A rebelião das massas.

Copyright Autor: José Ortega y Gasset Tradutor: Herrera Filho Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org)

A REBELIÃO DAS MASSAS
Jose Ortega y Gasset

ÍNDICE

Apresentação Biografia do autor PRÓLOGO PARA FRANCESES PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I - O fato das aglomerações II - A ascensão do nível histórico III - A altura dos tempos IV - O crescimento da vida V - Um dado estatístico VI - Começa a dissecação do homem-massa

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A rebelião das massas. VII - Vida nobre e vida vulgar, ou esforço e inércia VIII - Porque as massas intervêm em tudo e porque só intervêm violentamente IX - Primitivismo e técnica X - Primitivismo e história XI - A época do "mocinho satisfeito" XII - A barbárie do "especialismo" XIII - O maior perigo, o Estado SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV - Quem manda no mundo? XV - Desemboca-se na verdadeira questão EPÍLOGO PARA INGLESES Quanto ao pacifismo DINÂMICA DO TEMPO As vitrinas mandam Juventude Masculino ou feminino? NOTAS

APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia

"A Rebelião das Massas", obra prima de José Ortega y Gasset, começou a ser publicado em 1926 num jornal madrilenho ("El Sol"). Retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Não se refere às classes sociais mas às multidões e aglomerações. Tendo esse contexto como pano de fundo, Ortega discute temas, aparentemente contrários

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A rebelião das massas.

entre si, mas que se fundem (ou devem fundir-se) numa unidade de sentido. É assim que contrapõe individualismo e submissão ao coletivo; comunidade, nação e estado; história, presente e porvir; homens cultos e especialistas; poder arbitrário e respeito à opinião pública; juventude e velhice; guerra e pacifismo; masculino e feminino. São tópicos que, inevitavelmente, nos induzem à reflexão crítica. Em alguns casos são apresentados de forma extremamente provocativa. Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e afirma: "É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules." Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam um certo desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se masculinizando: "A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil, uma espécie de atleta com seios. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX, quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura, extrema feminilidade. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista, e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita." Sobre a guerra, chega a afirmar: "O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida." Sua interpretação do modelo escravista é bastante sugestiva: "Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor." São essas aparentes contradições que estimulam nosso espírito crítico. Ortega defendeu suas concepções com vigor, fundamentos sólidos e uma lógica irreprensível. Em poucos momentos foi totalmente conclusivo, mas deixou uma enorme abertura para que possamos repensar as idéias que defendeu em seus dias, adaptando-as ao nosso tempo e ao que viveremos no futuro.

BIOGRAFIA DO AUTOR

José Ortega y Gasset nasceu em Madrid, a 9 de maio de 1883. A família de sua mãe era
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Suas obras se revestem de um caráter extremamente crítico."Rebelión de las masas". Embora reconhecendo o valor da educação jesuítica recebida. Essa relação com o jornalismo foi essencial para o desenvolvimento de sua formação intelectual e seu estilo de expressão literária. Além disso. como este livro circulou muito durante estes anos fora da França. Faleceu em Madrid no dia 18 de outubro de 1955.. reagiu contra os tênues fundamentos da ciência adquirida.supondo que seja um livro . Acabou por adotar uma atitude crítica em relação aos seus mestres e a Kant. Grande parte de seus escritos filosóficos foram produzidos a partir do contato com a imprensa. onde se doutorou em Filosofia. na Alemanha. em julho de 1936. "Obras Completas". países onde proferiu inúmeras conferências. Holanda. Foi também co-fundador do diário "El Sol" e fundador e diretor da "Revista de Occidente". Ortega decidiu andar pelo mundo. Nossa época é dessa classe porque é de descidas e quedas. "En torno a Galileo". formulando um projeto pessoal de reforma da filosofia européia. e o assunto de que trata é demasiado humano para que pudesse escapar à ação do tempo. sempre instável..A rebelião das massas. se precipita em velocidade vertiginosa.htm (4 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Buscando uma formação intelectual mais sólida continuou seus estudos em Marburgo. ao mesmo tempo. Tendo adquirido as primeiras letras em Madrid foi enviado a cursar o bacharelado em um colégio jesuíta de Málaga.. Muito do que nele se enuncia foi logo um presente e já é um passado..data. Há sobretudo épocas em que a realidade humana. "Historia como sistema". Daí que os fatos ultrapassaram o livro. onde prevalecia o neokantismo. viajando à França. PRÓLOGO PARA FRANCESES I Este livro . as mais polêmicas das quais foram: "Meditaciones del Quijote". proprietária do jornal madrilenho "El Imparcial" e seu pai jornalista e diretor desse mesmo diário." A partir de 1910 iniciou uma vida pública repartida entre a docência universitária e atividades políticas e culturais extra acadêmicas. Ortega. não poucas de suas fórmulas chegaram ao leitor francês por vias file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. "Que és filosofia?". além de considerado um dos maiores filósofos da língua espanhola também é lembrado como uma das maiores figuras do jornalismo espanhol do século XX. Terminando os estudos em Málaga iniciou seus estudos universitários em Deusto e depois na Universidade de Madrid. consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei de sua influência atmosférica. que se refletiu na afirmação: "Durante dez anos vivi no mundo do pensamento kantiano: eu o respirei com a uma atmosfera que foi. Com o início da guerra civil espanhola. Portugal. Começou a ser publicado num jornal madrilenho em 1926.) Com grande esforço. Argentina. minha casa e minha prisão (.

em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente seu leitor e este percebe como se dentre as linhas saísse u'a mão ectoplástica que tateia sua pessoa. uma parte do que pensamos e põe uma barreira infranqueável à transfusão do resto. e que. A mentira seria impossível se o falar primário e normal não fosse sincero. Apenas. quando o homem se põe a falar. Teria sido. Mas uma definição. como quase tudo que o homem faz. isso é o ilusório. Porque ela mesma não nos assegura que mediante a linguagem possamos manifestar. Importa-me. estando condenado à radical solidão. que não entre na sua leitura com ilusões injustificadas. mudos. A linguagem não dá para tanto. mas me fizeram ver que o organismo das idéias enunciadas nestas páginas não corresponde ao leitor francês. Mas. o abuso aqui file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas tampouco nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem impossível entender-se com seus semelhantes. o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista com que costumamos escutá-la. tanto mais aumenta sua imprecisão. dar-lhe um murro. que quer acariciá-la .A rebelião das massas. Como quase tudo que escrevi. Conste. mais ou menos. anônimas e são puro lugar comum. os quais não são indiferentes ao significado das palavras. entretanto. No final das contas. se é verídica. mui cortesmente. como diz alguém a alguém. e todas as outras formas do falar destituem sua eficácia. encerra tácitas reservas. Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. Ao contrário. produz funestos resultados. estas foram páginas escritas para uns quantos espanhóis que o destino colocou à minha frente. para mentir. não usamos estas reservas. A moeda falsa circula apoiada na verdadeira. Pois bem. Por isso eu creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente. Não se arrisca a tanto. Este varia quando aquelas variam. esgota-se em esforços para chegar ao próximo. isto faz porque crê que vai poder dizer tudo que pensa. o engano vem a ser um humilde parasita da ingenuidade. Como em tantas outras coisas. Não é sobremodo improvável que minhas palavras. acertada ou erroneamente. Não estou convencido disso. Porém quanto mais a conversação se ocupa de temas mais importantes que esses.htm (5 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . pois. mais humanos. procurássemos adivinhar-nos. mas não há motivo para formalismo. Dóceis ao prejuízo inveterado de que falando nos entendemos. Eu fiz tudo que me foi possível em tal sentido . Esquece-se demasiadamente que todo autêntico dizer não só diz algo. todos os nossos pensamentos. sua inépcia e seu confusionismo. A linguagem é por essência diálogo. Duo si idem dicunt non est idem. pois. Não posso esperar melhor sorte quando estou persuadido de que falar é uma operação muito mais ilusória do que se supõe. e quando não a interpretamos assim. Assim esta. O de menos é que a linguagem sirva também para ocultar nossos pensamentos. Não. Em todo dizer há um emissor e um receptor. seria útil submetê-lo a sua meditação e a sua crítica. Diz. Desses esforços é a linguagem que consegue às vezes declarar com maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós. Todo vocábulo é ocasional (l). consigam dizer aos franceses o que elas pretendem exprimir. certamente. já ao falar de física começa a ser equívoco e insuficiente. excelente ocasião para praticar a obra de caridade mais adequada a nosso tempo: não publicar livros supérfluos. mudando agora de destinatário. muito mais do que se. mais "reais".vai para cinco anos a Casa Stock me propôs a sua versão -. dizemos e ouvimos com tão boa fé que acabamos muitas vezes por não nos entendermos. é irônica.ou bem. habitualmente. Serve bastantemente para enunciados e provas matemáticas. que se trata simplesmente de uma série de artigos publicados num jornal madrilenho de grande circulação. com suficiente justeza. Definimos a linguagem como o meio de que nos servimos para manifestar nossos pensamentos.

de outra grave coisa: da pavorosa homogeneidade de situações em que vai caindo todo o Ocidente. Goethe!" Mas então chegou a vez de um senhor baixo. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo. que não escrevi nem falei à Mesopotâmia. e. L'Humanité!" Contei isso a fim de declarar. balofo e de andar desgracioso. Mas logo se viu que o achara e que recobrara o domínio da situação. Contam. Mas agora esse expediente não serve de nada. representações de todas as nações. Digo angustioso porque. dizia: "L'Anglaterre! Ah. ignorantes de seus próprios limites e que sendo. Um porteiro. Outrora podia ventilar-se a atmosfera confinada de um país abrindo-se as janelas que dão para outro.htm (6 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Shakespeare!" O porteiro continuou: "Monsieur le Représentant de l'Espagne"! E Victor Hugo: "L'Espagne! Ah. sem perceberem que a palavra é um sacramento de mui delicada administração. Suas pupilas. que quando se celebrou o jubileu de Victor Hugo foi organizada uma grande festa no palácio do Elíseo. multiplica ao infinito seu efeito deprimente quando quem o sofre adverte que apenas há lugar no continente onde não aconteça estritamente o mesmo. pela mecânica que nele mesmo se descreve. respondeu à homenagem do rotundo senhor dizendo: "La Mésopotamie! Ah. todavia. o que em cada país é sentido como circunstância dolorosa. Há quase dois séculos que se acredita que falar era falar urbi et orbi. com o mesmo tom patético. com voz estentórica. por seu ofício.A rebelião das massas. Efetivamente. que este fato é de preferência sintoma de outra coisa. essa identidade cresceu de modo angustioso. realmente. os homens do dizer. atarracado. consistiu no uso sem preocupação. em solene atitude de estátua. a todos e a ninguém. levando suas homenagens. foi adotada até 1750 por intelectuais desajustados. O grande poeta achava-se na grande sala de recepção. usaram dele sem respeito e precauções. com a mesma convicção. sem a solenidade de Victor Hugo. com o cotovelo apoiado no rebordo de uma chaminé. virando os olhos. da qual participaram. Desde o aparecimento deste livro. Cervantes!" O porteiro: "Monsieur le Représentant de L'Allemagne!" E Victor Hugo: "L'Allemagne! Ah. portanto. com voz de dramático trêmulo. Os representantes das nações adiantavam-se ao público e apresentavam sua homenagem ao vate da França. isto é. e nunca me dirigi à Humanidade. O porteiro exclamou: "Monsieur le Représentant de la Mésopotamie!" Victor Hugo. podia parecer invalidada pelo fato mesmo de que este volume tenha encontrado leitores em quase todas as línguas da Europa. II Esta tese que sustenta a exiguidade do raio de ação eficazmente concedido à palavra. do logos. Esse costume de falar para a Humanidade. que até então permanecera impertérrito e seguro de si mesmo. pareceu vacilar. sem consciência da limitação do instrumento. fizeram um grande giro circular como procurando em todo o cosmos algo que não encontrava. anunciava-os: "Monsieur le Représentant de l'Anglaterre!" E Victor Hugo. que é a forma mais sublime. a mais desprezível da demagogia. porque em outro país a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sem insistir demasiado sobre a realidade do fato. Eu creio. ansiosas.

ter uma idéia muito confusa do que é o direito. Isto é.perdoe-se-me a insolência . e são verdadeiros certames.A rebelião das massas.htm (7 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . que nessa progressiva assimilação das circunstâncias distingamos duas dimensões diferentes e de valor contraposto. Pelo contrário: cada novo princípio uniforme fertilizava a diversificação. dessa sociedade preexistente. Sociedade é o que se produz automaticamente pelo simples fato da convivência. Um dos mais graves erros do pensamento "moderno". E é que para esses povos chamados europeus. A idéia cristã engendra as igrejas nacionais. As guerras inter-européias mostraram quase sempre um curioso estilo que as faz parecer muito com as altercações domésticas. caracterizou-se sempre por uma forma dual de vida. desde Óton III . a "restauração das letras" no século XV impele as literaturas divergentes. É de somenos importância que a esse espaço histórico comum. Pois aconteceu que à medida que cada um ia formando seu gênio peculiar. línguas. como as dos jovens numa aldeia ou disputas de herdeiros pela partilha de um legado familiar. que era um terrível pince-sans-rire. Ora. é o mais insensato ensaio que se fez de pôr o carro adiante dos bois. a realidade "direito" . maneiras e entusiasmos. parece-me . produz o efeito de despertar romanticamente a consciência diferencial das nacionalidades. convivência e sociedade são termos equivalentes. cujas salpicaduras ainda padecemos. O espaço histórico a que aludo mede-se pelo raio de efetiva e prolongada convivência . tem sido confundir a sociedade com a associação. Job. se me permitem a expressão barroca. entretanto. a ciência e o princípio unitário do homem como "razão pura" cria os distintos estilos intelectuais que modelam diferencialmente até as extremas abstrações da obra matemática. secreção espontânea da sociedade e não pode ser outra coisa. viver sempre foi . Este enxame de povos ocidentais que alçou vôo sobre a história desde as ruínas do mundo antigo. de pessoas que convivem. Ao contrário. Como Carlos V dizia de Francisco I: Meu primo Francisco e eu estamos de perfeito acordo: ambos queremos Milão". De sua essência e inelutavelmente esta segrega costumes. a lembrança do Imperium romano inspira as diversas formas do Estado. jurista ou demagogo . há de entender-se com certo superlativo de paradoxo. e o acordo não pode consistir senão em precisar uma ou outra forma dessa convivência. Mais ainda. entre eles ou sobre eles se ia criando um repertório de idéias. que é. lutas de emulação. Esta convivência tomava indiferentemente aspecto pacífico ou combativo.não as idéias sobre ele do filósofo. os viajores e mercadores que rodaram pelo mundo: Unde sapientia venit et quis est locus intelligentiae? "Sabeis de algum lugar do mundo onde a inteligência exista?" Convém. poder público. direito. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Querer que o direito reja as relações entre seres que previamente não vivem em efetiva sociedade. Daí a sensação opressora de asfixia. portanto jurídica. que para cada um viver era conviver com os demais. todo acordo de vontades pressupõe a existência de uma sociedade. Finalmente e para cúmulo: até a extravagante idéia do século XVIII. Evitam a aniquilação do inimigo. que vem a ser como estimular em cada um sua vocação particular.é. Eadem sed aliter. A idéia da sociedade como reunião contratual. onde todos os povos do Ocidente se sentiam como em sua casa. usos. segundo a qual todos os povos hão de ter uma constituição idêntica. Porque o direito. todos vão ao mesmo. Porque neles a homogeneidade não foi alheia à diversidade. progressivamente homogêneos e progressivamente diversos. o contrário daquela.é um espaço social. pergunta a seus amigos.mover-se e atuar em um espaço ou âmbito comum. Um pouco de outro modo. a par. Uma sociedade não se constitui do acordo das vontades. atmosfera é tão irrespirável como no próprio. Este destino que os fazia. aproximadamente.claramente desde o século XI. corresponda um espaço físico que a geografia denomina Europa.

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Não deve estranhar, por outra parte, a preponderância dessa opinião confusa e ridícula sobre o direito, porque uma das máximas desditas do tempo é que, ao toparem os povos do Ocidente com os terríveis conflitos públicos do presente, se encontraram aparelhados com instrumental arcaico e ineficiente de noções sobre o que é sociedade, coletividade, indivíduo, usos, lei, justiça, revolução, etc. Boa parte da inquietação atual provém da incongruência entre a perfeição de nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso escandaloso das "ciências morais". O ministro, o professor, o físico ilustre e o novelista soem ter dessas coisas conceitos dignos de um barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro suburbano quem dê a tonalidade do tempo? (2) Mas voltemos a nossa rota. Queria insinuar que os povos europeus são há muito tempo uma sociedade, uma coletividade, no mesmo sentido que têm estas palavras aplicadas a cada uma das nações que a integram. Essa sociedade manifesta todos os atributos possíveis: há costumes europeus, usos europeus, opinião pública européia, direito europeu, poder público europeu. Mas todos esses fenômenos sociais se dão na forma adequada ao estado de evolução em que se encontra a sociedade européia, que não é, evidentemente, tão avançado como o de seus membros componentes, as nações. Por exemplo: a forma de pressão social que é o poder público funciona em toda sociedade, inclusive naquelas primitivas em que não existe ainda um organismo especial encarregado de manejá-lo. Se a esse órgão diferenciado a quem se entrega o exercício do poder público se quer chamar Estado, diga-se que em certas sociedades não há Estado, mas não se diga que nelas não há poder público. Onde há opinião pública, como poderá faltar um poder público se este não é mais que a violência coletiva suscitada por aquela opinião? Ora bem, que há séculos e com intensidade crescente existe uma opinião pública européia e até uma técnica para influir nela - é incômodo negá-lo. Por isso, recomendo ao leitor que poupe a malignidade de um sorriso ao deparar que nos últimos capítulos deste volume se faz com certo denodo, ante o cariz oposto das aparências atuais, a afirmação de uma possível, de uma provável unidade estatal da Europa. Não nego que os Estados Unidos da Europa são uma das fantasias mais módicas que existem e não me solidarizo com o que os outros pensaram sob esses signos verbais. Mas, por outra parte, é sumamente improvável que uma sociedade, uma coletividade tão madura como a que já formam os povos europeus, ande longe de criar para si seu artefato estatal mediante o qual formalize o exercício do poder público europeu já existente. Não é, pois, debilidade ante as solicitações da fantasia nem propensão a um "idealismo" que detesto, e contra o qual hei pugnado toda a minha vida, o que me leva a pensar assim. Foi o realismo histórico que me ensinou a ver que a unidade da Europa como sociedade não é um "ideal", mas um fato de velhíssima cotidianidade. Ora bem, uma vez que se viu isso, a probabilidade de um Estado geral europeu impõe-se necessariamente. A ocasião que leve subitamente a término o processo pode ser qualquer, por exemplo, a cólera de um chinês que apareça pelos Urais ou uma sacudida do grande magma islâmico. A figura desse Estado super-nacional será, é claro, muito diferente das usadas, como, segundo nesses mesmos capítulos se tenta mostrar, foi muito diferente o Estado nacional do Estado-cidade que os antigos conheceram. Eu procurei nestas páginas pôr em franquia as mentes para que saibam ser fiéis à sutil concepção do Estado e sociedade que a tradição européia nos propõe. Nunca foi fácil ao pensamento greco-romano conceber a realidade como dinamismo. Não podia

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desprender-se do visível ou seus sucedâneos, como um menino não entende do livro senão as ilustrações. Todos os esforços de seus filósofos autóctones para transcender essa limitação foram vãos. Em todos os seus ensaios para compreender atua, mais ou menos, como paradigma, o objeto corporal, que é, para eles, a "coisa" por excelência. Só conseguem ver uma sociedade, um Estado onde a unidade tenha caráter de continuidade visual; por exemplo, uma cidade. A vocação mental do europeu é oposta. Toda coisa visível lhe parece, como tal, simples máscara aparente de uma força latente que a está constantemente produzindo e que é sua verdadeira realidade. Ali onde a força, a dynamis, atua unitariamente, há real unidade, embora à vista se nos apareçam como manifestação dela apenas coisas diversas. Seria recair na limitação antiga não descobrir unidade de poder público apenas onde este tomou máscaras já conhecidas e como solidificadas de Estado; isto é, nas nações particulares da Europa. Nego redondamente que o poder público decisivo atuante em cada uma delas consista exclusivamente em seu poder público interior ou nacional. Convém cair de uma vez na compreensão de que há muitos séculos e com consciência disso há quatro - vivem todos os povos da Europa submetidos a um poder público que por sua própria pureza dinâmica não tolera outra denominação que a extraída da ciência mecânica: o "equilíbrio europeu" ou balance of Power. Esse é o autêntico governo da Europa que regula em seu vôo pela história o enxame de povos, solícitos e pugnazes como abelhas, escapados às ruínas do mundo antigo. A unidade da Europa não é uma fantasia, mas de fato a própria realidade, e a fantasia é precisamente a crença de que a França, a Alemanha, a Itália ou a Espanha são realidades substantivas e independentes. Compreende-se, entretanto, que nem todo o mundo perceba com evidência a realidade da Europa, porque a Europa não é uma "coisa", mas um equilíbrio. Já no século XVIII o historiador Robertson qualificou o equilíbrio europeu de the great secret of modern politics. Segredo grande e paradoxal, sem dúvida! Porque o equilíbrio ou balança de poderes é uma realidade que consiste essencialmente na existência de uma pluralidade. Se essa pluralidade se perde, aquela unidade dinâmica se desvaneceria. A Europa é, com efeito, enxame; muitas abelhas e um só vôo. Esse caráter unitário da magnífica pluralidade européia é o a que eu chamaria boa homogeneidade, a que é fecunda e desejável, a que fazia Montesquieu dizer: L'Europe n'est qu'une nation composée de plusieurs, (3) e Balzac, mais romanticamente, falava da grande famille continentale, dont tous les efforts tendent à je ne sais quel mystère de civilisation. (4)

III Esta multidão de modos europeus que brotam constantemente de sua radical unidade e reverte a ela mantendo-a, é o maior tesouro do Ocidente. Os homens de cabeças toscas não conseguem congeminar uma idéia tão acrobática como esta em que é preciso saltar, sem descanso, da afirmação da pluralidade ao reconhecimento da unidade e vice-versa. São cabeças pesadas nascidas para existir sob as perpétuas tiranias do Oriente.

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Triunfa hoje sobre toda a área continental uma forma de homogeneidade que ameaça consumir completamente aquele tesouro. Onde quer que tenha surgido o homem-massa de que este volume se ocupa, um tipo de homem feito de pressa, montado tão somente numas quantas e pobres abstrações e que, por isso mesmo, é idêntico em qualquer parte da Europa. A ele se deve o triste aspecto de asfixiante monotonia que vai tomando a vida em todo o continente. Esse homem-massa é o homem previamente despojado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas "internacionais". Mais do que um homem, é apenas uma carcaça de homem constituído por meros idola fori; carece de um "dentro", de uma intimidade sua, inexorável e inalienável, de um eu que não se possa revogar. Daí estar sempre em disponibilidade para fingir ser qualquer coisa. Tem só apetites, crê que só tem direitos e não crê que tem obrigações: é o homem sem nobreza que obriga - sine nobilitate - snob. (5) Este universal snobismo, que tão claramente aparece, por exemplo, no operário atual, cegou as almas para compreender que, embora toda estrutura dada da vida continental tenha de ser transcendida, tudo isso há de se fazer sem perda grave de sua interior pluralidade. Como o snob está vazio de destino próprio, como não sabe que existe sobre o planeta para fazer algo determinado e impermutável, é incapaz de entender que há missões particulares e mensagens especiais. Por essa razão é hostil ao liberalismo, com uma hostilidade que se assemelha à do surdo em relação à palavra. A liberdade significou sempre na Europa franquia para ser o que autenticamente somos. Compreende-se que aspire a prescindir dela quem sabe que não tem autêntico mister. Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque as pessoas não costumam pôr-se de acordo a não ser em coisas um pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores coletivistas, que começam por desconhecê-lo. Ademais, há nele uma intuição do que a Europa tem sido, altamente perspicaz. Quando Guizot, por exemplo, contrapõe a civilização européia às demais fazendo notar que nela não triunfou nunca em forma absoluta nenhum princípio, nenhuma idéia, nenhum grupo ou classe, e que a isso se deve o seu crescimento permanente e seu caráter progressivo, não podemos deixar de pôr o ouvido atento (6). Este homem sabe o que diz. A expressão é insuficiente porque é negativa, mas suas palavras chegam-nos carregadas de visões imediatas. Como do mergulhador emergente transcendem olores abismais, vemos que este homem chega efetivamente do profundo passado da Europa onde soube submergir. É, com efeito, incrível que nos primeiros anos do século XIX, tempo retórico e de grande confusão, se tenha composto um livro como a Histoire de la Civilisation en Europe. Todavia o homem de hoje pode aprender ali como a liberdade e o pluralismo são duas coisas recíprocas e como ambas constituem a permanente entranha da Europa. Mas Guizot teve sempre péssima publicidade, como em geral, os doutrinários. Não me surpreendo. Quando vejo que para um homem ou grupo se dirige fácil e insistente o aplauso, surge em mim a veemente suspeita de que nesse homem ou nesse grupo, talvez junto a dotes excelentes, há algo sobremodo impuro. Talvez isto seja um erro em que incorro, mas devo dizer que não o procurei, que o foi dentro de mim decantando a experiência. De qualquer maneira, quero ter a coragem de afirmar que este grupo de doutrinários, de quem todo o mundo riu e fez mofas truanescas, é, a meu ver, o mais

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originalmente. ainda que pareça incrível. a legitimidade. sem poder abandonar-se. Nela chegou a fazer-se tal e como é. ainda que seja somente para se defender do abandono orgiástico em que vivia seu contorno. Posso aludir ao doutrinarismo como a uma magnitude conhecida. Talvez desde o tempo de Alcuino tenhamos vivido cinqüenta anos pelo menos atrasados a respeito dos ingleses. descobrem eles o histórico com o verdadeiro absoluto. não há tampouco um livro medianamente formal sobre Guizot nem sobre Royer-Collard (9). Por isso não os entenderam. Não se abandona jamais. Se alentassem hoje reconheceriam o direito de greve (não política) e o contrato coletivo. Foram os únicos que viram claramente o que havia que fazer na Europa depois da Grande Revolução. todavia. e constituíram o doutrinal político mais estimável de toda a centúria. é muito possível que o porvir pertença a tendências de intelecto muito semelhantes às suas. enfim. Numa época como a nossa. como Buster Keaton. é bom tomar contacto com os homens que não "se deixam levar". apesar da sua clássica lucidez. prazeres de pensamento não esperados e uma intuição da realidade social e política totalmente diferente das usadas. Pelo menos. O passado não está presente e não teve o trabalho de acontecer para que o neguemos. A história é a realidade do homem. uma das causas profundas do presente desconcerto Mas eu não sei se. Condensam-se nele várias gerações de protestantes nimeses que haviam vivido em alerta perpétuo. fincar os calcanhares no chão para se opor à correnteza.htm (11 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Rotas e sem vigência quase todas as normas com que a sociedade presta uma continência ao indivíduo. Nem será possível reconstruir a história desta se não se estabelece intimidade com o modo em que se apresentaram as grandes questões ante estes homens (10). Os russos desses anos passados costumavam chamar a Rússia de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. defeito que é. sem poder flutuar à deriva no ambiente social. nem mais nem menos. valioso que houve na política do continente durante o século XIX. Seu estilo intelectual não é só diferente em espécie. sobre os problemas mais graves da vida pública européia. por sua vez. Os verdadeiros direitos são os que absolutamente estão aí. Havia chegado a converter-se neles em um instinto a impressão radical de que existir é resistir. Os doutrinários desprezavam os "direitos do homem" porque são absolutamente "metafísicos". (8) como. Mas. Não tem outra. como coisa inquestionável. A um inglês tudo isso pareceria óbvio. quer dizer. que era individualista. não podia este constituir-se uma dignidade se não a extraía do fundo de si mesmo. Igual desconhecimento do velho liberalismo sentem os coletivistas de agora quando supõem. Mal pode fazer-se isso sem alguma exageração. Pois se dá o fato escandaloso de que não existe um só livro onde se tenha tentado precisar o que aquele grupo de homens pensava. Guizot soube ser. porque o passado é "o natural do homem que volta a galope". como eu disse. e foram além disso homens que criaram em suas pessoas uma atitude digna e distante. ainda que me dirigindo a leitores franceses. mas os continentais ainda não chegamos a essa estação. É verdade que nem um nem o outro publicaram jamais um soneto. mas o é de outro gênero e de outra essência em face de todos os demais triunfantes na Europa antes e depois deles. Em todos estes temas andam. que encontram o absoluto em abstrações bon marché. asseguro a quem se proponha formular com rigor sistemático as idéias dos doutrinários. Negar o passado é absurdo e ilusório. a magistratura. mas para que o integremos (11).A rebelião das massas. o homem que não ri (7). pensaram profundamente. Os doutrinários são um caso excepcional de responsabilidade intelectual. porque foram aparecendo e se consolidando na história: tais são as "liberdades". no meio da rusticidade e da frivolidade crescente daquele século. abstrações e irrealidades. E. mas diferentemente do racionalismo linfático de enciclopedistas e revolucionários. as "capacidades". as noções sobremodo turvas. Perdura neles ativa a melhor tradição racionalista em que o homem se compromete consigo mesmo a procurar coisas absolutas. do que mais tem faltado aos intelectuais europeus desde 1750.

é que tanto ele como Stuart Mill tratam os indivíduos com a mesma crueldade socializante com que os termitas a certos de seus congêneres.a sociedade.tem sido causa de que o não entendam teimosamente os que não lêem dos livros senão os títulos. Aqueles homens apalpavam. Amard. O aspecto agressivo do título que Spencer escolhe para seu livro . há por um lado de benefício. M. E o que se discute é se certas necessidades sociais são melhor servidas por um ou pelo outro órgão. mas pelo contrário. inspira. O descobrimento . Não chegara ainda a hora da nivelação. sem outra exceção que não seja Benjamim Constant. Quando. as seguintes teses: Primeira: o liberalismo individualista pertence à flora do século XVIII. bisogna aver una confusione nella testa? Diante disso tudo eu rogaria ao leitor que tomasse em conta. não para aceitá-las. que tudo isso é outra coisa. Por outra parte. em que interessa e beneficia à sociedade.O indivíduo contra o Estado . Mais importante. em Ballanche. do coletivo. simplesmente e como tal. porém. a legislação da Revolução francesa. Porque o caso é que eu não sou um "velho liberal". mas para que sejam discutidas e passem depois à sentença. de pavoroso. Daí que os "velhos liberais" se abrissem sem suficientes precauções ao coletivismo que respiravam. É a primeira idéia que inventa apenas nascido e que ao longo de cem anos não fez senão crescer até inundar todo o horizonte. os fenômenos sociais do tempo camuflavam a verdadeira economia da coletividade.surpreende-nos que sua suposta defesa não se baseia em mostrar que a liberdade beneficia ou interessa a este. Mas quando se viu com clareza o que no fenômeno social. Segunda: a criação característica do século XIX foi precisamente o coletivismo. O famoso "individualismo" de Spencer boxeia continuamente dentro da atmosfera coletivista de sua sociologia. "o coletivo". porém. mas morre com ela.sem dúvida glorioso e essencial . Por exemplo: um médico de Lyon. falará em 1821 do collectivisme em face do personnalisme (13). só se pode aderir ao liberalismo de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o fato de que a coletividade é uma realidade diferente dos indivíduos e de sua simples soma.htm (12 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . como o capitão italiano de que falava Goethe. chegamos aos grandes teorizadores do liberalismo . um "atrasado" do século anterior. mais do que viam. No essencial é imediatamente aceita por todos. em Comte e pulula por toda a parte (12). porque então convinha a esta ocupar-se em cevar bem os indivíduos. em parte. completamente.Stuart Mill ou Spencer . os quais cevam para depois chupar-lhes a substância. Terceira: esta idéia é de origem francesa. da espoliação e da partilha em todas as ordens.do social. era demasiado recente. O resultado. por outro. no final. de terrível. avançando pela centúria. Até esse ponto era a primazia do coletivo o fundo por si mesmo evidente sobre o qual ingenuamente dançavam suas idéias! De onde se infere que minha defesa lohengrinesca do velho liberalismo é. no fato coletivo. Não seria interessante averiguar que idéias ou imagens se espreguiçavam à invocação deste vocábulo na mente um tanto gasosa do homem russo que tão freqüentemente. desinteressada e gratuita. Aparece pela primeira vez nos arquireacionários de Bonald e de Maistre. Mas triunfa em Saint-Simon. Nada mais. mas não sabiam bem em que consistia e quais eram seus efetivos atributos. Leiam-se os artigos que em 1830 e 1831 publica L'Avenir contra o individualismo. Porque indivíduo e Estado significam nesse titulo dois meros órgãos de um único sujeito .A rebelião das massas.

como bem e não como mal. é preciso que se dêem circunstâncias diferentes. com a míngua progressiva da "variedade de situações". Mas o que mais nos interessa em Stuart Mill é sua preocupação pela homogeneidade de má classe que via crescer em todo o Ocidente. devemos esperar. caminhamos em linha reta para o Baixo Império. Na porção mais helenizada do povo romano. Veja-se. segundo Humboldt. estereotipar. que nas condições presentes do mundo esta disposição nada fará senão aumentar" (15).que adota a vida de um a outro extremo do Império. Dentro de cada nação. mas. se acha tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana.e uma eqüivale à outra . encontramos pré-desenhada nossa hora. este desbordamento não é um mal que tenda a desaparecer espontaneamente. seja como soberanos. que não nos serve para dizer suficientemente o que cada um de nós quiséramos dizer. Disse-se. Para que o humano se enriqueça. e tomando em conjunto as nações. tende a fazer-se cada vez mais formidável. em Comte. as cabeças se obliteram. a condição mais arcana da sociedade que a fala. existe no mundo uma forte e crescente inclinação a estender em forma extrema o poder da sociedade sobre o indivíduo. a língua vigente é a que se chamou "latim vulgar". não entrevissem de quando em quando as angústias que seu tempo nos reservava. e salvo os Alexandrinos. disposto a investigá-los. Em Macaulay. e a consciência desse segredo é a que. Importava-me esclarecer isso para que não se tergiverse a idéia de uma superação européia que este volume postula. na linha mesma do horizonte. mestre de Cícero. O processo vinha de tempos atrás. menos ingênuo e de mais destra beligerância. que quase nunca se reprime senão quando lhe falta poder. Assim. estilo radicalmente novo. Ora bem. a um tempo homogênea e estúpida . clara ou balbuciante. por exemplo. em Tocqueville. Nem era possível que sendo estes homens. fartamente perspicazes. menos sublinhado e analisado do que devera: os homens tornaram-se estúpidos. devemos esperar. Depois dele. A disposição dos homens. num só tipo de homem. a impor aos demais como regra de conduta sua opinião e seus gostos. está onde menos se podia esperar e onde todavia. sem que o queiramos. matriz de nossos romances. seja como concidadãos.htm (13 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . como todas as mudanças que se operam no mundo têm por efeito o aumento da força social e a diminuição do poder individual. Já no tempo dos Antoninos se nota claramente um estranho fenômeno. não farão outra coisa senão repetir. com alguma razão. tanto por meio da força da opinião como pela legislativa.A rebelião das massas. próximo a florescer. Nessa consciência se reconhece a si mesma como valor positivo. ao contrário. Também foi aquele um tempo de massa e de pavorosa homogeneidade. Contra o que sói acreditar-se tem sido normal na história que o porvir seja profetizado (14). Evitar isso tem sido o secreto acerto da Europa até hoje. revela pelo contrário e grita. um liberalismo que está germinando já. Mas o sistema e documento mais terrível desta forma. E insensato pôr a vida européia numa só carta. ninguém o procurou: no idioma. numa idêntica "situação". que eu saiba. moveu sempre os lábios do perene liberalismo europeu. como eram. E como o poder não parece achar-se em via de declinar. mas de crescer. Não se conhece bem este file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ao falhar uma restam outras possibilidades abertas. Isso o faz acolher-se a um grande pensamento emitido por Humboldt na sua juventude. a pluralidade continental. A língua. é o último homem antigo capaz de se colocar ante os fatos com a mente porosa e ativa. se consolide e se aperfeiçoe é necessário. que o estóico Possidônio. digo. a menos que uma forte barreira de convicção moral não se eleve contra o mal. Tal e como vamos. o que há mais de oitenta anos escrevia Stuart Mill: "À parte as doutrinas particulares de pensadores individuais. que exista "variedade de situações" (16).

E eu o fiz durante toda a minha vida. uma língua triste. enquanto a do político sói. não parecem admirar-se ante o fato de que falassem da mesma maneira países tão díspares como Cartago e Gália. que são talvez. Parece-me simplesmente atroz. Isto. como fartas de rolar pelas tabernas mediterrâneas. procuro descobrir a realidade vivente de que esse fato é a quieta marca. E verdade que trato de me representar como era por dentro isso que olhado de fora nos aparece. Mas o que se conhece basta e sobra para que nos espantem dois de seus caracteres. porém. é claro. oposta à do político. depois dos aviadores. Dizem-no. senão em virtude de um achatamento geral. desoladas. A saborosa complexidade indo-européia. é claro. ficou suplantada por uma fala plebéia. Ser da esquerda é. Mas ao constar isto quer dizer-se que o torso da língua era comum e idêntico. são formas da hemiplegia moral. pelo contrário. como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias. Sempre estive na estacada. consistir em confundi-las mais do que estavam. todo o mundo tem de fazer política sensu stricto. uma língua pueril ou gaga que não permite a fina aresta do raciocínio nem líricas cambiantes. Há obrigações de trabalhar sobre as questões do tempo. com efeito. Hispânia e Rumânia. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Consta. Ademais. pelo contrário. em certo modo. uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas. Meu trabalho é obscuro labor subterrâneo de mineiro. que conservava a linguagem das classes superiores. a esclarecer um pouco as coisas. testemunho de que uma vez a história agonizou sob o império homogêneo da vulgaridade por haver desaparecido a fértil "variedade de situações". do escasso intercâmbio. como homogeneidade. como um arrepiante empedernimento. efetivamente. É uma língua sem luz nem temperatura. O assunto de que aqui se fala é prévio à política e pertence a seu subsolo. E. de mecanismo muito fácil.é que. Os vocábulos parecem velhas moedas de cobre. o morador de Hipona e o de Lutécia. galicismos. pesadamente mecânico. que avança às cegas. Mas uma das coisas que agora se dizem . sem evidência e sem calor de alma. a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente.A rebelião das massas. que tremo quando vejo como o vento fatiga uns caniços. latim vulgar e. de ensaio e rodeio como a infantil.htm (14 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Um é a incrível simplificação do seu mecanismo gramatical em comparação com o latim clássico. A obra intelectual aspira.uma "corrente" . tranqüilamente. Eu. o mauritânio e o dácio. Que vidas evadidas de si mesmas. gramática balbuciante e perifrástica. apesar das distâncias. A missão do chamado "intelectual" é. já fala de per si. nulificando suas vidas? O latim vulgar está aí nos arquivos. que havia africanismos. Como podiam vir à coincidência o celtibero e o belga. imundas e sem rotundidade. com freqüência baldada. como ser da direita. ao mesmo tempo. como material. porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem. IV Nem este volume nem eu somos políticos. sem dúvida. os homens menos dispostos a assustar-se com coisa alguma. Os lingüistas. condenadas à eterna cotidianidade se adivinham atrás desse seco artefato lingüístico! O outro caráter aterrador do latim vulgar é precisamente sua homogeneidade. que sou bastante tímido. da dificuldade de comunicações e de que não contribuía para fixá-lo uma literatura. hispanismos. ou por isso mesmo. reduzindo a existência à sua base. incluso a custo da claridade mental. Tingitânia e Dalmácia. não posso reprimir ante esse fato um estremecimento medular. em boa parte. só se chega a ele mediante reconstruções.

a sagesse . Mas há muito tempo que aprendi a ficar em guarda quando alguém cita Pascal. XXVII. Quando alguém nos pergunta o que somos em política. o Estado. é só uma primeira aproximação ao problema do homem atual. é esta: podem as massas. Não pode ter dentro mais que política exorbitada. o uso.enfim. nos adscreve simultaneamente em vez de responder devemos perguntar ao impertinente que pensa ele que é o homem e a natureza e a história. mas com decisão. não para fazer o leque do pavão real nas reuniões acadêmicas. A política despoja o homem de solidão e intimidade. O politicismo integral. se trata precisamente de um homem hermético. Uma vez que nos afiguramos bem de como é esse tipo humano hoje dominante. nada parecido. depende toda possibilidade de saúde. antecipando-se com a insolência que pertence ao estilo de nosso tempo. frenética. nem de longe.A rebelião das massas. posto que pretenda suplantar o conhecimento. que é a sociedade e o indivíduo. 62-63) Isso seria o único de que poderia esperar-se com alguma probabilidade a solução do tremendo problema que as massas atuais aventam. Os termos com que deve ser levantado não constam na consciência file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e eu o tentei num livro próximo a aparecer em outros idiomas sob o título El hombre y la gente. o direito. E até o corroboram citando de Pascal o imperativo d'abêtissement. fora de si. A outra pergunta decisiva. a religião. A política apressa-se a apagar as luzes para que todos estes gatos sejam pardos. as únicas coisas que por sua substância são aptas para ocupar o centro da mente humana -. ainda que quisessem. a coletividade. ou. A massa em rebeldia perdeu toda a capacidade de religião e de conhecimento. e por isso é a predicação do politicismo integral uma das técnicas que se usam para socializá-lo. vestir o escafandro e descer ao mais profundo do homem. E uma cautela de higiene elemental. Este volume não pretende. Importa fazer isso sem pretensões. E é preciso que o faça prontamente ou. é quando se suscitam as interrogações mais férteis e mais dramáticas: Pode-se reformar este tipo de homem? Quero dizer: os graves defeitos que há nele. os que não têm outra coisa que fazer. da qual. tão graves que se não os extirpamos produzirão de modo inexorável a aniquilação do Ocidente. que não está aberto de verdade a nenhuma instância superior. studiate il passo Mentre que l'Occidente non s'annera. a absorção de todas as coisas e de todo o homem pela política. que encontre a saída. Para isso está aí. como verá o leitor. porque está demasiado virgem. É preciso que o pensamento europeu proporcione sobre todos estes temas nova claridade. e que eu chamei o homem-massa. (Purg. a meu juízo. como dizia Dante.htm (15 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . é uma e mesma coisa com o fenômeno de rebelião das massas que aqui se descreve. despertar a vida pessoal? Não cabe desenvolver aqui o tremendo tema. Para falar sobre ele mais seriamente e mais profundamente não haveria mais remédio senão pôr-se em roupa abissal. toleram ser corrigidos? Porque. Como suas últimas palavras fazem constar.

apesar de tão respeitável. Restariam muito menos homens. como até a todo desejo pessoal e buscará a solução oposta: imaginará para si uma vida standard. e até os músculos respiratórios têm de funcionar a ritmo de regulamento. como cria o honrado engenheiro. mediante seus esforços particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem em sua fantasia. os exemplos mais vis da natureza humana deparam-se entre os demagogos" (17). os movimentos têm de se executar em comum. porque não há a sua disposição espaço em que possa alojá-la e em que possa mover-se segundo seu próprio ditame? Logo advertirá que seu projeto tropeça com o próximo. O desânimo o levará com a facilidade de adaptação própria de sua idade a renunciar não só a todo ato. porque até hoje não se condensou nele um sistema enérgico de idéias históricas e sociais. porque foi o chamado "individualismo". Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomerações de seres humanos. que fazia Macaulay exclamar: "Em todos os séculos. Porque é pura inércia mental do "progressismo" supor que conforme avança a história. pública. pelo contrário ressuma só vagas filantropias. Em tal circunstância. obsedante. Herbert Spencer. Nem sequer está esboçado o estudo da distinta margem de individualidade que cada época do passado deixou à existência humana. este pensamento: Pode hoje um homem de vinte anos formar um projeto de vida que tenha figura individual e que. quase improvável. o tema da "justiça social". necessitaria realizar-se mediante suas iniciativas independentes. O formigueiro humano é impossível. faria sua reaparição na Europa o esfomeamento gigantesco do Baixo Império. Este último vocábulo é. Não. Ante o feroz patetismo desta questão que. que vão e vêm por suas ruas ou se concentram em festivais e manifestações políticas. incorpora-se em mim. ninguém pode mover um braço ou uma perna por iniciativa própria. Mas nem sequer esta cruel imagem é uma solução. que o seriam um pouco mais. senão impossível. Isso pode ser em ocasiões file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. é possível e é justo conseguir. composta de desiderata comuns a todos e verá que para consegui-la tem de solicitá-la ou exigi-la em coletividade com os demais. Isto seria a Europa convertida em formigueiro. Mas. caminhos que não parecem passar por uma miserável socialização. Em uma prisão onde se amontoaram muito mais presos dos que cabem. queiramos ou não.A rebelião das massas. ao mesmo tempo. mas nulo historiador. não notará que é. Mas um homem não é demagogo somente porque se ponha a gritar ante a multidão. A grega e a romana sucumbiram nas mãos desta fauna repugnante. A primeira condição para um melhoramento da situação presente é perceber bem sua enorme dificuldade. e o formigueiro sucumbiria como ao sopro de um deus torvo e vingativo.htm (16 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . a história está cheia de retrocessos nesta ordem. e talvez a estrutura da vida em nossa época impeça superlativamente que o homem possa viver como pessoa. Os demagogos têm sido apenas os grandes estranguladores de civilizações. com efeito. muito difícil salvar uma civilização quando lhe chegou a hora de cair sob o poder dos demagogos. empalidece e se degrada até parecer retórico e insincero suspiro romântico. Daí a ação em massa. É. que enriqueceu o mundo e a todos no mundo e foi esta riqueza que prolificou tão fabulosamente a planta humana. orienta sobre os caminhos acertados para conseguir o que dessa "justiça social". A coisa é horrível. como a vida do próximo aperta a sua. mas dirigir-se em linha reta para um magnânimo solidarismo. portanto. porque chocaria com os corpos dos demais. Quando os restos desse "individualismo" desaparecessem. está visível. inoperante. mas não creio que exagera a situação efetiva em que se vão achando quase todos os europeus. além do mais. assim cresce a folga que se concede ao homem para poder ser indivíduo pessoal. Só isto nos levará a atacar o mal nos estratos fundos de onde verdadeiramente se origina.

que o método para resolver os grandes problemas humanos é o método da revolução. Os problemas humanos não são. por tradição! É verdade que na França fez-se uma Grande Revolução e várias torvas ou ridículas. grande parte dos quais confessou o próprio Raspail que haviam sido antes clientes seus. Ao mesmo tempo tive a honra de receber o encargo de uma enérgica mensagem que esse busto dirige ao outro. E se ser revolucionário é já coisa grave. a França tenha vivido mais que outro qualquer povo sob formas políticas. A demagogia essencial do demagogo está dentro de sua mente. Porque esse país tem ou crê que tem uma tradição revolucionária. Quando se contempla panoramicamente a vida pública da França durante os últimos cento e cinqüenta anos. que como amplo fenômeno da história européia aparece na França em 1750. do oficial. e que é o busto do falso Comte. o homem a quem a Europa mais deve. abstratos. a vontade de transformar de chofre tudo e em todos os gêneros (19). erigido na praça de Sorbonne. Com o pequeno busto de Comte que há em seu departamento da rue Monsieur-le-Prince falei sobre pouvoir spirituel. que dulcificaram uma etapa dolorosa e estéril de minha vida. entendendo por tal o que já Leibnitz chamava uma "revolução geral" (18). impelindo minha solidão pelas ruas de Paris. quanto mais sê-lo. em maior ou menor escala. quase todo o continente. uma magistratura sacrossanta. compreendi que eu não conhecia ninguém na grande cidade. Graças a isso essa maravilha que é a França chega em más condições à difícil conjuntura do presente. acertar seus historiadores. Mas era natural que me interessasse sobretudo em ouvir uma vez mais a palavra do nosso sumo mestre Descartes. desde então. porque são históricos. Mas o racionalismo físico-matemático tem sido na França demasiado glorioso para que não tiranize a opinião pública.htm (17 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mas. e por sua irradiação. Algumas destas. a grande depressão moral da história francesa que foram os vinte anos do Segundo Império. são velhas amizades. se nos atemos à verdade nua dos anais. Estes meses passados. São problemas de máxima concreção. Por que então? Por que na França? Este é um dos pontos nevrálgicos do destino ocidental e especialmente do destino francês. radica em sua irresponsabilidade ante as idéias mesmas que maneja e que ele não criou. Malebranche rompe com um amigo seu porque viu sobre sua mesa um Tucídides (21). ao grande. salvo uns dias ou umas semanas. crê a França. do de Littré. autoritárias e contra-revolucionárias. A demagogia é uma forma de degeneração intelectual. O puro acaso que ciranda minha existência fez que eu redija estas linhas tendo à vista o lugar da Holanda em que habitou em 1642 o novo descobridor da raison. que está no Quai Conti. Nelas se raciocina com o marquês de Condorcet.A rebelião das massas. o que encontramos é que essas revoluções serviram principalmente para que durante todo um século. sobre a perigosa idéia do progresso. E o único método de pensamento que proporciona alguma probabilidade de acerto em sua manipulação é a "razão histórica". salta à vista que seus geômetras. paradoxalmente. seus físicos e seus médicos se equivocaram sempre em seus juízos políticos. E como não tinha com quem falar. salvo as estátuas. entretanto. Sobretudo. Não sei se algum dia sairão à luz estas Conversaciones con estatuas. por isso é consubstancial às revoluções o fracasso. insuficientemente exercido por mandarins literários e por uma Universidade que ficou completamente excêntrica diante da efetiva vida das nações. como os astronômicos ou os químicos. mas recebeu dos verdadeiros criadores. e que conseguiram ao contrário. Nas revoluções tenta a abstração sublevar-se contra o concreto. cujas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Este lugar. deveu-se bem claramente à extravagância dos revolucionários de 1848 (20). antigas incitações ou perenes mestres de minha intimidade. Isso é o que. conversei com elas sobre grandes temas humanos. chamado Endageest.

Esta raison é só matemática. a Monarquia não exerce no Império britânico nenhuma função material e palpável. que em 1860 se atrevesse a clamar: "La continuité est un droit de l'homme. biológica. espezinhado e esfarrapado. o tigre de hoje é idêntico ao de seis mil anos. E a riqueza menor desse tesouro consiste no que dele pareça acertado e digno de conservar-se: o importante é a memória dos erros. hipocritamente generosa. nem administrar a justiça. chamamos inteligência. Ante a turbulência atual do continente quis afirmar as normas permanentes que regulam sua vida." Romper a continuidade com o passado. falando rigorosamente. os continentais. Köhler e outros mostraram como o chimpanzé e o orangotango não se diferenciam do homem pelo que. de proclamar direitos. Como sempre . elle est un hommage à tout ce qui le distingue de la bête" (23).. Diante de mim está um jornal em que acabo de ler o relato das festas com que a Inglaterra celebrou a coroação do novo rei. é hoje um manicômio. A única diferença radical entre a história humana e a "história natural" é que aquela não pode nunca começar de novo. a extensa experiência vital decantada gota a gota em milênios. Este é o tesouro único do homem. o direito fundamental do homem. Os pobres animais cada manhã esquecem quase tudo que viveram no dia anterior. sublinham tanto mais seu fracasso ante os assuntos propriamente humanos e convidam a integrá-la em outra razão mais radical. Por isso o povo inglês. física. acumula seu próprio passado. Mas nem por isso é uma instituição vazia. O homem não é nunca um primeiro homem: começa desde logo a existir sobre certa altitude de pretérito amontoado. A Monarquia da Inglaterra exerce uma função determinadíssima e de alta eficácia: a de simbolizar.htm (18 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . As revoluções tão incontinentes em sua pressa. a Inglaterra. Seus fabulosos triunfos sobre a natureza. Deu-nos mais uma lição. Seu papel não é governar. Por isso Nietzsche define o homem superior como o ser "de memória mais desenvolvida. árvores dão sombra a minha janela. seu privilégio e sua marca. como pretendiam os confusonários do 89. carente de serviço. mercê de seu poder de recordar. com deliberado propósito. que é a "razão histórica" (22). Isso é verdade. Semelhantemente. atrás deles. de tudo quanto seja tentar a transformação súbita de uma sociedade e começar de novo a história. como se não houvesse outro antes. Dupont-White. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros. e seu intelecto tem de trabalhar sobre um mínimo material de experiências. cheios de gênio. querer começar de novo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. violaram sempre. nunca maduros. Duas vezes ao dia . é aspirar a descer e plagiar o orangotango.já que a Europa sempre pareceu um tropel de povos -. que nos permite não cometer os mesmos sempre. e ao fundo. mas porque têm muito menos memória que nós. superiores a quanto pudera sonhar-se. tão fundamental que é a definição mesma de sua substância: o direito à continuidade. Apraz-me que seja um francês. mas isentos de serenidade. como a nurse da Europa.em admoestadora vizinhança .vejo passar os idiotas e os dementes que arejam por momentos à intempérie sua malograda humanidade. porque cada tigre tem de começar de novo a ser tigre. Três séculos de experiência "racionalista" obrigam-nos a rememorar o esplendor e os limites daquela prodigiosa raison cartesiana. nem mandar o Exército. Porque. sempre pueris. mas dizendo-o assim deixamos escapar o melhor. Ao método da revolução opõe o único digno da larga experiência que o europeu atual tem atrás de si. possui-o e o aproveita. Esta nos mostra a vaidade de toda revolução geral. pelo contrário. deu agora inusitada solenidade ao rito da coroação. O homem. Diz-se que há muito a Monarquia inglesa é uma instituição meramente simbólica.. efetivamente.A rebelião das massas.

Desde um futuro ao qual não chegamos mostra-nos a vigência louçã de seu pretérito (24). Este é o povo que sempre chegou antes ao porvir. Com as festas simbólicas da coroação. pensava-se: aí está a América! Era a América da fabulosa prosperity. já que o presente é só a presença do passado e do porvir. de sua pele. longe de ser o futuro. V Como nestas páginas se faz a anatomia do homem hoje dominante. à abstenção de expressar minhas convicções sobre tudo quanto toco de passagem. que conserva em ativa posse. Tive então a coragem de me opor a semelhante deslize. O único do que vai dito nestas páginas que me inspira algum orgulho. Hoje a coisa vai sendo clara e os Estados Unidos não enviam já ao velho continente senhoritas para .A rebelião das massas.o sentido histórico -. mas ainda parece uma de tantas. E isso é ser um povo de homens: poder hoje continuar no seu ontem sem por isso deixar de viver para o futuro. procedo partindo de seu aspecto externo. Praticamente deveríamos omitir o quase.porque não deixaram nunca de ser atuais os mais velhos e mágicos utensílios de sua história. mostrassem carecer dele completamente. inclusive os próprios economistas. que se antecipou a todos em quase todas as ordens. o lugar onde pretérito e futuro efetivamente existem. um só fator: a caracterização do homem médio que hoje se vai apoderando de tudo. ao método revolucionário o método da continuidade. na realidade. E. era. era-o e o é muito mais a América do Norte do que a América do Sul. poder existir no verdadeiro presente. O velho lugar comum de que a América é o porvir havia nublado por instantes sua perspicácia. A pele do tempo mudou. a hispânica. inventores do mais elevado que até agora se inventou . Daí por que sejam os primeiros capítulos os que mais caducaram. precisamente porque passou. Mais ainda: a apresentar freqüentemente as coisas em forma que se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. também contra o que se crê. a Inglaterra opôs."convencer-se de que na Europa não há nada interessante" (25). sobretudo.como me dizia uma naquela ocasião . Ainda gozam os luxos da inflação. com certa impertinência do mais puro dandysmo. Já começou a crise na Europa. a presenciar seu vetusto cerimonial e a ver como atuam . um remoto passado porque era primitivismo. E. continua existindo para ele. ao ler esses capítulos. sustentando que a América. mais uma vez. por assim dizer. é não haver incorrido no inconcebível erro de ótica que sofreram então quase todos os europeus. E eis aqui que este povo nos obriga. do problema total que e para o homem e especialmente para o homem europeu seu imediato porvir. retroceder aos anos 1926-1928. Violentando-me isolei neste quase-livro. Isto me obrigou a um duro ascetismo. Este povo circula por todo o seu tempo. a coroa e o cetro que entre nós regem apenas a sorte do baralho. Eu me envergonhava de que os europeus.htm (19 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . O leitor deveria. Porque não convém esquecer que então se pensava mui seriamente que os americanos haviam descoberto outra organização da vida que anulava para sempre as perpétuas pragas humanas que são as crises. é verdadeiramente senhor de seus séculos. O inglês faz empenho de nos fazer constar que seu passado. As pessoas ainda sentem-se em segurança. e depois penetro um pouco mais em direção a suas vísceras. porque lhe passou. o único que pode evitar na marcha das coisas humanas esse aspecto patológico que faz da história uma luta ilustre e perene entre os paralíticos e os epiléticos.

