações. consequentemente só pode executar uma só coisa: a cabriola. como tirada a norma que fixava as ocupações e as tarefas. Redescobrimento da América. uma ocupação formal. Toma-a como um bonde. relativamente. de sacudir os jugos das normas. sem dúvida. fazem-no os povos. Sem mais averiguações. mas como são incapazes de criar outro. fica de cabeça para baixo. de modo algum. É deplorável o frívolo espetáculo que os povos menores oferecem. de ficar de cabeça para baixo. povos-massa resolvidos a rebelar-se contra os grandes povos criadores. Esta é a primeira conseqüência que sobrevem quando no mundo deixa de mandar alguém: que os demais. Sobretudo. Cada um sente a delícia de evadir-se da pressão que a presença do mestre impunha. que muitos chegaram a dá-la como um fato. se põe na ponta dos pés a increpar a Europa e declarar sua cessação na história universal. entesa-se. os povos-massa resolveram dar como caduco aquele sistema de normas que é a civilização européia. não sabem o que fazer. portanto. Qual é o resultado? A Europa havia criado um sistema de normas cuja eficácia e fertilidade os séculos demonstraram. Ora. dando-se ares de pessoa maior que rege seus próprios destinos. minorias de estirpes humanas que organizaram a história. povos inteiros. de sentir-se dono do próprio destino. quando alguém notifica que o mestre saiu. cada nação e naçãozinha brinca. embora não recordem sinceramente haver-se convencido resolutamente disso em nenhuma data determinada. Era natural que se esse modo de ser predomina dentro de cada povo. Não que acreditavam a sério e com evidência nele. mas que se habituaram a dá-lo como certo. e para encher o tempo entregam-se à cabriola. deixa de mandar. e fiz notar que sua principal característica consiste em que.

deixa de mandar. como agora se diz. Se. III O cigano foi se confessar.como outras vezes aconteceu uma germinação de normas novas substitui as antigas e um fervor novíssimo absorva em seu fogo jovem os velhos entusiasmos de minguante temperatura.nações. Na região do globo que elas ocupam amadureceu o módulo de existência humana conforme ao qual foi organizado o mundo. em seu eixo. e aproveitam com ar festivo este tempo de pesados imperativos. ao dissociar-se do resto. Esta é a horrível situação íntima em que se encontram já as juventudes melhores do mundo. isentas de entraves. causa file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. indivíduos . Isso seria o admitido. desolação. Mas a festa dura pouco. que subirá. Os inferiores pensam que lhes tiraram um peso de cima. Não importaria que a Europa deixasse de mandar se houvesse alguém capaz de substituí-la. Por Europa entende-se. Inglaterra. De puro sentir-se livres. até as estrelas. metê-las em seu destino. que apenas com sua novidade avantaja-se de repente ao preexistente. Mais ainda: o velho advém velho não por sua senectude. impedir sua extravagância. Vá isto dito para os que.homens e povos . Dentro de pouco ouvir-se-á um grito formidável em todo o planeta. a qual sói ser vacância. pôr em alguém algo nas mãos. Os mandamentos europeus perderam vigência sem que se vislumbrem outros no horizonte. e em vista disso. São um e outro duas parcelas do mandamento europeu que. Quem manda é. e na medida em que iludamos pôr em algo nossa existência desocupamos nossa vida. Não se trata de que . mas depois ouvi um zum-zum de que tinha perdido o valor". Porque viver é ter que fazer algo determinado . mas porque já está aí um princípio novo.htm (72 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .A rebelião das massas. nos anunciam que a Europa já não manda. seu padre. esta desmoralização diverte e até vagamente ilude.diz-se . não é de estranhar que o mundo se desmoralize. perderam seu sentido. antes de tudo e propriamente.está desmoralizado. precavido.aproveitam a ocasião para viver sem imperativos.é cumprir um encargo -. vida vazia. Durante uma temporada. Os inferiores do mundo inteiro já estão fartos de que os encarreguem e sobrecarreguem. as pessoas . Alemanha. a trindade França. A Europa . que imponha um afazer ou obrigação. Mas não há sombra de tal. não seríamos velhos ou levaríamos mais tempo a sê-lo. A rigor. Não é essa a situação presente do mundo? Corre o zum-zum de que não vigorem mais os mandamentos europeus. Sem mandamentos que nos obriguem a viver de um certo modo. com inconsciência de crianças. Mas o que agora acontece na Europa é coisa insalubre e estranha. Esta descendência oriunda do broto de novas juventudes é um sintoma de saúde. eu ia aprender isso. E esta é a pura verdade. mas o padre. esses três povos estão em decadência e seu programa de vida perdeu validez. sem remissão. fica nossa vida em pura disponibilidade. Se não tivéssemos filhos. Todo o mundo . Mandar é dar ocupação às gentes. Um automóvel envelhece em dez anos mais do que uma locomotiva em vinte. Nova York e Moscou não são nada novo com respeito à Europa. pedindo alguém e algo que mande. Porque existiam só os europeus. A mesma coisa acontece com os artefatos. e não se vê quem possa substituí-la. Ao que o cigano respondeu: "Olhe aqui. simplesmente porque os inventos da técnica automobilística têm ocorrido com mais rapidez. Os decálogos conservam do tempo em que eram inscritos sobre pedra ou bronze seu caráter de pesadume. quem tem o encargo. como uivo de cães inumeráveis. A etimologia de mandar significa carregar. começou por interrogá-lo sobre os mandamentos de Deus. Uma vida em disponibilidade é maior negação que a morte. sentem-se vazias.

Mas há outros povos que germinam e se desenvolvem num âmbito ocupado já por uma cultura de história anosa. porque não há tal triunfo. aparente. Que casualidade! Outro invento europeu. outra. Só se pode livrar da equivocação que produz a camouflage quem saiba de antemão. Debaixo dela há um povo. Agora vão começar suas angústias. sobretudo da Europa.o marxismo . quer dizer. com efeito. Assim Roma. só necessita de pretextos.seria a contradição maior que podia sobrevir ao marxismo. E a sério nos dizem que a essência da América é sua concepção praticista e técnica da vida! Em vez de nos dizer: A América é.como notei várias vezes . Que casualidade! Os séculos em que a América nasce. Em virtude de razões diferentes da Rússia. Aqui está a camouflage e sua razão. pertencem de cheio ao que algumas vezes chamei "fenômenos de camouflage histórica". que se pôs a serviço do mandamento contemporâneo "técnica". por exemplo.faz por baixo dele o seu gesto. é sempre dupla. quando é uma coisa tão efetiva como a juventude de um homem. Em última instância reduz-se a este: a técnica. Vá lá saber o que será! O único que cabe afirmar é que a Rússia necessita de séculos ainda para optar ao mando. A camouflage é. O jovem não necessita de razões para viver. uma repristinação ou rejuvenescimento de raças antigas. o autêntico. alcança-se o bastante para compreender seu caráter genérico. Seu aspecto oculta. A América é forte por sua juventude.de uma idade diferente da nossa. Porque não se sabe com plenitude o que são: só se sabe que nem sobre um nem sobre outro se disseram palavras decisivas. Um povo ainda em fermento. Também é um erro atribuir sua força atual aos mandamentos a que obedece. os Estados Unidos significam também um caso dessa específica realidade histórica que chamamos "povo novo". acidental e de superfície. Exemplo: o egípcio ou o chinês. Supõe-se que isso seja uma frase.que há dois grandes tipos de evolução para um povo. Ambos. em vez de declarar. como sempre as colônias. Assim.o que importa muito mais . que cresce em pleno Mediterrâneo. o que tem de russo. e não o que tem de comunista. A mesma coisa acontece com o espelhismo. efetiva. Eu espero um livro em que o marxismo de Stalin apareça traduzido à história da Rússia. Por isso engana a maior parte das pessoas. mas aprendidas. Mas não há tal contradição. E a atitude aprendida.htm (73 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . em Moscou há uma película de idéias européias . e em geral.por exemplo. traduz a sua própria linguagem o vocábulo exótico. suas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Quem faz um gesto aprendido .pensadas na Europa em vista de realidades e problemas europeus. disfarçam-se na idéia que esta lhes oferece. Porque isso. substancial. O conceito corrige os olhos. é o que tem de forte.onde não há indústria . Coisa muito semelhante acontece com Nova York. Daí que para entender as camouflages seja mister também um olhar oblíquo: o de quem traduz um texto com um dicionário ao lado. Que o marxismo tenha triunfado na Rússia . sua substância. não americano. Mas a América não faz com isso senão começar sua história. por essência. como podia haver-se posto a serviço do budismo se este fosse a ordem do dia. profunda. Porque lhe sobra juventude bastou-lhe essa ficção. mas oblíqua. Porque carece ainda de mandamentos necessitou fingir sua adesão ao princípio europeu de Marx. e sua verdadeira significação não é direta. Mas ainda sem saber plenamente o que são.A rebelião das massas. não só diferente como matéria étnica do europeu. A técnica é inventada pela Europa durante os séculos XVIII e XIX. Quando crescem num âmbito onde existe ou acaba de existir uma velha cultura. Há o povo que nasce em um "mundo" vazio de toda civilização. Esquece-se . tudo é autóctone. recebida. Os povos novos não têm idéias. cujas águas estavam impregnadas de civilização greco-oriental. mas . Num povo assim. juvenil. um vocábulo de outro idioma . Daqui que a metade das atitudes romanas não sejam suas. Em todo fato de camouflage histórica há duas realidades que se superpõem: uma. que a camouflage existe. e suas atitudes têm um sentido claro e direto. horror falar de Nova York e de Moscou. uma realidade que não é a que parece. A Rússia é marxista aproximadamente como eram romanos os tudescos do Sacro Império Romano.

fazendo-se totalmente homogêneo com o crime ou irregularidade que arrasta. Mas faria ver a enorme dose de desmoralização íntima. sustentei que era um povo primitivo camuflado pelos últimos inventos (72). o declara francamente. o indivíduo opta por adaptar-se ao indevido. Agora Waldo Frank. salvas geniais exceções. Fora interessante e até útil submeter a este exame o caráter individual do espanhol médio. Não há. Até a mais íntima intimidade de cada indivíduo. nada de estranho em que bastasse uma ligeira dúvida. Eu sempre. e que. Enquanto isso persistir em nosso país. é constitutivamente fraudulento. preferiu falsificar todo o resto de seu ser para o acomodar àquela fraude inicial. Ainda tem de ser muitas coisas. Todas as nações atravessaram jornadas em que aspirou a mandar sobre elas quem não devia mandar. tudo o mais marchará impura e torpemente.htm (74 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . como é social em sua mais elementar estrutura. a pluralidade européia substituída por uma formal unidade? IV A função de mandar e obedecer é a decisiva em toda sociedade. entre elas. Como ande nesta turvação a questão de quem manda e quem obedece. A América conta menos anos que a Rússia. talvez permanecesse intacto de tais repercussões. do Poder. algumas as mais opostas à técnica e ao praticismo. é vão esperar nada dos homens de nossa raça. Rechaçaram a irregularidade transitória e reconstituíram assim sua moral pública. em seu Redescobrimento da América. uma simples vacilação sobre file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. não obstante. é ilusório pensar que possa possuir as virtudes do mando. seus conflitos. Mas. cujo império ou mando. pois. abdique? Não será esta aparente decadência a crise benfeitora que permita à Europa ser literalmente Europa? A evidente decadência das nações européias.A rebelião das massas. Em um mecanismo parecido ao que o adágio popular enuncia quando diz: "Uma mentira faz cento". oriundas dos deslocamentos e crises do imperar. portanto. Daí que se tomamos à parte um indivíduo e o analisamos. tem de retroceder ao ponto de partida e perguntar-se a sério: É tão certo como se diz que a Europa está em decadência e resigne o mandato. não era a priori necessária se algum dia haviam de ser possível os Estados Unidos da Europa. Como não é possível converter em sã normalidade o que em sua essência é criminoso e anormal. de acanalhamento que no homem médio do nosso país produz o fato de ser a Espanha uma nação que vive há séculos com uma consciência suja na questão de mando e obediência. deprimente. Se o homem fosse um ser solitário que acidentalmente se acha travado em convivência com outros. e. Mas o espanhol fez o contrário: em vez de opor-se a ser imperado por quem sua íntima consciência rechaçava. o mundo histórico volta ao caos. O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação como estado habitual e constituído de uma irregularidade. Quem evite cair na conseqüência pessimista de que ninguém vai mandar. A América ainda não sofreu. de algo que enquanto se aceita continua parecendo indevido. dissenções. mas um forte instinto lhes fez concentrar ao ponto suas energias e expelir aquela irregular pretensão de mando. A operação seria. por isso a evito. cabe coligir sem mais dados como anda em seu país a consciência de mando e obediência. enfadonha. embora útil. fica transtornado em sua índole privada por mutações que a rigor só afetam imediatamente à coletividade. com medo de exagerar. Não pode ter vigor elástico para a difícil faina de sustentar-se com decoro na história uma sociedade cujo Estado. ficará perturbada e falsificada.

Por outro lado. Mas o resultado foi contrário ao que se poderia esperar. Está perdida ao encontrar-se só consigo. não avanço. é caminhar para uma meta. inscrita em nossa existência. Como diz o verso de Schiller: Quando os reis constróem. seria violência. Trata-se de uma condição estranha. Estes anos assistimos ao gigantesco espetáculo de inumeráveis vidas humanas que marcham perdidas no labirinto de si mesmas por não ter a que se entregar. Uma das coisas que mais encantam os viajantes quando cruzam a Espanha é que se perguntam a alguém na rua onde fica uma praça ou edifício. impõe. pois cada vida fica em absoluta franquia para fazer o que lhe der na vontade. Livrada a si mesma. outra. por sua natureza própria. viver é algo que cada qual faz por si e para si. no final das contas. com freqüência o perguntado deixa o caminho que leva e generosamente se sacrifica pelo estranho. de tanto não ser mais que caminhar por dentro de si. E o que se lhe manda é. embarcar na opinião trivial que crê ver na atuação dos grandes povos . A meta não é o meu caminhar. Parece que a situação devia ser ideal. que só a mim me importa. que participe em uma empresa.A rebelião das massas. mas manda-se-lhe algo. sincero. A vida humana. Se resolvo andar só por dentro de minha vida. oposta à primeira. caminhará desvencilhada. não se nos pode pedir que estejamos em disponibilidade para atender aos transeuntes e que nos dediquemos a pequenos altruísmos ocasionais. tem de estar posta em algo. se essa vida minha. dou voltas e mais voltas em um mesmo lugar. sendo-o.htm (75 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .uma inspiração puramente egoísta. Mas nunca ao ouvi-lo ou lê-lo pude reprimir este receio: é que o compatriota perguntado ia de fato a alguma parte? Porque poderia ocorrer muito bem que. em muitos casos. triunfou jamais. não é a minha vida. egoisticamente. e ninguém. Depois da guerra. O egoísmo aparente dos grandes povos e dos grandes homens é a dureza inevitável com que se deve comportar quem tem sua vida posta em uma empresa. Quando de verdade se vai fazer algo e nos entregamos a um projeto. Não se manda em seco. sem tensão e sem "forma". mais além. cada vida fica sem si mesma. Por isso continuamos historicamente como há dez anos. inventa-se ou finge frivolamente a si mesma. Mas não consiste só nisso. Sucede o mesmo a cada povo. um caminho que não leva a nada.como dos homens . E como há de se encher com algo. que se perde em si mesmo.haja começado a desmoralizar-se. dedica-se a falsas ocupações. Isto é o labirinto. em um grande destino histórico. conduzindo-o ao lugar que a este interessa. é algo a que ponho esta e que por isso mesmo está fora dela. Por isso não há império sem programa de vida. os carreiros têm o que fazer. Eu não nego que possa haver nesta índole do bom celtibero algum fator de generosidade. quem manda no mundo. para vagar a si mesma. não é entregue por mim a algo. amanhã. para que todo o mundo . o espanhol não está file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não se esqueça que mandar tem duplo efeito: manda-se em alguém. Não é tão fácil como se crê ser puro egoísta. que nada íntimo. O mando consiste em uma pressão que se exerce sobre os demais. Todos os imperativos.em sua vida pública e em sua vida privada . Por um lado. sem ter o que fazer. todas as ordens ficaram em suspenso. o europeu fechou-se em seu interior. vazia. em um destino ilustre ou trivial. Viver é ir arrojado para alguma direção. Hoje é uma coisa. em uma empresa gloriosa ou humilde. Não convém. ficou sem empresa para si e para os demais. precisamente sem um plano de vida imperial. Se fosse isto só. e me alegro que o estrangeiro interprete assim sua conduta. A Europa afrouxou sua pressão sobre o mundo. mas inexorável. Compreende-se. pois. não vou a parte alguma. O egoísmo é labiríntico.

Se falta esta. de grande decoro. Grave é que esta dúvida sobre o mando do mundo. situando-se com fervor sob o drapejar de sua bandeira. Mas nem sequer isso pediria. não me interessa a vida do mundo. formulista. caía na inércia moral. isso é irremissível. Mas obedecer não é agüentar agüentar é envilecer-se . e hoje todo o mundo fala da decadência européia como de uma realidade inconcussa. como os gregos da decadência e como os de toda a história bizantina. A ciência. Quando ninguém.A rebelião das massas. no hábito. não tem projeto nem missão. de que no mundo se fale estes anos tanto sobre a decadência da Europa. sai à vida para ver se as dos outros enchem um pouco a sua. Ora bem. Não sabe. recairá sempre no ontem. bastarão geração e meia para que o velho continente. estimar quem manda e acompanhá-lo. da Inglaterra. Já é surpreendente o detalhe de que esta decadência não tenha sido notada primeiramente pelos estranhos. que excitam a consciência da dignidade. tenazes. fazendo nada. Mas detende ao que a enunciar com um leve gesto e perguntai-lhe em que fenômenos concretos e evidentes funda seu diagnóstico. mas que o descobrimento dela se deva aos europeus mesmos.mas. com file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. exercido até agora pela Europa. a técnica e tudo o mais vivem da atmosfera tônica que cria a consciência de mando. o europeu se irá envilecendo. da França. Tornar-se-á vulgar. na esterilidade intelectual e na barbárie omnímoda. Mas é muito mais grave que este piétenement sur place chegue a desmoralizar por completo o europeu mesmo. esta sugestiva idéia: Não será que começamos a decair? A idéia teve boa Imprensa. A vida criadora é vida enérgica. V Convém que agora retrocedamos ao ponto de partida destes artigos: ao fato. Não penso assim porque eu seja europeu ou coisa parecida. audazes. e esta só é possível em uma destas situações: ou sendo quem manda ou achando-se alojado em um mundo onde manda alguém a quem reconhecemos pleno direito para tal função. Já não terão as mentes essa fé radical em si mesmas que as lança enérgicas. de constantes estímulos. Prontamente vereis a pessoa fazer vagos ademanes e praticar essa agitação de braços para a rotundidade do universo que é característica de todo náufrago. Só a ilusão do império e a disciplina de responsabilidade que ela inspira podem manter em tensão as almas do Ocidente.htm (76 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . na rotina. tão curioso. salvo aqueles que por sua juventude estão ainda em sua pré-história. A vida criadora supõe um regime de alta higiene. a arte. novas em toda ordem. oco. pelo contrário. Não é que diga: se o europeu não há de mandar no futuro próximo. fora do velho continente. ou mando ou obedeço. Se o europeu se habitua a não mandar. Incapaz de esforço criador e luxuoso. Em muitos casos consta-me que meus compatriotas saem à rua para ver se encontram algum forasteiro a quem acompanhar. O europeu se fará definitivamente cotidiano. se isso não trouxesse consigo a volatilização de todas as virtudes e de todos os dotes do homem europeu. e atrás dele o mundo todo. ocorreu a alguns homens da Alemanha. pelo contrário. à captura de grandes idéias. solidarizando-se com ele. Aceitaria que não mandasse ninguém. pensava nisso. tenha desmoralizado o resto dos povos. Nada me importaria a cessação do mando europeu se existisse hoje outro grupo de povos capaz de substitui-lo no Poder e na direção do planeta.

Essas fronteiras fatais da economia atual alemã. Há aqui um erro de ótica que convém corrigir de uma vez para sempre. A única coisa que sem grandes precisões aparece quando se quer definir a atual decadência européia. porque enfara escutar as inépcias que a toda hora se diz. Não há. Não são as instituições. integrá-la com algumas virtudes do professor alemão. porventura. Vice-versa. O professor alemão já viu claro que é absurdo o estilo de produção a que o obriga seu público imediato de professores alemães. a propósito do Parlamento.htm (77 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . efeito. A prova disso é que a combinação se repete em todas as demais ordens. e preferiria. Mas quando se vai precisar um pouco o caráter dessas dificuldades. francesa. a que se agarrar. são as fronteiras políticas dos Estados respectivos. que a depressão indiscutível de seus ânimos não provém de que se sintam pouco capazes. Faltam programas de tamanho congruente com as dimensões efetivas que a vida chegou a ter dentro de cada indivíduo europeu. nutre-se dessa desproporção entre o tamanho da potencialidade européia atual e o formato da organização política em que tem de atuar. que crer muito na autenticidade deste aparente desprestígio. de verbal formalismo. mas se se tomam uma a uma. neste ou no outro problema econômico que esteja levantado. mas em que na forma da vida pública em que se haviam de mover as capacidades econômicas é incongruente como o tamanho destas. Existe toda uma série de objeções válidas ao modo de conduzir-se os Parlamentos tradicionais. de que sentindo-se com mais potencialidade do que nunca. as que vão mal na Europa. Diz-se que as instituições democráticas caíram em desprestígio. a que o condena sua proveniência francesa. precisamente. o alemão ou o inglês não se sentem hoje capazes de produzir mais e melhor que nunca? Em modo algum. o homem de letras parisiense começa a compreender que está esgotada a tradição de mandarinismo literário. Por exemplo. e sente falta da superior liberdade de expressão que desfrutam o escritor francês ou o ensaísta inglês. Na ordem da política interior acontece a mesma coisa. nem sequer que existam perfis utópicos de outras formas de Estado que. sente sua nacionalidade como uma limitação absoluta. e importa muito filiar o estado de espírito desse alemão ou desse inglês nesta dimensão do econômico. tropecem com certas barreiras fatais que os impedem de realizar o que muito bem poderiam. todas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em quanto instrumento de vida pública. conservando as melhores qualidades dessa tradição. Fala-se mal do Parlamento em toda a parte. pareçam preferíveis. A meu ver. Todo bom intelectual da Alemanha. mas não se vê que em nem uma das que contam se intente sua substituição. de impotência que abruma inegavelmente estes anos à vitalidade européia. mas tropeça no mesmo instante com as reduzidas jaulas em que está alojado. O arranco para resolver as graves questões urgentes é tão vigoroso como quando mais o tenha sido. Porque é um desprestígio estranho. pois. na vida intelectual.A rebelião das massas. é o conjunto de dificuldades econômicas que encontra hoje diante de cada uma das nações européias. pelo contrário. da Inglaterra ou da França sente-se hoje afogado nos limites de sua nação. Pois o curioso é. pois. mas pelo contrário. Não se analisou ainda a fundo a estranhíssima questão de por que anda tão em agonia a vida política de todas as grandes nações. É que. com as pequenas nações em que até agora vivia organizada a Europa. vê-se que nem uma delas permite a conclusão de que deve suprimir-se o Parlamento. o desânimo que hoje pesa sobre a alma continental parece-me muito ao da ave de asa larga que ao bater os remígios se fere contra as grades da jaula. O pessimismo. ao menos idealmente. mas as tarefas em que empregá-las. cujos fatores são em aparência tão diferentes do econômico. mas. inglesa. a sensação de menoscabo. Mas isso é justamente o que conviria explicar. por exemplo. adverte-se que nenhuma delas afeta seriamente o poder de criação da riqueza e que o velho continente passou por uma crise muito mais grave nesta ordem. A dificuldade autêntica não radica.

intelectuais. a ser esta: seu magnífico e longo passado a faz chegar file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas a desestima vulgar em que caiu o Parlamento não procede dessas objeções. Porque do contrário. a possibilidade e a urgência de reformar profundamente as Assembléias legislativas. Mais valia recordar que jamais instituição alguma criou na história Estados mais formidáveis.quer dizer. parece-me. Não se confunda. E então descobriu que ser inglês. A situação autêntica da Europa viria.A rebelião das massas. porque isso implica que é imprescindível e que é capaz de nova vida. Este é. a fabricação de automóveis. Pela primeira vez. Todas as graças peculiares da técnica americana são quase positivamente efeitos e não causas da amplitude e homogeneidade de seu mercado. seria inútil substituir o detalhe de suas instituições. uma origem puramente íntima e paradoxal. suas possibilidades de vida. Conseqüência: o automóvel europeu está em decadência. que eram o universo. nem ainda teoricamente. cada qual por si. hoje é superior a fabricação norte-americana desse artefato. por exemplo. para fazê-las "ainda mais" eficazes. em que consiste o que há que fazer. alheia de todo a eles no que diz respeito a utensílios políticos. pois. políticos. porque antes o inglês. Se se olha com um pouco de cuidado esse famoso desprestígio. tome-se qualquer atividade concreta: por exemplo. Ora bem: o melhor que humanamente pode dizer-se de algo é que necessita ser reformado. O automóvel é invento puramente europeu. que não é eficaz. na maior parte dos países. não sente respeito a seu Estado. em suma. Procede de outra causa. Para dar ao dito um apoio plástico que o sustente. alemão ou francês é ser provinciano.são incomensuráveis com o tamanho do corpo coletivo em que está encerrado. Portanto. sente que aqueles . de que não sente ilusão pelos Estados nacionais em que está inscrito e prisioneiro. o fabricante europeu . mais eficientes que os Estados parlamentares do século XIX. de que não estima as finalidades da vida pública tradicional. que se ananicou. Por isso exigimos de quem proclama a ineficácia dos Parlamentos que ele possua uma idéia clara de qual é a solução dos problemas públicos atuais.industrial e técnico . portanto. mas o Estado mesmo. levam por via direta e evidente à necessidade de reformá-lo. dentro da qual já não cabe. se em nenhum país está hoje claro. o francês e o alemão acreditavam. a autêntica origem dessa impressão de decadência que achaca o europeu. seu estilo vital . O desprestígio dos Parlamentos não tem nada que ver com seus notórios defeitos. Procede de que o europeu não sabe em que empregá-los. Imagine-se que uma fábrica européia visse ante si uma área mercantil formada por todos os Estados europeus e suas colônias e seus protetorados. já que a presunção de haver minguado nasce precisamente de que cresceu sua capacidade e tropeça com uma organização antiga. Ninguém duvida de que esse automóvel previsto para quinhentos ou seiscentos milhões de homens seria muito melhor e mais barato que o "Ford". com declarar sua inutilidade. mas apenasmente de que a fábrica americana pode oferecer seu produto sem dificuldade alguma a cento e vinte milhões de homens. Deparou-se. Entretanto. Todavia. com os limites de sua nação. Fala-se. porque o irrespeitável não são estas. O automóvel atual saiu das objeções que se opuseram ao automóvel de 1910. A "racionalização" da indústria é conseqüência automática de seu tamanho. com que é "menos" que antes.de automóveis sabe muito bem que a superioridade do produto americano não procede de nenhuma virtude específica usufruída pelo homem de ultramar.htm (78 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Neste caso a finalidade seria a solução dos problemas públicos em cada nação. não tem sentido acusar de ineficácia os instrumentos institucionais. Nós devemos então perguntar: Para que não é eficaz? Porque a eficácia é a virtude que um utensílio tem para produzir uma finalidade. ao tropeçar o europeu em seus projetos econômicos. O fato é tão indiscutível que esquecê-lo demonstra franca estupidez. o que se vê é que o cidadão. pois.

se é o ilimitado? Muito simples: limitando um pedaço de campo mediante uns muros que oponham o espaço incluso e finito ao espaço amorfo e sem fim. Note-se que isto significa nada menos que a invenção de uma nova classe de espaço. para delimitar seu contorno. que aportam ao repertório humano uma grande inovação: a de construir uma praça pública e em torno uma cidade fechada ao campo. portanto. e nele se vivia com todas as conseqüências que isso traz para o ser do homem. e quanto a certos pormenores. fica arcano..A rebelião das massas. Este campo menor e rebelde. ao passo que a abelha vermelha só existe em enxame construtor de favos (74). mas para discutir sobre a coisa pública. igual às covas que existem no campo. um espaço sui generis. reporto-me ao que ali disse (73). e. mas que é pura e simplesmente a negação do campo. que pratica secção do campo infinito e se reserva a si mesmo diante dele. dirá: "Eu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que são misteres privados e familiares. sente e quer conserva a modorra inconsciente em que vive a planta. É o espaço civil. puramente rural e sem caráter específico. É este o esquema do drama enorme que se representará nos anos vindouros. A polis não é primordialmente um conjunto de casas habitáveis. novíssimo. Porque. Mas o trânsito desta pré-história. mas um lugar de ajuntamento civil. A urbe não está feita. e tudo o mais é pretexto para assegurar esse buraco. As grandes civilizações asiáticas e africanas foram neste sentido grandes vegetações antropomorfas. mercê dos muros que a balizam. Mas agora podemos considerar o assunto desde outro aspecto. o grande urbano. em que o homem se liberta de toda comunidade com a planta e o animal. Em certo modo. é um pedaço de campo que volta costas ao resto. muito mais nova que o espaço de Einstein. é campo abolido. fruta de nova espécie que dá o solo de ambas as penínsulas. VI Contei em outro lugar a paixão e morte do mundo greco-romano. errabundo. o ágora. a um novo estádio de vida onde tudo cresceu. como abelhas em sua colmeia. O mesmo acontece com a urbe ou polis que começa por ser um buraco: o foro. um espaço demarcado para funções públicas. E agora vê-se obrigada a superar-se a si mesma. se o campo é toda a terra. Eis aqui a praça. mas às vezes as estruturas sobreviventes desse passado são anãs e impedem a atual expansão. Saberá libertar-se de sobrevivências. A praça. Até então só existia um espaço: o campo. um "interior" fechado por cima. nem sequer está claro o nexo étnico entre aqueles povos proto-históricos e essas estranhas comunidades. Não é. para proteger-se da intempérie e engendrar. Gregos e latinos aparecem na história alojados. da "natureza". como a cabana ou o domus. 0 caso é que a escavação e a arqueologia nos permitem ver algo do que havia no solo de Atenas e no de Roma antes de que Atenas e Roma existissem. um fato de que há que partir tal como o zoólogo parte do dado bruto e inexplicado de que o sphex vive solitário. tríplice extrato do sumo que ressuma a polis.htm (79 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . como a casa. ao brotar da cidade. Como é isso possível? Como pode o homem subtrair-se ao campo? Onde irá. O homem campesino é todavia um vegetal. com efeito. Mas o greco-romano decide separar-se do campo. quanto pensa. deixa estes fora e cria um âmbito à parte puramente humano. Este é um fato que nestas páginas necessitamos tomar como absoluto e de gênese misteriosa.. do cosmos geobotânico. A Europa fez-se em forma de pequenas nações. a definição mais certa do que é a urbe e a polis parece-se muito com a que comicamente se dá do canhão: rodeia-se o bocal de um poço com arame muito apertado e tem-se um canhão. peregrino. Por isso Sócrates. Sua existência. dentro de urbes. ou ficará prisioneira para sempre delas? Porque já ocorreu uma vez na história que uma grande civilização morreu por não poder substituir sua idéia tradicional de Estado. que prescinde do resto e se opõe a ele. a idéia e o sentimento nacionais foram sua invenção mais característica. de poleis.

