A rebelião das massas.

Copyright Autor: José Ortega y Gasset Tradutor: Herrera Filho Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org)

A REBELIÃO DAS MASSAS
Jose Ortega y Gasset

ÍNDICE

Apresentação Biografia do autor PRÓLOGO PARA FRANCESES PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I - O fato das aglomerações II - A ascensão do nível histórico III - A altura dos tempos IV - O crescimento da vida V - Um dado estatístico VI - Começa a dissecação do homem-massa

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A rebelião das massas. VII - Vida nobre e vida vulgar, ou esforço e inércia VIII - Porque as massas intervêm em tudo e porque só intervêm violentamente IX - Primitivismo e técnica X - Primitivismo e história XI - A época do "mocinho satisfeito" XII - A barbárie do "especialismo" XIII - O maior perigo, o Estado SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV - Quem manda no mundo? XV - Desemboca-se na verdadeira questão EPÍLOGO PARA INGLESES Quanto ao pacifismo DINÂMICA DO TEMPO As vitrinas mandam Juventude Masculino ou feminino? NOTAS

APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia

"A Rebelião das Massas", obra prima de José Ortega y Gasset, começou a ser publicado em 1926 num jornal madrilenho ("El Sol"). Retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Não se refere às classes sociais mas às multidões e aglomerações. Tendo esse contexto como pano de fundo, Ortega discute temas, aparentemente contrários

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A rebelião das massas.

entre si, mas que se fundem (ou devem fundir-se) numa unidade de sentido. É assim que contrapõe individualismo e submissão ao coletivo; comunidade, nação e estado; história, presente e porvir; homens cultos e especialistas; poder arbitrário e respeito à opinião pública; juventude e velhice; guerra e pacifismo; masculino e feminino. São tópicos que, inevitavelmente, nos induzem à reflexão crítica. Em alguns casos são apresentados de forma extremamente provocativa. Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e afirma: "É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules." Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam um certo desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se masculinizando: "A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil, uma espécie de atleta com seios. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX, quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura, extrema feminilidade. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista, e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita." Sobre a guerra, chega a afirmar: "O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida." Sua interpretação do modelo escravista é bastante sugestiva: "Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor." São essas aparentes contradições que estimulam nosso espírito crítico. Ortega defendeu suas concepções com vigor, fundamentos sólidos e uma lógica irreprensível. Em poucos momentos foi totalmente conclusivo, mas deixou uma enorme abertura para que possamos repensar as idéias que defendeu em seus dias, adaptando-as ao nosso tempo e ao que viveremos no futuro.

BIOGRAFIA DO AUTOR

José Ortega y Gasset nasceu em Madrid, a 9 de maio de 1883. A família de sua mãe era
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Holanda. formulando um projeto pessoal de reforma da filosofia européia. Ortega decidiu andar pelo mundo. se precipita em velocidade vertiginosa. viajando à França. reagiu contra os tênues fundamentos da ciência adquirida. "En torno a Galileo". Tendo adquirido as primeiras letras em Madrid foi enviado a cursar o bacharelado em um colégio jesuíta de Málaga. e o assunto de que trata é demasiado humano para que pudesse escapar à ação do tempo. não poucas de suas fórmulas chegaram ao leitor francês por vias file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. "Historia como sistema". Há sobretudo épocas em que a realidade humana. as mais polêmicas das quais foram: "Meditaciones del Quijote". na Alemanha. Embora reconhecendo o valor da educação jesuítica recebida. onde se doutorou em Filosofia. "Que és filosofia?". Terminando os estudos em Málaga iniciou seus estudos universitários em Deusto e depois na Universidade de Madrid. como este livro circulou muito durante estes anos fora da França. Começou a ser publicado num jornal madrilenho em 1926. PRÓLOGO PARA FRANCESES I Este livro . Foi também co-fundador do diário "El Sol" e fundador e diretor da "Revista de Occidente". Argentina. sempre instável. Acabou por adotar uma atitude crítica em relação aos seus mestres e a Kant. Grande parte de seus escritos filosóficos foram produzidos a partir do contato com a imprensa." A partir de 1910 iniciou uma vida pública repartida entre a docência universitária e atividades políticas e culturais extra acadêmicas. "Obras Completas". Essa relação com o jornalismo foi essencial para o desenvolvimento de sua formação intelectual e seu estilo de expressão literária. Daí que os fatos ultrapassaram o livro.A rebelião das massas. Suas obras se revestem de um caráter extremamente crítico. ao mesmo tempo. que se refletiu na afirmação: "Durante dez anos vivi no mundo do pensamento kantiano: eu o respirei com a uma atmosfera que foi. Ortega. proprietária do jornal madrilenho "El Imparcial" e seu pai jornalista e diretor desse mesmo diário. minha casa e minha prisão (.supondo que seja um livro . consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei de sua influência atmosférica. Faleceu em Madrid no dia 18 de outubro de 1955. Nossa época é dessa classe porque é de descidas e quedas..) Com grande esforço. Além disso. Com o início da guerra civil espanhola. Buscando uma formação intelectual mais sólida continuou seus estudos em Marburgo. Muito do que nele se enuncia foi logo um presente e já é um passado. Portugal.. além de considerado um dos maiores filósofos da língua espanhola também é lembrado como uma das maiores figuras do jornalismo espanhol do século XX.data. em julho de 1936. onde prevalecia o neokantismo."Rebelión de las masas". países onde proferiu inúmeras conferências...htm (4 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .

entretanto. encerra tácitas reservas. quando o homem se põe a falar. muito mais do que se.vai para cinco anos a Casa Stock me propôs a sua versão -.htm (5 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . O de menos é que a linguagem sirva também para ocultar nossos pensamentos. Por isso eu creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente. Mas. isto faz porque crê que vai poder dizer tudo que pensa. Todo vocábulo é ocasional (l). pois. como diz alguém a alguém. acertada ou erroneamente. habitualmente. sua inépcia e seu confusionismo. Conste.A rebelião das massas. estas foram páginas escritas para uns quantos espanhóis que o destino colocou à minha frente. seria útil submetê-lo a sua meditação e a sua crítica. em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente seu leitor e este percebe como se dentre as linhas saísse u'a mão ectoplástica que tateia sua pessoa. Em todo dizer há um emissor e um receptor. isso é o ilusório. esgota-se em esforços para chegar ao próximo. Não se arrisca a tanto. e que. Teria sido. com suficiente justeza. No final das contas. anônimas e são puro lugar comum. mais humanos. Porém quanto mais a conversação se ocupa de temas mais importantes que esses. uma parte do que pensamos e põe uma barreira infranqueável à transfusão do resto. mudos.ou bem. mais ou menos. que não entre na sua leitura com ilusões injustificadas. que quer acariciá-la . procurássemos adivinhar-nos. certamente. Importa-me. Dóceis ao prejuízo inveterado de que falando nos entendemos. excelente ocasião para praticar a obra de caridade mais adequada a nosso tempo: não publicar livros supérfluos. estando condenado à radical solidão. não usamos estas reservas. A moeda falsa circula apoiada na verdadeira. pois. Como em tantas outras coisas. Não é sobremodo improvável que minhas palavras. o abuso aqui file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas tampouco nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem impossível entender-se com seus semelhantes. e quando não a interpretamos assim. e todas as outras formas do falar destituem sua eficácia. Desses esforços é a linguagem que consegue às vezes declarar com maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós. Como quase tudo que escrevi. produz funestos resultados. que se trata simplesmente de uma série de artigos publicados num jornal madrilenho de grande circulação. o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista com que costumamos escutá-la. o engano vem a ser um humilde parasita da ingenuidade. Mas uma definição. Esquece-se demasiadamente que todo autêntico dizer não só diz algo. dizemos e ouvimos com tão boa fé que acabamos muitas vezes por não nos entendermos. Duo si idem dicunt non est idem. já ao falar de física começa a ser equívoco e insuficiente. mui cortesmente. Este varia quando aquelas variam. se é verídica. mais "reais". Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. Ao contrário. mudando agora de destinatário. mas me fizeram ver que o organismo das idéias enunciadas nestas páginas não corresponde ao leitor francês. Não. para mentir. como quase tudo que o homem faz. mas não há motivo para formalismo. Serve bastantemente para enunciados e provas matemáticas. Porque ela mesma não nos assegura que mediante a linguagem possamos manifestar. os quais não são indiferentes ao significado das palavras. é irônica. Assim esta. dar-lhe um murro. Pois bem. Eu fiz tudo que me foi possível em tal sentido . A linguagem é por essência diálogo. Não estou convencido disso. Definimos a linguagem como o meio de que nos servimos para manifestar nossos pensamentos. Não posso esperar melhor sorte quando estou persuadido de que falar é uma operação muito mais ilusória do que se supõe. Apenas. A mentira seria impossível se o falar primário e normal não fosse sincero. A linguagem não dá para tanto. tanto mais aumenta sua imprecisão. Diz. consigam dizer aos franceses o que elas pretendem exprimir. todos os nossos pensamentos.

levando suas homenagens. Desde o aparecimento deste livro. que quando se celebrou o jubileu de Victor Hugo foi organizada uma grande festa no palácio do Elíseo. portanto. a mais desprezível da demagogia. O grande poeta achava-se na grande sala de recepção. pareceu vacilar. Mas agora esse expediente não serve de nada. de outra grave coisa: da pavorosa homogeneidade de situações em que vai caindo todo o Ocidente. Mas logo se viu que o achara e que recobrara o domínio da situação. com voz estentórica. e nunca me dirigi à Humanidade. ignorantes de seus próprios limites e que sendo. consistiu no uso sem preocupação. Contam. em solene atitude de estátua. sem a solenidade de Victor Hugo. Digo angustioso porque. respondeu à homenagem do rotundo senhor dizendo: "La Mésopotamie! Ah. balofo e de andar desgracioso. porque em outro país a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. L'Humanité!" Contei isso a fim de declarar. podia parecer invalidada pelo fato mesmo de que este volume tenha encontrado leitores em quase todas as línguas da Europa. Um porteiro. Cervantes!" O porteiro: "Monsieur le Représentant de L'Allemagne!" E Victor Hugo: "L'Allemagne! Ah. sem consciência da limitação do instrumento.A rebelião das massas. com o mesmo tom patético. foi adotada até 1750 por intelectuais desajustados. do logos. representações de todas as nações. todavia. o que em cada país é sentido como circunstância dolorosa. fizeram um grande giro circular como procurando em todo o cosmos algo que não encontrava. sem insistir demasiado sobre a realidade do fato. II Esta tese que sustenta a exiguidade do raio de ação eficazmente concedido à palavra. Shakespeare!" O porteiro continuou: "Monsieur le Représentant de l'Espagne"! E Victor Hugo: "L'Espagne! Ah. da qual participaram. atarracado. Outrora podia ventilar-se a atmosfera confinada de um país abrindo-se as janelas que dão para outro. que este fato é de preferência sintoma de outra coisa. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo. realmente. virando os olhos. multiplica ao infinito seu efeito deprimente quando quem o sofre adverte que apenas há lugar no continente onde não aconteça estritamente o mesmo. com voz de dramático trêmulo. com o cotovelo apoiado no rebordo de uma chaminé. Esse costume de falar para a Humanidade. O porteiro exclamou: "Monsieur le Représentant de la Mésopotamie!" Victor Hugo. Efetivamente. usaram dele sem respeito e precauções. Os representantes das nações adiantavam-se ao público e apresentavam sua homenagem ao vate da França. anunciava-os: "Monsieur le Représentant de l'Anglaterre!" E Victor Hugo. que é a forma mais sublime. essa identidade cresceu de modo angustioso. e. que até então permanecera impertérrito e seguro de si mesmo. Eu creio. com a mesma convicção. isto é. Suas pupilas. os homens do dizer. dizia: "L'Anglaterre! Ah. a todos e a ninguém. ansiosas. Goethe!" Mas então chegou a vez de um senhor baixo.htm (6 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . pela mecânica que nele mesmo se descreve. por seu ofício. sem perceberem que a palavra é um sacramento de mui delicada administração. que não escrevi nem falei à Mesopotâmia. Há quase dois séculos que se acredita que falar era falar urbi et orbi.

que para cada um viver era conviver com os demais. que é. As guerras inter-européias mostraram quase sempre um curioso estilo que as faz parecer muito com as altercações domésticas. todos vão ao mesmo. o contrário daquela. a par. portanto jurídica.A rebelião das massas. Um dos mais graves erros do pensamento "moderno". poder público. há de entender-se com certo superlativo de paradoxo.htm (7 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e são verdadeiros certames. progressivamente homogêneos e progressivamente diversos. direito. Sociedade é o que se produz automaticamente pelo simples fato da convivência. a realidade "direito" .é um espaço social. é o mais insensato ensaio que se fez de pôr o carro adiante dos bois. Querer que o direito reja as relações entre seres que previamente não vivem em efetiva sociedade. maneiras e entusiasmos. Ora. Ao contrário. Este destino que os fazia. corresponda um espaço físico que a geografia denomina Europa. que vem a ser como estimular em cada um sua vocação particular. A idéia cristã engendra as igrejas nacionais. línguas. desde Óton III . De sua essência e inelutavelmente esta segrega costumes. cujas salpicaduras ainda padecemos. parece-me . E é que para esses povos chamados europeus.perdoe-se-me a insolência . Uma sociedade não se constitui do acordo das vontades. tem sido confundir a sociedade com a associação. convivência e sociedade são termos equivalentes. os viajores e mercadores que rodaram pelo mundo: Unde sapientia venit et quis est locus intelligentiae? "Sabeis de algum lugar do mundo onde a inteligência exista?" Convém. A idéia da sociedade como reunião contratual. atmosfera é tão irrespirável como no próprio. produz o efeito de despertar romanticamente a consciência diferencial das nacionalidades.não as idéias sobre ele do filósofo. pergunta a seus amigos. Mais ainda. que era um terrível pince-sans-rire. como as dos jovens numa aldeia ou disputas de herdeiros pela partilha de um legado familiar. onde todos os povos do Ocidente se sentiam como em sua casa. Porque neles a homogeneidade não foi alheia à diversidade. É de somenos importância que a esse espaço histórico comum. Job. segundo a qual todos os povos hão de ter uma constituição idêntica. a lembrança do Imperium romano inspira as diversas formas do Estado. Pelo contrário: cada novo princípio uniforme fertilizava a diversificação. dessa sociedade preexistente. aproximadamente. Eadem sed aliter. de pessoas que convivem. Como Carlos V dizia de Francisco I: Meu primo Francisco e eu estamos de perfeito acordo: ambos queremos Milão". lutas de emulação. a "restauração das letras" no século XV impele as literaturas divergentes. entre eles ou sobre eles se ia criando um repertório de idéias. Esta convivência tomava indiferentemente aspecto pacífico ou combativo. Porque o direito.é. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Isto é.ter uma idéia muito confusa do que é o direito. caracterizou-se sempre por uma forma dual de vida. Um pouco de outro modo. secreção espontânea da sociedade e não pode ser outra coisa.mover-se e atuar em um espaço ou âmbito comum. O espaço histórico a que aludo mede-se pelo raio de efetiva e prolongada convivência . que nessa progressiva assimilação das circunstâncias distingamos duas dimensões diferentes e de valor contraposto.claramente desde o século XI. viver sempre foi . todo acordo de vontades pressupõe a existência de uma sociedade. e o acordo não pode consistir senão em precisar uma ou outra forma dessa convivência. a ciência e o princípio unitário do homem como "razão pura" cria os distintos estilos intelectuais que modelam diferencialmente até as extremas abstrações da obra matemática. entretanto. Pois aconteceu que à medida que cada um ia formando seu gênio peculiar. Finalmente e para cúmulo: até a extravagante idéia do século XVIII. usos. Este enxame de povos ocidentais que alçou vôo sobre a história desde as ruínas do mundo antigo. se me permitem a expressão barroca. Daí a sensação opressora de asfixia. jurista ou demagogo . Evitam a aniquilação do inimigo.

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Não deve estranhar, por outra parte, a preponderância dessa opinião confusa e ridícula sobre o direito, porque uma das máximas desditas do tempo é que, ao toparem os povos do Ocidente com os terríveis conflitos públicos do presente, se encontraram aparelhados com instrumental arcaico e ineficiente de noções sobre o que é sociedade, coletividade, indivíduo, usos, lei, justiça, revolução, etc. Boa parte da inquietação atual provém da incongruência entre a perfeição de nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso escandaloso das "ciências morais". O ministro, o professor, o físico ilustre e o novelista soem ter dessas coisas conceitos dignos de um barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro suburbano quem dê a tonalidade do tempo? (2) Mas voltemos a nossa rota. Queria insinuar que os povos europeus são há muito tempo uma sociedade, uma coletividade, no mesmo sentido que têm estas palavras aplicadas a cada uma das nações que a integram. Essa sociedade manifesta todos os atributos possíveis: há costumes europeus, usos europeus, opinião pública européia, direito europeu, poder público europeu. Mas todos esses fenômenos sociais se dão na forma adequada ao estado de evolução em que se encontra a sociedade européia, que não é, evidentemente, tão avançado como o de seus membros componentes, as nações. Por exemplo: a forma de pressão social que é o poder público funciona em toda sociedade, inclusive naquelas primitivas em que não existe ainda um organismo especial encarregado de manejá-lo. Se a esse órgão diferenciado a quem se entrega o exercício do poder público se quer chamar Estado, diga-se que em certas sociedades não há Estado, mas não se diga que nelas não há poder público. Onde há opinião pública, como poderá faltar um poder público se este não é mais que a violência coletiva suscitada por aquela opinião? Ora bem, que há séculos e com intensidade crescente existe uma opinião pública européia e até uma técnica para influir nela - é incômodo negá-lo. Por isso, recomendo ao leitor que poupe a malignidade de um sorriso ao deparar que nos últimos capítulos deste volume se faz com certo denodo, ante o cariz oposto das aparências atuais, a afirmação de uma possível, de uma provável unidade estatal da Europa. Não nego que os Estados Unidos da Europa são uma das fantasias mais módicas que existem e não me solidarizo com o que os outros pensaram sob esses signos verbais. Mas, por outra parte, é sumamente improvável que uma sociedade, uma coletividade tão madura como a que já formam os povos europeus, ande longe de criar para si seu artefato estatal mediante o qual formalize o exercício do poder público europeu já existente. Não é, pois, debilidade ante as solicitações da fantasia nem propensão a um "idealismo" que detesto, e contra o qual hei pugnado toda a minha vida, o que me leva a pensar assim. Foi o realismo histórico que me ensinou a ver que a unidade da Europa como sociedade não é um "ideal", mas um fato de velhíssima cotidianidade. Ora bem, uma vez que se viu isso, a probabilidade de um Estado geral europeu impõe-se necessariamente. A ocasião que leve subitamente a término o processo pode ser qualquer, por exemplo, a cólera de um chinês que apareça pelos Urais ou uma sacudida do grande magma islâmico. A figura desse Estado super-nacional será, é claro, muito diferente das usadas, como, segundo nesses mesmos capítulos se tenta mostrar, foi muito diferente o Estado nacional do Estado-cidade que os antigos conheceram. Eu procurei nestas páginas pôr em franquia as mentes para que saibam ser fiéis à sutil concepção do Estado e sociedade que a tradição européia nos propõe. Nunca foi fácil ao pensamento greco-romano conceber a realidade como dinamismo. Não podia

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desprender-se do visível ou seus sucedâneos, como um menino não entende do livro senão as ilustrações. Todos os esforços de seus filósofos autóctones para transcender essa limitação foram vãos. Em todos os seus ensaios para compreender atua, mais ou menos, como paradigma, o objeto corporal, que é, para eles, a "coisa" por excelência. Só conseguem ver uma sociedade, um Estado onde a unidade tenha caráter de continuidade visual; por exemplo, uma cidade. A vocação mental do europeu é oposta. Toda coisa visível lhe parece, como tal, simples máscara aparente de uma força latente que a está constantemente produzindo e que é sua verdadeira realidade. Ali onde a força, a dynamis, atua unitariamente, há real unidade, embora à vista se nos apareçam como manifestação dela apenas coisas diversas. Seria recair na limitação antiga não descobrir unidade de poder público apenas onde este tomou máscaras já conhecidas e como solidificadas de Estado; isto é, nas nações particulares da Europa. Nego redondamente que o poder público decisivo atuante em cada uma delas consista exclusivamente em seu poder público interior ou nacional. Convém cair de uma vez na compreensão de que há muitos séculos e com consciência disso há quatro - vivem todos os povos da Europa submetidos a um poder público que por sua própria pureza dinâmica não tolera outra denominação que a extraída da ciência mecânica: o "equilíbrio europeu" ou balance of Power. Esse é o autêntico governo da Europa que regula em seu vôo pela história o enxame de povos, solícitos e pugnazes como abelhas, escapados às ruínas do mundo antigo. A unidade da Europa não é uma fantasia, mas de fato a própria realidade, e a fantasia é precisamente a crença de que a França, a Alemanha, a Itália ou a Espanha são realidades substantivas e independentes. Compreende-se, entretanto, que nem todo o mundo perceba com evidência a realidade da Europa, porque a Europa não é uma "coisa", mas um equilíbrio. Já no século XVIII o historiador Robertson qualificou o equilíbrio europeu de the great secret of modern politics. Segredo grande e paradoxal, sem dúvida! Porque o equilíbrio ou balança de poderes é uma realidade que consiste essencialmente na existência de uma pluralidade. Se essa pluralidade se perde, aquela unidade dinâmica se desvaneceria. A Europa é, com efeito, enxame; muitas abelhas e um só vôo. Esse caráter unitário da magnífica pluralidade européia é o a que eu chamaria boa homogeneidade, a que é fecunda e desejável, a que fazia Montesquieu dizer: L'Europe n'est qu'une nation composée de plusieurs, (3) e Balzac, mais romanticamente, falava da grande famille continentale, dont tous les efforts tendent à je ne sais quel mystère de civilisation. (4)

III Esta multidão de modos europeus que brotam constantemente de sua radical unidade e reverte a ela mantendo-a, é o maior tesouro do Ocidente. Os homens de cabeças toscas não conseguem congeminar uma idéia tão acrobática como esta em que é preciso saltar, sem descanso, da afirmação da pluralidade ao reconhecimento da unidade e vice-versa. São cabeças pesadas nascidas para existir sob as perpétuas tiranias do Oriente.

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Triunfa hoje sobre toda a área continental uma forma de homogeneidade que ameaça consumir completamente aquele tesouro. Onde quer que tenha surgido o homem-massa de que este volume se ocupa, um tipo de homem feito de pressa, montado tão somente numas quantas e pobres abstrações e que, por isso mesmo, é idêntico em qualquer parte da Europa. A ele se deve o triste aspecto de asfixiante monotonia que vai tomando a vida em todo o continente. Esse homem-massa é o homem previamente despojado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas "internacionais". Mais do que um homem, é apenas uma carcaça de homem constituído por meros idola fori; carece de um "dentro", de uma intimidade sua, inexorável e inalienável, de um eu que não se possa revogar. Daí estar sempre em disponibilidade para fingir ser qualquer coisa. Tem só apetites, crê que só tem direitos e não crê que tem obrigações: é o homem sem nobreza que obriga - sine nobilitate - snob. (5) Este universal snobismo, que tão claramente aparece, por exemplo, no operário atual, cegou as almas para compreender que, embora toda estrutura dada da vida continental tenha de ser transcendida, tudo isso há de se fazer sem perda grave de sua interior pluralidade. Como o snob está vazio de destino próprio, como não sabe que existe sobre o planeta para fazer algo determinado e impermutável, é incapaz de entender que há missões particulares e mensagens especiais. Por essa razão é hostil ao liberalismo, com uma hostilidade que se assemelha à do surdo em relação à palavra. A liberdade significou sempre na Europa franquia para ser o que autenticamente somos. Compreende-se que aspire a prescindir dela quem sabe que não tem autêntico mister. Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque as pessoas não costumam pôr-se de acordo a não ser em coisas um pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores coletivistas, que começam por desconhecê-lo. Ademais, há nele uma intuição do que a Europa tem sido, altamente perspicaz. Quando Guizot, por exemplo, contrapõe a civilização européia às demais fazendo notar que nela não triunfou nunca em forma absoluta nenhum princípio, nenhuma idéia, nenhum grupo ou classe, e que a isso se deve o seu crescimento permanente e seu caráter progressivo, não podemos deixar de pôr o ouvido atento (6). Este homem sabe o que diz. A expressão é insuficiente porque é negativa, mas suas palavras chegam-nos carregadas de visões imediatas. Como do mergulhador emergente transcendem olores abismais, vemos que este homem chega efetivamente do profundo passado da Europa onde soube submergir. É, com efeito, incrível que nos primeiros anos do século XIX, tempo retórico e de grande confusão, se tenha composto um livro como a Histoire de la Civilisation en Europe. Todavia o homem de hoje pode aprender ali como a liberdade e o pluralismo são duas coisas recíprocas e como ambas constituem a permanente entranha da Europa. Mas Guizot teve sempre péssima publicidade, como em geral, os doutrinários. Não me surpreendo. Quando vejo que para um homem ou grupo se dirige fácil e insistente o aplauso, surge em mim a veemente suspeita de que nesse homem ou nesse grupo, talvez junto a dotes excelentes, há algo sobremodo impuro. Talvez isto seja um erro em que incorro, mas devo dizer que não o procurei, que o foi dentro de mim decantando a experiência. De qualquer maneira, quero ter a coragem de afirmar que este grupo de doutrinários, de quem todo o mundo riu e fez mofas truanescas, é, a meu ver, o mais

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e foram além disso homens que criaram em suas pessoas uma atitude digna e distante. Posso aludir ao doutrinarismo como a uma magnitude conhecida. todavia. defeito que é. porque foram aparecendo e se consolidando na história: tais são as "liberdades". Não tem outra. sem poder abandonar-se. ainda que pareça incrível. por sua vez. Igual desconhecimento do velho liberalismo sentem os coletivistas de agora quando supõem. que encontram o absoluto em abstrações bon marché. pensaram profundamente. Os doutrinários são um caso excepcional de responsabilidade intelectual. Talvez desde o tempo de Alcuino tenhamos vivido cinqüenta anos pelo menos atrasados a respeito dos ingleses. Condensam-se nele várias gerações de protestantes nimeses que haviam vivido em alerta perpétuo. Pois se dá o fato escandaloso de que não existe um só livro onde se tenha tentado precisar o que aquele grupo de homens pensava. Negar o passado é absurdo e ilusório. porque o passado é "o natural do homem que volta a galope". fincar os calcanhares no chão para se opor à correnteza. Mal pode fazer-se isso sem alguma exageração. enfim. Os verdadeiros direitos são os que absolutamente estão aí. as noções sobremodo turvas. Os doutrinários desprezavam os "direitos do homem" porque são absolutamente "metafísicos". Nela chegou a fazer-se tal e como é. A história é a realidade do homem. o homem que não ri (7). Guizot soube ser. Rotas e sem vigência quase todas as normas com que a sociedade presta uma continência ao indivíduo. Em todos estes temas andam. Pelo menos. Os russos desses anos passados costumavam chamar a Rússia de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sobre os problemas mais graves da vida pública européia. É verdade que nem um nem o outro publicaram jamais um soneto. é bom tomar contacto com os homens que não "se deixam levar". como Buster Keaton. como eu disse. Perdura neles ativa a melhor tradição racionalista em que o homem se compromete consigo mesmo a procurar coisas absolutas. valioso que houve na política do continente durante o século XIX. apesar da sua clássica lucidez. ainda que seja somente para se defender do abandono orgiástico em que vivia seu contorno. não podia este constituir-se uma dignidade se não a extraía do fundo de si mesmo. Numa época como a nossa. Nem será possível reconstruir a história desta se não se estabelece intimidade com o modo em que se apresentaram as grandes questões ante estes homens (10). mas o é de outro gênero e de outra essência em face de todos os demais triunfantes na Europa antes e depois deles. a magistratura. mas diferentemente do racionalismo linfático de enciclopedistas e revolucionários. E. mas para que o integremos (11). é muito possível que o porvir pertença a tendências de intelecto muito semelhantes às suas. mas os continentais ainda não chegamos a essa estação.A rebelião das massas. a legitimidade. Por isso não os entenderam. do que mais tem faltado aos intelectuais europeus desde 1750. como coisa inquestionável. não há tampouco um livro medianamente formal sobre Guizot nem sobre Royer-Collard (9). originalmente. nem mais nem menos.htm (11 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Se alentassem hoje reconheceriam o direito de greve (não política) e o contrato coletivo. quer dizer. Não se abandona jamais. asseguro a quem se proponha formular com rigor sistemático as idéias dos doutrinários. uma das causas profundas do presente desconcerto Mas eu não sei se. no meio da rusticidade e da frivolidade crescente daquele século. abstrações e irrealidades. Seu estilo intelectual não é só diferente em espécie. O passado não está presente e não teve o trabalho de acontecer para que o neguemos. Foram os únicos que viram claramente o que havia que fazer na Europa depois da Grande Revolução. A um inglês tudo isso pareceria óbvio. que era individualista. e constituíram o doutrinal político mais estimável de toda a centúria. ainda que me dirigindo a leitores franceses. Mas. Havia chegado a converter-se neles em um instinto a impressão radical de que existir é resistir. as "capacidades". prazeres de pensamento não esperados e uma intuição da realidade social e política totalmente diferente das usadas. (8) como. sem poder flutuar à deriva no ambiente social. descobrem eles o histórico com o verdadeiro absoluto.

só se pode aderir ao liberalismo de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Daí que os "velhos liberais" se abrissem sem suficientes precauções ao coletivismo que respiravam. porém. em Ballanche. Até esse ponto era a primazia do coletivo o fundo por si mesmo evidente sobre o qual ingenuamente dançavam suas idéias! De onde se infere que minha defesa lohengrinesca do velho liberalismo é. é que tanto ele como Stuart Mill tratam os indivíduos com a mesma crueldade socializante com que os termitas a certos de seus congêneres. chegamos aos grandes teorizadores do liberalismo . da espoliação e da partilha em todas as ordens. Leiam-se os artigos que em 1830 e 1831 publica L'Avenir contra o individualismo.surpreende-nos que sua suposta defesa não se baseia em mostrar que a liberdade beneficia ou interessa a este. Não seria interessante averiguar que idéias ou imagens se espreguiçavam à invocação deste vocábulo na mente um tanto gasosa do homem russo que tão freqüentemente. O aspecto agressivo do título que Spencer escolhe para seu livro . mas pelo contrário. O famoso "individualismo" de Spencer boxeia continuamente dentro da atmosfera coletivista de sua sociologia. porque então convinha a esta ocupar-se em cevar bem os indivíduos. a legislação da Revolução francesa. Por exemplo: um médico de Lyon.O indivíduo contra o Estado . Terceira: esta idéia é de origem francesa. em parte. Não chegara ainda a hora da nivelação. Mais importante. mas não sabiam bem em que consistia e quais eram seus efetivos atributos. simplesmente e como tal. É a primeira idéia que inventa apenas nascido e que ao longo de cem anos não fez senão crescer até inundar todo o horizonte. o fato de que a coletividade é uma realidade diferente dos indivíduos e de sua simples soma. que tudo isso é outra coisa. Quando. de terrível. Aqueles homens apalpavam. era demasiado recente. os fenômenos sociais do tempo camuflavam a verdadeira economia da coletividade. E o que se discute é se certas necessidades sociais são melhor servidas por um ou pelo outro órgão.do social. Nada mais.sem dúvida glorioso e essencial .tem sido causa de que o não entendam teimosamente os que não lêem dos livros senão os títulos. Por outra parte. em Comte e pulula por toda a parte (12). completamente. um "atrasado" do século anterior. inspira. não para aceitá-las. mas para que sejam discutidas e passem depois à sentença. como o capitão italiano de que falava Goethe. do coletivo. Amard.htm (12 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .Stuart Mill ou Spencer . no fato coletivo. O descobrimento . os quais cevam para depois chupar-lhes a substância.a sociedade. No essencial é imediatamente aceita por todos. há por um lado de benefício. falará em 1821 do collectivisme em face do personnalisme (13). desinteressada e gratuita. avançando pela centúria. O resultado. mais do que viam. M.A rebelião das massas. Porque indivíduo e Estado significam nesse titulo dois meros órgãos de um único sujeito . Mas quando se viu com clareza o que no fenômeno social. de pavoroso. mas morre com ela. bisogna aver una confusione nella testa? Diante disso tudo eu rogaria ao leitor que tomasse em conta. "o coletivo". em que interessa e beneficia à sociedade. Segunda: a criação característica do século XIX foi precisamente o coletivismo. porém. Aparece pela primeira vez nos arquireacionários de Bonald e de Maistre. no final. Porque o caso é que eu não sou um "velho liberal". sem outra exceção que não seja Benjamim Constant. as seguintes teses: Primeira: o liberalismo individualista pertence à flora do século XVIII. Mas triunfa em Saint-Simon. por outro.

mas de crescer. Nessa consciência se reconhece a si mesma como valor positivo. Veja-se. Não se conhece bem este file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. numa idêntica "situação". ninguém o procurou: no idioma. Disse-se. é preciso que se dêem circunstâncias diferentes. segundo Humboldt. estilo radicalmente novo. com a míngua progressiva da "variedade de situações". como todas as mudanças que se operam no mundo têm por efeito o aumento da força social e a diminuição do poder individual. E como o poder não parece achar-se em via de declinar. A disposição dos homens. e a consciência desse segredo é a que. como bem e não como mal. não entrevissem de quando em quando as angústias que seu tempo nos reservava. O processo vinha de tempos atrás. revela pelo contrário e grita. em Tocqueville. mestre de Cícero. Isso o faz acolher-se a um grande pensamento emitido por Humboldt na sua juventude. Já no tempo dos Antoninos se nota claramente um estranho fenômeno. que nas condições presentes do mundo esta disposição nada fará senão aumentar" (15). e tomando em conjunto as nações. moveu sempre os lábios do perene liberalismo europeu. se acha tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana. matriz de nossos romances. Assim. o que há mais de oitenta anos escrevia Stuart Mill: "À parte as doutrinas particulares de pensadores individuais. encontramos pré-desenhada nossa hora. por exemplo. E insensato pôr a vida européia numa só carta. Para que o humano se enriqueça. devemos esperar. este desbordamento não é um mal que tenda a desaparecer espontaneamente.e uma eqüivale à outra . Em Macaulay. Depois dele. a um tempo homogênea e estúpida . na linha mesma do horizonte. Na porção mais helenizada do povo romano. a impor aos demais como regra de conduta sua opinião e seus gostos. Tal e como vamos. existe no mundo uma forte e crescente inclinação a estender em forma extrema o poder da sociedade sobre o indivíduo. como eram. tende a fazer-se cada vez mais formidável. está onde menos se podia esperar e onde todavia. estereotipar. Nem era possível que sendo estes homens. que eu saiba. mas. que quase nunca se reprime senão quando lhe falta poder. digo. menos sublinhado e analisado do que devera: os homens tornaram-se estúpidos. a língua vigente é a que se chamou "latim vulgar". seja como concidadãos. menos ingênuo e de mais destra beligerância.A rebelião das massas. seja como soberanos. caminhamos em linha reta para o Baixo Império. ao contrário. é o último homem antigo capaz de se colocar ante os fatos com a mente porosa e ativa.que adota a vida de um a outro extremo do Império. com alguma razão. Mas o que mais nos interessa em Stuart Mill é sua preocupação pela homogeneidade de má classe que via crescer em todo o Ocidente. Mas o sistema e documento mais terrível desta forma. A língua. que não nos serve para dizer suficientemente o que cada um de nós quiséramos dizer. e salvo os Alexandrinos. sem que o queiramos. Importava-me esclarecer isso para que não se tergiverse a idéia de uma superação européia que este volume postula. um liberalismo que está germinando já. a menos que uma forte barreira de convicção moral não se eleve contra o mal. a pluralidade continental. Também foi aquele um tempo de massa e de pavorosa homogeneidade. clara ou balbuciante. Dentro de cada nação. a condição mais arcana da sociedade que a fala. tanto por meio da força da opinião como pela legislativa. se consolide e se aperfeiçoe é necessário.htm (13 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . que o estóico Possidônio. em Comte. as cabeças se obliteram. fartamente perspicazes. Evitar isso tem sido o secreto acerto da Europa até hoje. num só tipo de homem. ao falhar uma restam outras possibilidades abertas. não farão outra coisa senão repetir. devemos esperar. Ora bem. próximo a florescer. disposto a investigá-los. Contra o que sói acreditar-se tem sido normal na história que o porvir seja profetizado (14). que exista "variedade de situações" (16).

a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente. pelo contrário. O assunto de que aqui se fala é prévio à política e pertence a seu subsolo. porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem. Tingitânia e Dalmácia. E eu o fiz durante toda a minha vida. Há obrigações de trabalhar sobre as questões do tempo. IV Nem este volume nem eu somos políticos. não parecem admirar-se ante o fato de que falassem da mesma maneira países tão díspares como Cartago e Gália. de ensaio e rodeio como a infantil.htm (14 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . imundas e sem rotundidade. como homogeneidade. porém. oposta à do político.uma "corrente" . Mas uma das coisas que agora se dizem . Parece-me simplesmente atroz. como material.A rebelião das massas. só se chega a ele mediante reconstruções. Ser da esquerda é. como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias. ao mesmo tempo. todo o mundo tem de fazer política sensu stricto. a esclarecer um pouco as coisas. o mauritânio e o dácio. testemunho de que uma vez a história agonizou sob o império homogêneo da vulgaridade por haver desaparecido a fértil "variedade de situações". com efeito. Como podiam vir à coincidência o celtibero e o belga. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. consistir em confundi-las mais do que estavam. tranqüilamente. uma língua pueril ou gaga que não permite a fina aresta do raciocínio nem líricas cambiantes. pelo contrário. que conservava a linguagem das classes superiores. é claro. procuro descobrir a realidade vivente de que esse fato é a quieta marca. Que vidas evadidas de si mesmas. Eu. Meu trabalho é obscuro labor subterrâneo de mineiro. desoladas. incluso a custo da claridade mental. Sempre estive na estacada. efetivamente. galicismos. com freqüência baldada. uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas. nulificando suas vidas? O latim vulgar está aí nos arquivos. É uma língua sem luz nem temperatura. como ser da direita. é claro. hispanismos. apesar das distâncias. do escasso intercâmbio. de mecanismo muito fácil. que são talvez. ou por isso mesmo. Os vocábulos parecem velhas moedas de cobre. em boa parte. Um é a incrível simplificação do seu mecanismo gramatical em comparação com o latim clássico. condenadas à eterna cotidianidade se adivinham atrás desse seco artefato lingüístico! O outro caráter aterrador do latim vulgar é precisamente sua homogeneidade. E. latim vulgar e. que tremo quando vejo como o vento fatiga uns caniços. Ademais. pesadamente mecânico. o morador de Hipona e o de Lutécia. sem evidência e sem calor de alma. Hispânia e Rumânia. Dizem-no. A saborosa complexidade indo-européia. A obra intelectual aspira. que sou bastante tímido. não posso reprimir ante esse fato um estremecimento medular. da dificuldade de comunicações e de que não contribuía para fixá-lo uma literatura. gramática balbuciante e perifrástica. que avança às cegas. uma língua triste. sem dúvida. ficou suplantada por uma fala plebéia. Isto. como fartas de rolar pelas tabernas mediterrâneas. senão em virtude de um achatamento geral. Mas ao constar isto quer dizer-se que o torso da língua era comum e idêntico. depois dos aviadores. A missão do chamado "intelectual" é. reduzindo a existência à sua base. enquanto a do político sói.é que. Mas o que se conhece basta e sobra para que nos espantem dois de seus caracteres. Os lingüistas. Consta. que havia africanismos. em certo modo. como um arrepiante empedernimento. já fala de per si. são formas da hemiplegia moral. os homens menos dispostos a assustar-se com coisa alguma. E verdade que trato de me representar como era por dentro isso que olhado de fora nos aparece.

É preciso que o pensamento europeu proporcione sobre todos estes temas nova claridade. a religião. Quando alguém nos pergunta o que somos em política. como verá o leitor. toleram ser corrigidos? Porque. depende toda possibilidade de saúde. ou. a absorção de todas as coisas e de todo o homem pela política. a meu juízo. A política apressa-se a apagar as luzes para que todos estes gatos sejam pardos. é esta: podem as massas. frenética. o Estado. E é preciso que o faça prontamente ou. e por isso é a predicação do politicismo integral uma das técnicas que se usam para socializá-lo. como dizia Dante. studiate il passo Mentre que l'Occidente non s'annera. o direito.enfim. posto que pretenda suplantar o conhecimento. a coletividade. nem de longe. e eu o tentei num livro próximo a aparecer em outros idiomas sob o título El hombre y la gente. (Purg. Os termos com que deve ser levantado não constam na consciência file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. nada parecido. E uma cautela de higiene elemental. as únicas coisas que por sua substância são aptas para ocupar o centro da mente humana -. Como suas últimas palavras fazem constar. vestir o escafandro e descer ao mais profundo do homem. é quando se suscitam as interrogações mais férteis e mais dramáticas: Pode-se reformar este tipo de homem? Quero dizer: os graves defeitos que há nele. a sagesse . nos adscreve simultaneamente em vez de responder devemos perguntar ao impertinente que pensa ele que é o homem e a natureza e a história. XXVII. o uso. tão graves que se não os extirpamos produzirão de modo inexorável a aniquilação do Ocidente. A outra pergunta decisiva. Para falar sobre ele mais seriamente e mais profundamente não haveria mais remédio senão pôr-se em roupa abissal. A política despoja o homem de solidão e intimidade. ainda que quisessem. mas com decisão. é só uma primeira aproximação ao problema do homem atual. Não pode ter dentro mais que política exorbitada. é uma e mesma coisa com o fenômeno de rebelião das massas que aqui se descreve. que é a sociedade e o indivíduo. despertar a vida pessoal? Não cabe desenvolver aqui o tremendo tema. Uma vez que nos afiguramos bem de como é esse tipo humano hoje dominante. A massa em rebeldia perdeu toda a capacidade de religião e de conhecimento. não para fazer o leque do pavão real nas reuniões acadêmicas. os que não têm outra coisa que fazer. Importa fazer isso sem pretensões. 62-63) Isso seria o único de que poderia esperar-se com alguma probabilidade a solução do tremendo problema que as massas atuais aventam. que encontre a saída. fora de si. Mas há muito tempo que aprendi a ficar em guarda quando alguém cita Pascal. da qual. O politicismo integral. porque está demasiado virgem.A rebelião das massas. Para isso está aí. e que eu chamei o homem-massa. se trata precisamente de um homem hermético. Este volume não pretende. que não está aberto de verdade a nenhuma instância superior. antecipando-se com a insolência que pertence ao estilo de nosso tempo. E até o corroboram citando de Pascal o imperativo d'abêtissement.htm (15 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .

inoperante. empalidece e se degrada até parecer retórico e insincero suspiro romântico. não notará que é. mas nulo historiador. como cria o honrado engenheiro. mas dirigir-se em linha reta para um magnânimo solidarismo. porque chocaria com os corpos dos demais. queiramos ou não. faria sua reaparição na Europa o esfomeamento gigantesco do Baixo Império. o tema da "justiça social". Mas. ao mesmo tempo. A grega e a romana sucumbiram nas mãos desta fauna repugnante. Só isto nos levará a atacar o mal nos estratos fundos de onde verdadeiramente se origina. ninguém pode mover um braço ou uma perna por iniciativa própria. obsedante. e até os músculos respiratórios têm de funcionar a ritmo de regulamento. composta de desiderata comuns a todos e verá que para consegui-la tem de solicitá-la ou exigi-la em coletividade com os demais. que vão e vêm por suas ruas ou se concentram em festivais e manifestações políticas. Em uma prisão onde se amontoaram muito mais presos dos que cabem. Herbert Spencer. pelo contrário ressuma só vagas filantropias. que enriqueceu o mundo e a todos no mundo e foi esta riqueza que prolificou tão fabulosamente a planta humana. que fazia Macaulay exclamar: "Em todos os séculos. Mas nem sequer esta cruel imagem é uma solução. Ante o feroz patetismo desta questão que. assim cresce a folga que se concede ao homem para poder ser indivíduo pessoal. este pensamento: Pode hoje um homem de vinte anos formar um projeto de vida que tenha figura individual e que. senão impossível. Mas um homem não é demagogo somente porque se ponha a gritar ante a multidão. Não. mas não creio que exagera a situação efetiva em que se vão achando quase todos os europeus. porque foi o chamado "individualismo". Os demagogos têm sido apenas os grandes estranguladores de civilizações. O desânimo o levará com a facilidade de adaptação própria de sua idade a renunciar não só a todo ato. quase improvável. caminhos que não parecem passar por uma miserável socialização. A coisa é horrível. mediante seus esforços particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem em sua fantasia. que o seriam um pouco mais. orienta sobre os caminhos acertados para conseguir o que dessa "justiça social". está visível. e talvez a estrutura da vida em nossa época impeça superlativamente que o homem possa viver como pessoa. portanto. Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomerações de seres humanos. Restariam muito menos homens. os exemplos mais vis da natureza humana deparam-se entre os demagogos" (17).htm (16 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Nem sequer está esboçado o estudo da distinta margem de individualidade que cada época do passado deixou à existência humana. e o formigueiro sucumbiria como ao sopro de um deus torvo e vingativo. porque até hoje não se condensou nele um sistema enérgico de idéias históricas e sociais. Isso pode ser em ocasiões file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Em tal circunstância. necessitaria realizar-se mediante suas iniciativas independentes. Este último vocábulo é. incorpora-se em mim. Isto seria a Europa convertida em formigueiro. apesar de tão respeitável. Quando os restos desse "individualismo" desaparecessem. A primeira condição para um melhoramento da situação presente é perceber bem sua enorme dificuldade. pública. Daí a ação em massa. como até a todo desejo pessoal e buscará a solução oposta: imaginará para si uma vida standard. Porque é pura inércia mental do "progressismo" supor que conforme avança a história. É. os movimentos têm de se executar em comum. muito difícil salvar uma civilização quando lhe chegou a hora de cair sob o poder dos demagogos. a história está cheia de retrocessos nesta ordem. como a vida do próximo aperta a sua. além do mais. O formigueiro humano é impossível. com efeito. é possível e é justo conseguir. porque não há a sua disposição espaço em que possa alojá-la e em que possa mover-se segundo seu próprio ditame? Logo advertirá que seu projeto tropeça com o próximo.A rebelião das massas.

Por que então? Por que na França? Este é um dos pontos nevrálgicos do destino ocidental e especialmente do destino francês. paradoxalmente. conversei com elas sobre grandes temas humanos. que dulcificaram uma etapa dolorosa e estéril de minha vida. por tradição! É verdade que na França fez-se uma Grande Revolução e várias torvas ou ridículas. e por sua irradiação. são velhas amizades. A demagogia é uma forma de degeneração intelectual. Sobretudo. Isso é o que. Os problemas humanos não são. que como amplo fenômeno da história européia aparece na França em 1750. Graças a isso essa maravilha que é a França chega em más condições à difícil conjuntura do presente. crê a França. antigas incitações ou perenes mestres de minha intimidade. que o método para resolver os grandes problemas humanos é o método da revolução. São problemas de máxima concreção. Malebranche rompe com um amigo seu porque viu sobre sua mesa um Tucídides (21). Mas era natural que me interessasse sobretudo em ouvir uma vez mais a palavra do nosso sumo mestre Descartes. ao grande.A rebelião das massas. do oficial. Ao mesmo tempo tive a honra de receber o encargo de uma enérgica mensagem que esse busto dirige ao outro. seus físicos e seus médicos se equivocaram sempre em seus juízos políticos. Com o pequeno busto de Comte que há em seu departamento da rue Monsieur-le-Prince falei sobre pouvoir spirituel. Não sei se algum dia sairão à luz estas Conversaciones con estatuas. Quando se contempla panoramicamente a vida pública da França durante os últimos cento e cinqüenta anos. por isso é consubstancial às revoluções o fracasso. que está no Quai Conti. entretanto. do de Littré. radica em sua irresponsabilidade ante as idéias mesmas que maneja e que ele não criou. mas recebeu dos verdadeiros criadores. A demagogia essencial do demagogo está dentro de sua mente. Nas revoluções tenta a abstração sublevar-se contra o concreto. salvo as estátuas.htm (17 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . E se ser revolucionário é já coisa grave. se nos atemos à verdade nua dos anais. erigido na praça de Sorbonne. sobre a perigosa idéia do progresso. impelindo minha solidão pelas ruas de Paris. E o único método de pensamento que proporciona alguma probabilidade de acerto em sua manipulação é a "razão histórica". quanto mais sê-lo. a grande depressão moral da história francesa que foram os vinte anos do Segundo Império. Este lugar. Algumas destas. salvo uns dias ou umas semanas. deveu-se bem claramente à extravagância dos revolucionários de 1848 (20). Porque esse país tem ou crê que tem uma tradição revolucionária. como os astronômicos ou os químicos. compreendi que eu não conhecia ninguém na grande cidade. salta à vista que seus geômetras. e que conseguiram ao contrário. Estes meses passados. autoritárias e contra-revolucionárias. cujas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Nelas se raciocina com o marquês de Condorcet. porque são históricos. uma magistratura sacrossanta. a vontade de transformar de chofre tudo e em todos os gêneros (19). chamado Endageest. insuficientemente exercido por mandarins literários e por uma Universidade que ficou completamente excêntrica diante da efetiva vida das nações. Mas o racionalismo físico-matemático tem sido na França demasiado glorioso para que não tiranize a opinião pública. entendendo por tal o que já Leibnitz chamava uma "revolução geral" (18). mas. em maior ou menor escala. acertar seus historiadores. a França tenha vivido mais que outro qualquer povo sob formas políticas. O puro acaso que ciranda minha existência fez que eu redija estas linhas tendo à vista o lugar da Holanda em que habitou em 1642 o novo descobridor da raison. desde então. E como não tinha com quem falar. grande parte dos quais confessou o próprio Raspail que haviam sido antes clientes seus. o homem a quem a Europa mais deve. abstratos. o que encontramos é que essas revoluções serviram principalmente para que durante todo um século. quase todo o continente. e que é o busto do falso Comte.

pelo contrário. Diz-se que há muito a Monarquia inglesa é uma instituição meramente simbólica. tão fundamental que é a definição mesma de sua substância: o direito à continuidade. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. porque cada tigre tem de começar de novo a ser tigre. biológica. Como sempre . física. A Monarquia da Inglaterra exerce uma função determinadíssima e de alta eficácia: a de simbolizar. árvores dão sombra a minha janela. nem administrar a justiça. mas porque têm muito menos memória que nós. que é a "razão histórica" (22). a Monarquia não exerce no Império britânico nenhuma função material e palpável. Köhler e outros mostraram como o chimpanzé e o orangotango não se diferenciam do homem pelo que. violaram sempre. As revoluções tão incontinentes em sua pressa.. Porque. é hoje um manicômio. cheios de gênio. O homem. carente de serviço. seu privilégio e sua marca. Diante de mim está um jornal em que acabo de ler o relato das festas com que a Inglaterra celebrou a coroação do novo rei. como a nurse da Europa. mas isentos de serenidade. O homem não é nunca um primeiro homem: começa desde logo a existir sobre certa altitude de pretérito amontoado. é aspirar a descer e plagiar o orangotango. possui-o e o aproveita. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros. falando rigorosamente. Ao método da revolução opõe o único digno da larga experiência que o europeu atual tem atrás de si. o direito fundamental do homem.. e seu intelecto tem de trabalhar sobre um mínimo material de experiências. acumula seu próprio passado. Por isso Nietzsche define o homem superior como o ser "de memória mais desenvolvida. Por isso o povo inglês. superiores a quanto pudera sonhar-se. querer começar de novo. Seus fabulosos triunfos sobre a natureza. de tudo quanto seja tentar a transformação súbita de uma sociedade e começar de novo a história. deu agora inusitada solenidade ao rito da coroação. espezinhado e esfarrapado.A rebelião das massas. chamamos inteligência. Semelhantemente.htm (18 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . elle est un hommage à tout ce qui le distingue de la bête" (23). Ante a turbulência atual do continente quis afirmar as normas permanentes que regulam sua vida. os continentais. Seu papel não é governar. como se não houvesse outro antes. de proclamar direitos. nunca maduros. Deu-nos mais uma lição. efetivamente.em admoestadora vizinhança . com deliberado propósito. atrás deles. sempre pueris. nem mandar o Exército. mercê de seu poder de recordar. Isso é verdade.já que a Europa sempre pareceu um tropel de povos -. como pretendiam os confusonários do 89.vejo passar os idiotas e os dementes que arejam por momentos à intempérie sua malograda humanidade. o tigre de hoje é idêntico ao de seis mil anos. Este é o tesouro único do homem. a extensa experiência vital decantada gota a gota em milênios. Apraz-me que seja um francês. Três séculos de experiência "racionalista" obrigam-nos a rememorar o esplendor e os limites daquela prodigiosa raison cartesiana. e ao fundo. hipocritamente generosa. sublinham tanto mais seu fracasso ante os assuntos propriamente humanos e convidam a integrá-la em outra razão mais radical. Mas nem por isso é uma instituição vazia. Os pobres animais cada manhã esquecem quase tudo que viveram no dia anterior. que nos permite não cometer os mesmos sempre. Dupont-White. Duas vezes ao dia . a Inglaterra. Esta raison é só matemática. A única diferença radical entre a história humana e a "história natural" é que aquela não pode nunca começar de novo. mas dizendo-o assim deixamos escapar o melhor. Esta nos mostra a vaidade de toda revolução geral." Romper a continuidade com o passado. E a riqueza menor desse tesouro consiste no que dele pareça acertado e digno de conservar-se: o importante é a memória dos erros. que em 1860 se atrevesse a clamar: "La continuité est un droit de l'homme.

o único que pode evitar na marcha das coisas humanas esse aspecto patológico que faz da história uma luta ilustre e perene entre os paralíticos e os epiléticos. sobretudo."convencer-se de que na Europa não há nada interessante" (25). Eu me envergonhava de que os europeus. era-o e o é muito mais a América do Norte do que a América do Sul. V Como nestas páginas se faz a anatomia do homem hoje dominante. Com as festas simbólicas da coroação. E. sustentando que a América. mas ainda parece uma de tantas. continua existindo para ele. Tive então a coragem de me opor a semelhante deslize. Desde um futuro ao qual não chegamos mostra-nos a vigência louçã de seu pretérito (24). e depois penetro um pouco mais em direção a suas vísceras. procedo partindo de seu aspecto externo. Este povo circula por todo o seu tempo. mais uma vez. E isso é ser um povo de homens: poder hoje continuar no seu ontem sem por isso deixar de viver para o futuro. é verdadeiramente senhor de seus séculos. a presenciar seu vetusto cerimonial e a ver como atuam . que conserva em ativa posse. E eis aqui que este povo nos obriga. inventores do mais elevado que até agora se inventou . Isto me obrigou a um duro ascetismo. de sua pele.A rebelião das massas. O inglês faz empenho de nos fazer constar que seu passado. na realidade. mostrassem carecer dele completamente. Violentando-me isolei neste quase-livro. Daí por que sejam os primeiros capítulos os que mais caducaram. inclusive os próprios economistas. já que o presente é só a presença do passado e do porvir.como me dizia uma naquela ocasião . retroceder aos anos 1926-1928.porque não deixaram nunca de ser atuais os mais velhos e mágicos utensílios de sua história. longe de ser o futuro. o lugar onde pretérito e futuro efetivamente existem. ao ler esses capítulos. Este é o povo que sempre chegou antes ao porvir. O leitor deveria. Porque não convém esquecer que então se pensava mui seriamente que os americanos haviam descoberto outra organização da vida que anulava para sempre as perpétuas pragas humanas que são as crises. Mais ainda: a apresentar freqüentemente as coisas em forma que se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O velho lugar comum de que a América é o porvir havia nublado por instantes sua perspicácia. Hoje a coisa vai sendo clara e os Estados Unidos não enviam já ao velho continente senhoritas para .htm (19 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . pensava-se: aí está a América! Era a América da fabulosa prosperity. um remoto passado porque era primitivismo. à abstenção de expressar minhas convicções sobre tudo quanto toco de passagem. com certa impertinência do mais puro dandysmo. um só fator: a caracterização do homem médio que hoje se vai apoderando de tudo. Ainda gozam os luxos da inflação. por assim dizer. também contra o que se crê. a Inglaterra opôs. poder existir no verdadeiro presente. que se antecipou a todos em quase todas as ordens. E. precisamente porque passou. porque lhe passou. ao método revolucionário o método da continuidade. Praticamente deveríamos omitir o quase.o sentido histórico -. do problema total que e para o homem e especialmente para o homem europeu seu imediato porvir. O único do que vai dito nestas páginas que me inspira algum orgulho. As pessoas ainda sentem-se em segurança. a coroa e o cetro que entre nós regem apenas a sorte do baralho. era. A pele do tempo mudou. é não haver incorrido no inconcebível erro de ótica que sofreram então quase todos os europeus. a hispânica. Já começou a crise na Europa.

"Het Witte Huis". Os trens. é o mais importante na vida pública européia da hora presente. mas. JOSE ORTEGA Y GASSET. pois. Oegstgeest-Holanda. por definição. cheios de consumidores. do "cheio". etc. que não é. "poderio social". As praias. senão um ensaio de serenidade em meio à tormenta. Mas eu não devia complicar os assuntos. desde que não sejam muito extemporâneos. era a mais favorável para aclarar o tema exclusivo deste estudo. moral. Há fato mais simples. quer dizer-se que a Europa sofre agora a mais grave crise que a povos. às palavras "rebelião". um significado exclusivo ou primariamente político. como um fator de primeira ordem com que se deve contar. O FATO DAS AGLOMERAÇÕES (26) Há um fato que. começa a sê-lo quase de contínuo: encontrar lugar. Qualquer que seja nossa atitude ante a civilização e a cultura. Dir-se-ia que essas duas coisas .htm (20 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Os hotéis cheios de hóspedes. compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de vestir e o modo de gozar. Medi o homem médio quanto a sua capacidade para continuar a civilização moderna e quanto a sua adesão à cultura. Este fato é o advento das massas ao pleno poderio social. Os passeios. Chama-se a rebelião das massas. o leitor francês esperar mais deste volume. no final das contas. As salas dos médicos famosos. Sua fisionomia e suas conseqüências são conhecidas. para bem ou para mal. a anomalia representada pelo homem-massa. nações. O que antes não era problema. Por isso urgia isolar cruamente seus sintomas. As casas cheias de inquilinos. culturas. era a pior para deixar ver minha opinião sobre estas coisas. Como as massas. Os cafés. cheios de espectadores. mais constante. cheias de enfermos. "massas". religiosa. Esta crise sobreveio mais de uma vez na história. maio.a civilização e a cultura . Talvez a melhor maneira de aproximar-se a este fenômeno histórico consista em referir-nos a uma experiência visual. A verdade é que elas são precisamente o que ponho em questão quase desde meus primeiros estudos. embora fundamental. não devem nem podem dirigir sua própria existência.não são para mim questões. eu a denomino o fato da aglomeração. e nos surpreenderá ver como dele brota um repuxo inesperado. cheias de banhistas. cheios de transeuntes. Não deve. ao mesmo tempo e ainda antes. cabe padecer. onde a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. econômica. mais notório. Para a inteligência do formidável fato convém que se evite dar. Nada mais. PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I. está aí. intelectual. ainda que não de analisar.A rebelião das massas. Basta assinalar uma questão. Simplicíssima de enunciar. 1937. Os espetáculos. A vida pública não é só política. cheios de viajantes. Também se conhece seu nome. desde já. e menos reger a sociedade. sublinhando uma feição de nossa época que é visível com os olhos da cara. As cidades estão cheias de gente. na vida atual? Vamos agora puncionar o corpo trivial desta observação.