"massas". está aí. A vida pública não é só política. Para a inteligência do formidável fato convém que se evite dar. por definição. do "cheio". Qualquer que seja nossa atitude ante a civilização e a cultura. para bem ou para mal. etc. O FATO DAS AGLOMERAÇÕES (26) Há um fato que. cheias de banhistas. como um fator de primeira ordem com que se deve contar.não são para mim questões. às palavras "rebelião". cheios de consumidores. Como as massas. cheios de espectadores. e nos surpreenderá ver como dele brota um repuxo inesperado. cheios de viajantes. quer dizer-se que a Europa sofre agora a mais grave crise que a povos. desde já. um significado exclusivo ou primariamente político. As praias. 1937. ainda que não de analisar. Há fato mais simples. pois. cheios de transeuntes. As salas dos médicos famosos. JOSE ORTEGA Y GASSET. mais notório. sublinhando uma feição de nossa época que é visível com os olhos da cara. Os hotéis cheios de hóspedes. eu a denomino o fato da aglomeração. moral. Nada mais. e menos reger a sociedade. desde que não sejam muito extemporâneos. Oegstgeest-Holanda. era a pior para deixar ver minha opinião sobre estas coisas. Mas eu não devia complicar os assuntos. a anomalia representada pelo homem-massa. culturas. no final das contas. A verdade é que elas são precisamente o que ponho em questão quase desde meus primeiros estudos. começa a sê-lo quase de contínuo: encontrar lugar. senão um ensaio de serenidade em meio à tormenta. o leitor francês esperar mais deste volume. era a mais favorável para aclarar o tema exclusivo deste estudo. Basta assinalar uma questão. na vida atual? Vamos agora puncionar o corpo trivial desta observação. "poderio social". cheias de enfermos. PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I. Os espetáculos. Este fato é o advento das massas ao pleno poderio social. Sua fisionomia e suas conseqüências são conhecidas. Por isso urgia isolar cruamente seus sintomas. embora fundamental. "Het Witte Huis". religiosa. cabe padecer. é o mais importante na vida pública européia da hora presente. Os passeios. maio. Os cafés. não devem nem podem dirigir sua própria existência.htm (20 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Dir-se-ia que essas duas coisas . econômica. Simplicíssima de enunciar. Os trens. mais constante. Não deve.A rebelião das massas. nações. Também se conhece seu nome. As cidades estão cheias de gente. intelectual. Esta crise sobreveio mais de uma vez na história. Chama-se a rebelião das massas. As casas cheias de inquilinos. mas. ao mesmo tempo e ainda antes. Talvez a melhor maneira de aproximar-se a este fenômeno histórico consista em referir-nos a uma experiência visual. compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de vestir e o modo de gozar. onde a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que não é. O que antes não era problema. Medi o homem médio quanto a sua capacidade para continuar a civilização moderna e quanto a sua adesão à cultura.a civilização e a cultura .

distante. Então achamos a idéia de massa social. E evidente. Traduzamo-lo. não. a qual justifica. Repartidos pelo mundo em pequenos grupos. As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. reservados antes a grupos menores. no bairro da grande cidade. de modo de ser nos indivíduos que a integram. fica fora gente afanosa de usufruí-los. sem alterá-lo. não há dúvida. E do mesmo modo os assentos o vagão ferroviário e seus quartos o hotel. tornou-se visível. Deste modo se converte o que era meramente quantidade . por massas só nem principalmente "as massas operárias ". file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e agora transbordam. Mas o fato é que antes nenhum destes estabelecimentos e veículos costumavam estar cheios.numa determinação qualitativa: é a qualidade comum. aparecem sob a espécie de aglomeração. O conceito de multidão é quantitativo e visual. idéias. para que a sala esteja cheia. deste dia. Com efeito. na vila. maravilhar-se. ao contrário. portanto. e instalou-se nos lugares preferentes da sociedade. dissociada. E o esporte e o luxo específico do intelectual. de repente. no campo. precisamente nos lugares melhores. A multidão. o pássaro com os olhos sempre deslumbrados. divergente. é o homem enquanto não se diferencia de outros homens. em definitiva. Isso. Surpreender-se. é começar a entender. Dir-se-á que é o que acontece com todo grupo social. nossa surpresa. é a delícia vedada ao futebolista e que. Por toda a parte? Não. Por isso sua atitude gremial consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. entretanto.a multidão . A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. não se pode desconhecer que antes não acontecia e agora sim. Que ganhamos com esta conversão da quantidade para a qualidade? Muito simples: por meio desta compreendemos a gênese daquela. mas não como multidão. leva o intelectual pelo mundo em perpétua embriaguez de visionário. pois. até acaciano. Embora o fato seja lógico. do presente. como tal. que a formação normal de uma multidão implica a coincidência de desejos. talvez o seu. Por isso. ou solitários. portanto. Já não há protagonistas: só há coro. Cada qual . a minorias.htm (21 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e nossos olhos vêm por toda a parte multidões. Sim. mas que repete em si um tipo genérico. os antigos deram a Minerva a coruja. Seu atributo são os olhos em pasmo. branca luz do dia. uma inovação. antes não era freqüente. Não se entenda. nos surpreendemos de nossa surpresa. Aproximadamente. que houve uma mudança.A rebelião das massas. Massa é "o homem médio". agora adiantou-se até às gambiarras. A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e massas. Apenas refletimos um pouco. pelo visto. levavam uma vida. A aglomeração. se decompõe em todo o seu rico cromatismo interior. Agora. com a primeira nota importante. de repente. ocupava o fundo do cenário social. Depois da guerra pareceria natural que esse número fosse menor. Por que o é agora? Os componentes dessas multidões não surgiram do nada. ela é o personagem principal. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem abertas. Mas quê. Aqui topamos. natural. possuidora dos locais e utensílios criados pela civilização. na aldeia. o mesmo número de pessoas existia há quinze anos. Antes. se existia. ou cheio. passava inadvertida. Os indivíduos que integram estas multidões preexistiam. Que é o que vemos e ao vê-lo nos surpreende tanto? Vemos a multidão. criação realmente refinada da cultura humana. não é o ideal? O teatro tem suas localidades para que se ocupem. pelo menos no primeiro momento. à terminologia sociológica.indivíduo ou pequeno grupo ocupava o lugar. por seleto que pretenda ser. estranhar. é o mostrengo social.

e é. não é raro encontrar hoje entre os obreiros. Diante de uma só pessoa podemos saber se é massa ou não. Nos grupos que se caracterizam por não ser multidão e massa. e as que não exigem de si nada especial. adverte-se o progressivo triunfo dos pseudo-intelectuais inqualificados. Há casos em que esse caráter singularizador do grupo aparece a céu descoberto: os grupos ingleses que se chamam a si mesmos "não conformistas". A seu turno. mais frouxa e trivial. Imagine-se um homem humilde que ao tentar valorizar-se por razões especiais . a agrupação dos que concordam só em sua desconformidade a respeito da multidão ilimitada. secundário. isto é.A rebelião das massas. Assim. Para formar uma minoria. dentro de cada classe social há massa e minoria autêntica.adverte que não possui nenhuma qualidade excelente. uma divisão em classes sociais. Isto me lembra que o budismo ortodoxo se compõe de duas religiões distintas: uma. idéia ou ideal. A divisão da sociedade em massas ou minorias excelentes não é. na vida intelectual. mas que se sente "como todo o mundo". Quando se fala de "minorias seletas". mas em classes de homens. Massa é todo aquele que não se valoriza a si mesmo . Mas. E é indubitável que a divisão mais radical que cabe fazer na humanidade. mais rigorosa e difícil. mas o que exige mais de si que os demais. outra. ou Mahayana . que por sua própria essência requer e supõe a qualificação. a velhacaria habitual costuma tergiversar o sentido desta expressão. A rigor. sente-se à vontade ao sentir-se idêntico aos demais. bóias que vão à deriva. da massa e do vulgo. a rigor. mas há uma diferença essencial. O mesmo nos grupos sobreviventes da "nobreza" masculina e feminina. mas que para elas viver é ser em cada instante o que já são. diz graciosamente Mallarmé que aquele público salientava com a presença de sua escassez a ausência multitudinária. Sua coincidência com os outros que formam a minoria é. e não pode coincidir com a jerarquização em classes superiores e inferiores. é preciso que antes cada qual se separe da multidão por razões essenciais.e o Hinayana "pequeno veículo". que antes file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a um máximo de exigências ou a um mínimo. fingindo ignorar que o homem seleto não é o petulante que se supõe superior aos demais.no bem ou no mal . não se angustia. a massa pode definir-se. mas não se sentirá "massa". a coincidência efetiva de seus membros consiste em algum desejo. e mal dotado. como fato psicológico. portanto. sem esforço de perfeição em si mesmas. Como veremos. inqualificáveis e desclassificados por sua própria contextura. e. Este ingrediente de juntarem-se os menos precisamente para separar-se dos demais vai sempre misturado na formação de toda minoria. pois. quando chegam a sê-lo e enquanto o forem de verdade há mais verossimilitude em achar homens que adotam o "grande veículo". se sobressai em alguma ordem ."grande veículo" ou "grande carril" . relativamente individuais. seja qual seja. sem necessidade de esperar que apareçam os indivíduos em aglomeração. Este homem sentir-se-á medíocre e vulgar. O decisivo é se pomos nossa vida num ou no outro veículo.por razões especiais. "caminho menor". posterior a haver-se cada qual singularizado. é característico do tempo o predomínio. ainda nos grupos cuja tradição era seletiva. é esta em duas classes de criaturas: as que exigem muito de si e acumulam sobre si mesmas dificuldades e deveres. embora não consiga cumprir em sua pessoa essas exigências superiores. em boa parte uma coincidência em não coincidir. Claro está que nas superiores. que por si exclui o grande número. entretanto. Falando do reduzido público que ouvia um músico refinado.htm (22 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . enquanto as inferiores estão normalmente constituídas por indivíduos sem qualidade.ao perguntar de si para si se tem talento para isto ou para aquilo. portanto.

A rebelião das massas. mas o escritor. suplanta as minorias. qualificado e seleto. Ao amparo do princípio liberal e da norma jurídica podiam atuar e viver as minorias. a massa crê que tem direito a impor e dar vigor de lei a seus tópicos de café. mas que é uma maneira geral do tempo. O mesmo acontece nas demais ordens. as minorias dos políticos entendiam um pouco mais dos problemas públicos que ela. Ora bem: existem na sociedade operações. Como se diz na América do Norte: ser diferente é indecente. Por exemplo: certos prazeres de caráter artístico e luxuoso. Antes eram exercidas estas atividades especiais por minorias qualificadas . não podem ser bem executadas sem dotes também especiais.htm (23 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . tem o denodo de afirmar o direito de vulgaridade e o impõe por toda a parte. com todos os seus defeitos e vícios. mas.antecipando o que logo veremos -. Se os indivíduos que integram a massa se acreditassem especialmente dotados. Assim . que são. O mal é que esta decisão tomada pelas massas de assumir as atividades próprias das minorias. almas egregiamente disciplinadas. pelo menos. O característico do momento é que a alma vulgar. quem não pense como todo o mundo. eles nos aparecerão inequivocamente como núncios de uma mudança de atitude na massa. nem pode manifestar-se. Se agora retrocedermos aos fatos enunciados a princípio. Todos eles indicam que esta resolveu avançar para o primeiro plano social e ocupar os locais e usar os utensílios e gozar dos prazeres antes adstritos aos poucos. Por isso falo de hiperdemocracia. atividades. deplorará que as pessoas gozem hoje em maior medida e número que antes. conseqüentemente. ou bem as funções de governo e de juízo político sobre os assuntos públicos. A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. Talvez cometa eu um erro. ao tomar da pena para escrever sobre um tema que estudou intensamente. sem deixar de sê-lo. em pretensão -. pelo contrário. creio eu. eram sinônimos. por sua mesma natureza. corre o risco de ser eliminado. muito especialmente na intelectual. especiais. A massa presumia que. A massa não pretendia intervir nelas: percebia-se que se queria intervir teria congruentemente de adquirir esses dotes especiais e deixar de ser massa. podiam valer como o exemplo mais puro disto que chamamos "massa". Agora. E claro está que esse "todo o mundo" não é "todo o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa atua diretamente sem lei. Conhecia seu papel numa saudável dinâmica social. Eu duvido que tenha havido outras épocas da história em que a multidão chegasse a governar tão diretamente como em nosso tempo. A massa atropela tudo que é diferente. Ao servir a estes princípios o indivíduo obrigava-se a sustentar em si mesmo uma disciplina difícil. demonstrando aos olhos e com linguagem visível o fato novo: a massa. Democracia e Lei. individual. que. não é com o fim de aprender algo dele. É evidente que. egrégio. no final das contas.qualificadas. que nunca se ocupou do assunto. se o lê. Ninguém. já que têm para isso os apetites e os meios. deve pensar que o leitor médio. os locais não estavam premeditados para as multidões. não se manifesta. funções da ordem mais diversa. sabendo-se vulgar. Isso era o que antes acontecia. impondo suas aspirações e seus gostos. creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. por exemplo. por meio de pressões materiais. Quem não seja como todo o mundo. posto que sua dimensão seja muito reduzida e o povo transborde constantemente deles. por sua vez. para sentenciar sobre ele quando não coincide com as vulgaridades que este leitor tem na cabeça. mas não uma subversão sociológica. só na ordem dos prazeres. convivência legal. e. É falso interpretar as situações novas como se a massa se houvesse cansado da política e encarregasse a pessoas especiais seu exercício. Pelo contrário. teríamos não mais de um caso de erro pessoal. isso era a democracia liberal.

de verdadeiramente aristocrático só restava naqueles seres a graça digna com que sabiam receber em seu pescoço a visita da guilhotina. toda juventude e atualidade. mas muito mais que isso. ver por dentro o espetáculo. e deixa de sê-lo na medida em que se desaristocratize. mundo". foi preciso construir. por sua própria essência. muito justamente. Se temos de achar algo semelhante. Jamais. ficaria o leitor pensando. II. estrela de primeira grandeza no zodíaco da elegância madrilenha. que este fabuloso advento das massas à superfície da história não me inspirava outra coisa senão algumas palavras displicentes. em um elemento vital. o frontispício sob os quais se apresenta o fato tremendo quando é olhado desde o passado? Se eu deixasse aqui este assunto e estrangulasse meu presente ensaio. é o seu oposto: é a morte e a putrefação de uma magnífica aristocracia. com o bilhete na mão. normalmente. Por isso. de quem é notório que sustento uma interpretação da história radicalmente aristocrática (28) É radical. É. e chegar a sua hora de declinação. A época das massas é a época do colossal (27). especiais. mas nosso tema é agora outro de maiores proporções. Certamente que essa mesma "sociedade distinta" está de acordo com o tempo. em todo o seu desenvolvimento. do cheio. porque me disse: "Eu não tolero um file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Como tudo no mundo tem sua virtude e sua missão. aconteceu nada semelhante. "Todo o mundo" era. A ASCENSÃO DO NÍVEL HISTÓRICO Este é o fato formidável do nosso tempo.entende-se esse Versalhes dos trejeitos . queira ou não. que é só a fachada. a mim.não é aristocracia. um pouco de abominação e outro pouco de repugnância. Então se produz também o fenômeno da aglomeração. Não: a quem sinta a missão profunda das aristocracias. cada dia com mais enérgica convicção. ademais. Eu não teria inconveniente em falar sobre o sentido que possui essa vida elegante. mas externa. podemos alegremente ingressar no tema. Por isso. até o ponto de que é sociedade na medida em que seja aristocrática. teríamos de insinuar-nos no mundo antigo. descrito sem ocultar a brutalidade de sua aparência. do império das massas que absorvem e anulam as minorias dirigentes e se colocam em seu lugar. aceitavam-na como o tumor aceita o bisturi. A aristocracia social não se parece nada a esse grupo reduzidíssimo que pretende assumir para si íntegro o nome de "sociedade". que se chama a si mesmo "a sociedade" e que vive simplesmente de convidar-se ou de não convidar-se. Muito me fez meditar certa damazinha em flor.A rebelião das massas. já chamamos duas vezes "brutal" a este império. completamente diferente do nosso. Eu disse e continuo crendo. que a sociedade humana é aristocrática sempre. Bem entendido que falo da sociedade e não do Estado. já pagamos nosso tributo ao deus dos tópicos. também tem as suas dentro do vasto mundo este pequeno "mundo elegante". talvez exata. porque eu não disse nunca que a sociedade humana deva ser aristocrática. Perfeitamente. seja o aristocrático contentar-se com fazer um breve trejeito amaneirado. como um fidalgote de Versalhes. como se faz agora. a unidade complexa de massa e minorias discrepantes. A história do Império romano é também a história da subversão. Versalhes .htm (24 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Ninguém pode acreditar que diante deste fabuloso encrespamento da massa. em aparência tão sem sentido. desdenhosas. mas uma missão muito subalterna e incomparável com a faina hercúlea das autênticas aristocracias. o espetáculo da massa o incita e aviva como ao escultor a presença do mármore virgem. teríamos de pular fora de nossa história e submergir-nos em um orbe. como observou muito bem Spengler. de uma absoluta novidade na história de nossa civilização. agora. Agora todo o mundo é só a massa. Vivemos sob o brutal império das massas. edifícios enormes. Ou supunha-se que eu ia contentar-me com essa descrição.

Não obstante. segunda. continuava sentindo-se a si mesma como no antigo regime. Os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pelo mero fato de nascer. No nosso. primeiro. mas. de guilhotina ou de forca mas também com algo que quisera ser um arco triunfal! O fato de que necessitamos submeter a anatomia pode formular-se sob estas duas rubricas: primeira. não chegou à entranha do destino. ao mesmo tempo as massas tornaram-se indóceis diante das minorias. e sem necessidade de qualificação alguma. Isto foi. continuava vivendo. Todo outro direito imposto a dotes especiais ficava condenado como privilégio. certas minorias descobriram que todo indivíduo humano. cósmico sinal de interrogação. Analisemos a primeira rubrica. porque eram patrimônios de poucos. as técnicas jurídicas e sociais. que são atributos do ideal. Através desta frase vi que o estilo das massas triunfa hoje sobre toda a área da vida e se impõe ainda naqueles últimos rincões que pareciam reservados aos happy few. os chamados direitos do homem e do cidadão. efetivamente. Todo destino é dramático e trágico em sua profunda dimensão. estes direitos comuns a todos são os únicos existentes. pelo contrário. se volatilizam. A soberania do indivíduo não qualificado. não as seguem. A meu juízo. instalada sobre nosso tempo como um gigante. mas não acreditava nisso. ou um bem possível? Aí está. que são seu efeito sobre o homem. baile ao qual tenham sido convidadas menos de oitocentas pessoas". mas. não já nas legislações. inclusive quando esmaga e tritura as instituições onde aqueles direitos se sancionam. e que. a impô-la e reclamá-la: as minorias melhores. o "povo" sabia já que era soberano. quer dizer. Quero dizer com ela que as massas gozam dos prazeres e usam os utensílios inventados pelos grupos seletos e que antes só estes usufruíam. que são esquemas externos da vida pública. quaisquer que sejam as suas idéias. do indivíduo humano genérico e como tal. não lhes obedecem. vejam-se as Memórias da comtesse de Boigne. indomável e equívoca como todo destino. quem não entende esta curiosa situação das massas não pode compreender nada do que hoje começa a acontecer no mundo. as puseram de lado e as suplantam. com algo. não fez mais senão acariciar sua mórbida face. sob as legislações democráticas. a ser um estado psicológico constitutivo do homem médio. não os sentia em si. esses poucos começaram a usar praticamente dessa idéia. mas no coração de todo indivíduo. Um exemplo trivial: em 1820 não havia em Paris dez quartos de banho em casas particulares. Sentem apetites e necessidades que antes se qualificavam de refinamentos. beatamente. Mais ainda: as massas conhecem e empregam hoje. um puro teorema e idéia de uns poucos. O prestígio e a magia autorizante. possuía certos direitos políticos fundamentais. não os exercitava nem fazia valer senão de fato.A rebelião das massas. inexoravelmente deixa de ser ideal. passou. o qual tem sempre uma forma equívoca. com relativa suficiência. a rigor. Para onde nos leva? É um mal absoluto. O "povo" . em grande parte. No século XVIII. depois. com o que antes parecia reservado exclusivamente às minorias. Quem não tenha sentido na mão palpitar o perigo do tempo. o que é mais importante. muitas das técnicas que antes só os indivíduos especializados manejavam.segundo então era chamado -. que se ia entusiasmando com a idéia desses direitos como com um ideal. igualmente. E não apenas as técnicas materiais. de idéia ou ideal jurídico que era. Hoje aquele ideal converteu-se numa realidade. sem estremecer de espanto.htm (25 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . colossal. Repilo. não as respeitam. E note-se bem: quando algo que foi ideal se faz ingrediente da realidade. pois. durante todo o século XIX a massa. o ingrediente terrível é posto pela atropelante e violenta sublevação moral das massas. as massas exercitam hoje um repertório vital que coincide. imponente. inclusive quando as suas idéias são reacionárias. toda interpretação de nosso tempo que não descubra a significação positiva oculta sob o atual império das massas e das que o aceitam.

depois de dois file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. acontecia na América. O triunfo das massas e a conseguinte magnífica ascensão de nível vital aconteceu na Europa por razões internas. que a vida do homem médio está agora constituída pelo repertório vital que antes caracterizava só as minorias culminantes. como os meninos querem uma coisa. da América. Isso. os democratas. o nível médio se acha hoje onde antes só tocavam as aristocracias. tem muito de capitão. desorientados pelo parecido externo. que imponha decidido sua vontade. todo o mal do presente e do imediato porvir tem neste ascenso geral do nível histórico sua causa e sua raiz. diríamos. é um fato novo na história. banalizou-se a questão. Todo o bem. de aspirações de ideais. O soldado do dia. é na história o que é o nível do mar na geografia. o atribuíam a não se sabe que influxo da América na Europa. A galanteria tenta agora subornar-me para que eu diga aos homens de Ultramar que. praticamente desde sempre. Hoje os achamos residindo no homem médio.A rebelião das massas.depois de largas e subterrâneas preparações. que reclame todos os prazeres. em totalidade. Ora bem: o homem médio representa a área sobre que se move a história de cada época. em apetites de supostos inconscientes. Então não estranhe que atue por si. o tom e maneiras da vida européia em todas as ordens adquire de repente uma fisionomia que fez muitos dizer: "A Europa está se americanizando". na massa. o desembaraço com que qualquer indivíduo luta hoje pela existência. e. quer dizer-se lisa e lhanamente que o nível da história ascendeu de repente . que na Europa só os grupos preeminentes conseguiam adquirir. senhor de si mesmo e de sua vida? Já está conseguido. acreditavam que se tratava de uma leve mudança nos costumes. A Europa não se americanizou. eventualmente. na consciência de igualdade jurídica. Basta ver a energia. Esse estado psicológico de sentir-se amo e senhor de si e igual a qualquer outro indivíduo. ainda mais curiosa! Ao aparecer na Europa esse estado psicológico do homem médio. direitos niveladores da generosa inspiração democrática converteram-se. numa geração. Julgamos pois. Mas agora nos ocorre uma advertência impremeditada.htm (26 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Não recebeu ainda influxo grande da América. com efeito. Tanto um como outro. que componha sua indumentária: são alguns dos atributos perenes que acompanham a consciência de senhorio. que o nível médio da vida seja o das antigas minorias. a resolução. Com isso. Há aqui um cúmulo desesperante de idéias falsas que nos estorvam a visão tanto aos americanos como aos europeus. ao subir o nível de sua existência integral. mas não se produziram no próximo passado. o exército humano se compõe já de capitães. mas em sua manifestação. Mas não: a verdade entra agora em colisão com a galanteria. é o que desde o século XVIII. que se negue a toda servidão. de uma moda. de que o presente é broto. que cuide de sua pessoa e seus ócios. e deve triunfar. E nova coincidência. Pense o leitor. que é muito mais sutil e surpreendente e profunda. Se. impõe sua decisão. pois. a meu juízo. de um salto. A vida humana. de repente -. mas não suas conseqüências? Quer-se que o homem médio seja senhor. constitucional. que não continue dócil. a Europa se americanizou e que isto é devido a um influxo da América na Europa. agarra o prazer que passa. Por que se queixam os liberais. para ver clara minha intenção. Não era isto que se queria? Que o homem médio se sentisse amo. ascendeu. os progressistas de há 30 anos? Ou é que. iniciam-se agora mesmo. dono. Os que isto diziam não davam ao fenômeno importância maior. mas era o fato nativo. Ora bem: o sentido daqueles direitos não era outro senão tirar as almas humanas de sua interna servidão e proclamar dentro delas certa consciência de senhorio e dignidade.

da altitude média social e não das eminências. mas quanto à vitalidade. A imagem de cair. talvez minha afirmação pareça mais convincente e menos inverossímil.A rebelião das massas. que seria um refluxo. III. Com efeito: não o tempo abstrato da cronologia. Diz-se. de um influxo.htm (27 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . embainhada no vocábulo decadência. como a agricultura. por exemplo. tem sempre certa altitude. A intuição. e por isso. nesta nivelação não fez senão ganhar. Convém que nos detenhamos neste ponto. que antes lhe era um enigma e um mistério. a relação em que sua própria vida se encontra com a altura do tempo onde transcorre. pois. e que é uma frase cheia de sentido a que sem sentido sói repetir-se quando se fala da altura dos tempos. pois. pois. ou se mantém a par. o ímpeto de energia com que se faz tudo. nutre-se dos vales e não dos cumes. Dita de outro modo. nunca posta em dúvida. eleva-se ontem sobre hoje. que esta ou a outra coisa não é própria da altura dos tempos. Frase confusa e tosca. a saber: da vitalidade européia. nivela-se a cultura entre as diferentes classes sociais. Não se trata. como dizem que as orquídeas se criam sem raízes no ar. O que nos faz compreender que a vida pode ter altitudes diferentes. com maior ou menor claridade. mas o tempo vital. Mas a história. Dos Estados e da cultura européia diremos algum vocábulo mais adiante . e revela que a vida média se move hoje em altura superior à que ontem pisava. do que ouvimos tão amiúde sobre a decadência da Europa. Mas isso é que o resultado coincide com o traço mais decisivo da existência americana.e talvez a frase supradita valha para eles -. que contrastava com o nível inferior das minorias melhores da América comparadas com as européias. aconteceu que pela primeira vez o europeu entende a vida americana. de que a América era o porvir. pois. Há quem se sinta nos modos da existência atual como um náufrago que não consegue sair a flutuar. sempre aceita. Pois bem: também se nivelam os continentes. séculos de educação progressista das multidões e de um paralelo enriquecimento econômico da sociedade. Desde sempre se entrevia obscuramente pelos europeus que o nível médio da vida era mais alto na América que no velho continente. se diferenciam menos em tom vital de um ianque ou de um argentino que há trinta anos. que é todo ele chão. se dos Estados europeus. olhada deste lado. porque ele nos proporciona a maneira de fixar um dos caracteres mais surpreendentes de nossa época. A velocidade do tempo com que hoje marcham as coisas. que hoje um italiano médio. A ALTURA DOS TEMPOS O império das massas apresenta. pouco analítica. um aspecto favorável enquanto significa uma subida de todo o nível histórico. Do mesmo modo cada qual sente. a subversão das massas significa um fabuloso aumento de vitalidade e possibilidades. um espanhol médio. onde não se sabe bem de que se fala. deu origem à idéia. Compreender-se-á que idéia tão ampla e tão arraigada não podia vir do vento. E como o europeu se achava vitalmente mais baixo. e esta angústia mede o desnível entre a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o que cada geração chama "nosso tempo". E este é um dado que os americanos não devem esquecer. Portanto. Vivemos em tempo de nivelações: nivelam-se as fortunas. tudo ao contrário. procede desta intuição. um alemão médio. digo. mas do que menos se suspeita ainda: trata-se de uma nivelação. nivelam-se os sexos. O fundamento era aquela entrevisão de um nível mais elevado na vida média de Ultramar. mas evidente deste fato. que seria um pouco estranho. convém desde logo fazer constar que se trata de um erro crasso. da cultura européia ou do que está sob tudo isso e importa infinitamente mais que tudo isto. angustiam o homem de têmpera arcaica. ou cai por baixo. porque coincide a situação moral do homem médio europeu com a do americano.

mas antes.) Aetas parentum peior avis tulit nos nequiores.A rebelião das massas. Há trinta anos. incapaz de encher por completo o canal das veias. a Alcheringa. dizemos os educados por Grécia e Roma. A impressão que Jorge Manrique declara tem sido certamente a mais geral. Qual é essa relação? Fora errôneo supor que sempre o homem de uma época sente as passadas. definitiva: tempos em que se crê haver chegado ao término de uma viagem. acreditava o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mox daturos progeniem vitiosorem. É curioso recordar que a mesma frase aparece empregada por Trajano na sua famosa carta a Plínio. cresce progressivamente no Império Romano. que há neste mais calorias que nele mesmo. dizendo que era imprópria da plenitude dos tempos. pois.htm (28 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . como um grau de temperatura. de existência mais plenária: a "idade de ouro". dizem os selvagens australianos. e foi necessário alugar para este ofício dálmatas. as mulheres tornaram-se estéreis e a Itália se despovoou. Houve. nos engendraram ainda mais depravados. 6. altura do seu pulso e a altura da época. ficar debaixo deles. Quando há não mais de trinta anos os políticos peroravam ante as multidões. Dois séculos mais tarde não havia em todo o Império bastantes itálicos medianamente valorosos com os quais preencher as praças de centuriões. (Odes. o mais habitual tem sido que os homens suponham em um vago pretérito tempos melhores. Por outra parte. quem vive com plenitude e a gosto as formas do presente. É a "plenitude dos tempos". decaído. se tivesse consciência. Já Horácio havia cantado: "Nossos pais. Ao olhar para trás e imaginar esses séculos mais valiosos. soíam rechaçar esta ou outra medida de governo. À maior parte das épocas não lhes pareceu seu tempo mais elevado que outras idades antigas. ao parecer de Jorge Manrique. ao recomendar-lhe que não se perseguissem os cristãos em virtude de denúncias anônimas: Nec nostri saeculi est. de diminuição. Bastaria recordar que. Cada idade histórica manifesta uma sensação diferente ante esse estranho fenômeno da altura vital. nem todas se supuseram superiores a quantas foram e recordam. e nós daremos uma progênie todavia mais incapaz". mas. Livro III. pelo menos se se toma grosso modo. mais perfeito e difícil que a vida de seu tempo. Mas isso tampouco é verdade. simplesmente porque passadas. e me surpreende que não tenham reparado nunca pensadores e historiógrafos em fato tão evidente e substancioso. sentiria que não contém em si o grau superior. Trata-se de um fenômeno muito curioso que nos importa muito definir. ao contrário. em que se cumpre um afã antigo e plenifica uma esperança. Por esta razão respeitavam o passado. Vejamos agora outra classe de épocas que gozam de uma impressão vital ao parecer a mais oposta a essa. e depois. parecia-lhes não dominá-los. tal ou qual desmando. Qualquer tempo passado foi melhor. de decair e perder pulso. como mais baixas de nível que a sua. a completa madureza da vida histórica. com efeito. Desde cento e cinqüenta anos depois de Cristo esta impressão de encolhimento vital. bárbaros do Danúbio e do Reno. Nem todas as idades se sentiram inferiores a algumas do passado. os tempos "clássicos ". Enquanto isso. várias épocas na história que se sentiram como chegadas a uma altura plena. Ao contrário. Isso revela que esses homens sentiam o pulso de sua própria vida mais ou menos falto de plenitude. piores que nossos avós. mais rico. tem consciência da relação entre a altura de nosso tempo e a altura das diversas idades pretéritas. cuja existência se lhes apresentava como algo mais amplo.

e que no século XIX parece finalmente realizar-se. estão mortos por dentro. com efeito. quer dizer. Mas um velho afeiçoado à história. com efeito. em sua raiz mesma encontra obscuramente a intuição de que não há tempos definitivos. empedernido tomador de pulso de tempos. profundo. de contraste penoso entre uma civilização clara e a realidade que não lhe corresponde. Não se esqueça disto: nosso tempo é um tempo que vem depois de um tempo de plenitude. O desejo tão lentamente gestado.htm (29 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . diante do qual todos os demais são puros pretéritos. às vezes. Daí que. a esse próximo plenário passado. ao cume do tempo! Ao "ainda não" sucedeu o "por fim". Daí o dado surpreendente de que essas etapas de chamada plenitude tenham sentido sempre no sedimento de si mesmas uma peculiaríssima tristeza. seguros. Por fim chega um dia em que esse velho desejo. sobre os quais vai montada esta hora bem granosa. seu ideal. à meta antecipada. que a famosa plenitude é em realidade uma conclusão. europeu que a vida humana havia chegado a ser o que devia ser. Já o nome é inquietante: que um tempo se chame a si mesmo "moderno". às vezes milenário. Os tempos de plenitude se sentem sempre como resultante de muitas outras idades preparatórias. Isto é. é que já não deseja nada mais. como no século XIX. esses tempos plenos são também satisfeitos de si mesmos. quem continua adscrito à outra margem. o que desde muitas gerações se vinha anelando que fosse. na chegada. E ao sentir assim percebemos uma deliciosa impressão de nos havermos evadido de um recinto estreito e hermético.o chamado "cultura moderna" . parece-nos uma obcecação e estreiteza inverossímeis do campo visual. que se lhe secou a fonte do desejar. de outros tempos sem plenitude. A fé na cultura moderna era triste: era saber que amanhã ia ser file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o qual se vinha arrastando aneloso e querulante durante séculos.A rebelião das massas. de transpor? Nosso tempo. ao contrário. onde tudo. de ardentes precursores. a realidade o recolhe e lhe obedece. Mas agora compreendemos que esses séculos tão satisfeitos. definitivo.fosse definitivo. último. como morre o zângão afortunado depois do vôo nupcial (30). arquisatisfeitos (29). E. inferiores ao próprio. parece cumprir-se. A autêntica plenitude vital não consiste na satisfação. de "ainda não". não se pode deixar alucinar por essa ótica da suposta plenitude. sofrerá o espelhismo de sentir a idade presente como um cair desde a plenitude. mas que pelo contrário essa pretensão de que um tempo de vida . e sair de novo sob as estrelas ao mundo autêntico. aqueles períodos preparatórios aparecem como se neles se houvessem vivido de puro afã e ilusão não lograda. Há séculos que por não saber renovar seus desejos morre de satisfação. para sempre cristalizados. Assim vê a Idade Média o século XIX. imprevisível e inesgotável. se denominou a si mesmo "cultura moderna". de haver escapado. Já dizia Cervantes que "o caminho é sempre melhor que a pousada". é o que. Chegamos à altura entrevista. na posse. Um tempo que satisfez seu desejo. tão fruídos. irremediavelmente. como uma decadência. o essencial para que exista "plenitude dos tempos" é que um desejo antigo. Esta era a sensação que de sua própria vida tinham os nossos pais e toda a sua centúria. Vistos de sua altura. Segundo eu disse. Não se sonda já aqui a diferença essencial entre nosso tempo e esse que acaba de preterir. terrível. por fim um dia fica satisfeito. resumindo. tudo é possível: o melhor e o pior. e o olhe todo sob sua ótica. modestas preparações e aspirações para ele! Setas sem brio que erram o alvo! (31). o que teria já que ser sempre. não se sente já definitivo. tempos de só desejo insatisfeito.

E é que. a rigor. Nos salões do último século chegava indefectivelmente uma hora em que as damas e seus poetas amestrados faziam entre si esta pergunta: Em que época quisera você haver vivido? E eis aqui que cada um. é a vida autêntica. que a realidade histórica é. única até agora na história conhecida. embora olhada por dentro de si mesma. não natural. Diante dos diagnósticos de decadência eu recomendo o seguinte raciocínio: A decadência é. sua outra metade. Quando nos começos do Império algum fino provinciano chegava a Roma . com efeito. fecunda a fera. símbolo de poder definitivo. que se levanta delas como a evaporação das águas mortas. sobre cujos ombros acreditava estar. não deixam de ser parciais. ao qual falta. mas. o provinciano sensível percebia uma melancolia não menos penosa. esse século XIX ficava. contemplá-la de dentro e ver se ela se sente a si mesma decaída. o mundo está em decadência porque já não se fuma apenas com boquilhas de âmbar. olham da história só a política ou a cultura. debilitada e insípida. Outro dia veremos algumas. por exemplo. mas sim irmã da que inquieta o mar. Trata-se de um erro ótico que provém de múltiplas causas.Lucano. antes que isso e mais fundo que isso. Pois acontece que precisamente o nosso goza neste ponto de uma sensação estranhíssima. E se há uma melancolia das ruínas. sentia contrair-se seu coração. Já nada novo podia haver no mundo. se alarga sem nos libertar. um conceito comparativo. e não advertem que tudo isso é só a superfície da história. Mas. ou Sêneca . ser um horizonte sempre aberto a toda possibilidade. portanto.htm (30 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . via-se. e isso secretamente nos regozija. não a mesma. se dedicava a vagar imaginavelmente pelas vias históricas em busca de um tempo onde encaixar a gosto o perfil de sua existência. Decai-se de um estado superior para um estado inferior. é certo. porque isso. põe flor na árvore. Para um fabricante de boquilhas de âmbar. com efeito. Toda a minha excursão sobre o problema da altitude dos tempos perseguia esta conclusão. Não há mais que um ponto de vista justificado e natural: instalar-se nessa vida. arbitrários e externos à própria vida cujos quilates se trata precisamente de avaliar. um puro afã de viver. ainda que de signo inverso: a melancolia dos edifícios eternos. é a verdadeira plenitude da vida. que eu saiba. com o queixume de decadência que choraminga nas páginas de tantos contemporâneos. como se conhece que uma vida se sente ou não decair? Para mim não cabe dúvida a respeito do sintoma decisivo: uma vida que não prefere outra nenhuma de antes. não pode em nenhum sentido sério chamar-se decadente. isto é. fiéis a uma ideologia. que o progresso consistia só em avançar com todos os sempres sobre um caminho idêntico ao que já estava sob nossos pés. Roma era eterna.e via as majestosas construções imperiais. uma potência parecida às cósmicas. Um caminho assim é a bem dizer uma prisão que. portanto. minguada. Diante desse estado emotivo. embora sentindo-se. em minha opinião perigosa. ligado ao passado. faz tremeluzir a estrela. Daí que ainda acreditasse em épocas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas hoje quero antecipar a mais óbvia: provém de que. Contrasta este diagnóstico. elástica. de nenhum antes. que se prefere a si mesma. Ora bem: essa comparação pode fazer-se desde os pontos de vista mais diferentes e vários que caiba imaginar. não é evidente que a sensação de nossa época se parece mais à alegria e alvoroço de meninos que escaparam da escola? Agora já não sabemos o que vai haver amanhã no mundo. ou por sentir-se em plenitude.A rebelião das massas. em todo o essencial igual a hoje. ser imprevisível. como a culminação do passado. Outros pontos de vista serão mais respeitáveis que este. encarnando a figura de sua própria vida. claro está.

Isto é. as pautas não nos servem. olham o passado que neles se cumpre. O resto do espírito tradicional evaporou-se. não obstante. a altura de nosso tempo? Não é plenitude dos tempos. Este fato é quase grotesco e incrível em sua simples evidência. que não reconhece em nada pretérito possível modelo ou norma. perdeu todo o respeito. sem excluir nenhum. a vida. Sentimos que de repente ficamos sós sobre a terra os homens atuais. que o passado íntegro ficou pequeno para a humanidade atual. E o que acontece sempre que chega o meio-dia (32) Qual é. levam a cara voltada para trás. tal situação na forma seguinte: "Esta grave dissociação de pretérito e presente é o fato geral de nossa época e nela vai incluída a suspeita. toda a atenção ao passado. em pleno atualismo . mas completamente. e ao mesmo tempo sente-se como um começo. uma infância.sejam de arte. Temos de resolver nossos problemas sem colaboração ativa do passado. uma alvorada. Isto bastaria para nos fazer suspeitar dos tempos de plenitude. Como poderá sentir-se decadente? Pelo contrário: o que aconteceu é que. provincial. parece. simplesmente. as normas. um começo. IV. Eu resumia. Há pouco mais de um ano. e entretanto. que cada indivíduo vive habitualmente todo o mundo. que o homem do presente sente que sua vida é mais vida que todas as antigas.o século de Péricles. que engendra a inquietude peculiar da vida nestes anos. A vida mundializou-se efetivamente. não são por sua vez mais que sintoma de um fato mais completo e geral. em resumo. a altitude do tempo que ele anuncia.A rebelião das massas. cresceu. de mau gosto. Os modelos. Fortíssima e ao mesmo tempo insegura de seu destino. uma iniciação. lhe daria a impressão de um recinto angustioso onde não podia respirar. sente-se sobre todos os tempos sidos e por cima de todas as conhecidas plenitudes. e com ele e nele. que já não nos podem ajudar. quero dizer que o conteúdo da vida no homem de tipo médio é hoje todo o planeta. É. Pois bem: que diria sinceramente qualquer homem representativo do presente a quem se fizesse uma pergunta parecida? Eu creio que não é duvidoso: qualquer passado. e sobrevinda ao cabo de tantos séculos sem descontinuidade de evolução. onde se haviam preparado os valores vigentes. sem mortos viventes perto de si. de tanto sentir-se mais vida. Daí que pela primeira vez nos encontremos com uma época que faz tábua rasa de todo classicismo. entretanto. que o mundo. Não é fácil formular a impressão que de si mesma tem nossa época: crê ser mais que as demais. de repente. O europeu está só. que os mortos não morreram de brincadeira. mais ou menos confusa. Olhamos para trás e o famoso Renascimento nos parece um tempo angustiosíssimo. Nossa vida sente-se. de atitudes vãs . sem estar segura de não ser agonia. O CRESCIMENTO DA VIDA O império das massas e o ascenso de nível. de ciência ou de política -. como Pedro Schlehmil. Esta intuição de nossa vida de hoje anula com sua claridade elemental toda lucubração sobre decadência que não seja muito cautelosa. ou dito às avessas. os sevilhanos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o Renascimento -. há tempos. de maior tamanho que todas as vidas. Orgulhosa de suas forças e ao mesmo tempo temendo-as. Que expressão escolheremos? Talvez esta: mais que os demais tempos e inferior a si mesma.por que não dizê-lo? -. relativamente clássicas .htm (31 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . perdeu sua sombra.

e compare-se o repertório de coisas em venda que se oferece a um e a outro. O jornal ilustrado e o cinema trouxeram estes remotíssimos pedaços de mundo à visão imediata do vulgo. o que estava acontecendo com uns homens junto ao Pólo.é algo que se pode desejar. com fortuna proporcionalmente igual. que me parece essencialíssimo: nossa vida é em todo instante e antes que nada consciência do que nos é possível. Seria apenas pura necessidade. mas serve para anular aqueles. mas para muitos efeitos vitais atua nos demais pontos do planeta. gozar de mais idas e mais vindas. quero dizer. podemos estar em mais lugares que antes. reconheceremos hoje a qualquer ponto do globo a mais efetiva ubiqüidade. o crescimento substantivo do mundo não consiste em suas maiores dimensões. O fato é falso. e vice-versa: não é possível que um homem imagine e deseje quanto se acha à venda. Dir-me-ão que. O espaço e o tempo físicos são o absolutamente estúpido do universo. A pré-história e a arqueologia descobriram âmbitos históricos de longitude quimérica. vivificamo-los. Tome-se qualquer uma de nossas atividades. A diferença é quase fabulosa. um do presente e outro do século XVIII. Quando se fala de nossa vida sói esquecer-se disto. em seu modo "comprar". o homem de hoje não poderá comprar mais coisas que o do século XVIII. Por isso é mais justificado do que sói crer-se o culto à velocidade que transitoriamente exercitam nossos contemporâneos. em seus jornais populares. Hoje podem comprar-se muitas mais. Segundo o princípio físico de que as coisas estão ali onde atuam. e a eleição começa por perceber as possibilidades que oferece o mercado. Ao anulá-los. Cada coisa . hora a hora. proporcionalmente ao valor do dinheiro em ambas as épocas. que sobre o fundo ardente da campina bética passavam blocos de gelo à deriva. encontrar. comprar. nomes todos que significam atividades vitais. pelo contrário. Uma estupidez não se pode dominar a não ser com outra. careceria de sentido chamá-la assim. desfazer. em definitivo. Não é fácil imaginar com o desejo um objeto que não exista no mercado. aumentou em proporção fabulosa o horizonte de cada vida. consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra como tais. mas em que inclua mais coisas. tornamos possível ser o aproveitamento vital. sublinharia mais o que tento dizer. Era para o homem questão de honra triunfar no espaço e no tempo cósmicos (33). mas é também antes uma eleição. Imaginem-se dois homens. porque a indústria barateou quase todos os artigos. e não há razão para estranhar de que nos produza um pueril prazer fazer funcionar a vazia velocidade. De onde resulta que a vida. foram anexados a nossa memória como novos continentes. gozar ou repelir. Mas.htm (32 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . com a qual matamos espaço e jugulamos tempo. esta presença do ausente. Se em cada momento não tivéssemos à nossa frente mais que uma só possibilidade. que carecem por completo de sentido. acompanhavam.A rebelião das massas. consumir em menos tempo vital mais tempo cósmico. que possuam fortuna igual. A quantidade de possibilidades que se abrem ante o comprador atual chega a ser praticamente ilimitada. A atividade de comprar conclui em decidir-se por um objeto.tome-se a palavra em seu mais amplo sentido . fazer. Mas este aumento espácio-temporal do mundo não significaria por si nada. por exemplo. Civilizações inteiras e impérios dos quais nem o nome se suspeitava. tentar. Esta proximidade do longínquo. Mas finalmente não me importaria que o fato fosse certo. E o mundo cresceu também temporalmente. A velocidade feita de espaço e tempo não é menos estúpida que seus ingredientes. Mas ai está: esse estranhíssimo fato de nossa vida possui a condição radical de que sempre encontra ante si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Cada pedaço de terra não está já recluído em seu lugar geométrico.

Em um par de lustros tão somente. A física de Einstein move-se em espaços tão vastos. Mas agora importa-me só fazer notar como cresceu a vida do homem na dimensão de potencialidade. de uma maneira fantástica. que a antiga física de Newton ocupa neles apenas um sótão (36) E este crescimento extensivo se deve a um crescimento intensivo na precisão científica. pois. mais dados. caçador. mas apenas de seu crescimento. O átomo. para o homem de vida média que habita as urbes . uma coisa tão pequena. Conta com um âmbito de possibilidade fabulosamente maior que nunca.A rebelião das massas. as possibilidades de gozar aumentaram. Nos prazeres acontece coisa parecida. O mundo ou nossa vida possível é sempre mais que nosso destino ou vida efetiva. mago -. Na ordem intelectual encontra mais caminho de possível ideação. mas advertir a impressão de que o organismo humano possui em nosso tempo capacidades superiores às que nunca teve. dentro dele. e nós. esta ampliou e inverossimilmente seu horizonte cósmico. mas ao crescimento das potências subjetivas que tudo isso supõe. Aumentou também em um sentido mais imediato e misterioso. Daí que nos parece o mundo uma coisa tão enorme. Não é. Porque este é o sentido originário da idéia (mundo). que por serem várias adquirem o caráter de possibilidades entre as quais havemos de decidir (34).htm (33 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Porque coisa similar acontece na ciência. Não ressalto que a física de Einstein seja mais exata que a de Newton. seu tom vital que consiste em sentir-se com maior potencialidade que nunca e parecer-lhe todo o pretérito afetado de pequenez. mais pontos de vista. Não basta admirar cada uma delas e reconhecer o record que batem. Como o cinematógrafo e a ilustração põem ante os olhos do homem médio os lugares mais remotos do planeta.isso não me interessa agora -.não é seu elenco tão exuberante como nos demais aspectos da vida. Mas o crescimento da potencialidade vital não se reduz ao dito até aqui. Representa o que podemos ser. guerreiro. mas que o homem Einstein seja capaz de maior exatidão e liberdade de espírito (37) que o homem Newton. Enquanto os ofícios ou carreiras na vida primitiva se numeram quase com os dedos de u'a mão . algo à parte e alheio a nossa vida. A física de Einstein está feita atendendo às mínimas diferenças que antes se desprezavam e não entravam em conta por parecer sem importância. E em tudo isto não me refiro ao que possa significar como perfeição da cultura . Entretanto. Não falei da atualidade da vida presente. A este âmbito costuma chamar-se "as circunstâncias". várias saídas. Tanto vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos em um ambiente de possibilidades determinadas.e o fenômeno tem mais gravidade do que se supõe . chegamos a ser só uma parte mínima do que podemos ser. se bem . ou. Toda vida é achar-se dentro da "circunstância" ou mundo (35). do mesmo modo que o campeão de boxe dá hoje murros de maior calibre que jamais se deram. o programa de misteres possíveis hoje é superlativamente grande. enfim.e as urbes são a representação da existência atual -. mais ciências. Creio com isso descrever rigorosamente a consciência do homem atual. Esta tem de se concretizar para realizar-se. nossa potencialidade vital. mas que é sua autêntica periferia. Mundo é o repertório de nossas possibilidades vitais. os jornais e as conversações lhe fazem chegar a notícia destas performances intelectuais que os aparelhos técnicos recém-inventados confirmam desde as vitrinas. portanto. mais problemas. limite ontem do mundo. É um fato constante e notório que no esforço físico e esportivo se cumpram hoje performances que superam enormemente quantas se conhecem do passado. de seu avanço quantitativo ou potencial. Tudo isso decanta em sua mente a impressão de fabulosa prepotência. no que vai de século.pastor. dito de outra maneira. Não quero dizer com o dito que a vida humana seja hoje melhor que em outros tempos. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. hoje inchou até se converter em todo um sistema planetário.

Domina todas as coisas. Com mais meios. Porque esse é precisamente seu problema. o uso. de antigas e deslumbrantes idades de ouro. E concluía eu fazendo notar o fato evidentíssimo de que nosso tempo se caracteriza por uma estranha presunção de ser mais que todo o tempo passado. Sente-se perdido em sua própria abundância. Mas a verdade é estritamente o contrário: vivemos em um tempo que se sente fabulosamente capaz para realizar. Isto nos leva a falar da "plenitude" que sentiram alguns séculos diante de outros que. mais saber. Só há uma decadência absoluta: a que consiste numa vitalidade minguante. Muitas coisas pareciam já impossíveis ao século XIX. mas não é dono de si mesmo. Por esta razão me detive a considerar um fenômeno que sói desatender-se: a consciência ou sensação que toda época tem de sua altitude vital. mais técnicas que nunca. A segurança das épocas de plenitude - file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o mundo atual vai como o mais infeliz que tenha havido: puramente ao acaso. para poder ouvir a secreta germinação do futuro. recusamos tomar essa pulsação pavorosa que faz de cada instante sincero um miúdo coração transeunte.htm (34 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Não está mal esse ademane. o tópico . Duvido que sem se afiançar bem nesta advertência se possa entender o nosso tempo. Porque são estas decadências diminuições parciais. e esta só existe quando se sente. Acontece-lhe como se dizia do Regente durante a infância de Luiz XV .É. firme em sua fé progressista. A atitude que a ordenança romana impunha à sentinela da legião era manter o indicador sobre os lábios para evitar a sonolência e manter-se atenta. benéfico que pela primeira vez depois de quase três séculos nos surpreendamos com a consciência de não saber o que vai acontecer amanhã. com a inquietude a um tempo dolorosa e deliciosa que vai encerrada em cada minuto se sabemos vivê-lo até o seu centro. esforçando-nos por ganhar segurança e insensibilizar-nos para o dramatismo radical do nosso destino.A rebelião das massas. e que me parece tão simples como evidente. a barbárie.que tinha todos os talentos. pois. pressentimos que é possível o pior: o retrocesso. sobre decadência ocidental que pulularam no ar do último decênio. que parece imperar um maior silêncio ao silêncio noturno. veria outras épocas como superiores a ele e isto seria uma e mesma coisa com estimá-las e admirá-las e venerar os princípios que as informaram. Era necessária esta descrição para obviar as lucubrações sobre decadência. ainda que fosse incapaz de realizá-los. vertendo sobre ele o costume. sentirá certo gênero de insegurança que o incita a permanecer alerta. mais ainda: por desentender-se de todo pretérito. Bastaria isso para falar da decadência ocidental? De modo algum. inversamente. menos o talento para usar deles. relativas a elementos secundários da história . Hoje. Se se sentisse decaído. se viam a si mesmos como decaídos de maiores alturas.todos os clorofórmios . e. senão ver-se a si mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a elas. Daí essa estranha dualidade de prepotência e insegurança que se aninha na alma contemporânea. a decadência (38). Nosso tempo teria ideais claros e firmes.cultura e nações -. Geralmente. Recorde-se o raciocínio que eu fazia. Refere-se o pessimista vocábulo à cultura? Há uma decadência da cultura européia? Há somente uma decadência das organizações nacionais européias? Suponhamos que sim.. não reconhecer épocas clássicas e normativas. de tanto nos parecer tudo possível. Todo aquele que se coloque ante a existência numa atitude séria e se faça dela plenamente responsável. até sua pequena víscera palpitante e cruenta. em espécie. mas que não sabe o que realizar. Por si mesmo não seria isto um mau sintoma: significaria que voltamos a tomar contato com a insegurança essencial a todo viver. Não vale falar de decadência sem precisar que é o que decai.

e por isso mesmo. É. vida possível. de nossa vida atual. pois.é uma ilusão ótica que leva a despreocupar-se do porvir. Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade. Também nela há.consiste em todo o contrário. normas e ideais legados pela tradição. antecipações e ideais. Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. antes de tudo. É mais vida que todas as vidas. certo de que já o mundo irá em linha reta.o mundo é sempre este. Vai enunciada a primeira parte dele. um horizonte de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.é o que de nossa vida nos é dado e imposto. supõem que o desejado por eles como futuro ótimo se realizará. superior a todas as historicamente conhecidas. sempre novo. convém que nos deslizemos por sua outra ladeira. assim na última centúria . o que podemos ser. Em vez de impor-nos uma trajetória. UM DADO ESTATÍSTICO Este ensaio quisera vislumbrar o diagnóstico de nosso tempo. e por isso mesmo mais problemática. com necessidade parelha à astronômica. mais perigosa. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo . é magnífica. A vida não elege seu mundo. perderam a agilidade e a eficácia. cuja trajetória está absolutamente predeterminada. que é. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir. retrai sua inquietude do porvir e se instala num definitivo presente. Ninguém se preocupou de preveni-los.htm (35 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema. a vida se lhes escapou dentre as mãos. V. Sob sua máscara de generoso futurismo. em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. a eleger. Mas assim como seu formato é maior. fez-se por completo insubmissa. impõe-nos várias e. Mas quem decide é o nosso caráter. consequentemente. O mesmo que o liberalismo progressista é o socialismo de Marx. imediatamente. Não pode orientar-se no pretérito (39). Tal tem sido a deserção das minorias dirigentes. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão. é também. sem rumo conhecido. Tem de inventar seu próprio destino. Isso constitui o que chamamos o mundo. falso dizer que na vida "decidem as circunstâncias ". A circunstância . ante o qual temos de nos decidir. princípios. convencido de que não tem surpresa nem segredos. exuberante. decidimos não decidir. Mas já é tempo de que voltemos a falar desta. inexoravelmente. a decidir o que vamos ser neste mundo. deixaram de estar alerta. Tudo isto vale também para a vida coletiva.A rebelião das massas. como repertório de possibilidades. peripécias nem inovações essenciais. o progressista não se preocupa do futuro. encarregando de sua direção a mecânica do universo. e hoje anda solta. sem desvios nem retrocessos. Depois de haver insistido na vertente favorável que apresenta o triunfo das massas. Não poderá estranhar que hoje o mundo pareça vazio de projetos. este de agora . que pode resumir-se assim: nossa vida.as possibilidades .. mas viver é encontrar-se. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. Protegidos ante sua própria consciência por essa idéia. primeiro. Mas agora é preciso completar o diagnóstico. Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. Assim. que se acha sempre ao reverso da rebelião das massas. transbordou todos os caminhos. nos força. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil. soltaram o leme da história.. A vida.

uma resolução que elege e decide o modo efetivo da existência coletiva. Em três gerações produziram gigantescamente massa humana que.portanto. O homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e caminha ao acaso. nos perguntamos: de onde vieram todas estas multidões que agora enchem e transbordam o cenário histórico? Há alguns anos destacava o grande economista Werner Sombart um dado simplicíssimo.são os países mediterrâneos -. o que é o mesmo. ainda à custa de acumular com seu emprego maiores conflitos sobre a hora próxima. Por outra parte.A rebelião das massas.htm (36 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . pela urgência do presente. Não se diga que isto era o que acontecia já na época da democracia. a população européia ascende de 180 a 460 milhões! Presumo que o contraste destas cifras não deixa lugar a dúvidas a respeito dos dotes prolíficos da última centúria. Mas ao mesmo tempo nos mostra esse dado que é infundada a admiração com que ressaltamos o crescimento de países novos como os Estados Unidos da América. deve ser acrescido como o somando mais concreto ao crescimento da vida como antes fiz constar. Daí que sua atuação se reduza a evitar o conflito de cada hora. sejam enormes. Em nosso tempo. Estas apresentavam seus "programas" . possibilidades. e se não basta. com efeito. não alude para nada ao futuro. empregando os meios que sejam. em toda a longitude de doze séculos -. Quando esse poder público tenta justificar-se. vive ao dia. domina o homem-massa. que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E este tipo de homem decide em nosso tempo. que é estranho não conste em toda cabeça que se preocupe dos assuntos contemporâneos. é ele quem decide. não aparece como começo de algo cujo desenvolvimento ou evolução seja imaginável. em pouco mais de um século. Em suma. No sufrágio universal não decidem as massas. seus poderes. Hoje acontece uma coisa muito diferente. o Governo. a inundou. Estas são tão poderosas. fecha-se no presente e diz com perfeita sinceridade: "Sou um modo anormal de governo que é imposto pelas circunstâncias". ainda que suas possibilidades. Assim tem sido sempre o Poder público quando o exerceram diretamente as massas: onipotente e efêmero.excelente vocábulo -. Os programas eram. O Poder público acha-se em mãos de um representante de massas. trajetória antecipada. Neles convidava-se a massa a aceitar um projeto de decisão. a Europa não consegue chegar a outra cifra de povoação senão a de 180 milhões de habitantes. entretanto. E. não tem caminho prefixado. não vai. Pois bem: de 1800 a 1914 . que seria difícil encontrar na história situações de governo tão prepotentes como estas. O dado é o seguinte: desde que no século VI começa a história européia até o ano 1800 portanto. este dado para compreender o triunfo das massas e quanto nele se reflete e se anuncia. depois. que aniquilaram toda possível oposição. A chave para esta análise encontra-se quando. Quer dizer. Este simplicíssimo dado basta por si só para esclarecer nossa visão da Europa atual. repito. Se se observa a vida pública dos países onde o triunfo das massas avançou mais . do sufrágio universal. sem projeto. não significa um anúncio claro de futuro. Maravilha-nos seu crescimento. São donas do Poder público em forma tão incontrastável e superlativa. Por isso não constrói nada. senão. mas a escapar dele imediatamente. programas de vida coletiva. Convém. do tipo de homem dominante nela. surpreende notar que neles se vive politicamente ao dia. não se apresenta como um porvir franco. pelo contrário. pois. o Poder público. a rigor. que analisemos seu caráter. e. lançada como uma torrente sobre a área histórica. Esta resolução emana do caráter que a sociedade tenha. O fenômeno é sobremaneira estranho. retrocedendo ao começo deste ensaio. põe na pista de todo esclarecimento. Não sabe aonde vai porque. vive sem programa de vida. senão que seu papel consistiu em aderir à decisão de uma ou outra minoria. não a resolvê-lo. não por cálculos do futuro. ou. Bastaria.

mas não foi possível educá-las. Porque esta impetuosidade significa que têm sido projetados a magotes sobre a história montões e montões de homens em ritmo tão acelerado. o aumento de população o que nas cifras transcritas me interessa. Corresponde. é preciso revolver-se contra o século XIX. que não era fácil saturá-los da cultura tradicional. pois.A rebelião das massas. a tirar estas conseqüências: primeira. Daí que às vezes produza a impressão de um homem primitivo surgido inesperadamente em meio a uma velhíssima civilização. mas não sensibilidade para os grandes deveres históricos. Não é. E ultrapassando toda possível sofisticação. Nem sequer o traço que pudera aparecer mais evidente para caracterizar a América .que põem em perigo iminente os princípios mesmos a que deveram a vida. que a democracia liberal fundada na criação técnica é o tipo superior de vida pública até agora conhecido. Uma vez reconhecido isto com toda a claridade que demanda a claridade do próprio fato. senão que mercê a seu contraste põe em relevo a impetuosidade do crescimento. o tipo médio do atual homem europeu possui uma alma mais sã e mais forte que as do passado século. A Europa cresceu no século passado muito mais que a América. triplicasse a espécie européia. se não preferirmos ser dementes. Aparece a história inteira como um gigantesco laboratório onde se fizeram os ensaios imagináveis para obter uma fórmula de vida pública que favorecesse a planta "homem".htm (37 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . que é suicida todo retorno a formas de vida inferiores à do século XIX. Mas ainda que não seja tão conhecido como devera o dado calculado por Werner Sombart. que esse tipo de vida não será o melhor imaginável. Por essa razão oferece este fato a perspectiva mais adequada para julgar com eqüidade essa centúria. inoculou-se-lhes atropeladamente o orgulho e o poder dos meios modernos. sem problemas tradicionais e complexos. segunda. Esta é a que agora nos importa.a velocidade de aumento em sua povoação lhe é peculiar. terceira. mas o que imaginemos melhor terá de conservar o essencial daqueles princípios. Eis aqui outra razão para corrigir o espelhismo que supõe uma americanização da Europa. A América está feita com a sobra da Europa. era de sobra notório o fato confuso de haver aumentado consideravelmente a povoação européia para insistir nele. pois. Se é evidente que havia nele algo extraordinário e incomparável. e as novas gerações dispõem-se a tomar o comando do mundo como se o mundo fosse um paraíso sem rastros antigos. Deram-se-lhe instrumentos para viver intensamente. com efeito. bastarão trinta anos para que nosso continente retroceda à barbárie. num século chegou a 100 milhões de homens. mas não o espírito. não se pode fazer outra coisa senão ensinar às massas as técnicas da vida moderna. ao século passado a glória e a responsabilidade de haver soltado sobre a face da história as grandes multidões. encontramo-nos com a experiência de que ao submeter a semente humana ao tratamento destes dois princípios. democracia liberal e técnica.os homens-massa rebeldes . não o é menos que deveu padecer certos vícios radicais. Nas escolas que tanto orgulhavam o passado século. certas constitutivas insuficiências quando engendrou uma casta de homens . devia haver nela quando na sua atmosfera se produzem tais colheitas de fruto humano. Fato tão exuberante força-nos. porém muito mais simples. E. Por isto não querem nada com o espírito. quando o maravilhoso é a proliferação da Europa. num só século. Algo extraordinário. É frívola e ridícula toda preferência dos princípios que inspiraram qualquer outra idade pretérita se antes não demonstra que se encarregou deste fato magnífico e tentou digeri-lo. incomparável. Se esse tipo humano continua dono da Europa e é definitivamente quem decide. As técnicas jurídicas e materiais se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.