Está claro que a unidade jurídica não é a aspiração que propele o movimento criador do Estado. Desta maneira nasce a urbe. É a república. Com rara insistência. estritamente no duplo sentido físico e jurídico desse vocábulo. de assento. O Estado-cidade. Pelo contrário. oculta. Assim. e nosso Levante cai em quanto pode no cantonalismo. E quem diz o sangue. Constrói sobre a heterogeneidade zoológica uma homogeneidade abstrata de jurisprudência (76). constituída. Que souberam disso jamais o hindu. a palavra "estado" indica que as forças históricas conseguem uma combinação de equilíbrio. basta traduzi-los. toda a costa mediterrânea mostrou sempre uma espontânea tendência a este tipo estatal. por exemplo. Com isto quero dizer que o Estado não é uma forma de sociedade que o homem acha presenteada. Não há. É mestiço e plurilíngüe. mas que necessita forjá-la penosamente. Por uma parte. É superação de toda sociedade natural. Não se pense que esta origem da urbe é uma pura construção minha e que só lhe corresponde uma verdade simbólica. nem o egípcio? Até Alexandre e César. mas de cidadãos. Mas este caráter de imobilidade. que a ele tendiam. permite ver claramente o específico do princípio estatal. que não se compõe de homens e mulheres. nem o chinês. oferece-se ao existir humano. como todo equilíbrio. o Norte da África (Cartago = a cidade) repete o mesmo fenômeno. entre o ius e o rus. Itália não saiu até o século XIX do Estado-cidade. de esforços. Neste sentido significa o contrário do movimento histórico: o Estado é convivência estabilizada. de forma quieta e definida. o Estado começa quando o homem se afana por fugir da sociedade nativa dentro da qual o sangue o inscreveu. Synoikismos é acordo de ir viver juntos. pois. que o Estado constituído é só o resultado de um movimento anterior de luta. irredutível às primigênias e mais próximas ao animal. o persa.A rebelião das massas. e nela vão pôr os que antes só eram homens suas melhores energias. Faz esquecer. a criação de uma entidade mais abstrata e mais alta que o oikos familiar. a cidade nasce por reunião de povos diversos. Na gênese de todo Estado vemos ou entrevemos sempre o perfil de um grande empresário. que é um ressábio daquela milenária inspiração (75). a história da Grécia e de Roma consiste na luta incessante entre esses dois espaços: entre a cidade racional e o campo vegetal. A dispersão vegetativa pela campina sucede a concentração civil na cidade. diz também qualquer outro princípio natural. não tenho nada que ver com as árvores no campo.htm (80 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Ao Estado constituído precede o Estado constituinte. em suma. desde logo como Estado. ajuntamento. entre o jurista e o labrego. Com mais ou menos pureza. respectivamente. a superação da casa ou ninho infra-humano. estática. Em certo modo. e este é um princípio de movimento. Originariamente o Estado consiste na mescla de sangues e línguas. pela relativa pequenez de seus ingredientes. A urbe é a super-casa. Não é como a horda ou a tribo e demais sociedades fundadas na consangüinidade que a Natureza se encarrega de fazer sem colaboração com o esforço humano. no extrato primário e mais fundo de sua memória conservam os habitantes da cidade greco-latina a lembrança de um synoikismos. o dinamismo que produziu e sustém o Estado. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O impulso é mais substantivo que todo direito. o idioma. que solicitar os textos. portanto. é o propósito de empresas vitais maiores que as possíveis às minúsculas sociedades consangüíneas. Uma dimensão nova. eu só tenho quer ver com os homens na cidade". a politea.

incluso o famoso. O indivíduo de cada coletividade não vive já só desta. o princípio estatal é o movimento que leva a aniquilar as formas sociais de convivência interna. notareis que não refletem muito nem pouco a realidade a que parecem referir-se.filósofos. Aplique-se isto ao momento atual europeu. Um povo é capaz de Estado na medida em que saiba imaginar. um desequilíbrio entre duas convivências: a interna e a externa. isto é. matemáticos. substituindo-as por uma forma social adequada à nova convivência externa.direitos. Ouvi-los-eis falar em fórmulas taxativas sobre si mesmos e sobre seu contorno. Nesta situação. Daí que todos os povos tenham tido um limite em sua evolução estatal.htm (81 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . é a realidade vital concreta. Quem seja capaz de orientar-se com precisão nela. porque a nossa chegou ao mesmo capítulo. A forma social estabelecida . o político. Observai os que vos rodeiam e vereis como avançam perdidos em sua vida. e. Sobrevem. A imaginação é o poder libertador que o homem tem. em geral. não houve provavelmente em todo o mundo antigo mais que duas: Temístocles e César. capazes de imaginar a cidade que triunfa da dispersão campesina. VII Mentes lúcidas. mas foi vão empenho. uma claridade sobre coisas abstratas. De sorte que a claridade da ciência não está tanto na cabeça dos que a fazem como nas coisas de que falam. sem dúvida. O essencialmente confuso. "costumes" e religião . sem mais contatos que os excepcionais com as limítrofes. quem tentou libertá-las da cidade. encontraremos sempre o seguinte esquema: várias coletividades pequenas cuja estrutura social está feita para que viva cada qual dentro de si mesma. quem não se perca na vida. se analisais superficialmente essas idéias. O grego e o romano. o que se chama mentes lúcidas. Mas a este isolamento efetivo sucedeu de fato uma convivência externa. Isto indica que no passado viveram efetivamente isoladas. são abstratas. é político precisamente porque é torpe (77). em suma.a maior fantasia da antigüidade -. mais ampla e nova. seja ela qual for. na Grécia e em Roma outros homens que pensaram idéias claras sobre muitas coisas . Por isso é autêntica criação. pois. Mas sua claridade foi de ordem científica. sobretudo econômica. aquele que vislumbre sob o caos que apresenta toda situação vital a anatomia secreta do instante. que é sempre única. e se aprofundais na análise achareis que nem sequer pretendem file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e as coisas abstratas são sempre claras. mas parte de sua vida está travada com indivíduos de outras coletividades com os quais comercia mercantil e intelectualmente. sem ter a mais leve suspeita do que lhes acontece. A coisa é surpreendente porque. e estas expressões abstratas adquirirão figura e cor. O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. Se observamos a situação histórica que precede imediatamente o nascimento de um Estado. de imaginar outra nunca sida. detiveram-se nos muros urbanos. dois políticos.A rebelião das massas. esse é de verdade uma mente lúcida. Importa-nos muito aos europeus de hoje recordar esta história. cada uma por si e para si. Houve quem quis levar as mentes greco-romanas mais além. precisamente o limite imposto pela Natureza a sua fantasia. A escuridão imaginativa do romano. A forma social de cada uma serve só para uma convivência interna. além disso. naturalistas -. encarregou-se de assassinar César . intricado. Houve. Todas as coisas de que fala a ciência. representada por Bruto. Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência. vão como sonâmbulos. Porém. dentro de sua boa ou má sorte. o que indicaria que possuem idéias sobre tudo isso.favorece a interna e dificulta a externa.

já está no firme. O homem o suspeita. César é o exemplo máximo que conhecemos de dom para encontrar o perfil da realidade substantiva em um momento de confusão pavorosa. sob pena de consunção. Porque a vida é inteiramente um caos onde a criatura está perdida. emprega-as como trincheiras para defender-se de sua vida. absolutamente veraz porque se trata de salvar-se. as idéias dos náufragos. depende de um mísero detalhe técnico: o procedimento eleitoral. Quem descobre uma nova verdade científica teve antes que triturar quase tudo que havia aprendido e chega a essa nova verdade com as mãos sangrentas por haver jugulado inumeráveis lugares comuns. Homem de mente lúcida é aquele que se liberta dessas "idéias" fantasmagóricas e olha de frente a vida. é onipotente. como as amadríadas estão. queira ou não queira. que viver é sentir-se perdido -. como espantalhos para afugentar a realidade. como o náufrago. a de Cícero. ao começar o século I antes de Cristo. íntima farsa. Suas instituições públicas tinham uma força municipal e eram inseparáveis da urbe.A rebelião das massas. dona da Itália. pôs a sua direita uma magnífica cabeça de intelectual. ajustar-se a tal realidade. já começou a descobrir sua autêntica realidade. rica. tudo vai bem. se se ajusta à realidade. e se convence de que tudo nela é problemático. está a ponto de fenecer porque se obstina em conservar um regime eleitoral estúpido. e esse olhar trágico. é dizer. porque se compõe de situações únicas em que o homem se encontra de repente submerso. buscará algo para se agarrar. Pelo contrário: o indivíduo trata com elas de interceptar sua própria visão do real. uma fuga da vida (a maior parte dos homens de ciência dedicaram-se a ela por terror a defrontar sua própria vida. do Oriente clássico e helenístico. O resto é retórica. adscritas à árvore que tutelam. Tudo o mais é secundário. Quem não se sente de verdade perdido perde-se inexorávelmente. Havia que votar na cidade. estava a ponto de rebentar. Nossas idéias científicas valem na medida em que nos tenhamos sentido perdidos ante uma questão. lhe facultará pôr ordem no caos de sua vida. e procura ocultá-la com um véu fantasmagórico onde tudo está muito claro. Não lhe interessa que suas "idéias" não sejam verdadeiras.a saber. Instintivamente. Estas são as únicas idéias verdadeiras. em lemas nem vocábulos. não obstante ser a ciência. Entretanto. dedicada durante toda a sua vida a confundir as coisas. A cidade tiberina. Um regime eleitoral é estúpido quando é falso. Por isso é o tema que nos permite distinguir melhor quais as mentes lúcidas e quais as mentes rotineiras. postura. quem o aceita já começou a encontrar-se. Não são mentes claras. O excesso de boa fortuna havia deslocado o corpo político romano. em receitas. de sua vida mesma. Isto é certo em todas as ordens. em que tenhamos visto bem seu caráter problemático e compreendamos que não podemos apoiar-nos em idéias recebidas. da Espanha. E como se o destino se houvesse comprazido em sublinhar a exemplaridade. e se sente perdido. em uma hora das mais caóticas que há vivido a humanidade. se não. embora o resto marche otimamente. A política é muito mais real que a ciência. Mas muito menos os que viviam repartidos por todo o mundo romano. da Ásia Menor. daí sua notória falta de jeito ante qualquer situação concreta). A saúde das democracias. Como isso é a pura verdade .htm (82 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . quaisquer que sejam seu tipo e seu grau. peremptório. Roma. mas aterra-o encontrar-se cara a cara com essa terrível realidade. Já os cidadãos do campo não podiam assistir aos comícios. de seu. não topa nunca com a própria realidade. Como as eleições eram file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. não se encontra jamais. não tem inimigos à sua frente. Se o regime de comícios é acertado. ainda na ciência. tudo vai mal.

Por que? Constituíam o Poder os republicanos. com atletas do circo . O greco-romano padece de uma surpreendente cegueira para o futuro. "A República não era mais que uma palavra". entreteve-se em fazê-la. Mas isso não é ser insensível ao tempo. Mas. A solução de César é totalmente oposta à conservadora. foi necessário falsificá-las. Segunda. como Lagartijo ao projetar-se para matar. para evitar a dissolução das instituições é preciso um príncipe. indaga em toda atualidade um precedente. pelo menos.A rebelião das massas. mas que era investido de poderes superiores. como o daltonista não vê a cor vermelha. os transtornos da vida pública romana provêem de sua excessiva expansão. Também ele retrograda. em seus livros Sobre a República. Os generais da esquerda e da direita . transferiu-se do homem antigo ao filósofo moderno. Daí que todo o seu viver é em certo modo reviver. que tomar seus atos e dar-lhes seu nome. se queremos entender aquela política. Nenhuma magistratura gozava de autoridade. quer dizer. O segredo está em sua façanha capital: a conquista das Gálias. impossíveis. César sustentará a necessidade de romanizar a fundo os povos bárbaros do Ocidente. em seus memoriais a César. e Salústio. Eu suspeito que esse diagnóstico é errôneo. mais perigosos em um futuro não muito remoto que as nações corruptas do Oriente.com veteranos do exército. resumem o pensamento de todos os publicistas pedindo um princips civitatis. um moderator. Antes de fazer agora algo dá um passo atrás. Para empreendê-la teve de se declarar rebelde ante o Poder constituído.htm (83 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . começa pelo "depois" e não pelo "antes". Existiam em um presente pontual. A expressão é de César. César não explicou nunca sua política. que ao olhar a vida greco-romana nos pareça anacrônica. o qual. Cícero. Para nós a palavra "príncipe" tem um sentido quase oposto ao que tinha para um romano.exibiam insolências em vazias ditaduras que não levavam a nada. vive radicalmente no pretérito. Compreende-se. Compreende que para curar as conseqüências das anteriores conquistas romanas não havia mais remédio senão prossegui-las aceitando até o fim tão enérgico destino. No ar estão as palavras. Isto é ser arcaizante e isto o foi quase sempre o antigo. um rector rerum publicarum. de ver sua vida como uma dilatação na temporalidade. pois. Não temos mais remédio. Sua política pode resumir-se em duas cláusulas: Primeira. Sobretudo urgia conquistar os povos novos.que se encarregavam de romper as urnas.Mário e Sila . que confunde duas coisas. Significa simplesmente um cronismo incompleto. Este entendia por tal precisamente um cidadão como os demais. os fiéis ao Estado-cidade. Esta como mania de tomar todo presente com as pinças de um exemplo pretérito. a fim de regular o funcionamento das instituições republicanas. os conservadores. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A cidade não pode governar tantas nações. Não o vê. em compensação. Dava a casualidade de que era precisamente César e não o manual de cesarismo que sói vir depois. e informado por aquele mergulha na atualidade. Sem o apoio de autêntico sufrágio as instituições democráticas estão no ar. e os candidatos organizavam partidas de cacete . Toda nova conquista é um delito de lesa-república. para nós. protegido e deformado pelo escafandro ilustre. defeituoso da asa futurista e com hipertrofia de antanhos. ou. Disse-se (Spengler) que os greco-romanos eram incapazes de sentir o tempo. Os europeus sempre gravitamos em direção ao futuro e sentimos que é esta a dimensão mais substancial do tempo. busca no passado um modelo para a situação presente.

A rebelião das massas.

ao qual denomina, com lindo vocábulo de égloga, sua "fonte". Digo isto porque já os antigos biógrafos de César se fecham à compreensão desta enorme figura supondo que tratava de imitar Alexandre. A equação impunha-se: se Alexandre não podia dormir pensando nos lauréis de Milcíades, César devia forçosamente sofrer de insônia pelos de Alexandre. E assim sucessivamente. Sempre o passo atrás e o pé de hoje na pegada de ontem. O filólogo contemporâneo repercute o biógrafo clássico. Crer que César aspirava a fazer algo assim como o que fez Alexandre - e isto creram quase todos os historiadores - é renunciar radicalmente a entendê-lo. César é aproximadamente o contrário de Alexandre. A idéia de um reino universal é o único que os emparelha. Mas esta idéia não é de Alexandre, mas vem da Pérsia. A imagem de Alexandre teria empurrado César para o Oriente, para o prestigioso passado. Sua preferência radical pelo Ocidente revela melhor a vontade de contradizer o macedônio. Mas, ainda mais, não é um reino universal, apenas, o que César se propõe. Seu propósito é mais profundo. Quer um Império romano que não viva de Roma, mas da periferia, das províncias, e isso implica a superação absoluta do Estado-cidade. Um Estado onde os povos mais diversos colaborem, de que todos se sintam solidários. Não um centro que manda e uma periferia que obedece, mas um gigantesco corpo social, onde cada elemento seja por sua vez passivo e ativo do Estado. Tal é o Estado moderno, e esta foi a fabulosa antecipação de seu gênio futurista. Mas isso supunha um poder extraromano, anti-aristocrata, infinitamente elevado sobre a oligarquia republicana, sobre seu príncipe, que era só um primus inter pares. Este poder executor e representante da democracia universal só podia ser a Monarquia com sua sede fora de Roma. República! Monarquia! Duas palavras que na história trocam constantemente de sentido autêntico, e que por isso é preciso a todo instante triturar para certificar-se de sua eventual força. Seus homens de confiança, seus instrumentos mais imediatos, não eram arcaicas ilustrações da urbe, mas gente nova, provinciais, personagens enérgicos e eficientes. Seu verdadeiro ministro foi Cornélio Balbo, um homem de negócios gaditano, um atlântico, um "colonial ". Mas a antecipação do novo Estado era excessiva: as cabeças lentas do Lácio não podiam dar brinco tão grande. A imagem da cidade, com seu tangível materialismo, impediu que os romanos "vissem" aquela organização novíssima do corpo público. Como podiam formar um Estado homens que não viviam numa cidade? Que gênero de unidade era essa, tão sutil e tão mística? Repito uma vez mais: a realidade que chamamos Estado não é a espontânea convivência de homens que a consangüinidade uniu. O Estado começa quando se obriga a conviver a grupos nativamente separados. Esta obrigação não é desnuda violência, mas que supõe um processo incitativo, uma tarefa comum que se propõe aos grupos dispersos. Antes que nada é o Estado projeto de um fazer e programa de colaboração. Chama-se às pessoas para que juntas façam algo. O Estado não é consangüinidade, nem unidade lingüística, nem unidade territorial, nem contiguidade de habitação. Não é nada material, inerte, dado e limitado. É um puro dinamismo - a vontade do fazer algo em comum -, e mercê a isso a idéia estatal não está por nenhum termo físico (78). Agudíssima a conhecida empresa política de Saavedra Fajardo: uma flecha, e debaixo: "Ou sobe ou desce". Isso é o Estado. Não uma coisa, mas um movimento. O Estado é em todo instante algo que vem de e vai para. Como todo movimento, tem um terminus a quo e um terminus ad quem. Corte-se por

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A rebelião das massas.

qualquer hora a vida de um Estado que o seja verdadeiramente, e se achará uma unidade de convivência que parece fundada em tal ou qual atributo material: sangue, idioma, "fronteiras naturais". A interpretação estática nos levará a dizer: isso é o Estado. Mas logo advertimos que essa agrupação humana está fazendo algo comunal: conquistando outros povos, fundando colônias, federando-se com outros Estados; quer dizer, que em toda hora está superando o que parecia princípio material de sua unidade. E o terminus ad quem, é o verdadeiro Estado, cuja unidade consiste precisamente em superar toda unidade dada. Quando esse impulso para o mais além cessa, o Estado automaticamente sucumbe, e a unidade que já existia e parecia fisicamente cimentada - raça, idioma, fronteira natural - não serve de nada: o Estado se desagrega, se dispersa, se atomiza. Só essa duplicidade de momentos no Estado - a unidade que já é e a mais ampla que projeta - permite compreender a essência do Estado nacional. Sabido é que ainda não se logrou dizer em que consiste uma nação, se damos a este vocábulo uma acepção moderna. O Estado-cidade era uma idéia muito clara, que se via com os olhos da cara. Mas o novo tipo de unidade pública que germinava em galos e germanos, a inspiração política do Ocidente, é coisa muito mais vaga e fugidia. O filólogo, o historiador atual, que é de seu arcaizante, encontra-se ante este formidável fato quase tão perplexo como César e Tácito quando com sua terminologia romana queriam dizer o que eram aqueles Estados incipientes, transalpinos e ultra-renanos, ou bem os espanhóis. Chamam-nos civitas, gens, natio, percebendo que nenhum destes nomes coincide com a coisa (79). Não são civitas, pela simples razão de que não são cidades (80). Mas nem sequer cabe indefinir o termo e aludir com ele um território delimitado. Os povos novos trocam com suma facilidade de torrão, ou pelo menos ampliam e reduzem o que ocupavam. Tampouco são unidades étnicas - gentes, nationes. - Por muito longe que recorramos, os novos Estados aparecem já formados por grupos de nacionalidades independentes. São combinações de sangues diferentes. Que é, pois, uma nação, já que não é nem comunidade de sangue, nem adscrição a um território, nem coisa alguma desta ordem? Como sempre acontece, também neste caso uma pulcra submissão aos fatos nos dá a chave. Que é que salta aos olhos quando repassamos a evolução de qualquer "nação moderna" - França, Espanha, Alemanha -? Simplesmente isto: o que em certa data parecia constituir a nacionalidade aparece negado numa data posterior. Primeiro, a nação parece a tribo, e a não-nação a tribo de ao lado. Depois a nação se compõe de duas tribos, mais tarde é uma comarca e pouco depois é já todo um condado ou ducado ou "reino". A nação é Leão, mas não Castela; depois é Leão e Castela, mas não Aragão. É evidente a presença de dois princípios: um, variável e sempre superado - tribo, comarca, ducado, "reino", com seu idioma ou dialeto -; outro, permanente, que salta libérrimo sobre todos esses limites e postula como unidade o que aquele considerava precisamente como radical contraposição. Os filólogos - chamo assim aos que hoje pretendem denominar-se "historiadores" - praticam o mais delicioso truísmo quando partem do que agora, nesta data fugaz, nestes dois ou três séculos, são as nações do Ocidente e supõem que Vercingetorix ou que Cid Campeador queriam já uma França deste Saint-Malo a Estrasburgo - precisamente - ou uma Spania desde Finisterre a Gibraltar. Estes filólogos como o ingênuo dramaturgo - fazem quase sempre que seus heróis partam para a guerra dos Trinta Anos. Para nos explicar como se formaram a França e a Espanha, supõem que a França e a Espanha preexistiam como unidades no fundo das almas francesas e espanholas. Como se existissem franceses e espanhóis originariamente antes de que a França e a Espanha existissem! Como se o francês e o espanhol não fossem simplesmente coisas que foram formadas em dois mil anos de faina!

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A rebelião das massas.

A verdade pura é que as nações atuais são apenas a manifestação atual daquele princípio variável, condenado à perpétua superação. Esse princípio não é agora o sangue nem o idioma, posto que a comunidade de sangue e de idioma na França ou na Espanha foi efeito, e não causa, da unificação estatal; esse princípio é agora a "fronteira natural". Está bem que um diplomata empregue em sua esgrima astuta este conceito de fronteiras naturais, como ultima ratio de suas argumentações. Mas um historiador não pode entrincheirar-se atrás dele como se fosse um reduto definitivo. Nem é definitivo, nem sequer suficientemente específico. Não se esqueça qual é, rigorosamente proposta, a questão. Trata-se de averiguar que é o Estado nacional - o que hoje costumamos chamar nação -, a diferença de outros tipos de Estado, como o Estado-cidade ou, indo ao outro extremo, como o Império que Augusto fundou (81). Se se quer formular o tema de modo ainda mais claro e preciso, diga-se assim: Que força real produziu essa convivência de milhões de homens sob uma soberania de Poder público que chamamos França, ou Inglaterra, ou Espanha, ou Itália, ou Alemanha? Não foi a prévia comunidade de sangue, porque cada um desses corpos coletivos está regado por torrentes cruentas muito heterogêneas. Não foi tampouco a unidade lingüística, porque os povos hoje reunidos em um Estado falavam ou falam ainda idiomas diferentes. A relativa homogeneidade de raça e língua de que hoje gozam - supondo que isso seja um gozo - é resultado da prévia unificação política. Portanto, nem o sangue nem o idioma fazem o Estado nacional; pelo contrário, é o Estado nacional quem nivela as diferenças originárias de glóbulo vermelho e som articulado. E sempre aconteceu assim. Poucas vezes, para não dizer nunca, terá o Estado coincidido com uma identidade prévia de sangue ou idioma. Nem a Espanha é hoje um Estado nacional porque se fale em toda ela o espanhol (82), nem foram Estados nacionais Aragão e Catalunha porque em certo dia, arbitrariamente escolhido, coincidissem os limites territoriais de sua soberania com os da fala aragonesa ou catalã. Estaríamos mais próximos da verdade se, respeitando a casuística que toda realidade oferece, nos inclinássemos a esta presunção: toda unidade lingüística que abarca um território de alguma extensão é quase certamente precipitado de alguma unificação política precedente (83). O Estado tem sido sempre o grande turgimão. Há muito tempo que isto consta, e é muito estranha a obstinação com que, entretanto, se persiste em dar à nacionalidade como fundamentos o sangue e o idioma. Nisso eu vejo tanta ingratidão como incongruência. Porque o francês deve sua França atual, e o espanhol sua atual Espanha, a um princípio X, cujo impulso consistiu precisamente em superar a estreita comunidade de sangue e de idioma. De sorte que a França e a Espanha consistiriam hoje no contrário do que as tornou possíveis. Igual tergiversação comete-se ao querer fundar a idéia de nação numa grande figura territorial, descobrindo o princípio de unidade, que sangue e idioma não proporcionam, no misticismo geográfico das "fronteiras naturais". Tropeçamos aqui com o mesmo erro de ótica . O acaso da data atual mostra-nos as chamadas nações instaladas em amplos torrões do continente ou nas ilhas adjacentes. Desses limites atuais quer fazer-se algo definitivo e espiritual. São, dizem, "fronteiras naturais", e com sua "naturalidade" significa-se uma como mágica predeterminação da história pela via telúrica. Mas este mito volatiliza-se imediatamente submetendo-o ao mesmo raciocínio que invalidou a comunidade de sangue e de idioma como fontes da nação. Também aqui, se retrocedemos alguns séculos, surpreende-nos a França e a Espanha dissociadas em nações menores, com suas inevitáveis "fronteiras

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ninguém foi nunca só súdito do Estado. Não é a comunidade nativa de uma ou outra o que constituiu a nação. se acreditou necessário recorrer a raça. Por que. E claro que ao desfazer uma tergiversação serei eu quem pareça cometê-la agora. em seu afã de unificação. na França. os demais . provincianos. em sua política mesma.para A. frente às muitas raças e às muitas línguas. Não foram. Mas isso apenas demonstra que a "naturalidade" das fronteiras é meramente relativa.no sentido que este vocábulo emite no Ocidente de há mais de um século .htm (87 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Qual tem sido então o papel das fronteiras na formação das nacionalidades. pois. foram meio material para assegurar a unidade. mas. mas ao contrário: a princípio foram estorvo. princípio da nação. produziu uma relativa unificação de sangues e idiomas que serviu para consolidar a unidade. pois. naturais". Não obstante o que. já que não têm sido o fundamento positivo destas? A coisa é clara e de suma importância para entender a autêntica inspiração do Estado nacional diante do Estado-cidade. sobretudo jurídica. colonos . classes relativamente privilegiadas e classes relativamente postergadas. pois.significa a "união hipostática" do Poder público e a coletividade por ele regida. aparece evidente que todo indivíduo se sentia sujeito ativo do Estado. como com outros tantos estorvos. na Espanha. uno com ele. porque nestas achamos uma intimidade e solidariedade radical dos indivíduos com o Poder público desconhecidas no Estado antigo. e depois. Em Atenas e em Roma só uns quantos homens eram o Estado. Porque é um estorvo . Dominados estes energicamente. A forma. Depende dos meios econômicos e bélicos da época.eram apenas súditos. Na Inglaterra. Tem havido grandes diferenças de condição social e estatuto pessoal. só um obstáculo material lhes põe um freio. A montanha fronteiriça seria menos prócer que o Pirineu ou os Alpes e barreira líquida menos caudalosa que o Reno. É preciso resolver-se a procurar o segredo do Estado nacional em sua peculiar inspiração como tal Estado. queremos atribuir um caráter definitivo e fundamental às fronteiras de hoje. o passo de Calais ou o estreito de Gibraltar. uma vez alheada. como mais natural ainda que a fronteira. apesar de que os novos meios de tráfego e guerra anularam sua eficácia como estorvos. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a possibilidade da expansão e fusão ilimitada entre os povos. língua e território nativos para compreender o fato maravilhoso das modernas nações? Pura e simplesmente. desta união com e no Estado. Pelo visto. mas sempre participou dele.A rebelião das massas. afinal das contas. ingenuamente. A realidade histórica da famosa "fronteira natural" consiste simplesmente em ser um estorvo à expansão do povo A sobre o povo B. As fronteiras de ontem e de anteontem não nos parecem hoje fundamentos da nação francesa ou espanhola. Não há. pelo contrário: estorvos que a idéia nacional encontrou em seu processo de unificação. aliados. As fronteiras serviram para consolidar em cada momento a unificação política já alcançada. é uma defesa para B. participe e colaborador. tem sido muito diferente conforme os tempos. se se interpreta a realidade efetiva da situação política em cada época e se revive seu espírito. outro remédio senão desfazer a tergiversação tradicional padecidas pela idéia de Estado nacional e habituar-se a considerar como estorvos primários para a nacionalidade precisamente as três coisas em que se acreditava consistir. e não em princípios forasteiros de caráter biológico ou geográfico. A idéia de "fronteira natural" implica. Nação .de convivência ou de guerra .escravos. Pois bem: exatamente o mesmo papel corresponde à raça e à língua. mas ao contrário: o Estado nacional encontrou-se sempre.