A aglomeração. Surpreender-se. e agora transbordam. Seu atributo são os olhos em pasmo. agora adiantou-se até às gambiarras. reservados antes a grupos menores. maravilhar-se. distante. entretanto. não há dúvida. Deste modo se converte o que era meramente quantidade . ela é o personagem principal. se decompõe em todo o seu rico cromatismo interior. leva o intelectual pelo mundo em perpétua embriaguez de visionário. divergente. que houve uma mudança. por massas só nem principalmente "as massas operárias ". Mas quê. Os indivíduos que integram estas multidões preexistiam. Repartidos pelo mundo em pequenos grupos. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. como tal. em definitiva. Cada qual . Já não há protagonistas: só há coro. é a delícia vedada ao futebolista e que. ocupava o fundo do cenário social. no bairro da grande cidade. A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e massas. ou solitários. E evidente. Mas o fato é que antes nenhum destes estabelecimentos e veículos costumavam estar cheios. deste dia. Por toda a parte? Não. por seleto que pretenda ser. passava inadvertida. criação realmente refinada da cultura humana. não. é começar a entender. dissociada. mas que repete em si um tipo genérico. Traduzamo-lo. é o homem enquanto não se diferencia de outros homens. estranhar. não se pode desconhecer que antes não acontecia e agora sim. Aproximadamente. aparecem sob a espécie de aglomeração. fica fora gente afanosa de usufruí-los. pelo visto. E do mesmo modo os assentos o vagão ferroviário e seus quartos o hotel. Massa é "o homem médio". sem alterá-lo. Que é o que vemos e ao vê-lo nos surpreende tanto? Vemos a multidão. ou cheio. do presente. nossa surpresa. Embora o fato seja lógico. na aldeia. à terminologia sociológica. levavam uma vida. se existia. com a primeira nota importante. e nossos olhos vêm por toda a parte multidões. até acaciano. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem abertas. tornou-se visível. natural. Dir-se-á que é o que acontece com todo grupo social. a qual justifica.numa determinação qualitativa: é a qualidade comum. ao contrário. e instalou-se nos lugares preferentes da sociedade. no campo. para que a sala esteja cheia. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pois. possuidora dos locais e utensílios criados pela civilização. Por isso. Não se entenda. Apenas refletimos um pouco. mas não como multidão. idéias. de modo de ser nos indivíduos que a integram. os antigos deram a Minerva a coruja. é o mostrengo social. Então achamos a idéia de massa social.a multidão .htm (21 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . a minorias.A rebelião das massas. A multidão. portanto. uma inovação. Antes. Agora. antes não era freqüente. E o esporte e o luxo específico do intelectual. o mesmo número de pessoas existia há quinze anos. Isso. na vila. de repente. As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. de repente. o pássaro com os olhos sempre deslumbrados. nos surpreendemos de nossa surpresa. não é o ideal? O teatro tem suas localidades para que se ocupem. Depois da guerra pareceria natural que esse número fosse menor. que a formação normal de uma multidão implica a coincidência de desejos. Com efeito. Aqui topamos. talvez o seu. O conceito de multidão é quantitativo e visual. pelo menos no primeiro momento. portanto. precisamente nos lugares melhores. branca luz do dia. Sim. Que ganhamos com esta conversão da quantidade para a qualidade? Muito simples: por meio desta compreendemos a gênese daquela.indivíduo ou pequeno grupo ocupava o lugar. Por que o é agora? Os componentes dessas multidões não surgiram do nada. Por isso sua atitude gremial consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza.

Há casos em que esse caráter singularizador do grupo aparece a céu descoberto: os grupos ingleses que se chamam a si mesmos "não conformistas". bóias que vão à deriva. adverte-se o progressivo triunfo dos pseudo-intelectuais inqualificados. portanto. idéia ou ideal. Nos grupos que se caracterizam por não ser multidão e massa. Isto me lembra que o budismo ortodoxo se compõe de duas religiões distintas: uma. é característico do tempo o predomínio. que por si exclui o grande número. A divisão da sociedade em massas ou minorias excelentes não é. uma divisão em classes sociais. Mas. A rigor. Sua coincidência com os outros que formam a minoria é. da massa e do vulgo. isto é. a um máximo de exigências ou a um mínimo. fingindo ignorar que o homem seleto não é o petulante que se supõe superior aos demais. a massa pode definir-se.no bem ou no mal .ao perguntar de si para si se tem talento para isto ou para aquilo. Claro está que nas superiores. e as que não exigem de si nada especial. inqualificáveis e desclassificados por sua própria contextura. "caminho menor". portanto. mas que para elas viver é ser em cada instante o que já são. que antes file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pois. ou Mahayana . é esta em duas classes de criaturas: as que exigem muito de si e acumulam sobre si mesmas dificuldades e deveres.por razões especiais. Este homem sentir-se-á medíocre e vulgar. não é raro encontrar hoje entre os obreiros. e não pode coincidir com a jerarquização em classes superiores e inferiores. em boa parte uma coincidência em não coincidir.e o Hinayana "pequeno veículo". O mesmo nos grupos sobreviventes da "nobreza" masculina e feminina. Assim. A seu turno. E é indubitável que a divisão mais radical que cabe fazer na humanidade. quando chegam a sê-lo e enquanto o forem de verdade há mais verossimilitude em achar homens que adotam o "grande veículo". Para formar uma minoria. na vida intelectual. ainda nos grupos cuja tradição era seletiva. é preciso que antes cada qual se separe da multidão por razões essenciais. Imagine-se um homem humilde que ao tentar valorizar-se por razões especiais . mas em classes de homens. a velhacaria habitual costuma tergiversar o sentido desta expressão. a agrupação dos que concordam só em sua desconformidade a respeito da multidão ilimitada. dentro de cada classe social há massa e minoria autêntica. relativamente individuais. Massa é todo aquele que não se valoriza a si mesmo . secundário. enquanto as inferiores estão normalmente constituídas por indivíduos sem qualidade.htm (22 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Diante de uma só pessoa podemos saber se é massa ou não. mas não se sentirá "massa". embora não consiga cumprir em sua pessoa essas exigências superiores. Como veremos. sem necessidade de esperar que apareçam os indivíduos em aglomeração. diz graciosamente Mallarmé que aquele público salientava com a presença de sua escassez a ausência multitudinária. outra. como fato psicológico. se sobressai em alguma ordem . O decisivo é se pomos nossa vida num ou no outro veículo.adverte que não possui nenhuma qualidade excelente. mas que se sente "como todo o mundo". Quando se fala de "minorias seletas". mais rigorosa e difícil. a rigor. a coincidência efetiva de seus membros consiste em algum desejo. sente-se à vontade ao sentir-se idêntico aos demais.A rebelião das massas. entretanto. seja qual seja. mais frouxa e trivial. Falando do reduzido público que ouvia um músico refinado."grande veículo" ou "grande carril" . e. que por sua própria essência requer e supõe a qualificação. sem esforço de perfeição em si mesmas. posterior a haver-se cada qual singularizado. Este ingrediente de juntarem-se os menos precisamente para separar-se dos demais vai sempre misturado na formação de toda minoria. e mal dotado. e é. mas o que exige mais de si que os demais. mas há uma diferença essencial. não se angustia.

no final das contas. que nunca se ocupou do assunto. Eu duvido que tenha havido outras épocas da história em que a multidão chegasse a governar tão diretamente como em nosso tempo. pelo menos. por sua vez. por sua mesma natureza. já que têm para isso os apetites e os meios. deplorará que as pessoas gozem hoje em maior medida e número que antes. É falso interpretar as situações novas como se a massa se houvesse cansado da política e encarregasse a pessoas especiais seu exercício. A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. Por exemplo: certos prazeres de caráter artístico e luxuoso. eram sinônimos. não podem ser bem executadas sem dotes também especiais. A massa presumia que. O mesmo acontece nas demais ordens. que. Democracia e Lei. deve pensar que o leitor médio. muito especialmente na intelectual. mas. corre o risco de ser eliminado. Ora bem: existem na sociedade operações. isso era a democracia liberal. almas egregiamente disciplinadas. ao tomar da pena para escrever sobre um tema que estudou intensamente.antecipando o que logo veremos -. Todos eles indicam que esta resolveu avançar para o primeiro plano social e ocupar os locais e usar os utensílios e gozar dos prazeres antes adstritos aos poucos. É evidente que. por exemplo.htm (23 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . suplanta as minorias. nem pode manifestar-se.A rebelião das massas. pelo contrário.qualificadas. as minorias dos políticos entendiam um pouco mais dos problemas públicos que ela. os locais não estavam premeditados para as multidões. individual. podiam valer como o exemplo mais puro disto que chamamos "massa". Por isso falo de hiperdemocracia. Pelo contrário. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa atua diretamente sem lei. só na ordem dos prazeres. funções da ordem mais diversa. Como se diz na América do Norte: ser diferente é indecente. em pretensão -. impondo suas aspirações e seus gostos. sem deixar de sê-lo. mas não uma subversão sociológica. Isso era o que antes acontecia. não se manifesta. Antes eram exercidas estas atividades especiais por minorias qualificadas . conseqüentemente. por meio de pressões materiais. quem não pense como todo o mundo. não é com o fim de aprender algo dele. Se os indivíduos que integram a massa se acreditassem especialmente dotados. e. Conhecia seu papel numa saudável dinâmica social. creio eu. Quem não seja como todo o mundo. Assim . eles nos aparecerão inequivocamente como núncios de uma mudança de atitude na massa. O característico do momento é que a alma vulgar. O mal é que esta decisão tomada pelas massas de assumir as atividades próprias das minorias. teríamos não mais de um caso de erro pessoal. creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. A massa atropela tudo que é diferente. mas que é uma maneira geral do tempo. demonstrando aos olhos e com linguagem visível o fato novo: a massa. para sentenciar sobre ele quando não coincide com as vulgaridades que este leitor tem na cabeça. mas o escritor. tem o denodo de afirmar o direito de vulgaridade e o impõe por toda a parte. qualificado e seleto. a massa crê que tem direito a impor e dar vigor de lei a seus tópicos de café. egrégio. se o lê. com todos os seus defeitos e vícios. atividades. Ao servir a estes princípios o indivíduo obrigava-se a sustentar em si mesmo uma disciplina difícil. Se agora retrocedermos aos fatos enunciados a princípio. especiais. ou bem as funções de governo e de juízo político sobre os assuntos públicos. Agora. A massa não pretendia intervir nelas: percebia-se que se queria intervir teria congruentemente de adquirir esses dotes especiais e deixar de ser massa. que são. convivência legal. Ninguém. posto que sua dimensão seja muito reduzida e o povo transborde constantemente deles. E claro está que esse "todo o mundo" não é "todo o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Talvez cometa eu um erro. sabendo-se vulgar. Ao amparo do princípio liberal e da norma jurídica podiam atuar e viver as minorias.

podemos alegremente ingressar no tema. a unidade complexa de massa e minorias discrepantes. Eu não teria inconveniente em falar sobre o sentido que possui essa vida elegante. Versalhes . mas nosso tema é agora outro de maiores proporções.entende-se esse Versalhes dos trejeitos . Por isso. Se temos de achar algo semelhante. ver por dentro o espetáculo. agora. Ou supunha-se que eu ia contentar-me com essa descrição. aceitavam-na como o tumor aceita o bisturi. a mim. desdenhosas. de quem é notório que sustento uma interpretação da história radicalmente aristocrática (28) É radical. teríamos de insinuar-nos no mundo antigo. é o seu oposto: é a morte e a putrefação de uma magnífica aristocracia. e chegar a sua hora de declinação. teríamos de pular fora de nossa história e submergir-nos em um orbe. já chamamos duas vezes "brutal" a este império. como observou muito bem Spengler. do império das massas que absorvem e anulam as minorias dirigentes e se colocam em seu lugar. A história do Império romano é também a história da subversão. estrela de primeira grandeza no zodíaco da elegância madrilenha. em um elemento vital. edifícios enormes. Como tudo no mundo tem sua virtude e sua missão. muito justamente. mas uma missão muito subalterna e incomparável com a faina hercúlea das autênticas aristocracias. com o bilhete na mão. ademais. porque me disse: "Eu não tolero um file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como um fidalgote de Versalhes.não é aristocracia. de uma absoluta novidade na história de nossa civilização. Vivemos sob o brutal império das massas. descrito sem ocultar a brutalidade de sua aparência. A aristocracia social não se parece nada a esse grupo reduzidíssimo que pretende assumir para si íntegro o nome de "sociedade". Não: a quem sinta a missão profunda das aristocracias. Bem entendido que falo da sociedade e não do Estado.htm (24 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . aconteceu nada semelhante. mas muito mais que isso. um pouco de abominação e outro pouco de repugnância. mundo". também tem as suas dentro do vasto mundo este pequeno "mundo elegante". especiais. foi preciso construir. Por isso. completamente diferente do nosso. Então se produz também o fenômeno da aglomeração. queira ou não. que este fabuloso advento das massas à superfície da história não me inspirava outra coisa senão algumas palavras displicentes. Ninguém pode acreditar que diante deste fabuloso encrespamento da massa. ficaria o leitor pensando. já pagamos nosso tributo ao deus dos tópicos. A ASCENSÃO DO NÍVEL HISTÓRICO Este é o fato formidável do nosso tempo. de verdadeiramente aristocrático só restava naqueles seres a graça digna com que sabiam receber em seu pescoço a visita da guilhotina. que se chama a si mesmo "a sociedade" e que vive simplesmente de convidar-se ou de não convidar-se. Muito me fez meditar certa damazinha em flor. em aparência tão sem sentido. Jamais. A época das massas é a época do colossal (27). o espetáculo da massa o incita e aviva como ao escultor a presença do mármore virgem. toda juventude e atualidade. como se faz agora. Agora todo o mundo é só a massa. normalmente. seja o aristocrático contentar-se com fazer um breve trejeito amaneirado. porque eu não disse nunca que a sociedade humana deva ser aristocrática. Perfeitamente. Eu disse e continuo crendo.A rebelião das massas. mas externa. em todo o seu desenvolvimento. até o ponto de que é sociedade na medida em que seja aristocrática. que a sociedade humana é aristocrática sempre. talvez exata. que é só a fachada. Certamente que essa mesma "sociedade distinta" está de acordo com o tempo. É. cada dia com mais enérgica convicção. por sua própria essência. e deixa de sê-lo na medida em que se desaristocratize. II. do cheio. "Todo o mundo" era. o frontispício sob os quais se apresenta o fato tremendo quando é olhado desde o passado? Se eu deixasse aqui este assunto e estrangulasse meu presente ensaio.

Analisemos a primeira rubrica. um puro teorema e idéia de uns poucos. beatamente. a impô-la e reclamá-la: as minorias melhores. a rigor. o qual tem sempre uma forma equívoca. não já nas legislações. esses poucos começaram a usar praticamente dessa idéia. Repilo. não os exercitava nem fazia valer senão de fato. não fez mais senão acariciar sua mórbida face.htm (25 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . inclusive quando as suas idéias são reacionárias. No nosso. Não obstante. sem estremecer de espanto. mas. não as seguem. Para onde nos leva? É um mal absoluto. durante todo o século XIX a massa. vejam-se as Memórias da comtesse de Boigne. o que é mais importante. certas minorias descobriram que todo indivíduo humano. primeiro. os chamados direitos do homem e do cidadão. Um exemplo trivial: em 1820 não havia em Paris dez quartos de banho em casas particulares. de guilhotina ou de forca mas também com algo que quisera ser um arco triunfal! O fato de que necessitamos submeter a anatomia pode formular-se sob estas duas rubricas: primeira. igualmente. A soberania do indivíduo não qualificado. do indivíduo humano genérico e como tal. baile ao qual tenham sido convidadas menos de oitocentas pessoas". Hoje aquele ideal converteu-se numa realidade. com o que antes parecia reservado exclusivamente às minorias. efetivamente. que se ia entusiasmando com a idéia desses direitos como com um ideal. estes direitos comuns a todos são os únicos existentes. A meu juízo. O "povo" . que são esquemas externos da vida pública. Quem não tenha sentido na mão palpitar o perigo do tempo. depois. de idéia ou ideal jurídico que era. continuava sentindo-se a si mesma como no antigo regime. o "povo" sabia já que era soberano. Através desta frase vi que o estilo das massas triunfa hoje sobre toda a área da vida e se impõe ainda naqueles últimos rincões que pareciam reservados aos happy few. que são seu efeito sobre o homem. porque eram patrimônios de poucos. pois. e sem necessidade de qualificação alguma. instalada sobre nosso tempo como um gigante. as massas exercitam hoje um repertório vital que coincide. No século XVIII. não os sentia em si. não chegou à entranha do destino. as puseram de lado e as suplantam. mas no coração de todo indivíduo. Mais ainda: as massas conhecem e empregam hoje. quaisquer que sejam as suas idéias. mas não acreditava nisso. cósmico sinal de interrogação. indomável e equívoca como todo destino.segundo então era chamado -. pelo mero fato de nascer. Sentem apetites e necessidades que antes se qualificavam de refinamentos. toda interpretação de nosso tempo que não descubra a significação positiva oculta sob o atual império das massas e das que o aceitam. inexoravelmente deixa de ser ideal. não lhes obedecem. Todo outro direito imposto a dotes especiais ficava condenado como privilégio. quer dizer. que são atributos do ideal. muitas das técnicas que antes só os indivíduos especializados manejavam. se volatilizam. Isto foi. as técnicas jurídicas e sociais. Os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o ingrediente terrível é posto pela atropelante e violenta sublevação moral das massas. inclusive quando esmaga e tritura as instituições onde aqueles direitos se sancionam. mas. pelo contrário. sob as legislações democráticas. em grande parte. e que. ou um bem possível? Aí está. O prestígio e a magia autorizante. continuava vivendo. a ser um estado psicológico constitutivo do homem médio. ao mesmo tempo as massas tornaram-se indóceis diante das minorias. quem não entende esta curiosa situação das massas não pode compreender nada do que hoje começa a acontecer no mundo. imponente. com relativa suficiência. segunda. com algo.A rebelião das massas. Todo destino é dramático e trágico em sua profunda dimensão. possuía certos direitos políticos fundamentais. colossal. E não apenas as técnicas materiais. passou. E note-se bem: quando algo que foi ideal se faz ingrediente da realidade. não as respeitam. Quero dizer com ela que as massas gozam dos prazeres e usam os utensílios inventados pelos grupos seletos e que antes só estes usufruíam.

Com isso. Basta ver a energia. na massa. E nova coincidência. mas era o fato nativo. Tanto um como outro. na consciência de igualdade jurídica. é na história o que é o nível do mar na geografia. A Europa não se americanizou. Esse estado psicológico de sentir-se amo e senhor de si e igual a qualquer outro indivíduo. ao subir o nível de sua existência integral. que reclame todos os prazeres. e.depois de largas e subterrâneas preparações. que na Europa só os grupos preeminentes conseguiam adquirir. Por que se queixam os liberais. direitos niveladores da generosa inspiração democrática converteram-se. constitucional. depois de dois file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O soldado do dia. diríamos. que imponha decidido sua vontade. agarra o prazer que passa. desorientados pelo parecido externo. a resolução. Então não estranhe que atue por si. mas não suas conseqüências? Quer-se que o homem médio seja senhor. Pense o leitor. que se negue a toda servidão. os progressistas de há 30 anos? Ou é que. da América. que a vida do homem médio está agora constituída pelo repertório vital que antes caracterizava só as minorias culminantes. a Europa se americanizou e que isto é devido a um influxo da América na Europa. de uma moda.htm (26 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Hoje os achamos residindo no homem médio. é o que desde o século XVIII. Ora bem: o homem médio representa a área sobre que se move a história de cada época. mas não se produziram no próximo passado. ainda mais curiosa! Ao aparecer na Europa esse estado psicológico do homem médio. iniciam-se agora mesmo. a meu juízo. Não era isto que se queria? Que o homem médio se sentisse amo. para ver clara minha intenção. banalizou-se a questão. Há aqui um cúmulo desesperante de idéias falsas que nos estorvam a visão tanto aos americanos como aos europeus. eventualmente. que é muito mais sutil e surpreendente e profunda. o nível médio se acha hoje onde antes só tocavam as aristocracias. numa geração. mas em sua manifestação. que não continue dócil. A galanteria tenta agora subornar-me para que eu diga aos homens de Ultramar que. Mas não: a verdade entra agora em colisão com a galanteria. os democratas.A rebelião das massas. todo o mal do presente e do imediato porvir tem neste ascenso geral do nível histórico sua causa e sua raiz. que componha sua indumentária: são alguns dos atributos perenes que acompanham a consciência de senhorio. de repente -. de aspirações de ideais. em totalidade. e deve triunfar. acontecia na América. o exército humano se compõe já de capitães. o tom e maneiras da vida européia em todas as ordens adquire de repente uma fisionomia que fez muitos dizer: "A Europa está se americanizando". Os que isto diziam não davam ao fenômeno importância maior. praticamente desde sempre. Isso. impõe sua decisão. que cuide de sua pessoa e seus ócios. Julgamos pois. quer dizer-se lisa e lhanamente que o nível da história ascendeu de repente . dono. o atribuíam a não se sabe que influxo da América na Europa. em apetites de supostos inconscientes. pois. A vida humana. Não recebeu ainda influxo grande da América. Mas agora nos ocorre uma advertência impremeditada. de que o presente é broto. que o nível médio da vida seja o das antigas minorias. é um fato novo na história. Todo o bem. senhor de si mesmo e de sua vida? Já está conseguido. Se. acreditavam que se tratava de uma leve mudança nos costumes. Ora bem: o sentido daqueles direitos não era outro senão tirar as almas humanas de sua interna servidão e proclamar dentro delas certa consciência de senhorio e dignidade. o desembaraço com que qualquer indivíduo luta hoje pela existência. ascendeu. com efeito. de um salto. tem muito de capitão. O triunfo das massas e a conseguinte magnífica ascensão de nível vital aconteceu na Europa por razões internas. como os meninos querem uma coisa.

que antes lhe era um enigma e um mistério. um aspecto favorável enquanto significa uma subida de todo o nível histórico. olhada deste lado. se dos Estados europeus. a saber: da vitalidade européia. e por isso. E como o europeu se achava vitalmente mais baixo. eleva-se ontem sobre hoje. a subversão das massas significa um fabuloso aumento de vitalidade e possibilidades. O fundamento era aquela entrevisão de um nível mais elevado na vida média de Ultramar. com maior ou menor claridade.e talvez a frase supradita valha para eles -. que é todo ele chão. tem sempre certa altitude. pois. nivelam-se os sexos. E este é um dado que os americanos não devem esquecer. A ALTURA DOS TEMPOS O império das massas apresenta. aconteceu que pela primeira vez o europeu entende a vida americana. A intuição. nivela-se a cultura entre as diferentes classes sociais. um espanhol médio. mas o tempo vital. digo. Portanto. nunca posta em dúvida. pois. de um influxo. nesta nivelação não fez senão ganhar. Mas a história. Pois bem: também se nivelam os continentes. mas evidente deste fato. procede desta intuição. que esta ou a outra coisa não é própria da altura dos tempos. O que nos faz compreender que a vida pode ter altitudes diferentes. o ímpeto de energia com que se faz tudo. como dizem que as orquídeas se criam sem raízes no ar. a relação em que sua própria vida se encontra com a altura do tempo onde transcorre. o que cada geração chama "nosso tempo". Mas isso é que o resultado coincide com o traço mais decisivo da existência americana. mas do que menos se suspeita ainda: trata-se de uma nivelação. pouco analítica. que seria um refluxo. Há quem se sinta nos modos da existência atual como um náufrago que não consegue sair a flutuar. nutre-se dos vales e não dos cumes. Não se trata. porque coincide a situação moral do homem médio europeu com a do americano. Frase confusa e tosca. se diferenciam menos em tom vital de um ianque ou de um argentino que há trinta anos. de que a América era o porvir. III. deu origem à idéia. que hoje um italiano médio. Compreender-se-á que idéia tão ampla e tão arraigada não podia vir do vento. séculos de educação progressista das multidões e de um paralelo enriquecimento econômico da sociedade. que contrastava com o nível inferior das minorias melhores da América comparadas com as européias. Desde sempre se entrevia obscuramente pelos europeus que o nível médio da vida era mais alto na América que no velho continente. mas quanto à vitalidade. da altitude média social e não das eminências. e que é uma frase cheia de sentido a que sem sentido sói repetir-se quando se fala da altura dos tempos. Dos Estados e da cultura européia diremos algum vocábulo mais adiante . Diz-se. tudo ao contrário. A imagem de cair. embainhada no vocábulo decadência. que seria um pouco estranho. talvez minha afirmação pareça mais convincente e menos inverossímil. e revela que a vida média se move hoje em altura superior à que ontem pisava. Vivemos em tempo de nivelações: nivelam-se as fortunas. da cultura européia ou do que está sob tudo isso e importa infinitamente mais que tudo isto. pois. A velocidade do tempo com que hoje marcham as coisas. ou se mantém a par. por exemplo. como a agricultura. ou cai por baixo. convém desde logo fazer constar que se trata de um erro crasso. pois.htm (27 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . do que ouvimos tão amiúde sobre a decadência da Europa. Do mesmo modo cada qual sente. Com efeito: não o tempo abstrato da cronologia.A rebelião das massas. angustiam o homem de têmpera arcaica. porque ele nos proporciona a maneira de fixar um dos caracteres mais surpreendentes de nossa época. Convém que nos detenhamos neste ponto. sempre aceita. um alemão médio. e esta angústia mede o desnível entre a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. onde não se sabe bem de que se fala. Dita de outro modo.

com efeito. Ao olhar para trás e imaginar esses séculos mais valiosos. mox daturos progeniem vitiosorem. piores que nossos avós. sentiria que não contém em si o grau superior. simplesmente porque passadas. 6. Isso revela que esses homens sentiam o pulso de sua própria vida mais ou menos falto de plenitude. A impressão que Jorge Manrique declara tem sido certamente a mais geral. Qualquer tempo passado foi melhor. É a "plenitude dos tempos". os tempos "clássicos ". de existência mais plenária: a "idade de ouro". dizemos os educados por Grécia e Roma. Por outra parte. nem todas se supuseram superiores a quantas foram e recordam. nos engendraram ainda mais depravados. e nós daremos uma progênie todavia mais incapaz". tem consciência da relação entre a altura de nosso tempo e a altura das diversas idades pretéritas. Por esta razão respeitavam o passado. ao recomendar-lhe que não se perseguissem os cristãos em virtude de denúncias anônimas: Nec nostri saeculi est. e foi necessário alugar para este ofício dálmatas. o mais habitual tem sido que os homens suponham em um vago pretérito tempos melhores. várias épocas na história que se sentiram como chegadas a uma altura plena. Há trinta anos. a completa madureza da vida histórica. como mais baixas de nível que a sua. de diminuição. ficar debaixo deles. em que se cumpre um afã antigo e plenifica uma esperança. (Odes. dizem os selvagens australianos. Dois séculos mais tarde não havia em todo o Império bastantes itálicos medianamente valorosos com os quais preencher as praças de centuriões. bárbaros do Danúbio e do Reno. Vejamos agora outra classe de épocas que gozam de uma impressão vital ao parecer a mais oposta a essa. Livro III. incapaz de encher por completo o canal das veias. tal ou qual desmando. Enquanto isso. mas. que há neste mais calorias que nele mesmo. altura do seu pulso e a altura da época. parecia-lhes não dominá-los. Trata-se de um fenômeno muito curioso que nos importa muito definir. pois. Já Horácio havia cantado: "Nossos pais. definitiva: tempos em que se crê haver chegado ao término de uma viagem. de decair e perder pulso. cresce progressivamente no Império Romano. ao parecer de Jorge Manrique. e me surpreende que não tenham reparado nunca pensadores e historiógrafos em fato tão evidente e substancioso. Qual é essa relação? Fora errôneo supor que sempre o homem de uma época sente as passadas. decaído. dizendo que era imprópria da plenitude dos tempos. como um grau de temperatura. mas antes. e depois.) Aetas parentum peior avis tulit nos nequiores. Desde cento e cinqüenta anos depois de Cristo esta impressão de encolhimento vital. Quando há não mais de trinta anos os políticos peroravam ante as multidões. as mulheres tornaram-se estéreis e a Itália se despovoou. É curioso recordar que a mesma frase aparece empregada por Trajano na sua famosa carta a Plínio.htm (28 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . ao contrário. Houve. se tivesse consciência. acreditava o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mais rico. Cada idade histórica manifesta uma sensação diferente ante esse estranho fenômeno da altura vital. a Alcheringa. quem vive com plenitude e a gosto as formas do presente. Ao contrário. mais perfeito e difícil que a vida de seu tempo. Mas isso tampouco é verdade. Nem todas as idades se sentiram inferiores a algumas do passado.A rebelião das massas. soíam rechaçar esta ou outra medida de governo. À maior parte das épocas não lhes pareceu seu tempo mais elevado que outras idades antigas. Bastaria recordar que. pelo menos se se toma grosso modo. cuja existência se lhes apresentava como algo mais amplo.

último. de contraste penoso entre uma civilização clara e a realidade que não lhe corresponde. de haver escapado. com efeito. esses tempos plenos são também satisfeitos de si mesmos. Por fim chega um dia em que esse velho desejo. às vezes. a esse próximo plenário passado. o essencial para que exista "plenitude dos tempos" é que um desejo antigo. Daí o dado surpreendente de que essas etapas de chamada plenitude tenham sentido sempre no sedimento de si mesmas uma peculiaríssima tristeza. profundo. se denominou a si mesmo "cultura moderna". quer dizer. é que já não deseja nada mais. para sempre cristalizados. de outros tempos sem plenitude. aqueles períodos preparatórios aparecem como se neles se houvessem vivido de puro afã e ilusão não lograda. de ardentes precursores. não se sente já definitivo. na posse. sofrerá o espelhismo de sentir a idade presente como um cair desde a plenitude.htm (29 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . sobre os quais vai montada esta hora bem granosa. A fé na cultura moderna era triste: era saber que amanhã ia ser file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Um tempo que satisfez seu desejo. seu ideal. como morre o zângão afortunado depois do vôo nupcial (30).fosse definitivo. modestas preparações e aspirações para ele! Setas sem brio que erram o alvo! (31). resumindo. por fim um dia fica satisfeito. e o olhe todo sob sua ótica. onde tudo. Já o nome é inquietante: que um tempo se chame a si mesmo "moderno". Segundo eu disse. irremediavelmente. como uma decadência. na chegada. diante do qual todos os demais são puros pretéritos. empedernido tomador de pulso de tempos. A autêntica plenitude vital não consiste na satisfação.A rebelião das massas. o que teria já que ser sempre. Chegamos à altura entrevista. tudo é possível: o melhor e o pior. terrível. Não se sonda já aqui a diferença essencial entre nosso tempo e esse que acaba de preterir. às vezes milenário. de transpor? Nosso tempo. parece cumprir-se. Já dizia Cervantes que "o caminho é sempre melhor que a pousada". em sua raiz mesma encontra obscuramente a intuição de que não há tempos definitivos. à meta antecipada. Esta era a sensação que de sua própria vida tinham os nossos pais e toda a sua centúria. o qual se vinha arrastando aneloso e querulante durante séculos. não se pode deixar alucinar por essa ótica da suposta plenitude. e sair de novo sob as estrelas ao mundo autêntico. estão mortos por dentro. inferiores ao próprio. como no século XIX. Daí que. imprevisível e inesgotável. E. o que desde muitas gerações se vinha anelando que fosse. que a famosa plenitude é em realidade uma conclusão. que se lhe secou a fonte do desejar. quem continua adscrito à outra margem. tempos de só desejo insatisfeito. Há séculos que por não saber renovar seus desejos morre de satisfação. Não se esqueça disto: nosso tempo é um tempo que vem depois de um tempo de plenitude. Os tempos de plenitude se sentem sempre como resultante de muitas outras idades preparatórias. é o que. Mas agora compreendemos que esses séculos tão satisfeitos. a realidade o recolhe e lhe obedece. tão fruídos. europeu que a vida humana havia chegado a ser o que devia ser.o chamado "cultura moderna" . definitivo. Mas um velho afeiçoado à história. ao contrário. arquisatisfeitos (29). seguros. e que no século XIX parece finalmente realizar-se. ao cume do tempo! Ao "ainda não" sucedeu o "por fim". parece-nos uma obcecação e estreiteza inverossímeis do campo visual. O desejo tão lentamente gestado. Isto é. Vistos de sua altura. com efeito. E ao sentir assim percebemos uma deliciosa impressão de nos havermos evadido de um recinto estreito e hermético. Assim vê a Idade Média o século XIX. mas que pelo contrário essa pretensão de que um tempo de vida . de "ainda não".

contemplá-la de dentro e ver se ela se sente a si mesma decaída. o provinciano sensível percebia uma melancolia não menos penosa.htm (30 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . fiéis a uma ideologia. embora olhada por dentro de si mesma. elástica. se alarga sem nos libertar. ao qual falta. mas sim irmã da que inquieta o mar. sobre cujos ombros acreditava estar. esse século XIX ficava. Pois acontece que precisamente o nosso goza neste ponto de uma sensação estranhíssima. símbolo de poder definitivo. Não há mais que um ponto de vista justificado e natural: instalar-se nessa vida. Já nada novo podia haver no mundo. um conceito comparativo. não é evidente que a sensação de nossa época se parece mais à alegria e alvoroço de meninos que escaparam da escola? Agora já não sabemos o que vai haver amanhã no mundo. Toda a minha excursão sobre o problema da altitude dos tempos perseguia esta conclusão. que se levanta delas como a evaporação das águas mortas. o mundo está em decadência porque já não se fuma apenas com boquilhas de âmbar. ser um horizonte sempre aberto a toda possibilidade. que o progresso consistia só em avançar com todos os sempres sobre um caminho idêntico ao que já estava sob nossos pés. sua outra metade. fecunda a fera. Trata-se de um erro ótico que provém de múltiplas causas. Diante dos diagnósticos de decadência eu recomendo o seguinte raciocínio: A decadência é. como a culminação do passado. a rigor. ligado ao passado. claro está. mas. E é que. minguada. única até agora na história conhecida. E se há uma melancolia das ruínas. que a realidade histórica é.Lucano. não deixam de ser parciais. Diante desse estado emotivo. Um caminho assim é a bem dizer uma prisão que. com o queixume de decadência que choraminga nas páginas de tantos contemporâneos. é a verdadeira plenitude da vida. ou Sêneca . não a mesma. Quando nos começos do Império algum fino provinciano chegava a Roma . não natural. Outro dia veremos algumas. não pode em nenhum sentido sério chamar-se decadente. porque isso. faz tremeluzir a estrela. ainda que de signo inverso: a melancolia dos edifícios eternos. encarnando a figura de sua própria vida. como se conhece que uma vida se sente ou não decair? Para mim não cabe dúvida a respeito do sintoma decisivo: uma vida que não prefere outra nenhuma de antes. portanto.A rebelião das massas. uma potência parecida às cósmicas. em todo o essencial igual a hoje. ser imprevisível. se dedicava a vagar imaginavelmente pelas vias históricas em busca de um tempo onde encaixar a gosto o perfil de sua existência. Mas. Nos salões do último século chegava indefectivelmente uma hora em que as damas e seus poetas amestrados faziam entre si esta pergunta: Em que época quisera você haver vivido? E eis aqui que cada um. Outros pontos de vista serão mais respeitáveis que este. mas hoje quero antecipar a mais óbvia: provém de que. que se prefere a si mesma. com efeito. Roma era eterna. de nenhum antes. Daí que ainda acreditasse em épocas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sentia contrair-se seu coração. é certo. com efeito. que eu saiba. embora sentindo-se. olham da história só a política ou a cultura. Contrasta este diagnóstico. põe flor na árvore. Para um fabricante de boquilhas de âmbar. e isso secretamente nos regozija.e via as majestosas construções imperiais. via-se. Decai-se de um estado superior para um estado inferior. isto é. portanto. antes que isso e mais fundo que isso. um puro afã de viver. é a vida autêntica. por exemplo. em minha opinião perigosa. e não advertem que tudo isso é só a superfície da história. ou por sentir-se em plenitude. arbitrários e externos à própria vida cujos quilates se trata precisamente de avaliar. Ora bem: essa comparação pode fazer-se desde os pontos de vista mais diferentes e vários que caiba imaginar. debilitada e insípida.

mais ou menos confusa. que o mundo. lhe daria a impressão de um recinto angustioso onde não podia respirar. os sevilhanos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. IV. em pleno atualismo . a altura de nosso tempo? Não é plenitude dos tempos. A vida mundializou-se efetivamente. parece. Que expressão escolheremos? Talvez esta: mais que os demais tempos e inferior a si mesma. Daí que pela primeira vez nos encontremos com uma época que faz tábua rasa de todo classicismo. as pautas não nos servem. Há pouco mais de um ano. entretanto. sente-se sobre todos os tempos sidos e por cima de todas as conhecidas plenitudes. E o que acontece sempre que chega o meio-dia (32) Qual é. que o passado íntegro ficou pequeno para a humanidade atual. O resto do espírito tradicional evaporou-se. mas completamente. Este fato é quase grotesco e incrível em sua simples evidência. sem estar segura de não ser agonia. simplesmente. as normas.A rebelião das massas. levam a cara voltada para trás. e sobrevinda ao cabo de tantos séculos sem descontinuidade de evolução.htm (31 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . um começo. que o homem do presente sente que sua vida é mais vida que todas as antigas. que cada indivíduo vive habitualmente todo o mundo. perdeu sua sombra. É. o Renascimento -. Pois bem: que diria sinceramente qualquer homem representativo do presente a quem se fizesse uma pergunta parecida? Eu creio que não é duvidoso: qualquer passado. de atitudes vãs . não são por sua vez mais que sintoma de um fato mais completo e geral. e entretanto. Sentimos que de repente ficamos sós sobre a terra os homens atuais. perdeu todo o respeito. em resumo. provincial. que engendra a inquietude peculiar da vida nestes anos. Isto bastaria para nos fazer suspeitar dos tempos de plenitude. sem mortos viventes perto de si.por que não dizê-lo? -. há tempos. uma iniciação. de maior tamanho que todas as vidas. como Pedro Schlehmil. cresceu. uma alvorada. de ciência ou de política -. uma infância. e com ele e nele. sem excluir nenhum. Como poderá sentir-se decadente? Pelo contrário: o que aconteceu é que. Orgulhosa de suas forças e ao mesmo tempo temendo-as. ou dito às avessas.o século de Péricles. olham o passado que neles se cumpre. que os mortos não morreram de brincadeira. O CRESCIMENTO DA VIDA O império das massas e o ascenso de nível. Fortíssima e ao mesmo tempo insegura de seu destino. relativamente clássicas . toda a atenção ao passado. a altitude do tempo que ele anuncia. não obstante. que já não nos podem ajudar. a vida. Os modelos. tal situação na forma seguinte: "Esta grave dissociação de pretérito e presente é o fato geral de nossa época e nela vai incluída a suspeita. quero dizer que o conteúdo da vida no homem de tipo médio é hoje todo o planeta.sejam de arte. Não é fácil formular a impressão que de si mesma tem nossa época: crê ser mais que as demais. que não reconhece em nada pretérito possível modelo ou norma. de mau gosto. onde se haviam preparado os valores vigentes. Isto é. de tanto sentir-se mais vida. Esta intuição de nossa vida de hoje anula com sua claridade elemental toda lucubração sobre decadência que não seja muito cautelosa. O europeu está só. Olhamos para trás e o famoso Renascimento nos parece um tempo angustiosíssimo. e ao mesmo tempo sente-se como um começo. Nossa vida sente-se. Eu resumia. Temos de resolver nossos problemas sem colaboração ativa do passado. de repente.

O espaço e o tempo físicos são o absolutamente estúpido do universo. E o mundo cresceu também temporalmente.A rebelião das massas. Por isso é mais justificado do que sói crer-se o culto à velocidade que transitoriamente exercitam nossos contemporâneos. desfazer. Não é fácil imaginar com o desejo um objeto que não exista no mercado. tentar. gozar ou repelir. mas em que inclua mais coisas. consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra como tais. esta presença do ausente. careceria de sentido chamá-la assim. em definitivo. vivificamo-los. em seu modo "comprar". com a qual matamos espaço e jugulamos tempo. mas é também antes uma eleição. que carecem por completo de sentido. Cada coisa . A diferença é quase fabulosa. Civilizações inteiras e impérios dos quais nem o nome se suspeitava. acompanhavam. que possuam fortuna igual. mas serve para anular aqueles. O fato é falso. em seus jornais populares. foram anexados a nossa memória como novos continentes. A atividade de comprar conclui em decidir-se por um objeto. e compare-se o repertório de coisas em venda que se oferece a um e a outro. com fortuna proporcionalmente igual. aumentou em proporção fabulosa o horizonte de cada vida. e a eleição começa por perceber as possibilidades que oferece o mercado. comprar. consumir em menos tempo vital mais tempo cósmico. O jornal ilustrado e o cinema trouxeram estes remotíssimos pedaços de mundo à visão imediata do vulgo.tome-se a palavra em seu mais amplo sentido . Ao anulá-los. A velocidade feita de espaço e tempo não é menos estúpida que seus ingredientes. Uma estupidez não se pode dominar a não ser com outra. quero dizer. o que estava acontecendo com uns homens junto ao Pólo. reconheceremos hoje a qualquer ponto do globo a mais efetiva ubiqüidade. Imaginem-se dois homens. que me parece essencialíssimo: nossa vida é em todo instante e antes que nada consciência do que nos é possível. tornamos possível ser o aproveitamento vital. A quantidade de possibilidades que se abrem ante o comprador atual chega a ser praticamente ilimitada. gozar de mais idas e mais vindas. Seria apenas pura necessidade. Tome-se qualquer uma de nossas atividades. nomes todos que significam atividades vitais. Mas. o crescimento substantivo do mundo não consiste em suas maiores dimensões. podemos estar em mais lugares que antes. Esta proximidade do longínquo. por exemplo. porque a indústria barateou quase todos os artigos. Hoje podem comprar-se muitas mais. Cada pedaço de terra não está já recluído em seu lugar geométrico. fazer.htm (32 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . o homem de hoje não poderá comprar mais coisas que o do século XVIII. que sobre o fundo ardente da campina bética passavam blocos de gelo à deriva. Segundo o princípio físico de que as coisas estão ali onde atuam. hora a hora. De onde resulta que a vida. e vice-versa: não é possível que um homem imagine e deseje quanto se acha à venda. proporcionalmente ao valor do dinheiro em ambas as épocas. Se em cada momento não tivéssemos à nossa frente mais que uma só possibilidade. um do presente e outro do século XVIII. A pré-história e a arqueologia descobriram âmbitos históricos de longitude quimérica.é algo que se pode desejar. Mas este aumento espácio-temporal do mundo não significaria por si nada. Era para o homem questão de honra triunfar no espaço e no tempo cósmicos (33). Mas finalmente não me importaria que o fato fosse certo. encontrar. mas para muitos efeitos vitais atua nos demais pontos do planeta. Mas ai está: esse estranhíssimo fato de nossa vida possui a condição radical de que sempre encontra ante si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Dir-me-ão que. pelo contrário. e não há razão para estranhar de que nos produza um pueril prazer fazer funcionar a vazia velocidade. sublinharia mais o que tento dizer. Quando se fala de nossa vida sói esquecer-se disto.

mas apenas de seu crescimento. que por serem várias adquirem o caráter de possibilidades entre as quais havemos de decidir (34). ou. Tudo isso decanta em sua mente a impressão de fabulosa prepotência. caçador.pastor. mas ao crescimento das potências subjetivas que tudo isso supõe. algo à parte e alheio a nossa vida. Mundo é o repertório de nossas possibilidades vitais. Entretanto. Na ordem intelectual encontra mais caminho de possível ideação. pois.e o fenômeno tem mais gravidade do que se supõe . Toda vida é achar-se dentro da "circunstância" ou mundo (35). que a antiga física de Newton ocupa neles apenas um sótão (36) E este crescimento extensivo se deve a um crescimento intensivo na precisão científica. mais ciências. de seu avanço quantitativo ou potencial. várias saídas. mais dados. Enquanto os ofícios ou carreiras na vida primitiva se numeram quase com os dedos de u'a mão . se bem . o programa de misteres possíveis hoje é superlativamente grande.isso não me interessa agora -. Não falei da atualidade da vida presente. do mesmo modo que o campeão de boxe dá hoje murros de maior calibre que jamais se deram. Porque este é o sentido originário da idéia (mundo). guerreiro.htm (33 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . enfim. chegamos a ser só uma parte mínima do que podemos ser. para o homem de vida média que habita as urbes . no que vai de século. E em tudo isto não me refiro ao que possa significar como perfeição da cultura . A este âmbito costuma chamar-se "as circunstâncias". Representa o que podemos ser. Aumentou também em um sentido mais imediato e misterioso. Tanto vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos em um ambiente de possibilidades determinadas. Porque coisa similar acontece na ciência. Esta tem de se concretizar para realizar-se. Mas o crescimento da potencialidade vital não se reduz ao dito até aqui. O mundo ou nossa vida possível é sempre mais que nosso destino ou vida efetiva.A rebelião das massas. Não ressalto que a física de Einstein seja mais exata que a de Newton. Mas agora importa-me só fazer notar como cresceu a vida do homem na dimensão de potencialidade. Daí que nos parece o mundo uma coisa tão enorme. e nós. nossa potencialidade vital. O átomo.e as urbes são a representação da existência atual -. mas que o homem Einstein seja capaz de maior exatidão e liberdade de espírito (37) que o homem Newton. portanto. Conta com um âmbito de possibilidade fabulosamente maior que nunca. Nos prazeres acontece coisa parecida. mago -. dentro dele. os jornais e as conversações lhe fazem chegar a notícia destas performances intelectuais que os aparelhos técnicos recém-inventados confirmam desde as vitrinas. Não basta admirar cada uma delas e reconhecer o record que batem. limite ontem do mundo. seu tom vital que consiste em sentir-se com maior potencialidade que nunca e parecer-lhe todo o pretérito afetado de pequenez. Creio com isso descrever rigorosamente a consciência do homem atual. as possibilidades de gozar aumentaram. A física de Einstein move-se em espaços tão vastos.não é seu elenco tão exuberante como nos demais aspectos da vida. mas advertir a impressão de que o organismo humano possui em nosso tempo capacidades superiores às que nunca teve. mais pontos de vista. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. uma coisa tão pequena. mais problemas. É um fato constante e notório que no esforço físico e esportivo se cumpram hoje performances que superam enormemente quantas se conhecem do passado. A física de Einstein está feita atendendo às mínimas diferenças que antes se desprezavam e não entravam em conta por parecer sem importância. mas que é sua autêntica periferia. esta ampliou e inverossimilmente seu horizonte cósmico. de uma maneira fantástica. Em um par de lustros tão somente. hoje inchou até se converter em todo um sistema planetário. Não quero dizer com o dito que a vida humana seja hoje melhor que em outros tempos. Como o cinematógrafo e a ilustração põem ante os olhos do homem médio os lugares mais remotos do planeta. dito de outra maneira. Não é.

de antigas e deslumbrantes idades de ouro. e esta só existe quando se sente. benéfico que pela primeira vez depois de quase três séculos nos surpreendamos com a consciência de não saber o que vai acontecer amanhã. de tanto nos parecer tudo possível. a decadência (38). Muitas coisas pareciam já impossíveis ao século XIX. Se se sentisse decaído. que parece imperar um maior silêncio ao silêncio noturno.que tinha todos os talentos. mais ainda: por desentender-se de todo pretérito. o mundo atual vai como o mais infeliz que tenha havido: puramente ao acaso. mais técnicas que nunca. recusamos tomar essa pulsação pavorosa que faz de cada instante sincero um miúdo coração transeunte. Acontece-lhe como se dizia do Regente durante a infância de Luiz XV .todos os clorofórmios . sobre decadência ocidental que pulularam no ar do último decênio. mas não é dono de si mesmo. inversamente. Nosso tempo teria ideais claros e firmes. para poder ouvir a secreta germinação do futuro. não reconhecer épocas clássicas e normativas. e. menos o talento para usar deles. Duvido que sem se afiançar bem nesta advertência se possa entender o nosso tempo.cultura e nações -. A atitude que a ordenança romana impunha à sentinela da legião era manter o indicador sobre os lábios para evitar a sonolência e manter-se atenta. Geralmente. em espécie. Refere-se o pessimista vocábulo à cultura? Há uma decadência da cultura européia? Há somente uma decadência das organizações nacionais européias? Suponhamos que sim. Não vale falar de decadência sem precisar que é o que decai. Mas a verdade é estritamente o contrário: vivemos em um tempo que se sente fabulosamente capaz para realizar. firme em sua fé progressista. Só há uma decadência absoluta: a que consiste numa vitalidade minguante. esforçando-nos por ganhar segurança e insensibilizar-nos para o dramatismo radical do nosso destino.htm (34 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Bastaria isso para falar da decadência ocidental? De modo algum. vertendo sobre ele o costume.É. Daí essa estranha dualidade de prepotência e insegurança que se aninha na alma contemporânea. Porque são estas decadências diminuições parciais. com a inquietude a um tempo dolorosa e deliciosa que vai encerrada em cada minuto se sabemos vivê-lo até o seu centro. Todo aquele que se coloque ante a existência numa atitude séria e se faça dela plenamente responsável. Isto nos leva a falar da "plenitude" que sentiram alguns séculos diante de outros que. ainda que fosse incapaz de realizá-los. Sente-se perdido em sua própria abundância. veria outras épocas como superiores a ele e isto seria uma e mesma coisa com estimá-las e admirá-las e venerar os princípios que as informaram. Era necessária esta descrição para obviar as lucubrações sobre decadência. a barbárie.A rebelião das massas. Por esta razão me detive a considerar um fenômeno que sói desatender-se: a consciência ou sensação que toda época tem de sua altitude vital.. Não está mal esse ademane. relativas a elementos secundários da história . Por si mesmo não seria isto um mau sintoma: significaria que voltamos a tomar contato com a insegurança essencial a todo viver. mais saber. até sua pequena víscera palpitante e cruenta. o tópico . sentirá certo gênero de insegurança que o incita a permanecer alerta. pois. Domina todas as coisas. E concluía eu fazendo notar o fato evidentíssimo de que nosso tempo se caracteriza por uma estranha presunção de ser mais que todo o tempo passado. o uso. Porque esse é precisamente seu problema. A segurança das épocas de plenitude - file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e que me parece tão simples como evidente. senão ver-se a si mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a elas. pressentimos que é possível o pior: o retrocesso. Com mais meios. Hoje. se viam a si mesmos como decaídos de maiores alturas. Recorde-se o raciocínio que eu fazia. mas que não sabe o que realizar.

consiste em todo o contrário. sem desvios nem retrocessos. falso dizer que na vida "decidem as circunstâncias ". mais perigosa. Tudo isto vale também para a vida coletiva. A circunstância . convencido de que não tem surpresa nem segredos. É. A vida.. antes de tudo. A vida não elege seu mundo. e por isso mesmo. Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. superior a todas as historicamente conhecidas. é magnífica. Ninguém se preocupou de preveni-los. convém que nos deslizemos por sua outra ladeira. decidimos não decidir. cuja trajetória está absolutamente predeterminada. V. vida possível. normas e ideais legados pela tradição. É mais vida que todas as vidas. e hoje anda solta. nos força. a vida se lhes escapou dentre as mãos. supõem que o desejado por eles como futuro ótimo se realizará. que pode resumir-se assim: nossa vida. Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil. perderam a agilidade e a eficácia. como repertório de possibilidades. Mas quem decide é o nosso caráter. que é.as possibilidades . Protegidos ante sua própria consciência por essa idéia.. Não poderá estranhar que hoje o mundo pareça vazio de projetos. sempre novo. de nossa vida atual. imediatamente.htm (35 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . certo de que já o mundo irá em linha reta. Assim. soltaram o leme da história. UM DADO ESTATÍSTICO Este ensaio quisera vislumbrar o diagnóstico de nosso tempo. retrai sua inquietude do porvir e se instala num definitivo presente.o mundo é sempre este. exuberante. Depois de haver insistido na vertente favorável que apresenta o triunfo das massas. este de agora . impõe-nos várias e. Mas já é tempo de que voltemos a falar desta. peripécias nem inovações essenciais. Mas agora é preciso completar o diagnóstico. Sob sua máscara de generoso futurismo. Tal tem sido a deserção das minorias dirigentes. em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. o progressista não se preocupa do futuro. e por isso mesmo mais problemática. a eleger. Tem de inventar seu próprio destino. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão. primeiro. Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema. Isso constitui o que chamamos o mundo. antecipações e ideais. o que podemos ser. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo . deixaram de estar alerta. assim na última centúria . sem rumo conhecido. princípios. que se acha sempre ao reverso da rebelião das massas. fez-se por completo insubmissa. consequentemente. transbordou todos os caminhos. encarregando de sua direção a mecânica do universo. Não pode orientar-se no pretérito (39).é o que de nossa vida nos é dado e imposto. um horizonte de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O mesmo que o liberalismo progressista é o socialismo de Marx. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir. mas viver é encontrar-se. com necessidade parelha à astronômica. Em vez de impor-nos uma trajetória. a decidir o que vamos ser neste mundo. Também nela há. Vai enunciada a primeira parte dele. pois. decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. Mas assim como seu formato é maior.A rebelião das massas.é uma ilusão ótica que leva a despreocupar-se do porvir. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. inexoravelmente. ante o qual temos de nos decidir. é também.

Quer dizer. não significa um anúncio claro de futuro. Bastaria.A rebelião das massas. o Poder público. entretanto. O homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e caminha ao acaso.htm (36 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . põe na pista de todo esclarecimento. sejam enormes. depois. Se se observa a vida pública dos países onde o triunfo das massas avançou mais . não por cálculos do futuro. Este simplicíssimo dado basta por si só para esclarecer nossa visão da Europa atual. não a resolvê-lo. uma resolução que elege e decide o modo efetivo da existência coletiva. Em três gerações produziram gigantescamente massa humana que. Estas são tão poderosas. O fenômeno é sobremaneira estranho. fecha-se no presente e diz com perfeita sinceridade: "Sou um modo anormal de governo que é imposto pelas circunstâncias". Não se diga que isto era o que acontecia já na época da democracia.portanto. em pouco mais de um século. e. Daí que sua atuação se reduza a evitar o conflito de cada hora. Os programas eram. a Europa não consegue chegar a outra cifra de povoação senão a de 180 milhões de habitantes. a rigor. que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que aniquilaram toda possível oposição. deve ser acrescido como o somando mais concreto ao crescimento da vida como antes fiz constar. ainda à custa de acumular com seu emprego maiores conflitos sobre a hora próxima. empregando os meios que sejam. trajetória antecipada. com efeito. nos perguntamos: de onde vieram todas estas multidões que agora enchem e transbordam o cenário histórico? Há alguns anos destacava o grande economista Werner Sombart um dado simplicíssimo. Não sabe aonde vai porque. em toda a longitude de doze séculos -. e se não basta. que seria difícil encontrar na história situações de governo tão prepotentes como estas.são os países mediterrâneos -. ou. No sufrágio universal não decidem as massas. Em suma. Por outra parte. programas de vida coletiva. o que é o mesmo. seus poderes. A chave para esta análise encontra-se quando. E. Pois bem: de 1800 a 1914 . domina o homem-massa. pois. vive ao dia. Neles convidava-se a massa a aceitar um projeto de decisão. São donas do Poder público em forma tão incontrastável e superlativa. Em nosso tempo. Convém. do sufrágio universal. este dado para compreender o triunfo das massas e quanto nele se reflete e se anuncia. O Poder público acha-se em mãos de um representante de massas. retrocedendo ao começo deste ensaio. O dado é o seguinte: desde que no século VI começa a história européia até o ano 1800 portanto. E este tipo de homem decide em nosso tempo.excelente vocábulo -. senão. possibilidades. mas a escapar dele imediatamente. Estas apresentavam seus "programas" . Mas ao mesmo tempo nos mostra esse dado que é infundada a admiração com que ressaltamos o crescimento de países novos como os Estados Unidos da América. senão que seu papel consistiu em aderir à decisão de uma ou outra minoria. não alude para nada ao futuro. Maravilha-nos seu crescimento. é ele quem decide. Por isso não constrói nada. que analisemos seu caráter. pelo contrário. não se apresenta como um porvir franco. Assim tem sido sempre o Poder público quando o exerceram diretamente as massas: onipotente e efêmero. pela urgência do presente. que é estranho não conste em toda cabeça que se preocupe dos assuntos contemporâneos. não aparece como começo de algo cujo desenvolvimento ou evolução seja imaginável. Esta resolução emana do caráter que a sociedade tenha. lançada como uma torrente sobre a área histórica. a inundou. o Governo. ainda que suas possibilidades. não vai. surpreende notar que neles se vive politicamente ao dia. não tem caminho prefixado. a população européia ascende de 180 a 460 milhões! Presumo que o contraste destas cifras não deixa lugar a dúvidas a respeito dos dotes prolíficos da última centúria. repito. do tipo de homem dominante nela. vive sem programa de vida. sem projeto. Quando esse poder público tenta justificar-se. Hoje acontece uma coisa muito diferente.

ao século passado a glória e a responsabilidade de haver soltado sobre a face da história as grandes multidões. se não preferirmos ser dementes. mas não sensibilidade para os grandes deveres históricos. E. Daí que às vezes produza a impressão de um homem primitivo surgido inesperadamente em meio a uma velhíssima civilização. Nas escolas que tanto orgulhavam o passado século. Mas ainda que não seja tão conhecido como devera o dado calculado por Werner Sombart.htm (37 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . num século chegou a 100 milhões de homens. Nem sequer o traço que pudera aparecer mais evidente para caracterizar a América . Eis aqui outra razão para corrigir o espelhismo que supõe uma americanização da Europa. porém muito mais simples. bastarão trinta anos para que nosso continente retroceda à barbárie. democracia liberal e técnica. Corresponde. que não era fácil saturá-los da cultura tradicional. As técnicas jurídicas e materiais se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A América está feita com a sobra da Europa.a velocidade de aumento em sua povoação lhe é peculiar. o aumento de população o que nas cifras transcritas me interessa. terceira. que a democracia liberal fundada na criação técnica é o tipo superior de vida pública até agora conhecido. certas constitutivas insuficiências quando engendrou uma casta de homens . Se é evidente que havia nele algo extraordinário e incomparável. A Europa cresceu no século passado muito mais que a América. sem problemas tradicionais e complexos. Fato tão exuberante força-nos. Esta é a que agora nos importa. pois. a tirar estas conseqüências: primeira. devia haver nela quando na sua atmosfera se produzem tais colheitas de fruto humano. quando o maravilhoso é a proliferação da Europa. é preciso revolver-se contra o século XIX. num só século. que esse tipo de vida não será o melhor imaginável. que é suicida todo retorno a formas de vida inferiores à do século XIX. inoculou-se-lhes atropeladamente o orgulho e o poder dos meios modernos. pois. e as novas gerações dispõem-se a tomar o comando do mundo como se o mundo fosse um paraíso sem rastros antigos. triplicasse a espécie européia. não se pode fazer outra coisa senão ensinar às massas as técnicas da vida moderna. Se esse tipo humano continua dono da Europa e é definitivamente quem decide. não o é menos que deveu padecer certos vícios radicais. o tipo médio do atual homem europeu possui uma alma mais sã e mais forte que as do passado século. Aparece a história inteira como um gigantesco laboratório onde se fizeram os ensaios imagináveis para obter uma fórmula de vida pública que favorecesse a planta "homem". Por isto não querem nada com o espírito.os homens-massa rebeldes .que põem em perigo iminente os princípios mesmos a que deveram a vida. mas não o espírito. era de sobra notório o fato confuso de haver aumentado consideravelmente a povoação européia para insistir nele. Deram-se-lhe instrumentos para viver intensamente. encontramo-nos com a experiência de que ao submeter a semente humana ao tratamento destes dois princípios. mas não foi possível educá-las. com efeito. E ultrapassando toda possível sofisticação.A rebelião das massas. segunda. Uma vez reconhecido isto com toda a claridade que demanda a claridade do próprio fato. incomparável. Algo extraordinário. Não é. Porque esta impetuosidade significa que têm sido projetados a magotes sobre a história montões e montões de homens em ritmo tão acelerado. É frívola e ridícula toda preferência dos princípios que inspiraram qualquer outra idade pretérita se antes não demonstra que se encarregou deste fato magnífico e tentou digeri-lo. mas o que imaginemos melhor terá de conservar o essencial daqueles princípios. senão que mercê a seu contraste põe em relevo a impetuosidade do crescimento. Por essa razão oferece este fato a perspectiva mais adequada para julgar com eqüidade essa centúria.