Qualquer mente perspicaz de 1820. VI. Desde 1900 começa também o operário a ampliar e assegurar a sua vida. que é pura potência do maior bem e do maior mal. A atual abundância de possibilidades se converterá em efetiva míngua. que com progressiva abundância vai engendrando o século XIX? Desde já.htm (38 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Não se encontra. pois. Entretanto. se o senhor quer ver bem sua época. gritava de um penhasco alcantilado da Engadina o bigodudo Nietzche. por isso mesmo é o único que. anunciava Augusto Comte. Que aspecto oferece a vida desse homem multitudinário.a vida política e a não política -? Por que é como é. Cada dia sua posição era mais segura e mais independente do arbítrio alheio. escassez. Certamente que só cabe antecipar a estrutura geral do futuro. com um bem-estar posto diante dele solicitamente por uma sociedade e um Estado que são um portento de organização. Cada dia ajuntava um novo luxo ao repertório de seu standard vital. que é uma época revolucionária. 1880. o homem médio de qualquer classe social encontrava cada dia mais franco seu horizonte econômico. como o homem médio. A vida toda se contrairá. Hegel. impotência angustiosa. O homem que agora tenta pôr-se à frente da existência européia é muito diferente daquele que dirigiu o século XIX. "As massas avançam!" dizia. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Importa. tem de lutar para consegui-lo. um aspecto de omnimoda facilidade material. É falso dizer que a história não é previsível.A rebelião das massas. volatilizarão com a mesma facilidade com que se perderam tantas vezes segredos de fabricação (40). em verdadeira decadência. quero dizer. por um simples raciocínio a priori. mas que se exige. prever a gravidade da situação histórica atual. como se produziu? Convém responder conjuntamente a ambas as questões. O que antes se houvera considerado comum benefício da sorte que inspirava humilde gratidão ao destino. compreendemos do pretérito ou do presente. Porque a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o que Rathenau chamava "a invasão vertical dos bárbaros". olhe-a de longe. converteu-se num direito que não se agradece. Se o porvir não oferecesse um flanco à profecia. mas foi produzido e preparado no século XIX. A que distância? Muito simples: à distância justa que o impeça ver o nariz de Cleópatra. Enquanto em proporção diminuíam as grandes fortunas e se tornava mais dura a existência do operário industrial. Nunca pode o homem médio resolver com tanta folga seu problema econômico. apocalíptico. nossa época. pode. com efeito. porque se prestam mútuo esclarecimento. A idéia de que o historiador é um profeta pelo avesso resume toda a filosofia. nada novo acontece que não tenha sido previsto há cem anos. produzirá uma catástrofe ". "Sem um novo poder espiritual. "Vejo subir a preamar do nihilismo! ". Situação de tal modo aberta e franca tinha por força que decantar no estrato mais profundo dessas da história. COMEÇA A DISSECAÇÃO DO HOMEM-MASSA Como é este homem-massa que domina hoje a vida pública . em verdade. E. muito conhecer a fundo este homem-massa. Por isso. de 1850. não poderíamos tampouco compreendê-la quando logo se cumpre e se faz passado. Inúmeras vezes tem sido profetizada.

similares e ainda idênticos no essencial se se confronta com eles este homem novo.htm (39 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Ninguém desconhece isso. obrigação. de uma inovação radical no destino humano. Porque esta última é a que não faltou nunca até cem anos científica . O século XIX foi essencialmente revolucionário.física e administrativa -. até mesmo para o rico e poderoso. e não há verossimilitude de que intervenha nela nada violento e perigoso. Os dois últimos podem resumir-se num: a técnica. um homem à parte de todos os demais homens. praticamente ilimitada. com efeito. contanto que não se entenda por esta só a jurídica e social. mas a implantação de uma nova ordem que tergiversa a tradicional. do dominante no XVII. de nosso velho povo: "ampla é Castela". esquecendo a cósmica. desde a segunda metade do século XIX. pelo contrário. Trata-se. a experimentação científica e o industrialismo. O homem médio aprende que todos os homens são legalmente iguais. diga-se opressão. A revolução não é a sublevação contra a ordem preexistente. Cria-se um novo cenário para a existência do homem. está claro. o mundo era um âmbito de pobreza.A rebelião das massas. mas em sua implantação. alojar-se na estreiteza que deixavam. Quer dizer. não constituem uma revolução. que. Nenhum desses princípios foi inventado pelo século XIX. Se se quer. Não há ninguém civilmente privilegiado. Virou pelo avesso a existência pública. para os efeitos da vida pública. Mas não basta com o reconhecimento abstrato.em condições de vida radicalmente opostas às que sempre a haviam rodeado. O que teve de tal não deve ser buscado no espetáculo de suas barricadas. que podia expressar-se com a perífrase. A honra do século XIX não estriba em sua invenção. Não existem os "estados" nem as "castas". que é implantada pelo século XIX. limitação. Três princípios fizeram possível esse novo mundo: a democracia liberal. e assim é preciso compreender perfeitamente suas inexoráveis conseqüências.a grande massa social . antes de tudo. Foi. e este do que caracteriza ao XVI. O homem médio. Jamais em toda a história havia sido posto o homem numa circunstância ou contorno vital que se parecesse nem de longe ao que essas condições determinam. pressão. Ao contrário. A compreensão deste fato e sua importância surgem automaticamente quando se recorda que essa franquia vital faltou por completo aos homens vulgares do passado. Tal imagem limita-se a incutir nas almas médias uma impressão vital. tão graciosa e aguda. Por isso não há exageração nenhuma em dizer que o homem engendrado pelo século XIX. "vida" havia significado. mas todos eles são parentes. simplesmente. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. não acha ante si barreiras sociais nenhumas. sem que coubera outra solução que não fosse adaptar-se a eles. para eles a vida um destino angustiante . mas que colocou o homem médio . numa palavra. Sentiram o viver a nativitate como um cúmulo de impedimentos que era forçoso suportar. dificuldade e perigo (41) O mundo que desde o nascimento rodeia o homem novo não o move a limitar-se em nenhum sentido. Mas é ainda mais clara a contraposição de situações se do material passamos ao civil e moral. dependência. é. O do século XVIII se diferencia. Também aqui "ampla é Castela". novo no físico e no social. mas procedem das duas centúrias anteriores. Nada o obriga a conter sua vida.no econômico e no físico -. A esta facilidade e segurança econômica ajuntam-se as físicas: o confort e a ordem pública. Quer dizer que em todas essas ordens elementares e decisivas a vida se apresentou ao homem novo isenta de impedimentos. Para o "vulgo" de todas as épocas. A vida marcha sobre cômodos carris. tampouco nas formas da vida pública encontra-se ao nascer com entraves e limitações.

que as catástrofes eram freqüentes e não havia nele nada seguro. crêem que seu papel se reduz a exigi-las peremptoriamente.htm (40 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e a radical ingratidão a tudo quanto tornou possível a facilidade de sua existência. e o meio que empregam sói ser destruir as padarias. porque não falta. Minha tese é. porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao conjunto do que "está aí". e não pensa nunca nos esforços geniais de indivíduos excelentes que supõe sua criação. é origem de que as massas beneficiárias não a considerem como organização. chega a crer efetivamente que só ele existe. porque era um mundo tão toscamente organizado. lhe houvesse obrigado a renunciar a um desejo. ao que parece. À força de evitar-lhe toda pressão em redor. Como não vêem nas vantagens da civilização um invento e construção prodigiosos. em princípio. pois. Isto nos leva a apontar no diagrama psicológico do homem-massa atual dois primeiros traços: a livre expansão de seus desejos vitais.genial de inspirações e de esforços -. Menos ainda admitirá a idéia de que todas estas facilidades continuam apoiando-se em certas difíceis virtudes dos homens. Nenhum ser humano agradece a outro o ar que respira. A criatura submetida a este regime não tem a experiência de suas próprias limitações. posta a sua disposição como o ar. Isto pode servir como símbolo do comportamento que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pelo visto. Mas as novas massas encontram uma paisagem cheia de possibilidades e além disso segura. como se fossem direitos nativos. esta: a própria perfeição com que o século XIX deu uma organização a certas ordens da vida. Herdeiro de um passado extensíssimo e genial . o homem vulgar. não erraria quem utilizasse esta como uma quadrícula para olhar através dela a alma das massas atuais.e isto é muito importante . mas perfeito e mais amplo. O sinal é formal.que esse mundo do século XIX e começos do XX não tem apenas as perfeições e amplitudes que de fato possui. sem depender de seu prévio esforço. mais forte que ele.A rebelião das massas. Um e outro traço compõem a conhecida psicologia da criança mimada. portanto. que só com grandes esforços e cautelas se pode sustentar. a sua disposição. o novo vulgo tem sido mimado pelo mundo circunstante. como se gozasse de um espontâneo e inesgotável crescimento. E. Acredita-se nisto tão firmemente como na próxima saída do sol. mas como natureza. que. Esta sensação da superioridade alheia só podia ser-lhe proporcionada por quem. Assim teria aprendido esta essencial disciplina: "Aí termino eu e começa outro que pode mais do que eu. Porque. de sua pessoa. a reduzir-se. é de sua própria origem. do que dizemos "é natural". Todavia hoje. todo choque com outros seres. com efeito. a conter-se. e tudo isso presto. Mimar não é limitar os desejos. Estas massas mimadas são suficientemente pouco inteligentes para crer que essa organização material e social. Nos motins que a escassez provoca soem as massas populares buscar pão. apesar de alguns signos que iniciam uma pequena brecha nessa fé rotunda. e é quase tão perfeita como a natural. mas que além disso sugere a seus habitantes uma segurança radical em que amanhã será ainda mais rico. já que tampouco falha. dar a impressão a um ser de que tudo lhe está permitido e a nada está obrigado. e se acostuma a não contar com os demais. como achamos o sol no alto sem que nós o tenhamos subido ao ombro. Ao homem médio de outras épocas ensinava-lhe quotidianamente seu mundo esta elemental sabedoria. abundante nem estável. No mundo. crê que o produziu a natureza. Pois acontece . sobretudo a não contar com ninguém como superior a ele. dos quais o menor malogro volatilizaria rapidissimamente a magnífica construção. podem crescer indefinidamente. todavia hoje muito poucos homens duvidam de que os automóveis serão dentro de cinco anos mais confortáveis e mais baratos que os do dia. com efeito. Assim se explica e define o absurdo estado de ânimo que essas massas revelam: não lhes preocupa mais que seu bem-estar e ao mesmo tempo são insolidárias das causas desse bem-estar. não lhe apresenta veto nem contenção alguma. ao encontrar-se com esse mundo técnica e socialmente tão perfeito. mas pelo contrário fustiga seus apetites. há dois: eu e outro superior a mim".

preferências ou gostos. em princípio. limitações de destino e dependência. Em um e outro caso tratava-se de uma exceção à índole normal da vida e do mundo. até há pouco. nada nem ninguém o força a compreender que ele é um homem de segunda classe. a voz novíssima grita: "Viver é não encontrar limitação alguma. como em volta da oposta se formaram as antigas. E quando não a isto. Contrariamente. portanto. o homem seleto ou excelente está constituído por uma íntima necessidade de apelar de si mesmo a uma norma além dele. um imperativo. onde não se depende de ninguém. a seus olhos. apetites. nada é perigoso e. Porque esta impressão fundamental se converte em voz interior que murmura sem cessar umas como palavras no mais profundo da pessoa e lhe insinua tenazmente uma definição da vida que é. Por isso insisto tanto em fazer notar que o mundo de onde nasceram as massas atuais mostrava uma fisionomia radicalmente nova na história. nos quais baseia tal afirmação de sua pessoa? Nunca o homem-massa teria apelado a nada fora dele se a circunstância não lhe houvesse forçado violentamente a isso. Portanto. incapaz de criar nem conservar a organização mesma que dá à sua vida essa amplitude e esse contentamento. VIDA NOBRE E VIDA VULGAR. Esta experiência básica modifica por completo a estrutura tradicional. sem dúvida. como tal. o eterno homem-massa. sobretudo com instâncias superiores. Naturalmente: viver não é mais que tratar com o mundo. a contar em todo momento com outras instâncias. se. e as feições fundamentais de nossa alma são impressas nela pelo perfil do contorno como por um molde. Mas o homem que analisamos habitua-se a não apelar de si mesmo a nenhuma instância fora dele. que o bem-estar de sua vida dependia das virtudes privadas que possuísse o seu Imperador. ninguém é superior a ninguém". exceção que. À volta desta impressão primária e permanente vai se formar cada alma contemporânea. E se a impressão tradicional dizia: "Viver é sentir-se limitado e. Nada de fora a incita a reconhecer nela própria limites e. era devida a alguma causa especialíssima. abandonar-se tranqüilamente a si mesmo. Como agora a circunstância não o obriga. opiniões. em mais vastas e sutis proporções usam as massas atuais ante a civilização que as nutre (42). sem causa especial nenhuma. o mundo novo aparece como um âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas. sem necessidade de ser vão. Praticamente nada é impossível. O semblante geral que ele nos apresenta será o semblante geral de nossa vida. a vida. OU ESFORÇO E INÉRCIA Somos aquilo que nosso mundo nos convida a ser. Por que não. se ascendia socialmente. perene. a um enorme esforço e ele sabia muito bem quanto lhe havia custado. Se lograva melhorar sua situação.A rebelião das massas. do homem-massa. escassez.htm (41 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . atribuía-o a um golpe da sorte. Enquanto no pretérito viver significava para o homem médio encontrar a sua volta dificuldades. Mas a nova massa encontra a plena franquia vital como estado nativo e estabelecido. superior a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sua vida era constantemente regulada por esta instância suprema de que dependia. Porque este se sentiu sempre constitutivamente condicionado a limitações materiais e a poderes superiores sociais. VII. que lhe era nominativamente favorável. Ingenuamente. por isso mesmo. como a coisa mais natural do mundo. conseqüente com sua índole. perigos. ter de contar com o que nos limita". limitadíssimo. tenderá a afirmar e considerar bom tudo quanto em si acha. Está satisfeito tal como é. portanto. O labrego chinês acreditava. deixa de apelar e sente-se soberano de sua vida. Isto era. segundo vemos. ao mesmo tempo.

se fosse necessário e alguém se lho disputasse (44). dinâmico. eqüivale a esforçado ou excelente. com efeito. A nobreza ou fama do filho já é puro benefício. a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência. converte-se em algo parecido aos direitos comuns. a nobreza hereditária tem um caráter indireto. e. que se deu a conhecer sobressaindo sobre a massa anônima. entende-se o conhecido de todo o mundo. Só fica nela de vivo. Desta maneira. Contrariamente. o famoso. Isto é a vida como disciplina . é luz espelhada. já em decadência. e este. pois. pelas obrigações. ao conceder os níveis de nobreza. o que não exige nada. é a criatura de seleção. supõe sua conservação que o privilegiado seria capaz de reconquistá-las em todo instante. puro usufruto e benefício. Sua vida não lhe apraz se não a faz consistir em serviço a algo transcendente. e não a massa. posse passiva e simples gozo. Mas o sentido próprio. e há quem só torna nobre seu pai e quem alonga sua fama até o quinto ou décimo avô. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. distinguíamos o homem excelente do homem vulgar dizendo: que aquele é o que exige muito de si mesmo.htm (42 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . foi (45). e não é o pai quem enobrece o filho. pelo contrário. ainda neste sentido desvirtuado. Para mim. numa qualidade estática e passiva. certa contradição na transferência da nobreza. ele. Os direitos privados ou privilégios não são. pois. mais exigentes. Sempre. Quando esta. que. a incitação que produz no descendente a manter o nível de esforço que o antepassado alcançou. nobreza é sinônimo de vida esforçada. que a oprimam.a vida nobre -. quanto porque é inerte. Nobre. Há. Por isso não estima a necessidade de servir como uma opressão. mas. são propriedade passiva. e ao nobre hereditário obriga-o a herança. não pelos direitos. "Viver a gosto é de plebeu: o nobre aspira a ordenação e a lei" (Goethe). Eu diria. A nobreza define-se pela exigência. por infelicidade. no início. em princípio.não tanto porque seja multitudinário. Contra o que sói crer-se. graduam-se pelo número de gerações passadas que ficam prestigiadas. Porque ao significar para muitos "nobreza de sangue" hereditária. cuja nobreza é efetiva. posta sempre a superar-se a si mesma. e. mas representam o perfil onde chega o esforço da pessoa. condenada à perpétua imanência. É irritante a degeneração sofrida no vocabulário usual por uma palavra tão inspiradora como "nobreza". e que não corresponde a esforço algum. como não seja o respirar e evitar a demência. É conhecido por reflexo. Nobre significa o "conhecido". destacando com o seu esforço sua estirpe humilde. é nobreza lunar como feita com mortos. O nobre originário obriga-se a si mesmo.A rebelião das massas. não. a vida nobre fica contraposta à vida vulgar e inerte. tão generoso do destino com que todo homem se encontra. a cujo serviço livremente se põe. em suma: é. lhe falta. e precisamente para opô-lo à nobreza hereditária. atuante. sente desassossego e inventa novas normas mais difíceis. que o direito impessoal se tem e o pessoal se mantém. autêntico. Daí que chamemos massa a este modo de ser homem . noblesse oblige. como são os "do homem e do cidadão". Implica um esforço insólito que motivou a fama. Lembre-se de que. de qualquer modo. pois. mas o filho quem. Por isso. o étimo do vocábulo "nobreza" é essencialmente dinâmico. quem vive em essencial servidão. que se recebe e transmite como uma coisa inerte. Mais lógicos os chineses. se reclui a si mesma. os direitos comuns. O filho é conhecido porque seu pai conseguiu ser famoso. apenas contenta-se com o que é e está encantado consigo mesmo (43). Os antepassados vivem do homem atual. A "nobreza" não aparece como termo formal até o Império romano. invertem a ordem da transmissão. Noblesse oblige. a comunica a seus antepassados. são conquistas. estaticamente. ao conseguir a nobreza. Os privilégios da nobreza não são originariamente concessões ou favores. caso uma força exterior não a obrigue a sair de si. desde o nobre inicial a seus sucessores.

sejam pessoas. Por isso mesmo ficam mais isolados. Treinamento = áskesis. e descobrirão que são surdas. Por outra parte. Nas horas difíceis que chegam para nosso continente. a diferença da tradicional. é. os nobres. faltará a última claridade ao teorema deste ensaio. Quererão ouvir. intrometeu nele formidáveis apetites. Para definir o homem-massa atual. que é de toda a vida pública a mais eficiente e mais visível. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.em suma: indócil (47). Mas ainda essa boa vontade fracassará.htm (43 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . encontramo-nos com uma massa mais forte que a de nenhuma época. tenham um momento a boa vontade de aceitar. por muito que tenha ascendido seu nível vital em comparação com o de outros tempos. Depois de haver estabelecido nele todas estas potências. e como monumentalizados em nossa experiência. é preciso contrapô-lo às duas formas puras que nele se mesclam: a massa normal e o autêntico nobre ou esforçado. Tudo que vem depois é conseqüência ou corolário dessa estrutura radical que poderia resumir-se assim: o mundo organizado pelo século XIX.são incapazes de outro esforço que o estritamente imposto como reação a uma necessidade externa. enquanto não tenhamos analisado esta. Digo processo. contrariamente. hermética em si mesma. resultante de outras mais íntimas e impalpáveis. saúde média superior à de todos os tempos). a direção de minorias superiores.A rebelião das massas. fechou-se dentro de si. Assim. À medida que se avança pela vida.que as massas são incapazes de se deixar dirigir em nenhuma ordem. um incessante treinamento. porque lhe falta de nascença a função de atender ao que está além dela. vamos nos fartando de advertir que a maior parte dos homens . subitamente angustiadas. cada dia se notará mais em toda a Europa . Desta sorte. mas quer suplantar os excelentes. imediatamente. o século XIX o abandonou a si mesmo. poderá reger. sejam fatos. porque já somos donos do que.e por reflexo em todo o mundo . a meu juízo. a derradeira. é a chave ou equação psicológica do tipo humano dominante hoje.e das mulheres . mas. para os quais viver é uma perpétua tensão. acreditando que se basta . São os ascetas (46). a indocilidade política não seria grave se não proviesse de uma mais profunda e decisiva indocilidade intelectual e moral. é ilusório pensar que o homem médio vigente. a conveniência de não entender todos estes enunciados atribuindo-lhes. Quererão acompanhar a alguém. os únicos ativos e não só reativos. Reitero ao leitor que. O simples processo de manter a civilização atual é superlativamente complexo e requer sutilezas incalculáveis. Por isso. seguindo o homem médio sua índole natural. São os homens seletos. o processo da civilização. mas que se caracteriza por ignorar de raiz os princípios mesmos da civilização. tenha lido até aqui. civis e técnicos (entendo por estes a enormidade de conhecimentos parciais e de eficiência prática que hoje o homem médio possui e de que sempre careceu no passado) -. Agora podemos caminhar mais depressa. Não surpreenda esta aparente digressão.econômico. A atividade política. não já progresso. os pouquíssimos seres que conhecemos capazes de um esforço espontâneo e luxuoso. corporais (higiene. Continuando as coisas como até aqui. é possível que. Porque a disposição radical de sua alma está feita de hermetismo e indocilidade. por si mesmo. ao produzir automaticamente um homem novo. que é tão massa como o de sempre. Mal pode governá-lo este homem-massa que aprendeu a usar muitos aparelhos de civilização. poderosos meios de toda ordem para satisfazê-los . paciente. incapaz de atender a nada nem a ninguém. em certas matérias especialmente angustiosas. e não poderão. e então. um significado político.

htm (44 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mas que em verdade era naturalíssimo: de tanto se mostrarem abertos mundo e vida ao homem medíocre.esporte supremo. Encontramo-nos. paradisíaca. e a crença na sua perfeição não está consubstancialmente unida a ele. o néscio. para sentir-se perfeito. Este surpreende-se a si mesmo sempre a dois passos de ser tolo. VIII. Pois bem: eu sustento que nessa obliteração das almas médias consiste a rebeldia das massas em que. Não se trata de que o homem-massa seja tolo. O tolo. Porque o malvado descansa algumas vezes. Como esses insetos que não há maneira de extrair do orifício em que habitam. a rigor. instala-se definitivamente naquele repertório. Pelo contrário. POR QUE AS MASSAS INTERVÉM EM TUDO E POR QUE SÓ INTERVÊM VIOLENTAMENTE Ficamos em que aconteceu algo sobremodo paradoxal. Contrariamente ao homem medíocre de nossos dias. não suspeita de si mesmo: julga-se discretíssimo. Neste caso tratar-se-ia de hermetismo intelectual. e daí a invejável tranqüilidade com que o néscio se assenta e instala em sua inépcia. não há modo de desalojar o tolo de sua tolice. Comparar-se seria sair um pouco de si mesmo e trasladar-se ao próximo. consegue o homem nobre sentir-se em verdade completo. Por isso o vaidoso necessita dos demais. Pois ainda que em definitivo minha opinião fosse errônea. pois. O homem-massa sente-se perfeito. como de Adão. busca neles a confirmação da idéia que quer ter de si mesmo. por isso faz um esforço para escapar à iminente tolice. por sua vez. A pessoa encontra-se com um repertório de idéias dentro de si. Como poderiam pensar como eu? Mas ao supor-se com direito a ter uma opinião sobre o assunto sem prévio esforço para forjá-la. O tolo é vitalício e impermeável. Um homem de seleção. jamais (48). e nesse esforço consiste a inteligência. ao contrário. a alma. a vaga sensação de possuí-la apenas lhe serve para fechar-se mais em si mesmo e não usá-la. tem mais capacidade intelectiva que o de nenhuma outra época. levá-lo de passeio um pouco além de sua cegueira e obrigá-lo a que contraste sua visão grosseira habitual com outros modos de ver mais sutis. ao novo Adão. sempre ficaria o fato de que muitos destes leitores discrepantes não pensaram cinco minutos sobre tão complexa matéria. a alma fechou-se para ele. necessita ser especialmente vaidoso. De sorte que nem ainda neste caso mórbido nem ainda "cegado" pela vaidade. com a mesma diferença que eternamente existe entre o tolo e o perspicaz. manifestam seu exemplar senhorio ao modo absurdo de ser homem que eu chamei "massa rebelde". Sua confiança em si é. Também isto é naturalíssimo e confirma o teorema. Isso é precisamente ter obliterada.A rebelião das massas. hermética. Decide contentar-se com elas e considerar-se intelectualmente completa. O hermetismo nato de sua alma lhe impede o que seria condição prévia para descobrir sua insuficiência: comparar-se com outros seres. Por isso dizia Anatole France que o néscio é muito mais funesto que o malvado. o atual é mais esperto. Mas a alma medíocre é incapaz de transmigrações . Já sei que muitos dos que me lêem não pensam como eu. Não sentindo nada de menos fora de si. não se lhe ocorre duvidar de sua própria plenitude. consiste o gigantesco problema hoje levantado para a humanidade. imaginário e problemático. De file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas essa capacidade não lhe serve de nada. não é ingênua. mas chega-lhe de sua vaidade e ainda para ele mesmo tem um caráter fictício. Eis aí o mecanismo da obliteração.

Não há cultura onde não há princípios de legali5àde civil a que apelar. de sentenciar. mas sua atitude reduzia-se a repercutir. o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas. impô-los-á por toda a parte. Não há cultura onde não há acatamento de certas últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa (50).A rebelião das massas. Não vale falar de idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula. nunca o vulgo havia crido ter "idéias" sobre as coisas. A escassez da cultura intelectual espanhola. Não há cultura quando as relações econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual possam amparar-se. onde há muita. mas que o vulgar proclame e imponha o direito da vulgaridade. provérbios. dava ou retirava sua adesão. Estas normas são os princípios da cultura. no sentido mais estrito da palavra.por exemplo. e com um audácia que só se explica pela ingenuidade. sabe que naquele território não regem princípios aos quais possa recorrer. Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham "idéias". ou. cego e surdo como é. Quando faltam todas essas coisas. tradições. de não estar qualificado para teorizar (49). Por isso perdeu o uso da audição. Uma e inata consciência de sua limitação. isto é. O mais e o menos de cultura mede-se pela maior ou menor precisão das normas. Hoje. A idéia é um xeque-mate à verdade. simplesmente. A conseqüência automática disto era que o vulgo não pensava. é talvez o fator da presente situação mais novo. menos assimilável a nada do pretérito. hábitos mentais. ou a vulgaridade como um direito. A que nossos próximos possam recorrer. E isto é. a ação criadora de outros. uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. penetram até o pormenor no exercício de todas as atividades. do cultivo ou exercício disciplinado do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de decidir. mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobre o que as coisas são ou devem ser . barbárie. nem sequer julgar as "idéias" do político do tribunal de outras "idéias" que cria possuir. não há cultura. que em sua maior parte são de índole teórica. não tenhamos ilusões. Não há questão de vida pública em que não intervenha. Não há cultura onde as polêmicas estéticas não reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte. prejuízos. As "idéias" deste homem médio não são autenticamente idéias. Não há normas bárbaras propriamente ditas. vocábulos ocos que o acaso amontoou no seu interior. mas. nem sua posse é cultura. que sejam cultas? De maneira alguma. decidir em quase nenhuma das atividades públicas. pelo contrário. nem de longe. experiências. O império que sobre a vida pública hoje exerce a vulgaridade intelectual. Isto é o que no primeiro capítulo enunciava eu como característico em nossa época: não que o vulgar creia que é destacado e não vulgar. Para que ouvir. Nunca se lhe ocorreu opor às "idéias" do político outras suas. impondo suas "opiniões". regulam estas a vida só grosso modo. Parecia-lhe bem ou mal o que o político projetava e fazia. se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir. sobre política ou sobre literatura -. pelo contrário. positiva ou negativamente. Onde há pouca. quer dizer. uma vez para sempre consagra o sortimento de tópicos. O viajante que chega a um país bárbaro.htm (45 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Pelo menos na história européia até hoje. há. de julgar. o homem médio tem as "idéias" mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. vedava-o completamente. Tinha crenças. A mesma coisa em arte e nas demais ordens da vida pública. O que digo é que não há cultura onde não há normas. Não me importa quais são. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que ela imponha. a barbárie é ausência de norma e de possível apelação.

O homem médio encontra-se com "ideais" dentro de si. pois. que a forma superior da convivência é o diálogo em que se discutem as razões de nossas idéias. mas na habitual falta de cautela e cuidados para ajustar-se à verdade que soem mostrar os que falam e escrevem. Continuamos sendo o eterno padre de aldeia que rebate triunfante o maniqueu. que. advertir-se-á que as primeiras notas de sua peculiar melodia soaram naqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta de 1900. com efeito. propele a massa para que intervenha em toda a vida pública. Nem sequer suspeita qual é o elemento sutilíssimo em que as idéias vivem.A rebelião das massas. como vimos antes. inventores da maneira e da palavra "ação direta". simplesmente. Não. mas na falta de escrúpulo que leva a não cumprir os requisitos elementais para acertar. mas não quer aceitar as condições e supostos de todo opinar. Idear. leva-a também. como as romanças musicais. crer. mas carece da função de idear. Não se atribua. aceitar seu Código e sua sentença. A força era. começaram a acontecer "coisas esquisitas". Tal violência não é outra coisa senão a razão exasperada. a razão da sem-razão. não em que se saiba mais ou menos. em que se acerte ou não .htm (46 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . opinar. Sob as espécies de sindicalismo e fascismo aparece pela primeira vez na Europa um tipo de homem que não quer dar razões nem quer ter razão. intelecto. portanto. que o levou a produzir a história mais inquieta de quantas se conhecem. Será muito lamentável que a condição humana leve volta e meia a esta forma de violência. é uma mesma coisa como apelar a tal instância.a verdade não está em nossa mão -. Suprimem-se todos os trâmites normais e se vai diretamente à imposição do que se deseja. e retrocede-se a uma convivência bárbara. portanto. o que estes novos fatos têm de esquisito ao que têm de novo. a ultima ratio. pois. que declara muito bem o prévio rendimento da força às normas racionais. se mostra resolvido a impor suas opiniões. porque a "ação direta" consiste em inverter a ordem e proclamar a violência como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não se diga que parecem esquisitos simplesmente porque são novos. há alguns anos. Por isso. Eis aqui o novo: o direito a não ter razão. desde a conversação até o Parlamento. que é uma convivência sob normas. O hermetismo da alma. Quer opinar. crer que existe uma razão. um orbe de verdades inteligíveis. mas a chave está no hermetismo intelectual. mas à estranhíssima bitola destas novidades. por haverem resolvido dirigir a sociedade sem ter capacidade para isso. e instintivamente repudia a obrigação de acatar essa instância suprema que se acha fora dele. e detesta-se toda forma de convivência que por si mesma implique acatamento de normas objetivas. Em outras era a violência o meio a que recorria a quem havia esgotado todos os demais para defender a razão e a justiça que cria ter. Mas o homem-massa sentir-se-ia perdido se aceitasse a discussão. submeter-se a ela. A civilização não é outra coisa senão o ensaio de reduzir a força a ultima ratio. Ter uma idéia é crer que se possuem as razões dela. mas é inegável que ela significa a maior homenagem à razão e à justiça. O dia em que se reconstrua a gênese de nosso tempo. manifesta-se. passando pela ciência. Agora começamos a ver isto com bastante clareza. Em sua conduta política revela-se a estrutura da alma nova da maneira mais crua e contundente. sem haver procurado antes averiguar o que pensa o maniqueu. Para dar algum exemplo concreto destas coisas esquisitas mencionarei certos movimentos políticos. a um procedimento único de intervenção: a ação direta. e não nos interessa. Daqui que suas "idéias" não sejam efetivamente senão apetites ou palavras. o "novo" é na Europa "acabar com as discussões". como o sindicalismo e o fascismo. mas que. Um pouco estupidamente tem se entendido com ironia esta expressão. Isso quer dizer que se renuncia à convivência de cultura. Eu vejo nisso a manifestação mais palpável do novo modo de ser das massas. Qualquer pessoa pode perceber que na Europa. Perpetuamente o homem tem recorrido à violência: às vezes este recurso era simplesmente um crime. inexoravelmente. e é. O entusiasmo pela inovação é de tal modo ingênito no europeu.

Trata-se com tudo isso de fazer possível a cidade. razão! de que veio inventar tudo isso. que suprime tudo que medeia entre nosso propósito e sua imposição. A barbárie é tendência à dissociação.é a suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga à minoria e é. atuou na vida pública. cortesia. Proclama a decisão de conviver com o inimigo. ainda à sua custa. É se incivil e bárbaro na medida em que não se conte com os demais. E um exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na terra. criar tanta complicação? Tudo isso se resume na palavra "civilização". como "ação direta". As relações sexuais reduzem seus trâmites. quer dizer. mais ainda. pois. supõem o desejo radical e progressivo de cada pessoa contar com as demais. com efeito. E corrobora energicamente a tese deste ensaio o fato patente de que agora. Odeia de morte o que não é ela. sempre o modo de operar natural às massas. Civilização é. portanto. tão elegante. Ela leva ao extremo a resolução de contar com o próximo e é protótipo da "ação indireta". o cidadão. Por isso. se olhamos por dentro cada um desses instrumentos da civilização que acabo de enumerar.A rebelião das massas. Toda a convivência humana vai caindo sob este novo regime em que se suprimem as instâncias indiretas. A forma que na política representou a mais alta vontade de convivência é a democracia liberal. . tão antinatural. não obstante ser onipotente.htm (47 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . A literatura.E assim todas as épocas bárbaras têm sido tempo de espalhamento humano. quando a massa por um ou outro motivo. tão paradoxal. normas. Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Não começa a ser já incompreensível semelhante ternura? Nada acusa com maior clareza a fisionomia do presente como o fato de que vão sendo tão poucos os países onde existe a oposição. É a Charta magna da barbárie. a comunidade. através da idéia de civis. pululação de mínimos grupos separados e hostis. quando a intervenção direta das massas na vida pública passou de casual e infreqüente a ser o normal. aniquila todo o grupo opositor. o mais nobre grito que soou no planeta. No trato social suprime-se a "boa educação". acharemos uma mesma entranha em todos. A massa . Por isso. Foi. que. como os mais fortes. vontade de convivência. prima ratio. como única razão é ela a norma que propõe a anulação de toda norma. O liberalismo convém hoje recordar isto . tão acrobática. PRIMITIVISMO E TÉCNICA file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. descobre sua própria origem. IX. deixar espaço no Estado que ele impera para que possam viver os que nem pensam nem sentem como ele. o fez em forma de "ação direta". como a maioria. não deve surpreender que tão rapidamente pareça essa mesma espécie decidida a abandoná-la. Trâmites. a rigor. antes de tudo. constitui-se no insulto. Em quase todos. justiça. O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o Poder público. Era inverossímil que a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão bonita. a convivência. uma massa homogênea pesa sobre o Poder público e esmaga. com o inimigo débil. Todos. apareça a "ação direta" oficialmente como norma reconhecida.quem o diria ao ver seu aspecto compacto e multitudinário? .não deseja a convivência com o que não é ela. usos intermediários. Convém recordar que em todos os tempos. limita-se a si mesmo e procura.

e portanto. normas que provaram sua insubstancialidade. Tudo. O entusiasmo que sinto por esta disciplina de nudificação. de sorte que nele a realidade vacila. e não sabe bem se se decidir por uma ou outra entre várias possibilidades. Não é coisa de lastrear este ensaio com toda uma metafísica da história. apresentam duplo aspecto. cada um dos quais está relativamente indeterminado com respeito ao anterior. A rebelião das massas pode. tudo é possível na história . Pelo contrário. Compõem-se de peripécias. Não há razão para negar a realidade do progresso. Qualquer deles não só tolera. portanto. estorvo à vida e tóxico resíduo. favorável e pejorativa. expostas ou aludidas em outros lugares. E este equívoco não reside em nosso juízo.tanto o progresso triunfal e indefinido como a periódica regressão -. me faz reivindicar plena liberdade de ideador diante de todo o passado. É. E assim os sintomas de nova conduta que sob o império atual das massas vão aparecendo e agrupávamos sob o título "ação direta". rigorosamente falando. Em geral. uma solução mais perfeita. É claro que toda velha cultura arrasta no seu avanço tecidos caducos e não pequena carregação de matéria córnea. podem anunciar também futuras perfeições. a simplificação é higiene e melhor gosto. mas também pode ser uma catástrofe no destino humano. com efeito. Mas é preciso evitar o pecado maior dos que dirigiram o século XIX: a defeituosa consciência de sua file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. piétine sur place. drama (51). requeria urgentemente uma redução ao autêntico. Há instituições mortas. mas na própria realidade. demandam uma época de frenesi simplificador. Este titubeio metafísico proporciona a todo o vital essa inconfundível qualidade de vibração e estremecimento. sem a ameaça de involução e retrocesso. que é verdade em geral. Todos estes elementos da ação indireta. como sempre que com menos meios se consegue mais. Por isso a princípio insinuei que todos os traços atuais e. Isto. penso que toda vida. a história. Não creio na absoluta determinação da história. mas até reclama uma dupla interpretação. A sobrecasaca e o plastrão românticos solicitam uma vingança por meio do atual deshabillé e o "em mangas de camisa". Não é que possa parecer-nos por um lado bem. mas é que em si mesma a situação presente é potência bifronte de triunfo ou de morte. a rebelião das massas. a vida pública. Aqui. adquire maior intensidade nos "momentos críticos".A rebelião das massas.htm (48 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . pessoal ou histórica. Porque a vida.a do presente substancialmente equívoca. É o porvir que deve imperar sobre o pretérito. se compõe de puros instantes. de autenticidade. retorcimentos e intrincações que não a deixavam tomar sol. ser trânsito de uma nova e sem par organização da humanidade. sobretudo a política. valorizações e respeitos sobreviventes e já sem sentido. se não se aligeira até sua pura essencialidade. e a humanidade européia não poderia dar o salto elástico que o otimista reclama dela se antes não se desnuda. nenhuma evolução. em espécie. da civilização. mas é preciso corrigir a noção que crê seguro este progresso. por outro mal. como é o presente. A árvore do amor romântico exigia também uma poda para que caíssem as demasiadas magnólias falsas cerzidas a seus ramos e o furor de lianas. volutas. é a única entidade do universo cuja substância é perigo. Mas é claro que o vou construindo sobre a base subterrânea de minhas convicções filosóficas. a consciência de que é imprescindível para franquear o passo a um futuro estimável. até coincidir consigo mesma. Importa-me muito recordar aqui que estamos submersos na análise de uma situação . e dele recebermos a ordem para nossa conduta diante de tudo quanto foi (52). individual ou coletiva. soluções indevidamente complicadas. Mais congruente com os fatos é pensar que não há nenhum progresso seguro.

as ciências físicas . na religião e nas zonas cotidianas da vida. é precisamente faltar à missão de responsável. Deixar-se deslizar pela pendente favorável que apresenta o curso dos acontecimentos e embotar-se para a dimensão de perigo e carranca que mesmo a hora mais jocunda possui. um primitivo que pelos bastidores deslizou no velho cenário da civilização.ao que hoje pode julgar-se . No fundo de sua alma desconhece o caráter artificial. tão sutil e tão profundo . poderia demonstrar-se semelhante incongruência na política. e em geral da história.como é habitual . A idéia que Spengler tem da cultura. parece-me neste ponto demasiado otimista. na arte. nem pelos melhores. Mas isto confirma seu radical desinteresse pela civilização.produziu-se na geração que hoje vai dos vinte aos trinta anos. com efeito. seu habitante não o é: nem sequer vê nele a civilização. na moral. pode julgar-se . Baste fazer constar este fato: desde que existem as nuove scienze.que se tratava apenas de uma "frase".portanto. Hoje torna-se mister suscitar uma hiperestesia de responsabilidade nos que sejam capazes de senti-la. responsabilidade. desde o Renascimento -. Que nos significa situação tão paradoxal? Este ensaio pretende haver preparado a resposta a tal pergunta.A rebelião das massas. um Naturmensch emergindo em meio de um mundo civilizado. Quando mais acima. nem ainda para retificá-las. os automóveis e algumas coisas mais.htm (49 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .repito. Mais concretamente: o número de pessoas que em proporção se dedicavam a essas puras investigações era maior em cada geração. se o cálculo se faz não tanto pensando no presente como no que anunciam e prometem. que não é fácil. e parece o mais urgente sublinhar o lado palmariamente funesto dos sintomas atuais. O homem-massa atual é. É indubitável que num balanço diagnóstico de nossa vida pública os fatores adversos superem em muito os favoráveis. trazer aqui a comento suas conclusões. que os fez não se manterem alertas e em vigilância. Interessam-lhe evidentemente os anestésicos. proporcional . mas crê que é fruta espontânea de uma árvore edênica. ao longo do tempo. porém. transpondo umas palavras de Rathenau. Significa que o homem hoje dominante é um primitivo.os de nenhuma.ainda que tão maníaco -. dizia eu que assistimos à "invasão vertical dos bárbaros". O civilizado é o mundo. quase inverossímil. Se não fora prolixo. Nos laboratórios de ciência pura começa a ser difícil atrair discípulos. mas eu não vejo que se fale. O primeiro caso de retrocesso . Pois crê que à "cultura" vai suceder uma época de "civilização". mas . sob a qual entende sobretudo a técnica. Pois estas coisas são só produtos dela. a saber: uma definição formal que condena toda uma complicada análise. mas que é o contrário de uma "frase". é tão remota da pressuposta neste ensaio. com uma consciência de seu futuro suficientemente dramático. da civilização. e o fervor que se lhes dedica faz ressaltar mais cruamente a insensibilidade para os princípios de que nascem. Todo o crescimento de possibilidades concretas que a vida experimentou corre risco de anular-se a si mesmo ao topar com o mais pavoroso problema sobrevindo no destino europeu e que de novo formulo: apoderou-se da direção social um tipo de homem a quem não interessam os princípios da civilização. A toda hora se fala hoje dos progressos fabulosos da técnica. O próprio Spengler. e não estenderá seu entusiasmo pelos aparelhos até os princípios que os tornam possíveis. Não os desta ou os daquela. Agora se vê que a expressão poderá enunciar uma verdade ou um erro. E isso acontece quando a indústria alcança seu maior desenvolvimento e quando as pessoas mostram maior apetite pelo uso de aparelhos e medicinas criados pela ciência. o entusiasmo por elas havia aumentado sem colapso. mas usa dela como se fosse natureza. Só saltando sobre distâncias e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O novo homem deseja o automóvel e goza dele.

Cada dia produz um novo analgésico ou vacina. Eu não posso resolver-me a crer tal coisa. que é mister reunir e agitar para obter coquetel da ciência físico-química! Ainda contentando-se com a pressão mais débil e sumária do tema. para se produzir. que a foro de racionais teriam que ser sutis. à advertência de que o atual interesse pela técnica não garante nada. da técnica.como parece ocorrer -. Por isso. há uma que cada dia comprova. eu ficava com estas só duas feições: democracia liberal e técnica (54). pelo visto. Vou. prático. Esta não se nutre nem se respira a si mesma. não práticas (53). Viena e Paris. o progresso mesmo ou a perduração da técnica. Fato tão sóbrio e tão magro devia fazer refletir um pouco sobre o caráter supervolátil. pudera estabelecer-se assim a divergência: Spengler crê que a técnica pode continuar vivendo quando morreu o interesse pelos princípios da cultura. mas precipitado útil. Mas não espere que. o homem-massa se daria por inteirado. pois.htm (50 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Todo o mundo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que esse homem médio utiliza. de preocupações supérfluas. e não pode interessar se as pessoas não continuam entusiasmadas com os princípios gerais da cultura. a arte. aquele que lhe dure a inércia do impulso cultural que a criou. sua maravilhosa eficiência: a ciência empírica. não é causa sui. só no século XIX. espontaneamente e sem prédicas. Magos. e que as condições de sua perpetuação englobam as que tornam possível o puro exercício científico. e a ciência não existe se não interessa em sua pureza e por ela mesma. Vive-se com a técnica. Cada dia facilita um novo invento. Uma observação impede-me iludir-me sobre a eficácia de tais prédicas. Berlim. um conjunto de condições mais insólito que o que engendra o unicórnio. Se se embota esse fervor . Bem arranjado está quem creia que se a Europa desaparecesse poderiam os norte-americanos continuar a ciência! Importaria muito tratar a fundo o assunto e especificar com toda a minúcia quais são os supostos históricos vitais da ciência experimental e. E ainda dentro deste quadrilátero. da inspiração científica (55).A rebelião das massas. O homem-massa não atende a razões e só aprende em sua própria carne. embora esclarecida a questão. Isto demonstra que a ciência experimental é um dos produtos mais improváveis da história. que beneficia esse homem médio. precisões. evaporante. e menos que nada. Pensou-se em todas as coisas que precisam continuar vigentes nas almas para que possa continuar havendo de verdade "homens de ciência"? Acredita-se seriamente que enquanto haja dollars haverá ciência? Esta idéia em que muitos se tranqüilizam não é senão uma prova mais de primitivismo. Mas esta fauna do homem experimental requer. estabelecer-se plenamente no breve quadrilátero que inscrevem Londres. a própria moral -. o qual vem a ser materialmente aproveitável. consequentemente. Está bem que se considere o tecnicismo como um dos traços característicos da "cultura moderna". a físico-química só conseguiu constituir-se. A técnica é consubstancialmente ciência. da maneira mais indiscutível e mais própria para fazer efeito no homem-massa. para reduzir ambos os pontos de vista a um comum denominador. Aí é nada a quantidade de ingredientes. mas não da técnica. sobressai já o claríssimo fato de que em toda a amplitude da terra e em toda a do tempo. Não é demasiado absurdo que nas circunstâncias atuais não sinta o homem médio. quer dizer. de uma cultura que contém um gênero de ciência. sacerdotes. as normas sociais.a política. guerreiros e pastores têm pululado por toda a parte e à vontade. ao resumir a fisionomia novíssima da vida implantada pelo século XIX. fervor superlativo por aquelas ciências e suas congêneres as biológicas? Porque repare-se em qual é a situação atual: enquanto evidentemente todas as demais coisas da cultura se tornaram problemáticas . os mais díspares entre si. Mas repito que surpreende a frivolidade com que ao falar da técnica se esquece que sua víscera cordial é a ciência pura. a técnica só pode perviver um pouco de tempo.

nem de atenção. milagrosa. Haverá quem se sinta mais sobrecolhido por outros sintomas de barbárie emergente que.de médicos. em que se desvive a si mesma? Deixemos. multiplicar-se-iam automaticamente riqueza. de ação. sem a menor solidariedade íntima com o destino da ciência.A rebelião das massas. já que num planeta sem físico-química não se pode sustentar o número de homens hoje existentes. sem pedir a ninguém que conte com ela. Maxime se. X. e não de omissão.o mais aterrador (57). onde esses homens vão e vêm. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. engenheiros. sabe que. Há-os. Podemos inclusive resolver a não deixar de sê-lo nunca. nem o espera. Mas as ciências experimentais necessitam da massa. nem recomendar-se.que não lhe dedica . sob pena de sucumbir. Sabe que é por essência problemática. Para mim é este da desproporção entre o proveito que o homem médio recebe da ciência e a gratidão que lhe dedica . Nela. químicos. Cuida de seu aspecto de perfeita inutilidade (56). nem de simpatia da massa. podemos impunemente ser selvagens. se ela começa por duvidar de sua própria existência. congelada. os quais soem exercer sua profissão com um estado de espírito idêntico no essencial ao de quem se contenta com usar do automóvel ou comprar o tubo de aspirina -. o após-guerra converteu o homem de ciência no novo pária social. mas não vive desse proveito alheio. A filosofia não necessita de proteção. comodidades. massa dos técnicos mesmos . não obstante. Mas. saltam mais aos olhos e se materializam em espetáculo. nem o premedita. e a injeção de pantopom que fulmina. como tal aparece. talvez com maior clareza que em nenhuma outra parte. Como vai pretender que alguém a tome em sério. saúde. em princípio. biólogos . um bárbaro emergindo por um alçapão. Só posso explicar-me esta ausência do adequado reconhecimento se recordo que no centro da África os negros vão também em automóvel e se aspirinizam.esta é minha hipótese . de lado a filosofia. E conste que me refiro a físicos. Pode imaginar-se propaganda mais formidável e contundente em favor de um princípio vital? Como. da civilização. este desapego pela ciência. os que ficaram numa alvorada estática. e esperar mais que barbárie de quem assim se comportar. na selva. sem mais risco que o advento de outros seres que não o sejam. nem defender-se. Breyssig chamou-os de "os povos da perpétua aurora". e como isso se liberta de toda submissão do homem médio. segundo veremos. não há sombra de que as massas peçam a si mesmas um sacrifício de dinheiro e de atenção para dotar melhor a ciência? Longe disso. pois. que é aventureira de outro nível.seria. relativamente à complexa civilização em que nasceu. bem-estar.. não cedendo à inspiração científica. etc. suas dores? A desproporção entre o benefício constante e patente que a ciência lhes procura e o interesse que por ela mostram é tal. um homem primitivo. sendo de qualidade positiva. Sustenta-se a si mesma.htm (51 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Que raciocínios podem conseguir o que não consegue o automóvel. na. um "invasor vertical". se se triplicassem ou decuplicassem os laboratórios.. Se alguém de boa mente a aproveita para algo. e abraça alegre seu livre destino de pássaro do bom Deus. se não vive mais que na medida em que se combata a si mesma. PRIMITIVISMO E HISTÓRIA A natureza está sempre aí.não aos filósofos -. que não há modo de subornar-se a si mesmo com ilusórias esperanças. O europeu que começa a predominar . como esta necessita delas. regozija-se por simples simpatia humana. são possíveis povos perenemente primitivos.

não se sustenta a si mesma. em que o natural e subumano tornava a oprimir a palidez humana da mulher.. muito poucas. Não é que faltem meios para a solução. Tudo que é primitivo é selva.não existem para o homem médio atual. Ele anuncia que. Isso acontece no mundo que é só Natureza. Um descuido. em definitivo. Eu já o disse. como é sabido. A civilização se lhe antolha selva.. A selva sempre é primitiva. e quando o senhor olha à sua volta tudo se volatilizou! Como se houvessem recolhido uns tapetes que tapavam a pura Natureza. tudo é terra. Os problemas que hoje levanta são arqui-intrincados. mas agora vou destacar apenas uma. o "amarelo saramago". Trata-se de conter a selva invasora. mas agora é preciso acrescentar algumas precisões. grave preocupação dos Estados australianos: impedir que as figueiras ganhem terreno e joguem os homens ao mar. De tanto ser férteis e certeiros os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Reclamo. Sob essas imagens inocentemente perversas palpita um enorme e sempiterno problema: o das relações entre a civilização e o que ficou depois dela . torna-se tanto mais complexa e mais difícil. quanto mais avança. mas não se preocupa de sustentar a civilização.htm (52 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Este desequilíbrio entre a sutileza complicada dos problemas e a das mentes será cada vez maior se não se remedeia.A rebelião das massas. Também o romântico tem razão. o senhor está enfarado. O homem-massa crê que a civilização em que nasceu e que usa é tão espontânea e primigênea como a Natureza. A três por dois o senhor fica sem civilização. Faltam cabeças. a franquia para ocupar-me dele em outra ocasião e para ser na hora oportuna romântico. A civilização. Os românticos de todos os tempos se desarticulavam ante esta cena de desolação. sobre o acrotério ou o telhado. mas o corpo vulgar da Europa central não quer pô-las sobre os ombros. que não avança para nenhum meio-dia. estremecido. Como aconteceu isto? Por muitas causas.a Natureza -. a primeira coisa que seus olhos procuram é. e não se faz solidário deles. É artifício e requer um artista ou artesão. um emigrante meridional. A reconstituição da Europa . Se o senhor quer aproveitar-se das vantagens da civilização. Generalizando acharam um espetáculo mais sutilmente indecente na paisagem com ruínas. Mais exatamente: há algumas cabeças. e pintavam o cisne sobre Lêda. Mas não acontece no mundo que é civilização. que por toda a parte a selva rebrota. o touro com Pasifae e Antíope sob o capro. como o nosso. e o europeu vulgar revela-se inferior à tão sutil empresa. Seria estúpido rir do romântico. O após-guerra nos oferece um exemplo bem claro disso.está se vendo . Quando um bom romântico divisa um edifício.. O "bom europeu" tem de se dedicar agora ao que constitui. levou para a Austrália num vaso de barro uma figueirazinha. e ipso facto converte-se em primitivo.é um assunto demasiado algébrico. E vice-versa. Os princípios em que se apoia o mundo civilizado . Cada vez é menor o número de pessoas cuja mente está à altura desses problemas. Pelo ano quarenta e tantos. Hoje os orçamentos da Oceania sobrecarregam-se com verbas onerosas destinadas à guerra contra a figueira.Málaga? Sicília? -. Não lhe interessam os valores fundamentais da cultura. Não está disposto a pôr-se a seu serviço. se afoga sob o abraço da silvestre vegetação. onde a pedra civilizada. pois. nostálgico de sua paisagem . reaparece repristinada a selva primitiva. A civilização não está aí. e constitui a mais elementar tragédia da civilização. Mas agora encontro-me em faina oposta. geométrica. entre o racional e o cósmico.o que é preciso sustentar . que invadiu o continente e cada ano ganha em corte mais de um quilômetro.

