A rebelião das massas.

Copyright Autor: José Ortega y Gasset Tradutor: Herrera Filho Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org)

A REBELIÃO DAS MASSAS
Jose Ortega y Gasset

ÍNDICE

Apresentação Biografia do autor PRÓLOGO PARA FRANCESES PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I - O fato das aglomerações II - A ascensão do nível histórico III - A altura dos tempos IV - O crescimento da vida V - Um dado estatístico VI - Começa a dissecação do homem-massa

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A rebelião das massas. VII - Vida nobre e vida vulgar, ou esforço e inércia VIII - Porque as massas intervêm em tudo e porque só intervêm violentamente IX - Primitivismo e técnica X - Primitivismo e história XI - A época do "mocinho satisfeito" XII - A barbárie do "especialismo" XIII - O maior perigo, o Estado SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV - Quem manda no mundo? XV - Desemboca-se na verdadeira questão EPÍLOGO PARA INGLESES Quanto ao pacifismo DINÂMICA DO TEMPO As vitrinas mandam Juventude Masculino ou feminino? NOTAS

APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia

"A Rebelião das Massas", obra prima de José Ortega y Gasset, começou a ser publicado em 1926 num jornal madrilenho ("El Sol"). Retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Não se refere às classes sociais mas às multidões e aglomerações. Tendo esse contexto como pano de fundo, Ortega discute temas, aparentemente contrários

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A rebelião das massas.

entre si, mas que se fundem (ou devem fundir-se) numa unidade de sentido. É assim que contrapõe individualismo e submissão ao coletivo; comunidade, nação e estado; história, presente e porvir; homens cultos e especialistas; poder arbitrário e respeito à opinião pública; juventude e velhice; guerra e pacifismo; masculino e feminino. São tópicos que, inevitavelmente, nos induzem à reflexão crítica. Em alguns casos são apresentados de forma extremamente provocativa. Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e afirma: "É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules." Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam um certo desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se masculinizando: "A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil, uma espécie de atleta com seios. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX, quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura, extrema feminilidade. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista, e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita." Sobre a guerra, chega a afirmar: "O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida." Sua interpretação do modelo escravista é bastante sugestiva: "Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor." São essas aparentes contradições que estimulam nosso espírito crítico. Ortega defendeu suas concepções com vigor, fundamentos sólidos e uma lógica irreprensível. Em poucos momentos foi totalmente conclusivo, mas deixou uma enorme abertura para que possamos repensar as idéias que defendeu em seus dias, adaptando-as ao nosso tempo e ao que viveremos no futuro.

BIOGRAFIA DO AUTOR

José Ortega y Gasset nasceu em Madrid, a 9 de maio de 1883. A família de sua mãe era
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Daí que os fatos ultrapassaram o livro. Muito do que nele se enuncia foi logo um presente e já é um passado."Rebelión de las masas". na Alemanha. Foi também co-fundador do diário "El Sol" e fundador e diretor da "Revista de Occidente". "En torno a Galileo". como este livro circulou muito durante estes anos fora da França." A partir de 1910 iniciou uma vida pública repartida entre a docência universitária e atividades políticas e culturais extra acadêmicas. minha casa e minha prisão (. Terminando os estudos em Málaga iniciou seus estudos universitários em Deusto e depois na Universidade de Madrid.data.htm (4 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . viajando à França. que se refletiu na afirmação: "Durante dez anos vivi no mundo do pensamento kantiano: eu o respirei com a uma atmosfera que foi. Suas obras se revestem de um caráter extremamente crítico. proprietária do jornal madrilenho "El Imparcial" e seu pai jornalista e diretor desse mesmo diário. Ortega. "Historia como sistema". países onde proferiu inúmeras conferências. Começou a ser publicado num jornal madrilenho em 1926. sempre instável. Portugal.. Tendo adquirido as primeiras letras em Madrid foi enviado a cursar o bacharelado em um colégio jesuíta de Málaga.. "Obras Completas". Acabou por adotar uma atitude crítica em relação aos seus mestres e a Kant.A rebelião das massas.. onde se doutorou em Filosofia. não poucas de suas fórmulas chegaram ao leitor francês por vias file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.supondo que seja um livro . Faleceu em Madrid no dia 18 de outubro de 1955. se precipita em velocidade vertiginosa. onde prevalecia o neokantismo. reagiu contra os tênues fundamentos da ciência adquirida. Argentina. Ortega decidiu andar pelo mundo. Com o início da guerra civil espanhola. Além disso. consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei de sua influência atmosférica.. Nossa época é dessa classe porque é de descidas e quedas. em julho de 1936. as mais polêmicas das quais foram: "Meditaciones del Quijote". formulando um projeto pessoal de reforma da filosofia européia. Buscando uma formação intelectual mais sólida continuou seus estudos em Marburgo. Holanda.) Com grande esforço. Grande parte de seus escritos filosóficos foram produzidos a partir do contato com a imprensa. PRÓLOGO PARA FRANCESES I Este livro . Embora reconhecendo o valor da educação jesuítica recebida. Essa relação com o jornalismo foi essencial para o desenvolvimento de sua formação intelectual e seu estilo de expressão literária. ao mesmo tempo. além de considerado um dos maiores filósofos da língua espanhola também é lembrado como uma das maiores figuras do jornalismo espanhol do século XX. Há sobretudo épocas em que a realidade humana. "Que és filosofia?". e o assunto de que trata é demasiado humano para que pudesse escapar à ação do tempo.

Assim esta. Dóceis ao prejuízo inveterado de que falando nos entendemos. encerra tácitas reservas. com suficiente justeza. Duo si idem dicunt non est idem. mui cortesmente. Não estou convencido disso. mais ou menos. Em todo dizer há um emissor e um receptor. os quais não são indiferentes ao significado das palavras. Mas. e que. Mas uma definição. procurássemos adivinhar-nos. que se trata simplesmente de uma série de artigos publicados num jornal madrilenho de grande circulação. Eu fiz tudo que me foi possível em tal sentido . estas foram páginas escritas para uns quantos espanhóis que o destino colocou à minha frente. é irônica. todos os nossos pensamentos. A linguagem é por essência diálogo. não usamos estas reservas. anônimas e são puro lugar comum. Conste. mas tampouco nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem impossível entender-se com seus semelhantes. mais "reais". que quer acariciá-la . isso é o ilusório. Este varia quando aquelas variam. Esquece-se demasiadamente que todo autêntico dizer não só diz algo. como diz alguém a alguém. Serve bastantemente para enunciados e provas matemáticas. Todo vocábulo é ocasional (l). Ao contrário. certamente. quando o homem se põe a falar. Importa-me. o engano vem a ser um humilde parasita da ingenuidade. Pois bem. Como quase tudo que escrevi. Apenas. consigam dizer aos franceses o que elas pretendem exprimir. Como em tantas outras coisas. já ao falar de física começa a ser equívoco e insuficiente. Teria sido. excelente ocasião para praticar a obra de caridade mais adequada a nosso tempo: não publicar livros supérfluos. produz funestos resultados. Desses esforços é a linguagem que consegue às vezes declarar com maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós. dar-lhe um murro.vai para cinco anos a Casa Stock me propôs a sua versão -. Não. Não é sobremodo improvável que minhas palavras. muito mais do que se. dizemos e ouvimos com tão boa fé que acabamos muitas vezes por não nos entendermos. entretanto. No final das contas. para mentir. Não se arrisca a tanto. sua inépcia e seu confusionismo. o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista com que costumamos escutá-la. mas me fizeram ver que o organismo das idéias enunciadas nestas páginas não corresponde ao leitor francês. mais humanos. Porque ela mesma não nos assegura que mediante a linguagem possamos manifestar. Diz. acertada ou erroneamente. e quando não a interpretamos assim. O de menos é que a linguagem sirva também para ocultar nossos pensamentos. seria útil submetê-lo a sua meditação e a sua crítica. A mentira seria impossível se o falar primário e normal não fosse sincero. se é verídica. uma parte do que pensamos e põe uma barreira infranqueável à transfusão do resto. o abuso aqui file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.htm (5 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . pois. A linguagem não dá para tanto. estando condenado à radical solidão. mas não há motivo para formalismo.A rebelião das massas. Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. que não entre na sua leitura com ilusões injustificadas. mudos. tanto mais aumenta sua imprecisão. pois. em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente seu leitor e este percebe como se dentre as linhas saísse u'a mão ectoplástica que tateia sua pessoa. Definimos a linguagem como o meio de que nos servimos para manifestar nossos pensamentos. A moeda falsa circula apoiada na verdadeira. Por isso eu creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente. isto faz porque crê que vai poder dizer tudo que pensa. Não posso esperar melhor sorte quando estou persuadido de que falar é uma operação muito mais ilusória do que se supõe.ou bem. mudando agora de destinatário. habitualmente. Porém quanto mais a conversação se ocupa de temas mais importantes que esses. e todas as outras formas do falar destituem sua eficácia. como quase tudo que o homem faz. esgota-se em esforços para chegar ao próximo.

Cervantes!" O porteiro: "Monsieur le Représentant de L'Allemagne!" E Victor Hugo: "L'Allemagne! Ah. balofo e de andar desgracioso. em solene atitude de estátua. do logos. O porteiro exclamou: "Monsieur le Représentant de la Mésopotamie!" Victor Hugo. Eu creio.A rebelião das massas. Um porteiro. que é a forma mais sublime. multiplica ao infinito seu efeito deprimente quando quem o sofre adverte que apenas há lugar no continente onde não aconteça estritamente o mesmo. podia parecer invalidada pelo fato mesmo de que este volume tenha encontrado leitores em quase todas as línguas da Europa. Efetivamente. fizeram um grande giro circular como procurando em todo o cosmos algo que não encontrava. pela mecânica que nele mesmo se descreve. e nunca me dirigi à Humanidade. Esse costume de falar para a Humanidade. atarracado. respondeu à homenagem do rotundo senhor dizendo: "La Mésopotamie! Ah. ignorantes de seus próprios limites e que sendo. a todos e a ninguém. que até então permanecera impertérrito e seguro de si mesmo. que este fato é de preferência sintoma de outra coisa. portanto. anunciava-os: "Monsieur le Représentant de l'Anglaterre!" E Victor Hugo. os homens do dizer. levando suas homenagens. da qual participaram. isto é. representações de todas as nações. foi adotada até 1750 por intelectuais desajustados. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei concretamente a quem falo. Há quase dois séculos que se acredita que falar era falar urbi et orbi. pareceu vacilar.htm (6 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . o que em cada país é sentido como circunstância dolorosa. Goethe!" Mas então chegou a vez de um senhor baixo. L'Humanité!" Contei isso a fim de declarar. sem insistir demasiado sobre a realidade do fato. realmente. consistiu no uso sem preocupação. com o cotovelo apoiado no rebordo de uma chaminé. usaram dele sem respeito e precauções. Mas agora esse expediente não serve de nada. a mais desprezível da demagogia. e. com voz estentórica. Outrora podia ventilar-se a atmosfera confinada de um país abrindo-se as janelas que dão para outro. com voz de dramático trêmulo. com o mesmo tom patético. sem a solenidade de Victor Hugo. Contam. que não escrevi nem falei à Mesopotâmia. Shakespeare!" O porteiro continuou: "Monsieur le Représentant de l'Espagne"! E Victor Hugo: "L'Espagne! Ah. O grande poeta achava-se na grande sala de recepção. Mas logo se viu que o achara e que recobrara o domínio da situação. sem perceberem que a palavra é um sacramento de mui delicada administração. virando os olhos. Os representantes das nações adiantavam-se ao público e apresentavam sua homenagem ao vate da França. sem consciência da limitação do instrumento. Desde o aparecimento deste livro. Suas pupilas. Digo angustioso porque. que quando se celebrou o jubileu de Victor Hugo foi organizada uma grande festa no palácio do Elíseo. por seu ofício. com a mesma convicção. ansiosas. essa identidade cresceu de modo angustioso. todavia. II Esta tese que sustenta a exiguidade do raio de ação eficazmente concedido à palavra. dizia: "L'Anglaterre! Ah. porque em outro país a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de outra grave coisa: da pavorosa homogeneidade de situações em que vai caindo todo o Ocidente.

Finalmente e para cúmulo: até a extravagante idéia do século XVIII. que é. se me permitem a expressão barroca. direito. O espaço histórico a que aludo mede-se pelo raio de efetiva e prolongada convivência . a par. progressivamente homogêneos e progressivamente diversos. usos.é um espaço social. Porque o direito. que nessa progressiva assimilação das circunstâncias distingamos duas dimensões diferentes e de valor contraposto. o contrário daquela. Este destino que os fazia. cujas salpicaduras ainda padecemos. entretanto. tem sido confundir a sociedade com a associação.perdoe-se-me a insolência . como as dos jovens numa aldeia ou disputas de herdeiros pela partilha de um legado familiar. convivência e sociedade são termos equivalentes. Isto é. e são verdadeiros certames. viver sempre foi . Job. todos vão ao mesmo. que para cada um viver era conviver com os demais. A idéia da sociedade como reunião contratual. É de somenos importância que a esse espaço histórico comum. portanto jurídica. Daí a sensação opressora de asfixia. pergunta a seus amigos. Uma sociedade não se constitui do acordo das vontades. a realidade "direito" . segundo a qual todos os povos hão de ter uma constituição idêntica. Ora. desde Óton III . Querer que o direito reja as relações entre seres que previamente não vivem em efetiva sociedade. Pois aconteceu que à medida que cada um ia formando seu gênio peculiar. línguas. Como Carlos V dizia de Francisco I: Meu primo Francisco e eu estamos de perfeito acordo: ambos queremos Milão". secreção espontânea da sociedade e não pode ser outra coisa. jurista ou demagogo . file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. De sua essência e inelutavelmente esta segrega costumes. A idéia cristã engendra as igrejas nacionais. Este enxame de povos ocidentais que alçou vôo sobre a história desde as ruínas do mundo antigo. corresponda um espaço físico que a geografia denomina Europa.não as idéias sobre ele do filósofo. Porque neles a homogeneidade não foi alheia à diversidade. Evitam a aniquilação do inimigo. a lembrança do Imperium romano inspira as diversas formas do Estado.claramente desde o século XI.A rebelião das massas. onde todos os povos do Ocidente se sentiam como em sua casa. aproximadamente. é o mais insensato ensaio que se fez de pôr o carro adiante dos bois. produz o efeito de despertar romanticamente a consciência diferencial das nacionalidades. Eadem sed aliter. os viajores e mercadores que rodaram pelo mundo: Unde sapientia venit et quis est locus intelligentiae? "Sabeis de algum lugar do mundo onde a inteligência exista?" Convém. Sociedade é o que se produz automaticamente pelo simples fato da convivência. As guerras inter-européias mostraram quase sempre um curioso estilo que as faz parecer muito com as altercações domésticas. lutas de emulação. parece-me . todo acordo de vontades pressupõe a existência de uma sociedade. poder público. Um dos mais graves erros do pensamento "moderno". Mais ainda. Um pouco de outro modo.htm (7 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . atmosfera é tão irrespirável como no próprio.é. a ciência e o princípio unitário do homem como "razão pura" cria os distintos estilos intelectuais que modelam diferencialmente até as extremas abstrações da obra matemática. Esta convivência tomava indiferentemente aspecto pacífico ou combativo. maneiras e entusiasmos. há de entender-se com certo superlativo de paradoxo. e o acordo não pode consistir senão em precisar uma ou outra forma dessa convivência. que era um terrível pince-sans-rire. Ao contrário. caracterizou-se sempre por uma forma dual de vida.mover-se e atuar em um espaço ou âmbito comum. entre eles ou sobre eles se ia criando um repertório de idéias.ter uma idéia muito confusa do que é o direito. que vem a ser como estimular em cada um sua vocação particular. de pessoas que convivem. E é que para esses povos chamados europeus. a "restauração das letras" no século XV impele as literaturas divergentes. dessa sociedade preexistente. Pelo contrário: cada novo princípio uniforme fertilizava a diversificação.

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Não deve estranhar, por outra parte, a preponderância dessa opinião confusa e ridícula sobre o direito, porque uma das máximas desditas do tempo é que, ao toparem os povos do Ocidente com os terríveis conflitos públicos do presente, se encontraram aparelhados com instrumental arcaico e ineficiente de noções sobre o que é sociedade, coletividade, indivíduo, usos, lei, justiça, revolução, etc. Boa parte da inquietação atual provém da incongruência entre a perfeição de nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso escandaloso das "ciências morais". O ministro, o professor, o físico ilustre e o novelista soem ter dessas coisas conceitos dignos de um barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro suburbano quem dê a tonalidade do tempo? (2) Mas voltemos a nossa rota. Queria insinuar que os povos europeus são há muito tempo uma sociedade, uma coletividade, no mesmo sentido que têm estas palavras aplicadas a cada uma das nações que a integram. Essa sociedade manifesta todos os atributos possíveis: há costumes europeus, usos europeus, opinião pública européia, direito europeu, poder público europeu. Mas todos esses fenômenos sociais se dão na forma adequada ao estado de evolução em que se encontra a sociedade européia, que não é, evidentemente, tão avançado como o de seus membros componentes, as nações. Por exemplo: a forma de pressão social que é o poder público funciona em toda sociedade, inclusive naquelas primitivas em que não existe ainda um organismo especial encarregado de manejá-lo. Se a esse órgão diferenciado a quem se entrega o exercício do poder público se quer chamar Estado, diga-se que em certas sociedades não há Estado, mas não se diga que nelas não há poder público. Onde há opinião pública, como poderá faltar um poder público se este não é mais que a violência coletiva suscitada por aquela opinião? Ora bem, que há séculos e com intensidade crescente existe uma opinião pública européia e até uma técnica para influir nela - é incômodo negá-lo. Por isso, recomendo ao leitor que poupe a malignidade de um sorriso ao deparar que nos últimos capítulos deste volume se faz com certo denodo, ante o cariz oposto das aparências atuais, a afirmação de uma possível, de uma provável unidade estatal da Europa. Não nego que os Estados Unidos da Europa são uma das fantasias mais módicas que existem e não me solidarizo com o que os outros pensaram sob esses signos verbais. Mas, por outra parte, é sumamente improvável que uma sociedade, uma coletividade tão madura como a que já formam os povos europeus, ande longe de criar para si seu artefato estatal mediante o qual formalize o exercício do poder público europeu já existente. Não é, pois, debilidade ante as solicitações da fantasia nem propensão a um "idealismo" que detesto, e contra o qual hei pugnado toda a minha vida, o que me leva a pensar assim. Foi o realismo histórico que me ensinou a ver que a unidade da Europa como sociedade não é um "ideal", mas um fato de velhíssima cotidianidade. Ora bem, uma vez que se viu isso, a probabilidade de um Estado geral europeu impõe-se necessariamente. A ocasião que leve subitamente a término o processo pode ser qualquer, por exemplo, a cólera de um chinês que apareça pelos Urais ou uma sacudida do grande magma islâmico. A figura desse Estado super-nacional será, é claro, muito diferente das usadas, como, segundo nesses mesmos capítulos se tenta mostrar, foi muito diferente o Estado nacional do Estado-cidade que os antigos conheceram. Eu procurei nestas páginas pôr em franquia as mentes para que saibam ser fiéis à sutil concepção do Estado e sociedade que a tradição européia nos propõe. Nunca foi fácil ao pensamento greco-romano conceber a realidade como dinamismo. Não podia

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desprender-se do visível ou seus sucedâneos, como um menino não entende do livro senão as ilustrações. Todos os esforços de seus filósofos autóctones para transcender essa limitação foram vãos. Em todos os seus ensaios para compreender atua, mais ou menos, como paradigma, o objeto corporal, que é, para eles, a "coisa" por excelência. Só conseguem ver uma sociedade, um Estado onde a unidade tenha caráter de continuidade visual; por exemplo, uma cidade. A vocação mental do europeu é oposta. Toda coisa visível lhe parece, como tal, simples máscara aparente de uma força latente que a está constantemente produzindo e que é sua verdadeira realidade. Ali onde a força, a dynamis, atua unitariamente, há real unidade, embora à vista se nos apareçam como manifestação dela apenas coisas diversas. Seria recair na limitação antiga não descobrir unidade de poder público apenas onde este tomou máscaras já conhecidas e como solidificadas de Estado; isto é, nas nações particulares da Europa. Nego redondamente que o poder público decisivo atuante em cada uma delas consista exclusivamente em seu poder público interior ou nacional. Convém cair de uma vez na compreensão de que há muitos séculos e com consciência disso há quatro - vivem todos os povos da Europa submetidos a um poder público que por sua própria pureza dinâmica não tolera outra denominação que a extraída da ciência mecânica: o "equilíbrio europeu" ou balance of Power. Esse é o autêntico governo da Europa que regula em seu vôo pela história o enxame de povos, solícitos e pugnazes como abelhas, escapados às ruínas do mundo antigo. A unidade da Europa não é uma fantasia, mas de fato a própria realidade, e a fantasia é precisamente a crença de que a França, a Alemanha, a Itália ou a Espanha são realidades substantivas e independentes. Compreende-se, entretanto, que nem todo o mundo perceba com evidência a realidade da Europa, porque a Europa não é uma "coisa", mas um equilíbrio. Já no século XVIII o historiador Robertson qualificou o equilíbrio europeu de the great secret of modern politics. Segredo grande e paradoxal, sem dúvida! Porque o equilíbrio ou balança de poderes é uma realidade que consiste essencialmente na existência de uma pluralidade. Se essa pluralidade se perde, aquela unidade dinâmica se desvaneceria. A Europa é, com efeito, enxame; muitas abelhas e um só vôo. Esse caráter unitário da magnífica pluralidade européia é o a que eu chamaria boa homogeneidade, a que é fecunda e desejável, a que fazia Montesquieu dizer: L'Europe n'est qu'une nation composée de plusieurs, (3) e Balzac, mais romanticamente, falava da grande famille continentale, dont tous les efforts tendent à je ne sais quel mystère de civilisation. (4)

III Esta multidão de modos europeus que brotam constantemente de sua radical unidade e reverte a ela mantendo-a, é o maior tesouro do Ocidente. Os homens de cabeças toscas não conseguem congeminar uma idéia tão acrobática como esta em que é preciso saltar, sem descanso, da afirmação da pluralidade ao reconhecimento da unidade e vice-versa. São cabeças pesadas nascidas para existir sob as perpétuas tiranias do Oriente.

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Triunfa hoje sobre toda a área continental uma forma de homogeneidade que ameaça consumir completamente aquele tesouro. Onde quer que tenha surgido o homem-massa de que este volume se ocupa, um tipo de homem feito de pressa, montado tão somente numas quantas e pobres abstrações e que, por isso mesmo, é idêntico em qualquer parte da Europa. A ele se deve o triste aspecto de asfixiante monotonia que vai tomando a vida em todo o continente. Esse homem-massa é o homem previamente despojado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas "internacionais". Mais do que um homem, é apenas uma carcaça de homem constituído por meros idola fori; carece de um "dentro", de uma intimidade sua, inexorável e inalienável, de um eu que não se possa revogar. Daí estar sempre em disponibilidade para fingir ser qualquer coisa. Tem só apetites, crê que só tem direitos e não crê que tem obrigações: é o homem sem nobreza que obriga - sine nobilitate - snob. (5) Este universal snobismo, que tão claramente aparece, por exemplo, no operário atual, cegou as almas para compreender que, embora toda estrutura dada da vida continental tenha de ser transcendida, tudo isso há de se fazer sem perda grave de sua interior pluralidade. Como o snob está vazio de destino próprio, como não sabe que existe sobre o planeta para fazer algo determinado e impermutável, é incapaz de entender que há missões particulares e mensagens especiais. Por essa razão é hostil ao liberalismo, com uma hostilidade que se assemelha à do surdo em relação à palavra. A liberdade significou sempre na Europa franquia para ser o que autenticamente somos. Compreende-se que aspire a prescindir dela quem sabe que não tem autêntico mister. Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque as pessoas não costumam pôr-se de acordo a não ser em coisas um pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores coletivistas, que começam por desconhecê-lo. Ademais, há nele uma intuição do que a Europa tem sido, altamente perspicaz. Quando Guizot, por exemplo, contrapõe a civilização européia às demais fazendo notar que nela não triunfou nunca em forma absoluta nenhum princípio, nenhuma idéia, nenhum grupo ou classe, e que a isso se deve o seu crescimento permanente e seu caráter progressivo, não podemos deixar de pôr o ouvido atento (6). Este homem sabe o que diz. A expressão é insuficiente porque é negativa, mas suas palavras chegam-nos carregadas de visões imediatas. Como do mergulhador emergente transcendem olores abismais, vemos que este homem chega efetivamente do profundo passado da Europa onde soube submergir. É, com efeito, incrível que nos primeiros anos do século XIX, tempo retórico e de grande confusão, se tenha composto um livro como a Histoire de la Civilisation en Europe. Todavia o homem de hoje pode aprender ali como a liberdade e o pluralismo são duas coisas recíprocas e como ambas constituem a permanente entranha da Europa. Mas Guizot teve sempre péssima publicidade, como em geral, os doutrinários. Não me surpreendo. Quando vejo que para um homem ou grupo se dirige fácil e insistente o aplauso, surge em mim a veemente suspeita de que nesse homem ou nesse grupo, talvez junto a dotes excelentes, há algo sobremodo impuro. Talvez isto seja um erro em que incorro, mas devo dizer que não o procurei, que o foi dentro de mim decantando a experiência. De qualquer maneira, quero ter a coragem de afirmar que este grupo de doutrinários, de quem todo o mundo riu e fez mofas truanescas, é, a meu ver, o mais

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todavia. Nem será possível reconstruir a história desta se não se estabelece intimidade com o modo em que se apresentaram as grandes questões ante estes homens (10). asseguro a quem se proponha formular com rigor sistemático as idéias dos doutrinários. A um inglês tudo isso pareceria óbvio. no meio da rusticidade e da frivolidade crescente daquele século. (8) como. é muito possível que o porvir pertença a tendências de intelecto muito semelhantes às suas. apesar da sua clássica lucidez. Mas. Foram os únicos que viram claramente o que havia que fazer na Europa depois da Grande Revolução. por sua vez. valioso que houve na política do continente durante o século XIX. as "capacidades". O passado não está presente e não teve o trabalho de acontecer para que o neguemos. Negar o passado é absurdo e ilusório. que encontram o absoluto em abstrações bon marché. mas para que o integremos (11). Talvez desde o tempo de Alcuino tenhamos vivido cinqüenta anos pelo menos atrasados a respeito dos ingleses. como Buster Keaton. Guizot soube ser. Os doutrinários são um caso excepcional de responsabilidade intelectual. como eu disse. Posso aludir ao doutrinarismo como a uma magnitude conhecida. porque o passado é "o natural do homem que volta a galope". Mal pode fazer-se isso sem alguma exageração. não há tampouco um livro medianamente formal sobre Guizot nem sobre Royer-Collard (9). não podia este constituir-se uma dignidade se não a extraía do fundo de si mesmo. sobre os problemas mais graves da vida pública européia. Numa época como a nossa. a magistratura. Se alentassem hoje reconheceriam o direito de greve (não política) e o contrato coletivo. Seu estilo intelectual não é só diferente em espécie. mas diferentemente do racionalismo linfático de enciclopedistas e revolucionários.htm (11 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Não se abandona jamais. abstrações e irrealidades. Em todos estes temas andam. Os verdadeiros direitos são os que absolutamente estão aí. Condensam-se nele várias gerações de protestantes nimeses que haviam vivido em alerta perpétuo. Rotas e sem vigência quase todas as normas com que a sociedade presta uma continência ao indivíduo. fincar os calcanhares no chão para se opor à correnteza. e foram além disso homens que criaram em suas pessoas uma atitude digna e distante. nem mais nem menos. originalmente. Igual desconhecimento do velho liberalismo sentem os coletivistas de agora quando supõem. Nela chegou a fazer-se tal e como é. mas os continentais ainda não chegamos a essa estação. Pelo menos. sem poder abandonar-se. Não tem outra. Havia chegado a converter-se neles em um instinto a impressão radical de que existir é resistir. Os russos desses anos passados costumavam chamar a Rússia de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Por isso não os entenderam. e constituíram o doutrinal político mais estimável de toda a centúria. enfim. o homem que não ri (7). prazeres de pensamento não esperados e uma intuição da realidade social e política totalmente diferente das usadas. sem poder flutuar à deriva no ambiente social. porque foram aparecendo e se consolidando na história: tais são as "liberdades". descobrem eles o histórico com o verdadeiro absoluto. do que mais tem faltado aos intelectuais europeus desde 1750. Perdura neles ativa a melhor tradição racionalista em que o homem se compromete consigo mesmo a procurar coisas absolutas. defeito que é. ainda que pareça incrível. como coisa inquestionável. quer dizer. A história é a realidade do homem. ainda que seja somente para se defender do abandono orgiástico em que vivia seu contorno. a legitimidade. uma das causas profundas do presente desconcerto Mas eu não sei se. que era individualista. as noções sobremodo turvas. pensaram profundamente. mas o é de outro gênero e de outra essência em face de todos os demais triunfantes na Europa antes e depois deles. ainda que me dirigindo a leitores franceses.A rebelião das massas. Pois se dá o fato escandaloso de que não existe um só livro onde se tenha tentado precisar o que aquele grupo de homens pensava. E. Os doutrinários desprezavam os "direitos do homem" porque são absolutamente "metafísicos". É verdade que nem um nem o outro publicaram jamais um soneto. é bom tomar contacto com os homens que não "se deixam levar".

de terrível. E o que se discute é se certas necessidades sociais são melhor servidas por um ou pelo outro órgão. mas não sabiam bem em que consistia e quais eram seus efetivos atributos. no final. inspira. Não seria interessante averiguar que idéias ou imagens se espreguiçavam à invocação deste vocábulo na mente um tanto gasosa do homem russo que tão freqüentemente. os quais cevam para depois chupar-lhes a substância. o fato de que a coletividade é uma realidade diferente dos indivíduos e de sua simples soma. Terceira: esta idéia é de origem francesa. Porque o caso é que eu não sou um "velho liberal". é que tanto ele como Stuart Mill tratam os indivíduos com a mesma crueldade socializante com que os termitas a certos de seus congêneres. Leiam-se os artigos que em 1830 e 1831 publica L'Avenir contra o individualismo.O indivíduo contra o Estado . os fenômenos sociais do tempo camuflavam a verdadeira economia da coletividade. avançando pela centúria. mas pelo contrário. M. Amard. Por outra parte. completamente. Mas quando se viu com clareza o que no fenômeno social. O famoso "individualismo" de Spencer boxeia continuamente dentro da atmosfera coletivista de sua sociologia. simplesmente e como tal. Aqueles homens apalpavam. desinteressada e gratuita. mas morre com ela. "o coletivo". que tudo isso é outra coisa. Até esse ponto era a primazia do coletivo o fundo por si mesmo evidente sobre o qual ingenuamente dançavam suas idéias! De onde se infere que minha defesa lohengrinesca do velho liberalismo é. do coletivo.A rebelião das massas. O aspecto agressivo do título que Spencer escolhe para seu livro . a legislação da Revolução francesa. porém. chegamos aos grandes teorizadores do liberalismo . Mas triunfa em Saint-Simon. as seguintes teses: Primeira: o liberalismo individualista pertence à flora do século XVIII.Stuart Mill ou Spencer . Nada mais. em parte. Aparece pela primeira vez nos arquireacionários de Bonald e de Maistre. só se pode aderir ao liberalismo de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. há por um lado de benefício. Não chegara ainda a hora da nivelação. da espoliação e da partilha em todas as ordens. falará em 1821 do collectivisme em face do personnalisme (13). Segunda: a criação característica do século XIX foi precisamente o coletivismo.a sociedade. É a primeira idéia que inventa apenas nascido e que ao longo de cem anos não fez senão crescer até inundar todo o horizonte. Daí que os "velhos liberais" se abrissem sem suficientes precauções ao coletivismo que respiravam. como o capitão italiano de que falava Goethe. em Comte e pulula por toda a parte (12). no fato coletivo. em que interessa e beneficia à sociedade. bisogna aver una confusione nella testa? Diante disso tudo eu rogaria ao leitor que tomasse em conta. porém. sem outra exceção que não seja Benjamim Constant. um "atrasado" do século anterior.do social. Porque indivíduo e Estado significam nesse titulo dois meros órgãos de um único sujeito . O resultado. mas para que sejam discutidas e passem depois à sentença.tem sido causa de que o não entendam teimosamente os que não lêem dos livros senão os títulos.sem dúvida glorioso e essencial . Mais importante. não para aceitá-las.surpreende-nos que sua suposta defesa não se baseia em mostrar que a liberdade beneficia ou interessa a este. No essencial é imediatamente aceita por todos. em Ballanche. era demasiado recente. O descobrimento . Por exemplo: um médico de Lyon. Quando. porque então convinha a esta ocupar-se em cevar bem os indivíduos.htm (12 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . por outro. de pavoroso. mais do que viam.

seja como soberanos. que o estóico Possidônio.que adota a vida de um a outro extremo do Império. em Comte. estilo radicalmente novo. digo. na linha mesma do horizonte. Tal e como vamos. mestre de Cícero. menos ingênuo e de mais destra beligerância.e uma eqüivale à outra . um liberalismo que está germinando já. se acha tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana. as cabeças se obliteram. se consolide e se aperfeiçoe é necessário. Na porção mais helenizada do povo romano. A língua. a um tempo homogênea e estúpida . Contra o que sói acreditar-se tem sido normal na história que o porvir seja profetizado (14). sem que o queiramos. segundo Humboldt. o que há mais de oitenta anos escrevia Stuart Mill: "À parte as doutrinas particulares de pensadores individuais. por exemplo. Nessa consciência se reconhece a si mesma como valor positivo. Disse-se. Isso o faz acolher-se a um grande pensamento emitido por Humboldt na sua juventude. ao falhar uma restam outras possibilidades abertas. num só tipo de homem. devemos esperar. a pluralidade continental. tanto por meio da força da opinião como pela legislativa. Em Macaulay. Já no tempo dos Antoninos se nota claramente um estranho fenômeno. Dentro de cada nação. clara ou balbuciante. é preciso que se dêem circunstâncias diferentes. este desbordamento não é um mal que tenda a desaparecer espontaneamente. moveu sempre os lábios do perene liberalismo europeu. com a míngua progressiva da "variedade de situações". como bem e não como mal. Evitar isso tem sido o secreto acerto da Europa até hoje. Mas o sistema e documento mais terrível desta forma. ninguém o procurou: no idioma. seja como concidadãos. existe no mundo uma forte e crescente inclinação a estender em forma extrema o poder da sociedade sobre o indivíduo. que não nos serve para dizer suficientemente o que cada um de nós quiséramos dizer. não farão outra coisa senão repetir. mas de crescer. não entrevissem de quando em quando as angústias que seu tempo nos reservava. Importava-me esclarecer isso para que não se tergiverse a idéia de uma superação européia que este volume postula. e tomando em conjunto as nações. que eu saiba. encontramos pré-desenhada nossa hora. a impor aos demais como regra de conduta sua opinião e seus gostos. que nas condições presentes do mundo esta disposição nada fará senão aumentar" (15). fartamente perspicazes. é o último homem antigo capaz de se colocar ante os fatos com a mente porosa e ativa. tende a fazer-se cada vez mais formidável. Depois dele. numa idêntica "situação". está onde menos se podia esperar e onde todavia. próximo a florescer. em Tocqueville. e salvo os Alexandrinos. com alguma razão. Ora bem. A disposição dos homens. disposto a investigá-los. a língua vigente é a que se chamou "latim vulgar".A rebelião das massas. menos sublinhado e analisado do que devera: os homens tornaram-se estúpidos. Nem era possível que sendo estes homens. e a consciência desse segredo é a que. Para que o humano se enriqueça. Mas o que mais nos interessa em Stuart Mill é sua preocupação pela homogeneidade de má classe que via crescer em todo o Ocidente. que exista "variedade de situações" (16). a menos que uma forte barreira de convicção moral não se eleve contra o mal. Não se conhece bem este file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.htm (13 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . como todas as mudanças que se operam no mundo têm por efeito o aumento da força social e a diminuição do poder individual. Também foi aquele um tempo de massa e de pavorosa homogeneidade. matriz de nossos romances. Assim. revela pelo contrário e grita. caminhamos em linha reta para o Baixo Império. como eram. que quase nunca se reprime senão quando lhe falta poder. Veja-se. estereotipar. O processo vinha de tempos atrás. ao contrário. mas. E como o poder não parece achar-se em via de declinar. E insensato pôr a vida européia numa só carta. devemos esperar. a condição mais arcana da sociedade que a fala.

que sou bastante tímido.htm (14 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . consistir em confundi-las mais do que estavam. E eu o fiz durante toda a minha vida. a esclarecer um pouco as coisas.A rebelião das massas. imundas e sem rotundidade. Sempre estive na estacada. E. já fala de per si. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas. ficou suplantada por uma fala plebéia. Há obrigações de trabalhar sobre as questões do tempo. desoladas. E verdade que trato de me representar como era por dentro isso que olhado de fora nos aparece.uma "corrente" . sem evidência e sem calor de alma. Mas uma das coisas que agora se dizem . hispanismos. o morador de Hipona e o de Lutécia. Meu trabalho é obscuro labor subterrâneo de mineiro. A obra intelectual aspira. apesar das distâncias.é que. como material. não parecem admirar-se ante o fato de que falassem da mesma maneira países tão díspares como Cartago e Gália. como homogeneidade. que são talvez. como um arrepiante empedernimento. latim vulgar e. que conservava a linguagem das classes superiores. IV Nem este volume nem eu somos políticos. Parece-me simplesmente atroz. Isto. A saborosa complexidade indo-européia. é claro. Dizem-no. enquanto a do político sói. em boa parte. em certo modo. o mauritânio e o dácio. galicismos. a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente. como fartas de rolar pelas tabernas mediterrâneas. todo o mundo tem de fazer política sensu stricto. os homens menos dispostos a assustar-se com coisa alguma. tranqüilamente. da dificuldade de comunicações e de que não contribuía para fixá-lo uma literatura. não posso reprimir ante esse fato um estremecimento medular. depois dos aviadores. senão em virtude de um achatamento geral. Consta. Ademais. A missão do chamado "intelectual" é. condenadas à eterna cotidianidade se adivinham atrás desse seco artefato lingüístico! O outro caráter aterrador do latim vulgar é precisamente sua homogeneidade. pelo contrário. Que vidas evadidas de si mesmas. Mas ao constar isto quer dizer-se que o torso da língua era comum e idêntico. como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias. de mecanismo muito fácil. como ser da direita. sem dúvida. procuro descobrir a realidade vivente de que esse fato é a quieta marca. Ser da esquerda é. pelo contrário. Mas o que se conhece basta e sobra para que nos espantem dois de seus caracteres. Eu. Os lingüistas. Tingitânia e Dalmácia. que havia africanismos. com freqüência baldada. Os vocábulos parecem velhas moedas de cobre. ao mesmo tempo. porém. que tremo quando vejo como o vento fatiga uns caniços. incluso a custo da claridade mental. de ensaio e rodeio como a infantil. testemunho de que uma vez a história agonizou sob o império homogêneo da vulgaridade por haver desaparecido a fértil "variedade de situações". reduzindo a existência à sua base. ou por isso mesmo. do escasso intercâmbio. O assunto de que aqui se fala é prévio à política e pertence a seu subsolo. oposta à do político. nulificando suas vidas? O latim vulgar está aí nos arquivos. efetivamente. Um é a incrível simplificação do seu mecanismo gramatical em comparação com o latim clássico. são formas da hemiplegia moral. só se chega a ele mediante reconstruções. pesadamente mecânico. que avança às cegas. com efeito. uma língua triste. gramática balbuciante e perifrástica. é claro. Como podiam vir à coincidência o celtibero e o belga. uma língua pueril ou gaga que não permite a fina aresta do raciocínio nem líricas cambiantes. É uma língua sem luz nem temperatura. Hispânia e Rumânia. porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem.