vai-se fazendo mais una a colaboração interior. nos reúne em Estado. Por isso o Império ameaçado não pode contar com o patriotismo dos outros. antiga. Estado e projeto de vida. sangue. muito mais verdadeiro? file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Segundo isto. Esta incapacidade de todo grupo grego e romano para fundir-se com outros provém de causas profundas que não convém perscrutar agora. de uma maneira simples. elemental e tosca. Não é a comunidade anterior.raça. e teve de se defender exclusivamente com seus meios burocráticos de administração e de guerra. Não se esqueça que. Desta sorte. entende-se bem o que esta expressão significa? Não podemos dar-lhe agora um conteúdo de signo oposto ao que Renan lhe insufla. O Estado nacional é em sua raiz mesma democrático. Não o que fomos ontem. o convite que um grupo de homens faz a outros grupos humanos para juntos executar uma empresa. Esta empresa. qualquer que seja sua forma . e que é. é sujeito político. territorial e etnicamente. sua realidade é puramente dinâmica: um fazer. todo aquele que preste adesão à empresa . Na mesma urbe não conseguiu a fusão política dos cidadãos. que vive conscientemente instalado nele e dele decide sua conduta presente. tradicional e imemorial . E é que o europeu. E curioso notar que. Roma foi. queira-se ou não. se comporta como um homem aberto ao futuro. Conforme cresce a nação.a que proporciona título para a convivência política. fatal e irreformável . relativamente ao homo antiquus. Não só de um povo com outro. A Roma tocava mandar e não obedecer. e se diz que é um "plebiscito cotidiano". a rigor. no corpo urbano que uns muros delimitam fisicamente. simplesmente porque nela se ajunta ao sangue. A unificação estatal não passou nunca de mera articulação entre os grupos que permaneceram externos e estranhos uns aos outros. obedecer e não mandar. a comunidade na atuação. a saber: como dualidade de dominantes e dominados (84). mas o que vamos fazer amanhã juntos. mas a comunidade futura no efetivo fazer. Mas os povos novos trazem uma interpretação do Estado menos material. acaba-se sempre por aceitar como a melhor a fórmula de Renan. Tendência política tal avançará inexoravelmente para unificações cada vez mais amplas. consiste. Roma manda e educa os italiotas e as províncias. medieval ou moderna -.em suma. finalmente. num sentido mais decisivo que todas as diferenças nas formas de governo. mas não os eleva a união consigo. adscrição geográfica. Se ele é um projeto de empresa comum. o idioma e as tradições comuns um atributo novo. ao definir a nação fundando-a numa comunidade de pretérito. mas o que é mais característico ainda do Estado nacional: a fusão de todas as classes sociais dentro de cada corpo político. programa de ação ou conduta humanos. durante a República. o Estado antigo não acerta nunca a fundir-se com os outros. As diferentes classes de Estado nascem das maneiras segundo as quais o grupo empresário estabeleça a colaboração com os outros. em organizar certo tipo de vida comum. aos demais. forma parte ativa do Estado.A rebelião das massas. são termos inseparáveis. o Estado consiste. A capacidade de fusão é ilimitada. o Estado se materializa no pomoerium. pretérita. ficam em segundo plano. Assim. entretanto. quaisquer que sejam seus trâmites intermediários. classe social. Mas.htm (88 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . sem que haja nada que em princípio a detenha. O Estado é sempre.primitiva. e que finalmente se resumem em uma: o homem antigo interpretou a colaboração em que. duas Romas: o Senado e o povo. Daí a facilidade com que a unidade política brinca no Ocidente sobre todos os limites que aprisionaram o Estado antigo.

htm (89 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . ninguém se ocuparia de defendê-la contra um ataque. ao território.no futuro. a Inglaterra. Se para que exista uma nação é preciso que um grupo de homens conte com um passado comum. O plebiscito decide um futuro. unicamente revela que também a definição de Renan é arcaizante. teriam ficado inexistentes (86). querer fazer outras mais.quem fez as nações. Porque essa interpretação confunde o que impulsa e constitui uma nação com o que meramente a consolida e conserva.A rebelião das massas. não pelo sangue. De haver existido na Idade Média esse conceito oitocentista de nacionalidade. De fato. Que neste caso o futuro consista numa perduração do passado não modifica em nada a questão. a Espanha. Sangue. Se a nação consistisse nisso e em mais nada. No passado. a idéia nacional conserva não pouco lastro de adscrição ao passado. uma herança de glórias e remorsos. nem pelo idioma. eis aqui as condições essenciais para ser um povo. Os que afirmam o contrário são hipócritas ou mentecaptos. Nem sequer teria sentido defendê-la quando alguém a ataca. língua e passado comuns são princípios estáticos. mas que procedem da interpretação erudita dada pelo romanticismo à idéia de nação. sem pausa nem descanso.. Não é o patriotismo . rígidos. Mas acontece que o passado nacional projeta aliciantes .diga-se de uma vez . Parece-nos desejável um porvir no qual nossa nação continue existindo. senão em função do porvir (85). inertes. à raça. Se a nação consistisse não mais que em passado e presente. um mesmo programa para realizar.. a França. Por isso viver é sempre. no porvir. Como se explica sua excepcional fortuna? Sem dúvida. Queira-se ou não. Mais: eu diria que esse lastro de pretérito e essa relativa limitação dentro de princípios materiais não têm sido nem são por completo espontâneos nas almas do Ocidente. por isso o fazemos.. nem pelo comum passado. fazer. Fazemos memória neste segundo para lograr algo no imediato. Ao defender a nação defendemos nosso amanhã. pois: nada tem sentido para o homem. Portanto.reais ou imaginários . uma vontade comum no presente. mas por isso mesmo é surpreendente notar como nela triunfa o puro princípio de unificação humana em torno a um incitante programa de vida. Esta idéia de que a nação consiste num plebiscito cotidiano opera sobre nós como uma liberação. ainda que não seja mais que o prazer de reviver o passado. Tal é a conhecidíssima sentença de Renan. haver feito juntos grandes coisas. pela graça da nota. Desde o instante atual nos ocupamos do que sobrevem. a nação seria uma coisa situada às nossas costas. Isso é o que reverbera na frase de Renan: a nação como excelente programa para amanhã. Conste. a Alemanha. eu me pergunto como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. significa realizar um futuro? Inclusive quando nos entregamos a recordar. circunscrita pelo sangue. fatais. com o que não teríamos nada que fazer. Por isso nos mobilizamos em sua defesa. não nosso ontem. a vida humana é constante ocupação com algo futuro. Crer o contrário é o truísmo a que já aludi e que o próprio Renan admite em sua famosa definição. Este modesto prazer solitário se nos apresentou há pouco como um futuro desejável. A nação seria algo que se é. o Estado nacional representaria um princípio estatal mais próximo à pura idéia de Estado que a antiga polis ou que a "tribo" dos árabes. Por que não se reparou em que fazer. A existência de uma nação é um plebiscito cotidiano".. todo fazer. sempre. são prisões. VIII "Ter glórias comuns no passado. mas não algo que se faz.

A rebelião das massas. mas a nação. o maravilhoso. Nisto se diferencia de outros tipos de Estado. Um povo . Vejo. de projetá-la. que se refere a uma nação já feita. uma nação não está nunca feita. Renan encontrou a palavra mágica. e. ainda que fracasse a execução. chamaremos a esse mesmo grupo de homens enquanto vivia em presente isso que visto hoje é um passado. cuja perpetuação decide. Na realidade. Não se adverte aqui o vício gremial do filósofo. Tertium non datur. do arquivista. A Espanha não soube inventar um programa de porvir coletivo que atraísse esses grupos zoologicamente afins. nos quais a união se produz e mantém por pressão externa do Estado sobre os grupos díspares. não forma com eles uma nação. no Estado nacional uma estrutura histórica de caráter plebiscitário. Como a unidade não era autêntica. Falaríamos em tal caso de uma nação malograda (por exemplo. e de nada valeram então os arquivos. Tudo que além disso pareça ser. A nação está sempre ou fazendo-se ou desfazendo-se. E até que tenha o projeto de si mesma para que a nação exista. linguagem comum. tem um valor transitório e cambiante. não estava sujeita a outras condições senão à eficácia bélica e administrativa do conquistador.o persa.podia submeter à unidade de soberania quaisquer porções do planeta. Renan anula ou quase seu acerto. exista um passado. pois.htm (90 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que estoura de luz. interna nem definitiva. Quando há aquilo. na medida de que houvesse ou não empresa à vista. Esta é a ótica decisiva. As empresas estatais dos antigos. Borgonha). e antes de criá-la teve de sonhá-la. os súditos são já o Estado e não o podem sentir . para que pudessem dizer: somos uma nação. enquanto aqui nasce o vigor estatal da coesão espontânea e profunda entre os "súditos". teve de criar essa comunidade. Porque. sua ótica profissional que lhe impede ver a realidade quando não é pretérita? O filólogo é quem necessita para ser filólogo que. Ou está ganhando adesões ou está perdendo-as. não só no público. mas até em sua existência mais privada. como "treinaram" ou se desmoralizaram. entretanto. a "pátria". passasse. antes de tudo. de querê-la. tudo isso serve de forças de consolidação. antes de possuir um passado comum. em verdade. mas tão somente (87).como algo estranhos a eles. que. Por isso o mais instrutivo seria reconstruir a série de empresas unitivas que sucessivamente inflamaram os grupos humanos do Ocidente. Pelo visto era forçoso que essa existência comum fenecesse. Com os povos do Centro e da América Meridional tem a Espanha um passado comum. como aconteceu tantas vezes. O plebiscito futurista foi adverso à Espanha. representa o conteúdo. segundo. Esta adesão de todos engendra a interna solidez que distingue o Estado nacional de todos os antigos. o macedônio ou o romano . raça comum. eram praticamente limitadas. um projeto de convivência total numa empresa comum. a adesão dos homens a esse projeto incitativo. Ela nos permite vislumbrar catodicamente o segredo essencial de uma nação. ou a consolidação que em cada momento requer o plebiscito. ainda que não se alcance. ou a forma. que se compõe destes dois ingredientes: primeiro. por isso que o Estado propriamente tal ficava sempre inscrito em uma limitação fatal . pelo visto. conforme seu Estado represente ou não no momento uma empresa vivaz. Mas no Ocidente a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. dando ao plebiscito um conteúdo retrospectivo. Então ver-se-ia como delas têm vivido os europeus. os antepassados. Por que? Falta só uma coisa.isto é o novo. as memórias. Entretanto. é a essencial: o futuro comum.tribo ou urbe -. Outra coisa mostraria claramente esse estudo. Eu preferiria trocar-lhe o signo e fazê-lo valer para a nação in statu nascendi. por isso que não implicavam a adesão fundente dos grupos humanos sobre os quais se tentavam. da nacionalidade .

continuamos considerando-os como estranhos e hostis. O Estado goza de plena consolidação. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A mera afinidade de ontem terá de esperar até amanhã para entrar em erupção de inspirações nacionais. É o período em que o processo nacional toma um aspecto de exclusivismo. em que se sentem os outros povos além do novo Estado como estranhos e mais ou menos inimigos. Mas o fato é que enquanto se sente politicamente os outros como estranhos e concorrentes. reconhecer-se-á que não chega sequer ao vigor e precisão que já tem para os gregos do IV a idéia da Hélade. começa a atuar sobre os grupos mais próximos geográfica. quanto mais fiel permaneça a sua autêntica substância. Isidoro falava da "mãe Espanha". não íntima inspiração. O Estado nacional do Ocidente. Mas esta noção geográfico-administrativa era pura recepção. a Hélade não foi nunca verdadeira idéia nacional. Spania. Não porque esta proximidade funde a nação. em todo caso. Agora chega para os europeus a sazão em que a Europa pode converter-se em idéia nacional. Os inimigos habituais vão se fazendo historicamente homogêneos (88). em suma. uma de tantas idéias fecundas que deixou semeadas no Ocidente o Império romano. era uma idéia principalmente erudita. intelectual e moralmente com eles. étnica e lingüisticamente. Por muita realidade que se queira dar a essa idéia no século XI. E. unificação nacional teve de seguir uma série inexorável de etapas. e Spania para os "espanhóis" do XI e ainda do XIV. a idéia politicamente eficaz. Mostra isto como as empresas de unidade nacional vão chegando à sua hora do modo como os sons em uma melodia. Mas. de fechar-se em si mesmo dentro do Estado. convive-se econômica. Segundo momento. e que juntos formamos um círculo nacional ante outros grupos mais distantes e ainda mais estrangeiros. As guerras nacionalistas servem para nivelar as diferenças de técnica e de espírito. No tempo do Cid estava se começando a urdir o Estado Leão-Castela. Eis aqui madura a nova idéia nacional.uma idéia nacional. O processo criador de nações teve sempre na Europa este ritmo: Primeiro momento. Terceiro momento. A efetiva correspondência histórica seria melhor esta: a Hélade foi para os gregos do século IV. é quase certo que chegará sua hora. Um exemplo esclarecerá o que tento dizer. o de Alexandre ou o de Augusto. ao contrário. mas porque a diversidade entre próximos é mais fácil de dominar. Pouco a pouco vai se destacando no horizonte a consciência de que estes povos inimigos pertencem ao mesmo círculo humano que o nosso Estado. Período de consolidação. Não obstante. E é muito menos utópico crer nisso hoje assim como o houvera sido vaticinar no século XI a unidade da Espanha e da França. isso é um erro crasso de perspectiva histórica. e para superfetação da tese acrescenta-se que séculos antes já S. e em modo algum aspiração. e esta unidade leon-castelã era a idéia nacional do tempo. o que hoje denominamos nacionalismo. numa diocese do Baixo Império. que faz sentir o Estado como fusão de vários povos em uma unidade de convivência política e moral.A rebelião das massas. A meu ver. não obstante. Então surge a nova empresa: unir-se aos povos que até então eram seus inimigos. O peculiar instinto ocidental. tanto mais diretamente caminha para se depurar num gigantesco Estado continental. Os "espanhóis" haviam se acostumado a ser reunidos por Roma numa unidade administrativa. Cresce a convicção de que são afins com o nosso em moral e interesses. o que a Europa foi para os "europeus" no século XIX.htm (91 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Sói afirmar-se que em tempo do Cid era já a Espanha Spania . Deveria estranhar mais o fato de que na Europa não tenha sido possível nenhum império do tamanho que alcançaram o persa. por seu turno.

o deslocamento do poder que outrora exercia sobre o resto do mundo e sobre si mesmo nosso continente. França. que as quatro quintas partes de seu haver íntimo são bens jacentes europeus. sente. Ora bem: essas são as coisas espirituais de que se vive. em geral. desejos. pesa muito mais em cada um de nós o que tem de europeu que sua porção diferencial de francês. o que nem na paz nem na guerra pode nunca fazer Roma com o celtibero. é conviver de igual para igual. Sofre hoje o mundo uma grave desmoralização. não é a idéia erudita. As causas desta última são muitas. maior que se as almas fossem de idêntico calibre. e em obra de mera fantasia se extirpasse do homem médio francês tudo que usa. Dir-se-ia que aquele fragor de batalhas foi só uma tela atrás da qual tanto mais tenazmente trabalhava a pacífica polipeira da paz. Religião. é muito difícil que certo tipo de homem abandone a idéia de Estado uma vez que ela se lhe encasquetou. enquanto se batalhava numa gleba. vão adquirindo um conteúdo comum. a homogeneidade das almas se acrescentava.htm (92 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . como "nacionais". a Europa. diga-se deste modo: as almas francesas e inglesas e espanholas eram.A rebelião das massas. que é o terreno mais tardio para a espiga da unidade. A Europa não está certa de mandar. em cem se comerciava com o inimigo. IX Apenas as nações do Ocidente preenchem seu atual perfil surge em torno delas e sob elas. desfazem-nas. em geral. que entre outros sintomas se manifesta por uma desatorada rebelião das massas. a idéia de nação como passado. Veria que não lhe era possível viver só disso. direito. sobretudo. em virtude de recepção dos outros países continentais. e. presunções -. como um fundo. mas. o britânico e o germano. etc. que sem adverti-lo começam já a abstrair de sua belicosa pluralidade. ciência. a política. pois. mas do fundo comum europeu. Em cada nova geração. A história destacou em primeiro termo as querelas e. Se se fizesse a experiência imaginária de se reduzir a viver puramente com o que somos. Se se quer mais exatidão e mais cautela. Não se vislumbra que outra coisa de monta possamos fazer os que existimos neste lado do planeta se não é realizar a promessa que há quatro séculos significa o vocábulo Europa. Inglaterra. são e serão tão diferentes como se queira. notaríamos que a maior parte de tudo isso não vem para o francês de sua França. A homogeneidade redunda. formam ligas contrapostas. Uma das principais. Se hoje fizéssemos balanço de nosso conteúdo mental . A soberania histórica acha-se em dispersão. trouxe ao mundo. Só se opõe a isso o prejuízo das velhas "nações". com efeito. o galo. Mas tudo isso. sentiria terror. recompõem-nas. Hoje. arte. Afortunadamente. filológica. serviu-nos de admoestação.opiniões. Alemanha. a idéia do Estado nacional que o europeu. Itália. apercebendo-se dela ou não. Resumo agora a tese deste ensaio. que se lhe predicou. E esta a unidade de paisagem em que se vai mover desde o Renascimento. mas possuem um mesmo plano ou arquitetura psicológicos e. ao homem antigo. nem para o espanhol de sua Espanha. e tem sua origem na desmoralização da Europa. pelejam entre si. A alusão a Roma. guerra como paz. normas. entretecendo a vida das nações hostis. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. valores sociais e eróticos vão sendo comuns. nem o resto do mundo de ser mandado. Espanha. e essa paisagem européia são elas mesmas. Agora se vai ver se os europeus são também filhos da mulher de Lot e se obstinam em fazer história com a cabeça virada para trás. pensa. permutavam-se idéias e formas de arte e artigos da fé. espanhol.

Já não se pode fazer nada com eles a não ser transcendê-los. e por isso a vida do mundo entrega-se a uma escandalosa interinidade. que a faz eqüivaler a capricho leviano. Mas todos estes nacionalismos são becos sem saída. desconjunta-se-lhes a alma. de um vazio entre duas organizações do mundo histórico: a que foi. Cada nação que antes era a grande atmosfera aberta. Já não são senão passado que se acumula em torno e debaixo do europeu. isto é. e quanto mais extremo é seu gesto. Tente-se projetá-los para o futuro e sentir-se-á o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. nem as mulheres que tipo de homens preferem realmente. afrouxam. Não há mais vida com raízes próprias. Os europeus não sabem viver se não se lançam numa grande empresa unitiva. que tipo étnico. prefixado. a que vai ser. Os círculos que até agora se chamaram nações chegaram há um século ou pouco menos à sua máxima expansão. se ensaia e se encomia. é precisamente falsificação da vida. Dá-se o caso contraditório de um estilo de vida que cultiva a sinceridade e ao mesmo tempo é uma falsificação. E nem os homens sabem bem a que instituições de verdade servir. Acertará quem não se fie de quanto hoje se apregoa. que ideologia.as fronteiras militares e as econômicas.aconteceu assim. O resto. não há mais vida autóctone que a que se compõe de cenas iniludíveis. Tudo isso irá com mais celeridade do que veio. Todo o mundo percebe a urgência de um novo princípio de vida. de molas vitais. a pluralidade atual não pode nem deve desaparecer. que povo ou grupo de povos. porque é um ar confinado. Quando esta falta. A atual é fruto de interregno. as fronteiras se hiperestesiam . Tudo. Em suma: tudo isso é vitalmente falso. O derradeiro suspiro. Nada disso tem raízes. Mas . é provisional. Na supernação européia que imaginamos. Quem. envilecem-se. no mau sentido da palavra. Por isso é essencialmente provisória. inequívoco. desde a "arte nova" até os banhos de sol nas ridículas praias da moda. arejada. Não há hoje nenhum político que sinta a inevitabilidade de sua política. não o esporte em si) até a violência em política. Com mais liberdade vital que nunca sentimos todos que o ar é irrespirável dentro de cada povo. porque tudo isso é pura invenção. menos exigido pelo destino. desde a mania do esporte físico (a mania. não é afã nem mister autêntico. Não se sabe para que centro de gravitação vão ponderar em um futuro próximo as coisas humanas.A rebelião das massas. Só há verdade na existência quando sentimos seus atos como irrevogavelmente necessários. Mas agora abre-se outra vez o horizonte para novas linhas incógnitas.como sempre acontece em crises parelhas . transformou-se em província e "interior". E sempre . portanto. como se vai articular o poder sobre a terra. A véspera de desaparecer. o que está em nossa mão pegar ou largar ou substituir. portanto. exige a permanência ativa desse plural que sempre foi a vida do Ocidente. a mais extensa. que sistema de preferências. porque isto supõe um porvir claro. aprisionando-o. A última chama. tanto mais frívolo. mais puramente dinâmica. Tudo. Um começo disto oferece-se hoje a nossos olhos.htm (93 of 139) [7/11/2001 21:34:39] ..alguns ensaiam salvar o momento por uma intensificação extremada e artificial. Não é criação do fundo substancial da vida. tudo que hoje se faz em público e na vida privada . o mais profundo.até no íntimo -.repito . como era o do século XIX. lastrando-o. a idéia nacional. Então acreditava-se saber o que ia acontecer amanhã. de normas.. se ostenta. posto que não se sabe quem vai mandar. Já não há "plenitude dos tempos". Enquanto o Estado antigo aniquilava o diferencial dos povos ou o deixava inativo fora ou em suma o conservava mumificado. Este é o sentido da erupção "nacionalista" nos anos que correm. sem mais exceção que algumas partes de algumas ciências. precisamente do princípio caduco.

e automaticamente a exigir muito de si. mas apesar dele. e o nacionalismo não é mais que uma mania. Eu não participei de semelhante prognóstico. Mas na Europa tudo está de sobra consolidado. nada disso o que impede ao europeu embalar-se comunisticamente. choque. Não é. pois.A rebelião das massas. o homem que vive exclusivamente de suas rendas e que as transmite a seus filhos tem os dias contados. foi porque na Rússia não havia burgueses (89). Em tal caso. Em época de consolidação tem. as classes conservadoras. O burguês não é covarde. nem é muito menos temor. e atualmente está mais disposto à violência que os operários. Voltaria ela a crer em si mesma. Vão passando os anos e corre-se o risco de que o europeu se habitue a este tom menor de existência que leva agora. Os bourgeois do Ocidente sabem muito bem que. Hoje parecem-nos bastante ridículos os arbitrários supostos em que há vinte anos fundava Sorel sua tática da violência. soem verbificar. Entretanto . Só a decisão de construir uma grande nação com o grupo dos povos continentais tornaria a dar tom à pulsação da Europa. Isto pode trazer para elas a catástrofe. Voltaram à tranqüilidade quando chega justamente a época para que a perdessem. não desenha um porvir desejável aos europeus. enquanto este é inclusivista. mesmo sem comunismo. Não é isso o que imuniza a Europa para a fé russa. Mas à unidade da Europa opõem-se. O fascismo. Ninguém ignora que se triunfou na Rússia o bolchevismo. casta que pôs todos os esforços e fervores de sua história na carta Individualidade. Esta: que o europeu não vê na organização comunista um aumento da felicidade humana. por sua vez.repito -. Minha presunção é a seguinte: agora. surdos e sem veracidade. Não por ele mesmo. o conteúdo do credo comunista à russa não interessa. Porque agora sim pode derramar-se sobre a Europa o comunismo de roldão e vitorioso. como sempre aconteceu no processo de nacionalização. e hoje voltaram à tranqüilidade os temerosos de outrora.htm (94 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Por aí não se sai para lado nenhum. porfiados. Pelo contrário: por aqueles anos escrevi que o comunismo russo era uma substância inassimilável para os europeus. Quando o comunismo triunfou na Rússia muitos acreditaram que todo o Ocidente ficaria inundado pela torrente vermelha. Imagine-se que o "plano qüinqüenal" seguido herculeamente pelo Governo soviético conseguisse suas previsões e a enorme economia russa ficasse não só restaurada. revelou-se como mais violento que todo o obreirismo junto. como antes. Qualquer que seja o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas uma razão muito mais simples e prévia. acostume-se a não mandar nem se mandar. que é um movimento petit bourgeois. mas exuberante. como todos os apóstolos. O tempo correu. ajunta-se outro muito concreto e iminente. O nacionalismo é sempre um impulso de direção oposta ao princípio nacionalizador. É exclusivista. um valor positivo e é uma alta norma. não atrai. pois ao perigo genérico de que a Europa se desmoralize definitivamente e perca toda a sua energia histórica. a disciplinar-se. A simplicidade de meios com que opera e a categoria dos homens que exalta revelam de sobra que é o contrário de uma criação histórica. Mas a situação é muito mais perigosa do que se pode apreciar. ir-se-iam volatilizando todas as suas virtudes e capacidades superiores. o pretexto que se oferece para iludir o dever de invenção e de grandes empresas. como ele cria. parece-me muitíssimo possível que nos anos próximos a Europa se entusiasme pelo bolchevismo. E não pelas razões triviais que seus apóstolos.

como grande Estado nacional. seu esplêndido caráter de magnífica empresa irradiará sobre o horizonte continental como uma ardente e nova constelação.todos os grupos que significam sobrevivências do passado . conteúdo do bolchevismo. e se converterá em file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. persiste no ignóbil regime vegetativo destes anos. como poderia evitar o efeito contaminador daquela empresa tão prócer? E não conhecer o europeu esperar que possa ouvir sem se acender essa chamada a novo fazer quando ele não tem outra bandeira de semelhante altaneria que desfraldar ovante. Não parece mais decente e fecundo opor a essa moral eslava uma nova moral do Ocidente. entretanto. não faz fracassar gravemente a tentativa. ao cabo de umas ou outras voltas. Quando se fala da "nova" não se faz senão cometer uma imoralidade mais e buscar o meio mais cômodo para passar contrabando. O comunismo é uma "moral" extravagante . dará um mesmo resultado. Mas seria demasiado vil que o anticomunismo esperasse tudo das dificuldades materiais encontradas por seu adversário. Se a Europa.como se fez neste ensaio . Por essa razão seria uma ingenuidade lançar em rosto ao homem de hoje sua falta de moral. não se achará entre todos os que representam a época atual um só cuja atitude ante a vida não se reduza a crer que tem todos os direitos e nenhuma obrigação. tão só que lhe deixe via um pouco franca. representa um ensaio gigantesco de empresa humana. o lisonjearia. a única empresa que poderia contrapor-se à vitória do "plano qüinqüenal". Os técnicos da economia política garantem que essa vitória tem mui escassas probabilidades de sua parte.A rebelião das massas. não é difícil que o europeu engula suas objeções ao comunismo. O imoralismo chegou a ser tão barato que qualquer um alardeia exercitá-lo. sem que ele mesmo suspeite por que sujeito de ilimitados direitos. a incitação de um novo programa de vida? XV. se sinta arrastado por sua atitude moral. os velhos liberais.htm (95 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .algo assim como uma moral -. ou melhor. O fracasso deste equivaleria à derrota universal: de todos e de tudo. Nego rotundamente que exista em lugar algum do continente grupo algum informado por um novo ethos que tenha visos de u'a moral. Nele os homens abraçaram resolutamente um destino de reforma e vivem tensos sob a alta disciplina que essa fé lhes injeta. e já que não por sua substância. seu estado de ânimo consistirá. os "idealistas". indócil aos entusiasmos do homem. etc. Qualquer substância que caia sobre uma alma assim. em ignorar toda obrigação e sentir-se. Contanto que sirva a algo que dê um sentido à vida e fugir do próprio vazio existencial. É indiferente que se mascare de reacionário ou de revolucionário: por ativa ou por passiva. sem projeto de vida nova. DESEMBOCA-SE NA VERDADEIRA QUESTÃO Esta é a questão: a Europa ficou sem moral. -. Eu vejo na construção da Europa. Não acrediteis uma palavra quando ouvirdes os jovens falar da "nova moral". Se deixamos de um lado . mas que o centro de seu regime vital consiste precisamente na aspiração a viver sem sujeitar-se a moral alguma. frouxos os nervos por falta de disciplina. decisivamente. Não é que o homem-massa menospreze uma antiquada em benefício de outra emergente. do homem atual. A imputação não lhe causaria a menor impressão.os cristãos. Se a matéria cósmica.

pateando quanto parecia eminência.como a cortesia. que o homem vulgar possa sentir-se livre de toda sujeição. E uma moral negativa que conserva da outra a forma em oco. Mas é estupefaciente que agora o tomem estes como um direito efetivo. já que pode demorar o cumprimento destas até as calendas gregas da madureza. de sujeitar-se à norma de negar toda moral.htm (96 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . delas provém esta forma humana agora dominante. vivemos um tempo de chantagem universal que toma duas formas de esgar complementário: há a chantagem da violência e a chantagem do humorismo. Era como um falso direito. Eu sei de não poucos que ingressaram em um ou outro partido operário apenas para conquistar dentro de si mesmos o direito a desprezar a inteligência e poupar-se aos salamaleques diante dela. o respeito ou estimação dos indivíduos superiores. O que com um vocábulo falto até de gramática se chama amoralidade. será para poder afirmar que a salvação da pátria. Neste ensaio desejou-se desenhar certo tipo de europeu. dá direito a alhear todas as outras normas e a massacrar o próximo. precisamente para atribuir-se todos os demais que pertencem só a quem tenha feito já alguma coisa. bem vimos como afagam o homem-massa. chegou a fazer-se da juventude uma chantagem. lhe serve de disfarce para poder desentender-se de toda obrigação . analisando sobretudo seu comportamento ante a civilização mesma em que nasceu. mas imoral. mas sem raízes. Mas a mesma coisa acontece se dá para ser revolucionário: seu aparente entusiasmo pelo operário manual. Essa esquivança a toda obrigação explica.A rebelião das massas. Embora pareça mentira. Quiçá não ofereça nosso tempo traço mais grotesco. Quanto às outras Didaturas. considerou-se isento de fazer ou haver feito façanhas. entre ridículo e escandaloso. Não. sobretudo. Embalou-se sem reservas pelo declive de uma cultura magnífica. Agora recolhe a Europa as penosas conseqüências de sua conduta espiritual. negação que oculta um efetivo parasitismo. consciência de serviço e obrigação. Sempre o jovem. Em realidade. velis nolis. o fenômeno. Porque não se trata só de que este tipo de criatura se desentenda da moral. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. do Estado. sobretudo se o próximo possui uma personalidade valiosa. As pessoas. a veracidade. Por isso não convinha mesclar seu psicograma com a grande questão: que insuficiências radicais padece a cultura européia moderna? Porque é evidente que. em última instância. por essência. em parte. uma caduca e a outra em alvor. entre irônico e terno. Isto se acha na natureza do humano. O homem-massa carece simplesmente de moral. e isto não é amoral. Mas talvez é um erro dizer "simplesmente". O homem-massa está ainda vivendo precisamente do que nega e outros construíram ou acumularam. se declaram "jovens" porque ouviram que o jovem tem mais direitos que obrigações. que é sempre. Da moral não é possível desentender-se simplesmente. Sempre viveu de crédito. não lhe façamos tão fácil a tarefa. sentimento de submissão a algo. tem. Se se apresenta como reacionário ou antiliberal. pretexto para não se sujeitar a nada concreto. que os não jovens concediam aos moços. é uma coisa que não existe. Se você não quer submeter-se a nenhuma norma. mas uma simples negação. e. como tal. de que se tenha feito em nossos dias uma plataforma da "juventude" como tal. Com um ou com outro aspira-se sempre ao mesmo: que o inferior. comicamente. Importava fazer assim porque esse personagem não representa outra civilização que lute com a antiga. o miserável e a justiça social. Como se pode acreditar na amoralidade da vida? Sem dúvida porque toda a cultura e a civilizacão moderna levam a esse convencimento. Por isso não cabe enobrecer a crise presente mostrando-a como o conflito entre duas morais ou civilizações.