Cada dia ajuntava um novo luxo ao repertório de seu standard vital. prever a gravidade da situação histórica atual. por isso mesmo é o único que. Desde 1900 começa também o operário a ampliar e assegurar a sua vida. muito conhecer a fundo este homem-massa. A atual abundância de possibilidades se converterá em efetiva míngua. olhe-a de longe. se o senhor quer ver bem sua época. O homem que agora tenta pôr-se à frente da existência européia é muito diferente daquele que dirigiu o século XIX. de 1850. "Sem um novo poder espiritual. 1880. mas que se exige.a vida política e a não política -? Por que é como é. Se o porvir não oferecesse um flanco à profecia. que é pura potência do maior bem e do maior mal. como se produziu? Convém responder conjuntamente a ambas as questões. nossa época. Porque a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o que Rathenau chamava "a invasão vertical dos bárbaros". converteu-se num direito que não se agradece. Inúmeras vezes tem sido profetizada.A rebelião das massas. tem de lutar para consegui-lo. E. compreendemos do pretérito ou do presente. "Vejo subir a preamar do nihilismo! ". apocalíptico. O que antes se houvera considerado comum benefício da sorte que inspirava humilde gratidão ao destino. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Situação de tal modo aberta e franca tinha por força que decantar no estrato mais profundo dessas da história. em verdadeira decadência. A que distância? Muito simples: à distância justa que o impeça ver o nariz de Cleópatra. volatilizarão com a mesma facilidade com que se perderam tantas vezes segredos de fabricação (40). Por isso. A vida toda se contrairá. Hegel. pode. Entretanto. COMEÇA A DISSECAÇÃO DO HOMEM-MASSA Como é este homem-massa que domina hoje a vida pública . Que aspecto oferece a vida desse homem multitudinário. não poderíamos tampouco compreendê-la quando logo se cumpre e se faz passado. quero dizer. anunciava Augusto Comte. Nunca pode o homem médio resolver com tanta folga seu problema econômico. produzirá uma catástrofe ". com um bem-estar posto diante dele solicitamente por uma sociedade e um Estado que são um portento de organização. VI. por um simples raciocínio a priori. Importa. impotência angustiosa. A idéia de que o historiador é um profeta pelo avesso resume toda a filosofia. com efeito. Cada dia sua posição era mais segura e mais independente do arbítrio alheio. Não se encontra. Enquanto em proporção diminuíam as grandes fortunas e se tornava mais dura a existência do operário industrial. gritava de um penhasco alcantilado da Engadina o bigodudo Nietzche. escassez. mas foi produzido e preparado no século XIX. Qualquer mente perspicaz de 1820. o homem médio de qualquer classe social encontrava cada dia mais franco seu horizonte econômico. pois. porque se prestam mútuo esclarecimento. em verdade. que é uma época revolucionária. "As massas avançam!" dizia. Certamente que só cabe antecipar a estrutura geral do futuro.htm (38 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . que com progressiva abundância vai engendrando o século XIX? Desde já. nada novo acontece que não tenha sido previsto há cem anos. É falso dizer que a história não é previsível. como o homem médio. um aspecto de omnimoda facilidade material.

A honra do século XIX não estriba em sua invenção. Trata-se.htm (39 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . A vida marcha sobre cômodos carris.em condições de vida radicalmente opostas às que sempre a haviam rodeado. de uma inovação radical no destino humano. Virou pelo avesso a existência pública. de nosso velho povo: "ampla é Castela". A esta facilidade e segurança econômica ajuntam-se as físicas: o confort e a ordem pública. e assim é preciso compreender perfeitamente suas inexoráveis conseqüências. praticamente ilimitada. mas que colocou o homem médio . e este do que caracteriza ao XVI. Jamais em toda a história havia sido posto o homem numa circunstância ou contorno vital que se parecesse nem de longe ao que essas condições determinam. obrigação. sem que coubera outra solução que não fosse adaptar-se a eles. diga-se opressão. Porque esta última é a que não faltou nunca até cem anos científica . mas em sua implantação. tampouco nas formas da vida pública encontra-se ao nascer com entraves e limitações. tão graciosa e aguda. o mundo era um âmbito de pobreza. Para o "vulgo" de todas as épocas. um homem à parte de todos os demais homens. Foi. similares e ainda idênticos no essencial se se confronta com eles este homem novo. Ao contrário.A rebelião das massas. e não há verossimilitude de que intervenha nela nada violento e perigoso. Por isso não há exageração nenhuma em dizer que o homem engendrado pelo século XIX. Cria-se um novo cenário para a existência do homem. dificuldade e perigo (41) O mundo que desde o nascimento rodeia o homem novo não o move a limitar-se em nenhum sentido. Três princípios fizeram possível esse novo mundo: a democracia liberal. pelo contrário. mas todos eles são parentes.física e administrativa -. A compreensão deste fato e sua importância surgem automaticamente quando se recorda que essa franquia vital faltou por completo aos homens vulgares do passado. O homem médio aprende que todos os homens são legalmente iguais. O século XIX foi essencialmente revolucionário. até mesmo para o rico e poderoso. novo no físico e no social. numa palavra. Se se quer. antes de tudo. Ninguém desconhece isso. A revolução não é a sublevação contra a ordem preexistente. do dominante no XVII. O do século XVIII se diferencia.no econômico e no físico -. Mas é ainda mais clara a contraposição de situações se do material passamos ao civil e moral. limitação. Também aqui "ampla é Castela". não constituem uma revolução. que. O que teve de tal não deve ser buscado no espetáculo de suas barricadas. a experimentação científica e o industrialismo. Mas não basta com o reconhecimento abstrato. Quer dizer. dependência. Não existem os "estados" nem as "castas".a grande massa social . file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não há ninguém civilmente privilegiado. Sentiram o viver a nativitate como um cúmulo de impedimentos que era forçoso suportar. Tal imagem limita-se a incutir nas almas médias uma impressão vital. para eles a vida um destino angustiante . para os efeitos da vida pública. Nada o obriga a conter sua vida. simplesmente. desde a segunda metade do século XIX. que é implantada pelo século XIX. não acha ante si barreiras sociais nenhumas. contanto que não se entenda por esta só a jurídica e social. pressão. "vida" havia significado. O homem médio. alojar-se na estreiteza que deixavam. é. Nenhum desses princípios foi inventado pelo século XIX. está claro. mas a implantação de uma nova ordem que tergiversa a tradicional. Quer dizer que em todas essas ordens elementares e decisivas a vida se apresentou ao homem novo isenta de impedimentos. Os dois últimos podem resumir-se num: a técnica. com efeito. que podia expressar-se com a perífrase. esquecendo a cósmica. mas procedem das duas centúrias anteriores.

que esse mundo do século XIX e começos do XX não tem apenas as perfeições e amplitudes que de fato possui. crê que o produziu a natureza. mas perfeito e mais amplo. do que dizemos "é natural". porque era um mundo tão toscamente organizado. Isto nos leva a apontar no diagrama psicológico do homem-massa atual dois primeiros traços: a livre expansão de seus desejos vitais. podem crescer indefinidamente. Todavia hoje. Estas massas mimadas são suficientemente pouco inteligentes para crer que essa organização material e social. sem depender de seu prévio esforço.e isto é muito importante . não lhe apresenta veto nem contenção alguma. como se fossem direitos nativos.htm (40 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .genial de inspirações e de esforços -. E. Isto pode servir como símbolo do comportamento que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas que além disso sugere a seus habitantes uma segurança radical em que amanhã será ainda mais rico. já que tampouco falha. Como não vêem nas vantagens da civilização um invento e construção prodigiosos. o homem vulgar. com efeito. que só com grandes esforços e cautelas se pode sustentar. pelo visto. esta: a própria perfeição com que o século XIX deu uma organização a certas ordens da vida. e a radical ingratidão a tudo quanto tornou possível a facilidade de sua existência. mais forte que ele. Assim teria aprendido esta essencial disciplina: "Aí termino eu e começa outro que pode mais do que eu. há dois: eu e outro superior a mim". o novo vulgo tem sido mimado pelo mundo circunstante. a conter-se. e não pensa nunca nos esforços geniais de indivíduos excelentes que supõe sua criação. Pois acontece . mas pelo contrário fustiga seus apetites. Nenhum ser humano agradece a outro o ar que respira. Um e outro traço compõem a conhecida psicologia da criança mimada. sobretudo a não contar com ninguém como superior a ele. Esta sensação da superioridade alheia só podia ser-lhe proporcionada por quem. portanto. pois. chega a crer efetivamente que só ele existe. Herdeiro de um passado extensíssimo e genial . porque não falta. apesar de alguns signos que iniciam uma pequena brecha nessa fé rotunda. Mimar não é limitar os desejos. em princípio. A criatura submetida a este regime não tem a experiência de suas próprias limitações. é origem de que as massas beneficiárias não a considerem como organização. crêem que seu papel se reduz a exigi-las peremptoriamente. À força de evitar-lhe toda pressão em redor. a sua disposição. como achamos o sol no alto sem que nós o tenhamos subido ao ombro. porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao conjunto do que "está aí". O sinal é formal. Nos motins que a escassez provoca soem as massas populares buscar pão. No mundo. que. Porque. Minha tese é. todo choque com outros seres. ao que parece. dos quais o menor malogro volatilizaria rapidissimamente a magnífica construção. que as catástrofes eram freqüentes e não havia nele nada seguro. é de sua própria origem. e se acostuma a não contar com os demais. abundante nem estável. mas como natureza.A rebelião das massas. dar a impressão a um ser de que tudo lhe está permitido e a nada está obrigado. de sua pessoa. como se gozasse de um espontâneo e inesgotável crescimento. Acredita-se nisto tão firmemente como na próxima saída do sol. Menos ainda admitirá a idéia de que todas estas facilidades continuam apoiando-se em certas difíceis virtudes dos homens. e é quase tão perfeita como a natural. Ao homem médio de outras épocas ensinava-lhe quotidianamente seu mundo esta elemental sabedoria. e o meio que empregam sói ser destruir as padarias. ao encontrar-se com esse mundo técnica e socialmente tão perfeito. Assim se explica e define o absurdo estado de ânimo que essas massas revelam: não lhes preocupa mais que seu bem-estar e ao mesmo tempo são insolidárias das causas desse bem-estar. não erraria quem utilizasse esta como uma quadrícula para olhar através dela a alma das massas atuais. todavia hoje muito poucos homens duvidam de que os automóveis serão dentro de cinco anos mais confortáveis e mais baratos que os do dia. e tudo isso presto. posta a sua disposição como o ar. a reduzir-se. Mas as novas massas encontram uma paisagem cheia de possibilidades e além disso segura. lhe houvesse obrigado a renunciar a um desejo. com efeito.

a um enorme esforço e ele sabia muito bem quanto lhe havia custado. Ingenuamente. preferências ou gostos. onde não se depende de ninguém. como em volta da oposta se formaram as antigas. O labrego chinês acreditava. Naturalmente: viver não é mais que tratar com o mundo. Em um e outro caso tratava-se de uma exceção à índole normal da vida e do mundo. Mas o homem que analisamos habitua-se a não apelar de si mesmo a nenhuma instância fora dele. À volta desta impressão primária e permanente vai se formar cada alma contemporânea. ninguém é superior a ninguém". o mundo novo aparece como um âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas. VII. um imperativo. Por que não. Por isso insisto tanto em fazer notar que o mundo de onde nasceram as massas atuais mostrava uma fisionomia radicalmente nova na história. apetites. por isso mesmo. a voz novíssima grita: "Viver é não encontrar limitação alguma. superior a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sem causa especial nenhuma. se ascendia socialmente. que lhe era nominativamente favorável. que o bem-estar de sua vida dependia das virtudes privadas que possuísse o seu Imperador. O semblante geral que ele nos apresenta será o semblante geral de nossa vida. Está satisfeito tal como é. Como agora a circunstância não o obriga. em princípio. E quando não a isto. até há pouco. Portanto. em mais vastas e sutis proporções usam as massas atuais ante a civilização que as nutre (42). exceção que. portanto. abandonar-se tranqüilamente a si mesmo. Nada de fora a incita a reconhecer nela própria limites e. opiniões. ter de contar com o que nos limita". deixa de apelar e sente-se soberano de sua vida. era devida a alguma causa especialíssima. perene. sem dúvida. a contar em todo momento com outras instâncias. escassez. o homem seleto ou excelente está constituído por uma íntima necessidade de apelar de si mesmo a uma norma além dele. do homem-massa. tenderá a afirmar e considerar bom tudo quanto em si acha. Porque esta impressão fundamental se converte em voz interior que murmura sem cessar umas como palavras no mais profundo da pessoa e lhe insinua tenazmente uma definição da vida que é. OU ESFORÇO E INÉRCIA Somos aquilo que nosso mundo nos convida a ser. Porque este se sentiu sempre constitutivamente condicionado a limitações materiais e a poderes superiores sociais. a seus olhos. sobretudo com instâncias superiores. conseqüente com sua índole. Isto era. sem necessidade de ser vão. limitadíssimo.A rebelião das massas. incapaz de criar nem conservar a organização mesma que dá à sua vida essa amplitude e esse contentamento. se. Praticamente nada é impossível. Se lograva melhorar sua situação. sua vida era constantemente regulada por esta instância suprema de que dependia. atribuía-o a um golpe da sorte. Contrariamente.htm (41 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . nada é perigoso e. nada nem ninguém o força a compreender que ele é um homem de segunda classe. nos quais baseia tal afirmação de sua pessoa? Nunca o homem-massa teria apelado a nada fora dele se a circunstância não lhe houvesse forçado violentamente a isso. Mas a nova massa encontra a plena franquia vital como estado nativo e estabelecido. E se a impressão tradicional dizia: "Viver é sentir-se limitado e. o eterno homem-massa. e as feições fundamentais de nossa alma são impressas nela pelo perfil do contorno como por um molde. VIDA NOBRE E VIDA VULGAR. ao mesmo tempo. Esta experiência básica modifica por completo a estrutura tradicional. como a coisa mais natural do mundo. a vida. limitações de destino e dependência. portanto. Enquanto no pretérito viver significava para o homem médio encontrar a sua volta dificuldades. segundo vemos. perigos. como tal.

numa qualidade estática e passiva. A "nobreza" não aparece como termo formal até o Império romano. A nobreza define-se pela exigência. foi (45). Só fica nela de vivo. Mais lógicos os chineses. Sempre. invertem a ordem da transmissão. distinguíamos o homem excelente do homem vulgar dizendo: que aquele é o que exige muito de si mesmo. Quando esta. e este. Contrariamente. é nobreza lunar como feita com mortos. quem vive em essencial servidão. o que não exige nada. Contra o que sói crer-se. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ele. e não a massa. a cujo serviço livremente se põe.não tanto porque seja multitudinário. a incitação que produz no descendente a manter o nível de esforço que o antepassado alcançou. mas o filho quem.A rebelião das massas. já em decadência. que se deu a conhecer sobressaindo sobre a massa anônima. Há. são conquistas. A nobreza ou fama do filho já é puro benefício. pois. se fosse necessário e alguém se lho disputasse (44). no início. e. ao conseguir a nobreza. ao conceder os níveis de nobreza. mas. Por isso. Porque ao significar para muitos "nobreza de sangue" hereditária. posta sempre a superar-se a si mesma. Lembre-se de que. posse passiva e simples gozo.htm (42 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . pois. graduam-se pelo número de gerações passadas que ficam prestigiadas. a vida nobre fica contraposta à vida vulgar e inerte. lhe falta. Eu diria. é a criatura de seleção. e não é o pai quem enobrece o filho. condenada à perpétua imanência. que se recebe e transmite como uma coisa inerte. em princípio. Os privilégios da nobreza não são originariamente concessões ou favores. que o direito impessoal se tem e o pessoal se mantém. a nobreza hereditária tem um caráter indireto. estaticamente. Isto é a vida como disciplina . e que não corresponde a esforço algum. caso uma força exterior não a obrigue a sair de si. por infelicidade.a vida nobre -. Noblesse oblige. sente desassossego e inventa novas normas mais difíceis. mas representam o perfil onde chega o esforço da pessoa. converte-se em algo parecido aos direitos comuns. são propriedade passiva. O filho é conhecido porque seu pai conseguiu ser famoso. certa contradição na transferência da nobreza. os direitos comuns. eqüivale a esforçado ou excelente. destacando com o seu esforço sua estirpe humilde. dinâmico. Nobre significa o "conhecido". Implica um esforço insólito que motivou a fama. o étimo do vocábulo "nobreza" é essencialmente dinâmico. é luz espelhada. É irritante a degeneração sofrida no vocabulário usual por uma palavra tão inspiradora como "nobreza". pelas obrigações. supõe sua conservação que o privilegiado seria capaz de reconquistá-las em todo instante. o famoso. atuante. mais exigentes. Para mim. Por isso não estima a necessidade de servir como uma opressão. como não seja o respirar e evitar a demência. como são os "do homem e do cidadão". e precisamente para opô-lo à nobreza hereditária. quanto porque é inerte. nobreza é sinônimo de vida esforçada. não pelos direitos. Daí que chamemos massa a este modo de ser homem . pois. que a oprimam. Os direitos privados ou privilégios não são. de qualquer modo. Mas o sentido próprio. tão generoso do destino com que todo homem se encontra. se reclui a si mesma. a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência. "Viver a gosto é de plebeu: o nobre aspira a ordenação e a lei" (Goethe). não. em suma: é. O nobre originário obriga-se a si mesmo. noblesse oblige. puro usufruto e benefício. autêntico. e ao nobre hereditário obriga-o a herança. que. cuja nobreza é efetiva. desde o nobre inicial a seus sucessores. ainda neste sentido desvirtuado. Nobre. com efeito. Desta maneira. Sua vida não lhe apraz se não a faz consistir em serviço a algo transcendente. pelo contrário. Os antepassados vivem do homem atual. e há quem só torna nobre seu pai e quem alonga sua fama até o quinto ou décimo avô. apenas contenta-se com o que é e está encantado consigo mesmo (43). É conhecido por reflexo. entende-se o conhecido de todo o mundo. a comunica a seus antepassados. e.

o processo da civilização. é a chave ou equação psicológica do tipo humano dominante hoje. saúde média superior à de todos os tempos). poderosos meios de toda ordem para satisfazê-los . Digo processo.e por reflexo em todo o mundo . o século XIX o abandonou a si mesmo. e como monumentalizados em nossa experiência. enquanto não tenhamos analisado esta. Continuando as coisas como até aqui. Quererão acompanhar a alguém. encontramo-nos com uma massa mais forte que a de nenhuma época. cada dia se notará mais em toda a Europa . corporais (higiene. e descobrirão que são surdas. a conveniência de não entender todos estes enunciados atribuindo-lhes. a meu juízo. intrometeu nele formidáveis apetites. a direção de minorias superiores. Agora podemos caminhar mais depressa. os pouquíssimos seres que conhecemos capazes de um esforço espontâneo e luxuoso. Nas horas difíceis que chegam para nosso continente. Assim. os únicos ativos e não só reativos. a diferença da tradicional. Reitero ao leitor que. porque lhe falta de nascença a função de atender ao que está além dela. São os ascetas (46). é ilusório pensar que o homem médio vigente. a indocilidade política não seria grave se não proviesse de uma mais profunda e decisiva indocilidade intelectual e moral. São os homens seletos. Por isso. sejam pessoas. resultante de outras mais íntimas e impalpáveis. imediatamente. mas quer suplantar os excelentes.A rebelião das massas. não já progresso. sejam fatos. paciente. acreditando que se basta . tenha lido até aqui. O simples processo de manter a civilização atual é superlativamente complexo e requer sutilezas incalculáveis. vamos nos fartando de advertir que a maior parte dos homens . Treinamento = áskesis. os nobres.em suma: indócil (47). é possível que. que é de toda a vida pública a mais eficiente e mais visível. é. a derradeira. Por isso mesmo ficam mais isolados.htm (43 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . um incessante treinamento. Para definir o homem-massa atual. incapaz de atender a nada nem a ninguém. Mal pode governá-lo este homem-massa que aprendeu a usar muitos aparelhos de civilização. fechou-se dentro de si. Depois de haver estabelecido nele todas estas potências. contrariamente. um significado político.e das mulheres . mas que se caracteriza por ignorar de raiz os princípios mesmos da civilização. ao produzir automaticamente um homem novo.que as massas são incapazes de se deixar dirigir em nenhuma ordem. é preciso contrapô-lo às duas formas puras que nele se mesclam: a massa normal e o autêntico nobre ou esforçado. e então. Mas ainda essa boa vontade fracassará. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e não poderão. faltará a última claridade ao teorema deste ensaio. Por outra parte. que é tão massa como o de sempre. para os quais viver é uma perpétua tensão. porque já somos donos do que. em certas matérias especialmente angustiosas. Desta sorte. Quererão ouvir. Não surpreenda esta aparente digressão. A atividade política. mas. civis e técnicos (entendo por estes a enormidade de conhecimentos parciais e de eficiência prática que hoje o homem médio possui e de que sempre careceu no passado) -. subitamente angustiadas.são incapazes de outro esforço que o estritamente imposto como reação a uma necessidade externa. seguindo o homem médio sua índole natural.econômico. poderá reger. por muito que tenha ascendido seu nível vital em comparação com o de outros tempos. Tudo que vem depois é conseqüência ou corolário dessa estrutura radical que poderia resumir-se assim: o mundo organizado pelo século XIX. Porque a disposição radical de sua alma está feita de hermetismo e indocilidade. por si mesmo. À medida que se avança pela vida. hermética em si mesma. tenham um momento a boa vontade de aceitar.

O tolo. hermética. e a crença na sua perfeição não está consubstancialmente unida a ele. não suspeita de si mesmo: julga-se discretíssimo. por sua vez. levá-lo de passeio um pouco além de sua cegueira e obrigá-lo a que contraste sua visão grosseira habitual com outros modos de ver mais sutis. consegue o homem nobre sentir-se em verdade completo. sempre ficaria o fato de que muitos destes leitores discrepantes não pensaram cinco minutos sobre tão complexa matéria. mas chega-lhe de sua vaidade e ainda para ele mesmo tem um caráter fictício. e daí a invejável tranqüilidade com que o néscio se assenta e instala em sua inépcia. Não se trata de que o homem-massa seja tolo. Mas essa capacidade não lhe serve de nada. VIII. Pois bem: eu sustento que nessa obliteração das almas médias consiste a rebeldia das massas em que. não há modo de desalojar o tolo de sua tolice. e nesse esforço consiste a inteligência. De file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Sua confiança em si é. Como poderiam pensar como eu? Mas ao supor-se com direito a ter uma opinião sobre o assunto sem prévio esforço para forjá-la. Também isto é naturalíssimo e confirma o teorema. Este surpreende-se a si mesmo sempre a dois passos de ser tolo. Encontramo-nos. com a mesma diferença que eternamente existe entre o tolo e o perspicaz. A pessoa encontra-se com um repertório de idéias dentro de si. manifestam seu exemplar senhorio ao modo absurdo de ser homem que eu chamei "massa rebelde". imaginário e problemático. Mas a alma medíocre é incapaz de transmigrações . consiste o gigantesco problema hoje levantado para a humanidade. Porque o malvado descansa algumas vezes.esporte supremo. ao novo Adão. tem mais capacidade intelectiva que o de nenhuma outra época. necessita ser especialmente vaidoso. Por isso o vaidoso necessita dos demais. Um homem de seleção. não é ingênua. Pelo contrário.htm (44 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . pois. POR QUE AS MASSAS INTERVÉM EM TUDO E POR QUE SÓ INTERVÊM VIOLENTAMENTE Ficamos em que aconteceu algo sobremodo paradoxal. Como esses insetos que não há maneira de extrair do orifício em que habitam. busca neles a confirmação da idéia que quer ter de si mesmo. paradisíaca. O tolo é vitalício e impermeável. O homem-massa sente-se perfeito. O hermetismo nato de sua alma lhe impede o que seria condição prévia para descobrir sua insuficiência: comparar-se com outros seres. para sentir-se perfeito. Eis aí o mecanismo da obliteração. por isso faz um esforço para escapar à iminente tolice. Decide contentar-se com elas e considerar-se intelectualmente completa. mas que em verdade era naturalíssimo: de tanto se mostrarem abertos mundo e vida ao homem medíocre. ao contrário. Por isso dizia Anatole France que o néscio é muito mais funesto que o malvado. a alma. a rigor. Contrariamente ao homem medíocre de nossos dias. jamais (48). o atual é mais esperto. instala-se definitivamente naquele repertório. Já sei que muitos dos que me lêem não pensam como eu. Comparar-se seria sair um pouco de si mesmo e trasladar-se ao próximo. a alma fechou-se para ele. a vaga sensação de possuí-la apenas lhe serve para fechar-se mais em si mesmo e não usá-la.A rebelião das massas. De sorte que nem ainda neste caso mórbido nem ainda "cegado" pela vaidade. não se lhe ocorre duvidar de sua própria plenitude. como de Adão. Neste caso tratar-se-ia de hermetismo intelectual. Isso é precisamente ter obliterada. o néscio. Pois ainda que em definitivo minha opinião fosse errônea. Não sentindo nada de menos fora de si.

Tinha crenças. mas que o vulgar proclame e imponha o direito da vulgaridade. Pelo menos na história européia até hoje. penetram até o pormenor no exercício de todas as atividades. vocábulos ocos que o acaso amontoou no seu interior. Para que ouvir. regulam estas a vida só grosso modo. hábitos mentais. Hoje. O mais e o menos de cultura mede-se pela maior ou menor precisão das normas. Não há cultura onde as polêmicas estéticas não reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte. nunca o vulgo havia crido ter "idéias" sobre as coisas. do cultivo ou exercício disciplinado do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não há questão de vida pública em que não intervenha. A mesma coisa em arte e nas demais ordens da vida pública. pelo contrário. no sentido mais estrito da palavra. o homem médio tem as "idéias" mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. impondo suas "opiniões". positiva ou negativamente. Por isso perdeu o uso da audição. mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobre o que as coisas são ou devem ser . pelo contrário. experiências. simplesmente. Não há cultura onde não há princípios de legali5àde civil a que apelar. e com um audácia que só se explica pela ingenuidade. sobre política ou sobre literatura -. O que digo é que não há cultura onde não há normas. A conseqüência automática disto era que o vulgo não pensava. há. mas sua atitude reduzia-se a repercutir. Isto é o que no primeiro capítulo enunciava eu como característico em nossa época: não que o vulgar creia que é destacado e não vulgar. A que nossos próximos possam recorrer. se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir. sabe que naquele território não regem princípios aos quais possa recorrer. Uma e inata consciência de sua limitação. que em sua maior parte são de índole teórica. uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. a barbárie é ausência de norma e de possível apelação. nem de longe. ou. Onde há pouca. impô-los-á por toda a parte. mas. é talvez o fator da presente situação mais novo. Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham "idéias". E isto é. de julgar. prejuízos.htm (45 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . barbárie. provérbios. uma vez para sempre consagra o sortimento de tópicos. cego e surdo como é. que sejam cultas? De maneira alguma. O império que sobre a vida pública hoje exerce a vulgaridade intelectual. Não há cultura quando as relações econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual possam amparar-se. menos assimilável a nada do pretérito. não tenhamos ilusões. Não há cultura onde não há acatamento de certas últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa (50). Nunca se lhe ocorreu opor às "idéias" do político outras suas. de sentenciar.por exemplo.A rebelião das massas. O viajante que chega a um país bárbaro. a ação criadora de outros. isto é. nem sequer julgar as "idéias" do político do tribunal de outras "idéias" que cria possuir. A escassez da cultura intelectual espanhola. Quando faltam todas essas coisas. ou a vulgaridade como um direito. Parecia-lhe bem ou mal o que o político projetava e fazia. onde há muita. decidir em quase nenhuma das atividades públicas. o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas. A idéia é um xeque-mate à verdade. Não vale falar de idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula. Não há normas bárbaras propriamente ditas. dava ou retirava sua adesão. quer dizer. Não me importa quais são. As "idéias" deste homem médio não são autenticamente idéias. tradições. de decidir. Estas normas são os princípios da cultura. de não estar qualificado para teorizar (49). vedava-o completamente. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que ela imponha. nem sua posse é cultura. não há cultura.

Será muito lamentável que a condição humana leve volta e meia a esta forma de violência. Um pouco estupidamente tem se entendido com ironia esta expressão. aceitar seu Código e sua sentença. mas na habitual falta de cautela e cuidados para ajustar-se à verdade que soem mostrar os que falam e escrevem. por haverem resolvido dirigir a sociedade sem ter capacidade para isso. a ultima ratio. começaram a acontecer "coisas esquisitas". portanto. A força era. que declara muito bem o prévio rendimento da força às normas racionais. inexoravelmente. simplesmente. Ter uma idéia é crer que se possuem as razões dela. pois. e não nos interessa. Mas o homem-massa sentir-se-ia perdido se aceitasse a discussão. como o sindicalismo e o fascismo. Quer opinar. passando pela ciência. mas não quer aceitar as condições e supostos de todo opinar. Idear. a um procedimento único de intervenção: a ação direta. Perpetuamente o homem tem recorrido à violência: às vezes este recurso era simplesmente um crime. como as romanças musicais. Isso quer dizer que se renuncia à convivência de cultura. crer. como vimos antes. pois. a razão da sem-razão. Em sua conduta política revela-se a estrutura da alma nova da maneira mais crua e contundente. manifesta-se. O homem médio encontra-se com "ideais" dentro de si. Daqui que suas "idéias" não sejam efetivamente senão apetites ou palavras. inventores da maneira e da palavra "ação direta". crer que existe uma razão. mas carece da função de idear. Não. leva-a também. Tal violência não é outra coisa senão a razão exasperada.A rebelião das massas. o "novo" é na Europa "acabar com as discussões". intelecto. porque a "ação direta" consiste em inverter a ordem e proclamar a violência como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. se mostra resolvido a impor suas opiniões. Eu vejo nisso a manifestação mais palpável do novo modo de ser das massas. O entusiasmo pela inovação é de tal modo ingênito no europeu. Suprimem-se todos os trâmites normais e se vai diretamente à imposição do que se deseja. Não se atribua. A civilização não é outra coisa senão o ensaio de reduzir a força a ultima ratio. e é. Eis aqui o novo: o direito a não ter razão. Para dar algum exemplo concreto destas coisas esquisitas mencionarei certos movimentos políticos. é uma mesma coisa como apelar a tal instância. que o levou a produzir a história mais inquieta de quantas se conhecem. propele a massa para que intervenha em toda a vida pública. que a forma superior da convivência é o diálogo em que se discutem as razões de nossas idéias. mas na falta de escrúpulo que leva a não cumprir os requisitos elementais para acertar. O dia em que se reconstrua a gênese de nosso tempo. opinar. O hermetismo da alma. e detesta-se toda forma de convivência que por si mesma implique acatamento de normas objetivas. mas à estranhíssima bitola destas novidades. há alguns anos. sem haver procurado antes averiguar o que pensa o maniqueu. que é uma convivência sob normas. o que estes novos fatos têm de esquisito ao que têm de novo. Qualquer pessoa pode perceber que na Europa. desde a conversação até o Parlamento. advertir-se-á que as primeiras notas de sua peculiar melodia soaram naqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta de 1900. mas que. Não se diga que parecem esquisitos simplesmente porque são novos.htm (46 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . e retrocede-se a uma convivência bárbara. em que se acerte ou não . Sob as espécies de sindicalismo e fascismo aparece pela primeira vez na Europa um tipo de homem que não quer dar razões nem quer ter razão. Continuamos sendo o eterno padre de aldeia que rebate triunfante o maniqueu. que. Em outras era a violência o meio a que recorria a quem havia esgotado todos os demais para defender a razão e a justiça que cria ter. mas é inegável que ela significa a maior homenagem à razão e à justiça. mas a chave está no hermetismo intelectual. Agora começamos a ver isto com bastante clareza. um orbe de verdades inteligíveis. Nem sequer suspeita qual é o elemento sutilíssimo em que as idéias vivem. Por isso. com efeito. e instintivamente repudia a obrigação de acatar essa instância suprema que se acha fora dele. submeter-se a ela. portanto.a verdade não está em nossa mão -. não em que se saiba mais ou menos.

Por isso. o cidadão. Era inverossímil que a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão bonita. tão elegante. IX. a convivência. com efeito. usos intermediários. No trato social suprime-se a "boa educação". uma massa homogênea pesa sobre o Poder público e esmaga.E assim todas as épocas bárbaras têm sido tempo de espalhamento humano. quando a massa por um ou outro motivo. normas. que suprime tudo que medeia entre nosso propósito e sua imposição. Foi. quer dizer. Civilização é. O liberalismo convém hoje recordar isto .htm (47 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .não deseja a convivência com o que não é ela. não deve surpreender que tão rapidamente pareça essa mesma espécie decidida a abandoná-la. descobre sua própria origem. A forma que na política representou a mais alta vontade de convivência é a democracia liberal. ainda à sua custa. aniquila todo o grupo opositor. A barbárie é tendência à dissociação. portanto. criar tanta complicação? Tudo isso se resume na palavra "civilização". acharemos uma mesma entranha em todos. limita-se a si mesmo e procura. vontade de convivência. mais ainda. cortesia. razão! de que veio inventar tudo isso. E um exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na terra. tão paradoxal. prima ratio. pululação de mínimos grupos separados e hostis. Toda a convivência humana vai caindo sob este novo regime em que se suprimem as instâncias indiretas. deixar espaço no Estado que ele impera para que possam viver os que nem pensam nem sentem como ele. o mais nobre grito que soou no planeta.quem o diria ao ver seu aspecto compacto e multitudinário? . o fez em forma de "ação direta". justiça. Odeia de morte o que não é ela. tão antinatural. pois. Trâmites. E corrobora energicamente a tese deste ensaio o fato patente de que agora. tão acrobática. a rigor. Por isso. antes de tudo. supõem o desejo radical e progressivo de cada pessoa contar com as demais. É se incivil e bárbaro na medida em que não se conte com os demais. com o inimigo débil. como a maioria. Em quase todos. A literatura. que. Convém recordar que em todos os tempos. como única razão é ela a norma que propõe a anulação de toda norma. A massa . se olhamos por dentro cada um desses instrumentos da civilização que acabo de enumerar. atuou na vida pública. sempre o modo de operar natural às massas. constitui-se no insulto. PRIMITIVISMO E TÉCNICA file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. É a Charta magna da barbárie. . através da idéia de civis. As relações sexuais reduzem seus trâmites. Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Não começa a ser já incompreensível semelhante ternura? Nada acusa com maior clareza a fisionomia do presente como o fato de que vão sendo tão poucos os países onde existe a oposição.é a suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga à minoria e é. Trata-se com tudo isso de fazer possível a cidade.A rebelião das massas. Todos. apareça a "ação direta" oficialmente como norma reconhecida. como os mais fortes. Proclama a decisão de conviver com o inimigo. quando a intervenção direta das massas na vida pública passou de casual e infreqüente a ser o normal. Ela leva ao extremo a resolução de contar com o próximo e é protótipo da "ação indireta". a comunidade. não obstante ser onipotente. como "ação direta". O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o Poder público.

da civilização. a simplificação é higiene e melhor gosto. requeria urgentemente uma redução ao autêntico. e dele recebermos a ordem para nossa conduta diante de tudo quanto foi (52). Compõem-se de peripécias. E este equívoco não reside em nosso juízo. uma solução mais perfeita. O entusiasmo que sinto por esta disciplina de nudificação. Mais congruente com os fatos é pensar que não há nenhum progresso seguro. podem anunciar também futuras perfeições. pessoal ou histórica. penso que toda vida. me faz reivindicar plena liberdade de ideador diante de todo o passado. A sobrecasaca e o plastrão românticos solicitam uma vingança por meio do atual deshabillé e o "em mangas de camisa". Há instituições mortas. É. estorvo à vida e tóxico resíduo. Aqui. É claro que toda velha cultura arrasta no seu avanço tecidos caducos e não pequena carregação de matéria córnea. adquire maior intensidade nos "momentos críticos". demandam uma época de frenesi simplificador. volutas. E assim os sintomas de nova conduta que sob o império atual das massas vão aparecendo e agrupávamos sob o título "ação direta". que é verdade em geral. rigorosamente falando. a vida pública. em espécie. sobretudo a política. como sempre que com menos meios se consegue mais. favorável e pejorativa. com efeito. valorizações e respeitos sobreviventes e já sem sentido. Não é coisa de lastrear este ensaio com toda uma metafísica da história.tanto o progresso triunfal e indefinido como a periódica regressão -. Pelo contrário. drama (51). se não se aligeira até sua pura essencialidade. Qualquer deles não só tolera. como é o presente. Em geral. soluções indevidamente complicadas. tudo é possível na história . nenhuma evolução. piétine sur place. mas é que em si mesma a situação presente é potência bifronte de triunfo ou de morte.a do presente substancialmente equívoca. de autenticidade. Importa-me muito recordar aqui que estamos submersos na análise de uma situação . é a única entidade do universo cuja substância é perigo. sem a ameaça de involução e retrocesso. de sorte que nele a realidade vacila. mas também pode ser uma catástrofe no destino humano. Mas é claro que o vou construindo sobre a base subterrânea de minhas convicções filosóficas. Por isso a princípio insinuei que todos os traços atuais e. cada um dos quais está relativamente indeterminado com respeito ao anterior.A rebelião das massas. mas até reclama uma dupla interpretação.htm (48 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . individual ou coletiva. Não creio na absoluta determinação da história. A árvore do amor romântico exigia também uma poda para que caíssem as demasiadas magnólias falsas cerzidas a seus ramos e o furor de lianas. Porque a vida. ser trânsito de uma nova e sem par organização da humanidade. mas é preciso corrigir a noção que crê seguro este progresso. apresentam duplo aspecto. Tudo. por outro mal. É o porvir que deve imperar sobre o pretérito. Todos estes elementos da ação indireta. a consciência de que é imprescindível para franquear o passo a um futuro estimável. A rebelião das massas pode. Isto. Mas é preciso evitar o pecado maior dos que dirigiram o século XIX: a defeituosa consciência de sua file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e portanto. retorcimentos e intrincações que não a deixavam tomar sol. mas na própria realidade. Este titubeio metafísico proporciona a todo o vital essa inconfundível qualidade de vibração e estremecimento. Não há razão para negar a realidade do progresso. se compõe de puros instantes. e não sabe bem se se decidir por uma ou outra entre várias possibilidades. a rebelião das massas. portanto. a história. expostas ou aludidas em outros lugares. e a humanidade européia não poderia dar o salto elástico que o otimista reclama dela se antes não se desnuda. Não é que possa parecer-nos por um lado bem. até coincidir consigo mesma. normas que provaram sua insubstancialidade.

quase inverossímil. Hoje torna-se mister suscitar uma hiperestesia de responsabilidade nos que sejam capazes de senti-la. Não os desta ou os daquela. mas crê que é fruta espontânea de uma árvore edênica. seu habitante não o é: nem sequer vê nele a civilização. que não é fácil. mas . A toda hora se fala hoje dos progressos fabulosos da técnica. Só saltando sobre distâncias e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.que se tratava apenas de uma "frase". trazer aqui a comento suas conclusões. responsabilidade. poderia demonstrar-se semelhante incongruência na política. O civilizado é o mundo. parece-me neste ponto demasiado otimista. com uma consciência de seu futuro suficientemente dramático. Deixar-se deslizar pela pendente favorável que apresenta o curso dos acontecimentos e embotar-se para a dimensão de perigo e carranca que mesmo a hora mais jocunda possui. transpondo umas palavras de Rathenau. nem ainda para retificá-las. A idéia que Spengler tem da cultura. Todo o crescimento de possibilidades concretas que a vida experimentou corre risco de anular-se a si mesmo ao topar com o mais pavoroso problema sobrevindo no destino europeu e que de novo formulo: apoderou-se da direção social um tipo de homem a quem não interessam os princípios da civilização. as ciências físicas . e parece o mais urgente sublinhar o lado palmariamente funesto dos sintomas atuais. na moral. Se não fora prolixo. Mas isto confirma seu radical desinteresse pela civilização. desde o Renascimento -. O novo homem deseja o automóvel e goza dele.produziu-se na geração que hoje vai dos vinte aos trinta anos. a saber: uma definição formal que condena toda uma complicada análise. é tão remota da pressuposta neste ensaio. na arte. Significa que o homem hoje dominante é um primitivo. Pois crê que à "cultura" vai suceder uma época de "civilização". Mais concretamente: o número de pessoas que em proporção se dedicavam a essas puras investigações era maior em cada geração. Nos laboratórios de ciência pura começa a ser difícil atrair discípulos. O primeiro caso de retrocesso . mas que é o contrário de uma "frase". e em geral da história. pode julgar-se .portanto. dizia eu que assistimos à "invasão vertical dos bárbaros".A rebelião das massas. Que nos significa situação tão paradoxal? Este ensaio pretende haver preparado a resposta a tal pergunta.ao que hoje pode julgar-se . É indubitável que num balanço diagnóstico de nossa vida pública os fatores adversos superem em muito os favoráveis.como é habitual . da civilização.htm (49 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .repito. sob a qual entende sobretudo a técnica. Baste fazer constar este fato: desde que existem as nuove scienze. mas usa dela como se fosse natureza. porém. O próprio Spengler. nem pelos melhores.ainda que tão maníaco -. o entusiasmo por elas havia aumentado sem colapso. é precisamente faltar à missão de responsável. Interessam-lhe evidentemente os anestésicos. Pois estas coisas são só produtos dela. e o fervor que se lhes dedica faz ressaltar mais cruamente a insensibilidade para os princípios de que nascem. com efeito. na religião e nas zonas cotidianas da vida. mas eu não vejo que se fale. tão sutil e tão profundo . que os fez não se manterem alertas e em vigilância. O homem-massa atual é. os automóveis e algumas coisas mais. Agora se vê que a expressão poderá enunciar uma verdade ou um erro. No fundo de sua alma desconhece o caráter artificial.os de nenhuma. ao longo do tempo. um Naturmensch emergindo em meio de um mundo civilizado. e não estenderá seu entusiasmo pelos aparelhos até os princípios que os tornam possíveis. se o cálculo se faz não tanto pensando no presente como no que anunciam e prometem. E isso acontece quando a indústria alcança seu maior desenvolvimento e quando as pessoas mostram maior apetite pelo uso de aparelhos e medicinas criados pela ciência. Quando mais acima. um primitivo que pelos bastidores deslizou no velho cenário da civilização. proporcional .

Mas não espere que. Cada dia facilita um novo invento. que a foro de racionais teriam que ser sutis. consequentemente. para se produzir. evaporante. para reduzir ambos os pontos de vista a um comum denominador. a técnica só pode perviver um pouco de tempo. Não é demasiado absurdo que nas circunstâncias atuais não sinta o homem médio. não é causa sui. quer dizer. e a ciência não existe se não interessa em sua pureza e por ela mesma. precisões. Isto demonstra que a ciência experimental é um dos produtos mais improváveis da história. de preocupações supérfluas.htm (50 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .A rebelião das massas. da maneira mais indiscutível e mais própria para fazer efeito no homem-massa. Aí é nada a quantidade de ingredientes. pois. Viena e Paris. que beneficia esse homem médio. pelo visto. à advertência de que o atual interesse pela técnica não garante nada. embora esclarecida a questão. Por isso. a própria moral -. que é mister reunir e agitar para obter coquetel da ciência físico-química! Ainda contentando-se com a pressão mais débil e sumária do tema. Uma observação impede-me iludir-me sobre a eficácia de tais prédicas.a política. prático. da técnica. guerreiros e pastores têm pululado por toda a parte e à vontade. e não pode interessar se as pessoas não continuam entusiasmadas com os princípios gerais da cultura. Esta não se nutre nem se respira a si mesma. Todo o mundo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pudera estabelecer-se assim a divergência: Spengler crê que a técnica pode continuar vivendo quando morreu o interesse pelos princípios da cultura. que esse homem médio utiliza. Berlim. eu ficava com estas só duas feições: democracia liberal e técnica (54). há uma que cada dia comprova. Bem arranjado está quem creia que se a Europa desaparecesse poderiam os norte-americanos continuar a ciência! Importaria muito tratar a fundo o assunto e especificar com toda a minúcia quais são os supostos históricos vitais da ciência experimental e. E ainda dentro deste quadrilátero. ao resumir a fisionomia novíssima da vida implantada pelo século XIX. Mas repito que surpreende a frivolidade com que ao falar da técnica se esquece que sua víscera cordial é a ciência pura. estabelecer-se plenamente no breve quadrilátero que inscrevem Londres. Magos. sacerdotes. de uma cultura que contém um gênero de ciência. sobressai já o claríssimo fato de que em toda a amplitude da terra e em toda a do tempo. A técnica é consubstancialmente ciência. Está bem que se considere o tecnicismo como um dos traços característicos da "cultura moderna". Fato tão sóbrio e tão magro devia fazer refletir um pouco sobre o caráter supervolátil. a arte. e que as condições de sua perpetuação englobam as que tornam possível o puro exercício científico. Se se embota esse fervor . O homem-massa não atende a razões e só aprende em sua própria carne. da inspiração científica (55). só no século XIX. e menos que nada. a físico-química só conseguiu constituir-se. o homem-massa se daria por inteirado. espontaneamente e sem prédicas. Vive-se com a técnica. sua maravilhosa eficiência: a ciência empírica. os mais díspares entre si. Pensou-se em todas as coisas que precisam continuar vigentes nas almas para que possa continuar havendo de verdade "homens de ciência"? Acredita-se seriamente que enquanto haja dollars haverá ciência? Esta idéia em que muitos se tranqüilizam não é senão uma prova mais de primitivismo. mas não da técnica. o qual vem a ser materialmente aproveitável. o progresso mesmo ou a perduração da técnica. Cada dia produz um novo analgésico ou vacina. Eu não posso resolver-me a crer tal coisa. mas precipitado útil. um conjunto de condições mais insólito que o que engendra o unicórnio. as normas sociais. aquele que lhe dure a inércia do impulso cultural que a criou. Vou. fervor superlativo por aquelas ciências e suas congêneres as biológicas? Porque repare-se em qual é a situação atual: enquanto evidentemente todas as demais coisas da cultura se tornaram problemáticas .como parece ocorrer -. Mas esta fauna do homem experimental requer. não práticas (53).

esta é minha hipótese . biólogos . onde esses homens vão e vêm. suas dores? A desproporção entre o benefício constante e patente que a ciência lhes procura e o interesse que por ela mostram é tal. se ela começa por duvidar de sua própria existência.seria. e a injeção de pantopom que fulmina. e esperar mais que barbárie de quem assim se comportar. comodidades. não há sombra de que as massas peçam a si mesmas um sacrifício de dinheiro e de atenção para dotar melhor a ciência? Longe disso. Nela. Sustenta-se a si mesma.de médicos. Há-os. nem de atenção.. Breyssig chamou-os de "os povos da perpétua aurora". da civilização. e não de omissão. um "invasor vertical". congelada. nem o espera.o mais aterrador (57). X. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sem mais risco que o advento de outros seres que não o sejam.A rebelião das massas. nem de simpatia da massa. Se alguém de boa mente a aproveita para algo. E conste que me refiro a físicos.que não lhe dedica . em que se desvive a si mesma? Deixemos.htm (51 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . talvez com maior clareza que em nenhuma outra parte. o após-guerra converteu o homem de ciência no novo pária social. Mas as ciências experimentais necessitam da massa. saúde. Podemos inclusive resolver a não deixar de sê-lo nunca. PRIMITIVISMO E HISTÓRIA A natureza está sempre aí. A filosofia não necessita de proteção. Como vai pretender que alguém a tome em sério. sob pena de sucumbir. podemos impunemente ser selvagens. são possíveis povos perenemente primitivos. etc. Mas. na. Sabe que é por essência problemática. se se triplicassem ou decuplicassem os laboratórios. engenheiros. sabe que. em princípio. Haverá quem se sinta mais sobrecolhido por outros sintomas de barbárie emergente que. químicos. de ação. O europeu que começa a predominar . não obstante. Maxime se. um bárbaro emergindo por um alçapão.não aos filósofos -. mas não vive desse proveito alheio. pois. este desapego pela ciência. massa dos técnicos mesmos . Cuida de seu aspecto de perfeita inutilidade (56). como tal aparece. milagrosa. de lado a filosofia. os que ficaram numa alvorada estática. regozija-se por simples simpatia humana.. Que raciocínios podem conseguir o que não consegue o automóvel. que não há modo de subornar-se a si mesmo com ilusórias esperanças. Pode imaginar-se propaganda mais formidável e contundente em favor de um princípio vital? Como. já que num planeta sem físico-química não se pode sustentar o número de homens hoje existentes. saltam mais aos olhos e se materializam em espetáculo. segundo veremos. e como isso se liberta de toda submissão do homem médio. não cedendo à inspiração científica. sem pedir a ninguém que conte com ela. Só posso explicar-me esta ausência do adequado reconhecimento se recordo que no centro da África os negros vão também em automóvel e se aspirinizam. nem recomendar-se. se não vive mais que na medida em que se combata a si mesma. e abraça alegre seu livre destino de pássaro do bom Deus. sendo de qualidade positiva. na selva. nem defender-se. nem o premedita. que é aventureira de outro nível. bem-estar. sem a menor solidariedade íntima com o destino da ciência. relativamente à complexa civilização em que nasceu. os quais soem exercer sua profissão com um estado de espírito idêntico no essencial ao de quem se contenta com usar do automóvel ou comprar o tubo de aspirina -. Para mim é este da desproporção entre o proveito que o homem médio recebe da ciência e a gratidão que lhe dedica . multiplicar-se-iam automaticamente riqueza. um homem primitivo. como esta necessita delas.

estremecido. que invadiu o continente e cada ano ganha em corte mais de um quilômetro. como é sabido. nostálgico de sua paisagem . O homem-massa crê que a civilização em que nasceu e que usa é tão espontânea e primigênea como a Natureza. sobre o acrotério ou o telhado. se afoga sob o abraço da silvestre vegetação. que não avança para nenhum meio-dia. onde a pedra civilizada. Se o senhor quer aproveitar-se das vantagens da civilização. O "bom europeu" tem de se dedicar agora ao que constitui.A rebelião das massas. não se sustenta a si mesma. Quando um bom romântico divisa um edifício. mas não se preocupa de sustentar a civilização. Mas agora encontro-me em faina oposta. A civilização se lhe antolha selva. mas o corpo vulgar da Europa central não quer pô-las sobre os ombros.Málaga? Sicília? -. em que o natural e subumano tornava a oprimir a palidez humana da mulher. Também o romântico tem razão. Este desequilíbrio entre a sutileza complicada dos problemas e a das mentes será cada vez maior se não se remedeia. Os problemas que hoje levanta são arqui-intrincados. muito poucas. Não lhe interessam os valores fundamentais da cultura. A três por dois o senhor fica sem civilização. Sob essas imagens inocentemente perversas palpita um enorme e sempiterno problema: o das relações entre a civilização e o que ficou depois dela . O após-guerra nos oferece um exemplo bem claro disso. É artifício e requer um artista ou artesão. A reconstituição da Europa . Mas não acontece no mundo que é civilização. levou para a Austrália num vaso de barro uma figueirazinha. Cada vez é menor o número de pessoas cuja mente está à altura desses problemas. e o europeu vulgar revela-se inferior à tão sutil empresa. e constitui a mais elementar tragédia da civilização. a franquia para ocupar-me dele em outra ocasião e para ser na hora oportuna romântico. Os princípios em que se apoia o mundo civilizado . entre o racional e o cósmico. Pelo ano quarenta e tantos. e ipso facto converte-se em primitivo. Reclamo. E vice-versa. geométrica. o touro com Pasifae e Antíope sob o capro. Um descuido. o senhor está enfarado. Generalizando acharam um espetáculo mais sutilmente indecente na paisagem com ruínas. que por toda a parte a selva rebrota. mas agora é preciso acrescentar algumas precisões. um emigrante meridional. Seria estúpido rir do romântico. De tanto ser férteis e certeiros os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a primeira coisa que seus olhos procuram é.é um assunto demasiado algébrico. mas agora vou destacar apenas uma. como o nosso.htm (52 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . reaparece repristinada a selva primitiva. e quando o senhor olha à sua volta tudo se volatilizou! Como se houvessem recolhido uns tapetes que tapavam a pura Natureza. tudo é terra. Eu já o disse.. Os românticos de todos os tempos se desarticulavam ante esta cena de desolação.não existem para o homem médio atual. Isso acontece no mundo que é só Natureza. Não está disposto a pôr-se a seu serviço. em definitivo. torna-se tanto mais complexa e mais difícil. grave preocupação dos Estados australianos: impedir que as figueiras ganhem terreno e joguem os homens ao mar. Hoje os orçamentos da Oceania sobrecarregam-se com verbas onerosas destinadas à guerra contra a figueira. e pintavam o cisne sobre Lêda. Faltam cabeças.está se vendo . A selva sempre é primitiva.a Natureza -. Como aconteceu isto? Por muitas causas. A civilização. Não é que faltem meios para a solução. quanto mais avança. e não se faz solidário deles.. Tudo que é primitivo é selva. Mais exatamente: há algumas cabeças. Trata-se de conter a selva invasora.. Ele anuncia que.o que é preciso sustentar . o "amarelo saramago". A civilização não está aí. pois.

começou o mundo a involuir. que. então tudo é desvantagem. que hoje gravitam sobre nós. bem entendido. dois claros exemplos de regressão substancial. aumenta sua colheita em quantidade e em agudeza até ultrapassar a receptividade do homem normal. e. Mas agora é o homem quem fracassa por não poder continuar emparelhado com o progresso de sua própria civilização. O que é file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Civilização avançada é uma e mesma coisa com problemas árduos.embora subterraneamente . Parecem toscos labregos que com dedos grossos e desajeitados querem colher uma agulha que está sobre uma mesa. Sua política está pensada . Mas se o senhor.a involução. O saber histórico é uma técnica de primeira ordem para conservar e continuar uma civilização provecta. que só a técnica podia achar.htm (53 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . perdeu a memória do passado. cada vez mais complicada. O Império romano finda por falta de técnica. Todas as civilizações feneceram pela insuficiência de seus princípios. A questão não está em ser ou não ser comunista e bolchevista. como se sucedendo nesta hora pertencessem à fauna de antanho.quem no universo não possui uma porciúncula de razão? -. o senhor não aproveita sua experiência. isolado. Manejam-se. A européia ameaça sucumbir pelo contrário. Aquele saber histórico das minorias governantes . com que tratam sua parte de razão. em suma: história. e resume em sua substância a mais longa experiência. Daí que quanto maior seja o progresso. apesar de que no seu transcurso os especialistas a fizeram avançar muitíssimo como ciência (58). Por isso são bolchevismo e fascismo. Entre estes para concretizar um pouco . Não por que dê soluções positivas ao novo aspecto dos conflitos vitais .há um banalmente unido ao avanço da civilização. Ao chegar a um grau de povoação grande e exigir tão vasta convivência a solução de certas urgências materiais. por homens medíocres. mas seus princípios. princípios que a informam. isto é. Na Grécia e em Roma não fracassou o homem. A este abandono se devem em boa parte seus peculiares erros. Movimentos típicos de homens-massa dirigidos.governantes sensu lato . mas porque evita cometer os erros ingênuos de outros tempos. extemporâneos e sem memória extensa. por exemplo. os temas políticos e sociais com o instrumental de conceitos rombudos que serviram a duzentos anos para enfrentar situações de fato duzentas vezes menos sutis. sem "consciência histórica". Mas já o século XIX começou a perder "cultura histórica". além de ser velho. como pela maneira anti-histórica. Não discuto o credo. portanto. Não tanto pelo conteúdo positivo de suas doutrinas.pelo XVIII precisamente para evitar erros de todas as políticas antigas. tem naturalmente uma verdade parcial . a retroceder e consumir-se. as duas tentativas "novas" de política que na Europa e seus confinantes se estão fazendo. Pois eu creio que esta é a situação da Europa. à ingenuidade e primitivismo de quem não tem ou esquece seu passado. Eu sustento que hoje sabe o europeu dirigente muito menos história que o homem do século XVIII e mesmo do XVII. que é ter muito passado às suas costas. Mas é mister que cada nova geração se torne senhora desses meios adiantados. como todos os que o são. tanto mais em perigo está. A vida é cada vez melhor. está ideada em vista desses erros.A rebelião das massas. mas. vão-se aperfeiçoando também os meios para resolvê-los. Não creio que isto tenha acontecido jamais no passado. É claro que ao complicarem-se os problemas. o retrocesso à barbárie.a vida é sempre diferente do que foi -. Causa inquietude ouvir falar sobre os temas mais elementais do dia por pessoas relativamente mais cultas.tornou possível o avanço prodigioso do século XIX. muita experiência. de que sua vida começa a ser difícil. comportam-se desde o início como se houvessem passado já. Em seu último terço iniciou-se . anacrônica. As pessoas mais "cultas" de hoje padecem uma ignorância histórica incrível.