Importa fazer isso sem pretensões. Mas há muito tempo que aprendi a ficar em guarda quando alguém cita Pascal. É preciso que o pensamento europeu proporcione sobre todos estes temas nova claridade. os que não têm outra coisa que fazer. ainda que quisessem. a coletividade. A massa em rebeldia perdeu toda a capacidade de religião e de conhecimento. o uso. 62-63) Isso seria o único de que poderia esperar-se com alguma probabilidade a solução do tremendo problema que as massas atuais aventam. as únicas coisas que por sua substância são aptas para ocupar o centro da mente humana -. tão graves que se não os extirpamos produzirão de modo inexorável a aniquilação do Ocidente. o Estado. nem de longe. A política apressa-se a apagar as luzes para que todos estes gatos sejam pardos. frenética.enfim. O politicismo integral. a sagesse . a religião. se trata precisamente de um homem hermético. vestir o escafandro e descer ao mais profundo do homem. (Purg. da qual. antecipando-se com a insolência que pertence ao estilo de nosso tempo. como dizia Dante. studiate il passo Mentre que l'Occidente non s'annera. que não está aberto de verdade a nenhuma instância superior. A política despoja o homem de solidão e intimidade. que encontre a saída. fora de si.A rebelião das massas. nada parecido. Este volume não pretende. E é preciso que o faça prontamente ou. posto que pretenda suplantar o conhecimento. Quando alguém nos pergunta o que somos em política. toleram ser corrigidos? Porque. A outra pergunta decisiva. e por isso é a predicação do politicismo integral uma das técnicas que se usam para socializá-lo. Não pode ter dentro mais que política exorbitada. é uma e mesma coisa com o fenômeno de rebelião das massas que aqui se descreve. E uma cautela de higiene elemental. a meu juízo. depende toda possibilidade de saúde. XXVII. a absorção de todas as coisas e de todo o homem pela política. e que eu chamei o homem-massa. não para fazer o leque do pavão real nas reuniões acadêmicas. Para falar sobre ele mais seriamente e mais profundamente não haveria mais remédio senão pôr-se em roupa abissal. E até o corroboram citando de Pascal o imperativo d'abêtissement. Para isso está aí. é só uma primeira aproximação ao problema do homem atual. Uma vez que nos afiguramos bem de como é esse tipo humano hoje dominante. Como suas últimas palavras fazem constar. Os termos com que deve ser levantado não constam na consciência file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o direito. é quando se suscitam as interrogações mais férteis e mais dramáticas: Pode-se reformar este tipo de homem? Quero dizer: os graves defeitos que há nele. ou. como verá o leitor. e eu o tentei num livro próximo a aparecer em outros idiomas sob o título El hombre y la gente. nos adscreve simultaneamente em vez de responder devemos perguntar ao impertinente que pensa ele que é o homem e a natureza e a história. é esta: podem as massas.htm (15 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . porque está demasiado virgem. despertar a vida pessoal? Não cabe desenvolver aqui o tremendo tema. mas com decisão. que é a sociedade e o indivíduo.

faria sua reaparição na Europa o esfomeamento gigantesco do Baixo Império. Nem sequer está esboçado o estudo da distinta margem de individualidade que cada época do passado deixou à existência humana. Este último vocábulo é. porque chocaria com os corpos dos demais. Não. Herbert Spencer. portanto. Ante o feroz patetismo desta questão que. O formigueiro humano é impossível. porque foi o chamado "individualismo". o tema da "justiça social". a história está cheia de retrocessos nesta ordem. além do mais. está visível. quase improvável. senão impossível. É. mediante seus esforços particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem em sua fantasia. Em uma prisão onde se amontoaram muito mais presos dos que cabem. Porque é pura inércia mental do "progressismo" supor que conforme avança a história. este pensamento: Pode hoje um homem de vinte anos formar um projeto de vida que tenha figura individual e que. e o formigueiro sucumbiria como ao sopro de um deus torvo e vingativo. e talvez a estrutura da vida em nossa época impeça superlativamente que o homem possa viver como pessoa. queiramos ou não. mas não creio que exagera a situação efetiva em que se vão achando quase todos os europeus. ao mesmo tempo. pelo contrário ressuma só vagas filantropias. é possível e é justo conseguir.htm (16 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . composta de desiderata comuns a todos e verá que para consegui-la tem de solicitá-la ou exigi-la em coletividade com os demais. Só isto nos levará a atacar o mal nos estratos fundos de onde verdadeiramente se origina. empalidece e se degrada até parecer retórico e insincero suspiro romântico. inoperante. assim cresce a folga que se concede ao homem para poder ser indivíduo pessoal. e até os músculos respiratórios têm de funcionar a ritmo de regulamento.A rebelião das massas. ninguém pode mover um braço ou uma perna por iniciativa própria. porque até hoje não se condensou nele um sistema enérgico de idéias históricas e sociais. necessitaria realizar-se mediante suas iniciativas independentes. Isto seria a Europa convertida em formigueiro. A coisa é horrível. pública. Os demagogos têm sido apenas os grandes estranguladores de civilizações. Restariam muito menos homens. Daí a ação em massa. que enriqueceu o mundo e a todos no mundo e foi esta riqueza que prolificou tão fabulosamente a planta humana. Mas. não notará que é. que vão e vêm por suas ruas ou se concentram em festivais e manifestações políticas. obsedante. mas dirigir-se em linha reta para um magnânimo solidarismo. Quando os restos desse "individualismo" desaparecessem. mas nulo historiador. Em tal circunstância. que o seriam um pouco mais. com efeito. Mas nem sequer esta cruel imagem é uma solução. como até a todo desejo pessoal e buscará a solução oposta: imaginará para si uma vida standard. apesar de tão respeitável. Mas um homem não é demagogo somente porque se ponha a gritar ante a multidão. como cria o honrado engenheiro. O desânimo o levará com a facilidade de adaptação própria de sua idade a renunciar não só a todo ato. porque não há a sua disposição espaço em que possa alojá-la e em que possa mover-se segundo seu próprio ditame? Logo advertirá que seu projeto tropeça com o próximo. muito difícil salvar uma civilização quando lhe chegou a hora de cair sob o poder dos demagogos. que fazia Macaulay exclamar: "Em todos os séculos. orienta sobre os caminhos acertados para conseguir o que dessa "justiça social". Isso pode ser em ocasiões file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. os exemplos mais vis da natureza humana deparam-se entre os demagogos" (17). A grega e a romana sucumbiram nas mãos desta fauna repugnante. caminhos que não parecem passar por uma miserável socialização. como a vida do próximo aperta a sua. A primeira condição para um melhoramento da situação presente é perceber bem sua enorme dificuldade. Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomerações de seres humanos. incorpora-se em mim. os movimentos têm de se executar em comum.

quase todo o continente. entendendo por tal o que já Leibnitz chamava uma "revolução geral" (18). entretanto. a grande depressão moral da história francesa que foram os vinte anos do Segundo Império. Ao mesmo tempo tive a honra de receber o encargo de uma enérgica mensagem que esse busto dirige ao outro. uma magistratura sacrossanta. a vontade de transformar de chofre tudo e em todos os gêneros (19). que como amplo fenômeno da história européia aparece na França em 1750. salvo as estátuas. E o único método de pensamento que proporciona alguma probabilidade de acerto em sua manipulação é a "razão histórica". Malebranche rompe com um amigo seu porque viu sobre sua mesa um Tucídides (21). se nos atemos à verdade nua dos anais. grande parte dos quais confessou o próprio Raspail que haviam sido antes clientes seus. mas recebeu dos verdadeiros criadores. do oficial. salta à vista que seus geômetras. impelindo minha solidão pelas ruas de Paris. por isso é consubstancial às revoluções o fracasso. Os problemas humanos não são. por tradição! É verdade que na França fez-se uma Grande Revolução e várias torvas ou ridículas. e que é o busto do falso Comte. ao grande. Algumas destas. são velhas amizades. abstratos. Mas era natural que me interessasse sobretudo em ouvir uma vez mais a palavra do nosso sumo mestre Descartes. paradoxalmente. quanto mais sê-lo. acertar seus historiadores. Nas revoluções tenta a abstração sublevar-se contra o concreto. do de Littré. Nelas se raciocina com o marquês de Condorcet. como os astronômicos ou os químicos. Isso é o que. São problemas de máxima concreção. mas. erigido na praça de Sorbonne. E como não tinha com quem falar. chamado Endageest. que está no Quai Conti. antigas incitações ou perenes mestres de minha intimidade. E se ser revolucionário é já coisa grave. o que encontramos é que essas revoluções serviram principalmente para que durante todo um século. cujas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não sei se algum dia sairão à luz estas Conversaciones con estatuas. e que conseguiram ao contrário. que o método para resolver os grandes problemas humanos é o método da revolução. salvo uns dias ou umas semanas. em maior ou menor escala. Este lugar. A demagogia é uma forma de degeneração intelectual. conversei com elas sobre grandes temas humanos. autoritárias e contra-revolucionárias. Com o pequeno busto de Comte que há em seu departamento da rue Monsieur-le-Prince falei sobre pouvoir spirituel. Por que então? Por que na França? Este é um dos pontos nevrálgicos do destino ocidental e especialmente do destino francês. a França tenha vivido mais que outro qualquer povo sob formas políticas. porque são históricos. Graças a isso essa maravilha que é a França chega em más condições à difícil conjuntura do presente.htm (17 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Estes meses passados. compreendi que eu não conhecia ninguém na grande cidade. O puro acaso que ciranda minha existência fez que eu redija estas linhas tendo à vista o lugar da Holanda em que habitou em 1642 o novo descobridor da raison. Quando se contempla panoramicamente a vida pública da França durante os últimos cento e cinqüenta anos. e por sua irradiação. A demagogia essencial do demagogo está dentro de sua mente. o homem a quem a Europa mais deve. Sobretudo. insuficientemente exercido por mandarins literários e por uma Universidade que ficou completamente excêntrica diante da efetiva vida das nações. deveu-se bem claramente à extravagância dos revolucionários de 1848 (20). seus físicos e seus médicos se equivocaram sempre em seus juízos políticos. crê a França. desde então. que dulcificaram uma etapa dolorosa e estéril de minha vida. radica em sua irresponsabilidade ante as idéias mesmas que maneja e que ele não criou. Mas o racionalismo físico-matemático tem sido na França demasiado glorioso para que não tiranize a opinião pública.A rebelião das massas. sobre a perigosa idéia do progresso. Porque esse país tem ou crê que tem uma tradição revolucionária.

Dupont-White. Este é o tesouro único do homem. mas porque têm muito menos memória que nós. Mas nem por isso é uma instituição vazia. a Monarquia não exerce no Império britânico nenhuma função material e palpável. com deliberado propósito. mas isentos de serenidade. O homem não é nunca um primeiro homem: começa desde logo a existir sobre certa altitude de pretérito amontoado. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. elle est un hommage à tout ce qui le distingue de la bête" (23). Esta raison é só matemática. Esta nos mostra a vaidade de toda revolução geral. como pretendiam os confusonários do 89. como se não houvesse outro antes. cheios de gênio. os continentais. querer começar de novo. Diz-se que há muito a Monarquia inglesa é uma instituição meramente simbólica. seu privilégio e sua marca. Köhler e outros mostraram como o chimpanzé e o orangotango não se diferenciam do homem pelo que. Porque. árvores dão sombra a minha janela.em admoestadora vizinhança . é aspirar a descer e plagiar o orangotango. A Monarquia da Inglaterra exerce uma função determinadíssima e de alta eficácia: a de simbolizar. possui-o e o aproveita. Por isso o povo inglês. espezinhado e esfarrapado. a Inglaterra. nunca maduros. Seus fabulosos triunfos sobre a natureza.htm (18 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros. Três séculos de experiência "racionalista" obrigam-nos a rememorar o esplendor e os limites daquela prodigiosa raison cartesiana. Ao método da revolução opõe o único digno da larga experiência que o europeu atual tem atrás de si. hipocritamente generosa. pelo contrário.. deu agora inusitada solenidade ao rito da coroação. Como sempre . Deu-nos mais uma lição. superiores a quanto pudera sonhar-se. porque cada tigre tem de começar de novo a ser tigre. física. nem administrar a justiça. mas dizendo-o assim deixamos escapar o melhor. Isso é verdade. A única diferença radical entre a história humana e a "história natural" é que aquela não pode nunca começar de novo. sublinham tanto mais seu fracasso ante os assuntos propriamente humanos e convidam a integrá-la em outra razão mais radical." Romper a continuidade com o passado. atrás deles. Ante a turbulência atual do continente quis afirmar as normas permanentes que regulam sua vida. Os pobres animais cada manhã esquecem quase tudo que viveram no dia anterior. Duas vezes ao dia . As revoluções tão incontinentes em sua pressa. acumula seu próprio passado.vejo passar os idiotas e os dementes que arejam por momentos à intempérie sua malograda humanidade. de proclamar direitos. E a riqueza menor desse tesouro consiste no que dele pareça acertado e digno de conservar-se: o importante é a memória dos erros.já que a Europa sempre pareceu um tropel de povos -. O homem. de tudo quanto seja tentar a transformação súbita de uma sociedade e começar de novo a história. violaram sempre. sempre pueris. efetivamente. Por isso Nietzsche define o homem superior como o ser "de memória mais desenvolvida. o tigre de hoje é idêntico ao de seis mil anos. chamamos inteligência.A rebelião das massas. falando rigorosamente. a extensa experiência vital decantada gota a gota em milênios. que nos permite não cometer os mesmos sempre. biológica. Diante de mim está um jornal em que acabo de ler o relato das festas com que a Inglaterra celebrou a coroação do novo rei. como a nurse da Europa. e ao fundo. que é a "razão histórica" (22). carente de serviço. e seu intelecto tem de trabalhar sobre um mínimo material de experiências. tão fundamental que é a definição mesma de sua substância: o direito à continuidade. Seu papel não é governar.. é hoje um manicômio. nem mandar o Exército. que em 1860 se atrevesse a clamar: "La continuité est un droit de l'homme. mercê de seu poder de recordar. o direito fundamental do homem. Semelhantemente. Apraz-me que seja um francês.

continua existindo para ele. E eis aqui que este povo nos obriga.o sentido histórico -. que conserva em ativa posse. Eu me envergonhava de que os europeus. por assim dizer. ao ler esses capítulos. O inglês faz empenho de nos fazer constar que seu passado. também contra o que se crê."convencer-se de que na Europa não há nada interessante" (25). Praticamente deveríamos omitir o quase. E isso é ser um povo de homens: poder hoje continuar no seu ontem sem por isso deixar de viver para o futuro. ao método revolucionário o método da continuidade.htm (19 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . é não haver incorrido no inconcebível erro de ótica que sofreram então quase todos os europeus. Hoje a coisa vai sendo clara e os Estados Unidos não enviam já ao velho continente senhoritas para . mas ainda parece uma de tantas. um só fator: a caracterização do homem médio que hoje se vai apoderando de tudo. O leitor deveria. a Inglaterra opôs. As pessoas ainda sentem-se em segurança. Porque não convém esquecer que então se pensava mui seriamente que os americanos haviam descoberto outra organização da vida que anulava para sempre as perpétuas pragas humanas que são as crises. Violentando-me isolei neste quase-livro.como me dizia uma naquela ocasião . Já começou a crise na Europa. Este povo circula por todo o seu tempo. de sua pele. na realidade. do problema total que e para o homem e especialmente para o homem europeu seu imediato porvir. a coroa e o cetro que entre nós regem apenas a sorte do baralho. mostrassem carecer dele completamente. sobretudo. sustentando que a América. Ainda gozam os luxos da inflação. O único do que vai dito nestas páginas que me inspira algum orgulho. mais uma vez. com certa impertinência do mais puro dandysmo. a hispânica. à abstenção de expressar minhas convicções sobre tudo quanto toco de passagem. retroceder aos anos 1926-1928.A rebelião das massas. Desde um futuro ao qual não chegamos mostra-nos a vigência louçã de seu pretérito (24). um remoto passado porque era primitivismo. já que o presente é só a presença do passado e do porvir. era. era-o e o é muito mais a América do Norte do que a América do Sul. Com as festas simbólicas da coroação. inclusive os próprios economistas. procedo partindo de seu aspecto externo. o lugar onde pretérito e futuro efetivamente existem. E. o único que pode evitar na marcha das coisas humanas esse aspecto patológico que faz da história uma luta ilustre e perene entre os paralíticos e os epiléticos. poder existir no verdadeiro presente. longe de ser o futuro. O velho lugar comum de que a América é o porvir havia nublado por instantes sua perspicácia. inventores do mais elevado que até agora se inventou . precisamente porque passou. A pele do tempo mudou.porque não deixaram nunca de ser atuais os mais velhos e mágicos utensílios de sua história. E. Daí por que sejam os primeiros capítulos os que mais caducaram. pensava-se: aí está a América! Era a América da fabulosa prosperity. Mais ainda: a apresentar freqüentemente as coisas em forma que se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que se antecipou a todos em quase todas as ordens. a presenciar seu vetusto cerimonial e a ver como atuam . e depois penetro um pouco mais em direção a suas vísceras. porque lhe passou. é verdadeiramente senhor de seus séculos. Isto me obrigou a um duro ascetismo. Este é o povo que sempre chegou antes ao porvir. Tive então a coragem de me opor a semelhante deslize. V Como nestas páginas se faz a anatomia do homem hoje dominante.

está aí. moral. "poderio social". embora fundamental. Sua fisionomia e suas conseqüências são conhecidas. cheios de viajantes. sublinhando uma feição de nossa época que é visível com os olhos da cara. Simplicíssima de enunciar. na vida atual? Vamos agora puncionar o corpo trivial desta observação. não devem nem podem dirigir sua própria existência. o leitor francês esperar mais deste volume. cheios de transeuntes. O FATO DAS AGLOMERAÇÕES (26) Há um fato que. As praias. Dir-se-ia que essas duas coisas . cheios de espectadores. Como as massas. Oegstgeest-Holanda. Nada mais. maio. Não deve. quer dizer-se que a Europa sofre agora a mais grave crise que a povos. que não é. para bem ou para mal. "Het Witte Huis". Talvez a melhor maneira de aproximar-se a este fenômeno histórico consista em referir-nos a uma experiência visual. Também se conhece seu nome. culturas. Os hotéis cheios de hóspedes. etc. mais notório. intelectual. ainda que não de analisar. senão um ensaio de serenidade em meio à tormenta. PRIMEIRA PARTE A REBELIÃO DAS MASSAS I. Mas eu não devia complicar os assuntos. Os cafés. compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de vestir e o modo de gozar.htm (20 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . O que antes não era problema. "massas". às palavras "rebelião". um significado exclusivo ou primariamente político.A rebelião das massas. As salas dos médicos famosos. 1937.a civilização e a cultura . do "cheio". A vida pública não é só política. Qualquer que seja nossa atitude ante a civilização e a cultura. como um fator de primeira ordem com que se deve contar. no final das contas. mas. cheias de banhistas. nações. cheios de consumidores. A verdade é que elas são precisamente o que ponho em questão quase desde meus primeiros estudos. eu a denomino o fato da aglomeração. cheias de enfermos. a anomalia representada pelo homem-massa. cabe padecer. JOSE ORTEGA Y GASSET. Por isso urgia isolar cruamente seus sintomas. pois. Este fato é o advento das massas ao pleno poderio social. Os espetáculos. ao mesmo tempo e ainda antes. era a mais favorável para aclarar o tema exclusivo deste estudo. Esta crise sobreveio mais de uma vez na história. e nos surpreenderá ver como dele brota um repuxo inesperado.não são para mim questões. e menos reger a sociedade. As cidades estão cheias de gente. era a pior para deixar ver minha opinião sobre estas coisas. Medi o homem médio quanto a sua capacidade para continuar a civilização moderna e quanto a sua adesão à cultura. econômica. mais constante. desde já. Para a inteligência do formidável fato convém que se evite dar. começa a sê-lo quase de contínuo: encontrar lugar. por definição. Os trens. Há fato mais simples. é o mais importante na vida pública européia da hora presente. As casas cheias de inquilinos. desde que não sejam muito extemporâneos. religiosa. Chama-se a rebelião das massas. onde a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Os passeios. Basta assinalar uma questão.

ao contrário. Por isso. é o homem enquanto não se diferencia de outros homens. uma inovação. e instalou-se nos lugares preferentes da sociedade. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem abertas. Aproximadamente. e nossos olhos vêm por toda a parte multidões. idéias. Mas o fato é que antes nenhum destes estabelecimentos e veículos costumavam estar cheios. fica fora gente afanosa de usufruí-los. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. os antigos deram a Minerva a coruja. o mesmo número de pessoas existia há quinze anos. Isso. a minorias. Com efeito. nos surpreendemos de nossa surpresa. nossa surpresa. de modo de ser nos indivíduos que a integram.htm (21 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . se decompõe em todo o seu rico cromatismo interior.A rebelião das massas. por massas só nem principalmente "as massas operárias ". Dir-se-á que é o que acontece com todo grupo social. mas não como multidão. possuidora dos locais e utensílios criados pela civilização. A aglomeração. Os indivíduos que integram estas multidões preexistiam. maravilhar-se. precisamente nos lugares melhores. talvez o seu. E evidente. portanto. não se pode desconhecer que antes não acontecia e agora sim. levavam uma vida. Massa é "o homem médio". até acaciano. que houve uma mudança. no bairro da grande cidade. ocupava o fundo do cenário social. à terminologia sociológica. Não se entenda. E o esporte e o luxo específico do intelectual. A multidão. Cada qual . não há dúvida. se existia. Que é o que vemos e ao vê-lo nos surpreende tanto? Vemos a multidão. no campo. Traduzamo-lo. O conceito de multidão é quantitativo e visual. não.numa determinação qualitativa: é a qualidade comum. por seleto que pretenda ser. com a primeira nota importante. ou solitários. A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e massas. pelo visto. dissociada. antes não era freqüente. E do mesmo modo os assentos o vagão ferroviário e seus quartos o hotel. Deste modo se converte o que era meramente quantidade . agora adiantou-se até às gambiarras. de repente. Aqui topamos. ou cheio. Apenas refletimos um pouco. Por toda a parte? Não. do presente. que a formação normal de uma multidão implica a coincidência de desejos. tornou-se visível. Por que o é agora? Os componentes dessas multidões não surgiram do nada. na vila. Por isso sua atitude gremial consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. aparecem sob a espécie de aglomeração. reservados antes a grupos menores. natural. é a delícia vedada ao futebolista e que. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. Mas quê. em definitiva. passava inadvertida. e agora transbordam. Agora. na aldeia. mas que repete em si um tipo genérico. divergente. é começar a entender. leva o intelectual pelo mundo em perpétua embriaguez de visionário. criação realmente refinada da cultura humana. Embora o fato seja lógico. As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. Surpreender-se. pois. sem alterá-lo.indivíduo ou pequeno grupo ocupava o lugar. Então achamos a idéia de massa social. portanto. Depois da guerra pareceria natural que esse número fosse menor. é o mostrengo social. Seu atributo são os olhos em pasmo. como tal. estranhar. branca luz do dia. Já não há protagonistas: só há coro. a qual justifica. não é o ideal? O teatro tem suas localidades para que se ocupem. o pássaro com os olhos sempre deslumbrados. para que a sala esteja cheia.a multidão . Sim. deste dia. ela é o personagem principal. Repartidos pelo mundo em pequenos grupos. de repente. Antes. distante. Que ganhamos com esta conversão da quantidade para a qualidade? Muito simples: por meio desta compreendemos a gênese daquela. entretanto. pelo menos no primeiro momento.

A rigor. em boa parte uma coincidência em não coincidir. não é raro encontrar hoje entre os obreiros. inqualificáveis e desclassificados por sua própria contextura. A divisão da sociedade em massas ou minorias excelentes não é. portanto.no bem ou no mal . Diante de uma só pessoa podemos saber se é massa ou não. adverte-se o progressivo triunfo dos pseudo-intelectuais inqualificados. mais rigorosa e difícil. e mal dotado. sem esforço de perfeição em si mesmas. bóias que vão à deriva. Como veremos. não se angustia. entretanto. mas em classes de homens. relativamente individuais. que por sua própria essência requer e supõe a qualificação. enquanto as inferiores estão normalmente constituídas por indivíduos sem qualidade. embora não consiga cumprir em sua pessoa essas exigências superiores. Imagine-se um homem humilde que ao tentar valorizar-se por razões especiais . seja qual seja. mas que para elas viver é ser em cada instante o que já são. da massa e do vulgo. O mesmo nos grupos sobreviventes da "nobreza" masculina e feminina. sem necessidade de esperar que apareçam os indivíduos em aglomeração. e não pode coincidir com a jerarquização em classes superiores e inferiores. Este homem sentir-se-á medíocre e vulgar.e o Hinayana "pequeno veículo". outra.adverte que não possui nenhuma qualidade excelente. Quando se fala de "minorias seletas". é esta em duas classes de criaturas: as que exigem muito de si e acumulam sobre si mesmas dificuldades e deveres. Para formar uma minoria. a um máximo de exigências ou a um mínimo. diz graciosamente Mallarmé que aquele público salientava com a presença de sua escassez a ausência multitudinária. a rigor. uma divisão em classes sociais. A seu turno. sente-se à vontade ao sentir-se idêntico aos demais. Assim.htm (22 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Massa é todo aquele que não se valoriza a si mesmo . Mas. idéia ou ideal. Há casos em que esse caráter singularizador do grupo aparece a céu descoberto: os grupos ingleses que se chamam a si mesmos "não conformistas". Isto me lembra que o budismo ortodoxo se compõe de duas religiões distintas: uma. Nos grupos que se caracterizam por não ser multidão e massa. Este ingrediente de juntarem-se os menos precisamente para separar-se dos demais vai sempre misturado na formação de toda minoria. mas há uma diferença essencial. secundário. isto é. mas não se sentirá "massa". e as que não exigem de si nada especial. a coincidência efetiva de seus membros consiste em algum desejo. é característico do tempo o predomínio. E é indubitável que a divisão mais radical que cabe fazer na humanidade.A rebelião das massas. como fato psicológico. que por si exclui o grande número. a velhacaria habitual costuma tergiversar o sentido desta expressão.por razões especiais. Sua coincidência com os outros que formam a minoria é. é preciso que antes cada qual se separe da multidão por razões essenciais. mas que se sente "como todo o mundo". portanto. mais frouxa e trivial. na vida intelectual. e. O decisivo é se pomos nossa vida num ou no outro veículo. dentro de cada classe social há massa e minoria autêntica. que antes file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Falando do reduzido público que ouvia um músico refinado. mas o que exige mais de si que os demais. pois. fingindo ignorar que o homem seleto não é o petulante que se supõe superior aos demais."grande veículo" ou "grande carril" . Claro está que nas superiores. e é.ao perguntar de si para si se tem talento para isto ou para aquilo. a massa pode definir-se. posterior a haver-se cada qual singularizado. ou Mahayana . a agrupação dos que concordam só em sua desconformidade a respeito da multidão ilimitada. quando chegam a sê-lo e enquanto o forem de verdade há mais verossimilitude em achar homens que adotam o "grande veículo". se sobressai em alguma ordem . ainda nos grupos cuja tradição era seletiva. "caminho menor".

Isso era o que antes acontecia. não é com o fim de aprender algo dele. se o lê. conseqüentemente. O mesmo acontece nas demais ordens. ao tomar da pena para escrever sobre um tema que estudou intensamente. pelo menos. É evidente que. egrégio.A rebelião das massas. em pretensão -. nem pode manifestar-se. Todos eles indicam que esta resolveu avançar para o primeiro plano social e ocupar os locais e usar os utensílios e gozar dos prazeres antes adstritos aos poucos. Como se diz na América do Norte: ser diferente é indecente. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa atua diretamente sem lei. A massa presumia que. a massa crê que tem direito a impor e dar vigor de lei a seus tópicos de café. suplanta as minorias.htm (23 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . não se manifesta. e. que. os locais não estavam premeditados para as multidões. Ninguém. quem não pense como todo o mundo. creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. deve pensar que o leitor médio. E claro está que esse "todo o mundo" não é "todo o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas não uma subversão sociológica. Ora bem: existem na sociedade operações. almas egregiamente disciplinadas. que nunca se ocupou do assunto. Conhecia seu papel numa saudável dinâmica social. demonstrando aos olhos e com linguagem visível o fato novo: a massa. teríamos não mais de um caso de erro pessoal. atividades. com todos os seus defeitos e vícios. mas. Por isso falo de hiperdemocracia. Talvez cometa eu um erro. Pelo contrário. Assim . Antes eram exercidas estas atividades especiais por minorias qualificadas . não podem ser bem executadas sem dotes também especiais. no final das contas. deplorará que as pessoas gozem hoje em maior medida e número que antes. individual. sabendo-se vulgar. mas o escritor. Quem não seja como todo o mundo. sem deixar de sê-lo. por meio de pressões materiais. qualificado e seleto.qualificadas. tem o denodo de afirmar o direito de vulgaridade e o impõe por toda a parte. Se agora retrocedermos aos fatos enunciados a princípio. funções da ordem mais diversa. Eu duvido que tenha havido outras épocas da história em que a multidão chegasse a governar tão diretamente como em nosso tempo. A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. só na ordem dos prazeres. as minorias dos políticos entendiam um pouco mais dos problemas públicos que ela. Ao servir a estes princípios o indivíduo obrigava-se a sustentar em si mesmo uma disciplina difícil. por sua vez. por exemplo. pelo contrário. podiam valer como o exemplo mais puro disto que chamamos "massa". A massa atropela tudo que é diferente. convivência legal. creio eu. ou bem as funções de governo e de juízo político sobre os assuntos públicos. já que têm para isso os apetites e os meios. Ao amparo do princípio liberal e da norma jurídica podiam atuar e viver as minorias.antecipando o que logo veremos -. especiais. Por exemplo: certos prazeres de caráter artístico e luxuoso. É falso interpretar as situações novas como se a massa se houvesse cansado da política e encarregasse a pessoas especiais seu exercício. eles nos aparecerão inequivocamente como núncios de uma mudança de atitude na massa. Se os indivíduos que integram a massa se acreditassem especialmente dotados. posto que sua dimensão seja muito reduzida e o povo transborde constantemente deles. por sua mesma natureza. mas que é uma maneira geral do tempo. A massa não pretendia intervir nelas: percebia-se que se queria intervir teria congruentemente de adquirir esses dotes especiais e deixar de ser massa. Democracia e Lei. impondo suas aspirações e seus gostos. corre o risco de ser eliminado. Agora. para sentenciar sobre ele quando não coincide com as vulgaridades que este leitor tem na cabeça. isso era a democracia liberal. eram sinônimos. que são. muito especialmente na intelectual. O característico do momento é que a alma vulgar. O mal é que esta decisão tomada pelas massas de assumir as atividades próprias das minorias.

porque me disse: "Eu não tolero um file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como observou muito bem Spengler. completamente diferente do nosso.htm (24 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Bem entendido que falo da sociedade e não do Estado. Como tudo no mundo tem sua virtude e sua missão. com o bilhete na mão. teríamos de insinuar-nos no mundo antigo. e deixa de sê-lo na medida em que se desaristocratize. ficaria o leitor pensando. aconteceu nada semelhante. Não: a quem sinta a missão profunda das aristocracias. normalmente. Eu disse e continuo crendo. toda juventude e atualidade. A época das massas é a época do colossal (27). Jamais. Ou supunha-se que eu ia contentar-me com essa descrição. especiais. que este fabuloso advento das massas à superfície da história não me inspirava outra coisa senão algumas palavras displicentes. ademais. queira ou não. muito justamente. do império das massas que absorvem e anulam as minorias dirigentes e se colocam em seu lugar. que a sociedade humana é aristocrática sempre. talvez exata. também tem as suas dentro do vasto mundo este pequeno "mundo elegante". Muito me fez meditar certa damazinha em flor. podemos alegremente ingressar no tema. até o ponto de que é sociedade na medida em que seja aristocrática. do cheio. a unidade complexa de massa e minorias discrepantes. cada dia com mais enérgica convicção. em todo o seu desenvolvimento. desdenhosas. de quem é notório que sustento uma interpretação da história radicalmente aristocrática (28) É radical. que é só a fachada. que se chama a si mesmo "a sociedade" e que vive simplesmente de convidar-se ou de não convidar-se. aceitavam-na como o tumor aceita o bisturi. o frontispício sob os quais se apresenta o fato tremendo quando é olhado desde o passado? Se eu deixasse aqui este assunto e estrangulasse meu presente ensaio. seja o aristocrático contentar-se com fazer um breve trejeito amaneirado.não é aristocracia. mas externa. em aparência tão sem sentido. Então se produz também o fenômeno da aglomeração. Vivemos sob o brutal império das massas. Agora todo o mundo é só a massa. por sua própria essência. Certamente que essa mesma "sociedade distinta" está de acordo com o tempo. "Todo o mundo" era. descrito sem ocultar a brutalidade de sua aparência. Por isso. é o seu oposto: é a morte e a putrefação de uma magnífica aristocracia. em um elemento vital. A história do Império romano é também a história da subversão. como se faz agora. de verdadeiramente aristocrático só restava naqueles seres a graça digna com que sabiam receber em seu pescoço a visita da guilhotina. ver por dentro o espetáculo. Eu não teria inconveniente em falar sobre o sentido que possui essa vida elegante.A rebelião das massas. estrela de primeira grandeza no zodíaco da elegância madrilenha. e chegar a sua hora de declinação. II. como um fidalgote de Versalhes. A aristocracia social não se parece nada a esse grupo reduzidíssimo que pretende assumir para si íntegro o nome de "sociedade".entende-se esse Versalhes dos trejeitos . foi preciso construir. já chamamos duas vezes "brutal" a este império. porque eu não disse nunca que a sociedade humana deva ser aristocrática. Perfeitamente. Por isso. teríamos de pular fora de nossa história e submergir-nos em um orbe. Ninguém pode acreditar que diante deste fabuloso encrespamento da massa. mas muito mais que isso. agora. mas nosso tema é agora outro de maiores proporções. de uma absoluta novidade na história de nossa civilização. mundo". Se temos de achar algo semelhante. já pagamos nosso tributo ao deus dos tópicos. A ASCENSÃO DO NÍVEL HISTÓRICO Este é o fato formidável do nosso tempo. É. Versalhes . um pouco de abominação e outro pouco de repugnância. a mim. o espetáculo da massa o incita e aviva como ao escultor a presença do mármore virgem. mas uma missão muito subalterna e incomparável com a faina hercúlea das autênticas aristocracias. edifícios enormes.

o ingrediente terrível é posto pela atropelante e violenta sublevação moral das massas. ao mesmo tempo as massas tornaram-se indóceis diante das minorias. inclusive quando esmaga e tritura as instituições onde aqueles direitos se sancionam. não os exercitava nem fazia valer senão de fato. instalada sobre nosso tempo como um gigante. Quem não tenha sentido na mão palpitar o perigo do tempo. não as respeitam. inclusive quando as suas idéias são reacionárias. com o que antes parecia reservado exclusivamente às minorias. em grande parte. a impô-la e reclamá-la: as minorias melhores. mas no coração de todo indivíduo. mas. A meu juízo. e sem necessidade de qualificação alguma. as massas exercitam hoje um repertório vital que coincide. ou um bem possível? Aí está. Quero dizer com ela que as massas gozam dos prazeres e usam os utensílios inventados pelos grupos seletos e que antes só estes usufruíam. não os sentia em si. o "povo" sabia já que era soberano. toda interpretação de nosso tempo que não descubra a significação positiva oculta sob o atual império das massas e das que o aceitam. e que. A soberania do indivíduo não qualificado. depois. indomável e equívoca como todo destino. estes direitos comuns a todos são os únicos existentes. baile ao qual tenham sido convidadas menos de oitocentas pessoas". Todo outro direito imposto a dotes especiais ficava condenado como privilégio. a ser um estado psicológico constitutivo do homem médio. com algo. que são esquemas externos da vida pública. não as seguem. O prestígio e a magia autorizante. pelo mero fato de nascer. Os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o qual tem sempre uma forma equívoca. sem estremecer de espanto. igualmente. esses poucos começaram a usar praticamente dessa idéia. o que é mais importante. possuía certos direitos políticos fundamentais. beatamente.segundo então era chamado -. pelo contrário. primeiro. cósmico sinal de interrogação. não já nas legislações. vejam-se as Memórias da comtesse de Boigne. Todo destino é dramático e trágico em sua profunda dimensão. Através desta frase vi que o estilo das massas triunfa hoje sobre toda a área da vida e se impõe ainda naqueles últimos rincões que pareciam reservados aos happy few. de guilhotina ou de forca mas também com algo que quisera ser um arco triunfal! O fato de que necessitamos submeter a anatomia pode formular-se sob estas duas rubricas: primeira. inexoravelmente deixa de ser ideal. mas. porque eram patrimônios de poucos. colossal. quem não entende esta curiosa situação das massas não pode compreender nada do que hoje começa a acontecer no mundo.htm (25 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . certas minorias descobriram que todo indivíduo humano. se volatilizam. Repilo. pois. com relativa suficiência. E não apenas as técnicas materiais. efetivamente. a rigor. Não obstante. os chamados direitos do homem e do cidadão. durante todo o século XIX a massa. mas não acreditava nisso. E note-se bem: quando algo que foi ideal se faz ingrediente da realidade. imponente. No século XVIII. Isto foi. passou. muitas das técnicas que antes só os indivíduos especializados manejavam. não chegou à entranha do destino. que são atributos do ideal. não fez mais senão acariciar sua mórbida face. um puro teorema e idéia de uns poucos. que são seu efeito sobre o homem. segunda. O "povo" . Sentem apetites e necessidades que antes se qualificavam de refinamentos. quaisquer que sejam as suas idéias. Analisemos a primeira rubrica. do indivíduo humano genérico e como tal. de idéia ou ideal jurídico que era. Um exemplo trivial: em 1820 não havia em Paris dez quartos de banho em casas particulares. Hoje aquele ideal converteu-se numa realidade. Mais ainda: as massas conhecem e empregam hoje. as puseram de lado e as suplantam. continuava vivendo. não lhes obedecem. Para onde nos leva? É um mal absoluto.A rebelião das massas. que se ia entusiasmando com a idéia desses direitos como com um ideal. quer dizer. sob as legislações democráticas. No nosso. continuava sentindo-se a si mesma como no antigo regime. as técnicas jurídicas e sociais.