insinuada. incluso das que acabo de proferir. pelo menos. não seria possível. por insólitos. Depois viria a tentativa de mostrar como adquiriu a Inglaterra essas qualidades sociológicas. dizer por que é estranha e por que é maravilhosa a Inglaterra. cinge-se ao vento e a guinada de seu leme modifica o destino do mundo. O excepcional da Inglaterra não jaz no tipo de indivíduo humano que soube criar. exclamam: "Esta Inglaterra!. por inércia mental. com efeito. não é um dom inato. Talvez possa em breve ser exaltada. Em que pese esta vez à etimologia. fica entrelaçada." É uma expressão que significa surpresa. Ainda menos tentar a explicação de como chegou a ser essa estranha coisa que é. o navio inglês troca todas as suas velas. se faz. se tende a duvidar de tudo. Insisto em empregar esta palavra. porque atrás dela está o verdadeiramente essencial e fértil. O interessante seria precisar quais são os atributos surpreendentes. O "caráter nacional". o maravilhoso não pertence. Não me refiro ao inglês individual.. É uma empresa que dá bem ou mal. Mas essa grande questão tem de permanecer fora destas páginas. atribuía eu a Inglaterra ante o Continente. como um contraponto. como tudo que é humano. é portentosa. que se desenvolve.htm (97 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . usando um símil humorístico. murmurada nelas. da vida inglesa nos últimos cem anos. reatar. E preciso extirpar da história o psicologismo. O estranho. reduz o assunto file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O povo inglês é. até da Inglaterra. ou. Enquanto se acredite que um povo possui um "caráter" prévio e que sua história é uma emanação deste caráter. em seu interior. mas à ordem sociológica. mas incompreensível. que já foi afugentado de outros acontecimentos. que se inicia após um período de ensaios.. Mas mesmo aquele que estime o modo de ser dos homens ingleses acima de todos os demais.e ainda arrostando certos riscos de que não quero falar agora -.A rebelião das massas. onde o destino me havia centrifugado. EPÍLOGO PARA INGLESES Daqui a pouco faz um ano que numa paisagem holandesa. a que tivera durante dois séculos e que em forma superlativa estava chamado a exercer hoje. O caráter nacional vai se fazendo e desfazendo e refazendo na história. Tudo isso sem uma gesticulação e muito além de todas as frases. e tem de voltar a começar. É sobremaneira discutível que o inglês individual valha mais que outras formas de individualidade aparecidas no Oriente e no Ocidente. sobressalto e a consciência de ter a sua frente algo admirável. O que então não imaginava é que tão rapidamente viessem os fatos confirmar meu prognóstico e a incorporar minha esperança. à coletividade dos ingleses. Naquela data começava para a Inglaterra uma das etapas mais problemáticas de sua história e havia muito poucas pessoas na Europa que confiassem nas suas virtudes latentes. escrevi o Prólogo para franceses à primeira edição popular deste livro. o fato mais estranho que há no planeta. que se corrige. quase tantas como de desfazê-las. sem muitas preparações. Obrigaria a desenvolver com plenitude a doutrina sobre a vida humana que. eu assinalava com fé robusta a missão européia do povo inglês. mas uma fabricação. Não obstante . pois. E como a sociologia é uma das disciplinas sobre as quais as pessoas têm em todas as partes menos idéias claras. a nação não nasce. Há várias centúrias acontece periodicamente que os continentais acordam uma manhã e. Dizia-se que era um povo em decadência. apesar do pedante que é. Durante os últimos tempos falharam tantas coisas que. não haverá maneira nem sequer de iniciar a conversação. vira dois quadrantes. coçando a cabeça. A manobra de saneamento histórico que tenta a Inglaterra. desde já. É evidente que há muitas maneiras de fazer história. à ordem psicológica. Muito menos que se comprazessem com tal precisão em ajustar-se ao papel determinadíssimo que. No meio da mais atroz tormenta. porque é excessiva. mas ao corpo social. que "perde o fio" uma ou várias vezes.

e para o ateniense viver era falar. os povos românicos forjaram línguas complicadas. Quando chegamos a esse povo.tem se deixado circular a intriga. tem havido a radical decisão de não querer ouvir nenhuma voz espanhola capaz de esclarecer as coisas.em ágora e praça. dizer. acrescentadas a seguir. Nisto sim é que se contrapõe a todos os demais povos e não é questão de mais ou de menos. para silenciar. sobre seus defeitos e limitações. O que mais me surpreendeu é a decidida vontade de não tomar conhecimento das coisas que há na opinião pública desses países. por minha vez.já a suspicácia do público inglês não tolerava outra coisa . e importa sobremaneira à espécie humana que se conserve intacto esse tesouro e essa energia de taciturnidade. são seus limites.htm (98 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . de insinuar e ainda mais de iludir.não em seus governos. Sob esta disciplina. dando um espetáculo exagerado de seus mais congênitos defeitos. na América do Norte representa atonia. A Grécia. a aproveitar o primeiro pretexto para falar sobre a Espanha e . ". o mais estimável que há no mundo.A rebelião das massas. sobretudo com os nossos. Com faces impassíveis. em palanque. Isto é uma força magnífica. o prejuízo arcaico e a hipocrisia nova sem lhes pôr um limite. O homem do Sul propende a ser gárrulo. O nervosismo dos últimos meses fez que quase todas as nações tivessem vivido encarapitadas em suas fronteiras. e em certa maneira. de uma sonoridade. esganiçar-se.. o leitor não esquecerá o destinatário. Talvez. aproximando-nos destes esplêndidos ingleses. Se é benévolo. Soube por isso forjar uma língua e uma elocução em que se trata principalmente de não dizer o que se diz. No anglo-saxão . vão elevadas. a frivolidade. olhado desde outro. postos atrás de seus cachimbos. a dureza de cabeça. E por este lado talvez são os ingleses. a uma questão de mais ou de menos. Renunciou-se nelas a todo "brilho" e vão escritas em estilo bastante pickwickiano. entrementes. O aticismo havia triunfado sobre o laconismo. que nos educou. Respeito semelhante à Inglaterra não nos exime da irritação ante seus defeitos. no moral como no físico. composto de cautelas e eufemismos. entorpecimento. não seja insuportável. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. línguas feitas à força de palavreados infindáveis . ao mesmo tempo. e. que o excepcional. quer dizer. consolidadas. na França. exasperantes. a respeito da Espanha. ou de ouvi-la depois de deformá-la. a meu juízo. Não há povo que. que. Dirigidas a ingleses. e o que mais falta tenho sentido. compreender-se-á até que ponto hei sofrido de quanto na Inglaterra. O inglês não veio ao mundo para dizer. Eu sustento. taberna e tertúlia. Isto me levou. Mas. dificultam enormemente a inteligência com outros povos. ao qual atribuíam mágica potência. Daí que nos sintamos sôfregos quando. E é que as virtudes de um povo. de engenheiros e de homens piedosos. mas deliciosas. o logos. que a originalidade extrema do povo inglês radica em sua maneira de tomar o lado social ou coletivo da vida humana. Escutaram-se em sério as maiores imbecilidades com tanto que fossem indígenas. dando ao vento em formas claras e eufônicas a mais arcana intimidade. vício e falha. mas sim nos países . representam um esforço de acomodação a seus usos. velam os ingleses alerta sobre seus próprios segredos para que não escape nenhum.. que é. ainda convencido de que forçava um pouco a conjuntura. em grau especial. soltou nossas línguas e nos fez indiscretos a nativitate. Por isso divinizaram o dizer. ao contrário. como as de um homem. os ouvimos emitir a série de leves miados displicentes em que consiste seu idioma. Se se ajunta a isso que um dos principais temas de disputa tem sido a Espanha. se me ofereça oportunidade para fazer ver tudo que quero dizer com isto. mas. uma plasticidade e um garbo incomparáveis. Tenha-se presente que a Inglaterra não é um povo de escritores mas de comerciantes. e a retórica acabou sendo para a civilização antiga o que tem sido a física para nós nestes últimos séculos. tem sido alguma atitude de graça generosa. no modo como sabe ser uma sociedade. no tempo próximo. o primeiro que vemos são as suas fronteiras.falar sem parecer que dela falava nas páginas intituladas "Quanto ao pacifismo.

Pelo contrário: é o século das viagens cheias de curiosidade amável e prazenteira pela divergência do próximo. O fato é estupefaciente. O assunto é. Busca a pluralidade de formas vitais com vistas não à sua anulação. mas com o entranhável desejo de colaborar na reconstituição da Europa. como um parvenu. a que talvez pode concretizar-se mais é o desarmamento da Inglaterra. Paris.quer dizer. se não erro. Goethe . file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. porventura. Seu gênio político permitiu-lhe nestes meses corrigir com um esforço incrível de self-control o mais extremo do mal. de entusiasmo por elas. Esse mútuo desconhecimento tornou possível que o povo inglês. O romântico enamorava-se dos outros povos precisamente porque eram outros.tinha razão. Quando alguém o fazia. de se permitirem crer as nações hoje poderosas que o estilo ou o "caráter" de um povo menor é absurdo porque é bélica ou economicamente débil. E o caso é que . Sobretudo isto se raciocina tranqüilamente nas páginas imediatas. tão parco em erros históricos graves. O romanticismo que lhe sucedeu não é senão sua exaltação. Estes povos que agora se ignoram tão gravemente brincaram juntos quando eram crianças nos corredores da grande mansão comum. onde as famílias não vivem nunca separadas. Herder. e as páginas que seguem não fazem outra coisa senão tomá-lo pelo lado mais urgente. Devo advertir ao leitor que todas as notas foram acrescentadas agora e suas alusões cronológicas hão de ser referidas ao corrente mês. 1938. pois. O cosmopolitismo de Fergusson. o escândalo que provocava era prova de que o homem normal de então não via. por exemplo. mas à sua integração. não obstante sua petulância e sua escassa ductilidade intelectual.em princípio . de se desprezar e injuriar porque são diferentes. Nutre-se não da exclusão das diferenças nacionais. cometesse o gigantesco de seu pacifismo.htm (99 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . advirta-se que o uso de se converterem uns povos em juizes dos outros. pelo contrário. abril. Porque a Europa foi sempre como uma casa da vizinhança. Este foi o sentido do cosmopolitismo que coagula no seu último terço. Como puderam chegar a não se entender tão radicalmente? A gênese de tão feia situação é longa e complexa. apesar de supor-se dono da verdade absoluta. são fenômenos que. Lema dele foram estas palavras de Goethe: "Só todos os homens vivem o humano". não se lhe ocorria desdenhar um povo "inculto" e depauperado como a Espanha. sutilíssima e de alto alcance nessa ocupação . não é muito capaz de ver o que há de cultura refinada. mas. hermetizado pela consciência de seu poder político. Para enunciar só um dos mil fios que naquele fato se atam. que o unicamente civilizado é vestir umas bombachas e dar pancadas numa bolinha com uma vara. Porventura tenha contribuído para que adote esta resolução a consciência da responsabilidade contraída. e no uso mais exótico e incompreensível suspeitava mistérios de grande sabedoria. O tema do ensaio que segue é a incompreensão mútua em que caíram os povos do Ocidente . nas diferenças de poderio diferença de nível humano. povos que convivem desde sua infância. de muito peso. sem excessiva presunção. Ao enciclopedista francês do século XVIII. mas se misturam a toda hora sua doméstica existência. Ele crê. jamais se haviam produzido até os últimos cinqüenta anos.A rebelião das massas. operação que habitualmente se dignifica denominando-a de "golf". indubitável que o inglês de hoje.é o oposto do atual "internacionalismo". enfim. É. De todas as causas que geraram as presentes desgraças do mundo.que a ele lhe parece a exemplar desocupação de "tomar sol" a que o castiço espanhol sói dedicar-se conscientemente.

tão diferentes que na prática vêem a ser com freqüência antagônicas. antes disso e acima disso. com efeito. como a ciência e a administração. QUANTO AO PACIFISMO Há vinte anos (90) a Inglaterra . de verdade. Cometemos o erro de designar com este único nome atitudes mui diferentes.htm (100 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Os animais a desconhecem e é de pura instituição humana. o defeito maior do pacifismo inglês . tão rotundo. Mas isso sublinha tanto mais quanto houve de erro no resto.embarcaram no pacifismo. dos que se apresentam como titulares do pacifismo . a guerra é um enorme esforço que os homens fazem para resolver certos conflitos. todo erro é uma propriedade que acresce nosso haver. O pacifista vê na guerra um dano. entretanto.seu Governo e sua opinião pública . serenamente. em geral. mas decididamente.tem sido subestimar o inimigo. Baste advertir o estranho mistério da condição humana consistente em que uma situação tão negativa e de derrota. a descobrir sem piedade suas raízes e a construir energicamente a nova concepção das coisas que isto nos proporciona. apenas reconhecendo-o. Contra o que acreditem os jeremias. Pelo contrário.A rebelião das massas. É um fato demasiado notório que esse pacifismo inglês fracassou. se converte magicamente em uma nova vitória para o homem. O fracasso foi tão grande. Esta subestima lhes inspirou um diagnóstico falso. Dele emergiria não escassa claridade. Isso quer dizer que esse pacifismo foi um erro. Não há nunca razão suficiente nem para um nem para o outro. o desânimo. base de toda civilização: ao descobrimento da disciplina. Por outra parte.embarcou há vinte anos. Por que desanimar? Talvez as duas únicas coisas a que o homem não tem direito são a petulância e seu oposto. Em vez de chorar sobre ele convém apressar-se a explorá-lo. Todas as demais formas de disciplina procedem da primigênia. a realidade atual facilita desgraçadamente o assunto. um crime ou um vício. Mas eu prefiro agora adaptar-me quanto possa ao ponto de vista inglês. e vou supor que sua aspiração à paz do mundo era uma excelente aspiração. Ao dizer isto não sugiro nada que possa levar ao desânimo. pacifista. Enfim: a divergência torna-se superlativa quando se põem a pensar nos meios que exige uma instauração de paz sobre este pugnacíssimo globo terráqueo. a retificar o enorme erro que durante vinte anos tem sido seu peculiar pacifismo e a substituí-lo por outro pacifismo mais perspicaz.e. Como quase sempre acontece. A guerra não é um instinto. muitas formas de pacifismo. mas um invento. que foi a disciplina militar. a saber. Há. Para isso é preciso que nos resolvamos a estudá-lo a fundo. como é haver cometido um erro.seu Governo e sua opinião pública . que alguém teria direito a revisar rapidamente a questão e a se perguntar se não é um erro todo pacifismo. Mas os pacifistas começam a discrepar quando dão o passo imediato e interrogam-se até que ponto é em absoluto possível o desaparecimento das guerras. Eu suponho que os ingleses se dispõem já. O reconhecimento de um erro é por si mesmo uma nova verdade é como uma luz que dentro deste se acende. Talvez fosse muito mais útil do que se imagina um estudo completo sobre as diversas formas do pacifismo. Mas é evidente que não me corresponde agora nem aqui fazer um estudo no qual ficaria definido com certa precisão o peculiar pacifismo em que a Inglaterra . A única que entre elas existe de comum é uma coisa muito vaga: a crença em que a guerra é um mal e a aspiração a eliminá-la como meio de trato entre os homens. Ela levou a um dos maiores descobrimentos. na apreciação das possibilidades de paz que o mundo atual oferecia e na determinação da conduta que há de seguir quem pretenda ser. Mas esquece que.

de construí-lo. que tinha um grande sentido humano. viu já deste modo a instituição da escravidão . como a Inglaterra. Pelo contrário. vemos dela apenas a suja espádua. Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou. guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida. Imaginemos. só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior. enquanto não se inventasse outro meio. pelo contrário. repitamos. ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou.htm (101 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Se se atende a tudo isso. seu horror. não passe a ser um difícil conjunto de novas técnicas. era um meio que haviam inventado os homens para solucionar certos conflitos. a vontade de paz o que importa ultimamente no pacifismo. deixa-os mais intactos e menos resolvidos que nunca. aprendendo a olhar todas as coisas humanas sob essa dupla perspectiva. Como toda forma histórica. Augusto Comte. tem ele de fazê-lo. Não se espere nesta ordem nada fértil enquanto o pacifismo. Por isso. requerem a venturosa intervenção do gênio. um fazer que se assemelha tanto a um puro omitir? Essa crença é incompreensível se não se adverte o erro de diagnóstico que lhe serve de base. mais ainda. sem mais reflexão. conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor. a guerra reapareceria inexoravelmente nesse imaginário planeta habitado só por pacifistas. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano. em parte. tem a guerra dois aspectos: o da hora de sua invenção e o da hora de sua superação. A renúncia à guerra não suprime estes conflitos. e. sua insuficiência. creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. também a paz é uma coisa que importa fazer. Hoje. costumamos. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse. em suma. a saber: a idéia de que a guerra procede simplesmente das paixões dos homens. não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada.Adeona e Abeona. a saber: o aspecto que têm ao chegar e o aspecto que têm ao ir. porque os conflitos reclamariam solução. o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. É preciso que este vocábulo deixe de significar uma boa intenção e represente um sistema de novos meios de trato entre os homens. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que em certo momento todos os homens renunciassem à guerra. não parecerá surpreendente a crença em que esteve a Inglaterra de que o mais que podia fazer a favor da paz era desarmar. em vez de matar os prisioneiros. A paz não "está aí". então. o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. Do mesmo modo. o deus do chegar e o deus de ir. portanto. Na hora de sua invenção significou um progresso incalculável. Para ver com clareza a questão façamos o que fazia lord Kelvin para resolver seus problemas de física: construamos um modelo imaginário. o belicismo ficará asfixiado. histórico. pronta para que o homem a goze.libertando-se das tolices que Rousseau disse sobre ela . encarregaram duas divindades de consagrar esses dois instantes .A rebelião das massas. simplesmente. O outro é puro erro. mui finamente. Acredita-se que basta isso. que há que fabricar. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. Nada importante é apresentado ao homem. quando aspiramos a superá-la. que com isso se havia dado o mais breve passo eficiente no sentido da paz? Grande erro! A guerra. sua rusticidade. de ser um gratuito e cômodo desejo. que é elementar. pois. A ausência de paixões. Não é. a vontade pacífica de todos os homens seriam completamente ineficazes.e a nós nos corresponde generalizar sua advertência. um sistema de esforços complicadíssimos. e que. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. por sua parte. quer dizer. trabalhar em que não se fizesse. Por desconhecer tudo isso. tentou fazer. pondo na faina todas as potências humanas. Os romanos. Mas o enorme esforço que é a guerra. maldizer da escravidão. e que se se reprime o apaixonamento.

A paz. pelo menos. Pois bem: o pacifismo usual dava como suposto que esse direito existia. cujo exercício concreto e preciso constitui isso que. com um vago nome. o mesmo que já existia antes de seu estabelecimento. podemos falar. entende-se. Não sabemos quais são os "direitos subjetivos" das nações e não temos nem indícios de como seria o "direito objetivo" que possa regular seus movimentos. Então. incluindo os domínios ingleses da Oceania). de maneira nenhuma. E esta é a verdadeira substância do direito. Não importa que não haja legislador. a propaganda e expansão dessas idéias de direito sobre a coletividade em questão (em nosso caso. isto é. que alguns homens. como puro teorema incubado na mente de algum pensador. que estava aí à disposição dos homens e que só as paixões destes e seus instintos de violência induziam a ignorá-lo. contribui a ocultar-nos a indigência de verdadeiro direito internacional que padecemos. quer dizer. 3o. para novas tarefas construtivas e salutíferas. é o direito como forma de trato entre os povos. especialmente inspirados. Não desestimo. na plenitude do termo. de uma etapa que se iniciou com o Tratado de Versalhes e com a instituição da Sociedade das Nações. de direito. pretende-se que desapareçam as guerras entre eles? Permita-se-me que qualifique de frívola. O enorme dano que aquele pacifismo trouxe à causa da paz consistiu em não deixar-nos ver a carência das técnicas mais elementais. de órgãos de arbitragem entre Estados.. Não significam progresso algum importante no que é essencial: na criação de um direito para a peculiar realidade que são as nações. Para que o direito ou um ramo dele exista é preciso: 1o. semelhante pretensão. A proliferação de tribunais internacionais. Sempre é importante para o progresso de uma função moral que apareça materializada em um órgão especial claramente visível. Porque é imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente. Nem era lícito esperar maior fertilidade nesta ordem. Só é moral o desejo que é acompanhado da severa vontade de aprontar os meios de sua execução.. O direito que administram é. E não havendo nada disso. Se aquelas idéias senhoreiam de verdade as almas.A rebelião das massas. no essencial. descubram certas idéias ou princípios de direito. o que concretamente foi e significou esta instituição na hora de seu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E não só não existe no sentido de que não haja alcançado ainda "vigência".. como não existe nem sequer como idéia.htm (102 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . chamamos de paz. que essa expansão chegue de tal modo a ser predominante. para só nos referirmos aos dois maiores e mais recentes cadáveres. Mas a importância desses tribunais internacionais tem se reduzido a isso até hoje. que os últimos cinqüenta anos presenciaram. por exemplo. 2o. Com efeito: se se passa revista às matérias julgadas por esses tribunais. de norma vigente. simplesmente porque a desejamos. a coletividade que formam os povos europeus e americanos. Mas é indispensável para contribuir um pouco a despertar o interesse para novas grandes empresas. Ora bem: isto é gravemente oposto à verdade. maltratadas ou em ruínas. Pois bem: um direito referente às matérias que originam inevitavelmente as guerras não existe. adverte-se que são as mesmas resolvidas de há muito pela diplomacia. que aquelas idéias de direito se consolidem em forma de "opinião pública". a importância dessas magistraturas. e só então. de imoral. Repugna-me atrair a atenção do leitor sobre coisas falidas. que não se tenha consolidado como norma firme na "opinião pública". não havendo nem em teoria um direito dos povos. É preciso que não se volte a cometer um erro como foi a criação da Sociedade das Nações. não importa que não haja juizes. atuarão inevitavelmente como instâncias para a conduta às quais se pode recorrer.

recentemente -. sem espanto.dizia eu. navegue o mundo mais à deriva que nunca. sem profecia. entregue a uma cega mecânica. sem remédio. históricas. exatamente tão difícil como a paz. E como a realidade histórica muda periodicamente de modo radical. resolvê-lo. os direitos de um povo que ontem tinha vinte milhões de homens e hoje tem quarenta ou oitenta? Quem tem direito ao espaço não habitado do mundo? Estes exemplos. Em certo modo. mutação perpétua. recebem antes que os demais a visita do porvir (91). Quais são. nascimento. e longe de antecipar o futuro era já arcaico. Não foi um erro qualquer. É difícil. por exemplo. Dentro do povo produzem-se as revoluções.htm (103 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mercê disso produziu-se o vergonhoso fenômeno de que. Mas uma camisa de força posta num homem são tem a virtude de torná-lo louco furioso. Sua vacuidade de justiça encheu-se fraudulentamente com a sempiterna diplomacia. como os habituais na difícil faina que é a política.A rebelião das massas. de uma física de quatro dimensões e de uma mecânica do descontínuo. A Sociedade das Nações foi um gigantesco aparelho jurídico criado para um direito inexistente. Daí . os quais. põem bem à vista o caráter ilusório de todo pacifismo que não comece por ser uma nova técnica jurídica. Também aqui se trataria de libertar uma atividade humana . E não se diga que é coisa fácil proclamar isto agora. que se converte em uma camisa de força. O direito. é estático. e não debalde seu órgão principal se chama Estado. Mas. Foi um erro histórico. que ao disfarçar-se de direito contribuiu à universal desmoralização. pelos temas de que habitualmente se ocupam. Foi um erro que reclama o atributo de profundo. o problema do novo direito internacional pertence ao mesmo estilo que esses recentes progressos doutrinais.de certa radical limitação que sempre padeceu. Evito precisar a que grêmio pertenciam os profetas.o direito . esse estranho aspecto patológico que tem a história e que a faz parecer como uma luta sempiterna entre os paralíticos e os epilépticos. coisas históricas. O direito tradicional é só regulamento para uma realidade paralítica. como já nos ensina a Bíblia: "Por que tomastes o direito file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ou por possuir almas sensíveis como finos registradores sísmicos. mas pelo contrário. Baste dizer que na fauna humana representam a espécie mais oposta ao político. a esta altura da história e da civilização. Se fosse fácil existiria há muito tempo. Talvez as catástrofes presentes abram de novo os olhos dos políticos para o fato evidente de que há homens. O bem que pretende ser o direito se converte em um mal. também os políticos não fizeram caso desses homens. sociológicas e jurídicas de que emanaram seu projeto e sua figura estava já historicamente morto naquela data. e entre os povos estalam as guerras. quer dizer. com a estabilidade do direito. pertencia ao passado. Formule-se o leitor qualquer dos grandes conflitos que há atualmente estabelecidos entre as nações. com a qual coincide. pode. Uma vez mais aconteceu o que é quase normal na história. e diga-se a si mesmo se encontra em sua mente uma possível norma jurídica que permita. choca. puro movimento. O "espírito" que propeliu para aquela criação. com efeito. Houve homens na Europa que já então denunciaram seu inevitável fracasso. os mais toscos e elementais que podem ser apontados. É talvez uma das causas profundas do atual desconcerto seja que há duas gerações os políticos se declararam independentes e cancelaram essa colaboração. Todas as grandes épocas da história nasceram da sutil colaboração entre esses dois tipos de homem. e não o profeta. Sem dúvida. o direito que aqui se postula é uma invenção muito difícil. enfrentar aquela empresa e resolver-se a acometê-la. Cada vez é menos possível uma sã política sem larga antecipação histórica. Mas é o caso que as coisas humanas não são res stantes. Mas uma época que assistiu ao invento das geometrias não-euclidianas. uma vez mais. O homem não conseguiu ainda elaborar uma forma de justiça que não esteja circunscrita na cláusula rebus sic stantibus. sequer teoricamente. a saber: que foi predita. mas importa muito aos destinos humanos que o político ouça sempre o que o profeta grita ou insinua. Sempre será este quem deva governar. o sistema de idéias filosóficas.

antes de tudo. Não estranhe. e se o político é inglês sente que definir algo é quase cometer uma traição." Seria um erro não ver nestas duas fórmulas senão emanações do oportunismo político. Porque se a realidade histórica é isso ante tudo. O outro. A demanda não é exorbitante. não é mais nem menos difícil definir o triângulo que a névoa. Importaria muito reduzir a conceitos claros essa situação efetiva de direito que consiste em puras "margens" e simples "elasticidades". um direito plástico e em movimento. capaz de acompanhar a história em sua metamorfose. esta incongruência entre a estabilidade da justiça e a mobilidade da realidade. parecerá evidente que a injúria máxima seja o statu quo. Embora o expediente seja um pouco ingênuo. todo pacifismo é pena de amor perdida. e especialmente ao inglês. a mudança na divisão do poder sobre a terra. a constituição do Império britânico parece-se muito ao "molusco de referência" de que falou Einstein. e se se lhe atribui uma margem. expressam mui adequadamente a formidável realidade que é a British Commonwealth of Nations e a designam precisamente sob seu aspecto jurídico. E isso não certamente por casualidade. ao menos em teoria. as tomamos como realidades positivas. Em princípio. 6. porque precisamente esse estranho fenômeno jurídico foi forjado mediante estes dois princípios: um. nem utópica. a unidade do Império britânica não está feita sobre uma constituição lógica. que o pacifista quer submeter àquela. Não está sequer baseada numa Constituição. A maneira inglesa de ver o direito não é senão um caso particular do estilo geral que caracteriza o pensamento britânico. convém recordá-lo. extrair a teoria que nele jaz muda . no qual adquire sua expressão mais extrema e depurada o que talvez é o destino intelectual do Ocidente. Por exemplo: quase todas as constituições contemporâneas procuram ser "abertas". Mas. Provavelmente. é possível que se abram diante de nós as mais férteis perspectivas. o fracasso da Sociedade das Nações. em fel e o fruto da justiça em absinto?" (Oseas. o formulado por Balfour em 1926 com suas famosas palavras: Nas questões do Império é preciso evitar o refining. discussing or defining. Dir-me-ão que isto é impossível. E enquanto não existam princípios de justiça que. isto é. Porque a elasticidade é a condição que permite a um direito ser plástico. a meu juízo. regulem satisfatoriamente essas mudanças do poderio. substituir o que não parece ser senão "coisa" jacente. chega a sua máxima potência. é que se prevê seu movimento. está proibido: definir as coisas. 12). Considerada no que ao direito importa. a história é. porque nele se declara a aspiração a um direito semovente. a saber: interpretar tudo que é inerte e material como puro dinamismo. Longe disso. Mas é evidente que há outros homens cuja missão é fazer o que ao político. enunciado por sir Austin Chamberlain em seu histórico discurso de 12 de setembro de 1925: "Vejam-se as relações entre as diferentes seções do Império britânico. A capacidade para descobrir a nova técnica de justiça que aqui se postula está pré-formada em toda a tradição jurídica da Inglaterra mais intensamente que na de nenhum outro país. tanto civil como político.o fenômeno jurídico mais avançado que se produziu até hoje no planeta: a British Commonwealth of Nations. O que não fazem é defini-la. Se em vez de entender estes dois caracteres como meras ilusões e como insuficiências de um direito. uma idéia de que a princípio se julgou inteligível e que é hoje base da nova mecânica. o direito. evolui neste sentido. nem sequer nova. gigantesco aparelho construído para administrar o statu quo. o princípio "da margem e da elasticidade". pois. O homem necessita um direito dinâmico.A rebelião das massas. No direito internacional. porque um político não veio ao mundo para isso. Porque queremos conservar a toda coisa uma margem e uma elasticidade. embora estas se apresentem com a pretensão de ser essencialmente vagas.htm (104 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Há mais de setenta anos. o mais fértil seria analisar a fundo e tentar definir com precisão -. quieta e fixa por forças. movimentos e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.