O qual nasceu. como o fascismo. E isto serão todos os movimentos que recaiam na simplicidade de travar uma luta com tal ou qual porção do passado. mas. É. segundo a lenda. Mas a inovação que o anti representa se desvanece no vazio ademane negador e deixa só como conteúdo positivo uma "antigualha".ser antiliberal ou não liberal . é mais vida que este. em vez de proceder a sua digestão. uma monótona repetição da revolução de sempre. período que coincide com a vigência de uma geração (59). Por isso não é interessante historicamente o acontecido na Rússia. Quem se declara anti-Pedro não faz.htm (54 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . E como já uma vez este triunfou daquela. com todos estes anti o que. Mas isso é precisamente o que acontecia ao mundo quando ainda não havia nascido Pedro.numa destruição da Europa. ou. Se deixar algo dele fora está perdido. Todo anti não é mais que um simples e vazio não. Nem um nem outro ensaio estão "à altura dos tempos". como o canhão é mais arma que a lança. "A revolução devora seus próprios filhos !" "A revolução começa por um partido moderado. O liberalismo é nela posterior ao anti-liberalismo. é o perfeito lugar comum das revoluções. porém não menos prováveis. inconcebível e anacrônico é que um comunista de 1917 se atire a fazer uma revolução que é em sua forma idêntica a todas as que houve antes e na qual não se corrigem os mínimos defeitos e erros das antigas. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A esses tópicos veneráveis podiam ajuntar-se algumas outras verdades menos notórias. não levam dentro de si resumido todo o pretérito. a seguir passa aos extremistas e começa mui rapidamente a retroceder para uma restauração". que não receba deplorável confirmação quando se aplica a esta. senão declarar-se partidário de um mundo onde Pedro não existe. aconteceu a Confúcio. repetirá sua vitória inumeráveis vezes ou se acabará tudo . nasceu já com oitenta anos enquanto seu progenitor não tinha mais que trinta. diabo!. depois de seu pai. Mas isso é justamente o que não pode fazer quem. Há uma cronologia vital inexorável. se declara anti-liberal. O antipedrista. Até o ponto de que não há frase feita. etc. uma atitude anti-algo parece posterior a este algo. Desde já. poderíamos dizer coisas similares do fascismo. posto que signifique uma reação contra ele e supõe sua prévia existência. O porvir o vence porque o devora. Não há dúvida de que é preciso superar o liberalismo do século XIX. das muitas que sobre as revoluções a velha experiência humana fez. são primitivismo. Quem aspire verdadeiramente a criar uma nova realidade social ou política. ao cabo da qual está inexoravelmente o reaparecimento de Pedro. necessita preocupar-se antes de tudo de que esses humílimos lugares comuns da experiência histórica fiquem invalidados pela situação que ele suscita. coloca-se antes e retrocede toda a película à situação passada. não trazem a manhã do amanhã.. etc. Por isso . Um e outro . Invertendo o signo que afeta o bolchevismo. naturalmente. De minha parte reservarei a qualificação de genial ao político que mal comece a operar comecem a ficar loucos os professores de História dos Institutos.bolchevismo e fascismo .A rebelião das massas. condição irremissível para superá-lo. traduzindo sua atitude à linguagem positiva. Com o passado não se luta corpo a corpo. interrompidas e feitas cisco. pois. por isso é estritamente o contrário de um começo de vida humana. em vez de colocar-se depois de Pedro.são duas falsas alvoradas. pelo contrário. já usado uma ou muitas vezes.liberalismo e anti-liberalismo .é o que fazia o homem anterior ao liberalismo. em vista de que todas as "leis" de sua ciência aparecem caducadas. entre elas esta: uma revolução não dura mais de quinze anos. Acontece. mas a de um arcaico dia. o que é o mesmo.

só tentativas por eles informadas. O máximo que este ensaio se atreve a solicitar é que revolução ou evolução sejam históricas e não anacrônicas. antes dirigido. estuda-se a estrutura psicológica deste novo tipo de homem-massa. O passado tem razão. encontra-se o seguinte: 1o. podem celebrar uma aparente vitória. O liberalismo tinha uma razão.que em toda época tem sido muito superficial . não discuto agora a entranha de um nem a do outro. A Europa não tem remissão se seu destino não é posto nas mãos de pessoas verdadeiramente "contemporâneas" que sintam palpitar debaixo de si todo o subsolo histórico. e essa é preciso dá-la per saecula saecculorum. intervirá em tudo impondo sua vulgar opinião. Se falei aqui de fascismo e bolchevismo não foi senão obliquamente. Mas não tinha toda a razão. vulgo rebelde. a meu juízo.não impede nem de longe que ambos sejam um mesmo homem. portanto. Esta resolução de avançar para o primeiro plano social produziu-se nele. A ÉPOCA DO "MOCINHO SATISFEITO" Resumo: O novo fato social que aqui se analisa é este: a história européia parece.. 3o. uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil. sem limitações trágicas. portanto. segundo um regime de "ação direta". Seria tudo muito fácil se com um não puro e simples aniquilássemos o passado. Contar com ele. e esta diferença . fixando-me só na sua feição anacrônica. a não ouvir.A rebelião das massas. porque alenta em estrato muito mais profundo que a política e suas dissensões. Não é mais nem menos massa o conservador que o radical. e de passagem a impor a que não tem. Comportar-se à sua vista para sorteá-lo. Mas. volta. Esta é a condição para superá-lo. a considerar bom e completo seu haver moral e intelectual. abastada. não recair nela. A Europa necessita conservar seu essencial liberalismo. Necessitamos da história íntegra para ver se conseguimos escapar dela. e. Por isso sua única autêntica superação é não mandá-lo embora. Ou dito em voz ativa: o homem vulgar. portanto. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a não pôr em tela de juízo suas opiniões e a não contar com os demais. o convida a afirmar-se a si mesmo tal qual é. pela primeira vez. mal chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. voltará a reclamá-la. quer dizer. sem considerações. trâmites nem reservas. Esta é. Este contentamento consigo o leva a fechar-se em si mesmo para toda instância exterior. entregue à decisão do homem vulgar como tal. como não pretendo dirimir o perene dilema entre revolução e evolução. com hiperestésica consciência da conjuntura histórica. à parte isso. XI. volta irremediavelmente. Atuará. Se o mandamos embora. como se somente ele e seus congêneres existissem no mundo.. que conheçam a latitude presente da vida e repugnem toda atitude arcaica e silvestre. cada indivíduo médio encontra em si uma sensação de domínio e triunfo que. automaticamente. evitá-lo. O tema que verso nestas páginas é politicamente neutro.. Sua sensação íntima de domínio o incita constantemente a exercer predomínio. Mas o passado é pura essência revenant. Se atendendo aos defeitos da vida pública. "a altura dos tempos". Se não se lhe dá essa que tem. Porque hoje triunfa o homem-massa. resolveu governar o mundo. Em suma. inseparável de tudo que hoje parece triunfar. e essa que não tinha é a que se devia tirar-lhe. a sua.htm (55 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . 2o. contemplações. pois. saturadas de seu estilo primitivo.

precisamente.os que se podem reunir na classe geral "homem-herdeiro". por falta de uso e esforço vital. pelo contrário. Ele não tem. mostrando como muitos dos traços característicos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a segurança. A abundância de meios que está obrigado a manejar não o deixa viver seu próprio e pessoal destino. que o veja diante de si e não suspeite que aquilo. Por razões muito rigorosas e arquifundamentais que agora não é oportuno enunciar. de repente e sem saber como. em vez dessas razões. em forma muito diferente da que este ensaio reveste. e converte-se em pura representação ou ficção de outra vida. O garoto mimado é o herdeiro que se comporta exclusivamente como herdeiro. São a carapaça gigantesca de outra pessoa. é. quer dizer.htm (56 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . tradição social. e outro um menino mimado e outro. em meio de sua riqueza e de suas prerrogativas. a rigor. Tenderíamos ilusoriamente a crer que uma vida nascida em um mundo abastado seria melhor. o bárbaro.) Não é necessário estranhar que eu acumule dictérios sob esta figura de ser humano. inspirado por tal caráter. E tem de viver como herdeiro. portanto. As dificuldades com que tropeço para realizar minha vida são. em suma. Pelo contrário. no "aristocrata" herdeiro toda a sua pessoa vai se desvanecendo. ninguém descreveu ainda em seu interno e trágico mecanismo . Mas não é verdade. de que o "aristocrata" não é senão um caso particular.religião. as vantagens da civilização -.A rebelião das massas. basta recordar o fato sempre repetido que constitui a tragédia de toda a aristocracia hereditária. o homem-massa de nosso tempo -. que não se produzem organicamente unidas a sua vida pessoal e própria. fofa. tem de usar a carapaça de outra vida. Um mundo abundoso (60) de possibilidades produz automaticamente graves deformações e viciosos tipos de existência humana . tabus. Está condenado a representar o outro. fantasmática. minhas capacidades. Este repertório de feições fez com que pensássemos em certos modos deficientes de ser homem. só dentro da folga social que esta fabricou no mundo. de outro ser vivente. O resultado é essa específica parvoíce das velhas nobrezas. Se meu corpo não me pesasse eu não poderia andar. atrofia sua vida. nada que ver com elas. O aristocrata herda. pode surgir um homem constituído por aquele repertório de feições. Sua vida perde inexoravelmente autenticidade. costumes -. Acha-se ao nascer instalado. sentiria meu corpo como uma coisa vaga. é o ataque a fundo. o que desperta e mobiliza minhas atividades. precisamente. porque não vêm dele. Agora a herança é a civilização . Assim. é o homem mais dócil a instâncias superiores que jamais existiu . Por enquanto trata-se de um ensaio de ataque: o ataque a fundo virá depois. Se a atmosfera não me oprimisse. como o "menino mimado" e o primitivo rebelde. mais vida e de superior qualidade à que consiste. que não se assemelha a nada e que.o interno e trágico mecanismo que conduz toda a aristocracia hereditária à sua irremediável degeneração. Em que ficamos? Que vida vai viver o "aristocrata" de herança. a não ser nem o outro nem ele mesmo. caberia aproveitar mais detalhadamente a anterior alusão ao "aristocrata". com efeito. esforço por ser ela mesma. (Por outra parte. O ataque a fundo tem de vir de maneira que o homem-massa não se possa precaver contra ele. encontra atribuídas a sua pessoa umas condições de vida que ele não criou. talvez muito breve. quer dizer. seu antepassado.as comodidades. Este personagem. precisamente aquilo. a sua ou a do prócer inicial? Nem uma nem outra. Toda vida é luta. intimamente. e o anúncio de que uns quantos europeus vão reagir energicamente contra sua pretensão de tirania. Valha isto tão somente para enfrentar nossa ingênua tendência a crer que a abundância de meios favorece a vida. portanto. (O primitivo normal. Como vimos. muito mais amplo e radical. o garoto mimado da história humana. Agora. É uma de tantas deformações como o luxo produz na matéria humana. que agora anda por toda a parte e onde quer impor sua barbárie íntima. isto é. O presente ensaio não é mais que um primeiro ensaio de ataque a esse homem triunfante. em lutar com a escassez.

Podemos perfeitamente file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A forma mais contraditória da vida humana que pode aparecer na vida humana é o "mocinho satisfeito". irremediável e irrevogável. quando se torna figura predominante. Cabe formular esta lei que a paleontologia e a biogeografia confirmam: a vida humana surgiu e progrediu só quando os meios com que contava estavam equilibrados pelos problemas que sentia. é preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se acha ameaçada de degeneração. fazendo-o perder contacto com a substância mesma da vida. que este novíssimo bárbaro é um produto automático da civilização moderna. etc. os pigmeus . do qual percebe só a superabundância de meios. o "filho de família" forja para si esta ilusão.regime higiênico e atenção à beleza do traje -. e vice-versa. as raças inferiores . os girinos na alverca. Este desequilíbrio o falsifica. Por exemplo: a propensão de fazer ocupação central da vida os jogos e os esportes. tanto na ordem espiritual como na física. Não é o que não se deva fazer o que esteja na vontade da pessoa. por seu turno. mas isto não nos deixa em liberdade para fazer outra coisa que esteja na nossa vontade. que é absoluto perigo. especialmente da forma que esta civilização no século XIX. não percebe o instável que é a organização do Estado. o animal-homem degenera. para me referir a uma dimensão muito concreta da vida corporal. tudo. Insisto.).a nolição -. até os maiores delitos. Cabe unicamente negar-se a fazer isso que é preciso fazer. preferir a vida sob a autoridade absoluta a um regime de discussão (61). e tolera dentro de si muitos atos que na sociedade.htm (57 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Assim.foram repelidas para os trópicos por raças nascidas depois delas e superiores na escala da evolução (62). se dão. etc. faz temer que nem conserve sua altura nem produza outro nível mais elevado. porém. Nos trópicos. mas se olhamos o porvir. como. radical problematismo. o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e assegurar para o futuro sua produção. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos. pois. e mal sente dentro de si obrigações. deste. é que não se pode fazer senão o que cada qual tem que fazer. O âmbito familiar é relativamente artificial. mas não as angústias.por exemplo. segundo Aristóteles. como se diz ao papagaio no conto do português. de medicinas benéficas. mas. o nível vital que representa a Europa de hoje é superior a todo o passado humano. Segundo isto. de relativa morte. Por isso acredita que pode fazer o que bem entende (63). tem que ser. divertir-se com o intelectual. penso. não estimá-lo e mandar que os lacaios ou os esbirros o açoitem. Já sabemos por que: no âmbito familiar. Não veio de fora ao mundo civilizado como os "grandes bárbaros brancos" do século V. no ar da rua trariam automaticamente conseqüências desastrosas e iniludíveis para seu autor. mas é o seu fruto natural. Com efeito. no fundo. a civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se em um mundo abundante. Ignora. Pois bem. Por isso. que retroceda e recaia em altitudes inferiores. Grande equívoco! Vossa Mercê irá aonde o levem. em todos os povos e tempo. Isto. Isto é verdade. falta de romanticismo na relação com a mulher. aquele que acredita que nada é fatal. não nasceu tampouco dentro dele por geração espontânea e misteriosa. vicia-o em sua raiz de ser vivente. pelo contrário. Porque é um homem que veio à vida para fazer o que bem entende. com leal desgosto em fazer ver que este homem cheio de tendências incivis. pode ficar no final das contas impune. Mas o "mocinho" é aquele que acredita poder comportar-se fora de casa como em casa.A rebelião das massas. o cultivo do seu corpo . Neste ponto possuímos apenas uma liberdade negativa de arbítrio . quer dizer. de Estados previdentes. no homem-massa. recordarei que a espécie humana brotou em zonas do planeta onde a estação quente ficava compensada por uma estação de frio intenso. de direitos cômodos. de maneira germinal. faz ver com suficiente clareza a anormalidade superlativa que representa o "mocinho satisfeito".

em última instância. Toda essa pressa para adotar em todas as ordens atitudes aparentemente trágicas.htm (58 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . intelectual. rigoroso perfil na consciência de ter que fazer o que não está na nossa vontade. O que fazem. que são falsas e funestas todas as maneiras concretas em que se tentou até agora realizar esse imperativo irremissível de ser politicamente livre. fazem-no sem o caráter de irrevogável.no católico que presta mais leal adesão ao Syllabus (64). mas que está aí. Porque esta é a tônica da existência no homem-massa: a inseriedade.queira ou não queira. é só a aparência. Se o aceitamos. e que nela se recairá sempre que a verdade seja necessária. irremediavelmente. fica em pé a última evidência de que no século último tinha substancialmente razão.o que vitalmente se tem que ser ou não se tem que ser . científica. uma verdade que não é teórica. por muitas atitudes que tenham para nos convencer e convencer-se do contrário. somos autênticos. Mas o destino . a falsificação de nós mesmos (65). entretanto.não se discute. O destino não consiste naquilo que temos vontade de fazer. devemos afirmar que não o crê. se não o aceitamos. fingir com seus atos e palavras a convicção contrária. inexorável. mas todo seu sentido e sua força estão em ser discutidas. porque não conheço a cada leitor. precisamente porque sabe que esta não faltará nunca no fim das contas e em sério. que o homem europeu atual tem de ser liberal. que o homem ocidental de hoje é. últimas. Todos "sabem" que além das justas críticas com que se combatem as manifestações do liberalismo fica a irrevogável verdade deste. por muito que grite e ainda se deixe matar para sustentá-lo. uma verdade de destino -. O fascista se mobilizará contra a liberdade política. na substância mesma da vida européia.A rebelião das massas. Quase todas as posições que se tomam e ostentam são internamente falsas. Não discutamos se esta ou a outra forma de liberdade é a que tem de ser. Há file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como faz suas travessuras o "filho de família". mas é para cair prisioneiro nos graus inferiores de nosso destino. Eu não posso fazer isto evidente a cada leitor no que seu destino individualíssimo tem como tal. a cegar-se ante sua evidência e sua chamada profunda. Vive-se humoristicamente e tanto mais quanto mais trágica seja a máscara adotada. Os únicos esforços que fazem destinam-se a fugir do próprio destino. Um furacão de farsa geral e onímoda sopra sobre o torrão europeu. mas de uma ordem radicalmente diferente e mais decisiva de tudo isso . vivem enquanto se discutem e estão feitas exclusivamente para a discussão. com plena e incontrastável verdade. como atua . que isso que a Europa tentou no último século com o nome de liberalismo é. Por exemplo: todo europeu atual sabe. no fundo de sua consciência. mas é possível fazê-lo ver naquelas porções ou facetas de seu destino que são idênticas às de outros. As verdades teóricas não são discutíveis. talhantes. somos a negação. e por isso mesmo. a evitar cada qual o confronto com isso que tem que ser. Se alguém se obstina em afirmar que dois mais dois é igual a cinco e não há motivo para supô-lo clemente. Embora se demonstre. mas melhormente se reconhece e mostra seu claro. mas sim aceita-se ou não. Brincam de tragédia porque crêem que não é verossímil a tragédia efetiva no mundo civilizado. queira ou não queira. Esta evidência última atua tanto no comunista europeu como no fascista. inscrito no destino europeu. nascem da discussão. com uma certeza muito mais vigorosa que a de todas as suas idéias e "opiniões" expressas. a "piada". Seria bom que estivéssemos forçados a aceitar como autêntico ser de uma pessoa o que ela pretendia mostrar-nos como tal. na hora das seriedades. Refiro-me a que o europeu mais reacionário sabe. creia-o ou não .a saber. Pois bem: "o mocinho-satisfeito" caracteriza-se por "saber" que certas coisas não podem ser e. algo iniludível. desertar de nosso destino mais autêntico.

e. Convém não fechar sua exposição geral sem analisar. não obstante a singularidade de sua fisionomia. . Assim acontece que mal chega à sua máxima atitude a civilização mediterrânea . no período chelense. oriental .mesopotâmica. A China chegou a um alto grau de tecnicismo sem suspeitar em nada a existência da física.espraiam-se até um ponto de desenvolvimento que não podem ultrapassar. porque tampouco conseguiu seu propósito -.O cínico. A técnica contemporânea nasce da copulação entre o capitalismo e a ciência experimental. Por isso. Esta civilização do século XIX. e apenas o tocam começam a retroceder em lamentável involução. pode resumir-se em duas grandes dimensões: democracia liberal e técnica. tentar desfazer. Quase ninguém apresenta resistência aos superficiais torvelinhos que se formam em arte ou em idéias. pela mesma razão de que está convencido de que ela não desaparecerá.déracinées de seu destino . mais que nunca triunfa a retórica. cisnes e faunesas". e dessa raiz lhe vem seu caráter específico. Jamais criou nem fez nada. que se achava atrás de cada esquina e em todas as alturas. Que faria o cínico num povo selvagem onde todos. considera como seu papel pessoal? Que é um fascista se não fala mal da liberdade e um superrealista se não perjura da arte! Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem nascido no mundo demasiadamente bem organizado. pelo contrário. porque é "civilização" . em que a pessoa não se finca inteira e sem reservas. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Tomemos agora somente a última. fazem o que ele em farsa.htm (59 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O cínico tornou-se um personagem pululante. uma casa -. Aquele que fabricou os machados de pedra. O contorno o mima. a tese ganha em força persuasiva. grega. O superrealista acredita haver superado toda a história literária quando escreveu "aqui uma palavra que não é necessário escrever" onde outros escreveram "jasmins. nilota. Mas é claro que com isso só fez extrair outra retórica que até agora jazia nas latrinas. Diógenes pateia com suas sandálias sujas de lama os tapetes de Arístipo. vive de negá-la. As demais técnicas .A rebelião das massas.melhor dito. parasita da civilização. o cínico não fazia outra coisa senão sabotar aquela civilização. romana. Não toda técnica é científica. ou nos usos sociais. Esclarece a situação atual advertir. e o "filho de família" não sente nada que o faça sair de sua índole caprichosa. e muito menos que o obrigue a tomar contato com o fundo inexorável de seu próprio destino. ou em política. vegeta suspenso ficticiamente no espaço. carecia de ciência. O homem-massa não afirma o pé sobre a firmeza incomovível de seu signo. Era o nihilista do helenismo. do qual só percebe as vantagens e não os perigos. Desta sorte. XII. É a época das "correntes" e do "deixar-se ir". ao concretizar-se. naturalmente e a sério. Ora bem. não obstante. a mecânica dessa produção. criou uma técnica. dizia eu. humorismo onde quer que se vive de atitudes revogáveis. Só a técnica moderna da Europa possui uma raiz científica.aparece o cínico.se deixem arrastar pela mais inconstante corrente. num caso particular.por volta do século III A. C. seu papel era desfazer . a possibilidade de um ilimitado progresso. Por isso é que nunca como agora estas vidas sem peso e sem raiz . A BARBÁRIE DO "ESPECIALISMO" A tese era que a civilização do século XIX produziu automaticamente o homem-massa.isto é. a porção que de comum tinha com outras do passado. que incite a ouvir instâncias externas superiores a ele.

A ciência não é especialista. médico. o homem de ciência tem sido constrangido.irremissivelmente . A coisa é muito conhecida: fez-se constar inúmeras vezes. por ter de reduzir sua órbita de trabalho. Quem.especializado. Isso faria ver como. Assim. Ipso facto deixaria de ser verdadeira. não a ciência. não designa aqui uma classe social. De 1800 a 1914 ascende a mais de 460 milhões. adquire a plenitude de seu sentido e a evidência de sua gravidade. Tal foi a obra de Newton e demais homens de seu tempo. Quem exerce o poder social? Quem impõe a estrutura de seu espírito na época? Sem dúvida. somente articulada no organismo deste ensaio. Seria de grande interesse. Mas o trabalho nela tem de ser . Os homens de ciência. mas uma classe ou modo de ser homem que se dá hoje em todas as classes sociais. da lógica. Agora vamos ver isso com sobrada evidência. Se um personagem astral visitasse a Europa.não se entende especialmente o obreiro. etc. quero dizer. mas justamente o inverso: como em cada geração o científico. seus homens de ciência. com a aristocracia do presente? Sem dúvida. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. financista. nem por defeito unipessoal de cada homem de ciência. fazer uma história das ciências físicas e biológicas. preferia ser julgada. e maior utilidade que a aparente à primeira vista. Mas não é isto o importante que essa história nos ensinaria.prevenia eu no princípio . tomada na sua integridade. que por isso mesmo representa o nosso tempo. é verdadeira se a separamos da matemática. obrigou a um esforço de unificação. professor etc. cume da humanidade européia. geração após geração. encerrado num campo de ocupação intelectual cada vez mais estreito. a constituição da física. o representa com maior altitude e pureza? Sem dúvida.raiz da civilização . como eu disse.engendrou o homem-massa no sentido quantitativo desta expressão. Quem. dentro dessa burguesia é considerado como o grupo superior. o técnico: engenheiro. encerra germinalmente todas estas meditações. Mas o desenvolvimento da física iniciou uma faina de caráter oposto à unificação para progredir. mas procuraria a regra. mas porque a técnica mesma . o tipo genérico "homem de ciência". Mas estas páginas tentaram mostrar que também é responsável da existência do homem-massa no sentido qualitativo e pejorativo do termo. o homem de ciência. dentro do grupo técnico. não há dúvida de que a Europa apontaria satisfeita e certa de uma sentença favorável. sobre o qual predomina e impera.junto com a democracia liberal . entre os que a habitam. O pulo é único na história humana. um bárbaro moderno. A ciência experimental inicia-se ao finalizar o século XVI (Galileu). É claro que o personagem astral não perguntaria por indivíduos excepcionais. consegue constituir-se nos finais do XVII (Newton) e começa a desenvolver-se nos meados do XVIII. da filosofia. O desenvolvimento de algo é coisa diferente de sua constituição e está submetido a condições diferentes. mostrando o processo de crescente especialização no trabalho dos investigadores. Não há dúvida de que a técnica . Por "massa" .htm (60 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Nem sequer a ciência empírica. Esta maravilhosa técnica ocidental tornou possível a maravilhosa proliferação da casta européia. mas. a burguesia. e com ânimo de julgá-la lhe perguntasse por que tipo de homem. Recorde-se o dado de que tomou seu vôo este ensaio e que. ia progressivamente perdendo contato com as demais partes da ciência. Pois bem: o homem de ciência atual é o protótipo do homem-massa. Do século V a 1800 a Europa não consegue ter uma população superior a 180 milhões. faz dele um primitivo. nome coletivo da ciência experimental. E não por casualidade. a ciência necessitava que os homens de ciência se especializassem.o converte automaticamente em homem-massa.A rebelião das massas.

Esta é a situação íntima do especialista. Não é um sábio. Eu disse que era uma configuração humana sem igual em toda a história. raiz e símbolo da civilização atual. por uma e outra de suas vertentes e aspectos. encontramo-nos com um tipo de científico sem exemplo na história. conhece apenas determinada ciência. que é o único merecedor dos nomes de ciência. que a ciência moderna. e denomina diletantismo a curiosidade pelo conjunto do saber.htm (61 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a equação se deslocou. e nem sequer é forçoso para obter abundantes resultados possuir idéias rigorosas sobre o sentido e fundamento deles. coisa sobremodo grave. junto com outros pedaços não existentes nele. Trabalha-se com um desses métodos como com uma máquina. cultura. e a especialidade começa a desalojar dentro de cada homem de ciência a cultura integral. E. e ainda dessa ciência só conhece bem a pequena porção em que ele é ativo investigador. num tempo que chama homem civilizado ao homem "enciclopédico". em sábios e ignorantes. que nos primeiros anos deste século chegou à sua mais frenética exageração. com efeito. O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e fazendo ver todo o radicalismo de sua novidade. A firmeza e exatidão dos métodos permitem esta transitória e prática desarticulação do saber. civilização européia. É um homem que. O século XIX inicia seus destinos sob a direção de criaturas que vivem enciclopedicamente. consegue. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. que ele apenas conhece.A rebelião das massas. Para os efeitos de inúmeras investigações é possível dividir a ciência em pequenos segmentos. vantagem maior e perigo máximo da ciência nova e de toda civilização que esta dirige e representa: a mecanização. fechado na estreiteza de seu campo visual. porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade. e menos que medíocres. deu guarida dentro de si ao homem intelectualmente médio e lhe permite operar com bom êxito. Porque outrora os homens podiam dividir-se. Como foi e é possível coisa semelhante? Porque convém repisar a extravagância deste fato inegável: a ciência experimental progrediu em boa parte mercê do trabalho de homens fabulosamente medíocres. definir. Assim a maior parte dos científicos propelem o progresso geral da ciência encerrados num nicho de seu laboratório. Na geração seguinte. O caso é que. Chega a proclamar como uma virtude o não tomar conhecimento de quanto fique fora da estreita paisagem que especialmente cultiva. embora sua produção tenha já um caráter de especialismo. ao mesmo tempo. A razão disso está no que é. não como um ignorante. O investigador que descobriu um novo fato da Natureza tem por força de sentir uma impressão de domínio e de segurança em sua pessoa. pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora. A especialização começa. com uma interpretação integral do universo. mas tampouco é um ignorante. com efeito. simplesmente. constituem verdadeiramente o saber. como a abelha no seu alvéolo. porque é "um homem de ciência" e conhece muito bem sua porciúncula de universo. mas ignora basicamente todo o resto. Por isso cria uma casta de homens sobremodo estranhos. Uma boa parte das coisas que é preciso fazer em física e em biologia é faina mecânica de pensamento que pode ser executada por qualquer pessoa. e com ela a enciclopédia do pensamento. Com certa aparente justiça se considerará como "um homem que sabe". Devemos dizer que é um sábio ignorante. em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. precisamente. Quer dizer. que conscienciosamente desconhece. O especialista "sabe" muito bem seu mínimo rincão de universo. Eis aqui um precioso exemplar deste estranho homem novo que eu tentei. de tudo quanto há de saber para ser um personagem discreto. encerrar-se em um e desinteressar-se dos demais. Quando em 1890 uma terceira geração assume o comando intelectual da Europa. mas com toda a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. descobrir novos fatos e fazer avançar sua ciência. nele se dá um pedaço de algo que.

e. nas outras ciências tomará posições de primitivo. médicos. A advertência não é vaga. haja muito menos homens "cultos" que. o mais oposto ao homem-massa. na arte. professores.com estes nomes simboliza-se só a massa enorme de pensamentos filosóficos e psicológicos que influíram em Einstein . Essa condição de "não ouvir". ainda neste caso. produziu esse broto de primitivismo e barbárie. Porque esta necessita de tempo em tempo. e sua barbárie é a causa mais imediata da desmoralização européia. O resultado mais imediato desse especialismo não compensado tem sido que hoje. mas as tomará com energia e suficiência. Newton pode criar seu sistema físico sem saber muita filosofia. petulância de quem na sua questão especial é um sábio.serviram para liberar a mente desse e deixar-lhe a via livre para sua inovação. A decadência de vocação científica que se observa nestes anos . depois deles. como orgânica regulação de seu próprio incremento. este é o comportamento do especialista.e isto é o paradoxal . isto é. Quem quiser pode observar a estupidez com que pensam. isso requer um esforço de unificação. A física entra na crise mais profunda de sua história. e é claro. muito mais radicalmente ignora as condições históricas de sua perduração. mas essa mesma sensação íntima de domínio e valia o levará a querer predominar fora de sua especialidade. e ignorantíssimo.e. pois. Por outra parte. e só poderá salvá-la uma nova enciclopédia mais sistemática que a primeira. nos usos sociais. que cada vez complica regiões mais vastas do saber total. para que possa continuar havendo investigadores. que tornou possível o progresso da ciência experimental durante um século. em arte. E a conseqüência é que.é um sintoma preocupador para todo aquele que tenha uma idéia clara do que é civilização.A rebelião das massas. aproxima-se a uma etapa em que não poderá avançar por si mesmo se não se encarrega uma geração melhor de construir-lhe um novo forno mais poderoso. mas Einstein precisou saturar-se de Kant e de Mach para poder chegar a sua aguda síntese. cume de nossa atual civilização. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. financistas. como eu disse. Em política. a idéia que sói faltar ao típico "homem de ciência". Eles simbolizam. simplesmente. sem admitir . Mas Einstein não é suficiente. Ao especializá-lo a civilização o tornou hermético e satisfeito dentro de sua limitação. O especialismo.especialistas dessas coisas. como devem estar organizados a sociedade e o coração do homem. quando há maior número de "homens de ciência" que nunca. o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida. como a crosta terrestre e a selva primigênea. com efeito. que representa um maximum de homem qualificado . na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os "homens de ciência". e em grande parte constituem o império atual das massas.à qual já aludi . Mas se o especialista desconhece a fisiologia interna da ciência que cultiva.especialismo . de não se submeter a instâncias superiores que reiteradamente apresentei como característica do homem-massa. Também ele acredita que a civilização está aí. em 1750. julgam e atuam hoje na política. portanto. E. por exemplo. um trabalho de reconstituição. engenheiros. significam o mais claro e preciso exemplo de como a civilização do último século abandonada à sua própria inclinação. etc. E o pior é que com esses perdigueiros do forno científico nem sequer está garantido o progresso íntimo da ciência. chega ao cúmulo nesses homens parcialmente qualificados. cada vez mais difícil. Kant e Mach .htm (62 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .

aspirar a isso -. mas este impõe file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. no mínimo. Como todos os demais perigos que ameaçam esta civilização. mas que sem eles . Pretender a massa atuar por si mesma é. O ESTADO Numa boa ordenação das coisas públicas. influída. a única doutrina. que tampouco o era. No dia em que volte a imperar na Europa uma autêntica filosofia (66) . afinal de contas. Necessita referir sua vida à instância superior. Porque no final das contas a única coisa que substancialmente e com verdade pode chamar-se é a que consiste em não aceitar cada qual seu destino. porque não tem outra: lincha. senão. Se consegue por si mesmo encontrá-la. com uma réplica do que no capítulo anterior se disse sobre a ciência: a fecundidade de seus princípios a propelem a um fabuloso progresso. embora leve a Europa todo um século metendo a cabeça debaixo da asa.htm (63 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O MAIOR PERIGO. Hoje chegou a seu máximo desenvolvimento. é coisa sobre a qual convém que não haja dúvida alguma. as ondas a cospem nas costas da retórica.o que não era seu destino . nada menos que palavra e conserva sempre algo de seu poder mágico. em rebelar-se contra si mesmo. Nem muito menos poderá estranhar que agora.a humanidade não existiria no que tem de mais essencial. À realidade sobrevive seu nome que. mas numa lei da "física" social. que não é mais nem menos contra Deus que o outro tão famoso). organizada . Encontramo-nos. Porque não se trata de uma opinião fundada em fatos mais ou menos freqüentes e prováveis. Mas ainda quando não seja impossível que tenha começado a minguar o prestígio da violência como norma cinicamente estabelecida. representada. rebelar-se contra seu próprio destino. ou. e isso é um bom sintoma. pervive largamente. seu hospital de inválidos. porque significa que automaticamente vai iniciar-se seu descenso. a fazem sua. bem que em outra forma. onde. é que é um homem excelente. teria talvez preferido este último estilo de rebeldia. XIII.se houvesse obstinado em ser o mais ínfimo dos anjos. muito mais incomovível que as leis da física de Newton. fá-lo só de uma maneira. Refiro-me ao perigo maior que hoje ameaça a civilização européia. também este nasceu dela. (Se Luzbel tivesse sido russo. ainda sendo sua palavra. naufragou e morreu. compreender-se-á que o homem é.única coisa que pode salvá-la -. A retórica é o cemitério das realidades humanas. Veio ao mundo para ser dirigida.até para deixar de ser massa. os inanes. Tal é a sua missão. pois. ao modo dos estrúcios para ver se consegue não ver tão radiante evidência. A rigor. cadáver. e como isso é o que faz agora. constituída pelas minorias excelentes. pois. continuaremos sob seu regime. Quando uma realidade humana cumpriu sua história. já que a América é de certo modo o paraíso das massas. a rebelião do arcanjo Luzbel não o houvera sido menos se em vez de empenhar-se em ser Deus . quando as massas triunfam. Hoje é já a violência a retórica do tempo. Há muito tempo que eu fazia notar este comércio da violência como norma (67). Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si. como Tolstoi. os retóricos. é o Estado contemporâneo. é que é um homem-massa e necessita recebê-la daquele. falo eu da rebelião das massas. Mais ainda: constitui uma de suas glórias. um ser constitutivamente forçado a procurar uma instância superior. tenha ou não vontade disso. Discuta-se quanto se queira quem são os homens excelentes. triunfe a violência e se faça dela a única ratio. é.sejam uns ou outros . Quando a massa atua por si mesma. pelo menos. Não é completamente casual que a lei de Lynch seja americana. a massa é o que não atua por si mesma.A rebelião das massas.

Viviam da outra víscera. e com isso. mas porque não havia meios. automaticamente. E tudo que com posterioridade pode dar-se ares de revolução. antes de tudo e sobretudo uma coisa: talento. açoitado de todos os lados por uma ampla e revolta sociedade. a nova técnica. coberto estupidamente de ferro. o Estado chegou a ser máquina formidável que funciona prodigiosamente. Sem eles não existiriam as nações da Europa. Mas com todas essas virtudes do coração. em suma. gente admirável por sua coragem. Por isso não puderam desenvolver nenhuma técnica. Rememore-se o que era o Estado nos fins do século XVIII em todas as nações européias. Adeus revoluções para sempre! Já não cabe na Europa mais que o contrário: o golpe de Estado. navegava ao azar a "nave do Estado". que comparando a situação com a vigente em tempo de Carlos Magno. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O enorme desnível entre a força social e a do poder público tornou possível a Revolução. mais poderosa em número e potência que as preexistentes: a burguesia. intuitivos. as revoluções (até 1848). em compensação. De inteligência muito limitada. E não certamente porque não houvesse motivos para elas. de uma maravilhosa eficiência pela quantidade e precisão dos seus meios. muito menos poderoso que o de Luís XVI. basta tocar u'a mola para que atuem suas enormes alavancas e operem fulminantes sobre qualquer parte do corpo social. A mesma coisa acontece com o Estado. inexoravelmente a especialização. onde pela primeira vez triunfa a técnica. apenas tinha dinheiro. a racionalizada. deixaram que os burgueses . mal de cabeça.de ordem pública e de administração -. a sociedade que o rodeava não tinha força nenhuma (69). Esta burguesia sem mérito possuía. sempre andaram. e em pouco mais de uma geração criou um Estado poderoso. Bem pouca coisa! O primeiro capitalismo e suas organizações industriais. A nave do Estado é uma metáfora reinventada pela burguesia. por seu sentido de responsabilidade. aparece o Estado do século XVIII como uma degeneração. No meio dela. não foi mais que um golpe de Estado com máscara. o "antigo regime" chega aos fins do século XVIII com um Estado fraquíssimo. Mas com a Revolução apossou-se do Poder público a burguesia e aplicou ao Estado suas inegáveis virtudes. talento prático. que apenas podia mover-se na lida.tomando-as do Oriente ou outro lugar . Nivelou-se o Poder público com o poder social. "irracionais".htm (64 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . coisa que obriga à racionalização. Aquela nave era coisa de nada ou pouco mais: apenas tinha soldados. disciplinar. Em nosso tempo. ao "cavalheiro".utilizassem a pólvora. que se sentia a si mesma oceânica. Sabia organizar. e a quem não ocorrera que o segredo eterno da guerra não consiste tanto nos meios de defesa como nos de agressão (segredo que Napoleão redescobriria) (68) Como o Estado é uma técnica . Incapazes de inventar novas armas. haviam produzido um primeiro crescimento da sociedade. instintivos. quer dizer. dar continuidade e articulação ao esforço. como num oceano. sentimentais. onipotente e grávida de tormentas. está claro. que acabou com as revoluções. apenas tinha burocratas. ganharam a batalha ao guerreiro nobre. O Estado carolíngio era. Havia sido fabricada na Idade Média por uma classe de homens muito diferentes dos burgueses: os nobres.A rebelião das massas. por seu dom de mando. Plantada no meio da sociedade. os nobres andavam. A desproporção entre o poder do Estado e o poder social é tal nesse momento. desde que começa a segunda geração de governos burgueses não há na Europa verdadeiras revoluções. mas. Desde 1848. Entediaram-se. Não inventaram a pólvora. Uma nova classe social apareceu. e a especialização ameaça afogar a ciência.

Faltam até soldados. O Estado contemporâneo é o produto mais visível e notório da civilização. Este o vê.apenas ao premir a mola e fazer funcionar a portentosa máquina. depois de sugar a medula da sociedade. morto com essa morte ferrugenta da máquina. Quando a massa sente uma desventura. para a máquina do Governo. começa a decair o corpo social. Adverte-se qual é o processo paradoxal e trágico do estatismo? A sociedade. o que é um perfeito erro. não se esqueça). garantindo sua vida. A espontaneidade social ficará violentada uma vez e outra pela intervenção do Estado. Mas o caso é que o homem-massa crê. Imagine-se que sobrevem na vida pública de um país qualquer dificuldade. mas não tem consciência de que é uma criação humana inventada por certos homens e mantida por certas virtudes e por certo que houve ontem nos homens e que pode evaporar-se amanhã. Por isso é. Este foi o signo lamentável da civilização antiga. A vida toda se burocratiza. antes de tudo. Esta burocratização em segunda potência é a militarização da sociedade. em idéias. o homem. as matrizes são cada vez menos fecundas. Os Severos. a esmagar com ele toda minoria criadora que o perturbe .que o perturbe em qualquer ordem: em política. nutre e impele os destinos humanos. como um utensílio. o Estado. exército. A sociedade terá de viver para o Estado. O Estado é a massa só no sentido em que se pode dizer de dois homens que são idênticos porque nenhum dos dois se chama João. militarizam o mundo. e a sociedade tem de começar a viver para o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a anulação da espontaneidade histórica. ou simplesmente algum forte apetite. sabe que está aí.A rebelião das massas. Mas. Por outra parte. produtor de segurança (a segurança de que nasce o homem-massa. para subvencionar suas próprias necessidades. que se encarregue diretamente de resolvê-lo com seus gigantescos e incontrastáveis meios. cria. E como no final das contas não é senão u'a máquina cuja existência e manutenção dependem da vitalidade circundante que a mantenha. esquelético. Esta começa a ser escravizada. conflito ou problema: o homem-massa tenderá a exigir que imediatamente o assuma o Estado. precatar-se da atitude que ante ele adota o homem-massa. admira-o. e como ele se sente a si mesmo anônimo vulgo -. Faina vã! A miséria aumenta. quer dizer. luta. que em definitivo sustenta. força mais a burocratização da existência humana. antes de tudo. apenas chegou a seu pleno desenvolvimento. Depois. Então o Estado. e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto. o Estado. nenhuma nova semente poderá frutificar. Estado contemporâneo e massa coincidem só em ser anônimos. com efeito. o intervencionismo do Estado. curiosa coincidência. seu exército. Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatificação da vida. ficará héctico. O Estado é. Já nos tempos dos Antoninos (século II) o Estado gravita com uma antivital supremacia sobre a sociedade. a não poder viver mais que em serviço do Estado. O resultado desta tendência será fatal. A riqueza diminui e as mulheres parem pouco. incomparavelmente superior como artefato ao velho Estado republicano das famílias patrícias. A urgência maior do Estado é seu aparato bélico. E é muito interessante.sem esforço. Depois dos Severos. dúvida nem risco . Não há dúvida que o Estado imperial criado pelos Júlios e os Cláudios foi u'a máquina admirável. muito mais cadavérica que a do organismo vivo. A massa diz a si mesma: "o Estado sou eu". crê que o Estado é coisa sua. em indústria.htm (65 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . é revelador. para viver melhor. de origem africana. o Estado se sobrepõe. que ele é o Estado. Que acontece? A burocratização da vida produz sua diminuição absoluta . é uma grande tentação para ela essa permanente e segura possibilidade de conseguir tudo .em todas as ordens -. o homem-massa vê no Estado um poder anônimo. o exército tem de ser recrutado entre estrangeiros. a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado.

jurídicos e de ordem pública sobremodo árduos. Por muito habitual que nos seja. depois. Quando se sabe disso.não por ele. Como não temer que sob o império das massas se encarregue o Estado de esmagar a independência do indivíduo. pouco visível e nada substantivo. Através e por meio do Estado. germanos. vão contentar-se com impor sempre o que aquelas queiram. criadas para a ordem. Mas. Em 1810 surge na Inglaterra. do grupo. e os restos da sociedade. Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma ou outra sociedade. é tão miúdo. Governam os conservadores. uma Polícia que regule a circulação. um aumento da criminalidade. até onde se possa. estes não bastam para sustentar o Estado e é preciso chamar estrangeiros: primeiro.e que será. as massas atuam por si mesmas. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road. nada fora do Estado. O esqueleto come a carne que o rodeia. "Em Paris escreve John William Ward . o crime. que dificilmente equilibra a acumulação de poderes anormais que lhe consentem empregar aquela máquina em forma extrema. não deve perder seu terrível paradoxismo ante nosso espírito o fato de que a população de uma grande urbe atual. Bastaria isso para descobrir no fascismo um típico movimento de homens-massa. Ele se limita a usá-lo incontinentemente. O crescimento social obrigou iniludivelmente a isso. Os estrangeiros tornaram-se donos do Estado. em 1800. As nações européias têm diante de si uma etapa de grande dificuldade em sua vida interior.htm (66 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . nada contra o Estado. têm de viver escravo deles. Se algo conseguiu. para caminhar pacificamente e atender a seus negócios. e. Mussolini encontrou um Estado admiravelmente construído . o Estado se compõe ainda dos homens daquela sociedade. naturalmente.mais criminoso que os tradicionais. sem que eu me permita agora julgar os detalhes de sua obra. O estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação direta constituídas em normas.A rebelião das massas. a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. de gente com a qual não tem nada que ver. é indiscutível que os resultados obtidos até o presente não podem ser comparados aos obtidos na função política e administrativa pelo Estado liberal. Estado (70). Quando. a nova indústria começa a criar um tipo de homem . "As pessoas conformam-se em se adaptar à desordem. a fórmula Tudo pelo Estado. mas pagam caro suas vantagens. dálmatas. a estar submetido a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. sobressalta um pouco ouvir que Mussolini apregoa com exemplar petulância. no final das contas. como um prodigioso descobrimento feito agora na Itália. máquina anônima. Preferem agüentar. A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina que é o Estado. o que lhes convenha. mas precisamente pelas forças e idéias que ele combate: pela democracia liberal -. problemas econômicos. do povo inicial. O inevitável é que acabem por definir e decidir elas a ordem que vão impor . sem remédio. necessita. pelas mesmas causas. Entretanto.o obreiro industrial . considerando-a como resgate da liberdade". Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. O andaime se torna proprietário e inquilino da casa. Mas é uma inocência das pessoas de "ordem" pensar que essas "forças de ordem pública". e extinguir assim definitivamente o porvir? Um exemplo concreto deste mecanismo achamo-lo num dos fenômenos mais alarmantes destes últimos trinta anos: o aumento enorme em todos os países das forças de Polícia.têm uma Polícia admirável.

pelo contrário. pelo menos as mais ordinárias e palmares. efetivamente. Esse estilo de vida sói denominar-se "Idade Moderna". e sob sua unidade de mando o mundo vivia com um estilo unitário. o fato desta rebelião apresenta um aspecto ótimo. Olhemos esta agora de vários pontos de vista. Mas desde o século XVI entrou a humanidade toda num processo gigantesco de unificação. a mais importante. progressivamente unificado. Portanto. Nestes casos teríamos que estabelecer nossa pergunta: "Quem manda no mundo?" a cada grupo de convivência. olhada por esse lado a rebelião das massas é uma e mesma coisa com a desmoralização radical da humanidade.do homem e de seu espírito -. Por seu anverso.tenho repetido uma e outra vez . ou. O inglês quer que o Estado tenha limites. visitas domiciliárias. nome incolor e inexpressivo sob o qual se oculta esta realidade: época da hegemonia européia. o mundo mediterrâneo ignorava a existência do mundo extremo oriental.A rebelião das massas. de coação física. desde aquele século pode dizer-se que quem manda no mundo exerce. Por "mando" não se entende aqui primordialmente exercícios de poder material. à espionagem e a todas as maquinações de Fouché (71) "São duas idéias diferentes do Estado. tem à sua disposição esse aparato ou file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ao aparecermos a um tempo com ânimo de compreendê-lo. mas.htm (67 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Porque aqui aspira-se a evitar estupidezes. QUEM MANDA NO MUNDO? A civilização européia . Ora bem: essa relação estável e normal entre homens que se chama "mando" não descansa nunca na força. Já não há pedaço de humanidade que viva à parte . que formam mundos interiores e independentes. A Europa mandava. No tempo de Milcíades. quase sem dúvida. é a deslocação do poder. Por isso. seu influxo autoritário em todo ele.padeceu automaticamente a rebelião das massas. SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV. uma de nossas primeiras perguntas deve ser esta: "Quem manda no mundo atualmente?" Poderá ocorrer que neste momento a humanidade esteja dispersa em vários pedaços sem comunicação entre si. Mas o reverso do mesmo fenômeno é tremebundo. I A substância ou índole de uma nova época histórica é resultante de variações internas . pelo menos.não há ilhas de humanidade -. Mas este traz consigo uma deslocação do espírito. Esse tem sido o papel do grupo homogêneo formado pelos povos europeus durante três séculos. porque um homem ou grupo de homens exerce o mando. que em nossos dias chegou a seu término insuperável. Entre estas últimas. já o dissemos: a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o crescimento fabuloso que a vida humana experimentou em nosso tempo.

entre os ingleses como entre os botocudos -. Trono. vigência de certas idéias. Talleyrand a Napoleão: "Com as baionetas. Sem ela. E como a Natureza tem horror ao vácuo. menos uma coisa: sentar-se sobre elas. no final das contas. Napoleão dirigiu à Espanha uma agressão. sustentou esta agressão durante algum tempo. se se quer expressar com toda a precisão a lei da opinião pública como lei da gravitação histórica. nem a ciência histórica seria possível. opinião. e cria-se o Sacro Romano Império. é o que pesou sempre e a toda hora nas sociedades humanas. Assim. cuja força de opinião fica reciprocamente anulada.A rebelião das massas. E a lei da opinião pública é a gravitação universal da história política. Por isso. o mandar não é tanto questão de punhos como de nádegas. cadeira curul. Os casos em que à primeira vista parece ser a força o fundamento do mando. hoje como há dez mil anos. máquina social que se chama "força". mas não mandou propriamente na Espanha nem um dia sequer. idéia. Da Igreja aprende o Poder político que ele também não é originariamente senão poder espiritual. O qual se funda sempre na opinião pública . de um espírito. Por isso muito agudamente insinua Hume que o tema da história consiste em demonstrar como a soberania da opinião pública. o estado da opinião: uma situação de equilíbrio. Isso nos faz cair na conclusão de que mando significa prepotência de uma opinião. A verdade é que não se manda com os janízaros. Todo mando primitivo tem um caráter "sacro". portanto. o imaterial e ultra-físico.htm (68 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O Estado é. E isso porque tinha a força e precisamente porque só tinha a força. e então chega-se a uma fórmula que é o conhecido. Os fatos históricos confirmam isso escrupulosamente.com seu caráter específico e já nominativo de "poder espiritual" -. banco azul. Convém distinguir entre um fato ou processo de agressão e uma situação de mando. em definitivo. convém ter em conta esses casos de ausência. venerável e verídico lugar comum: não se pode mandar contrariando a opinião pública. mas tranqüilo exercício dele. Deste modo lutam dois poderes igualmente espirituais que. mandar é sentar-se. Pois até quem pretende governar com os janízaros depende da opinião destes e da que tenham sobre estes os demais habitantes. em suma. de que mando não é. porque se funda no religioso. de estática. Ou acredita-se que a soberania da opinião pública foi um invento feito pelo advogado Danton em 1789 ou por S. pode-se fazer tudo. não dá lugar a que se constitua um mando. revelam-se ante uma inspeção ulterior como os melhores exemplos para confirmar aquela tese. na física de Newton a gravitação é a força que produz o movimento. outra coisa senão poder espiritual. e o religioso é a forma primeira sob a qual aparece sempre o que depois vai ser espírito. não podendo diferenciar-se na substância ambos são espírito -. pois. esse oco que deixa a força ausente de opinião pública enche-se com a força bruta. O que sucede é que às vezes a opinião pública não existe. poltrona ministerial. nesta ou naquela data. mas o fato de que a opinião pública é a força radical que nas sociedades humanas produz o fenômeno de mandar. é coisa tão antiga e perene como o próprio homem. Em suma. O Estado ou Poder público primeiro que se forma na Europa é a Igreja . convêm no acordo de se instalar cada um em um modo de tempo: o temporal e o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.sempre." E mandar não é atitude de arrebatar o poder. O mando é o exercício normal da autoridade. sede. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes. Sire. Assim. Em suma. avança esta como substituta daquela. Jamais alguém mandou na terra nutrindo seu mando essencialmente de outra coisa que não fosse a opinião pública. longe de ser uma aspiração utópica. Tomás de Aquino no século XIII? A noção desta soberania terá sido descoberta aqui ou ali. Na Idade Média se reproduz com formato maior o mesmo fenômeno. Contra o que uma ótica inocente e folhetinesca supõe.

ironicamente. como entra o lubrificante nas máquinas. e então. para que a gente que não opina . reina na humanidade o caos. consequentemente. enquanto o outro é espírito de eternidade . supor que as coisas são de certa maneira.htm (69 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . um déficit de opinião. dizer: em tal data manda tal homem. agora. a que Deus tem sobre o homem e seus destinos. toda mudança de imperantes. Com ele. eterno. Nestas jornadas de após-guerra começa a dizer-se que a Europa não manda mais no mundo. toda deslocação de poder.A rebelião das massas. Por isso.idéias. Sem opiniões. que aconteceria? II A pura verdade é que no mundo acontece a todo instante. A pretensão de dizer o que é que acontece agora no mundo deve ser entendida. menos ainda: o nada histórico. a convivência humana seria o caos. sem alguém que mande. portanto. conseguimos uma visão aproximada dela. e a pura verdade é que nosso file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de organicidade. e. Adverte-se toda a gravidade deste diagnóstico? Com ele anuncia-se uma deslocação do poder. e por isso há ordem. e é preciso que esta lhe venha de fora a pressão. E paralelamente. e. um conglomerado de povos com um espírito afim.opine. como na Moderna. Mas nos grandes tempos a humanidade vive da opinião. Mais ainda: nisto consiste todo uso do intelecto. Porque Pedro significa para nós um esquemático repertório de modos de se comportar física e moralmente . a vida dos homens careceria de arquitetura. não temos mais remédio senão construir arbitrariamente uma realidade. Do outro lado da Idade Média achamos novamente uma época em que. um erro.e é a maioria . Ela pôs ordem no Mediterrâneo e confinantes. Poder temporal e poder religioso são identicamente espirituais. se anseia. olhamos depois a efetiva realidade. Por isso é preciso que o espírito . como através de uma quadrícula. um conceito ou entretecido de conceitos. e tudo isso em grande escala. cometemos deliberadamente.a opinião de Deus. Mas. Tempos assim não carecem de delícias. Para onde se dirige? Quem vai suceder a Europa no mando do mundo? Mas há mesmo certeza de que alguém vai suceder à Europa? E se não fosse ninguém. É o que aconteceu em todas as idades médias da história. em compensação. mas um é espírito do tempo opinião pública intramundana e cambiante -. a grande mandona. pois. Mas assim como é impossível conhecer diretamente a plenitude do real. Durante vários séculos mandou no mundo a Europa.seja qual seja .o que chamamos "caráter" -. só então. pois. se odeia. como dizer: em tal data predomina no mundo tal sistema de opiniões . Tanto vale. São tempos em que se ama. Quando ao ver chegar nosso amigo pela vereda do jardim dizemos: "Este é Pedro». Como há de se entender este predomínio? A maior parte dos homens não têm opinião. se repugna. Voltemos agora ao começo. e na medida que isso seja necessário. manda alguém. nada menos que uma mudança de gravitação histórica. sem um poder espiritual. quer dizer. embora sobre uma porção limitada do mundo: Roma. propósitos. é ao mesmo uma mudança de opiniões. Por isso representam sempre um relativo caos e uma relativa barbárie. Na Idade Média não mandava ninguém no mundo temporal. Sem opiniões. infinidade de coisas. aspirações. Nisto consiste o método científico.tenha poder e o exerça. tal povo ou tal grupo homogêneo de povos. preferências. como ironizando-se a si mesma. Isto nos proporciona um esquema. opina-se pouco.