Na Grécia e em Roma não fracassou o homem. aumenta sua colheita em quantidade e em agudeza até ultrapassar a receptividade do homem normal. tem naturalmente uma verdade parcial . perdeu a memória do passado. de que sua vida começa a ser difícil. tanto mais em perigo está. A européia ameaça sucumbir pelo contrário.pelo XVIII precisamente para evitar erros de todas as políticas antigas. o senhor não aproveita sua experiência. Movimentos típicos de homens-massa dirigidos. Causa inquietude ouvir falar sobre os temas mais elementais do dia por pessoas relativamente mais cultas.htm (53 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . princípios que a informam. Não por que dê soluções positivas ao novo aspecto dos conflitos vitais . mas porque evita cometer os erros ingênuos de outros tempos.tornou possível o avanço prodigioso do século XIX.há um banalmente unido ao avanço da civilização. que. apesar de que no seu transcurso os especialistas a fizeram avançar muitíssimo como ciência (58). então tudo é desvantagem. muita experiência. que hoje gravitam sobre nós. Mas se o senhor. cada vez mais complicada. como pela maneira anti-histórica. Ao chegar a um grau de povoação grande e exigir tão vasta convivência a solução de certas urgências materiais. anacrônica. Não creio que isto tenha acontecido jamais no passado.A rebelião das massas. bem entendido. Eu sustento que hoje sabe o europeu dirigente muito menos história que o homem do século XVIII e mesmo do XVII. A este abandono se devem em boa parte seus peculiares erros. por exemplo. e. comportam-se desde o início como se houvessem passado já. em suma: história. começou o mundo a involuir. Pois eu creio que esta é a situação da Europa. Aquele saber histórico das minorias governantes . dois claros exemplos de regressão substancial. Civilização avançada é uma e mesma coisa com problemas árduos. além de ser velho. A questão não está em ser ou não ser comunista e bolchevista. como se sucedendo nesta hora pertencessem à fauna de antanho. Não discuto o credo. extemporâneos e sem memória extensa. vão-se aperfeiçoando também os meios para resolvê-los. O que é file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Parecem toscos labregos que com dedos grossos e desajeitados querem colher uma agulha que está sobre uma mesa.embora subterraneamente . Sua política está pensada . que é ter muito passado às suas costas. portanto. Todas as civilizações feneceram pela insuficiência de seus princípios. O saber histórico é uma técnica de primeira ordem para conservar e continuar uma civilização provecta. Entre estes para concretizar um pouco . está ideada em vista desses erros.a involução. Em seu último terço iniciou-se . A vida é cada vez melhor. Mas é mister que cada nova geração se torne senhora desses meios adiantados. Por isso são bolchevismo e fascismo. Daí que quanto maior seja o progresso. O Império romano finda por falta de técnica. com que tratam sua parte de razão. Manejam-se. à ingenuidade e primitivismo de quem não tem ou esquece seu passado.quem no universo não possui uma porciúncula de razão? -. os temas políticos e sociais com o instrumental de conceitos rombudos que serviram a duzentos anos para enfrentar situações de fato duzentas vezes menos sutis. mas seus princípios. e resume em sua substância a mais longa experiência. como todos os que o são. a retroceder e consumir-se.governantes sensu lato . Mas já o século XIX começou a perder "cultura histórica".a vida é sempre diferente do que foi -. isolado. sem "consciência histórica". por homens medíocres. Mas agora é o homem quem fracassa por não poder continuar emparelhado com o progresso de sua própria civilização. É claro que ao complicarem-se os problemas. que só a técnica podia achar. mas. o retrocesso à barbárie. as duas tentativas "novas" de política que na Europa e seus confinantes se estão fazendo. isto é. Não tanto pelo conteúdo positivo de suas doutrinas. As pessoas mais "cultas" de hoje padecem uma ignorância histórica incrível.

inconcebível e anacrônico é que um comunista de 1917 se atire a fazer uma revolução que é em sua forma idêntica a todas as que houve antes e na qual não se corrigem os mínimos defeitos e erros das antigas. o que é o mesmo. período que coincide com a vigência de uma geração (59). segundo a lenda. Mas isso é justamente o que não pode fazer quem. condição irremissível para superá-lo. entre elas esta: uma revolução não dura mais de quinze anos. O antipedrista. "A revolução devora seus próprios filhos !" "A revolução começa por um partido moderado. Não há dúvida de que é preciso superar o liberalismo do século XIX. ao cabo da qual está inexoravelmente o reaparecimento de Pedro. é o perfeito lugar comum das revoluções. ou. traduzindo sua atitude à linguagem positiva. aconteceu a Confúcio.são duas falsas alvoradas. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Até o ponto de que não há frase feita. Quem se declara anti-Pedro não faz. E como já uma vez este triunfou daquela. Um e outro . pois. são primitivismo.htm (54 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Há uma cronologia vital inexorável. como o canhão é mais arma que a lança. Por isso não é interessante historicamente o acontecido na Rússia. com todos estes anti o que. Se deixar algo dele fora está perdido. pelo contrário. Acontece. etc. Por isso . das muitas que sobre as revoluções a velha experiência humana fez. Nem um nem outro ensaio estão "à altura dos tempos". Todo anti não é mais que um simples e vazio não. O porvir o vence porque o devora. uma monótona repetição da revolução de sempre. Quem aspire verdadeiramente a criar uma nova realidade social ou política. por isso é estritamente o contrário de um começo de vida humana. Mas isso é precisamente o que acontecia ao mundo quando ainda não havia nascido Pedro.. diabo!. como o fascismo.ser antiliberal ou não liberal . coloca-se antes e retrocede toda a película à situação passada. porém não menos prováveis. interrompidas e feitas cisco. A esses tópicos veneráveis podiam ajuntar-se algumas outras verdades menos notórias. já usado uma ou muitas vezes. mas.numa destruição da Europa. necessita preocupar-se antes de tudo de que esses humílimos lugares comuns da experiência histórica fiquem invalidados pela situação que ele suscita. O liberalismo é nela posterior ao anti-liberalismo. que não receba deplorável confirmação quando se aplica a esta. não levam dentro de si resumido todo o pretérito. É. se declara anti-liberal. Com o passado não se luta corpo a corpo. em vez de colocar-se depois de Pedro. E isto serão todos os movimentos que recaiam na simplicidade de travar uma luta com tal ou qual porção do passado.A rebelião das massas. mas a de um arcaico dia. em vez de proceder a sua digestão. poderíamos dizer coisas similares do fascismo. Mas a inovação que o anti representa se desvanece no vazio ademane negador e deixa só como conteúdo positivo uma "antigualha". O qual nasceu.liberalismo e anti-liberalismo . posto que signifique uma reação contra ele e supõe sua prévia existência. Desde já. nasceu já com oitenta anos enquanto seu progenitor não tinha mais que trinta. Invertendo o signo que afeta o bolchevismo.é o que fazia o homem anterior ao liberalismo. repetirá sua vitória inumeráveis vezes ou se acabará tudo . depois de seu pai. a seguir passa aos extremistas e começa mui rapidamente a retroceder para uma restauração".bolchevismo e fascismo . não trazem a manhã do amanhã. é mais vida que este. naturalmente. senão declarar-se partidário de um mundo onde Pedro não existe. uma atitude anti-algo parece posterior a este algo. em vista de que todas as "leis" de sua ciência aparecem caducadas. etc. De minha parte reservarei a qualificação de genial ao político que mal comece a operar comecem a ficar loucos os professores de História dos Institutos.

que em toda época tem sido muito superficial . mal chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. à parte isso. saturadas de seu estilo primitivo. Esta é a condição para superá-lo. e. Mas o passado é pura essência revenant. Se o mandamos embora. trâmites nem reservas. entregue à decisão do homem vulgar como tal. pela primeira vez. podem celebrar uma aparente vitória. Por isso sua única autêntica superação é não mandá-lo embora. a sua. volta. e essa que não tinha é a que se devia tirar-lhe.A rebelião das massas. a não ouvir. não recair nela. Este contentamento consigo o leva a fechar-se em si mesmo para toda instância exterior. estuda-se a estrutura psicológica deste novo tipo de homem-massa. Ou dito em voz ativa: o homem vulgar. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. inseparável de tudo que hoje parece triunfar. portanto. e essa é preciso dá-la per saecula saecculorum. não discuto agora a entranha de um nem a do outro. a considerar bom e completo seu haver moral e intelectual. segundo um regime de "ação direta". Não é mais nem menos massa o conservador que o radical. resolveu governar o mundo. Porque hoje triunfa o homem-massa. Seria tudo muito fácil se com um não puro e simples aniquilássemos o passado. 2o.. "a altura dos tempos".. A Europa necessita conservar seu essencial liberalismo. O liberalismo tinha uma razão. sem limitações trágicas. encontra-se o seguinte: 1o. sem considerações. só tentativas por eles informadas. Necessitamos da história íntegra para ver se conseguimos escapar dela.não impede nem de longe que ambos sejam um mesmo homem. Mas. Esta é. O passado tem razão.. portanto. A Europa não tem remissão se seu destino não é posto nas mãos de pessoas verdadeiramente "contemporâneas" que sintam palpitar debaixo de si todo o subsolo histórico.htm (55 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Atuará. abastada. porque alenta em estrato muito mais profundo que a política e suas dissensões. Em suma. XI. uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil. com hiperestésica consciência da conjuntura histórica. 3o. O tema que verso nestas páginas é politicamente neutro. portanto. voltará a reclamá-la. o convida a afirmar-se a si mesmo tal qual é. contemplações. volta irremediavelmente. como se somente ele e seus congêneres existissem no mundo. automaticamente. Esta resolução de avançar para o primeiro plano social produziu-se nele. A ÉPOCA DO "MOCINHO SATISFEITO" Resumo: O novo fato social que aqui se analisa é este: a história européia parece. fixando-me só na sua feição anacrônica. evitá-lo. Se não se lhe dá essa que tem. pois. Contar com ele. cada indivíduo médio encontra em si uma sensação de domínio e triunfo que. a meu juízo. Se atendendo aos defeitos da vida pública. vulgo rebelde. Comportar-se à sua vista para sorteá-lo. Mas não tinha toda a razão. e esta diferença . quer dizer. Sua sensação íntima de domínio o incita constantemente a exercer predomínio. que conheçam a latitude presente da vida e repugnem toda atitude arcaica e silvestre. e de passagem a impor a que não tem. O máximo que este ensaio se atreve a solicitar é que revolução ou evolução sejam históricas e não anacrônicas. Se falei aqui de fascismo e bolchevismo não foi senão obliquamente. como não pretendo dirimir o perene dilema entre revolução e evolução. a não pôr em tela de juízo suas opiniões e a não contar com os demais. intervirá em tudo impondo sua vulgar opinião. antes dirigido.

precisamente. tradição social. pode surgir um homem constituído por aquele repertório de feições. Ele não tem. talvez muito breve. que o veja diante de si e não suspeite que aquilo.as comodidades. Por razões muito rigorosas e arquifundamentais que agora não é oportuno enunciar.religião. O resultado é essa específica parvoíce das velhas nobrezas. de repente e sem saber como. porque não vêm dele.A rebelião das massas. as vantagens da civilização -. fantasmática. a rigor. inspirado por tal caráter. Acha-se ao nascer instalado.os que se podem reunir na classe geral "homem-herdeiro". (Por outra parte. (O primitivo normal. o bárbaro. Como vimos. portanto. em vez dessas razões. E tem de viver como herdeiro. nada que ver com elas. seu antepassado. o que desperta e mobiliza minhas atividades. Mas não é verdade. A abundância de meios que está obrigado a manejar não o deixa viver seu próprio e pessoal destino. costumes -. ninguém descreveu ainda em seu interno e trágico mecanismo . caberia aproveitar mais detalhadamente a anterior alusão ao "aristocrata". Sua vida perde inexoravelmente autenticidade.) Não é necessário estranhar que eu acumule dictérios sob esta figura de ser humano. O aristocrata herda. Tenderíamos ilusoriamente a crer que uma vida nascida em um mundo abastado seria melhor. O presente ensaio não é mais que um primeiro ensaio de ataque a esse homem triunfante.o interno e trágico mecanismo que conduz toda a aristocracia hereditária à sua irremediável degeneração. esforço por ser ela mesma. precisamente. Este repertório de feições fez com que pensássemos em certos modos deficientes de ser homem. sentiria meu corpo como uma coisa vaga. em lutar com a escassez. que não se assemelha a nada e que. mostrando como muitos dos traços característicos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. precisamente aquilo. quer dizer. quer dizer. de que o "aristocrata" não é senão um caso particular. e outro um menino mimado e outro. Este personagem.htm (56 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . muito mais amplo e radical. Por enquanto trata-se de um ensaio de ataque: o ataque a fundo virá depois. Se a atmosfera não me oprimisse. com efeito. Pelo contrário. Em que ficamos? Que vida vai viver o "aristocrata" de herança. só dentro da folga social que esta fabricou no mundo. Toda vida é luta. Um mundo abundoso (60) de possibilidades produz automaticamente graves deformações e viciosos tipos de existência humana . basta recordar o fato sempre repetido que constitui a tragédia de toda a aristocracia hereditária. As dificuldades com que tropeço para realizar minha vida são. mais vida e de superior qualidade à que consiste. Está condenado a representar o outro. a sua ou a do prócer inicial? Nem uma nem outra. por falta de uso e esforço vital. Agora a herança é a civilização . encontra atribuídas a sua pessoa umas condições de vida que ele não criou. atrofia sua vida. Valha isto tão somente para enfrentar nossa ingênua tendência a crer que a abundância de meios favorece a vida. O garoto mimado é o herdeiro que se comporta exclusivamente como herdeiro. que agora anda por toda a parte e onde quer impor sua barbárie íntima. e o anúncio de que uns quantos europeus vão reagir energicamente contra sua pretensão de tirania. em forma muito diferente da que este ensaio reveste. como o "menino mimado" e o primitivo rebelde. pelo contrário. Assim. e converte-se em pura representação ou ficção de outra vida. É uma de tantas deformações como o luxo produz na matéria humana. Se meu corpo não me pesasse eu não poderia andar. O ataque a fundo tem de vir de maneira que o homem-massa não se possa precaver contra ele. portanto. é o homem mais dócil a instâncias superiores que jamais existiu . no "aristocrata" herdeiro toda a sua pessoa vai se desvanecendo. São a carapaça gigantesca de outra pessoa. a não ser nem o outro nem ele mesmo. que não se produzem organicamente unidas a sua vida pessoal e própria. fofa. intimamente. tabus. isto é. é. a segurança. o homem-massa de nosso tempo -. minhas capacidades. tem de usar a carapaça de outra vida. em suma. o garoto mimado da história humana. é o ataque a fundo. Agora. em meio de sua riqueza e de suas prerrogativas. de outro ser vivente.

Porque é um homem que veio à vida para fazer o que bem entende. divertir-se com o intelectual. de Estados previdentes. penso. Este desequilíbrio o falsifica. etc. radical problematismo. mas.A rebelião das massas.htm (57 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mas isto não nos deixa em liberdade para fazer outra coisa que esteja na nossa vontade. vicia-o em sua raiz de ser vivente. pode ficar no final das contas impune.por exemplo. o cultivo do seu corpo . como se diz ao papagaio no conto do português. preferir a vida sob a autoridade absoluta a um regime de discussão (61). no homem-massa. tem que ser. de relativa morte. e vice-versa. segundo Aristóteles. especialmente da forma que esta civilização no século XIX. mas não as angústias. quando se torna figura predominante.foram repelidas para os trópicos por raças nascidas depois delas e superiores na escala da evolução (62). irremediável e irrevogável. o animal-homem degenera. deste. Por exemplo: a propensão de fazer ocupação central da vida os jogos e os esportes. porém. fazendo-o perder contacto com a substância mesma da vida. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos. não percebe o instável que é a organização do Estado. Neste ponto possuímos apenas uma liberdade negativa de arbítrio . Não é o que não se deva fazer o que esteja na vontade da pessoa. Isto.regime higiênico e atenção à beleza do traje -. A forma mais contraditória da vida humana que pode aparecer na vida humana é o "mocinho satisfeito". faz ver com suficiente clareza a anormalidade superlativa que representa o "mocinho satisfeito". etc. e tolera dentro de si muitos atos que na sociedade. em todos os povos e tempo. de maneira germinal. O âmbito familiar é relativamente artificial. Pois bem. mas se olhamos o porvir. Já sabemos por que: no âmbito familiar. não nasceu tampouco dentro dele por geração espontânea e misteriosa. Isto é verdade. e mal sente dentro de si obrigações. é preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se acha ameaçada de degeneração. a civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se em um mundo abundante. o nível vital que representa a Europa de hoje é superior a todo o passado humano. se dão. Não veio de fora ao mundo civilizado como os "grandes bárbaros brancos" do século V. Podemos perfeitamente file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. aquele que acredita que nada é fatal. Por isso acredita que pode fazer o que bem entende (63). de medicinas benéficas. Assim. o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e assegurar para o futuro sua produção. mas é o seu fruto natural. os pigmeus . recordarei que a espécie humana brotou em zonas do planeta onde a estação quente ficava compensada por uma estação de frio intenso. por seu turno. para me referir a uma dimensão muito concreta da vida corporal. é que não se pode fazer senão o que cada qual tem que fazer. Cabe unicamente negar-se a fazer isso que é preciso fazer.a nolição -. Cabe formular esta lei que a paleontologia e a biogeografia confirmam: a vida humana surgiu e progrediu só quando os meios com que contava estavam equilibrados pelos problemas que sentia. Segundo isto. que retroceda e recaia em altitudes inferiores. como. pois. falta de romanticismo na relação com a mulher. que este novíssimo bárbaro é um produto automático da civilização moderna. Grande equívoco! Vossa Mercê irá aonde o levem. Insisto. Por isso. quer dizer. tanto na ordem espiritual como na física. até os maiores delitos. Ignora. Nos trópicos. faz temer que nem conserve sua altura nem produza outro nível mais elevado. as raças inferiores . do qual percebe só a superabundância de meios. Com efeito. os girinos na alverca. de direitos cômodos. pelo contrário. tudo. que é absoluto perigo. no fundo. não estimá-lo e mandar que os lacaios ou os esbirros o açoitem. o "filho de família" forja para si esta ilusão. no ar da rua trariam automaticamente conseqüências desastrosas e iniludíveis para seu autor. com leal desgosto em fazer ver que este homem cheio de tendências incivis.). Mas o "mocinho" é aquele que acredita poder comportar-se fora de casa como em casa.

mas que está aí. O destino não consiste naquilo que temos vontade de fazer. uma verdade que não é teórica. precisamente porque sabe que esta não faltará nunca no fim das contas e em sério. mas melhormente se reconhece e mostra seu claro. somos a negação. na hora das seriedades. mas é possível fazê-lo ver naquelas porções ou facetas de seu destino que são idênticas às de outros. algo iniludível. que o homem ocidental de hoje é.o que vitalmente se tem que ser ou não se tem que ser . a falsificação de nós mesmos (65). a cegar-se ante sua evidência e sua chamada profunda. irremediavelmente. fazem-no sem o caráter de irrevogável. somos autênticos. como faz suas travessuras o "filho de família". Um furacão de farsa geral e onímoda sopra sobre o torrão europeu. a evitar cada qual o confronto com isso que tem que ser. nascem da discussão. na substância mesma da vida européia. Todos "sabem" que além das justas críticas com que se combatem as manifestações do liberalismo fica a irrevogável verdade deste. Não discutamos se esta ou a outra forma de liberdade é a que tem de ser. intelectual. mas todo seu sentido e sua força estão em ser discutidas. com plena e incontrastável verdade. porque não conheço a cada leitor. Há file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. desertar de nosso destino mais autêntico. mas sim aceita-se ou não. Seria bom que estivéssemos forçados a aceitar como autêntico ser de uma pessoa o que ela pretendia mostrar-nos como tal. Brincam de tragédia porque crêem que não é verossímil a tragédia efetiva no mundo civilizado. científica. mas é para cair prisioneiro nos graus inferiores de nosso destino. Mas o destino . e por isso mesmo. em última instância. Pois bem: "o mocinho-satisfeito" caracteriza-se por "saber" que certas coisas não podem ser e. Refiro-me a que o europeu mais reacionário sabe. com uma certeza muito mais vigorosa que a de todas as suas idéias e "opiniões" expressas.queira ou não queira. Eu não posso fazer isto evidente a cada leitor no que seu destino individualíssimo tem como tal. fingir com seus atos e palavras a convicção contrária. creia-o ou não . é só a aparência. Quase todas as posições que se tomam e ostentam são internamente falsas. uma verdade de destino -.htm (58 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O fascista se mobilizará contra a liberdade política. As verdades teóricas não são discutíveis. que são falsas e funestas todas as maneiras concretas em que se tentou até agora realizar esse imperativo irremissível de ser politicamente livre. Por exemplo: todo europeu atual sabe. Toda essa pressa para adotar em todas as ordens atitudes aparentemente trágicas. mas de uma ordem radicalmente diferente e mais decisiva de tudo isso . vivem enquanto se discutem e estão feitas exclusivamente para a discussão. devemos afirmar que não o crê. rigoroso perfil na consciência de ter que fazer o que não está na nossa vontade. queira ou não queira. por muitas atitudes que tenham para nos convencer e convencer-se do contrário.não se discute. se não o aceitamos. inscrito no destino europeu. como atua . Esta evidência última atua tanto no comunista europeu como no fascista. fica em pé a última evidência de que no século último tinha substancialmente razão. Se o aceitamos. últimas. que o homem europeu atual tem de ser liberal.no católico que presta mais leal adesão ao Syllabus (64). Porque esta é a tônica da existência no homem-massa: a inseriedade. entretanto. Vive-se humoristicamente e tanto mais quanto mais trágica seja a máscara adotada. e que nela se recairá sempre que a verdade seja necessária. Se alguém se obstina em afirmar que dois mais dois é igual a cinco e não há motivo para supô-lo clemente. por muito que grite e ainda se deixe matar para sustentá-lo. a "piada".a saber. Os únicos esforços que fazem destinam-se a fugir do próprio destino. talhantes. O que fazem.A rebelião das massas. inexorável. Embora se demonstre. no fundo de sua consciência. que isso que a Europa tentou no último século com o nome de liberalismo é.

ou nos usos sociais.por volta do século III A. naturalmente e a sério. parasita da civilização.déracinées de seu destino . dizia eu. oriental . O contorno o mima. seu papel era desfazer . Não toda técnica é científica. A China chegou a um alto grau de tecnicismo sem suspeitar em nada a existência da física. mais que nunca triunfa a retórica. romana. Mas é claro que com isso só fez extrair outra retórica que até agora jazia nas latrinas. pode resumir-se em duas grandes dimensões: democracia liberal e técnica. a porção que de comum tinha com outras do passado. C. Tomemos agora somente a última. Que faria o cínico num povo selvagem onde todos. Só a técnica moderna da Europa possui uma raiz científica.se deixem arrastar pela mais inconstante corrente. criou uma técnica. Jamais criou nem fez nada. Por isso. uma casa -. que se achava atrás de cada esquina e em todas as alturas.htm (59 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A técnica contemporânea nasce da copulação entre o capitalismo e a ciência experimental. o cínico não fazia outra coisa senão sabotar aquela civilização. Esta civilização do século XIX. ao concretizar-se. porque é "civilização" . que incite a ouvir instâncias externas superiores a ele. num caso particular.isto é.A rebelião das massas. e o "filho de família" não sente nada que o faça sair de sua índole caprichosa. vive de negá-la. XII. A BARBÁRIE DO "ESPECIALISMO" A tese era que a civilização do século XIX produziu automaticamente o homem-massa. e muito menos que o obrigue a tomar contato com o fundo inexorável de seu próprio destino. cisnes e faunesas". a tese ganha em força persuasiva. porque tampouco conseguiu seu propósito -. nilota. Desta sorte. Assim acontece que mal chega à sua máxima atitude a civilização mediterrânea . Era o nihilista do helenismo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.aparece o cínico. pelo contrário. Aquele que fabricou os machados de pedra. fazem o que ele em farsa. tentar desfazer. humorismo onde quer que se vive de atitudes revogáveis. vegeta suspenso ficticiamente no espaço. e apenas o tocam começam a retroceder em lamentável involução. e dessa raiz lhe vem seu caráter específico.melhor dito. no período chelense. Esclarece a situação atual advertir. não obstante. do qual só percebe as vantagens e não os perigos. carecia de ciência. É a época das "correntes" e do "deixar-se ir". ou em política.O cínico. O superrealista acredita haver superado toda a história literária quando escreveu "aqui uma palavra que não é necessário escrever" onde outros escreveram "jasmins. Convém não fechar sua exposição geral sem analisar. considera como seu papel pessoal? Que é um fascista se não fala mal da liberdade e um superrealista se não perjura da arte! Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem nascido no mundo demasiadamente bem organizado. O homem-massa não afirma o pé sobre a firmeza incomovível de seu signo. Por isso é que nunca como agora estas vidas sem peso e sem raiz . pela mesma razão de que está convencido de que ela não desaparecerá. grega. Ora bem. não obstante a singularidade de sua fisionomia.mesopotâmica. em que a pessoa não se finca inteira e sem reservas. As demais técnicas . Quase ninguém apresenta resistência aos superficiais torvelinhos que se formam em arte ou em idéias. . O cínico tornou-se um personagem pululante.espraiam-se até um ponto de desenvolvimento que não podem ultrapassar. e. Diógenes pateia com suas sandálias sujas de lama os tapetes de Arístipo. a possibilidade de um ilimitado progresso. a mecânica dessa produção.

mostrando o processo de crescente especialização no trabalho dos investigadores.não se entende especialmente o obreiro. da filosofia. quero dizer. mas. etc. A coisa é muito conhecida: fez-se constar inúmeras vezes. Mas estas páginas tentaram mostrar que também é responsável da existência do homem-massa no sentido qualitativo e pejorativo do termo. mas porque a técnica mesma . encerra germinalmente todas estas meditações. cume da humanidade européia. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como eu disse. Esta maravilhosa técnica ocidental tornou possível a maravilhosa proliferação da casta européia. faz dele um primitivo. Assim. Pois bem: o homem de ciência atual é o protótipo do homem-massa. adquire a plenitude de seu sentido e a evidência de sua gravidade. Quem. nome coletivo da ciência experimental. não a ciência. somente articulada no organismo deste ensaio. Mas o trabalho nela tem de ser . Isso faria ver como. A ciência não é especialista. por ter de reduzir sua órbita de trabalho.A rebelião das massas. e maior utilidade que a aparente à primeira vista. Nem sequer a ciência empírica. a ciência necessitava que os homens de ciência se especializassem.engendrou o homem-massa no sentido quantitativo desta expressão. financista.htm (60 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . da lógica. encerrado num campo de ocupação intelectual cada vez mais estreito.prevenia eu no princípio . E não por casualidade. nem por defeito unipessoal de cada homem de ciência. fazer uma história das ciências físicas e biológicas. A ciência experimental inicia-se ao finalizar o século XVI (Galileu). não designa aqui uma classe social. dentro do grupo técnico. Agora vamos ver isso com sobrada evidência. O pulo é único na história humana. consegue constituir-se nos finais do XVII (Newton) e começa a desenvolver-se nos meados do XVIII. geração após geração. um bárbaro moderno. o técnico: engenheiro. O desenvolvimento de algo é coisa diferente de sua constituição e está submetido a condições diferentes. Tal foi a obra de Newton e demais homens de seu tempo. Quem exerce o poder social? Quem impõe a estrutura de seu espírito na época? Sem dúvida. com a aristocracia do presente? Sem dúvida. É claro que o personagem astral não perguntaria por indivíduos excepcionais. entre os que a habitam. mas procuraria a regra. Mas o desenvolvimento da física iniciou uma faina de caráter oposto à unificação para progredir. mas justamente o inverso: como em cada geração o científico. Do século V a 1800 a Europa não consegue ter uma população superior a 180 milhões. não há dúvida de que a Europa apontaria satisfeita e certa de uma sentença favorável. mas uma classe ou modo de ser homem que se dá hoje em todas as classes sociais. Não há dúvida de que a técnica . De 1800 a 1914 ascende a mais de 460 milhões. a constituição da física.raiz da civilização . que por isso mesmo representa o nosso tempo. Mas não é isto o importante que essa história nos ensinaria.junto com a democracia liberal . obrigou a um esforço de unificação. e com ânimo de julgá-la lhe perguntasse por que tipo de homem. Recorde-se o dado de que tomou seu vôo este ensaio e que.o converte automaticamente em homem-massa.irremissivelmente . Ipso facto deixaria de ser verdadeira. a burguesia. o tipo genérico "homem de ciência". é verdadeira se a separamos da matemática. seus homens de ciência. Os homens de ciência. o homem de ciência tem sido constrangido. dentro dessa burguesia é considerado como o grupo superior. preferia ser julgada. sobre o qual predomina e impera. tomada na sua integridade. Se um personagem astral visitasse a Europa. Seria de grande interesse. ia progressivamente perdendo contato com as demais partes da ciência. Quem.especializado. Por "massa" . o homem de ciência. médico. professor etc. o representa com maior altitude e pureza? Sem dúvida.

a equação se deslocou. Eu disse que era uma configuração humana sem igual em toda a história. num tempo que chama homem civilizado ao homem "enciclopédico". descobrir novos fatos e fazer avançar sua ciência. junto com outros pedaços não existentes nele. simplesmente. A firmeza e exatidão dos métodos permitem esta transitória e prática desarticulação do saber. E. Assim a maior parte dos científicos propelem o progresso geral da ciência encerrados num nicho de seu laboratório. Não é um sábio. cultura. porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade. com efeito.A rebelião das massas. precisamente. que nos primeiros anos deste século chegou à sua mais frenética exageração. O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e fazendo ver todo o radicalismo de sua novidade. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. mas tampouco é um ignorante. e com ela a enciclopédia do pensamento. Porque outrora os homens podiam dividir-se. Por isso cria uma casta de homens sobremodo estranhos. É um homem que. definir. com efeito. que conscienciosamente desconhece. Quer dizer. que ele apenas conhece. Uma boa parte das coisas que é preciso fazer em física e em biologia é faina mecânica de pensamento que pode ser executada por qualquer pessoa. mas com toda a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Eis aqui um precioso exemplar deste estranho homem novo que eu tentei. deu guarida dentro de si ao homem intelectualmente médio e lhe permite operar com bom êxito. ao mesmo tempo. Como foi e é possível coisa semelhante? Porque convém repisar a extravagância deste fato inegável: a ciência experimental progrediu em boa parte mercê do trabalho de homens fabulosamente medíocres. fechado na estreiteza de seu campo visual. por uma e outra de suas vertentes e aspectos. O especialista "sabe" muito bem seu mínimo rincão de universo. A especialização começa. encontramo-nos com um tipo de científico sem exemplo na história. coisa sobremodo grave. Chega a proclamar como uma virtude o não tomar conhecimento de quanto fique fora da estreita paisagem que especialmente cultiva. Trabalha-se com um desses métodos como com uma máquina. A razão disso está no que é. Esta é a situação íntima do especialista. porque é "um homem de ciência" e conhece muito bem sua porciúncula de universo. Na geração seguinte. constituem verdadeiramente o saber. em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. e menos que medíocres. mas ignora basicamente todo o resto. com uma interpretação integral do universo. nele se dá um pedaço de algo que. pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora. O caso é que.htm (61 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . consegue. que é o único merecedor dos nomes de ciência. encerrar-se em um e desinteressar-se dos demais. O investigador que descobriu um novo fato da Natureza tem por força de sentir uma impressão de domínio e de segurança em sua pessoa. Quando em 1890 uma terceira geração assume o comando intelectual da Europa. não como um ignorante. vantagem maior e perigo máximo da ciência nova e de toda civilização que esta dirige e representa: a mecanização. raiz e símbolo da civilização atual. de tudo quanto há de saber para ser um personagem discreto. que a ciência moderna. embora sua produção tenha já um caráter de especialismo. e denomina diletantismo a curiosidade pelo conjunto do saber. em sábios e ignorantes. e a especialidade começa a desalojar dentro de cada homem de ciência a cultura integral. Com certa aparente justiça se considerará como "um homem que sabe". O século XIX inicia seus destinos sob a direção de criaturas que vivem enciclopedicamente. como a abelha no seu alvéolo. conhece apenas determinada ciência. e ainda dessa ciência só conhece bem a pequena porção em que ele é ativo investigador. Devemos dizer que é um sábio ignorante. e nem sequer é forçoso para obter abundantes resultados possuir idéias rigorosas sobre o sentido e fundamento deles. Para os efeitos de inúmeras investigações é possível dividir a ciência em pequenos segmentos. civilização européia.

isto é. E a conseqüência é que. Essa condição de "não ouvir". engenheiros. e. portanto. A física entra na crise mais profunda de sua história. que tornou possível o progresso da ciência experimental durante um século. aproxima-se a uma etapa em que não poderá avançar por si mesmo se não se encarrega uma geração melhor de construir-lhe um novo forno mais poderoso. como orgânica regulação de seu próprio incremento. a idéia que sói faltar ao típico "homem de ciência". mas essa mesma sensação íntima de domínio e valia o levará a querer predominar fora de sua especialidade. médicos. como eu disse. como a crosta terrestre e a selva primigênea. um trabalho de reconstituição. Porque esta necessita de tempo em tempo. Quem quiser pode observar a estupidez com que pensam. que representa um maximum de homem qualificado . isso requer um esforço de unificação. Em política. muito mais radicalmente ignora as condições históricas de sua perduração. julgam e atuam hoje na política. ainda neste caso.à qual já aludi .serviram para liberar a mente desse e deixar-lhe a via livre para sua inovação. Ao especializá-lo a civilização o tornou hermético e satisfeito dentro de sua limitação. na arte. quando há maior número de "homens de ciência" que nunca. por exemplo.especialistas dessas coisas.htm (62 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida. chega ao cúmulo nesses homens parcialmente qualificados. e ignorantíssimo. haja muito menos homens "cultos" que. O especialismo. o mais oposto ao homem-massa. O resultado mais imediato desse especialismo não compensado tem sido que hoje. cume de nossa atual civilização. em arte. A decadência de vocação científica que se observa nestes anos . para que possa continuar havendo investigadores.com estes nomes simboliza-se só a massa enorme de pensamentos filosóficos e psicológicos que influíram em Einstein . Por outra parte. simplesmente. e é claro. como devem estar organizados a sociedade e o coração do homem. E o pior é que com esses perdigueiros do forno científico nem sequer está garantido o progresso íntimo da ciência. financistas. E. e em grande parte constituem o império atual das massas. e só poderá salvá-la uma nova enciclopédia mais sistemática que a primeira. pois.especialismo .e. produziu esse broto de primitivismo e barbárie. Mas se o especialista desconhece a fisiologia interna da ciência que cultiva. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em 1750. Kant e Mach . e sua barbárie é a causa mais imediata da desmoralização européia. com efeito. na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os "homens de ciência". Eles simbolizam. de não se submeter a instâncias superiores que reiteradamente apresentei como característica do homem-massa. etc. petulância de quem na sua questão especial é um sábio. nas outras ciências tomará posições de primitivo. Newton pode criar seu sistema físico sem saber muita filosofia. A advertência não é vaga.é um sintoma preocupador para todo aquele que tenha uma idéia clara do que é civilização. mas as tomará com energia e suficiência. significam o mais claro e preciso exemplo de como a civilização do último século abandonada à sua própria inclinação. este é o comportamento do especialista. sem admitir . depois deles.A rebelião das massas. Também ele acredita que a civilização está aí. Mas Einstein não é suficiente. mas Einstein precisou saturar-se de Kant e de Mach para poder chegar a sua aguda síntese. cada vez mais difícil.e isto é o paradoxal . que cada vez complica regiões mais vastas do saber total. professores. nos usos sociais.

constituída pelas minorias excelentes. muito mais incomovível que as leis da física de Newton. Veio ao mundo para ser dirigida. influída. a única doutrina. rebelar-se contra seu próprio destino. já que a América é de certo modo o paraíso das massas. ao modo dos estrúcios para ver se consegue não ver tão radiante evidência. mas este impõe file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em rebelar-se contra si mesmo. afinal de contas. O MAIOR PERIGO. pois. XIII. as ondas a cospem nas costas da retórica. Refiro-me ao perigo maior que hoje ameaça a civilização européia. Porque no final das contas a única coisa que substancialmente e com verdade pode chamar-se é a que consiste em não aceitar cada qual seu destino. Discuta-se quanto se queira quem são os homens excelentes. os retóricos. mas numa lei da "física" social. a rebelião do arcanjo Luzbel não o houvera sido menos se em vez de empenhar-se em ser Deus . pois. fá-lo só de uma maneira. Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si. organizada . Tal é a sua missão.até para deixar de ser massa. os inanes. com uma réplica do que no capítulo anterior se disse sobre a ciência: a fecundidade de seus princípios a propelem a um fabuloso progresso. é que é um homem excelente. é que é um homem-massa e necessita recebê-la daquele. no mínimo. e como isso é o que faz agora.a humanidade não existiria no que tem de mais essencial. pelo menos.sejam uns ou outros . naufragou e morreu. compreender-se-á que o homem é. teria talvez preferido este último estilo de rebeldia. Há muito tempo que eu fazia notar este comércio da violência como norma (67). bem que em outra forma. A rigor. A retórica é o cemitério das realidades humanas. Necessita referir sua vida à instância superior.única coisa que pode salvá-la -.o que não era seu destino .se houvesse obstinado em ser o mais ínfimo dos anjos. a fazem sua. mas que sem eles . também este nasceu dela. Mas ainda quando não seja impossível que tenha começado a minguar o prestígio da violência como norma cinicamente estabelecida. é coisa sobre a qual convém que não haja dúvida alguma. continuaremos sob seu regime. O ESTADO Numa boa ordenação das coisas públicas. Nem muito menos poderá estranhar que agora. é o Estado contemporâneo. nada menos que palavra e conserva sempre algo de seu poder mágico. Porque não se trata de uma opinião fundada em fatos mais ou menos freqüentes e prováveis. triunfe a violência e se faça dela a única ratio. Se consegue por si mesmo encontrá-la. quando as massas triunfam.htm (63 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a massa é o que não atua por si mesma. Como todos os demais perigos que ameaçam esta civilização. À realidade sobrevive seu nome que.A rebelião das massas. Hoje chegou a seu máximo desenvolvimento. Pretender a massa atuar por si mesma é. como Tolstoi. falo eu da rebelião das massas. senão. seu hospital de inválidos. que não é mais nem menos contra Deus que o outro tão famoso). aspirar a isso -. Não é completamente casual que a lei de Lynch seja americana. pervive largamente. No dia em que volte a imperar na Europa uma autêntica filosofia (66) . Quando uma realidade humana cumpriu sua história. porque significa que automaticamente vai iniciar-se seu descenso. tenha ou não vontade disso. onde. Quando a massa atua por si mesma. representada. é. que tampouco o era. e isso é um bom sintoma. ou. um ser constitutivamente forçado a procurar uma instância superior. cadáver. embora leve a Europa todo um século metendo a cabeça debaixo da asa. Hoje é já a violência a retórica do tempo. porque não tem outra: lincha. Encontramo-nos. Mais ainda: constitui uma de suas glórias. ainda sendo sua palavra. (Se Luzbel tivesse sido russo.

Bem pouca coisa! O primeiro capitalismo e suas organizações industriais. E não certamente porque não houvesse motivos para elas. onipotente e grávida de tormentas. sentimentais. açoitado de todos os lados por uma ampla e revolta sociedade. Mas com todas essas virtudes do coração. Entediaram-se. Mas com a Revolução apossou-se do Poder público a burguesia e aplicou ao Estado suas inegáveis virtudes. muito menos poderoso que o de Luís XVI.A rebelião das massas. que acabou com as revoluções. navegava ao azar a "nave do Estado". Plantada no meio da sociedade. não foi mais que um golpe de Estado com máscara. e com isso. quer dizer. os nobres andavam. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. inexoravelmente a especialização. disciplinar. O enorme desnível entre a força social e a do poder público tornou possível a Revolução. mal de cabeça. coberto estupidamente de ferro. onde pela primeira vez triunfa a técnica. ao "cavalheiro". instintivos.de ordem pública e de administração -. mas. coisa que obriga à racionalização. Havia sido fabricada na Idade Média por uma classe de homens muito diferentes dos burgueses: os nobres. em compensação. a sociedade que o rodeava não tinha força nenhuma (69). basta tocar u'a mola para que atuem suas enormes alavancas e operem fulminantes sobre qualquer parte do corpo social. mais poderosa em número e potência que as preexistentes: a burguesia.tomando-as do Oriente ou outro lugar . Adeus revoluções para sempre! Já não cabe na Europa mais que o contrário: o golpe de Estado. Por isso não puderam desenvolver nenhuma técnica. em suma. antes de tudo e sobretudo uma coisa: talento. apenas tinha burocratas. "irracionais". Aquela nave era coisa de nada ou pouco mais: apenas tinha soldados. Em nosso tempo. e em pouco mais de uma geração criou um Estado poderoso. Sabia organizar. o "antigo regime" chega aos fins do século XVIII com um Estado fraquíssimo. a racionalizada. e a quem não ocorrera que o segredo eterno da guerra não consiste tanto nos meios de defesa como nos de agressão (segredo que Napoleão redescobriria) (68) Como o Estado é uma técnica . está claro. desde que começa a segunda geração de governos burgueses não há na Europa verdadeiras revoluções. apenas tinha dinheiro. deixaram que os burgueses . talento prático. Não inventaram a pólvora. dar continuidade e articulação ao esforço. Rememore-se o que era o Estado nos fins do século XVIII em todas as nações européias. intuitivos. Desde 1848. A nave do Estado é uma metáfora reinventada pela burguesia. gente admirável por sua coragem. que comparando a situação com a vigente em tempo de Carlos Magno. A mesma coisa acontece com o Estado. de uma maravilhosa eficiência pela quantidade e precisão dos seus meios. A desproporção entre o poder do Estado e o poder social é tal nesse momento. aparece o Estado do século XVIII como uma degeneração. De inteligência muito limitada. a nova técnica. O Estado carolíngio era.utilizassem a pólvora. mas porque não havia meios. que se sentia a si mesma oceânica. Sem eles não existiriam as nações da Europa. Incapazes de inventar novas armas. No meio dela. as revoluções (até 1848). sempre andaram. Nivelou-se o Poder público com o poder social. Uma nova classe social apareceu. o Estado chegou a ser máquina formidável que funciona prodigiosamente. como num oceano. E tudo que com posterioridade pode dar-se ares de revolução.htm (64 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . haviam produzido um primeiro crescimento da sociedade. Esta burguesia sem mérito possuía. e a especialização ameaça afogar a ciência. ganharam a batalha ao guerreiro nobre. por seu sentido de responsabilidade. automaticamente. por seu dom de mando. Viviam da outra víscera. que apenas podia mover-se na lida.

Mas. o Estado se sobrepõe. depois de sugar a medula da sociedade. A riqueza diminui e as mulheres parem pouco. Esta burocratização em segunda potência é a militarização da sociedade. O resultado desta tendência será fatal. precatar-se da atitude que ante ele adota o homem-massa. curiosa coincidência. nutre e impele os destinos humanos. para a máquina do Governo. a anulação da espontaneidade histórica. A espontaneidade social ficará violentada uma vez e outra pela intervenção do Estado. antes de tudo. produtor de segurança (a segurança de que nasce o homem-massa. Quando a massa sente uma desventura.que o perturbe em qualquer ordem: em política. Faltam até soldados. apenas chegou a seu pleno desenvolvimento. como um utensílio.A rebelião das massas. mas não tem consciência de que é uma criação humana inventada por certos homens e mantida por certas virtudes e por certo que houve ontem nos homens e que pode evaporar-se amanhã. esquelético. Este o vê. Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatificação da vida. Depois dos Severos. começa a decair o corpo social. ficará héctico. Faina vã! A miséria aumenta. força mais a burocratização da existência humana. quer dizer. Estado contemporâneo e massa coincidem só em ser anônimos. exército. que em definitivo sustenta. e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto. muito mais cadavérica que a do organismo vivo. Imagine-se que sobrevem na vida pública de um país qualquer dificuldade. seu exército. E é muito interessante. E como no final das contas não é senão u'a máquina cuja existência e manutenção dependem da vitalidade circundante que a mantenha. Já nos tempos dos Antoninos (século II) o Estado gravita com uma antivital supremacia sobre a sociedade. é uma grande tentação para ela essa permanente e segura possibilidade de conseguir tudo . militarizam o mundo. Mas o caso é que o homem-massa crê. o Estado. admira-o.sem esforço. cria. ou simplesmente algum forte apetite. é revelador. conflito ou problema: o homem-massa tenderá a exigir que imediatamente o assuma o Estado. em idéias. com efeito. e a sociedade tem de começar a viver para o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A vida toda se burocratiza. o intervencionismo do Estado. Este foi o signo lamentável da civilização antiga. sabe que está aí. a não poder viver mais que em serviço do Estado. O Estado é a massa só no sentido em que se pode dizer de dois homens que são idênticos porque nenhum dos dois se chama João. A urgência maior do Estado é seu aparato bélico.htm (65 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não se esqueça). Não há dúvida que o Estado imperial criado pelos Júlios e os Cláudios foi u'a máquina admirável. Esta começa a ser escravizada. de origem africana. Então o Estado. morto com essa morte ferrugenta da máquina. que se encarregue diretamente de resolvê-lo com seus gigantescos e incontrastáveis meios. em indústria. incomparavelmente superior como artefato ao velho Estado republicano das famílias patrícias. a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado. luta. Por isso é. e como ele se sente a si mesmo anônimo vulgo -. Depois. Adverte-se qual é o processo paradoxal e trágico do estatismo? A sociedade. o Estado. o homem. as matrizes são cada vez menos fecundas. A sociedade terá de viver para o Estado. a esmagar com ele toda minoria criadora que o perturbe . crê que o Estado é coisa sua.em todas as ordens -. o exército tem de ser recrutado entre estrangeiros. para subvencionar suas próprias necessidades. antes de tudo. dúvida nem risco . que ele é o Estado. Os Severos. O Estado é. O Estado contemporâneo é o produto mais visível e notório da civilização. garantindo sua vida. para viver melhor. Que acontece? A burocratização da vida produz sua diminuição absoluta . o homem-massa vê no Estado um poder anônimo.apenas ao premir a mola e fazer funcionar a portentosa máquina. nenhuma nova semente poderá frutificar. o que é um perfeito erro. A massa diz a si mesma: "o Estado sou eu". Por outra parte.

vão contentar-se com impor sempre o que aquelas queiram. de gente com a qual não tem nada que ver. a estar submetido a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a nova indústria começa a criar um tipo de homem . Mussolini encontrou um Estado admiravelmente construído . pelas mesmas causas. germanos. Governam os conservadores. é indiscutível que os resultados obtidos até o presente não podem ser comparados aos obtidos na função política e administrativa pelo Estado liberal. considerando-a como resgate da liberdade". Ele se limita a usá-lo incontinentemente. máquina anônima. naturalmente. Por muito habitual que nos seja. o Estado se compõe ainda dos homens daquela sociedade. necessita. nada fora do Estado. até onde se possa. o crime. Através e por meio do Estado.o obreiro industrial . "As pessoas conformam-se em se adaptar à desordem. um aumento da criminalidade.têm uma Polícia admirável. A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina que é o Estado. O estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação direta constituídas em normas. uma Polícia que regule a circulação.não por ele. nada contra o Estado. O andaime se torna proprietário e inquilino da casa. que dificilmente equilibra a acumulação de poderes anormais que lhe consentem empregar aquela máquina em forma extrema. Em 1810 surge na Inglaterra. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. O inevitável é que acabem por definir e decidir elas a ordem que vão impor .A rebelião das massas. e. e os restos da sociedade.htm (66 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . como um prodigioso descobrimento feito agora na Itália. Se algo conseguiu. dálmatas. têm de viver escravo deles. Bastaria isso para descobrir no fascismo um típico movimento de homens-massa. pouco visível e nada substantivo. Mas é uma inocência das pessoas de "ordem" pensar que essas "forças de ordem pública". Quando se sabe disso. no final das contas. e extinguir assim definitivamente o porvir? Um exemplo concreto deste mecanismo achamo-lo num dos fenômenos mais alarmantes destes últimos trinta anos: o aumento enorme em todos os países das forças de Polícia. problemas econômicos.mais criminoso que os tradicionais. é tão miúdo. O esqueleto come a carne que o rodeia. mas pagam caro suas vantagens. Entretanto. Como não temer que sob o império das massas se encarregue o Estado de esmagar a independência do indivíduo. depois. Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma ou outra sociedade. para caminhar pacificamente e atender a seus negócios. Estado (70). as massas atuam por si mesmas. não deve perder seu terrível paradoxismo ante nosso espírito o fato de que a população de uma grande urbe atual. sobressalta um pouco ouvir que Mussolini apregoa com exemplar petulância. Quando. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road. jurídicos e de ordem pública sobremodo árduos. a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. Os estrangeiros tornaram-se donos do Estado. sem remédio. "Em Paris escreve John William Ward . do grupo. criadas para a ordem. o que lhes convenha. Mas. Preferem agüentar. mas precisamente pelas forças e idéias que ele combate: pela democracia liberal -. As nações européias têm diante de si uma etapa de grande dificuldade em sua vida interior. estes não bastam para sustentar o Estado e é preciso chamar estrangeiros: primeiro. O crescimento social obrigou iniludivelmente a isso.e que será. sem que eu me permita agora julgar os detalhes de sua obra. do povo inicial. e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. a fórmula Tudo pelo Estado. em 1800.

Por isso. Esse tem sido o papel do grupo homogêneo formado pelos povos europeus durante três séculos. A Europa mandava. Portanto. o fato desta rebelião apresenta um aspecto ótimo. de coação física. Esse estilo de vida sói denominar-se "Idade Moderna". olhada por esse lado a rebelião das massas é uma e mesma coisa com a desmoralização radical da humanidade. mas.do homem e de seu espírito -. pelo menos as mais ordinárias e palmares.A rebelião das massas. pelo menos. O inglês quer que o Estado tenha limites. Mas o reverso do mesmo fenômeno é tremebundo.tenho repetido uma e outra vez . pelo contrário. QUEM MANDA NO MUNDO? A civilização européia . Já não há pedaço de humanidade que viva à parte . desde aquele século pode dizer-se que quem manda no mundo exerce. No tempo de Milcíades. nome incolor e inexpressivo sob o qual se oculta esta realidade: época da hegemonia européia. e sob sua unidade de mando o mundo vivia com um estilo unitário. SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV. a mais importante. ou.não há ilhas de humanidade -. Nestes casos teríamos que estabelecer nossa pergunta: "Quem manda no mundo?" a cada grupo de convivência. efetivamente. o mundo mediterrâneo ignorava a existência do mundo extremo oriental. uma de nossas primeiras perguntas deve ser esta: "Quem manda no mundo atualmente?" Poderá ocorrer que neste momento a humanidade esteja dispersa em vários pedaços sem comunicação entre si. ao aparecermos a um tempo com ânimo de compreendê-lo. Entre estas últimas. tem à sua disposição esse aparato ou file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Por seu anverso. Por "mando" não se entende aqui primordialmente exercícios de poder material. progressivamente unificado. que em nossos dias chegou a seu término insuperável. quase sem dúvida. visitas domiciliárias. Mas este traz consigo uma deslocação do espírito. que formam mundos interiores e independentes. Ora bem: essa relação estável e normal entre homens que se chama "mando" não descansa nunca na força. é a deslocação do poder. à espionagem e a todas as maquinações de Fouché (71) "São duas idéias diferentes do Estado. Mas desde o século XVI entrou a humanidade toda num processo gigantesco de unificação. porque um homem ou grupo de homens exerce o mando.htm (67 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Olhemos esta agora de vários pontos de vista. I A substância ou índole de uma nova época histórica é resultante de variações internas .padeceu automaticamente a rebelião das massas. já o dissemos: a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o crescimento fabuloso que a vida humana experimentou em nosso tempo. seu influxo autoritário em todo ele. Porque aqui aspira-se a evitar estupidezes.

Pois até quem pretende governar com os janízaros depende da opinião destes e da que tenham sobre estes os demais habitantes. Por isso. Deste modo lutam dois poderes igualmente espirituais que. nem a ciência histórica seria possível. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes. Isso nos faz cair na conclusão de que mando significa prepotência de uma opinião. outra coisa senão poder espiritual. e então chega-se a uma fórmula que é o conhecido. O Estado é. sustentou esta agressão durante algum tempo. O qual se funda sempre na opinião pública . máquina social que se chama "força". Da Igreja aprende o Poder político que ele também não é originariamente senão poder espiritual. O Estado ou Poder público primeiro que se forma na Europa é a Igreja . O mando é o exercício normal da autoridade. convém ter em conta esses casos de ausência. Trono. mas o fato de que a opinião pública é a força radical que nas sociedades humanas produz o fenômeno de mandar. não dá lugar a que se constitua um mando. revelam-se ante uma inspeção ulterior como os melhores exemplos para confirmar aquela tese. na física de Newton a gravitação é a força que produz o movimento. E isso porque tinha a força e precisamente porque só tinha a força. convêm no acordo de se instalar cada um em um modo de tempo: o temporal e o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e o religioso é a forma primeira sob a qual aparece sempre o que depois vai ser espírito. entre os ingleses como entre os botocudos -.A rebelião das massas." E mandar não é atitude de arrebatar o poder. Jamais alguém mandou na terra nutrindo seu mando essencialmente de outra coisa que não fosse a opinião pública. Sem ela. no final das contas. Napoleão dirigiu à Espanha uma agressão. A verdade é que não se manda com os janízaros. se se quer expressar com toda a precisão a lei da opinião pública como lei da gravitação histórica. cadeira curul. Ou acredita-se que a soberania da opinião pública foi um invento feito pelo advogado Danton em 1789 ou por S. idéia. opinião.sempre.htm (68 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mandar é sentar-se. banco azul. O que sucede é que às vezes a opinião pública não existe. venerável e verídico lugar comum: não se pode mandar contrariando a opinião pública. e cria-se o Sacro Romano Império. Convém distinguir entre um fato ou processo de agressão e uma situação de mando. de que mando não é. longe de ser uma aspiração utópica. de um espírito. pois. hoje como há dez mil anos.com seu caráter específico e já nominativo de "poder espiritual" -. o estado da opinião: uma situação de equilíbrio. sede. Tomás de Aquino no século XIII? A noção desta soberania terá sido descoberta aqui ou ali. Assim. Sire. Todo mando primitivo tem um caráter "sacro". de estática. em suma. Na Idade Média se reproduz com formato maior o mesmo fenômeno. menos uma coisa: sentar-se sobre elas. Os fatos históricos confirmam isso escrupulosamente. em definitivo. mas não mandou propriamente na Espanha nem um dia sequer. Em suma. avança esta como substituta daquela. é coisa tão antiga e perene como o próprio homem. E como a Natureza tem horror ao vácuo. portanto. nesta ou naquela data. poltrona ministerial. o imaterial e ultra-físico. é o que pesou sempre e a toda hora nas sociedades humanas. Em suma. vigência de certas idéias. porque se funda no religioso. o mandar não é tanto questão de punhos como de nádegas. Contra o que uma ótica inocente e folhetinesca supõe. não podendo diferenciar-se na substância ambos são espírito -. cuja força de opinião fica reciprocamente anulada. E a lei da opinião pública é a gravitação universal da história política. Talleyrand a Napoleão: "Com as baionetas. Os casos em que à primeira vista parece ser a força o fundamento do mando. pode-se fazer tudo. esse oco que deixa a força ausente de opinião pública enche-se com a força bruta. Por isso muito agudamente insinua Hume que o tema da história consiste em demonstrar como a soberania da opinião pública. mas tranqüilo exercício dele. Assim.

como através de uma quadrícula. Nestas jornadas de após-guerra começa a dizer-se que a Europa não manda mais no mundo. e tudo isso em grande escala. Por isso representam sempre um relativo caos e uma relativa barbárie. cometemos deliberadamente. a grande mandona. Tanto vale. Isto nos proporciona um esquema.htm (69 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . se odeia. a convivência humana seria o caos. e a pura verdade é que nosso file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. se anseia. opina-se pouco. só então. Por isso é preciso que o espírito . um erro. Quando ao ver chegar nosso amigo pela vereda do jardim dizemos: "Este é Pedro». aspirações.tenha poder e o exerça. olhamos depois a efetiva realidade. conseguimos uma visão aproximada dela.o que chamamos "caráter" -. é ao mesmo uma mudança de opiniões. como na Moderna.opine. dizer: em tal data manda tal homem.e é a maioria . tal povo ou tal grupo homogêneo de povos. Porque Pedro significa para nós um esquemático repertório de modos de se comportar física e moralmente . de organicidade. para que a gente que não opina . pois. e. e é preciso que esta lhe venha de fora a pressão. A pretensão de dizer o que é que acontece agora no mundo deve ser entendida. Mas nos grandes tempos a humanidade vive da opinião.A rebelião das massas. a vida dos homens careceria de arquitetura.a opinião de Deus. eterno. a que Deus tem sobre o homem e seus destinos. E paralelamente. nada menos que uma mudança de gravitação histórica. Ela pôs ordem no Mediterrâneo e confinantes. Poder temporal e poder religioso são identicamente espirituais. menos ainda: o nada histórico.seja qual seja . Durante vários séculos mandou no mundo a Europa. toda mudança de imperantes. propósitos. sem um poder espiritual. consequentemente. Mas. Voltemos agora ao começo. infinidade de coisas. se repugna. quer dizer. agora. Mas assim como é impossível conhecer diretamente a plenitude do real. toda deslocação de poder. Como há de se entender este predomínio? A maior parte dos homens não têm opinião. É o que aconteceu em todas as idades médias da história. portanto. pois. não temos mais remédio senão construir arbitrariamente uma realidade. mas um é espírito do tempo opinião pública intramundana e cambiante -. Tempos assim não carecem de delícias. e por isso há ordem. como entra o lubrificante nas máquinas. e então. em compensação. como dizer: em tal data predomina no mundo tal sistema de opiniões . Para onde se dirige? Quem vai suceder a Europa no mando do mundo? Mas há mesmo certeza de que alguém vai suceder à Europa? E se não fosse ninguém. reina na humanidade o caos. e na medida que isso seja necessário. supor que as coisas são de certa maneira. e. Na Idade Média não mandava ninguém no mundo temporal.idéias. Adverte-se toda a gravidade deste diagnóstico? Com ele anuncia-se uma deslocação do poder. Com ele. sem alguém que mande. Do outro lado da Idade Média achamos novamente uma época em que. Nisto consiste o método científico. embora sobre uma porção limitada do mundo: Roma. manda alguém. ironicamente. Sem opiniões. um déficit de opinião. que aconteceria? II A pura verdade é que no mundo acontece a todo instante. Mais ainda: nisto consiste todo uso do intelecto. um conceito ou entretecido de conceitos. preferências. um conglomerado de povos com um espírito afim. São tempos em que se ama. enquanto o outro é espírito de eternidade . Sem opiniões. Por isso. como ironizando-se a si mesma.

o mais vulgar como o mais técnico. que eu saiba. a que tal suspeita ou preocupação preexistia em todas as cabeças. como o geométrico diamante vai implícito na dentadura de ouro de seu engaste. O que verdadeiramente pensa é isto: eu sei que. mais ainda: tem de paralisar seu intelecto e ver a maneira de idiotizar-se. Por isso. Reduzir a fórmula tão simples a infinitude de coisas que integram a realidade histórica atual. é sem dúvida e no melhor caso uma exageração. Quem prefira não exagerar deve calar-se. contrariamente. Vida é luta com as coisas para sustentar-se entre elas. se revisamos a sua luz todo o passado da filosofia até Kant. mas que resume o que um homem pode fazer com essa coisa ou padecer dela. se se escruta bem a entranha última de qualquer conceito. com efeito. nem a outra é B. o conceito. queira-se ou não. a meu juízo. mas é. e esta outra coisa é B. Esta opinião taxativa. estritamente. Tampouco estão certos disso. falando com todo rigor. Eu ia dizer simplesmente que o que agora acontece no mundo . Porque o grego acreditou haver descoberto na razão. o término indefectível do processo filosófico que se inicia com Kant. como é notório. a realidade mesma. mas. no conceito. eu me entendo comigo mesmo para os efeitos de meu comportamento vital diante de uma ou de outra coisa. Ele diz muito seriamente: "Esta coisa é A. Nós.htm (70 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . nos entredentes de um sorriso tranqüilo. vai incluso na ironia de si mesmo. Falou-se muito nestes anos da decadência da Europa. com os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.é exclusivamente isto: durante três séculos a Europa mandou no mundo. acha-se que não nos diz nada da coisa mesma. admitindo que são A e B. É a seriedade instável de quem engoliu uma gargalhada e se não aperta bem os lábios a vomita. A isto corresponde nos demais povos da Terra um estado de espírito congruente: duvidar de se agora são mandados por alguém. amigo Pedro não se parece. e que tudo o mais é conseqüência. esta coisa não é A. e eu necessitava por isso recordar que pensar é. em certos momentos. o histórico . Mas semelhante intróito é desmesurado para o que vou dizer. Creio. sem reservas. mas. sobre se amanhã mandará. sustentada por ninguém. é sempre ação possível. O que o conceito pensa a rigor é um pouco outra coisa que o que diz. que este necessita e usa para esclarecer sua própria situação em meio da infinita e arqui-problemática realidade que é sua vida. exagerar. e o êxito de seu livro deveu-se. e agora a Europa não está convicta de mandar nem de continuar mandando. todo descobrimento filosófico não é mais que um descobrimento e um trazer à superfície o que estava no fundo. Esta teoria do conhecimento da razão houvera irritado a um grego. acreditamos que a razão. Ora bem. tão alheio a problemas filosóficos. nem aquela B. sintoma ou anedota disso. todo o mundo falava disso. que nestes anos a Europa sente graves dúvidas sobre se manda ou não. condição. em quase nada à idéia "nosso amigo Pedro". que é aquilo que realmente está acontecendo no mundo. à valentona. e nesta duplicidade consiste a ironia." Mas é a sua a seriedade de um pince-sans-rire. Por isso. segundo a qual o conteúdo de todo conceito é sempre vital. parecer-nos-á que no fundo todos os filósofos disseram a mesma coisa. Os conceitos são o plano estratégico que nos formamos para responder a seu ataque. ou padecimento possível de um homem.entende-se. é um instrumento doméstico do homem.A rebelião das massas. Eu não disse que a Europa tenha deixado de mandar. Ele sabe muito bem que nem esta coisa é A. Todo conceito. Antes de que seu livro aparecera. não foi até agora. Eu suplico fervorosamente que não se continue cometendo a ingenuidade de pensar em Spengler simplesmente porque se fale da decadência da Europa ou do Ocidente. assim.

Para superá-las é imprescindível parir outras. de modo algum. de ficar de cabeça para baixo.A rebelião das massas. Redescobrimento da América. Mas são. fica de cabeça para baixo. o fenômeno também se produza quando olhamos o conjunto das nações. longe disso. Cada um sente a delícia de evadir-se da pressão que a presença do mestre impunha. segundo se diz. a turba parvular não tem um afazer próprio. sem programa de vida. uma ocupação formal. se põe na ponta dos pés a increpar a Europa e declarar sua cessação na história universal.htm (71 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . ao rebelar-se. É verdadeiramente cômico contemplar como esta ou a outra republiqueta. minorias de estirpes humanas que organizaram a história. Ora. e para encher o tempo entregam-se à cabriola. Qual é o resultado? A Europa havia criado um sistema de normas cuja eficácia e fertilidade os séculos demonstraram. E uma paisagem de exemplar puerilidade a que agora oferece o mundo. À vista de que. que lhe vai servir de formidável premissa. continuidade e trajetória. E como ele fazem muitas pessoas. povos inteiros. ficam sem tarefa. Não obstante. Era natural que se esse modo de ser predomina dentro de cada povo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que muitos chegaram a dá-la como um fato. portanto. cada nação e naçãozinha brinca. mas que se habituaram a dá-lo como certo. embora não recordem sinceramente haver-se convencido resolutamente disso em nenhuma data determinada. consequentemente só pode executar uma só coisa: a cabriola. deixa de mandar. apoia-se integralmente no suposto de que a Europa agoniza. nem sequer levantou tal questão. Sem mais averiguações. Falou-se tanto da decadência européia. os povos-massa resolveram dar como caduco aquele sistema de normas que é a civilização européia. quando alguém notifica que o mestre saiu. Esta é a primeira conseqüência que sobrevem quando no mundo deixa de mandar alguém: que os demais. dando-se ares de pessoa maior que rege seus próprios destinos. O recente livro de Waldo Frank. a Europa decai e. nem faz questão de tão enorme fato. mas como são incapazes de criar outro. É deplorável o frívolo espetáculo que os povos menores oferecem. parte dele como de algo inconcusso. de sentir-se dono do próprio destino. Não que acreditavam a sério e com evidência nele. sentidos e pelas razões mais heterogêneas. gesticula. e fiz notar que sua principal característica consiste em que. Daí o vibriônico panorama de "nacionalismos" que se nos oferece por toda a parte. como tirada a norma que fixava as ocupações e as tarefas. Os lugares comuns são os bondes do transporte intelectual. Sobretudo. povos-massa resolvidos a rebelar-se contra os grandes povos criadores. fazem-no os povos. Estas normas não são. proclama o direito à vulgaridade e nega-se a reconhecer instâncias superiores a ele. Toma-a como um bonde. as melhores possíveis. Nos capítulos anteriores tentei filiar um novo tipo do homem que hoje predomina no mundo: chamei-o homem-massa. entesa-se. a turba parvular faz bagunça. E esta ingenuidade no ponto de partida basta-me para pensar que Frank não está convencido da decadência da Europa. sem dúvida. desde seu perdido rincão. sentindo-se vulgar. uma tarefa com sentido. de sacudir os jugos das normas. Também há. não sabem o que fazer. definitivas enquanto não existam ou se divisem outras. Frank nem analisa nem discute. Na escola. relativamente. Mas.