mas em construir a outra forma de convivência humana que é a paz. e mediante um pacto criariam uma sociedade nova. que não é obra de nenhum pacto. Isto significa a invenção e exercício de toda uma série de novas técnicas. creio eu. A Inglaterra tem sido. de passagem e avoadamente. No vazio social não há nem nasce direito. newtoniana. que lhe indique a sociedade portadora desse direito e prévia a ele. Desgraçadamente.htm (105 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Não esqueçamos que o direito se compõe de muitas coisas mais que uma idéia: por exemplo. que não existe sintoma mais seguro para descobrir a existência de uma autêntica sociedade que a existência de um fato jurídico. manifeste meu desideratum de ler um livro cujo tema seja este: o newtonismo inglês. Outra coisa são puras fantasmagorias. parecerá. pelo contrário. como empedernido leitor. dos quais o direito é irmão menor. Mas a idéia de um novo direito não é ainda um direito. Turva a evidência disto a confusão habitual que padecemos ao crer que toda autêntica sociedade tem forçosamente de possuir um Estado autêntico. Está bem que o homem pacífico se ocupe diretamente em evitar esta ou aquela guerra. Mas uma associação não pode existir como realidade jurídica se não surge sobre uma área onde previamente tem vigência certo direito civil. e o chamado "internacional" nos convida. A tal ponto é assim. formam parte dele os bíceps dos gendarmes ou seus sucedâneos. constituído por uma linha simples e clara. mas o pacifismo não consiste nisso. a Sociedade das Nações. o próprio nome de direito internacional estorva uma clara visão do que seria em sua plena realidade um direito das nações. uma associação. Permita-se-me apenas que. a imaginar um direito que acontece entre elas. Essa área onde a sociedade ajustada surge é outra sociedade preexistente. em todas as ordens da vida.A rebelião das massas. Talvez o Estado proporciona ao direito certas perfeições. Quando falamos das nações tendemos a representá-las como sociedades separadas e fechadas em si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. quer dizer. Se resumo agora meu raciocínio. A primeira delas é uma nova técnica jurídica que comece por descobrir princípios de eqüidade referentes às mudanças da divisão do poder sobre a terra. Mas não creio que seja necessário deter-me neste ponto. atrevo-me a insinuar que caminha seguro quem exija. isto é. quando alguém lhe fale de um fato jurídico. portanto. as questões mais intrincadas da filosofia do direito e da sociologia. À técnica do puro pensamento jurídico devem acompanhar muitas outras técnicas ainda mais complicadas. funções. Sem que eu pretenda resolver agora com atitude dogmática. Daí o calembour. mas é necessário enunciar ante leitores ingleses que o direito existe sem o Estado e sua atividade estatutária. mas é o resultado de uma convivência inveterada. Esta autêntica sociedade e não associação só se parece à outra no nome. Uma sociedade constituída mediante um pacto só é sociedade no sentido que este vocábulo tem para o direito civil. que seria. tal como o uso e o costume. Mas isso tudo tem o ar de um calembour (92). Mas é bem claro que o aparelho estatal não se produz dentro de uma sociedade. em todas as demais ordens da vida. Suponho que cem vezes se terá feito constar e terá sido demonstrado com suficiente pormenor. Porque o direito nos pareceria ser um fenômeno que acontece dentro das sociedades. num vazio social. mas mais enérgico. Este requer como substrato uma unidade de convivência humana. Nesse vazio social as nações se reuniriam. fora da física. mas num estádio muito avançado de sua evolução. por mágica virtude dos vocábulos.

essa convivência (94).convicções comuns e tábuas de valores . dentro da qual se produziram grumos ou núcleos de condensação mais intensa.a Europa -. Mas isto é uma abstração que deixa de fora o mais importante da realidade. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. usos que a imperam ou "direito -. O caráter geral do uso consiste em ser uma norma do comportamento . O que costumamos chamar assim não é mais do que um estado de guerra mínima ou latente. Não se trata com isso de desenhar um ideal. Como os fenômenos corporais são o idioma e o hieróglifo. portanto. pois. Convivência implica só relações entre indivíduos. Não seria nada exagerado dizer que a sociedade européia existe antes que as nações européias. não há sociedade sem a vigência efetiva de certa concepção do mundo. tão somente. pois. Em vez de nos afigurarmos as nações européias como uma série de sociedades livres. que são os usos .que só mantêm alguns contatos externos.intelectual. velha de muitos séculos e que tem uma história própria como possa tê-la cada nação particular. e que estas nasceram e se desenvolveram no regaço maternal daquela. como o bilhar. O indivíduo poderá. sentimental ou físico que se impõe aos indivíduos. mas precisamente este esforço de resistência demonstra melhor que nada a realidade coactiva do uso. após a morte do período romano. usos de técnica vital ou "costumes". por exemplo. mesmas. e. Esta figura corresponde muito mais aproximadamente que a outra ao que. mas não se ignore seu efetivo caráter de sociedade. que a Europa é uma sociedade. Por esta razão censuro essa figura da Europa em que esta aparece constituída por uma multidão de esferas . A coisa importa superlativamente. Corrijamo-la. Entre sociedades independentes não pode existir verdadeira paz. Os ingleses podem ver isto com alguma clareza no livro do Dawson: The Making of Europe. imaginemos uma sociedade única . a convivência entre os homens da Inglaterra e os homens da Alemanha ou da França. Segundo isto. resistir ao uso. Mas é evidente que existe uma convivência geral dos europeus entre si. Esta metáfora de jogador de bilhar deveria desesperar ao bom pacifista. não nos promete mais eventualidade que a "carambola". porque as únicas possibilidades de paz que existem dependem de que exista ou não efetivamente uma sociedade européia.htm (106 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Se a Europa é só uma pluralidade de nações. Diga-se. a convivência ou trato dos ingleses entre si é muito mais intensa que. podem os pacíficos despedir-se rapidamente de suas esperanças (93). foi a convivência ocidental. por sua conta e risco. A Europa tem sido sempre um âmbito social unitário. Introduction to the History of European Society. Sem dúvida. Mas não pode haver convivência duradoura e estável sem que se produza automaticamente o fenômeno social por excelência. usos que dirigem a conduta ou "moral". porque.as nações . mercê ao qual pensamos as realidades morais.usos intelectuais ou "opinião pública". com efeito. a qual atua como uma última instância a que se pode recorrer em casos de conflito. queiram ou não queiram.dotadas dessa força coactiva tão estranha em que consiste "o social". que a Europa é uma sociedade mais tênue que a Inglaterra ou que a França. não significa sociedade. o que chamaremos sua "vigência". viver em sociedade ou formar parte de uma sociedade. porque jamais faltou esse fundo ou tesouro de "vigências coletivas" . sem fronteiras absolutas nem descontinuidades. Pois bem: uma sociedade é um conjunto de indivíduos que mutuamente se sabem submetidos à vigência de certas opiniões e avaliações. A convivência. mas de dar expressão gráfica ao que realmente foi desde a sua iniciação. Esta sociedade geral possui um grau ou índice de socialização menos elevado que o alcançado desde o século XVI pelas sociedades particulares chamadas nações européias. não é preciso dizer o dano que engendra uma errônea imagem visual convertida em hábito de nossa mente.

os fenômenos físicos . toda a ordem de que esse resto era capaz. Neste caso a enfermidade seria a mais grave que sofreu o Ocidente desde Diocleciano ou os Severos. e pôs nele. E o é. entendida como acabo de apontar. sobretudo. em maior ou menor escala. Quando a estudamos bem. que não se pode esperar remédio algum da Sociedade das Nações. e se. é possível diagnosticar com certa precisão o lugar ou estrato do corpo histórico onde a enfermidade radica. irradiaram durante gerações sobre o resto do planeta. como a dose de paz em cada época esteve na razão direta desse índice. ao ler um fino exame de sangue. Poderia acontecer que hoje em dia faltassem essas instâncias em uma proporção sem exemplo.as nações -. em ocasiões. desceu gravemente fazendo temer a cisão radical da Europa e. Mas não forjemos ilusões. organização. conforme foi e continua sendo. aparece no título de Ranke: História dos povos germânicos e românicos. instituto anti-histórico que um maldizente poderia supor inventado em um clube cujos membros principais fossem M. sobretudo. Os editoriais dos jornais e os discursos de ministros e demagogos não nos dão notícia dela. conserva alguma destas latente vivacidade.a sociedade européia -. Tudo o mais por exemplo. o livro de Dawson é insuficiente. como. Porque o direito é operação espontânea da sociedade. Pickwick. Isso não quer dizer que seja incurável.carece dela. A realidade histórica ou. M. ao longo de toda a história européia. Eu o lamento. A história que eu postulo nos contaria as vicissitudes desse espaço humano e nos faria ver como seu índice de socialização variou. as realidades históricas. vivem e são". por exemplo. por baixo de todas as suas superficiais desordens. atuava nas camadas profundas do Ocidente. que é por si um dos males do nosso tempo. mas que possui uma estrita anatomia e uma clara estrutura. Mas este assunto nunca foi visto. estava constituída por uma ordem básica devido à eficiência de certas instâncias últimas . "sociedade européia" e a suplantavam por um plural . que é um excessivo exoterismo. embora achacados do vício oposto. Homais e congêneres. Havia no mundo uma amplíssima e potente sociedade . mas a sociedade é convivência sob instâncias. a despeito das aparências. mas que não se liberou de modo completo do arsenal de conceitos tradicionais na historiografia. por que se volatilizou o sistema tradicional de "vigências coletivas". São fatos soltos aos quais o físico tem que inventar uma estrutura imaginária. Mais: talvez é o único no Universo que tem por si mesmo estrutura. Está escrito por uma mente alerta e ágil. não é um amontoado de fatos soltos. mas não está em mim evitá-lo. Pois bem: nada hoje deveria importar tanto ao pacifista como averiguar que é o que acontece nessas camadas profundas do corpo ocidental. as ciências derivam irresistivelmente em direção esotérica. por causas profundas. Também os diagnósticos mais rigorosos da medicina atual são abstrusos. É uma das muitas coisas cuja grave importância os políticos não souberam ver. respeitáveis. sensu stricto. com efeito. Este último aspecto é o que mais nos importa para as aflições atuais. uma história realista. parecerá abstruso. Poucas coisas contribuiriam a apaziguar o horizonte como uma história da sociedade européia. A foro de sociedade. sem "idealizações". vê ali definida uma terrível enfermidade? Esforcei-me sempre em combater o esoterismo. O anterior diagnóstico. porque as formas tradicionais da ótica histórica tapavam esta realidade unitária que chamei. Entretanto. como. conceitos mais ou menos melodramáticos e míticos que ocultam. em parte. Há um século. quer só dizer que fora necessário chamar médicos ótimos e não qualquer transeunte. Por file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. independente de que seja acertado ou errôneo. em vez de revelar. Quer dizer. A verdade é que esses povos em plural flutuam como ludiões dentro do único espaço social que é a Europa: "nele se movem.o credo intelectual e moral da Europa -.htm (107 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . qual é seu índice atual de socialização. Mas essa anatomia da realidade histórica necessita ser estudada. o que sucede no mundo humano. mais vulgarmente dito. Que profano. e. Esta ordem que.A rebelião das massas.

Ora bem. Esta debilitação subitânea da comunidade entre os povos do Ocidente eqüivale a um enorme file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Pelo contrário: todo grupo determinado procura sua máxima fortaleza reclamando para si essas vigências. as fronteiras eram para o viajor pouco mais que coluros imaginários. há trinta anos. interposta. mas é inquestionável e constitui o fato fundamental da sociedade. Mas. Quando uma opinião ou norma chegou a ser de verdade "vigência coletiva". referir-se a ele. não recebe seu vigor do esforço senão impô-la ou sustentá-la empregam grupos determinados dentro da sociedade. A Europa está hoje dissocializada. como um éter benéfico entre eles. quando é com plenitude vigente.htm (108 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . ficamos perplexos. a Europa se encontra em estado de guerra. inversamente. faltam princípios de convivência que sejam vigentes e a que caiba recorrer. independente de todo grupo ou indivíduo determinado. A questão deverá algum dia ser estudada a fundo. de "dizer". às vezes sem que estas se apercebam de que estão dominadas por elas. Vice-versa. separados e frente a frente. Isso é que o pacifista precisa compreender. Ora bem: isto acontece ainda hoje. É frívolo interpretar os regimes autoritários do dia como engendrados pelo capricho ou pela intriga. há anos. que anulava a porosidade das nações e as tornava herméticas. todos vimos como iam rapidamente endurecendo-se. talvez represente um papel diferente que nos demais povos europeus. A pura verdade é que. Esta conduta significa erro. na Inglaterra e na América do Norte (95). O fenômeno é surpreendente. em um estado de guerra substancialmente mais radical que em todo o seu passado. ou. Mais ainda. mas dentro de cada povo há.A rebelião das massas. pois. produz uma impressão entre cômica e inquietante ver que alguém considera suficiente aludir a ela para se sentir justificado ou fortalecido. anônimo. impessoal. com excessiva freqüência. declarada ou preparando-se. teria de ver se não foi um dos fatores que contribuíram ao desprestígio das vigências européias o peculiar uso que delas tem feito a Inglaterra. amparar-se nele. aniquilou-se. porque no homem anglo-saxão a função de se expressar. como se faz com a lei de gravidade. No trato de uns povos com outros não cabe recorrer a instâncias superiores. lhes permita comunicar suavemente. e às vezes crendo inclusive que combatem contra elas. uma grave discórdia. As vigências são o autêntico poder social. Mas. Agora se vê como a coesão interna de cada nação se nutria em boa parte das vigências coletivas européias. quer dizer que este não é ainda ou deixou de ser vigente. a outra esforça-se em defender os tradicionais. Bem claro está que são manifestações iniludíveis do estado de guerra civil em que quase todos os países se encontram hoje. temo que seja funesto para o pacifismo. ou uma ficção deliberada? É inocência ou é tática? Não sabemos a que nos ater. quando uma idéia perdeu esse caráter de instância coletiva. mas não agora nem por mim (96). de que se encontra em um mundo onde falta ou está muito debilitado o requisito principal para a organização da paz. seja um ou outro o sentido desse comportamento. o que é o mesmo. Enquanto. convertendo-se em matéria córnea. Ficam. Uma parte da Europa esforça-se em fazer triunfar uns princípios que considera "novos". E a origem que atribui a esta situação parece-me confirmado pelo fato de que não somente existe uma guerra virtual entre os povos. porque não as há. esta é a melhor prova de que nem uns nem os outros são vigentes e perderam ou não alcançaram a virtude de instâncias. há somente que usá-lo. No momento em que é preciso lutar em prol de um princípio. A atmosfera de sociabilidade em que flutuavam e que. quietas e jacentes no fundo das almas. Ao adverti-lo. enquanto não há senão aceitar a situação e reconhecer que o conhecimento distanciou-se radicalmente das conversações de beer-table. As vigências operam seu mágico influxo sem polêmica nem agitação.

De tal sorte que. cujas características convém precisar um pouco. Isto ocasionou um curioso erro de ótica histórica que impede a compreensão de muitos conflitos atuais. cuja parte mais notória e visível é a saudação. O trato entre eles é dificílimo. não se apercebeu de que a época sem par dos inventos técnicos e de sua realização foram os últimos quarenta anos. de sopetão. Alguns dos meios que haviam de tornar efetiva essa aproximação existiam já em princípio .suas conseqüências radicais (97). está em os outros povos ou em sua absoluta imediação. ferrocarris. reduziu-se. Não adverte o leitor. Há quase meio século fala-se de que os novos meios de comunicação .htm (109 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . e o ritmo de seu efetivo emprego nessa brevíssima etapa.vapores. pois. transferência de produtos e transmissão de notícias . distanciamento moral. Por isso corre ao longo de toda a história a evolução da técnica da aproximação. com efeito. com certas reservas. como são o motor a explosão e a rádio-comunicação. Os povos se encontram de improviso dinamicamente mais próximos. que provocou nele a ilusão de que. e só mais tarde se convertem em realidades. Que uma só fábrica seja capaz de produzir todas as lâmpadas elétricas ou todos os sapatos de que necessita meio continente é um fato demasiado afortunado para não ser. a tempo e hora. entretanto. as almas começaram a se cansar desses lugares comuns. E isso em todas as ordens. tão necessário que cada povo conhecesse bem a singulatim a cada um dos demais. essa opinião era um exagero. Mas com isto frisamos a linha de nossas considerações iniciais. nestes últimos anos recebe cada povo. tal quantidade de notícias e tão recentes sobre o que se passa nos outros.A rebelião das massas. nem sequer se haviam inventado os mais decisivos. Mas como sempre acontece. sem mais nem menos. da distância normal a que estão uns homens dos outros. Neste caso. ainda que haviam chegado a persuadir-se de que o século XIX havia. Refiro-me a um gigantesco fato. Não poucos dos profundos desajustes na economia atual advêm da súbita mudança que causaram na produção estes inventos. Dito de outro modo: para os efeitos da vida pública universal. que a efetiva transformação técnica do mundo é um fato recentíssimo. etc. monstruoso. afinal. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. apressou-se a emitir torrentes de retórica sobre os "avanços". portanto. Os princípios comuns constituíam uma espécie de linguagem que lhes permitia entender-se. emocionado ante as primeiras grandes conquistas da técnica científica. realizado já o que aquela fraseologia proclamava. Isso mesmo aconteceu com as comunicações. Talvez. e que essa mudança está produzindo agora . está visto claramente hoje que se tratava só de uma entusiasta antecipação. supera em muito todo o pretérito humano tomado em conjunto. Porque esse distanciamento moral se complica perigosamente com outro fenômeno oposto. O século XIX. o "progresso material". Convencido o homem médio de que a centúria anterior era a que havia dado cume aos grandes empreendimentos. o perigoso de semelhante conjuntura? Sabido é que o ser humano não pode. Mas nem se havia ainda aperfeiçoado sua invenção nem se haviam posto amplamente em serviço.agora e não de há um século . com efeito. mudança à qual não teve tempo de se adaptar o organismo econômico. pudesse dizer-se que as formas da saudação são função da densidade de povoação.deslocamento de pessoas. telégrafo. aproximar-se a outro ser humano. Sem tardança e de verdade. Não era. que é o que inspirou de modo concreto todo este artigo. telefone -. O número e importância dos descobrimentos. E isto acontece precisamente na hora em que os povos europeus mais se distanciaram moralmente. o tamanho do mundo subitamente se contraiu. tendemos a esquecer que sempre foram mister grandes precauções para aproximar-se dessa fera com veleidades de arcanjo que costuma ser o homem. Como vimos de uma das épocas históricas em que a aproximação era aparentemente mais fácil. isto é. embora os aceitassem como verídicos. Quase sempre as coisas humanas começam por ser lendas.aproximaram os povos e unificaram a vida no planeta. Quer dizer.

que são diferentes das do povo B. Nessa proximidade superlativa tudo é feridor e perigoso: até os pronomes pessoais se convertem em impertinências. Porque o Estado é. As realidades que ajuíza são o que efetivamente passou o mesmo sujeito que as ajuíza. Isso não obstante. empilhados. que viveu e.htm (110 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pois. Dito com outras palavras obtemos esta proposição: é maximamente improvável que em assuntos graves de seu país a "opinião pública" careça da informação mínima necessária para que seu juízo não corresponda organicamente à realidade julgada. Suas atuações são deliberadas e dosificadas pela vontade dos indivíduos determinados os homens políticos -. que é a realidade histórica mesma e tem um valor e uma força superiores a todas as doutrinas. E esta é hoje. mas tomada com atitude microscópica não é verossímil que seja uma reação incongruente com a realidade inorgânica a respeito dela e. por assim dizer. que ademais oferece. onde os homens vivem. afinal das contas. que ao extremo oriental lhe produz o europeu a impressão de ser um grosseiro e insolente. a primeira causa de uma inevitável incongruência. tóxica. com quem. sobrevinda nos últimos quinze ou vinte anos. como se vê. que experimentou em sua própria carne e em sua própria alma. A causa disso é óbvia. precipitam nesta uma "verdade" vital. a rigor. É maximamente provável que essa opinião surta em alto grau incongruente. Pode levar isto a outra coisa que não o jogo dos despropósitos? Eis aqui. mas. Estritamente o contrário acontece quando se trata da opinião de um país sobre o que acontece em outro. No Saara cada tuaregue possui um raio espacial que alcança bastantes milhas. da intervenção que exerce hoje de fato a opinião de umas nações na vida de outras. O povo A pensa e opina. como atributo. e em vez de "tu" dirá algo assim como "a maravilha presente". são ele mesmo. por baixo dessas discrepâncias "teóricas". Por isso o japonês chegou a exclui-los de seu idioma. a meu juízo. um órgão relativamente "racionalizado" dentro de cada sociedade. no essencial. imaginem-se os perigos que engendra sua súbita aproximação entre os povos. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. tão refinada. e estas suscitar opiniões partidistas sustentadas por grupos particulares. os fatos insofisticáveis. irreflexivo e irresponsável. opina sobre fatos que lhe aconteceram. e em lugar de "eu" fará um salamaleque e dirá "a miséria que há aqui". que. Como vai. equivocar-se? A interpretação doutrinal desses fatos poderá dar oportunidade às maiores divergências teóricas. lá do fundo de suas próprias experiências vitais. povos pululantes. só o combate é possível. ao menos com suficiente ênfase. Padecerá erros secundários e de detalhe. Mas não se falou. que só poderia contrariar mediante uma coisa muito difícil. às vezes mui remotas. nariz contra nariz. Mas a opinião de todo um povo ou de grandes grupos sociais é um poder elementar. sua inércia ao influxo de todas as intrigas. muito mais grave que aquela. temos de reconhecer a toda autêntica "opinião pública" consiste. Como aqui falta a "verdade" do vivido. ao opinar sobre as grandes questões que afetam sua nação. a saber: uma informação suficiente. Eu creio que não se reparou devidamente neste novo fator e que urge prestar-lhe atenção. A saudação do tuaregue começa a cem jardas e dura três quartos de hora. quando opina sobre a vida de seu próprio país tem sempre "razão" no sentido de que nunca é incongruente com as realidades que ajuíza. em compacto formigueiro. Na China e no Japão. a saudação e o trato complicaram-se na mais sutil e complexa técnica de cortesia. em sua congruência. a opinião pública sensu stricto de um país.A rebelião das massas. O povo inglês. em suma. gozados ou sofridos pela nação. Esta "razão" ou "verdade" viventes. Se uma simples mudança da distância entre dois homens comporta semelhantes riscos. Tem se falado muito estes meses da intervenção ou não-intervenção de uns Estados na vida de outros países. por conseguinte. indefeso. haveria que substitui-la por uma verdade de conhecimento. aos quais não pode faltar um mínimo de reflexão e sentido de responsabilidade.

Dito fracasso declara estrondosamente que o povo inglês . e que essa opinião estivesse mal informada. essa opinião não se mantém num plano mais ou menos "contemplativo". a complicação do processo que tem lugar. Representemo-nos esquematicamente. O mesmo digo da opinião inglesa. Como na história nada de algum relevo acontece de repente. se ocupam deliberadamente em fustigá-la. Terá o inglês ou o americano todo o direito que entenda para opinar sobre o que passou e deve acontecer na Espanha. discutindo seu "direito" a opinar quanto estimem sobre quanto lhes apraza. não seria excessiva suspicácia no homem inglês admitir a hipótese de que está muito menos informado do que supõe crer. Como será fácil persuadir ao homem inglês de que não está informado sobre o fenômeno histórico que é a guerra civil espanhola ou outra emergência análoga? Sabe que os jornais ingleses gastam somas fortíssimas em sustentar correspondentes dentro de todos os países. Sustenta que a ingerência da opinião pública de uns países na vida dos outros é hoje um fator impertinente. O mundo era então "maior". é o fato gigantesco que serviu a este artigo de ponto de partida: o fracasso do pacifismo inglês. ainda que entre esses correspondentes não poucos exercem seu ofício de maneira apaixonada e partidista. e que a surpreenderam. e a opinião. ou que essa informação tão copiosa se compõe de dados externos. daninhos. cujo primeiro e mais substancial capítulo é sua origem. Mas aqui é onde os meios atuais de comunicação produzem seus efeitos. ao atravessá-la. Tudo isto é verdade. a fim de entendê-la bem. os povos entraram numa extrema proximidade dinâmica. sem fina perspectiva.na guerra civil espanhola. Sempre há. Pois é o caso que se o homem inglês rememora num lance d'olhos encontrará que aconteceram no mundo coisas de grave importância para a Inglaterra. rapidez e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. irremediavelmente. Vice-versa. é perigoso (99). Nada mais longe de minha pretensão que toda intenção de podar o arbítrio a ingleses e americanos. como há um século. de bom sentido. sobrecarrega-se de intenções ativas e adota imediatamente um caráter de intervenção. Não é questão de "direito" ou da desprezível fraseologia que sói amparar-se nesse título: é uma questão. Sabe que. abundância e freqüência. nestes últimos anos. por exemplo. porque essa opinião não está ainda regida por uma técnica adequada à troca de distância entre os povos. as causas que a produziram. Enquanto o Governo americano não atuasse. Há um século não importava que o povo dos Estados Unidos se permitisse ter uma opinião sobre o que acontecia na Grécia. desde logo. Mas. Porque a quantidade de notícias que constantemente recebe um povo sobre o que sucede em outro é enorme.diretamente como tal opinião. de vinte anos de política internacional inglesa. mas. A distância dinâmica entre povo e povo é tão grande. As notícias que o povo A recebe do povo B suscitam nele um estado de opinião . por motivos particulares. menos compacto e elástico. o povo B recebe também com abundância. e porque o é. por suas formidáveis dimensões. mas esse direito é uma injuria e não se aceita uma obrigação correspondente: a de estar bem informado sobre a realidade da guerra civil espanhola. há muitos outros cuja imparcialidade é inquestionável e cuja exatidão em transmitir dados exatos não é fácil de superar. de grandes grupos sociais norte-americanos está intervindo. simplesmente. essa opinião era inoperante sobre os destinos da Grécia. Mas como essas notícias chegam hoje com superlativa rapidez. além disso. venenoso e gerador de paixões bélicas.seja de amplos grupos ou de todo o país -. a opinião incongruente perdia toxidez (98). O exemplo mais claro disto.A rebelião das massas.sabia pouco do que realmente estava acontecendo nos demais povos. entre os quais escapole o mais autenticamente real da realidade.htm (111 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . intrigantes que.apesar de seus inúmeros correspondentes . que. de fato . e não seu Governo .

e me reduzo a confrontar dois comportamentos de um mesmo grupo de opinião. a falar nas rádios. não é uma questão de mais ou de menos. invadiu seu país. Note-se que falo da guerra civil espanhola como um exemplo entre muitos. além disso. há séculos e sempre.000. esse file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o Congresso do Partido Laborista rechaçou. alguns dos principais escritores ingleses assinavam outro manifesto onde se garantia que esses comunistas e seus afins eram os defensores da liberdade. Enquanto em Madri os comunistas e seus afins obrigavam. por 2. que está ali. Mas esta reação de aborrecimento multiplica-se até à exasperação porque o povo B adverte ao mesmo tempo a incongruência entre a opinião A e o que em B. O natural seria que eu estivesse agora em guerra apaixonada contra esses escritores ingleses. sua audácia provoca em nós frenesi. que denunciei como um fator de primeira grandeza entre as causas da presente desordem. Talvez isto o mova a corrigir seu insuficiente conhecimento das demais nações. Mas esse mesmo partido e a massa de opinião que pastoreia ocupam-se em favorecer e fomentar. Alberto Einstein usufrui uma ignorância radical sobre o que acontece na Espanha agora. de seu nervosismo.100. e a sublinhar sua nociva incongruência. suposto o mais decisivo para que no mundo volte a reinar uma ordem. quer dizer. O espírito que o leva a esta insolente intervenção é o mesmo que há muito tempo vem causando o desprestígio universal do homem intelectual. efetivamente. por sua vez. a "Frente Popular". mas que a considerariam como uma doença terrível para a nação inglesa. Por isso é um exemplo concreto do mecanismo belicoso que criou o mútuo desconhecimento entre os povos.. atuando. o exemplo que mais exatamente me consta. faz com que o mundo vá à deriva. comodamente sentados em seus escritórios ou em seus clubes. se convertem automaticamente em diferenças qualitativas. de seus movimentos e tem a impressão de que o estranho. freqüência notícias dessa opinião remota. Há muitos anos que me ocupo em fazer notar a frivolidade e a irresponsabilidade freqüentes no intelectual europeu. mas se além disso revela ignorar completamente nossa vida. aconteceu. escritores e professores a assinar manifestos.e. que. ao mesmo tempo. para o bloco do Partido Laborista. Essas cifras mostram que.htm (112 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a união com o comunismo. Já é irritante que o próximo pretenda intervir em nossa vida.A rebelião das massas. a formação na Inglaterra de uma "Frente Popular". Deixo intacta a questão de se uma "Frente Popular" é uma coisa benéfica ou catastrófica. não é "natural". quase presente. etc. Porque não é fácil encontrar maior incongruência. a despeito de suas copiosas "informações".talvez a civilização não seja outra que essa montagem . falto de pouvoir spirituel. Felizmente. mas permita-se-me convidar o leitor inglês a que imagine qual pode ser meu primeiro movimento ante semelhante fato. do modo mais concreto e eficaz. a "Frente Popular" que se formou em outros países. não contribuiu a debilitar minha surpresa.000 votos contra 300. A diferença numérica na votação é daquelas diferenças quantitativas que. cuidei durante toda minha vida de montar em meu aparelho psico-físico um sistema muito forte de inibições e de freios . segundo Hegel. Há pouco. com intolerável impertinência. que oscila entre o grotesco e o trágico. Há uns dias. como dizia Dante: che saetta previsa vien più lenta. Alberto Einstein acreditou ter "direito" a opinar sobre a guerra civil espanhola e tomar possessão ante ela. Mas eis aqui outro exemplo mais geral. Mas esta moderação que por sorte posso ostentar. Evitemos os espaventos e as frases. Mas é o caso que. sob as mais graves ameaças. e me reduzo a procurar que o leitor inglês admita por um momento a possibilidade de que não está bem informado. isentos de toda pressão. Ora bem. a união com os comunistas.