constitucional. da América. Mas não: a verdade entra agora em colisão com a galanteria. O triunfo das massas e a conseguinte magnífica ascensão de nível vital aconteceu na Europa por razões internas. de aspirações de ideais. a resolução. e deve triunfar. Julgamos pois. Pense o leitor. o atribuíam a não se sabe que influxo da América na Europa. de um salto. em apetites de supostos inconscientes. acreditavam que se tratava de uma leve mudança nos costumes. mas não suas conseqüências? Quer-se que o homem médio seja senhor. é o que desde o século XVIII. Não recebeu ainda influxo grande da América. O soldado do dia. o nível médio se acha hoje onde antes só tocavam as aristocracias. diríamos. é um fato novo na história. acontecia na América. na consciência de igualdade jurídica. A galanteria tenta agora subornar-me para que eu diga aos homens de Ultramar que. de que o presente é broto. que cuide de sua pessoa e seus ócios. ainda mais curiosa! Ao aparecer na Europa esse estado psicológico do homem médio. de uma moda. Hoje os achamos residindo no homem médio. como os meninos querem uma coisa. Mas agora nos ocorre uma advertência impremeditada. mas em sua manifestação. o exército humano se compõe já de capitães. pois. impõe sua decisão. agarra o prazer que passa. e. Por que se queixam os liberais. ascendeu. A vida humana.A rebelião das massas. para ver clara minha intenção. na massa. é na história o que é o nível do mar na geografia. que não continue dócil. dono. mas não se produziram no próximo passado.depois de largas e subterrâneas preparações. praticamente desde sempre. a Europa se americanizou e que isto é devido a um influxo da América na Europa. Esse estado psicológico de sentir-se amo e senhor de si e igual a qualquer outro indivíduo. Ora bem: o sentido daqueles direitos não era outro senão tirar as almas humanas de sua interna servidão e proclamar dentro delas certa consciência de senhorio e dignidade. que é muito mais sutil e surpreendente e profunda. Com isso. todo o mal do presente e do imediato porvir tem neste ascenso geral do nível histórico sua causa e sua raiz. Os que isto diziam não davam ao fenômeno importância maior. banalizou-se a questão. depois de dois file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. os democratas. numa geração. Há aqui um cúmulo desesperante de idéias falsas que nos estorvam a visão tanto aos americanos como aos europeus. que reclame todos os prazeres. Tanto um como outro. A Europa não se americanizou. quer dizer-se lisa e lhanamente que o nível da história ascendeu de repente . eventualmente. que a vida do homem médio está agora constituída pelo repertório vital que antes caracterizava só as minorias culminantes. Ora bem: o homem médio representa a área sobre que se move a história de cada época. que se negue a toda servidão. desorientados pelo parecido externo. Todo o bem. E nova coincidência. Isso. a meu juízo.htm (26 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . direitos niveladores da generosa inspiração democrática converteram-se. com efeito. os progressistas de há 30 anos? Ou é que. Não era isto que se queria? Que o homem médio se sentisse amo. o tom e maneiras da vida européia em todas as ordens adquire de repente uma fisionomia que fez muitos dizer: "A Europa está se americanizando". que componha sua indumentária: são alguns dos atributos perenes que acompanham a consciência de senhorio. de repente -. senhor de si mesmo e de sua vida? Já está conseguido. iniciam-se agora mesmo. Então não estranhe que atue por si. ao subir o nível de sua existência integral. o desembaraço com que qualquer indivíduo luta hoje pela existência. Se. em totalidade. que imponha decidido sua vontade. mas era o fato nativo. que na Europa só os grupos preeminentes conseguiam adquirir. que o nível médio da vida seja o das antigas minorias. Basta ver a energia. tem muito de capitão.

que seria um refluxo. deu origem à idéia. talvez minha afirmação pareça mais convincente e menos inverossímil. com maior ou menor claridade. a saber: da vitalidade européia. Não se trata. como a agricultura.e talvez a frase supradita valha para eles -. pouco analítica. um aspecto favorável enquanto significa uma subida de todo o nível histórico. angustiam o homem de têmpera arcaica. nesta nivelação não fez senão ganhar. tudo ao contrário. Dita de outro modo. e revela que a vida média se move hoje em altura superior à que ontem pisava. Há quem se sinta nos modos da existência atual como um náufrago que não consegue sair a flutuar. que esta ou a outra coisa não é própria da altura dos tempos. Portanto. a subversão das massas significa um fabuloso aumento de vitalidade e possibilidades. séculos de educação progressista das multidões e de um paralelo enriquecimento econômico da sociedade. Compreender-se-á que idéia tão ampla e tão arraigada não podia vir do vento. nivela-se a cultura entre as diferentes classes sociais. Vivemos em tempo de nivelações: nivelam-se as fortunas. pois. e por isso. mas evidente deste fato. que é todo ele chão. sempre aceita. o que cada geração chama "nosso tempo". mas do que menos se suspeita ainda: trata-se de uma nivelação. Dos Estados e da cultura européia diremos algum vocábulo mais adiante . Do mesmo modo cada qual sente. que antes lhe era um enigma e um mistério. pois. um alemão médio. um espanhol médio. A velocidade do tempo com que hoje marcham as coisas. III. nivelam-se os sexos. a relação em que sua própria vida se encontra com a altura do tempo onde transcorre. digo. da altitude média social e não das eminências. nutre-se dos vales e não dos cumes. como dizem que as orquídeas se criam sem raízes no ar. O fundamento era aquela entrevisão de um nível mais elevado na vida média de Ultramar. onde não se sabe bem de que se fala. aconteceu que pela primeira vez o europeu entende a vida americana. do que ouvimos tão amiúde sobre a decadência da Europa. e esta angústia mede o desnível entre a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Frase confusa e tosca.htm (27 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . pois. por exemplo. que seria um pouco estranho. nunca posta em dúvida. eleva-se ontem sobre hoje. que contrastava com o nível inferior das minorias melhores da América comparadas com as européias. ou se mantém a par. A ALTURA DOS TEMPOS O império das massas apresenta. Mas isso é que o resultado coincide com o traço mais decisivo da existência americana. de um influxo. O que nos faz compreender que a vida pode ter altitudes diferentes. pois. da cultura européia ou do que está sob tudo isso e importa infinitamente mais que tudo isto. Pois bem: também se nivelam os continentes. porque coincide a situação moral do homem médio europeu com a do americano. ou cai por baixo. que hoje um italiano médio. tem sempre certa altitude. mas quanto à vitalidade. A intuição. procede desta intuição. se diferenciam menos em tom vital de um ianque ou de um argentino que há trinta anos. de que a América era o porvir. Desde sempre se entrevia obscuramente pelos europeus que o nível médio da vida era mais alto na América que no velho continente. Convém que nos detenhamos neste ponto. e que é uma frase cheia de sentido a que sem sentido sói repetir-se quando se fala da altura dos tempos. Diz-se. A imagem de cair. o ímpeto de energia com que se faz tudo. se dos Estados europeus. Com efeito: não o tempo abstrato da cronologia. porque ele nos proporciona a maneira de fixar um dos caracteres mais surpreendentes de nossa época. embainhada no vocábulo decadência.A rebelião das massas. E como o europeu se achava vitalmente mais baixo. Mas a história. E este é um dado que os americanos não devem esquecer. mas o tempo vital. convém desde logo fazer constar que se trata de um erro crasso. olhada deste lado.

altura do seu pulso e a altura da época. Trata-se de um fenômeno muito curioso que nos importa muito definir. Vejamos agora outra classe de épocas que gozam de uma impressão vital ao parecer a mais oposta a essa. várias épocas na história que se sentiram como chegadas a uma altura plena. como um grau de temperatura. Bastaria recordar que. Qual é essa relação? Fora errôneo supor que sempre o homem de uma época sente as passadas. pelo menos se se toma grosso modo. bárbaros do Danúbio e do Reno. sentiria que não contém em si o grau superior. Mas isso tampouco é verdade. e nós daremos uma progênie todavia mais incapaz". mais rico. Ao contrário. Isso revela que esses homens sentiam o pulso de sua própria vida mais ou menos falto de plenitude. A impressão que Jorge Manrique declara tem sido certamente a mais geral. de decair e perder pulso. as mulheres tornaram-se estéreis e a Itália se despovoou. acreditava o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de existência mais plenária: a "idade de ouro". piores que nossos avós. mas. mais perfeito e difícil que a vida de seu tempo. ao recomendar-lhe que não se perseguissem os cristãos em virtude de denúncias anônimas: Nec nostri saeculi est. com efeito. em que se cumpre um afã antigo e plenifica uma esperança. a completa madureza da vida histórica. cuja existência se lhes apresentava como algo mais amplo. definitiva: tempos em que se crê haver chegado ao término de uma viagem. de diminuição. ao parecer de Jorge Manrique. Desde cento e cinqüenta anos depois de Cristo esta impressão de encolhimento vital. os tempos "clássicos ". que há neste mais calorias que nele mesmo. É a "plenitude dos tempos". tem consciência da relação entre a altura de nosso tempo e a altura das diversas idades pretéritas. como mais baixas de nível que a sua. Por esta razão respeitavam o passado. e foi necessário alugar para este ofício dálmatas. 6. parecia-lhes não dominá-los. nos engendraram ainda mais depravados.A rebelião das massas. dizendo que era imprópria da plenitude dos tempos. e me surpreende que não tenham reparado nunca pensadores e historiógrafos em fato tão evidente e substancioso. mox daturos progeniem vitiosorem. ficar debaixo deles. soíam rechaçar esta ou outra medida de governo.) Aetas parentum peior avis tulit nos nequiores. À maior parte das épocas não lhes pareceu seu tempo mais elevado que outras idades antigas. quem vive com plenitude e a gosto as formas do presente. dizem os selvagens australianos. Qualquer tempo passado foi melhor. Enquanto isso. ao contrário. (Odes.htm (28 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Quando há não mais de trinta anos os políticos peroravam ante as multidões. Livro III. Já Horácio havia cantado: "Nossos pais. decaído. Há trinta anos. pois. É curioso recordar que a mesma frase aparece empregada por Trajano na sua famosa carta a Plínio. se tivesse consciência. Nem todas as idades se sentiram inferiores a algumas do passado. Ao olhar para trás e imaginar esses séculos mais valiosos. a Alcheringa. Cada idade histórica manifesta uma sensação diferente ante esse estranho fenômeno da altura vital. cresce progressivamente no Império Romano. simplesmente porque passadas. tal ou qual desmando. mas antes. o mais habitual tem sido que os homens suponham em um vago pretérito tempos melhores. dizemos os educados por Grécia e Roma. Dois séculos mais tarde não havia em todo o Império bastantes itálicos medianamente valorosos com os quais preencher as praças de centuriões. incapaz de encher por completo o canal das veias. e depois. Por outra parte. Houve. nem todas se supuseram superiores a quantas foram e recordam.

Há séculos que por não saber renovar seus desejos morre de satisfação. o essencial para que exista "plenitude dos tempos" é que um desejo antigo. não se sente já definitivo. quer dizer. Daí que. e o olhe todo sob sua ótica. na posse. mas que pelo contrário essa pretensão de que um tempo de vida . tão fruídos.htm (29 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . de haver escapado. de contraste penoso entre uma civilização clara e a realidade que não lhe corresponde. irremediavelmente. último. como no século XIX. com efeito. seu ideal. como uma decadência. às vezes. definitivo. é o que. ao cume do tempo! Ao "ainda não" sucedeu o "por fim". para sempre cristalizados. resumindo. tempos de só desejo insatisfeito. por fim um dia fica satisfeito.o chamado "cultura moderna" . em sua raiz mesma encontra obscuramente a intuição de que não há tempos definitivos. Daí o dado surpreendente de que essas etapas de chamada plenitude tenham sentido sempre no sedimento de si mesmas uma peculiaríssima tristeza. sobre os quais vai montada esta hora bem granosa. Esta era a sensação que de sua própria vida tinham os nossos pais e toda a sua centúria. terrível. e sair de novo sob as estrelas ao mundo autêntico. à meta antecipada. A fé na cultura moderna era triste: era saber que amanhã ia ser file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que a famosa plenitude é em realidade uma conclusão. Mas agora compreendemos que esses séculos tão satisfeitos. tudo é possível: o melhor e o pior. Segundo eu disse. Um tempo que satisfez seu desejo. Os tempos de plenitude se sentem sempre como resultante de muitas outras idades preparatórias. A autêntica plenitude vital não consiste na satisfação. diante do qual todos os demais são puros pretéritos.A rebelião das massas. Já o nome é inquietante: que um tempo se chame a si mesmo "moderno". Por fim chega um dia em que esse velho desejo. na chegada. Não se esqueça disto: nosso tempo é um tempo que vem depois de um tempo de plenitude. E ao sentir assim percebemos uma deliciosa impressão de nos havermos evadido de um recinto estreito e hermético. imprevisível e inesgotável. parece cumprir-se. arquisatisfeitos (29). a esse próximo plenário passado. profundo. se denominou a si mesmo "cultura moderna". Não se sonda já aqui a diferença essencial entre nosso tempo e esse que acaba de preterir. sofrerá o espelhismo de sentir a idade presente como um cair desde a plenitude. seguros. modestas preparações e aspirações para ele! Setas sem brio que erram o alvo! (31). com efeito. Já dizia Cervantes que "o caminho é sempre melhor que a pousada". estão mortos por dentro. e que no século XIX parece finalmente realizar-se. a realidade o recolhe e lhe obedece. de transpor? Nosso tempo. Vistos de sua altura. o que teria já que ser sempre. aqueles períodos preparatórios aparecem como se neles se houvessem vivido de puro afã e ilusão não lograda. não se pode deixar alucinar por essa ótica da suposta plenitude. Mas um velho afeiçoado à história. empedernido tomador de pulso de tempos. o que desde muitas gerações se vinha anelando que fosse. inferiores ao próprio. às vezes milenário. de ardentes precursores. de outros tempos sem plenitude. é que já não deseja nada mais. quem continua adscrito à outra margem. esses tempos plenos são também satisfeitos de si mesmos. de "ainda não". o qual se vinha arrastando aneloso e querulante durante séculos. Isto é.fosse definitivo. Assim vê a Idade Média o século XIX. O desejo tão lentamente gestado. Chegamos à altura entrevista. como morre o zângão afortunado depois do vôo nupcial (30). europeu que a vida humana havia chegado a ser o que devia ser. E. ao contrário. onde tudo. que se lhe secou a fonte do desejar. parece-nos uma obcecação e estreiteza inverossímeis do campo visual.

minguada. uma potência parecida às cósmicas. com efeito. mas. põe flor na árvore. Quando nos começos do Império algum fino provinciano chegava a Roma . Diante desse estado emotivo. se dedicava a vagar imaginavelmente pelas vias históricas em busca de um tempo onde encaixar a gosto o perfil de sua existência.htm (30 of 139) [7/11/2001 21:34:38] .A rebelião das massas. única até agora na história conhecida. um conceito comparativo. fiéis a uma ideologia. não deixam de ser parciais. Toda a minha excursão sobre o problema da altitude dos tempos perseguia esta conclusão. Ora bem: essa comparação pode fazer-se desde os pontos de vista mais diferentes e vários que caiba imaginar. porque isso. ser um horizonte sempre aberto a toda possibilidade. arbitrários e externos à própria vida cujos quilates se trata precisamente de avaliar. Outros pontos de vista serão mais respeitáveis que este. Daí que ainda acreditasse em épocas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Roma era eterna. Para um fabricante de boquilhas de âmbar. Um caminho assim é a bem dizer uma prisão que. com efeito. contemplá-la de dentro e ver se ela se sente a si mesma decaída. ou por sentir-se em plenitude. de nenhum antes. via-se. Nos salões do último século chegava indefectivelmente uma hora em que as damas e seus poetas amestrados faziam entre si esta pergunta: Em que época quisera você haver vivido? E eis aqui que cada um. Diante dos diagnósticos de decadência eu recomendo o seguinte raciocínio: A decadência é. que se prefere a si mesma. Trata-se de um erro ótico que provém de múltiplas causas. Contrasta este diagnóstico. é a vida autêntica. ao qual falta. o provinciano sensível percebia uma melancolia não menos penosa. e não advertem que tudo isso é só a superfície da história. por exemplo. não pode em nenhum sentido sério chamar-se decadente. é a verdadeira plenitude da vida. sua outra metade. e isso secretamente nos regozija. em todo o essencial igual a hoje. com o queixume de decadência que choraminga nas páginas de tantos contemporâneos. ou Sêneca . claro está. fecunda a fera. que eu saiba. é certo. encarnando a figura de sua própria vida. Mas. isto é. se alarga sem nos libertar. que a realidade histórica é. que o progresso consistia só em avançar com todos os sempres sobre um caminho idêntico ao que já estava sob nossos pés. não é evidente que a sensação de nossa época se parece mais à alegria e alvoroço de meninos que escaparam da escola? Agora já não sabemos o que vai haver amanhã no mundo. olham da história só a política ou a cultura.e via as majestosas construções imperiais. ligado ao passado. Outro dia veremos algumas.Lucano. em minha opinião perigosa. que se levanta delas como a evaporação das águas mortas. mas sim irmã da que inquieta o mar. portanto. antes que isso e mais fundo que isso. símbolo de poder definitivo. Decai-se de um estado superior para um estado inferior. como a culminação do passado. sobre cujos ombros acreditava estar. Pois acontece que precisamente o nosso goza neste ponto de uma sensação estranhíssima. debilitada e insípida. E é que. embora sentindo-se. portanto. Já nada novo podia haver no mundo. como se conhece que uma vida se sente ou não decair? Para mim não cabe dúvida a respeito do sintoma decisivo: uma vida que não prefere outra nenhuma de antes. Não há mais que um ponto de vista justificado e natural: instalar-se nessa vida. não natural. ainda que de signo inverso: a melancolia dos edifícios eternos. embora olhada por dentro de si mesma. o mundo está em decadência porque já não se fuma apenas com boquilhas de âmbar. faz tremeluzir a estrela. esse século XIX ficava. elástica. ser imprevisível. um puro afã de viver. mas hoje quero antecipar a mais óbvia: provém de que. E se há uma melancolia das ruínas. a rigor. não a mesma. sentia contrair-se seu coração.

que não reconhece em nada pretérito possível modelo ou norma. uma infância. de ciência ou de política -. os sevilhanos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. provincial. levam a cara voltada para trás. Isto é.A rebelião das massas. Eu resumia. que o mundo. Há pouco mais de um ano.por que não dizê-lo? -. a vida. a altitude do tempo que ele anuncia. Nossa vida sente-se. olham o passado que neles se cumpre. que engendra a inquietude peculiar da vida nestes anos. não obstante. sente-se sobre todos os tempos sidos e por cima de todas as conhecidas plenitudes. O europeu está só. O resto do espírito tradicional evaporou-se. parece. mais ou menos confusa. que o passado íntegro ficou pequeno para a humanidade atual. há tempos. Como poderá sentir-se decadente? Pelo contrário: o que aconteceu é que. que os mortos não morreram de brincadeira. relativamente clássicas . O CRESCIMENTO DA VIDA O império das massas e o ascenso de nível. mas completamente. Pois bem: que diria sinceramente qualquer homem representativo do presente a quem se fizesse uma pergunta parecida? Eu creio que não é duvidoso: qualquer passado. sem excluir nenhum. Fortíssima e ao mesmo tempo insegura de seu destino. Sentimos que de repente ficamos sós sobre a terra os homens atuais. sem estar segura de não ser agonia. e ao mesmo tempo sente-se como um começo. quero dizer que o conteúdo da vida no homem de tipo médio é hoje todo o planeta. como Pedro Schlehmil. de atitudes vãs .o século de Péricles. Orgulhosa de suas forças e ao mesmo tempo temendo-as. que já não nos podem ajudar.sejam de arte. em pleno atualismo . É. não são por sua vez mais que sintoma de um fato mais completo e geral. lhe daria a impressão de um recinto angustioso onde não podia respirar. entretanto. de tanto sentir-se mais vida. IV. Temos de resolver nossos problemas sem colaboração ativa do passado. Que expressão escolheremos? Talvez esta: mais que os demais tempos e inferior a si mesma. A vida mundializou-se efetivamente. Não é fácil formular a impressão que de si mesma tem nossa época: crê ser mais que as demais. sem mortos viventes perto de si. que o homem do presente sente que sua vida é mais vida que todas as antigas. as normas. e com ele e nele. de maior tamanho que todas as vidas. ou dito às avessas. toda a atenção ao passado. um começo. E o que acontece sempre que chega o meio-dia (32) Qual é. onde se haviam preparado os valores vigentes. de mau gosto. Isto bastaria para nos fazer suspeitar dos tempos de plenitude. uma alvorada. e sobrevinda ao cabo de tantos séculos sem descontinuidade de evolução. cresceu. e entretanto. Esta intuição de nossa vida de hoje anula com sua claridade elemental toda lucubração sobre decadência que não seja muito cautelosa. Daí que pela primeira vez nos encontremos com uma época que faz tábua rasa de todo classicismo. que cada indivíduo vive habitualmente todo o mundo. as pautas não nos servem. perdeu sua sombra.htm (31 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . tal situação na forma seguinte: "Esta grave dissociação de pretérito e presente é o fato geral de nossa época e nela vai incluída a suspeita. simplesmente. Os modelos. Este fato é quase grotesco e incrível em sua simples evidência. de repente. perdeu todo o respeito. uma iniciação. em resumo. o Renascimento -. a altura de nosso tempo? Não é plenitude dos tempos. Olhamos para trás e o famoso Renascimento nos parece um tempo angustiosíssimo.

Civilizações inteiras e impérios dos quais nem o nome se suspeitava. O jornal ilustrado e o cinema trouxeram estes remotíssimos pedaços de mundo à visão imediata do vulgo. De onde resulta que a vida. Cada coisa . que carecem por completo de sentido. fazer. em seu modo "comprar". Dir-me-ão que. acompanhavam. quero dizer. O espaço e o tempo físicos são o absolutamente estúpido do universo. consumir em menos tempo vital mais tempo cósmico. Segundo o princípio físico de que as coisas estão ali onde atuam. um do presente e outro do século XVIII. A quantidade de possibilidades que se abrem ante o comprador atual chega a ser praticamente ilimitada. mas serve para anular aqueles. A velocidade feita de espaço e tempo não é menos estúpida que seus ingredientes. gozar de mais idas e mais vindas. sublinharia mais o que tento dizer. tentar. Mas. Era para o homem questão de honra triunfar no espaço e no tempo cósmicos (33). e não há razão para estranhar de que nos produza um pueril prazer fazer funcionar a vazia velocidade. pelo contrário. tornamos possível ser o aproveitamento vital. hora a hora. Esta proximidade do longínquo. gozar ou repelir. em seus jornais populares. A pré-história e a arqueologia descobriram âmbitos históricos de longitude quimérica. Cada pedaço de terra não está já recluído em seu lugar geométrico. vivificamo-los. Ao anulá-los.A rebelião das massas. comprar. o que estava acontecendo com uns homens junto ao Pólo. reconheceremos hoje a qualquer ponto do globo a mais efetiva ubiqüidade. com fortuna proporcionalmente igual. podemos estar em mais lugares que antes. nomes todos que significam atividades vitais. encontrar. o crescimento substantivo do mundo não consiste em suas maiores dimensões. Não é fácil imaginar com o desejo um objeto que não exista no mercado. esta presença do ausente. Hoje podem comprar-se muitas mais. que sobre o fundo ardente da campina bética passavam blocos de gelo à deriva. O fato é falso.tome-se a palavra em seu mais amplo sentido . Mas finalmente não me importaria que o fato fosse certo. que me parece essencialíssimo: nossa vida é em todo instante e antes que nada consciência do que nos é possível. em definitivo.htm (32 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra como tais. que possuam fortuna igual. Por isso é mais justificado do que sói crer-se o culto à velocidade que transitoriamente exercitam nossos contemporâneos. proporcionalmente ao valor do dinheiro em ambas as épocas. por exemplo. Mas este aumento espácio-temporal do mundo não significaria por si nada. mas para muitos efeitos vitais atua nos demais pontos do planeta. Imaginem-se dois homens. mas é também antes uma eleição. com a qual matamos espaço e jugulamos tempo. Uma estupidez não se pode dominar a não ser com outra.é algo que se pode desejar. porque a indústria barateou quase todos os artigos. A atividade de comprar conclui em decidir-se por um objeto. e vice-versa: não é possível que um homem imagine e deseje quanto se acha à venda. mas em que inclua mais coisas. o homem de hoje não poderá comprar mais coisas que o do século XVIII. E o mundo cresceu também temporalmente. A diferença é quase fabulosa. e compare-se o repertório de coisas em venda que se oferece a um e a outro. careceria de sentido chamá-la assim. Quando se fala de nossa vida sói esquecer-se disto. desfazer. Mas ai está: esse estranhíssimo fato de nossa vida possui a condição radical de que sempre encontra ante si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Se em cada momento não tivéssemos à nossa frente mais que uma só possibilidade. Seria apenas pura necessidade. foram anexados a nossa memória como novos continentes. Tome-se qualquer uma de nossas atividades. aumentou em proporção fabulosa o horizonte de cada vida. e a eleição começa por perceber as possibilidades que oferece o mercado.

que a antiga física de Newton ocupa neles apenas um sótão (36) E este crescimento extensivo se deve a um crescimento intensivo na precisão científica. mais problemas. Mas o crescimento da potencialidade vital não se reduz ao dito até aqui. algo à parte e alheio a nossa vida. Tanto vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos em um ambiente de possibilidades determinadas. Creio com isso descrever rigorosamente a consciência do homem atual. E em tudo isto não me refiro ao que possa significar como perfeição da cultura . dito de outra maneira. mais dados. os jornais e as conversações lhe fazem chegar a notícia destas performances intelectuais que os aparelhos técnicos recém-inventados confirmam desde as vitrinas. seu tom vital que consiste em sentir-se com maior potencialidade que nunca e parecer-lhe todo o pretérito afetado de pequenez.e as urbes são a representação da existência atual -. várias saídas. mago -. mas que o homem Einstein seja capaz de maior exatidão e liberdade de espírito (37) que o homem Newton. Na ordem intelectual encontra mais caminho de possível ideação. Não é. O mundo ou nossa vida possível é sempre mais que nosso destino ou vida efetiva. Não falei da atualidade da vida presente. e nós. se bem . Enquanto os ofícios ou carreiras na vida primitiva se numeram quase com os dedos de u'a mão . no que vai de século. Entretanto. Mundo é o repertório de nossas possibilidades vitais. mais pontos de vista. Porque coisa similar acontece na ciência. Como o cinematógrafo e a ilustração põem ante os olhos do homem médio os lugares mais remotos do planeta. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Esta tem de se concretizar para realizar-se. esta ampliou e inverossimilmente seu horizonte cósmico. do mesmo modo que o campeão de boxe dá hoje murros de maior calibre que jamais se deram. uma coisa tão pequena.pastor. o programa de misteres possíveis hoje é superlativamente grande. É um fato constante e notório que no esforço físico e esportivo se cumpram hoje performances que superam enormemente quantas se conhecem do passado. Não basta admirar cada uma delas e reconhecer o record que batem. ou. Não quero dizer com o dito que a vida humana seja hoje melhor que em outros tempos. que por serem várias adquirem o caráter de possibilidades entre as quais havemos de decidir (34). hoje inchou até se converter em todo um sistema planetário. Em um par de lustros tão somente. Tudo isso decanta em sua mente a impressão de fabulosa prepotência. Porque este é o sentido originário da idéia (mundo). O átomo. Mas agora importa-me só fazer notar como cresceu a vida do homem na dimensão de potencialidade.e o fenômeno tem mais gravidade do que se supõe . enfim. A física de Einstein move-se em espaços tão vastos. dentro dele. Nos prazeres acontece coisa parecida. Daí que nos parece o mundo uma coisa tão enorme. mas apenas de seu crescimento. de seu avanço quantitativo ou potencial. mais ciências. A física de Einstein está feita atendendo às mínimas diferenças que antes se desprezavam e não entravam em conta por parecer sem importância. nossa potencialidade vital.A rebelião das massas. Representa o que podemos ser. Toda vida é achar-se dentro da "circunstância" ou mundo (35). mas advertir a impressão de que o organismo humano possui em nosso tempo capacidades superiores às que nunca teve. pois. para o homem de vida média que habita as urbes . Não ressalto que a física de Einstein seja mais exata que a de Newton. as possibilidades de gozar aumentaram. Aumentou também em um sentido mais imediato e misterioso.htm (33 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . A este âmbito costuma chamar-se "as circunstâncias". limite ontem do mundo. Conta com um âmbito de possibilidade fabulosamente maior que nunca. chegamos a ser só uma parte mínima do que podemos ser.não é seu elenco tão exuberante como nos demais aspectos da vida. mas que é sua autêntica periferia. mas ao crescimento das potências subjetivas que tudo isso supõe. caçador.isso não me interessa agora -. de uma maneira fantástica. guerreiro. portanto.

todos os clorofórmios .cultura e nações -. A atitude que a ordenança romana impunha à sentinela da legião era manter o indicador sobre os lábios para evitar a sonolência e manter-se atenta.que tinha todos os talentos. em espécie. a barbárie. até sua pequena víscera palpitante e cruenta.. se viam a si mesmos como decaídos de maiores alturas. ainda que fosse incapaz de realizá-los.A rebelião das massas. veria outras épocas como superiores a ele e isto seria uma e mesma coisa com estimá-las e admirá-las e venerar os princípios que as informaram. Isto nos leva a falar da "plenitude" que sentiram alguns séculos diante de outros que. Era necessária esta descrição para obviar as lucubrações sobre decadência. menos o talento para usar deles. com a inquietude a um tempo dolorosa e deliciosa que vai encerrada em cada minuto se sabemos vivê-lo até o seu centro. de antigas e deslumbrantes idades de ouro.É. Sente-se perdido em sua própria abundância. Bastaria isso para falar da decadência ocidental? De modo algum. Recorde-se o raciocínio que eu fazia. Por si mesmo não seria isto um mau sintoma: significaria que voltamos a tomar contato com a insegurança essencial a todo viver. Não vale falar de decadência sem precisar que é o que decai. não reconhecer épocas clássicas e normativas. o uso. de tanto nos parecer tudo possível. Porque esse é precisamente seu problema. esforçando-nos por ganhar segurança e insensibilizar-nos para o dramatismo radical do nosso destino. Por esta razão me detive a considerar um fenômeno que sói desatender-se: a consciência ou sensação que toda época tem de sua altitude vital. e. Porque são estas decadências diminuições parciais. Geralmente. Não está mal esse ademane. pressentimos que é possível o pior: o retrocesso. Nosso tempo teria ideais claros e firmes. pois. Refere-se o pessimista vocábulo à cultura? Há uma decadência da cultura européia? Há somente uma decadência das organizações nacionais européias? Suponhamos que sim. mas não é dono de si mesmo. mas que não sabe o que realizar. sobre decadência ocidental que pulularam no ar do último decênio. benéfico que pela primeira vez depois de quase três séculos nos surpreendamos com a consciência de não saber o que vai acontecer amanhã. recusamos tomar essa pulsação pavorosa que faz de cada instante sincero um miúdo coração transeunte. Daí essa estranha dualidade de prepotência e insegurança que se aninha na alma contemporânea. Hoje. vertendo sobre ele o costume. a decadência (38). Só há uma decadência absoluta: a que consiste numa vitalidade minguante. Domina todas as coisas. e que me parece tão simples como evidente. senão ver-se a si mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a elas. mais saber. que parece imperar um maior silêncio ao silêncio noturno. Muitas coisas pareciam já impossíveis ao século XIX. mais ainda: por desentender-se de todo pretérito. o tópico . Mas a verdade é estritamente o contrário: vivemos em um tempo que se sente fabulosamente capaz para realizar. E concluía eu fazendo notar o fato evidentíssimo de que nosso tempo se caracteriza por uma estranha presunção de ser mais que todo o tempo passado. firme em sua fé progressista. A segurança das épocas de plenitude - file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Se se sentisse decaído. o mundo atual vai como o mais infeliz que tenha havido: puramente ao acaso. Todo aquele que se coloque ante a existência numa atitude séria e se faça dela plenamente responsável.htm (34 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Acontece-lhe como se dizia do Regente durante a infância de Luiz XV . e esta só existe quando se sente. para poder ouvir a secreta germinação do futuro. sentirá certo gênero de insegurança que o incita a permanecer alerta. Duvido que sem se afiançar bem nesta advertência se possa entender o nosso tempo. inversamente. relativas a elementos secundários da história . Com mais meios. mais técnicas que nunca.

a vida se lhes escapou dentre as mãos. como repertório de possibilidades. primeiro.o mundo é sempre este. perderam a agilidade e a eficácia. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo . imediatamente. UM DADO ESTATÍSTICO Este ensaio quisera vislumbrar o diagnóstico de nosso tempo. A vida não elege seu mundo. Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. exuberante. sem desvios nem retrocessos. decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. Tal tem sido a deserção das minorias dirigentes. e por isso mesmo mais problemática. supõem que o desejado por eles como futuro ótimo se realizará. sempre novo.A rebelião das massas. deixaram de estar alerta. este de agora . antecipações e ideais. Mas quem decide é o nosso caráter.é o que de nossa vida nos é dado e imposto. falso dizer que na vida "decidem as circunstâncias ". princípios. O mesmo que o liberalismo progressista é o socialismo de Marx.. mas viver é encontrar-se. o progressista não se preocupa do futuro. Assim. Também nela há. consequentemente.htm (35 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Vai enunciada a primeira parte dele. que pode resumir-se assim: nossa vida. soltaram o leme da história. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão. antes de tudo. convém que nos deslizemos por sua outra ladeira. e por isso mesmo. pois. com necessidade parelha à astronômica. impõe-nos várias e. sem rumo conhecido. decidimos não decidir. e hoje anda solta. que é. cuja trajetória está absolutamente predeterminada. vida possível. certo de que já o mundo irá em linha reta. fez-se por completo insubmissa.é uma ilusão ótica que leva a despreocupar-se do porvir.consiste em todo o contrário. Tem de inventar seu próprio destino. Mas assim como seu formato é maior. peripécias nem inovações essenciais. Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. normas e ideais legados pela tradição. Mas agora é preciso completar o diagnóstico. Tudo isto vale também para a vida coletiva. Sob sua máscara de generoso futurismo. retrai sua inquietude do porvir e se instala num definitivo presente. mais perigosa. de nossa vida atual. o que podemos ser.. nos força. Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema. Ninguém se preocupou de preveni-los. Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade. A circunstância . A vida. em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. É mais vida que todas as vidas. um horizonte de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a decidir o que vamos ser neste mundo. V.as possibilidades . encarregando de sua direção a mecânica do universo. convencido de que não tem surpresa nem segredos. Em vez de impor-nos uma trajetória. que se acha sempre ao reverso da rebelião das massas. Não poderá estranhar que hoje o mundo pareça vazio de projetos. ante o qual temos de nos decidir. Depois de haver insistido na vertente favorável que apresenta o triunfo das massas. inexoravelmente. É. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil. é magnífica. Protegidos ante sua própria consciência por essa idéia. é também. a eleger. Isso constitui o que chamamos o mundo. Não pode orientar-se no pretérito (39). Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir. Mas já é tempo de que voltemos a falar desta. superior a todas as historicamente conhecidas. transbordou todos os caminhos. assim na última centúria . Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida.