é um instrumento doméstico do homem. segundo a qual o conteúdo de todo conceito é sempre vital. se se escruta bem a entranha última de qualquer conceito. mas. Esta teoria do conhecimento da razão houvera irritado a um grego. O que o conceito pensa a rigor é um pouco outra coisa que o que diz. o término indefectível do processo filosófico que se inicia com Kant. é sempre ação possível. exagerar. mas que resume o que um homem pode fazer com essa coisa ou padecer dela. em quase nada à idéia "nosso amigo Pedro". que nestes anos a Europa sente graves dúvidas sobre se manda ou não. como é notório. que este necessita e usa para esclarecer sua própria situação em meio da infinita e arqui-problemática realidade que é sua vida. em certos momentos. à valentona. ou padecimento possível de um homem. queira-se ou não. Eu não disse que a Europa tenha deixado de mandar. Antes de que seu livro aparecera. Ora bem. amigo Pedro não se parece. sobre se amanhã mandará. no conceito. e eu necessitava por isso recordar que pensar é. e o êxito de seu livro deveu-se. o histórico .A rebelião das massas. Todo conceito. nem a outra é B. Falou-se muito nestes anos da decadência da Europa. a meu juízo. condição. acreditamos que a razão. como o geométrico diamante vai implícito na dentadura de ouro de seu engaste. não foi até agora. estritamente. Vida é luta com as coisas para sustentar-se entre elas. tão alheio a problemas filosóficos. vai incluso na ironia de si mesmo. Os conceitos são o plano estratégico que nos formamos para responder a seu ataque. sem reservas. Por isso. com os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Porque o grego acreditou haver descoberto na razão. parecer-nos-á que no fundo todos os filósofos disseram a mesma coisa.htm (70 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .é exclusivamente isto: durante três séculos a Europa mandou no mundo. sustentada por ninguém. nem aquela B. Reduzir a fórmula tão simples a infinitude de coisas que integram a realidade histórica atual. Eu suplico fervorosamente que não se continue cometendo a ingenuidade de pensar em Spengler simplesmente porque se fale da decadência da Europa ou do Ocidente. É a seriedade instável de quem engoliu uma gargalhada e se não aperta bem os lábios a vomita. e que tudo o mais é conseqüência. Tampouco estão certos disso. todo descobrimento filosófico não é mais que um descobrimento e um trazer à superfície o que estava no fundo." Mas é a sua a seriedade de um pince-sans-rire. o conceito. com efeito. e nesta duplicidade consiste a ironia. mais ainda: tem de paralisar seu intelecto e ver a maneira de idiotizar-se. mas é. contrariamente. mas. Nós. que é aquilo que realmente está acontecendo no mundo. assim. todo o mundo falava disso. eu me entendo comigo mesmo para os efeitos de meu comportamento vital diante de uma ou de outra coisa. que eu saiba. falando com todo rigor. Ele diz muito seriamente: "Esta coisa é A. Esta opinião taxativa. sintoma ou anedota disso. nos entredentes de um sorriso tranqüilo. Eu ia dizer simplesmente que o que agora acontece no mundo . a que tal suspeita ou preocupação preexistia em todas as cabeças. admitindo que são A e B. Creio. se revisamos a sua luz todo o passado da filosofia até Kant. A isto corresponde nos demais povos da Terra um estado de espírito congruente: duvidar de se agora são mandados por alguém. Mas semelhante intróito é desmesurado para o que vou dizer. Ele sabe muito bem que nem esta coisa é A. e agora a Europa não está convicta de mandar nem de continuar mandando. a realidade mesma. o mais vulgar como o mais técnico. acha-se que não nos diz nada da coisa mesma. é sem dúvida e no melhor caso uma exageração. Quem prefira não exagerar deve calar-se.entende-se. e esta outra coisa é B. esta coisa não é A. O que verdadeiramente pensa é isto: eu sei que. Por isso.

a turba parvular não tem um afazer próprio.htm (71 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . nem sequer levantou tal questão. ao rebelar-se. mas que se habituaram a dá-lo como certo. entesa-se. cada nação e naçãozinha brinca. fazem-no os povos. definitivas enquanto não existam ou se divisem outras. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. consequentemente só pode executar uma só coisa: a cabriola. a turba parvular faz bagunça. de sentir-se dono do próprio destino. Sem mais averiguações. longe disso. Era natural que se esse modo de ser predomina dentro de cada povo. desde seu perdido rincão. segundo se diz. embora não recordem sinceramente haver-se convencido resolutamente disso em nenhuma data determinada. que lhe vai servir de formidável premissa. fica de cabeça para baixo. portanto. Esta é a primeira conseqüência que sobrevem quando no mundo deixa de mandar alguém: que os demais. povos inteiros. Não obstante. Redescobrimento da América. É deplorável o frívolo espetáculo que os povos menores oferecem. uma tarefa com sentido. os povos-massa resolveram dar como caduco aquele sistema de normas que é a civilização européia.A rebelião das massas. nem faz questão de tão enorme fato. Também há. povos-massa resolvidos a rebelar-se contra os grandes povos criadores. não sabem o que fazer. À vista de que. mas como são incapazes de criar outro. uma ocupação formal. É verdadeiramente cômico contemplar como esta ou a outra republiqueta. Mas são. sentindo-se vulgar. quando alguém notifica que o mestre saiu. Sobretudo. Os lugares comuns são os bondes do transporte intelectual. de modo algum. Falou-se tanto da decadência européia. Daí o vibriônico panorama de "nacionalismos" que se nos oferece por toda a parte. como tirada a norma que fixava as ocupações e as tarefas. o fenômeno também se produza quando olhamos o conjunto das nações. Toma-a como um bonde. E uma paisagem de exemplar puerilidade a que agora oferece o mundo. as melhores possíveis. e fiz notar que sua principal característica consiste em que. parte dele como de algo inconcusso. O recente livro de Waldo Frank. proclama o direito à vulgaridade e nega-se a reconhecer instâncias superiores a ele. Ora. Para superá-las é imprescindível parir outras. E como ele fazem muitas pessoas. E esta ingenuidade no ponto de partida basta-me para pensar que Frank não está convencido da decadência da Europa. Na escola. deixa de mandar. se põe na ponta dos pés a increpar a Europa e declarar sua cessação na história universal. de sacudir os jugos das normas. dando-se ares de pessoa maior que rege seus próprios destinos. Não que acreditavam a sério e com evidência nele. Cada um sente a delícia de evadir-se da pressão que a presença do mestre impunha. que muitos chegaram a dá-la como um fato. gesticula. sem programa de vida. continuidade e trajetória. Mas. sem dúvida. sentidos e pelas razões mais heterogêneas. apoia-se integralmente no suposto de que a Europa agoniza. e para encher o tempo entregam-se à cabriola. Nos capítulos anteriores tentei filiar um novo tipo do homem que hoje predomina no mundo: chamei-o homem-massa. Estas normas não são. relativamente. Qual é o resultado? A Europa havia criado um sistema de normas cuja eficácia e fertilidade os séculos demonstraram. Frank nem analisa nem discute. a Europa decai e. ficam sem tarefa. de ficar de cabeça para baixo. minorias de estirpes humanas que organizaram a história.

está desmoralizado. Na região do globo que elas ocupam amadureceu o módulo de existência humana conforme ao qual foi organizado o mundo. como agora se diz. A etimologia de mandar significa carregar. E esta é a pura verdade. Não importaria que a Europa deixasse de mandar se houvesse alguém capaz de substituí-la. Inglaterra. antes de tudo e propriamente. e aproveitam com ar festivo este tempo de pesados imperativos. com inconsciência de crianças. e em vista disso. Mas o que agora acontece na Europa é coisa insalubre e estranha.htm (72 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Se. Dentro de pouco ouvir-se-á um grito formidável em todo o planeta. causa file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. eu ia aprender isso.A rebelião das massas. isentas de entraves. quem tem o encargo. não seríamos velhos ou levaríamos mais tempo a sê-lo. Porque viver é ter que fazer algo determinado . e não se vê quem possa substituí-la. Se não tivéssemos filhos. sem remissão. Por Europa entende-se. precavido. A rigor. São um e outro duas parcelas do mandamento europeu que. III O cigano foi se confessar. desolação. fica nossa vida em pura disponibilidade. pôr em alguém algo nas mãos. que imponha um afazer ou obrigação. as pessoas . metê-las em seu destino. como uivo de cães inumeráveis. Todo o mundo .é cumprir um encargo -. sentem-se vazias. Isso seria o admitido. Mandar é dar ocupação às gentes. a qual sói ser vacância. indivíduos . Esta descendência oriunda do broto de novas juventudes é um sintoma de saúde. que apenas com sua novidade avantaja-se de repente ao preexistente.deixa de mandar. Durante uma temporada. Os inferiores pensam que lhes tiraram um peso de cima. Um automóvel envelhece em dez anos mais do que uma locomotiva em vinte. em seu eixo.como outras vezes aconteceu uma germinação de normas novas substitui as antigas e um fervor novíssimo absorva em seu fogo jovem os velhos entusiasmos de minguante temperatura. pedindo alguém e algo que mande. Não se trata de que .diz-se . simplesmente porque os inventos da técnica automobilística têm ocorrido com mais rapidez. Quem manda é. Porque existiam só os europeus. Esta é a horrível situação íntima em que se encontram já as juventudes melhores do mundo. a trindade França. que subirá. Mais ainda: o velho advém velho não por sua senectude. Nova York e Moscou não são nada novo com respeito à Europa. perderam seu sentido. Os decálogos conservam do tempo em que eram inscritos sobre pedra ou bronze seu caráter de pesadume. Não é essa a situação presente do mundo? Corre o zum-zum de que não vigorem mais os mandamentos europeus. Os mandamentos europeus perderam vigência sem que se vislumbrem outros no horizonte. esta desmoralização diverte e até vagamente ilude. De puro sentir-se livres. Mas a festa dura pouco. seu padre. e na medida em que iludamos pôr em algo nossa existência desocupamos nossa vida. ao dissociar-se do resto. Mas não há sombra de tal. Uma vida em disponibilidade é maior negação que a morte. nos anunciam que a Europa já não manda. mas porque já está aí um princípio novo.aproveitam a ocasião para viver sem imperativos. Vá isto dito para os que. impedir sua extravagância. A mesma coisa acontece com os artefatos. esses três povos estão em decadência e seu programa de vida perdeu validez. não é de estranhar que o mundo se desmoralize. A Europa . Alemanha. Sem mandamentos que nos obriguem a viver de um certo modo.homens e povos . Os inferiores do mundo inteiro já estão fartos de que os encarreguem e sobrecarreguem.nações. mas depois ouvi um zum-zum de que tinha perdido o valor". até as estrelas. vida vazia. começou por interrogá-lo sobre os mandamentos de Deus. mas o padre. Ao que o cigano respondeu: "Olhe aqui.

sua substância. Exemplo: o egípcio ou o chinês. O jovem não necessita de razões para viver. disfarçam-se na idéia que esta lhes oferece. Esquece-se . A América é forte por sua juventude. os Estados Unidos significam também um caso dessa específica realidade histórica que chamamos "povo novo". Coisa muito semelhante acontece com Nova York. Só se pode livrar da equivocação que produz a camouflage quem saiba de antemão. que cresce em pleno Mediterrâneo.onde não há indústria . juvenil.de uma idade diferente da nossa. profunda. Porque lhe sobra juventude bastou-lhe essa ficção. E a atitude aprendida. Por isso engana a maior parte das pessoas. Que o marxismo tenha triunfado na Rússia . Que casualidade! Outro invento europeu. Assim Roma. Num povo assim.que há dois grandes tipos de evolução para um povo. acidental e de superfície. como sempre as colônias. Porque não se sabe com plenitude o que são: só se sabe que nem sobre um nem sobre outro se disseram palavras decisivas. Supõe-se que isso seja uma frase. A mesma coisa acontece com o espelhismo. recebida. pertencem de cheio ao que algumas vezes chamei "fenômenos de camouflage histórica". que se pôs a serviço do mandamento contemporâneo "técnica". uma realidade que não é a que parece. Em última instância reduz-se a este: a técnica. A Rússia é marxista aproximadamente como eram romanos os tudescos do Sacro Império Romano. tudo é autóctone.htm (73 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Daqui que a metade das atitudes romanas não sejam suas. Em virtude de razões diferentes da Rússia. Ambos. por essência. como podia haver-se posto a serviço do budismo se este fosse a ordem do dia. Daí que para entender as camouflages seja mister também um olhar oblíquo: o de quem traduz um texto com um dicionário ao lado. Há o povo que nasce em um "mundo" vazio de toda civilização. Quando crescem num âmbito onde existe ou acaba de existir uma velha cultura. Quem faz um gesto aprendido . não americano. o autêntico. cujas águas estavam impregnadas de civilização greco-oriental. é o que tem de forte.pensadas na Europa em vista de realidades e problemas europeus. Agora vão começar suas angústias. um vocábulo de outro idioma . Porque carece ainda de mandamentos necessitou fingir sua adesão ao princípio europeu de Marx. mas oblíqua. Mas há outros povos que germinam e se desenvolvem num âmbito ocupado já por uma cultura de história anosa. Um povo ainda em fermento. uma repristinação ou rejuvenescimento de raças antigas. E a sério nos dizem que a essência da América é sua concepção praticista e técnica da vida! Em vez de nos dizer: A América é. Em todo fato de camouflage histórica há duas realidades que se superpõem: uma. Debaixo dela há um povo. só necessita de pretextos.seria a contradição maior que podia sobrevir ao marxismo. em vez de declarar. Assim. Eu espero um livro em que o marxismo de Stalin apareça traduzido à história da Rússia. o que tem de russo. substancial.A rebelião das massas. Porque isso.o que importa muito mais . por exemplo. efetiva. Seu aspecto oculta. é sempre dupla. traduz a sua própria linguagem o vocábulo exótico. e não o que tem de comunista. A camouflage é. que a camouflage existe. e suas atitudes têm um sentido claro e direto. com efeito. O conceito corrige os olhos. Aqui está a camouflage e sua razão. suas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. horror falar de Nova York e de Moscou.faz por baixo dele o seu gesto. Vá lá saber o que será! O único que cabe afirmar é que a Rússia necessita de séculos ainda para optar ao mando. porque não há tal triunfo. quando é uma coisa tão efetiva como a juventude de um homem. quer dizer. mas aprendidas. alcança-se o bastante para compreender seu caráter genérico. mas . A técnica é inventada pela Europa durante os séculos XVIII e XIX. Os povos novos não têm idéias. Também é um erro atribuir sua força atual aos mandamentos a que obedece. sobretudo da Europa. e sua verdadeira significação não é direta.como notei várias vezes . não só diferente como matéria étnica do europeu.por exemplo.o marxismo . em Moscou há uma película de idéias européias . outra. Mas ainda sem saber plenamente o que são. Mas não há tal contradição. e em geral. Que casualidade! Os séculos em que a América nasce. aparente. Mas a América não faz com isso senão começar sua história.

de acanalhamento que no homem médio do nosso país produz o fato de ser a Espanha uma nação que vive há séculos com uma consciência suja na questão de mando e obediência. tem de retroceder ao ponto de partida e perguntar-se a sério: É tão certo como se diz que a Europa está em decadência e resigne o mandato. por isso a evito. com medo de exagerar. tudo o mais marchará impura e torpemente.htm (74 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . é ilusório pensar que possa possuir as virtudes do mando. fica transtornado em sua índole privada por mutações que a rigor só afetam imediatamente à coletividade. Como não é possível converter em sã normalidade o que em sua essência é criminoso e anormal. e. o indivíduo opta por adaptar-se ao indevido. de algo que enquanto se aceita continua parecendo indevido. Não pode ter vigor elástico para a difícil faina de sustentar-se com decoro na história uma sociedade cujo Estado. Agora Waldo Frank. A América ainda não sofreu. Ainda tem de ser muitas coisas. enfadonha. entre elas. em seu Redescobrimento da América. algumas as mais opostas à técnica e ao praticismo. Se o homem fosse um ser solitário que acidentalmente se acha travado em convivência com outros. embora útil. salvas geniais exceções. pois. é vão esperar nada dos homens de nossa raça. Enquanto isso persistir em nosso país. Daí que se tomamos à parte um indivíduo e o analisamos. Fora interessante e até útil submeter a este exame o caráter individual do espanhol médio. Não há. seus conflitos. mas um forte instinto lhes fez concentrar ao ponto suas energias e expelir aquela irregular pretensão de mando. Mas o espanhol fez o contrário: em vez de opor-se a ser imperado por quem sua íntima consciência rechaçava. cabe coligir sem mais dados como anda em seu país a consciência de mando e obediência. ficará perturbada e falsificada. a pluralidade européia substituída por uma formal unidade? IV A função de mandar e obedecer é a decisiva em toda sociedade. O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação como estado habitual e constituído de uma irregularidade. preferiu falsificar todo o resto de seu ser para o acomodar àquela fraude inicial. Até a mais íntima intimidade de cada indivíduo.A rebelião das massas. nada de estranho em que bastasse uma ligeira dúvida. Todas as nações atravessaram jornadas em que aspirou a mandar sobre elas quem não devia mandar. Eu sempre. deprimente. não obstante. oriundas dos deslocamentos e crises do imperar. o mundo histórico volta ao caos. fazendo-se totalmente homogêneo com o crime ou irregularidade que arrasta. o declara francamente. sustentei que era um povo primitivo camuflado pelos últimos inventos (72). talvez permanecesse intacto de tais repercussões. Mas faria ver a enorme dose de desmoralização íntima. Como ande nesta turvação a questão de quem manda e quem obedece. portanto. A América conta menos anos que a Rússia. não era a priori necessária se algum dia haviam de ser possível os Estados Unidos da Europa. Quem evite cair na conseqüência pessimista de que ninguém vai mandar. Mas. dissenções. A operação seria. uma simples vacilação sobre file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. é constitutivamente fraudulento. como é social em sua mais elementar estrutura. abdique? Não será esta aparente decadência a crise benfeitora que permita à Europa ser literalmente Europa? A evidente decadência das nações européias. Em um mecanismo parecido ao que o adágio popular enuncia quando diz: "Uma mentira faz cento". do Poder. e que. cujo império ou mando. Rechaçaram a irregularidade transitória e reconstituíram assim sua moral pública.

Eu não nego que possa haver nesta índole do bom celtibero algum fator de generosidade. mas inexorável. e me alegro que o estrangeiro interprete assim sua conduta. Se fosse isto só. um caminho que não leva a nada. Livrada a si mesma. Por isso continuamos historicamente como há dez anos. que se perde em si mesmo. os carreiros têm o que fazer. Mas nunca ao ouvi-lo ou lê-lo pude reprimir este receio: é que o compatriota perguntado ia de fato a alguma parte? Porque poderia ocorrer muito bem que. se essa vida minha. A vida humana. outra. Por isso não há império sem programa de vida. amanhã. O mando consiste em uma pressão que se exerce sobre os demais. Uma das coisas que mais encantam os viajantes quando cruzam a Espanha é que se perguntam a alguém na rua onde fica uma praça ou edifício. seria violência. inscrita em nossa existência. sendo-o. Não convém. com freqüência o perguntado deixa o caminho que leva e generosamente se sacrifica pelo estranho. que participe em uma empresa. em muitos casos. e ninguém. que só a mim me importa. quem manda no mundo. em uma empresa gloriosa ou humilde. Não se esqueça que mandar tem duplo efeito: manda-se em alguém. ficou sem empresa para si e para os demais. não se nos pode pedir que estejamos em disponibilidade para atender aos transeuntes e que nos dediquemos a pequenos altruísmos ocasionais. não avanço. Está perdida ao encontrar-se só consigo. Mas o resultado foi contrário ao que se poderia esperar. dedica-se a falsas ocupações. dou voltas e mais voltas em um mesmo lugar. triunfou jamais. em um grande destino histórico. Isto é o labirinto. pois. impõe. mas manda-se-lhe algo. cada vida fica sem si mesma. Trata-se de uma condição estranha. E o que se lhe manda é. Compreende-se. para vagar a si mesma. oposta à primeira. é caminhar para uma meta. o europeu fechou-se em seu interior. Viver é ir arrojado para alguma direção. pois cada vida fica em absoluta franquia para fazer o que lhe der na vontade. mais além. O egoísmo é labiríntico. no final das contas. A Europa afrouxou sua pressão sobre o mundo.A rebelião das massas. Não é tão fácil como se crê ser puro egoísta. não vou a parte alguma.htm (75 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Hoje é uma coisa. conduzindo-o ao lugar que a este interessa.haja começado a desmoralizar-se. inventa-se ou finge frivolamente a si mesma. Todos os imperativos.uma inspiração puramente egoísta. O egoísmo aparente dos grandes povos e dos grandes homens é a dureza inevitável com que se deve comportar quem tem sua vida posta em uma empresa. tem de estar posta em algo. Por um lado. sem tensão e sem "forma". Depois da guerra. é algo a que ponho esta e que por isso mesmo está fora dela. A meta não é o meu caminhar. vazia. de tanto não ser mais que caminhar por dentro de si. Quando de verdade se vai fazer algo e nos entregamos a um projeto. todas as ordens ficaram em suspenso. não é a minha vida. o espanhol não está file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. caminhará desvencilhada. precisamente sem um plano de vida imperial. Sucede o mesmo a cada povo. para que todo o mundo . em um destino ilustre ou trivial. sincero. viver é algo que cada qual faz por si e para si. Mas não consiste só nisso.em sua vida pública e em sua vida privada . não é entregue por mim a algo.como dos homens . que nada íntimo. egoisticamente. por sua natureza própria. embarcar na opinião trivial que crê ver na atuação dos grandes povos . Estes anos assistimos ao gigantesco espetáculo de inumeráveis vidas humanas que marcham perdidas no labirinto de si mesmas por não ter a que se entregar. Não se manda em seco. Por outro lado. Parece que a situação devia ser ideal. E como há de se encher com algo. sem ter o que fazer. Se resolvo andar só por dentro de minha vida. Como diz o verso de Schiller: Quando os reis constróem.

de grande decoro. Quando ninguém.htm (76 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . isso é irremissível. Não penso assim porque eu seja europeu ou coisa parecida. Só a ilusão do império e a disciplina de responsabilidade que ela inspira podem manter em tensão as almas do Ocidente. na rotina. V Convém que agora retrocedamos ao ponto de partida destes artigos: ao fato. esta sugestiva idéia: Não será que começamos a decair? A idéia teve boa Imprensa. Em muitos casos consta-me que meus compatriotas saem à rua para ver se encontram algum forasteiro a quem acompanhar. com file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A ciência. novas em toda ordem. e esta só é possível em uma destas situações: ou sendo quem manda ou achando-se alojado em um mundo onde manda alguém a quem reconhecemos pleno direito para tal função. se isso não trouxesse consigo a volatilização de todas as virtudes e de todos os dotes do homem europeu. de que no mundo se fale estes anos tanto sobre a decadência da Europa. Tornar-se-á vulgar. estimar quem manda e acompanhá-lo. da França. ou mando ou obedeço. solidarizando-se com ele. Mas nem sequer isso pediria. pelo contrário.mas. Aceitaria que não mandasse ninguém. tenazes. Se falta esta. a arte. pensava nisso. Grave é que esta dúvida sobre o mando do mundo. caía na inércia moral. mas que o descobrimento dela se deva aos europeus mesmos. da Inglaterra. Não sabe. que excitam a consciência da dignidade. exercido até agora pela Europa.A rebelião das massas. Não é que diga: se o europeu não há de mandar no futuro próximo. na esterilidade intelectual e na barbárie omnímoda. fazendo nada. Mas detende ao que a enunciar com um leve gesto e perguntai-lhe em que fenômenos concretos e evidentes funda seu diagnóstico. Já é surpreendente o detalhe de que esta decadência não tenha sido notada primeiramente pelos estranhos. tão curioso. recairá sempre no ontem. o europeu se irá envilecendo. à captura de grandes idéias. e atrás dele o mundo todo. bastarão geração e meia para que o velho continente. Mas é muito mais grave que este piétenement sur place chegue a desmoralizar por completo o europeu mesmo. não tem projeto nem missão. O europeu se fará definitivamente cotidiano. salvo aqueles que por sua juventude estão ainda em sua pré-história. formulista. no hábito. a técnica e tudo o mais vivem da atmosfera tônica que cria a consciência de mando. A vida criadora é vida enérgica. e hoje todo o mundo fala da decadência européia como de uma realidade inconcussa. oco. Ora bem. Já não terão as mentes essa fé radical em si mesmas que as lança enérgicas. ocorreu a alguns homens da Alemanha. não me interessa a vida do mundo. Prontamente vereis a pessoa fazer vagos ademanes e praticar essa agitação de braços para a rotundidade do universo que é característica de todo náufrago. tenha desmoralizado o resto dos povos. Mas obedecer não é agüentar agüentar é envilecer-se . audazes. situando-se com fervor sob o drapejar de sua bandeira. fora do velho continente. pelo contrário. como os gregos da decadência e como os de toda a história bizantina. Nada me importaria a cessação do mando europeu se existisse hoje outro grupo de povos capaz de substitui-lo no Poder e na direção do planeta. sai à vida para ver se as dos outros enchem um pouco a sua. de constantes estímulos. A vida criadora supõe um regime de alta higiene. Incapaz de esforço criador e luxuoso. Se o europeu se habitua a não mandar.

mas se se tomam uma a uma. e preferiria. A prova disso é que a combinação se repete em todas as demais ordens. todas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A única coisa que sem grandes precisões aparece quando se quer definir a atual decadência européia. Porque é um desprestígio estranho. É que. de impotência que abruma inegavelmente estes anos à vitalidade européia. conservando as melhores qualidades dessa tradição. porque enfara escutar as inépcias que a toda hora se diz. da Inglaterra ou da França sente-se hoje afogado nos limites de sua nação. pareçam preferíveis. que a depressão indiscutível de seus ânimos não provém de que se sintam pouco capazes. mas em que na forma da vida pública em que se haviam de mover as capacidades econômicas é incongruente como o tamanho destas. porventura. mas não se vê que em nem uma das que contam se intente sua substituição. e importa muito filiar o estado de espírito desse alemão ou desse inglês nesta dimensão do econômico. Pois o curioso é. mas. Mas isso é justamente o que conviria explicar. em quanto instrumento de vida pública. neste ou no outro problema econômico que esteja levantado. com as pequenas nações em que até agora vivia organizada a Europa. mas tropeça no mesmo instante com as reduzidas jaulas em que está alojado. adverte-se que nenhuma delas afeta seriamente o poder de criação da riqueza e que o velho continente passou por uma crise muito mais grave nesta ordem. por exemplo. o homem de letras parisiense começa a compreender que está esgotada a tradição de mandarinismo literário. a sensação de menoscabo. pelo contrário. o desânimo que hoje pesa sobre a alma continental parece-me muito ao da ave de asa larga que ao bater os remígios se fere contra as grades da jaula. ao menos idealmente. são as fronteiras políticas dos Estados respectivos. O professor alemão já viu claro que é absurdo o estilo de produção a que o obriga seu público imediato de professores alemães. que crer muito na autenticidade deste aparente desprestígio. é o conjunto de dificuldades econômicas que encontra hoje diante de cada uma das nações européias. O arranco para resolver as graves questões urgentes é tão vigoroso como quando mais o tenha sido. Existe toda uma série de objeções válidas ao modo de conduzir-se os Parlamentos tradicionais. cujos fatores são em aparência tão diferentes do econômico. Todo bom intelectual da Alemanha. nutre-se dessa desproporção entre o tamanho da potencialidade européia atual e o formato da organização política em que tem de atuar. Não se analisou ainda a fundo a estranhíssima questão de por que anda tão em agonia a vida política de todas as grandes nações. pois. nem sequer que existam perfis utópicos de outras formas de Estado que. tropecem com certas barreiras fatais que os impedem de realizar o que muito bem poderiam. Não são as instituições. Há aqui um erro de ótica que convém corrigir de uma vez para sempre. Na ordem da política interior acontece a mesma coisa. A dificuldade autêntica não radica. Por exemplo. A meu ver. a que o condena sua proveniência francesa.htm (77 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas quando se vai precisar um pouco o caráter dessas dificuldades. o alemão ou o inglês não se sentem hoje capazes de produzir mais e melhor que nunca? Em modo algum. a propósito do Parlamento. pois. e sente falta da superior liberdade de expressão que desfrutam o escritor francês ou o ensaísta inglês. de verbal formalismo. mas pelo contrário. Faltam programas de tamanho congruente com as dimensões efetivas que a vida chegou a ter dentro de cada indivíduo europeu. Fala-se mal do Parlamento em toda a parte. O pessimismo. integrá-la com algumas virtudes do professor alemão. mas as tarefas em que empregá-las. Vice-versa. Não há. Essas fronteiras fatais da economia atual alemã. inglesa. de que sentindo-se com mais potencialidade do que nunca. francesa. a que se agarrar. as que vão mal na Europa. precisamente. efeito. na vida intelectual. sente sua nacionalidade como uma limitação absoluta. Diz-se que as instituições democráticas caíram em desprestígio.A rebelião das massas. vê-se que nem uma delas permite a conclusão de que deve suprimir-se o Parlamento.

suas possibilidades de vida. de que não sente ilusão pelos Estados nacionais em que está inscrito e prisioneiro. Ora bem: o melhor que humanamente pode dizer-se de algo é que necessita ser reformado. Todavia. a possibilidade e a urgência de reformar profundamente as Assembléias legislativas.são incomensuráveis com o tamanho do corpo coletivo em que está encerrado. Pela primeira vez. Conseqüência: o automóvel europeu está em decadência. O fato é tão indiscutível que esquecê-lo demonstra franca estupidez. nem ainda teoricamente. Entretanto. ao tropeçar o europeu em seus projetos econômicos. alheia de todo a eles no que diz respeito a utensílios políticos. portanto. o francês e o alemão acreditavam. Procede de que o europeu não sabe em que empregá-los. porque antes o inglês.htm (78 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A "racionalização" da indústria é conseqüência automática de seu tamanho. intelectuais. seu estilo vital . Se se olha com um pouco de cuidado esse famoso desprestígio. Porque do contrário. Deparou-se. porque isso implica que é imprescindível e que é capaz de nova vida. com declarar sua inutilidade. alemão ou francês é ser provinciano. porque o irrespeitável não são estas. Imagine-se que uma fábrica européia visse ante si uma área mercantil formada por todos os Estados europeus e suas colônias e seus protetorados. Procede de outra causa. cada qual por si. em que consiste o que há que fazer.A rebelião das massas. Neste caso a finalidade seria a solução dos problemas públicos em cada nação. Não se confunda. para fazê-las "ainda mais" eficazes. Nós devemos então perguntar: Para que não é eficaz? Porque a eficácia é a virtude que um utensílio tem para produzir uma finalidade.quer dizer. dentro da qual já não cabe. Fala-se. sente que aqueles . a fabricação de automóveis. uma origem puramente íntima e paradoxal. já que a presunção de haver minguado nasce precisamente de que cresceu sua capacidade e tropeça com uma organização antiga. pois. com os limites de sua nação. hoje é superior a fabricação norte-americana desse artefato. não sente respeito a seu Estado. pois. por exemplo. que eram o universo. se em nenhum país está hoje claro. de que não estima as finalidades da vida pública tradicional. O automóvel atual saiu das objeções que se opuseram ao automóvel de 1910. Mais valia recordar que jamais instituição alguma criou na história Estados mais formidáveis. políticos. o fabricante europeu . Este é. Todas as graças peculiares da técnica americana são quase positivamente efeitos e não causas da amplitude e homogeneidade de seu mercado. na maior parte dos países. com que é "menos" que antes. o que se vê é que o cidadão. Mas a desestima vulgar em que caiu o Parlamento não procede dessas objeções. mas apenasmente de que a fábrica americana pode oferecer seu produto sem dificuldade alguma a cento e vinte milhões de homens. O desprestígio dos Parlamentos não tem nada que ver com seus notórios defeitos. a autêntica origem dessa impressão de decadência que achaca o europeu. levam por via direta e evidente à necessidade de reformá-lo.de automóveis sabe muito bem que a superioridade do produto americano não procede de nenhuma virtude específica usufruída pelo homem de ultramar. mais eficientes que os Estados parlamentares do século XIX. não tem sentido acusar de ineficácia os instrumentos institucionais. mas o Estado mesmo. Por isso exigimos de quem proclama a ineficácia dos Parlamentos que ele possua uma idéia clara de qual é a solução dos problemas públicos atuais. Portanto. E então descobriu que ser inglês. seria inútil substituir o detalhe de suas instituições. Ninguém duvida de que esse automóvel previsto para quinhentos ou seiscentos milhões de homens seria muito melhor e mais barato que o "Ford".industrial e técnico . que se ananicou. O automóvel é invento puramente europeu. parece-me. Para dar ao dito um apoio plástico que o sustente. tome-se qualquer atividade concreta: por exemplo. A situação autêntica da Europa viria. a ser esta: seu magnífico e longo passado a faz chegar file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em suma. que não é eficaz.

em que o homem se liberta de toda comunidade com a planta e o animal. dirá: "Eu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas para discutir sobre a coisa pública. que são misteres privados e familiares. e quanto a certos pormenores. da "natureza". portanto. Até então só existia um espaço: o campo. a um novo estádio de vida onde tudo cresceu. E agora vê-se obrigada a superar-se a si mesma. do cosmos geobotânico. errabundo.A rebelião das massas. nem sequer está claro o nexo étnico entre aqueles povos proto-históricos e essas estranhas comunidades. deixa estes fora e cria um âmbito à parte puramente humano. peregrino.. tríplice extrato do sumo que ressuma a polis. fica arcano. que prescinde do resto e se opõe a ele. o grande urbano. mas às vezes as estruturas sobreviventes desse passado são anãs e impedem a atual expansão. dentro de urbes. a idéia e o sentimento nacionais foram sua invenção mais característica. que aportam ao repertório humano uma grande inovação: a de construir uma praça pública e em torno uma cidade fechada ao campo. Mas agora podemos considerar o assunto desde outro aspecto. um espaço sui generis. mas um lugar de ajuntamento civil. um espaço demarcado para funções públicas. Este campo menor e rebelde. muito mais nova que o espaço de Einstein.htm (79 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Saberá libertar-se de sobrevivências. sente e quer conserva a modorra inconsciente em que vive a planta. para proteger-se da intempérie e engendrar. com efeito. é campo abolido. um "interior" fechado por cima. A polis não é primordialmente um conjunto de casas habitáveis. Porque. se é o ilimitado? Muito simples: limitando um pedaço de campo mediante uns muros que oponham o espaço incluso e finito ao espaço amorfo e sem fim.. O mesmo acontece com a urbe ou polis que começa por ser um buraco: o foro. como abelhas em sua colmeia. A Europa fez-se em forma de pequenas nações. É o espaço civil. um fato de que há que partir tal como o zoólogo parte do dado bruto e inexplicado de que o sphex vive solitário. quanto pensa. para delimitar seu contorno. Por isso Sócrates. de poleis. e nele se vivia com todas as conseqüências que isso traz para o ser do homem. mercê dos muros que a balizam. ao passo que a abelha vermelha só existe em enxame construtor de favos (74). Mas o greco-romano decide separar-se do campo. A urbe não está feita. a definição mais certa do que é a urbe e a polis parece-se muito com a que comicamente se dá do canhão: rodeia-se o bocal de um poço com arame muito apertado e tem-se um canhão. ou ficará prisioneira para sempre delas? Porque já ocorreu uma vez na história que uma grande civilização morreu por não poder substituir sua idéia tradicional de Estado. Não é. como a cabana ou o domus. se o campo é toda a terra. ao brotar da cidade. é um pedaço de campo que volta costas ao resto. Note-se que isto significa nada menos que a invenção de uma nova classe de espaço. 0 caso é que a escavação e a arqueologia nos permitem ver algo do que havia no solo de Atenas e no de Roma antes de que Atenas e Roma existissem. como a casa. fruta de nova espécie que dá o solo de ambas as penínsulas. Como é isso possível? Como pode o homem subtrair-se ao campo? Onde irá. igual às covas que existem no campo. mas que é pura e simplesmente a negação do campo. Sua existência. e. Em certo modo. Mas o trânsito desta pré-história. puramente rural e sem caráter específico. que pratica secção do campo infinito e se reserva a si mesmo diante dele. o ágora. e tudo o mais é pretexto para assegurar esse buraco. Eis aqui a praça. A praça. VI Contei em outro lugar a paixão e morte do mundo greco-romano. Este é um fato que nestas páginas necessitamos tomar como absoluto e de gênese misteriosa. Gregos e latinos aparecem na história alojados. O homem campesino é todavia um vegetal. reporto-me ao que ali disse (73). É este o esquema do drama enorme que se representará nos anos vindouros. novíssimo. As grandes civilizações asiáticas e africanas foram neste sentido grandes vegetações antropomorfas.

de assento. que solicitar os textos. Não há. Que souberam disso jamais o hindu. e nosso Levante cai em quanto pode no cantonalismo. irredutível às primigênias e mais próximas ao animal. Neste sentido significa o contrário do movimento histórico: o Estado é convivência estabilizada. Originariamente o Estado consiste na mescla de sangues e línguas. A dispersão vegetativa pela campina sucede a concentração civil na cidade. diz também qualquer outro princípio natural. O Estado-cidade. desde logo como Estado. Assim. ajuntamento. pela relativa pequenez de seus ingredientes. Desta maneira nasce a urbe. portanto. o dinamismo que produziu e sustém o Estado. respectivamente. Na gênese de todo Estado vemos ou entrevemos sempre o perfil de um grande empresário. constituída. Mas este caráter de imobilidade. como todo equilíbrio. Constrói sobre a heterogeneidade zoológica uma homogeneidade abstrata de jurisprudência (76). no extrato primário e mais fundo de sua memória conservam os habitantes da cidade greco-latina a lembrança de um synoikismos. permite ver claramente o específico do princípio estatal. a palavra "estado" indica que as forças históricas conseguem uma combinação de equilíbrio. e nela vão pôr os que antes só eram homens suas melhores energias. estática. mas de cidadãos. entre o ius e o rus. É a república. a superação da casa ou ninho infra-humano. a criação de uma entidade mais abstrata e mais alta que o oikos familiar. de esforços. mas que necessita forjá-la penosamente. oculta. Está claro que a unidade jurídica não é a aspiração que propele o movimento criador do Estado. nem o chinês. que não se compõe de homens e mulheres. estritamente no duplo sentido físico e jurídico desse vocábulo. Itália não saiu até o século XIX do Estado-cidade. que é um ressábio daquela milenária inspiração (75). entre o jurista e o labrego. Em certo modo. nem o egípcio? Até Alexandre e César. Faz esquecer. o Estado começa quando o homem se afana por fugir da sociedade nativa dentro da qual o sangue o inscreveu. o idioma. Com isto quero dizer que o Estado não é uma forma de sociedade que o homem acha presenteada. Uma dimensão nova. de forma quieta e definida. a história da Grécia e de Roma consiste na luta incessante entre esses dois espaços: entre a cidade racional e o campo vegetal. toda a costa mediterrânea mostrou sempre uma espontânea tendência a este tipo estatal. Ao Estado constituído precede o Estado constituinte. É mestiço e plurilíngüe. basta traduzi-los.A rebelião das massas. que a ele tendiam. que o Estado constituído é só o resultado de um movimento anterior de luta. Não se pense que esta origem da urbe é uma pura construção minha e que só lhe corresponde uma verdade simbólica. o persa. É superação de toda sociedade natural.htm (80 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . é o propósito de empresas vitais maiores que as possíveis às minúsculas sociedades consangüíneas. não tenho nada que ver com as árvores no campo. a politea. e este é um princípio de movimento. a cidade nasce por reunião de povos diversos. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Por uma parte. Com rara insistência. Com mais ou menos pureza. por exemplo. Não é como a horda ou a tribo e demais sociedades fundadas na consangüinidade que a Natureza se encarrega de fazer sem colaboração com o esforço humano. E quem diz o sangue. O impulso é mais substantivo que todo direito. A urbe é a super-casa. pois. em suma. Synoikismos é acordo de ir viver juntos. o Norte da África (Cartago = a cidade) repete o mesmo fenômeno. Pelo contrário. eu só tenho quer ver com os homens na cidade". oferece-se ao existir humano.

e se aprofundais na análise achareis que nem sequer pretendem file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. são abstratas. dentro de sua boa ou má sorte. seja ela qual for.a maior fantasia da antigüidade -. detiveram-se nos muros urbanos. O grego e o romano. cada uma por si e para si. aquele que vislumbre sob o caos que apresenta toda situação vital a anatomia secreta do instante. capazes de imaginar a cidade que triunfa da dispersão campesina.filósofos. isto é. Houve.htm (81 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . sobretudo econômica. se analisais superficialmente essas idéias. intricado. Por isso é autêntica criação. que é sempre única. matemáticos. o princípio estatal é o movimento que leva a aniquilar as formas sociais de convivência interna. A coisa é surpreendente porque. é político precisamente porque é torpe (77). pois. Mas a este isolamento efetivo sucedeu de fato uma convivência externa. e. não houve provavelmente em todo o mundo antigo mais que duas: Temístocles e César. é a realidade vital concreta. mais ampla e nova. encontraremos sempre o seguinte esquema: várias coletividades pequenas cuja estrutura social está feita para que viva cada qual dentro de si mesma. Porém. Houve quem quis levar as mentes greco-romanas mais além. mas foi vão empenho. e estas expressões abstratas adquirirão figura e cor. substituindo-as por uma forma social adequada à nova convivência externa. de imaginar outra nunca sida. O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. quem tentou libertá-las da cidade. o político. o que indicaria que possuem idéias sobre tudo isso. O essencialmente confuso. um desequilíbrio entre duas convivências: a interna e a externa. Sobrevem. sem ter a mais leve suspeita do que lhes acontece. na Grécia e em Roma outros homens que pensaram idéias claras sobre muitas coisas . em suma. naturalistas -. Observai os que vos rodeiam e vereis como avançam perdidos em sua vida. além disso.favorece a interna e dificulta a externa. Aplique-se isto ao momento atual europeu. Mas sua claridade foi de ordem científica. esse é de verdade uma mente lúcida. A escuridão imaginativa do romano. "costumes" e religião . A forma social estabelecida . Ouvi-los-eis falar em fórmulas taxativas sobre si mesmos e sobre seu contorno. vão como sonâmbulos. A imaginação é o poder libertador que o homem tem.A rebelião das massas. e as coisas abstratas são sempre claras. Importa-nos muito aos europeus de hoje recordar esta história. incluso o famoso. VII Mentes lúcidas. Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência. porque a nossa chegou ao mesmo capítulo. Todas as coisas de que fala a ciência. O indivíduo de cada coletividade não vive já só desta. notareis que não refletem muito nem pouco a realidade a que parecem referir-se. Nesta situação. dois políticos.direitos. representada por Bruto. Daí que todos os povos tenham tido um limite em sua evolução estatal. precisamente o limite imposto pela Natureza a sua fantasia. Um povo é capaz de Estado na medida em que saiba imaginar. encarregou-se de assassinar César . Se observamos a situação histórica que precede imediatamente o nascimento de um Estado. De sorte que a claridade da ciência não está tanto na cabeça dos que a fazem como nas coisas de que falam. Isto indica que no passado viveram efetivamente isoladas. uma claridade sobre coisas abstratas. quem não se perca na vida. Quem seja capaz de orientar-se com precisão nela. A forma social de cada uma serve só para uma convivência interna. sem dúvida. mas parte de sua vida está travada com indivíduos de outras coletividades com os quais comercia mercantil e intelectualmente. sem mais contatos que os excepcionais com as limítrofes. o que se chama mentes lúcidas. em geral.

quaisquer que sejam seu tipo e seu grau. as idéias dos náufragos.a saber. Havia que votar na cidade. uma fuga da vida (a maior parte dos homens de ciência dedicaram-se a ela por terror a defrontar sua própria vida. Porque a vida é inteiramente um caos onde a criatura está perdida. se não. depende de um mísero detalhe técnico: o procedimento eleitoral. dedicada durante toda a sua vida a confundir as coisas. absolutamente veraz porque se trata de salvar-se. como espantalhos para afugentar a realidade. Por isso é o tema que nos permite distinguir melhor quais as mentes lúcidas e quais as mentes rotineiras. e esse olhar trágico. tudo vai bem. postura. queira ou não queira. mas aterra-o encontrar-se cara a cara com essa terrível realidade. ajustar-se a tal realidade. se se ajusta à realidade. Isto é certo em todas as ordens. em uma hora das mais caóticas que há vivido a humanidade. Nossas idéias científicas valem na medida em que nos tenhamos sentido perdidos ante uma questão. Instintivamente. da Ásia Menor. E como se o destino se houvesse comprazido em sublinhar a exemplaridade. Como as eleições eram file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. buscará algo para se agarrar. adscritas à árvore que tutelam. Suas instituições públicas tinham uma força municipal e eram inseparáveis da urbe. da Espanha. Roma. a de Cícero. em que tenhamos visto bem seu caráter problemático e compreendamos que não podemos apoiar-nos em idéias recebidas. como o náufrago. Quem não se sente de verdade perdido perde-se inexorávelmente. não obstante ser a ciência. O resto é retórica. como as amadríadas estão. emprega-as como trincheiras para defender-se de sua vida. não se encontra jamais. íntima farsa. O homem o suspeita. que viver é sentir-se perdido -. Não são mentes claras. do Oriente clássico e helenístico. e se sente perdido. Quem descobre uma nova verdade científica teve antes que triturar quase tudo que havia aprendido e chega a essa nova verdade com as mãos sangrentas por haver jugulado inumeráveis lugares comuns. de seu. tudo vai mal. não topa nunca com a própria realidade. Como isso é a pura verdade . Entretanto. e procura ocultá-la com um véu fantasmagórico onde tudo está muito claro. ainda na ciência. está a ponto de fenecer porque se obstina em conservar um regime eleitoral estúpido.htm (82 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . daí sua notória falta de jeito ante qualquer situação concreta). em lemas nem vocábulos. pôs a sua direita uma magnífica cabeça de intelectual. de sua vida mesma. lhe facultará pôr ordem no caos de sua vida. O excesso de boa fortuna havia deslocado o corpo político romano. Mas muito menos os que viviam repartidos por todo o mundo romano. A saúde das democracias.A rebelião das massas. Se o regime de comícios é acertado. A cidade tiberina. Homem de mente lúcida é aquele que se liberta dessas "idéias" fantasmagóricas e olha de frente a vida. Estas são as únicas idéias verdadeiras. é onipotente. sob pena de consunção. César é o exemplo máximo que conhecemos de dom para encontrar o perfil da realidade substantiva em um momento de confusão pavorosa. peremptório. não tem inimigos à sua frente. em receitas. já está no firme. porque se compõe de situações únicas em que o homem se encontra de repente submerso. e se convence de que tudo nela é problemático. ao começar o século I antes de Cristo. Um regime eleitoral é estúpido quando é falso. Não lhe interessa que suas "idéias" não sejam verdadeiras. Tudo o mais é secundário. quem o aceita já começou a encontrar-se. dona da Itália. já começou a descobrir sua autêntica realidade. rica. Pelo contrário: o indivíduo trata com elas de interceptar sua própria visão do real. A política é muito mais real que a ciência. estava a ponto de rebentar. é dizer. Já os cidadãos do campo não podiam assistir aos comícios. embora o resto marche otimamente.

Toda nova conquista é um delito de lesa-república. e Salústio. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em compensação. A solução de César é totalmente oposta à conservadora. "A República não era mais que uma palavra". começa pelo "depois" e não pelo "antes". Sua política pode resumir-se em duas cláusulas: Primeira. foi necessário falsificá-las. Por que? Constituíam o Poder os republicanos. Este entendia por tal precisamente um cidadão como os demais. mas que era investido de poderes superiores. de ver sua vida como uma dilatação na temporalidade.A rebelião das massas. que confunde duas coisas. Mas isso não é ser insensível ao tempo. O greco-romano padece de uma surpreendente cegueira para o futuro. Os europeus sempre gravitamos em direção ao futuro e sentimos que é esta a dimensão mais substancial do tempo. protegido e deformado pelo escafandro ilustre. Existiam em um presente pontual. entreteve-se em fazê-la. Não temos mais remédio. Daí que todo o seu viver é em certo modo reviver. A cidade não pode governar tantas nações. e os candidatos organizavam partidas de cacete . César sustentará a necessidade de romanizar a fundo os povos bárbaros do Ocidente. e informado por aquele mergulha na atualidade. o qual. Cícero. Esta como mania de tomar todo presente com as pinças de um exemplo pretérito. Compreende que para curar as conseqüências das anteriores conquistas romanas não havia mais remédio senão prossegui-las aceitando até o fim tão enérgico destino. os transtornos da vida pública romana provêem de sua excessiva expansão. pois. Dava a casualidade de que era precisamente César e não o manual de cesarismo que sói vir depois. Compreende-se. Para empreendê-la teve de se declarar rebelde ante o Poder constituído. A expressão é de César.que se encarregavam de romper as urnas. como o daltonista não vê a cor vermelha. em seus memoriais a César. Os generais da esquerda e da direita .com veteranos do exército. pelo menos. Segunda. Eu suspeito que esse diagnóstico é errôneo. os conservadores. para nós. transferiu-se do homem antigo ao filósofo moderno.exibiam insolências em vazias ditaduras que não levavam a nada. Sobretudo urgia conquistar os povos novos. Também ele retrograda. O segredo está em sua façanha capital: a conquista das Gálias. como Lagartijo ao projetar-se para matar. Disse-se (Spengler) que os greco-romanos eram incapazes de sentir o tempo. Isto é ser arcaizante e isto o foi quase sempre o antigo. vive radicalmente no pretérito. No ar estão as palavras. um moderator. Sem o apoio de autêntico sufrágio as instituições democráticas estão no ar. com atletas do circo . busca no passado um modelo para a situação presente. quer dizer. defeituoso da asa futurista e com hipertrofia de antanhos. para evitar a dissolução das instituições é preciso um príncipe.Mário e Sila . Significa simplesmente um cronismo incompleto. Mas. resumem o pensamento de todos os publicistas pedindo um princips civitatis. os fiéis ao Estado-cidade. impossíveis. mais perigosos em um futuro não muito remoto que as nações corruptas do Oriente. ou. em seus livros Sobre a República. Para nós a palavra "príncipe" tem um sentido quase oposto ao que tinha para um romano. indaga em toda atualidade um precedente. que ao olhar a vida greco-romana nos pareça anacrônica. Não o vê. um rector rerum publicarum. Antes de fazer agora algo dá um passo atrás. César não explicou nunca sua política. que tomar seus atos e dar-lhes seu nome.htm (83 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Nenhuma magistratura gozava de autoridade. a fim de regular o funcionamento das instituições republicanas. se queremos entender aquela política.

A rebelião das massas.

ao qual denomina, com lindo vocábulo de égloga, sua "fonte". Digo isto porque já os antigos biógrafos de César se fecham à compreensão desta enorme figura supondo que tratava de imitar Alexandre. A equação impunha-se: se Alexandre não podia dormir pensando nos lauréis de Milcíades, César devia forçosamente sofrer de insônia pelos de Alexandre. E assim sucessivamente. Sempre o passo atrás e o pé de hoje na pegada de ontem. O filólogo contemporâneo repercute o biógrafo clássico. Crer que César aspirava a fazer algo assim como o que fez Alexandre - e isto creram quase todos os historiadores - é renunciar radicalmente a entendê-lo. César é aproximadamente o contrário de Alexandre. A idéia de um reino universal é o único que os emparelha. Mas esta idéia não é de Alexandre, mas vem da Pérsia. A imagem de Alexandre teria empurrado César para o Oriente, para o prestigioso passado. Sua preferência radical pelo Ocidente revela melhor a vontade de contradizer o macedônio. Mas, ainda mais, não é um reino universal, apenas, o que César se propõe. Seu propósito é mais profundo. Quer um Império romano que não viva de Roma, mas da periferia, das províncias, e isso implica a superação absoluta do Estado-cidade. Um Estado onde os povos mais diversos colaborem, de que todos se sintam solidários. Não um centro que manda e uma periferia que obedece, mas um gigantesco corpo social, onde cada elemento seja por sua vez passivo e ativo do Estado. Tal é o Estado moderno, e esta foi a fabulosa antecipação de seu gênio futurista. Mas isso supunha um poder extraromano, anti-aristocrata, infinitamente elevado sobre a oligarquia republicana, sobre seu príncipe, que era só um primus inter pares. Este poder executor e representante da democracia universal só podia ser a Monarquia com sua sede fora de Roma. República! Monarquia! Duas palavras que na história trocam constantemente de sentido autêntico, e que por isso é preciso a todo instante triturar para certificar-se de sua eventual força. Seus homens de confiança, seus instrumentos mais imediatos, não eram arcaicas ilustrações da urbe, mas gente nova, provinciais, personagens enérgicos e eficientes. Seu verdadeiro ministro foi Cornélio Balbo, um homem de negócios gaditano, um atlântico, um "colonial ". Mas a antecipação do novo Estado era excessiva: as cabeças lentas do Lácio não podiam dar brinco tão grande. A imagem da cidade, com seu tangível materialismo, impediu que os romanos "vissem" aquela organização novíssima do corpo público. Como podiam formar um Estado homens que não viviam numa cidade? Que gênero de unidade era essa, tão sutil e tão mística? Repito uma vez mais: a realidade que chamamos Estado não é a espontânea convivência de homens que a consangüinidade uniu. O Estado começa quando se obriga a conviver a grupos nativamente separados. Esta obrigação não é desnuda violência, mas que supõe um processo incitativo, uma tarefa comum que se propõe aos grupos dispersos. Antes que nada é o Estado projeto de um fazer e programa de colaboração. Chama-se às pessoas para que juntas façam algo. O Estado não é consangüinidade, nem unidade lingüística, nem unidade territorial, nem contiguidade de habitação. Não é nada material, inerte, dado e limitado. É um puro dinamismo - a vontade do fazer algo em comum -, e mercê a isso a idéia estatal não está por nenhum termo físico (78). Agudíssima a conhecida empresa política de Saavedra Fajardo: uma flecha, e debaixo: "Ou sobe ou desce". Isso é o Estado. Não uma coisa, mas um movimento. O Estado é em todo instante algo que vem de e vai para. Como todo movimento, tem um terminus a quo e um terminus ad quem. Corte-se por

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A rebelião das massas.

qualquer hora a vida de um Estado que o seja verdadeiramente, e se achará uma unidade de convivência que parece fundada em tal ou qual atributo material: sangue, idioma, "fronteiras naturais". A interpretação estática nos levará a dizer: isso é o Estado. Mas logo advertimos que essa agrupação humana está fazendo algo comunal: conquistando outros povos, fundando colônias, federando-se com outros Estados; quer dizer, que em toda hora está superando o que parecia princípio material de sua unidade. E o terminus ad quem, é o verdadeiro Estado, cuja unidade consiste precisamente em superar toda unidade dada. Quando esse impulso para o mais além cessa, o Estado automaticamente sucumbe, e a unidade que já existia e parecia fisicamente cimentada - raça, idioma, fronteira natural - não serve de nada: o Estado se desagrega, se dispersa, se atomiza. Só essa duplicidade de momentos no Estado - a unidade que já é e a mais ampla que projeta - permite compreender a essência do Estado nacional. Sabido é que ainda não se logrou dizer em que consiste uma nação, se damos a este vocábulo uma acepção moderna. O Estado-cidade era uma idéia muito clara, que se via com os olhos da cara. Mas o novo tipo de unidade pública que germinava em galos e germanos, a inspiração política do Ocidente, é coisa muito mais vaga e fugidia. O filólogo, o historiador atual, que é de seu arcaizante, encontra-se ante este formidável fato quase tão perplexo como César e Tácito quando com sua terminologia romana queriam dizer o que eram aqueles Estados incipientes, transalpinos e ultra-renanos, ou bem os espanhóis. Chamam-nos civitas, gens, natio, percebendo que nenhum destes nomes coincide com a coisa (79). Não são civitas, pela simples razão de que não são cidades (80). Mas nem sequer cabe indefinir o termo e aludir com ele um território delimitado. Os povos novos trocam com suma facilidade de torrão, ou pelo menos ampliam e reduzem o que ocupavam. Tampouco são unidades étnicas - gentes, nationes. - Por muito longe que recorramos, os novos Estados aparecem já formados por grupos de nacionalidades independentes. São combinações de sangues diferentes. Que é, pois, uma nação, já que não é nem comunidade de sangue, nem adscrição a um território, nem coisa alguma desta ordem? Como sempre acontece, também neste caso uma pulcra submissão aos fatos nos dá a chave. Que é que salta aos olhos quando repassamos a evolução de qualquer "nação moderna" - França, Espanha, Alemanha -? Simplesmente isto: o que em certa data parecia constituir a nacionalidade aparece negado numa data posterior. Primeiro, a nação parece a tribo, e a não-nação a tribo de ao lado. Depois a nação se compõe de duas tribos, mais tarde é uma comarca e pouco depois é já todo um condado ou ducado ou "reino". A nação é Leão, mas não Castela; depois é Leão e Castela, mas não Aragão. É evidente a presença de dois princípios: um, variável e sempre superado - tribo, comarca, ducado, "reino", com seu idioma ou dialeto -; outro, permanente, que salta libérrimo sobre todos esses limites e postula como unidade o que aquele considerava precisamente como radical contraposição. Os filólogos - chamo assim aos que hoje pretendem denominar-se "historiadores" - praticam o mais delicioso truísmo quando partem do que agora, nesta data fugaz, nestes dois ou três séculos, são as nações do Ocidente e supõem que Vercingetorix ou que Cid Campeador queriam já uma França deste Saint-Malo a Estrasburgo - precisamente - ou uma Spania desde Finisterre a Gibraltar. Estes filólogos como o ingênuo dramaturgo - fazem quase sempre que seus heróis partam para a guerra dos Trinta Anos. Para nos explicar como se formaram a França e a Espanha, supõem que a França e a Espanha preexistiam como unidades no fundo das almas francesas e espanholas. Como se existissem franceses e espanhóis originariamente antes de que a França e a Espanha existissem! Como se o francês e o espanhol não fossem simplesmente coisas que foram formadas em dois mil anos de faina!

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A rebelião das massas.

A verdade pura é que as nações atuais são apenas a manifestação atual daquele princípio variável, condenado à perpétua superação. Esse princípio não é agora o sangue nem o idioma, posto que a comunidade de sangue e de idioma na França ou na Espanha foi efeito, e não causa, da unificação estatal; esse princípio é agora a "fronteira natural". Está bem que um diplomata empregue em sua esgrima astuta este conceito de fronteiras naturais, como ultima ratio de suas argumentações. Mas um historiador não pode entrincheirar-se atrás dele como se fosse um reduto definitivo. Nem é definitivo, nem sequer suficientemente específico. Não se esqueça qual é, rigorosamente proposta, a questão. Trata-se de averiguar que é o Estado nacional - o que hoje costumamos chamar nação -, a diferença de outros tipos de Estado, como o Estado-cidade ou, indo ao outro extremo, como o Império que Augusto fundou (81). Se se quer formular o tema de modo ainda mais claro e preciso, diga-se assim: Que força real produziu essa convivência de milhões de homens sob uma soberania de Poder público que chamamos França, ou Inglaterra, ou Espanha, ou Itália, ou Alemanha? Não foi a prévia comunidade de sangue, porque cada um desses corpos coletivos está regado por torrentes cruentas muito heterogêneas. Não foi tampouco a unidade lingüística, porque os povos hoje reunidos em um Estado falavam ou falam ainda idiomas diferentes. A relativa homogeneidade de raça e língua de que hoje gozam - supondo que isso seja um gozo - é resultado da prévia unificação política. Portanto, nem o sangue nem o idioma fazem o Estado nacional; pelo contrário, é o Estado nacional quem nivela as diferenças originárias de glóbulo vermelho e som articulado. E sempre aconteceu assim. Poucas vezes, para não dizer nunca, terá o Estado coincidido com uma identidade prévia de sangue ou idioma. Nem a Espanha é hoje um Estado nacional porque se fale em toda ela o espanhol (82), nem foram Estados nacionais Aragão e Catalunha porque em certo dia, arbitrariamente escolhido, coincidissem os limites territoriais de sua soberania com os da fala aragonesa ou catalã. Estaríamos mais próximos da verdade se, respeitando a casuística que toda realidade oferece, nos inclinássemos a esta presunção: toda unidade lingüística que abarca um território de alguma extensão é quase certamente precipitado de alguma unificação política precedente (83). O Estado tem sido sempre o grande turgimão. Há muito tempo que isto consta, e é muito estranha a obstinação com que, entretanto, se persiste em dar à nacionalidade como fundamentos o sangue e o idioma. Nisso eu vejo tanta ingratidão como incongruência. Porque o francês deve sua França atual, e o espanhol sua atual Espanha, a um princípio X, cujo impulso consistiu precisamente em superar a estreita comunidade de sangue e de idioma. De sorte que a França e a Espanha consistiriam hoje no contrário do que as tornou possíveis. Igual tergiversação comete-se ao querer fundar a idéia de nação numa grande figura territorial, descobrindo o princípio de unidade, que sangue e idioma não proporcionam, no misticismo geográfico das "fronteiras naturais". Tropeçamos aqui com o mesmo erro de ótica . O acaso da data atual mostra-nos as chamadas nações instaladas em amplos torrões do continente ou nas ilhas adjacentes. Desses limites atuais quer fazer-se algo definitivo e espiritual. São, dizem, "fronteiras naturais", e com sua "naturalidade" significa-se uma como mágica predeterminação da história pela via telúrica. Mas este mito volatiliza-se imediatamente submetendo-o ao mesmo raciocínio que invalidou a comunidade de sangue e de idioma como fontes da nação. Também aqui, se retrocedemos alguns séculos, surpreende-nos a França e a Espanha dissociadas em nações menores, com suas inevitáveis "fronteiras

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eram apenas súditos. Na Inglaterra. pois. Não há. participe e colaborador. como mais natural ainda que a fronteira. Pois bem: exatamente o mesmo papel corresponde à raça e à língua.escravos. As fronteiras serviram para consolidar em cada momento a unificação política já alcançada.htm (87 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Não foram. desta união com e no Estado. Não obstante o que. ingenuamente. Dominados estes energicamente. mas ao contrário: a princípio foram estorvo. os demais . classes relativamente privilegiadas e classes relativamente postergadas.para A. A idéia de "fronteira natural" implica. Em Atenas e em Roma só uns quantos homens eram o Estado. pois. na França.significa a "união hipostática" do Poder público e a coletividade por ele regida. colonos . afinal das contas. na Espanha. E claro que ao desfazer uma tergiversação serei eu quem pareça cometê-la agora. o passo de Calais ou o estreito de Gibraltar. em seu afã de unificação. mas ao contrário: o Estado nacional encontrou-se sempre. e não em princípios forasteiros de caráter biológico ou geográfico. e depois. ninguém foi nunca só súdito do Estado. é uma defesa para B. outro remédio senão desfazer a tergiversação tradicional padecidas pela idéia de Estado nacional e habituar-se a considerar como estorvos primários para a nacionalidade precisamente as três coisas em que se acreditava consistir. aparece evidente que todo indivíduo se sentia sujeito ativo do Estado. uno com ele.A rebelião das massas. A montanha fronteiriça seria menos prócer que o Pirineu ou os Alpes e barreira líquida menos caudalosa que o Reno. Porque é um estorvo .de convivência ou de guerra . em sua política mesma. Por que. uma vez alheada. É preciso resolver-se a procurar o segredo do Estado nacional em sua peculiar inspiração como tal Estado. A realidade histórica da famosa "fronteira natural" consiste simplesmente em ser um estorvo à expansão do povo A sobre o povo B. Qual tem sido então o papel das fronteiras na formação das nacionalidades. frente às muitas raças e às muitas línguas. só um obstáculo material lhes põe um freio. mas. Pelo visto. naturais". se se interpreta a realidade efetiva da situação política em cada época e se revive seu espírito. mas sempre participou dele. Mas isso apenas demonstra que a "naturalidade" das fronteiras é meramente relativa. pelo contrário: estorvos que a idéia nacional encontrou em seu processo de unificação. já que não têm sido o fundamento positivo destas? A coisa é clara e de suma importância para entender a autêntica inspiração do Estado nacional diante do Estado-cidade. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. queremos atribuir um caráter definitivo e fundamental às fronteiras de hoje. foram meio material para assegurar a unidade. pois. tem sido muito diferente conforme os tempos. Não é a comunidade nativa de uma ou outra o que constituiu a nação. princípio da nação. língua e território nativos para compreender o fato maravilhoso das modernas nações? Pura e simplesmente. sobretudo jurídica. provincianos. apesar de que os novos meios de tráfego e guerra anularam sua eficácia como estorvos. a possibilidade da expansão e fusão ilimitada entre os povos. Tem havido grandes diferenças de condição social e estatuto pessoal.no sentido que este vocábulo emite no Ocidente de há mais de um século . As fronteiras de ontem e de anteontem não nos parecem hoje fundamentos da nação francesa ou espanhola. se acreditou necessário recorrer a raça. porque nestas achamos uma intimidade e solidariedade radical dos indivíduos com o Poder público desconhecidas no Estado antigo. produziu uma relativa unificação de sangues e idiomas que serviu para consolidar a unidade. Depende dos meios econômicos e bélicos da época. A forma. aliados. Nação . como com outros tantos estorvos.

finalmente. elemental e tosca. As diferentes classes de Estado nascem das maneiras segundo as quais o grupo empresário estabeleça a colaboração com os outros. forma parte ativa do Estado. entende-se bem o que esta expressão significa? Não podemos dar-lhe agora um conteúdo de signo oposto ao que Renan lhe insufla. Mas. todo aquele que preste adesão à empresa .em suma. Se ele é um projeto de empresa comum. A Roma tocava mandar e não obedecer. Não o que fomos ontem. E curioso notar que. ao definir a nação fundando-a numa comunidade de pretérito. antiga. o Estado consiste. territorial e etnicamente. a saber: como dualidade de dominantes e dominados (84). muito mais verdadeiro? file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. qualquer que seja sua forma . programa de ação ou conduta humanos. ficam em segundo plano. Tendência política tal avançará inexoravelmente para unificações cada vez mais amplas. Na mesma urbe não conseguiu a fusão política dos cidadãos. Segundo isto. Conforme cresce a nação. E é que o europeu. acaba-se sempre por aceitar como a melhor a fórmula de Renan. em organizar certo tipo de vida comum. o Estado se materializa no pomoerium. tradicional e imemorial . e se diz que é um "plebiscito cotidiano". e teve de se defender exclusivamente com seus meios burocráticos de administração e de guerra. o Estado antigo não acerta nunca a fundir-se com os outros. são termos inseparáveis. Assim. Não só de um povo com outro. e que finalmente se resumem em uma: o homem antigo interpretou a colaboração em que. Esta empresa. Mas os povos novos trazem uma interpretação do Estado menos material. A capacidade de fusão é ilimitada. adscrição geográfica. O Estado é sempre.primitiva. quaisquer que sejam seus trâmites intermediários. Não é a comunidade anterior.raça. pretérita. é sujeito político. no corpo urbano que uns muros delimitam fisicamente. consiste. o convite que um grupo de homens faz a outros grupos humanos para juntos executar uma empresa. Por isso o Império ameaçado não pode contar com o patriotismo dos outros. fatal e irreformável . Roma manda e educa os italiotas e as províncias. mas a comunidade futura no efetivo fazer. num sentido mais decisivo que todas as diferenças nas formas de governo. a rigor. duas Romas: o Senado e o povo. Estado e projeto de vida. durante a República. nos reúne em Estado. A unificação estatal não passou nunca de mera articulação entre os grupos que permaneceram externos e estranhos uns aos outros. mas não os eleva a união consigo. Roma foi.A rebelião das massas. aos demais. se comporta como um homem aberto ao futuro. sua realidade é puramente dinâmica: um fazer. mas o que é mais característico ainda do Estado nacional: a fusão de todas as classes sociais dentro de cada corpo político. sem que haja nada que em princípio a detenha. a comunidade na atuação. relativamente ao homo antiquus. Esta incapacidade de todo grupo grego e romano para fundir-se com outros provém de causas profundas que não convém perscrutar agora. Daí a facilidade com que a unidade política brinca no Ocidente sobre todos os limites que aprisionaram o Estado antigo. de uma maneira simples. o idioma e as tradições comuns um atributo novo. Não se esqueça que.htm (88 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . entretanto. sangue. queira-se ou não. e que é. mas o que vamos fazer amanhã juntos. classe social. vai-se fazendo mais una a colaboração interior. obedecer e não mandar. medieval ou moderna -. Desta sorte. que vive conscientemente instalado nele e dele decide sua conduta presente. O Estado nacional é em sua raiz mesma democrático. simplesmente porque nela se ajunta ao sangue.a que proporciona título para a convivência política.