uma intimidade . essa duplicidade da opinião laborista só irritação pode inspirar fora da Inglaterra. e ambos os partidos hostis coincidem nela. como uma pessoa. que as nações existem.A rebelião das massas. de fora -. Eu creio que há aqui um novo problema de primeira ordem para a disciplina internacional. Não tenho inconveniente em declarar qual é a minha.em autênticas incursões. que a nova estrutura do mundo converte os movimentos da opinião de um país sobre o que acontece em outro . A nação acaba por estabilizar-se em "sua verdade". embora de outro modo e por outras razões. Isto bastaria para explicar por que. penas de amor perdidas. a hermetizar suas existências. repito. E me pareceria vão objetar que essas intervenções irritam uma parte do povo que as sofre. Outra coisa seria pura tolice. aqui reclamamos uma nova técnica de trato entre os povos. Nenhuma de suas doutrinas ou atuações é compreensível se não se descobre em sua raiz o desconhecimento do que é uma nação e de que isso que são as nações constitui uma formidável realidade situada no mundo e com a qual há que contar. quando as nações européias pareciam mais próximas a uma superior unificação. Era um curioso internacionalismo aquele que em suas contas esquecia sempre o detalhe de que há nações (100). Daí que acabam por se unir contra a incongruência da opinião estrangeira. embora me exponha a todos os riscos de uma enunciação esquemática. mais ainda. Tome qualquer função coletiva. Não há razão para que não sofra análoga regulamentação a opinião de um povo sobre outro. que engendrou as presentes angústias. no que efetivamente aconteceu. Há a lei do libelo e há a formidável ditadura das "boas maneiras". Bem notório é que surte praticamente impossível conhecer intimamente um idioma estrangeiro por muito que o estudemos. E não será uma insensatez crer coisa fácil o conhecimento da realidade política de um país estranho? Sustento. Esta é uma observação demasiado óbvia para que seja verídica. por exemplo. Na Inglaterra o indivíduo aprendeu a guardar certas cautelas quando se permite opinar sobre outro indivíduo. declarando-o ou não.portanto. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A parte do país favorecida momentaneamente pela opinião estrangeira procurará. Sobre este: que os povos. à-toa. o oposto. mas comprazem à outra. mesmo grupo de opinião se ocupa em cultivar esse mesmo micróbio em outros países.movimentos que antes eram quase inócuos . poderia dizer-se que é uma intervenção guerreira. beneficiar-se dessa intervenção. Como antes postulávamos uma nova técnica jurídica. Enquanto se produzam fenômenos como este. por sorte. pois. todas as esperanças de que a paz reine no mundo são. Toda realidade desconhecida prepara sua vingança. e isto é uma intervenção. Não pense o leitor em nada vago nem místico. Ora bem: o velho e barato "internacionalismo". umas frente às outras. no fundo. e a converter-se as fronteiras em escafandros isoladores. pensava. começaram repentinamente a fechar-se dentro de si mesmas. Talvez o leitor reclame agora uma doutrina positiva. um sistema de segredos que não pode ser descoberto.htm (113 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . versado mais acima. claro está. Porque essa incongruente conduta. Por isso será funesta toda tentativa de desconhecer que um povo é. posto que tem não poucos caracteres da guerra química. Não outra é a origem das catástrofes na história humana. Mas por baixo dessa aparente e transitória gratidão corre o processo real do vivido pelo país inteiro. a língua. que corre paralelo ao do direito. Claro que isto supõe estar de acordo sobre um princípio básico. Esta só pode esperar agradecimento perdurável na medida em que. acerte ou seja menos incongruente com essa vivente "verdade".

virá uma articulação da Europa em duas formas diferentes de vida pública: a forma de um novo liberalismo e a forma que. Paris. Isto salvará a Europa. Não se trata de que a Europa está enferma. A mesma inspiração que formou as nações do Ocidente continua atuando no subsolo com a lenta e silente proliferação dos corais. das vigências em que sua socialização consiste. destilando sobre ele. deixando ao Ocidente todo seu rico relevo. Porque é disso que se trata. teríamos de lhe tirar e lhe pôr alguns ingredientes para que a idéia fosse luminosa. da fé européia. Pois acontece que em muitas épocas históricas se falou o que agora se fala. a sociedade européia parece volatilizada. portanto. Esta é o autêntico poder de criação histórica. Os povos menores adotarão figuras de transição e intermediárias. Mais uma vez ficará patente que toda forma de vida precisa de sua antagonista. Mas tem também seus direitos a visão de retícula grossa. e isto convida a suspeitar ou que nunca foi verdade ou que o tem sido em sentidos mui diversos. mas como é comum e européia a enfermidade. Porque é estranho que tempos sobremodo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e que.por exemplo: as nações soltas ou uma Europa oriental dissociada até à raiz de uma Europa ocidental. A enfermidade por que atravessa é. Não de laminar as nações. 1937. em claras noções de história. propugno e anuncio o advento de uma forma mais avançada de convivência européia. Mas seria um erro crer que isto significa seu desaparecimento ou definitiva dispersão. O estado atual de anarquia e superlativa dissociação na sociedade européia é uma prova mais da realidade que esta possui. um vazio e nada. comum. sê-lo-á também o restabelecimento. com um nome impróprio. um oco. mas que gozem de plena saúde estas ou as outras nações. Entretanto. imprescindível para que volte a brotar. não será. Se olhamos a realidade com uma ótica de retícula fina. seja provável o desaparecimento da Europa e sua substituição por outra forma de realidade histórica . depurando-o.A rebelião das massas. um passo à frente na organização jurídica e política de sua unidade. No livro The Revolt of the Masses (101). Nada disto se oferece no horizonte -. Desde já. e sim no recato do ensinamento. porque isso significa. O "totalitarismo" salvará o "liberalismo". Nesta data. se costuma chamar de "totalitária". que foi bastante lido em língua inglesa. e graças a isso veremos dentro em breve um novo liberalismo temperar os regimes autoritários. A Europa será a ultra-nação. As nações européias chegam agora a seus pontos cruciais e a cabeçada será a nova integração da Europa. Esta idéia européia é de signo inverso àquele abstruso internacionalismo. o manancial de uma nova fé.htm (114 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . no fundo de bosque que as almas possuem. mas não mana no meio da alteração. como acabo de insinuar. dezembro. Porque se isso acontece na Europa é porque sofre uma crise de sua fé comum. a proposição é mais falsa que verídica. e então não há inconveniente em aceitar essa terrível sentença. Este equilíbrio mecânico e provisório permitirá uma nova etapa de mínimo repouso. pois. Uma nova forma de vida não consegue instalar-se no planeta até que a anterior e tradicional não se tenha ensaiado em seu modo extremo. mas de integrá-las. a inter-nação. O extravio metódico que representa o internacionalismo impediu ver que só através de uma etapa de nacionalismo exacerbados se pode chegar à unidade concreta e cheia da Europa. DINÂMICA DO TEMPO AS VITRINAS MANDAM Dizem que o dinheiro é o único poder que atua sobre a vida social. A Europa não é.

menosprezaram excessivamente a importância da moeda na etapa pré-capitalista da evolução econômica. e que sempre nos colhe de surpresa? É. As épocas em que mais autenticamente e com mais dolentes gritos se lamentou esse poderio. e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules. mas não nos inspira asco. pode descobrir-se nelas uma nota comum: são sempre épocas de crise moral. e no XVII. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela. Que conseqüência tiramos desta monótona insistência? Que o dinheiro.é forçoso declará-lo . ainda sendo isto verdade e calibrando na devida cifra o peso puramente econômico do dinheiro na dinâmica da economia medieval. não se deve fazer muito caso do que as épocas passadas disseram de si mesmas. E de onde nos vem essa convicção. seu dinheiro é o homem!" No tempo de César dizia-se o mesmo. e foi necessário depois refazer a história econômica daquela idade para mostrar a importância efetiva que nos Estados medievais tinha o dinheiro hebreu. sempre renovada. segundo a qual o dinheiro devia ter menos influência da que efetivamente possui? Como não nos habituamos ao fato constante depois de tantos e tantos séculos. para adubar as coisas segundo a pauta de sua tese. talvez. se lhe atribui e que seu influxo só é decisivo quando os demais poderes organizadores da sociedade se retiraram? Se assim fosse entenderíamos um pouco melhor essa estranha mescla de submissão e de asco que ante ele sente a humanidade. Entretanto. A questão é sobretudo complicada e não pode ser resolvida em dois tempos. pelo menos. Porque é demasiado evidente que em muitas épocas humanas o poder social do dinheiro foi muito reduzido e outras energias alheias ao econômico informaram a convivência humana. chrémata aner! "Seu dinheiro. Se hoje os judeus possuem o dinheiro e são os donos do mundo. Os marxistas. Quem as usa expressa com elas. no século XIV o põe em circulação nosso turbulento tonsurado de Hita. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. esta clarividência para o próprio destino é coisa relativamente nova na história. também o possuíam na Idade Média e eram o excremento da Europa. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. um magnífico atributo do ser vivente. sua surpresa de que o dinheiro tenha mais força da que devia ter. No século VII antes de Cristo corria já por todo o Oriente do Mediterrâneo o apotegma famoso: Chrémata. O importante é evitar a concepção econômica da história. que alheia toda a graça do problema. não há correspondência entre a riqueza daqueles judeus e sua posição social. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência. deplorando-o. Esta perspicácia sobre o próprio modo de ser. porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde. tempos muito transitórios entre duas etapas. Como? Será que o dinheiro não possui. Os princípios sociais que regeram uma idade perderam seu vigor e ainda não amadureceram os que vão imperar na seguinte. Gôngora faz disso letras.eram mui pouco inteligentes a respeito de si. ante o poder do dinheiro encerra uma porção de problemas curiosos ainda não aclarados. diferentes coincidam em ponto tão principal. muito diferentes. da realidade econômica nos tempos feudais. Não se diga que o dinheiro não era a forma principal da riqueza. fazendo da história inteira uma monótona conseqüência do dinheiro. essa surpresa e essa insinuação perene de que o poder exercido não lhe corresponde. não o deve ter porque não é seu.A rebelião das massas. desde que se inventou. mas usurpado às outras forças ausentes. Porque. são. o poder que. Pelo visto. é uma grande força social? Isso não era necessário sublinhar: seria uma calinada. Em todas estas lamentações insinua-se algo mais. entre si. porque .htm (115 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. Só como uma possibilidade de interpretação vai tudo isto que digo. Eu creio que esta surpresa. a rigor. Em geral.

mas não é a musa de seu estilo tectônico. Há. Diríamos. O dinheiro teve. de outro modo: o dinheiro não manda mais senão quando não há outro princípio que mande. vice-versa. pode duvidar da importância que o dinheiro tem na história.será tanto maior quantas mais coisas haja para comprar. um pseudo princípio se encarrega de modelar a jerarquia e definir as classes. continuava sendo um infra-homem. se cedem os verdadeiros e normais poderes históricos . Ora bem: isto é impossível. uma razão que dá probabilidade clara à suspeita de ser nosso tempo o mais crematístico de quantos foram. para seu poder. mas vai para o sacerdote na teocrática. nem o mais idealista. religião. por muito dinheiro que tivesse um judeu. fustigada por esse instinto irreprimível de jerarquia. um limite automático em sua própria essência. O dinheiro é apenas um meio para comprar coisas. Ora bem: não há dúvida que o industrialismo moderno. o exclusivo do presente é esta outra conjuntura. idéias -. isto aconteceu várias vezes na história. a meu juízo. produziu nestes anos um cúmulo tal de objetos mercáveis. Contra a ingenuidade igualitária é preciso fazer notar que a jerarquização é o impulso essencial da socialização. toda a energia social vacante é absorvida por ele. o homem mais invejado era aquele que possuía certa tulipa rara. mas havia pouco para comprar. e vai para o guerreiro na sociedade belicosa. A fantasia humana. É também idade de crise: os prestígios há anos ainda vigentes perderam sua eficiência. que. fica a sociedade sem motivo que jerarquize os homens. incapaz por si mesmo de inspirar a grande arquitetura da sociedade. Mas. ainda limitando de tal sorte a frase inicial que dá ocasião a esta nota. Qual seja o princípio desta é outra questão. Se nos envaidecemos. que eram os mais ricos como classe. Pois bem: no século XVI.A rebelião das massas. que seja ele quem destaca o indivíduo no corpo público. por ser elemento material. Talvez o poder social não depende normalmente do dinheiro. Assim se explica essa nota comum a todas as épocas submetidas ao império crematístico que consiste em ser tempos de transição.na Holanda. Isto nos permite formar uma escala com as épocas de crematismo e dizer: o poder social do dinheiro .raça. mas. tudo que acontece em nossa hora parecer-nos-á único e excepcional na série dos tempos. Ou. pois. No século XVIII existiam também grandes fortunas. Resta só o dinheiro. Também esta curiosidade é exposta e difícil de satisfazer. se queria algo mais que o breve repertório de mercadorias existente. de tantas classes e qualidades. inventa sempre algum novo tema de desigualdade. não pode volatilizar-se. É uma das forças principais que atuam no equilíbrio de todo ofício coletivo. Durante um momento . Mas algum terá de existir sempre. A cultura intelectual e artística é avaliada menos que há vinte anos. política. seu influxo será escasso. tinha de inventar um apetite e o objeto que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O novo. se reparte segundo se acha repartido o poder social. Se os normais faltam. Ninguém. e no tempo de César os "cavaleiros". Se há poucas coisas para comprar.htm (116 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas. por muito dinheiro que haja e por muito livre que se encontre sua ação de conflitos com outras potências. mas talvez possa duvidar-se de que seja um poder primário e substantivo.o século XVII . não ascendiam ao cume da sociedade. O sintoma de um poder social autêntico é que cria jerarquias. que quando se volatilizam os demais prestígios resta sempre o dinheiro. como indiquei. eu me pergunto se há alguma razão para afirmar que em nosso tempo goza o dinheiro de um poder social maior que em tempo algum do passado. Parece o mais verossímil que seja o dinheiro um fator social secundário. Pelo contrário. Onde há cinco homens em estado normal produz-se automaticamente uma estrutura jerarquizada. que o dinheiro pode desenvolver fantasticamente sua essência: o comprar. entretanto.ceteris paribus . Nem a religião nem a moral dominam a vida social nem o coração da multidão. O rico. em sua combinação com os fabulosos progressos da técnica. Morta uma constituição política e moral. não quanto maior seja a quantidade do dinheiro mesmo.

As modificações externas atuam só como excitantes de modificações intraorgânicas. e mesmo cada indivíduo. satisfaria. Caberia imaginar um autômato provido de um bolso em que metesse mecanicamente a mão e chegasse a ser o personagem mais ilustre da urbe.o melhor automóvel. e mesmo cada variedade. nunca idêntica. Convém abandonar a idéia de que o meio. portanto. escolher os objetos melhores . A estrutura mais primitiva da sociedade se reduz a dividir os indivíduos que a integram em homens e mulheres. aprontará uma resposta mais ou menos diferente. .e comprá-los. em suma. Em todo este intrincamento intercalado entre o dinheiro e objeto complicava-se aquele com outras forças espirituais fantasia criadora de desejos no rico. Basta que durante algum tempo a temperatura média do ano desça cinco ou seis graus para que a glacialização se produza. As mudanças mais violentas que nossa espécie conheceu. As formas biológicas mesmas foram. A lentidão e suavidade deste processo dá tempo a que o organismo reaja. sem querer. pelo visto. súbitas mudanças extremas de clima -. sempre muito cotidiana. trabalho técnico deste. perguntas que o ser vivo responde com uma ampla margem de originalidade imprevisível. . como nos mitos mais arcaicos pode se recordar confusamente. mecanicamente. A vida é masculina ou feminina. a meu juízo. o melhor chapéu. Como se pode pensar que estes módulos elementaríssimos e divergentes da vitalidade não sejam gigantescos poderes plásticos da história? Foi. os períodos glaciais. jovens e velhos. o decisivo influxo das diferenças biológicas mais elementais. quando se advertiu que a organização social mais primitiva não é senão a marca na massa coletiva dessas grandes categorias vitais: sexos e idades. que a vida seja um processo de fora para dentro. é uma operação que se faz de dentro para fora. é jovem ou é velha. seleção do artífice.htm (117 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Agora um homem chega a uma cidade e aos quatro dias pode ser o mais famoso e invejado habitante dela sem mais trabalho que passear ante as vitrinas. Em definitivo. a bem dizer. 15 de maio de 1927. modele a vida. vai para trinta anos. e cada uma destas classes sexuais (102) em meninos. havia de parecer-me sobremodo verossímil que nos mais profundos e amplos fenômenos históricos apareça. um dos descobrimentos sociológicos mais importantes o que se fez. não tiveram caráter de grande espetáculo. o melhor isqueiro.de que se fazia.dilúvios. A existência tem sido. Pensando assim. O mais provável é que o homem não assistiu nunca a semelhantes catástrofes. Cada espécie. em classes de idade. submersão de continentes. e esta reação de dentro do organismo à mudança física do contorno. e por isso as causas ou princípios de suas variações devem ser buscados no interior do organismo. pelo menos dentro de um mesmo período histórico zoológico. é a verdadeira variação histórica. o efeito por elas produzido transcendeu os limites do histórico e transtornou a espécie como tal. JUVENTUDE I As variações históricas não procedem nunca de causas externas ao organismo humano. etc. que os verões sejam um pouco mais frescos. El Sol. Se houve catástrofes telúricas . por assim dizer. as primeiras file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Viver. etc. tinha de buscar o artífice que o realizasse e dar tempo a sua fabricação. mais ou menos claro.A rebelião das massas. são. dependente.

entre as bem conhecidas. quer dizer. sendo rítmica toda vida. O fenômeno é demasiado recente e ainda não se pode ver se esta nova vida in modo juventutis será capaz do que depois direi. Chega uma época em que prefere. às vezes súbitas? Eis aqui uma questão sobre a qual não podemos ainda dizer uma só palavra clara (103). antes de tudo. sentimento. Roma. juventude e senectude. em seu sentido. de incitação e de freio. foram desalojadas a madureza e a ancianidade: em seu oposto se instalava o homem jovem com seus peculiares atributos. imagem. história da mente. mas sob condição de servir ao espírito que Sócrates representa. está o homem maduro que o educa e dirige. desde o fin de siècle. quer dizer. Deste modo. que lhes serve de norma. Na realidade. Então adverte-se o que de antemão devia presumir-se: que. No ser humano a vida se duplica porque ao intervir a consciência a vida primária se reflete nela: é interpretada por ela em forma de idéia. E preciso que passe algum tempo para poder aventurar este prognóstico. Por que acontecem estas variações da preferência. produz-se entre eles uma colisão. É surpreendente que em povos tão velhos como os nossos. entretanto. Os dois nomes que enunciam os partidos da file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sem o que não é possível a perduração de seu triunfo. (104) o predomínio tem sido tão extremado e exclusivo. Eu não sei se este triunfo da juventude será um fenômeno passageiro ou uma atitude profunda que a vida humana tomou e que chegará a qualificar toda uma época. do pai de família. O que realmente me parece evidente é que nosso tempo se caracteriza pelo extremo predomínio dos jovens. Hoje de um lugar. o interessante será descrever a projeção na consciência desses predomínios rítmicos. amanhã de outro. o é também a história. seremos forçados a dizer: tem havido na história outras épocas em que predominaram os jovens. e depois de uma guerra mais triste que heróica. que há tempos de jovens e tempos de velhos. e que os ritmos fundamentais são precisamente os biológicos. Nos séculos clássicos da Grécia. toma a vida de repente um aspecto de triunfante juventude. Vêem a ser como estilos diversos do viver. íntegra. um forcejar em que cada qual tenta arrastar. a masculinidade e a feminilidade. que estima mais as qualidades da vida jovem. A luta misteriosa que mantém nas secretas oficinas do organismo a juventude e a senectude. mas junto a ele. este império dos jovens vinha se preparando desde 1890. os homens maduros? O varonil ou o feminino? É sobremaneira interessante perseguir nos séculos as deslocações do poder para uma ou a outra dessas potências. como tantas outras coisas.A rebelião das massas. prefere o velho ao jovem e submete-se à figura do senador.htm (118 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que há épocas em que predomina o masculino e outras senhoreadas pelos instintos da feminilidade. mas nunca. e como potência compensatória. da alma. E como todos coexistem em qualquer instante da história. e perguntar: Quem pode mais? Os jovens ou os velhos. O "filho". E como a história é. Para compreender bem uma época é preciso determinar a equação dinâmica que nela dão essas quatro potências. Masculinidade e feminilidade. desestima as da vida madura. A parelha Sócrates-Alcibíades simboliza muito bem a equação dinâmica de juventude e madureza desde o século V no tempo de Alexandre. O jovem Alcibíades triunfa sobre a sociedade. e pospõe. a graça e o vigor juvenis são postos a serviço de algo acima deles. são duas parelhas de potências antagônicas. Mas se fossemos atender só ao aspecto do momento atual. instituições. a vida toda organiza-se em torno do efebo. pelo contrário. ou bem acha a graça máxima nos modos femininos diante dos masculinos. o jovem atua sempre diante do senador em forma de oposição. Cada uma destas potências significa a mobilização da vida toda em um sentido divergente do que possui sua contrária. a existência humana. reflete-se na consciência sob a espécie de preferências e desdéns.

efetivamente. Entretanto.A rebelião das massas. E a época dos blasés. Domina a centúria Descartes. luta multissecular aludem a esta dualidade de potências: patrícios e proletários. são só adequados à gente dessa idade. o uso. uma subversão contra o passado e é um ensaio de se afirmar a si mesma a juventude. O que o jovem afirma então não é a sua juventude. Ao chegar ao século XVIII neste virtual processo temos de nos interrogar. ingenuamente surpresos: Para onde foram os jovens? Quanto vale nesta idade parece ter quarenta anos: o traje. O romanticismo. Todas as gerações do século XIX aspiraram a ser maduras o mais depressa possível e sentiam uma estranha vergonha de sua própria juventude. o corpo elástico e nu. não a confusa juventude. prefere suas atitudes fatigadas e apressa-se a abandonar sua mocidade. O jacobino e o general de Bonaparte são rapazes. oferece este tempo o exemplo de um falso triunfo juvenil. 9 de junho de 1927. dos suicídios. casado segundo lei do Estado e por isso herdeiros de bens. Ambos significam "filhos". que abomina de toda qualidade juvenil. Tertium non datur. O gesto de combate que parece interpolar-se entre ambos pertence. a rigor. Há nele. e os jovens ao olhar dentro de si só acham inapetência vital. o velho de nascimento. El Sol. vestido à espanhola. que com uma ou outra intensidade impregna todo o século XIX. e o romanticismo porá de manifesto sua carência de autenticidade. prole. os modos. A guerra ofensiva vai inspirada pela segurança na vitória e antecipa o domínio. não é filho de "alguém" reconhecido. detesta o sentimento e a paixão. porque no fundo de sua alma o atacado estima mais que a si mesmo o ofensor. De Ninon estima-se a madureza.varões e fêmeas . ao passo que o proletário é filho no sentido da carne. É o século do entusiasmo pelos decrépitos. A guerra defensiva sói empregar táticas vis.homem ou mulher . O jovem imita em si o velho. Para achar outra época de juventude como a nossa. é genial porque antecipa a ancianidade dos geômetras. II Todo gesto vital.que tendem a prolongar ilimitadamente sua mocidade e se instalam nela como definitivamente. Esta é a causa que decide file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Compare-se com os jovens atuais . de negro. a um ou outro estilo. o XVIII. é mero descendente e não herdeiro. ou é um gesto de domínio ou um gesto de servidão. O jovem revolucionário é só o executor das velhas idéias confeccionadas nos dois séculos anteriores. o garoto genial. Repasse o leitor rapidamente a série de épocas européias. A Revolução fizera tábua rasa da geração precedente e permitiu durante quinze anos que ocupassem todas as eminências sociais homens muito moços. Para extremar tal estilo de vida finge-se na cabeça a neve da idade.com uma suposição de sessenta anos. o ar prematuramente caduco no andar e no sentir. Se damos um passo atrás caímos no século vieillot por excelência. seria preciso descer até o Renascimento. uns são filhos de pai cidadão.htm (119 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pode parecer em sua iniciação um tempo de jovens. mas princípios recebidos: nada tão representativo como Robespierre. (Como se vê a tradição exata de patrício seria fidalgo). cadáver vivente que passa sorrindo de si mesmo no sorriso inumerável de suas rugas. que estremece ao passo de Voltaire. Quando no romanticismo se reage contra o século XVIII é para voltar a um passado mais antigo. Busca-se por toda a parte a raison e interessa mais que nada a teologia: jesuítas contra Jansênio. Pascal. e a peruca empoada cobre toda testa primaveril .