Assim tem sido sempre o Poder público quando o exerceram diretamente as massas: onipotente e efêmero. a inundou. do sufrágio universal. vive ao dia. programas de vida coletiva. ou. não aparece como começo de algo cujo desenvolvimento ou evolução seja imaginável. E. fecha-se no presente e diz com perfeita sinceridade: "Sou um modo anormal de governo que é imposto pelas circunstâncias". Hoje acontece uma coisa muito diferente. Quer dizer. não tem caminho prefixado. com efeito. não vai. que analisemos seu caráter. Por outra parte. Por isso não constrói nada.A rebelião das massas. No sufrágio universal não decidem as massas. que é estranho não conste em toda cabeça que se preocupe dos assuntos contemporâneos. sem projeto. o Governo. sejam enormes. Não se diga que isto era o que acontecia já na época da democracia. O homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e caminha ao acaso. pela urgência do presente. em toda a longitude de doze séculos -. Estas são tão poderosas. retrocedendo ao começo deste ensaio. Em nosso tempo. em pouco mais de um século. do tipo de homem dominante nela. trajetória antecipada. A chave para esta análise encontra-se quando. Se se observa a vida pública dos países onde o triunfo das massas avançou mais . não se apresenta como um porvir franco. O fenômeno é sobremaneira estranho. Esta resolução emana do caráter que a sociedade tenha. ainda à custa de acumular com seu emprego maiores conflitos sobre a hora próxima. e se não basta. não alude para nada ao futuro. uma resolução que elege e decide o modo efetivo da existência coletiva. repito. vive sem programa de vida. é ele quem decide. senão. O Poder público acha-se em mãos de um representante de massas. este dado para compreender o triunfo das massas e quanto nele se reflete e se anuncia. E este tipo de homem decide em nosso tempo. Estas apresentavam seus "programas" . entretanto. nos perguntamos: de onde vieram todas estas multidões que agora enchem e transbordam o cenário histórico? Há alguns anos destacava o grande economista Werner Sombart um dado simplicíssimo. Bastaria. Este simplicíssimo dado basta por si só para esclarecer nossa visão da Europa atual.são os países mediterrâneos -. que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não sabe aonde vai porque. põe na pista de todo esclarecimento.portanto. ainda que suas possibilidades. surpreende notar que neles se vive politicamente ao dia. domina o homem-massa. a população européia ascende de 180 a 460 milhões! Presumo que o contraste destas cifras não deixa lugar a dúvidas a respeito dos dotes prolíficos da última centúria. São donas do Poder público em forma tão incontrastável e superlativa. pois. Em suma. deve ser acrescido como o somando mais concreto ao crescimento da vida como antes fiz constar. não por cálculos do futuro. Daí que sua atuação se reduza a evitar o conflito de cada hora. não a resolvê-lo. não significa um anúncio claro de futuro. Convém. mas a escapar dele imediatamente. o que é o mesmo. Mas ao mesmo tempo nos mostra esse dado que é infundada a admiração com que ressaltamos o crescimento de países novos como os Estados Unidos da América.excelente vocábulo -. Quando esse poder público tenta justificar-se. e. seus poderes. empregando os meios que sejam. Em três gerações produziram gigantescamente massa humana que. O dado é o seguinte: desde que no século VI começa a história européia até o ano 1800 portanto. senão que seu papel consistiu em aderir à decisão de uma ou outra minoria. a Europa não consegue chegar a outra cifra de povoação senão a de 180 milhões de habitantes. Pois bem: de 1800 a 1914 . que seria difícil encontrar na história situações de governo tão prepotentes como estas.htm (36 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Maravilha-nos seu crescimento. a rigor. Neles convidava-se a massa a aceitar um projeto de decisão. possibilidades. que aniquilaram toda possível oposição. pelo contrário. o Poder público. depois. Os programas eram. lançada como uma torrente sobre a área histórica.

Se esse tipo humano continua dono da Europa e é definitivamente quem decide. a tirar estas conseqüências: primeira. Não é. senão que mercê a seu contraste põe em relevo a impetuosidade do crescimento. com efeito. inoculou-se-lhes atropeladamente o orgulho e o poder dos meios modernos. Deram-se-lhe instrumentos para viver intensamente. mas não o espírito. pois. Daí que às vezes produza a impressão de um homem primitivo surgido inesperadamente em meio a uma velhíssima civilização. Por isto não querem nada com o espírito.htm (37 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . É frívola e ridícula toda preferência dos princípios que inspiraram qualquer outra idade pretérita se antes não demonstra que se encarregou deste fato magnífico e tentou digeri-lo. sem problemas tradicionais e complexos. E. quando o maravilhoso é a proliferação da Europa. que não era fácil saturá-los da cultura tradicional. Porque esta impetuosidade significa que têm sido projetados a magotes sobre a história montões e montões de homens em ritmo tão acelerado. Mas ainda que não seja tão conhecido como devera o dado calculado por Werner Sombart.que põem em perigo iminente os princípios mesmos a que deveram a vida. encontramo-nos com a experiência de que ao submeter a semente humana ao tratamento destes dois princípios. que a democracia liberal fundada na criação técnica é o tipo superior de vida pública até agora conhecido. Fato tão exuberante força-nos. que esse tipo de vida não será o melhor imaginável. não se pode fazer outra coisa senão ensinar às massas as técnicas da vida moderna. ao século passado a glória e a responsabilidade de haver soltado sobre a face da história as grandes multidões. A América está feita com a sobra da Europa. devia haver nela quando na sua atmosfera se produzem tais colheitas de fruto humano.A rebelião das massas. Algo extraordinário. Se é evidente que havia nele algo extraordinário e incomparável. o tipo médio do atual homem europeu possui uma alma mais sã e mais forte que as do passado século. A Europa cresceu no século passado muito mais que a América. terceira.os homens-massa rebeldes . certas constitutivas insuficiências quando engendrou uma casta de homens . incomparável. porém muito mais simples. que é suicida todo retorno a formas de vida inferiores à do século XIX. mas não foi possível educá-las. mas o que imaginemos melhor terá de conservar o essencial daqueles princípios. se não preferirmos ser dementes. é preciso revolver-se contra o século XIX. num século chegou a 100 milhões de homens. Por essa razão oferece este fato a perspectiva mais adequada para julgar com eqüidade essa centúria. pois. E ultrapassando toda possível sofisticação. Eis aqui outra razão para corrigir o espelhismo que supõe uma americanização da Europa. Aparece a história inteira como um gigantesco laboratório onde se fizeram os ensaios imagináveis para obter uma fórmula de vida pública que favorecesse a planta "homem". democracia liberal e técnica. Esta é a que agora nos importa. Uma vez reconhecido isto com toda a claridade que demanda a claridade do próprio fato. o aumento de população o que nas cifras transcritas me interessa. As técnicas jurídicas e materiais se file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. num só século. e as novas gerações dispõem-se a tomar o comando do mundo como se o mundo fosse um paraíso sem rastros antigos. bastarão trinta anos para que nosso continente retroceda à barbárie. Nas escolas que tanto orgulhavam o passado século.a velocidade de aumento em sua povoação lhe é peculiar. mas não sensibilidade para os grandes deveres históricos. não o é menos que deveu padecer certos vícios radicais. era de sobra notório o fato confuso de haver aumentado consideravelmente a povoação européia para insistir nele. triplicasse a espécie européia. Corresponde. segunda. Nem sequer o traço que pudera aparecer mais evidente para caracterizar a América .

htm (38 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Porque a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o que Rathenau chamava "a invasão vertical dos bárbaros". que é pura potência do maior bem e do maior mal. Importa. como se produziu? Convém responder conjuntamente a ambas as questões. Enquanto em proporção diminuíam as grandes fortunas e se tornava mais dura a existência do operário industrial. O que antes se houvera considerado comum benefício da sorte que inspirava humilde gratidão ao destino. A vida toda se contrairá. olhe-a de longe. tem de lutar para consegui-lo. O homem que agora tenta pôr-se à frente da existência européia é muito diferente daquele que dirigiu o século XIX. Desde 1900 começa também o operário a ampliar e assegurar a sua vida. Hegel. com um bem-estar posto diante dele solicitamente por uma sociedade e um Estado que são um portento de organização. por isso mesmo é o único que. A que distância? Muito simples: à distância justa que o impeça ver o nariz de Cleópatra. VI. A atual abundância de possibilidades se converterá em efetiva míngua. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. com efeito. produzirá uma catástrofe ". pois. Por isso. o homem médio de qualquer classe social encontrava cada dia mais franco seu horizonte econômico. mas que se exige. compreendemos do pretérito ou do presente. Se o porvir não oferecesse um flanco à profecia.A rebelião das massas.a vida política e a não política -? Por que é como é. Nunca pode o homem médio resolver com tanta folga seu problema econômico. Inúmeras vezes tem sido profetizada. como o homem médio. que com progressiva abundância vai engendrando o século XIX? Desde já. Qualquer mente perspicaz de 1820. não poderíamos tampouco compreendê-la quando logo se cumpre e se faz passado. quero dizer. Situação de tal modo aberta e franca tinha por força que decantar no estrato mais profundo dessas da história. nada novo acontece que não tenha sido previsto há cem anos. Não se encontra. em verdade. de 1850. Cada dia ajuntava um novo luxo ao repertório de seu standard vital. volatilizarão com a mesma facilidade com que se perderam tantas vezes segredos de fabricação (40). em verdadeira decadência. muito conhecer a fundo este homem-massa. E. Entretanto. pode. impotência angustiosa. gritava de um penhasco alcantilado da Engadina o bigodudo Nietzche. um aspecto de omnimoda facilidade material. que é uma época revolucionária. "As massas avançam!" dizia. Cada dia sua posição era mais segura e mais independente do arbítrio alheio. Que aspecto oferece a vida desse homem multitudinário. É falso dizer que a história não é previsível. nossa época. mas foi produzido e preparado no século XIX. prever a gravidade da situação histórica atual. se o senhor quer ver bem sua época. COMEÇA A DISSECAÇÃO DO HOMEM-MASSA Como é este homem-massa que domina hoje a vida pública . "Vejo subir a preamar do nihilismo! ". porque se prestam mútuo esclarecimento. por um simples raciocínio a priori. A idéia de que o historiador é um profeta pelo avesso resume toda a filosofia. Certamente que só cabe antecipar a estrutura geral do futuro. apocalíptico. 1880. converteu-se num direito que não se agradece. anunciava Augusto Comte. "Sem um novo poder espiritual. escassez.

um homem à parte de todos os demais homens. "vida" havia significado. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. novo no físico e no social. mas todos eles são parentes. Quer dizer que em todas essas ordens elementares e decisivas a vida se apresentou ao homem novo isenta de impedimentos. e assim é preciso compreender perfeitamente suas inexoráveis conseqüências. que. antes de tudo. e este do que caracteriza ao XVI. com efeito. O século XIX foi essencialmente revolucionário. Trata-se. Nada o obriga a conter sua vida. mas que colocou o homem médio . Não há ninguém civilmente privilegiado. Cria-se um novo cenário para a existência do homem. contanto que não se entenda por esta só a jurídica e social. Por isso não há exageração nenhuma em dizer que o homem engendrado pelo século XIX. praticamente ilimitada.A rebelião das massas. O homem médio. tampouco nas formas da vida pública encontra-se ao nascer com entraves e limitações. O que teve de tal não deve ser buscado no espetáculo de suas barricadas. A honra do século XIX não estriba em sua invenção. para eles a vida um destino angustiante . Três princípios fizeram possível esse novo mundo: a democracia liberal. limitação. A esta facilidade e segurança econômica ajuntam-se as físicas: o confort e a ordem pública. Foi. Sentiram o viver a nativitate como um cúmulo de impedimentos que era forçoso suportar. Ninguém desconhece isso.no econômico e no físico -. até mesmo para o rico e poderoso. Ao contrário. tão graciosa e aguda. A revolução não é a sublevação contra a ordem preexistente. não acha ante si barreiras sociais nenhumas. o mundo era um âmbito de pobreza. alojar-se na estreiteza que deixavam. Porque esta última é a que não faltou nunca até cem anos científica .em condições de vida radicalmente opostas às que sempre a haviam rodeado. similares e ainda idênticos no essencial se se confronta com eles este homem novo. Jamais em toda a história havia sido posto o homem numa circunstância ou contorno vital que se parecesse nem de longe ao que essas condições determinam. Quer dizer.a grande massa social . é. numa palavra. A vida marcha sobre cômodos carris. simplesmente. sem que coubera outra solução que não fosse adaptar-se a eles. mas a implantação de uma nova ordem que tergiversa a tradicional. obrigação.física e administrativa -. dificuldade e perigo (41) O mundo que desde o nascimento rodeia o homem novo não o move a limitar-se em nenhum sentido. Os dois últimos podem resumir-se num: a técnica.htm (39 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . não constituem uma revolução. pelo contrário. e não há verossimilitude de que intervenha nela nada violento e perigoso. pressão. mas procedem das duas centúrias anteriores. Também aqui "ampla é Castela". de nosso velho povo: "ampla é Castela". diga-se opressão. O do século XVIII se diferencia. Virou pelo avesso a existência pública. a experimentação científica e o industrialismo. Tal imagem limita-se a incutir nas almas médias uma impressão vital. O homem médio aprende que todos os homens são legalmente iguais. dependência. está claro. que é implantada pelo século XIX. para os efeitos da vida pública. Não existem os "estados" nem as "castas". Se se quer. desde a segunda metade do século XIX. do dominante no XVII. Nenhum desses princípios foi inventado pelo século XIX. Mas não basta com o reconhecimento abstrato. A compreensão deste fato e sua importância surgem automaticamente quando se recorda que essa franquia vital faltou por completo aos homens vulgares do passado. que podia expressar-se com a perífrase. de uma inovação radical no destino humano. Para o "vulgo" de todas as épocas. esquecendo a cósmica. Mas é ainda mais clara a contraposição de situações se do material passamos ao civil e moral. mas em sua implantação.

que esse mundo do século XIX e começos do XX não tem apenas as perfeições e amplitudes que de fato possui. Como não vêem nas vantagens da civilização um invento e construção prodigiosos. todavia hoje muito poucos homens duvidam de que os automóveis serão dentro de cinco anos mais confortáveis e mais baratos que os do dia. O sinal é formal. a sua disposição. apesar de alguns signos que iniciam uma pequena brecha nessa fé rotunda. em princípio. Acredita-se nisto tão firmemente como na próxima saída do sol.genial de inspirações e de esforços -. como se fossem direitos nativos. o homem vulgar. lhe houvesse obrigado a renunciar a um desejo. Mas as novas massas encontram uma paisagem cheia de possibilidades e além disso segura.htm (40 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . porque não falta. A criatura submetida a este regime não tem a experiência de suas próprias limitações. posta a sua disposição como o ar. de sua pessoa. e tudo isso presto. mas que além disso sugere a seus habitantes uma segurança radical em que amanhã será ainda mais rico. dos quais o menor malogro volatilizaria rapidissimamente a magnífica construção. Isto nos leva a apontar no diagrama psicológico do homem-massa atual dois primeiros traços: a livre expansão de seus desejos vitais. e o meio que empregam sói ser destruir as padarias. Ao homem médio de outras épocas ensinava-lhe quotidianamente seu mundo esta elemental sabedoria. E. e a radical ingratidão a tudo quanto tornou possível a facilidade de sua existência. sem depender de seu prévio esforço. ao encontrar-se com esse mundo técnica e socialmente tão perfeito. No mundo. como se gozasse de um espontâneo e inesgotável crescimento. Porque. portanto. porque era um mundo tão toscamente organizado. À força de evitar-lhe toda pressão em redor. sobretudo a não contar com ninguém como superior a ele. pelo visto. Mimar não é limitar os desejos. Todavia hoje. Pois acontece . é origem de que as massas beneficiárias não a considerem como organização. porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao conjunto do que "está aí". não lhe apresenta veto nem contenção alguma. Estas massas mimadas são suficientemente pouco inteligentes para crer que essa organização material e social. crêem que seu papel se reduz a exigi-las peremptoriamente.A rebelião das massas. com efeito. Assim teria aprendido esta essencial disciplina: "Aí termino eu e começa outro que pode mais do que eu. que. Assim se explica e define o absurdo estado de ânimo que essas massas revelam: não lhes preocupa mais que seu bem-estar e ao mesmo tempo são insolidárias das causas desse bem-estar. abundante nem estável. todo choque com outros seres. a reduzir-se. que só com grandes esforços e cautelas se pode sustentar. Herdeiro de um passado extensíssimo e genial . do que dizemos "é natural". o novo vulgo tem sido mimado pelo mundo circunstante. e se acostuma a não contar com os demais. Esta sensação da superioridade alheia só podia ser-lhe proporcionada por quem. já que tampouco falha.e isto é muito importante . dar a impressão a um ser de que tudo lhe está permitido e a nada está obrigado. mas pelo contrário fustiga seus apetites. com efeito. Nos motins que a escassez provoca soem as massas populares buscar pão. como achamos o sol no alto sem que nós o tenhamos subido ao ombro. Menos ainda admitirá a idéia de que todas estas facilidades continuam apoiando-se em certas difíceis virtudes dos homens. mas perfeito e mais amplo. podem crescer indefinidamente. que as catástrofes eram freqüentes e não havia nele nada seguro. mas como natureza. Um e outro traço compõem a conhecida psicologia da criança mimada. há dois: eu e outro superior a mim". e é quase tão perfeita como a natural. e não pensa nunca nos esforços geniais de indivíduos excelentes que supõe sua criação. Nenhum ser humano agradece a outro o ar que respira. chega a crer efetivamente que só ele existe. a conter-se. esta: a própria perfeição com que o século XIX deu uma organização a certas ordens da vida. não erraria quem utilizasse esta como uma quadrícula para olhar através dela a alma das massas atuais. mais forte que ele. Isto pode servir como símbolo do comportamento que file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. crê que o produziu a natureza. Minha tese é. ao que parece. pois. é de sua própria origem.

sua vida era constantemente regulada por esta instância suprema de que dependia. Mas a nova massa encontra a plena franquia vital como estado nativo e estabelecido. superior a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a vida. abandonar-se tranqüilamente a si mesmo. Por que não. limitações de destino e dependência. a seus olhos. exceção que. sem causa especial nenhuma. ter de contar com o que nos limita". portanto. a voz novíssima grita: "Viver é não encontrar limitação alguma. deixa de apelar e sente-se soberano de sua vida. nada é perigoso e. Porque este se sentiu sempre constitutivamente condicionado a limitações materiais e a poderes superiores sociais. Enquanto no pretérito viver significava para o homem médio encontrar a sua volta dificuldades. escassez. como a coisa mais natural do mundo. a contar em todo momento com outras instâncias. Como agora a circunstância não o obriga. E quando não a isto. nos quais baseia tal afirmação de sua pessoa? Nunca o homem-massa teria apelado a nada fora dele se a circunstância não lhe houvesse forçado violentamente a isso. o homem seleto ou excelente está constituído por uma íntima necessidade de apelar de si mesmo a uma norma além dele. por isso mesmo. como tal. era devida a alguma causa especialíssima. ninguém é superior a ninguém".A rebelião das massas. segundo vemos. Mas o homem que analisamos habitua-se a não apelar de si mesmo a nenhuma instância fora dele. a um enorme esforço e ele sabia muito bem quanto lhe havia custado. O semblante geral que ele nos apresenta será o semblante geral de nossa vida. até há pouco. opiniões. O labrego chinês acreditava. Porque esta impressão fundamental se converte em voz interior que murmura sem cessar umas como palavras no mais profundo da pessoa e lhe insinua tenazmente uma definição da vida que é. que o bem-estar de sua vida dependia das virtudes privadas que possuísse o seu Imperador. o eterno homem-massa. portanto. perene. perigos. conseqüente com sua índole. nada nem ninguém o força a compreender que ele é um homem de segunda classe. sem dúvida. VII. Por isso insisto tanto em fazer notar que o mundo de onde nasceram as massas atuais mostrava uma fisionomia radicalmente nova na história. Naturalmente: viver não é mais que tratar com o mundo. do homem-massa. e as feições fundamentais de nossa alma são impressas nela pelo perfil do contorno como por um molde. em mais vastas e sutis proporções usam as massas atuais ante a civilização que as nutre (42). À volta desta impressão primária e permanente vai se formar cada alma contemporânea. ao mesmo tempo. Se lograva melhorar sua situação. Esta experiência básica modifica por completo a estrutura tradicional. Em um e outro caso tratava-se de uma exceção à índole normal da vida e do mundo. VIDA NOBRE E VIDA VULGAR. Ingenuamente. sobretudo com instâncias superiores. como em volta da oposta se formaram as antigas. apetites. um imperativo. Portanto. o mundo novo aparece como um âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas. Praticamente nada é impossível. Contrariamente. sem necessidade de ser vão. se ascendia socialmente. preferências ou gostos. se. Está satisfeito tal como é.htm (41 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . limitadíssimo. que lhe era nominativamente favorável. em princípio. onde não se depende de ninguém. E se a impressão tradicional dizia: "Viver é sentir-se limitado e. atribuía-o a um golpe da sorte. OU ESFORÇO E INÉRCIA Somos aquilo que nosso mundo nos convida a ser. Nada de fora a incita a reconhecer nela própria limites e. incapaz de criar nem conservar a organização mesma que dá à sua vida essa amplitude e esse contentamento. tenderá a afirmar e considerar bom tudo quanto em si acha. Isto era.

a nobreza hereditária tem um caráter indireto. mas o filho quem. lhe falta. a comunica a seus antepassados. que a oprimam. distinguíamos o homem excelente do homem vulgar dizendo: que aquele é o que exige muito de si mesmo. o étimo do vocábulo "nobreza" é essencialmente dinâmico. que. como não seja o respirar e evitar a demência. caso uma força exterior não a obrigue a sair de si. Quando esta. a vida nobre fica contraposta à vida vulgar e inerte. graduam-se pelo número de gerações passadas que ficam prestigiadas. não. não pelos direitos.a vida nobre -.htm (42 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que se deu a conhecer sobressaindo sobre a massa anônima. e. Sua vida não lhe apraz se não a faz consistir em serviço a algo transcendente. e que não corresponde a esforço algum. noblesse oblige. Porque ao significar para muitos "nobreza de sangue" hereditária. invertem a ordem da transmissão. "Viver a gosto é de plebeu: o nobre aspira a ordenação e a lei" (Goethe). Mais lógicos os chineses. destacando com o seu esforço sua estirpe humilde. é a criatura de seleção. se fosse necessário e alguém se lho disputasse (44). O filho é conhecido porque seu pai conseguiu ser famoso. Lembre-se de que. são propriedade passiva. ao conceder os níveis de nobreza. certa contradição na transferência da nobreza. Nobre. O nobre originário obriga-se a si mesmo. ele. e este. pois. e não a massa. Mas o sentido próprio. cuja nobreza é efetiva. com efeito. entende-se o conhecido de todo o mundo. e. quem vive em essencial servidão. a incitação que produz no descendente a manter o nível de esforço que o antepassado alcançou. converte-se em algo parecido aos direitos comuns. É conhecido por reflexo. ainda neste sentido desvirtuado. Os antepassados vivem do homem atual. e não é o pai quem enobrece o filho. A nobreza ou fama do filho já é puro benefício. pelas obrigações. e há quem só torna nobre seu pai e quem alonga sua fama até o quinto ou décimo avô. se reclui a si mesma. Para mim. numa qualidade estática e passiva. por infelicidade. ao conseguir a nobreza. Sempre. Contra o que sói crer-se. Há. que se recebe e transmite como uma coisa inerte. nobreza é sinônimo de vida esforçada. Eu diria. e ao nobre hereditário obriga-o a herança. A nobreza define-se pela exigência. tão generoso do destino com que todo homem se encontra. Os privilégios da nobreza não são originariamente concessões ou favores. condenada à perpétua imanência. e precisamente para opô-lo à nobreza hereditária. pelo contrário. em princípio. dinâmico. Isto é a vida como disciplina . mais exigentes. Contrariamente. mas representam o perfil onde chega o esforço da pessoa. quanto porque é inerte. pois. supõe sua conservação que o privilegiado seria capaz de reconquistá-las em todo instante. eqüivale a esforçado ou excelente. é nobreza lunar como feita com mortos. puro usufruto e benefício. autêntico. de qualquer modo. sente desassossego e inventa novas normas mais difíceis. que o direito impessoal se tem e o pessoal se mantém. é luz espelhada. foi (45). são conquistas. os direitos comuns. Implica um esforço insólito que motivou a fama. a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência. pois. o famoso. Noblesse oblige. apenas contenta-se com o que é e está encantado consigo mesmo (43). Os direitos privados ou privilégios não são. posta sempre a superar-se a si mesma. como são os "do homem e do cidadão". a cujo serviço livremente se põe. já em decadência. desde o nobre inicial a seus sucessores.A rebelião das massas. atuante. o que não exige nada. no início. Daí que chamemos massa a este modo de ser homem . posse passiva e simples gozo. em suma: é.não tanto porque seja multitudinário. A "nobreza" não aparece como termo formal até o Império romano. Por isso não estima a necessidade de servir como uma opressão. Só fica nela de vivo. mas. Por isso. Nobre significa o "conhecido". estaticamente. Desta maneira. É irritante a degeneração sofrida no vocabulário usual por uma palavra tão inspiradora como "nobreza".

mas que se caracteriza por ignorar de raiz os princípios mesmos da civilização. Reitero ao leitor que. À medida que se avança pela vida. resultante de outras mais íntimas e impalpáveis. São os homens seletos.são incapazes de outro esforço que o estritamente imposto como reação a uma necessidade externa. os únicos ativos e não só reativos. Por isso mesmo ficam mais isolados. Assim. Por isso. acreditando que se basta . Nas horas difíceis que chegam para nosso continente.e das mulheres . encontramo-nos com uma massa mais forte que a de nenhuma época.htm (43 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . poderá reger. civis e técnicos (entendo por estes a enormidade de conhecimentos parciais e de eficiência prática que hoje o homem médio possui e de que sempre careceu no passado) -. Para definir o homem-massa atual. Continuando as coisas como até aqui. Por outra parte. porque já somos donos do que. Tudo que vem depois é conseqüência ou corolário dessa estrutura radical que poderia resumir-se assim: o mundo organizado pelo século XIX. fechou-se dentro de si. tenha lido até aqui. O simples processo de manter a civilização atual é superlativamente complexo e requer sutilezas incalculáveis.que as massas são incapazes de se deixar dirigir em nenhuma ordem. é. Porque a disposição radical de sua alma está feita de hermetismo e indocilidade. A atividade política. saúde média superior à de todos os tempos). um incessante treinamento.em suma: indócil (47). Depois de haver estabelecido nele todas estas potências. porque lhe falta de nascença a função de atender ao que está além dela. Mas ainda essa boa vontade fracassará. e não poderão. paciente. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. imediatamente. é ilusório pensar que o homem médio vigente. subitamente angustiadas. por muito que tenha ascendido seu nível vital em comparação com o de outros tempos. por si mesmo. contrariamente. a derradeira. não já progresso. os pouquíssimos seres que conhecemos capazes de um esforço espontâneo e luxuoso. a meu juízo. Digo processo. a indocilidade política não seria grave se não proviesse de uma mais profunda e decisiva indocilidade intelectual e moral. mas. um significado político. e descobrirão que são surdas. vamos nos fartando de advertir que a maior parte dos homens . enquanto não tenhamos analisado esta.e por reflexo em todo o mundo . a direção de minorias superiores.A rebelião das massas. é a chave ou equação psicológica do tipo humano dominante hoje. incapaz de atender a nada nem a ninguém. poderosos meios de toda ordem para satisfazê-los . que é tão massa como o de sempre. São os ascetas (46). faltará a última claridade ao teorema deste ensaio. mas quer suplantar os excelentes. a diferença da tradicional. cada dia se notará mais em toda a Europa . corporais (higiene. em certas matérias especialmente angustiosas. o século XIX o abandonou a si mesmo. Quererão acompanhar a alguém. a conveniência de não entender todos estes enunciados atribuindo-lhes. Não surpreenda esta aparente digressão. é possível que. que é de toda a vida pública a mais eficiente e mais visível. sejam fatos. e então. seguindo o homem médio sua índole natural. Mal pode governá-lo este homem-massa que aprendeu a usar muitos aparelhos de civilização. tenham um momento a boa vontade de aceitar. é preciso contrapô-lo às duas formas puras que nele se mesclam: a massa normal e o autêntico nobre ou esforçado. Treinamento = áskesis. e como monumentalizados em nossa experiência. Agora podemos caminhar mais depressa. os nobres. para os quais viver é uma perpétua tensão. sejam pessoas. Quererão ouvir.econômico. ao produzir automaticamente um homem novo. intrometeu nele formidáveis apetites. hermética em si mesma. Desta sorte. o processo da civilização.

O tolo é vitalício e impermeável. o atual é mais esperto. como de Adão. e a crença na sua perfeição não está consubstancialmente unida a ele. não há modo de desalojar o tolo de sua tolice. Já sei que muitos dos que me lêem não pensam como eu. a vaga sensação de possuí-la apenas lhe serve para fechar-se mais em si mesmo e não usá-la. não se lhe ocorre duvidar de sua própria plenitude. imaginário e problemático. levá-lo de passeio um pouco além de sua cegueira e obrigá-lo a que contraste sua visão grosseira habitual com outros modos de ver mais sutis. sempre ficaria o fato de que muitos destes leitores discrepantes não pensaram cinco minutos sobre tão complexa matéria. a alma.htm (44 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . VIII. Pois ainda que em definitivo minha opinião fosse errônea. O hermetismo nato de sua alma lhe impede o que seria condição prévia para descobrir sua insuficiência: comparar-se com outros seres. Decide contentar-se com elas e considerar-se intelectualmente completa. por isso faz um esforço para escapar à iminente tolice. Como poderiam pensar como eu? Mas ao supor-se com direito a ter uma opinião sobre o assunto sem prévio esforço para forjá-la. Não sentindo nada de menos fora de si. Sua confiança em si é. consegue o homem nobre sentir-se em verdade completo. a alma fechou-se para ele. Pois bem: eu sustento que nessa obliteração das almas médias consiste a rebeldia das massas em que. ao novo Adão. necessita ser especialmente vaidoso.A rebelião das massas. ao contrário. consiste o gigantesco problema hoje levantado para a humanidade. Por isso o vaidoso necessita dos demais. e daí a invejável tranqüilidade com que o néscio se assenta e instala em sua inépcia. POR QUE AS MASSAS INTERVÉM EM TUDO E POR QUE SÓ INTERVÊM VIOLENTAMENTE Ficamos em que aconteceu algo sobremodo paradoxal.esporte supremo. para sentir-se perfeito. Comparar-se seria sair um pouco de si mesmo e trasladar-se ao próximo. manifestam seu exemplar senhorio ao modo absurdo de ser homem que eu chamei "massa rebelde". Este surpreende-se a si mesmo sempre a dois passos de ser tolo. Neste caso tratar-se-ia de hermetismo intelectual. Eis aí o mecanismo da obliteração. De file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. paradisíaca. jamais (48). Também isto é naturalíssimo e confirma o teorema. instala-se definitivamente naquele repertório. De sorte que nem ainda neste caso mórbido nem ainda "cegado" pela vaidade. tem mais capacidade intelectiva que o de nenhuma outra época. o néscio. mas que em verdade era naturalíssimo: de tanto se mostrarem abertos mundo e vida ao homem medíocre. e nesse esforço consiste a inteligência. Não se trata de que o homem-massa seja tolo. Porque o malvado descansa algumas vezes. O homem-massa sente-se perfeito. Mas essa capacidade não lhe serve de nada. Um homem de seleção. pois. busca neles a confirmação da idéia que quer ter de si mesmo. por sua vez. não é ingênua. Mas a alma medíocre é incapaz de transmigrações . Pelo contrário. Como esses insetos que não há maneira de extrair do orifício em que habitam. Por isso dizia Anatole France que o néscio é muito mais funesto que o malvado. mas chega-lhe de sua vaidade e ainda para ele mesmo tem um caráter fictício. não suspeita de si mesmo: julga-se discretíssimo. hermética. a rigor. O tolo. Encontramo-nos. Contrariamente ao homem medíocre de nossos dias. Isso é precisamente ter obliterada. com a mesma diferença que eternamente existe entre o tolo e o perspicaz. A pessoa encontra-se com um repertório de idéias dentro de si.

nem sequer julgar as "idéias" do político do tribunal de outras "idéias" que cria possuir. Estas normas são os princípios da cultura. provérbios. ou a vulgaridade como um direito. e com um audácia que só se explica pela ingenuidade. prejuízos. não tenhamos ilusões. Não há questão de vida pública em que não intervenha. impô-los-á por toda a parte. se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir. experiências. mas sua atitude reduzia-se a repercutir. regulam estas a vida só grosso modo. simplesmente. pelo contrário. dava ou retirava sua adesão. nunca o vulgo havia crido ter "idéias" sobre as coisas. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que ela imponha. hábitos mentais. Onde há pouca. Não há cultura quando as relações econômicas não são presididas por um regime de tráfico sob o qual possam amparar-se. o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas. Não me importa quais são.htm (45 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobre o que as coisas são ou devem ser . sabe que naquele território não regem princípios aos quais possa recorrer. A escassez da cultura intelectual espanhola. isto é. nem de longe. de sentenciar. pelo contrário. Quando faltam todas essas coisas. não há cultura. onde há muita. de não estar qualificado para teorizar (49). que sejam cultas? De maneira alguma. a barbárie é ausência de norma e de possível apelação. quer dizer. há. ou. impondo suas "opiniões". sobre política ou sobre literatura -. Nunca se lhe ocorreu opor às "idéias" do político outras suas. Não há normas bárbaras propriamente ditas. As "idéias" deste homem médio não são autenticamente idéias. Não há cultura onde não há princípios de legali5àde civil a que apelar. O império que sobre a vida pública hoje exerce a vulgaridade intelectual. menos assimilável a nada do pretérito. O que digo é que não há cultura onde não há normas. Não há cultura onde as polêmicas estéticas não reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte. a ação criadora de outros. mas. decidir em quase nenhuma das atividades públicas. Hoje. A conseqüência automática disto era que o vulgo não pensava. Tinha crenças. nem sua posse é cultura. Para que ouvir. do cultivo ou exercício disciplinado do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. penetram até o pormenor no exercício de todas as atividades. cego e surdo como é. uma vez para sempre consagra o sortimento de tópicos. tradições. mas que o vulgar proclame e imponha o direito da vulgaridade. no sentido mais estrito da palavra. E isto é. Por isso perdeu o uso da audição. o homem médio tem as "idéias" mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Pelo menos na história européia até hoje. A mesma coisa em arte e nas demais ordens da vida pública. é talvez o fator da presente situação mais novo. Isto é o que no primeiro capítulo enunciava eu como característico em nossa época: não que o vulgar creia que é destacado e não vulgar. que em sua maior parte são de índole teórica. Não há cultura onde não há acatamento de certas últimas posições intelectuais a que referir-se na disputa (50). uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. de decidir. Não vale falar de idéias ou opiniões onde não se admite uma instância que a regula. positiva ou negativamente. Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham "idéias". barbárie. O mais e o menos de cultura mede-se pela maior ou menor precisão das normas.A rebelião das massas. de julgar. A idéia é um xeque-mate à verdade. vocábulos ocos que o acaso amontoou no seu interior. O viajante que chega a um país bárbaro.por exemplo. vedava-o completamente. Parecia-lhe bem ou mal o que o político projetava e fazia. Uma e inata consciência de sua limitação. A que nossos próximos possam recorrer.

sem haver procurado antes averiguar o que pensa o maniqueu. O homem médio encontra-se com "ideais" dentro de si.A rebelião das massas. mas a chave está no hermetismo intelectual. o "novo" é na Europa "acabar com as discussões". Não se diga que parecem esquisitos simplesmente porque são novos. Perpetuamente o homem tem recorrido à violência: às vezes este recurso era simplesmente um crime. Ter uma idéia é crer que se possuem as razões dela. Qualquer pessoa pode perceber que na Europa. Mas o homem-massa sentir-se-ia perdido se aceitasse a discussão. mas não quer aceitar as condições e supostos de todo opinar. que declara muito bem o prévio rendimento da força às normas racionais. inventores da maneira e da palavra "ação direta". o que estes novos fatos têm de esquisito ao que têm de novo. que é uma convivência sob normas. inexoravelmente. começaram a acontecer "coisas esquisitas". mas que. passando pela ciência. Sob as espécies de sindicalismo e fascismo aparece pela primeira vez na Europa um tipo de homem que não quer dar razões nem quer ter razão. Eu vejo nisso a manifestação mais palpável do novo modo de ser das massas. a razão da sem-razão. e detesta-se toda forma de convivência que por si mesma implique acatamento de normas objetivas. intelecto. Isso quer dizer que se renuncia à convivência de cultura. em que se acerte ou não . mas na falta de escrúpulo que leva a não cumprir os requisitos elementais para acertar. crer que existe uma razão. pois. Em sua conduta política revela-se a estrutura da alma nova da maneira mais crua e contundente. e retrocede-se a uma convivência bárbara. como o sindicalismo e o fascismo. A civilização não é outra coisa senão o ensaio de reduzir a força a ultima ratio. crer. Quer opinar.a verdade não está em nossa mão -. e instintivamente repudia a obrigação de acatar essa instância suprema que se acha fora dele. que a forma superior da convivência é o diálogo em que se discutem as razões de nossas idéias. Tal violência não é outra coisa senão a razão exasperada. como vimos antes. Daqui que suas "idéias" não sejam efetivamente senão apetites ou palavras. mas na habitual falta de cautela e cuidados para ajustar-se à verdade que soem mostrar os que falam e escrevem. Não se atribua. há alguns anos. propele a massa para que intervenha em toda a vida pública. porque a "ação direta" consiste em inverter a ordem e proclamar a violência como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. simplesmente. é uma mesma coisa como apelar a tal instância. com efeito. submeter-se a ela. como as romanças musicais. advertir-se-á que as primeiras notas de sua peculiar melodia soaram naqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta de 1900. se mostra resolvido a impor suas opiniões. Para dar algum exemplo concreto destas coisas esquisitas mencionarei certos movimentos políticos.htm (46 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mas carece da função de idear. pois. Um pouco estupidamente tem se entendido com ironia esta expressão. manifesta-se. Será muito lamentável que a condição humana leve volta e meia a esta forma de violência. Por isso. desde a conversação até o Parlamento. portanto. Eis aqui o novo: o direito a não ter razão. mas é inegável que ela significa a maior homenagem à razão e à justiça. Agora começamos a ver isto com bastante clareza. que o levou a produzir a história mais inquieta de quantas se conhecem. portanto. um orbe de verdades inteligíveis. Suprimem-se todos os trâmites normais e se vai diretamente à imposição do que se deseja. Continuamos sendo o eterno padre de aldeia que rebate triunfante o maniqueu. Nem sequer suspeita qual é o elemento sutilíssimo em que as idéias vivem. a um procedimento único de intervenção: a ação direta. mas à estranhíssima bitola destas novidades. não em que se saiba mais ou menos. opinar. O dia em que se reconstrua a gênese de nosso tempo. leva-a também. e é. Não. A força era. aceitar seu Código e sua sentença. O entusiasmo pela inovação é de tal modo ingênito no europeu. Idear. por haverem resolvido dirigir a sociedade sem ter capacidade para isso. O hermetismo da alma. a ultima ratio. e não nos interessa. Em outras era a violência o meio a que recorria a quem havia esgotado todos os demais para defender a razão e a justiça que cria ter. que.