No passado. Se a nação consistisse nisso e em mais nada. o Estado nacional representaria um princípio estatal mais próximo à pura idéia de Estado que a antiga polis ou que a "tribo" dos árabes. pois: nada tem sentido para o homem.. sem pausa nem descanso. a Inglaterra. Tal é a conhecidíssima sentença de Renan. Os que afirmam o contrário são hipócritas ou mentecaptos. língua e passado comuns são princípios estáticos. a Espanha. ninguém se ocuparia de defendê-la contra um ataque.htm (89 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .. Conste. com o que não teríamos nada que fazer. a idéia nacional conserva não pouco lastro de adscrição ao passado. mas não algo que se faz. Parece-nos desejável um porvir no qual nossa nação continue existindo.diga-se de uma vez . ao território.quem fez as nações. Isso é o que reverbera na frase de Renan: a nação como excelente programa para amanhã. mas por isso mesmo é surpreendente notar como nela triunfa o puro princípio de unificação humana em torno a um incitante programa de vida. Mas acontece que o passado nacional projeta aliciantes . Portanto. querer fazer outras mais. nem pelo comum passado. Mais: eu diria que esse lastro de pretérito e essa relativa limitação dentro de princípios materiais não têm sido nem são por completo espontâneos nas almas do Ocidente. Desde o instante atual nos ocupamos do que sobrevem. não nosso ontem. VIII "Ter glórias comuns no passado. Fazemos memória neste segundo para lograr algo no imediato. fatais. Por isso nos mobilizamos em sua defesa. a vida humana é constante ocupação com algo futuro.. teriam ficado inexistentes (86). Por que não se reparou em que fazer. unicamente revela que também a definição de Renan é arcaizante. senão em função do porvir (85). nem pelo idioma. Se para que exista uma nação é preciso que um grupo de homens conte com um passado comum. no porvir. fazer. Por isso viver é sempre.. Como se explica sua excepcional fortuna? Sem dúvida. não pelo sangue. Se a nação consistisse não mais que em passado e presente. A nação seria algo que se é. rígidos. Sangue. eu me pergunto como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pela graça da nota. De fato. A existência de uma nação é um plebiscito cotidiano".no futuro. circunscrita pelo sangue. Este modesto prazer solitário se nos apresentou há pouco como um futuro desejável. significa realizar um futuro? Inclusive quando nos entregamos a recordar. eis aqui as condições essenciais para ser um povo. a nação seria uma coisa situada às nossas costas. Que neste caso o futuro consista numa perduração do passado não modifica em nada a questão. a França. haver feito juntos grandes coisas. por isso o fazemos. um mesmo programa para realizar. uma herança de glórias e remorsos. Ao defender a nação defendemos nosso amanhã. inertes. Queira-se ou não. Crer o contrário é o truísmo a que já aludi e que o próprio Renan admite em sua famosa definição. todo fazer. Porque essa interpretação confunde o que impulsa e constitui uma nação com o que meramente a consolida e conserva. Esta idéia de que a nação consiste num plebiscito cotidiano opera sobre nós como uma liberação. O plebiscito decide um futuro. sempre. à raça. Não é o patriotismo . De haver existido na Idade Média esse conceito oitocentista de nacionalidade. mas que procedem da interpretação erudita dada pelo romanticismo à idéia de nação. Nem sequer teria sentido defendê-la quando alguém a ataca. ainda que não seja mais que o prazer de reviver o passado. uma vontade comum no presente.A rebelião das massas.reais ou imaginários . a Alemanha. são prisões.

Não se adverte aqui o vício gremial do filósofo. como aconteceu tantas vezes. e antes de criá-la teve de sonhá-la. entretanto. cuja perpetuação decide. como "treinaram" ou se desmoralizaram.como algo estranhos a eles. As empresas estatais dos antigos. segundo. interna nem definitiva. os súditos são já o Estado e não o podem sentir . que. a "pátria". ou a consolidação que em cada momento requer o plebiscito. Como a unidade não era autêntica. Pelo visto era forçoso que essa existência comum fenecesse.podia submeter à unidade de soberania quaisquer porções do planeta. passasse. da nacionalidade . não só no público. é a essencial: o futuro comum. Esta é a ótica decisiva. para que pudessem dizer: somos uma nação. ainda que não se alcance. Porque. no Estado nacional uma estrutura histórica de caráter plebiscitário. Por que? Falta só uma coisa. a adesão dos homens a esse projeto incitativo. dando ao plebiscito um conteúdo retrospectivo. Falaríamos em tal caso de uma nação malograda (por exemplo. mas tão somente (87). tudo isso serve de forças de consolidação. Renan encontrou a palavra mágica. Outra coisa mostraria claramente esse estudo. antes de tudo. de projetá-la. que se refere a uma nação já feita. ainda que fracasse a execução. teve de criar essa comunidade. uma nação não está nunca feita. de querê-la. Vejo. Quando há aquilo. eram praticamente limitadas. ou a forma. o macedônio ou o romano . Na realidade. não forma com eles uma nação. na medida de que houvesse ou não empresa à vista. por isso que o Estado propriamente tal ficava sempre inscrito em uma limitação fatal . representa o conteúdo. conforme seu Estado represente ou não no momento uma empresa vivaz. em verdade. Entretanto. mas até em sua existência mais privada. pelo visto. por isso que não implicavam a adesão fundente dos grupos humanos sobre os quais se tentavam.isto é o novo. Renan anula ou quase seu acerto. Ela nos permite vislumbrar catodicamente o segredo essencial de uma nação. antes de possuir um passado comum. que se compõe destes dois ingredientes: primeiro. Então ver-se-ia como delas têm vivido os europeus. do arquivista. e de nada valeram então os arquivos. os antepassados. sua ótica profissional que lhe impede ver a realidade quando não é pretérita? O filólogo é quem necessita para ser filólogo que. Mas no Ocidente a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Borgonha). Por isso o mais instrutivo seria reconstruir a série de empresas unitivas que sucessivamente inflamaram os grupos humanos do Ocidente. exista um passado. linguagem comum. pois. E até que tenha o projeto de si mesma para que a nação exista. chamaremos a esse mesmo grupo de homens enquanto vivia em presente isso que visto hoje é um passado. raça comum. o maravilhoso. que estoura de luz.tribo ou urbe -. Eu preferiria trocar-lhe o signo e fazê-lo valer para a nação in statu nascendi. Ou está ganhando adesões ou está perdendo-as. mas a nação. A Espanha não soube inventar um programa de porvir coletivo que atraísse esses grupos zoologicamente afins. Tudo que além disso pareça ser. O plebiscito futurista foi adverso à Espanha. e. Esta adesão de todos engendra a interna solidez que distingue o Estado nacional de todos os antigos. Tertium non datur. Um povo . A nação está sempre ou fazendo-se ou desfazendo-se. um projeto de convivência total numa empresa comum. nos quais a união se produz e mantém por pressão externa do Estado sobre os grupos díspares. não estava sujeita a outras condições senão à eficácia bélica e administrativa do conquistador.A rebelião das massas. Com os povos do Centro e da América Meridional tem a Espanha um passado comum.o persa.htm (90 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Nisto se diferencia de outros tipos de Estado. tem um valor transitório e cambiante. as memórias. enquanto aqui nasce o vigor estatal da coesão espontânea e profunda entre os "súditos".

o que a Europa foi para os "europeus" no século XIX. Deveria estranhar mais o fato de que na Europa não tenha sido possível nenhum império do tamanho que alcançaram o persa. o de Alexandre ou o de Augusto. ao contrário. de fechar-se em si mesmo dentro do Estado. Por muita realidade que se queira dar a essa idéia no século XI. tanto mais diretamente caminha para se depurar num gigantesco Estado continental. O Estado goza de plena consolidação. Os inimigos habituais vão se fazendo historicamente homogêneos (88). Mas. E é muito menos utópico crer nisso hoje assim como o houvera sido vaticinar no século XI a unidade da Espanha e da França.htm (91 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . convive-se econômica. Não porque esta proximidade funde a nação. Spania. o que hoje denominamos nacionalismo. a idéia politicamente eficaz. reconhecer-se-á que não chega sequer ao vigor e precisão que já tem para os gregos do IV a idéia da Hélade. começa a atuar sobre os grupos mais próximos geográfica. Agora chega para os europeus a sazão em que a Europa pode converter-se em idéia nacional. mas porque a diversidade entre próximos é mais fácil de dominar. quanto mais fiel permaneça a sua autêntica substância.uma idéia nacional. e esta unidade leon-castelã era a idéia nacional do tempo. a Hélade não foi nunca verdadeira idéia nacional. que faz sentir o Estado como fusão de vários povos em uma unidade de convivência política e moral. e para superfetação da tese acrescenta-se que séculos antes já S. É o período em que o processo nacional toma um aspecto de exclusivismo. em todo caso. O peculiar instinto ocidental. continuamos considerando-os como estranhos e hostis. é quase certo que chegará sua hora. Isidoro falava da "mãe Espanha". Mas o fato é que enquanto se sente politicamente os outros como estranhos e concorrentes. No tempo do Cid estava se começando a urdir o Estado Leão-Castela. Mas esta noção geográfico-administrativa era pura recepção. Período de consolidação. Não obstante. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Segundo momento. Então surge a nova empresa: unir-se aos povos que até então eram seus inimigos. em que se sentem os outros povos além do novo Estado como estranhos e mais ou menos inimigos. e em modo algum aspiração. Um exemplo esclarecerá o que tento dizer. Cresce a convicção de que são afins com o nosso em moral e interesses. A efetiva correspondência histórica seria melhor esta: a Hélade foi para os gregos do século IV. Mostra isto como as empresas de unidade nacional vão chegando à sua hora do modo como os sons em uma melodia. étnica e lingüisticamente. As guerras nacionalistas servem para nivelar as diferenças de técnica e de espírito. era uma idéia principalmente erudita. Sói afirmar-se que em tempo do Cid era já a Espanha Spania . não obstante. e que juntos formamos um círculo nacional ante outros grupos mais distantes e ainda mais estrangeiros. Terceiro momento. Pouco a pouco vai se destacando no horizonte a consciência de que estes povos inimigos pertencem ao mesmo círculo humano que o nosso Estado. e Spania para os "espanhóis" do XI e ainda do XIV. não íntima inspiração. A meu ver. por seu turno. Os "espanhóis" haviam se acostumado a ser reunidos por Roma numa unidade administrativa. intelectual e moralmente com eles. unificação nacional teve de seguir uma série inexorável de etapas. uma de tantas idéias fecundas que deixou semeadas no Ocidente o Império romano. O Estado nacional do Ocidente.A rebelião das massas. numa diocese do Baixo Império. isso é um erro crasso de perspectiva histórica. A mera afinidade de ontem terá de esperar até amanhã para entrar em erupção de inspirações nacionais. E. O processo criador de nações teve sempre na Europa este ritmo: Primeiro momento. em suma. Eis aqui madura a nova idéia nacional.

Não se vislumbra que outra coisa de monta possamos fazer os que existimos neste lado do planeta se não é realizar a promessa que há quatro séculos significa o vocábulo Europa. Sofre hoje o mundo uma grave desmoralização. o deslocamento do poder que outrora exercia sobre o resto do mundo e sobre si mesmo nosso continente. o galo. IX Apenas as nações do Ocidente preenchem seu atual perfil surge em torno delas e sob elas. serviu-nos de admoestação. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. sentiria terror. presunções -. direito. são e serão tão diferentes como se queira. como "nacionais". ao homem antigo. etc. pelejam entre si. Agora se vai ver se os europeus são também filhos da mulher de Lot e se obstinam em fazer história com a cabeça virada para trás. Religião. Ora bem: essas são as coisas espirituais de que se vive. Se se fizesse a experiência imaginária de se reduzir a viver puramente com o que somos. a Europa. Dir-se-ia que aquele fragor de batalhas foi só uma tela atrás da qual tanto mais tenazmente trabalhava a pacífica polipeira da paz. desfazem-nas.A rebelião das massas. em cem se comerciava com o inimigo. em geral. França. entretecendo a vida das nações hostis. apercebendo-se dela ou não. guerra como paz. não é a idéia erudita. que entre outros sintomas se manifesta por uma desatorada rebelião das massas. Mas tudo isso. mas possuem um mesmo plano ou arquitetura psicológicos e. A história destacou em primeiro termo as querelas e. A soberania histórica acha-se em dispersão. e. A alusão a Roma. recompõem-nas. arte. Itália. desejos. o britânico e o germano. é muito difícil que certo tipo de homem abandone a idéia de Estado uma vez que ela se lhe encasquetou. espanhol. trouxe ao mundo. permutavam-se idéias e formas de arte e artigos da fé. e em obra de mera fantasia se extirpasse do homem médio francês tudo que usa. Resumo agora a tese deste ensaio. diga-se deste modo: as almas francesas e inglesas e espanholas eram. que se lhe predicou. Em cada nova geração. filológica. Espanha. maior que se as almas fossem de idêntico calibre. mas do fundo comum europeu. a idéia de nação como passado. mas. E esta a unidade de paisagem em que se vai mover desde o Renascimento. com efeito. o que nem na paz nem na guerra pode nunca fazer Roma com o celtibero. vão adquirindo um conteúdo comum. que sem adverti-lo começam já a abstrair de sua belicosa pluralidade. que as quatro quintas partes de seu haver íntimo são bens jacentes europeus. e essa paisagem européia são elas mesmas. Inglaterra. como um fundo. que é o terreno mais tardio para a espiga da unidade. a idéia do Estado nacional que o europeu. sobretudo. pensa. pesa muito mais em cada um de nós o que tem de europeu que sua porção diferencial de francês. valores sociais e eróticos vão sendo comuns. Veria que não lhe era possível viver só disso. As causas desta última são muitas. em geral. a política. a homogeneidade das almas se acrescentava. e tem sua origem na desmoralização da Europa. A homogeneidade redunda. é conviver de igual para igual. Afortunadamente. Só se opõe a isso o prejuízo das velhas "nações". Se se quer mais exatidão e mais cautela. nem para o espanhol de sua Espanha.htm (92 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . em virtude de recepção dos outros países continentais. nem o resto do mundo de ser mandado. formam ligas contrapostas.opiniões. pois. notaríamos que a maior parte de tudo isso não vem para o francês de sua França. normas. Hoje. enquanto se batalhava numa gleba. Se hoje fizéssemos balanço de nosso conteúdo mental . Alemanha. Uma das principais. sente. ciência. A Europa não está certa de mandar.

Tudo isso irá com mais celeridade do que veio. nem as mulheres que tipo de homens preferem realmente. a idéia nacional. A atual é fruto de interregno. não há mais vida autóctone que a que se compõe de cenas iniludíveis. Só há verdade na existência quando sentimos seus atos como irrevogavelmente necessários. mais puramente dinâmica. Nada disso tem raízes. como era o do século XIX. Acertará quem não se fie de quanto hoje se apregoa. portanto. Este é o sentido da erupção "nacionalista" nos anos que correm. Um começo disto oferece-se hoje a nossos olhos. Quando esta falta. Já não se pode fazer nada com eles a não ser transcendê-los. tudo que hoje se faz em público e na vida privada . que sistema de preferências. precisamente do princípio caduco. é provisional. transformou-se em província e "interior". de normas. Mas agora abre-se outra vez o horizonte para novas linhas incógnitas. Enquanto o Estado antigo aniquilava o diferencial dos povos ou o deixava inativo fora ou em suma o conservava mumificado. Então acreditava-se saber o que ia acontecer amanhã. Não é criação do fundo substancial da vida. desconjunta-se-lhes a alma. Tudo. envilecem-se. a que vai ser. afrouxam. Por isso é essencialmente provisória. não é afã nem mister autêntico. de um vazio entre duas organizações do mundo histórico: a que foi. Não há mais vida com raízes próprias.repito . isto é. e por isso a vida do mundo entrega-se a uma escandalosa interinidade.. portanto. no mau sentido da palavra. E sempre . posto que não se sabe quem vai mandar. A última chama. Tente-se projetá-los para o futuro e sentir-se-á o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. não o esporte em si) até a violência em política. desde a "arte nova" até os banhos de sol nas ridículas praias da moda.A rebelião das massas.htm (93 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . desde a mania do esporte físico (a mania. Não se sabe para que centro de gravitação vão ponderar em um futuro próximo as coisas humanas. porque tudo isso é pura invenção. a pluralidade atual não pode nem deve desaparecer. Tudo. Os europeus não sabem viver se não se lançam numa grande empresa unitiva. A véspera de desaparecer. O derradeiro suspiro. porque é um ar confinado. sem mais exceção que algumas partes de algumas ciências. porque isto supõe um porvir claro. se ensaia e se encomia. se ostenta.como sempre acontece em crises parelhas . e quanto mais extremo é seu gesto. menos exigido pelo destino. Mas . exige a permanência ativa desse plural que sempre foi a vida do Ocidente. arejada. Quem. prefixado. que a faz eqüivaler a capricho leviano. Na supernação européia que imaginamos. o que está em nossa mão pegar ou largar ou substituir.alguns ensaiam salvar o momento por uma intensificação extremada e artificial. lastrando-o. de molas vitais. inequívoco. O resto.até no íntimo -. a mais extensa.aconteceu assim. aprisionando-o. Com mais liberdade vital que nunca sentimos todos que o ar é irrespirável dentro de cada povo. Todo o mundo percebe a urgência de um novo princípio de vida. Mas todos estes nacionalismos são becos sem saída. é precisamente falsificação da vida. Já não há "plenitude dos tempos". tanto mais frívolo. E nem os homens sabem bem a que instituições de verdade servir. que tipo étnico. Os círculos que até agora se chamaram nações chegaram há um século ou pouco menos à sua máxima expansão. Já não são senão passado que se acumula em torno e debaixo do europeu. as fronteiras se hiperestesiam .. como se vai articular o poder sobre a terra. que povo ou grupo de povos. Cada nação que antes era a grande atmosfera aberta. o mais profundo. que ideologia. Em suma: tudo isso é vitalmente falso.as fronteiras militares e as econômicas. Não há hoje nenhum político que sinta a inevitabilidade de sua política. Dá-se o caso contraditório de um estilo de vida que cultiva a sinceridade e ao mesmo tempo é uma falsificação.

nada disso o que impede ao europeu embalar-se comunisticamente.htm (94 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Só a decisão de construir uma grande nação com o grupo dos povos continentais tornaria a dar tom à pulsação da Europa. e atualmente está mais disposto à violência que os operários. Não por ele mesmo. o conteúdo do credo comunista à russa não interessa. O tempo correu. Não é isso o que imuniza a Europa para a fé russa. Mas na Europa tudo está de sobra consolidado. Voltaria ela a crer em si mesma. o pretexto que se oferece para iludir o dever de invenção e de grandes empresas. Mas à unidade da Europa opõem-se. Não é. como todos os apóstolos. como antes. soem verbificar. e hoje voltaram à tranqüilidade os temerosos de outrora. foi porque na Rússia não havia burgueses (89). porfiados. Por aí não se sai para lado nenhum. Isto pode trazer para elas a catástrofe. O fascismo. e automaticamente a exigir muito de si. enquanto este é inclusivista. mas uma razão muito mais simples e prévia. Mas a situação é muito mais perigosa do que se pode apreciar. como sempre aconteceu no processo de nacionalização. Vão passando os anos e corre-se o risco de que o europeu se habitue a este tom menor de existência que leva agora. Esta: que o europeu não vê na organização comunista um aumento da felicidade humana. É exclusivista. Imagine-se que o "plano qüinqüenal" seguido herculeamente pelo Governo soviético conseguisse suas previsões e a enorme economia russa ficasse não só restaurada. Minha presunção é a seguinte: agora. O nacionalismo é sempre um impulso de direção oposta ao princípio nacionalizador. um valor positivo e é uma alta norma. por sua vez. ir-se-iam volatilizando todas as suas virtudes e capacidades superiores. que é um movimento petit bourgeois. pois. Os bourgeois do Ocidente sabem muito bem que. E não pelas razões triviais que seus apóstolos. parece-me muitíssimo possível que nos anos próximos a Europa se entusiasme pelo bolchevismo. Qualquer que seja o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como ele cria. revelou-se como mais violento que todo o obreirismo junto. mas exuberante. e o nacionalismo não é mais que uma mania. mesmo sem comunismo. ajunta-se outro muito concreto e iminente. a disciplinar-se. acostume-se a não mandar nem se mandar. Em tal caso. A simplicidade de meios com que opera e a categoria dos homens que exalta revelam de sobra que é o contrário de uma criação histórica. Porque agora sim pode derramar-se sobre a Europa o comunismo de roldão e vitorioso. Em época de consolidação tem. surdos e sem veracidade. mas apesar dele. Ninguém ignora que se triunfou na Rússia o bolchevismo. o homem que vive exclusivamente de suas rendas e que as transmite a seus filhos tem os dias contados. choque. as classes conservadoras. Pelo contrário: por aqueles anos escrevi que o comunismo russo era uma substância inassimilável para os europeus.A rebelião das massas. Entretanto .repito -. Eu não participei de semelhante prognóstico. Voltaram à tranqüilidade quando chega justamente a época para que a perdessem. casta que pôs todos os esforços e fervores de sua história na carta Individualidade. Quando o comunismo triunfou na Rússia muitos acreditaram que todo o Ocidente ficaria inundado pela torrente vermelha. nem é muito menos temor. não atrai. Hoje parecem-nos bastante ridículos os arbitrários supostos em que há vinte anos fundava Sorel sua tática da violência. pois ao perigo genérico de que a Europa se desmoralize definitivamente e perca toda a sua energia histórica. não desenha um porvir desejável aos europeus. O burguês não é covarde.

Mas seria demasiado vil que o anticomunismo esperasse tudo das dificuldades materiais encontradas por seu adversário. Quando se fala da "nova" não se faz senão cometer uma imoralidade mais e buscar o meio mais cômodo para passar contrabando. os "idealistas".os cristãos. e se converterá em file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. É indiferente que se mascare de reacionário ou de revolucionário: por ativa ou por passiva. Por essa razão seria uma ingenuidade lançar em rosto ao homem de hoje sua falta de moral.como se fez neste ensaio . mas que o centro de seu regime vital consiste precisamente na aspiração a viver sem sujeitar-se a moral alguma. seu estado de ânimo consistirá. Não acrediteis uma palavra quando ouvirdes os jovens falar da "nova moral". a incitação de um novo programa de vida? XV. tão só que lhe deixe via um pouco franca. e já que não por sua substância. -. frouxos os nervos por falta de disciplina. conteúdo do bolchevismo. Se deixamos de um lado . seu esplêndido caráter de magnífica empresa irradiará sobre o horizonte continental como uma ardente e nova constelação. dará um mesmo resultado. sem projeto de vida nova. O imoralismo chegou a ser tão barato que qualquer um alardeia exercitá-lo.algo assim como uma moral -. Contanto que sirva a algo que dê um sentido à vida e fugir do próprio vazio existencial. sem que ele mesmo suspeite por que sujeito de ilimitados direitos. entretanto. Se a matéria cósmica. etc. A imputação não lhe causaria a menor impressão.A rebelião das massas. O comunismo é uma "moral" extravagante . os velhos liberais. se sinta arrastado por sua atitude moral.todos os grupos que significam sobrevivências do passado . Se a Europa. em ignorar toda obrigação e sentir-se. Não parece mais decente e fecundo opor a essa moral eslava uma nova moral do Ocidente. como poderia evitar o efeito contaminador daquela empresa tão prócer? E não conhecer o europeu esperar que possa ouvir sem se acender essa chamada a novo fazer quando ele não tem outra bandeira de semelhante altaneria que desfraldar ovante. como grande Estado nacional. ou melhor. não faz fracassar gravemente a tentativa. Qualquer substância que caia sobre uma alma assim. persiste no ignóbil regime vegetativo destes anos. Eu vejo na construção da Europa. do homem atual. DESEMBOCA-SE NA VERDADEIRA QUESTÃO Esta é a questão: a Europa ficou sem moral. ao cabo de umas ou outras voltas. indócil aos entusiasmos do homem.htm (95 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não se achará entre todos os que representam a época atual um só cuja atitude ante a vida não se reduza a crer que tem todos os direitos e nenhuma obrigação. a única empresa que poderia contrapor-se à vitória do "plano qüinqüenal". Nele os homens abraçaram resolutamente um destino de reforma e vivem tensos sob a alta disciplina que essa fé lhes injeta. O fracasso deste equivaleria à derrota universal: de todos e de tudo. não é difícil que o europeu engula suas objeções ao comunismo. Nego rotundamente que exista em lugar algum do continente grupo algum informado por um novo ethos que tenha visos de u'a moral. Não é que o homem-massa menospreze uma antiquada em benefício de outra emergente. o lisonjearia. decisivamente. representa um ensaio gigantesco de empresa humana. Os técnicos da economia política garantem que essa vitória tem mui escassas probabilidades de sua parte.

em parte.A rebelião das massas. que é sempre. pateando quanto parecia eminência. uma caduca e a outra em alvor. de sujeitar-se à norma de negar toda moral. Quanto às outras Didaturas. que o homem vulgar possa sentir-se livre de toda sujeição. de que se tenha feito em nossos dias uma plataforma da "juventude" como tal. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas imoral. o miserável e a justiça social. e. Por isso não cabe enobrecer a crise presente mostrando-a como o conflito entre duas morais ou civilizações. consciência de serviço e obrigação. lhe serve de disfarce para poder desentender-se de toda obrigação . O homem-massa carece simplesmente de moral. Com um ou com outro aspira-se sempre ao mesmo: que o inferior. analisando sobretudo seu comportamento ante a civilização mesma em que nasceu. considerou-se isento de fazer ou haver feito façanhas. vivemos um tempo de chantagem universal que toma duas formas de esgar complementário: há a chantagem da violência e a chantagem do humorismo. comicamente. e isto não é amoral. tem. O que com um vocábulo falto até de gramática se chama amoralidade. o fenômeno. Agora recolhe a Europa as penosas conseqüências de sua conduta espiritual. do Estado. pretexto para não se sujeitar a nada concreto. Eu sei de não poucos que ingressaram em um ou outro partido operário apenas para conquistar dentro de si mesmos o direito a desprezar a inteligência e poupar-se aos salamaleques diante dela. Essa esquivança a toda obrigação explica. negação que oculta um efetivo parasitismo. já que pode demorar o cumprimento destas até as calendas gregas da madureza. O homem-massa está ainda vivendo precisamente do que nega e outros construíram ou acumularam. mas uma simples negação. Importava fazer assim porque esse personagem não representa outra civilização que lute com a antiga. se declaram "jovens" porque ouviram que o jovem tem mais direitos que obrigações. Embalou-se sem reservas pelo declive de uma cultura magnífica. chegou a fazer-se da juventude uma chantagem. Era como um falso direito. Embora pareça mentira.como a cortesia. em última instância. Mas talvez é um erro dizer "simplesmente". Porque não se trata só de que este tipo de criatura se desentenda da moral. será para poder afirmar que a salvação da pátria. velis nolis. Em realidade. entre ridículo e escandaloso. sobretudo se o próximo possui uma personalidade valiosa. mas sem raízes. As pessoas. Se você não quer submeter-se a nenhuma norma. precisamente para atribuir-se todos os demais que pertencem só a quem tenha feito já alguma coisa. Por isso não convinha mesclar seu psicograma com a grande questão: que insuficiências radicais padece a cultura européia moderna? Porque é evidente que. é uma coisa que não existe. Sempre viveu de crédito. Se se apresenta como reacionário ou antiliberal. bem vimos como afagam o homem-massa. delas provém esta forma humana agora dominante. Isto se acha na natureza do humano. Sempre o jovem. Neste ensaio desejou-se desenhar certo tipo de europeu. como tal. a veracidade. Não. entre irônico e terno. Mas é estupefaciente que agora o tomem estes como um direito efetivo.htm (96 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas a mesma coisa acontece se dá para ser revolucionário: seu aparente entusiasmo pelo operário manual. Quiçá não ofereça nosso tempo traço mais grotesco. sentimento de submissão a algo. sobretudo. E uma moral negativa que conserva da outra a forma em oco. Da moral não é possível desentender-se simplesmente. não lhe façamos tão fácil a tarefa. Como se pode acreditar na amoralidade da vida? Sem dúvida porque toda a cultura e a civilizacão moderna levam a esse convencimento. que os não jovens concediam aos moços. por essência. dá direito a alhear todas as outras normas e a massacrar o próximo. o respeito ou estimação dos indivíduos superiores.

por inércia mental. EPÍLOGO PARA INGLESES Daqui a pouco faz um ano que numa paisagem holandesa. No meio da mais atroz tormenta. reatar. a nação não nasce. e tem de voltar a começar. sem muitas preparações. por insólitos. não haverá maneira nem sequer de iniciar a conversação.A rebelião das massas. até da Inglaterra.. porque é excessiva. o navio inglês troca todas as suas velas. a que tivera durante dois séculos e que em forma superlativa estava chamado a exercer hoje. como tudo que é humano. Tudo isso sem uma gesticulação e muito além de todas as frases. Em que pese esta vez à etimologia." É uma expressão que significa surpresa. Depois viria a tentativa de mostrar como adquiriu a Inglaterra essas qualidades sociológicas. reduz o assunto file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. exclamam: "Esta Inglaterra!. O caráter nacional vai se fazendo e desfazendo e refazendo na história. Talvez possa em breve ser exaltada. Ainda menos tentar a explicação de como chegou a ser essa estranha coisa que é. que já foi afugentado de outros acontecimentos. à ordem psicológica. O excepcional da Inglaterra não jaz no tipo de indivíduo humano que soube criar. incluso das que acabo de proferir. sobressalto e a consciência de ter a sua frente algo admirável. que se desenvolve. O povo inglês é. é portentosa. Enquanto se acredite que um povo possui um "caráter" prévio e que sua história é uma emanação deste caráter.htm (97 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas essa grande questão tem de permanecer fora destas páginas. como um contraponto. ou. se tende a duvidar de tudo. murmurada nelas. que se corrige. vira dois quadrantes. escrevi o Prólogo para franceses à primeira edição popular deste livro. não é um dom inato. mas uma fabricação. porque atrás dela está o verdadeiramente essencial e fértil. Durante os últimos tempos falharam tantas coisas que. da vida inglesa nos últimos cem anos. eu assinalava com fé robusta a missão européia do povo inglês. cinge-se ao vento e a guinada de seu leme modifica o destino do mundo. É evidente que há muitas maneiras de fazer história. com efeito. onde o destino me havia centrifugado. pelo menos. É uma empresa que dá bem ou mal. O estranho. É sobremaneira discutível que o inglês individual valha mais que outras formas de individualidade aparecidas no Oriente e no Ocidente. Dizia-se que era um povo em decadência. Insisto em empregar esta palavra. Naquela data começava para a Inglaterra uma das etapas mais problemáticas de sua história e havia muito poucas pessoas na Europa que confiassem nas suas virtudes latentes. o maravilhoso não pertence. mas ao corpo social. mas à ordem sociológica. A manobra de saneamento histórico que tenta a Inglaterra. Há várias centúrias acontece periodicamente que os continentais acordam uma manhã e. coçando a cabeça. O "caráter nacional". desde já. Obrigaria a desenvolver com plenitude a doutrina sobre a vida humana que.e ainda arrostando certos riscos de que não quero falar agora -. atribuía eu a Inglaterra ante o Continente. E como a sociologia é uma das disciplinas sobre as quais as pessoas têm em todas as partes menos idéias claras. fica entrelaçada. Não obstante . dizer por que é estranha e por que é maravilhosa a Inglaterra. Mas mesmo aquele que estime o modo de ser dos homens ingleses acima de todos os demais. O interessante seria precisar quais são os atributos surpreendentes. não seria possível. apesar do pedante que é.. que "perde o fio" uma ou várias vezes. o fato mais estranho que há no planeta. usando um símil humorístico. mas incompreensível. à coletividade dos ingleses. O que então não imaginava é que tão rapidamente viessem os fatos confirmar meu prognóstico e a incorporar minha esperança. em seu interior. quase tantas como de desfazê-las. insinuada. E preciso extirpar da história o psicologismo. que se inicia após um período de ensaios. pois. se faz. Não me refiro ao inglês individual. Muito menos que se comprazessem com tal precisão em ajustar-se ao papel determinadíssimo que.

na América do Norte representa atonia. exasperantes.não em seus governos. sobretudo com os nossos. consolidadas. aproximando-nos destes esplêndidos ingleses. entorpecimento. Renunciou-se nelas a todo "brilho" e vão escritas em estilo bastante pickwickiano. a dureza de cabeça. Se é benévolo. o primeiro que vemos são as suas fronteiras. tem sido alguma atitude de graça generosa. No anglo-saxão . línguas feitas à força de palavreados infindáveis . Daí que nos sintamos sôfregos quando. esganiçar-se. Eu sustento. taberna e tertúlia. que. dando um espetáculo exagerado de seus mais congênitos defeitos. Por isso divinizaram o dizer. vício e falha. ao contrário. E é que as virtudes de um povo. tem havido a radical decisão de não querer ouvir nenhuma voz espanhola capaz de esclarecer as coisas. ".em ágora e praça. ao qual atribuíam mágica potência..já a suspicácia do público inglês não tolerava outra coisa . vão elevadas. e em certa maneira. Respeito semelhante à Inglaterra não nos exime da irritação ante seus defeitos. como as de um homem.htm (98 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a frivolidade. em grau especial. olhado desde outro. uma plasticidade e um garbo incomparáveis. A Grécia. no modo como sabe ser uma sociedade. a meu juízo. Isto é uma força magnífica. mas. composto de cautelas e eufemismos.tem se deixado circular a intriga. de insinuar e ainda mais de iludir. o prejuízo arcaico e a hipocrisia nova sem lhes pôr um limite. Se se ajunta a isso que um dos principais temas de disputa tem sido a Espanha. Quando chegamos a esse povo. e para o ateniense viver era falar. no moral como no físico. o logos. que é. os povos românicos forjaram línguas complicadas. mas sim nos países . por minha vez. a uma questão de mais ou de menos. que nos educou. Não há povo que. na França. Tenha-se presente que a Inglaterra não é um povo de escritores mas de comerciantes. Talvez. são seus limites.falar sem parecer que dela falava nas páginas intituladas "Quanto ao pacifismo. O inglês não veio ao mundo para dizer. ao mesmo tempo. o leitor não esquecerá o destinatário. Sob esta disciplina. Soube por isso forjar uma língua e uma elocução em que se trata principalmente de não dizer o que se diz. que a originalidade extrema do povo inglês radica em sua maneira de tomar o lado social ou coletivo da vida humana. se me ofereça oportunidade para fazer ver tudo que quero dizer com isto. acrescentadas a seguir. dizer. ou de ouvi-la depois de deformá-la. velam os ingleses alerta sobre seus próprios segredos para que não escape nenhum. no tempo próximo. e a retórica acabou sendo para a civilização antiga o que tem sido a física para nós nestes últimos séculos. sobre seus defeitos e limitações. dificultam enormemente a inteligência com outros povos. o mais estimável que há no mundo. para silenciar. em palanque. de engenheiros e de homens piedosos. não seja insuportável. Escutaram-se em sério as maiores imbecilidades com tanto que fossem indígenas. E por este lado talvez são os ingleses..A rebelião das massas. Com faces impassíveis. e o que mais falta tenho sentido. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas deliciosas. soltou nossas línguas e nos fez indiscretos a nativitate. O aticismo havia triunfado sobre o laconismo. O nervosismo dos últimos meses fez que quase todas as nações tivessem vivido encarapitadas em suas fronteiras. Dirigidas a ingleses. Isto me levou. Mas. postos atrás de seus cachimbos. que o excepcional. a respeito da Espanha. ainda convencido de que forçava um pouco a conjuntura. O que mais me surpreendeu é a decidida vontade de não tomar conhecimento das coisas que há na opinião pública desses países. O homem do Sul propende a ser gárrulo. compreender-se-á até que ponto hei sofrido de quanto na Inglaterra. e. os ouvimos emitir a série de leves miados displicentes em que consiste seu idioma. representam um esforço de acomodação a seus usos. quer dizer. e importa sobremaneira à espécie humana que se conserve intacto esse tesouro e essa energia de taciturnidade. Nisto sim é que se contrapõe a todos os demais povos e não é questão de mais ou de menos. dando ao vento em formas claras e eufônicas a mais arcana intimidade. a aproveitar o primeiro pretexto para falar sobre a Espanha e . entrementes. de uma sonoridade.

indubitável que o inglês de hoje. Seu gênio político permitiu-lhe nestes meses corrigir com um esforço incrível de self-control o mais extremo do mal. O tema do ensaio que segue é a incompreensão mútua em que caíram os povos do Ocidente . pois. Quando alguém o fazia. por exemplo. Lema dele foram estas palavras de Goethe: "Só todos os homens vivem o humano". não obstante sua petulância e sua escassa ductilidade intelectual. onde as famílias não vivem nunca separadas. O fato é estupefaciente. Ele crê. Este foi o sentido do cosmopolitismo que coagula no seu último terço. O cosmopolitismo de Fergusson. mas à sua integração. de se permitirem crer as nações hoje poderosas que o estilo ou o "caráter" de um povo menor é absurdo porque é bélica ou economicamente débil. E o caso é que . Porventura tenha contribuído para que adote esta resolução a consciência da responsabilidade contraída. Pelo contrário: é o século das viagens cheias de curiosidade amável e prazenteira pela divergência do próximo. Porque a Europa foi sempre como uma casa da vizinhança. Para enunciar só um dos mil fios que naquele fato se atam. Paris. Goethe . nas diferenças de poderio diferença de nível humano. porventura. e no uso mais exótico e incompreensível suspeitava mistérios de grande sabedoria. 1938. hermetizado pela consciência de seu poder político.A rebelião das massas.tinha razão. sem excessiva presunção.htm (99 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . cometesse o gigantesco de seu pacifismo. De todas as causas que geraram as presentes desgraças do mundo. mas com o entranhável desejo de colaborar na reconstituição da Europa. pelo contrário. que o unicamente civilizado é vestir umas bombachas e dar pancadas numa bolinha com uma vara. O romanticismo que lhe sucedeu não é senão sua exaltação. enfim. Nutre-se não da exclusão das diferenças nacionais. mas. se não erro.em princípio . de entusiasmo por elas. Busca a pluralidade de formas vitais com vistas não à sua anulação.que a ele lhe parece a exemplar desocupação de "tomar sol" a que o castiço espanhol sói dedicar-se conscientemente. não se lhe ocorria desdenhar um povo "inculto" e depauperado como a Espanha. a que talvez pode concretizar-se mais é o desarmamento da Inglaterra. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. É. Devo advertir ao leitor que todas as notas foram acrescentadas agora e suas alusões cronológicas hão de ser referidas ao corrente mês. O romântico enamorava-se dos outros povos precisamente porque eram outros. Ao enciclopedista francês do século XVIII. de muito peso. Estes povos que agora se ignoram tão gravemente brincaram juntos quando eram crianças nos corredores da grande mansão comum. de se desprezar e injuriar porque são diferentes. tão parco em erros históricos graves. Esse mútuo desconhecimento tornou possível que o povo inglês.quer dizer. mas se misturam a toda hora sua doméstica existência. Sobretudo isto se raciocina tranqüilamente nas páginas imediatas. sutilíssima e de alto alcance nessa ocupação . Como puderam chegar a não se entender tão radicalmente? A gênese de tão feia situação é longa e complexa. o escândalo que provocava era prova de que o homem normal de então não via. são fenômenos que. não é muito capaz de ver o que há de cultura refinada. advirta-se que o uso de se converterem uns povos em juizes dos outros. jamais se haviam produzido até os últimos cinqüenta anos. operação que habitualmente se dignifica denominando-a de "golf". e as páginas que seguem não fazem outra coisa senão tomá-lo pelo lado mais urgente. apesar de supor-se dono da verdade absoluta. povos que convivem desde sua infância. O assunto é. como um parvenu. abril.é o oposto do atual "internacionalismo". Herder.

A guerra não é um instinto. todo erro é uma propriedade que acresce nosso haver.seu Governo e sua opinião pública . em geral. Pelo contrário. um crime ou um vício. Como quase sempre acontece. a retificar o enorme erro que durante vinte anos tem sido seu peculiar pacifismo e a substituí-lo por outro pacifismo mais perspicaz. dos que se apresentam como titulares do pacifismo . Eu suponho que os ingleses se dispõem já. Há. a realidade atual facilita desgraçadamente o assunto. Por que desanimar? Talvez as duas únicas coisas a que o homem não tem direito são a petulância e seu oposto. Por outra parte. Isso quer dizer que esse pacifismo foi um erro. Talvez fosse muito mais útil do que se imagina um estudo completo sobre as diversas formas do pacifismo. O fracasso foi tão grande. Mas eu prefiro agora adaptar-me quanto possa ao ponto de vista inglês. Os animais a desconhecem e é de pura instituição humana. mas decididamente. na apreciação das possibilidades de paz que o mundo atual oferecia e na determinação da conduta que há de seguir quem pretenda ser. se converte magicamente em uma nova vitória para o homem. Não há nunca razão suficiente nem para um nem para o outro. Ela levou a um dos maiores descobrimentos.embarcaram no pacifismo. pacifista. Mas esquece que. a descobrir sem piedade suas raízes e a construir energicamente a nova concepção das coisas que isto nos proporciona. Esta subestima lhes inspirou um diagnóstico falso. apenas reconhecendo-o. mas um invento. tão diferentes que na prática vêem a ser com freqüência antagônicas. serenamente.seu Governo e sua opinião pública . com efeito. a saber. A única que entre elas existe de comum é uma coisa muito vaga: a crença em que a guerra é um mal e a aspiração a eliminá-la como meio de trato entre os homens.e.embarcou há vinte anos. como a ciência e a administração. Baste advertir o estranho mistério da condição humana consistente em que uma situação tão negativa e de derrota. Mas é evidente que não me corresponde agora nem aqui fazer um estudo no qual ficaria definido com certa precisão o peculiar pacifismo em que a Inglaterra . O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. QUANTO AO PACIFISMO Há vinte anos (90) a Inglaterra . antes disso e acima disso. e vou supor que sua aspiração à paz do mundo era uma excelente aspiração.tem sido subestimar o inimigo. Cometemos o erro de designar com este único nome atitudes mui diferentes. É um fato demasiado notório que esse pacifismo inglês fracassou. base de toda civilização: ao descobrimento da disciplina. O pacifista vê na guerra um dano. Mas isso sublinha tanto mais quanto houve de erro no resto. Dele emergiria não escassa claridade. o defeito maior do pacifismo inglês . de verdade. Enfim: a divergência torna-se superlativa quando se põem a pensar nos meios que exige uma instauração de paz sobre este pugnacíssimo globo terráqueo. Mas os pacifistas começam a discrepar quando dão o passo imediato e interrogam-se até que ponto é em absoluto possível o desaparecimento das guerras. Contra o que acreditem os jeremias. o desânimo. muitas formas de pacifismo. Para isso é preciso que nos resolvamos a estudá-lo a fundo. Todas as demais formas de disciplina procedem da primigênia. Em vez de chorar sobre ele convém apressar-se a explorá-lo. tão rotundo.A rebelião das massas. Ao dizer isto não sugiro nada que possa levar ao desânimo.htm (100 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O reconhecimento de um erro é por si mesmo uma nova verdade é como uma luz que dentro deste se acende. a guerra é um enorme esforço que os homens fazem para resolver certos conflitos. que alguém teria direito a revisar rapidamente a questão e a se perguntar se não é um erro todo pacifismo. que foi a disciplina militar. como é haver cometido um erro. entretanto.

a saber: o aspecto que têm ao chegar e o aspecto que têm ao ir. em parte.htm (101 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que é elementar. trabalhar em que não se fizesse. sua rusticidade. não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. deixa-os mais intactos e menos resolvidos que nunca. tem a guerra dois aspectos: o da hora de sua invenção e o da hora de sua superação. de ser um gratuito e cômodo desejo. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano. Como toda forma histórica. Augusto Comte. creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. como a Inglaterra. o belicismo ficará asfixiado. Por isso. e que se se reprime o apaixonamento. enquanto não se inventasse outro meio. pelo contrário. em vez de matar os prisioneiros. pondo na faina todas as potências humanas. tentou fazer. a guerra reapareceria inexoravelmente nesse imaginário planeta habitado só por pacifistas. porque os conflitos reclamariam solução. sua insuficiência. Se se atende a tudo isso. e que. em suma. por sua parte. Na hora de sua invenção significou um progresso incalculável. o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. pois.A rebelião das massas. quer dizer. a vontade pacífica de todos os homens seriam completamente ineficazes. requerem a venturosa intervenção do gênio. seu horror. Pelo contrário. repitamos. viu já deste modo a instituição da escravidão . era um meio que haviam inventado os homens para solucionar certos conflitos. o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. Hoje. Para ver com clareza a questão façamos o que fazia lord Kelvin para resolver seus problemas de física: construamos um modelo imaginário. guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida. de construí-lo. que tinha um grande sentido humano.libertando-se das tolices que Rousseau disse sobre ela . simplesmente. só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior. Do mesmo modo. não parecerá surpreendente a crença em que esteve a Inglaterra de que o mais que podia fazer a favor da paz era desarmar. O outro é puro erro. costumamos. Os romanos. portanto. tem ele de fazê-lo. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. aprendendo a olhar todas as coisas humanas sob essa dupla perspectiva. então. mui finamente. histórico. que em certo momento todos os homens renunciassem à guerra. A renúncia à guerra não suprime estes conflitos.e a nós nos corresponde generalizar sua advertência. não passe a ser um difícil conjunto de novas técnicas. um sistema de esforços complicadíssimos. É preciso que este vocábulo deixe de significar uma boa intenção e represente um sistema de novos meios de trato entre os homens. mais ainda. ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz. vemos dela apenas a suja espádua. encarregaram duas divindades de consagrar esses dois instantes . um fazer que se assemelha tanto a um puro omitir? Essa crença é incompreensível se não se adverte o erro de diagnóstico que lhe serve de base. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. que há que fabricar. que com isso se havia dado o mais breve passo eficiente no sentido da paz? Grande erro! A guerra. quando aspiramos a superá-la. Não se espere nesta ordem nada fértil enquanto o pacifismo. Imaginemos. sem mais reflexão. e. Nada importante é apresentado ao homem. Acredita-se que basta isso. o deus do chegar e o deus de ir. Mas o enorme esforço que é a guerra. Não é. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou.Adeona e Abeona. também a paz é uma coisa que importa fazer. A ausência de paixões. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. maldizer da escravidão. a saber: a idéia de que a guerra procede simplesmente das paixões dos homens. a vontade de paz o que importa ultimamente no pacifismo. pronta para que o homem a goze. A paz não "está aí". Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou. conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor. Por desconhecer tudo isso.

o que concretamente foi e significou esta instituição na hora de seu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.. Sempre é importante para o progresso de uma função moral que apareça materializada em um órgão especial claramente visível. Não importa que não haja legislador. que estava aí à disposição dos homens e que só as paixões destes e seus instintos de violência induziam a ignorá-lo. 2o. para novas tarefas construtivas e salutíferas. que alguns homens. incluindo os domínios ingleses da Oceania). de órgãos de arbitragem entre Estados. O enorme dano que aquele pacifismo trouxe à causa da paz consistiu em não deixar-nos ver a carência das técnicas mais elementais. Não desestimo.. a propaganda e expansão dessas idéias de direito sobre a coletividade em questão (em nosso caso. que essa expansão chegue de tal modo a ser predominante. por exemplo. de imoral. Então. Não significam progresso algum importante no que é essencial: na criação de um direito para a peculiar realidade que são as nações. 3o. E esta é a verdadeira substância do direito. é o direito como forma de trato entre os povos. Só é moral o desejo que é acompanhado da severa vontade de aprontar os meios de sua execução. que os últimos cinqüenta anos presenciaram. a importância dessas magistraturas. Se aquelas idéias senhoreiam de verdade as almas. descubram certas idéias ou princípios de direito. cujo exercício concreto e preciso constitui isso que. E não só não existe no sentido de que não haja alcançado ainda "vigência".. Ora bem: isto é gravemente oposto à verdade. adverte-se que são as mesmas resolvidas de há muito pela diplomacia. Mas é indispensável para contribuir um pouco a despertar o interesse para novas grandes empresas. como puro teorema incubado na mente de algum pensador. Nem era lícito esperar maior fertilidade nesta ordem. não importa que não haja juizes. para só nos referirmos aos dois maiores e mais recentes cadáveres. É preciso que não se volte a cometer um erro como foi a criação da Sociedade das Nações. Pois bem: um direito referente às matérias que originam inevitavelmente as guerras não existe.htm (102 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . como não existe nem sequer como idéia. E não havendo nada disso. Repugna-me atrair a atenção do leitor sobre coisas falidas. podemos falar. Para que o direito ou um ramo dele exista é preciso: 1o. simplesmente porque a desejamos. isto é. Pois bem: o pacifismo usual dava como suposto que esse direito existia. especialmente inspirados. o mesmo que já existia antes de seu estabelecimento. que aquelas idéias de direito se consolidem em forma de "opinião pública". Mas a importância desses tribunais internacionais tem se reduzido a isso até hoje. de maneira nenhuma.A rebelião das massas. que não se tenha consolidado como norma firme na "opinião pública". e só então. maltratadas ou em ruínas. O direito que administram é. entende-se. quer dizer. contribui a ocultar-nos a indigência de verdadeiro direito internacional que padecemos. de direito. de uma etapa que se iniciou com o Tratado de Versalhes e com a instituição da Sociedade das Nações. A proliferação de tribunais internacionais. na plenitude do termo. chamamos de paz. atuarão inevitavelmente como instâncias para a conduta às quais se pode recorrer. Não sabemos quais são os "direitos subjetivos" das nações e não temos nem indícios de como seria o "direito objetivo" que possa regular seus movimentos. pelo menos. Porque é imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente. Com efeito: se se passa revista às matérias julgadas por esses tribunais. a coletividade que formam os povos europeus e americanos. com um vago nome. no essencial. semelhante pretensão. não havendo nem em teoria um direito dos povos. pretende-se que desapareçam as guerras entre eles? Permita-se-me que qualifique de frívola. de norma vigente. A paz.

os quais. Baste dizer que na fauna humana representam a espécie mais oposta ao político.dizia eu. e não o profeta. pelos temas de que habitualmente se ocupam. Mas uma época que assistiu ao invento das geometrias não-euclidianas. mutação perpétua. pertencia ao passado. O direito tradicional é só regulamento para uma realidade paralítica. os mais toscos e elementais que podem ser apontados. que se converte em uma camisa de força. Em certo modo. Talvez as catástrofes presentes abram de novo os olhos dos políticos para o fato evidente de que há homens. Não foi um erro qualquer. e não debalde seu órgão principal se chama Estado. Houve homens na Europa que já então denunciaram seu inevitável fracasso. É difícil. sequer teoricamente. Uma vez mais aconteceu o que é quase normal na história. e diga-se a si mesmo se encontra em sua mente uma possível norma jurídica que permita. Foi um erro que reclama o atributo de profundo. sem remédio. O direito. de uma física de quatro dimensões e de uma mecânica do descontínuo.A rebelião das massas. o sistema de idéias filosóficas. com efeito. Sem dúvida. resolvê-lo. puro movimento.htm (103 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . enfrentar aquela empresa e resolver-se a acometê-la. Mercê disso produziu-se o vergonhoso fenômeno de que. sem espanto. o direito que aqui se postula é uma invenção muito difícil. também os políticos não fizeram caso desses homens. por exemplo. quer dizer. com a estabilidade do direito. Mas. Quais são. Mas é o caso que as coisas humanas não são res stantes. Sempre será este quem deva governar. O bem que pretende ser o direito se converte em um mal. Dentro do povo produzem-se as revoluções. Também aqui se trataria de libertar uma atividade humana . recentemente -. mas importa muito aos destinos humanos que o político ouça sempre o que o profeta grita ou insinua. a saber: que foi predita. A Sociedade das Nações foi um gigantesco aparelho jurídico criado para um direito inexistente. Evito precisar a que grêmio pertenciam os profetas. E não se diga que é coisa fácil proclamar isto agora. como os habituais na difícil faina que é a política. põem bem à vista o caráter ilusório de todo pacifismo que não comece por ser uma nova técnica jurídica. como já nos ensina a Bíblia: "Por que tomastes o direito file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.de certa radical limitação que sempre padeceu. Mas uma camisa de força posta num homem são tem a virtude de torná-lo louco furioso. históricas. E como a realidade histórica muda periodicamente de modo radical. sociológicas e jurídicas de que emanaram seu projeto e sua figura estava já historicamente morto naquela data. esse estranho aspecto patológico que tem a história e que a faz parecer como uma luta sempiterna entre os paralíticos e os epilépticos. o problema do novo direito internacional pertence ao mesmo estilo que esses recentes progressos doutrinais. navegue o mundo mais à deriva que nunca. O "espírito" que propeliu para aquela criação. recebem antes que os demais a visita do porvir (91). Daí . que ao disfarçar-se de direito contribuiu à universal desmoralização. os direitos de um povo que ontem tinha vinte milhões de homens e hoje tem quarenta ou oitenta? Quem tem direito ao espaço não habitado do mundo? Estes exemplos. Todas as grandes épocas da história nasceram da sutil colaboração entre esses dois tipos de homem. Sua vacuidade de justiça encheu-se fraudulentamente com a sempiterna diplomacia. nascimento. Formule-se o leitor qualquer dos grandes conflitos que há atualmente estabelecidos entre as nações. a esta altura da história e da civilização. é estático. com a qual coincide. e entre os povos estalam as guerras. ou por possuir almas sensíveis como finos registradores sísmicos. É talvez uma das causas profundas do atual desconcerto seja que há duas gerações os políticos se declararam independentes e cancelaram essa colaboração. uma vez mais. choca. exatamente tão difícil como a paz. Cada vez é menos possível uma sã política sem larga antecipação histórica. coisas históricas. sem profecia. O homem não conseguiu ainda elaborar uma forma de justiça que não esteja circunscrita na cláusula rebus sic stantibus. Foi um erro histórico. mas pelo contrário.o direito . entregue a uma cega mecânica. pode. Se fosse fácil existiria há muito tempo. e longe de antecipar o futuro era já arcaico.

quieta e fixa por forças. gigantesco aparelho construído para administrar o statu quo. Longe disso. embora estas se apresentem com a pretensão de ser essencialmente vagas. Mas é evidente que há outros homens cuja missão é fazer o que ao político. esta incongruência entre a estabilidade da justiça e a mobilidade da realidade. 12). é que se prevê seu movimento. Há mais de setenta anos. em fel e o fruto da justiça em absinto?" (Oseas. evolui neste sentido. o fracasso da Sociedade das Nações. Porque queremos conservar a toda coisa uma margem e uma elasticidade. O outro. parecerá evidente que a injúria máxima seja o statu quo. convém recordá-lo. todo pacifismo é pena de amor perdida. nem sequer nova. a unidade do Império britânica não está feita sobre uma constituição lógica. A maneira inglesa de ver o direito não é senão um caso particular do estilo geral que caracteriza o pensamento britânico. um direito plástico e em movimento. a história é. uma idéia de que a princípio se julgou inteligível e que é hoje base da nova mecânica.o fenômeno jurídico mais avançado que se produziu até hoje no planeta: a British Commonwealth of Nations.A rebelião das massas.htm (104 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a meu juízo. e se o político é inglês sente que definir algo é quase cometer uma traição. Embora o expediente seja um pouco ingênuo. substituir o que não parece ser senão "coisa" jacente. O homem necessita um direito dinâmico. é possível que se abram diante de nós as mais férteis perspectivas. o direito. regulem satisfatoriamente essas mudanças do poderio. a saber: interpretar tudo que é inerte e material como puro dinamismo. Porque se a realidade histórica é isso ante tudo. Mas. a mudança na divisão do poder sobre a terra. as tomamos como realidades positivas. Importaria muito reduzir a conceitos claros essa situação efetiva de direito que consiste em puras "margens" e simples "elasticidades". enunciado por sir Austin Chamberlain em seu histórico discurso de 12 de setembro de 1925: "Vejam-se as relações entre as diferentes seções do Império britânico. capaz de acompanhar a história em sua metamorfose." Seria um erro não ver nestas duas fórmulas senão emanações do oportunismo político. O que não fazem é defini-la. não é mais nem menos difícil definir o triângulo que a névoa. a constituição do Império britânico parece-se muito ao "molusco de referência" de que falou Einstein. Porque a elasticidade é a condição que permite a um direito ser plástico. isto é. chega a sua máxima potência. porque nele se declara a aspiração a um direito semovente. extrair a teoria que nele jaz muda . nem utópica. A demanda não é exorbitante. pois. expressam mui adequadamente a formidável realidade que é a British Commonwealth of Nations e a designam precisamente sob seu aspecto jurídico. o mais fértil seria analisar a fundo e tentar definir com precisão -. discussing or defining. Considerada no que ao direito importa. está proibido: definir as coisas. Não estranhe. A capacidade para descobrir a nova técnica de justiça que aqui se postula está pré-formada em toda a tradição jurídica da Inglaterra mais intensamente que na de nenhum outro país. movimentos e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o formulado por Balfour em 1926 com suas famosas palavras: Nas questões do Império é preciso evitar o refining. Não está sequer baseada numa Constituição. antes de tudo. porque um político não veio ao mundo para isso. No direito internacional. Se em vez de entender estes dois caracteres como meras ilusões e como insuficiências de um direito. ao menos em teoria. Em princípio. E isso não certamente por casualidade. tanto civil como político. que o pacifista quer submeter àquela. e se se lhe atribui uma margem. Por exemplo: quase todas as constituições contemporâneas procuram ser "abertas". porque precisamente esse estranho fenômeno jurídico foi forjado mediante estes dois princípios: um. E enquanto não existam princípios de justiça que. 6. Provavelmente. o princípio "da margem e da elasticidade". Dir-me-ão que isto é impossível. e especialmente ao inglês. no qual adquire sua expressão mais extrema e depurada o que talvez é o destino intelectual do Ocidente.