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um ou outro estilo de atitude. O gesto servil o é porque o ser não gravita sobre si mesmo, não está seguro de seu próprio valor e em todo instante vive comparando-se com outros. Necessita deles em uma ou outra forma; necessita de sua aprovação para se tranqüilizar, quando não de sua benevolência e de seu perdão. Por isso o gesto leva sempre uma referência ao próximo. Servir é encher nossa vida de atos que têm valor só porque outro ser os aprova ou aproveita. Têm sentido olhados da vida deste outro ser, não da nossa vida. E esta é, em princípio, a servidão: viver desde outro, não desde si mesmo. O estilo de domínio, por seu turno, não implica a vitória. Por isso aparece com mais pureza que nunca em certos casos de guerra defensiva que concluíram com a completa derrota do defensor. O caso de Numância é exemplar. Os numantinos possuem uma fé inquebrantável em si mesmos. Sua longa campanha contra Roma começou por ser de ofensiva. Desprezavam o inimigo e, com efeito, o derrotavam uma vez e outra (105). Quando mais tarde, recolhendo e organizando melhor suas forças superiores, Roma aperta Numância, esta, dir-se-á, toma a defensiva, mas propriamente não se defende, efetivamente aniquila-se, suprime-se. O fato material da superioridade de forças no inimigo convida ao povo de alma dominante a preferir sua própria anulação. Porque só sabe viver desde si mesmo, e a nova forma de existência que o destino lhe propõe - servidão - lhe é inconcebível, lhe sabe a negação do viver mesmo; portanto, é a morte. Nas gerações anteriores a juventude vivia preocupada com a madureza. Admirava os maiores, recebia deles as normas - em arte, ciência, política, usos e regime de vida -, esperava sua aprovação e temia seu enfado. Só se entregava a si mesma, ao que é peculiar a tal idade, subrepticiamente e como à margem. Os jovens sentiam sua própria juventude como uma transgressão do que é devido. Objetivamente se manifestava isto no fato de que a vida social não estava organizada em vista deles. Os costumes, os prazeres públicos haviam sido ajustados ao tipo de vida próprio para as pessoas maduras, e eles tinham de se contentar com as zurrapas que estas lhes deixavam ou lançar-se às estroinices. Até no vestir viam-se forçados a imitar os velhos: as modas estavam inspiradas na conveniência da gente maior. As moças sonhavam com o momento em que se vestiriam "à vontade", quer dizer, em que adotariam o traje de suas mães. Em suma, a juventude vivia a serviço da madureza. A mudança operada neste ponto é fantástica. Hoje a juventude parece dona indiscutível da situação, e todos os seus movimentos vão saturados de domínio. Em sua atitude transparece bem claramente que não se preocupa o mínimo com a outra idade. O jovem atual habita hoje sua juventude com tal resolução e denodo, com tal abandono e segurança, que parece existir só nela. O que a madureza pense dela não lhe importa um caracol; mais ainda: a madureza possui a seus olhos um valor próximo ao cômico. Mudaram-se as tornas. Hoje o homem e a mulher maduros vivem quase sobressaltados, com a vaga impressão de que quase não têm direito a existir. Advertem a invasão do mundo pela mocidade como tal e começam a fazer gestos servis. Desde logo, imitam-na no trajar. (Tenho sustentado muitas vezes que as modas não eram um fato frívolo, mas um fenômeno de grande transcendência histórica, obediente a causas profundas. O exemplo presente esclarece com exaustiva evidência essa afirmação). As modas atuais estão pensadas para corpos juvenis, e é tragicômica a situação de pais e mães que se vêem obrigados a imitar seus filhos e filhas na indumentária. Os que já andamos na curva descendente da

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vida vemo-nos na inaudita necessidade de ter de desandar um pouco o caminho percorrido, como se o houvéssemos errado, e fazer-nos - de grado ou não - mais jovens do que somos. Não se trata de fingir uma mocidade que se ausenta de nossa pessoa, mas que o módulo adotado pela vida objetiva é o juvenil e nos força a sua adoção. Como com o vestir, acontece com tudo o resto. Os usos, prazeres, costumes, modos, estão talhados à medida dos efebos. É curioso, formidável, o fenômeno, e convida a essa humildade e devoção ante o poder, ao mesmo tempo criador e irracional, da vida que eu fervorosamente recomendei durante toda a minha. Note-se que em toda a Europa a existência social está hoje organizada para que possam viver a gosto só os jovens das classes médias. Os maiores e as aristocracias ficaram fora da circulação vital, sintoma em que se enlaçam dois fatores distintos - juventude e massa - dominantes na dinâmica deste tempo. O regime de vida média aperfeiçoou-se - por exemplo, os prazeres -, e, em troca, as aristocracias não souberam criar para si novos refinamentos que as distanciem da massa. Só lhe resta a compra de objetos mais caros, mas do mesmo tipo geral que os usados pelo homem médio. As aristocracias, desde 1800 no político, e desde 1900 no social, têm sido levadas de roldão, e é lei da história que as aristocracias não podem ser levadas de roldão senão quando previamente caíram em irremediável degeneração. Mas há um fato que sublinha mais que outro algum este triunfo da juventude e revela até que ponto é profundo o transtorno de valores na Europa. Refiro-me ao entusiasmo pelo corpo. Quando se pensa na juventude, pensa-se antes de tudo no corpo. Por várias razões: em primeiro lugar, a alma tem uma frescura mais prolongada, que às vezes chega a ornar a velhice da pessoa; em segundo lugar, a alma é mais perfeita em certo momento da madureza que na juventude. Sobretudo, o espírito - inteligência e vontade - é, sem dúvida, mais vigoroso na plenitude da vida que em sua etapa ascensional. Por seu turno, o corpo tem sua flor - seu akmé, diziam os gregos - na estrita juventude, e, vice-versa, decai infalivelmente quando esta se transpõe. Por isso, desde um ponto de vista superior às oscilações históricas, por assim dizer, sub specie aeternitatis, é indiscutível que a juventude rende a maior delícia ao ser olhada, a madureza, ao ser ouvida. O admirável do moço é o seu exterior; o admirável do homem feito é sua intimidade. Pois bem: hoje prefere-se o corpo ao espírito. Não creio que haja sintoma mais importante na existência européia atual. Talvez as gerações anteriores rendessem demasiado culto ao espírito e - salvo a Inglaterra - desdenharam excessivamente a carne. Era conveniente que o ser humano fosse admoestado e se lhe recordasse que não é só alma, mas união mágica de espírito e corpo. O corpo é por si puerilidade. O entusiasmo que hoje desperta inundou de infantilismo a vida continental, afrouxou a tensão do intelecto e vontade em que se retorceu o século XIX, arco demasiado retesado para metas demasiado problemáticas. Vamos dar um descanso ao corpo. A Europa - quando tem diante de si os problemas mais pavorosos - entrega-se a umas férias. Brinda elástico o músculo do corpo desnudo atrás de uma bola de futebol que declara francamente seu desdém a toda transcendência voando pelo ar com ar em seu interior. As associações de estudantes alemães solicitaram energicamente que se reduza o plano de estudos universitários. A razão que davam não era hipócrita: urgia diminuir as horas de estudo porque eles precisavam do tempo para seus jogos e diversões, para "viver a vida". Esta atitude dominante que hoje tem a juventude parece-me significativo. Só me ocorre uma reserva
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mental. Entrega tão completa a seu próprio momento é justa enquanto afirma o direito da mocidade como tal, ante a sua antiga servidão. Mas, não é exorbitante? A juventude, estádio da vida, tem direito a si mesma; mas por ser um estádio vai afetada inexoravelmente de um caráter transitório. Fechando-se em si mesma, cortando as pontes e queimando as naves que conduzem aos estádios subseqüentes, parece declarar-se em rebeldia e separatismo do resto da vida. Se é falso que o jovem não deve fazer outra coisa senão preparar-se para ser velho, também é erro parvo iludir por completo esta cautela. Pois é o caso que a vida, objetivamente, necessita da madureza; portanto, que a juventude também a necessita. É preciso organizar a existência: ciência, técnica, riqueza, saber vital, criações de toda ordem, são requeridas para que a juventude possa alojar-se e divertir-se. A juventude de agora, tão gloriosa, corre o risco de arribar a uma madureza inepta. Hoje goza o ócio florescente que lhe criaram gerações sem juventude (106). Meu entusiasmo pelo aspecto juvenil que a vida adotou não se detém senão ante esse temor. Que vão fazer aos quarenta os europeus futebolistas? Porque o mundo é certamente uma bola, mas tendo dentro de si mais do que simples ar. El Sol, 19 de junho de 1927.

MASCULINO OU FEMININO? Não há dúvida que nosso tempo é tempo de jovens. O pêndulo da história, sempre inquieto, ascende agora pelo quadrante "mocidade". O novo estilo de vida começou não há muito, e ocorre que a geração próxima já aos quarenta anos tem sido uma das mais infortunadas que existiram. Porque quando era jovem reinavam ainda na Europa os velhos, e agora que entrou na madureza depara que o império se transferiu para a mocidade. Faltou-lhe, pois, a hora de triunfo e de domínio, a oportunidade de grata coincidência com a ordem reinante na vida. Em suma: que viveu sempre ao revés com o mundo, e, como o esturjão, teve de nadar sem descanso contra a correnteza do tempo. Os mais velhos e os mais jovens desconhecem este duro destino de não haver flutuado nunca; quero dizer, de nunca haver sentido a pessoa como levada por um elemento favorável, e que pelo contrário dia após dia e lustro após lustro teve de viver em suspenso, sustentando-se a pulso sobre o nível da existência. Mas talvez esta mesma impossibilidade de se abandonar um só instante a disciplinou e purificou sobremaneira. É a geração que mais combateu, que ganhou a rigor mais batalhas e menos triunfos tem gozado (107). Mas deixemos por enquanto intacto o tema dessa geração intermediária e retenhamos a atenção sobre o momento atual. Não basta dizer que vivemos em tempo de juventude. Com isso não fizemos mais do que defini-lo dentro do ritmo das idades. Mas ao lado deste atua sobre a substância histórica o ritmo dos sexos. Tempo de juventude! Perfeitamente. Mas, masculino ou feminino? O problema é mais sutil, mais delicado - quase indiscreto. Trata-se de filiar o sexo de uma época. Para acertar nesta, como em todas as empresas da psicologia histórica, é preciso tomar um ponto de vista elevado e libertar-se de idéias estreitas sobre o que é masculino e o que é feminino. Antes de tudo é urgente desasir do trivial erro que entende a masculinidade principalmente em sua relação com a mulher. Para quem pensa assim, é muito masculino o fanfarrão que se ocupa acima de tudo de cortejar as damas e falar das boas fêmeas. Este era o tipo de varão dominante em 1890: traje barroco, sobrecasaca cujas abas
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sentados nos pórticos com o cajado na axila. até o ponto de que o historiador. como apoio e pausa à conversação que languidece. portanto. (O bom fisionomista das modas descobre logo a idéia que inspirava esta: a ocultação do corpo viril sob uma profusa vegetação de tela e pelame. e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita. a mulher se adianta um pouco: Aspásia. acampamento. É possível que o seja.A rebelião das massas.. É uma época de profunda insinceridade: discursos parlamentários e prosa de "artigo de fundo") (108). um duelo por mês. por si só. tem este o privilégio de que a maior e a melhor porção de si mesmo é independente por completo de que a mulher exista ou não. Eu não o aplaudo nem o vitupero. muito ao fundo da cena. que culmina no século de Péricles. Esta fica relegada ao fundo da vida.. mas tampouco o invento. como algo incompleto e vulnerado) (109). Ciência. É uma realidade de primeira grandeza com que a Natureza. Vive-se em público: ágora. etc. como tal. capeavam o vento. O fato de que ao pensar no homem se destaque primeiramente seu afã pela mulher revela. é preterido e desestimado. sua interpretação da beleza feminina não conseguiu desprender-se da preferência que sentia pela beleza do varão. trirreme. e.htm (123 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Egrégia ocasião de masculinidade foi o século de Péricles. Seu trato normal com a mulher fica excluído na zona diurna e luminosa em que acontece o mais valioso da vida. que lhe permite em ampla medida bastar-se a si mesmo. O resto era falsificação. que nessa época predominavam os valores de feminilidade.. paternidade. No frontispício histórico aparecem só homens. a uma nativa cegueira do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ginásio. Século só para homens. nos obriga a contar. entregues aos puros instintos . Porque assim como a mulher não pode em nenhum caso ser definida sem referi-la ao varão. talvez pareça irritante. apenas a vê. o adolescente bebe no ar ático a fluência de palavras agudas que brota dos velhos dialéticos. plastrão. barba de mosqueteiro. e se recolhe na treva. guerra. me força a dizer que todas as épocas masculinas da história se caracterizam pela falta de interesse pela mulher. Não há sintoma mais evidente de que o masculino. A forma feminina lhe parece como uma mutilação da masculina. com efeito. Sim. Ficavam só à vista mãos. Este privilégio do masculino. aparece sob a espécie de flautistas e dançarinas que executam suas humildes destrezas ao fundo. Embora o grego tenha sabido esculpir famosos corpos de mulher.por um instante .sensualidade. familiaridade -. uma espécie de atleta com seios. nariz e olhos. Por que? Porque aprendeu o saber dos homens. inexorável em suas vontades. Por sua parte.amarga desilusão. técnica. são coisas em que o homem se ocupa com o centro vital de sua pessoa. Alguma vez. (É curioso advertir que a sensualidade noviça da criança a faz normalmente sonhar com o hermafrodita. sem que a mulher tenha intervenção substantiva. A veracidade. no banquete varonil. forçado a uma ótica de lonjura. política. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX. esporte. à última hora. os homens vivem na época só com homens. Só quando a mulher é o que mais se estima e encanta tem sentido apreciar o varão pelo serviço e culto que a esta renda. quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura. A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil. Seria um erro atribuir este masculinismo. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista. quando mais tarde separa a forma masculina sofre . extrema feminilidade. barbearia. cabelo em volutas. porque se masculinizou. pois. A mulher?. que o escultor vai comentar no mármore. literatura textil. no subterrâneo das horas inferiores. O homem maduro assiste aos jogos dos efebos nus e habitua-se a discernir as mais finas qualidades da beleza varonil.

não "deve separar-se. ante o Estado e a Igreja. Na primeira Idade Média a vida tem o mais rude aspecto. virago musculosa que possui atitudes e destrezas de varão. Agora aparece a "cortesia" triunfadora da "clerezia". Esta existência de áspero regime cria as bases primeiras. A mutação se deve ao ingresso da mulher no cenário da vida pública. de paz. O homem vive quase sempre em acampamentos. E eis aqui que rapidamente. El Sol. a fêmea beligerante. Todavia em tempos de Dante alguns nobres os Lamberti. Mas no século XII as altas damas de Provença e Borgonha têm a audácia surpreendente de afirmar. onde a mulher é o centro. o regime de vida que vai inspirado pelo entusiasmo pela mulher. só com outros homens. mas "corte de amor". da crina de seu cavalo e passará sua vida à sombra da lança".htm (124 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . grácil. suavissimamente. Já não se aprecia o gesto bronco. A Corte dos Carolíngios era exclusivamente feminina. como diz um texto da época. mas o gesto mesurado. A mulher é presa de guerra. A verdade é que em outras épocas da Grécia anteriores à clássica triunfou o feminino.mas não como a antiga corte de guerra e de justiça. Trata-se. feminina. homem grego para os valores da feminilidade. bebida. Vê-se nela a norma e o centro da criação.conservavam. E preciso guerrear cotidianamente e à noite compensar o esforço com o abandono e o frenesi da orgia. vai se chamar séculos mais tarde "sociedade". Mercê a ela conseguiu-se já no século XII acumular alguma riqueza. e opor-lhe o suposto rendimento do germano ante a mulher. em perpétua emulação com eles sobre temas viris: esgrima. o subsolo do porvir europeu. nada mais nada menos. a mulher carece de papel e não intervém no que podemos chamar vida de primeira classe. O homem. Entendamo-nos: em todas as épocas desejou-se a mulher. o valor específico da pura feminilidade. a segunda. Precisamente esclarece melhor que outro exemplo a diferença entre épocas de um e outro sexo o acontecido na Idade Média. masculina. antes de tudo. Porque até o século XII não se havia encontrado a maneira de afirmar a delícia da existência. Assim nesta bronca idade. como em certas jornadas de primavera. Esta nova forma de vida pública. 26 de junho de 1927. À contínua pendência substitui o solatz e deport que quer dizer conversação e jogo. em cujas mãos se achavam todos os meios da luta? Não cabe mais claro exemplo da força indomável que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. nada mais nada menos. do mundanal ante o enérgico "tabu" que sobre todo o terreno fizera cair a Igreja. contém o germe do que. os Soldanieri . como em certas etapas do germanismo domina o varonil. Em tal paisagem moral. o privilégio de ser enterrados a cavalo (110). caça. cavalaria. que por si mesma se divide em duas porções: a primeira. com efeito. a feminilidade eleva-se a máximo poder histórico. Quando o germano destes séculos se ocupa em idealizar a mulher. de bem-estar. Os homens começam a polir-se na palavra e nos modos.. muda a face da história. Como aceitam este jugo o guerreiro e o sacerdote. II Trata-se. ante o Estado dos guerreiros e ante a Igreja dos clérigos..A rebelião das massas. Chamou-se então "corte" . imagina a valquíria. E a "cortesia" é. mas não em todas foi estimada. Sem a violência do combate ou do anátema. de todo um novo estilo de cultura e de vida. até a morte. desde o século XII. de todo um novo estilo de cultura e de vida. contar com um pouco de ordem.

no tempo do Dante. consta pelo Gênese que a mulher não está feita de barro como o varão. sem acatar ou render culto a nada que não seja sua própria juventude. como sempre que os valores masculinos predominaram. cheiraria hoje a efeminamento. As moças perderam o hábito de ser galanteadas. Mas. e seu caráter patológico os impede de representar a normalidade de nenhuma época. "sentir do tempo" possui.A rebelião das massas. o homem muito preocupado com a mulher. Em tempos deste sexo. O velho "efeminado" denomina este novo entusiasmo dos jovens pelo corpo viril e esse esmero com que o tratam. mas quando sobrevêm etapas de masculinismo descobre-se o que neles há de efetivo efeminamento. esses homens parecem muito homens. Não lhes interessa mais que seu jogo e a maior ou menor perfeição na postura ou na destreza. E o é. Por um deles significa o homem anormal que fisiologicamente é um pouco mulher.htm (125 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Suas armas preferem ao combate a justiça e o torneio. adquirem uma fina percepção da física file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que projeta nas regiões transcendentes a entronização do feminino. apesar de seu aspecto de mata-mouros. Por isso. acontecida na ordem sublunar. cuida de seu corpo e tende a ostentá-lo. É surpreendente a resolução e a unanimidade com que os jovens decidiram não "servir" a nada nem a ninguém. À força de contemplar-se nos exercícios onde o corpo aparece isento de falsificações têxteis. ajustam-se à cintura e se decotam até o colo. e esse gesto em que há trinta anos ressumavam todas as resinas da virilidade. que versam sobre qualidades viris. efeminamento. a seus exercícios e preferências. A mocidade masculina afirma-se a si mesma. A vida do varão perde o módulo da etapa masculina e se conforma ao novo estilo. Convivem. que gira em torno dela e dispõe suas atitudes e pessoa em vista de um público feminino. "efeminado" significa simplesmente homme à femmes. e chega a ser a forma de todo ideal. O poeta deixa um pouco a gesta em que se canta o herói varonil e torneia a trova que foi inventada sol per domnas lauzar (111). o homem estima sua figura mais que a do sexo contrário e. consequentemente. Estes indivíduos monstruosos existem em todos tempos. pois. é tão poderoso que não necessita combater. a figura feminina absorve o ofício alegórico de tudo que é sublime. de tudo que é aspiração. volta-se ao panorama atual e conhece no mesmo instante que nosso tempo não é só tempo de juventude. mas de juventude masculina. montado sobre os nervos de uma nova geração. que facilmente poderíamos multiplicar. Exercitada a pupila nestes esquemas do pretérito. sem se preocupar com o resto. A rigor. cuja cifra põe no escudo. Hoje. como desviação fisiológica da espécie. O dono do mundo é hoje o rapaz. mas feita de sonho do varão. Os trajes dos homens começam a imitar as linhas do traje feminino. que estão ordenados para ser vistos pelas damas. Nada pareceria mais obsoleto que o gesto rendido e curvo com que o cavalheiro fanfarrão de 1890 se aproximava da mulher para lhe dizer uma frase galante. simplesmente se instala no mundo como uma propriedade indiscutida. quando é o contrário. retorcida como um caracol. não porque o tenha conquistado. Os rapazes convivem juntos nos estádios e áreas de esportes. O cavalheiro desvia suas idéias feudais para a mulher e decide "servir" a uma dama. entrega-se a seus gostos e apetites. salvo à idéia mesma da mocidade. Desta época provém o culto à Virgem Maria. A mulher torna-se ideal do homem. mas a força de desdém. em seu outro sentido. em perpétuo concurso e emulação. Quando chega. Porque a palavra "efeminado" tem dois sentidos muito diversos. No final das contas.

para descobrir a essência variante. o seio feminino. ainda. Um velho psicólogo habituado a meditar sobre estes assuntos sabe que o entusiasmo da mulher pela beleza corporal do homem. que revela o predomínio do ponto de vista varonil. os poderosos alísios da história. mas o oposto. nisso. Era mister que sob os tubos ou cilindros de tela em que este horrível traje existe. cingia e ostentava o atributo feminino por excelência: aquela túnica era o mais sóbrio talhe para sustentar a flor do seio. O traje atual. Também sabe bem a mulher de hoje porque fuma. Vê. porque se esfalfa em esportes físicos. em vez de colegir ingênua e simplesmente: "A mulher de 1927 gosta superlativamente dos homens simpáticos". Entretanto. Basta comparar o traje de hoje com o usado na época de outro Diretório maior . Cada qual crê viver por sua conta. quase como a de agora. O traje Diretório era também uma simples túnica. se é que a sentiam. Não seria objeção contra isto que alguma leitora. não é quase nunca espontâneo. entusiasmo pela esplêndida figura do atleta. reconhecesse que não se apercebia de ser influída em sua estima da beleza masculina pelo apreço que dela fazem os jovens. por seu turno. Por isso o mais característico das modas atuais não é a exiguidade do encobrimento. De tudo aquilo que é um impulso coletivo e propele a vida histórica inteira em uma ou outra direção. mas não a bastante. Ao ouvir hoje com tanta freqüência o cínico elogio do homem simpático brotando dos lábios femininos. varonil. Mas o fato é que sob essa superfície de nossa consciência atuam as grandes forças anônimas. arrastam o ânimo e o sobrecolhem (112). É uma equivocação psicológica explicar as modas vigentes por um suposto afã de excitar os sentidos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.htm (126 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . faz um descobrimento mais profundo: a mulher de 1927 deixou de cunhar os valores por si mesma e aceita o ponto de vista dos homens que nesta data sentem. tanto mais expressiva quanto maior é a semelhança. sobretudo pela beleza fundada na correção atlética. sabiam calar seu entusiasmo pela beleza de um varão. aparentemente tão generoso na nudificação. A dama Diretório acentuava. nem a faina química em que se ocupam nossas células. Convém. como não nos apercebemos do movimento estelar de nosso planeta. E o bom observador nota que nunca as mulheres falaram tanto e com tanto descaro como agora dos homens simpáticos. se afirmasse o corpo do futebolista. simplificando um tipo de traje tão pouco propício para isso como o herdado do século XIX. pois. Agora a mulher vai nua como um rapaz. Antes. A mulher procura achar em sua compleição as linhas do outro sexo. em virtude de razões que supõe personalíssimas. bastante curta. porque se veste como se veste. Cada uma poderá dar sua razão diferente. hoje a mulher imita o homem no vestir e adota seus ásperos jogos. oculta. apontar que a sentiam muito menos que na atualidade. Só estas excelências. Se no século XII o varão se vestia como a mulher e fazia sob sua inspiração versinhos dulcífluos. um sintoma de primeira categoria. É muita casualidade que atualmente o regime da assistência feminina nas ordens mais diversas coincida sempre nisto: a assimilação ao homem. escamoteia.1800 . Daí que as modas masculinas tenham tendido estes anos a sublinhar a arquitetura masculina do homem jovem. perscrutando sinceramente em seu interior. com efeito. que cobra a seus olhos um valor enorme. Note-se que só se estima a excelência nas coisas de que se entende. Talvez desde os tempos gregos não se tenha estimado tanto a beleza masculina como agora. claramente percebidas. aquele nu era um perverso nu de mulher. que tenha alguma verdade. não nos apercebemos nunca. anula.A rebelião das massas. sopros gigantescos que nos mobilizam a seu capricho.

A princípios do século XIII. pois. só na França. Francisco Xavier e Santa Teresa de Jesus -. no volume Philosophy and History. É. Inventora a mulher da "cortesia". 1891. a uma exibição lúbrica e viciosa. Há nos sacerdotes uma mania milenar contra os modismos. Provavelmente. NOTAS (1) Veja-se o ensaio do autor intitulado "History as a System". sobre a causa de que essa iniciação se malograsse. ainda mais. Homages to Ernst Cassirer. de próxima publicação. O descaro e impudor da mulher contemporânea são. Em que ficamos? Qual a saia diabólica? A curta ou a longa? Quem passou sua juventude numa época feminina consterna-se de ver a humildade com que hoje a mulher. "os sermonários não cessam de fulminar contra a longitude exagerada das saias. (2) É justo dizer que foi na França.htm (127 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . 1939 (V. que se tornaram um pouco indolentes. El Sol. e quando passa a ronda dos coquetéis bebe como gente grande. edição espanhola Historia como sistema. no de César. do varão. uma invenção diabólica" (113). Assim foi no tempo de Péricles. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O fato foi que a beatificação sofreu uma longa demora pela disputa surgida entre os cardeais sobre quem devia entrar primeiro na oficial beatitude: a dama Cepeda ou os varões jesuítas. Hoje não se compreenderia um fato como o acontecido no século XVII por motivo da beatificação de vários santos espanhóis . A este fim aceita na conversação os temas de preferência dos moços e fala de esportes e de automóveis. mais que femininos. renderam estranho culto ao amor dórico. Esta diminuição do poder feminino sobre a sociedade é causa de que a convivência seja em nossos dias tão áspera. O perigo está verdadeiramente na direção inversa. De minha parte procurei colaborar neste esforço de esclarecimento partindo da recente tradição francesa.A rebelião das massas. sua retirada do primeiro plano social trouxe o império da descortesia. superior nesta ordem de temas às demais. pag. London. no Renascimento. onde se iniciou um esclarecimento e mise au point de todos estes conceitos. Esta indolência é um fato. 3 de julho de 1927. nota Luchaire.entre eles. procura insinuar-se e ser tolerada na sociedade dos homens. 1942). que são. destronada. desinteressadas da mulher. El hombre y la gente. Madrid. pois. Veja-se o tomo VI das Obras Completas do autor. o descaro e impudor de um rapaz que entrega à intempérie sua carne elástica. Santo Inácio. 36. dizem. paradisíacas e moderadas como agora. Em outro lugar achará o leitor alguma indicação sobre isto e. e eu não nego que no detalhe da indumentária e das atitudes influa esse propósito incitativo: mas as linhas gerais da atual figura feminina estão inspiradas por uma intenção oposta: a de se parecer um pouco com o homem jovem. O resultado de minhas reflexões acha-se no livro. uma bobagem perseguir em nome da moral a brevidade das saias em uso. Porque aconteceu sempre que as épocas masculinas da história. S. (3) Monarchie universelle: deux opuscules. as relações entre os sexos nunca foram tão sadias. Tudo contrário. Neste encontrará o leitor o desenvolvimento e justificação de tudo que acabo de dizer.

tenta o domínio absoluto. Como se isto não acontecesse em toda escola intelectual e não constituísse a diferença mais importante entre um grupo de homens e um grupo de gramofones (9) Nestes últimos anos. Pouthas tomou sobre si a fatigante tarefa de despojar os arquivos de Guizot e oferecer-nos numa série de volumes um material sem o qual seria impossível empreender a ulterior faina de reconstrução. XXII. É demasiado evidente que os homens Royer-Collard. p. de Gasparin que falando o Papa Gregório XVI com o embaixador francês. (7) Com certa satisfação refere-se Mme. encontra sempre uma resistência que se lhe opõe desde os mais profundos seios vitais. (Veja-se de Barante: La vie et les discours de Royer-Collard. ninguém pode ficar com a consciência tranqüila . uma e outra vez. com a fórmula ilusória de que os doutrinários não possuíam uma doutrina idêntica. Por isso. por sua vez. A palavra "resistência". Histoire de La Civilisation en Europe. encontrar-se-á. que é divertida e até alegre. 130).quando interpretou a política de "resistência" como pura e simplesmente conservadora. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e embora sejam sumamente vivazes. 110." Oeuvres complètes. No fim de tudo é preciso recorrer aos estudos de Faguet sobre o idearium de um e outro. (8) Se o leitor deseja informar-se. Em um homem tão diferente de Guizot como Ranke encontramos a mesma idéia: "Logo que na Europa um princípio. p. Esta é a origem da palavra snob. nob. 35. digamos de 1790 a 1830. Charles H. Sobre Royer-Collard não há nem isso. Guizot. (6) "La coexistence et le combat de principes divers".A rebelião das massas. sem nobreza.. que ao aparecer na citação de Ranke documenta o influxo de Guizot sobre este grande historiador. O estado de liberdade surte de uma pluralidade de forças que mutuamente se resistem. Talvez o resultado desse estudo revelasse que a Alemanha recebeu nessa época muito mais da França que inversamente. Não há nada melhor. uma súbita mudança de sentido e. por assim dizer. Broglie.. Dicono que non ride mai". não eram conservadores à-toa. Eis aqui uma vez mais a melhor inspiração européia reduzindo a dinamismo tudo que é estático. de Gasparin. Mas os discursos de Royer-Collard são hoje tão pouco lidos que parecerá impertinência se digo que são maravilhosos. exibe-nos suas arcanas vísceras quando em um discurso de Royer-Collard lemos: "Les libertés publiques ne sont pas autre chose que des resistences". (10) Por exemplo. em cuja ulterior contraposição e luta vêem precisamente desenvolver-se as mudanças das épocas históricas".entende-se que tenha "consciência" intelectual . Não há nestas palavras de Ranke uma clara influência de Guizot? Um fator que impede ver certos estratos profundos da história do século XIX é que não esteja bem estudado o intercâmbio de idéias entre a França e a Alemanha. 3): "0 mundo europeu se compõe de elementos de origem diversa. quer dizer.htm (128 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . dizia aludindo a ele: "E un gran ministro. Em outro lugar (tomos 8 e 10. pág. Vol. Correspondance avec Mme. seja qual for. que sua leitura é uma pura delícia de intelecção. 283. toma. M. 248. Guizot. pág. pag. junto ao nome dos simples burgueses aparecia a abreviatura s. são absolutamente insuficientes. 38. (5) Na Inglaterra as listas de residências indicavam junto a cada nome o ofício e classe da pessoa. II. (4) Oeuvres completes (Calman-Lévy). mas que variava de um para outro. e que constituem a última manifestação do melhor estilo cartesiano.