mais ainda. E um exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na terra. tão acrobática. PRIMITIVISMO E TÉCNICA file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O liberalismo convém hoje recordar isto . que. pululação de mínimos grupos separados e hostis. Odeia de morte o que não é ela. supõem o desejo radical e progressivo de cada pessoa contar com as demais. portanto. a convivência. É se incivil e bárbaro na medida em que não se conte com os demais. Proclama a decisão de conviver com o inimigo. como "ação direta".quem o diria ao ver seu aspecto compacto e multitudinário? . com o inimigo débil. A forma que na política representou a mais alta vontade de convivência é a democracia liberal.htm (47 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . quando a massa por um ou outro motivo. Civilização é. acharemos uma mesma entranha em todos. Trâmites. usos intermediários. sempre o modo de operar natural às massas. o mais nobre grito que soou no planeta. quer dizer. Toda a convivência humana vai caindo sob este novo regime em que se suprimem as instâncias indiretas. normas. como os mais fortes. Trata-se com tudo isso de fazer possível a cidade. constitui-se no insulto.A rebelião das massas. justiça. E corrobora energicamente a tese deste ensaio o fato patente de que agora. tão antinatural. cortesia. Era inverossímil que a espécie humana houvesse chegado a uma coisa tão bonita. pois. criar tanta complicação? Tudo isso se resume na palavra "civilização". atuou na vida pública. deixar espaço no Estado que ele impera para que possam viver os que nem pensam nem sentem como ele. É a Charta magna da barbárie. não deve surpreender que tão rapidamente pareça essa mesma espécie decidida a abandoná-la. Por isso. vontade de convivência. Em quase todos. O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o Poder público. razão! de que veio inventar tudo isso. Ela leva ao extremo a resolução de contar com o próximo e é protótipo da "ação indireta". prima ratio. limita-se a si mesmo e procura. ainda à sua custa. antes de tudo. A barbárie é tendência à dissociação. tão elegante. No trato social suprime-se a "boa educação". Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Não começa a ser já incompreensível semelhante ternura? Nada acusa com maior clareza a fisionomia do presente como o fato de que vão sendo tão poucos os países onde existe a oposição.E assim todas as épocas bárbaras têm sido tempo de espalhamento humano. se olhamos por dentro cada um desses instrumentos da civilização que acabo de enumerar. a rigor.é a suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga à minoria e é. A literatura. com efeito. As relações sexuais reduzem seus trâmites. quando a intervenção direta das massas na vida pública passou de casual e infreqüente a ser o normal. através da idéia de civis. IX. apareça a "ação direta" oficialmente como norma reconhecida. Todos.não deseja a convivência com o que não é ela. descobre sua própria origem. como única razão é ela a norma que propõe a anulação de toda norma. não obstante ser onipotente. tão paradoxal. uma massa homogênea pesa sobre o Poder público e esmaga. a comunidade. Por isso. o cidadão. . como a maioria. que suprime tudo que medeia entre nosso propósito e sua imposição. aniquila todo o grupo opositor. o fez em forma de "ação direta". A massa . Convém recordar que em todos os tempos. Foi.

e dele recebermos a ordem para nossa conduta diante de tudo quanto foi (52). valorizações e respeitos sobreviventes e já sem sentido. piétine sur place. pessoal ou histórica.tanto o progresso triunfal e indefinido como a periódica regressão -. Há instituições mortas. a vida pública. É claro que toda velha cultura arrasta no seu avanço tecidos caducos e não pequena carregação de matéria córnea. estorvo à vida e tóxico resíduo. Em geral. Todos estes elementos da ação indireta. Por isso a princípio insinuei que todos os traços atuais e. retorcimentos e intrincações que não a deixavam tomar sol. Este titubeio metafísico proporciona a todo o vital essa inconfundível qualidade de vibração e estremecimento. A sobrecasaca e o plastrão românticos solicitam uma vingança por meio do atual deshabillé e o "em mangas de camisa". O entusiasmo que sinto por esta disciplina de nudificação. Não há razão para negar a realidade do progresso. nenhuma evolução. normas que provaram sua insubstancialidade. Qualquer deles não só tolera. volutas. mas na própria realidade. favorável e pejorativa. Porque a vida. e não sabe bem se se decidir por uma ou outra entre várias possibilidades. se não se aligeira até sua pura essencialidade. a consciência de que é imprescindível para franquear o passo a um futuro estimável. e portanto. e a humanidade européia não poderia dar o salto elástico que o otimista reclama dela se antes não se desnuda. drama (51). Tudo. É o porvir que deve imperar sobre o pretérito.A rebelião das massas. uma solução mais perfeita. soluções indevidamente complicadas. que é verdade em geral. a história. mas até reclama uma dupla interpretação. da civilização. demandam uma época de frenesi simplificador. requeria urgentemente uma redução ao autêntico. E este equívoco não reside em nosso juízo.a do presente substancialmente equívoca. até coincidir consigo mesma. A rebelião das massas pode. Não creio na absoluta determinação da história. Pelo contrário. ser trânsito de uma nova e sem par organização da humanidade. a simplificação é higiene e melhor gosto. apresentam duplo aspecto. mas é preciso corrigir a noção que crê seguro este progresso. É. penso que toda vida. rigorosamente falando. a rebelião das massas. se compõe de puros instantes. mas também pode ser uma catástrofe no destino humano. cada um dos quais está relativamente indeterminado com respeito ao anterior. de sorte que nele a realidade vacila. Não é que possa parecer-nos por um lado bem. Mais congruente com os fatos é pensar que não há nenhum progresso seguro. como sempre que com menos meios se consegue mais. tudo é possível na história . sem a ameaça de involução e retrocesso. Não é coisa de lastrear este ensaio com toda uma metafísica da história. portanto. Mas é preciso evitar o pecado maior dos que dirigiram o século XIX: a defeituosa consciência de sua file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. me faz reivindicar plena liberdade de ideador diante de todo o passado. com efeito. podem anunciar também futuras perfeições. A árvore do amor romântico exigia também uma poda para que caíssem as demasiadas magnólias falsas cerzidas a seus ramos e o furor de lianas. E assim os sintomas de nova conduta que sob o império atual das massas vão aparecendo e agrupávamos sob o título "ação direta". por outro mal.htm (48 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . é a única entidade do universo cuja substância é perigo. como é o presente. Compõem-se de peripécias. Importa-me muito recordar aqui que estamos submersos na análise de uma situação . Isto. expostas ou aludidas em outros lugares. em espécie. individual ou coletiva. Mas é claro que o vou construindo sobre a base subterrânea de minhas convicções filosóficas. sobretudo a política. Aqui. mas é que em si mesma a situação presente é potência bifronte de triunfo ou de morte. adquire maior intensidade nos "momentos críticos". de autenticidade.

O próprio Spengler.htm (49 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mas . parece-me neste ponto demasiado otimista. proporcional .que se tratava apenas de uma "frase".repito. a saber: uma definição formal que condena toda uma complicada análise. sob a qual entende sobretudo a técnica. nem ainda para retificá-las. ao longo do tempo.como é habitual . é tão remota da pressuposta neste ensaio. que não é fácil. se o cálculo se faz não tanto pensando no presente como no que anunciam e prometem. No fundo de sua alma desconhece o caráter artificial. as ciências físicas . A idéia que Spengler tem da cultura. seu habitante não o é: nem sequer vê nele a civilização. e parece o mais urgente sublinhar o lado palmariamente funesto dos sintomas atuais.os de nenhuma. com efeito. e o fervor que se lhes dedica faz ressaltar mais cruamente a insensibilidade para os princípios de que nascem. É indubitável que num balanço diagnóstico de nossa vida pública os fatores adversos superem em muito os favoráveis.produziu-se na geração que hoje vai dos vinte aos trinta anos.A rebelião das massas. e em geral da história. Não os desta ou os daquela. Que nos significa situação tão paradoxal? Este ensaio pretende haver preparado a resposta a tal pergunta. Mais concretamente: o número de pessoas que em proporção se dedicavam a essas puras investigações era maior em cada geração. porém. na religião e nas zonas cotidianas da vida. Se não fora prolixo. poderia demonstrar-se semelhante incongruência na política. e não estenderá seu entusiasmo pelos aparelhos até os princípios que os tornam possíveis. O civilizado é o mundo. que os fez não se manterem alertas e em vigilância. é precisamente faltar à missão de responsável. O homem-massa atual é. mas usa dela como se fosse natureza. trazer aqui a comento suas conclusões. O novo homem deseja o automóvel e goza dele. E isso acontece quando a indústria alcança seu maior desenvolvimento e quando as pessoas mostram maior apetite pelo uso de aparelhos e medicinas criados pela ciência. Baste fazer constar este fato: desde que existem as nuove scienze. o entusiasmo por elas havia aumentado sem colapso. tão sutil e tão profundo . pode julgar-se . nem pelos melhores. com uma consciência de seu futuro suficientemente dramático. Agora se vê que a expressão poderá enunciar uma verdade ou um erro. transpondo umas palavras de Rathenau. na moral. Deixar-se deslizar pela pendente favorável que apresenta o curso dos acontecimentos e embotar-se para a dimensão de perigo e carranca que mesmo a hora mais jocunda possui. mas eu não vejo que se fale. Interessam-lhe evidentemente os anestésicos.ainda que tão maníaco -. dizia eu que assistimos à "invasão vertical dos bárbaros". Nos laboratórios de ciência pura começa a ser difícil atrair discípulos. da civilização. Quando mais acima.ao que hoje pode julgar-se . os automóveis e algumas coisas mais. na arte. Pois estas coisas são só produtos dela. um Naturmensch emergindo em meio de um mundo civilizado. Mas isto confirma seu radical desinteresse pela civilização. desde o Renascimento -. mas crê que é fruta espontânea de uma árvore edênica. Todo o crescimento de possibilidades concretas que a vida experimentou corre risco de anular-se a si mesmo ao topar com o mais pavoroso problema sobrevindo no destino europeu e que de novo formulo: apoderou-se da direção social um tipo de homem a quem não interessam os princípios da civilização. quase inverossímil. Pois crê que à "cultura" vai suceder uma época de "civilização". Hoje torna-se mister suscitar uma hiperestesia de responsabilidade nos que sejam capazes de senti-la. Significa que o homem hoje dominante é um primitivo. A toda hora se fala hoje dos progressos fabulosos da técnica. responsabilidade.portanto. Só saltando sobre distâncias e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O primeiro caso de retrocesso . um primitivo que pelos bastidores deslizou no velho cenário da civilização. mas que é o contrário de uma "frase".

consequentemente.a política. Por isso. aquele que lhe dure a inércia do impulso cultural que a criou.como parece ocorrer -. prático. que esse homem médio utiliza. mas precipitado útil. sua maravilhosa eficiência: a ciência empírica. há uma que cada dia comprova. não práticas (53). e que as condições de sua perpetuação englobam as que tornam possível o puro exercício científico. que é mister reunir e agitar para obter coquetel da ciência físico-química! Ainda contentando-se com a pressão mais débil e sumária do tema. que a foro de racionais teriam que ser sutis.htm (50 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . fervor superlativo por aquelas ciências e suas congêneres as biológicas? Porque repare-se em qual é a situação atual: enquanto evidentemente todas as demais coisas da cultura se tornaram problemáticas . sacerdotes. Mas esta fauna do homem experimental requer. guerreiros e pastores têm pululado por toda a parte e à vontade. estabelecer-se plenamente no breve quadrilátero que inscrevem Londres. Mas repito que surpreende a frivolidade com que ao falar da técnica se esquece que sua víscera cordial é a ciência pura. o qual vem a ser materialmente aproveitável. a técnica só pode perviver um pouco de tempo. Uma observação impede-me iludir-me sobre a eficácia de tais prédicas. o progresso mesmo ou a perduração da técnica. e a ciência não existe se não interessa em sua pureza e por ela mesma. Berlim. embora esclarecida a questão. Esta não se nutre nem se respira a si mesma. Viena e Paris. O homem-massa não atende a razões e só aprende em sua própria carne. um conjunto de condições mais insólito que o que engendra o unicórnio. os mais díspares entre si. Isto demonstra que a ciência experimental é um dos produtos mais improváveis da história. Não é demasiado absurdo que nas circunstâncias atuais não sinta o homem médio. que beneficia esse homem médio. da maneira mais indiscutível e mais própria para fazer efeito no homem-massa. da inspiração científica (55). Vou. ao resumir a fisionomia novíssima da vida implantada pelo século XIX. para reduzir ambos os pontos de vista a um comum denominador. Mas não espere que. espontaneamente e sem prédicas. Fato tão sóbrio e tão magro devia fazer refletir um pouco sobre o caráter supervolátil. quer dizer. Está bem que se considere o tecnicismo como um dos traços característicos da "cultura moderna". E ainda dentro deste quadrilátero. eu ficava com estas só duas feições: democracia liberal e técnica (54). Todo o mundo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. precisões. a físico-química só conseguiu constituir-se. de uma cultura que contém um gênero de ciência. A técnica é consubstancialmente ciência. pudera estabelecer-se assim a divergência: Spengler crê que a técnica pode continuar vivendo quando morreu o interesse pelos princípios da cultura. mas não da técnica. à advertência de que o atual interesse pela técnica não garante nada.A rebelião das massas. Magos. Aí é nada a quantidade de ingredientes. para se produzir. o homem-massa se daria por inteirado. não é causa sui. Cada dia facilita um novo invento. Eu não posso resolver-me a crer tal coisa. evaporante. sobressai já o claríssimo fato de que em toda a amplitude da terra e em toda a do tempo. pois. Vive-se com a técnica. a arte. e menos que nada. Se se embota esse fervor . e não pode interessar se as pessoas não continuam entusiasmadas com os princípios gerais da cultura. pelo visto. de preocupações supérfluas. a própria moral -. só no século XIX. as normas sociais. Bem arranjado está quem creia que se a Europa desaparecesse poderiam os norte-americanos continuar a ciência! Importaria muito tratar a fundo o assunto e especificar com toda a minúcia quais são os supostos históricos vitais da ciência experimental e. Cada dia produz um novo analgésico ou vacina. Pensou-se em todas as coisas que precisam continuar vigentes nas almas para que possa continuar havendo de verdade "homens de ciência"? Acredita-se seriamente que enquanto haja dollars haverá ciência? Esta idéia em que muitos se tranqüilizam não é senão uma prova mais de primitivismo. da técnica.

saltam mais aos olhos e se materializam em espetáculo. se se triplicassem ou decuplicassem os laboratórios. os que ficaram numa alvorada estática. biólogos . congelada. mas não vive desse proveito alheio. um bárbaro emergindo por um alçapão. já que num planeta sem físico-química não se pode sustentar o número de homens hoje existentes. O europeu que começa a predominar . X. nem o espera. como tal aparece. sabe que.que não lhe dedica . relativamente à complexa civilização em que nasceu. como esta necessita delas.A rebelião das massas. não há sombra de que as massas peçam a si mesmas um sacrifício de dinheiro e de atenção para dotar melhor a ciência? Longe disso. massa dos técnicos mesmos . sem a menor solidariedade íntima com o destino da ciência. Maxime se. podemos impunemente ser selvagens. onde esses homens vão e vêm.o mais aterrador (57). um "invasor vertical". não obstante. Para mim é este da desproporção entre o proveito que o homem médio recebe da ciência e a gratidão que lhe dedica .esta é minha hipótese . são possíveis povos perenemente primitivos. o após-guerra converteu o homem de ciência no novo pária social. nem de atenção. Cuida de seu aspecto de perfeita inutilidade (56). A filosofia não necessita de proteção. se ela começa por duvidar de sua própria existência. nem recomendar-se. sem pedir a ninguém que conte com ela. os quais soem exercer sua profissão com um estado de espírito idêntico no essencial ao de quem se contenta com usar do automóvel ou comprar o tubo de aspirina -. Há-os. de lado a filosofia. PRIMITIVISMO E HISTÓRIA A natureza está sempre aí. Podemos inclusive resolver a não deixar de sê-lo nunca. segundo veremos.. este desapego pela ciência. Breyssig chamou-os de "os povos da perpétua aurora". talvez com maior clareza que em nenhuma outra parte. e não de omissão. Como vai pretender que alguém a tome em sério. que é aventureira de outro nível. e a injeção de pantopom que fulmina.. Se alguém de boa mente a aproveita para algo. bem-estar. pois.de médicos. E conste que me refiro a físicos. de ação. sob pena de sucumbir. etc. e esperar mais que barbárie de quem assim se comportar. em princípio. e abraça alegre seu livre destino de pássaro do bom Deus. da civilização. Nela. sendo de qualidade positiva.htm (51 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Sustenta-se a si mesma. se não vive mais que na medida em que se combata a si mesma. químicos. Pode imaginar-se propaganda mais formidável e contundente em favor de um princípio vital? Como. multiplicar-se-iam automaticamente riqueza. engenheiros. nem o premedita. suas dores? A desproporção entre o benefício constante e patente que a ciência lhes procura e o interesse que por ela mostram é tal. nem de simpatia da massa. Só posso explicar-me esta ausência do adequado reconhecimento se recordo que no centro da África os negros vão também em automóvel e se aspirinizam. sem mais risco que o advento de outros seres que não o sejam. saúde. não cedendo à inspiração científica. e como isso se liberta de toda submissão do homem médio. Mas. que não há modo de subornar-se a si mesmo com ilusórias esperanças.não aos filósofos -. nem defender-se. Mas as ciências experimentais necessitam da massa. na selva. comodidades.seria. um homem primitivo. milagrosa. na. Haverá quem se sinta mais sobrecolhido por outros sintomas de barbárie emergente que. em que se desvive a si mesma? Deixemos. Que raciocínios podem conseguir o que não consegue o automóvel. regozija-se por simples simpatia humana. Sabe que é por essência problemática. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.

o senhor está enfarado. Trata-se de conter a selva invasora. O "bom europeu" tem de se dedicar agora ao que constitui. em definitivo. A três por dois o senhor fica sem civilização. que invadiu o continente e cada ano ganha em corte mais de um quilômetro. Eu já o disse. O após-guerra nos oferece um exemplo bem claro disso. A civilização. e ipso facto converte-se em primitivo. a franquia para ocupar-me dele em outra ocasião e para ser na hora oportuna romântico. Sob essas imagens inocentemente perversas palpita um enorme e sempiterno problema: o das relações entre a civilização e o que ficou depois dela .a Natureza -. quanto mais avança. Mais exatamente: há algumas cabeças. e não se faz solidário deles. um emigrante meridional. Mas agora encontro-me em faina oposta.A rebelião das massas. Este desequilíbrio entre a sutileza complicada dos problemas e a das mentes será cada vez maior se não se remedeia. Quando um bom romântico divisa um edifício. e constitui a mais elementar tragédia da civilização.htm (52 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . geométrica. Os problemas que hoje levanta são arqui-intrincados. que por toda a parte a selva rebrota. sobre o acrotério ou o telhado.o que é preciso sustentar .. reaparece repristinada a selva primitiva. entre o racional e o cósmico. A reconstituição da Europa . a primeira coisa que seus olhos procuram é. tudo é terra. A civilização se lhe antolha selva. Mas não acontece no mundo que é civilização. Seria estúpido rir do romântico. como o nosso. que não avança para nenhum meio-dia. É artifício e requer um artista ou artesão. Não lhe interessam os valores fundamentais da cultura. não se sustenta a si mesma. nostálgico de sua paisagem . em que o natural e subumano tornava a oprimir a palidez humana da mulher.. o "amarelo saramago". muito poucas.está se vendo . Um descuido. Não está disposto a pôr-se a seu serviço. Isso acontece no mundo que é só Natureza. e quando o senhor olha à sua volta tudo se volatilizou! Como se houvessem recolhido uns tapetes que tapavam a pura Natureza. e o europeu vulgar revela-se inferior à tão sutil empresa. e pintavam o cisne sobre Lêda.. Hoje os orçamentos da Oceania sobrecarregam-se com verbas onerosas destinadas à guerra contra a figueira. Cada vez é menor o número de pessoas cuja mente está à altura desses problemas. Tudo que é primitivo é selva. grave preocupação dos Estados australianos: impedir que as figueiras ganhem terreno e joguem os homens ao mar.é um assunto demasiado algébrico. mas o corpo vulgar da Europa central não quer pô-las sobre os ombros. Também o romântico tem razão.Málaga? Sicília? -. E vice-versa. Não é que faltem meios para a solução. Pelo ano quarenta e tantos. estremecido. pois. De tanto ser férteis e certeiros os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Reclamo. A selva sempre é primitiva. mas agora é preciso acrescentar algumas precisões. mas não se preocupa de sustentar a civilização. mas agora vou destacar apenas uma. Ele anuncia que. se afoga sob o abraço da silvestre vegetação. onde a pedra civilizada. O homem-massa crê que a civilização em que nasceu e que usa é tão espontânea e primigênea como a Natureza. Se o senhor quer aproveitar-se das vantagens da civilização. o touro com Pasifae e Antíope sob o capro.não existem para o homem médio atual. como é sabido. Faltam cabeças. Os românticos de todos os tempos se desarticulavam ante esta cena de desolação. Generalizando acharam um espetáculo mais sutilmente indecente na paisagem com ruínas. Os princípios em que se apoia o mundo civilizado . Como aconteceu isto? Por muitas causas. torna-se tanto mais complexa e mais difícil. A civilização não está aí. levou para a Austrália num vaso de barro uma figueirazinha.

Por isso são bolchevismo e fascismo.tornou possível o avanço prodigioso do século XIX.embora subterraneamente . Causa inquietude ouvir falar sobre os temas mais elementais do dia por pessoas relativamente mais cultas. tem naturalmente uma verdade parcial . em suma: história. Não por que dê soluções positivas ao novo aspecto dos conflitos vitais . As pessoas mais "cultas" de hoje padecem uma ignorância histórica incrível. Civilização avançada é uma e mesma coisa com problemas árduos. sem "consciência histórica". Pois eu creio que esta é a situação da Europa.a involução.quem no universo não possui uma porciúncula de razão? -. Daí que quanto maior seja o progresso. que hoje gravitam sobre nós. com que tratam sua parte de razão. está ideada em vista desses erros. como se sucedendo nesta hora pertencessem à fauna de antanho. vão-se aperfeiçoando também os meios para resolvê-los. e. mas porque evita cometer os erros ingênuos de outros tempos. isolado. Na Grécia e em Roma não fracassou o homem. os temas políticos e sociais com o instrumental de conceitos rombudos que serviram a duzentos anos para enfrentar situações de fato duzentas vezes menos sutis. A questão não está em ser ou não ser comunista e bolchevista. O Império romano finda por falta de técnica. aumenta sua colheita em quantidade e em agudeza até ultrapassar a receptividade do homem normal. por homens medíocres. extemporâneos e sem memória extensa. que é ter muito passado às suas costas. à ingenuidade e primitivismo de quem não tem ou esquece seu passado. Não discuto o credo.A rebelião das massas. Mas se o senhor. que. as duas tentativas "novas" de política que na Europa e seus confinantes se estão fazendo. A européia ameaça sucumbir pelo contrário. Aquele saber histórico das minorias governantes . então tudo é desvantagem. Todas as civilizações feneceram pela insuficiência de seus princípios. bem entendido.pelo XVIII precisamente para evitar erros de todas as políticas antigas. O saber histórico é uma técnica de primeira ordem para conservar e continuar uma civilização provecta. anacrônica. como todos os que o são. isto é. comportam-se desde o início como se houvessem passado já. É claro que ao complicarem-se os problemas. Movimentos típicos de homens-massa dirigidos. Ao chegar a um grau de povoação grande e exigir tão vasta convivência a solução de certas urgências materiais. que só a técnica podia achar. dois claros exemplos de regressão substancial. Manejam-se. portanto. Parecem toscos labregos que com dedos grossos e desajeitados querem colher uma agulha que está sobre uma mesa. Não tanto pelo conteúdo positivo de suas doutrinas. mas. Não creio que isto tenha acontecido jamais no passado. mas seus princípios. cada vez mais complicada. perdeu a memória do passado. apesar de que no seu transcurso os especialistas a fizeram avançar muitíssimo como ciência (58). Em seu último terço iniciou-se .governantes sensu lato . a retroceder e consumir-se. além de ser velho. de que sua vida começa a ser difícil. princípios que a informam. tanto mais em perigo está. O que é file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.há um banalmente unido ao avanço da civilização. Mas é mister que cada nova geração se torne senhora desses meios adiantados. A vida é cada vez melhor. A este abandono se devem em boa parte seus peculiares erros. Entre estes para concretizar um pouco . muita experiência. por exemplo. Eu sustento que hoje sabe o europeu dirigente muito menos história que o homem do século XVIII e mesmo do XVII. começou o mundo a involuir. o senhor não aproveita sua experiência. e resume em sua substância a mais longa experiência.a vida é sempre diferente do que foi -.htm (53 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . o retrocesso à barbárie. como pela maneira anti-histórica. Mas agora é o homem quem fracassa por não poder continuar emparelhado com o progresso de sua própria civilização. Mas já o século XIX começou a perder "cultura histórica". Sua política está pensada .

mas a de um arcaico dia. Até o ponto de que não há frase feita. ou. Mas isso é justamente o que não pode fazer quem. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. E isto serão todos os movimentos que recaiam na simplicidade de travar uma luta com tal ou qual porção do passado.numa destruição da Europa. E como já uma vez este triunfou daquela. Se deixar algo dele fora está perdido. Mas isso é precisamente o que acontecia ao mundo quando ainda não havia nascido Pedro. Quem aspire verdadeiramente a criar uma nova realidade social ou política. nasceu já com oitenta anos enquanto seu progenitor não tinha mais que trinta. Um e outro . segundo a lenda.htm (54 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . Por isso não é interessante historicamente o acontecido na Rússia. é o perfeito lugar comum das revoluções. coloca-se antes e retrocede toda a película à situação passada. mas. traduzindo sua atitude à linguagem positiva. Há uma cronologia vital inexorável.liberalismo e anti-liberalismo . como o canhão é mais arma que a lança. com todos estes anti o que. diabo!. O antipedrista.ser antiliberal ou não liberal . etc. condição irremissível para superá-lo. já usado uma ou muitas vezes. entre elas esta: uma revolução não dura mais de quinze anos. Não há dúvida de que é preciso superar o liberalismo do século XIX. repetirá sua vitória inumeráveis vezes ou se acabará tudo . pois. O porvir o vence porque o devora. período que coincide com a vigência de uma geração (59). das muitas que sobre as revoluções a velha experiência humana fez. Com o passado não se luta corpo a corpo. Desde já. depois de seu pai. Quem se declara anti-Pedro não faz.bolchevismo e fascismo . O liberalismo é nela posterior ao anti-liberalismo. Acontece. Mas a inovação que o anti representa se desvanece no vazio ademane negador e deixa só como conteúdo positivo uma "antigualha". A esses tópicos veneráveis podiam ajuntar-se algumas outras verdades menos notórias. porém não menos prováveis. em vez de colocar-se depois de Pedro. ao cabo da qual está inexoravelmente o reaparecimento de Pedro.são duas falsas alvoradas.é o que fazia o homem anterior ao liberalismo. Todo anti não é mais que um simples e vazio não. por isso é estritamente o contrário de um começo de vida humana. como o fascismo. são primitivismo. não levam dentro de si resumido todo o pretérito. não trazem a manhã do amanhã. senão declarar-se partidário de um mundo onde Pedro não existe. inconcebível e anacrônico é que um comunista de 1917 se atire a fazer uma revolução que é em sua forma idêntica a todas as que houve antes e na qual não se corrigem os mínimos defeitos e erros das antigas. necessita preocupar-se antes de tudo de que esses humílimos lugares comuns da experiência histórica fiquem invalidados pela situação que ele suscita. De minha parte reservarei a qualificação de genial ao político que mal comece a operar comecem a ficar loucos os professores de História dos Institutos. uma monótona repetição da revolução de sempre. O qual nasceu. uma atitude anti-algo parece posterior a este algo. interrompidas e feitas cisco. "A revolução devora seus próprios filhos !" "A revolução começa por um partido moderado. em vista de que todas as "leis" de sua ciência aparecem caducadas. é mais vida que este. Por isso .. o que é o mesmo. aconteceu a Confúcio.A rebelião das massas. etc. É. poderíamos dizer coisas similares do fascismo. posto que signifique uma reação contra ele e supõe sua prévia existência. pelo contrário. Invertendo o signo que afeta o bolchevismo. em vez de proceder a sua digestão. que não receba deplorável confirmação quando se aplica a esta. se declara anti-liberal. Nem um nem outro ensaio estão "à altura dos tempos". naturalmente. a seguir passa aos extremistas e começa mui rapidamente a retroceder para uma restauração".

a não pôr em tela de juízo suas opiniões e a não contar com os demais. como não pretendo dirimir o perene dilema entre revolução e evolução. à parte isso.A rebelião das massas. Esta é a condição para superá-lo. O máximo que este ensaio se atreve a solicitar é que revolução ou evolução sejam históricas e não anacrônicas. Mas o passado é pura essência revenant. inseparável de tudo que hoje parece triunfar. e essa é preciso dá-la per saecula saecculorum. uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil. saturadas de seu estilo primitivo. cada indivíduo médio encontra em si uma sensação de domínio e triunfo que.que em toda época tem sido muito superficial .não impede nem de longe que ambos sejam um mesmo homem. não discuto agora a entranha de um nem a do outro. pois. portanto. Contar com ele. Se não se lhe dá essa que tem. Em suma. Sua sensação íntima de domínio o incita constantemente a exercer predomínio. Mas. resolveu governar o mundo. Esta resolução de avançar para o primeiro plano social produziu-se nele. fixando-me só na sua feição anacrônica. Seria tudo muito fácil se com um não puro e simples aniquilássemos o passado. Este contentamento consigo o leva a fechar-se em si mesmo para toda instância exterior. estuda-se a estrutura psicológica deste novo tipo de homem-massa. portanto. encontra-se o seguinte: 1o. sem considerações. a considerar bom e completo seu haver moral e intelectual. Porque hoje triunfa o homem-massa. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. voltará a reclamá-la.htm (55 of 139) [7/11/2001 21:34:38] . mal chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. 2o. "a altura dos tempos". pela primeira vez. que conheçam a latitude presente da vida e repugnem toda atitude arcaica e silvestre. intervirá em tudo impondo sua vulgar opinião. volta. Comportar-se à sua vista para sorteá-lo. e essa que não tinha é a que se devia tirar-lhe. A Europa não tem remissão se seu destino não é posto nas mãos de pessoas verdadeiramente "contemporâneas" que sintam palpitar debaixo de si todo o subsolo histórico. XI. Necessitamos da história íntegra para ver se conseguimos escapar dela. entregue à decisão do homem vulgar como tal.. O passado tem razão. contemplações. Não é mais nem menos massa o conservador que o radical. volta irremediavelmente. antes dirigido. como se somente ele e seus congêneres existissem no mundo. O liberalismo tinha uma razão. Por isso sua única autêntica superação é não mandá-lo embora. A Europa necessita conservar seu essencial liberalismo. o convida a afirmar-se a si mesmo tal qual é.. trâmites nem reservas. com hiperestésica consciência da conjuntura histórica. Se atendendo aos defeitos da vida pública. Se o mandamos embora. Atuará.. 3o. a meu juízo. e. Se falei aqui de fascismo e bolchevismo não foi senão obliquamente. portanto. abastada. segundo um regime de "ação direta". Esta é. a não ouvir. podem celebrar uma aparente vitória. O tema que verso nestas páginas é politicamente neutro. Ou dito em voz ativa: o homem vulgar. A ÉPOCA DO "MOCINHO SATISFEITO" Resumo: O novo fato social que aqui se analisa é este: a história européia parece. a sua. e de passagem a impor a que não tem. não recair nela. Mas não tinha toda a razão. só tentativas por eles informadas. vulgo rebelde. e esta diferença . porque alenta em estrato muito mais profundo que a política e suas dissensões. automaticamente. evitá-lo. sem limitações trágicas. quer dizer.

e outro um menino mimado e outro. intimamente. muito mais amplo e radical. encontra atribuídas a sua pessoa umas condições de vida que ele não criou. em meio de sua riqueza e de suas prerrogativas. É uma de tantas deformações como o luxo produz na matéria humana. em vez dessas razões. Mas não é verdade. São a carapaça gigantesca de outra pessoa. Ele não tem. basta recordar o fato sempre repetido que constitui a tragédia de toda a aristocracia hereditária. seu antepassado. Este personagem. Este repertório de feições fez com que pensássemos em certos modos deficientes de ser homem. portanto. tem de usar a carapaça de outra vida. O ataque a fundo tem de vir de maneira que o homem-massa não se possa precaver contra ele. caberia aproveitar mais detalhadamente a anterior alusão ao "aristocrata". A abundância de meios que está obrigado a manejar não o deixa viver seu próprio e pessoal destino. Por razões muito rigorosas e arquifundamentais que agora não é oportuno enunciar. Como vimos. nada que ver com elas. talvez muito breve. ninguém descreveu ainda em seu interno e trágico mecanismo . O garoto mimado é o herdeiro que se comporta exclusivamente como herdeiro. precisamente. fantasmática. Em que ficamos? Que vida vai viver o "aristocrata" de herança. pode surgir um homem constituído por aquele repertório de feições. de outro ser vivente. só dentro da folga social que esta fabricou no mundo. por falta de uso e esforço vital. Se a atmosfera não me oprimisse. a rigor. fofa. Sua vida perde inexoravelmente autenticidade. em forma muito diferente da que este ensaio reveste. quer dizer. Tenderíamos ilusoriamente a crer que uma vida nascida em um mundo abastado seria melhor. em suma. o garoto mimado da história humana. pelo contrário. que não se assemelha a nada e que. O presente ensaio não é mais que um primeiro ensaio de ataque a esse homem triunfante. que não se produzem organicamente unidas a sua vida pessoal e própria.) Não é necessário estranhar que eu acumule dictérios sob esta figura de ser humano. precisamente. Assim.religião. de que o "aristocrata" não é senão um caso particular.A rebelião das massas. portanto. as vantagens da civilização -. tabus. a não ser nem o outro nem ele mesmo. O aristocrata herda. é o ataque a fundo. Agora. como o "menino mimado" e o primitivo rebelde.as comodidades.htm (56 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . de repente e sem saber como. O resultado é essa específica parvoíce das velhas nobrezas. esforço por ser ela mesma. mais vida e de superior qualidade à que consiste. o bárbaro. Está condenado a representar o outro. mostrando como muitos dos traços característicos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. no "aristocrata" herdeiro toda a sua pessoa vai se desvanecendo. Por enquanto trata-se de um ensaio de ataque: o ataque a fundo virá depois. Valha isto tão somente para enfrentar nossa ingênua tendência a crer que a abundância de meios favorece a vida. (O primitivo normal. é.o interno e trágico mecanismo que conduz toda a aristocracia hereditária à sua irremediável degeneração. sentiria meu corpo como uma coisa vaga. minhas capacidades. e converte-se em pura representação ou ficção de outra vida. Acha-se ao nascer instalado. Toda vida é luta. o que desperta e mobiliza minhas atividades. porque não vêm dele. isto é. Agora a herança é a civilização . E tem de viver como herdeiro. o homem-massa de nosso tempo -. tradição social. com efeito. é o homem mais dócil a instâncias superiores que jamais existiu . Pelo contrário. a segurança.os que se podem reunir na classe geral "homem-herdeiro". atrofia sua vida. quer dizer. (Por outra parte. Se meu corpo não me pesasse eu não poderia andar. Um mundo abundoso (60) de possibilidades produz automaticamente graves deformações e viciosos tipos de existência humana . costumes -. e o anúncio de que uns quantos europeus vão reagir energicamente contra sua pretensão de tirania. que agora anda por toda a parte e onde quer impor sua barbárie íntima. que o veja diante de si e não suspeite que aquilo. inspirado por tal caráter. em lutar com a escassez. precisamente aquilo. As dificuldades com que tropeço para realizar minha vida são. a sua ou a do prócer inicial? Nem uma nem outra.

deste. não percebe o instável que é a organização do Estado. e tolera dentro de si muitos atos que na sociedade. Segundo isto. não estimá-lo e mandar que os lacaios ou os esbirros o açoitem. o cultivo do seu corpo . para me referir a uma dimensão muito concreta da vida corporal. Insisto. por seu turno. Cabe unicamente negar-se a fazer isso que é preciso fazer. Este desequilíbrio o falsifica. Não veio de fora ao mundo civilizado como os "grandes bárbaros brancos" do século V. o "filho de família" forja para si esta ilusão. preferir a vida sob a autoridade absoluta a um regime de discussão (61). como. tanto na ordem espiritual como na física. falta de romanticismo na relação com a mulher. as raças inferiores . recordarei que a espécie humana brotou em zonas do planeta onde a estação quente ficava compensada por uma estação de frio intenso. mas se olhamos o porvir. a civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se em um mundo abundante.a nolição -. Já sabemos por que: no âmbito familiar. é que não se pode fazer senão o que cada qual tem que fazer.por exemplo. o animal-homem degenera. Neste ponto possuímos apenas uma liberdade negativa de arbítrio . radical problematismo. vicia-o em sua raiz de ser vivente. porém. no ar da rua trariam automaticamente conseqüências desastrosas e iniludíveis para seu autor.htm (57 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mas. Por isso. etc. com leal desgosto em fazer ver que este homem cheio de tendências incivis. de direitos cômodos. e vice-versa. não nasceu tampouco dentro dele por geração espontânea e misteriosa. em todos os povos e tempo. mas isto não nos deixa em liberdade para fazer outra coisa que esteja na nossa vontade. o nível vital que representa a Europa de hoje é superior a todo o passado humano. Pois bem. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos. tudo.A rebelião das massas. Por exemplo: a propensão de fazer ocupação central da vida os jogos e os esportes. de maneira germinal. Por isso acredita que pode fazer o que bem entende (63). que este novíssimo bárbaro é um produto automático da civilização moderna.foram repelidas para os trópicos por raças nascidas depois delas e superiores na escala da evolução (62). faz ver com suficiente clareza a anormalidade superlativa que representa o "mocinho satisfeito".). irremediável e irrevogável. O âmbito familiar é relativamente artificial. Mas o "mocinho" é aquele que acredita poder comportar-se fora de casa como em casa. os pigmeus . até os maiores delitos. que é absoluto perigo. A forma mais contraditória da vida humana que pode aparecer na vida humana é o "mocinho satisfeito". Não é o que não se deva fazer o que esteja na vontade da pessoa.regime higiênico e atenção à beleza do traje -. faz temer que nem conserve sua altura nem produza outro nível mais elevado. Grande equívoco! Vossa Mercê irá aonde o levem. de relativa morte. Isto é verdade. pode ficar no final das contas impune. no fundo. pelo contrário. é preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se acha ameaçada de degeneração. Cabe formular esta lei que a paleontologia e a biogeografia confirmam: a vida humana surgiu e progrediu só quando os meios com que contava estavam equilibrados pelos problemas que sentia. que retroceda e recaia em altitudes inferiores. divertir-se com o intelectual. Ignora. pois. Com efeito. Podemos perfeitamente file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. quer dizer. segundo Aristóteles. Assim. Porque é um homem que veio à vida para fazer o que bem entende. o difícil que é inventar essas medicinas e instrumentos e assegurar para o futuro sua produção. de medicinas benéficas. aquele que acredita que nada é fatal. especialmente da forma que esta civilização no século XIX. no homem-massa. penso. do qual percebe só a superabundância de meios. e mal sente dentro de si obrigações. Nos trópicos. mas é o seu fruto natural. etc. de Estados previdentes. os girinos na alverca. se dão. como se diz ao papagaio no conto do português. fazendo-o perder contacto com a substância mesma da vida. tem que ser. Isto. quando se torna figura predominante. mas não as angústias.