em todas as ordens da vida. atrevo-me a insinuar que caminha seguro quem exija. Isto significa a invenção e exercício de toda uma série de novas técnicas. e o chamado "internacional" nos convida. A primeira delas é uma nova técnica jurídica que comece por descobrir princípios de eqüidade referentes às mudanças da divisão do poder sobre a terra. parecerá. por mágica virtude dos vocábulos. de passagem e avoadamente. mas é necessário enunciar ante leitores ingleses que o direito existe sem o Estado e sua atividade estatutária. mas mais enérgico. fora da física. A tal ponto é assim. Daí o calembour.htm (105 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Turva a evidência disto a confusão habitual que padecemos ao crer que toda autêntica sociedade tem forçosamente de possuir um Estado autêntico. isto é. Este requer como substrato uma unidade de convivência humana.A rebelião das massas. que não existe sintoma mais seguro para descobrir a existência de uma autêntica sociedade que a existência de um fato jurídico. portanto. constituído por uma linha simples e clara. Quando falamos das nações tendemos a representá-las como sociedades separadas e fechadas em si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não esqueçamos que o direito se compõe de muitas coisas mais que uma idéia: por exemplo. mas é o resultado de uma convivência inveterada. Mas a idéia de um novo direito não é ainda um direito. mas o pacifismo não consiste nisso. dos quais o direito é irmão menor. num vazio social. Mas não creio que seja necessário deter-me neste ponto. mas num estádio muito avançado de sua evolução. uma associação. Esta autêntica sociedade e não associação só se parece à outra no nome. o próprio nome de direito internacional estorva uma clara visão do que seria em sua plena realidade um direito das nações. Nesse vazio social as nações se reuniriam. manifeste meu desideratum de ler um livro cujo tema seja este: o newtonismo inglês. Essa área onde a sociedade ajustada surge é outra sociedade preexistente. A Inglaterra tem sido. Porque o direito nos pareceria ser um fenômeno que acontece dentro das sociedades. Uma sociedade constituída mediante um pacto só é sociedade no sentido que este vocábulo tem para o direito civil. Permita-se-me apenas que. pelo contrário. Suponho que cem vezes se terá feito constar e terá sido demonstrado com suficiente pormenor. Desgraçadamente. No vazio social não há nem nasce direito. Talvez o Estado proporciona ao direito certas perfeições. newtoniana. Está bem que o homem pacífico se ocupe diretamente em evitar esta ou aquela guerra. que seria. em todas as demais ordens da vida. a Sociedade das Nações. Mas é bem claro que o aparelho estatal não se produz dentro de uma sociedade. como empedernido leitor. Sem que eu pretenda resolver agora com atitude dogmática. funções. Mas isso tudo tem o ar de um calembour (92). À técnica do puro pensamento jurídico devem acompanhar muitas outras técnicas ainda mais complicadas. Outra coisa são puras fantasmagorias. Se resumo agora meu raciocínio. mas em construir a outra forma de convivência humana que é a paz. quando alguém lhe fale de um fato jurídico. que não é obra de nenhum pacto. e mediante um pacto criariam uma sociedade nova. a imaginar um direito que acontece entre elas. tal como o uso e o costume. Mas uma associação não pode existir como realidade jurídica se não surge sobre uma área onde previamente tem vigência certo direito civil. que lhe indique a sociedade portadora desse direito e prévia a ele. quer dizer. as questões mais intrincadas da filosofia do direito e da sociologia. formam parte dele os bíceps dos gendarmes ou seus sucedâneos. creio eu.

mesmas. porque as únicas possibilidades de paz que existem dependem de que exista ou não efetivamente uma sociedade européia. A convivência. a qual atua como uma última instância a que se pode recorrer em casos de conflito. Sem dúvida.as nações . e que estas nasceram e se desenvolveram no regaço maternal daquela. viver em sociedade ou formar parte de uma sociedade. Como os fenômenos corporais são o idioma e o hieróglifo. usos que a imperam ou "direito -. por exemplo.que só mantêm alguns contatos externos. usos que dirigem a conduta ou "moral".dotadas dessa força coactiva tão estranha em que consiste "o social". sentimental ou físico que se impõe aos indivíduos. Mas é evidente que existe uma convivência geral dos europeus entre si. não significa sociedade. mercê ao qual pensamos as realidades morais. Corrijamo-la. a convivência ou trato dos ingleses entre si é muito mais intensa que. Mas isto é uma abstração que deixa de fora o mais importante da realidade. como o bilhar. mas não se ignore seu efetivo caráter de sociedade. A coisa importa superlativamente. essa convivência (94). que a Europa é uma sociedade mais tênue que a Inglaterra ou que a França. Convivência implica só relações entre indivíduos. Esta figura corresponde muito mais aproximadamente que a outra ao que. Os ingleses podem ver isto com alguma clareza no livro do Dawson: The Making of Europe. Em vez de nos afigurarmos as nações européias como uma série de sociedades livres. usos de técnica vital ou "costumes". O que costumamos chamar assim não é mais do que um estado de guerra mínima ou latente. Introduction to the History of European Society. Diga-se. porque jamais faltou esse fundo ou tesouro de "vigências coletivas" .A rebelião das massas. Esta metáfora de jogador de bilhar deveria desesperar ao bom pacifista. não há sociedade sem a vigência efetiva de certa concepção do mundo. tão somente. Por esta razão censuro essa figura da Europa em que esta aparece constituída por uma multidão de esferas . portanto. a convivência entre os homens da Inglaterra e os homens da Alemanha ou da França. que a Europa é uma sociedade. porque. queiram ou não queiram. por sua conta e risco. com efeito. e. o que chamaremos sua "vigência". pois.intelectual. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O indivíduo poderá. que são os usos . A Europa tem sido sempre um âmbito social unitário. foi a convivência ocidental.convicções comuns e tábuas de valores .usos intelectuais ou "opinião pública". sem fronteiras absolutas nem descontinuidades. após a morte do período romano. Não se trata com isso de desenhar um ideal. resistir ao uso. mas de dar expressão gráfica ao que realmente foi desde a sua iniciação.a Europa -. Esta sociedade geral possui um grau ou índice de socialização menos elevado que o alcançado desde o século XVI pelas sociedades particulares chamadas nações européias. Pois bem: uma sociedade é um conjunto de indivíduos que mutuamente se sabem submetidos à vigência de certas opiniões e avaliações. mas precisamente este esforço de resistência demonstra melhor que nada a realidade coactiva do uso. O caráter geral do uso consiste em ser uma norma do comportamento . velha de muitos séculos e que tem uma história própria como possa tê-la cada nação particular. Segundo isto. dentro da qual se produziram grumos ou núcleos de condensação mais intensa. não é preciso dizer o dano que engendra uma errônea imagem visual convertida em hábito de nossa mente. Se a Europa é só uma pluralidade de nações.htm (106 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Não seria nada exagerado dizer que a sociedade européia existe antes que as nações européias. pois. não nos promete mais eventualidade que a "carambola". imaginemos uma sociedade única . Entre sociedades independentes não pode existir verdadeira paz. Mas não pode haver convivência duradoura e estável sem que se produza automaticamente o fenômeno social por excelência. podem os pacíficos despedir-se rapidamente de suas esperanças (93).

por causas profundas. as ciências derivam irresistivelmente em direção esotérica. desceu gravemente fazendo temer a cisão radical da Europa e. conserva alguma destas latente vivacidade. Tudo o mais por exemplo. Mas este assunto nunca foi visto. É uma das muitas coisas cuja grave importância os políticos não souberam ver. Os editoriais dos jornais e os discursos de ministros e demagogos não nos dão notícia dela. os fenômenos físicos . quer só dizer que fora necessário chamar médicos ótimos e não qualquer transeunte. vê ali definida uma terrível enfermidade? Esforcei-me sempre em combater o esoterismo. atuava nas camadas profundas do Ocidente. ao longo de toda a história européia. vivem e são". porque as formas tradicionais da ótica histórica tapavam esta realidade unitária que chamei. Também os diagnósticos mais rigorosos da medicina atual são abstrusos. estava constituída por uma ordem básica devido à eficiência de certas instâncias últimas . embora achacados do vício oposto. Mas não forjemos ilusões. Está escrito por uma mente alerta e ágil. A foro de sociedade. e se. Porque o direito é operação espontânea da sociedade. O anterior diagnóstico. A história que eu postulo nos contaria as vicissitudes desse espaço humano e nos faria ver como seu índice de socialização variou. Quando a estudamos bem. entendida como acabo de apontar. A realidade histórica ou. é possível diagnosticar com certa precisão o lugar ou estrato do corpo histórico onde a enfermidade radica. Pois bem: nada hoje deveria importar tanto ao pacifista como averiguar que é o que acontece nessas camadas profundas do corpo ocidental. Por file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.carece dela. Mais: talvez é o único no Universo que tem por si mesmo estrutura. Que profano. aparece no título de Ranke: História dos povos germânicos e românicos. instituto anti-histórico que um maldizente poderia supor inventado em um clube cujos membros principais fossem M. mas a sociedade é convivência sob instâncias. Há um século. São fatos soltos aos quais o físico tem que inventar uma estrutura imaginária. conceitos mais ou menos melodramáticos e míticos que ocultam. A verdade é que esses povos em plural flutuam como ludiões dentro do único espaço social que é a Europa: "nele se movem. Poderia acontecer que hoje em dia faltassem essas instâncias em uma proporção sem exemplo. organização. por baixo de todas as suas superficiais desordens. uma história realista. em ocasiões. Quer dizer. Homais e congêneres. que não se pode esperar remédio algum da Sociedade das Nações. em vez de revelar. as realidades históricas.a sociedade européia -. Eu o lamento. sem "idealizações". Neste caso a enfermidade seria a mais grave que sofreu o Ocidente desde Diocleciano ou os Severos. Mas essa anatomia da realidade histórica necessita ser estudada. parecerá abstruso. mas não está em mim evitá-lo. Isso não quer dizer que seja incurável. por que se volatilizou o sistema tradicional de "vigências coletivas". sobretudo. por exemplo. mas que não se liberou de modo completo do arsenal de conceitos tradicionais na historiografia. M. independente de que seja acertado ou errôneo. Havia no mundo uma amplíssima e potente sociedade . Esta ordem que. e. sensu stricto. que é um excessivo exoterismo.A rebelião das massas. o que sucede no mundo humano. mais vulgarmente dito. Entretanto. E o é. como. em parte. e pôs nele. Este último aspecto é o que mais nos importa para as aflições atuais. como a dose de paz em cada época esteve na razão direta desse índice.as nações -. a despeito das aparências. qual é seu índice atual de socialização. respeitáveis. o livro de Dawson é insuficiente. conforme foi e continua sendo. não é um amontoado de fatos soltos.o credo intelectual e moral da Europa -. toda a ordem de que esse resto era capaz. sobretudo. mas que possui uma estrita anatomia e uma clara estrutura.htm (107 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que é por si um dos males do nosso tempo. com efeito. como. Poucas coisas contribuiriam a apaziguar o horizonte como uma história da sociedade européia. irradiaram durante gerações sobre o resto do planeta. Pickwick. em maior ou menor escala. "sociedade européia" e a suplantavam por um plural . ao ler um fino exame de sangue.

como se faz com a lei de gravidade. Uma parte da Europa esforça-se em fazer triunfar uns princípios que considera "novos". Isso é que o pacifista precisa compreender. porque não as há. com excessiva freqüência. a outra esforça-se em defender os tradicionais. faltam princípios de convivência que sejam vigentes e a que caiba recorrer. No momento em que é preciso lutar em prol de um princípio. Vice-versa. quando uma idéia perdeu esse caráter de instância coletiva. há anos. as fronteiras eram para o viajor pouco mais que coluros imaginários. quando é com plenitude vigente. há somente que usá-lo. Mas. interposta. declarada ou preparando-se. ou uma ficção deliberada? É inocência ou é tática? Não sabemos a que nos ater. em um estado de guerra substancialmente mais radical que em todo o seu passado. aniquilou-se. talvez represente um papel diferente que nos demais povos europeus. às vezes sem que estas se apercebam de que estão dominadas por elas. independente de todo grupo ou indivíduo determinado.A rebelião das massas. temo que seja funesto para o pacifismo. seja um ou outro o sentido desse comportamento. e às vezes crendo inclusive que combatem contra elas. de "dizer". Ora bem: isto acontece ainda hoje.htm (108 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A questão deverá algum dia ser estudada a fundo. As vigências são o autêntico poder social. que anulava a porosidade das nações e as tornava herméticas. Bem claro está que são manifestações iniludíveis do estado de guerra civil em que quase todos os países se encontram hoje. referir-se a ele. há trinta anos. mas é inquestionável e constitui o fato fundamental da sociedade. A Europa está hoje dissocializada. mas não agora nem por mim (96). como um éter benéfico entre eles. separados e frente a frente. anônimo. porque no homem anglo-saxão a função de se expressar. As vigências operam seu mágico influxo sem polêmica nem agitação. Ora bem. inversamente. mas dentro de cada povo há. impessoal. não recebe seu vigor do esforço senão impô-la ou sustentá-la empregam grupos determinados dentro da sociedade. enquanto não há senão aceitar a situação e reconhecer que o conhecimento distanciou-se radicalmente das conversações de beer-table. amparar-se nele. Enquanto. Esta conduta significa erro. A pura verdade é que. o que é o mesmo. esta é a melhor prova de que nem uns nem os outros são vigentes e perderam ou não alcançaram a virtude de instâncias. produz uma impressão entre cômica e inquietante ver que alguém considera suficiente aludir a ela para se sentir justificado ou fortalecido. a Europa se encontra em estado de guerra. Mais ainda. teria de ver se não foi um dos fatores que contribuíram ao desprestígio das vigências européias o peculiar uso que delas tem feito a Inglaterra. quer dizer que este não é ainda ou deixou de ser vigente. Ao adverti-lo. Esta debilitação subitânea da comunidade entre os povos do Ocidente eqüivale a um enorme file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas. A atmosfera de sociabilidade em que flutuavam e que. lhes permita comunicar suavemente. O fenômeno é surpreendente. uma grave discórdia. quietas e jacentes no fundo das almas. ficamos perplexos. Quando uma opinião ou norma chegou a ser de verdade "vigência coletiva". No trato de uns povos com outros não cabe recorrer a instâncias superiores. É frívolo interpretar os regimes autoritários do dia como engendrados pelo capricho ou pela intriga. de que se encontra em um mundo onde falta ou está muito debilitado o requisito principal para a organização da paz. convertendo-se em matéria córnea. E a origem que atribui a esta situação parece-me confirmado pelo fato de que não somente existe uma guerra virtual entre os povos. Ficam. ou. Pelo contrário: todo grupo determinado procura sua máxima fortaleza reclamando para si essas vigências. na Inglaterra e na América do Norte (95). Agora se vê como a coesão interna de cada nação se nutria em boa parte das vigências coletivas européias. pois. todos vimos como iam rapidamente endurecendo-se.

reduziu-se. portanto. Que uma só fábrica seja capaz de produzir todas as lâmpadas elétricas ou todos os sapatos de que necessita meio continente é um fato demasiado afortunado para não ser.A rebelião das massas. Não era.suas conseqüências radicais (97). Sem tardança e de verdade. as almas começaram a se cansar desses lugares comuns. mudança à qual não teve tempo de se adaptar o organismo econômico. distanciamento moral. com certas reservas. cujas características convém precisar um pouco. O século XIX. Neste caso. Há quase meio século fala-se de que os novos meios de comunicação . pois. telefone -. Dito de outro modo: para os efeitos da vida pública universal. nestes últimos anos recebe cada povo. está visto claramente hoje que se tratava só de uma entusiasta antecipação. que é o que inspirou de modo concreto todo este artigo. Convencido o homem médio de que a centúria anterior era a que havia dado cume aos grandes empreendimentos. cuja parte mais notória e visível é a saudação.deslocamento de pessoas. e o ritmo de seu efetivo emprego nessa brevíssima etapa. está em os outros povos ou em sua absoluta imediação. De tal sorte que. Isto ocasionou um curioso erro de ótica histórica que impede a compreensão de muitos conflitos atuais. como são o motor a explosão e a rádio-comunicação. ainda que haviam chegado a persuadir-se de que o século XIX havia. tal quantidade de notícias e tão recentes sobre o que se passa nos outros. nem sequer se haviam inventado os mais decisivos. não se apercebeu de que a época sem par dos inventos técnicos e de sua realização foram os últimos quarenta anos. Mas como sempre acontece. essa opinião era um exagero. o tamanho do mundo subitamente se contraiu. emocionado ante as primeiras grandes conquistas da técnica científica. aproximar-se a outro ser humano. supera em muito todo o pretérito humano tomado em conjunto. pudesse dizer-se que as formas da saudação são função da densidade de povoação. realizado já o que aquela fraseologia proclamava. tão necessário que cada povo conhecesse bem a singulatim a cada um dos demais. etc. E isto acontece precisamente na hora em que os povos europeus mais se distanciaram moralmente. afinal. Não poucos dos profundos desajustes na economia atual advêm da súbita mudança que causaram na produção estes inventos. Quase sempre as coisas humanas começam por ser lendas.agora e não de há um século . monstruoso. Porque esse distanciamento moral se complica perigosamente com outro fenômeno oposto. Por isso corre ao longo de toda a história a evolução da técnica da aproximação.htm (109 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . da distância normal a que estão uns homens dos outros. Não adverte o leitor. O trato entre eles é dificílimo. o perigoso de semelhante conjuntura? Sabido é que o ser humano não pode. Refiro-me a um gigantesco fato. e que essa mudança está produzindo agora . o "progresso material". Como vimos de uma das épocas históricas em que a aproximação era aparentemente mais fácil. e só mais tarde se convertem em realidades. tendemos a esquecer que sempre foram mister grandes precauções para aproximar-se dessa fera com veleidades de arcanjo que costuma ser o homem.vapores. Alguns dos meios que haviam de tornar efetiva essa aproximação existiam já em princípio . sem mais nem menos. isto é. com efeito. apressou-se a emitir torrentes de retórica sobre os "avanços". que a efetiva transformação técnica do mundo é um fato recentíssimo. de sopetão. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ferrocarris.aproximaram os povos e unificaram a vida no planeta. Mas nem se havia ainda aperfeiçoado sua invenção nem se haviam posto amplamente em serviço. telégrafo. O número e importância dos descobrimentos. Os povos se encontram de improviso dinamicamente mais próximos. com efeito. E isso em todas as ordens. transferência de produtos e transmissão de notícias . que provocou nele a ilusão de que. embora os aceitassem como verídicos. Isso mesmo aconteceu com as comunicações. entretanto. Talvez. a tempo e hora. Os princípios comuns constituíam uma espécie de linguagem que lhes permitia entender-se. Quer dizer. Mas com isto frisamos a linha de nossas considerações iniciais.

um órgão relativamente "racionalizado" dentro de cada sociedade. gozados ou sofridos pela nação.htm (110 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Suas atuações são deliberadas e dosificadas pela vontade dos indivíduos determinados os homens políticos -. a saudação e o trato complicaram-se na mais sutil e complexa técnica de cortesia. com quem. a saber: uma informação suficiente. Nessa proximidade superlativa tudo é feridor e perigoso: até os pronomes pessoais se convertem em impertinências. os fatos insofisticáveis. a primeira causa de uma inevitável incongruência. Mas não se falou. Dito com outras palavras obtemos esta proposição: é maximamente improvável que em assuntos graves de seu país a "opinião pública" careça da informação mínima necessária para que seu juízo não corresponda organicamente à realidade julgada. temos de reconhecer a toda autêntica "opinião pública" consiste. opina sobre fatos que lhe aconteceram. Porque o Estado é. Como aqui falta a "verdade" do vivido. e em lugar de "eu" fará um salamaleque e dirá "a miséria que há aqui". equivocar-se? A interpretação doutrinal desses fatos poderá dar oportunidade às maiores divergências teóricas. que são diferentes das do povo B. Na China e no Japão. que viveu e. que é a realidade histórica mesma e tem um valor e uma força superiores a todas as doutrinas. No Saara cada tuaregue possui um raio espacial que alcança bastantes milhas. Padecerá erros secundários e de detalhe. Isso não obstante. que só poderia contrariar mediante uma coisa muito difícil. por baixo dessas discrepâncias "teóricas". a opinião pública sensu stricto de um país. a rigor. que ao extremo oriental lhe produz o europeu a impressão de ser um grosseiro e insolente. pois. e estas suscitar opiniões partidistas sustentadas por grupos particulares. ao menos com suficiente ênfase. precipitam nesta uma "verdade" vital. A saudação do tuaregue começa a cem jardas e dura três quartos de hora. O povo A pensa e opina. Como vai. empilhados. tóxica. ao opinar sobre as grandes questões que afetam sua nação. como se vê. Tem se falado muito estes meses da intervenção ou não-intervenção de uns Estados na vida de outros países. por conseguinte. quando opina sobre a vida de seu próprio país tem sempre "razão" no sentido de que nunca é incongruente com as realidades que ajuíza. onde os homens vivem. às vezes mui remotas. A causa disso é óbvia. que ademais oferece. imaginem-se os perigos que engendra sua súbita aproximação entre os povos. sua inércia ao influxo de todas as intrigas. que. Por isso o japonês chegou a exclui-los de seu idioma. só o combate é possível. muito mais grave que aquela. nariz contra nariz.A rebelião das massas. Estritamente o contrário acontece quando se trata da opinião de um país sobre o que acontece em outro. povos pululantes. afinal das contas. O povo inglês. aos quais não pode faltar um mínimo de reflexão e sentido de responsabilidade. É maximamente provável que essa opinião surta em alto grau incongruente. lá do fundo de suas próprias experiências vitais. indefeso. e em vez de "tu" dirá algo assim como "a maravilha presente". sobrevinda nos últimos quinze ou vinte anos. são ele mesmo. tão refinada. como atributo. em suma. As realidades que ajuíza são o que efetivamente passou o mesmo sujeito que as ajuíza. da intervenção que exerce hoje de fato a opinião de umas nações na vida de outras. mas tomada com atitude microscópica não é verossímil que seja uma reação incongruente com a realidade inorgânica a respeito dela e. haveria que substitui-la por uma verdade de conhecimento. E esta é hoje. mas. que experimentou em sua própria carne e em sua própria alma. Se uma simples mudança da distância entre dois homens comporta semelhantes riscos. Pode levar isto a outra coisa que não o jogo dos despropósitos? Eis aqui. em compacto formigueiro. a meu juízo. Esta "razão" ou "verdade" viventes. irreflexivo e irresponsável. por assim dizer. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas a opinião de todo um povo ou de grandes grupos sociais é um poder elementar. em sua congruência. Eu creio que não se reparou devidamente neste novo fator e que urge prestar-lhe atenção. no essencial.

Sustenta que a ingerência da opinião pública de uns países na vida dos outros é hoje um fator impertinente.na guerra civil espanhola. Sabe que. e que a surpreenderam. Como será fácil persuadir ao homem inglês de que não está informado sobre o fenômeno histórico que é a guerra civil espanhola ou outra emergência análoga? Sabe que os jornais ingleses gastam somas fortíssimas em sustentar correspondentes dentro de todos os países. entre os quais escapole o mais autenticamente real da realidade. nestes últimos anos. Representemo-nos esquematicamente. a complicação do processo que tem lugar. O mesmo digo da opinião inglesa. O exemplo mais claro disto. Tudo isto é verdade. e que essa opinião estivesse mal informada. a opinião incongruente perdia toxidez (98). a fim de entendê-la bem. mas. Mas como essas notícias chegam hoje com superlativa rapidez. e não seu Governo . porque essa opinião não está ainda regida por uma técnica adequada à troca de distância entre os povos. Vice-versa.diretamente como tal opinião. cujo primeiro e mais substancial capítulo é sua origem. e porque o é. Terá o inglês ou o americano todo o direito que entenda para opinar sobre o que passou e deve acontecer na Espanha. menos compacto e elástico. não seria excessiva suspicácia no homem inglês admitir a hipótese de que está muito menos informado do que supõe crer. simplesmente. como há um século. As notícias que o povo A recebe do povo B suscitam nele um estado de opinião . mas esse direito é uma injuria e não se aceita uma obrigação correspondente: a de estar bem informado sobre a realidade da guerra civil espanhola. abundância e freqüência. sem fina perspectiva. venenoso e gerador de paixões bélicas. essa opinião era inoperante sobre os destinos da Grécia. irremediavelmente. ainda que entre esses correspondentes não poucos exercem seu ofício de maneira apaixonada e partidista. Como na história nada de algum relevo acontece de repente. de bom sentido. por motivos particulares. ao atravessá-la. por exemplo. sobrecarrega-se de intenções ativas e adota imediatamente um caráter de intervenção. há muitos outros cuja imparcialidade é inquestionável e cuja exatidão em transmitir dados exatos não é fácil de superar. Nada mais longe de minha pretensão que toda intenção de podar o arbítrio a ingleses e americanos. de vinte anos de política internacional inglesa. o povo B recebe também com abundância. Mas. essa opinião não se mantém num plano mais ou menos "contemplativo". de grandes grupos sociais norte-americanos está intervindo.seja de amplos grupos ou de todo o país -. intrigantes que. que. além disso. por suas formidáveis dimensões. discutindo seu "direito" a opinar quanto estimem sobre quanto lhes apraza. Há um século não importava que o povo dos Estados Unidos se permitisse ter uma opinião sobre o que acontecia na Grécia. é perigoso (99).apesar de seus inúmeros correspondentes . rapidez e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. as causas que a produziram. se ocupam deliberadamente em fustigá-la. desde logo.htm (111 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Enquanto o Governo americano não atuasse. Porque a quantidade de notícias que constantemente recebe um povo sobre o que sucede em outro é enorme. os povos entraram numa extrema proximidade dinâmica. Sempre há.A rebelião das massas. daninhos. e a opinião. de fato . Pois é o caso que se o homem inglês rememora num lance d'olhos encontrará que aconteceram no mundo coisas de grave importância para a Inglaterra. Mas aqui é onde os meios atuais de comunicação produzem seus efeitos.sabia pouco do que realmente estava acontecendo nos demais povos. O mundo era então "maior". é o fato gigantesco que serviu a este artigo de ponto de partida: o fracasso do pacifismo inglês. A distância dinâmica entre povo e povo é tão grande. Não é questão de "direito" ou da desprezível fraseologia que sói amparar-se nesse título: é uma questão. ou que essa informação tão copiosa se compõe de dados externos. Dito fracasso declara estrondosamente que o povo inglês .

Felizmente. que denunciei como um fator de primeira grandeza entre as causas da presente desordem. o exemplo que mais exatamente me consta. e me reduzo a confrontar dois comportamentos de um mesmo grupo de opinião. Evitemos os espaventos e as frases. mas permita-se-me convidar o leitor inglês a que imagine qual pode ser meu primeiro movimento ante semelhante fato. cuidei durante toda minha vida de montar em meu aparelho psico-físico um sistema muito forte de inibições e de freios . além disso. O natural seria que eu estivesse agora em guerra apaixonada contra esses escritores ingleses. atuando. Enquanto em Madri os comunistas e seus afins obrigavam. com intolerável impertinência. segundo Hegel. faz com que o mundo vá à deriva.A rebelião das massas.000 votos contra 300. a falar nas rádios. Essas cifras mostram que. há séculos e sempre. Porque não é fácil encontrar maior incongruência. Ora bem. Alberto Einstein acreditou ter "direito" a opinar sobre a guerra civil espanhola e tomar possessão ante ela. etc. Mas eis aqui outro exemplo mais geral. a despeito de suas copiosas "informações". quase presente. a "Frente Popular". que oscila entre o grotesco e o trágico. e a sublinhar sua nociva incongruência. a "Frente Popular" que se formou em outros países. que. como dizia Dante: che saetta previsa vien più lenta. Note-se que falo da guerra civil espanhola como um exemplo entre muitos. mas que a considerariam como uma doença terrível para a nação inglesa. não contribuiu a debilitar minha surpresa. não é uma questão de mais ou de menos.talvez a civilização não seja outra que essa montagem . não é "natural". para o bloco do Partido Laborista. sua audácia provoca em nós frenesi. A diferença numérica na votação é daquelas diferenças quantitativas que. Mas é o caso que. alguns dos principais escritores ingleses assinavam outro manifesto onde se garantia que esses comunistas e seus afins eram os defensores da liberdade. Por isso é um exemplo concreto do mecanismo belicoso que criou o mútuo desconhecimento entre os povos. isentos de toda pressão. Há uns dias. e me reduzo a procurar que o leitor inglês admita por um momento a possibilidade de que não está bem informado. Mas esse mesmo partido e a massa de opinião que pastoreia ocupam-se em favorecer e fomentar. por sua vez. suposto o mais decisivo para que no mundo volte a reinar uma ordem. que está ali. freqüência notícias dessa opinião remota.e. Alberto Einstein usufrui uma ignorância radical sobre o que acontece na Espanha agora. a união com os comunistas. Deixo intacta a questão de se uma "Frente Popular" é uma coisa benéfica ou catastrófica. escritores e professores a assinar manifestos. do modo mais concreto e eficaz. quer dizer. sob as mais graves ameaças. Mas esta moderação que por sorte posso ostentar.000. Já é irritante que o próximo pretenda intervir em nossa vida. Há pouco. a formação na Inglaterra de uma "Frente Popular". se convertem automaticamente em diferenças qualitativas.htm (112 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas esta reação de aborrecimento multiplica-se até à exasperação porque o povo B adverte ao mesmo tempo a incongruência entre a opinião A e o que em B.. comodamente sentados em seus escritórios ou em seus clubes. aconteceu. esse file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de seus movimentos e tem a impressão de que o estranho. por 2. falto de pouvoir spirituel. invadiu seu país. a união com o comunismo. mas se além disso revela ignorar completamente nossa vida. ao mesmo tempo. Talvez isto o mova a corrigir seu insuficiente conhecimento das demais nações. Há muitos anos que me ocupo em fazer notar a frivolidade e a irresponsabilidade freqüentes no intelectual europeu. o Congresso do Partido Laborista rechaçou. efetivamente. de seu nervosismo. O espírito que o leva a esta insolente intervenção é o mesmo que há muito tempo vem causando o desprestígio universal do homem intelectual.100.

de fora -. e ambos os partidos hostis coincidem nela. Eu creio que há aqui um novo problema de primeira ordem para a disciplina internacional. E me pareceria vão objetar que essas intervenções irritam uma parte do povo que as sofre. A nação acaba por estabilizar-se em "sua verdade". a língua. A parte do país favorecida momentaneamente pela opinião estrangeira procurará. no que efetivamente aconteceu. pensava. que a nova estrutura do mundo converte os movimentos da opinião de um país sobre o que acontece em outro . aqui reclamamos uma nova técnica de trato entre os povos. Daí que acabam por se unir contra a incongruência da opinião estrangeira. uma intimidade . Sobre este: que os povos. umas frente às outras. claro está. como uma pessoa. começaram repentinamente a fechar-se dentro de si mesmas. E não será uma insensatez crer coisa fácil o conhecimento da realidade política de um país estranho? Sustento. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Tome qualquer função coletiva. que as nações existem. por exemplo. Ora bem: o velho e barato "internacionalismo". acerte ou seja menos incongruente com essa vivente "verdade". a hermetizar suas existências. por sorte. repito. quando as nações européias pareciam mais próximas a uma superior unificação. e isto é uma intervenção.movimentos que antes eram quase inócuos . Porque essa incongruente conduta. Não há razão para que não sofra análoga regulamentação a opinião de um povo sobre outro.htm (113 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . à-toa. Há a lei do libelo e há a formidável ditadura das "boas maneiras". posto que tem não poucos caracteres da guerra química. declarando-o ou não. versado mais acima. e a converter-se as fronteiras em escafandros isoladores. que engendrou as presentes angústias. que corre paralelo ao do direito. embora me exponha a todos os riscos de uma enunciação esquemática.portanto. Isto bastaria para explicar por que. Não outra é a origem das catástrofes na história humana. um sistema de segredos que não pode ser descoberto. poderia dizer-se que é uma intervenção guerreira. beneficiar-se dessa intervenção. Enquanto se produzam fenômenos como este. o oposto. Outra coisa seria pura tolice. embora de outro modo e por outras razões. todas as esperanças de que a paz reine no mundo são. Por isso será funesta toda tentativa de desconhecer que um povo é. mais ainda.A rebelião das massas. essa duplicidade da opinião laborista só irritação pode inspirar fora da Inglaterra. Era um curioso internacionalismo aquele que em suas contas esquecia sempre o detalhe de que há nações (100). Esta é uma observação demasiado óbvia para que seja verídica. Claro que isto supõe estar de acordo sobre um princípio básico. Bem notório é que surte praticamente impossível conhecer intimamente um idioma estrangeiro por muito que o estudemos. no fundo. pois. Na Inglaterra o indivíduo aprendeu a guardar certas cautelas quando se permite opinar sobre outro indivíduo. Toda realidade desconhecida prepara sua vingança. Nenhuma de suas doutrinas ou atuações é compreensível se não se descobre em sua raiz o desconhecimento do que é uma nação e de que isso que são as nações constitui uma formidável realidade situada no mundo e com a qual há que contar. Mas por baixo dessa aparente e transitória gratidão corre o processo real do vivido pelo país inteiro.em autênticas incursões. penas de amor perdidas. Não tenho inconveniente em declarar qual é a minha. Não pense o leitor em nada vago nem místico. Talvez o leitor reclame agora uma doutrina positiva. Como antes postulávamos uma nova técnica jurídica. Esta só pode esperar agradecimento perdurável na medida em que. mesmo grupo de opinião se ocupa em cultivar esse mesmo micróbio em outros países. mas comprazem à outra.

A enfermidade por que atravessa é. Desde já. no fundo de bosque que as almas possuem. portanto. em claras noções de história. imprescindível para que volte a brotar. seja provável o desaparecimento da Europa e sua substituição por outra forma de realidade histórica . Os povos menores adotarão figuras de transição e intermediárias. virá uma articulação da Europa em duas formas diferentes de vida pública: a forma de um novo liberalismo e a forma que. Paris. depurando-o. mas de integrá-las. da fé européia. e graças a isso veremos dentro em breve um novo liberalismo temperar os regimes autoritários. a proposição é mais falsa que verídica. Esta idéia européia é de signo inverso àquele abstruso internacionalismo. e então não há inconveniente em aceitar essa terrível sentença.por exemplo: as nações soltas ou uma Europa oriental dissociada até à raiz de uma Europa ocidental. não será. mas não mana no meio da alteração. DINÂMICA DO TEMPO AS VITRINAS MANDAM Dizem que o dinheiro é o único poder que atua sobre a vida social. Porque é estranho que tempos sobremodo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas que gozem de plena saúde estas ou as outras nações. o manancial de uma nova fé. O extravio metódico que representa o internacionalismo impediu ver que só através de uma etapa de nacionalismo exacerbados se pode chegar à unidade concreta e cheia da Europa. das vigências em que sua socialização consiste. dezembro. e isto convida a suspeitar ou que nunca foi verdade ou que o tem sido em sentidos mui diversos. Esta é o autêntico poder de criação histórica. Não se trata de que a Europa está enferma. propugno e anuncio o advento de uma forma mais avançada de convivência européia. Pois acontece que em muitas épocas históricas se falou o que agora se fala. como acabo de insinuar. se costuma chamar de "totalitária". O "totalitarismo" salvará o "liberalismo". deixando ao Ocidente todo seu rico relevo. Nada disto se oferece no horizonte -. Nesta data. As nações européias chegam agora a seus pontos cruciais e a cabeçada será a nova integração da Europa. Mais uma vez ficará patente que toda forma de vida precisa de sua antagonista. Mas tem também seus direitos a visão de retícula grossa. e sim no recato do ensinamento. 1937. destilando sobre ele. A Europa não é. Porque se isso acontece na Europa é porque sofre uma crise de sua fé comum. a inter-nação. um passo à frente na organização jurídica e política de sua unidade. A mesma inspiração que formou as nações do Ocidente continua atuando no subsolo com a lenta e silente proliferação dos corais. Isto salvará a Europa. que foi bastante lido em língua inglesa. a sociedade européia parece volatilizada. Entretanto. mas como é comum e européia a enfermidade. No livro The Revolt of the Masses (101). e que. Não de laminar as nações. porque isso significa. Porque é disso que se trata. sê-lo-á também o restabelecimento. A Europa será a ultra-nação. um oco.A rebelião das massas. teríamos de lhe tirar e lhe pôr alguns ingredientes para que a idéia fosse luminosa. Este equilíbrio mecânico e provisório permitirá uma nova etapa de mínimo repouso. Se olhamos a realidade com uma ótica de retícula fina. com um nome impróprio. Mas seria um erro crer que isto significa seu desaparecimento ou definitiva dispersão. O estado atual de anarquia e superlativa dissociação na sociedade européia é uma prova mais da realidade que esta possui.htm (114 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pois. um vazio e nada. comum. Uma nova forma de vida não consegue instalar-se no planeta até que a anterior e tradicional não se tenha ensaiado em seu modo extremo.

A questão é sobretudo complicada e não pode ser resolvida em dois tempos. Gôngora faz disso letras. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. porque . e no XVII. Em geral. o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna.htm (115 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Pelo visto. chrémata aner! "Seu dinheiro. mas não nos inspira asco. Esta perspicácia sobre o próprio modo de ser. e foi necessário depois refazer a história econômica daquela idade para mostrar a importância efetiva que nos Estados medievais tinha o dinheiro hebreu. da realidade econômica nos tempos feudais. talvez. Os marxistas. deplorando-o. a rigor. não há correspondência entre a riqueza daqueles judeus e sua posição social.é forçoso declará-lo . tempos muito transitórios entre duas etapas. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. ante o poder do dinheiro encerra uma porção de problemas curiosos ainda não aclarados. menosprezaram excessivamente a importância da moeda na etapa pré-capitalista da evolução econômica. não se deve fazer muito caso do que as épocas passadas disseram de si mesmas. muito diferentes. pelo menos. para adubar as coisas segundo a pauta de sua tese. um magnífico atributo do ser vivente. é uma grande força social? Isso não era necessário sublinhar: seria uma calinada. No século VII antes de Cristo corria já por todo o Oriente do Mediterrâneo o apotegma famoso: Chrémata. segundo a qual o dinheiro devia ter menos influência da que efetivamente possui? Como não nos habituamos ao fato constante depois de tantos e tantos séculos. Porque. sua surpresa de que o dinheiro tenha mais força da que devia ter. no século XIV o põe em circulação nosso turbulento tonsurado de Hita.eram mui pouco inteligentes a respeito de si. esta clarividência para o próprio destino é coisa relativamente nova na história. Se hoje os judeus possuem o dinheiro e são os donos do mundo. Entretanto. Eu creio que esta surpresa. O importante é evitar a concepção econômica da história. seu dinheiro é o homem!" No tempo de César dizia-se o mesmo. sempre renovada. o poder que. porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde. mas usurpado às outras forças ausentes. desde que se inventou. Só como uma possibilidade de interpretação vai tudo isto que digo. Porque é demasiado evidente que em muitas épocas humanas o poder social do dinheiro foi muito reduzido e outras energias alheias ao econômico informaram a convivência humana. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência. E de onde nos vem essa convicção. Quem as usa expressa com elas. Como? Será que o dinheiro não possui. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela. essa surpresa e essa insinuação perene de que o poder exercido não lhe corresponde. são. Os princípios sociais que regeram uma idade perderam seu vigor e ainda não amadureceram os que vão imperar na seguinte.A rebelião das massas. ainda sendo isto verdade e calibrando na devida cifra o peso puramente econômico do dinheiro na dinâmica da economia medieval. entre si. não o deve ter porque não é seu. e que sempre nos colhe de surpresa? É. diferentes coincidam em ponto tão principal. se lhe atribui e que seu influxo só é decisivo quando os demais poderes organizadores da sociedade se retiraram? Se assim fosse entenderíamos um pouco melhor essa estranha mescla de submissão e de asco que ante ele sente a humanidade. Em todas estas lamentações insinua-se algo mais. As épocas em que mais autenticamente e com mais dolentes gritos se lamentou esse poderio. e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules. Não se diga que o dinheiro não era a forma principal da riqueza. Que conseqüência tiramos desta monótona insistência? Que o dinheiro. fazendo da história inteira uma monótona conseqüência do dinheiro. que alheia toda a graça do problema. pode descobrir-se nelas uma nota comum: são sempre épocas de crise moral. também o possuíam na Idade Média e eram o excremento da Europa.

Ora bem: não há dúvida que o industrialismo moderno. seu influxo será escasso. em sua combinação com os fabulosos progressos da técnica. Contra a ingenuidade igualitária é preciso fazer notar que a jerarquização é o impulso essencial da socialização. por ser elemento material.htm (116 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não pode volatilizar-se. O dinheiro teve. um pseudo princípio se encarrega de modelar a jerarquia e definir as classes.ceteris paribus . de tantas classes e qualidades. idéias -. que o dinheiro pode desenvolver fantasticamente sua essência: o comprar. Se nos envaidecemos. fustigada por esse instinto irreprimível de jerarquia. ainda limitando de tal sorte a frase inicial que dá ocasião a esta nota. inventa sempre algum novo tema de desigualdade. Qual seja o princípio desta é outra questão. mas havia pouco para comprar. pois. que. fica a sociedade sem motivo que jerarquize os homens. O sintoma de um poder social autêntico é que cria jerarquias.o século XVII . se queria algo mais que o breve repertório de mercadorias existente. se reparte segundo se acha repartido o poder social. por muito dinheiro que tivesse um judeu.raça. O rico. toda a energia social vacante é absorvida por ele. Ora bem: isto é impossível. e no tempo de César os "cavaleiros". mas. Mas. Pelo contrário. Diríamos. o exclusivo do presente é esta outra conjuntura. se cedem os verdadeiros e normais poderes históricos . o homem mais invejado era aquele que possuía certa tulipa rara. Também esta curiosidade é exposta e difícil de satisfazer. religião. isto aconteceu várias vezes na história. Ninguém. É também idade de crise: os prestígios há anos ainda vigentes perderam sua eficiência. para seu poder. por muito dinheiro que haja e por muito livre que se encontre sua ação de conflitos com outras potências. Mas. continuava sendo um infra-homem. A cultura intelectual e artística é avaliada menos que há vinte anos. e vai para o guerreiro na sociedade belicosa. Há. É uma das forças principais que atuam no equilíbrio de todo ofício coletivo. a meu juízo. de outro modo: o dinheiro não manda mais senão quando não há outro princípio que mande. Isto nos permite formar uma escala com as épocas de crematismo e dizer: o poder social do dinheiro . O novo. produziu nestes anos um cúmulo tal de objetos mercáveis. entretanto. vice-versa. que eram os mais ricos como classe. tudo que acontece em nossa hora parecer-nos-á único e excepcional na série dos tempos. mas não é a musa de seu estilo tectônico. Se há poucas coisas para comprar. que quando se volatilizam os demais prestígios resta sempre o dinheiro. mas talvez possa duvidar-se de que seja um poder primário e substantivo. como indiquei. Se os normais faltam. Mas algum terá de existir sempre. Talvez o poder social não depende normalmente do dinheiro. Pois bem: no século XVI.na Holanda. não quanto maior seja a quantidade do dinheiro mesmo. tinha de inventar um apetite e o objeto que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas vai para o sacerdote na teocrática. O dinheiro é apenas um meio para comprar coisas. que seja ele quem destaca o indivíduo no corpo público. A fantasia humana.A rebelião das massas.será tanto maior quantas mais coisas haja para comprar. eu me pergunto se há alguma razão para afirmar que em nosso tempo goza o dinheiro de um poder social maior que em tempo algum do passado. Durante um momento . Ou. nem o mais idealista. incapaz por si mesmo de inspirar a grande arquitetura da sociedade. não ascendiam ao cume da sociedade. Assim se explica essa nota comum a todas as épocas submetidas ao império crematístico que consiste em ser tempos de transição. pode duvidar da importância que o dinheiro tem na história. No século XVIII existiam também grandes fortunas. Parece o mais verossímil que seja o dinheiro um fator social secundário. política. Morta uma constituição política e moral. Onde há cinco homens em estado normal produz-se automaticamente uma estrutura jerarquizada. um limite automático em sua própria essência. Resta só o dinheiro. Nem a religião nem a moral dominam a vida social nem o coração da multidão. uma razão que dá probabilidade clara à suspeita de ser nosso tempo o mais crematístico de quantos foram.

de que se fazia. A lentidão e suavidade deste processo dá tempo a que o organismo reaja. 15 de maio de 1927. sem querer. Cada espécie. nunca idêntica. são. aprontará uma resposta mais ou menos diferente. perguntas que o ser vivo responde com uma ampla margem de originalidade imprevisível. é uma operação que se faz de dentro para fora. etc. Viver. As modificações externas atuam só como excitantes de modificações intraorgânicas. a bem dizer. jovens e velhos. Basta que durante algum tempo a temperatura média do ano desça cinco ou seis graus para que a glacialização se produza. como nos mitos mais arcaicos pode se recordar confusamente. havia de parecer-me sobremodo verossímil que nos mais profundos e amplos fenômenos históricos apareça. . o efeito por elas produzido transcendeu os limites do histórico e transtornou a espécie como tal. satisfaria. pelo visto. A estrutura mais primitiva da sociedade se reduz a dividir os indivíduos que a integram em homens e mulheres. etc.A rebelião das massas. As formas biológicas mesmas foram. quando se advertiu que a organização social mais primitiva não é senão a marca na massa coletiva dessas grandes categorias vitais: sexos e idades. Se houve catástrofes telúricas . que os verões sejam um pouco mais frescos. em suma. Caberia imaginar um autômato provido de um bolso em que metesse mecanicamente a mão e chegasse a ser o personagem mais ilustre da urbe.o melhor automóvel. não tiveram caráter de grande espetáculo. submersão de continentes. portanto. é a verdadeira variação histórica. seleção do artífice.e comprá-los. os períodos glaciais. a meu juízo. escolher os objetos melhores . pelo menos dentro de um mesmo período histórico zoológico. A existência tem sido.dilúvios. El Sol. Convém abandonar a idéia de que o meio. que a vida seja um processo de fora para dentro. um dos descobrimentos sociológicos mais importantes o que se fez. tinha de buscar o artífice que o realizasse e dar tempo a sua fabricação. Como se pode pensar que estes módulos elementaríssimos e divergentes da vitalidade não sejam gigantescos poderes plásticos da história? Foi. Agora um homem chega a uma cidade e aos quatro dias pode ser o mais famoso e invejado habitante dela sem mais trabalho que passear ante as vitrinas. súbitas mudanças extremas de clima -. por assim dizer. o melhor chapéu. vai para trinta anos. mecanicamente. mais ou menos claro.htm (117 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . modele a vida. é jovem ou é velha. o melhor isqueiro. o decisivo influxo das diferenças biológicas mais elementais. e mesmo cada variedade. A vida é masculina ou feminina. e por isso as causas ou princípios de suas variações devem ser buscados no interior do organismo. e cada uma destas classes sexuais (102) em meninos. Em todo este intrincamento intercalado entre o dinheiro e objeto complicava-se aquele com outras forças espirituais fantasia criadora de desejos no rico. em classes de idade. . e esta reação de dentro do organismo à mudança física do contorno. Em definitivo. sempre muito cotidiana. dependente. As mudanças mais violentas que nossa espécie conheceu. as primeiras file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O mais provável é que o homem não assistiu nunca a semelhantes catástrofes. e mesmo cada indivíduo. JUVENTUDE I As variações históricas não procedem nunca de causas externas ao organismo humano. trabalho técnico deste. Pensando assim.

está o homem maduro que o educa e dirige. sem o que não é possível a perduração de seu triunfo. No ser humano a vida se duplica porque ao intervir a consciência a vida primária se reflete nela: é interpretada por ela em forma de idéia. Hoje de um lugar. (104) o predomínio tem sido tão extremado e exclusivo. ou bem acha a graça máxima nos modos femininos diante dos masculinos. A parelha Sócrates-Alcibíades simboliza muito bem a equação dinâmica de juventude e madureza desde o século V no tempo de Alexandre. e depois de uma guerra mais triste que heróica. antes de tudo. Eu não sei se este triunfo da juventude será um fenômeno passageiro ou uma atitude profunda que a vida humana tomou e que chegará a qualificar toda uma época. entretanto. quer dizer. o jovem atua sempre diante do senador em forma de oposição. juventude e senectude. que lhes serve de norma. E como todos coexistem em qualquer instante da história. prefere o velho ao jovem e submete-se à figura do senador. este império dos jovens vinha se preparando desde 1890. Cada uma destas potências significa a mobilização da vida toda em um sentido divergente do que possui sua contrária. a vida toda organiza-se em torno do efebo. O fenômeno é demasiado recente e ainda não se pode ver se esta nova vida in modo juventutis será capaz do que depois direi. Mas se fossemos atender só ao aspecto do momento atual. que estima mais as qualidades da vida jovem. pelo contrário. Roma. a existência humana. Então adverte-se o que de antemão devia presumir-se: que. sentimento. às vezes súbitas? Eis aqui uma questão sobre a qual não podemos ainda dizer uma só palavra clara (103). íntegra. A luta misteriosa que mantém nas secretas oficinas do organismo a juventude e a senectude. quer dizer. instituições. desde o fin de siècle. Na realidade. É surpreendente que em povos tão velhos como os nossos. Masculinidade e feminilidade. imagem.htm (118 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . seremos forçados a dizer: tem havido na história outras épocas em que predominaram os jovens. os homens maduros? O varonil ou o feminino? É sobremaneira interessante perseguir nos séculos as deslocações do poder para uma ou a outra dessas potências. mas sob condição de servir ao espírito que Sócrates representa. a masculinidade e a feminilidade. reflete-se na consciência sob a espécie de preferências e desdéns. amanhã de outro. de incitação e de freio. toma a vida de repente um aspecto de triunfante juventude. O que realmente me parece evidente é que nosso tempo se caracteriza pelo extremo predomínio dos jovens. E como a história é. o interessante será descrever a projeção na consciência desses predomínios rítmicos. e perguntar: Quem pode mais? Os jovens ou os velhos. desestima as da vida madura. produz-se entre eles uma colisão. da alma. Vêem a ser como estilos diversos do viver.A rebelião das massas. como tantas outras coisas. um forcejar em que cada qual tenta arrastar. Os dois nomes que enunciam os partidos da file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. do pai de família. Nos séculos clássicos da Grécia. Deste modo. são duas parelhas de potências antagônicas. sendo rítmica toda vida. O jovem Alcibíades triunfa sobre a sociedade. e pospõe. mas junto a ele. entre as bem conhecidas. E preciso que passe algum tempo para poder aventurar este prognóstico. história da mente. e como potência compensatória. O "filho". que há tempos de jovens e tempos de velhos. foram desalojadas a madureza e a ancianidade: em seu oposto se instalava o homem jovem com seus peculiares atributos. o é também a história. a graça e o vigor juvenis são postos a serviço de algo acima deles. que há épocas em que predomina o masculino e outras senhoreadas pelos instintos da feminilidade. Por que acontecem estas variações da preferência. em seu sentido. Para compreender bem uma época é preciso determinar a equação dinâmica que nela dão essas quatro potências. e que os ritmos fundamentais são precisamente os biológicos. mas nunca. Chega uma época em que prefere.

Pascal. efetivamente. luta multissecular aludem a esta dualidade de potências: patrícios e proletários. A Revolução fizera tábua rasa da geração precedente e permitiu durante quinze anos que ocupassem todas as eminências sociais homens muito moços. o velho de nascimento. o XVIII. Ambos significam "filhos".com uma suposição de sessenta anos.htm (119 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pode parecer em sua iniciação um tempo de jovens. o uso.varões e fêmeas . vestido à espanhola. Quando no romanticismo se reage contra o século XVIII é para voltar a um passado mais antigo.que tendem a prolongar ilimitadamente sua mocidade e se instalam nela como definitivamente. é mero descendente e não herdeiro. A guerra defensiva sói empregar táticas vis. oferece este tempo o exemplo de um falso triunfo juvenil. uma subversão contra o passado e é um ensaio de se afirmar a si mesma a juventude. mas princípios recebidos: nada tão representativo como Robespierre. são só adequados à gente dessa idade. Para achar outra época de juventude como a nossa. El Sol. O romanticismo. não a confusa juventude. É o século do entusiasmo pelos decrépitos. Todas as gerações do século XIX aspiraram a ser maduras o mais depressa possível e sentiam uma estranha vergonha de sua própria juventude. porque no fundo de sua alma o atacado estima mais que a si mesmo o ofensor. A guerra ofensiva vai inspirada pela segurança na vitória e antecipa o domínio. O jacobino e o general de Bonaparte são rapazes. ingenuamente surpresos: Para onde foram os jovens? Quanto vale nesta idade parece ter quarenta anos: o traje. os modos. que estremece ao passo de Voltaire. O que o jovem afirma então não é a sua juventude. prefere suas atitudes fatigadas e apressa-se a abandonar sua mocidade. Domina a centúria Descartes. E a época dos blasés. não é filho de "alguém" reconhecido. ao passo que o proletário é filho no sentido da carne. Para extremar tal estilo de vida finge-se na cabeça a neve da idade. Busca-se por toda a parte a raison e interessa mais que nada a teologia: jesuítas contra Jansênio. prole. O jovem imita em si o velho. e os jovens ao olhar dentro de si só acham inapetência vital. a rigor. detesta o sentimento e a paixão. casado segundo lei do Estado e por isso herdeiros de bens. Ao chegar ao século XVIII neste virtual processo temos de nos interrogar. O gesto de combate que parece interpolar-se entre ambos pertence. uns são filhos de pai cidadão. seria preciso descer até o Renascimento. Se damos um passo atrás caímos no século vieillot por excelência. Há nele. o garoto genial. O jovem revolucionário é só o executor das velhas idéias confeccionadas nos dois séculos anteriores. Esta é a causa que decide file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. II Todo gesto vital. Repasse o leitor rapidamente a série de épocas européias. dos suicídios. cadáver vivente que passa sorrindo de si mesmo no sorriso inumerável de suas rugas.homem ou mulher . o ar prematuramente caduco no andar e no sentir. De Ninon estima-se a madureza. o corpo elástico e nu. (Como se vê a tradição exata de patrício seria fidalgo). e a peruca empoada cobre toda testa primaveril . e o romanticismo porá de manifesto sua carência de autenticidade. de negro. Tertium non datur. ou é um gesto de domínio ou um gesto de servidão. Entretanto. é genial porque antecipa a ancianidade dos geômetras. a um ou outro estilo. que abomina de toda qualidade juvenil. Compare-se com os jovens atuais .A rebelião das massas. 9 de junho de 1927. que com uma ou outra intensidade impregna todo o século XIX.

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um ou outro estilo de atitude. O gesto servil o é porque o ser não gravita sobre si mesmo, não está seguro de seu próprio valor e em todo instante vive comparando-se com outros. Necessita deles em uma ou outra forma; necessita de sua aprovação para se tranqüilizar, quando não de sua benevolência e de seu perdão. Por isso o gesto leva sempre uma referência ao próximo. Servir é encher nossa vida de atos que têm valor só porque outro ser os aprova ou aproveita. Têm sentido olhados da vida deste outro ser, não da nossa vida. E esta é, em princípio, a servidão: viver desde outro, não desde si mesmo. O estilo de domínio, por seu turno, não implica a vitória. Por isso aparece com mais pureza que nunca em certos casos de guerra defensiva que concluíram com a completa derrota do defensor. O caso de Numância é exemplar. Os numantinos possuem uma fé inquebrantável em si mesmos. Sua longa campanha contra Roma começou por ser de ofensiva. Desprezavam o inimigo e, com efeito, o derrotavam uma vez e outra (105). Quando mais tarde, recolhendo e organizando melhor suas forças superiores, Roma aperta Numância, esta, dir-se-á, toma a defensiva, mas propriamente não se defende, efetivamente aniquila-se, suprime-se. O fato material da superioridade de forças no inimigo convida ao povo de alma dominante a preferir sua própria anulação. Porque só sabe viver desde si mesmo, e a nova forma de existência que o destino lhe propõe - servidão - lhe é inconcebível, lhe sabe a negação do viver mesmo; portanto, é a morte. Nas gerações anteriores a juventude vivia preocupada com a madureza. Admirava os maiores, recebia deles as normas - em arte, ciência, política, usos e regime de vida -, esperava sua aprovação e temia seu enfado. Só se entregava a si mesma, ao que é peculiar a tal idade, subrepticiamente e como à margem. Os jovens sentiam sua própria juventude como uma transgressão do que é devido. Objetivamente se manifestava isto no fato de que a vida social não estava organizada em vista deles. Os costumes, os prazeres públicos haviam sido ajustados ao tipo de vida próprio para as pessoas maduras, e eles tinham de se contentar com as zurrapas que estas lhes deixavam ou lançar-se às estroinices. Até no vestir viam-se forçados a imitar os velhos: as modas estavam inspiradas na conveniência da gente maior. As moças sonhavam com o momento em que se vestiriam "à vontade", quer dizer, em que adotariam o traje de suas mães. Em suma, a juventude vivia a serviço da madureza. A mudança operada neste ponto é fantástica. Hoje a juventude parece dona indiscutível da situação, e todos os seus movimentos vão saturados de domínio. Em sua atitude transparece bem claramente que não se preocupa o mínimo com a outra idade. O jovem atual habita hoje sua juventude com tal resolução e denodo, com tal abandono e segurança, que parece existir só nela. O que a madureza pense dela não lhe importa um caracol; mais ainda: a madureza possui a seus olhos um valor próximo ao cômico. Mudaram-se as tornas. Hoje o homem e a mulher maduros vivem quase sobressaltados, com a vaga impressão de que quase não têm direito a existir. Advertem a invasão do mundo pela mocidade como tal e começam a fazer gestos servis. Desde logo, imitam-na no trajar. (Tenho sustentado muitas vezes que as modas não eram um fato frívolo, mas um fenômeno de grande transcendência histórica, obediente a causas profundas. O exemplo presente esclarece com exaustiva evidência essa afirmação). As modas atuais estão pensadas para corpos juvenis, e é tragicômica a situação de pais e mães que se vêem obrigados a imitar seus filhos e filhas na indumentária. Os que já andamos na curva descendente da

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vida vemo-nos na inaudita necessidade de ter de desandar um pouco o caminho percorrido, como se o houvéssemos errado, e fazer-nos - de grado ou não - mais jovens do que somos. Não se trata de fingir uma mocidade que se ausenta de nossa pessoa, mas que o módulo adotado pela vida objetiva é o juvenil e nos força a sua adoção. Como com o vestir, acontece com tudo o resto. Os usos, prazeres, costumes, modos, estão talhados à medida dos efebos. É curioso, formidável, o fenômeno, e convida a essa humildade e devoção ante o poder, ao mesmo tempo criador e irracional, da vida que eu fervorosamente recomendei durante toda a minha. Note-se que em toda a Europa a existência social está hoje organizada para que possam viver a gosto só os jovens das classes médias. Os maiores e as aristocracias ficaram fora da circulação vital, sintoma em que se enlaçam dois fatores distintos - juventude e massa - dominantes na dinâmica deste tempo. O regime de vida média aperfeiçoou-se - por exemplo, os prazeres -, e, em troca, as aristocracias não souberam criar para si novos refinamentos que as distanciem da massa. Só lhe resta a compra de objetos mais caros, mas do mesmo tipo geral que os usados pelo homem médio. As aristocracias, desde 1800 no político, e desde 1900 no social, têm sido levadas de roldão, e é lei da história que as aristocracias não podem ser levadas de roldão senão quando previamente caíram em irremediável degeneração. Mas há um fato que sublinha mais que outro algum este triunfo da juventude e revela até que ponto é profundo o transtorno de valores na Europa. Refiro-me ao entusiasmo pelo corpo. Quando se pensa na juventude, pensa-se antes de tudo no corpo. Por várias razões: em primeiro lugar, a alma tem uma frescura mais prolongada, que às vezes chega a ornar a velhice da pessoa; em segundo lugar, a alma é mais perfeita em certo momento da madureza que na juventude. Sobretudo, o espírito - inteligência e vontade - é, sem dúvida, mais vigoroso na plenitude da vida que em sua etapa ascensional. Por seu turno, o corpo tem sua flor - seu akmé, diziam os gregos - na estrita juventude, e, vice-versa, decai infalivelmente quando esta se transpõe. Por isso, desde um ponto de vista superior às oscilações históricas, por assim dizer, sub specie aeternitatis, é indiscutível que a juventude rende a maior delícia ao ser olhada, a madureza, ao ser ouvida. O admirável do moço é o seu exterior; o admirável do homem feito é sua intimidade. Pois bem: hoje prefere-se o corpo ao espírito. Não creio que haja sintoma mais importante na existência européia atual. Talvez as gerações anteriores rendessem demasiado culto ao espírito e - salvo a Inglaterra - desdenharam excessivamente a carne. Era conveniente que o ser humano fosse admoestado e se lhe recordasse que não é só alma, mas união mágica de espírito e corpo. O corpo é por si puerilidade. O entusiasmo que hoje desperta inundou de infantilismo a vida continental, afrouxou a tensão do intelecto e vontade em que se retorceu o século XIX, arco demasiado retesado para metas demasiado problemáticas. Vamos dar um descanso ao corpo. A Europa - quando tem diante de si os problemas mais pavorosos - entrega-se a umas férias. Brinda elástico o músculo do corpo desnudo atrás de uma bola de futebol que declara francamente seu desdém a toda transcendência voando pelo ar com ar em seu interior. As associações de estudantes alemães solicitaram energicamente que se reduza o plano de estudos universitários. A razão que davam não era hipócrita: urgia diminuir as horas de estudo porque eles precisavam do tempo para seus jogos e diversões, para "viver a vida". Esta atitude dominante que hoje tem a juventude parece-me significativo. Só me ocorre uma reserva
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mental. Entrega tão completa a seu próprio momento é justa enquanto afirma o direito da mocidade como tal, ante a sua antiga servidão. Mas, não é exorbitante? A juventude, estádio da vida, tem direito a si mesma; mas por ser um estádio vai afetada inexoravelmente de um caráter transitório. Fechando-se em si mesma, cortando as pontes e queimando as naves que conduzem aos estádios subseqüentes, parece declarar-se em rebeldia e separatismo do resto da vida. Se é falso que o jovem não deve fazer outra coisa senão preparar-se para ser velho, também é erro parvo iludir por completo esta cautela. Pois é o caso que a vida, objetivamente, necessita da madureza; portanto, que a juventude também a necessita. É preciso organizar a existência: ciência, técnica, riqueza, saber vital, criações de toda ordem, são requeridas para que a juventude possa alojar-se e divertir-se. A juventude de agora, tão gloriosa, corre o risco de arribar a uma madureza inepta. Hoje goza o ócio florescente que lhe criaram gerações sem juventude (106). Meu entusiasmo pelo aspecto juvenil que a vida adotou não se detém senão ante esse temor. Que vão fazer aos quarenta os europeus futebolistas? Porque o mundo é certamente uma bola, mas tendo dentro de si mais do que simples ar. El Sol, 19 de junho de 1927.