Durante uma temporada. metê-las em seu destino. Por Europa entende-se. a qual sói ser vacância. III O cigano foi se confessar. e em vista disso. Os inferiores pensam que lhes tiraram um peso de cima. Porque existiam só os europeus. as pessoas . Isso seria o admitido. a trindade França. Sem mandamentos que nos obriguem a viver de um certo modo. mas porque já está aí um princípio novo. Um automóvel envelhece em dez anos mais do que uma locomotiva em vinte. como uivo de cães inumeráveis.é cumprir um encargo -. Quem manda é. mas o padre. Uma vida em disponibilidade é maior negação que a morte. Alemanha. sem remissão. Mas não há sombra de tal. A mesma coisa acontece com os artefatos. Ao que o cigano respondeu: "Olhe aqui. com inconsciência de crianças. ao dissociar-se do resto. esta desmoralização diverte e até vagamente ilude.deixa de mandar. antes de tudo e propriamente.A rebelião das massas. eu ia aprender isso. não seríamos velhos ou levaríamos mais tempo a sê-lo. Todo o mundo . e não se vê quem possa substituí-la. Não é essa a situação presente do mundo? Corre o zum-zum de que não vigorem mais os mandamentos europeus. como agora se diz. simplesmente porque os inventos da técnica automobilística têm ocorrido com mais rapidez. A rigor. e aproveitam com ar festivo este tempo de pesados imperativos. quem tem o encargo. Os mandamentos europeus perderam vigência sem que se vislumbrem outros no horizonte. Porque viver é ter que fazer algo determinado . Vá isto dito para os que. A etimologia de mandar significa carregar.homens e povos . que subirá. Esta descendência oriunda do broto de novas juventudes é um sintoma de saúde. desolação. fica nossa vida em pura disponibilidade. impedir sua extravagância. Mais ainda: o velho advém velho não por sua senectude. não é de estranhar que o mundo se desmoralize. Dentro de pouco ouvir-se-á um grito formidável em todo o planeta.nações. perderam seu sentido. Mandar é dar ocupação às gentes. causa file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. começou por interrogá-lo sobre os mandamentos de Deus. precavido. até as estrelas. Se. e na medida em que iludamos pôr em algo nossa existência desocupamos nossa vida. De puro sentir-se livres.está desmoralizado. esses três povos estão em decadência e seu programa de vida perdeu validez. nos anunciam que a Europa já não manda. pôr em alguém algo nas mãos.aproveitam a ocasião para viver sem imperativos. indivíduos . sentem-se vazias. que apenas com sua novidade avantaja-se de repente ao preexistente. Se não tivéssemos filhos. isentas de entraves. São um e outro duas parcelas do mandamento europeu que. pedindo alguém e algo que mande. Os inferiores do mundo inteiro já estão fartos de que os encarreguem e sobrecarreguem. mas depois ouvi um zum-zum de que tinha perdido o valor". E esta é a pura verdade. Mas a festa dura pouco. Os decálogos conservam do tempo em que eram inscritos sobre pedra ou bronze seu caráter de pesadume. vida vazia. Não importaria que a Europa deixasse de mandar se houvesse alguém capaz de substituí-la. A Europa . Nova York e Moscou não são nada novo com respeito à Europa. Na região do globo que elas ocupam amadureceu o módulo de existência humana conforme ao qual foi organizado o mundo. Não se trata de que .como outras vezes aconteceu uma germinação de normas novas substitui as antigas e um fervor novíssimo absorva em seu fogo jovem os velhos entusiasmos de minguante temperatura.diz-se .htm (72 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas o que agora acontece na Europa é coisa insalubre e estranha. Inglaterra. seu padre. em seu eixo. Esta é a horrível situação íntima em que se encontram já as juventudes melhores do mundo. que imponha um afazer ou obrigação.

A técnica é inventada pela Europa durante os séculos XVIII e XIX. Que casualidade! Outro invento europeu. quer dizer. como podia haver-se posto a serviço do budismo se este fosse a ordem do dia. é sempre dupla. O jovem não necessita de razões para viver. aparente. Os povos novos não têm idéias.de uma idade diferente da nossa. Exemplo: o egípcio ou o chinês. Só se pode livrar da equivocação que produz a camouflage quem saiba de antemão. mas oblíqua. cujas águas estavam impregnadas de civilização greco-oriental. juvenil. Que o marxismo tenha triunfado na Rússia . por essência. mas . traduz a sua própria linguagem o vocábulo exótico. E a sério nos dizem que a essência da América é sua concepção praticista e técnica da vida! Em vez de nos dizer: A América é. A mesma coisa acontece com o espelhismo. uma repristinação ou rejuvenescimento de raças antigas. Debaixo dela há um povo. Mas não há tal contradição. que cresce em pleno Mediterrâneo. sobretudo da Europa. A Rússia é marxista aproximadamente como eram romanos os tudescos do Sacro Império Romano. quando é uma coisa tão efetiva como a juventude de um homem. e em geral. Daí que para entender as camouflages seja mister também um olhar oblíquo: o de quem traduz um texto com um dicionário ao lado. Mas a América não faz com isso senão começar sua história. porque não há tal triunfo. e não o que tem de comunista. Um povo ainda em fermento.que há dois grandes tipos de evolução para um povo.o que importa muito mais . Em última instância reduz-se a este: a técnica. Mas há outros povos que germinam e se desenvolvem num âmbito ocupado já por uma cultura de história anosa. só necessita de pretextos. outra. Quando crescem num âmbito onde existe ou acaba de existir uma velha cultura. efetiva. uma realidade que não é a que parece. Mas ainda sem saber plenamente o que são. Esquece-se .o marxismo . e suas atitudes têm um sentido claro e direto. E a atitude aprendida. o autêntico. Porque não se sabe com plenitude o que são: só se sabe que nem sobre um nem sobre outro se disseram palavras decisivas. Assim.onde não há indústria . Agora vão começar suas angústias. Porque carece ainda de mandamentos necessitou fingir sua adesão ao princípio europeu de Marx. o que tem de russo. substancial. sua substância. horror falar de Nova York e de Moscou. A camouflage é. e sua verdadeira significação não é direta. Em virtude de razões diferentes da Rússia. por exemplo. em vez de declarar. mas aprendidas. Em todo fato de camouflage histórica há duas realidades que se superpõem: uma. Também é um erro atribuir sua força atual aos mandamentos a que obedece. não só diferente como matéria étnica do europeu. como sempre as colônias. Quem faz um gesto aprendido . Eu espero um livro em que o marxismo de Stalin apareça traduzido à história da Rússia. pertencem de cheio ao que algumas vezes chamei "fenômenos de camouflage histórica". disfarçam-se na idéia que esta lhes oferece. Coisa muito semelhante acontece com Nova York. Vá lá saber o que será! O único que cabe afirmar é que a Rússia necessita de séculos ainda para optar ao mando. Há o povo que nasce em um "mundo" vazio de toda civilização. Seu aspecto oculta. Num povo assim. não americano. profunda. Daqui que a metade das atitudes romanas não sejam suas. suas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Supõe-se que isso seja uma frase. Porque isso. recebida. Porque lhe sobra juventude bastou-lhe essa ficção. alcança-se o bastante para compreender seu caráter genérico. os Estados Unidos significam também um caso dessa específica realidade histórica que chamamos "povo novo". acidental e de superfície. tudo é autóctone.como notei várias vezes .seria a contradição maior que podia sobrevir ao marxismo. em Moscou há uma película de idéias européias . que a camouflage existe. um vocábulo de outro idioma .por exemplo.htm (73 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Assim Roma. com efeito. Ambos. Que casualidade! Os séculos em que a América nasce. que se pôs a serviço do mandamento contemporâneo "técnica". A América é forte por sua juventude. Aqui está a camouflage e sua razão.faz por baixo dele o seu gesto. é o que tem de forte.A rebelião das massas. O conceito corrige os olhos.pensadas na Europa em vista de realidades e problemas europeus. Por isso engana a maior parte das pessoas.

por isso a evito. cabe coligir sem mais dados como anda em seu país a consciência de mando e obediência. Enquanto isso persistir em nosso país. tudo o mais marchará impura e torpemente. Até a mais íntima intimidade de cada indivíduo. de acanalhamento que no homem médio do nosso país produz o fato de ser a Espanha uma nação que vive há séculos com uma consciência suja na questão de mando e obediência. é vão esperar nada dos homens de nossa raça. Todas as nações atravessaram jornadas em que aspirou a mandar sobre elas quem não devia mandar. uma simples vacilação sobre file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A América conta menos anos que a Rússia. como é social em sua mais elementar estrutura. talvez permanecesse intacto de tais repercussões. seus conflitos. Como não é possível converter em sã normalidade o que em sua essência é criminoso e anormal. é ilusório pensar que possa possuir as virtudes do mando. em seu Redescobrimento da América. ficará perturbada e falsificada. não obstante. Daí que se tomamos à parte um indivíduo e o analisamos. nada de estranho em que bastasse uma ligeira dúvida. Mas. do Poder. a pluralidade européia substituída por uma formal unidade? IV A função de mandar e obedecer é a decisiva em toda sociedade. é constitutivamente fraudulento. Como ande nesta turvação a questão de quem manda e quem obedece. abdique? Não será esta aparente decadência a crise benfeitora que permita à Europa ser literalmente Europa? A evidente decadência das nações européias. A América ainda não sofreu. não era a priori necessária se algum dia haviam de ser possível os Estados Unidos da Europa. Mas faria ver a enorme dose de desmoralização íntima. embora útil. e que. o indivíduo opta por adaptar-se ao indevido. fazendo-se totalmente homogêneo com o crime ou irregularidade que arrasta. fica transtornado em sua índole privada por mutações que a rigor só afetam imediatamente à coletividade. Fora interessante e até útil submeter a este exame o caráter individual do espanhol médio. cujo império ou mando. Mas o espanhol fez o contrário: em vez de opor-se a ser imperado por quem sua íntima consciência rechaçava. o declara francamente. preferiu falsificar todo o resto de seu ser para o acomodar àquela fraude inicial. Em um mecanismo parecido ao que o adágio popular enuncia quando diz: "Uma mentira faz cento". tem de retroceder ao ponto de partida e perguntar-se a sério: É tão certo como se diz que a Europa está em decadência e resigne o mandato. Ainda tem de ser muitas coisas. O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação como estado habitual e constituído de uma irregularidade. enfadonha. portanto. A operação seria. sustentei que era um povo primitivo camuflado pelos últimos inventos (72). mas um forte instinto lhes fez concentrar ao ponto suas energias e expelir aquela irregular pretensão de mando. dissenções. Eu sempre.A rebelião das massas. de algo que enquanto se aceita continua parecendo indevido. Não há. salvas geniais exceções. oriundas dos deslocamentos e crises do imperar. e.htm (74 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Rechaçaram a irregularidade transitória e reconstituíram assim sua moral pública. deprimente. Agora Waldo Frank. algumas as mais opostas à técnica e ao praticismo. Se o homem fosse um ser solitário que acidentalmente se acha travado em convivência com outros. o mundo histórico volta ao caos. Não pode ter vigor elástico para a difícil faina de sustentar-se com decoro na história uma sociedade cujo Estado. entre elas. pois. com medo de exagerar. Quem evite cair na conseqüência pessimista de que ninguém vai mandar.

é algo a que ponho esta e que por isso mesmo está fora dela. no final das contas. ficou sem empresa para si e para os demais. A vida humana. Não convém. Hoje é uma coisa. embarcar na opinião trivial que crê ver na atuação dos grandes povos . Sucede o mesmo a cada povo. Não se manda em seco. Por um lado. Se fosse isto só. mas manda-se-lhe algo. tem de estar posta em algo. Todos os imperativos. Não se esqueça que mandar tem duplo efeito: manda-se em alguém. Estes anos assistimos ao gigantesco espetáculo de inumeráveis vidas humanas que marcham perdidas no labirinto de si mesmas por não ter a que se entregar. mas inexorável.htm (75 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . e ninguém. de tanto não ser mais que caminhar por dentro de si. Depois da guerra. caminhará desvencilhada. amanhã. Mas nunca ao ouvi-lo ou lê-lo pude reprimir este receio: é que o compatriota perguntado ia de fato a alguma parte? Porque poderia ocorrer muito bem que. mais além. vazia. Viver é ir arrojado para alguma direção. A meta não é o meu caminhar. outra. não se nos pode pedir que estejamos em disponibilidade para atender aos transeuntes e que nos dediquemos a pequenos altruísmos ocasionais. por sua natureza própria. Mas o resultado foi contrário ao que se poderia esperar. inscrita em nossa existência. o espanhol não está file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que se perde em si mesmo. com freqüência o perguntado deixa o caminho que leva e generosamente se sacrifica pelo estranho.haja começado a desmoralizar-se. conduzindo-o ao lugar que a este interessa. Está perdida ao encontrar-se só consigo. em um destino ilustre ou trivial. pois. precisamente sem um plano de vida imperial. para que todo o mundo . Compreende-se. que participe em uma empresa. viver é algo que cada qual faz por si e para si. egoisticamente. Se resolvo andar só por dentro de minha vida. Livrada a si mesma. seria violência.em sua vida pública e em sua vida privada . o europeu fechou-se em seu interior. Parece que a situação devia ser ideal. não avanço. é caminhar para uma meta. Como diz o verso de Schiller: Quando os reis constróem. sendo-o. dedica-se a falsas ocupações. um caminho que não leva a nada. cada vida fica sem si mesma. em muitos casos.A rebelião das massas. que só a mim me importa. Mas não consiste só nisso. não é entregue por mim a algo. Por isso continuamos historicamente como há dez anos. se essa vida minha. quem manda no mundo. A Europa afrouxou sua pressão sobre o mundo. sem ter o que fazer. e me alegro que o estrangeiro interprete assim sua conduta. não é a minha vida. todas as ordens ficaram em suspenso.como dos homens . E o que se lhe manda é. em uma empresa gloriosa ou humilde. não vou a parte alguma. Trata-se de uma condição estranha. E como há de se encher com algo. Isto é o labirinto. oposta à primeira. em um grande destino histórico. impõe.uma inspiração puramente egoísta. O egoísmo é labiríntico. para vagar a si mesma. Por outro lado. sem tensão e sem "forma". Quando de verdade se vai fazer algo e nos entregamos a um projeto. Uma das coisas que mais encantam os viajantes quando cruzam a Espanha é que se perguntam a alguém na rua onde fica uma praça ou edifício. pois cada vida fica em absoluta franquia para fazer o que lhe der na vontade. Por isso não há império sem programa de vida. dou voltas e mais voltas em um mesmo lugar. Eu não nego que possa haver nesta índole do bom celtibero algum fator de generosidade. sincero. os carreiros têm o que fazer. que nada íntimo. triunfou jamais. inventa-se ou finge frivolamente a si mesma. O egoísmo aparente dos grandes povos e dos grandes homens é a dureza inevitável com que se deve comportar quem tem sua vida posta em uma empresa. Não é tão fácil como se crê ser puro egoísta. O mando consiste em uma pressão que se exerce sobre os demais.

Não é que diga: se o europeu não há de mandar no futuro próximo. à captura de grandes idéias. a arte. audazes. formulista. Só a ilusão do império e a disciplina de responsabilidade que ela inspira podem manter em tensão as almas do Ocidente. Se o europeu se habitua a não mandar. Em muitos casos consta-me que meus compatriotas saem à rua para ver se encontram algum forasteiro a quem acompanhar. o europeu se irá envilecendo. que excitam a consciência da dignidade. salvo aqueles que por sua juventude estão ainda em sua pré-história. Tornar-se-á vulgar. tenazes. Aceitaria que não mandasse ninguém. como os gregos da decadência e como os de toda a história bizantina. A vida criadora é vida enérgica. e atrás dele o mundo todo. Mas detende ao que a enunciar com um leve gesto e perguntai-lhe em que fenômenos concretos e evidentes funda seu diagnóstico.mas. A ciência. exercido até agora pela Europa. fazendo nada. tão curioso. de que no mundo se fale estes anos tanto sobre a decadência da Europa. a técnica e tudo o mais vivem da atmosfera tônica que cria a consciência de mando. A vida criadora supõe um regime de alta higiene. V Convém que agora retrocedamos ao ponto de partida destes artigos: ao fato. da Inglaterra. oco. Já é surpreendente o detalhe de que esta decadência não tenha sido notada primeiramente pelos estranhos. Nada me importaria a cessação do mando europeu se existisse hoje outro grupo de povos capaz de substitui-lo no Poder e na direção do planeta. Quando ninguém. de constantes estímulos. Mas nem sequer isso pediria.htm (76 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Se falta esta. Ora bem. estimar quem manda e acompanhá-lo. Mas é muito mais grave que este piétenement sur place chegue a desmoralizar por completo o europeu mesmo. esta sugestiva idéia: Não será que começamos a decair? A idéia teve boa Imprensa. e hoje todo o mundo fala da decadência européia como de uma realidade inconcussa. Mas obedecer não é agüentar agüentar é envilecer-se . Não penso assim porque eu seja europeu ou coisa parecida. novas em toda ordem. na rotina. Já não terão as mentes essa fé radical em si mesmas que as lança enérgicas. mas que o descobrimento dela se deva aos europeus mesmos. recairá sempre no ontem. isso é irremissível. tenha desmoralizado o resto dos povos. pelo contrário. Não sabe. no hábito. solidarizando-se com ele. com file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. fora do velho continente. de grande decoro. pelo contrário. sai à vida para ver se as dos outros enchem um pouco a sua. Grave é que esta dúvida sobre o mando do mundo. e esta só é possível em uma destas situações: ou sendo quem manda ou achando-se alojado em um mundo onde manda alguém a quem reconhecemos pleno direito para tal função. da França. ocorreu a alguns homens da Alemanha. Prontamente vereis a pessoa fazer vagos ademanes e praticar essa agitação de braços para a rotundidade do universo que é característica de todo náufrago. situando-se com fervor sob o drapejar de sua bandeira. bastarão geração e meia para que o velho continente. ou mando ou obedeço. caía na inércia moral. se isso não trouxesse consigo a volatilização de todas as virtudes e de todos os dotes do homem europeu. pensava nisso. não me interessa a vida do mundo. O europeu se fará definitivamente cotidiano. não tem projeto nem missão. Incapaz de esforço criador e luxuoso. na esterilidade intelectual e na barbárie omnímoda.

Mas quando se vai precisar um pouco o caráter dessas dificuldades. integrá-la com algumas virtudes do professor alemão. tropecem com certas barreiras fatais que os impedem de realizar o que muito bem poderiam. que crer muito na autenticidade deste aparente desprestígio.htm (77 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mas as tarefas em que empregá-las. O professor alemão já viu claro que é absurdo o estilo de produção a que o obriga seu público imediato de professores alemães. Não são as instituições. sente sua nacionalidade como uma limitação absoluta. o desânimo que hoje pesa sobre a alma continental parece-me muito ao da ave de asa larga que ao bater os remígios se fere contra as grades da jaula. ao menos idealmente. Fala-se mal do Parlamento em toda a parte. Porque é um desprestígio estranho. e preferiria. mas não se vê que em nem uma das que contam se intente sua substituição. mas pelo contrário. de verbal formalismo. Faltam programas de tamanho congruente com as dimensões efetivas que a vida chegou a ter dentro de cada indivíduo europeu. cujos fatores são em aparência tão diferentes do econômico. as que vão mal na Europa. todas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a que o condena sua proveniência francesa. A meu ver. conservando as melhores qualidades dessa tradição. de impotência que abruma inegavelmente estes anos à vitalidade européia. Todo bom intelectual da Alemanha. Essas fronteiras fatais da economia atual alemã. em quanto instrumento de vida pública. vê-se que nem uma delas permite a conclusão de que deve suprimir-se o Parlamento. mas se se tomam uma a uma. Vice-versa. e sente falta da superior liberdade de expressão que desfrutam o escritor francês ou o ensaísta inglês. porque enfara escutar as inépcias que a toda hora se diz. inglesa. nem sequer que existam perfis utópicos de outras formas de Estado que. pareçam preferíveis. Mas isso é justamente o que conviria explicar. pois. e importa muito filiar o estado de espírito desse alemão ou desse inglês nesta dimensão do econômico. que a depressão indiscutível de seus ânimos não provém de que se sintam pouco capazes. pois. O arranco para resolver as graves questões urgentes é tão vigoroso como quando mais o tenha sido. de que sentindo-se com mais potencialidade do que nunca. A prova disso é que a combinação se repete em todas as demais ordens. efeito. na vida intelectual. a propósito do Parlamento. porventura. Na ordem da política interior acontece a mesma coisa. francesa. a sensação de menoscabo. são as fronteiras políticas dos Estados respectivos. Diz-se que as instituições democráticas caíram em desprestígio. Há aqui um erro de ótica que convém corrigir de uma vez para sempre. adverte-se que nenhuma delas afeta seriamente o poder de criação da riqueza e que o velho continente passou por uma crise muito mais grave nesta ordem. por exemplo. com as pequenas nações em que até agora vivia organizada a Europa.A rebelião das massas. mas tropeça no mesmo instante com as reduzidas jaulas em que está alojado. É que. precisamente. Pois o curioso é. Existe toda uma série de objeções válidas ao modo de conduzir-se os Parlamentos tradicionais. a que se agarrar. Por exemplo. Não há. da Inglaterra ou da França sente-se hoje afogado nos limites de sua nação. mas em que na forma da vida pública em que se haviam de mover as capacidades econômicas é incongruente como o tamanho destas. neste ou no outro problema econômico que esteja levantado. A única coisa que sem grandes precisões aparece quando se quer definir a atual decadência européia. o homem de letras parisiense começa a compreender que está esgotada a tradição de mandarinismo literário. mas. o alemão ou o inglês não se sentem hoje capazes de produzir mais e melhor que nunca? Em modo algum. Não se analisou ainda a fundo a estranhíssima questão de por que anda tão em agonia a vida política de todas as grandes nações. é o conjunto de dificuldades econômicas que encontra hoje diante de cada uma das nações européias. A dificuldade autêntica não radica. pelo contrário. nutre-se dessa desproporção entre o tamanho da potencialidade européia atual e o formato da organização política em que tem de atuar. O pessimismo.

a possibilidade e a urgência de reformar profundamente as Assembléias legislativas. ao tropeçar o europeu em seus projetos econômicos. para fazê-las "ainda mais" eficazes. A "racionalização" da indústria é conseqüência automática de seu tamanho. mais eficientes que os Estados parlamentares do século XIX. que não é eficaz. dentro da qual já não cabe. Procede de que o europeu não sabe em que empregá-los. o francês e o alemão acreditavam. sente que aqueles . Procede de outra causa. se em nenhum país está hoje claro. Porque do contrário. Mais valia recordar que jamais instituição alguma criou na história Estados mais formidáveis. Para dar ao dito um apoio plástico que o sustente.htm (78 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . políticos. o que se vê é que o cidadão. uma origem puramente íntima e paradoxal. já que a presunção de haver minguado nasce precisamente de que cresceu sua capacidade e tropeça com uma organização antiga. mas o Estado mesmo.industrial e técnico . de que não estima as finalidades da vida pública tradicional. Neste caso a finalidade seria a solução dos problemas públicos em cada nação. na maior parte dos países. parece-me. nem ainda teoricamente. O fato é tão indiscutível que esquecê-lo demonstra franca estupidez. pois. que se ananicou. mas apenasmente de que a fábrica americana pode oferecer seu produto sem dificuldade alguma a cento e vinte milhões de homens. Mas a desestima vulgar em que caiu o Parlamento não procede dessas objeções. Ora bem: o melhor que humanamente pode dizer-se de algo é que necessita ser reformado. pois. Todavia. portanto. a fabricação de automóveis. O automóvel é invento puramente europeu. em que consiste o que há que fazer. porque antes o inglês. O desprestígio dos Parlamentos não tem nada que ver com seus notórios defeitos. Deparou-se. Todas as graças peculiares da técnica americana são quase positivamente efeitos e não causas da amplitude e homogeneidade de seu mercado.A rebelião das massas. suas possibilidades de vida.quer dizer.de automóveis sabe muito bem que a superioridade do produto americano não procede de nenhuma virtude específica usufruída pelo homem de ultramar. Imagine-se que uma fábrica européia visse ante si uma área mercantil formada por todos os Estados europeus e suas colônias e seus protetorados. tome-se qualquer atividade concreta: por exemplo. que eram o universo. hoje é superior a fabricação norte-americana desse artefato. A situação autêntica da Europa viria. com que é "menos" que antes. com os limites de sua nação. porque isso implica que é imprescindível e que é capaz de nova vida. em suma. Portanto. não sente respeito a seu Estado. Fala-se.são incomensuráveis com o tamanho do corpo coletivo em que está encerrado. intelectuais. Entretanto. Nós devemos então perguntar: Para que não é eficaz? Porque a eficácia é a virtude que um utensílio tem para produzir uma finalidade. alheia de todo a eles no que diz respeito a utensílios políticos. Não se confunda. de que não sente ilusão pelos Estados nacionais em que está inscrito e prisioneiro. Pela primeira vez. Se se olha com um pouco de cuidado esse famoso desprestígio. Ninguém duvida de que esse automóvel previsto para quinhentos ou seiscentos milhões de homens seria muito melhor e mais barato que o "Ford". porque o irrespeitável não são estas. Este é. por exemplo. com declarar sua inutilidade. não tem sentido acusar de ineficácia os instrumentos institucionais. seria inútil substituir o detalhe de suas instituições. a ser esta: seu magnífico e longo passado a faz chegar file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. seu estilo vital . o fabricante europeu . Conseqüência: o automóvel europeu está em decadência. O automóvel atual saiu das objeções que se opuseram ao automóvel de 1910. E então descobriu que ser inglês. cada qual por si. Por isso exigimos de quem proclama a ineficácia dos Parlamentos que ele possua uma idéia clara de qual é a solução dos problemas públicos atuais. alemão ou francês é ser provinciano. levam por via direta e evidente à necessidade de reformá-lo. a autêntica origem dessa impressão de decadência que achaca o europeu.

fruta de nova espécie que dá o solo de ambas as penínsulas. Como é isso possível? Como pode o homem subtrair-se ao campo? Onde irá. deixa estes fora e cria um âmbito à parte puramente humano. Mas agora podemos considerar o assunto desde outro aspecto. em que o homem se liberta de toda comunidade com a planta e o animal. ou ficará prisioneira para sempre delas? Porque já ocorreu uma vez na história que uma grande civilização morreu por não poder substituir sua idéia tradicional de Estado. que aportam ao repertório humano uma grande inovação: a de construir uma praça pública e em torno uma cidade fechada ao campo. quanto pensa. que pratica secção do campo infinito e se reserva a si mesmo diante dele. E agora vê-se obrigada a superar-se a si mesma. A praça. de poleis. um espaço demarcado para funções públicas.. dirá: "Eu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Sua existência. mas às vezes as estruturas sobreviventes desse passado são anãs e impedem a atual expansão. um "interior" fechado por cima. O mesmo acontece com a urbe ou polis que começa por ser um buraco: o foro. o grande urbano. mas um lugar de ajuntamento civil. Este campo menor e rebelde. Porque. muito mais nova que o espaço de Einstein. que são misteres privados e familiares. Mas o greco-romano decide separar-se do campo. é um pedaço de campo que volta costas ao resto. Não é. que prescinde do resto e se opõe a ele.A rebelião das massas. da "natureza". a idéia e o sentimento nacionais foram sua invenção mais característica. tríplice extrato do sumo que ressuma a polis. e nele se vivia com todas as conseqüências que isso traz para o ser do homem. A Europa fez-se em forma de pequenas nações. errabundo. O homem campesino é todavia um vegetal. para delimitar seu contorno. mas para discutir sobre a coisa pública. Gregos e latinos aparecem na história alojados. um fato de que há que partir tal como o zoólogo parte do dado bruto e inexplicado de que o sphex vive solitário. A urbe não está feita.. reporto-me ao que ali disse (73).htm (79 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . e. como abelhas em sua colmeia. para proteger-se da intempérie e engendrar. ao passo que a abelha vermelha só existe em enxame construtor de favos (74). Por isso Sócrates. mercê dos muros que a balizam. se o campo é toda a terra. e tudo o mais é pretexto para assegurar esse buraco. igual às covas que existem no campo. É o espaço civil. Este é um fato que nestas páginas necessitamos tomar como absoluto e de gênese misteriosa. 0 caso é que a escavação e a arqueologia nos permitem ver algo do que havia no solo de Atenas e no de Roma antes de que Atenas e Roma existissem. a um novo estádio de vida onde tudo cresceu. como a cabana ou o domus. Até então só existia um espaço: o campo. ao brotar da cidade. nem sequer está claro o nexo étnico entre aqueles povos proto-históricos e essas estranhas comunidades. com efeito. novíssimo. puramente rural e sem caráter específico. A polis não é primordialmente um conjunto de casas habitáveis. do cosmos geobotânico. fica arcano. As grandes civilizações asiáticas e africanas foram neste sentido grandes vegetações antropomorfas. Note-se que isto significa nada menos que a invenção de uma nova classe de espaço. como a casa. peregrino. e quanto a certos pormenores. É este o esquema do drama enorme que se representará nos anos vindouros. VI Contei em outro lugar a paixão e morte do mundo greco-romano. Eis aqui a praça. um espaço sui generis. dentro de urbes. Mas o trânsito desta pré-história. Saberá libertar-se de sobrevivências. Em certo modo. sente e quer conserva a modorra inconsciente em que vive a planta. portanto. se é o ilimitado? Muito simples: limitando um pedaço de campo mediante uns muros que oponham o espaço incluso e finito ao espaço amorfo e sem fim. o ágora. mas que é pura e simplesmente a negação do campo. é campo abolido. a definição mais certa do que é a urbe e a polis parece-se muito com a que comicamente se dá do canhão: rodeia-se o bocal de um poço com arame muito apertado e tem-se um canhão.

de assento. mas de cidadãos. ajuntamento. que é um ressábio daquela milenária inspiração (75). constituída. Não se pense que esta origem da urbe é uma pura construção minha e que só lhe corresponde uma verdade simbólica. o Estado começa quando o homem se afana por fugir da sociedade nativa dentro da qual o sangue o inscreveu. pela relativa pequenez de seus ingredientes. entre o jurista e o labrego.htm (80 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . nem o chinês. é o propósito de empresas vitais maiores que as possíveis às minúsculas sociedades consangüíneas. não tenho nada que ver com as árvores no campo. entre o ius e o rus. permite ver claramente o específico do princípio estatal. portanto. Não é como a horda ou a tribo e demais sociedades fundadas na consangüinidade que a Natureza se encarrega de fazer sem colaboração com o esforço humano. nem o egípcio? Até Alexandre e César. a palavra "estado" indica que as forças históricas conseguem uma combinação de equilíbrio. por exemplo. a superação da casa ou ninho infra-humano. irredutível às primigênias e mais próximas ao animal. e nela vão pôr os que antes só eram homens suas melhores energias. de forma quieta e definida. a politea. a criação de uma entidade mais abstrata e mais alta que o oikos familiar. como todo equilíbrio. Por uma parte. Faz esquecer. Que souberam disso jamais o hindu. que solicitar os textos. Com isto quero dizer que o Estado não é uma forma de sociedade que o homem acha presenteada. É mestiço e plurilíngüe. Desta maneira nasce a urbe. Mas este caráter de imobilidade. Neste sentido significa o contrário do movimento histórico: o Estado é convivência estabilizada. É superação de toda sociedade natural. oferece-se ao existir humano. Em certo modo. o Norte da África (Cartago = a cidade) repete o mesmo fenômeno. pois. Itália não saiu até o século XIX do Estado-cidade. Uma dimensão nova. basta traduzi-los. que não se compõe de homens e mulheres. respectivamente. em suma. Não há. que a ele tendiam. A urbe é a super-casa. de esforços. Está claro que a unidade jurídica não é a aspiração que propele o movimento criador do Estado. Na gênese de todo Estado vemos ou entrevemos sempre o perfil de um grande empresário. O Estado-cidade. o dinamismo que produziu e sustém o Estado. Com rara insistência. Assim. mas que necessita forjá-la penosamente. Pelo contrário.A rebelião das massas. no extrato primário e mais fundo de sua memória conservam os habitantes da cidade greco-latina a lembrança de um synoikismos. toda a costa mediterrânea mostrou sempre uma espontânea tendência a este tipo estatal. e este é um princípio de movimento. o idioma. Originariamente o Estado consiste na mescla de sangues e línguas. Synoikismos é acordo de ir viver juntos. o persa. E quem diz o sangue. que o Estado constituído é só o resultado de um movimento anterior de luta. diz também qualquer outro princípio natural. Ao Estado constituído precede o Estado constituinte. Com mais ou menos pureza. estática. O impulso é mais substantivo que todo direito. É a república. a história da Grécia e de Roma consiste na luta incessante entre esses dois espaços: entre a cidade racional e o campo vegetal. eu só tenho quer ver com os homens na cidade". file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Constrói sobre a heterogeneidade zoológica uma homogeneidade abstrata de jurisprudência (76). estritamente no duplo sentido físico e jurídico desse vocábulo. desde logo como Estado. A dispersão vegetativa pela campina sucede a concentração civil na cidade. oculta. a cidade nasce por reunião de povos diversos. e nosso Levante cai em quanto pode no cantonalismo.

porque a nossa chegou ao mesmo capítulo. e se aprofundais na análise achareis que nem sequer pretendem file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. capazes de imaginar a cidade que triunfa da dispersão campesina. dentro de sua boa ou má sorte. Quem seja capaz de orientar-se com precisão nela. um desequilíbrio entre duas convivências: a interna e a externa. o que indicaria que possuem idéias sobre tudo isso. além disso. uma claridade sobre coisas abstratas. Nesta situação. precisamente o limite imposto pela Natureza a sua fantasia. pois.filósofos. Ouvi-los-eis falar em fórmulas taxativas sobre si mesmos e sobre seu contorno. cada uma por si e para si. isto é. e estas expressões abstratas adquirirão figura e cor. Mas a este isolamento efetivo sucedeu de fato uma convivência externa. mas foi vão empenho. De sorte que a claridade da ciência não está tanto na cabeça dos que a fazem como nas coisas de que falam. dois políticos. representada por Bruto.favorece a interna e dificulta a externa. em suma. que é sempre única.htm (81 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . é a realidade vital concreta. Aplique-se isto ao momento atual europeu. A imaginação é o poder libertador que o homem tem. não houve provavelmente em todo o mundo antigo mais que duas: Temístocles e César. matemáticos. naturalistas -. Sobrevem. Por isso é autêntica criação. O essencialmente confuso. encarregou-se de assassinar César . quem tentou libertá-las da cidade. o que se chama mentes lúcidas. o princípio estatal é o movimento que leva a aniquilar as formas sociais de convivência interna. "costumes" e religião . sem mais contatos que os excepcionais com as limítrofes. Um povo é capaz de Estado na medida em que saiba imaginar. se analisais superficialmente essas idéias. em geral. encontraremos sempre o seguinte esquema: várias coletividades pequenas cuja estrutura social está feita para que viva cada qual dentro de si mesma.a maior fantasia da antigüidade -. sem ter a mais leve suspeita do que lhes acontece. de imaginar outra nunca sida. Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência. incluso o famoso. e as coisas abstratas são sempre claras. quem não se perca na vida. Se observamos a situação histórica que precede imediatamente o nascimento de um Estado. sem dúvida. O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. notareis que não refletem muito nem pouco a realidade a que parecem referir-se. VII Mentes lúcidas. Porém. Daí que todos os povos tenham tido um limite em sua evolução estatal. seja ela qual for. A forma social de cada uma serve só para uma convivência interna. vão como sonâmbulos. mais ampla e nova. é político precisamente porque é torpe (77). substituindo-as por uma forma social adequada à nova convivência externa. Observai os que vos rodeiam e vereis como avançam perdidos em sua vida. intricado. mas parte de sua vida está travada com indivíduos de outras coletividades com os quais comercia mercantil e intelectualmente. O grego e o romano. Todas as coisas de que fala a ciência.A rebelião das massas. esse é de verdade uma mente lúcida. A coisa é surpreendente porque.direitos. Houve. o político. e. são abstratas. Mas sua claridade foi de ordem científica. Houve quem quis levar as mentes greco-romanas mais além. Isto indica que no passado viveram efetivamente isoladas. aquele que vislumbre sob o caos que apresenta toda situação vital a anatomia secreta do instante. detiveram-se nos muros urbanos. Importa-nos muito aos europeus de hoje recordar esta história. A escuridão imaginativa do romano. sobretudo econômica. O indivíduo de cada coletividade não vive já só desta. na Grécia e em Roma outros homens que pensaram idéias claras sobre muitas coisas . A forma social estabelecida .

rica. as idéias dos náufragos. Quem descobre uma nova verdade científica teve antes que triturar quase tudo que havia aprendido e chega a essa nova verdade com as mãos sangrentas por haver jugulado inumeráveis lugares comuns. porque se compõe de situações únicas em que o homem se encontra de repente submerso.A rebelião das massas. O resto é retórica. e se convence de que tudo nela é problemático. ainda na ciência. já está no firme. queira ou não queira. Tudo o mais é secundário. tudo vai bem. Como as eleições eram file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em que tenhamos visto bem seu caráter problemático e compreendamos que não podemos apoiar-nos em idéias recebidas. postura. Porque a vida é inteiramente um caos onde a criatura está perdida. quem o aceita já começou a encontrar-se. como o náufrago. Entretanto. A cidade tiberina. Como isso é a pura verdade . do Oriente clássico e helenístico. Mas muito menos os que viviam repartidos por todo o mundo romano. uma fuga da vida (a maior parte dos homens de ciência dedicaram-se a ela por terror a defrontar sua própria vida. de sua vida mesma. A política é muito mais real que a ciência. adscritas à árvore que tutelam. íntima farsa. da Ásia Menor. daí sua notória falta de jeito ante qualquer situação concreta). já começou a descobrir sua autêntica realidade. Não lhe interessa que suas "idéias" não sejam verdadeiras. Pelo contrário: o indivíduo trata com elas de interceptar sua própria visão do real. ao começar o século I antes de Cristo. Estas são as únicas idéias verdadeiras. emprega-as como trincheiras para defender-se de sua vida. O homem o suspeita. não tem inimigos à sua frente. Por isso é o tema que nos permite distinguir melhor quais as mentes lúcidas e quais as mentes rotineiras. Nossas idéias científicas valem na medida em que nos tenhamos sentido perdidos ante uma questão. Isto é certo em todas as ordens. é dizer. dedicada durante toda a sua vida a confundir as coisas. dona da Itália. mas aterra-o encontrar-se cara a cara com essa terrível realidade. em uma hora das mais caóticas que há vivido a humanidade. é onipotente. O excesso de boa fortuna havia deslocado o corpo político romano. em lemas nem vocábulos. buscará algo para se agarrar. Havia que votar na cidade. Homem de mente lúcida é aquele que se liberta dessas "idéias" fantasmagóricas e olha de frente a vida. A saúde das democracias. lhe facultará pôr ordem no caos de sua vida. em receitas. Instintivamente.a saber. tudo vai mal. estava a ponto de rebentar. que viver é sentir-se perdido -. e procura ocultá-la com um véu fantasmagórico onde tudo está muito claro. como espantalhos para afugentar a realidade. Não são mentes claras. peremptório. sob pena de consunção. de seu. E como se o destino se houvesse comprazido em sublinhar a exemplaridade. Se o regime de comícios é acertado. se se ajusta à realidade. da Espanha. quaisquer que sejam seu tipo e seu grau.htm (82 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . depende de um mísero detalhe técnico: o procedimento eleitoral. está a ponto de fenecer porque se obstina em conservar um regime eleitoral estúpido. não obstante ser a ciência. se não. César é o exemplo máximo que conhecemos de dom para encontrar o perfil da realidade substantiva em um momento de confusão pavorosa. não topa nunca com a própria realidade. embora o resto marche otimamente. Suas instituições públicas tinham uma força municipal e eram inseparáveis da urbe. Já os cidadãos do campo não podiam assistir aos comícios. não se encontra jamais. pôs a sua direita uma magnífica cabeça de intelectual. a de Cícero. como as amadríadas estão. Um regime eleitoral é estúpido quando é falso. Roma. absolutamente veraz porque se trata de salvar-se. e se sente perdido. e esse olhar trágico. Quem não se sente de verdade perdido perde-se inexorávelmente. ajustar-se a tal realidade.

A rebelião das massas. O greco-romano padece de uma surpreendente cegueira para o futuro. Não temos mais remédio. Compreende que para curar as conseqüências das anteriores conquistas romanas não havia mais remédio senão prossegui-las aceitando até o fim tão enérgico destino. César sustentará a necessidade de romanizar a fundo os povos bárbaros do Ocidente. Antes de fazer agora algo dá um passo atrás. A expressão é de César.exibiam insolências em vazias ditaduras que não levavam a nada. que ao olhar a vida greco-romana nos pareça anacrônica. Também ele retrograda. indaga em toda atualidade um precedente. Cícero. a fim de regular o funcionamento das instituições republicanas. foi necessário falsificá-las. pois. Para nós a palavra "príncipe" tem um sentido quase oposto ao que tinha para um romano. Este entendia por tal precisamente um cidadão como os demais. Significa simplesmente um cronismo incompleto. busca no passado um modelo para a situação presente. Sua política pode resumir-se em duas cláusulas: Primeira. e Salústio. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Compreende-se. e informado por aquele mergulha na atualidade. mas que era investido de poderes superiores. que tomar seus atos e dar-lhes seu nome. Os europeus sempre gravitamos em direção ao futuro e sentimos que é esta a dimensão mais substancial do tempo. Mas. Toda nova conquista é um delito de lesa-república. O segredo está em sua façanha capital: a conquista das Gálias. começa pelo "depois" e não pelo "antes". transferiu-se do homem antigo ao filósofo moderno. Dava a casualidade de que era precisamente César e não o manual de cesarismo que sói vir depois. Mas isso não é ser insensível ao tempo. Daí que todo o seu viver é em certo modo reviver. pelo menos. Isto é ser arcaizante e isto o foi quase sempre o antigo. o qual.htm (83 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . em compensação. como Lagartijo ao projetar-se para matar. "A República não era mais que uma palavra". um moderator. Segunda. ou. como o daltonista não vê a cor vermelha. que confunde duas coisas. os transtornos da vida pública romana provêem de sua excessiva expansão. de ver sua vida como uma dilatação na temporalidade. Por que? Constituíam o Poder os republicanos. protegido e deformado pelo escafandro ilustre. um rector rerum publicarum. resumem o pensamento de todos os publicistas pedindo um princips civitatis. em seus memoriais a César. Eu suspeito que esse diagnóstico é errôneo. defeituoso da asa futurista e com hipertrofia de antanhos. Existiam em um presente pontual. César não explicou nunca sua política. Não o vê. se queremos entender aquela política. Esta como mania de tomar todo presente com as pinças de um exemplo pretérito. A cidade não pode governar tantas nações. os conservadores. quer dizer. vive radicalmente no pretérito.com veteranos do exército. para nós. Sem o apoio de autêntico sufrágio as instituições democráticas estão no ar. Disse-se (Spengler) que os greco-romanos eram incapazes de sentir o tempo. Nenhuma magistratura gozava de autoridade.que se encarregavam de romper as urnas. os fiéis ao Estado-cidade. para evitar a dissolução das instituições é preciso um príncipe. em seus livros Sobre a República. A solução de César é totalmente oposta à conservadora. mais perigosos em um futuro não muito remoto que as nações corruptas do Oriente. Sobretudo urgia conquistar os povos novos. com atletas do circo . entreteve-se em fazê-la. Os generais da esquerda e da direita .Mário e Sila . e os candidatos organizavam partidas de cacete . impossíveis. Para empreendê-la teve de se declarar rebelde ante o Poder constituído. No ar estão as palavras.

A rebelião das massas.

ao qual denomina, com lindo vocábulo de égloga, sua "fonte". Digo isto porque já os antigos biógrafos de César se fecham à compreensão desta enorme figura supondo que tratava de imitar Alexandre. A equação impunha-se: se Alexandre não podia dormir pensando nos lauréis de Milcíades, César devia forçosamente sofrer de insônia pelos de Alexandre. E assim sucessivamente. Sempre o passo atrás e o pé de hoje na pegada de ontem. O filólogo contemporâneo repercute o biógrafo clássico. Crer que César aspirava a fazer algo assim como o que fez Alexandre - e isto creram quase todos os historiadores - é renunciar radicalmente a entendê-lo. César é aproximadamente o contrário de Alexandre. A idéia de um reino universal é o único que os emparelha. Mas esta idéia não é de Alexandre, mas vem da Pérsia. A imagem de Alexandre teria empurrado César para o Oriente, para o prestigioso passado. Sua preferência radical pelo Ocidente revela melhor a vontade de contradizer o macedônio. Mas, ainda mais, não é um reino universal, apenas, o que César se propõe. Seu propósito é mais profundo. Quer um Império romano que não viva de Roma, mas da periferia, das províncias, e isso implica a superação absoluta do Estado-cidade. Um Estado onde os povos mais diversos colaborem, de que todos se sintam solidários. Não um centro que manda e uma periferia que obedece, mas um gigantesco corpo social, onde cada elemento seja por sua vez passivo e ativo do Estado. Tal é o Estado moderno, e esta foi a fabulosa antecipação de seu gênio futurista. Mas isso supunha um poder extraromano, anti-aristocrata, infinitamente elevado sobre a oligarquia republicana, sobre seu príncipe, que era só um primus inter pares. Este poder executor e representante da democracia universal só podia ser a Monarquia com sua sede fora de Roma. República! Monarquia! Duas palavras que na história trocam constantemente de sentido autêntico, e que por isso é preciso a todo instante triturar para certificar-se de sua eventual força. Seus homens de confiança, seus instrumentos mais imediatos, não eram arcaicas ilustrações da urbe, mas gente nova, provinciais, personagens enérgicos e eficientes. Seu verdadeiro ministro foi Cornélio Balbo, um homem de negócios gaditano, um atlântico, um "colonial ". Mas a antecipação do novo Estado era excessiva: as cabeças lentas do Lácio não podiam dar brinco tão grande. A imagem da cidade, com seu tangível materialismo, impediu que os romanos "vissem" aquela organização novíssima do corpo público. Como podiam formar um Estado homens que não viviam numa cidade? Que gênero de unidade era essa, tão sutil e tão mística? Repito uma vez mais: a realidade que chamamos Estado não é a espontânea convivência de homens que a consangüinidade uniu. O Estado começa quando se obriga a conviver a grupos nativamente separados. Esta obrigação não é desnuda violência, mas que supõe um processo incitativo, uma tarefa comum que se propõe aos grupos dispersos. Antes que nada é o Estado projeto de um fazer e programa de colaboração. Chama-se às pessoas para que juntas façam algo. O Estado não é consangüinidade, nem unidade lingüística, nem unidade territorial, nem contiguidade de habitação. Não é nada material, inerte, dado e limitado. É um puro dinamismo - a vontade do fazer algo em comum -, e mercê a isso a idéia estatal não está por nenhum termo físico (78). Agudíssima a conhecida empresa política de Saavedra Fajardo: uma flecha, e debaixo: "Ou sobe ou desce". Isso é o Estado. Não uma coisa, mas um movimento. O Estado é em todo instante algo que vem de e vai para. Como todo movimento, tem um terminus a quo e um terminus ad quem. Corte-se por

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A rebelião das massas.

qualquer hora a vida de um Estado que o seja verdadeiramente, e se achará uma unidade de convivência que parece fundada em tal ou qual atributo material: sangue, idioma, "fronteiras naturais". A interpretação estática nos levará a dizer: isso é o Estado. Mas logo advertimos que essa agrupação humana está fazendo algo comunal: conquistando outros povos, fundando colônias, federando-se com outros Estados; quer dizer, que em toda hora está superando o que parecia princípio material de sua unidade. E o terminus ad quem, é o verdadeiro Estado, cuja unidade consiste precisamente em superar toda unidade dada. Quando esse impulso para o mais além cessa, o Estado automaticamente sucumbe, e a unidade que já existia e parecia fisicamente cimentada - raça, idioma, fronteira natural - não serve de nada: o Estado se desagrega, se dispersa, se atomiza. Só essa duplicidade de momentos no Estado - a unidade que já é e a mais ampla que projeta - permite compreender a essência do Estado nacional. Sabido é que ainda não se logrou dizer em que consiste uma nação, se damos a este vocábulo uma acepção moderna. O Estado-cidade era uma idéia muito clara, que se via com os olhos da cara. Mas o novo tipo de unidade pública que germinava em galos e germanos, a inspiração política do Ocidente, é coisa muito mais vaga e fugidia. O filólogo, o historiador atual, que é de seu arcaizante, encontra-se ante este formidável fato quase tão perplexo como César e Tácito quando com sua terminologia romana queriam dizer o que eram aqueles Estados incipientes, transalpinos e ultra-renanos, ou bem os espanhóis. Chamam-nos civitas, gens, natio, percebendo que nenhum destes nomes coincide com a coisa (79). Não são civitas, pela simples razão de que não são cidades (80). Mas nem sequer cabe indefinir o termo e aludir com ele um território delimitado. Os povos novos trocam com suma facilidade de torrão, ou pelo menos ampliam e reduzem o que ocupavam. Tampouco são unidades étnicas - gentes, nationes. - Por muito longe que recorramos, os novos Estados aparecem já formados por grupos de nacionalidades independentes. São combinações de sangues diferentes. Que é, pois, uma nação, já que não é nem comunidade de sangue, nem adscrição a um território, nem coisa alguma desta ordem? Como sempre acontece, também neste caso uma pulcra submissão aos fatos nos dá a chave. Que é que salta aos olhos quando repassamos a evolução de qualquer "nação moderna" - França, Espanha, Alemanha -? Simplesmente isto: o que em certa data parecia constituir a nacionalidade aparece negado numa data posterior. Primeiro, a nação parece a tribo, e a não-nação a tribo de ao lado. Depois a nação se compõe de duas tribos, mais tarde é uma comarca e pouco depois é já todo um condado ou ducado ou "reino". A nação é Leão, mas não Castela; depois é Leão e Castela, mas não Aragão. É evidente a presença de dois princípios: um, variável e sempre superado - tribo, comarca, ducado, "reino", com seu idioma ou dialeto -; outro, permanente, que salta libérrimo sobre todos esses limites e postula como unidade o que aquele considerava precisamente como radical contraposição. Os filólogos - chamo assim aos que hoje pretendem denominar-se "historiadores" - praticam o mais delicioso truísmo quando partem do que agora, nesta data fugaz, nestes dois ou três séculos, são as nações do Ocidente e supõem que Vercingetorix ou que Cid Campeador queriam já uma França deste Saint-Malo a Estrasburgo - precisamente - ou uma Spania desde Finisterre a Gibraltar. Estes filólogos como o ingênuo dramaturgo - fazem quase sempre que seus heróis partam para a guerra dos Trinta Anos. Para nos explicar como se formaram a França e a Espanha, supõem que a França e a Espanha preexistiam como unidades no fundo das almas francesas e espanholas. Como se existissem franceses e espanhóis originariamente antes de que a França e a Espanha existissem! Como se o francês e o espanhol não fossem simplesmente coisas que foram formadas em dois mil anos de faina!

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A rebelião das massas.