uma verdade que não é teórica.A rebelião das massas. que são falsas e funestas todas as maneiras concretas em que se tentou até agora realizar esse imperativo irremissível de ser politicamente livre. Porque esta é a tônica da existência no homem-massa: a inseriedade. Eu não posso fazer isto evidente a cada leitor no que seu destino individualíssimo tem como tal. mas é possível fazê-lo ver naquelas porções ou facetas de seu destino que são idênticas às de outros.queira ou não queira. e por isso mesmo. Vive-se humoristicamente e tanto mais quanto mais trágica seja a máscara adotada. a "piada". porque não conheço a cada leitor. que o homem ocidental de hoje é. fica em pé a última evidência de que no século último tinha substancialmente razão. como faz suas travessuras o "filho de família". inexorável. Embora se demonstre. somos a negação. queira ou não queira. como atua .não se discute. vivem enquanto se discutem e estão feitas exclusivamente para a discussão. que isso que a Europa tentou no último século com o nome de liberalismo é.a saber. devemos afirmar que não o crê. fingir com seus atos e palavras a convicção contrária. últimas. se não o aceitamos. Por exemplo: todo europeu atual sabe. Brincam de tragédia porque crêem que não é verossímil a tragédia efetiva no mundo civilizado. que o homem europeu atual tem de ser liberal.htm (58 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . com uma certeza muito mais vigorosa que a de todas as suas idéias e "opiniões" expressas. Refiro-me a que o europeu mais reacionário sabe. inscrito no destino europeu. científica. Não discutamos se esta ou a outra forma de liberdade é a que tem de ser. talhantes. mas de uma ordem radicalmente diferente e mais decisiva de tudo isso . Se o aceitamos. Um furacão de farsa geral e onímoda sopra sobre o torrão europeu. mas melhormente se reconhece e mostra seu claro. Se alguém se obstina em afirmar que dois mais dois é igual a cinco e não há motivo para supô-lo clemente. rigoroso perfil na consciência de ter que fazer o que não está na nossa vontade. As verdades teóricas não são discutíveis. entretanto. O que fazem. Os únicos esforços que fazem destinam-se a fugir do próprio destino. em última instância. irremediavelmente. na hora das seriedades. a cegar-se ante sua evidência e sua chamada profunda. mas que está aí. nascem da discussão. algo iniludível. fazem-no sem o caráter de irrevogável. O fascista se mobilizará contra a liberdade política. creia-o ou não . Há file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Esta evidência última atua tanto no comunista europeu como no fascista. com plena e incontrastável verdade.o que vitalmente se tem que ser ou não se tem que ser . uma verdade de destino -. Todos "sabem" que além das justas críticas com que se combatem as manifestações do liberalismo fica a irrevogável verdade deste. por muitas atitudes que tenham para nos convencer e convencer-se do contrário. e que nela se recairá sempre que a verdade seja necessária. Seria bom que estivéssemos forçados a aceitar como autêntico ser de uma pessoa o que ela pretendia mostrar-nos como tal. Mas o destino . Pois bem: "o mocinho-satisfeito" caracteriza-se por "saber" que certas coisas não podem ser e. por muito que grite e ainda se deixe matar para sustentá-lo. mas é para cair prisioneiro nos graus inferiores de nosso destino. O destino não consiste naquilo que temos vontade de fazer. somos autênticos. mas sim aceita-se ou não. a evitar cada qual o confronto com isso que tem que ser. é só a aparência. Toda essa pressa para adotar em todas as ordens atitudes aparentemente trágicas. na substância mesma da vida européia. intelectual. desertar de nosso destino mais autêntico. mas todo seu sentido e sua força estão em ser discutidas. a falsificação de nós mesmos (65). Quase todas as posições que se tomam e ostentam são internamente falsas.no católico que presta mais leal adesão ao Syllabus (64). no fundo de sua consciência. precisamente porque sabe que esta não faltará nunca no fim das contas e em sério.

criou uma técnica. Aquele que fabricou os machados de pedra.melhor dito. humorismo onde quer que se vive de atitudes revogáveis.déracinées de seu destino . XII. mais que nunca triunfa a retórica. Diógenes pateia com suas sandálias sujas de lama os tapetes de Arístipo.se deixem arrastar pela mais inconstante corrente. porque tampouco conseguiu seu propósito -. O cínico tornou-se um personagem pululante. O contorno o mima. O superrealista acredita haver superado toda a história literária quando escreveu "aqui uma palavra que não é necessário escrever" onde outros escreveram "jasmins. carecia de ciência. Por isso. que incite a ouvir instâncias externas superiores a ele. pela mesma razão de que está convencido de que ela não desaparecerá. Assim acontece que mal chega à sua máxima atitude a civilização mediterrânea . a porção que de comum tinha com outras do passado. cisnes e faunesas". Era o nihilista do helenismo.O cínico. considera como seu papel pessoal? Que é um fascista se não fala mal da liberdade e um superrealista se não perjura da arte! Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem nascido no mundo demasiadamente bem organizado. do qual só percebe as vantagens e não os perigos. Desta sorte. num caso particular. parasita da civilização. pode resumir-se em duas grandes dimensões: democracia liberal e técnica. a mecânica dessa produção.espraiam-se até um ponto de desenvolvimento que não podem ultrapassar.aparece o cínico. romana. ao concretizar-se. Que faria o cínico num povo selvagem onde todos.por volta do século III A. o cínico não fazia outra coisa senão sabotar aquela civilização. dizia eu. ou em política. Esta civilização do século XIX. vive de negá-la. seu papel era desfazer . O homem-massa não afirma o pé sobre a firmeza incomovível de seu signo. Quase ninguém apresenta resistência aos superficiais torvelinhos que se formam em arte ou em idéias. nilota. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não toda técnica é científica.isto é. e o "filho de família" não sente nada que o faça sair de sua índole caprichosa. A técnica contemporânea nasce da copulação entre o capitalismo e a ciência experimental. A BARBÁRIE DO "ESPECIALISMO" A tese era que a civilização do século XIX produziu automaticamente o homem-massa. A China chegou a um alto grau de tecnicismo sem suspeitar em nada a existência da física. Tomemos agora somente a última. não obstante. tentar desfazer. Mas é claro que com isso só fez extrair outra retórica que até agora jazia nas latrinas. e apenas o tocam começam a retroceder em lamentável involução. que se achava atrás de cada esquina e em todas as alturas. grega. Esclarece a situação atual advertir. naturalmente e a sério. C. a possibilidade de um ilimitado progresso. porque é "civilização" . não obstante a singularidade de sua fisionomia. e muito menos que o obrigue a tomar contato com o fundo inexorável de seu próprio destino. . oriental . e dessa raiz lhe vem seu caráter específico. Só a técnica moderna da Europa possui uma raiz científica. Jamais criou nem fez nada. As demais técnicas .mesopotâmica. Por isso é que nunca como agora estas vidas sem peso e sem raiz . pelo contrário. e. fazem o que ele em farsa.htm (59 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Ora bem. vegeta suspenso ficticiamente no espaço. uma casa -. no período chelense. a tese ganha em força persuasiva. ou nos usos sociais.A rebelião das massas. Convém não fechar sua exposição geral sem analisar. É a época das "correntes" e do "deixar-se ir". em que a pessoa não se finca inteira e sem reservas.

raiz da civilização . A ciência experimental inicia-se ao finalizar o século XVI (Galileu). somente articulada no organismo deste ensaio. geração após geração. sobre o qual predomina e impera. é verdadeira se a separamos da matemática. Os homens de ciência. cume da humanidade européia. encerra germinalmente todas estas meditações. faz dele um primitivo. Esta maravilhosa técnica ocidental tornou possível a maravilhosa proliferação da casta européia. mas porque a técnica mesma . Mas estas páginas tentaram mostrar que também é responsável da existência do homem-massa no sentido qualitativo e pejorativo do termo. mas uma classe ou modo de ser homem que se dá hoje em todas as classes sociais. o representa com maior altitude e pureza? Sem dúvida. um bárbaro moderno. financista. A coisa é muito conhecida: fez-se constar inúmeras vezes. Mas o trabalho nela tem de ser . tomada na sua integridade. dentro dessa burguesia é considerado como o grupo superior. É claro que o personagem astral não perguntaria por indivíduos excepcionais. a constituição da física. preferia ser julgada. entre os que a habitam. Mas não é isto o importante que essa história nos ensinaria. a burguesia. o tipo genérico "homem de ciência". mas procuraria a regra. da filosofia. De 1800 a 1914 ascende a mais de 460 milhões.A rebelião das massas. Tal foi a obra de Newton e demais homens de seu tempo.prevenia eu no princípio .irremissivelmente . professor etc. Isso faria ver como. nome coletivo da ciência experimental. e maior utilidade que a aparente à primeira vista. não a ciência. encerrado num campo de ocupação intelectual cada vez mais estreito. adquire a plenitude de seu sentido e a evidência de sua gravidade. que por isso mesmo representa o nosso tempo. nem por defeito unipessoal de cada homem de ciência. A ciência não é especialista. Quem. Quem exerce o poder social? Quem impõe a estrutura de seu espírito na época? Sem dúvida. da lógica. médico. mostrando o processo de crescente especialização no trabalho dos investigadores. O desenvolvimento de algo é coisa diferente de sua constituição e está submetido a condições diferentes. ia progressivamente perdendo contato com as demais partes da ciência. mas justamente o inverso: como em cada geração o científico. Recorde-se o dado de que tomou seu vôo este ensaio e que. o técnico: engenheiro. não há dúvida de que a Europa apontaria satisfeita e certa de uma sentença favorável. Pois bem: o homem de ciência atual é o protótipo do homem-massa. Assim. Não há dúvida de que a técnica . etc. fazer uma história das ciências físicas e biológicas. Mas o desenvolvimento da física iniciou uma faina de caráter oposto à unificação para progredir. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Por "massa" . e com ânimo de julgá-la lhe perguntasse por que tipo de homem. a ciência necessitava que os homens de ciência se especializassem. não designa aqui uma classe social. por ter de reduzir sua órbita de trabalho. consegue constituir-se nos finais do XVII (Newton) e começa a desenvolver-se nos meados do XVIII. como eu disse. Agora vamos ver isso com sobrada evidência. obrigou a um esforço de unificação. mas. Do século V a 1800 a Europa não consegue ter uma população superior a 180 milhões.não se entende especialmente o obreiro. seus homens de ciência. Nem sequer a ciência empírica. o homem de ciência tem sido constrangido.o converte automaticamente em homem-massa. Se um personagem astral visitasse a Europa. com a aristocracia do presente? Sem dúvida. Ipso facto deixaria de ser verdadeira. E não por casualidade.junto com a democracia liberal . Seria de grande interesse. Quem. o homem de ciência. dentro do grupo técnico.htm (60 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .engendrou o homem-massa no sentido quantitativo desta expressão. O pulo é único na história humana. quero dizer.especializado.

Quer dizer. E. não como um ignorante. mas com toda a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. civilização européia. A razão disso está no que é. e com ela a enciclopédia do pensamento. em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. É um homem que. vantagem maior e perigo máximo da ciência nova e de toda civilização que esta dirige e representa: a mecanização. e denomina diletantismo a curiosidade pelo conjunto do saber. Como foi e é possível coisa semelhante? Porque convém repisar a extravagância deste fato inegável: a ciência experimental progrediu em boa parte mercê do trabalho de homens fabulosamente medíocres. descobrir novos fatos e fazer avançar sua ciência. coisa sobremodo grave. precisamente. e ainda dessa ciência só conhece bem a pequena porção em que ele é ativo investigador. de tudo quanto há de saber para ser um personagem discreto.htm (61 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Chega a proclamar como uma virtude o não tomar conhecimento de quanto fique fora da estreita paisagem que especialmente cultiva. Com certa aparente justiça se considerará como "um homem que sabe". Porque outrora os homens podiam dividir-se. encontramo-nos com um tipo de científico sem exemplo na história. simplesmente. O especialista "sabe" muito bem seu mínimo rincão de universo. a equação se deslocou. como a abelha no seu alvéolo. Por isso cria uma casta de homens sobremodo estranhos. O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e fazendo ver todo o radicalismo de sua novidade. que a ciência moderna. Assim a maior parte dos científicos propelem o progresso geral da ciência encerrados num nicho de seu laboratório. porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade. raiz e símbolo da civilização atual. A especialização começa. A firmeza e exatidão dos métodos permitem esta transitória e prática desarticulação do saber. Na geração seguinte. com efeito. pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora. Devemos dizer que é um sábio ignorante. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. Eis aqui um precioso exemplar deste estranho homem novo que eu tentei. definir. e a especialidade começa a desalojar dentro de cada homem de ciência a cultura integral. junto com outros pedaços não existentes nele. Para os efeitos de inúmeras investigações é possível dividir a ciência em pequenos segmentos. e nem sequer é forçoso para obter abundantes resultados possuir idéias rigorosas sobre o sentido e fundamento deles. com efeito. ao mesmo tempo. Uma boa parte das coisas que é preciso fazer em física e em biologia é faina mecânica de pensamento que pode ser executada por qualquer pessoa. que conscienciosamente desconhece. com uma interpretação integral do universo. deu guarida dentro de si ao homem intelectualmente médio e lhe permite operar com bom êxito. nele se dá um pedaço de algo que. Esta é a situação íntima do especialista. O investigador que descobriu um novo fato da Natureza tem por força de sentir uma impressão de domínio e de segurança em sua pessoa. constituem verdadeiramente o saber.A rebelião das massas. encerrar-se em um e desinteressar-se dos demais. embora sua produção tenha já um caráter de especialismo. conhece apenas determinada ciência. Não é um sábio. O caso é que. que é o único merecedor dos nomes de ciência. cultura. por uma e outra de suas vertentes e aspectos. num tempo que chama homem civilizado ao homem "enciclopédico". O século XIX inicia seus destinos sob a direção de criaturas que vivem enciclopedicamente. fechado na estreiteza de seu campo visual. em sábios e ignorantes. Eu disse que era uma configuração humana sem igual em toda a história. porque é "um homem de ciência" e conhece muito bem sua porciúncula de universo. Trabalha-se com um desses métodos como com uma máquina. Quando em 1890 uma terceira geração assume o comando intelectual da Europa. mas ignora basicamente todo o resto. consegue. e menos que medíocres. mas tampouco é um ignorante. que ele apenas conhece. que nos primeiros anos deste século chegou à sua mais frenética exageração.

mas as tomará com energia e suficiência. engenheiros. Ao especializá-lo a civilização o tornou hermético e satisfeito dentro de sua limitação. Porque esta necessita de tempo em tempo. e em grande parte constituem o império atual das massas. petulância de quem na sua questão especial é um sábio. Por outra parte. E o pior é que com esses perdigueiros do forno científico nem sequer está garantido o progresso íntimo da ciência. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.especialismo . chega ao cúmulo nesses homens parcialmente qualificados. por exemplo.e. que representa um maximum de homem qualificado . nos usos sociais. em arte. mas Einstein precisou saturar-se de Kant e de Mach para poder chegar a sua aguda síntese. a idéia que sói faltar ao típico "homem de ciência". como devem estar organizados a sociedade e o coração do homem. quando há maior número de "homens de ciência" que nunca. um trabalho de reconstituição. que cada vez complica regiões mais vastas do saber total. o mais oposto ao homem-massa. significam o mais claro e preciso exemplo de como a civilização do último século abandonada à sua própria inclinação. sem admitir . e é claro. A advertência não é vaga. na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os "homens de ciência". isso requer um esforço de unificação. O especialismo. Quem quiser pode observar a estupidez com que pensam. com efeito. muito mais radicalmente ignora as condições históricas de sua perduração. produziu esse broto de primitivismo e barbárie. professores. O resultado mais imediato desse especialismo não compensado tem sido que hoje. cume de nossa atual civilização. e só poderá salvá-la uma nova enciclopédia mais sistemática que a primeira. mas essa mesma sensação íntima de domínio e valia o levará a querer predominar fora de sua especialidade. financistas. o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida.à qual já aludi . Kant e Mach . depois deles. na arte. portanto. como a crosta terrestre e a selva primigênea.htm (62 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . E.especialistas dessas coisas. como eu disse.serviram para liberar a mente desse e deixar-lhe a via livre para sua inovação. para que possa continuar havendo investigadores. e. simplesmente. e ignorantíssimo.A rebelião das massas. em 1750. e sua barbárie é a causa mais imediata da desmoralização européia. este é o comportamento do especialista. ainda neste caso. etc. como orgânica regulação de seu próprio incremento. de não se submeter a instâncias superiores que reiteradamente apresentei como característica do homem-massa. A física entra na crise mais profunda de sua história. Também ele acredita que a civilização está aí. cada vez mais difícil. aproxima-se a uma etapa em que não poderá avançar por si mesmo se não se encarrega uma geração melhor de construir-lhe um novo forno mais poderoso. julgam e atuam hoje na política. Em política. nas outras ciências tomará posições de primitivo. Mas se o especialista desconhece a fisiologia interna da ciência que cultiva. isto é. haja muito menos homens "cultos" que. que tornou possível o progresso da ciência experimental durante um século. Newton pode criar seu sistema físico sem saber muita filosofia. A decadência de vocação científica que se observa nestes anos . pois. E a conseqüência é que. médicos. Eles simbolizam.é um sintoma preocupador para todo aquele que tenha uma idéia clara do que é civilização.e isto é o paradoxal .com estes nomes simboliza-se só a massa enorme de pensamentos filosóficos e psicológicos que influíram em Einstein . Essa condição de "não ouvir". Mas Einstein não é suficiente.

naufragou e morreu. a fazem sua. os retóricos. quando as massas triunfam. e isso é um bom sintoma. teria talvez preferido este último estilo de rebeldia. é que é um homem excelente. compreender-se-á que o homem é. aspirar a isso -. organizada . constituída pelas minorias excelentes. Há muito tempo que eu fazia notar este comércio da violência como norma (67). Como todos os demais perigos que ameaçam esta civilização. No dia em que volte a imperar na Europa uma autêntica filosofia (66) . porque significa que automaticamente vai iniciar-se seu descenso. pervive largamente. como Tolstoi. Refiro-me ao perigo maior que hoje ameaça a civilização européia. influída. Quando uma realidade humana cumpriu sua história. pelo menos. que não é mais nem menos contra Deus que o outro tão famoso). é. Tal é a sua missão. a única doutrina. A retórica é o cemitério das realidades humanas. Nem muito menos poderá estranhar que agora. Hoje é já a violência a retórica do tempo. XIII. pois. Não é completamente casual que a lei de Lynch seja americana. continuaremos sob seu regime. em rebelar-se contra si mesmo. ainda sendo sua palavra. que tampouco o era. tenha ou não vontade disso. Mais ainda: constitui uma de suas glórias. (Se Luzbel tivesse sido russo. muito mais incomovível que as leis da física de Newton. Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si. os inanes. é coisa sobre a qual convém que não haja dúvida alguma. cadáver. ao modo dos estrúcios para ver se consegue não ver tão radiante evidência. O ESTADO Numa boa ordenação das coisas públicas. Pretender a massa atuar por si mesma é. e como isso é o que faz agora. a massa é o que não atua por si mesma. falo eu da rebelião das massas.se houvesse obstinado em ser o mais ínfimo dos anjos. seu hospital de inválidos. é o Estado contemporâneo. a rebelião do arcanjo Luzbel não o houvera sido menos se em vez de empenhar-se em ser Deus . mas numa lei da "física" social. bem que em outra forma. embora leve a Europa todo um século metendo a cabeça debaixo da asa. Necessita referir sua vida à instância superior. Hoje chegou a seu máximo desenvolvimento. no mínimo. é que é um homem-massa e necessita recebê-la daquele. À realidade sobrevive seu nome que. fá-lo só de uma maneira. Discuta-se quanto se queira quem são os homens excelentes. Mas ainda quando não seja impossível que tenha começado a minguar o prestígio da violência como norma cinicamente estabelecida. as ondas a cospem nas costas da retórica. Porque no final das contas a única coisa que substancialmente e com verdade pode chamar-se é a que consiste em não aceitar cada qual seu destino. senão. Encontramo-nos. representada. rebelar-se contra seu próprio destino. triunfe a violência e se faça dela a única ratio. Quando a massa atua por si mesma. com uma réplica do que no capítulo anterior se disse sobre a ciência: a fecundidade de seus princípios a propelem a um fabuloso progresso.até para deixar de ser massa. mas que sem eles . onde. mas este impõe file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.a humanidade não existiria no que tem de mais essencial. O MAIOR PERIGO. um ser constitutivamente forçado a procurar uma instância superior. A rigor.A rebelião das massas.o que não era seu destino . também este nasceu dela.htm (63 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . ou. Veio ao mundo para ser dirigida.sejam uns ou outros . Se consegue por si mesmo encontrá-la. Porque não se trata de uma opinião fundada em fatos mais ou menos freqüentes e prováveis. pois. porque não tem outra: lincha. já que a América é de certo modo o paraíso das massas. nada menos que palavra e conserva sempre algo de seu poder mágico. afinal de contas.única coisa que pode salvá-la -.

não foi mais que um golpe de Estado com máscara. No meio dela. em suma. apenas tinha dinheiro. apenas tinha burocratas. instintivos. Plantada no meio da sociedade. De inteligência muito limitada. Incapazes de inventar novas armas. e em pouco mais de uma geração criou um Estado poderoso. Uma nova classe social apareceu. Desde 1848.A rebelião das massas. Entediaram-se. dar continuidade e articulação ao esforço. A nave do Estado é uma metáfora reinventada pela burguesia. antes de tudo e sobretudo uma coisa: talento. coberto estupidamente de ferro. navegava ao azar a "nave do Estado". as revoluções (até 1848). Não inventaram a pólvora. quer dizer. muito menos poderoso que o de Luís XVI.htm (64 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . está claro. e a especialização ameaça afogar a ciência. de uma maravilhosa eficiência pela quantidade e precisão dos seus meios. a nova técnica. Sabia organizar. como num oceano. E não certamente porque não houvesse motivos para elas. o Estado chegou a ser máquina formidável que funciona prodigiosamente. Sem eles não existiriam as nações da Europa. haviam produzido um primeiro crescimento da sociedade. inexoravelmente a especialização. desde que começa a segunda geração de governos burgueses não há na Europa verdadeiras revoluções. Mas com a Revolução apossou-se do Poder público a burguesia e aplicou ao Estado suas inegáveis virtudes. a sociedade que o rodeava não tinha força nenhuma (69).utilizassem a pólvora. A mesma coisa acontece com o Estado. O enorme desnível entre a força social e a do poder público tornou possível a Revolução. Em nosso tempo. aparece o Estado do século XVIII como uma degeneração. E tudo que com posterioridade pode dar-se ares de revolução. disciplinar. coisa que obriga à racionalização. sentimentais. talento prático. ganharam a batalha ao guerreiro nobre. Aquela nave era coisa de nada ou pouco mais: apenas tinha soldados. sempre andaram. Rememore-se o que era o Estado nos fins do século XVIII em todas as nações européias. Nivelou-se o Poder público com o poder social. o "antigo regime" chega aos fins do século XVIII com um Estado fraquíssimo. mais poderosa em número e potência que as preexistentes: a burguesia. e com isso.tomando-as do Oriente ou outro lugar . "irracionais". O Estado carolíngio era. que acabou com as revoluções. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. em compensação. e a quem não ocorrera que o segredo eterno da guerra não consiste tanto nos meios de defesa como nos de agressão (segredo que Napoleão redescobriria) (68) Como o Estado é uma técnica . basta tocar u'a mola para que atuem suas enormes alavancas e operem fulminantes sobre qualquer parte do corpo social. onde pela primeira vez triunfa a técnica. que comparando a situação com a vigente em tempo de Carlos Magno. intuitivos. a racionalizada. por seu sentido de responsabilidade. mal de cabeça. Mas com todas essas virtudes do coração. Por isso não puderam desenvolver nenhuma técnica. mas. os nobres andavam. que se sentia a si mesma oceânica. mas porque não havia meios. onipotente e grávida de tormentas. Esta burguesia sem mérito possuía. por seu dom de mando. deixaram que os burgueses . Viviam da outra víscera. Bem pouca coisa! O primeiro capitalismo e suas organizações industriais. açoitado de todos os lados por uma ampla e revolta sociedade. Adeus revoluções para sempre! Já não cabe na Europa mais que o contrário: o golpe de Estado. A desproporção entre o poder do Estado e o poder social é tal nesse momento. que apenas podia mover-se na lida. ao "cavalheiro". gente admirável por sua coragem. Havia sido fabricada na Idade Média por uma classe de homens muito diferentes dos burgueses: os nobres.de ordem pública e de administração -. automaticamente.

é uma grande tentação para ela essa permanente e segura possibilidade de conseguir tudo . Por outra parte. Estado contemporâneo e massa coincidem só em ser anônimos. depois de sugar a medula da sociedade. a não poder viver mais que em serviço do Estado. antes de tudo.A rebelião das massas. E como no final das contas não é senão u'a máquina cuja existência e manutenção dependem da vitalidade circundante que a mantenha. e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto. A urgência maior do Estado é seu aparato bélico. Mas o caso é que o homem-massa crê. O Estado é a massa só no sentido em que se pode dizer de dois homens que são idênticos porque nenhum dos dois se chama João. Este foi o signo lamentável da civilização antiga. incomparavelmente superior como artefato ao velho Estado republicano das famílias patrícias. quer dizer.apenas ao premir a mola e fazer funcionar a portentosa máquina. Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatificação da vida. Faina vã! A miséria aumenta. para subvencionar suas próprias necessidades.em todas as ordens -. precatar-se da atitude que ante ele adota o homem-massa. Faltam até soldados. e como ele se sente a si mesmo anônimo vulgo -. em idéias. Então o Estado. o que é um perfeito erro. com efeito. a anulação da espontaneidade histórica. morto com essa morte ferrugenta da máquina. produtor de segurança (a segurança de que nasce o homem-massa.htm (65 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . conflito ou problema: o homem-massa tenderá a exigir que imediatamente o assuma o Estado. O Estado é. Mas. muito mais cadavérica que a do organismo vivo. Depois. nenhuma nova semente poderá frutificar. Depois dos Severos. O Estado contemporâneo é o produto mais visível e notório da civilização. Por isso é. que ele é o Estado. mas não tem consciência de que é uma criação humana inventada por certos homens e mantida por certas virtudes e por certo que houve ontem nos homens e que pode evaporar-se amanhã. de origem africana. que se encarregue diretamente de resolvê-lo com seus gigantescos e incontrastáveis meios.que o perturbe em qualquer ordem: em política. para viver melhor. o exército tem de ser recrutado entre estrangeiros. A massa diz a si mesma: "o Estado sou eu". a esmagar com ele toda minoria criadora que o perturbe . como um utensílio. ou simplesmente algum forte apetite. Imagine-se que sobrevem na vida pública de um país qualquer dificuldade. cria. Esta burocratização em segunda potência é a militarização da sociedade. A vida toda se burocratiza. o homem-massa vê no Estado um poder anônimo. o homem. a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado. A sociedade terá de viver para o Estado. nutre e impele os destinos humanos. dúvida nem risco . antes de tudo. E é muito interessante. as matrizes são cada vez menos fecundas. seu exército. curiosa coincidência. exército. A riqueza diminui e as mulheres parem pouco. Adverte-se qual é o processo paradoxal e trágico do estatismo? A sociedade. Quando a massa sente uma desventura. Este o vê. admira-o. sabe que está aí. em indústria. Os Severos. é revelador. A espontaneidade social ficará violentada uma vez e outra pela intervenção do Estado. o Estado. o Estado. para a máquina do Governo. apenas chegou a seu pleno desenvolvimento. que em definitivo sustenta. o intervencionismo do Estado. Já nos tempos dos Antoninos (século II) o Estado gravita com uma antivital supremacia sobre a sociedade. Esta começa a ser escravizada. Que acontece? A burocratização da vida produz sua diminuição absoluta . Não há dúvida que o Estado imperial criado pelos Júlios e os Cláudios foi u'a máquina admirável. luta. não se esqueça). força mais a burocratização da existência humana. o Estado se sobrepõe. ficará héctico. O resultado desta tendência será fatal. militarizam o mundo. crê que o Estado é coisa sua. garantindo sua vida. e a sociedade tem de começar a viver para o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. começa a decair o corpo social.sem esforço. esquelético.

dálmatas. nada contra o Estado. Por muito habitual que nos seja. depois. o crime. Mussolini encontrou um Estado admiravelmente construído . do povo inicial. do grupo. máquina anônima. pelas mesmas causas. germanos. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. Estado (70). mas pagam caro suas vantagens. e os restos da sociedade.htm (66 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação direta constituídas em normas. Governam os conservadores.e que será. têm de viver escravo deles. O inevitável é que acabem por definir e decidir elas a ordem que vão impor . no final das contas. "Em Paris escreve John William Ward . sem que eu me permita agora julgar os detalhes de sua obra. que dificilmente equilibra a acumulação de poderes anormais que lhe consentem empregar aquela máquina em forma extrema. a nova indústria começa a criar um tipo de homem . O esqueleto come a carne que o rodeia. Quando. e.A rebelião das massas. Ele se limita a usá-lo incontinentemente. e extinguir assim definitivamente o porvir? Um exemplo concreto deste mecanismo achamo-lo num dos fenômenos mais alarmantes destes últimos trinta anos: o aumento enorme em todos os países das forças de Polícia. Os estrangeiros tornaram-se donos do Estado. mas precisamente pelas forças e idéias que ele combate: pela democracia liberal -. a estar submetido a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o que lhes convenha. O andaime se torna proprietário e inquilino da casa. Entretanto. sem remédio.o obreiro industrial . Mas é uma inocência das pessoas de "ordem" pensar que essas "forças de ordem pública". criadas para a ordem. vão contentar-se com impor sempre o que aquelas queiram. Mas. as massas atuam por si mesmas. As nações européias têm diante de si uma etapa de grande dificuldade em sua vida interior. em 1800. o Estado se compõe ainda dos homens daquela sociedade. é tão miúdo. jurídicos e de ordem pública sobremodo árduos. de gente com a qual não tem nada que ver.mais criminoso que os tradicionais. a fórmula Tudo pelo Estado. uma Polícia que regule a circulação. "As pessoas conformam-se em se adaptar à desordem. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road. e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. até onde se possa.não por ele. Através e por meio do Estado. nada fora do Estado. O crescimento social obrigou iniludivelmente a isso. pouco visível e nada substantivo. Em 1810 surge na Inglaterra. problemas econômicos. é indiscutível que os resultados obtidos até o presente não podem ser comparados aos obtidos na função política e administrativa pelo Estado liberal. para caminhar pacificamente e atender a seus negócios. naturalmente. não deve perder seu terrível paradoxismo ante nosso espírito o fato de que a população de uma grande urbe atual. considerando-a como resgate da liberdade". Quando se sabe disso. Se algo conseguiu. como um prodigioso descobrimento feito agora na Itália.têm uma Polícia admirável. Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma ou outra sociedade. um aumento da criminalidade. necessita. Bastaria isso para descobrir no fascismo um típico movimento de homens-massa. sobressalta um pouco ouvir que Mussolini apregoa com exemplar petulância. Preferem agüentar. a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. estes não bastam para sustentar o Estado e é preciso chamar estrangeiros: primeiro. A isso conduz o intervencionismo do Estado: o povo se converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina que é o Estado. Como não temer que sob o império das massas se encarregue o Estado de esmagar a independência do indivíduo.

Mas o reverso do mesmo fenômeno é tremebundo.htm (67 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Já não há pedaço de humanidade que viva à parte .não há ilhas de humanidade -. Nestes casos teríamos que estabelecer nossa pergunta: "Quem manda no mundo?" a cada grupo de convivência. pelo menos. Por seu anverso. desde aquele século pode dizer-se que quem manda no mundo exerce. já o dissemos: a rebelião das massas é uma e mesma coisa com o crescimento fabuloso que a vida humana experimentou em nosso tempo. Mas este traz consigo uma deslocação do espírito. O inglês quer que o Estado tenha limites. SEGUNDA PARTE QUEM MANDA NO MUNDO? XIV. Por "mando" não se entende aqui primordialmente exercícios de poder material. a mais importante. Entre estas últimas. Por isso. quase sem dúvida.A rebelião das massas. Esse estilo de vida sói denominar-se "Idade Moderna". Olhemos esta agora de vários pontos de vista. Porque aqui aspira-se a evitar estupidezes. que formam mundos interiores e independentes. mas. Portanto. pelo contrário. ou. o mundo mediterrâneo ignorava a existência do mundo extremo oriental.do homem e de seu espírito -. nome incolor e inexpressivo sob o qual se oculta esta realidade: época da hegemonia européia. tem à sua disposição esse aparato ou file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o fato desta rebelião apresenta um aspecto ótimo. A Europa mandava. Mas desde o século XVI entrou a humanidade toda num processo gigantesco de unificação. I A substância ou índole de uma nova época histórica é resultante de variações internas . Esse tem sido o papel do grupo homogêneo formado pelos povos europeus durante três séculos. seu influxo autoritário em todo ele. QUEM MANDA NO MUNDO? A civilização européia . progressivamente unificado. efetivamente. olhada por esse lado a rebelião das massas é uma e mesma coisa com a desmoralização radical da humanidade. porque um homem ou grupo de homens exerce o mando. Ora bem: essa relação estável e normal entre homens que se chama "mando" não descansa nunca na força. visitas domiciliárias. pelo menos as mais ordinárias e palmares. à espionagem e a todas as maquinações de Fouché (71) "São duas idéias diferentes do Estado.padeceu automaticamente a rebelião das massas. é a deslocação do poder.tenho repetido uma e outra vez . de coação física. e sob sua unidade de mando o mundo vivia com um estilo unitário. ao aparecermos a um tempo com ânimo de compreendê-lo. que em nossos dias chegou a seu término insuperável. No tempo de Milcíades. uma de nossas primeiras perguntas deve ser esta: "Quem manda no mundo atualmente?" Poderá ocorrer que neste momento a humanidade esteja dispersa em vários pedaços sem comunicação entre si.

no final das contas. Por isso. o estado da opinião: uma situação de equilíbrio. Pois até quem pretende governar com os janízaros depende da opinião destes e da que tenham sobre estes os demais habitantes. cadeira curul. longe de ser uma aspiração utópica. máquina social que se chama "força". e cria-se o Sacro Romano Império. poltrona ministerial. opinião. revelam-se ante uma inspeção ulterior como os melhores exemplos para confirmar aquela tese. se se quer expressar com toda a precisão a lei da opinião pública como lei da gravitação histórica.A rebelião das massas. Jamais alguém mandou na terra nutrindo seu mando essencialmente de outra coisa que não fosse a opinião pública. convêm no acordo de se instalar cada um em um modo de tempo: o temporal e o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.sempre. Sire. Sem ela. nesta ou naquela data. é o que pesou sempre e a toda hora nas sociedades humanas. O qual se funda sempre na opinião pública . O Estado ou Poder público primeiro que se forma na Europa é a Igreja . pois. de um espírito. Napoleão dirigiu à Espanha uma agressão. sede. hoje como há dez mil anos. mas o fato de que a opinião pública é a força radical que nas sociedades humanas produz o fenômeno de mandar. portanto. E a lei da opinião pública é a gravitação universal da história política. pode-se fazer tudo." E mandar não é atitude de arrebatar o poder. Em suma. venerável e verídico lugar comum: não se pode mandar contrariando a opinião pública. banco azul. Na Idade Média se reproduz com formato maior o mesmo fenômeno. Assim. Deste modo lutam dois poderes igualmente espirituais que.com seu caráter específico e já nominativo de "poder espiritual" -. entre os ingleses como entre os botocudos -. Ou acredita-se que a soberania da opinião pública foi um invento feito pelo advogado Danton em 1789 ou por S. vigência de certas idéias. Todo mando primitivo tem um caráter "sacro". Contra o que uma ótica inocente e folhetinesca supõe. Trono. na física de Newton a gravitação é a força que produz o movimento. em suma. O Estado é. não podendo diferenciar-se na substância ambos são espírito -. cuja força de opinião fica reciprocamente anulada. mandar é sentar-se. Talleyrand a Napoleão: "Com as baionetas. o mandar não é tanto questão de punhos como de nádegas. de que mando não é. convém ter em conta esses casos de ausência. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes. o imaterial e ultra-físico. mas não mandou propriamente na Espanha nem um dia sequer. não dá lugar a que se constitua um mando. de estática. sustentou esta agressão durante algum tempo. Por isso muito agudamente insinua Hume que o tema da história consiste em demonstrar como a soberania da opinião pública. O que sucede é que às vezes a opinião pública não existe. mas tranqüilo exercício dele. A verdade é que não se manda com os janízaros. esse oco que deixa a força ausente de opinião pública enche-se com a força bruta. Convém distinguir entre um fato ou processo de agressão e uma situação de mando. idéia. O mando é o exercício normal da autoridade.htm (68 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . outra coisa senão poder espiritual. Assim. E como a Natureza tem horror ao vácuo. avança esta como substituta daquela. nem a ciência histórica seria possível. menos uma coisa: sentar-se sobre elas. em definitivo. e então chega-se a uma fórmula que é o conhecido. Em suma. Tomás de Aquino no século XIII? A noção desta soberania terá sido descoberta aqui ou ali. Da Igreja aprende o Poder político que ele também não é originariamente senão poder espiritual. é coisa tão antiga e perene como o próprio homem. Isso nos faz cair na conclusão de que mando significa prepotência de uma opinião. Os fatos históricos confirmam isso escrupulosamente. e o religioso é a forma primeira sob a qual aparece sempre o que depois vai ser espírito. Os casos em que à primeira vista parece ser a força o fundamento do mando. porque se funda no religioso. E isso porque tinha a força e precisamente porque só tinha a força.

agora. Nestas jornadas de após-guerra começa a dizer-se que a Europa não manda mais no mundo.seja qual seja . propósitos. só então. sem um poder espiritual. e é preciso que esta lhe venha de fora a pressão. supor que as coisas são de certa maneira. a convivência humana seria o caos. infinidade de coisas. pois. um conceito ou entretecido de conceitos. olhamos depois a efetiva realidade. Sem opiniões. Nisto consiste o método científico. se odeia. e tudo isso em grande escala. e.opine. Voltemos agora ao começo. É o que aconteceu em todas as idades médias da história. Mas nos grandes tempos a humanidade vive da opinião.e é a maioria . A pretensão de dizer o que é que acontece agora no mundo deve ser entendida. portanto. como dizer: em tal data predomina no mundo tal sistema de opiniões . cometemos deliberadamente. Durante vários séculos mandou no mundo a Europa. preferências. tal povo ou tal grupo homogêneo de povos. nada menos que uma mudança de gravitação histórica. um erro. conseguimos uma visão aproximada dela. Poder temporal e poder religioso são identicamente espirituais. de organicidade.tenha poder e o exerça. a que Deus tem sobre o homem e seus destinos. e na medida que isso seja necessário. Ela pôs ordem no Mediterrâneo e confinantes. Por isso representam sempre um relativo caos e uma relativa barbárie. Sem opiniões. Com ele. toda deslocação de poder. como através de uma quadrícula. ironicamente. E paralelamente. em compensação. enquanto o outro é espírito de eternidade . Do outro lado da Idade Média achamos novamente uma época em que. é ao mesmo uma mudança de opiniões. Adverte-se toda a gravidade deste diagnóstico? Com ele anuncia-se uma deslocação do poder. reina na humanidade o caos. e. Tanto vale.a opinião de Deus. toda mudança de imperantes. Quando ao ver chegar nosso amigo pela vereda do jardim dizemos: "Este é Pedro». a grande mandona.A rebelião das massas. como ironizando-se a si mesma. Por isso. dizer: em tal data manda tal homem. para que a gente que não opina . Por isso é preciso que o espírito .htm (69 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pois. Isto nos proporciona um esquema. e então.idéias. e por isso há ordem. como na Moderna. aspirações. Mais ainda: nisto consiste todo uso do intelecto. Tempos assim não carecem de delícias. Para onde se dirige? Quem vai suceder a Europa no mando do mundo? Mas há mesmo certeza de que alguém vai suceder à Europa? E se não fosse ninguém. manda alguém. que aconteceria? II A pura verdade é que no mundo acontece a todo instante. Porque Pedro significa para nós um esquemático repertório de modos de se comportar física e moralmente . Como há de se entender este predomínio? A maior parte dos homens não têm opinião. um déficit de opinião. e a pura verdade é que nosso file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a vida dos homens careceria de arquitetura. se anseia. Mas assim como é impossível conhecer diretamente a plenitude do real. quer dizer. eterno. se repugna. um conglomerado de povos com um espírito afim. mas um é espírito do tempo opinião pública intramundana e cambiante -. sem alguém que mande. Na Idade Média não mandava ninguém no mundo temporal. menos ainda: o nada histórico. embora sobre uma porção limitada do mundo: Roma. São tempos em que se ama. Mas. não temos mais remédio senão construir arbitrariamente uma realidade. consequentemente.o que chamamos "caráter" -. opina-se pouco. como entra o lubrificante nas máquinas.