Carré: La Philosophie de Fontenelle. (19) ". 843. o trabalho acumulado nas notas por MM. é uma das obras mais geniais do século. 0 que demonstra duas coisas." D'Alembert: Discours préliminaire à l'Enciclopédie. (11) Veja-se o citado ensaio do autor: História como sistema. au bout de moins d'un an. le moins clairvoyant. Primeira: que um homem. (16) Gesammelte Schriften. vê-se obrigado na sua madureza a fazer algumas reservas benévolas a seu favor.A rebelião das massas. 204. segunda: que os males presentes da Europa são oriundos de regiões mais profundas cronológica e virtualmente do que sói presumir-se. (21) J. 16. Dupont-White (páginas 131-132). (12) Pretendem os alemães que foram eles os descobridores do social como realidade diferente dos indivíduos e "anterior" a estes. A origem francesa do coletivismo não é uma casualidade e obedece às mesmas causas que fizeram da França o berço da sociologia e de seu renovo em 1890 (Durkheim)... feita em 1829. (18) "Je trouve même que des opinions approchantes s'insinuant peu à peu dans l'esprit des hommes du grand monde. supondo que foi "honrado e irreprochável ". 106. (22) Veja-se História como sistema. seria reunir os prognósticos que em cada época se fazem sobre o futuro próximo. I. Este é um dos casos que mais recomendam o estudo minucioso do intercâmbio intelectual franco-germânico de 1790 a 1830 a que em nota anterior me refiro. irreprochable. Mas o termo Volksgeist mostra demasiado claramente que é a tradução do voltairiano esprit des nations. Oeuvres: 1. data aproximada em que Leibniz escrevia isto. nota). file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Eu colecionei os suficientes para ficar estupefato ante o fato de que tenha havido sempre alguns homens que prevêem o futuro. trad. Bouglé e Halévy constitui uma das contribuições mais importantes que eu conheço ao efetivo esclarecimento da alma européia entre 1800 e 1830. 143. Chap. Nouveaux Essais sur l'entendement humain. Bouglé e E. (13) Veja-se Doctrine de Saint-Simon. et se glissant dans les livres à la mode disposent toutes choses à la révolution générale dont d'Europe est menacée". pág. com introdução e notas de C.. de donner le pouvoir à l'élement le plus pesant.htm (129 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . em 1700. (17) Histoire de Jacques II. Além de que esta exposição do saint-simonismo. Renan. Renan: Questions contemporaines. (14) Obra fácil e útil que alguém deveria empreender. B. I. O Volksgeist parece-lhes uma de suas idéias mais autóctones. le plus obstinément conservateur de notre pays". (15) Stuart Mill: La liberté.56 (1821). IV. XVI. que em 1848 era jovem e simpatizou com aquele movimento. (20) "Cette honnête. mais imprévoyante et superficielle révolution de 1848 eut pour conséquence. qui réglent les autres et dont dépendent les affaires. Halévy (p.. era capaz de prever o que aconteceu um século depois. notre siècle qui se croit destiné à changer les lois en tout genre.

en Anglaterre tout le droit est actuel. (Vejam-se. I. que se usaram no passado. edição. Para o "moderno". Aproveito esta oportunidade para fazer notar aos estrangeiros que generosamente escrevem sobre meus livros. (23) Em seu prólogo a sua tradução de La Liberté. respectivamente. nota 6. de modo que surta uma doutrina orgânica sobre o fato mais importante de nosso tempo. "modernidade" com que os últimos tempos se batizaram a si mesmos. págs. intitulado "Masas" (1926) e em duas conferências dadas na Associação Amigos del Arte. que havia de trazer a diminuição absoluta no número dos habitantes do Império.A rebelião das massas. págs. Na Inglaterra. (25) Veja-se o ensaio Hegel y América. "aucune barrière entre le présent et le passé. que agora analiso. 1926. (26) Em meu livro España Invertebrada. (30) Não se deixem de ler as maravilhosas páginas de Hegel sobre os tempos satisfeitos em sua Filosofia de la historia. (31) O sentido original de "moderno". Sans discontinuité le droit positif remonte dans l'histoire jusqu'aux temps immémoriaux. 1a. Saeculum aureum. enquanto se formavam estas aglomerações. a consciência de uma nova vida. em Buenos Aires (1928). vejam-se algumas moedas reproduzidas em Rostovtzeff: The social and economic history of the Roman Empire. dificuldades para precisar a data de seu primeiro aparecimento. 38/39. muita parte dela levou muitos anos em atrever-se a ser livro (1946). posto que valha na ordem onde a palavra "vigência" tem hoje seu sentido mais imediato. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ocupei-me do tema que o presente ensaio desenvolve. e ao mesmo tempo o imperativo de estar à altura dos tempos. no direito. de Stuart Mill. publicados pouco depois. os tomos II e IV de Obras Completas). às vezes. Meu propósito agora é recolher e completar o que eu disse então. A palavra "moderno" expressa. lâmina LII e 588. 353 do tomo III de Obras Completas). num artigo de El Sol. tradicionais. Moderno é o que está posto segundo o modo: entende-se o modo novo. (32) La deshumanización del arte. não sê-lo eqüivale a cair baixo o nível histórico. Juridiquement parlant. a saber. publicado em 1921. superior à antiga. data de sua primeira publicação como série de artigos no jornal diário El Sol. 1928. 35 do tomo III das Obras Completas). (24) Não é uma simples maneira de falar. (29) Nos cunhos das moedas de Adriano lêem-se coisas como estas: Italia Felix. pois. pag. Lévy-Ullmann: Le système juridique de l'Anglaterre. quel qu'en soit l'âge". 41 e seguintes. À parte o grande repertório numismático de Cohen. Tellus stabilita. (Veja-se pág. Temporum felicitas. (27) 0 trágico daquele processo é que. mas sim verdade ao pé da letra. (28) Veja-se España invertebrada. tradução de José Gaos. modificação ou moda que em tal presente tenha surgido ante os modos velhos. tomo I. expressa mui agudamente essa sensação de "altura dos tempos". o fato de que quase toda a minha obra saiu ao mundo usando a máscara de artigos jornalísticos. 44. il n'y a pas "d'ancien droit anglais". Don. começava o despovoamento das campinas. Le droit anglais est un droit historique. e os artigos sobre Los Estados Unidos. e encontram. (Veja-se pág.htm (130 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . 1921. Revista de Occidente.

(33) Precisamente porque o tempo vital do homem é limitado. por afã de viver. a esfera de facilidades e comodidades que sua riqueza podia proporcionar-lhe era muito reduzida. 1916. hotéis. O mundo de Einstein é finito. portanto. em 13 de setembro de 1759. (41) Por muito rico que um indivíduo fosse em relação com os demais. já no prólogo de meu primeiro livro: Meditaciones del Quijote. além do mais. Sempre me pareceu uma caricatura engraçada dessa tendência a propter vitam. como de uma habitação a porta. (36) 0 mundo de Newton era infinito. costuma dizer em conversação privada que se morressem subitamente dez ou doze determinadas pessoas. seja qual seja. companheiro e continuador de Einstein. se proclamou rei a Carlos III. entretanto. Fez-se a proclamação na praça da vila. uma utopia abstrata e inane. Para um Deus cuja existência é imortal. recolhido no tomo VII del El Espectador. a destruir as causas de sua vida. Não nos dirá o pretérito o que devemos fazer. careceria de sentido o automóvel. o que aconteceu em Nijar. tende sempre. Mas a saída do mundo forma parte deste. é quase certo que a maravilha da física atual se perderia para sempre na humanidade. como a totalidade do mundo era pobre. cujo espírito os acalorou de tal modo.htm (131 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que é. (35) Assim. telégrafo. já que não uma orientação positiva. sempre haveria duas: essa e sair do mundo. e quando o mundo parecera reduzido a uma única saída. mas o que devemos evitar. (38) Esta é a origem radical dos diagnósticos de decadência. que com repetidos "vivas!" se encaminharam ao depósito municipal de trigo e de suas janelas arrojaram o cereal file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. "Depois mandaram trazer de beber a todo aquele grande concurso. 1926.A rebelião das massas. cômoda e segura que a do mais poderoso em outro tempo. vivendi perdere causas. Nas Atlântidas aparece sob o nome de horizonte. mas uma vazia generalização. (40) Hermann Weyl. povoado próximo a Almería. a massa. a potência do intelecto. (34) No pior caso. 607 do tomo II de Obras Completas). Dissociar idéias custa muito mais que associá-las. Jamais o entendimento humano teve como agora maior capacidade de dissociação. como demonstrou Köhler em suas investigações sobre a inteligência dos chimpanzés. de ferro. (Veja-se a pág. mede-se por sua capacidade de dissociar idéias tradicionalmente inseparáveis. efetivamente. mas cheio e concreto em todas as partes. quando. Veja-se o ensaio El origen deportivo del Estado. um dos maiores físicos atuais. mas que. A vida do homem médio é hoje mais fácil. quer dizer. não excluímos a da decadência. (37) A liberdade de espírito. Qualquer evento poderia aniquilar tão prodigiosa possibilidade humana. se o mundo o é e lhe proporciona magnificas estradas de rodagem. o qual consumiu setenta e sete arrobas de vinhos e quatro odres de aguardente. certos conselhos negativos. dispostos a admitir toda possibilidade. plebéia ou "aristocrática". precisamente porque é mortal. segurança física e aspirina? (42) Abandonada à sua própria inclinação. base da técnica futura. necessita triunfar da distância e da tardança. um mundo mais rico de coisas e. Que lhe importa não ser mais rico que outros. Foi necessária uma preparação de muitos séculos para acomodar o órgão mental à abstrata complicação da teoria física. mas essa infinitude não era um tamanho. como cabe receber do passado. de maior tamanho. (39) Veremos. Não que sejamos decadentes.

35 do tomo III de O. citado em Reinado de Carlos III. (50) Se alguém em sua discussão conosco se desinteressasse de se ajustar à verdade. pág. entretanto. ou. pelo senhor Manuel Danvila. almofarizes. em El Espectador. é intelectualmente um bárbaro. dá conferências ou escreve. vida é o processo existencial de uma alma. já falei em España invertebrada (1922).cevada. falando a sério. pois não restou nelas pão. 35 do tomo III de O.A rebelião das massas. É. (Veja-se pag. pois. Só algum leitor bastante ingênuo para não crer que sabe já definitivamente o que é a vida. (45) Como no anterior trata-se só de retrotrazer o vocábulo "nobreza" a seu sentido primordial. com esta única diferença: uns pensarão que. (51) Não é preciso dizer que quase ninguém levará a sério estas expressões. não há oportunidade para estudar o fato de que tantas vezes apareça na história uma "nobreza de sangue". talvez comoventes. pelo contrário. mandando derramar. C.verdadeiras ou falsas . quantos gêneros líquidos e comestíveis havia nelas. 10. trigo. intacta esta questão. e o tabaco. De fato. caçarolas. Dali passaram ao Estanco do Tabaco e mandaram jogar fora o dinheiro da Mesada. 156. morteiros. (Veja-se pág. C. tomo II. o que executaram com o maior desinteresse. tomo VII. pratos. Admirável Nijar! Teu é o porvir! (43) É intelectualmente massa aquele que ante um problema qualquer se contenta com pensar o que boamente encontra em sua cabeça. que exclui a herança. para mais autorizar a função. Não creio que melhore minha situação ante leitores tão herméticos resumir toda uma maneira de pensar dizendo que o sentido primário e radical da palavra vida aparece quando a empregamos no sentido de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Nas lojas fizeram o mesmo.as entenda. se deixará ganhar pelo sentido primário destas frases e será precisamente quem . e ao dito ali remeto-me.um estudo sobre ela. essa é a posição do homem-massa quando fala. farinha.htm (132 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pelo menos. o que não é. para viver sua alegria monárquica. que é uma sucessão de reações químicas. pág. aniquila-se a si mesmo.) (47) Sobre a indocilidade das massas. Como é possível. e os outros. pois em altas vozes induziram as mulheres a sacudir fora o que havia nas suas casas. o choque com a imbecilidade alheia.) (48) Muitas vezes levantei de mim para mim a seguinte questão: é indubitável que sempre teve de ser para muitos homens um dos tormentos mais angustiosos de sua vida o contacto. que nele havia e 900 reais de suas caixas. Entre os demais reinará a mais efusiva unanimidade. e os melhores intencionados as entenderão como simples metáforas. que não se tenha tentado nunca . e só aceita como digno dele aquilo que está acima dele e exige um novo estirão para alcançá-lo. um ensaio sobre a imbecilidade? (49) Não se pretenda escamotear a questão: todo opinar é teorizar. se não tem vontade de ser verídico. ficando a vila destruída: Segundo um papel do tempo em poder do senhor Sánchez de Toca.). especialmente das espanholas. nota 2. (Veja-se página 607 do tomo II de O. C. (46) Veja-se El origen deportivo del Estado. egrégio aquele que desestima o que acha sem prévio esforço em sua mente. nem cadeiras. Este povoado. (44) Veja-se España invertebrada (1922). O Estado eclesiástico concorreu com igual eficácia.parece-me . Fica.

portanto. (Página 281 do tomo II de O. É um caso particular da desproporção que mais adiante aponto entre a complexidade dos problemas atuais e a capacidade das mentes. uma claríssima obrigação de toda "época crítica".A rebelião das massas. (52) Esta folga de movimentos ante o passado não é. moral. de alma substancialmente restauradora. dia a dia cumpre com fabulosos acréscimos quanto promete e mais do que promete. e ainda a abundância de meios. e em certo sentido. (59) Uma geração atua em média durante trinta anos. direito. Uma das coisas que perturbam mais gravemente a consciência européia é o conjunto de juízos pueris sobre a América do Norte que se ouvem expendidos até pelas pessoas mais cultas. e. os quais. tomo III. em. 893 a 10. com a sobra. A maior parte dos investigadores mesmos não têm hoje a mais leve suspeita da gravíssima. (56) Aristóteles: Metafísica. (54) A rigor. transitória falha. preferências e gostos. não quero dizer que renuncie a uma plena liberdade diante desse próprio liberalismo. Outra coisa é abstração. Mas essa atuação divide-se em duas etapas e toma duas formas: durante a primeira metade . Claro que não se deve entender restauração como simples "volta ao antigo". condição de todo grande avanço histórico. pois. que daqui a pouco ocupará a nossa atenção. pelo menos. que começa a injetar no ar público. pelo contrário. mas. C. (60) Não se confunda o aumento. Pela fortíssima razão de que toda biologia é em definitivo só um capítulo de certas biografias. concorrência. adquirem vigência e são o dominante na segunda metade de sua carreira. fantasia e mito. Se eu defendo o liberalismo do século XIX contra as massas que incivilmente o atacam. é o que em sua vida (biografável) fazem os biólogos. Quando as idéias. uma petulante rebeldia. que incluísse ambas. "O paradoxo do selvagismo". e por isso revolucionários. não há poucos anos. (57) Centuplica a monstruosidade do fato que . Mas a geração educada sob seu império traz consigo outras idéias. dizia eu sobre isto no ensaio "Biologia e Pedagogia". Vice-versa: o primitivismo que neste ensaio aparece sob seu pior aspecto é. perigosíssima crise íntima que hoje atravessa sua ciência. Esse seria o verdadeiro nome. quer dizer.aproximadamente . arte. o substantivo da última centúria.todos os demais princípios vitais política. religião . Veja-se o que. Só a ciência não falha. biografia e não no de biologia. No século XIX file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pelo contrário.como indiquei . por outra parte. não diz nada quem supõe haver dito algo definindo a América do Norte por sua "técnica". o que jamais foram as restaurações.htm (133 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a meu juízo. preferências e gostos. pois. El Espectador. mais genérico. preferências e gostos da geração imperante são extremistas. a nova geração faz a propaganda de suas idéias.se acham efetivamente e por si mesmos em crise. a nova geração é anti-extremista e anti-revolucionária.desse período. a democracia liberal e a técnica se implicam e inter-supõem por sua vez tão estreitamente que não é concebível uma sem a outra. não cabe desculpar o desapego por ela supondo o homem médio distraído por algum outro entusiasmo de cultura. finalmente. (58) Já aqui entrevemos a diferença entre o estado das ciências de uma época e o estado de sua cultura. fora desejável um terceiro nome. (55) Não falemos de questões mais internas. Não tem.) (53) Daí que.

(63) 0 que é a casa ante a sociedade. acho. não é mister que os filósofos imperem . (65) Envilecimento.ignóbil no continente -. E porque tem vivido sempre em perigo soube e conseguiu sempre fazer-se respeitar . por outra parte. continua vendo-o cair. de homem moderno . acanalhamento. O envilecido é o suicida sobrevivente. sua própria. não é outra coisa senão o modo de vida que resta a quem se negou a ser o que tem que ser. Esta alusão ao caso desse católico vai aqui só como exemplo para esclarecer a idéia que agora exponho. (66) Para que a filosofia impere.A rebelião das massas. inspirando-lhe uma confiança que é já falsa. grotesco esse transitório "senhoritismo" das nações menos gradas. 1923. a ocupação comercial e industrial . O que acontece é que sua crença científica detém. a aristocracia inglesa parece uma exceção do dito. este católico nega com sua crença dogmática. ao mesmo tempo. e a não ater-se aos privilégios. ao "mocinho satisfeito". Isto significa que o destino desse católico é em si mesmo trágico. Mas. isto é.como Platão quis primeiro -. Assim. embora o seja. excessivamente rico. teve de aceitar. o ser seu caso admirabilíssimo. E eu. e isso produz o prodigioso crescimento . mas converte-se em sombra acusadora. mais claras e volumosas do "senhoritismo" vigente é. até mui avançado o século XVIII. continua crendo. posto em relação com a capacidade do homem médio. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a nobreza inglesa tem sido a menos "sobrada" da Europa e tem vivido em mais constante perigo que nenhuma outra. O "mocinho satisfeito". bastaria desenhar as linhas gerais da história britânica para patentear que esta exceção. deserta de si mesmo por mera frivolidade e de tudo . viciosa.tudo que tem. aumentavam as facilidades de vida. E ao aceitar essa porção de inautenticidade cumpre com seu dever. Mas chegou um momento em que o mundo civilizado. adquiria um aspecto demasiado. Como não era abundante de meios. e como o ver implica uma convicção primária. (62) Veja-se Olbricht: Klima und Entwicklung. O que lanço em rosto ao "mocinho satisfeito" é a falta de autenticidade em quase todo o seu ser. autêntica crença liberal. Contra o que sói dizer-se. Esquece-se o dado fundamental de que a Inglaterra tem sido. confirma a regra.o que supõe haver permanecido sem descanso na brecha -.porque quer ser fiel a outra parte efetiva de seu ser que é sua fé religiosa. em fantasma. A isso chamam ingenuamente "nacionalismo". os efeitos de sua crença primária ou espontânea. Este seu autêntico ser não morre por isso. o país mais pobre do Ocidente. que sinto asco pela sujeição beata à internacionalidade. atrófica. Apenas um exemplo disto: a segurança que parecia oferecer o progresso (aumento sempre crescente de vantagens vitais) desmoralizou o homem médio. Mas ainda esta coincidência parcial é só aparente. Uma das manifestações. como veremos. que lhe faz sentir constantemente a inferioridade da existência que leva a respeito da que tinha que levar. mas não se refere a ele a censura radical que dirijo ao homem-massa de nosso tempo.quantitativo e qualitativo da própria vida como apontei acima. é evidente. pelo contrário. (61) Nisto. Coincide com este só num ponto. a decisão que algumas nações tomaram de "fazer o que está na sua vontade" na convivência internacional. é-o em escala maior a nação ante o conjunto das nações. queira ou não. O católico não é autêntico em uma parte de seu ser . constantemente. como em outras coisas.htm (134 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . supérfluo. (64) Quem crê copernicamente que o sol não cai no horizonte. decidiu-se muito cedo a viver economicamente em forma criadora.precisamente para escapulir a toda tragédia. A nobreza salvou-se por isso mesmo.

são pedagogos. (Veja-se pag. Só os exércitos burgueses. quer dizer. Sua força primária consistiu na nova disciplina e na nova racionalização da tática. de O.) (73) Veja-se o ensaio Sobre la muerte de Roma. Contra o que se crê.) (75) Seria interessante mostrar como na Catalunha colaboram duas inspirações antagônicas: o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. (70) Recordem-se as últimas palavras de Septimio Severo a seus filhos: Permanecei unidos. A pólvora é conhecida de tempo imemorial. mas de burgueses. 1921. Tomo VI. edição. funestíssimas. pág. Tomo VII. 537 do tomo II de O. como literalmente certo que os nobres foram derrotados de maneira definitiva pelo novo exército. nem sequer que os imperadores filosofem .) (74) Isto é o que faz a razão física e biológica.como quis. Como se explica isto? Já a sociedade em torno começava a crescer. (68) Esta imagem simples da grande mudança histórica em que se substitui a supremacia dos nobres pelo predomínio dos burgueses deve-se a Ranke. 35 do tomo III das Obras Completas). não se fazia mais forte? Uma das causas é a apontada: incapacidade técnica. Ambas as coisas são. (67) Veja-se España invertebrada. não representados pelo exército de tipo medieval dos borguinhãos. (72) Veja-se o ensaio "Hegel y América" em El Espectador. 2a. quando trata a fundo das coisas e não de soslaio como nestas páginas.htm (135 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pagai ao soldado e desprezai o resto. racionalizadora. 40. 1a. Os "nobres" usaram em pequenas doses a arma de fogo mas era demasiado cara. não foi eficaz até que se inventou a bala fundida. nega-se a reconhecer como absoluto nenhum fato. (Veja-se pág. mas com menos sentido da responsabilidade histórica. edição). são literatos ou são homens de ciência. demonstrando com isso que é menos razoável que a "razão histórica". se o Estado tudo podia . menos isso . Fica. a rigor. Além disso aconteceu no Estado absoluto que aquelas aristocracias não quiseram ampliar o Estado à custa da sociedade. mais modestamente. basta que haja filosofia.. Há quase uma centúria os filósofos são tudo. Porque esta. que formaram os suíços. Ainda assim.são políticos. das aristocracias de sangue. (69) Mereceria a pena insistir sobre este ponto e fazer notar que a época das Monarquias absolutas européias operou com Estados muito débeis. do autor. 1930. não obstante. Para ela. depois -. 563 do tomo II de O. o ensaio Historia como sistema (R. burocrática. A invenção da carga num tubo deveu-se a alguém da Lombardia. a "razão naturalista".A rebelião das massas. Por que. (Veja-se o tomo VI de O. C. C. siècle (tomo I. mais inteligente. C. 1927.era "absoluto" -. em El Espectador. (71) Veja-se Elie Halévy: Histoire du peuple anglais au XIXe. Para que a filosofia impere. profissional. raciocinar consiste em fluidificar todo fato descobrindo sua gênese. melhor organizados economicamente. puderam empregá-la em grande escala. Mas não basta isso. 1912). basta que os filósofos sejam filósofos. o Estado absoluto respeita instintivamente a sociedade muito mais que o nosso Estado democrático. (Veja-se pág. mas claro é que sua verdade simbólica e esquemática requer não poucos aditamentos para ser completamente verdadeira. Veja-se.

Eu já disse outra vez que o levantino é o resto do homo antiquus que há na Península. Há. Já nos fins do século XW começa-se a sublinhar a modernidade. justifica que qualifiquemos o europeu de futurista e o antigo de arcaizante. em que pervive sempre a tendência do velho homem mediterrâneo. O antigo e o europeu estão igualmente preocupados com o porvir. (78) Veja-se do autor "El origen deportivo del Estado". preferências. pelo contrário. pois. dos inimigos de César. por outro tem idéias sobre si mesmo que coincidem mais ou menos com sua autêntica realidade. mas aquele submete o futuro ao regime do passado. mas sim complicá-lo ou modulá-lo. 1930. eu contrapus o homem antigo ao europeu. não podem anular nosso verdadeiro ser. não no ser. aparente contradição entre uma e outra tese. Como é sabido.se achará no tratado sociológico do autor intitulado El Hombre y la Gente. tomo II páginas 3 e 4. desejos.) (79) Veja-se Dopsch: Fundamentos económicos y sociales de la civilización europea. nem todos os ingleses inglês. para se converter ou em simples carga e serviço do Estado ou em mero título de direito civil. Chamavam-nas "faute de mieux". está claro. De uma civilização em que a escravidão tinha valor de princípio não se podia esperar outra coisa. Até hoje. César. vive antes de tudo no futuro e do futuro. É revelador que apenas o europeu desperta e toma posse de si. Evidentemente. o ser humano tem irremediavelmente uma constituição futurista. tomo VII. (80) Os romanos não se resolveram a chamar cidades às povoações dos bárbaros. nossas idéias. (85) Segundo isso. foi a escravidão um simples fato residual. o melhor livro sobre o assunto é o de Eduardo Meyer: La Monarquia de César y el Principado de Pompeyo. ao novo como tal este antagonismo. enquanto nós deixamos maior autonomia ao futuro. mas no preferir. (81) Sabido é que o Império de Augusto é o contrário do que seu pai adotivo. (Veja-se página 607 do tomo II de O. Para nossas "nações". (83) Ficam fora. começa a chamar a sua vida "época moderna".htm (136 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o que nega o uso antigo. "moderno" quer dizer o novo. toda política . (84) Confirma isto o que a primeira vista parece controvertê-lo: a concessão da cidadania a todos os habitantes do Império. sedes aratorum. mas especificamente internacionais. por mui denso que fosse o casario. e este. Segunda edição 1924. dizendo que aquele é relativamente fechado ao futuro.A rebelião das massas. Pois a conseqüência é que esta concessão foi feita precisamente à medida que ia perdendo seu caráter de estatuto político. que não são linguagens nacionais. Augusto opera no sentido de Pompeu. quer dizer. Não obstante. os casos de Koinón e língua franca. C. 1918. relativamente aberto. nem todos os alemães alto-alemão. nacionalismo europeu e o cidadanismo de Barcelona. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Surge essa aparência quando se esquece que o homem é um ente de dois andares: por um lado é o que é. em El Espectador.a "boa" como a má . (82) Nem sequer como puro fato é verdade que todos os espanhóis falem espanhol. aspirou a instaurar. (76) Homogeneidade jurídica que não implica forçosamente centralismo. (77) 0 sentido desta abrupta asseveração supõe que uma idéia clara sobre o que é a política.

a vasilha. espanhóis. os europeus. contempladas de outra perspectiva. (91) Certa dose de anacronismo é conatural à política. É esta um fenômeno coletivo. (88) Se bem essa homogeneidade respeita e não anula a pluralidade de condições originárias. passa a ser um caráter patológico. indivíduos humanos. seus membros são homens. como de laboratório. (97) Ficam fora da consideração os que podemos chamar de "inventos elementais" . Na medida em que as massas se distanciam destas aumenta o arcaísmo da sociedade. (95) Por exemplo: as apelações a um suposto "mundo civilizado" ou a uma "consciência moral do mundo". Como em toda autêntica sociedade. Isso evita o equívoco. (90) Estas páginas foram publicadas no número de junho de 1937 na revista The Nineteenth Century. (86) 0 princípio das nacionalidades é. de devotio moderna. preferiram chamá-la de "liga". (92) Os ingleses. um dos primeiros sintomas do romanticismo . a roda. uma sociedade cujos membros sejam as nações.o machado. -. vamos ver se a Inglaterra acerta a manter em unidade soberana de convivência as diferentes porções de seu Império. alemães. o canastro. aos "experts" e aos técnicos. que tão freqüentemente fazem sua cômica aparição nas cartas ao diretor de The Times. propondo-lhe um programa atrativo. e muito menos mereça agora. Precisamente por ser o suposto de todos os demais e haver sido conseguidos em períodos milenares. pois. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Se se repassa a lista das pessoas que intervieram na criação da Sociedade das Nações. que além de ser europeus são ingleses.o princípio melodramático de "women and children". cronologicamente. situa a agrupação de Estados fora do direito. o fogo. Não me refiro. "mulheres e crianças. estimação intelectual. (93) Sobre a unidade e a pluralidade da Europa.A rebelião das massas. é claro. veja-se o Prólogo para franceses. ao mesmo tempo. e de uma magnitude normal. (94) A sociedade européia não é. por exemplo. (96) Há cento e cinqüenta anos a Inglaterra fertiliza sua política internacional mobilizando sempre que lhe convém e só quando lhe convém . mas. uma espécie de vanguardismo na "mística teologia". a saber.fins do século XVIII. consignando-a francamente à política. nesta obra. obrigados a desenvolver e executar os desatinos daqueles políticos. eis ai um exemplo. constitutiva. é muito difícil sua comparação com a massa dos inventos derivados ou históricos. precisamente nas questões que mais agudamente interessavam ao tempo.htm (137 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . e todo o coletivo ou social é arcaico relativamente à vida pessoal das minorias inventoras. etc. conclui-se que é muito difícil encontrar alguma que merecesse então. (87) Agora vamos assistir a um exemplo gigantesco e claro. (89) Bastaria isso para se convencer de uma vez para sempre que o socialismo de Marx e o bolchevismo são dois fenômenos históricos que apenas têm alguma dimensão comum. e fala-se. com bom acordo.

ou que viver é ser jovem. muitos vestígios positivos nos povos selvagens do presente. faria uma boa obra. mas resisto a considerá-lo decisivo. Se no estilo pictórico as figuras aparecem em posição vertical. Mas não mostram nenhuma pressa. sem embargo. (100) Os perigos maiores que como nuvens negras ainda se amontoam no horizonte. A vida tem a condição inexorável de se cansar. foram os "intelectuais" dessa geração. é sumamente provável que pouco tempo depois surgirá outro estilo com as figuras em posição diagonal (mudança da pintura italiana de 1. não contradiz o dito agora. É evidente que uma nova técnica de mútuo conhecimento entre os povos reclama uma reforma profunda da fauna jornalística.600). o correspondente de The Times em Barcelona envia a seu jornal uma informação onde procura os dados mais minuciosos e as cifras mais exatas para descrever a situação. (99) Neste mês de abril. Mas isto vale para um conceito mais minucioso de juventude que o habitualmente usado e ao qual este ensaio se acolhe. etc.htm (138 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . reforma das instituições. Os que combateram e em realidade venceram a velha política pseudo-parlamentária.500 a 1. Basta isso para demonstrar que esse correspondente. Londres. (101) Tradução inglesa do presente livro. tem sentido dizer que a vida não é senão juventude. qualquer que seja sua operosidade e sua imparcialidade. as conseqüências que trouxe para a vida romana. Até que ponto é inevitável uma pavorosa catástrofe econômica em todo o mundo? Os economistas deviam dar-nos ocasião para que cobrássemos confiança em seu diagnóstico. (107) Um exemplo destes combates em que a vitória efetiva não deu. e ao mesmo tempo. o triunfo foi gozado pelos que não combateram nunca esse regime enquanto foi file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas do econômico. o haver sido nossos antepassados os mouros. sem dúvida. (105) Quem quisesse contar-nos com algum detalhe a guerra de Numância. um que só falam os homens e o outro só para as mulheres. reabilitar-se para o estímulo oposto. ou que na juventude culmina a vida. Mas todo o raciocínio do artigo que mobiliza e dá um sentido a esses dados minuciosos e a essas cifras exatas. de se embotar para um estímulo. que. (98) Acrescente-se que nessas opiniões jogavam sempre grande papel as vigências comuns a todo Ocidente. É o contraste. a meu juízo. se não se supõe em épocas muito primitivas uma etapa de enorme predomínio dos jovens que deixou.A rebelião das massas. parte de supor. Porque o paralelismo com o momento presente da Espanha é surpreendente e luminoso. como de coisa sabida e que tudo explica. e o resto é desviver. mudanças políticas. (103) Há. entretanto. (102) Até o ponto de existir em certos povos primitivos dois idiomas. (106) Do ponto de vista mais geral. um fator que colabora nestas mudanças como em todos os do organismo vivo. pode ser visto na ordem pública. a origem de certas coisas humanas. é absolutamente incapaz de informar sobre a realidade da vida espanhola. o triunfo ao combatente. não provêem diretamente do quadrante político.. George Allen & Unwin. entre elas o Estado. (104) Não se explica. E. por razões de curioso espelhismo histórico. portanto. com efeito.

(110) Veja-se a Cronaca. La société française au temps de Philippe Auguste. Simplesmente porque os franceses entendem de literatura. 376. Pelo contrário. ver-se-á que essa geração é a efetivamente culpada do desajuste atual da Europa. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Como fazem dezesseis anos que li esse autor. na França tem o escritor um formidável poder social. (108) 0 dia que se faça em sério a história do último século. poderoso. (111) "Só para louvar as damas". (112) Por isto a estimação do escritor na Espanha é sempre falsa e a rigor mais obra da boa vontade que de sincero entusiasmo. diz o trovador Giraud de Bornelh. mas com alguma probabilidade dirijo o leitor à que então se intitulava Três ensaios sobre teoria sexual. 1957. (113) Achille Luchaire. (109) Tenho idéia de que Freud se ocupa minuciosamente deste fato. não recordo bem em que obra trata o assunto. páginas 94/102).htm (139 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .A rebelião das massas. pág. de Fra Salimbene (Parma.

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