A verdade pura é que as nações atuais são apenas a manifestação atual daquele princípio variável, condenado à perpétua superação. Esse princípio não é agora o sangue nem o idioma, posto que a comunidade de sangue e de idioma na França ou na Espanha foi efeito, e não causa, da unificação estatal; esse princípio é agora a "fronteira natural". Está bem que um diplomata empregue em sua esgrima astuta este conceito de fronteiras naturais, como ultima ratio de suas argumentações. Mas um historiador não pode entrincheirar-se atrás dele como se fosse um reduto definitivo. Nem é definitivo, nem sequer suficientemente específico. Não se esqueça qual é, rigorosamente proposta, a questão. Trata-se de averiguar que é o Estado nacional - o que hoje costumamos chamar nação -, a diferença de outros tipos de Estado, como o Estado-cidade ou, indo ao outro extremo, como o Império que Augusto fundou (81). Se se quer formular o tema de modo ainda mais claro e preciso, diga-se assim: Que força real produziu essa convivência de milhões de homens sob uma soberania de Poder público que chamamos França, ou Inglaterra, ou Espanha, ou Itália, ou Alemanha? Não foi a prévia comunidade de sangue, porque cada um desses corpos coletivos está regado por torrentes cruentas muito heterogêneas. Não foi tampouco a unidade lingüística, porque os povos hoje reunidos em um Estado falavam ou falam ainda idiomas diferentes. A relativa homogeneidade de raça e língua de que hoje gozam - supondo que isso seja um gozo - é resultado da prévia unificação política. Portanto, nem o sangue nem o idioma fazem o Estado nacional; pelo contrário, é o Estado nacional quem nivela as diferenças originárias de glóbulo vermelho e som articulado. E sempre aconteceu assim. Poucas vezes, para não dizer nunca, terá o Estado coincidido com uma identidade prévia de sangue ou idioma. Nem a Espanha é hoje um Estado nacional porque se fale em toda ela o espanhol (82), nem foram Estados nacionais Aragão e Catalunha porque em certo dia, arbitrariamente escolhido, coincidissem os limites territoriais de sua soberania com os da fala aragonesa ou catalã. Estaríamos mais próximos da verdade se, respeitando a casuística que toda realidade oferece, nos inclinássemos a esta presunção: toda unidade lingüística que abarca um território de alguma extensão é quase certamente precipitado de alguma unificação política precedente (83). O Estado tem sido sempre o grande turgimão. Há muito tempo que isto consta, e é muito estranha a obstinação com que, entretanto, se persiste em dar à nacionalidade como fundamentos o sangue e o idioma. Nisso eu vejo tanta ingratidão como incongruência. Porque o francês deve sua França atual, e o espanhol sua atual Espanha, a um princípio X, cujo impulso consistiu precisamente em superar a estreita comunidade de sangue e de idioma. De sorte que a França e a Espanha consistiriam hoje no contrário do que as tornou possíveis. Igual tergiversação comete-se ao querer fundar a idéia de nação numa grande figura territorial, descobrindo o princípio de unidade, que sangue e idioma não proporcionam, no misticismo geográfico das "fronteiras naturais". Tropeçamos aqui com o mesmo erro de ótica . O acaso da data atual mostra-nos as chamadas nações instaladas em amplos torrões do continente ou nas ilhas adjacentes. Desses limites atuais quer fazer-se algo definitivo e espiritual. São, dizem, "fronteiras naturais", e com sua "naturalidade" significa-se uma como mágica predeterminação da história pela via telúrica. Mas este mito volatiliza-se imediatamente submetendo-o ao mesmo raciocínio que invalidou a comunidade de sangue e de idioma como fontes da nação. Também aqui, se retrocedemos alguns séculos, surpreende-nos a França e a Espanha dissociadas em nações menores, com suas inevitáveis "fronteiras

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file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. produziu uma relativa unificação de sangues e idiomas que serviu para consolidar a unidade. Na Inglaterra. pois. provincianos. A idéia de "fronteira natural" implica. mas ao contrário: o Estado nacional encontrou-se sempre. ingenuamente. Nação . ninguém foi nunca só súdito do Estado. só um obstáculo material lhes põe um freio. como mais natural ainda que a fronteira. como com outros tantos estorvos. As fronteiras serviram para consolidar em cada momento a unificação política já alcançada. e depois.escravos. princípio da nação. aliados.para A. tem sido muito diferente conforme os tempos. queremos atribuir um caráter definitivo e fundamental às fronteiras de hoje. outro remédio senão desfazer a tergiversação tradicional padecidas pela idéia de Estado nacional e habituar-se a considerar como estorvos primários para a nacionalidade precisamente as três coisas em que se acreditava consistir. mas sempre participou dele. E claro que ao desfazer uma tergiversação serei eu quem pareça cometê-la agora. língua e território nativos para compreender o fato maravilhoso das modernas nações? Pura e simplesmente. na Espanha. classes relativamente privilegiadas e classes relativamente postergadas. A forma. pois. Qual tem sido então o papel das fronteiras na formação das nacionalidades. se acreditou necessário recorrer a raça. mas. Em Atenas e em Roma só uns quantos homens eram o Estado. naturais". afinal das contas. na França. mas ao contrário: a princípio foram estorvo. Por que. A realidade histórica da famosa "fronteira natural" consiste simplesmente em ser um estorvo à expansão do povo A sobre o povo B. já que não têm sido o fundamento positivo destas? A coisa é clara e de suma importância para entender a autêntica inspiração do Estado nacional diante do Estado-cidade.eram apenas súditos. Tem havido grandes diferenças de condição social e estatuto pessoal.htm (87 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pelo contrário: estorvos que a idéia nacional encontrou em seu processo de unificação.A rebelião das massas. participe e colaborador. Não foram. É preciso resolver-se a procurar o segredo do Estado nacional em sua peculiar inspiração como tal Estado. Dominados estes energicamente. Mas isso apenas demonstra que a "naturalidade" das fronteiras é meramente relativa. uma vez alheada. se se interpreta a realidade efetiva da situação política em cada época e se revive seu espírito. porque nestas achamos uma intimidade e solidariedade radical dos indivíduos com o Poder público desconhecidas no Estado antigo. frente às muitas raças e às muitas línguas. em sua política mesma. foram meio material para assegurar a unidade. Pois bem: exatamente o mesmo papel corresponde à raça e à língua. Não há. os demais . pois. apesar de que os novos meios de tráfego e guerra anularam sua eficácia como estorvos. Não obstante o que. sobretudo jurídica.de convivência ou de guerra . a possibilidade da expansão e fusão ilimitada entre os povos. e não em princípios forasteiros de caráter biológico ou geográfico. Não é a comunidade nativa de uma ou outra o que constituiu a nação. aparece evidente que todo indivíduo se sentia sujeito ativo do Estado. As fronteiras de ontem e de anteontem não nos parecem hoje fundamentos da nação francesa ou espanhola.significa a "união hipostática" do Poder público e a coletividade por ele regida.no sentido que este vocábulo emite no Ocidente de há mais de um século . Depende dos meios econômicos e bélicos da época. é uma defesa para B. em seu afã de unificação. A montanha fronteiriça seria menos prócer que o Pirineu ou os Alpes e barreira líquida menos caudalosa que o Reno. uno com ele. o passo de Calais ou o estreito de Gibraltar. Pelo visto. Porque é um estorvo . colonos . desta união com e no Estado.

em suma. mas a comunidade futura no efetivo fazer. Na mesma urbe não conseguiu a fusão política dos cidadãos. As diferentes classes de Estado nascem das maneiras segundo as quais o grupo empresário estabeleça a colaboração com os outros. Roma foi. muito mais verdadeiro? file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sem que haja nada que em princípio a detenha. são termos inseparáveis. E é que o europeu. queira-se ou não. a rigor. entretanto. Se ele é um projeto de empresa comum. O Estado nacional é em sua raiz mesma democrático. obedecer e não mandar. a comunidade na atuação. Por isso o Império ameaçado não pode contar com o patriotismo dos outros. forma parte ativa do Estado. nos reúne em Estado. que vive conscientemente instalado nele e dele decide sua conduta presente. qualquer que seja sua forma . sangue. de uma maneira simples. mas o que vamos fazer amanhã juntos. num sentido mais decisivo que todas as diferenças nas formas de governo. mas o que é mais característico ainda do Estado nacional: a fusão de todas as classes sociais dentro de cada corpo político. A Roma tocava mandar e não obedecer. Esta empresa. o convite que um grupo de homens faz a outros grupos humanos para juntos executar uma empresa. duas Romas: o Senado e o povo. relativamente ao homo antiquus. quaisquer que sejam seus trâmites intermediários.a que proporciona título para a convivência política. e teve de se defender exclusivamente com seus meios burocráticos de administração e de guerra. A capacidade de fusão é ilimitada. fatal e irreformável . simplesmente porque nela se ajunta ao sangue.htm (88 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o idioma e as tradições comuns um atributo novo. em organizar certo tipo de vida comum. a saber: como dualidade de dominantes e dominados (84). adscrição geográfica. Mas. Não o que fomos ontem. ficam em segundo plano.raça. aos demais. é sujeito político. o Estado se materializa no pomoerium. durante a República.A rebelião das massas. territorial e etnicamente. Mas os povos novos trazem uma interpretação do Estado menos material. e que finalmente se resumem em uma: o homem antigo interpretou a colaboração em que. tradicional e imemorial . e se diz que é um "plebiscito cotidiano". Não só de um povo com outro. Não se esqueça que. e que é. pretérita. mas não os eleva a união consigo. acaba-se sempre por aceitar como a melhor a fórmula de Renan. Estado e projeto de vida. classe social. entende-se bem o que esta expressão significa? Não podemos dar-lhe agora um conteúdo de signo oposto ao que Renan lhe insufla. ao definir a nação fundando-a numa comunidade de pretérito. Desta sorte. todo aquele que preste adesão à empresa . vai-se fazendo mais una a colaboração interior. programa de ação ou conduta humanos. A unificação estatal não passou nunca de mera articulação entre os grupos que permaneceram externos e estranhos uns aos outros. Tendência política tal avançará inexoravelmente para unificações cada vez mais amplas. Conforme cresce a nação. Esta incapacidade de todo grupo grego e romano para fundir-se com outros provém de causas profundas que não convém perscrutar agora. sua realidade é puramente dinâmica: um fazer. Não é a comunidade anterior. E curioso notar que. consiste. antiga. finalmente. medieval ou moderna -. Assim. O Estado é sempre. o Estado consiste. elemental e tosca. se comporta como um homem aberto ao futuro.primitiva. Daí a facilidade com que a unidade política brinca no Ocidente sobre todos os limites que aprisionaram o Estado antigo. Segundo isto. Roma manda e educa os italiotas e as províncias. o Estado antigo não acerta nunca a fundir-se com os outros. no corpo urbano que uns muros delimitam fisicamente.

mas não algo que se faz. inertes. a Espanha. significa realizar um futuro? Inclusive quando nos entregamos a recordar. Se para que exista uma nação é preciso que um grupo de homens conte com um passado comum. não pelo sangue. No passado.. Que neste caso o futuro consista numa perduração do passado não modifica em nada a questão. fazer. Mas acontece que o passado nacional projeta aliciantes . mas que procedem da interpretação erudita dada pelo romanticismo à idéia de nação. Se a nação consistisse não mais que em passado e presente. a Inglaterra. Este modesto prazer solitário se nos apresentou há pouco como um futuro desejável. língua e passado comuns são princípios estáticos. unicamente revela que também a definição de Renan é arcaizante.no futuro. o Estado nacional representaria um princípio estatal mais próximo à pura idéia de Estado que a antiga polis ou que a "tribo" dos árabes. Conste. Mais: eu diria que esse lastro de pretérito e essa relativa limitação dentro de princípios materiais não têm sido nem são por completo espontâneos nas almas do Ocidente. De haver existido na Idade Média esse conceito oitocentista de nacionalidade. não nosso ontem. haver feito juntos grandes coisas. Não é o patriotismo .diga-se de uma vez . ninguém se ocuparia de defendê-la contra um ataque. por isso o fazemos. Isso é o que reverbera na frase de Renan: a nação como excelente programa para amanhã. A existência de uma nação é um plebiscito cotidiano". são prisões. com o que não teríamos nada que fazer. um mesmo programa para realizar. Tal é a conhecidíssima sentença de Renan. Portanto. pela graça da nota. eu me pergunto como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a Alemanha. Queira-se ou não. sem pausa nem descanso. uma vontade comum no presente.. Por isso nos mobilizamos em sua defesa. mas por isso mesmo é surpreendente notar como nela triunfa o puro princípio de unificação humana em torno a um incitante programa de vida. Por isso viver é sempre. teriam ficado inexistentes (86). a França. nem pelo comum passado. eis aqui as condições essenciais para ser um povo. circunscrita pelo sangue. fatais. no porvir.A rebelião das massas. Como se explica sua excepcional fortuna? Sem dúvida.quem fez as nações. uma herança de glórias e remorsos. sempre. a nação seria uma coisa situada às nossas costas. senão em função do porvir (85). De fato. Porque essa interpretação confunde o que impulsa e constitui uma nação com o que meramente a consolida e conserva. todo fazer. nem pelo idioma.. Ao defender a nação defendemos nosso amanhã. ainda que não seja mais que o prazer de reviver o passado. Os que afirmam o contrário são hipócritas ou mentecaptos. pois: nada tem sentido para o homem. VIII "Ter glórias comuns no passado. A nação seria algo que se é. Por que não se reparou em que fazer. a vida humana é constante ocupação com algo futuro. Esta idéia de que a nação consiste num plebiscito cotidiano opera sobre nós como uma liberação. querer fazer outras mais. Fazemos memória neste segundo para lograr algo no imediato. Se a nação consistisse nisso e em mais nada. à raça. ao território. O plebiscito decide um futuro. a idéia nacional conserva não pouco lastro de adscrição ao passado. Parece-nos desejável um porvir no qual nossa nação continue existindo. Nem sequer teria sentido defendê-la quando alguém a ataca. rígidos.htm (89 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .. Desde o instante atual nos ocupamos do que sobrevem. Crer o contrário é o truísmo a que já aludi e que o próprio Renan admite em sua famosa definição. Sangue.reais ou imaginários .

exista um passado. A nação está sempre ou fazendo-se ou desfazendo-se.isto é o novo. para que pudessem dizer: somos uma nação. por isso que o Estado propriamente tal ficava sempre inscrito em uma limitação fatal . e antes de criá-la teve de sonhá-la. Eu preferiria trocar-lhe o signo e fazê-lo valer para a nação in statu nascendi. raça comum. mas tão somente (87). Não se adverte aqui o vício gremial do filósofo. Por que? Falta só uma coisa.tribo ou urbe -. dando ao plebiscito um conteúdo retrospectivo. Borgonha).htm (90 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . representa o conteúdo. tudo isso serve de forças de consolidação. ou a consolidação que em cada momento requer o plebiscito. Quando há aquilo. Esta adesão de todos engendra a interna solidez que distingue o Estado nacional de todos os antigos. a "pátria". de querê-la. Um povo . Tudo que além disso pareça ser. mas a nação.o persa. é a essencial: o futuro comum. Entretanto. ou a forma. antes de possuir um passado comum. o maravilhoso. e. O plebiscito futurista foi adverso à Espanha. Esta é a ótica decisiva. antes de tudo. ainda que fracasse a execução. E até que tenha o projeto de si mesma para que a nação exista. enquanto aqui nasce o vigor estatal da coesão espontânea e profunda entre os "súditos".A rebelião das massas. linguagem comum. Falaríamos em tal caso de uma nação malograda (por exemplo. não só no público. conforme seu Estado represente ou não no momento uma empresa vivaz. Renan anula ou quase seu acerto. Outra coisa mostraria claramente esse estudo. um projeto de convivência total numa empresa comum. Então ver-se-ia como delas têm vivido os europeus. de projetá-la. ainda que não se alcance. Renan encontrou a palavra mágica. nos quais a união se produz e mantém por pressão externa do Estado sobre os grupos díspares. Nisto se diferencia de outros tipos de Estado. Ela nos permite vislumbrar catodicamente o segredo essencial de uma nação. eram praticamente limitadas. que estoura de luz. os antepassados. Tertium non datur. do arquivista. passasse. sua ótica profissional que lhe impede ver a realidade quando não é pretérita? O filólogo é quem necessita para ser filólogo que. As empresas estatais dos antigos. em verdade. entretanto. teve de criar essa comunidade. que se refere a uma nação já feita. que. não estava sujeita a outras condições senão à eficácia bélica e administrativa do conquistador. interna nem definitiva. chamaremos a esse mesmo grupo de homens enquanto vivia em presente isso que visto hoje é um passado. Vejo. Com os povos do Centro e da América Meridional tem a Espanha um passado comum. Como a unidade não era autêntica. tem um valor transitório e cambiante. como "treinaram" ou se desmoralizaram. na medida de que houvesse ou não empresa à vista. pelo visto. Ou está ganhando adesões ou está perdendo-as. Mas no Ocidente a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.como algo estranhos a eles.podia submeter à unidade de soberania quaisquer porções do planeta. como aconteceu tantas vezes. uma nação não está nunca feita. os súditos são já o Estado e não o podem sentir . o macedônio ou o romano . cuja perpetuação decide. Pelo visto era forçoso que essa existência comum fenecesse. Na realidade. A Espanha não soube inventar um programa de porvir coletivo que atraísse esses grupos zoologicamente afins. a adesão dos homens a esse projeto incitativo. que se compõe destes dois ingredientes: primeiro. mas até em sua existência mais privada. segundo. e de nada valeram então os arquivos. não forma com eles uma nação. Por isso o mais instrutivo seria reconstruir a série de empresas unitivas que sucessivamente inflamaram os grupos humanos do Ocidente. Porque. pois. no Estado nacional uma estrutura histórica de caráter plebiscitário. as memórias. por isso que não implicavam a adesão fundente dos grupos humanos sobre os quais se tentavam. da nacionalidade .

Por muita realidade que se queira dar a essa idéia no século XI. E. uma de tantas idéias fecundas que deixou semeadas no Ocidente o Império romano. Segundo momento. étnica e lingüisticamente. não íntima inspiração. Os "espanhóis" haviam se acostumado a ser reunidos por Roma numa unidade administrativa. de fechar-se em si mesmo dentro do Estado. Mas. convive-se econômica. Agora chega para os europeus a sazão em que a Europa pode converter-se em idéia nacional. Não obstante. em todo caso. Período de consolidação. era uma idéia principalmente erudita. é quase certo que chegará sua hora. Isidoro falava da "mãe Espanha". e que juntos formamos um círculo nacional ante outros grupos mais distantes e ainda mais estrangeiros. Então surge a nova empresa: unir-se aos povos que até então eram seus inimigos. e Spania para os "espanhóis" do XI e ainda do XIV. ao contrário. As guerras nacionalistas servem para nivelar as diferenças de técnica e de espírito. Mostra isto como as empresas de unidade nacional vão chegando à sua hora do modo como os sons em uma melodia. Deveria estranhar mais o fato de que na Europa não tenha sido possível nenhum império do tamanho que alcançaram o persa. E é muito menos utópico crer nisso hoje assim como o houvera sido vaticinar no século XI a unidade da Espanha e da França. e esta unidade leon-castelã era a idéia nacional do tempo.A rebelião das massas. a idéia politicamente eficaz. O processo criador de nações teve sempre na Europa este ritmo: Primeiro momento. em que se sentem os outros povos além do novo Estado como estranhos e mais ou menos inimigos. isso é um erro crasso de perspectiva histórica. o de Alexandre ou o de Augusto. Terceiro momento. em suma.uma idéia nacional. mas porque a diversidade entre próximos é mais fácil de dominar. Eis aqui madura a nova idéia nacional. quanto mais fiel permaneça a sua autêntica substância. No tempo do Cid estava se começando a urdir o Estado Leão-Castela. que faz sentir o Estado como fusão de vários povos em uma unidade de convivência política e moral. intelectual e moralmente com eles. e em modo algum aspiração. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A meu ver. Spania. Mas o fato é que enquanto se sente politicamente os outros como estranhos e concorrentes. não obstante. Sói afirmar-se que em tempo do Cid era já a Espanha Spania . o que a Europa foi para os "europeus" no século XIX. o que hoje denominamos nacionalismo. tanto mais diretamente caminha para se depurar num gigantesco Estado continental. começa a atuar sobre os grupos mais próximos geográfica. reconhecer-se-á que não chega sequer ao vigor e precisão que já tem para os gregos do IV a idéia da Hélade. A mera afinidade de ontem terá de esperar até amanhã para entrar em erupção de inspirações nacionais. a Hélade não foi nunca verdadeira idéia nacional. Um exemplo esclarecerá o que tento dizer.htm (91 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Não porque esta proximidade funde a nação. numa diocese do Baixo Império. Cresce a convicção de que são afins com o nosso em moral e interesses. A efetiva correspondência histórica seria melhor esta: a Hélade foi para os gregos do século IV. Mas esta noção geográfico-administrativa era pura recepção. O Estado goza de plena consolidação. continuamos considerando-os como estranhos e hostis. Os inimigos habituais vão se fazendo historicamente homogêneos (88). É o período em que o processo nacional toma um aspecto de exclusivismo. e para superfetação da tese acrescenta-se que séculos antes já S. O Estado nacional do Ocidente. O peculiar instinto ocidental. Pouco a pouco vai se destacando no horizonte a consciência de que estes povos inimigos pertencem ao mesmo círculo humano que o nosso Estado. por seu turno. unificação nacional teve de seguir uma série inexorável de etapas.

nem para o espanhol de sua Espanha. Não se vislumbra que outra coisa de monta possamos fazer os que existimos neste lado do planeta se não é realizar a promessa que há quatro séculos significa o vocábulo Europa. a política. desfazem-nas. sobretudo. que é o terreno mais tardio para a espiga da unidade. pesa muito mais em cada um de nós o que tem de europeu que sua porção diferencial de francês. a Europa. mas. apercebendo-se dela ou não. A soberania histórica acha-se em dispersão. IX Apenas as nações do Ocidente preenchem seu atual perfil surge em torno delas e sob elas. ao homem antigo. nem o resto do mundo de ser mandado. o galo.opiniões. valores sociais e eróticos vão sendo comuns. notaríamos que a maior parte de tudo isso não vem para o francês de sua França. é conviver de igual para igual. Resumo agora a tese deste ensaio. desejos. As causas desta última são muitas. Sofre hoje o mundo uma grave desmoralização. a idéia do Estado nacional que o europeu. é muito difícil que certo tipo de homem abandone a idéia de Estado uma vez que ela se lhe encasquetou. que as quatro quintas partes de seu haver íntimo são bens jacentes europeus. o deslocamento do poder que outrora exercia sobre o resto do mundo e sobre si mesmo nosso continente.htm (92 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A história destacou em primeiro termo as querelas e. Itália. diga-se deste modo: as almas francesas e inglesas e espanholas eram. mas do fundo comum europeu. França. como um fundo. serviu-nos de admoestação. Se hoje fizéssemos balanço de nosso conteúdo mental . que sem adverti-lo começam já a abstrair de sua belicosa pluralidade. em virtude de recepção dos outros países continentais. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Só se opõe a isso o prejuízo das velhas "nações". sente. recompõem-nas. A alusão a Roma. Ora bem: essas são as coisas espirituais de que se vive. ciência. Uma das principais. formam ligas contrapostas. Inglaterra. e essa paisagem européia são elas mesmas. direito. trouxe ao mundo. A homogeneidade redunda. presunções -. pensa. a homogeneidade das almas se acrescentava. a idéia de nação como passado. Espanha. Em cada nova geração. Se se quer mais exatidão e mais cautela. guerra como paz. Mas tudo isso. com efeito. vão adquirindo um conteúdo comum. pois. maior que se as almas fossem de idêntico calibre. em geral. filológica. Dir-se-ia que aquele fragor de batalhas foi só uma tela atrás da qual tanto mais tenazmente trabalhava a pacífica polipeira da paz.A rebelião das massas. arte. espanhol. mas possuem um mesmo plano ou arquitetura psicológicos e. normas. pelejam entre si. A Europa não está certa de mandar. Agora se vai ver se os europeus são também filhos da mulher de Lot e se obstinam em fazer história com a cabeça virada para trás. em cem se comerciava com o inimigo. entretecendo a vida das nações hostis. Hoje. Afortunadamente. em geral. etc. o que nem na paz nem na guerra pode nunca fazer Roma com o celtibero. o britânico e o germano. não é a idéia erudita. sentiria terror. e tem sua origem na desmoralização da Europa. enquanto se batalhava numa gleba. que se lhe predicou. como "nacionais". e. permutavam-se idéias e formas de arte e artigos da fé. Veria que não lhe era possível viver só disso. são e serão tão diferentes como se queira. Alemanha. e em obra de mera fantasia se extirpasse do homem médio francês tudo que usa. Se se fizesse a experiência imaginária de se reduzir a viver puramente com o que somos. Religião. que entre outros sintomas se manifesta por uma desatorada rebelião das massas. E esta a unidade de paisagem em que se vai mover desde o Renascimento.

Mas . que ideologia.. E sempre . não é afã nem mister autêntico. que a faz eqüivaler a capricho leviano. não o esporte em si) até a violência em política. se ostenta.. se ensaia e se encomia. A última chama. envilecem-se. Por isso é essencialmente provisória. sem mais exceção que algumas partes de algumas ciências. Não há mais vida com raízes próprias.htm (93 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . porque tudo isso é pura invenção. de molas vitais. Só há verdade na existência quando sentimos seus atos como irrevogavelmente necessários. o que está em nossa mão pegar ou largar ou substituir. o mais profundo. Tudo isso irá com mais celeridade do que veio. A atual é fruto de interregno. nem as mulheres que tipo de homens preferem realmente. precisamente do princípio caduco. prefixado. inequívoco. Na supernação européia que imaginamos. como era o do século XIX. Mas todos estes nacionalismos são becos sem saída.as fronteiras militares e as econômicas.como sempre acontece em crises parelhas . as fronteiras se hiperestesiam .aconteceu assim. O derradeiro suspiro. é provisional. Dá-se o caso contraditório de um estilo de vida que cultiva a sinceridade e ao mesmo tempo é uma falsificação. Acertará quem não se fie de quanto hoje se apregoa. Quando esta falta. menos exigido pelo destino. que povo ou grupo de povos. a pluralidade atual não pode nem deve desaparecer. desde a "arte nova" até os banhos de sol nas ridículas praias da moda. que tipo étnico. tanto mais frívolo. A véspera de desaparecer. Mas agora abre-se outra vez o horizonte para novas linhas incógnitas. mais puramente dinâmica. tudo que hoje se faz em público e na vida privada . como se vai articular o poder sobre a terra. Não há hoje nenhum político que sinta a inevitabilidade de sua política. Este é o sentido da erupção "nacionalista" nos anos que correm. Nada disso tem raízes. a idéia nacional. Os círculos que até agora se chamaram nações chegaram há um século ou pouco menos à sua máxima expansão. é precisamente falsificação da vida. Tudo. Tente-se projetá-los para o futuro e sentir-se-á o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. porque isto supõe um porvir claro. que sistema de preferências. Enquanto o Estado antigo aniquilava o diferencial dos povos ou o deixava inativo fora ou em suma o conservava mumificado. a que vai ser. posto que não se sabe quem vai mandar. aprisionando-o. transformou-se em província e "interior".A rebelião das massas. lastrando-o. e por isso a vida do mundo entrega-se a uma escandalosa interinidade. afrouxam. a mais extensa. Quem. Então acreditava-se saber o que ia acontecer amanhã. e quanto mais extremo é seu gesto. de um vazio entre duas organizações do mundo histórico: a que foi. no mau sentido da palavra. porque é um ar confinado. desconjunta-se-lhes a alma. de normas. Já não são senão passado que se acumula em torno e debaixo do europeu. não há mais vida autóctone que a que se compõe de cenas iniludíveis. O resto. arejada. Não se sabe para que centro de gravitação vão ponderar em um futuro próximo as coisas humanas. desde a mania do esporte físico (a mania. Todo o mundo percebe a urgência de um novo princípio de vida. Tudo. portanto. exige a permanência ativa desse plural que sempre foi a vida do Ocidente. Cada nação que antes era a grande atmosfera aberta.alguns ensaiam salvar o momento por uma intensificação extremada e artificial. Já não se pode fazer nada com eles a não ser transcendê-los. Já não há "plenitude dos tempos". Não é criação do fundo substancial da vida. Um começo disto oferece-se hoje a nossos olhos.repito . E nem os homens sabem bem a que instituições de verdade servir. Em suma: tudo isso é vitalmente falso.até no íntimo -. portanto. Os europeus não sabem viver se não se lançam numa grande empresa unitiva. Com mais liberdade vital que nunca sentimos todos que o ar é irrespirável dentro de cada povo. isto é.

pois. as classes conservadoras. Hoje parecem-nos bastante ridículos os arbitrários supostos em que há vinte anos fundava Sorel sua tática da violência. o conteúdo do credo comunista à russa não interessa. o pretexto que se oferece para iludir o dever de invenção e de grandes empresas. É exclusivista. que é um movimento petit bourgeois. e hoje voltaram à tranqüilidade os temerosos de outrora. mas apesar dele. ir-se-iam volatilizando todas as suas virtudes e capacidades superiores. A simplicidade de meios com que opera e a categoria dos homens que exalta revelam de sobra que é o contrário de uma criação histórica. e automaticamente a exigir muito de si. pois ao perigo genérico de que a Europa se desmoralize definitivamente e perca toda a sua energia histórica. Ninguém ignora que se triunfou na Rússia o bolchevismo. mas uma razão muito mais simples e prévia. surdos e sem veracidade.A rebelião das massas. Voltaria ela a crer em si mesma. choque. Não é. Pelo contrário: por aqueles anos escrevi que o comunismo russo era uma substância inassimilável para os europeus. Eu não participei de semelhante prognóstico. nada disso o que impede ao europeu embalar-se comunisticamente. Não por ele mesmo. Por aí não se sai para lado nenhum. acostume-se a não mandar nem se mandar. E não pelas razões triviais que seus apóstolos. como sempre aconteceu no processo de nacionalização. Minha presunção é a seguinte: agora. revelou-se como mais violento que todo o obreirismo junto. por sua vez. como antes. Mas na Europa tudo está de sobra consolidado. Voltaram à tranqüilidade quando chega justamente a época para que a perdessem. Porque agora sim pode derramar-se sobre a Europa o comunismo de roldão e vitorioso. mas exuberante. não desenha um porvir desejável aos europeus. Mas a situação é muito mais perigosa do que se pode apreciar. como ele cria. mesmo sem comunismo. Mas à unidade da Europa opõem-se. foi porque na Rússia não havia burgueses (89). parece-me muitíssimo possível que nos anos próximos a Europa se entusiasme pelo bolchevismo. um valor positivo e é uma alta norma. O nacionalismo é sempre um impulso de direção oposta ao princípio nacionalizador. Qualquer que seja o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o homem que vive exclusivamente de suas rendas e que as transmite a seus filhos tem os dias contados. casta que pôs todos os esforços e fervores de sua história na carta Individualidade. a disciplinar-se. Quando o comunismo triunfou na Rússia muitos acreditaram que todo o Ocidente ficaria inundado pela torrente vermelha. porfiados. O fascismo. O tempo correu. e atualmente está mais disposto à violência que os operários.htm (94 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .repito -. como todos os apóstolos. e o nacionalismo não é mais que uma mania. Em tal caso. Imagine-se que o "plano qüinqüenal" seguido herculeamente pelo Governo soviético conseguisse suas previsões e a enorme economia russa ficasse não só restaurada. Isto pode trazer para elas a catástrofe. Não é isso o que imuniza a Europa para a fé russa. não atrai. Os bourgeois do Ocidente sabem muito bem que. Entretanto . Só a decisão de construir uma grande nação com o grupo dos povos continentais tornaria a dar tom à pulsação da Europa. Vão passando os anos e corre-se o risco de que o europeu se habitue a este tom menor de existência que leva agora. Em época de consolidação tem. nem é muito menos temor. soem verbificar. O burguês não é covarde. Esta: que o europeu não vê na organização comunista um aumento da felicidade humana. ajunta-se outro muito concreto e iminente. enquanto este é inclusivista.

sem que ele mesmo suspeite por que sujeito de ilimitados direitos. conteúdo do bolchevismo.todos os grupos que significam sobrevivências do passado . se sinta arrastado por sua atitude moral. Nego rotundamente que exista em lugar algum do continente grupo algum informado por um novo ethos que tenha visos de u'a moral. decisivamente. sem projeto de vida nova. Por essa razão seria uma ingenuidade lançar em rosto ao homem de hoje sua falta de moral. Não é que o homem-massa menospreze uma antiquada em benefício de outra emergente. Qualquer substância que caia sobre uma alma assim.como se fez neste ensaio . seu esplêndido caráter de magnífica empresa irradiará sobre o horizonte continental como uma ardente e nova constelação. Nele os homens abraçaram resolutamente um destino de reforma e vivem tensos sob a alta disciplina que essa fé lhes injeta. dará um mesmo resultado. não se achará entre todos os que representam a época atual um só cuja atitude ante a vida não se reduza a crer que tem todos os direitos e nenhuma obrigação.os cristãos. Os técnicos da economia política garantem que essa vitória tem mui escassas probabilidades de sua parte. etc. representa um ensaio gigantesco de empresa humana. A imputação não lhe causaria a menor impressão. seu estado de ânimo consistirá. -. DESEMBOCA-SE NA VERDADEIRA QUESTÃO Esta é a questão: a Europa ficou sem moral.A rebelião das massas. Quando se fala da "nova" não se faz senão cometer uma imoralidade mais e buscar o meio mais cômodo para passar contrabando. os "idealistas". do homem atual. Contanto que sirva a algo que dê um sentido à vida e fugir do próprio vazio existencial. persiste no ignóbil regime vegetativo destes anos. O comunismo é uma "moral" extravagante . em ignorar toda obrigação e sentir-se. não é difícil que o europeu engula suas objeções ao comunismo. a única empresa que poderia contrapor-se à vitória do "plano qüinqüenal". Não acrediteis uma palavra quando ouvirdes os jovens falar da "nova moral". e já que não por sua substância. e se converterá em file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O fracasso deste equivaleria à derrota universal: de todos e de tudo. Se deixamos de um lado . Se a matéria cósmica.htm (95 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mas que o centro de seu regime vital consiste precisamente na aspiração a viver sem sujeitar-se a moral alguma. É indiferente que se mascare de reacionário ou de revolucionário: por ativa ou por passiva. ao cabo de umas ou outras voltas. ou melhor. não faz fracassar gravemente a tentativa. Mas seria demasiado vil que o anticomunismo esperasse tudo das dificuldades materiais encontradas por seu adversário. como poderia evitar o efeito contaminador daquela empresa tão prócer? E não conhecer o europeu esperar que possa ouvir sem se acender essa chamada a novo fazer quando ele não tem outra bandeira de semelhante altaneria que desfraldar ovante. Eu vejo na construção da Europa. Se a Europa. a incitação de um novo programa de vida? XV. o lisonjearia. O imoralismo chegou a ser tão barato que qualquer um alardeia exercitá-lo. frouxos os nervos por falta de disciplina. tão só que lhe deixe via um pouco franca. indócil aos entusiasmos do homem. como grande Estado nacional. os velhos liberais.algo assim como uma moral -. Não parece mais decente e fecundo opor a essa moral eslava uma nova moral do Ocidente. entretanto.

A rebelião das massas. vivemos um tempo de chantagem universal que toma duas formas de esgar complementário: há a chantagem da violência e a chantagem do humorismo. em última instância. Era como um falso direito. o fenômeno. não lhe façamos tão fácil a tarefa. Se você não quer submeter-se a nenhuma norma. o miserável e a justiça social. por essência. entre irônico e terno. lhe serve de disfarce para poder desentender-se de toda obrigação . Embalou-se sem reservas pelo declive de uma cultura magnífica. pateando quanto parecia eminência. do Estado. Não. Em realidade. sobretudo se o próximo possui uma personalidade valiosa. sobretudo. Eu sei de não poucos que ingressaram em um ou outro partido operário apenas para conquistar dentro de si mesmos o direito a desprezar a inteligência e poupar-se aos salamaleques diante dela. em parte. analisando sobretudo seu comportamento ante a civilização mesma em que nasceu. Essa esquivança a toda obrigação explica. que é sempre. e isto não é amoral. se declaram "jovens" porque ouviram que o jovem tem mais direitos que obrigações. mas uma simples negação. Se se apresenta como reacionário ou antiliberal. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sentimento de submissão a algo. de que se tenha feito em nossos dias uma plataforma da "juventude" como tal. será para poder afirmar que a salvação da pátria. Mas é estupefaciente que agora o tomem estes como um direito efetivo. dá direito a alhear todas as outras normas e a massacrar o próximo. que o homem vulgar possa sentir-se livre de toda sujeição. Como se pode acreditar na amoralidade da vida? Sem dúvida porque toda a cultura e a civilizacão moderna levam a esse convencimento. O que com um vocábulo falto até de gramática se chama amoralidade. Com um ou com outro aspira-se sempre ao mesmo: que o inferior. Agora recolhe a Europa as penosas conseqüências de sua conduta espiritual.htm (96 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . já que pode demorar o cumprimento destas até as calendas gregas da madureza. velis nolis. Por isso não convinha mesclar seu psicograma com a grande questão: que insuficiências radicais padece a cultura européia moderna? Porque é evidente que. uma caduca e a outra em alvor. negação que oculta um efetivo parasitismo. mas imoral. Por isso não cabe enobrecer a crise presente mostrando-a como o conflito entre duas morais ou civilizações. precisamente para atribuir-se todos os demais que pertencem só a quem tenha feito já alguma coisa. chegou a fazer-se da juventude uma chantagem. Isto se acha na natureza do humano. é uma coisa que não existe. Mas a mesma coisa acontece se dá para ser revolucionário: seu aparente entusiasmo pelo operário manual. a veracidade. mas sem raízes. considerou-se isento de fazer ou haver feito façanhas. Da moral não é possível desentender-se simplesmente. E uma moral negativa que conserva da outra a forma em oco. O homem-massa está ainda vivendo precisamente do que nega e outros construíram ou acumularam. Quiçá não ofereça nosso tempo traço mais grotesco. Neste ensaio desejou-se desenhar certo tipo de europeu. que os não jovens concediam aos moços. Porque não se trata só de que este tipo de criatura se desentenda da moral. Importava fazer assim porque esse personagem não representa outra civilização que lute com a antiga. O homem-massa carece simplesmente de moral. pretexto para não se sujeitar a nada concreto. delas provém esta forma humana agora dominante. consciência de serviço e obrigação. Sempre o jovem. Mas talvez é um erro dizer "simplesmente". Embora pareça mentira. As pessoas. entre ridículo e escandaloso. e. comicamente. bem vimos como afagam o homem-massa. de sujeitar-se à norma de negar toda moral. tem. Quanto às outras Didaturas. como tal. Sempre viveu de crédito. o respeito ou estimação dos indivíduos superiores.como a cortesia.

O interessante seria precisar quais são os atributos surpreendentes. não haverá maneira nem sequer de iniciar a conversação. é portentosa. É uma empresa que dá bem ou mal. pelo menos. que se desenvolve. Mas essa grande questão tem de permanecer fora destas páginas. reduz o assunto file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Depois viria a tentativa de mostrar como adquiriu a Inglaterra essas qualidades sociológicas. Obrigaria a desenvolver com plenitude a doutrina sobre a vida humana que. o maravilhoso não pertence. como tudo que é humano.. ou. sobressalto e a consciência de ter a sua frente algo admirável. O que então não imaginava é que tão rapidamente viessem os fatos confirmar meu prognóstico e a incorporar minha esperança. se faz. reatar. O povo inglês é. murmurada nelas. onde o destino me havia centrifugado. a que tivera durante dois séculos e que em forma superlativa estava chamado a exercer hoje. Durante os últimos tempos falharam tantas coisas que. A manobra de saneamento histórico que tenta a Inglaterra. até da Inglaterra.htm (97 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . cinge-se ao vento e a guinada de seu leme modifica o destino do mundo. não é um dom inato. mas uma fabricação. Ainda menos tentar a explicação de como chegou a ser essa estranha coisa que é." É uma expressão que significa surpresa. Em que pese esta vez à etimologia. insinuada. eu assinalava com fé robusta a missão européia do povo inglês. Há várias centúrias acontece periodicamente que os continentais acordam uma manhã e. vira dois quadrantes. coçando a cabeça.e ainda arrostando certos riscos de que não quero falar agora -. EPÍLOGO PARA INGLESES Daqui a pouco faz um ano que numa paisagem holandesa. Insisto em empregar esta palavra.A rebelião das massas. porque é excessiva. É evidente que há muitas maneiras de fazer história. apesar do pedante que é. Não me refiro ao inglês individual. Dizia-se que era um povo em decadência. exclamam: "Esta Inglaterra!. Talvez possa em breve ser exaltada. que se inicia após um período de ensaios. Muito menos que se comprazessem com tal precisão em ajustar-se ao papel determinadíssimo que. o navio inglês troca todas as suas velas. que "perde o fio" uma ou várias vezes. se tende a duvidar de tudo. No meio da mais atroz tormenta. fica entrelaçada. incluso das que acabo de proferir. que já foi afugentado de outros acontecimentos. O "caráter nacional". O estranho. Não obstante . por insólitos. dizer por que é estranha e por que é maravilhosa a Inglaterra. Mas mesmo aquele que estime o modo de ser dos homens ingleses acima de todos os demais. à ordem psicológica. o fato mais estranho que há no planeta. com efeito. desde já. O caráter nacional vai se fazendo e desfazendo e refazendo na história. É sobremaneira discutível que o inglês individual valha mais que outras formas de individualidade aparecidas no Oriente e no Ocidente. quase tantas como de desfazê-las. e tem de voltar a começar. a nação não nasce. atribuía eu a Inglaterra ante o Continente. à coletividade dos ingleses. mas à ordem sociológica.. O excepcional da Inglaterra não jaz no tipo de indivíduo humano que soube criar. Enquanto se acredite que um povo possui um "caráter" prévio e que sua história é uma emanação deste caráter. que se corrige. E preciso extirpar da história o psicologismo. usando um símil humorístico. pois. E como a sociologia é uma das disciplinas sobre as quais as pessoas têm em todas as partes menos idéias claras. não seria possível. mas ao corpo social. mas incompreensível. em seu interior. por inércia mental. como um contraponto. da vida inglesa nos últimos cem anos. Naquela data começava para a Inglaterra uma das etapas mais problemáticas de sua história e havia muito poucas pessoas na Europa que confiassem nas suas virtudes latentes. escrevi o Prólogo para franceses à primeira edição popular deste livro. Tudo isso sem uma gesticulação e muito além de todas as frases. porque atrás dela está o verdadeiramente essencial e fértil. sem muitas preparações.

que o excepcional. Quando chegamos a esse povo. E é que as virtudes de um povo. quer dizer. em palanque. mas sim nos países . O homem do Sul propende a ser gárrulo. o leitor não esquecerá o destinatário. Soube por isso forjar uma língua e uma elocução em que se trata principalmente de não dizer o que se diz. entorpecimento. na França. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Por isso divinizaram o dizer. Dirigidas a ingleses. O inglês não veio ao mundo para dizer. vício e falha. e em certa maneira. exasperantes.tem se deixado circular a intriga. como as de um homem. postos atrás de seus cachimbos. de engenheiros e de homens piedosos. A Grécia. no tempo próximo. os povos românicos forjaram línguas complicadas. a frivolidade. O aticismo havia triunfado sobre o laconismo. o logos. tem sido alguma atitude de graça generosa. dando ao vento em formas claras e eufônicas a mais arcana intimidade. dizer. composto de cautelas e eufemismos. ao contrário. Não há povo que. não seja insuportável. olhado desde outro. e para o ateniense viver era falar. vão elevadas.falar sem parecer que dela falava nas páginas intituladas "Quanto ao pacifismo. são seus limites. ao mesmo tempo. a meu juízo. E por este lado talvez são os ingleses. ". Escutaram-se em sério as maiores imbecilidades com tanto que fossem indígenas. Isto me levou. acrescentadas a seguir. Mas. mas. consolidadas. soltou nossas línguas e nos fez indiscretos a nativitate. O nervosismo dos últimos meses fez que quase todas as nações tivessem vivido encarapitadas em suas fronteiras. Talvez. que nos educou. no moral como no físico. aproximando-nos destes esplêndidos ingleses. que é. no modo como sabe ser uma sociedade. Nisto sim é que se contrapõe a todos os demais povos e não é questão de mais ou de menos. mas deliciosas. Se é benévolo.em ágora e praça. Respeito semelhante à Inglaterra não nos exime da irritação ante seus defeitos.já a suspicácia do público inglês não tolerava outra coisa . e o que mais falta tenho sentido. tem havido a radical decisão de não querer ouvir nenhuma voz espanhola capaz de esclarecer as coisas. Eu sustento. ainda convencido de que forçava um pouco a conjuntura. esganiçar-se.. o primeiro que vemos são as suas fronteiras. O que mais me surpreendeu é a decidida vontade de não tomar conhecimento das coisas que há na opinião pública desses países. sobre seus defeitos e limitações. o mais estimável que há no mundo. que. Daí que nos sintamos sôfregos quando. por minha vez. se me ofereça oportunidade para fazer ver tudo que quero dizer com isto. que a originalidade extrema do povo inglês radica em sua maneira de tomar o lado social ou coletivo da vida humana. línguas feitas à força de palavreados infindáveis . a respeito da Espanha. de uma sonoridade. dando um espetáculo exagerado de seus mais congênitos defeitos. Tenha-se presente que a Inglaterra não é um povo de escritores mas de comerciantes. Renunciou-se nelas a todo "brilho" e vão escritas em estilo bastante pickwickiano. dificultam enormemente a inteligência com outros povos. e a retórica acabou sendo para a civilização antiga o que tem sido a física para nós nestes últimos séculos. sobretudo com os nossos. Sob esta disciplina. a aproveitar o primeiro pretexto para falar sobre a Espanha e . na América do Norte representa atonia. de insinuar e ainda mais de iludir. os ouvimos emitir a série de leves miados displicentes em que consiste seu idioma. e importa sobremaneira à espécie humana que se conserve intacto esse tesouro e essa energia de taciturnidade.htm (98 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a dureza de cabeça. o prejuízo arcaico e a hipocrisia nova sem lhes pôr um limite.A rebelião das massas. Com faces impassíveis. representam um esforço de acomodação a seus usos. Isto é uma força magnífica. taberna e tertúlia. para silenciar.não em seus governos. ao qual atribuíam mágica potência. ou de ouvi-la depois de deformá-la. em grau especial. e. a uma questão de mais ou de menos. No anglo-saxão . Se se ajunta a isso que um dos principais temas de disputa tem sido a Espanha.. entrementes. velam os ingleses alerta sobre seus próprios segredos para que não escape nenhum. compreender-se-á até que ponto hei sofrido de quanto na Inglaterra. uma plasticidade e um garbo incomparáveis.

É. e no uso mais exótico e incompreensível suspeitava mistérios de grande sabedoria. E o caso é que . mas com o entranhável desejo de colaborar na reconstituição da Europa. O assunto é. não se lhe ocorria desdenhar um povo "inculto" e depauperado como a Espanha. nas diferenças de poderio diferença de nível humano.quer dizer. jamais se haviam produzido até os últimos cinqüenta anos. O romanticismo que lhe sucedeu não é senão sua exaltação. Lema dele foram estas palavras de Goethe: "Só todos os homens vivem o humano". apesar de supor-se dono da verdade absoluta. onde as famílias não vivem nunca separadas. de se permitirem crer as nações hoje poderosas que o estilo ou o "caráter" de um povo menor é absurdo porque é bélica ou economicamente débil.é o oposto do atual "internacionalismo". O romântico enamorava-se dos outros povos precisamente porque eram outros. Este foi o sentido do cosmopolitismo que coagula no seu último terço. são fenômenos que. cometesse o gigantesco de seu pacifismo. indubitável que o inglês de hoje. o escândalo que provocava era prova de que o homem normal de então não via. de entusiasmo por elas.que a ele lhe parece a exemplar desocupação de "tomar sol" a que o castiço espanhol sói dedicar-se conscientemente.htm (99 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Quando alguém o fazia. povos que convivem desde sua infância. 1938. Nutre-se não da exclusão das diferenças nacionais. Paris. Busca a pluralidade de formas vitais com vistas não à sua anulação. mas se misturam a toda hora sua doméstica existência. mas à sua integração. Ao enciclopedista francês do século XVIII. Estes povos que agora se ignoram tão gravemente brincaram juntos quando eram crianças nos corredores da grande mansão comum. de se desprezar e injuriar porque são diferentes. O fato é estupefaciente. mas. que o unicamente civilizado é vestir umas bombachas e dar pancadas numa bolinha com uma vara. Para enunciar só um dos mil fios que naquele fato se atam. Pelo contrário: é o século das viagens cheias de curiosidade amável e prazenteira pela divergência do próximo. por exemplo. sem excessiva presunção. operação que habitualmente se dignifica denominando-a de "golf". Seu gênio político permitiu-lhe nestes meses corrigir com um esforço incrível de self-control o mais extremo do mal. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.A rebelião das massas. Sobretudo isto se raciocina tranqüilamente nas páginas imediatas. Esse mútuo desconhecimento tornou possível que o povo inglês. O cosmopolitismo de Fergusson. como um parvenu. Goethe . não é muito capaz de ver o que há de cultura refinada. enfim. porventura. advirta-se que o uso de se converterem uns povos em juizes dos outros. tão parco em erros históricos graves. a que talvez pode concretizar-se mais é o desarmamento da Inglaterra.tinha razão. hermetizado pela consciência de seu poder político. Herder.em princípio . e as páginas que seguem não fazem outra coisa senão tomá-lo pelo lado mais urgente. Porque a Europa foi sempre como uma casa da vizinhança. O tema do ensaio que segue é a incompreensão mútua em que caíram os povos do Ocidente . Porventura tenha contribuído para que adote esta resolução a consciência da responsabilidade contraída. não obstante sua petulância e sua escassa ductilidade intelectual. pelo contrário. Devo advertir ao leitor que todas as notas foram acrescentadas agora e suas alusões cronológicas hão de ser referidas ao corrente mês. se não erro. sutilíssima e de alto alcance nessa ocupação . Ele crê. pois. Como puderam chegar a não se entender tão radicalmente? A gênese de tão feia situação é longa e complexa. De todas as causas que geraram as presentes desgraças do mundo. abril. de muito peso.

Pelo contrário.tem sido subestimar o inimigo. dos que se apresentam como titulares do pacifismo . Para isso é preciso que nos resolvamos a estudá-lo a fundo.embarcaram no pacifismo. Mas isso sublinha tanto mais quanto houve de erro no resto. a guerra é um enorme esforço que os homens fazem para resolver certos conflitos.A rebelião das massas. muitas formas de pacifismo. a saber. que foi a disciplina militar. de verdade. O fracasso foi tão grande. Talvez fosse muito mais útil do que se imagina um estudo completo sobre as diversas formas do pacifismo. tão rotundo. entretanto.seu Governo e sua opinião pública . em geral. Enfim: a divergência torna-se superlativa quando se põem a pensar nos meios que exige uma instauração de paz sobre este pugnacíssimo globo terráqueo. base de toda civilização: ao descobrimento da disciplina. que alguém teria direito a revisar rapidamente a questão e a se perguntar se não é um erro todo pacifismo. mas um invento. Contra o que acreditem os jeremias. serenamente. O reconhecimento de um erro é por si mesmo uma nova verdade é como uma luz que dentro deste se acende.seu Governo e sua opinião pública . Dele emergiria não escassa claridade. pacifista. tão diferentes que na prática vêem a ser com freqüência antagônicas. o desânimo. Como quase sempre acontece. Por outra parte. Mas os pacifistas começam a discrepar quando dão o passo imediato e interrogam-se até que ponto é em absoluto possível o desaparecimento das guerras. Em vez de chorar sobre ele convém apressar-se a explorá-lo. um crime ou um vício. Mas eu prefiro agora adaptar-me quanto possa ao ponto de vista inglês. O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. se converte magicamente em uma nova vitória para o homem. Eu suponho que os ingleses se dispõem já. É um fato demasiado notório que esse pacifismo inglês fracassou. QUANTO AO PACIFISMO Há vinte anos (90) a Inglaterra . Ela levou a um dos maiores descobrimentos. Todas as demais formas de disciplina procedem da primigênia. Por que desanimar? Talvez as duas únicas coisas a que o homem não tem direito são a petulância e seu oposto. Isso quer dizer que esse pacifismo foi um erro. na apreciação das possibilidades de paz que o mundo atual oferecia e na determinação da conduta que há de seguir quem pretenda ser. todo erro é uma propriedade que acresce nosso haver. Mas é evidente que não me corresponde agora nem aqui fazer um estudo no qual ficaria definido com certa precisão o peculiar pacifismo em que a Inglaterra . mas decididamente. como a ciência e a administração.e. Os animais a desconhecem e é de pura instituição humana. Cometemos o erro de designar com este único nome atitudes mui diferentes. apenas reconhecendo-o. e vou supor que sua aspiração à paz do mundo era uma excelente aspiração. O pacifista vê na guerra um dano. a descobrir sem piedade suas raízes e a construir energicamente a nova concepção das coisas que isto nos proporciona. Mas esquece que. Baste advertir o estranho mistério da condição humana consistente em que uma situação tão negativa e de derrota. a retificar o enorme erro que durante vinte anos tem sido seu peculiar pacifismo e a substituí-lo por outro pacifismo mais perspicaz. antes disso e acima disso. A única que entre elas existe de comum é uma coisa muito vaga: a crença em que a guerra é um mal e a aspiração a eliminá-la como meio de trato entre os homens. a realidade atual facilita desgraçadamente o assunto. Esta subestima lhes inspirou um diagnóstico falso. como é haver cometido um erro. o defeito maior do pacifismo inglês . A guerra não é um instinto. com efeito.htm (100 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Há. Não há nunca razão suficiente nem para um nem para o outro. Ao dizer isto não sugiro nada que possa levar ao desânimo.embarcou há vinte anos.

que é elementar. Imaginemos. pelo contrário. Se se atende a tudo isso. mais ainda. não passe a ser um difícil conjunto de novas técnicas. que há que fabricar. creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la.e a nós nos corresponde generalizar sua advertência. repitamos. seu horror. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Não se espere nesta ordem nada fértil enquanto o pacifismo. portanto. era um meio que haviam inventado os homens para solucionar certos conflitos. Do mesmo modo. a saber: o aspecto que têm ao chegar e o aspecto que têm ao ir. a saber: a idéia de que a guerra procede simplesmente das paixões dos homens. Augusto Comte. viu já deste modo a instituição da escravidão . por sua parte. tem a guerra dois aspectos: o da hora de sua invenção e o da hora de sua superação. Na hora de sua invenção significou um progresso incalculável. Como toda forma histórica. de construí-lo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. então. tentou fazer. a guerra reapareceria inexoravelmente nesse imaginário planeta habitado só por pacifistas. porque os conflitos reclamariam solução. É preciso que este vocábulo deixe de significar uma boa intenção e represente um sistema de novos meios de trato entre os homens. aprendendo a olhar todas as coisas humanas sob essa dupla perspectiva. em vez de matar os prisioneiros. requerem a venturosa intervenção do gênio. enquanto não se inventasse outro meio. deixa-os mais intactos e menos resolvidos que nunca. um sistema de esforços complicadíssimos. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano. ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz. guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida. só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse. em suma. Acredita-se que basta isso. de ser um gratuito e cômodo desejo. que com isso se havia dado o mais breve passo eficiente no sentido da paz? Grande erro! A guerra. o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. O outro é puro erro. um fazer que se assemelha tanto a um puro omitir? Essa crença é incompreensível se não se adverte o erro de diagnóstico que lhe serve de base. trabalhar em que não se fizesse. quando aspiramos a superá-la. que tinha um grande sentido humano. A ausência de paixões. Por isso. tem ele de fazê-lo. a vontade pacífica de todos os homens seriam completamente ineficazes. pois. também a paz é uma coisa que importa fazer. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou.A rebelião das massas. quer dizer. e que. pronta para que o homem a goze. sua insuficiência.Adeona e Abeona. conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor. A renúncia à guerra não suprime estes conflitos. histórico. pondo na faina todas as potências humanas. não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. costumamos. não parecerá surpreendente a crença em que esteve a Inglaterra de que o mais que podia fazer a favor da paz era desarmar. Não é. em parte. Pelo contrário. mui finamente. como a Inglaterra. Mas o enorme esforço que é a guerra. sua rusticidade. Os romanos. Hoje. simplesmente. que em certo momento todos os homens renunciassem à guerra. Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou. sem mais reflexão. A paz não "está aí". e. o belicismo ficará asfixiado. vemos dela apenas a suja espádua. o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. o deus do chegar e o deus de ir. maldizer da escravidão. Para ver com clareza a questão façamos o que fazia lord Kelvin para resolver seus problemas de física: construamos um modelo imaginário. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. Nada importante é apresentado ao homem. a vontade de paz o que importa ultimamente no pacifismo.libertando-se das tolices que Rousseau disse sobre ela . Por desconhecer tudo isso.htm (101 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . encarregaram duas divindades de consagrar esses dois instantes . e que se se reprime o apaixonamento.

a coletividade que formam os povos europeus e americanos. Pois bem: o pacifismo usual dava como suposto que esse direito existia. Nem era lícito esperar maior fertilidade nesta ordem. A paz. não importa que não haja juizes. na plenitude do termo. que essa expansão chegue de tal modo a ser predominante. contribui a ocultar-nos a indigência de verdadeiro direito internacional que padecemos. A proliferação de tribunais internacionais. que aquelas idéias de direito se consolidem em forma de "opinião pública". Não significam progresso algum importante no que é essencial: na criação de um direito para a peculiar realidade que são as nações. Ora bem: isto é gravemente oposto à verdade. cujo exercício concreto e preciso constitui isso que. que estava aí à disposição dos homens e que só as paixões destes e seus instintos de violência induziam a ignorá-lo. adverte-se que são as mesmas resolvidas de há muito pela diplomacia. atuarão inevitavelmente como instâncias para a conduta às quais se pode recorrer. 3o. e só então. Se aquelas idéias senhoreiam de verdade as almas. Mas a importância desses tribunais internacionais tem se reduzido a isso até hoje. para só nos referirmos aos dois maiores e mais recentes cadáveres. entende-se. de imoral. É preciso que não se volte a cometer um erro como foi a criação da Sociedade das Nações. isto é. quer dizer. como não existe nem sequer como idéia. que alguns homens. Sempre é importante para o progresso de uma função moral que apareça materializada em um órgão especial claramente visível. com um vago nome. que os últimos cinqüenta anos presenciaram. de órgãos de arbitragem entre Estados. de maneira nenhuma. Mas é indispensável para contribuir um pouco a despertar o interesse para novas grandes empresas. incluindo os domínios ingleses da Oceania).htm (102 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . de uma etapa que se iniciou com o Tratado de Versalhes e com a instituição da Sociedade das Nações. o mesmo que já existia antes de seu estabelecimento. O enorme dano que aquele pacifismo trouxe à causa da paz consistiu em não deixar-nos ver a carência das técnicas mais elementais.. no essencial. que não se tenha consolidado como norma firme na "opinião pública". chamamos de paz. especialmente inspirados. é o direito como forma de trato entre os povos. como puro teorema incubado na mente de algum pensador.A rebelião das massas. semelhante pretensão. Repugna-me atrair a atenção do leitor sobre coisas falidas. E não só não existe no sentido de que não haja alcançado ainda "vigência". maltratadas ou em ruínas. pelo menos. Pois bem: um direito referente às matérias que originam inevitavelmente as guerras não existe. a importância dessas magistraturas. Não desestimo. descubram certas idéias ou princípios de direito. Porque é imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente. Não importa que não haja legislador. Para que o direito ou um ramo dele exista é preciso: 1o. de norma vigente. pretende-se que desapareçam as guerras entre eles? Permita-se-me que qualifique de frívola. simplesmente porque a desejamos. para novas tarefas construtivas e salutíferas. E esta é a verdadeira substância do direito. a propaganda e expansão dessas idéias de direito sobre a coletividade em questão (em nosso caso. Só é moral o desejo que é acompanhado da severa vontade de aprontar os meios de sua execução. podemos falar. O direito que administram é. o que concretamente foi e significou esta instituição na hora de seu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não sabemos quais são os "direitos subjetivos" das nações e não temos nem indícios de como seria o "direito objetivo" que possa regular seus movimentos.. 2o. por exemplo. E não havendo nada disso. Então. não havendo nem em teoria um direito dos povos. Com efeito: se se passa revista às matérias julgadas por esses tribunais. de direito..

com a qual coincide. pertencia ao passado.A rebelião das massas. sem remédio. sem profecia.htm (103 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . como os habituais na difícil faina que é a política. Mas. mutação perpétua. mas importa muito aos destinos humanos que o político ouça sempre o que o profeta grita ou insinua. mas pelo contrário. por exemplo. põem bem à vista o caráter ilusório de todo pacifismo que não comece por ser uma nova técnica jurídica. Mas uma camisa de força posta num homem são tem a virtude de torná-lo louco furioso. recebem antes que os demais a visita do porvir (91). É difícil. históricas. pelos temas de que habitualmente se ocupam. com efeito.dizia eu. nascimento. O bem que pretende ser o direito se converte em um mal. A Sociedade das Nações foi um gigantesco aparelho jurídico criado para um direito inexistente. E não se diga que é coisa fácil proclamar isto agora. com a estabilidade do direito. de uma física de quatro dimensões e de uma mecânica do descontínuo. Mas é o caso que as coisas humanas não são res stantes. O direito. Sua vacuidade de justiça encheu-se fraudulentamente com a sempiterna diplomacia. ou por possuir almas sensíveis como finos registradores sísmicos. O direito tradicional é só regulamento para uma realidade paralítica. sequer teoricamente. Em certo modo. pode. O "espírito" que propeliu para aquela criação. entregue a uma cega mecânica. Daí . Foi um erro histórico. que ao disfarçar-se de direito contribuiu à universal desmoralização. recentemente -. É talvez uma das causas profundas do atual desconcerto seja que há duas gerações os políticos se declararam independentes e cancelaram essa colaboração. Cada vez é menos possível uma sã política sem larga antecipação histórica. e não debalde seu órgão principal se chama Estado. Mercê disso produziu-se o vergonhoso fenômeno de que. coisas históricas. Dentro do povo produzem-se as revoluções. Não foi um erro qualquer. e não o profeta. Quais são. choca. Mas uma época que assistiu ao invento das geometrias não-euclidianas. E como a realidade histórica muda periodicamente de modo radical. exatamente tão difícil como a paz. sociológicas e jurídicas de que emanaram seu projeto e sua figura estava já historicamente morto naquela data. também os políticos não fizeram caso desses homens. quer dizer. O homem não conseguiu ainda elaborar uma forma de justiça que não esteja circunscrita na cláusula rebus sic stantibus. Evito precisar a que grêmio pertenciam os profetas. Se fosse fácil existiria há muito tempo. como já nos ensina a Bíblia: "Por que tomastes o direito file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.de certa radical limitação que sempre padeceu. Foi um erro que reclama o atributo de profundo. Baste dizer que na fauna humana representam a espécie mais oposta ao político. os quais. o direito que aqui se postula é uma invenção muito difícil. Também aqui se trataria de libertar uma atividade humana . resolvê-lo. e longe de antecipar o futuro era já arcaico. sem espanto. Sempre será este quem deva governar. puro movimento. a esta altura da história e da civilização. uma vez mais. Uma vez mais aconteceu o que é quase normal na história. o problema do novo direito internacional pertence ao mesmo estilo que esses recentes progressos doutrinais. os mais toscos e elementais que podem ser apontados. navegue o mundo mais à deriva que nunca. o sistema de idéias filosóficas.o direito . os direitos de um povo que ontem tinha vinte milhões de homens e hoje tem quarenta ou oitenta? Quem tem direito ao espaço não habitado do mundo? Estes exemplos. Talvez as catástrofes presentes abram de novo os olhos dos políticos para o fato evidente de que há homens. esse estranho aspecto patológico que tem a história e que a faz parecer como uma luta sempiterna entre os paralíticos e os epilépticos. e diga-se a si mesmo se encontra em sua mente uma possível norma jurídica que permita. Sem dúvida. enfrentar aquela empresa e resolver-se a acometê-la. Houve homens na Europa que já então denunciaram seu inevitável fracasso. Todas as grandes épocas da história nasceram da sutil colaboração entre esses dois tipos de homem. e entre os povos estalam as guerras. Formule-se o leitor qualquer dos grandes conflitos que há atualmente estabelecidos entre as nações. que se converte em uma camisa de força. a saber: que foi predita. é estático.

Porque a elasticidade é a condição que permite a um direito ser plástico. a saber: interpretar tudo que é inerte e material como puro dinamismo. a mudança na divisão do poder sobre a terra. é que se prevê seu movimento. No direito internacional. extrair a teoria que nele jaz muda . ao menos em teoria. Há mais de setenta anos. Porque se a realidade histórica é isso ante tudo. O outro. A demanda não é exorbitante. substituir o que não parece ser senão "coisa" jacente. parecerá evidente que a injúria máxima seja o statu quo. a meu juízo. Porque queremos conservar a toda coisa uma margem e uma elasticidade. antes de tudo. nem utópica. e se se lhe atribui uma margem. Por exemplo: quase todas as constituições contemporâneas procuram ser "abertas". porque um político não veio ao mundo para isso. e especialmente ao inglês. isto é. a constituição do Império britânico parece-se muito ao "molusco de referência" de que falou Einstein. nem sequer nova. a história é. o princípio "da margem e da elasticidade". Não estranhe. está proibido: definir as coisas. capaz de acompanhar a história em sua metamorfose. evolui neste sentido. E isso não certamente por casualidade. e se o político é inglês sente que definir algo é quase cometer uma traição. gigantesco aparelho construído para administrar o statu quo. pois. a unidade do Império britânica não está feita sobre uma constituição lógica. E enquanto não existam princípios de justiça que. o direito. o mais fértil seria analisar a fundo e tentar definir com precisão -. 6. enunciado por sir Austin Chamberlain em seu histórico discurso de 12 de setembro de 1925: "Vejam-se as relações entre as diferentes seções do Império britânico. Mas é evidente que há outros homens cuja missão é fazer o que ao político. quieta e fixa por forças. Em princípio. que o pacifista quer submeter àquela. embora estas se apresentem com a pretensão de ser essencialmente vagas.o fenômeno jurídico mais avançado que se produziu até hoje no planeta: a British Commonwealth of Nations. expressam mui adequadamente a formidável realidade que é a British Commonwealth of Nations e a designam precisamente sob seu aspecto jurídico. em fel e o fruto da justiça em absinto?" (Oseas. é possível que se abram diante de nós as mais férteis perspectivas. discussing or defining. Dir-me-ão que isto é impossível. convém recordá-lo. no qual adquire sua expressão mais extrema e depurada o que talvez é o destino intelectual do Ocidente. Não está sequer baseada numa Constituição. todo pacifismo é pena de amor perdida. as tomamos como realidades positivas. um direito plástico e em movimento.htm (104 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . tanto civil como político. Mas. A maneira inglesa de ver o direito não é senão um caso particular do estilo geral que caracteriza o pensamento britânico. Provavelmente. Importaria muito reduzir a conceitos claros essa situação efetiva de direito que consiste em puras "margens" e simples "elasticidades"." Seria um erro não ver nestas duas fórmulas senão emanações do oportunismo político. A capacidade para descobrir a nova técnica de justiça que aqui se postula está pré-formada em toda a tradição jurídica da Inglaterra mais intensamente que na de nenhum outro país. não é mais nem menos difícil definir o triângulo que a névoa. chega a sua máxima potência. esta incongruência entre a estabilidade da justiça e a mobilidade da realidade. Longe disso. 12). Se em vez de entender estes dois caracteres como meras ilusões e como insuficiências de um direito. porque nele se declara a aspiração a um direito semovente. O homem necessita um direito dinâmico.A rebelião das massas. movimentos e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o formulado por Balfour em 1926 com suas famosas palavras: Nas questões do Império é preciso evitar o refining. o fracasso da Sociedade das Nações. O que não fazem é defini-la. Embora o expediente seja um pouco ingênuo. Considerada no que ao direito importa. uma idéia de que a princípio se julgou inteligível e que é hoje base da nova mecânica. regulem satisfatoriamente essas mudanças do poderio. porque precisamente esse estranho fenômeno jurídico foi forjado mediante estes dois princípios: um.