é um instrumento doméstico do homem. parecer-nos-á que no fundo todos os filósofos disseram a mesma coisa. Tampouco estão certos disso. o mais vulgar como o mais técnico. nem aquela B. e eu necessitava por isso recordar que pensar é. Ele sabe muito bem que nem esta coisa é A. que é aquilo que realmente está acontecendo no mundo. o conceito. a que tal suspeita ou preocupação preexistia em todas as cabeças.é exclusivamente isto: durante três séculos a Europa mandou no mundo. Ora bem. no conceito. Nós. é sem dúvida e no melhor caso uma exageração. exagerar. A isto corresponde nos demais povos da Terra um estado de espírito congruente: duvidar de se agora são mandados por alguém. a meu juízo. Falou-se muito nestes anos da decadência da Europa. Quem prefira não exagerar deve calar-se. Esta opinião taxativa. o histórico . à valentona. se se escruta bem a entranha última de qualquer conceito. todo descobrimento filosófico não é mais que um descobrimento e um trazer à superfície o que estava no fundo. esta coisa não é A. Creio. Ele diz muito seriamente: "Esta coisa é A. mas. admitindo que são A e B. que eu saiba. Por isso. mas. a realidade mesma. Todo conceito." Mas é a sua a seriedade de um pince-sans-rire. sintoma ou anedota disso. em quase nada à idéia "nosso amigo Pedro". condição. Os conceitos são o plano estratégico que nos formamos para responder a seu ataque. Por isso. acha-se que não nos diz nada da coisa mesma. estritamente. Reduzir a fórmula tão simples a infinitude de coisas que integram a realidade histórica atual. contrariamente. que este necessita e usa para esclarecer sua própria situação em meio da infinita e arqui-problemática realidade que é sua vida.A rebelião das massas. O que o conceito pensa a rigor é um pouco outra coisa que o que diz. tão alheio a problemas filosóficos. e esta outra coisa é B. Mas semelhante intróito é desmesurado para o que vou dizer. e agora a Europa não está convicta de mandar nem de continuar mandando. É a seriedade instável de quem engoliu uma gargalhada e se não aperta bem os lábios a vomita. Porque o grego acreditou haver descoberto na razão. se revisamos a sua luz todo o passado da filosofia até Kant. e que tudo o mais é conseqüência. Antes de que seu livro aparecera. e nesta duplicidade consiste a ironia. mais ainda: tem de paralisar seu intelecto e ver a maneira de idiotizar-se. acreditamos que a razão. é sempre ação possível. e o êxito de seu livro deveu-se. queira-se ou não. todo o mundo falava disso. o término indefectível do processo filosófico que se inicia com Kant. segundo a qual o conteúdo de todo conceito é sempre vital.htm (70 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . com os file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. assim. como o geométrico diamante vai implícito na dentadura de ouro de seu engaste. mas é. nem a outra é B. eu me entendo comigo mesmo para os efeitos de meu comportamento vital diante de uma ou de outra coisa. como é notório. Eu ia dizer simplesmente que o que agora acontece no mundo . que nestes anos a Europa sente graves dúvidas sobre se manda ou não. amigo Pedro não se parece. mas que resume o que um homem pode fazer com essa coisa ou padecer dela. sobre se amanhã mandará.entende-se. Esta teoria do conhecimento da razão houvera irritado a um grego. com efeito. vai incluso na ironia de si mesmo. O que verdadeiramente pensa é isto: eu sei que. Eu não disse que a Europa tenha deixado de mandar. ou padecimento possível de um homem. sem reservas. Vida é luta com as coisas para sustentar-se entre elas. Eu suplico fervorosamente que não se continue cometendo a ingenuidade de pensar em Spengler simplesmente porque se fale da decadência da Europa ou do Ocidente. nos entredentes de um sorriso tranqüilo. não foi até agora. falando com todo rigor. em certos momentos. sustentada por ninguém.

o fenômeno também se produza quando olhamos o conjunto das nações. Não obstante. a turba parvular faz bagunça. mas como são incapazes de criar outro. povos-massa resolvidos a rebelar-se contra os grandes povos criadores. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Sobretudo. como tirada a norma que fixava as ocupações e as tarefas. de sacudir os jugos das normas. Frank nem analisa nem discute. dando-se ares de pessoa maior que rege seus próprios destinos. Falou-se tanto da decadência européia. consequentemente só pode executar uma só coisa: a cabriola. Sem mais averiguações. parte dele como de algo inconcusso. nem sequer levantou tal questão. minorias de estirpes humanas que organizaram a história. segundo se diz. desde seu perdido rincão. À vista de que. Redescobrimento da América. apoia-se integralmente no suposto de que a Europa agoniza. não sabem o que fazer. deixa de mandar. sentidos e pelas razões mais heterogêneas. ficam sem tarefa. de sentir-se dono do próprio destino. embora não recordem sinceramente haver-se convencido resolutamente disso em nenhuma data determinada. Não que acreditavam a sério e com evidência nele. povos inteiros. uma ocupação formal. proclama o direito à vulgaridade e nega-se a reconhecer instâncias superiores a ele. É verdadeiramente cômico contemplar como esta ou a outra republiqueta. É deplorável o frívolo espetáculo que os povos menores oferecem. de ficar de cabeça para baixo. Nos capítulos anteriores tentei filiar um novo tipo do homem que hoje predomina no mundo: chamei-o homem-massa. gesticula. nem faz questão de tão enorme fato. sem dúvida. Os lugares comuns são os bondes do transporte intelectual. Na escola. que lhe vai servir de formidável premissa. os povos-massa resolveram dar como caduco aquele sistema de normas que é a civilização européia. E esta ingenuidade no ponto de partida basta-me para pensar que Frank não está convencido da decadência da Europa. e fiz notar que sua principal característica consiste em que. uma tarefa com sentido. e para encher o tempo entregam-se à cabriola. longe disso. continuidade e trajetória. definitivas enquanto não existam ou se divisem outras. Também há. ao rebelar-se.htm (71 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O recente livro de Waldo Frank. E como ele fazem muitas pessoas. entesa-se. cada nação e naçãozinha brinca.A rebelião das massas. Mas são. as melhores possíveis. Estas normas não são. E uma paisagem de exemplar puerilidade a que agora oferece o mundo. relativamente. fazem-no os povos. fica de cabeça para baixo. mas que se habituaram a dá-lo como certo. se põe na ponta dos pés a increpar a Europa e declarar sua cessação na história universal. que muitos chegaram a dá-la como um fato. Esta é a primeira conseqüência que sobrevem quando no mundo deixa de mandar alguém: que os demais. Para superá-las é imprescindível parir outras. de modo algum. sem programa de vida. a turba parvular não tem um afazer próprio. Cada um sente a delícia de evadir-se da pressão que a presença do mestre impunha. a Europa decai e. portanto. Toma-a como um bonde. Era natural que se esse modo de ser predomina dentro de cada povo. quando alguém notifica que o mestre saiu. sentindo-se vulgar. Ora. Mas. Daí o vibriônico panorama de "nacionalismos" que se nos oferece por toda a parte. Qual é o resultado? A Europa havia criado um sistema de normas cuja eficácia e fertilidade os séculos demonstraram.

Uma vida em disponibilidade é maior negação que a morte. Porque existiam só os europeus. Mas não há sombra de tal. E esta é a pura verdade. Por Europa entende-se. Dentro de pouco ouvir-se-á um grito formidável em todo o planeta. e na medida em que iludamos pôr em algo nossa existência desocupamos nossa vida. começou por interrogá-lo sobre os mandamentos de Deus. indivíduos .aproveitam a ocasião para viver sem imperativos. Os inferiores pensam que lhes tiraram um peso de cima. Não se trata de que . desolação. Os mandamentos europeus perderam vigência sem que se vislumbrem outros no horizonte. não seríamos velhos ou levaríamos mais tempo a sê-lo. Mas o que agora acontece na Europa é coisa insalubre e estranha. que imponha um afazer ou obrigação. perderam seu sentido. simplesmente porque os inventos da técnica automobilística têm ocorrido com mais rapidez. e não se vê quem possa substituí-la. A mesma coisa acontece com os artefatos. fica nossa vida em pura disponibilidade. que subirá. as pessoas . Todo o mundo . Sem mandamentos que nos obriguem a viver de um certo modo. Alemanha. mas porque já está aí um princípio novo. Os decálogos conservam do tempo em que eram inscritos sobre pedra ou bronze seu caráter de pesadume. sentem-se vazias. a trindade França. Nova York e Moscou não são nada novo com respeito à Europa. pedindo alguém e algo que mande. A rigor. impedir sua extravagância. Mais ainda: o velho advém velho não por sua senectude.deixa de mandar. com inconsciência de crianças. vida vazia. Um automóvel envelhece em dez anos mais do que uma locomotiva em vinte. Esta é a horrível situação íntima em que se encontram já as juventudes melhores do mundo.nações.A rebelião das massas. metê-las em seu destino. Mas a festa dura pouco. antes de tudo e propriamente. Não é essa a situação presente do mundo? Corre o zum-zum de que não vigorem mais os mandamentos europeus. e aproveitam com ar festivo este tempo de pesados imperativos. A Europa . nos anunciam que a Europa já não manda. Esta descendência oriunda do broto de novas juventudes é um sintoma de saúde. que apenas com sua novidade avantaja-se de repente ao preexistente. Ao que o cigano respondeu: "Olhe aqui. São um e outro duas parcelas do mandamento europeu que. seu padre. Se não tivéssemos filhos. precavido. A etimologia de mandar significa carregar. a qual sói ser vacância. Na região do globo que elas ocupam amadureceu o módulo de existência humana conforme ao qual foi organizado o mundo. Os inferiores do mundo inteiro já estão fartos de que os encarreguem e sobrecarreguem.é cumprir um encargo -. III O cigano foi se confessar. quem tem o encargo. em seu eixo. pôr em alguém algo nas mãos.como outras vezes aconteceu uma germinação de normas novas substitui as antigas e um fervor novíssimo absorva em seu fogo jovem os velhos entusiasmos de minguante temperatura. não é de estranhar que o mundo se desmoralize. esses três povos estão em decadência e seu programa de vida perdeu validez. esta desmoralização diverte e até vagamente ilude. Não importaria que a Europa deixasse de mandar se houvesse alguém capaz de substituí-la. como uivo de cães inumeráveis. mas depois ouvi um zum-zum de que tinha perdido o valor".homens e povos .diz-se . ao dissociar-se do resto. sem remissão. De puro sentir-se livres. isentas de entraves. Se. Mandar é dar ocupação às gentes.htm (72 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Durante uma temporada. Porque viver é ter que fazer algo determinado . Quem manda é. e em vista disso. Isso seria o admitido. causa file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. eu ia aprender isso. como agora se diz.está desmoralizado. mas o padre. Inglaterra. até as estrelas. Vá isto dito para os que.

uma realidade que não é a que parece.de uma idade diferente da nossa. Quando crescem num âmbito onde existe ou acaba de existir uma velha cultura. Mas não há tal contradição. outra. Eu espero um livro em que o marxismo de Stalin apareça traduzido à história da Rússia.htm (73 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . uma repristinação ou rejuvenescimento de raças antigas.faz por baixo dele o seu gesto. Vá lá saber o que será! O único que cabe afirmar é que a Rússia necessita de séculos ainda para optar ao mando. que cresce em pleno Mediterrâneo. Mas ainda sem saber plenamente o que são. Exemplo: o egípcio ou o chinês. sua substância. e sua verdadeira significação não é direta. substancial. Porque isso. quer dizer. porque não há tal triunfo. é o que tem de forte. em vez de declarar. como sempre as colônias. E a atitude aprendida. efetiva. Em todo fato de camouflage histórica há duas realidades que se superpõem: uma. os Estados Unidos significam também um caso dessa específica realidade histórica que chamamos "povo novo". quando é uma coisa tão efetiva como a juventude de um homem. Porque lhe sobra juventude bastou-lhe essa ficção. Esquece-se . Assim. A América é forte por sua juventude. Que o marxismo tenha triunfado na Rússia . Aqui está a camouflage e sua razão. E a sério nos dizem que a essência da América é sua concepção praticista e técnica da vida! Em vez de nos dizer: A América é. um vocábulo de outro idioma . recebida. que a camouflage existe. A Rússia é marxista aproximadamente como eram romanos os tudescos do Sacro Império Romano. alcança-se o bastante para compreender seu caráter genérico. mas aprendidas. Ambos. horror falar de Nova York e de Moscou. cujas águas estavam impregnadas de civilização greco-oriental. Há o povo que nasce em um "mundo" vazio de toda civilização. não só diferente como matéria étnica do europeu. que se pôs a serviço do mandamento contemporâneo "técnica". A mesma coisa acontece com o espelhismo. Por isso engana a maior parte das pessoas. A técnica é inventada pela Europa durante os séculos XVIII e XIX. Coisa muito semelhante acontece com Nova York. por essência.o que importa muito mais . Só se pode livrar da equivocação que produz a camouflage quem saiba de antemão. Mas há outros povos que germinam e se desenvolvem num âmbito ocupado já por uma cultura de história anosa. e não o que tem de comunista.o marxismo . Daqui que a metade das atitudes romanas não sejam suas. com efeito. só necessita de pretextos. mas . o autêntico. acidental e de superfície.A rebelião das massas. juvenil.que há dois grandes tipos de evolução para um povo. Que casualidade! Os séculos em que a América nasce. tudo é autóctone. por exemplo. Assim Roma.pensadas na Europa em vista de realidades e problemas europeus. Um povo ainda em fermento. Num povo assim. Daí que para entender as camouflages seja mister também um olhar oblíquo: o de quem traduz um texto com um dicionário ao lado. Porque não se sabe com plenitude o que são: só se sabe que nem sobre um nem sobre outro se disseram palavras decisivas. Também é um erro atribuir sua força atual aos mandamentos a que obedece. Debaixo dela há um povo. Supõe-se que isso seja uma frase. Porque carece ainda de mandamentos necessitou fingir sua adesão ao princípio europeu de Marx. suas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. aparente. Seu aspecto oculta. disfarçam-se na idéia que esta lhes oferece. não americano. como podia haver-se posto a serviço do budismo se este fosse a ordem do dia. Mas a América não faz com isso senão começar sua história.como notei várias vezes . é sempre dupla. e em geral. Que casualidade! Outro invento europeu. sobretudo da Europa. A camouflage é. Os povos novos não têm idéias. Em última instância reduz-se a este: a técnica. Quem faz um gesto aprendido . traduz a sua própria linguagem o vocábulo exótico. O jovem não necessita de razões para viver. em Moscou há uma película de idéias européias .por exemplo. Agora vão começar suas angústias. o que tem de russo. profunda. O conceito corrige os olhos. mas oblíqua.onde não há indústria .seria a contradição maior que podia sobrevir ao marxismo. pertencem de cheio ao que algumas vezes chamei "fenômenos de camouflage histórica". Em virtude de razões diferentes da Rússia. e suas atitudes têm um sentido claro e direto.

ficará perturbada e falsificada. não era a priori necessária se algum dia haviam de ser possível os Estados Unidos da Europa. e que. fica transtornado em sua índole privada por mutações que a rigor só afetam imediatamente à coletividade. O acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação como estado habitual e constituído de uma irregularidade. talvez permanecesse intacto de tais repercussões. Como não é possível converter em sã normalidade o que em sua essência é criminoso e anormal. Enquanto isso persistir em nosso país. Rechaçaram a irregularidade transitória e reconstituíram assim sua moral pública. por isso a evito. A operação seria. e. do Poder. tem de retroceder ao ponto de partida e perguntar-se a sério: É tão certo como se diz que a Europa está em decadência e resigne o mandato. em seu Redescobrimento da América. Até a mais íntima intimidade de cada indivíduo. Fora interessante e até útil submeter a este exame o caráter individual do espanhol médio. preferiu falsificar todo o resto de seu ser para o acomodar àquela fraude inicial. Mas.A rebelião das massas. a pluralidade européia substituída por uma formal unidade? IV A função de mandar e obedecer é a decisiva em toda sociedade. é constitutivamente fraudulento. deprimente. é vão esperar nada dos homens de nossa raça. com medo de exagerar. cujo império ou mando. Não pode ter vigor elástico para a difícil faina de sustentar-se com decoro na história uma sociedade cujo Estado. A América ainda não sofreu. oriundas dos deslocamentos e crises do imperar. Todas as nações atravessaram jornadas em que aspirou a mandar sobre elas quem não devia mandar. uma simples vacilação sobre file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Ainda tem de ser muitas coisas. algumas as mais opostas à técnica e ao praticismo. Mas faria ver a enorme dose de desmoralização íntima. o declara francamente. salvas geniais exceções. Como ande nesta turvação a questão de quem manda e quem obedece. mas um forte instinto lhes fez concentrar ao ponto suas energias e expelir aquela irregular pretensão de mando. abdique? Não será esta aparente decadência a crise benfeitora que permita à Europa ser literalmente Europa? A evidente decadência das nações européias. Eu sempre. o mundo histórico volta ao caos. de algo que enquanto se aceita continua parecendo indevido. sustentei que era um povo primitivo camuflado pelos últimos inventos (72). é ilusório pensar que possa possuir as virtudes do mando. Não há. Mas o espanhol fez o contrário: em vez de opor-se a ser imperado por quem sua íntima consciência rechaçava. de acanalhamento que no homem médio do nosso país produz o fato de ser a Espanha uma nação que vive há séculos com uma consciência suja na questão de mando e obediência. tudo o mais marchará impura e torpemente. como é social em sua mais elementar estrutura. embora útil. cabe coligir sem mais dados como anda em seu país a consciência de mando e obediência. enfadonha. Quem evite cair na conseqüência pessimista de que ninguém vai mandar. dissenções. Daí que se tomamos à parte um indivíduo e o analisamos.htm (74 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . seus conflitos. não obstante. A América conta menos anos que a Rússia. Se o homem fosse um ser solitário que acidentalmente se acha travado em convivência com outros. pois. entre elas. portanto. Agora Waldo Frank. nada de estranho em que bastasse uma ligeira dúvida. Em um mecanismo parecido ao que o adágio popular enuncia quando diz: "Uma mentira faz cento". o indivíduo opta por adaptar-se ao indevido. fazendo-se totalmente homogêneo com o crime ou irregularidade que arrasta.

sendo-o. o europeu fechou-se em seu interior. não vou a parte alguma. precisamente sem um plano de vida imperial. e ninguém. todas as ordens ficaram em suspenso. que se perde em si mesmo.uma inspiração puramente egoísta. é caminhar para uma meta. em um destino ilustre ou trivial. por sua natureza própria. Por outro lado. viver é algo que cada qual faz por si e para si. inscrita em nossa existência. amanhã. embarcar na opinião trivial que crê ver na atuação dos grandes povos . Se fosse isto só. em muitos casos. O egoísmo é labiríntico. sincero. não é entregue por mim a algo. que participe em uma empresa. Viver é ir arrojado para alguma direção. dou voltas e mais voltas em um mesmo lugar. Não convém. de tanto não ser mais que caminhar por dentro de si. em uma empresa gloriosa ou humilde. Mas o resultado foi contrário ao que se poderia esperar. cada vida fica sem si mesma. com freqüência o perguntado deixa o caminho que leva e generosamente se sacrifica pelo estranho. não se nos pode pedir que estejamos em disponibilidade para atender aos transeuntes e que nos dediquemos a pequenos altruísmos ocasionais. em um grande destino histórico. para que todo o mundo . sem ter o que fazer. inventa-se ou finge frivolamente a si mesma. Mas não consiste só nisso. Uma das coisas que mais encantam os viajantes quando cruzam a Espanha é que se perguntam a alguém na rua onde fica uma praça ou edifício. caminhará desvencilhada. tem de estar posta em algo. mais além. Estes anos assistimos ao gigantesco espetáculo de inumeráveis vidas humanas que marcham perdidas no labirinto de si mesmas por não ter a que se entregar. se essa vida minha. mas inexorável. é algo a que ponho esta e que por isso mesmo está fora dela. Mas nunca ao ouvi-lo ou lê-lo pude reprimir este receio: é que o compatriota perguntado ia de fato a alguma parte? Porque poderia ocorrer muito bem que. Trata-se de uma condição estranha. ficou sem empresa para si e para os demais. conduzindo-o ao lugar que a este interessa. dedica-se a falsas ocupações.haja começado a desmoralizar-se. Compreende-se. sem tensão e sem "forma". Por isso continuamos historicamente como há dez anos. pois cada vida fica em absoluta franquia para fazer o que lhe der na vontade. Depois da guerra. para vagar a si mesma. que só a mim me importa. os carreiros têm o que fazer. Isto é o labirinto. egoisticamente. impõe. que nada íntimo.em sua vida pública e em sua vida privada . Não se manda em seco. e me alegro que o estrangeiro interprete assim sua conduta. O mando consiste em uma pressão que se exerce sobre os demais. Sucede o mesmo a cada povo. Está perdida ao encontrar-se só consigo. Por isso não há império sem programa de vida. no final das contas. vazia.A rebelião das massas. E o que se lhe manda é. Quando de verdade se vai fazer algo e nos entregamos a um projeto.como dos homens . A Europa afrouxou sua pressão sobre o mundo. Não é tão fácil como se crê ser puro egoísta. Parece que a situação devia ser ideal. A meta não é o meu caminhar. Como diz o verso de Schiller: Quando os reis constróem. Eu não nego que possa haver nesta índole do bom celtibero algum fator de generosidade. quem manda no mundo. Todos os imperativos. E como há de se encher com algo. Se resolvo andar só por dentro de minha vida. Por um lado. Não se esqueça que mandar tem duplo efeito: manda-se em alguém.htm (75 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Hoje é uma coisa. pois. triunfou jamais. Livrada a si mesma. outra. não avanço. O egoísmo aparente dos grandes povos e dos grandes homens é a dureza inevitável com que se deve comportar quem tem sua vida posta em uma empresa. oposta à primeira. um caminho que não leva a nada. A vida humana. mas manda-se-lhe algo. não é a minha vida. o espanhol não está file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. seria violência.

Aceitaria que não mandasse ninguém. Já é surpreendente o detalhe de que esta decadência não tenha sido notada primeiramente pelos estranhos. formulista. situando-se com fervor sob o drapejar de sua bandeira. oco. Em muitos casos consta-me que meus compatriotas saem à rua para ver se encontram algum forasteiro a quem acompanhar. salvo aqueles que por sua juventude estão ainda em sua pré-história. A vida criadora supõe um regime de alta higiene. não tem projeto nem missão. Quando ninguém. tão curioso. ocorreu a alguns homens da Alemanha. ou mando ou obedeço. Ora bem. com file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a técnica e tudo o mais vivem da atmosfera tônica que cria a consciência de mando. A ciência. de constantes estímulos. Não sabe. se isso não trouxesse consigo a volatilização de todas as virtudes e de todos os dotes do homem europeu. Prontamente vereis a pessoa fazer vagos ademanes e praticar essa agitação de braços para a rotundidade do universo que é característica de todo náufrago. fazendo nada. da Inglaterra. pelo contrário. à captura de grandes idéias. pensava nisso. e atrás dele o mundo todo. Mas nem sequer isso pediria. Grave é que esta dúvida sobre o mando do mundo. Mas é muito mais grave que este piétenement sur place chegue a desmoralizar por completo o europeu mesmo. Mas obedecer não é agüentar agüentar é envilecer-se .A rebelião das massas. da França. estimar quem manda e acompanhá-lo. A vida criadora é vida enérgica. sai à vida para ver se as dos outros enchem um pouco a sua.mas. Se falta esta. recairá sempre no ontem. O europeu se fará definitivamente cotidiano. caía na inércia moral. na rotina. na esterilidade intelectual e na barbárie omnímoda. o europeu se irá envilecendo. isso é irremissível. no hábito. exercido até agora pela Europa. Se o europeu se habitua a não mandar. que excitam a consciência da dignidade. audazes. novas em toda ordem. tenha desmoralizado o resto dos povos. tenazes. Mas detende ao que a enunciar com um leve gesto e perguntai-lhe em que fenômenos concretos e evidentes funda seu diagnóstico. não me interessa a vida do mundo. Nada me importaria a cessação do mando europeu se existisse hoje outro grupo de povos capaz de substitui-lo no Poder e na direção do planeta. e hoje todo o mundo fala da decadência européia como de uma realidade inconcussa. solidarizando-se com ele. Só a ilusão do império e a disciplina de responsabilidade que ela inspira podem manter em tensão as almas do Ocidente. Não é que diga: se o europeu não há de mandar no futuro próximo. esta sugestiva idéia: Não será que começamos a decair? A idéia teve boa Imprensa. Tornar-se-á vulgar. e esta só é possível em uma destas situações: ou sendo quem manda ou achando-se alojado em um mundo onde manda alguém a quem reconhecemos pleno direito para tal função. Já não terão as mentes essa fé radical em si mesmas que as lança enérgicas. de grande decoro.htm (76 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . mas que o descobrimento dela se deva aos europeus mesmos. V Convém que agora retrocedamos ao ponto de partida destes artigos: ao fato. fora do velho continente. de que no mundo se fale estes anos tanto sobre a decadência da Europa. Incapaz de esforço criador e luxuoso. bastarão geração e meia para que o velho continente. a arte. Não penso assim porque eu seja europeu ou coisa parecida. pelo contrário. como os gregos da decadência e como os de toda a história bizantina.

é o conjunto de dificuldades econômicas que encontra hoje diante de cada uma das nações européias. Todo bom intelectual da Alemanha. precisamente. pareçam preferíveis. de que sentindo-se com mais potencialidade do que nunca. A dificuldade autêntica não radica. e importa muito filiar o estado de espírito desse alemão ou desse inglês nesta dimensão do econômico. Há aqui um erro de ótica que convém corrigir de uma vez para sempre. Vice-versa. A única coisa que sem grandes precisões aparece quando se quer definir a atual decadência européia. tropecem com certas barreiras fatais que os impedem de realizar o que muito bem poderiam. porque enfara escutar as inépcias que a toda hora se diz. o homem de letras parisiense começa a compreender que está esgotada a tradição de mandarinismo literário. Não são as instituições. da Inglaterra ou da França sente-se hoje afogado nos limites de sua nação. por exemplo. a sensação de menoscabo. Na ordem da política interior acontece a mesma coisa. Fala-se mal do Parlamento em toda a parte. Mas isso é justamente o que conviria explicar. mas. A meu ver. pois. Não se analisou ainda a fundo a estranhíssima questão de por que anda tão em agonia a vida política de todas as grandes nações. nutre-se dessa desproporção entre o tamanho da potencialidade européia atual e o formato da organização política em que tem de atuar. mas pelo contrário. adverte-se que nenhuma delas afeta seriamente o poder de criação da riqueza e que o velho continente passou por uma crise muito mais grave nesta ordem. cujos fatores são em aparência tão diferentes do econômico. a que se agarrar. com as pequenas nações em que até agora vivia organizada a Europa. porventura. que a depressão indiscutível de seus ânimos não provém de que se sintam pouco capazes.htm (77 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . são as fronteiras políticas dos Estados respectivos. Porque é um desprestígio estranho. a propósito do Parlamento. de impotência que abruma inegavelmente estes anos à vitalidade européia. Diz-se que as instituições democráticas caíram em desprestígio. inglesa. em quanto instrumento de vida pública. Faltam programas de tamanho congruente com as dimensões efetivas que a vida chegou a ter dentro de cada indivíduo europeu. O professor alemão já viu claro que é absurdo o estilo de produção a que o obriga seu público imediato de professores alemães. pois. Mas quando se vai precisar um pouco o caráter dessas dificuldades. e sente falta da superior liberdade de expressão que desfrutam o escritor francês ou o ensaísta inglês. o desânimo que hoje pesa sobre a alma continental parece-me muito ao da ave de asa larga que ao bater os remígios se fere contra as grades da jaula. É que. na vida intelectual. Por exemplo. Existe toda uma série de objeções válidas ao modo de conduzir-se os Parlamentos tradicionais. todas file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a que o condena sua proveniência francesa. vê-se que nem uma delas permite a conclusão de que deve suprimir-se o Parlamento. A prova disso é que a combinação se repete em todas as demais ordens. Não há.A rebelião das massas. ao menos idealmente. de verbal formalismo. as que vão mal na Europa. conservando as melhores qualidades dessa tradição. integrá-la com algumas virtudes do professor alemão. francesa. mas não se vê que em nem uma das que contam se intente sua substituição. mas tropeça no mesmo instante com as reduzidas jaulas em que está alojado. mas se se tomam uma a uma. neste ou no outro problema econômico que esteja levantado. O pessimismo. que crer muito na autenticidade deste aparente desprestígio. pelo contrário. mas em que na forma da vida pública em que se haviam de mover as capacidades econômicas é incongruente como o tamanho destas. Pois o curioso é. Essas fronteiras fatais da economia atual alemã. o alemão ou o inglês não se sentem hoje capazes de produzir mais e melhor que nunca? Em modo algum. sente sua nacionalidade como uma limitação absoluta. e preferiria. efeito. nem sequer que existam perfis utópicos de outras formas de Estado que. O arranco para resolver as graves questões urgentes é tão vigoroso como quando mais o tenha sido. mas as tarefas em que empregá-las.

A rebelião das massas. Mas a desestima vulgar em que caiu o Parlamento não procede dessas objeções. porque o irrespeitável não são estas. mais eficientes que os Estados parlamentares do século XIX. por exemplo. o fabricante europeu . de que não estima as finalidades da vida pública tradicional. A situação autêntica da Europa viria. Para dar ao dito um apoio plástico que o sustente.de automóveis sabe muito bem que a superioridade do produto americano não procede de nenhuma virtude específica usufruída pelo homem de ultramar. a autêntica origem dessa impressão de decadência que achaca o europeu. Entretanto. pois. Pela primeira vez. Se se olha com um pouco de cuidado esse famoso desprestígio. que se ananicou. se em nenhum país está hoje claro. Este é. Mais valia recordar que jamais instituição alguma criou na história Estados mais formidáveis. O automóvel atual saiu das objeções que se opuseram ao automóvel de 1910.são incomensuráveis com o tamanho do corpo coletivo em que está encerrado. Não se confunda. O fato é tão indiscutível que esquecê-lo demonstra franca estupidez. com os limites de sua nação.industrial e técnico . mas apenasmente de que a fábrica americana pode oferecer seu produto sem dificuldade alguma a cento e vinte milhões de homens.htm (78 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . levam por via direta e evidente à necessidade de reformá-lo. Procede de que o europeu não sabe em que empregá-los. suas possibilidades de vida. sente que aqueles . portanto. em suma. cada qual por si. Fala-se. seria inútil substituir o detalhe de suas instituições. já que a presunção de haver minguado nasce precisamente de que cresceu sua capacidade e tropeça com uma organização antiga. a ser esta: seu magnífico e longo passado a faz chegar file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A "racionalização" da indústria é conseqüência automática de seu tamanho. Imagine-se que uma fábrica européia visse ante si uma área mercantil formada por todos os Estados europeus e suas colônias e seus protetorados. uma origem puramente íntima e paradoxal. não tem sentido acusar de ineficácia os instrumentos institucionais. que eram o universo. parece-me. Todas as graças peculiares da técnica americana são quase positivamente efeitos e não causas da amplitude e homogeneidade de seu mercado. o francês e o alemão acreditavam. não sente respeito a seu Estado. Deparou-se. a possibilidade e a urgência de reformar profundamente as Assembléias legislativas. Ninguém duvida de que esse automóvel previsto para quinhentos ou seiscentos milhões de homens seria muito melhor e mais barato que o "Ford". Porque do contrário. Ora bem: o melhor que humanamente pode dizer-se de algo é que necessita ser reformado. alemão ou francês é ser provinciano. para fazê-las "ainda mais" eficazes. a fabricação de automóveis. que não é eficaz. o que se vê é que o cidadão. com que é "menos" que antes. tome-se qualquer atividade concreta: por exemplo. mas o Estado mesmo. Todavia. O automóvel é invento puramente europeu. hoje é superior a fabricação norte-americana desse artefato. porque isso implica que é imprescindível e que é capaz de nova vida. intelectuais. pois. Conseqüência: o automóvel europeu está em decadência. dentro da qual já não cabe. porque antes o inglês. Portanto.quer dizer. Procede de outra causa. com declarar sua inutilidade. nem ainda teoricamente. na maior parte dos países. Por isso exigimos de quem proclama a ineficácia dos Parlamentos que ele possua uma idéia clara de qual é a solução dos problemas públicos atuais. em que consiste o que há que fazer. E então descobriu que ser inglês. Nós devemos então perguntar: Para que não é eficaz? Porque a eficácia é a virtude que um utensílio tem para produzir uma finalidade. ao tropeçar o europeu em seus projetos econômicos. alheia de todo a eles no que diz respeito a utensílios políticos. O desprestígio dos Parlamentos não tem nada que ver com seus notórios defeitos. políticos. seu estilo vital . Neste caso a finalidade seria a solução dos problemas públicos em cada nação. de que não sente ilusão pelos Estados nacionais em que está inscrito e prisioneiro.

mercê dos muros que a balizam. Note-se que isto significa nada menos que a invenção de uma nova classe de espaço. muito mais nova que o espaço de Einstein. mas um lugar de ajuntamento civil. deixa estes fora e cria um âmbito à parte puramente humano. dentro de urbes. E agora vê-se obrigada a superar-se a si mesma. dirá: "Eu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. peregrino. Por isso Sócrates.htm (79 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . sente e quer conserva a modorra inconsciente em que vive a planta. reporto-me ao que ali disse (73). a definição mais certa do que é a urbe e a polis parece-se muito com a que comicamente se dá do canhão: rodeia-se o bocal de um poço com arame muito apertado e tem-se um canhão. nem sequer está claro o nexo étnico entre aqueles povos proto-históricos e essas estranhas comunidades. errabundo. Mas agora podemos considerar o assunto desde outro aspecto. se o campo é toda a terra.. Eis aqui a praça. é campo abolido. para delimitar seu contorno. As grandes civilizações asiáticas e africanas foram neste sentido grandes vegetações antropomorfas. em que o homem se liberta de toda comunidade com a planta e o animal.. para proteger-se da intempérie e engendrar. A urbe não está feita. Em certo modo. como a cabana ou o domus. e. como a casa. Este é um fato que nestas páginas necessitamos tomar como absoluto e de gênese misteriosa.A rebelião das massas. fica arcano. como abelhas em sua colmeia. da "natureza". mas que é pura e simplesmente a negação do campo. o grande urbano. a idéia e o sentimento nacionais foram sua invenção mais característica. Como é isso possível? Como pode o homem subtrair-se ao campo? Onde irá. Saberá libertar-se de sobrevivências. e tudo o mais é pretexto para assegurar esse buraco. Este campo menor e rebelde. É este o esquema do drama enorme que se representará nos anos vindouros. que são misteres privados e familiares. ao passo que a abelha vermelha só existe em enxame construtor de favos (74). mas para discutir sobre a coisa pública. Mas o trânsito desta pré-história. ou ficará prisioneira para sempre delas? Porque já ocorreu uma vez na história que uma grande civilização morreu por não poder substituir sua idéia tradicional de Estado. ao brotar da cidade. um fato de que há que partir tal como o zoólogo parte do dado bruto e inexplicado de que o sphex vive solitário. fruta de nova espécie que dá o solo de ambas as penínsulas. é um pedaço de campo que volta costas ao resto. com efeito. de poleis. e nele se vivia com todas as conseqüências que isso traz para o ser do homem. O mesmo acontece com a urbe ou polis que começa por ser um buraco: o foro. que pratica secção do campo infinito e se reserva a si mesmo diante dele. um "interior" fechado por cima. Até então só existia um espaço: o campo. puramente rural e sem caráter específico. o ágora. 0 caso é que a escavação e a arqueologia nos permitem ver algo do que havia no solo de Atenas e no de Roma antes de que Atenas e Roma existissem. Sua existência. Não é. A praça. novíssimo. quanto pensa. portanto. e quanto a certos pormenores. O homem campesino é todavia um vegetal. mas às vezes as estruturas sobreviventes desse passado são anãs e impedem a atual expansão. Porque. do cosmos geobotânico. que prescinde do resto e se opõe a ele. tríplice extrato do sumo que ressuma a polis. se é o ilimitado? Muito simples: limitando um pedaço de campo mediante uns muros que oponham o espaço incluso e finito ao espaço amorfo e sem fim. Mas o greco-romano decide separar-se do campo. que aportam ao repertório humano uma grande inovação: a de construir uma praça pública e em torno uma cidade fechada ao campo. um espaço sui generis. igual às covas que existem no campo. VI Contei em outro lugar a paixão e morte do mundo greco-romano. É o espaço civil. Gregos e latinos aparecem na história alojados. A polis não é primordialmente um conjunto de casas habitáveis. a um novo estádio de vida onde tudo cresceu. um espaço demarcado para funções públicas. A Europa fez-se em forma de pequenas nações.