MASCULINO OU FEMININO? Não há dúvida que nosso tempo é tempo de jovens. O pêndulo da história, sempre inquieto, ascende agora pelo quadrante "mocidade". O novo estilo de vida começou não há muito, e ocorre que a geração próxima já aos quarenta anos tem sido uma das mais infortunadas que existiram. Porque quando era jovem reinavam ainda na Europa os velhos, e agora que entrou na madureza depara que o império se transferiu para a mocidade. Faltou-lhe, pois, a hora de triunfo e de domínio, a oportunidade de grata coincidência com a ordem reinante na vida. Em suma: que viveu sempre ao revés com o mundo, e, como o esturjão, teve de nadar sem descanso contra a correnteza do tempo. Os mais velhos e os mais jovens desconhecem este duro destino de não haver flutuado nunca; quero dizer, de nunca haver sentido a pessoa como levada por um elemento favorável, e que pelo contrário dia após dia e lustro após lustro teve de viver em suspenso, sustentando-se a pulso sobre o nível da existência. Mas talvez esta mesma impossibilidade de se abandonar um só instante a disciplinou e purificou sobremaneira. É a geração que mais combateu, que ganhou a rigor mais batalhas e menos triunfos tem gozado (107). Mas deixemos por enquanto intacto o tema dessa geração intermediária e retenhamos a atenção sobre o momento atual. Não basta dizer que vivemos em tempo de juventude. Com isso não fizemos mais do que defini-lo dentro do ritmo das idades. Mas ao lado deste atua sobre a substância histórica o ritmo dos sexos. Tempo de juventude! Perfeitamente. Mas, masculino ou feminino? O problema é mais sutil, mais delicado - quase indiscreto. Trata-se de filiar o sexo de uma época. Para acertar nesta, como em todas as empresas da psicologia histórica, é preciso tomar um ponto de vista elevado e libertar-se de idéias estreitas sobre o que é masculino e o que é feminino. Antes de tudo é urgente desasir do trivial erro que entende a masculinidade principalmente em sua relação com a mulher. Para quem pensa assim, é muito masculino o fanfarrão que se ocupa acima de tudo de cortejar as damas e falar das boas fêmeas. Este era o tipo de varão dominante em 1890: traje barroco, sobrecasaca cujas abas
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(É curioso advertir que a sensualidade noviça da criança a faz normalmente sonhar com o hermafrodita. uma espécie de atleta com seios. e se recolhe na treva. Sim. Porque assim como a mulher não pode em nenhum caso ser definida sem referi-la ao varão. aparece sob a espécie de flautistas e dançarinas que executam suas humildes destrezas ao fundo. por si só. O resto era falsificação. talvez pareça irritante. ginásio.. com efeito. os homens vivem na época só com homens.. que o escultor vai comentar no mármore. nariz e olhos. quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura. nos obriga a contar. técnica. A veracidade. Embora o grego tenha sabido esculpir famosos corpos de mulher. apenas a vê. forçado a uma ótica de lonjura. Seria um erro atribuir este masculinismo. a mulher se adianta um pouco: Aspásia. A mulher?. acampamento. capeavam o vento. no subterrâneo das horas inferiores. extrema feminilidade. que lhe permite em ampla medida bastar-se a si mesmo. sua interpretação da beleza feminina não conseguiu desprender-se da preferência que sentia pela beleza do varão. portanto. É uma época de profunda insinceridade: discursos parlamentários e prosa de "artigo de fundo") (108). É uma realidade de primeira grandeza com que a Natureza. um duelo por mês. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista. trirreme. Eu não o aplaudo nem o vitupero. e. É possível que o seja. etc.. tem este o privilégio de que a maior e a melhor porção de si mesmo é independente por completo de que a mulher exista ou não.por um instante . que nessa época predominavam os valores de feminilidade.A rebelião das massas. quando mais tarde separa a forma masculina sofre . Egrégia ocasião de masculinidade foi o século de Péricles. no banquete varonil. inexorável em suas vontades.sensualidade. porque se masculinizou. Alguma vez. e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita. Seu trato normal com a mulher fica excluído na zona diurna e luminosa em que acontece o mais valioso da vida. são coisas em que o homem se ocupa com o centro vital de sua pessoa. que culmina no século de Péricles.amarga desilusão. é preterido e desestimado. O homem maduro assiste aos jogos dos efebos nus e habitua-se a discernir as mais finas qualidades da beleza varonil. No frontispício histórico aparecem só homens. Por que? Porque aprendeu o saber dos homens. cabelo em volutas. Só quando a mulher é o que mais se estima e encanta tem sentido apreciar o varão pelo serviço e culto que a esta renda. Não há sintoma mais evidente de que o masculino. Este privilégio do masculino. a uma nativa cegueira do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. (O bom fisionomista das modas descobre logo a idéia que inspirava esta: a ocultação do corpo viril sob uma profusa vegetação de tela e pelame. muito ao fundo da cena. barbearia. Por sua parte. A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil. plastrão. O fato de que ao pensar no homem se destaque primeiramente seu afã pela mulher revela. esporte. paternidade. política. sem que a mulher tenha intervenção substantiva. me força a dizer que todas as épocas masculinas da história se caracterizam pela falta de interesse pela mulher. até o ponto de que o historiador. Vive-se em público: ágora. A forma feminina lhe parece como uma mutilação da masculina. barba de mosqueteiro. como algo incompleto e vulnerado) (109). pois. mas tampouco o invento. à última hora. Século só para homens. familiaridade -. Ciência. como apoio e pausa à conversação que languidece. Esta fica relegada ao fundo da vida. o adolescente bebe no ar ático a fluência de palavras agudas que brota dos velhos dialéticos. como tal. guerra. literatura textil. entregues aos puros instintos . sentados nos pórticos com o cajado na axila.htm (123 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Ficavam só à vista mãos. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX.

Esta existência de áspero regime cria as bases primeiras. não "deve separar-se. e opor-lhe o suposto rendimento do germano ante a mulher. Na primeira Idade Média a vida tem o mais rude aspecto. os Soldanieri .mas não como a antiga corte de guerra e de justiça. como em certas etapas do germanismo domina o varonil. de todo um novo estilo de cultura e de vida. ante o Estado dos guerreiros e ante a Igreja dos clérigos. Sem a violência do combate ou do anátema. Agora aparece a "cortesia" triunfadora da "clerezia". em cujas mãos se achavam todos os meios da luta? Não cabe mais claro exemplo da força indomável que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas no século XII as altas damas de Provença e Borgonha têm a audácia surpreendente de afirmar. com efeito. como em certas jornadas de primavera. Trata-se. Quando o germano destes séculos se ocupa em idealizar a mulher. contar com um pouco de ordem. a segunda. o valor específico da pura feminilidade. grácil. a fêmea beligerante.A rebelião das massas. Em tal paisagem moral. a feminilidade eleva-se a máximo poder histórico.. A mutação se deve ao ingresso da mulher no cenário da vida pública. O homem vive quase sempre em acampamentos. bebida. E eis aqui que rapidamente. até a morte. só com outros homens. II Trata-se. suavissimamente. mas não em todas foi estimada. O homem. A Corte dos Carolíngios era exclusivamente feminina. o subsolo do porvir europeu. À contínua pendência substitui o solatz e deport que quer dizer conversação e jogo. Assim nesta bronca idade. imagina a valquíria. Já não se aprecia o gesto bronco. E preciso guerrear cotidianamente e à noite compensar o esforço com o abandono e o frenesi da orgia. Esta nova forma de vida pública. Porque até o século XII não se havia encontrado a maneira de afirmar a delícia da existência. homem grego para os valores da feminilidade. do mundanal ante o enérgico "tabu" que sobre todo o terreno fizera cair a Igreja. Os homens começam a polir-se na palavra e nos modos. mas "corte de amor". masculina. antes de tudo. E a "cortesia" é. como diz um texto da época. de todo um novo estilo de cultura e de vida. Mercê a ela conseguiu-se já no século XII acumular alguma riqueza. virago musculosa que possui atitudes e destrezas de varão. nada mais nada menos. Vê-se nela a norma e o centro da criação. cavalaria. muda a face da história. desde o século XII. onde a mulher é o centro. Como aceitam este jugo o guerreiro e o sacerdote. A verdade é que em outras épocas da Grécia anteriores à clássica triunfou o feminino. mas o gesto mesurado. A mulher é presa de guerra. de paz. vai se chamar séculos mais tarde "sociedade". Chamou-se então "corte" . da crina de seu cavalo e passará sua vida à sombra da lança". em perpétua emulação com eles sobre temas viris: esgrima.htm (124 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .conservavam. contém o germe do que. 26 de junho de 1927. El Sol. que por si mesma se divide em duas porções: a primeira.. Entendamo-nos: em todas as épocas desejou-se a mulher. nada mais nada menos. de bem-estar. ante o Estado e a Igreja. caça. a mulher carece de papel e não intervém no que podemos chamar vida de primeira classe. o regime de vida que vai inspirado pelo entusiasmo pela mulher. o privilégio de ser enterrados a cavalo (110). Todavia em tempos de Dante alguns nobres os Lamberti. Precisamente esclarece melhor que outro exemplo a diferença entre épocas de um e outro sexo o acontecido na Idade Média. feminina.

Por um deles significa o homem anormal que fisiologicamente é um pouco mulher. Por isso. o homem estima sua figura mais que a do sexo contrário e.htm (125 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . e seu caráter patológico os impede de representar a normalidade de nenhuma época. o homem muito preocupado com a mulher. que gira em torno dela e dispõe suas atitudes e pessoa em vista de um público feminino. Nada pareceria mais obsoleto que o gesto rendido e curvo com que o cavalheiro fanfarrão de 1890 se aproximava da mulher para lhe dizer uma frase galante. O poeta deixa um pouco a gesta em que se canta o herói varonil e torneia a trova que foi inventada sol per domnas lauzar (111). apesar de seu aspecto de mata-mouros. a figura feminina absorve o ofício alegórico de tudo que é sublime. mas quando sobrevêm etapas de masculinismo descobre-se o que neles há de efetivo efeminamento. É surpreendente a resolução e a unanimidade com que os jovens decidiram não "servir" a nada nem a ninguém. pois. Convivem. salvo à idéia mesma da mocidade. O cavalheiro desvia suas idéias feudais para a mulher e decide "servir" a uma dama. Exercitada a pupila nestes esquemas do pretérito. que versam sobre qualidades viris. consta pelo Gênese que a mulher não está feita de barro como o varão. Suas armas preferem ao combate a justiça e o torneio. A mocidade masculina afirma-se a si mesma. entrega-se a seus gostos e apetites. Mas. sem se preocupar com o resto. que facilmente poderíamos multiplicar. quando é o contrário. No final das contas. mas de juventude masculina. As moças perderam o hábito de ser galanteadas. Os rapazes convivem juntos nos estádios e áreas de esportes. como sempre que os valores masculinos predominaram. "efeminado" significa simplesmente homme à femmes. efeminamento. sem acatar ou render culto a nada que não seja sua própria juventude. Hoje. retorcida como um caracol. e esse gesto em que há trinta anos ressumavam todas as resinas da virilidade. O velho "efeminado" denomina este novo entusiasmo dos jovens pelo corpo viril e esse esmero com que o tratam. como desviação fisiológica da espécie. Os trajes dos homens começam a imitar as linhas do traje feminino. A vida do varão perde o módulo da etapa masculina e se conforma ao novo estilo. montado sobre os nervos de uma nova geração. que projeta nas regiões transcendentes a entronização do feminino. em perpétuo concurso e emulação. Quando chega. cheiraria hoje a efeminamento. Em tempos deste sexo. acontecida na ordem sublunar. Estes indivíduos monstruosos existem em todos tempos. volta-se ao panorama atual e conhece no mesmo instante que nosso tempo não é só tempo de juventude. "sentir do tempo" possui. Porque a palavra "efeminado" tem dois sentidos muito diversos. simplesmente se instala no mundo como uma propriedade indiscutida. mas a força de desdém. em seu outro sentido. À força de contemplar-se nos exercícios onde o corpo aparece isento de falsificações têxteis. esses homens parecem muito homens.A rebelião das massas. A rigor. E o é. ajustam-se à cintura e se decotam até o colo. de tudo que é aspiração. e chega a ser a forma de todo ideal. é tão poderoso que não necessita combater. a seus exercícios e preferências. no tempo do Dante. mas feita de sonho do varão. O dono do mundo é hoje o rapaz. Desta época provém o culto à Virgem Maria. cuja cifra põe no escudo. A mulher torna-se ideal do homem. adquirem uma fina percepção da física file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. consequentemente. cuida de seu corpo e tende a ostentá-lo. que estão ordenados para ser vistos pelas damas. Não lhes interessa mais que seu jogo e a maior ou menor perfeição na postura ou na destreza. não porque o tenha conquistado.

se é que a sentiam. Não seria objeção contra isto que alguma leitora. perscrutando sinceramente em seu interior. Cada qual crê viver por sua conta. sabiam calar seu entusiasmo pela beleza de um varão. porque se esfalfa em esportes físicos. simplificando um tipo de traje tão pouco propício para isso como o herdado do século XIX. não nos apercebemos nunca.htm (126 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Só estas excelências. É muita casualidade que atualmente o regime da assistência feminina nas ordens mais diversas coincida sempre nisto: a assimilação ao homem. sobretudo pela beleza fundada na correção atlética. Entretanto.1800 .A rebelião das massas. entusiasmo pela esplêndida figura do atleta. em vez de colegir ingênua e simplesmente: "A mulher de 1927 gosta superlativamente dos homens simpáticos". Talvez desde os tempos gregos não se tenha estimado tanto a beleza masculina como agora. Mas o fato é que sob essa superfície de nossa consciência atuam as grandes forças anônimas. faz um descobrimento mais profundo: a mulher de 1927 deixou de cunhar os valores por si mesma e aceita o ponto de vista dos homens que nesta data sentem. Um velho psicólogo habituado a meditar sobre estes assuntos sabe que o entusiasmo da mulher pela beleza corporal do homem. um sintoma de primeira categoria. arrastam o ânimo e o sobrecolhem (112). por seu turno. cingia e ostentava o atributo feminino por excelência: aquela túnica era o mais sóbrio talhe para sustentar a flor do seio. A mulher procura achar em sua compleição as linhas do outro sexo. mas o oposto. hoje a mulher imita o homem no vestir e adota seus ásperos jogos. aquele nu era um perverso nu de mulher. o seio feminino. aparentemente tão generoso na nudificação. pois. É uma equivocação psicológica explicar as modas vigentes por um suposto afã de excitar os sentidos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que cobra a seus olhos um valor enorme. com efeito. não é quase nunca espontâneo. Vê. De tudo aquilo que é um impulso coletivo e propele a vida histórica inteira em uma ou outra direção. mas não a bastante. E o bom observador nota que nunca as mulheres falaram tanto e com tanto descaro como agora dos homens simpáticos. nem a faina química em que se ocupam nossas células. nisso. Basta comparar o traje de hoje com o usado na época de outro Diretório maior . reconhecesse que não se apercebia de ser influída em sua estima da beleza masculina pelo apreço que dela fazem os jovens. Ao ouvir hoje com tanta freqüência o cínico elogio do homem simpático brotando dos lábios femininos. em virtude de razões que supõe personalíssimas. claramente percebidas. Cada uma poderá dar sua razão diferente.para descobrir a essência variante. Também sabe bem a mulher de hoje porque fuma. O traje atual. quase como a de agora. O traje Diretório era também uma simples túnica. bastante curta. Se no século XII o varão se vestia como a mulher e fazia sob sua inspiração versinhos dulcífluos. como não nos apercebemos do movimento estelar de nosso planeta. que tenha alguma verdade. porque se veste como se veste. se afirmasse o corpo do futebolista. escamoteia. Agora a mulher vai nua como um rapaz. oculta. Convém. apontar que a sentiam muito menos que na atualidade. ainda. varonil. tanto mais expressiva quanto maior é a semelhança. anula. que revela o predomínio do ponto de vista varonil. Era mister que sob os tubos ou cilindros de tela em que este horrível traje existe. A dama Diretório acentuava. sopros gigantescos que nos mobilizam a seu capricho. Daí que as modas masculinas tenham tendido estes anos a sublinhar a arquitetura masculina do homem jovem. os poderosos alísios da história. Por isso o mais característico das modas atuais não é a exiguidade do encobrimento. Antes. Note-se que só se estima a excelência nas coisas de que se entende.

sobre a causa de que essa iniciação se malograsse. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. "os sermonários não cessam de fulminar contra a longitude exagerada das saias. paradisíacas e moderadas como agora. o descaro e impudor de um rapaz que entrega à intempérie sua carne elástica. Provavelmente. É. Veja-se o tomo VI das Obras Completas do autor. 3 de julho de 1927. sua retirada do primeiro plano social trouxe o império da descortesia. dizem. Em que ficamos? Qual a saia diabólica? A curta ou a longa? Quem passou sua juventude numa época feminina consterna-se de ver a humildade com que hoje a mulher. edição espanhola Historia como sistema. S. no Renascimento. do varão.A rebelião das massas. Em outro lugar achará o leitor alguma indicação sobre isto e. (3) Monarchie universelle: deux opuscules. as relações entre os sexos nunca foram tão sadias. no volume Philosophy and History. onde se iniciou um esclarecimento e mise au point de todos estes conceitos. A este fim aceita na conversação os temas de preferência dos moços e fala de esportes e de automóveis. e quando passa a ronda dos coquetéis bebe como gente grande. mais que femininos. London. Porque aconteceu sempre que as épocas masculinas da história. a uma exibição lúbrica e viciosa. Assim foi no tempo de Péricles. El hombre y la gente. Há nos sacerdotes uma mania milenar contra os modismos. de próxima publicação. Francisco Xavier e Santa Teresa de Jesus -. El Sol. pois. uma bobagem perseguir em nome da moral a brevidade das saias em uso. Madrid. 1891. só na França. NOTAS (1) Veja-se o ensaio do autor intitulado "History as a System". nota Luchaire. O descaro e impudor da mulher contemporânea são. Hoje não se compreenderia um fato como o acontecido no século XVII por motivo da beatificação de vários santos espanhóis . O perigo está verdadeiramente na direção inversa. 1939 (V.entre eles. Homages to Ernst Cassirer. Esta indolência é um fato. Santo Inácio. O fato foi que a beatificação sofreu uma longa demora pela disputa surgida entre os cardeais sobre quem devia entrar primeiro na oficial beatitude: a dama Cepeda ou os varões jesuítas. superior nesta ordem de temas às demais. ainda mais. uma invenção diabólica" (113). A princípios do século XIII. procura insinuar-se e ser tolerada na sociedade dos homens. Tudo contrário. destronada. e eu não nego que no detalhe da indumentária e das atitudes influa esse propósito incitativo: mas as linhas gerais da atual figura feminina estão inspiradas por uma intenção oposta: a de se parecer um pouco com o homem jovem. Esta diminuição do poder feminino sobre a sociedade é causa de que a convivência seja em nossos dias tão áspera. Inventora a mulher da "cortesia". 36. pag.htm (127 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . (2) É justo dizer que foi na França. De minha parte procurei colaborar neste esforço de esclarecimento partindo da recente tradição francesa. que são. pois. 1942). Neste encontrará o leitor o desenvolvimento e justificação de tudo que acabo de dizer. O resultado de minhas reflexões acha-se no livro. no de César. renderam estranho culto ao amor dórico. desinteressadas da mulher. que se tornaram um pouco indolentes.

são absolutamente insuficientes. Como se isto não acontecesse em toda escola intelectual e não constituísse a diferença mais importante entre um grupo de homens e um grupo de gramofones (9) Nestes últimos anos. dizia aludindo a ele: "E un gran ministro. mas que variava de um para outro. toma. com a fórmula ilusória de que os doutrinários não possuíam uma doutrina idêntica. A palavra "resistência". por assim dizer. (6) "La coexistence et le combat de principes divers". não eram conservadores à-toa. Guizot. p. (8) Se o leitor deseja informar-se. pág. e que constituem a última manifestação do melhor estilo cartesiano. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Em outro lugar (tomos 8 e 10.htm (128 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . digamos de 1790 a 1830. Dicono que non ride mai". Vol. tenta o domínio absoluto. sem nobreza. de Gasparin que falando o Papa Gregório XVI com o embaixador francês. No fim de tudo é preciso recorrer aos estudos de Faguet sobre o idearium de um e outro. Em um homem tão diferente de Guizot como Ranke encontramos a mesma idéia: "Logo que na Europa um princípio. (5) Na Inglaterra as listas de residências indicavam junto a cada nome o ofício e classe da pessoa. que ao aparecer na citação de Ranke documenta o influxo de Guizot sobre este grande historiador. Correspondance avec Mme. M..quando interpretou a política de "resistência" como pura e simplesmente conservadora. Não há nestas palavras de Ranke uma clara influência de Guizot? Um fator que impede ver certos estratos profundos da história do século XIX é que não esteja bem estudado o intercâmbio de idéias entre a França e a Alemanha. Sobre Royer-Collard não há nem isso. XXII. (4) Oeuvres completes (Calman-Lévy). Esta é a origem da palavra snob. quer dizer. 3): "0 mundo europeu se compõe de elementos de origem diversa. Eis aqui uma vez mais a melhor inspiração européia reduzindo a dinamismo tudo que é estático.. encontrar-se-á. uma e outra vez. 130). ninguém pode ficar com a consciência tranqüila . pag. nob." Oeuvres complètes. II. p. Histoire de La Civilisation en Europe. 283. Mas os discursos de Royer-Collard são hoje tão pouco lidos que parecerá impertinência se digo que são maravilhosos. 35. Guizot. 248. encontra sempre uma resistência que se lhe opõe desde os mais profundos seios vitais. É demasiado evidente que os homens Royer-Collard. Não há nada melhor. em cuja ulterior contraposição e luta vêem precisamente desenvolver-se as mudanças das épocas históricas". Talvez o resultado desse estudo revelasse que a Alemanha recebeu nessa época muito mais da França que inversamente. uma súbita mudança de sentido e. pág. Por isso. de Gasparin.A rebelião das massas.entende-se que tenha "consciência" intelectual . (Veja-se de Barante: La vie et les discours de Royer-Collard. por sua vez. Broglie. junto ao nome dos simples burgueses aparecia a abreviatura s. O estado de liberdade surte de uma pluralidade de forças que mutuamente se resistem. 110. (7) Com certa satisfação refere-se Mme. seja qual for. que sua leitura é uma pura delícia de intelecção. 38. (10) Por exemplo. Pouthas tomou sobre si a fatigante tarefa de despojar os arquivos de Guizot e oferecer-nos numa série de volumes um material sem o qual seria impossível empreender a ulterior faina de reconstrução. Charles H. exibe-nos suas arcanas vísceras quando em um discurso de Royer-Collard lemos: "Les libertés publiques ne sont pas autre chose que des resistences". e embora sejam sumamente vivazes. que é divertida e até alegre.

A rebelião das massas. qui réglent les autres et dont dépendent les affaires. de donner le pouvoir à l'élement le plus pesant. feita em 1829. (22) Veja-se História como sistema. vê-se obrigado na sua madureza a fazer algumas reservas benévolas a seu favor. Renan. trad. 204. (12) Pretendem os alemães que foram eles os descobridores do social como realidade diferente dos indivíduos e "anterior" a estes. nota). Oeuvres: 1. le plus obstinément conservateur de notre pays".. 843. Mas o termo Volksgeist mostra demasiado claramente que é a tradução do voltairiano esprit des nations. B. Dupont-White (páginas 131-132). Além de que esta exposição do saint-simonismo. Bouglé e Halévy constitui uma das contribuições mais importantes que eu conheço ao efetivo esclarecimento da alma européia entre 1800 e 1830. 0 que demonstra duas coisas. 106. Bouglé e E. Nouveaux Essais sur l'entendement humain. (18) "Je trouve même que des opinions approchantes s'insinuant peu à peu dans l'esprit des hommes du grand monde. le moins clairvoyant. mais imprévoyante et superficielle révolution de 1848 eut pour conséquence. Primeira: que um homem. em 1700. Chap.. Renan: Questions contemporaines. IV. irreprochable. notre siècle qui se croit destiné à changer les lois en tout genre. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. segunda: que os males presentes da Europa são oriundos de regiões mais profundas cronológica e virtualmente do que sói presumir-se. Halévy (p. Eu colecionei os suficientes para ficar estupefato ante o fato de que tenha havido sempre alguns homens que prevêem o futuro. et se glissant dans les livres à la mode disposent toutes choses à la révolution générale dont d'Europe est menacée". o trabalho acumulado nas notas por MM. era capaz de prever o que aconteceu um século depois. (20) "Cette honnête. (13) Veja-se Doctrine de Saint-Simon. data aproximada em que Leibniz escrevia isto. XVI.56 (1821). supondo que foi "honrado e irreprochável ". seria reunir os prognósticos que em cada época se fazem sobre o futuro próximo. A origem francesa do coletivismo não é uma casualidade e obedece às mesmas causas que fizeram da França o berço da sociologia e de seu renovo em 1890 (Durkheim). é uma das obras mais geniais do século. (21) J. O Volksgeist parece-lhes uma de suas idéias mais autóctones.. pág.htm (129 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que em 1848 era jovem e simpatizou com aquele movimento.. I. 16. (14) Obra fácil e útil que alguém deveria empreender." D'Alembert: Discours préliminaire à l'Enciclopédie. Este é um dos casos que mais recomendam o estudo minucioso do intercâmbio intelectual franco-germânico de 1790 a 1830 a que em nota anterior me refiro. com introdução e notas de C. (17) Histoire de Jacques II. (19) ". (11) Veja-se o citado ensaio do autor: História como sistema. (15) Stuart Mill: La liberté. 143. I. au bout de moins d'un an. Carré: La Philosophie de Fontenelle. (16) Gesammelte Schriften.

a consciência de uma nova vida. publicado em 1921. às vezes. Para o "moderno". tradicionais. 41 e seguintes. Temporum felicitas. o fato de que quase toda a minha obra saiu ao mundo usando a máscara de artigos jornalísticos. data de sua primeira publicação como série de artigos no jornal diário El Sol. e encontram. e os artigos sobre Los Estados Unidos. enquanto se formavam estas aglomerações. 1a. Don. vejam-se algumas moedas reproduzidas em Rostovtzeff: The social and economic history of the Roman Empire. "aucune barrière entre le présent et le passé. os tomos II e IV de Obras Completas). Meu propósito agora é recolher e completar o que eu disse então. (26) Em meu livro España Invertebrada. il n'y a pas "d'ancien droit anglais". quel qu'en soit l'âge". tradução de José Gaos. (Vejam-se. pag. 1926. edição. Revista de Occidente. Le droit anglais est un droit historique. superior à antiga. de Stuart Mill. pois. lâmina LII e 588. À parte o grande repertório numismático de Cohen. (25) Veja-se o ensaio Hegel y América. 1921. tomo I.htm (130 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . (Veja-se pág. 1928. a saber. dificuldades para precisar a data de seu primeiro aparecimento. 44. que se usaram no passado. intitulado "Masas" (1926) e em duas conferências dadas na Associação Amigos del Arte. Saeculum aureum. (24) Não é uma simples maneira de falar. respectivamente. Juridiquement parlant. (23) Em seu prólogo a sua tradução de La Liberté. começava o despovoamento das campinas. nota 6. págs.A rebelião das massas. publicados pouco depois. ocupei-me do tema que o presente ensaio desenvolve. modificação ou moda que em tal presente tenha surgido ante os modos velhos. que havia de trazer a diminuição absoluta no número dos habitantes do Império. Lévy-Ullmann: Le système juridique de l'Anglaterre. no direito. não sê-lo eqüivale a cair baixo o nível histórico. 353 do tomo III de Obras Completas). A palavra "moderno" expressa. 35 do tomo III das Obras Completas). Moderno é o que está posto segundo o modo: entende-se o modo novo. Tellus stabilita. I. 38/39. "modernidade" com que os últimos tempos se batizaram a si mesmos. (Veja-se pág. (30) Não se deixem de ler as maravilhosas páginas de Hegel sobre os tempos satisfeitos em sua Filosofia de la historia. num artigo de El Sol. muita parte dela levou muitos anos em atrever-se a ser livro (1946). em Buenos Aires (1928). Na Inglaterra. (32) La deshumanización del arte. Aproveito esta oportunidade para fazer notar aos estrangeiros que generosamente escrevem sobre meus livros. que agora analiso. (27) 0 trágico daquele processo é que. de modo que surta uma doutrina orgânica sobre o fato mais importante de nosso tempo. expressa mui agudamente essa sensação de "altura dos tempos". págs. mas sim verdade ao pé da letra. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. (29) Nos cunhos das moedas de Adriano lêem-se coisas como estas: Italia Felix. e ao mesmo tempo o imperativo de estar à altura dos tempos. (31) O sentido original de "moderno". posto que valha na ordem onde a palavra "vigência" tem hoje seu sentido mais imediato. Sans discontinuité le droit positif remonte dans l'histoire jusqu'aux temps immémoriaux. (28) Veja-se España invertebrada. en Anglaterre tout le droit est actuel.

(33) Precisamente porque o tempo vital do homem é limitado. a massa. que é. Não nos dirá o pretérito o que devemos fazer. que com repetidos "vivas!" se encaminharam ao depósito municipal de trigo e de suas janelas arrojaram o cereal file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas uma vazia generalização. além do mais. plebéia ou "aristocrática". 1916. hotéis. não excluímos a da decadência. Fez-se a proclamação na praça da vila. um mundo mais rico de coisas e. Para um Deus cuja existência é imortal. dispostos a admitir toda possibilidade. (36) 0 mundo de Newton era infinito. (35) Assim. base da técnica futura. mas o que devemos evitar. Sempre me pareceu uma caricatura engraçada dessa tendência a propter vitam. Que lhe importa não ser mais rico que outros. e quando o mundo parecera reduzido a uma única saída. necessita triunfar da distância e da tardança. já que não uma orientação positiva. de ferro. (37) A liberdade de espírito. mas cheio e concreto em todas as partes. careceria de sentido o automóvel. mede-se por sua capacidade de dissociar idéias tradicionalmente inseparáveis. Nas Atlântidas aparece sob o nome de horizonte. certos conselhos negativos. como cabe receber do passado. o qual consumiu setenta e sete arrobas de vinhos e quatro odres de aguardente. uma utopia abstrata e inane. "Depois mandaram trazer de beber a todo aquele grande concurso. a esfera de facilidades e comodidades que sua riqueza podia proporcionar-lhe era muito reduzida. já no prólogo de meu primeiro livro: Meditaciones del Quijote. Veja-se o ensaio El origen deportivo del Estado. Qualquer evento poderia aniquilar tão prodigiosa possibilidade humana.htm (131 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . de maior tamanho. tende sempre. como de uma habitação a porta. se proclamou rei a Carlos III. A vida do homem médio é hoje mais fácil. (38) Esta é a origem radical dos diagnósticos de decadência. vivendi perdere causas. como a totalidade do mundo era pobre. Dissociar idéias custa muito mais que associá-las.A rebelião das massas. se o mundo o é e lhe proporciona magnificas estradas de rodagem. Mas a saída do mundo forma parte deste. Foi necessária uma preparação de muitos séculos para acomodar o órgão mental à abstrata complicação da teoria física. 607 do tomo II de Obras Completas). o que aconteceu em Nijar. (41) Por muito rico que um indivíduo fosse em relação com os demais. seja qual seja. (40) Hermann Weyl. (Veja-se a pág. quando. um dos maiores físicos atuais. quer dizer. precisamente porque é mortal. costuma dizer em conversação privada que se morressem subitamente dez ou doze determinadas pessoas. como demonstrou Köhler em suas investigações sobre a inteligência dos chimpanzés. mas essa infinitude não era um tamanho. entretanto. por afã de viver. mas que. povoado próximo a Almería. Jamais o entendimento humano teve como agora maior capacidade de dissociação. a potência do intelecto. efetivamente. cujo espírito os acalorou de tal modo. 1926. em 13 de setembro de 1759. (39) Veremos. O mundo de Einstein é finito. sempre haveria duas: essa e sair do mundo. portanto. é quase certo que a maravilha da física atual se perderia para sempre na humanidade. segurança física e aspirina? (42) Abandonada à sua própria inclinação. Não que sejamos decadentes. a destruir as causas de sua vida. cômoda e segura que a do mais poderoso em outro tempo. (34) No pior caso. companheiro e continuador de Einstein. telégrafo. recolhido no tomo VII del El Espectador.

falando a sério.) (47) Sobre a indocilidade das massas. especialmente das espanholas. O Estado eclesiástico concorreu com igual eficácia.A rebelião das massas. (50) Se alguém em sua discussão conosco se desinteressasse de se ajustar à verdade. é intelectualmente um bárbaro. C.verdadeiras ou falsas . o choque com a imbecilidade alheia. trigo. (Veja-se pág.parece-me . De fato. se não tem vontade de ser verídico. morteiros. nota 2. pois não restou nelas pão. ou. vida é o processo existencial de uma alma.cevada. que nele havia e 900 reais de suas caixas. para viver sua alegria monárquica. É. (Veja-se página 607 do tomo II de O. nem cadeiras. entretanto. (51) Não é preciso dizer que quase ninguém levará a sério estas expressões. e os outros. e os melhores intencionados as entenderão como simples metáforas. 35 do tomo III de O. Entre os demais reinará a mais efusiva unanimidade. Nas lojas fizeram o mesmo. pelo contrário. e só aceita como digno dele aquilo que está acima dele e exige um novo estirão para alcançá-lo. pois. tomo II. Só algum leitor bastante ingênuo para não crer que sabe já definitivamente o que é a vida. (46) Veja-se El origen deportivo del Estado. o que não é. 10. Não creio que melhore minha situação ante leitores tão herméticos resumir toda uma maneira de pensar dizendo que o sentido primário e radical da palavra vida aparece quando a empregamos no sentido de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. C. (44) Veja-se España invertebrada (1922). almofarizes. essa é a posição do homem-massa quando fala. 35 do tomo III de O. se deixará ganhar pelo sentido primário destas frases e será precisamente quem . que é uma sucessão de reações químicas. tomo VII. pratos. talvez comoventes. já falei em España invertebrada (1922). e ao dito ali remeto-me. com esta única diferença: uns pensarão que. dá conferências ou escreve.). em El Espectador. pelo senhor Manuel Danvila. Como é possível. ficando a vila destruída: Segundo um papel do tempo em poder do senhor Sánchez de Toca. e o tabaco. Dali passaram ao Estanco do Tabaco e mandaram jogar fora o dinheiro da Mesada. Admirável Nijar! Teu é o porvir! (43) É intelectualmente massa aquele que ante um problema qualquer se contenta com pensar o que boamente encontra em sua cabeça. Este povoado. aniquila-se a si mesmo. que não se tenha tentado nunca . quantos gêneros líquidos e comestíveis havia nelas. 156.) (48) Muitas vezes levantei de mim para mim a seguinte questão: é indubitável que sempre teve de ser para muitos homens um dos tormentos mais angustiosos de sua vida o contacto. pág. um ensaio sobre a imbecilidade? (49) Não se pretenda escamotear a questão: todo opinar é teorizar. C. farinha.as entenda. egrégio aquele que desestima o que acha sem prévio esforço em sua mente. Fica. pois em altas vozes induziram as mulheres a sacudir fora o que havia nas suas casas. intacta esta questão. não há oportunidade para estudar o fato de que tantas vezes apareça na história uma "nobreza de sangue". que exclui a herança. pelo menos. o que executaram com o maior desinteresse. para mais autorizar a função. mandando derramar. citado em Reinado de Carlos III. (45) Como no anterior trata-se só de retrotrazer o vocábulo "nobreza" a seu sentido primordial. pág.um estudo sobre ela. (Veja-se pag. caçarolas.htm (132 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .

dizia eu sobre isto no ensaio "Biologia e Pedagogia". dia a dia cumpre com fabulosos acréscimos quanto promete e mais do que promete. (Página 281 do tomo II de O. El Espectador. portanto. Vice-versa: o primitivismo que neste ensaio aparece sob seu pior aspecto é. não diz nada quem supõe haver dito algo definindo a América do Norte por sua "técnica". e por isso revolucionários. (54) A rigor. (52) Esta folga de movimentos ante o passado não é.se acham efetivamente e por si mesmos em crise. que incluísse ambas. pois. pois. que daqui a pouco ocupará a nossa atenção. por outra parte. Se eu defendo o liberalismo do século XIX contra as massas que incivilmente o atacam. biografia e não no de biologia.) (53) Daí que. Mas essa atuação divide-se em duas etapas e toma duas formas: durante a primeira metade . Uma das coisas que perturbam mais gravemente a consciência européia é o conjunto de juízos pueris sobre a América do Norte que se ouvem expendidos até pelas pessoas mais cultas. condição de todo grande avanço histórico. religião . o substantivo da última centúria. a meu juízo. tomo III. é o que em sua vida (biografável) fazem os biólogos. (59) Uma geração atua em média durante trinta anos. preferências e gostos. "O paradoxo do selvagismo". (58) Já aqui entrevemos a diferença entre o estado das ciências de uma época e o estado de sua cultura. Quando as idéias. finalmente. os quais. não cabe desculpar o desapego por ela supondo o homem médio distraído por algum outro entusiasmo de cultura. não há poucos anos.htm (133 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A maior parte dos investigadores mesmos não têm hoje a mais leve suspeita da gravíssima. a nova geração faz a propaganda de suas idéias. Outra coisa é abstração.todos os demais princípios vitais política. (55) Não falemos de questões mais internas. moral. uma claríssima obrigação de toda "época crítica". o que jamais foram as restaurações. pelo contrário.A rebelião das massas. No século XIX file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. uma petulante rebeldia. a nova geração é anti-extremista e anti-revolucionária. (60) Não se confunda o aumento. arte. e ainda a abundância de meios. transitória falha. pelo contrário. 893 a 10. perigosíssima crise íntima que hoje atravessa sua ciência. preferências e gostos da geração imperante são extremistas. Mas a geração educada sob seu império traz consigo outras idéias. É um caso particular da desproporção que mais adiante aponto entre a complexidade dos problemas atuais e a capacidade das mentes. em. com a sobra.desse período. mas. Não tem. mais genérico. (56) Aristóteles: Metafísica. e. Esse seria o verdadeiro nome. Só a ciência não falha. preferências e gostos. que começa a injetar no ar público. Pela fortíssima razão de que toda biologia é em definitivo só um capítulo de certas biografias. e em certo sentido. direito. de alma substancialmente restauradora. fantasia e mito. Claro que não se deve entender restauração como simples "volta ao antigo". C. (57) Centuplica a monstruosidade do fato que . a democracia liberal e a técnica se implicam e inter-supõem por sua vez tão estreitamente que não é concebível uma sem a outra. concorrência.como indiquei . pelo menos.aproximadamente . quer dizer. não quero dizer que renuncie a uma plena liberdade diante desse próprio liberalismo. adquirem vigência e são o dominante na segunda metade de sua carreira. Veja-se o que. fora desejável um terceiro nome.

pelo contrário. E eu. O que acontece é que sua crença científica detém. A nobreza salvou-se por isso mesmo. supérfluo. como em outras coisas. teve de aceitar. que sinto asco pela sujeição beata à internacionalidade. (61) Nisto. (65) Envilecimento. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas ainda esta coincidência parcial é só aparente. posto em relação com a capacidade do homem médio. Uma das manifestações. inspirando-lhe uma confiança que é já falsa.o que supõe haver permanecido sem descanso na brecha -. sua própria. Isto significa que o destino desse católico é em si mesmo trágico.A rebelião das massas. (62) Veja-se Olbricht: Klima und Entwicklung. não é outra coisa senão o modo de vida que resta a quem se negou a ser o que tem que ser.htm (134 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . adquiria um aspecto demasiado. Esquece-se o dado fundamental de que a Inglaterra tem sido.quantitativo e qualitativo da própria vida como apontei acima. 1923. Como não era abundante de meios. isto é. e a não ater-se aos privilégios. este católico nega com sua crença dogmática. O católico não é autêntico em uma parte de seu ser . acho. acanalhamento. (64) Quem crê copernicamente que o sol não cai no horizonte. a nobreza inglesa tem sido a menos "sobrada" da Europa e tem vivido em mais constante perigo que nenhuma outra.ignóbil no continente -. e como o ver implica uma convicção primária.porque quer ser fiel a outra parte efetiva de seu ser que é sua fé religiosa. o ser seu caso admirabilíssimo. a aristocracia inglesa parece uma exceção do dito. não é mister que os filósofos imperem . decidiu-se muito cedo a viver economicamente em forma criadora. Coincide com este só num ponto. autêntica crença liberal. Esta alusão ao caso desse católico vai aqui só como exemplo para esclarecer a idéia que agora exponho. continua crendo. por outra parte. continua vendo-o cair. E porque tem vivido sempre em perigo soube e conseguiu sempre fazer-se respeitar . em fantasma. confirma a regra. deserta de si mesmo por mera frivolidade e de tudo . atrófica. constantemente. Assim. O envilecido é o suicida sobrevivente. o país mais pobre do Ocidente. ao mesmo tempo. bastaria desenhar as linhas gerais da história britânica para patentear que esta exceção. até mui avançado o século XVIII. Este seu autêntico ser não morre por isso. Apenas um exemplo disto: a segurança que parecia oferecer o progresso (aumento sempre crescente de vantagens vitais) desmoralizou o homem médio.tudo que tem.como Platão quis primeiro -. grotesco esse transitório "senhoritismo" das nações menos gradas. queira ou não. os efeitos de sua crença primária ou espontânea. O "mocinho satisfeito". Mas chegou um momento em que o mundo civilizado. ao "mocinho satisfeito". A isso chamam ingenuamente "nacionalismo". viciosa. mas converte-se em sombra acusadora. mais claras e volumosas do "senhoritismo" vigente é. O que lanço em rosto ao "mocinho satisfeito" é a falta de autenticidade em quase todo o seu ser. mas não se refere a ele a censura radical que dirijo ao homem-massa de nosso tempo. a decisão que algumas nações tomaram de "fazer o que está na sua vontade" na convivência internacional. Contra o que sói dizer-se. (66) Para que a filosofia impere. de homem moderno . E ao aceitar essa porção de inautenticidade cumpre com seu dever. (63) 0 que é a casa ante a sociedade. como veremos. é evidente. é-o em escala maior a nação ante o conjunto das nações. a ocupação comercial e industrial . e isso produz o prodigioso crescimento .precisamente para escapulir a toda tragédia. que lhe faz sentir constantemente a inferioridade da existência que leva a respeito da que tinha que levar. aumentavam as facilidades de vida. embora o seja. excessivamente rico. Mas.

1927. se o Estado tudo podia . a "razão naturalista". Sua força primária consistiu na nova disciplina e na nova racionalização da tática. que formaram os suíços. das aristocracias de sangue. Contra o que se crê. (71) Veja-se Elie Halévy: Histoire du peuple anglais au XIXe. do autor. melhor organizados economicamente. 35 do tomo III das Obras Completas). Porque esta. Ambas as coisas são. Há quase uma centúria os filósofos são tudo. são literatos ou são homens de ciência. quer dizer. nem sequer que os imperadores filosofem . não foi eficaz até que se inventou a bala fundida. siècle (tomo I. o Estado absoluto respeita instintivamente a sociedade muito mais que o nosso Estado democrático. funestíssimas. Para ela. Ainda assim. A pólvora é conhecida de tempo imemorial. (Veja-se o tomo VI de O.htm (135 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas não basta isso. Como se explica isto? Já a sociedade em torno começava a crescer. não se fazia mais forte? Uma das causas é a apontada: incapacidade técnica. (70) Recordem-se as últimas palavras de Septimio Severo a seus filhos: Permanecei unidos. 40. A invenção da carga num tubo deveu-se a alguém da Lombardia. Só os exércitos burgueses.) (73) Veja-se o ensaio Sobre la muerte de Roma. de O. 537 do tomo II de O. menos isso . nega-se a reconhecer como absoluto nenhum fato. pág.) (74) Isto é o que faz a razão física e biológica. C. basta que haja filosofia. Fica. Além disso aconteceu no Estado absoluto que aquelas aristocracias não quiseram ampliar o Estado à custa da sociedade. basta que os filósofos sejam filósofos.A rebelião das massas.era "absoluto" -. Tomo VII. 1912). (67) Veja-se España invertebrada. edição). em El Espectador. 563 do tomo II de O. não obstante. quando trata a fundo das coisas e não de soslaio como nestas páginas. puderam empregá-la em grande escala. Por que. não representados pelo exército de tipo medieval dos borguinhãos.. racionalizadora. são pedagogos. mais inteligente. (Veja-se pág. a rigor. C. depois -. mas de burgueses. mais modestamente. (Veja-se pág.) (75) Seria interessante mostrar como na Catalunha colaboram duas inspirações antagônicas: o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. (72) Veja-se o ensaio "Hegel y América" em El Espectador. edição. (69) Mereceria a pena insistir sobre este ponto e fazer notar que a época das Monarquias absolutas européias operou com Estados muito débeis. Para que a filosofia impere. raciocinar consiste em fluidificar todo fato descobrindo sua gênese. pagai ao soldado e desprezai o resto. 1930. 2a. demonstrando com isso que é menos razoável que a "razão histórica". Veja-se. Tomo VI. burocrática. Os "nobres" usaram em pequenas doses a arma de fogo mas era demasiado cara.como quis. (Veja-se pag. como literalmente certo que os nobres foram derrotados de maneira definitiva pelo novo exército. (68) Esta imagem simples da grande mudança histórica em que se substitui a supremacia dos nobres pelo predomínio dos burgueses deve-se a Ranke. mas com menos sentido da responsabilidade histórica.são políticos. o ensaio Historia como sistema (R. profissional. C. mas claro é que sua verdade simbólica e esquemática requer não poucos aditamentos para ser completamente verdadeira. 1a. 1921.

(76) Homogeneidade jurídica que não implica forçosamente centralismo. Até hoje. justifica que qualifiquemos o europeu de futurista e o antigo de arcaizante. pelo contrário. (82) Nem sequer como puro fato é verdade que todos os espanhóis falem espanhol.se achará no tratado sociológico do autor intitulado El Hombre y la Gente. por outro tem idéias sobre si mesmo que coincidem mais ou menos com sua autêntica realidade. (78) Veja-se do autor "El origen deportivo del Estado". não podem anular nosso verdadeiro ser. em El Espectador. e este. foi a escravidão um simples fato residual. "moderno" quer dizer o novo. Augusto opera no sentido de Pompeu. dos inimigos de César. (84) Confirma isto o que a primeira vista parece controvertê-lo: a concessão da cidadania a todos os habitantes do Império. (Veja-se página 607 do tomo II de O. Chamavam-nas "faute de mieux". (77) 0 sentido desta abrupta asseveração supõe que uma idéia clara sobre o que é a política. quer dizer. ao novo como tal este antagonismo. 1930. enquanto nós deixamos maior autonomia ao futuro. o que nega o uso antigo. Pois a conseqüência é que esta concessão foi feita precisamente à medida que ia perdendo seu caráter de estatuto político. está claro. (85) Segundo isso. nacionalismo europeu e o cidadanismo de Barcelona. vive antes de tudo no futuro e do futuro. Já nos fins do século XW começa-se a sublinhar a modernidade. em que pervive sempre a tendência do velho homem mediterrâneo. tomo VII. 1918. começa a chamar a sua vida "época moderna". nossas idéias. (81) Sabido é que o Império de Augusto é o contrário do que seu pai adotivo. Segunda edição 1924. pois. que não são linguagens nacionais. eu contrapus o homem antigo ao europeu.a "boa" como a má . De uma civilização em que a escravidão tinha valor de princípio não se podia esperar outra coisa. desejos. toda política . Para nossas "nações".) (79) Veja-se Dopsch: Fundamentos económicos y sociales de la civilización europea. o melhor livro sobre o assunto é o de Eduardo Meyer: La Monarquia de César y el Principado de Pompeyo.A rebelião das massas. preferências. mas aquele submete o futuro ao regime do passado. para se converter ou em simples carga e serviço do Estado ou em mero título de direito civil. mas no preferir. os casos de Koinón e língua franca. aspirou a instaurar. Como é sabido. mas especificamente internacionais. tomo II páginas 3 e 4. Eu já disse outra vez que o levantino é o resto do homo antiquus que há na Península. (83) Ficam fora. por mui denso que fosse o casario. relativamente aberto. O antigo e o europeu estão igualmente preocupados com o porvir. sedes aratorum. nem todos os ingleses inglês. não no ser. Evidentemente. Não obstante. É revelador que apenas o europeu desperta e toma posse de si. mas sim complicá-lo ou modulá-lo. (80) Os romanos não se resolveram a chamar cidades às povoações dos bárbaros. César.htm (136 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. nem todos os alemães alto-alemão. C. dizendo que aquele é relativamente fechado ao futuro. aparente contradição entre uma e outra tese. Há. Surge essa aparência quando se esquece que o homem é um ente de dois andares: por um lado é o que é. o ser humano tem irremediavelmente uma constituição futurista.

e fala-se. Na medida em que as massas se distanciam destas aumenta o arcaísmo da sociedade. obrigados a desenvolver e executar os desatinos daqueles políticos. (92) Os ingleses. e todo o coletivo ou social é arcaico relativamente à vida pessoal das minorias inventoras. (88) Se bem essa homogeneidade respeita e não anula a pluralidade de condições originárias. os europeus. estimação intelectual. a vasilha. eis ai um exemplo. ao mesmo tempo. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. conclui-se que é muito difícil encontrar alguma que merecesse então. que tão freqüentemente fazem sua cômica aparição nas cartas ao diretor de The Times. como de laboratório. precisamente nas questões que mais agudamente interessavam ao tempo. (90) Estas páginas foram publicadas no número de junho de 1937 na revista The Nineteenth Century. uma sociedade cujos membros sejam as nações. (97) Ficam fora da consideração os que podemos chamar de "inventos elementais" . que além de ser europeus são ingleses. situa a agrupação de Estados fora do direito.A rebelião das massas. propondo-lhe um programa atrativo. preferiram chamá-la de "liga". o fogo. Isso evita o equívoco. a roda. (95) Por exemplo: as apelações a um suposto "mundo civilizado" ou a uma "consciência moral do mundo". um dos primeiros sintomas do romanticismo .o machado. constitutiva. seus membros são homens.fins do século XVIII. a saber. -. etc. espanhóis. (96) Há cento e cinqüenta anos a Inglaterra fertiliza sua política internacional mobilizando sempre que lhe convém e só quando lhe convém . indivíduos humanos.htm (137 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . consignando-a francamente à política. (93) Sobre a unidade e a pluralidade da Europa. "mulheres e crianças. vamos ver se a Inglaterra acerta a manter em unidade soberana de convivência as diferentes porções de seu Império. e muito menos mereça agora. pois. é claro. (86) 0 princípio das nacionalidades é. por exemplo.o princípio melodramático de "women and children". passa a ser um caráter patológico. (87) Agora vamos assistir a um exemplo gigantesco e claro. mas. aos "experts" e aos técnicos. (94) A sociedade européia não é. de devotio moderna. cronologicamente. (91) Certa dose de anacronismo é conatural à política. o canastro. Como em toda autêntica sociedade. veja-se o Prólogo para franceses. alemães. é muito difícil sua comparação com a massa dos inventos derivados ou históricos. contempladas de outra perspectiva. nesta obra. e de uma magnitude normal. (89) Bastaria isso para se convencer de uma vez para sempre que o socialismo de Marx e o bolchevismo são dois fenômenos históricos que apenas têm alguma dimensão comum. Não me refiro. É esta um fenômeno coletivo. com bom acordo. Precisamente por ser o suposto de todos os demais e haver sido conseguidos em períodos milenares. Se se repassa a lista das pessoas que intervieram na criação da Sociedade das Nações. uma espécie de vanguardismo na "mística teologia".

a meu juízo. foram os "intelectuais" dessa geração. (103) Há. e ao mesmo tempo. com efeito. muitos vestígios positivos nos povos selvagens do presente. (98) Acrescente-se que nessas opiniões jogavam sempre grande papel as vigências comuns a todo Ocidente. o triunfo ao combatente. é sumamente provável que pouco tempo depois surgirá outro estilo com as figuras em posição diagonal (mudança da pintura italiana de 1. (105) Quem quisesse contar-nos com algum detalhe a guerra de Numância. por razões de curioso espelhismo histórico. de se embotar para um estímulo. mas resisto a considerá-lo decisivo. Os que combateram e em realidade venceram a velha política pseudo-parlamentária. Mas não mostram nenhuma pressa. pode ser visto na ordem pública. não contradiz o dito agora. um que só falam os homens e o outro só para as mulheres. tem sentido dizer que a vida não é senão juventude. Se no estilo pictórico as figuras aparecem em posição vertical. mudanças políticas. (100) Os perigos maiores que como nuvens negras ainda se amontoam no horizonte. (104) Não se explica. parte de supor. (99) Neste mês de abril. a origem de certas coisas humanas. reabilitar-se para o estímulo oposto. ou que na juventude culmina a vida.A rebelião das massas. portanto. Porque o paralelismo com o momento presente da Espanha é surpreendente e luminoso.500 a 1. George Allen & Unwin. que. sem dúvida. um fator que colabora nestas mudanças como em todos os do organismo vivo. (107) Um exemplo destes combates em que a vitória efetiva não deu. É evidente que uma nova técnica de mútuo conhecimento entre os povos reclama uma reforma profunda da fauna jornalística. Basta isso para demonstrar que esse correspondente. qualquer que seja sua operosidade e sua imparcialidade. como de coisa sabida e que tudo explica. as conseqüências que trouxe para a vida romana. (106) Do ponto de vista mais geral. o correspondente de The Times em Barcelona envia a seu jornal uma informação onde procura os dados mais minuciosos e as cifras mais exatas para descrever a situação. Mas todo o raciocínio do artigo que mobiliza e dá um sentido a esses dados minuciosos e a essas cifras exatas. se não se supõe em épocas muito primitivas uma etapa de enorme predomínio dos jovens que deixou. Londres. (101) Tradução inglesa do presente livro. entretanto. sem embargo. é absolutamente incapaz de informar sobre a realidade da vida espanhola. (102) Até o ponto de existir em certos povos primitivos dois idiomas.. o triunfo foi gozado pelos que não combateram nunca esse regime enquanto foi file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.htm (138 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . reforma das instituições. entre elas o Estado. ou que viver é ser jovem. A vida tem a condição inexorável de se cansar. e o resto é desviver. faria uma boa obra. não provêem diretamente do quadrante político. etc.600). É o contraste. Mas isto vale para um conceito mais minucioso de juventude que o habitualmente usado e ao qual este ensaio se acolhe. Até que ponto é inevitável uma pavorosa catástrofe econômica em todo o mundo? Os economistas deviam dar-nos ocasião para que cobrássemos confiança em seu diagnóstico. mas do econômico. o haver sido nossos antepassados os mouros. E.

(113) Achille Luchaire. (108) 0 dia que se faça em sério a história do último século. (111) "Só para louvar as damas". diz o trovador Giraud de Bornelh. Simplesmente porque os franceses entendem de literatura. 376. mas com alguma probabilidade dirijo o leitor à que então se intitulava Três ensaios sobre teoria sexual.A rebelião das massas. 1957. (112) Por isto a estimação do escritor na Espanha é sempre falsa e a rigor mais obra da boa vontade que de sincero entusiasmo. na França tem o escritor um formidável poder social. poderoso. Como fazem dezesseis anos que li esse autor. páginas 94/102).htm (139 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . (110) Veja-se a Cronaca. (109) Tenho idéia de que Freud se ocupa minuciosamente deste fato. Pelo contrário. pág. ver-se-á que essa geração é a efetivamente culpada do desajuste atual da Europa. não recordo bem em que obra trata o assunto. de Fra Salimbene (Parma. La société française au temps de Philippe Auguste. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.