Uma sociedade constituída mediante um pacto só é sociedade no sentido que este vocábulo tem para o direito civil. Porque o direito nos pareceria ser um fenômeno que acontece dentro das sociedades. Sem que eu pretenda resolver agora com atitude dogmática. portanto. quer dizer. pelo contrário. creio eu. funções. Mas a idéia de um novo direito não é ainda um direito. e o chamado "internacional" nos convida. formam parte dele os bíceps dos gendarmes ou seus sucedâneos. mas é o resultado de uma convivência inveterada. A primeira delas é uma nova técnica jurídica que comece por descobrir princípios de eqüidade referentes às mudanças da divisão do poder sobre a terra. manifeste meu desideratum de ler um livro cujo tema seja este: o newtonismo inglês. de passagem e avoadamente. em todas as demais ordens da vida. Se resumo agora meu raciocínio. a Sociedade das Nações. as questões mais intrincadas da filosofia do direito e da sociologia. como empedernido leitor. isto é. e mediante um pacto criariam uma sociedade nova. que não é obra de nenhum pacto. mas o pacifismo não consiste nisso. que seria. Desgraçadamente. Quando falamos das nações tendemos a representá-las como sociedades separadas e fechadas em si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. num vazio social. parecerá. Permita-se-me apenas que. fora da física. mas num estádio muito avançado de sua evolução. Mas é bem claro que o aparelho estatal não se produz dentro de uma sociedade. Suponho que cem vezes se terá feito constar e terá sido demonstrado com suficiente pormenor. Não esqueçamos que o direito se compõe de muitas coisas mais que uma idéia: por exemplo. Mas isso tudo tem o ar de um calembour (92). Mas uma associação não pode existir como realidade jurídica se não surge sobre uma área onde previamente tem vigência certo direito civil. Está bem que o homem pacífico se ocupe diretamente em evitar esta ou aquela guerra. Talvez o Estado proporciona ao direito certas perfeições. A Inglaterra tem sido. mas é necessário enunciar ante leitores ingleses que o direito existe sem o Estado e sua atividade estatutária. À técnica do puro pensamento jurídico devem acompanhar muitas outras técnicas ainda mais complicadas. que lhe indique a sociedade portadora desse direito e prévia a ele. Esta autêntica sociedade e não associação só se parece à outra no nome. A tal ponto é assim. Daí o calembour. mas mais enérgico. que não existe sintoma mais seguro para descobrir a existência de uma autêntica sociedade que a existência de um fato jurídico. atrevo-me a insinuar que caminha seguro quem exija. uma associação. newtoniana. constituído por uma linha simples e clara. Isto significa a invenção e exercício de toda uma série de novas técnicas. dos quais o direito é irmão menor. Nesse vazio social as nações se reuniriam. No vazio social não há nem nasce direito. tal como o uso e o costume. por mágica virtude dos vocábulos. em todas as ordens da vida. Este requer como substrato uma unidade de convivência humana.A rebelião das massas. Turva a evidência disto a confusão habitual que padecemos ao crer que toda autêntica sociedade tem forçosamente de possuir um Estado autêntico. Outra coisa são puras fantasmagorias.htm (105 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Essa área onde a sociedade ajustada surge é outra sociedade preexistente. o próprio nome de direito internacional estorva uma clara visão do que seria em sua plena realidade um direito das nações. mas em construir a outra forma de convivência humana que é a paz. a imaginar um direito que acontece entre elas. Mas não creio que seja necessário deter-me neste ponto. quando alguém lhe fale de um fato jurídico.

Esta figura corresponde muito mais aproximadamente que a outra ao que. podem os pacíficos despedir-se rapidamente de suas esperanças (93).intelectual. após a morte do período romano. Introduction to the History of European Society. Por esta razão censuro essa figura da Europa em que esta aparece constituída por uma multidão de esferas . que a Europa é uma sociedade. porque as únicas possibilidades de paz que existem dependem de que exista ou não efetivamente uma sociedade européia. O caráter geral do uso consiste em ser uma norma do comportamento .dotadas dessa força coactiva tão estranha em que consiste "o social". portanto. O indivíduo poderá. Como os fenômenos corporais são o idioma e o hieróglifo. Mas é evidente que existe uma convivência geral dos europeus entre si. e que estas nasceram e se desenvolveram no regaço maternal daquela.a Europa -. Mas isto é uma abstração que deixa de fora o mais importante da realidade. Os ingleses podem ver isto com alguma clareza no livro do Dawson: The Making of Europe. não significa sociedade. mas precisamente este esforço de resistência demonstra melhor que nada a realidade coactiva do uso. por exemplo. Sem dúvida. tão somente. Entre sociedades independentes não pode existir verdadeira paz. mas de dar expressão gráfica ao que realmente foi desde a sua iniciação. usos que dirigem a conduta ou "moral". Não seria nada exagerado dizer que a sociedade européia existe antes que as nações européias. A convivência. Se a Europa é só uma pluralidade de nações. foi a convivência ocidental. usos que a imperam ou "direito -. com efeito. queiram ou não queiram. Esta sociedade geral possui um grau ou índice de socialização menos elevado que o alcançado desde o século XVI pelas sociedades particulares chamadas nações européias. Convivência implica só relações entre indivíduos.A rebelião das massas.usos intelectuais ou "opinião pública". não nos promete mais eventualidade que a "carambola".convicções comuns e tábuas de valores . Diga-se. velha de muitos séculos e que tem uma história própria como possa tê-la cada nação particular. e. A Europa tem sido sempre um âmbito social unitário. Não se trata com isso de desenhar um ideal. usos de técnica vital ou "costumes". a convivência entre os homens da Inglaterra e os homens da Alemanha ou da França. por sua conta e risco. Pois bem: uma sociedade é um conjunto de indivíduos que mutuamente se sabem submetidos à vigência de certas opiniões e avaliações. resistir ao uso. essa convivência (94). porque jamais faltou esse fundo ou tesouro de "vigências coletivas" . mas não se ignore seu efetivo caráter de sociedade. dentro da qual se produziram grumos ou núcleos de condensação mais intensa. viver em sociedade ou formar parte de uma sociedade. imaginemos uma sociedade única . Mas não pode haver convivência duradoura e estável sem que se produza automaticamente o fenômeno social por excelência. que são os usos . Corrijamo-la. porque. pois. como o bilhar. Esta metáfora de jogador de bilhar deveria desesperar ao bom pacifista. A coisa importa superlativamente.que só mantêm alguns contatos externos. pois. mercê ao qual pensamos as realidades morais. o que chamaremos sua "vigência". a convivência ou trato dos ingleses entre si é muito mais intensa que. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sentimental ou físico que se impõe aos indivíduos. não há sociedade sem a vigência efetiva de certa concepção do mundo. a qual atua como uma última instância a que se pode recorrer em casos de conflito. mesmas. O que costumamos chamar assim não é mais do que um estado de guerra mínima ou latente.as nações . Em vez de nos afigurarmos as nações européias como uma série de sociedades livres.htm (106 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não é preciso dizer o dano que engendra uma errônea imagem visual convertida em hábito de nossa mente. Segundo isto. que a Europa é uma sociedade mais tênue que a Inglaterra ou que a França. sem fronteiras absolutas nem descontinuidades.

Os editoriais dos jornais e os discursos de ministros e demagogos não nos dão notícia dela. Tudo o mais por exemplo. Isso não quer dizer que seja incurável. o livro de Dawson é insuficiente. sobretudo. Poderia acontecer que hoje em dia faltassem essas instâncias em uma proporção sem exemplo. por causas profundas.a sociedade européia -. São fatos soltos aos quais o físico tem que inventar uma estrutura imaginária. Entretanto. A foro de sociedade. uma história realista. não é um amontoado de fatos soltos. mas que não se liberou de modo completo do arsenal de conceitos tradicionais na historiografia. Quando a estudamos bem.A rebelião das massas. parecerá abstruso. que é um excessivo exoterismo. que é por si um dos males do nosso tempo. Homais e congêneres.as nações -. organização. como. Poucas coisas contribuiriam a apaziguar o horizonte como uma história da sociedade européia. toda a ordem de que esse resto era capaz. os fenômenos físicos . Havia no mundo uma amplíssima e potente sociedade . por baixo de todas as suas superficiais desordens. em maior ou menor escala. em parte. entendida como acabo de apontar. E o é. com efeito.o credo intelectual e moral da Europa -. conserva alguma destas latente vivacidade. Mas essa anatomia da realidade histórica necessita ser estudada. É uma das muitas coisas cuja grave importância os políticos não souberam ver. ao longo de toda a história européia. que não se pode esperar remédio algum da Sociedade das Nações. Neste caso a enfermidade seria a mais grave que sofreu o Ocidente desde Diocleciano ou os Severos. Pois bem: nada hoje deveria importar tanto ao pacifista como averiguar que é o que acontece nessas camadas profundas do corpo ocidental. qual é seu índice atual de socialização. mais vulgarmente dito. Porque o direito é operação espontânea da sociedade. ao ler um fino exame de sangue. as ciências derivam irresistivelmente em direção esotérica. por exemplo. a despeito das aparências. porque as formas tradicionais da ótica histórica tapavam esta realidade unitária que chamei. sobretudo. vê ali definida uma terrível enfermidade? Esforcei-me sempre em combater o esoterismo. independente de que seja acertado ou errôneo. sensu stricto. Esta ordem que. mas que possui uma estrita anatomia e uma clara estrutura. estava constituída por uma ordem básica devido à eficiência de certas instâncias últimas . mas não está em mim evitá-lo. Está escrito por uma mente alerta e ágil. Há um século. instituto anti-histórico que um maldizente poderia supor inventado em um clube cujos membros principais fossem M. Pickwick. "sociedade européia" e a suplantavam por um plural . A realidade histórica ou. Que profano. Mas este assunto nunca foi visto. embora achacados do vício oposto. e. e se. A verdade é que esses povos em plural flutuam como ludiões dentro do único espaço social que é a Europa: "nele se movem. como. Por file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e pôs nele. quer só dizer que fora necessário chamar médicos ótimos e não qualquer transeunte.carece dela. Quer dizer. O anterior diagnóstico. Eu o lamento. desceu gravemente fazendo temer a cisão radical da Europa e. o que sucede no mundo humano. aparece no título de Ranke: História dos povos germânicos e românicos. em vez de revelar. mas a sociedade é convivência sob instâncias. atuava nas camadas profundas do Ocidente. conceitos mais ou menos melodramáticos e míticos que ocultam.htm (107 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mais: talvez é o único no Universo que tem por si mesmo estrutura. as realidades históricas. A história que eu postulo nos contaria as vicissitudes desse espaço humano e nos faria ver como seu índice de socialização variou. em ocasiões. por que se volatilizou o sistema tradicional de "vigências coletivas". M. como a dose de paz em cada época esteve na razão direta desse índice. Também os diagnósticos mais rigorosos da medicina atual são abstrusos. Este último aspecto é o que mais nos importa para as aflições atuais. irradiaram durante gerações sobre o resto do planeta. vivem e são". conforme foi e continua sendo. respeitáveis. sem "idealizações". é possível diagnosticar com certa precisão o lugar ou estrato do corpo histórico onde a enfermidade radica. Mas não forjemos ilusões.

Agora se vê como a coesão interna de cada nação se nutria em boa parte das vigências coletivas européias. Isso é que o pacifista precisa compreender. seja um ou outro o sentido desse comportamento. Pelo contrário: todo grupo determinado procura sua máxima fortaleza reclamando para si essas vigências. teria de ver se não foi um dos fatores que contribuíram ao desprestígio das vigências européias o peculiar uso que delas tem feito a Inglaterra. não recebe seu vigor do esforço senão impô-la ou sustentá-la empregam grupos determinados dentro da sociedade. aniquilou-se. que anulava a porosidade das nações e as tornava herméticas. Mas. o que é o mesmo. às vezes sem que estas se apercebam de que estão dominadas por elas. Quando uma opinião ou norma chegou a ser de verdade "vigência coletiva". independente de todo grupo ou indivíduo determinado. impessoal. A pura verdade é que. Vice-versa. a Europa se encontra em estado de guerra. mas dentro de cada povo há. Esta debilitação subitânea da comunidade entre os povos do Ocidente eqüivale a um enorme file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas. quietas e jacentes no fundo das almas. todos vimos como iam rapidamente endurecendo-se. A questão deverá algum dia ser estudada a fundo. talvez represente um papel diferente que nos demais povos europeus. mas é inquestionável e constitui o fato fundamental da sociedade. há trinta anos. há anos. As vigências são o autêntico poder social. temo que seja funesto para o pacifismo. A Europa está hoje dissocializada. No momento em que é preciso lutar em prol de um princípio. quer dizer que este não é ainda ou deixou de ser vigente. mas não agora nem por mim (96). Uma parte da Europa esforça-se em fazer triunfar uns princípios que considera "novos". convertendo-se em matéria córnea. Ora bem. ou.htm (108 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . anônimo. porque não as há. há somente que usá-lo. declarada ou preparando-se. de que se encontra em um mundo onde falta ou está muito debilitado o requisito principal para a organização da paz. No trato de uns povos com outros não cabe recorrer a instâncias superiores. É frívolo interpretar os regimes autoritários do dia como engendrados pelo capricho ou pela intriga. A atmosfera de sociabilidade em que flutuavam e que. faltam princípios de convivência que sejam vigentes e a que caiba recorrer. a outra esforça-se em defender os tradicionais. Ora bem: isto acontece ainda hoje. Ficam. amparar-se nele. separados e frente a frente. na Inglaterra e na América do Norte (95). lhes permita comunicar suavemente. interposta. com excessiva freqüência. de "dizer". quando uma idéia perdeu esse caráter de instância coletiva. Esta conduta significa erro. enquanto não há senão aceitar a situação e reconhecer que o conhecimento distanciou-se radicalmente das conversações de beer-table. as fronteiras eram para o viajor pouco mais que coluros imaginários. inversamente. em um estado de guerra substancialmente mais radical que em todo o seu passado. como se faz com a lei de gravidade. quando é com plenitude vigente. As vigências operam seu mágico influxo sem polêmica nem agitação. E a origem que atribui a esta situação parece-me confirmado pelo fato de que não somente existe uma guerra virtual entre os povos. e às vezes crendo inclusive que combatem contra elas. ou uma ficção deliberada? É inocência ou é tática? Não sabemos a que nos ater. ficamos perplexos. uma grave discórdia. Enquanto.A rebelião das massas. como um éter benéfico entre eles. produz uma impressão entre cômica e inquietante ver que alguém considera suficiente aludir a ela para se sentir justificado ou fortalecido. Ao adverti-lo. referir-se a ele. Bem claro está que são manifestações iniludíveis do estado de guerra civil em que quase todos os países se encontram hoje. O fenômeno é surpreendente. porque no homem anglo-saxão a função de se expressar. pois. esta é a melhor prova de que nem uns nem os outros são vigentes e perderam ou não alcançaram a virtude de instâncias. Mais ainda.

tendemos a esquecer que sempre foram mister grandes precauções para aproximar-se dessa fera com veleidades de arcanjo que costuma ser o homem. mudança à qual não teve tempo de se adaptar o organismo econômico. tão necessário que cada povo conhecesse bem a singulatim a cada um dos demais. sem mais nem menos. E isso em todas as ordens. apressou-se a emitir torrentes de retórica sobre os "avanços". telégrafo. Por isso corre ao longo de toda a história a evolução da técnica da aproximação. com efeito. pudesse dizer-se que as formas da saudação são função da densidade de povoação. Porque esse distanciamento moral se complica perigosamente com outro fenômeno oposto. transferência de produtos e transmissão de notícias . telefone -. isto é.vapores. com certas reservas. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Convencido o homem médio de que a centúria anterior era a que havia dado cume aos grandes empreendimentos.htm (109 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o tamanho do mundo subitamente se contraiu. e que essa mudança está produzindo agora . como são o motor a explosão e a rádio-comunicação. tal quantidade de notícias e tão recentes sobre o que se passa nos outros. cuja parte mais notória e visível é a saudação. ainda que haviam chegado a persuadir-se de que o século XIX havia. O número e importância dos descobrimentos. Há quase meio século fala-se de que os novos meios de comunicação . Como vimos de uma das épocas históricas em que a aproximação era aparentemente mais fácil. reduziu-se. aproximar-se a outro ser humano. que a efetiva transformação técnica do mundo é um fato recentíssimo. Quase sempre as coisas humanas começam por ser lendas.A rebelião das massas. as almas começaram a se cansar desses lugares comuns. E isto acontece precisamente na hora em que os povos europeus mais se distanciaram moralmente. Mas nem se havia ainda aperfeiçoado sua invenção nem se haviam posto amplamente em serviço. que provocou nele a ilusão de que. Isso mesmo aconteceu com as comunicações. está visto claramente hoje que se tratava só de uma entusiasta antecipação. etc. O século XIX. nestes últimos anos recebe cada povo. Isto ocasionou um curioso erro de ótica histórica que impede a compreensão de muitos conflitos atuais. a tempo e hora. cujas características convém precisar um pouco. Quer dizer. e o ritmo de seu efetivo emprego nessa brevíssima etapa. Mas com isto frisamos a linha de nossas considerações iniciais. Mas como sempre acontece. embora os aceitassem como verídicos. Sem tardança e de verdade. supera em muito todo o pretérito humano tomado em conjunto. De tal sorte que. Alguns dos meios que haviam de tornar efetiva essa aproximação existiam já em princípio . Neste caso. ferrocarris. O trato entre eles é dificílimo. entretanto. Refiro-me a um gigantesco fato. com efeito.agora e não de há um século . o "progresso material". Não adverte o leitor. afinal.aproximaram os povos e unificaram a vida no planeta. Não poucos dos profundos desajustes na economia atual advêm da súbita mudança que causaram na produção estes inventos. e só mais tarde se convertem em realidades. distanciamento moral. de sopetão. Não era.suas conseqüências radicais (97). monstruoso. Dito de outro modo: para os efeitos da vida pública universal. está em os outros povos ou em sua absoluta imediação. portanto. que é o que inspirou de modo concreto todo este artigo. essa opinião era um exagero.deslocamento de pessoas. o perigoso de semelhante conjuntura? Sabido é que o ser humano não pode. da distância normal a que estão uns homens dos outros. Os povos se encontram de improviso dinamicamente mais próximos. Talvez. realizado já o que aquela fraseologia proclamava. Que uma só fábrica seja capaz de produzir todas as lâmpadas elétricas ou todos os sapatos de que necessita meio continente é um fato demasiado afortunado para não ser. Os princípios comuns constituíam uma espécie de linguagem que lhes permitia entender-se. emocionado ante as primeiras grandes conquistas da técnica científica. não se apercebeu de que a época sem par dos inventos técnicos e de sua realização foram os últimos quarenta anos. pois. nem sequer se haviam inventado os mais decisivos.

no essencial. mas tomada com atitude microscópica não é verossímil que seja uma reação incongruente com a realidade inorgânica a respeito dela e. a rigor. a primeira causa de uma inevitável incongruência. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. As realidades que ajuíza são o que efetivamente passou o mesmo sujeito que as ajuíza. quando opina sobre a vida de seu próprio país tem sempre "razão" no sentido de que nunca é incongruente com as realidades que ajuíza.A rebelião das massas. ao opinar sobre as grandes questões que afetam sua nação. que é a realidade histórica mesma e tem um valor e uma força superiores a todas as doutrinas. opina sobre fatos que lhe aconteceram. Na China e no Japão. Como vai. É maximamente provável que essa opinião surta em alto grau incongruente. que só poderia contrariar mediante uma coisa muito difícil. ao menos com suficiente ênfase. gozados ou sofridos pela nação. O povo A pensa e opina. tóxica. Eu creio que não se reparou devidamente neste novo fator e que urge prestar-lhe atenção. O povo inglês. afinal das contas. muito mais grave que aquela. em sua congruência. a saudação e o trato complicaram-se na mais sutil e complexa técnica de cortesia. sobrevinda nos últimos quinze ou vinte anos. que experimentou em sua própria carne e em sua própria alma. os fatos insofisticáveis. a meu juízo. temos de reconhecer a toda autêntica "opinião pública" consiste. a saber: uma informação suficiente.htm (110 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . indefeso. irreflexivo e irresponsável. e em vez de "tu" dirá algo assim como "a maravilha presente". Isso não obstante. Nessa proximidade superlativa tudo é feridor e perigoso: até os pronomes pessoais se convertem em impertinências. que são diferentes das do povo B. A causa disso é óbvia. E esta é hoje. aos quais não pode faltar um mínimo de reflexão e sentido de responsabilidade. e estas suscitar opiniões partidistas sustentadas por grupos particulares. Por isso o japonês chegou a exclui-los de seu idioma. lá do fundo de suas próprias experiências vitais. tão refinada. mas. que ademais oferece. com quem. que. equivocar-se? A interpretação doutrinal desses fatos poderá dar oportunidade às maiores divergências teóricas. como atributo. em suma. pois. Mas não se falou. são ele mesmo. Estritamente o contrário acontece quando se trata da opinião de um país sobre o que acontece em outro. onde os homens vivem. Mas a opinião de todo um povo ou de grandes grupos sociais é um poder elementar. haveria que substitui-la por uma verdade de conhecimento. como se vê. No Saara cada tuaregue possui um raio espacial que alcança bastantes milhas. um órgão relativamente "racionalizado" dentro de cada sociedade. Como aqui falta a "verdade" do vivido. Dito com outras palavras obtemos esta proposição: é maximamente improvável que em assuntos graves de seu país a "opinião pública" careça da informação mínima necessária para que seu juízo não corresponda organicamente à realidade julgada. por conseguinte. nariz contra nariz. Padecerá erros secundários e de detalhe. por assim dizer. Suas atuações são deliberadas e dosificadas pela vontade dos indivíduos determinados os homens políticos -. Porque o Estado é. sua inércia ao influxo de todas as intrigas. povos pululantes. que viveu e. da intervenção que exerce hoje de fato a opinião de umas nações na vida de outras. às vezes mui remotas. que ao extremo oriental lhe produz o europeu a impressão de ser um grosseiro e insolente. Pode levar isto a outra coisa que não o jogo dos despropósitos? Eis aqui. Esta "razão" ou "verdade" viventes. A saudação do tuaregue começa a cem jardas e dura três quartos de hora. Se uma simples mudança da distância entre dois homens comporta semelhantes riscos. a opinião pública sensu stricto de um país. e em lugar de "eu" fará um salamaleque e dirá "a miséria que há aqui". Tem se falado muito estes meses da intervenção ou não-intervenção de uns Estados na vida de outros países. empilhados. em compacto formigueiro. só o combate é possível. imaginem-se os perigos que engendra sua súbita aproximação entre os povos. por baixo dessas discrepâncias "teóricas". precipitam nesta uma "verdade" vital.

venenoso e gerador de paixões bélicas. irremediavelmente. porque essa opinião não está ainda regida por uma técnica adequada à troca de distância entre os povos. além disso. desde logo. Terá o inglês ou o americano todo o direito que entenda para opinar sobre o que passou e deve acontecer na Espanha. de vinte anos de política internacional inglesa. ainda que entre esses correspondentes não poucos exercem seu ofício de maneira apaixonada e partidista. e a opinião. a opinião incongruente perdia toxidez (98). Tudo isto é verdade. Mas como essas notícias chegam hoje com superlativa rapidez. é o fato gigantesco que serviu a este artigo de ponto de partida: o fracasso do pacifismo inglês. As notícias que o povo A recebe do povo B suscitam nele um estado de opinião .na guerra civil espanhola. Pois é o caso que se o homem inglês rememora num lance d'olhos encontrará que aconteceram no mundo coisas de grave importância para a Inglaterra. e não seu Governo . Há um século não importava que o povo dos Estados Unidos se permitisse ter uma opinião sobre o que acontecia na Grécia. há muitos outros cuja imparcialidade é inquestionável e cuja exatidão em transmitir dados exatos não é fácil de superar. abundância e freqüência. intrigantes que. sobrecarrega-se de intenções ativas e adota imediatamente um caráter de intervenção. Como na história nada de algum relevo acontece de repente. as causas que a produziram. se ocupam deliberadamente em fustigá-la. Vice-versa. mas esse direito é uma injuria e não se aceita uma obrigação correspondente: a de estar bem informado sobre a realidade da guerra civil espanhola. nestes últimos anos. por suas formidáveis dimensões.apesar de seus inúmeros correspondentes . Mas. Como será fácil persuadir ao homem inglês de que não está informado sobre o fenômeno histórico que é a guerra civil espanhola ou outra emergência análoga? Sabe que os jornais ingleses gastam somas fortíssimas em sustentar correspondentes dentro de todos os países. O mesmo digo da opinião inglesa. que. por motivos particulares. A distância dinâmica entre povo e povo é tão grande. Enquanto o Governo americano não atuasse. não seria excessiva suspicácia no homem inglês admitir a hipótese de que está muito menos informado do que supõe crer. a fim de entendê-la bem. a complicação do processo que tem lugar.diretamente como tal opinião. mas. como há um século. Nada mais longe de minha pretensão que toda intenção de podar o arbítrio a ingleses e americanos. simplesmente.A rebelião das massas. Não é questão de "direito" ou da desprezível fraseologia que sói amparar-se nesse título: é uma questão. sem fina perspectiva. e porque o é.htm (111 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . daninhos. e que essa opinião estivesse mal informada. o povo B recebe também com abundância. discutindo seu "direito" a opinar quanto estimem sobre quanto lhes apraza. Representemo-nos esquematicamente. essa opinião não se mantém num plano mais ou menos "contemplativo".sabia pouco do que realmente estava acontecendo nos demais povos.seja de amplos grupos ou de todo o país -. ou que essa informação tão copiosa se compõe de dados externos. de bom sentido. entre os quais escapole o mais autenticamente real da realidade. por exemplo. ao atravessá-la. e que a surpreenderam. Mas aqui é onde os meios atuais de comunicação produzem seus efeitos. de grandes grupos sociais norte-americanos está intervindo. O exemplo mais claro disto. é perigoso (99). Sabe que. Sempre há. O mundo era então "maior". rapidez e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. menos compacto e elástico. essa opinião era inoperante sobre os destinos da Grécia. os povos entraram numa extrema proximidade dinâmica. de fato . Porque a quantidade de notícias que constantemente recebe um povo sobre o que sucede em outro é enorme. cujo primeiro e mais substancial capítulo é sua origem. Dito fracasso declara estrondosamente que o povo inglês . Sustenta que a ingerência da opinião pública de uns países na vida dos outros é hoje um fator impertinente.

faz com que o mundo vá à deriva. que. ao mesmo tempo. a falar nas rádios. atuando. a "Frente Popular".000 votos contra 300. suposto o mais decisivo para que no mundo volte a reinar uma ordem. Há uns dias. segundo Hegel. Por isso é um exemplo concreto do mecanismo belicoso que criou o mútuo desconhecimento entre os povos. de seu nervosismo. se convertem automaticamente em diferenças qualitativas. do modo mais concreto e eficaz. escritores e professores a assinar manifestos. há séculos e sempre. Mas esta moderação que por sorte posso ostentar. a "Frente Popular" que se formou em outros países.e. falto de pouvoir spirituel. quer dizer.000. Alberto Einstein usufrui uma ignorância radical sobre o que acontece na Espanha agora. não é uma questão de mais ou de menos. aconteceu. Porque não é fácil encontrar maior incongruência. alguns dos principais escritores ingleses assinavam outro manifesto onde se garantia que esses comunistas e seus afins eram os defensores da liberdade. Há pouco.talvez a civilização não seja outra que essa montagem . que está ali. como dizia Dante: che saetta previsa vien più lenta. Note-se que falo da guerra civil espanhola como um exemplo entre muitos. a união com os comunistas. quase presente. a despeito de suas copiosas "informações". Alberto Einstein acreditou ter "direito" a opinar sobre a guerra civil espanhola e tomar possessão ante ela. Talvez isto o mova a corrigir seu insuficiente conhecimento das demais nações. Deixo intacta a questão de se uma "Frente Popular" é uma coisa benéfica ou catastrófica. O natural seria que eu estivesse agora em guerra apaixonada contra esses escritores ingleses. que oscila entre o grotesco e o trágico. mas se além disso revela ignorar completamente nossa vida. que denunciei como um fator de primeira grandeza entre as causas da presente desordem.A rebelião das massas. com intolerável impertinência. por 2.. Felizmente. de seus movimentos e tem a impressão de que o estranho. Já é irritante que o próximo pretenda intervir em nossa vida. mas que a considerariam como uma doença terrível para a nação inglesa. além disso. efetivamente. Mas esta reação de aborrecimento multiplica-se até à exasperação porque o povo B adverte ao mesmo tempo a incongruência entre a opinião A e o que em B. para o bloco do Partido Laborista. Ora bem. por sua vez. A diferença numérica na votação é daquelas diferenças quantitativas que. Mas é o caso que. não é "natural". sua audácia provoca em nós frenesi. e me reduzo a confrontar dois comportamentos de um mesmo grupo de opinião. e a sublinhar sua nociva incongruência. e me reduzo a procurar que o leitor inglês admita por um momento a possibilidade de que não está bem informado. comodamente sentados em seus escritórios ou em seus clubes. mas permita-se-me convidar o leitor inglês a que imagine qual pode ser meu primeiro movimento ante semelhante fato. etc. Mas esse mesmo partido e a massa de opinião que pastoreia ocupam-se em favorecer e fomentar.htm (112 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Evitemos os espaventos e as frases. cuidei durante toda minha vida de montar em meu aparelho psico-físico um sistema muito forte de inibições e de freios . o Congresso do Partido Laborista rechaçou.100. invadiu seu país. não contribuiu a debilitar minha surpresa. Mas eis aqui outro exemplo mais geral. esse file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Enquanto em Madri os comunistas e seus afins obrigavam. sob as mais graves ameaças. a união com o comunismo. isentos de toda pressão. a formação na Inglaterra de uma "Frente Popular". o exemplo que mais exatamente me consta. O espírito que o leva a esta insolente intervenção é o mesmo que há muito tempo vem causando o desprestígio universal do homem intelectual. Há muitos anos que me ocupo em fazer notar a frivolidade e a irresponsabilidade freqüentes no intelectual europeu. freqüência notícias dessa opinião remota. Essas cifras mostram que.

Eu creio que há aqui um novo problema de primeira ordem para a disciplina internacional.movimentos que antes eram quase inócuos . a hermetizar suas existências. pois. Nenhuma de suas doutrinas ou atuações é compreensível se não se descobre em sua raiz o desconhecimento do que é uma nação e de que isso que são as nações constitui uma formidável realidade situada no mundo e com a qual há que contar. Era um curioso internacionalismo aquele que em suas contas esquecia sempre o detalhe de que há nações (100). Outra coisa seria pura tolice. poderia dizer-se que é uma intervenção guerreira. que corre paralelo ao do direito. Não tenho inconveniente em declarar qual é a minha. A parte do país favorecida momentaneamente pela opinião estrangeira procurará. a língua. declarando-o ou não. E me pareceria vão objetar que essas intervenções irritam uma parte do povo que as sofre. mesmo grupo de opinião se ocupa em cultivar esse mesmo micróbio em outros países. Esta só pode esperar agradecimento perdurável na medida em que. umas frente às outras. Sobre este: que os povos. Claro que isto supõe estar de acordo sobre um princípio básico.A rebelião das massas. Por isso será funesta toda tentativa de desconhecer que um povo é. penas de amor perdidas. beneficiar-se dessa intervenção. mais ainda. Bem notório é que surte praticamente impossível conhecer intimamente um idioma estrangeiro por muito que o estudemos. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. embora me exponha a todos os riscos de uma enunciação esquemática. todas as esperanças de que a paz reine no mundo são. Não outra é a origem das catástrofes na história humana. que a nova estrutura do mundo converte os movimentos da opinião de um país sobre o que acontece em outro . Enquanto se produzam fenômenos como este. no fundo. Porque essa incongruente conduta. Não há razão para que não sofra análoga regulamentação a opinião de um povo sobre outro. Como antes postulávamos uma nova técnica jurídica. acerte ou seja menos incongruente com essa vivente "verdade". um sistema de segredos que não pode ser descoberto. pensava. Talvez o leitor reclame agora uma doutrina positiva. de fora -. e ambos os partidos hostis coincidem nela. uma intimidade . posto que tem não poucos caracteres da guerra química. Toda realidade desconhecida prepara sua vingança. A nação acaba por estabilizar-se em "sua verdade". Esta é uma observação demasiado óbvia para que seja verídica.portanto. Ora bem: o velho e barato "internacionalismo". Daí que acabam por se unir contra a incongruência da opinião estrangeira. Tome qualquer função coletiva. e isto é uma intervenção. o oposto. quando as nações européias pareciam mais próximas a uma superior unificação. mas comprazem à outra. e a converter-se as fronteiras em escafandros isoladores. E não será uma insensatez crer coisa fácil o conhecimento da realidade política de um país estranho? Sustento. Não pense o leitor em nada vago nem místico. aqui reclamamos uma nova técnica de trato entre os povos. essa duplicidade da opinião laborista só irritação pode inspirar fora da Inglaterra. versado mais acima. Mas por baixo dessa aparente e transitória gratidão corre o processo real do vivido pelo país inteiro. começaram repentinamente a fechar-se dentro de si mesmas. no que efetivamente aconteceu. à-toa. Isto bastaria para explicar por que. embora de outro modo e por outras razões.htm (113 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . por exemplo.em autênticas incursões. como uma pessoa. que engendrou as presentes angústias. que as nações existem. por sorte. claro está. repito. Há a lei do libelo e há a formidável ditadura das "boas maneiras". Na Inglaterra o indivíduo aprendeu a guardar certas cautelas quando se permite opinar sobre outro indivíduo.

propugno e anuncio o advento de uma forma mais avançada de convivência européia. destilando sobre ele. um vazio e nada. Entretanto. a proposição é mais falsa que verídica. a sociedade européia parece volatilizada. Nesta data. imprescindível para que volte a brotar. Mas tem também seus direitos a visão de retícula grossa. como acabo de insinuar. mas que gozem de plena saúde estas ou as outras nações. Porque é estranho que tempos sobremodo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e que.A rebelião das massas. Porque é disso que se trata. Pois acontece que em muitas épocas históricas se falou o que agora se fala. e sim no recato do ensinamento. Não se trata de que a Europa está enferma. no fundo de bosque que as almas possuem. se costuma chamar de "totalitária". Isto salvará a Europa. Esta idéia européia é de signo inverso àquele abstruso internacionalismo. Os povos menores adotarão figuras de transição e intermediárias. Porque se isso acontece na Europa é porque sofre uma crise de sua fé comum. mas de integrá-las. virá uma articulação da Europa em duas formas diferentes de vida pública: a forma de um novo liberalismo e a forma que. portanto. dezembro. No livro The Revolt of the Masses (101). teríamos de lhe tirar e lhe pôr alguns ingredientes para que a idéia fosse luminosa. A Europa será a ultra-nação. Não de laminar as nações. O estado atual de anarquia e superlativa dissociação na sociedade européia é uma prova mais da realidade que esta possui. deixando ao Ocidente todo seu rico relevo. Mais uma vez ficará patente que toda forma de vida precisa de sua antagonista. pois. Nada disto se oferece no horizonte -.htm (114 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . das vigências em que sua socialização consiste. porque isso significa. da fé européia. comum. não será. em claras noções de história. O extravio metódico que representa o internacionalismo impediu ver que só através de uma etapa de nacionalismo exacerbados se pode chegar à unidade concreta e cheia da Europa. A mesma inspiração que formou as nações do Ocidente continua atuando no subsolo com a lenta e silente proliferação dos corais. O "totalitarismo" salvará o "liberalismo". Paris. mas como é comum e européia a enfermidade.por exemplo: as nações soltas ou uma Europa oriental dissociada até à raiz de uma Europa ocidental. com um nome impróprio. depurando-o. e isto convida a suspeitar ou que nunca foi verdade ou que o tem sido em sentidos mui diversos. mas não mana no meio da alteração. Desde já. A enfermidade por que atravessa é. Mas seria um erro crer que isto significa seu desaparecimento ou definitiva dispersão. A Europa não é. Se olhamos a realidade com uma ótica de retícula fina. Uma nova forma de vida não consegue instalar-se no planeta até que a anterior e tradicional não se tenha ensaiado em seu modo extremo. o manancial de uma nova fé. Esta é o autêntico poder de criação histórica. a inter-nação. e então não há inconveniente em aceitar essa terrível sentença. um passo à frente na organização jurídica e política de sua unidade. sê-lo-á também o restabelecimento. Este equilíbrio mecânico e provisório permitirá uma nova etapa de mínimo repouso. um oco. seja provável o desaparecimento da Europa e sua substituição por outra forma de realidade histórica . DINÂMICA DO TEMPO AS VITRINAS MANDAM Dizem que o dinheiro é o único poder que atua sobre a vida social. As nações européias chegam agora a seus pontos cruciais e a cabeçada será a nova integração da Europa. 1937. que foi bastante lido em língua inglesa. e graças a isso veremos dentro em breve um novo liberalismo temperar os regimes autoritários.

pode descobrir-se nelas uma nota comum: são sempre épocas de crise moral.A rebelião das massas. diferentes coincidam em ponto tão principal. Porque. e no XVII. não se deve fazer muito caso do que as épocas passadas disseram de si mesmas. e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules. Eu creio que esta surpresa. também o possuíam na Idade Média e eram o excremento da Europa. porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde. no século XIV o põe em circulação nosso turbulento tonsurado de Hita. O importante é evitar a concepção econômica da história. Pelo visto. Porque é demasiado evidente que em muitas épocas humanas o poder social do dinheiro foi muito reduzido e outras energias alheias ao econômico informaram a convivência humana. mas usurpado às outras forças ausentes. No século VII antes de Cristo corria já por todo o Oriente do Mediterrâneo o apotegma famoso: Chrémata. para adubar as coisas segundo a pauta de sua tese. não o deve ter porque não é seu. seu dinheiro é o homem!" No tempo de César dizia-se o mesmo. Não se diga que o dinheiro não era a forma principal da riqueza. As épocas em que mais autenticamente e com mais dolentes gritos se lamentou esse poderio. Esta perspicácia sobre o próprio modo de ser.eram mui pouco inteligentes a respeito de si. chrémata aner! "Seu dinheiro. esta clarividência para o próprio destino é coisa relativamente nova na história. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela. muito diferentes. Os marxistas. desde que se inventou. talvez. sempre renovada. Em geral. não há correspondência entre a riqueza daqueles judeus e sua posição social. segundo a qual o dinheiro devia ter menos influência da que efetivamente possui? Como não nos habituamos ao fato constante depois de tantos e tantos séculos. Entretanto. Quem as usa expressa com elas. Só como uma possibilidade de interpretação vai tudo isto que digo. entre si. A questão é sobretudo complicada e não pode ser resolvida em dois tempos. fazendo da história inteira uma monótona conseqüência do dinheiro. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. que alheia toda a graça do problema. Como? Será que o dinheiro não possui. Se hoje os judeus possuem o dinheiro e são os donos do mundo. E de onde nos vem essa convicção. são. menosprezaram excessivamente a importância da moeda na etapa pré-capitalista da evolução econômica.é forçoso declará-lo .htm (115 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . tempos muito transitórios entre duas etapas. Em todas estas lamentações insinua-se algo mais. e foi necessário depois refazer a história econômica daquela idade para mostrar a importância efetiva que nos Estados medievais tinha o dinheiro hebreu. um magnífico atributo do ser vivente. ainda sendo isto verdade e calibrando na devida cifra o peso puramente econômico do dinheiro na dinâmica da economia medieval. pelo menos. Gôngora faz disso letras. sua surpresa de que o dinheiro tenha mais força da que devia ter. Os princípios sociais que regeram uma idade perderam seu vigor e ainda não amadureceram os que vão imperar na seguinte. mas não nos inspira asco. é uma grande força social? Isso não era necessário sublinhar: seria uma calinada. Que conseqüência tiramos desta monótona insistência? Que o dinheiro. porque . essa surpresa e essa insinuação perene de que o poder exercido não lhe corresponde. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o poder que. a rigor. ante o poder do dinheiro encerra uma porção de problemas curiosos ainda não aclarados. o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. e que sempre nos colhe de surpresa? É. da realidade econômica nos tempos feudais. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência. deplorando-o. se lhe atribui e que seu influxo só é decisivo quando os demais poderes organizadores da sociedade se retiraram? Se assim fosse entenderíamos um pouco melhor essa estranha mescla de submissão e de asco que ante ele sente a humanidade.

religião. Mas algum terá de existir sempre. a meu juízo. Ou. eu me pergunto se há alguma razão para afirmar que em nosso tempo goza o dinheiro de um poder social maior que em tempo algum do passado. O dinheiro é apenas um meio para comprar coisas. Se nos envaidecemos.A rebelião das massas. tinha de inventar um apetite e o objeto que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Qual seja o princípio desta é outra questão. não ascendiam ao cume da sociedade. A fantasia humana.raça. No século XVIII existiam também grandes fortunas.htm (116 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Nem a religião nem a moral dominam a vida social nem o coração da multidão. Se os normais faltam. se reparte segundo se acha repartido o poder social. mas vai para o sacerdote na teocrática. continuava sendo um infra-homem. Morta uma constituição política e moral. pode duvidar da importância que o dinheiro tem na história. Ora bem: isto é impossível. Mas. Assim se explica essa nota comum a todas as épocas submetidas ao império crematístico que consiste em ser tempos de transição. Ninguém. que eram os mais ricos como classe.o século XVII . em sua combinação com os fabulosos progressos da técnica. se queria algo mais que o breve repertório de mercadorias existente. Também esta curiosidade é exposta e difícil de satisfazer. inventa sempre algum novo tema de desigualdade.será tanto maior quantas mais coisas haja para comprar. É também idade de crise: os prestígios há anos ainda vigentes perderam sua eficiência.ceteris paribus . O novo. Onde há cinco homens em estado normal produz-se automaticamente uma estrutura jerarquizada. de tantas classes e qualidades. seu influxo será escasso. se cedem os verdadeiros e normais poderes históricos . que quando se volatilizam os demais prestígios resta sempre o dinheiro. e vai para o guerreiro na sociedade belicosa. Parece o mais verossímil que seja o dinheiro um fator social secundário. não quanto maior seja a quantidade do dinheiro mesmo. por ser elemento material. O dinheiro teve. mas havia pouco para comprar. Se há poucas coisas para comprar. Diríamos. o exclusivo do presente é esta outra conjuntura. e no tempo de César os "cavaleiros". incapaz por si mesmo de inspirar a grande arquitetura da sociedade. mas. Talvez o poder social não depende normalmente do dinheiro. fustigada por esse instinto irreprimível de jerarquia. fica a sociedade sem motivo que jerarquize os homens. Pelo contrário. como indiquei. uma razão que dá probabilidade clara à suspeita de ser nosso tempo o mais crematístico de quantos foram. Pois bem: no século XVI. A cultura intelectual e artística é avaliada menos que há vinte anos. não pode volatilizar-se. nem o mais idealista. vice-versa. entretanto. que o dinheiro pode desenvolver fantasticamente sua essência: o comprar. Há. O rico. É uma das forças principais que atuam no equilíbrio de todo ofício coletivo. idéias -. mas talvez possa duvidar-se de que seja um poder primário e substantivo.na Holanda. Contra a ingenuidade igualitária é preciso fazer notar que a jerarquização é o impulso essencial da socialização. que seja ele quem destaca o indivíduo no corpo público. por muito dinheiro que haja e por muito livre que se encontre sua ação de conflitos com outras potências. o homem mais invejado era aquele que possuía certa tulipa rara. isto aconteceu várias vezes na história. Durante um momento . Isto nos permite formar uma escala com as épocas de crematismo e dizer: o poder social do dinheiro . que. um limite automático em sua própria essência. de outro modo: o dinheiro não manda mais senão quando não há outro princípio que mande. para seu poder. Resta só o dinheiro. Mas. política. O sintoma de um poder social autêntico é que cria jerarquias. toda a energia social vacante é absorvida por ele. tudo que acontece em nossa hora parecer-nos-á único e excepcional na série dos tempos. produziu nestes anos um cúmulo tal de objetos mercáveis. um pseudo princípio se encarrega de modelar a jerarquia e definir as classes. pois. por muito dinheiro que tivesse um judeu. Ora bem: não há dúvida que o industrialismo moderno. mas não é a musa de seu estilo tectônico. ainda limitando de tal sorte a frase inicial que dá ocasião a esta nota.

Como se pode pensar que estes módulos elementaríssimos e divergentes da vitalidade não sejam gigantescos poderes plásticos da história? Foi. tinha de buscar o artífice que o realizasse e dar tempo a sua fabricação. e mesmo cada variedade. mecanicamente. perguntas que o ser vivo responde com uma ampla margem de originalidade imprevisível. mais ou menos claro. são. e cada uma destas classes sexuais (102) em meninos. As formas biológicas mesmas foram.htm (117 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . El Sol. que os verões sejam um pouco mais frescos.dilúvios. é uma operação que se faz de dentro para fora. havia de parecer-me sobremodo verossímil que nos mais profundos e amplos fenômenos históricos apareça. vai para trinta anos. um dos descobrimentos sociológicos mais importantes o que se fez. é a verdadeira variação histórica.de que se fazia. é jovem ou é velha. em classes de idade. JUVENTUDE I As variações históricas não procedem nunca de causas externas ao organismo humano. o decisivo influxo das diferenças biológicas mais elementais. e por isso as causas ou princípios de suas variações devem ser buscados no interior do organismo. jovens e velhos. A lentidão e suavidade deste processo dá tempo a que o organismo reaja. As mudanças mais violentas que nossa espécie conheceu. Se houve catástrofes telúricas . etc. As modificações externas atuam só como excitantes de modificações intraorgânicas. nunca idêntica. sem querer. e mesmo cada indivíduo. A estrutura mais primitiva da sociedade se reduz a dividir os indivíduos que a integram em homens e mulheres. como nos mitos mais arcaicos pode se recordar confusamente. Viver. Convém abandonar a idéia de que o meio. em suma. satisfaria. Pensando assim. o melhor isqueiro. etc. . escolher os objetos melhores . por assim dizer. Caberia imaginar um autômato provido de um bolso em que metesse mecanicamente a mão e chegasse a ser o personagem mais ilustre da urbe. dependente. que a vida seja um processo de fora para dentro. Em todo este intrincamento intercalado entre o dinheiro e objeto complicava-se aquele com outras forças espirituais fantasia criadora de desejos no rico. submersão de continentes. as primeiras file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o melhor chapéu. pelo menos dentro de um mesmo período histórico zoológico. 15 de maio de 1927. não tiveram caráter de grande espetáculo. sempre muito cotidiana. A existência tem sido. seleção do artífice. Cada espécie. os períodos glaciais. a bem dizer. pelo visto. trabalho técnico deste.A rebelião das massas.e comprá-los. quando se advertiu que a organização social mais primitiva não é senão a marca na massa coletiva dessas grandes categorias vitais: sexos e idades. portanto. a meu juízo.o melhor automóvel. e esta reação de dentro do organismo à mudança física do contorno. Em definitivo. Basta que durante algum tempo a temperatura média do ano desça cinco ou seis graus para que a glacialização se produza. Agora um homem chega a uma cidade e aos quatro dias pode ser o mais famoso e invejado habitante dela sem mais trabalho que passear ante as vitrinas. modele a vida. aprontará uma resposta mais ou menos diferente. o efeito por elas produzido transcendeu os limites do histórico e transtornou a espécie como tal. . A vida é masculina ou feminina. súbitas mudanças extremas de clima -. O mais provável é que o homem não assistiu nunca a semelhantes catástrofes.

que há tempos de jovens e tempos de velhos. Deste modo. Chega uma época em que prefere. mas nunca. e depois de uma guerra mais triste que heróica. que lhes serve de norma. instituições. este império dos jovens vinha se preparando desde 1890. quer dizer. E como todos coexistem em qualquer instante da história. a vida toda organiza-se em torno do efebo. o jovem atua sempre diante do senador em forma de oposição. está o homem maduro que o educa e dirige. sentimento. em seu sentido. sendo rítmica toda vida. E preciso que passe algum tempo para poder aventurar este prognóstico. juventude e senectude. íntegra. O que realmente me parece evidente é que nosso tempo se caracteriza pelo extremo predomínio dos jovens. A luta misteriosa que mantém nas secretas oficinas do organismo a juventude e a senectude. O fenômeno é demasiado recente e ainda não se pode ver se esta nova vida in modo juventutis será capaz do que depois direi. antes de tudo. desde o fin de siècle. mas sob condição de servir ao espírito que Sócrates representa. Hoje de um lugar. O "filho". Então adverte-se o que de antemão devia presumir-se: que. O jovem Alcibíades triunfa sobre a sociedade. como tantas outras coisas. e como potência compensatória. do pai de família.htm (118 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o é também a história. que há épocas em que predomina o masculino e outras senhoreadas pelos instintos da feminilidade. prefere o velho ao jovem e submete-se à figura do senador. Os dois nomes que enunciam os partidos da file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. são duas parelhas de potências antagônicas. de incitação e de freio. ou bem acha a graça máxima nos modos femininos diante dos masculinos. E como a história é. a graça e o vigor juvenis são postos a serviço de algo acima deles. os homens maduros? O varonil ou o feminino? É sobremaneira interessante perseguir nos séculos as deslocações do poder para uma ou a outra dessas potências. imagem. reflete-se na consciência sob a espécie de preferências e desdéns. No ser humano a vida se duplica porque ao intervir a consciência a vida primária se reflete nela: é interpretada por ela em forma de idéia. sem o que não é possível a perduração de seu triunfo. Vêem a ser como estilos diversos do viver. da alma. Por que acontecem estas variações da preferência. e que os ritmos fundamentais são precisamente os biológicos. Na realidade. a masculinidade e a feminilidade. (104) o predomínio tem sido tão extremado e exclusivo. que estima mais as qualidades da vida jovem. quer dizer. entretanto. foram desalojadas a madureza e a ancianidade: em seu oposto se instalava o homem jovem com seus peculiares atributos. toma a vida de repente um aspecto de triunfante juventude. Roma. e pospõe. um forcejar em que cada qual tenta arrastar. É surpreendente que em povos tão velhos como os nossos.A rebelião das massas. Eu não sei se este triunfo da juventude será um fenômeno passageiro ou uma atitude profunda que a vida humana tomou e que chegará a qualificar toda uma época. Cada uma destas potências significa a mobilização da vida toda em um sentido divergente do que possui sua contrária. história da mente. e perguntar: Quem pode mais? Os jovens ou os velhos. produz-se entre eles uma colisão. A parelha Sócrates-Alcibíades simboliza muito bem a equação dinâmica de juventude e madureza desde o século V no tempo de Alexandre. entre as bem conhecidas. Para compreender bem uma época é preciso determinar a equação dinâmica que nela dão essas quatro potências. a existência humana. amanhã de outro. mas junto a ele. Masculinidade e feminilidade. às vezes súbitas? Eis aqui uma questão sobre a qual não podemos ainda dizer uma só palavra clara (103). desestima as da vida madura. pelo contrário. Mas se fossemos atender só ao aspecto do momento atual. seremos forçados a dizer: tem havido na história outras épocas em que predominaram os jovens. Nos séculos clássicos da Grécia. o interessante será descrever a projeção na consciência desses predomínios rítmicos.

Se damos um passo atrás caímos no século vieillot por excelência. Compare-se com os jovens atuais . luta multissecular aludem a esta dualidade de potências: patrícios e proletários. O jovem revolucionário é só o executor das velhas idéias confeccionadas nos dois séculos anteriores. efetivamente. de negro. que com uma ou outra intensidade impregna todo o século XIX. vestido à espanhola. o garoto genial. El Sol. Tertium non datur. Há nele. que abomina de toda qualidade juvenil. Ambos significam "filhos". não é filho de "alguém" reconhecido. prole. o velho de nascimento. e a peruca empoada cobre toda testa primaveril . ao passo que o proletário é filho no sentido da carne. Para achar outra época de juventude como a nossa. os modos. prefere suas atitudes fatigadas e apressa-se a abandonar sua mocidade. Busca-se por toda a parte a raison e interessa mais que nada a teologia: jesuítas contra Jansênio.A rebelião das massas. O jacobino e o general de Bonaparte são rapazes. o XVIII. e o romanticismo porá de manifesto sua carência de autenticidade. mas princípios recebidos: nada tão representativo como Robespierre. O gesto de combate que parece interpolar-se entre ambos pertence.que tendem a prolongar ilimitadamente sua mocidade e se instalam nela como definitivamente.varões e fêmeas . o corpo elástico e nu. Repasse o leitor rapidamente a série de épocas européias. Entretanto. ou é um gesto de domínio ou um gesto de servidão. A guerra ofensiva vai inspirada pela segurança na vitória e antecipa o domínio. Ao chegar ao século XVIII neste virtual processo temos de nos interrogar. a um ou outro estilo. pode parecer em sua iniciação um tempo de jovens.htm (119 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Esta é a causa que decide file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. é mero descendente e não herdeiro. dos suicídios. É o século do entusiasmo pelos decrépitos. ingenuamente surpresos: Para onde foram os jovens? Quanto vale nesta idade parece ter quarenta anos: o traje. uns são filhos de pai cidadão. não a confusa juventude. o uso. cadáver vivente que passa sorrindo de si mesmo no sorriso inumerável de suas rugas. a rigor. Pascal.homem ou mulher . 9 de junho de 1927. e os jovens ao olhar dentro de si só acham inapetência vital. o ar prematuramente caduco no andar e no sentir. uma subversão contra o passado e é um ensaio de se afirmar a si mesma a juventude. (Como se vê a tradição exata de patrício seria fidalgo). O que o jovem afirma então não é a sua juventude. O jovem imita em si o velho. detesta o sentimento e a paixão. é genial porque antecipa a ancianidade dos geômetras. Para extremar tal estilo de vida finge-se na cabeça a neve da idade. são só adequados à gente dessa idade.com uma suposição de sessenta anos. oferece este tempo o exemplo de um falso triunfo juvenil. De Ninon estima-se a madureza. seria preciso descer até o Renascimento. A Revolução fizera tábua rasa da geração precedente e permitiu durante quinze anos que ocupassem todas as eminências sociais homens muito moços. que estremece ao passo de Voltaire. E a época dos blasés. Domina a centúria Descartes. porque no fundo de sua alma o atacado estima mais que a si mesmo o ofensor. Todas as gerações do século XIX aspiraram a ser maduras o mais depressa possível e sentiam uma estranha vergonha de sua própria juventude. A guerra defensiva sói empregar táticas vis. II Todo gesto vital. casado segundo lei do Estado e por isso herdeiros de bens. Quando no romanticismo se reage contra o século XVIII é para voltar a um passado mais antigo. O romanticismo.

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um ou outro estilo de atitude. O gesto servil o é porque o ser não gravita sobre si mesmo, não está seguro de seu próprio valor e em todo instante vive comparando-se com outros. Necessita deles em uma ou outra forma; necessita de sua aprovação para se tranqüilizar, quando não de sua benevolência e de seu perdão. Por isso o gesto leva sempre uma referência ao próximo. Servir é encher nossa vida de atos que têm valor só porque outro ser os aprova ou aproveita. Têm sentido olhados da vida deste outro ser, não da nossa vida. E esta é, em princípio, a servidão: viver desde outro, não desde si mesmo. O estilo de domínio, por seu turno, não implica a vitória. Por isso aparece com mais pureza que nunca em certos casos de guerra defensiva que concluíram com a completa derrota do defensor. O caso de Numância é exemplar. Os numantinos possuem uma fé inquebrantável em si mesmos. Sua longa campanha contra Roma começou por ser de ofensiva. Desprezavam o inimigo e, com efeito, o derrotavam uma vez e outra (105). Quando mais tarde, recolhendo e organizando melhor suas forças superiores, Roma aperta Numância, esta, dir-se-á, toma a defensiva, mas propriamente não se defende, efetivamente aniquila-se, suprime-se. O fato material da superioridade de forças no inimigo convida ao povo de alma dominante a preferir sua própria anulação. Porque só sabe viver desde si mesmo, e a nova forma de existência que o destino lhe propõe - servidão - lhe é inconcebível, lhe sabe a negação do viver mesmo; portanto, é a morte. Nas gerações anteriores a juventude vivia preocupada com a madureza. Admirava os maiores, recebia deles as normas - em arte, ciência, política, usos e regime de vida -, esperava sua aprovação e temia seu enfado. Só se entregava a si mesma, ao que é peculiar a tal idade, subrepticiamente e como à margem. Os jovens sentiam sua própria juventude como uma transgressão do que é devido. Objetivamente se manifestava isto no fato de que a vida social não estava organizada em vista deles. Os costumes, os prazeres públicos haviam sido ajustados ao tipo de vida próprio para as pessoas maduras, e eles tinham de se contentar com as zurrapas que estas lhes deixavam ou lançar-se às estroinices. Até no vestir viam-se forçados a imitar os velhos: as modas estavam inspiradas na conveniência da gente maior. As moças sonhavam com o momento em que se vestiriam "à vontade", quer dizer, em que adotariam o traje de suas mães. Em suma, a juventude vivia a serviço da madureza. A mudança operada neste ponto é fantástica. Hoje a juventude parece dona indiscutível da situação, e todos os seus movimentos vão saturados de domínio. Em sua atitude transparece bem claramente que não se preocupa o mínimo com a outra idade. O jovem atual habita hoje sua juventude com tal resolução e denodo, com tal abandono e segurança, que parece existir só nela. O que a madureza pense dela não lhe importa um caracol; mais ainda: a madureza possui a seus olhos um valor próximo ao cômico. Mudaram-se as tornas. Hoje o homem e a mulher maduros vivem quase sobressaltados, com a vaga impressão de que quase não têm direito a existir. Advertem a invasão do mundo pela mocidade como tal e começam a fazer gestos servis. Desde logo, imitam-na no trajar. (Tenho sustentado muitas vezes que as modas não eram um fato frívolo, mas um fenômeno de grande transcendência histórica, obediente a causas profundas. O exemplo presente esclarece com exaustiva evidência essa afirmação). As modas atuais estão pensadas para corpos juvenis, e é tragicômica a situação de pais e mães que se vêem obrigados a imitar seus filhos e filhas na indumentária. Os que já andamos na curva descendente da

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vida vemo-nos na inaudita necessidade de ter de desandar um pouco o caminho percorrido, como se o houvéssemos errado, e fazer-nos - de grado ou não - mais jovens do que somos. Não se trata de fingir uma mocidade que se ausenta de nossa pessoa, mas que o módulo adotado pela vida objetiva é o juvenil e nos força a sua adoção. Como com o vestir, acontece com tudo o resto. Os usos, prazeres, costumes, modos, estão talhados à medida dos efebos. É curioso, formidável, o fenômeno, e convida a essa humildade e devoção ante o poder, ao mesmo tempo criador e irracional, da vida que eu fervorosamente recomendei durante toda a minha. Note-se que em toda a Europa a existência social está hoje organizada para que possam viver a gosto só os jovens das classes médias. Os maiores e as aristocracias ficaram fora da circulação vital, sintoma em que se enlaçam dois fatores distintos - juventude e massa - dominantes na dinâmica deste tempo. O regime de vida média aperfeiçoou-se - por exemplo, os prazeres -, e, em troca, as aristocracias não souberam criar para si novos refinamentos que as distanciem da massa. Só lhe resta a compra de objetos mais caros, mas do mesmo tipo geral que os usados pelo homem médio. As aristocracias, desde 1800 no político, e desde 1900 no social, têm sido levadas de roldão, e é lei da história que as aristocracias não podem ser levadas de roldão senão quando previamente caíram em irremediável degeneração. Mas há um fato que sublinha mais que outro algum este triunfo da juventude e revela até que ponto é profundo o transtorno de valores na Europa. Refiro-me ao entusiasmo pelo corpo. Quando se pensa na juventude, pensa-se antes de tudo no corpo. Por várias razões: em primeiro lugar, a alma tem uma frescura mais prolongada, que às vezes chega a ornar a velhice da pessoa; em segundo lugar, a alma é mais perfeita em certo momento da madureza que na juventude. Sobretudo, o espírito - inteligência e vontade - é, sem dúvida, mais vigoroso na plenitude da vida que em sua etapa ascensional. Por seu turno, o corpo tem sua flor - seu akmé, diziam os gregos - na estrita juventude, e, vice-versa, decai infalivelmente quando esta se transpõe. Por isso, desde um ponto de vista superior às oscilações históricas, por assim dizer, sub specie aeternitatis, é indiscutível que a juventude rende a maior delícia ao ser olhada, a madureza, ao ser ouvida. O admirável do moço é o seu exterior; o admirável do homem feito é sua intimidade. Pois bem: hoje prefere-se o corpo ao espírito. Não creio que haja sintoma mais importante na existência européia atual. Talvez as gerações anteriores rendessem demasiado culto ao espírito e - salvo a Inglaterra - desdenharam excessivamente a carne. Era conveniente que o ser humano fosse admoestado e se lhe recordasse que não é só alma, mas união mágica de espírito e corpo. O corpo é por si puerilidade. O entusiasmo que hoje desperta inundou de infantilismo a vida continental, afrouxou a tensão do intelecto e vontade em que se retorceu o século XIX, arco demasiado retesado para metas demasiado problemáticas. Vamos dar um descanso ao corpo. A Europa - quando tem diante de si os problemas mais pavorosos - entrega-se a umas férias. Brinda elástico o músculo do corpo desnudo atrás de uma bola de futebol que declara francamente seu desdém a toda transcendência voando pelo ar com ar em seu interior. As associações de estudantes alemães solicitaram energicamente que se reduza o plano de estudos universitários. A razão que davam não era hipócrita: urgia diminuir as horas de estudo porque eles precisavam do tempo para seus jogos e diversões, para "viver a vida". Esta atitude dominante que hoje tem a juventude parece-me significativo. Só me ocorre uma reserva
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mental. Entrega tão completa a seu próprio momento é justa enquanto afirma o direito da mocidade como tal, ante a sua antiga servidão. Mas, não é exorbitante? A juventude, estádio da vida, tem direito a si mesma; mas por ser um estádio vai afetada inexoravelmente de um caráter transitório. Fechando-se em si mesma, cortando as pontes e queimando as naves que conduzem aos estádios subseqüentes, parece declarar-se em rebeldia e separatismo do resto da vida. Se é falso que o jovem não deve fazer outra coisa senão preparar-se para ser velho, também é erro parvo iludir por completo esta cautela. Pois é o caso que a vida, objetivamente, necessita da madureza; portanto, que a juventude também a necessita. É preciso organizar a existência: ciência, técnica, riqueza, saber vital, criações de toda ordem, são requeridas para que a juventude possa alojar-se e divertir-se. A juventude de agora, tão gloriosa, corre o risco de arribar a uma madureza inepta. Hoje goza o ócio florescente que lhe criaram gerações sem juventude (106). Meu entusiasmo pelo aspecto juvenil que a vida adotou não se detém senão ante esse temor. Que vão fazer aos quarenta os europeus futebolistas? Porque o mundo é certamente uma bola, mas tendo dentro de si mais do que simples ar. El Sol, 19 de junho de 1927.

MASCULINO OU FEMININO? Não há dúvida que nosso tempo é tempo de jovens. O pêndulo da história, sempre inquieto, ascende agora pelo quadrante "mocidade". O novo estilo de vida começou não há muito, e ocorre que a geração próxima já aos quarenta anos tem sido uma das mais infortunadas que existiram. Porque quando era jovem reinavam ainda na Europa os velhos, e agora que entrou na madureza depara que o império se transferiu para a mocidade. Faltou-lhe, pois, a hora de triunfo e de domínio, a oportunidade de grata coincidência com a ordem reinante na vida. Em suma: que viveu sempre ao revés com o mundo, e, como o esturjão, teve de nadar sem descanso contra a correnteza do tempo. Os mais velhos e os mais jovens desconhecem este duro destino de não haver flutuado nunca; quero dizer, de nunca haver sentido a pessoa como levada por um elemento favorável, e que pelo contrário dia após dia e lustro após lustro teve de viver em suspenso, sustentando-se a pulso sobre o nível da existência. Mas talvez esta mesma impossibilidade de se abandonar um só instante a disciplinou e purificou sobremaneira. É a geração que mais combateu, que ganhou a rigor mais batalhas e menos triunfos tem gozado (107). Mas deixemos por enquanto intacto o tema dessa geração intermediária e retenhamos a atenção sobre o momento atual. Não basta dizer que vivemos em tempo de juventude. Com isso não fizemos mais do que defini-lo dentro do ritmo das idades. Mas ao lado deste atua sobre a substância histórica o ritmo dos sexos. Tempo de juventude! Perfeitamente. Mas, masculino ou feminino? O problema é mais sutil, mais delicado - quase indiscreto. Trata-se de filiar o sexo de uma época. Para acertar nesta, como em todas as empresas da psicologia histórica, é preciso tomar um ponto de vista elevado e libertar-se de idéias estreitas sobre o que é masculino e o que é feminino. Antes de tudo é urgente desasir do trivial erro que entende a masculinidade principalmente em sua relação com a mulher. Para quem pensa assim, é muito masculino o fanfarrão que se ocupa acima de tudo de cortejar as damas e falar das boas fêmeas. Este era o tipo de varão dominante em 1890: traje barroco, sobrecasaca cujas abas
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quando mais tarde separa a forma masculina sofre . Não há sintoma mais evidente de que o masculino. etc. talvez pareça irritante. Século só para homens. Vive-se em público: ágora. que culmina no século de Péricles. a mulher se adianta um pouco: Aspásia. (É curioso advertir que a sensualidade noviça da criança a faz normalmente sonhar com o hermafrodita. Alguma vez. como tal. pois. Esta fica relegada ao fundo da vida. um duelo por mês. esporte. Porque assim como a mulher não pode em nenhum caso ser definida sem referi-la ao varão. é preterido e desestimado. Seria um erro atribuir este masculinismo.htm (123 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . No frontispício histórico aparecem só homens. os homens vivem na época só com homens. O fato de que ao pensar no homem se destaque primeiramente seu afã pela mulher revela. acampamento. aparece sob a espécie de flautistas e dançarinas que executam suas humildes destrezas ao fundo. por si só. plastrão. barbearia. É uma época de profunda insinceridade: discursos parlamentários e prosa de "artigo de fundo") (108). uma espécie de atleta com seios. Sim. e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita.A rebelião das massas. tem este o privilégio de que a maior e a melhor porção de si mesmo é independente por completo de que a mulher exista ou não. O homem maduro assiste aos jogos dos efebos nus e habitua-se a discernir as mais finas qualidades da beleza varonil. (O bom fisionomista das modas descobre logo a idéia que inspirava esta: a ocultação do corpo viril sob uma profusa vegetação de tela e pelame. A veracidade. até o ponto de que o historiador. O resto era falsificação. extrema feminilidade. como algo incompleto e vulnerado) (109). O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista. Por que? Porque aprendeu o saber dos homens. o adolescente bebe no ar ático a fluência de palavras agudas que brota dos velhos dialéticos. Seu trato normal com a mulher fica excluído na zona diurna e luminosa em que acontece o mais valioso da vida. cabelo em volutas. Ciência. É uma realidade de primeira grandeza com que a Natureza. mas tampouco o invento. ginásio. literatura textil. que o escultor vai comentar no mármore. com efeito. me força a dizer que todas as épocas masculinas da história se caracterizam pela falta de interesse pela mulher.amarga desilusão. que nessa época predominavam os valores de feminilidade. apenas a vê. à última hora. trirreme.por um instante . Embora o grego tenha sabido esculpir famosos corpos de mulher. nariz e olhos. guerra. quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura. e.sensualidade.. e se recolhe na treva. paternidade. sem que a mulher tenha intervenção substantiva.. capeavam o vento. são coisas em que o homem se ocupa com o centro vital de sua pessoa. Por sua parte. inexorável em suas vontades. no banquete varonil. A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil. Só quando a mulher é o que mais se estima e encanta tem sentido apreciar o varão pelo serviço e culto que a esta renda. A forma feminina lhe parece como uma mutilação da masculina. Eu não o aplaudo nem o vitupero. portanto. familiaridade -. política. Ficavam só à vista mãos. técnica. Egrégia ocasião de masculinidade foi o século de Péricles.. barba de mosqueteiro. A mulher?. como apoio e pausa à conversação que languidece. É possível que o seja. no subterrâneo das horas inferiores. porque se masculinizou. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX. que lhe permite em ampla medida bastar-se a si mesmo. sua interpretação da beleza feminina não conseguiu desprender-se da preferência que sentia pela beleza do varão. entregues aos puros instintos . a uma nativa cegueira do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. nos obriga a contar. sentados nos pórticos com o cajado na axila. forçado a uma ótica de lonjura. muito ao fundo da cena. Este privilégio do masculino.

de todo um novo estilo de cultura e de vida. Todavia em tempos de Dante alguns nobres os Lamberti. Chamou-se então "corte" . contar com um pouco de ordem. de todo um novo estilo de cultura e de vida. Quando o germano destes séculos se ocupa em idealizar a mulher. E eis aqui que rapidamente.. A mutação se deve ao ingresso da mulher no cenário da vida pública. a mulher carece de papel e não intervém no que podemos chamar vida de primeira classe. feminina. em cujas mãos se achavam todos os meios da luta? Não cabe mais claro exemplo da força indomável que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Na primeira Idade Média a vida tem o mais rude aspecto. suavissimamente. Esta nova forma de vida pública. Entendamo-nos: em todas as épocas desejou-se a mulher. mas não em todas foi estimada. ante o Estado e a Igreja. muda a face da história. O homem. mas o gesto mesurado. 26 de junho de 1927. masculina. cavalaria. Já não se aprecia o gesto bronco. desde o século XII. que por si mesma se divide em duas porções: a primeira. em perpétua emulação com eles sobre temas viris: esgrima. antes de tudo. onde a mulher é o centro.conservavam. Agora aparece a "cortesia" triunfadora da "clerezia". os Soldanieri . Trata-se. a segunda. Sem a violência do combate ou do anátema.. contém o germe do que. e opor-lhe o suposto rendimento do germano ante a mulher.mas não como a antiga corte de guerra e de justiça.htm (124 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . como em certas etapas do germanismo domina o varonil. A Corte dos Carolíngios era exclusivamente feminina. a fêmea beligerante. Em tal paisagem moral. Mercê a ela conseguiu-se já no século XII acumular alguma riqueza. imagina a valquíria. E preciso guerrear cotidianamente e à noite compensar o esforço com o abandono e o frenesi da orgia. Porque até o século XII não se havia encontrado a maneira de afirmar a delícia da existência. o subsolo do porvir europeu. A verdade é que em outras épocas da Grécia anteriores à clássica triunfou o feminino. como em certas jornadas de primavera. só com outros homens. virago musculosa que possui atitudes e destrezas de varão. com efeito. o valor específico da pura feminilidade. Mas no século XII as altas damas de Provença e Borgonha têm a audácia surpreendente de afirmar. como diz um texto da época. até a morte. E a "cortesia" é. de paz. vai se chamar séculos mais tarde "sociedade". homem grego para os valores da feminilidade. de bem-estar. o privilégio de ser enterrados a cavalo (110). Assim nesta bronca idade. Esta existência de áspero regime cria as bases primeiras. caça.A rebelião das massas. nada mais nada menos. Vê-se nela a norma e o centro da criação. da crina de seu cavalo e passará sua vida à sombra da lança". bebida. À contínua pendência substitui o solatz e deport que quer dizer conversação e jogo. A mulher é presa de guerra. do mundanal ante o enérgico "tabu" que sobre todo o terreno fizera cair a Igreja. Como aceitam este jugo o guerreiro e o sacerdote. Os homens começam a polir-se na palavra e nos modos. nada mais nada menos. a feminilidade eleva-se a máximo poder histórico. ante o Estado dos guerreiros e ante a Igreja dos clérigos. Precisamente esclarece melhor que outro exemplo a diferença entre épocas de um e outro sexo o acontecido na Idade Média. O homem vive quase sempre em acampamentos. não "deve separar-se. o regime de vida que vai inspirado pelo entusiasmo pela mulher. mas "corte de amor". grácil. El Sol. II Trata-se.

volta-se ao panorama atual e conhece no mesmo instante que nosso tempo não é só tempo de juventude. Porque a palavra "efeminado" tem dois sentidos muito diversos. pois. no tempo do Dante. efeminamento. quando é o contrário. sem acatar ou render culto a nada que não seja sua própria juventude. consta pelo Gênese que a mulher não está feita de barro como o varão. adquirem uma fina percepção da física file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que estão ordenados para ser vistos pelas damas. que versam sobre qualidades viris. Nada pareceria mais obsoleto que o gesto rendido e curvo com que o cavalheiro fanfarrão de 1890 se aproximava da mulher para lhe dizer uma frase galante. O velho "efeminado" denomina este novo entusiasmo dos jovens pelo corpo viril e esse esmero com que o tratam. Quando chega. que facilmente poderíamos multiplicar. sem se preocupar com o resto. simplesmente se instala no mundo como uma propriedade indiscutida. A mulher torna-se ideal do homem. Mas. é tão poderoso que não necessita combater. Não lhes interessa mais que seu jogo e a maior ou menor perfeição na postura ou na destreza. não porque o tenha conquistado.htm (125 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O poeta deixa um pouco a gesta em que se canta o herói varonil e torneia a trova que foi inventada sol per domnas lauzar (111). Desta época provém o culto à Virgem Maria. cheiraria hoje a efeminamento. Hoje. E o é. No final das contas. Em tempos deste sexo. como desviação fisiológica da espécie. O dono do mundo é hoje o rapaz. mas quando sobrevêm etapas de masculinismo descobre-se o que neles há de efetivo efeminamento. consequentemente. em perpétuo concurso e emulação. que projeta nas regiões transcendentes a entronização do feminino. "sentir do tempo" possui. mas a força de desdém. e chega a ser a forma de todo ideal. O cavalheiro desvia suas idéias feudais para a mulher e decide "servir" a uma dama. Exercitada a pupila nestes esquemas do pretérito. A vida do varão perde o módulo da etapa masculina e se conforma ao novo estilo. a figura feminina absorve o ofício alegórico de tudo que é sublime. Convivem. apesar de seu aspecto de mata-mouros. Estes indivíduos monstruosos existem em todos tempos. e esse gesto em que há trinta anos ressumavam todas as resinas da virilidade. cuida de seu corpo e tende a ostentá-lo. Por um deles significa o homem anormal que fisiologicamente é um pouco mulher. como sempre que os valores masculinos predominaram. Por isso. em seu outro sentido. É surpreendente a resolução e a unanimidade com que os jovens decidiram não "servir" a nada nem a ninguém. Os rapazes convivem juntos nos estádios e áreas de esportes. Os trajes dos homens começam a imitar as linhas do traje feminino. que gira em torno dela e dispõe suas atitudes e pessoa em vista de um público feminino. a seus exercícios e preferências. o homem muito preocupado com a mulher. mas de juventude masculina. salvo à idéia mesma da mocidade.A rebelião das massas. A mocidade masculina afirma-se a si mesma. esses homens parecem muito homens. À força de contemplar-se nos exercícios onde o corpo aparece isento de falsificações têxteis. As moças perderam o hábito de ser galanteadas. montado sobre os nervos de uma nova geração. cuja cifra põe no escudo. A rigor. o homem estima sua figura mais que a do sexo contrário e. retorcida como um caracol. e seu caráter patológico os impede de representar a normalidade de nenhuma época. acontecida na ordem sublunar. entrega-se a seus gostos e apetites. de tudo que é aspiração. "efeminado" significa simplesmente homme à femmes. ajustam-se à cintura e se decotam até o colo. Suas armas preferem ao combate a justiça e o torneio. mas feita de sonho do varão.

sabiam calar seu entusiasmo pela beleza de um varão. apontar que a sentiam muito menos que na atualidade. claramente percebidas. Por isso o mais característico das modas atuais não é a exiguidade do encobrimento. bastante curta. aparentemente tão generoso na nudificação. ainda. quase como a de agora. De tudo aquilo que é um impulso coletivo e propele a vida histórica inteira em uma ou outra direção. O traje Diretório era também uma simples túnica. se afirmasse o corpo do futebolista. reconhecesse que não se apercebia de ser influída em sua estima da beleza masculina pelo apreço que dela fazem os jovens. Talvez desde os tempos gregos não se tenha estimado tanto a beleza masculina como agora.htm (126 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . É uma equivocação psicológica explicar as modas vigentes por um suposto afã de excitar os sentidos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Vê. Era mister que sob os tubos ou cilindros de tela em que este horrível traje existe. hoje a mulher imita o homem no vestir e adota seus ásperos jogos. sobretudo pela beleza fundada na correção atlética. escamoteia. se é que a sentiam. em virtude de razões que supõe personalíssimas. Note-se que só se estima a excelência nas coisas de que se entende. E o bom observador nota que nunca as mulheres falaram tanto e com tanto descaro como agora dos homens simpáticos. o seio feminino. faz um descobrimento mais profundo: a mulher de 1927 deixou de cunhar os valores por si mesma e aceita o ponto de vista dos homens que nesta data sentem. Um velho psicólogo habituado a meditar sobre estes assuntos sabe que o entusiasmo da mulher pela beleza corporal do homem. Antes. simplificando um tipo de traje tão pouco propício para isso como o herdado do século XIX. O traje atual. os poderosos alísios da história. oculta. tanto mais expressiva quanto maior é a semelhança. Também sabe bem a mulher de hoje porque fuma. Basta comparar o traje de hoje com o usado na época de outro Diretório maior . A mulher procura achar em sua compleição as linhas do outro sexo. sopros gigantescos que nos mobilizam a seu capricho. É muita casualidade que atualmente o regime da assistência feminina nas ordens mais diversas coincida sempre nisto: a assimilação ao homem. porque se esfalfa em esportes físicos. que cobra a seus olhos um valor enorme. Se no século XII o varão se vestia como a mulher e fazia sob sua inspiração versinhos dulcífluos. mas não a bastante. Entretanto. que tenha alguma verdade. pois. nem a faina química em que se ocupam nossas células.A rebelião das massas. Cada uma poderá dar sua razão diferente. com efeito.para descobrir a essência variante. Mas o fato é que sob essa superfície de nossa consciência atuam as grandes forças anônimas. um sintoma de primeira categoria. em vez de colegir ingênua e simplesmente: "A mulher de 1927 gosta superlativamente dos homens simpáticos". perscrutando sinceramente em seu interior. Agora a mulher vai nua como um rapaz. não é quase nunca espontâneo.1800 . cingia e ostentava o atributo feminino por excelência: aquela túnica era o mais sóbrio talhe para sustentar a flor do seio. A dama Diretório acentuava. entusiasmo pela esplêndida figura do atleta. varonil. por seu turno. não nos apercebemos nunca. aquele nu era um perverso nu de mulher. porque se veste como se veste. Não seria objeção contra isto que alguma leitora. anula. Daí que as modas masculinas tenham tendido estes anos a sublinhar a arquitetura masculina do homem jovem. Cada qual crê viver por sua conta. como não nos apercebemos do movimento estelar de nosso planeta. mas o oposto. Só estas excelências. arrastam o ânimo e o sobrecolhem (112). que revela o predomínio do ponto de vista varonil. nisso. Ao ouvir hoje com tanta freqüência o cínico elogio do homem simpático brotando dos lábios femininos. Convém.

uma invenção diabólica" (113). El hombre y la gente. Inventora a mulher da "cortesia". O fato foi que a beatificação sofreu uma longa demora pela disputa surgida entre os cardeais sobre quem devia entrar primeiro na oficial beatitude: a dama Cepeda ou os varões jesuítas. (3) Monarchie universelle: deux opuscules. O descaro e impudor da mulher contemporânea são. 3 de julho de 1927. S. dizem. De minha parte procurei colaborar neste esforço de esclarecimento partindo da recente tradição francesa. Em outro lugar achará o leitor alguma indicação sobre isto e. (2) É justo dizer que foi na França. Francisco Xavier e Santa Teresa de Jesus -. só na França. paradisíacas e moderadas como agora.A rebelião das massas. destronada. Hoje não se compreenderia um fato como o acontecido no século XVII por motivo da beatificação de vários santos espanhóis . Veja-se o tomo VI das Obras Completas do autor. NOTAS (1) Veja-se o ensaio do autor intitulado "History as a System". 1891. Há nos sacerdotes uma mania milenar contra os modismos. 1939 (V. sobre a causa de que essa iniciação se malograsse. O perigo está verdadeiramente na direção inversa. pois. Assim foi no tempo de Péricles. Homages to Ernst Cassirer. uma bobagem perseguir em nome da moral a brevidade das saias em uso. onde se iniciou um esclarecimento e mise au point de todos estes conceitos. Esta diminuição do poder feminino sobre a sociedade é causa de que a convivência seja em nossos dias tão áspera. nota Luchaire. edição espanhola Historia como sistema. a uma exibição lúbrica e viciosa. sua retirada do primeiro plano social trouxe o império da descortesia. pag. Em que ficamos? Qual a saia diabólica? A curta ou a longa? Quem passou sua juventude numa época feminina consterna-se de ver a humildade com que hoje a mulher. El Sol. É. que se tornaram um pouco indolentes. no de César. Neste encontrará o leitor o desenvolvimento e justificação de tudo que acabo de dizer. A princípios do século XIII. renderam estranho culto ao amor dórico.htm (127 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . as relações entre os sexos nunca foram tão sadias. Madrid. mais que femininos. ainda mais. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. "os sermonários não cessam de fulminar contra a longitude exagerada das saias. A este fim aceita na conversação os temas de preferência dos moços e fala de esportes e de automóveis. Esta indolência é um fato. procura insinuar-se e ser tolerada na sociedade dos homens. e quando passa a ronda dos coquetéis bebe como gente grande. que são. desinteressadas da mulher. superior nesta ordem de temas às demais. Santo Inácio. pois. 36. Porque aconteceu sempre que as épocas masculinas da história. London. e eu não nego que no detalhe da indumentária e das atitudes influa esse propósito incitativo: mas as linhas gerais da atual figura feminina estão inspiradas por uma intenção oposta: a de se parecer um pouco com o homem jovem. Tudo contrário. de próxima publicação. no Renascimento. no volume Philosophy and History.entre eles. o descaro e impudor de um rapaz que entrega à intempérie sua carne elástica. O resultado de minhas reflexões acha-se no livro. do varão. Provavelmente. 1942).

Histoire de La Civilisation en Europe. Correspondance avec Mme. 110. Esta é a origem da palavra snob.. (8) Se o leitor deseja informar-se. 3): "0 mundo europeu se compõe de elementos de origem diversa. 130).. tenta o domínio absoluto. Talvez o resultado desse estudo revelasse que a Alemanha recebeu nessa época muito mais da França que inversamente. p. quer dizer. M. (4) Oeuvres completes (Calman-Lévy). Pouthas tomou sobre si a fatigante tarefa de despojar os arquivos de Guizot e oferecer-nos numa série de volumes um material sem o qual seria impossível empreender a ulterior faina de reconstrução. com a fórmula ilusória de que os doutrinários não possuíam uma doutrina idêntica. pág.htm (128 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que ao aparecer na citação de Ranke documenta o influxo de Guizot sobre este grande historiador. Em outro lugar (tomos 8 e 10. em cuja ulterior contraposição e luta vêem precisamente desenvolver-se as mudanças das épocas históricas".A rebelião das massas. uma súbita mudança de sentido e. (10) Por exemplo. II. junto ao nome dos simples burgueses aparecia a abreviatura s. Eis aqui uma vez mais a melhor inspiração européia reduzindo a dinamismo tudo que é estático. que sua leitura é uma pura delícia de intelecção. e que constituem a última manifestação do melhor estilo cartesiano. por sua vez. pág. por assim dizer. exibe-nos suas arcanas vísceras quando em um discurso de Royer-Collard lemos: "Les libertés publiques ne sont pas autre chose que des resistences". toma. p. Não há nestas palavras de Ranke uma clara influência de Guizot? Um fator que impede ver certos estratos profundos da história do século XIX é que não esteja bem estudado o intercâmbio de idéias entre a França e a Alemanha. Guizot. dizia aludindo a ele: "E un gran ministro. O estado de liberdade surte de uma pluralidade de forças que mutuamente se resistem. digamos de 1790 a 1830. mas que variava de um para outro. Por isso. (5) Na Inglaterra as listas de residências indicavam junto a cada nome o ofício e classe da pessoa. Vol. e embora sejam sumamente vivazes. É demasiado evidente que os homens Royer-Collard. (7) Com certa satisfação refere-se Mme. uma e outra vez. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de Gasparin que falando o Papa Gregório XVI com o embaixador francês. de Gasparin. são absolutamente insuficientes. Como se isto não acontecesse em toda escola intelectual e não constituísse a diferença mais importante entre um grupo de homens e um grupo de gramofones (9) Nestes últimos anos. Mas os discursos de Royer-Collard são hoje tão pouco lidos que parecerá impertinência se digo que são maravilhosos.quando interpretou a política de "resistência" como pura e simplesmente conservadora. ninguém pode ficar com a consciência tranqüila . 38. Charles H. sem nobreza. XXII. Em um homem tão diferente de Guizot como Ranke encontramos a mesma idéia: "Logo que na Europa um princípio. (6) "La coexistence et le combat de principes divers". Broglie. não eram conservadores à-toa. 248. encontrar-se-á. No fim de tudo é preciso recorrer aos estudos de Faguet sobre o idearium de um e outro.entende-se que tenha "consciência" intelectual . seja qual for." Oeuvres complètes. pag. nob. Guizot. que é divertida e até alegre. 35. A palavra "resistência". encontra sempre uma resistência que se lhe opõe desde os mais profundos seios vitais. Dicono que non ride mai". 283. Não há nada melhor. Sobre Royer-Collard não há nem isso. (Veja-se de Barante: La vie et les discours de Royer-Collard.

0 que demonstra duas coisas. O Volksgeist parece-lhes uma de suas idéias mais autóctones. au bout de moins d'un an. XVI. (12) Pretendem os alemães que foram eles os descobridores do social como realidade diferente dos indivíduos e "anterior" a estes. Carré: La Philosophie de Fontenelle. 16. notre siècle qui se croit destiné à changer les lois en tout genre. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. qui réglent les autres et dont dépendent les affaires. que em 1848 era jovem e simpatizou com aquele movimento.htm (129 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . (20) "Cette honnête. le plus obstinément conservateur de notre pays". I. (11) Veja-se o citado ensaio do autor: História como sistema. supondo que foi "honrado e irreprochável ". (13) Veja-se Doctrine de Saint-Simon. Renan. com introdução e notas de C. Oeuvres: 1. Mas o termo Volksgeist mostra demasiado claramente que é a tradução do voltairiano esprit des nations. em 1700. feita em 1829. (22) Veja-se História como sistema. Halévy (p. pág. Este é um dos casos que mais recomendam o estudo minucioso do intercâmbio intelectual franco-germânico de 1790 a 1830 a que em nota anterior me refiro.. de donner le pouvoir à l'élement le plus pesant. Dupont-White (páginas 131-132). o trabalho acumulado nas notas por MM. Nouveaux Essais sur l'entendement humain. irreprochable. IV. seria reunir os prognósticos que em cada época se fazem sobre o futuro próximo." D'Alembert: Discours préliminaire à l'Enciclopédie. (18) "Je trouve même que des opinions approchantes s'insinuant peu à peu dans l'esprit des hommes du grand monde.. B. mais imprévoyante et superficielle révolution de 1848 eut pour conséquence. Renan: Questions contemporaines. (14) Obra fácil e útil que alguém deveria empreender. Bouglé e E. trad. segunda: que os males presentes da Europa são oriundos de regiões mais profundas cronológica e virtualmente do que sói presumir-se. vê-se obrigado na sua madureza a fazer algumas reservas benévolas a seu favor. (17) Histoire de Jacques II. nota). (16) Gesammelte Schriften. (21) J.56 (1821). data aproximada em que Leibniz escrevia isto. (15) Stuart Mill: La liberté. A origem francesa do coletivismo não é uma casualidade e obedece às mesmas causas que fizeram da França o berço da sociologia e de seu renovo em 1890 (Durkheim).. era capaz de prever o que aconteceu um século depois.. et se glissant dans les livres à la mode disposent toutes choses à la révolution générale dont d'Europe est menacée". Bouglé e Halévy constitui uma das contribuições mais importantes que eu conheço ao efetivo esclarecimento da alma européia entre 1800 e 1830. Primeira: que um homem. le moins clairvoyant. 843. é uma das obras mais geniais do século. Eu colecionei os suficientes para ficar estupefato ante o fato de que tenha havido sempre alguns homens que prevêem o futuro. 106. Além de que esta exposição do saint-simonismo. 143.A rebelião das massas. I. (19) ". 204. Chap.

Na Inglaterra. (28) Veja-se España invertebrada. e os artigos sobre Los Estados Unidos. que agora analiso. Juridiquement parlant.htm (130 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . respectivamente. enquanto se formavam estas aglomerações. Don. em Buenos Aires (1928). (32) La deshumanización del arte. vejam-se algumas moedas reproduzidas em Rostovtzeff: The social and economic history of the Roman Empire. (25) Veja-se o ensaio Hegel y América. (26) Em meu livro España Invertebrada. (24) Não é uma simples maneira de falar. os tomos II e IV de Obras Completas). superior à antiga. págs. Le droit anglais est un droit historique. tradicionais. 41 e seguintes. expressa mui agudamente essa sensação de "altura dos tempos". 44. 1921. lâmina LII e 588. en Anglaterre tout le droit est actuel. de Stuart Mill. (30) Não se deixem de ler as maravilhosas páginas de Hegel sobre os tempos satisfeitos em sua Filosofia de la historia. 35 do tomo III das Obras Completas). publicados pouco depois. não sê-lo eqüivale a cair baixo o nível histórico. e encontram. dificuldades para precisar a data de seu primeiro aparecimento. 1926. a consciência de uma nova vida. publicado em 1921. Temporum felicitas. Meu propósito agora é recolher e completar o que eu disse então. Tellus stabilita. (23) Em seu prólogo a sua tradução de La Liberté. tomo I. "aucune barrière entre le présent et le passé. 353 do tomo III de Obras Completas). pois. (27) 0 trágico daquele processo é que. mas sim verdade ao pé da letra. pag. num artigo de El Sol. págs. Saeculum aureum. tradução de José Gaos. 38/39. Sans discontinuité le droit positif remonte dans l'histoire jusqu'aux temps immémoriaux. (29) Nos cunhos das moedas de Adriano lêem-se coisas como estas: Italia Felix. e ao mesmo tempo o imperativo de estar à altura dos tempos. 1a. (Veja-se pág. nota 6. Revista de Occidente. no direito.A rebelião das massas. que se usaram no passado. ocupei-me do tema que o presente ensaio desenvolve. intitulado "Masas" (1926) e em duas conferências dadas na Associação Amigos del Arte. começava o despovoamento das campinas. o fato de que quase toda a minha obra saiu ao mundo usando a máscara de artigos jornalísticos. quel qu'en soit l'âge". edição. às vezes. posto que valha na ordem onde a palavra "vigência" tem hoje seu sentido mais imediato. il n'y a pas "d'ancien droit anglais". (Vejam-se. muita parte dela levou muitos anos em atrever-se a ser livro (1946). data de sua primeira publicação como série de artigos no jornal diário El Sol. (Veja-se pág. I. modificação ou moda que em tal presente tenha surgido ante os modos velhos. A palavra "moderno" expressa. "modernidade" com que os últimos tempos se batizaram a si mesmos. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. (31) O sentido original de "moderno". Para o "moderno". a saber. Lévy-Ullmann: Le système juridique de l'Anglaterre. Aproveito esta oportunidade para fazer notar aos estrangeiros que generosamente escrevem sobre meus livros. À parte o grande repertório numismático de Cohen. Moderno é o que está posto segundo o modo: entende-se o modo novo. de modo que surta uma doutrina orgânica sobre o fato mais importante de nosso tempo. 1928. que havia de trazer a diminuição absoluta no número dos habitantes do Império.

(40) Hermann Weyl.htm (131 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não excluímos a da decadência. Para um Deus cuja existência é imortal. Fez-se a proclamação na praça da vila. Não que sejamos decadentes. hotéis. uma utopia abstrata e inane. mede-se por sua capacidade de dissociar idéias tradicionalmente inseparáveis. (38) Esta é a origem radical dos diagnósticos de decadência. vivendi perdere causas. mas cheio e concreto em todas as partes. (Veja-se a pág. Foi necessária uma preparação de muitos séculos para acomodar o órgão mental à abstrata complicação da teoria física. de ferro. Qualquer evento poderia aniquilar tão prodigiosa possibilidade humana. seja qual seja. como cabe receber do passado. companheiro e continuador de Einstein. e quando o mundo parecera reduzido a uma única saída. além do mais. como demonstrou Köhler em suas investigações sobre a inteligência dos chimpanzés. se proclamou rei a Carlos III. um mundo mais rico de coisas e. (33) Precisamente porque o tempo vital do homem é limitado. (41) Por muito rico que um indivíduo fosse em relação com os demais. quer dizer. Mas a saída do mundo forma parte deste. a potência do intelecto. que é. a esfera de facilidades e comodidades que sua riqueza podia proporcionar-lhe era muito reduzida. base da técnica futura. quando. segurança física e aspirina? (42) Abandonada à sua própria inclinação. é quase certo que a maravilha da física atual se perderia para sempre na humanidade. certos conselhos negativos. Que lhe importa não ser mais rico que outros. dispostos a admitir toda possibilidade. O mundo de Einstein é finito. Não nos dirá o pretérito o que devemos fazer. portanto. um dos maiores físicos atuais. 607 do tomo II de Obras Completas). se o mundo o é e lhe proporciona magnificas estradas de rodagem. (34) No pior caso.A rebelião das massas. Sempre me pareceu uma caricatura engraçada dessa tendência a propter vitam. a destruir as causas de sua vida. efetivamente. mas o que devemos evitar. em 13 de setembro de 1759. (35) Assim. "Depois mandaram trazer de beber a todo aquele grande concurso. já no prólogo de meu primeiro livro: Meditaciones del Quijote. Nas Atlântidas aparece sob o nome de horizonte. a massa. o que aconteceu em Nijar. 1916. recolhido no tomo VII del El Espectador. como de uma habitação a porta. necessita triunfar da distância e da tardança. como a totalidade do mundo era pobre. povoado próximo a Almería. (37) A liberdade de espírito. por afã de viver. (36) 0 mundo de Newton era infinito. que com repetidos "vivas!" se encaminharam ao depósito municipal de trigo e de suas janelas arrojaram o cereal file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. precisamente porque é mortal. costuma dizer em conversação privada que se morressem subitamente dez ou doze determinadas pessoas. A vida do homem médio é hoje mais fácil. de maior tamanho. já que não uma orientação positiva. o qual consumiu setenta e sete arrobas de vinhos e quatro odres de aguardente. mas que. plebéia ou "aristocrática". mas uma vazia generalização. 1926. cômoda e segura que a do mais poderoso em outro tempo. entretanto. tende sempre. sempre haveria duas: essa e sair do mundo. (39) Veremos. mas essa infinitude não era um tamanho. Jamais o entendimento humano teve como agora maior capacidade de dissociação. cujo espírito os acalorou de tal modo. Veja-se o ensaio El origen deportivo del Estado. Dissociar idéias custa muito mais que associá-las. careceria de sentido o automóvel. telégrafo.

dá conferências ou escreve. essa é a posição do homem-massa quando fala. (Veja-se pág. (Veja-se página 607 do tomo II de O. o que executaram com o maior desinteresse. citado em Reinado de Carlos III. e só aceita como digno dele aquilo que está acima dele e exige um novo estirão para alcançá-lo. com esta única diferença: uns pensarão que.htm (132 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . se não tem vontade de ser verídico. é intelectualmente um bárbaro. já falei em España invertebrada (1922). vida é o processo existencial de uma alma. 156. Dali passaram ao Estanco do Tabaco e mandaram jogar fora o dinheiro da Mesada. aniquila-se a si mesmo. nota 2.). pois.) (47) Sobre a indocilidade das massas. 35 do tomo III de O. talvez comoventes. não há oportunidade para estudar o fato de que tantas vezes apareça na história uma "nobreza de sangue". almofarizes. nem cadeiras. trigo. e os melhores intencionados as entenderão como simples metáforas. Admirável Nijar! Teu é o porvir! (43) É intelectualmente massa aquele que ante um problema qualquer se contenta com pensar o que boamente encontra em sua cabeça. O Estado eclesiástico concorreu com igual eficácia. e o tabaco. pág. (50) Se alguém em sua discussão conosco se desinteressasse de se ajustar à verdade.um estudo sobre ela. tomo VII. que não se tenha tentado nunca . (45) Como no anterior trata-se só de retrotrazer o vocábulo "nobreza" a seu sentido primordial. se deixará ganhar pelo sentido primário destas frases e será precisamente quem . (44) Veja-se España invertebrada (1922).parece-me . pelo senhor Manuel Danvila.cevada. que exclui a herança. quantos gêneros líquidos e comestíveis havia nelas. intacta esta questão. (51) Não é preciso dizer que quase ninguém levará a sério estas expressões. Nas lojas fizeram o mesmo. pelo menos. farinha. 10. 35 do tomo III de O. C. pois em altas vozes induziram as mulheres a sacudir fora o que havia nas suas casas. (Veja-se pag. caçarolas. falando a sério. que é uma sucessão de reações químicas. pois não restou nelas pão. entretanto. De fato. C. tomo II.verdadeiras ou falsas . e ao dito ali remeto-me. egrégio aquele que desestima o que acha sem prévio esforço em sua mente. o choque com a imbecilidade alheia. ou. para mais autorizar a função. o que não é. e os outros. Só algum leitor bastante ingênuo para não crer que sabe já definitivamente o que é a vida. pelo contrário.) (48) Muitas vezes levantei de mim para mim a seguinte questão: é indubitável que sempre teve de ser para muitos homens um dos tormentos mais angustiosos de sua vida o contacto. Como é possível. C. especialmente das espanholas. morteiros.A rebelião das massas. Este povoado. Não creio que melhore minha situação ante leitores tão herméticos resumir toda uma maneira de pensar dizendo que o sentido primário e radical da palavra vida aparece quando a empregamos no sentido de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mandando derramar.as entenda. pág. ficando a vila destruída: Segundo um papel do tempo em poder do senhor Sánchez de Toca. Entre os demais reinará a mais efusiva unanimidade. para viver sua alegria monárquica. em El Espectador. Fica. pratos. É. que nele havia e 900 reais de suas caixas. um ensaio sobre a imbecilidade? (49) Não se pretenda escamotear a questão: todo opinar é teorizar. (46) Veja-se El origen deportivo del Estado.

moral. a meu juízo. Mas a geração educada sob seu império traz consigo outras idéias. biografia e não no de biologia. portanto. pelo contrário. religião . dizia eu sobre isto no ensaio "Biologia e Pedagogia". (54) A rigor. El Espectador.) (53) Daí que. com a sobra. perigosíssima crise íntima que hoje atravessa sua ciência. mas. pelo menos.htm (133 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . condição de todo grande avanço histórico. a nova geração faz a propaganda de suas idéias. não quero dizer que renuncie a uma plena liberdade diante desse próprio liberalismo.todos os demais princípios vitais política. em. 893 a 10. É um caso particular da desproporção que mais adiante aponto entre a complexidade dos problemas atuais e a capacidade das mentes. tomo III. Veja-se o que. quer dizer. (57) Centuplica a monstruosidade do fato que . transitória falha. uma petulante rebeldia. que daqui a pouco ocupará a nossa atenção. fora desejável um terceiro nome. não há poucos anos. a nova geração é anti-extremista e anti-revolucionária. pois. não diz nada quem supõe haver dito algo definindo a América do Norte por sua "técnica". (52) Esta folga de movimentos ante o passado não é. arte. uma claríssima obrigação de toda "época crítica". fantasia e mito. a democracia liberal e a técnica se implicam e inter-supõem por sua vez tão estreitamente que não é concebível uma sem a outra. Se eu defendo o liberalismo do século XIX contra as massas que incivilmente o atacam. e. Vice-versa: o primitivismo que neste ensaio aparece sob seu pior aspecto é. Esse seria o verdadeiro nome. finalmente. os quais. Não tem. e por isso revolucionários. o que jamais foram as restaurações.desse período. adquirem vigência e são o dominante na segunda metade de sua carreira.A rebelião das massas. Outra coisa é abstração.como indiquei . (56) Aristóteles: Metafísica. Mas essa atuação divide-se em duas etapas e toma duas formas: durante a primeira metade . preferências e gostos. Uma das coisas que perturbam mais gravemente a consciência européia é o conjunto de juízos pueris sobre a América do Norte que se ouvem expendidos até pelas pessoas mais cultas.aproximadamente . não cabe desculpar o desapego por ela supondo o homem médio distraído por algum outro entusiasmo de cultura. dia a dia cumpre com fabulosos acréscimos quanto promete e mais do que promete. de alma substancialmente restauradora. pois. A maior parte dos investigadores mesmos não têm hoje a mais leve suspeita da gravíssima. por outra parte. "O paradoxo do selvagismo". Pela fortíssima razão de que toda biologia é em definitivo só um capítulo de certas biografias. pelo contrário. é o que em sua vida (biografável) fazem os biólogos. mais genérico. (59) Uma geração atua em média durante trinta anos. (Página 281 do tomo II de O.se acham efetivamente e por si mesmos em crise. Quando as idéias. que incluísse ambas. que começa a injetar no ar público. (58) Já aqui entrevemos a diferença entre o estado das ciências de uma época e o estado de sua cultura. o substantivo da última centúria. Claro que não se deve entender restauração como simples "volta ao antigo". C. (55) Não falemos de questões mais internas. e em certo sentido. preferências e gostos. e ainda a abundância de meios. No século XIX file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. direito. preferências e gostos da geração imperante são extremistas. (60) Não se confunda o aumento. concorrência. Só a ciência não falha.

inspirando-lhe uma confiança que é já falsa. como veremos.tudo que tem. Este seu autêntico ser não morre por isso. é evidente. Coincide com este só num ponto. bastaria desenhar as linhas gerais da história britânica para patentear que esta exceção. (63) 0 que é a casa ante a sociedade. grotesco esse transitório "senhoritismo" das nações menos gradas. (64) Quem crê copernicamente que o sol não cai no horizonte. A nobreza salvou-se por isso mesmo. a aristocracia inglesa parece uma exceção do dito. a ocupação comercial e industrial . acho. Assim. deserta de si mesmo por mera frivolidade e de tudo .o que supõe haver permanecido sem descanso na brecha -. até mui avançado o século XVIII. O "mocinho satisfeito". Apenas um exemplo disto: a segurança que parecia oferecer o progresso (aumento sempre crescente de vantagens vitais) desmoralizou o homem médio. (62) Veja-se Olbricht: Klima und Entwicklung. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. (65) Envilecimento. continua vendo-o cair. aumentavam as facilidades de vida. constantemente. Esta alusão ao caso desse católico vai aqui só como exemplo para esclarecer a idéia que agora exponho. é-o em escala maior a nação ante o conjunto das nações. Mas.ignóbil no continente -. autêntica crença liberal.quantitativo e qualitativo da própria vida como apontei acima. em fantasma. os efeitos de sua crença primária ou espontânea. atrófica. teve de aceitar. decidiu-se muito cedo a viver economicamente em forma criadora. por outra parte. queira ou não. confirma a regra. E ao aceitar essa porção de inautenticidade cumpre com seu dever.htm (134 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . embora o seja. Esquece-se o dado fundamental de que a Inglaterra tem sido. ao "mocinho satisfeito". mas converte-se em sombra acusadora. e como o ver implica uma convicção primária. excessivamente rico. viciosa. não é outra coisa senão o modo de vida que resta a quem se negou a ser o que tem que ser. o ser seu caso admirabilíssimo. que lhe faz sentir constantemente a inferioridade da existência que leva a respeito da que tinha que levar. de homem moderno . Mas chegou um momento em que o mundo civilizado. O envilecido é o suicida sobrevivente. E eu. não é mister que os filósofos imperem . o país mais pobre do Ocidente.como Platão quis primeiro -. e isso produz o prodigioso crescimento . Isto significa que o destino desse católico é em si mesmo trágico. A isso chamam ingenuamente "nacionalismo". Uma das manifestações. como em outras coisas.A rebelião das massas. sua própria. Contra o que sói dizer-se. que sinto asco pela sujeição beata à internacionalidade. mais claras e volumosas do "senhoritismo" vigente é. O católico não é autêntico em uma parte de seu ser . isto é. supérfluo. adquiria um aspecto demasiado. a decisão que algumas nações tomaram de "fazer o que está na sua vontade" na convivência internacional. Mas ainda esta coincidência parcial é só aparente. (66) Para que a filosofia impere. e a não ater-se aos privilégios.porque quer ser fiel a outra parte efetiva de seu ser que é sua fé religiosa. acanalhamento.precisamente para escapulir a toda tragédia. este católico nega com sua crença dogmática. pelo contrário. E porque tem vivido sempre em perigo soube e conseguiu sempre fazer-se respeitar . Como não era abundante de meios. continua crendo. ao mesmo tempo. a nobreza inglesa tem sido a menos "sobrada" da Europa e tem vivido em mais constante perigo que nenhuma outra. 1923. O que lanço em rosto ao "mocinho satisfeito" é a falta de autenticidade em quase todo o seu ser. posto em relação com a capacidade do homem médio. O que acontece é que sua crença científica detém. (61) Nisto. mas não se refere a ele a censura radical que dirijo ao homem-massa de nosso tempo.

(68) Esta imagem simples da grande mudança histórica em que se substitui a supremacia dos nobres pelo predomínio dos burgueses deve-se a Ranke. A invenção da carga num tubo deveu-se a alguém da Lombardia. basta que os filósofos sejam filósofos. Como se explica isto? Já a sociedade em torno começava a crescer. não obstante. A pólvora é conhecida de tempo imemorial. (Veja-se pág. 1921. 1912). 563 do tomo II de O. Mas não basta isso. (72) Veja-se o ensaio "Hegel y América" em El Espectador.) (74) Isto é o que faz a razão física e biológica. (69) Mereceria a pena insistir sobre este ponto e fazer notar que a época das Monarquias absolutas européias operou com Estados muito débeis. não se fazia mais forte? Uma das causas é a apontada: incapacidade técnica. são literatos ou são homens de ciência. 40. a rigor. (71) Veja-se Elie Halévy: Histoire du peuple anglais au XIXe. Ambas as coisas são. funestíssimas. como literalmente certo que os nobres foram derrotados de maneira definitiva pelo novo exército. o Estado absoluto respeita instintivamente a sociedade muito mais que o nosso Estado democrático. 1927. das aristocracias de sangue. Contra o que se crê. edição). Só os exércitos burgueses. não foi eficaz até que se inventou a bala fundida.são políticos. edição. mas claro é que sua verdade simbólica e esquemática requer não poucos aditamentos para ser completamente verdadeira. Há quase uma centúria os filósofos são tudo. Veja-se. de O. em El Espectador. Ainda assim. Porque esta. melhor organizados economicamente. burocrática. siècle (tomo I. mas com menos sentido da responsabilidade histórica. profissional. o ensaio Historia como sistema (R. 1930. quer dizer. 1a. demonstrando com isso que é menos razoável que a "razão histórica". mais modestamente. Fica. do autor. 35 do tomo III das Obras Completas). que formaram os suíços. Tomo VII.) (75) Seria interessante mostrar como na Catalunha colaboram duas inspirações antagônicas: o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. puderam empregá-la em grande escala. mas de burgueses. quando trata a fundo das coisas e não de soslaio como nestas páginas. C. (Veja-se o tomo VI de O.. racionalizadora. nega-se a reconhecer como absoluto nenhum fato. basta que haja filosofia. Para ela. pág.htm (135 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . 537 do tomo II de O. mais inteligente.A rebelião das massas. (Veja-se pag. são pedagogos. raciocinar consiste em fluidificar todo fato descobrindo sua gênese. a "razão naturalista". se o Estado tudo podia . nem sequer que os imperadores filosofem . C. Além disso aconteceu no Estado absoluto que aquelas aristocracias não quiseram ampliar o Estado à custa da sociedade.era "absoluto" -. menos isso . (70) Recordem-se as últimas palavras de Septimio Severo a seus filhos: Permanecei unidos. não representados pelo exército de tipo medieval dos borguinhãos.) (73) Veja-se o ensaio Sobre la muerte de Roma. Tomo VI. C. pagai ao soldado e desprezai o resto. Os "nobres" usaram em pequenas doses a arma de fogo mas era demasiado cara. Para que a filosofia impere. depois -. (67) Veja-se España invertebrada. Por que.como quis. Sua força primária consistiu na nova disciplina e na nova racionalização da tática. 2a. (Veja-se pág.

Evidentemente. não no ser. Até hoje. aparente contradição entre uma e outra tese. o melhor livro sobre o assunto é o de Eduardo Meyer: La Monarquia de César y el Principado de Pompeyo. em El Espectador. enquanto nós deixamos maior autonomia ao futuro. justifica que qualifiquemos o europeu de futurista e o antigo de arcaizante. mas no preferir. nem todos os ingleses inglês. Já nos fins do século XW começa-se a sublinhar a modernidade. Segunda edição 1924. eu contrapus o homem antigo ao europeu. desejos. para se converter ou em simples carga e serviço do Estado ou em mero título de direito civil. mas especificamente internacionais. aspirou a instaurar. (Veja-se página 607 do tomo II de O. C. O antigo e o europeu estão igualmente preocupados com o porvir. os casos de Koinón e língua franca. Augusto opera no sentido de Pompeu. (76) Homogeneidade jurídica que não implica forçosamente centralismo. dos inimigos de César. pois. De uma civilização em que a escravidão tinha valor de princípio não se podia esperar outra coisa. por mui denso que fosse o casario. e este. mas aquele submete o futuro ao regime do passado. que não são linguagens nacionais. 1918. está claro. ao novo como tal este antagonismo. o ser humano tem irremediavelmente uma constituição futurista. sedes aratorum. o que nega o uso antigo. É revelador que apenas o europeu desperta e toma posse de si. (85) Segundo isso. (78) Veja-se do autor "El origen deportivo del Estado". Como é sabido. Pois a conseqüência é que esta concessão foi feita precisamente à medida que ia perdendo seu caráter de estatuto político.a "boa" como a má . 1930. "moderno" quer dizer o novo. Chamavam-nas "faute de mieux". tomo VII. nacionalismo europeu e o cidadanismo de Barcelona. relativamente aberto.htm (136 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .) (79) Veja-se Dopsch: Fundamentos económicos y sociales de la civilización europea. (82) Nem sequer como puro fato é verdade que todos os espanhóis falem espanhol. mas sim complicá-lo ou modulá-lo.se achará no tratado sociológico do autor intitulado El Hombre y la Gente. não podem anular nosso verdadeiro ser. (80) Os romanos não se resolveram a chamar cidades às povoações dos bárbaros. Para nossas "nações". foi a escravidão um simples fato residual. Eu já disse outra vez que o levantino é o resto do homo antiquus que há na Península. dizendo que aquele é relativamente fechado ao futuro. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pelo contrário. por outro tem idéias sobre si mesmo que coincidem mais ou menos com sua autêntica realidade. (83) Ficam fora. (77) 0 sentido desta abrupta asseveração supõe que uma idéia clara sobre o que é a política. vive antes de tudo no futuro e do futuro. tomo II páginas 3 e 4. Surge essa aparência quando se esquece que o homem é um ente de dois andares: por um lado é o que é. (81) Sabido é que o Império de Augusto é o contrário do que seu pai adotivo. Não obstante. preferências. Há. nossas idéias. em que pervive sempre a tendência do velho homem mediterrâneo. quer dizer. toda política . (84) Confirma isto o que a primeira vista parece controvertê-lo: a concessão da cidadania a todos os habitantes do Império. nem todos os alemães alto-alemão. começa a chamar a sua vida "época moderna". César.A rebelião das massas.

etc. que tão freqüentemente fazem sua cômica aparição nas cartas ao diretor de The Times. (94) A sociedade européia não é. seus membros são homens. Não me refiro.htm (137 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . (91) Certa dose de anacronismo é conatural à política. alemães. veja-se o Prólogo para franceses. (87) Agora vamos assistir a um exemplo gigantesco e claro. (88) Se bem essa homogeneidade respeita e não anula a pluralidade de condições originárias. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. uma sociedade cujos membros sejam as nações. cronologicamente. por exemplo. a roda.fins do século XVIII. o canastro. Precisamente por ser o suposto de todos os demais e haver sido conseguidos em períodos milenares. pois. (97) Ficam fora da consideração os que podemos chamar de "inventos elementais" .o princípio melodramático de "women and children". contempladas de outra perspectiva. passa a ser um caráter patológico. ao mesmo tempo. vamos ver se a Inglaterra acerta a manter em unidade soberana de convivência as diferentes porções de seu Império. (90) Estas páginas foram publicadas no número de junho de 1937 na revista The Nineteenth Century. eis ai um exemplo. aos "experts" e aos técnicos. "mulheres e crianças. preferiram chamá-la de "liga". precisamente nas questões que mais agudamente interessavam ao tempo. propondo-lhe um programa atrativo. indivíduos humanos. Como em toda autêntica sociedade. estimação intelectual. espanhóis. é muito difícil sua comparação com a massa dos inventos derivados ou históricos. e todo o coletivo ou social é arcaico relativamente à vida pessoal das minorias inventoras.o machado. um dos primeiros sintomas do romanticismo . (96) Há cento e cinqüenta anos a Inglaterra fertiliza sua política internacional mobilizando sempre que lhe convém e só quando lhe convém . (92) Os ingleses. o fogo. situa a agrupação de Estados fora do direito. e fala-se. a saber. obrigados a desenvolver e executar os desatinos daqueles políticos. nesta obra. Isso evita o equívoco. com bom acordo. (89) Bastaria isso para se convencer de uma vez para sempre que o socialismo de Marx e o bolchevismo são dois fenômenos históricos que apenas têm alguma dimensão comum. consignando-a francamente à política.A rebelião das massas. e de uma magnitude normal. os europeus. como de laboratório. (93) Sobre a unidade e a pluralidade da Europa. que além de ser europeus são ingleses. uma espécie de vanguardismo na "mística teologia". (86) 0 princípio das nacionalidades é. (95) Por exemplo: as apelações a um suposto "mundo civilizado" ou a uma "consciência moral do mundo". constitutiva. Na medida em que as massas se distanciam destas aumenta o arcaísmo da sociedade. a vasilha. -. conclui-se que é muito difícil encontrar alguma que merecesse então. mas. de devotio moderna. é claro. Se se repassa a lista das pessoas que intervieram na criação da Sociedade das Nações. e muito menos mereça agora. É esta um fenômeno coletivo.

o triunfo foi gozado pelos que não combateram nunca esse regime enquanto foi file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. tem sentido dizer que a vida não é senão juventude. E. pode ser visto na ordem pública. Até que ponto é inevitável uma pavorosa catástrofe econômica em todo o mundo? Os economistas deviam dar-nos ocasião para que cobrássemos confiança em seu diagnóstico.500 a 1. e ao mesmo tempo. muitos vestígios positivos nos povos selvagens do presente. de se embotar para um estímulo. etc.A rebelião das massas. a meu juízo. A vida tem a condição inexorável de se cansar. se não se supõe em épocas muito primitivas uma etapa de enorme predomínio dos jovens que deixou. e o resto é desviver. ou que viver é ser jovem. a origem de certas coisas humanas. as conseqüências que trouxe para a vida romana. Basta isso para demonstrar que esse correspondente. foram os "intelectuais" dessa geração. o haver sido nossos antepassados os mouros. (107) Um exemplo destes combates em que a vitória efetiva não deu. mas do econômico. Londres. não provêem diretamente do quadrante político. (105) Quem quisesse contar-nos com algum detalhe a guerra de Numância. é sumamente provável que pouco tempo depois surgirá outro estilo com as figuras em posição diagonal (mudança da pintura italiana de 1. (98) Acrescente-se que nessas opiniões jogavam sempre grande papel as vigências comuns a todo Ocidente. mudanças políticas. (101) Tradução inglesa do presente livro. por razões de curioso espelhismo histórico. um que só falam os homens e o outro só para as mulheres. Mas isto vale para um conceito mais minucioso de juventude que o habitualmente usado e ao qual este ensaio se acolhe.600). (104) Não se explica. Mas todo o raciocínio do artigo que mobiliza e dá um sentido a esses dados minuciosos e a essas cifras exatas. parte de supor. reforma das instituições. (100) Os perigos maiores que como nuvens negras ainda se amontoam no horizonte. (102) Até o ponto de existir em certos povos primitivos dois idiomas. entre elas o Estado. sem embargo. ou que na juventude culmina a vida. entretanto. Porque o paralelismo com o momento presente da Espanha é surpreendente e luminoso. George Allen & Unwin. É evidente que uma nova técnica de mútuo conhecimento entre os povos reclama uma reforma profunda da fauna jornalística. É o contraste.. (99) Neste mês de abril. qualquer que seja sua operosidade e sua imparcialidade. Se no estilo pictórico as figuras aparecem em posição vertical. portanto. Os que combateram e em realidade venceram a velha política pseudo-parlamentária. é absolutamente incapaz de informar sobre a realidade da vida espanhola. reabilitar-se para o estímulo oposto. (106) Do ponto de vista mais geral. o correspondente de The Times em Barcelona envia a seu jornal uma informação onde procura os dados mais minuciosos e as cifras mais exatas para descrever a situação. como de coisa sabida e que tudo explica. sem dúvida. faria uma boa obra. mas resisto a considerá-lo decisivo. (103) Há. que. o triunfo ao combatente. não contradiz o dito agora. Mas não mostram nenhuma pressa.htm (138 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . com efeito. um fator que colabora nestas mudanças como em todos os do organismo vivo.

Pelo contrário. (108) 0 dia que se faça em sério a história do último século. na França tem o escritor um formidável poder social. mas com alguma probabilidade dirijo o leitor à que então se intitulava Três ensaios sobre teoria sexual. (112) Por isto a estimação do escritor na Espanha é sempre falsa e a rigor mais obra da boa vontade que de sincero entusiasmo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Simplesmente porque os franceses entendem de literatura. diz o trovador Giraud de Bornelh.htm (139 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . de Fra Salimbene (Parma. (109) Tenho idéia de que Freud se ocupa minuciosamente deste fato. 1957. poderoso. 376. pág. (110) Veja-se a Cronaca. (113) Achille Luchaire. La société française au temps de Philippe Auguste. ver-se-á que essa geração é a efetivamente culpada do desajuste atual da Europa. não recordo bem em que obra trata o assunto.A rebelião das massas. Como fazem dezesseis anos que li esse autor. páginas 94/102). (111) "Só para louvar as damas".

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