o persa. O Estado-cidade. estritamente no duplo sentido físico e jurídico desse vocábulo. desde logo como Estado. de assento. É mestiço e plurilíngüe. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não há. É superação de toda sociedade natural. e nosso Levante cai em quanto pode no cantonalismo. oferece-se ao existir humano. Neste sentido significa o contrário do movimento histórico: o Estado é convivência estabilizada. e nela vão pôr os que antes só eram homens suas melhores energias. Ao Estado constituído precede o Estado constituinte. a história da Grécia e de Roma consiste na luta incessante entre esses dois espaços: entre a cidade racional e o campo vegetal. que solicitar os textos. pela relativa pequenez de seus ingredientes. o Norte da África (Cartago = a cidade) repete o mesmo fenômeno. irredutível às primigênias e mais próximas ao animal. oculta. eu só tenho quer ver com os homens na cidade". estática. de esforços. Constrói sobre a heterogeneidade zoológica uma homogeneidade abstrata de jurisprudência (76). de forma quieta e definida. pois. Originariamente o Estado consiste na mescla de sangues e línguas. Faz esquecer. Uma dimensão nova. Na gênese de todo Estado vemos ou entrevemos sempre o perfil de um grande empresário. Com isto quero dizer que o Estado não é uma forma de sociedade que o homem acha presenteada. E quem diz o sangue. como todo equilíbrio. toda a costa mediterrânea mostrou sempre uma espontânea tendência a este tipo estatal. não tenho nada que ver com as árvores no campo. constituída. nem o chinês. ajuntamento. Itália não saiu até o século XIX do Estado-cidade. mas que necessita forjá-la penosamente. que a ele tendiam.A rebelião das massas. Não se pense que esta origem da urbe é uma pura construção minha e que só lhe corresponde uma verdade simbólica. A dispersão vegetativa pela campina sucede a concentração civil na cidade. o dinamismo que produziu e sustém o Estado. Não é como a horda ou a tribo e demais sociedades fundadas na consangüinidade que a Natureza se encarrega de fazer sem colaboração com o esforço humano. A urbe é a super-casa. nem o egípcio? Até Alexandre e César. Em certo modo. Mas este caráter de imobilidade. mas de cidadãos. Pelo contrário. Com mais ou menos pureza. É a república. Assim. entre o jurista e o labrego. Synoikismos é acordo de ir viver juntos. respectivamente. que não se compõe de homens e mulheres. a superação da casa ou ninho infra-humano. O impulso é mais substantivo que todo direito. a criação de uma entidade mais abstrata e mais alta que o oikos familiar. em suma. entre o ius e o rus. permite ver claramente o específico do princípio estatal. Está claro que a unidade jurídica não é a aspiração que propele o movimento criador do Estado. que o Estado constituído é só o resultado de um movimento anterior de luta. no extrato primário e mais fundo de sua memória conservam os habitantes da cidade greco-latina a lembrança de um synoikismos. a palavra "estado" indica que as forças históricas conseguem uma combinação de equilíbrio. diz também qualquer outro princípio natural. Desta maneira nasce a urbe. Com rara insistência. portanto. é o propósito de empresas vitais maiores que as possíveis às minúsculas sociedades consangüíneas. basta traduzi-los. a cidade nasce por reunião de povos diversos.htm (80 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o idioma. Por uma parte. Que souberam disso jamais o hindu. por exemplo. a politea. que é um ressábio daquela milenária inspiração (75). o Estado começa quando o homem se afana por fugir da sociedade nativa dentro da qual o sangue o inscreveu. e este é um princípio de movimento.

o político. vão como sonâmbulos.A rebelião das massas. A forma social estabelecida . O essencialmente confuso. incluso o famoso. Houve quem quis levar as mentes greco-romanas mais além. não houve provavelmente em todo o mundo antigo mais que duas: Temístocles e César. Porém. mas parte de sua vida está travada com indivíduos de outras coletividades com os quais comercia mercantil e intelectualmente. notareis que não refletem muito nem pouco a realidade a que parecem referir-se. aquele que vislumbre sob o caos que apresenta toda situação vital a anatomia secreta do instante. é político precisamente porque é torpe (77). em geral. dois políticos. pois. encarregou-se de assassinar César . quem tentou libertá-las da cidade. O indivíduo de cada coletividade não vive já só desta. e as coisas abstratas são sempre claras. O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. esse é de verdade uma mente lúcida. e se aprofundais na análise achareis que nem sequer pretendem file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. isto é. porque a nossa chegou ao mesmo capítulo. matemáticos. em suma. precisamente o limite imposto pela Natureza a sua fantasia. Daí que todos os povos tenham tido um limite em sua evolução estatal. "costumes" e religião . na Grécia e em Roma outros homens que pensaram idéias claras sobre muitas coisas . A coisa é surpreendente porque. mas foi vão empenho. e. substituindo-as por uma forma social adequada à nova convivência externa. é a realidade vital concreta. se analisais superficialmente essas idéias.filósofos. Isto indica que no passado viveram efetivamente isoladas.favorece a interna e dificulta a externa. o princípio estatal é o movimento que leva a aniquilar as formas sociais de convivência interna. de imaginar outra nunca sida. o que indicaria que possuem idéias sobre tudo isso. seja ela qual for. dentro de sua boa ou má sorte. sem ter a mais leve suspeita do que lhes acontece. Não há criação estatal se a mente de certos povos não é capaz de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência. Importa-nos muito aos europeus de hoje recordar esta história. sobretudo econômica. além disso. mais ampla e nova. encontraremos sempre o seguinte esquema: várias coletividades pequenas cuja estrutura social está feita para que viva cada qual dentro de si mesma.a maior fantasia da antigüidade -. A forma social de cada uma serve só para uma convivência interna. Quem seja capaz de orientar-se com precisão nela. naturalistas -. Todas as coisas de que fala a ciência.htm (81 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . um desequilíbrio entre duas convivências: a interna e a externa. Sobrevem. A imaginação é o poder libertador que o homem tem. representada por Bruto. Por isso é autêntica criação. Observai os que vos rodeiam e vereis como avançam perdidos em sua vida. sem mais contatos que os excepcionais com as limítrofes.direitos. VII Mentes lúcidas. Mas sua claridade foi de ordem científica. A escuridão imaginativa do romano. Houve. o que se chama mentes lúcidas. O grego e o romano. Aplique-se isto ao momento atual europeu. capazes de imaginar a cidade que triunfa da dispersão campesina. Um povo é capaz de Estado na medida em que saiba imaginar. cada uma por si e para si. e estas expressões abstratas adquirirão figura e cor. Mas a este isolamento efetivo sucedeu de fato uma convivência externa. uma claridade sobre coisas abstratas. sem dúvida. Ouvi-los-eis falar em fórmulas taxativas sobre si mesmos e sobre seu contorno. Nesta situação. são abstratas. Se observamos a situação histórica que precede imediatamente o nascimento de um Estado. quem não se perca na vida. que é sempre única. De sorte que a claridade da ciência não está tanto na cabeça dos que a fazem como nas coisas de que falam. detiveram-se nos muros urbanos. intricado.

dona da Itália. Roma. Um regime eleitoral é estúpido quando é falso.a saber. mas aterra-o encontrar-se cara a cara com essa terrível realidade. Mas muito menos os que viviam repartidos por todo o mundo romano. dedicada durante toda a sua vida a confundir as coisas. A cidade tiberina. ao começar o século I antes de Cristo. O resto é retórica. lhe facultará pôr ordem no caos de sua vida. tudo vai bem. O homem o suspeita. Como isso é a pura verdade . E como se o destino se houvesse comprazido em sublinhar a exemplaridade. se se ajusta à realidade. Se o regime de comícios é acertado. Homem de mente lúcida é aquele que se liberta dessas "idéias" fantasmagóricas e olha de frente a vida. não topa nunca com a própria realidade. não tem inimigos à sua frente. como as amadríadas estão. em lemas nem vocábulos.htm (82 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . quaisquer que sejam seu tipo e seu grau. Quem descobre uma nova verdade científica teve antes que triturar quase tudo que havia aprendido e chega a essa nova verdade com as mãos sangrentas por haver jugulado inumeráveis lugares comuns. em receitas. tudo vai mal.A rebelião das massas. já está no firme. peremptório. Já os cidadãos do campo não podiam assistir aos comícios. é onipotente. depende de um mísero detalhe técnico: o procedimento eleitoral. não se encontra jamais. Por isso é o tema que nos permite distinguir melhor quais as mentes lúcidas e quais as mentes rotineiras. estava a ponto de rebentar. uma fuga da vida (a maior parte dos homens de ciência dedicaram-se a ela por terror a defrontar sua própria vida. Suas instituições públicas tinham uma força municipal e eram inseparáveis da urbe. e se convence de que tudo nela é problemático. Pelo contrário: o indivíduo trata com elas de interceptar sua própria visão do real. da Ásia Menor. as idéias dos náufragos. ajustar-se a tal realidade. César é o exemplo máximo que conhecemos de dom para encontrar o perfil da realidade substantiva em um momento de confusão pavorosa. Nossas idéias científicas valem na medida em que nos tenhamos sentido perdidos ante uma questão. íntima farsa. que viver é sentir-se perdido -. absolutamente veraz porque se trata de salvar-se. O excesso de boa fortuna havia deslocado o corpo político romano. postura. em uma hora das mais caóticas que há vivido a humanidade. Não lhe interessa que suas "idéias" não sejam verdadeiras. ainda na ciência. Tudo o mais é secundário. como espantalhos para afugentar a realidade. sob pena de consunção. Porque a vida é inteiramente um caos onde a criatura está perdida. a de Cícero. emprega-as como trincheiras para defender-se de sua vida. buscará algo para se agarrar. Não são mentes claras. adscritas à árvore que tutelam. Instintivamente. A saúde das democracias. é dizer. embora o resto marche otimamente. A política é muito mais real que a ciência. pôs a sua direita uma magnífica cabeça de intelectual. está a ponto de fenecer porque se obstina em conservar um regime eleitoral estúpido. Como as eleições eram file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. porque se compõe de situações únicas em que o homem se encontra de repente submerso. e esse olhar trágico. se não. Havia que votar na cidade. do Oriente clássico e helenístico. como o náufrago. daí sua notória falta de jeito ante qualquer situação concreta). e se sente perdido. já começou a descobrir sua autêntica realidade. em que tenhamos visto bem seu caráter problemático e compreendamos que não podemos apoiar-nos em idéias recebidas. de sua vida mesma. quem o aceita já começou a encontrar-se. de seu. Estas são as únicas idéias verdadeiras. da Espanha. não obstante ser a ciência. queira ou não queira. e procura ocultá-la com um véu fantasmagórico onde tudo está muito claro. Entretanto. Isto é certo em todas as ordens. rica. Quem não se sente de verdade perdido perde-se inexorávelmente.

Não o vê. Por que? Constituíam o Poder os republicanos. pelo menos. Sua política pode resumir-se em duas cláusulas: Primeira. Toda nova conquista é um delito de lesa-república. Eu suspeito que esse diagnóstico é errôneo. se queremos entender aquela política. Segunda.A rebelião das massas. Existiam em um presente pontual. começa pelo "depois" e não pelo "antes". A solução de César é totalmente oposta à conservadora. transferiu-se do homem antigo ao filósofo moderno. que ao olhar a vida greco-romana nos pareça anacrônica. em compensação. Este entendia por tal precisamente um cidadão como os demais.htm (83 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Mas isso não é ser insensível ao tempo. resumem o pensamento de todos os publicistas pedindo um princips civitatis. que confunde duas coisas. defeituoso da asa futurista e com hipertrofia de antanhos. indaga em toda atualidade um precedente. A cidade não pode governar tantas nações. protegido e deformado pelo escafandro ilustre. A expressão é de César. em seus livros Sobre a República. No ar estão as palavras. Também ele retrograda.Mário e Sila . o qual. mas que era investido de poderes superiores.que se encarregavam de romper as urnas. Os generais da esquerda e da direita .com veteranos do exército. Não temos mais remédio. Sobretudo urgia conquistar os povos novos. "A República não era mais que uma palavra". um moderator. Significa simplesmente um cronismo incompleto. Mas. Nenhuma magistratura gozava de autoridade. um rector rerum publicarum. como o daltonista não vê a cor vermelha. César sustentará a necessidade de romanizar a fundo os povos bárbaros do Ocidente. os transtornos da vida pública romana provêem de sua excessiva expansão. vive radicalmente no pretérito. César não explicou nunca sua política. Antes de fazer agora algo dá um passo atrás. Cícero. com atletas do circo . a fim de regular o funcionamento das instituições republicanas. Para empreendê-la teve de se declarar rebelde ante o Poder constituído. Dava a casualidade de que era precisamente César e não o manual de cesarismo que sói vir depois. os conservadores. e informado por aquele mergulha na atualidade. para evitar a dissolução das instituições é preciso um príncipe. para nós. O greco-romano padece de uma surpreendente cegueira para o futuro. Compreende-se. Sem o apoio de autêntico sufrágio as instituições democráticas estão no ar. entreteve-se em fazê-la. de ver sua vida como uma dilatação na temporalidade. busca no passado um modelo para a situação presente.exibiam insolências em vazias ditaduras que não levavam a nada. e os candidatos organizavam partidas de cacete . ou. os fiéis ao Estado-cidade. em seus memoriais a César. como Lagartijo ao projetar-se para matar. quer dizer. Os europeus sempre gravitamos em direção ao futuro e sentimos que é esta a dimensão mais substancial do tempo. Para nós a palavra "príncipe" tem um sentido quase oposto ao que tinha para um romano. e Salústio. Daí que todo o seu viver é em certo modo reviver. O segredo está em sua façanha capital: a conquista das Gálias. Esta como mania de tomar todo presente com as pinças de um exemplo pretérito. impossíveis. Disse-se (Spengler) que os greco-romanos eram incapazes de sentir o tempo. que tomar seus atos e dar-lhes seu nome. mais perigosos em um futuro não muito remoto que as nações corruptas do Oriente. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Compreende que para curar as conseqüências das anteriores conquistas romanas não havia mais remédio senão prossegui-las aceitando até o fim tão enérgico destino. pois. Isto é ser arcaizante e isto o foi quase sempre o antigo. foi necessário falsificá-las.

A rebelião das massas.

ao qual denomina, com lindo vocábulo de égloga, sua "fonte". Digo isto porque já os antigos biógrafos de César se fecham à compreensão desta enorme figura supondo que tratava de imitar Alexandre. A equação impunha-se: se Alexandre não podia dormir pensando nos lauréis de Milcíades, César devia forçosamente sofrer de insônia pelos de Alexandre. E assim sucessivamente. Sempre o passo atrás e o pé de hoje na pegada de ontem. O filólogo contemporâneo repercute o biógrafo clássico. Crer que César aspirava a fazer algo assim como o que fez Alexandre - e isto creram quase todos os historiadores - é renunciar radicalmente a entendê-lo. César é aproximadamente o contrário de Alexandre. A idéia de um reino universal é o único que os emparelha. Mas esta idéia não é de Alexandre, mas vem da Pérsia. A imagem de Alexandre teria empurrado César para o Oriente, para o prestigioso passado. Sua preferência radical pelo Ocidente revela melhor a vontade de contradizer o macedônio. Mas, ainda mais, não é um reino universal, apenas, o que César se propõe. Seu propósito é mais profundo. Quer um Império romano que não viva de Roma, mas da periferia, das províncias, e isso implica a superação absoluta do Estado-cidade. Um Estado onde os povos mais diversos colaborem, de que todos se sintam solidários. Não um centro que manda e uma periferia que obedece, mas um gigantesco corpo social, onde cada elemento seja por sua vez passivo e ativo do Estado. Tal é o Estado moderno, e esta foi a fabulosa antecipação de seu gênio futurista. Mas isso supunha um poder extraromano, anti-aristocrata, infinitamente elevado sobre a oligarquia republicana, sobre seu príncipe, que era só um primus inter pares. Este poder executor e representante da democracia universal só podia ser a Monarquia com sua sede fora de Roma. República! Monarquia! Duas palavras que na história trocam constantemente de sentido autêntico, e que por isso é preciso a todo instante triturar para certificar-se de sua eventual força. Seus homens de confiança, seus instrumentos mais imediatos, não eram arcaicas ilustrações da urbe, mas gente nova, provinciais, personagens enérgicos e eficientes. Seu verdadeiro ministro foi Cornélio Balbo, um homem de negócios gaditano, um atlântico, um "colonial ". Mas a antecipação do novo Estado era excessiva: as cabeças lentas do Lácio não podiam dar brinco tão grande. A imagem da cidade, com seu tangível materialismo, impediu que os romanos "vissem" aquela organização novíssima do corpo público. Como podiam formar um Estado homens que não viviam numa cidade? Que gênero de unidade era essa, tão sutil e tão mística? Repito uma vez mais: a realidade que chamamos Estado não é a espontânea convivência de homens que a consangüinidade uniu. O Estado começa quando se obriga a conviver a grupos nativamente separados. Esta obrigação não é desnuda violência, mas que supõe um processo incitativo, uma tarefa comum que se propõe aos grupos dispersos. Antes que nada é o Estado projeto de um fazer e programa de colaboração. Chama-se às pessoas para que juntas façam algo. O Estado não é consangüinidade, nem unidade lingüística, nem unidade territorial, nem contiguidade de habitação. Não é nada material, inerte, dado e limitado. É um puro dinamismo - a vontade do fazer algo em comum -, e mercê a isso a idéia estatal não está por nenhum termo físico (78). Agudíssima a conhecida empresa política de Saavedra Fajardo: uma flecha, e debaixo: "Ou sobe ou desce". Isso é o Estado. Não uma coisa, mas um movimento. O Estado é em todo instante algo que vem de e vai para. Como todo movimento, tem um terminus a quo e um terminus ad quem. Corte-se por

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A rebelião das massas.

qualquer hora a vida de um Estado que o seja verdadeiramente, e se achará uma unidade de convivência que parece fundada em tal ou qual atributo material: sangue, idioma, "fronteiras naturais". A interpretação estática nos levará a dizer: isso é o Estado. Mas logo advertimos que essa agrupação humana está fazendo algo comunal: conquistando outros povos, fundando colônias, federando-se com outros Estados; quer dizer, que em toda hora está superando o que parecia princípio material de sua unidade. E o terminus ad quem, é o verdadeiro Estado, cuja unidade consiste precisamente em superar toda unidade dada. Quando esse impulso para o mais além cessa, o Estado automaticamente sucumbe, e a unidade que já existia e parecia fisicamente cimentada - raça, idioma, fronteira natural - não serve de nada: o Estado se desagrega, se dispersa, se atomiza. Só essa duplicidade de momentos no Estado - a unidade que já é e a mais ampla que projeta - permite compreender a essência do Estado nacional. Sabido é que ainda não se logrou dizer em que consiste uma nação, se damos a este vocábulo uma acepção moderna. O Estado-cidade era uma idéia muito clara, que se via com os olhos da cara. Mas o novo tipo de unidade pública que germinava em galos e germanos, a inspiração política do Ocidente, é coisa muito mais vaga e fugidia. O filólogo, o historiador atual, que é de seu arcaizante, encontra-se ante este formidável fato quase tão perplexo como César e Tácito quando com sua terminologia romana queriam dizer o que eram aqueles Estados incipientes, transalpinos e ultra-renanos, ou bem os espanhóis. Chamam-nos civitas, gens, natio, percebendo que nenhum destes nomes coincide com a coisa (79). Não são civitas, pela simples razão de que não são cidades (80). Mas nem sequer cabe indefinir o termo e aludir com ele um território delimitado. Os povos novos trocam com suma facilidade de torrão, ou pelo menos ampliam e reduzem o que ocupavam. Tampouco são unidades étnicas - gentes, nationes. - Por muito longe que recorramos, os novos Estados aparecem já formados por grupos de nacionalidades independentes. São combinações de sangues diferentes. Que é, pois, uma nação, já que não é nem comunidade de sangue, nem adscrição a um território, nem coisa alguma desta ordem? Como sempre acontece, também neste caso uma pulcra submissão aos fatos nos dá a chave. Que é que salta aos olhos quando repassamos a evolução de qualquer "nação moderna" - França, Espanha, Alemanha -? Simplesmente isto: o que em certa data parecia constituir a nacionalidade aparece negado numa data posterior. Primeiro, a nação parece a tribo, e a não-nação a tribo de ao lado. Depois a nação se compõe de duas tribos, mais tarde é uma comarca e pouco depois é já todo um condado ou ducado ou "reino". A nação é Leão, mas não Castela; depois é Leão e Castela, mas não Aragão. É evidente a presença de dois princípios: um, variável e sempre superado - tribo, comarca, ducado, "reino", com seu idioma ou dialeto -; outro, permanente, que salta libérrimo sobre todos esses limites e postula como unidade o que aquele considerava precisamente como radical contraposição. Os filólogos - chamo assim aos que hoje pretendem denominar-se "historiadores" - praticam o mais delicioso truísmo quando partem do que agora, nesta data fugaz, nestes dois ou três séculos, são as nações do Ocidente e supõem que Vercingetorix ou que Cid Campeador queriam já uma França deste Saint-Malo a Estrasburgo - precisamente - ou uma Spania desde Finisterre a Gibraltar. Estes filólogos como o ingênuo dramaturgo - fazem quase sempre que seus heróis partam para a guerra dos Trinta Anos. Para nos explicar como se formaram a França e a Espanha, supõem que a França e a Espanha preexistiam como unidades no fundo das almas francesas e espanholas. Como se existissem franceses e espanhóis originariamente antes de que a França e a Espanha existissem! Como se o francês e o espanhol não fossem simplesmente coisas que foram formadas em dois mil anos de faina!

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A rebelião das massas.

A verdade pura é que as nações atuais são apenas a manifestação atual daquele princípio variável, condenado à perpétua superação. Esse princípio não é agora o sangue nem o idioma, posto que a comunidade de sangue e de idioma na França ou na Espanha foi efeito, e não causa, da unificação estatal; esse princípio é agora a "fronteira natural". Está bem que um diplomata empregue em sua esgrima astuta este conceito de fronteiras naturais, como ultima ratio de suas argumentações. Mas um historiador não pode entrincheirar-se atrás dele como se fosse um reduto definitivo. Nem é definitivo, nem sequer suficientemente específico. Não se esqueça qual é, rigorosamente proposta, a questão. Trata-se de averiguar que é o Estado nacional - o que hoje costumamos chamar nação -, a diferença de outros tipos de Estado, como o Estado-cidade ou, indo ao outro extremo, como o Império que Augusto fundou (81). Se se quer formular o tema de modo ainda mais claro e preciso, diga-se assim: Que força real produziu essa convivência de milhões de homens sob uma soberania de Poder público que chamamos França, ou Inglaterra, ou Espanha, ou Itália, ou Alemanha? Não foi a prévia comunidade de sangue, porque cada um desses corpos coletivos está regado por torrentes cruentas muito heterogêneas. Não foi tampouco a unidade lingüística, porque os povos hoje reunidos em um Estado falavam ou falam ainda idiomas diferentes. A relativa homogeneidade de raça e língua de que hoje gozam - supondo que isso seja um gozo - é resultado da prévia unificação política. Portanto, nem o sangue nem o idioma fazem o Estado nacional; pelo contrário, é o Estado nacional quem nivela as diferenças originárias de glóbulo vermelho e som articulado. E sempre aconteceu assim. Poucas vezes, para não dizer nunca, terá o Estado coincidido com uma identidade prévia de sangue ou idioma. Nem a Espanha é hoje um Estado nacional porque se fale em toda ela o espanhol (82), nem foram Estados nacionais Aragão e Catalunha porque em certo dia, arbitrariamente escolhido, coincidissem os limites territoriais de sua soberania com os da fala aragonesa ou catalã. Estaríamos mais próximos da verdade se, respeitando a casuística que toda realidade oferece, nos inclinássemos a esta presunção: toda unidade lingüística que abarca um território de alguma extensão é quase certamente precipitado de alguma unificação política precedente (83). O Estado tem sido sempre o grande turgimão. Há muito tempo que isto consta, e é muito estranha a obstinação com que, entretanto, se persiste em dar à nacionalidade como fundamentos o sangue e o idioma. Nisso eu vejo tanta ingratidão como incongruência. Porque o francês deve sua França atual, e o espanhol sua atual Espanha, a um princípio X, cujo impulso consistiu precisamente em superar a estreita comunidade de sangue e de idioma. De sorte que a França e a Espanha consistiriam hoje no contrário do que as tornou possíveis. Igual tergiversação comete-se ao querer fundar a idéia de nação numa grande figura territorial, descobrindo o princípio de unidade, que sangue e idioma não proporcionam, no misticismo geográfico das "fronteiras naturais". Tropeçamos aqui com o mesmo erro de ótica . O acaso da data atual mostra-nos as chamadas nações instaladas em amplos torrões do continente ou nas ilhas adjacentes. Desses limites atuais quer fazer-se algo definitivo e espiritual. São, dizem, "fronteiras naturais", e com sua "naturalidade" significa-se uma como mágica predeterminação da história pela via telúrica. Mas este mito volatiliza-se imediatamente submetendo-o ao mesmo raciocínio que invalidou a comunidade de sangue e de idioma como fontes da nação. Também aqui, se retrocedemos alguns séculos, surpreende-nos a França e a Espanha dissociadas em nações menores, com suas inevitáveis "fronteiras

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mas. tem sido muito diferente conforme os tempos. Pelo visto. é uma defesa para B. uma vez alheada. Nação . e depois.para A. princípio da nação. pelo contrário: estorvos que a idéia nacional encontrou em seu processo de unificação.eram apenas súditos. mas ao contrário: o Estado nacional encontrou-se sempre. aparece evidente que todo indivíduo se sentia sujeito ativo do Estado. A montanha fronteiriça seria menos prócer que o Pirineu ou os Alpes e barreira líquida menos caudalosa que o Reno. queremos atribuir um caráter definitivo e fundamental às fronteiras de hoje. como com outros tantos estorvos. a possibilidade da expansão e fusão ilimitada entre os povos. porque nestas achamos uma intimidade e solidariedade radical dos indivíduos com o Poder público desconhecidas no Estado antigo. participe e colaborador. pois. Porque é um estorvo . A forma.de convivência ou de guerra . Pois bem: exatamente o mesmo papel corresponde à raça e à língua. Dominados estes energicamente.significa a "união hipostática" do Poder público e a coletividade por ele regida. pois. Por que. Não foram. e não em princípios forasteiros de caráter biológico ou geográfico. como mais natural ainda que a fronteira. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.no sentido que este vocábulo emite no Ocidente de há mais de um século . pois. o passo de Calais ou o estreito de Gibraltar. A idéia de "fronteira natural" implica. já que não têm sido o fundamento positivo destas? A coisa é clara e de suma importância para entender a autêntica inspiração do Estado nacional diante do Estado-cidade. A realidade histórica da famosa "fronteira natural" consiste simplesmente em ser um estorvo à expansão do povo A sobre o povo B. Não é a comunidade nativa de uma ou outra o que constituiu a nação. Na Inglaterra. produziu uma relativa unificação de sangues e idiomas que serviu para consolidar a unidade. em sua política mesma. ninguém foi nunca só súdito do Estado. Não há. desta união com e no Estado. outro remédio senão desfazer a tergiversação tradicional padecidas pela idéia de Estado nacional e habituar-se a considerar como estorvos primários para a nacionalidade precisamente as três coisas em que se acreditava consistir.htm (87 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . língua e território nativos para compreender o fato maravilhoso das modernas nações? Pura e simplesmente. só um obstáculo material lhes põe um freio. Depende dos meios econômicos e bélicos da época. foram meio material para assegurar a unidade. na Espanha. mas ao contrário: a princípio foram estorvo. Mas isso apenas demonstra que a "naturalidade" das fronteiras é meramente relativa. afinal das contas. Não obstante o que. As fronteiras de ontem e de anteontem não nos parecem hoje fundamentos da nação francesa ou espanhola. uno com ele. naturais". classes relativamente privilegiadas e classes relativamente postergadas. aliados. É preciso resolver-se a procurar o segredo do Estado nacional em sua peculiar inspiração como tal Estado. em seu afã de unificação. sobretudo jurídica. Qual tem sido então o papel das fronteiras na formação das nacionalidades. os demais . se se interpreta a realidade efetiva da situação política em cada época e se revive seu espírito. Em Atenas e em Roma só uns quantos homens eram o Estado. Tem havido grandes diferenças de condição social e estatuto pessoal. mas sempre participou dele. provincianos. frente às muitas raças e às muitas línguas. colonos . E claro que ao desfazer uma tergiversação serei eu quem pareça cometê-la agora. se acreditou necessário recorrer a raça. na França. ingenuamente.A rebelião das massas.escravos. apesar de que os novos meios de tráfego e guerra anularam sua eficácia como estorvos. As fronteiras serviram para consolidar em cada momento a unificação política já alcançada.

qualquer que seja sua forma . ficam em segundo plano. a saber: como dualidade de dominantes e dominados (84).primitiva. sem que haja nada que em princípio a detenha. territorial e etnicamente. entretanto. Esta incapacidade de todo grupo grego e romano para fundir-se com outros provém de causas profundas que não convém perscrutar agora. Esta empresa. de uma maneira simples.em suma. o Estado se materializa no pomoerium. entende-se bem o que esta expressão significa? Não podemos dar-lhe agora um conteúdo de signo oposto ao que Renan lhe insufla. mas a comunidade futura no efetivo fazer. sangue. mas o que vamos fazer amanhã juntos. em organizar certo tipo de vida comum. Daí a facilidade com que a unidade política brinca no Ocidente sobre todos os limites que aprisionaram o Estado antigo. é sujeito político. muito mais verdadeiro? file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.raça. nos reúne em Estado. Segundo isto. ao definir a nação fundando-a numa comunidade de pretérito. A Roma tocava mandar e não obedecer. A capacidade de fusão é ilimitada. o idioma e as tradições comuns um atributo novo. consiste. no corpo urbano que uns muros delimitam fisicamente.A rebelião das massas. medieval ou moderna -. acaba-se sempre por aceitar como a melhor a fórmula de Renan. tradicional e imemorial . Mas os povos novos trazem uma interpretação do Estado menos material. Não é a comunidade anterior. o Estado antigo não acerta nunca a fundir-se com os outros. Roma foi. A unificação estatal não passou nunca de mera articulação entre os grupos que permaneceram externos e estranhos uns aos outros. mas não os eleva a união consigo. aos demais. As diferentes classes de Estado nascem das maneiras segundo as quais o grupo empresário estabeleça a colaboração com os outros. durante a República. todo aquele que preste adesão à empresa . sua realidade é puramente dinâmica: um fazer. fatal e irreformável . e teve de se defender exclusivamente com seus meios burocráticos de administração e de guerra. que vive conscientemente instalado nele e dele decide sua conduta presente. a comunidade na atuação. Não o que fomos ontem. o Estado consiste. Não se esqueça que. Estado e projeto de vida. elemental e tosca. forma parte ativa do Estado. finalmente. E curioso notar que. queira-se ou não. antiga. Na mesma urbe não conseguiu a fusão política dos cidadãos. O Estado nacional é em sua raiz mesma democrático. e que é. Desta sorte. Por isso o Império ameaçado não pode contar com o patriotismo dos outros. Conforme cresce a nação. Mas. adscrição geográfica. e se diz que é um "plebiscito cotidiano". E é que o europeu. vai-se fazendo mais una a colaboração interior.a que proporciona título para a convivência política. mas o que é mais característico ainda do Estado nacional: a fusão de todas as classes sociais dentro de cada corpo político. a rigor. e que finalmente se resumem em uma: o homem antigo interpretou a colaboração em que. num sentido mais decisivo que todas as diferenças nas formas de governo. Roma manda e educa os italiotas e as províncias. O Estado é sempre. quaisquer que sejam seus trâmites intermediários. duas Romas: o Senado e o povo. pretérita. obedecer e não mandar. Assim. classe social.htm (88 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . são termos inseparáveis. relativamente ao homo antiquus. se comporta como um homem aberto ao futuro. simplesmente porque nela se ajunta ao sangue. o convite que um grupo de homens faz a outros grupos humanos para juntos executar uma empresa. Não só de um povo com outro. Tendência política tal avançará inexoravelmente para unificações cada vez mais amplas. Se ele é um projeto de empresa comum. programa de ação ou conduta humanos.

Porque essa interpretação confunde o que impulsa e constitui uma nação com o que meramente a consolida e conserva.diga-se de uma vez . o Estado nacional representaria um princípio estatal mais próximo à pura idéia de Estado que a antiga polis ou que a "tribo" dos árabes. a Alemanha. Não é o patriotismo . a Inglaterra. A existência de uma nação é um plebiscito cotidiano". significa realizar um futuro? Inclusive quando nos entregamos a recordar.no futuro. Se a nação consistisse não mais que em passado e presente. pela graça da nota. a vida humana é constante ocupação com algo futuro. querer fazer outras mais. Ao defender a nação defendemos nosso amanhã. inertes. Se para que exista uma nação é preciso que um grupo de homens conte com um passado comum. mas que procedem da interpretação erudita dada pelo romanticismo à idéia de nação. De haver existido na Idade Média esse conceito oitocentista de nacionalidade. Fazemos memória neste segundo para lograr algo no imediato. um mesmo programa para realizar. Crer o contrário é o truísmo a que já aludi e que o próprio Renan admite em sua famosa definição. Portanto. VIII "Ter glórias comuns no passado. nem pelo idioma. Nem sequer teria sentido defendê-la quando alguém a ataca. Queira-se ou não. senão em função do porvir (85). Por que não se reparou em que fazer. ainda que não seja mais que o prazer de reviver o passado. De fato. uma herança de glórias e remorsos.. com o que não teríamos nada que fazer. nem pelo comum passado. a Espanha. Por isso viver é sempre. haver feito juntos grandes coisas. teriam ficado inexistentes (86). são prisões... ao território. A nação seria algo que se é. não nosso ontem.. mas por isso mesmo é surpreendente notar como nela triunfa o puro princípio de unificação humana em torno a um incitante programa de vida. rígidos. a idéia nacional conserva não pouco lastro de adscrição ao passado. fatais. eu me pergunto como file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Este modesto prazer solitário se nos apresentou há pouco como um futuro desejável. Por isso nos mobilizamos em sua defesa. sempre. O plebiscito decide um futuro. Desde o instante atual nos ocupamos do que sobrevem. circunscrita pelo sangue. no porvir.reais ou imaginários .htm (89 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Tal é a conhecidíssima sentença de Renan.A rebelião das massas. a França. uma vontade comum no presente. ninguém se ocuparia de defendê-la contra um ataque. Parece-nos desejável um porvir no qual nossa nação continue existindo. língua e passado comuns são princípios estáticos. sem pausa nem descanso. Mais: eu diria que esse lastro de pretérito e essa relativa limitação dentro de princípios materiais não têm sido nem são por completo espontâneos nas almas do Ocidente. Isso é o que reverbera na frase de Renan: a nação como excelente programa para amanhã. Se a nação consistisse nisso e em mais nada. à raça. não pelo sangue. fazer. mas não algo que se faz. eis aqui as condições essenciais para ser um povo. Os que afirmam o contrário são hipócritas ou mentecaptos. Que neste caso o futuro consista numa perduração do passado não modifica em nada a questão. No passado. Como se explica sua excepcional fortuna? Sem dúvida. Mas acontece que o passado nacional projeta aliciantes . por isso o fazemos. a nação seria uma coisa situada às nossas costas. pois: nada tem sentido para o homem. Sangue. todo fazer. Esta idéia de que a nação consiste num plebiscito cotidiano opera sobre nós como uma liberação. Conste.quem fez as nações. unicamente revela que também a definição de Renan é arcaizante.

Tudo que além disso pareça ser. o macedônio ou o romano . Por que? Falta só uma coisa. Na realidade. passasse. como aconteceu tantas vezes. tudo isso serve de forças de consolidação. As empresas estatais dos antigos. Nisto se diferencia de outros tipos de Estado. dando ao plebiscito um conteúdo retrospectivo. sua ótica profissional que lhe impede ver a realidade quando não é pretérita? O filólogo é quem necessita para ser filólogo que. tem um valor transitório e cambiante. não estava sujeita a outras condições senão à eficácia bélica e administrativa do conquistador. os súditos são já o Estado e não o podem sentir . Porque. que estoura de luz. os antepassados. Ou está ganhando adesões ou está perdendo-as. em verdade. para que pudessem dizer: somos uma nação. a adesão dos homens a esse projeto incitativo. conforme seu Estado represente ou não no momento uma empresa vivaz. Não se adverte aqui o vício gremial do filósofo. interna nem definitiva. Ela nos permite vislumbrar catodicamente o segredo essencial de uma nação. é a essencial: o futuro comum. representa o conteúdo. da nacionalidade . linguagem comum.podia submeter à unidade de soberania quaisquer porções do planeta. Renan anula ou quase seu acerto. que. chamaremos a esse mesmo grupo de homens enquanto vivia em presente isso que visto hoje é um passado. ainda que fracasse a execução. na medida de que houvesse ou não empresa à vista.o persa. ainda que não se alcance. O plebiscito futurista foi adverso à Espanha. Quando há aquilo. não só no público. mas tão somente (87). Mas no Ocidente a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Borgonha). e. Esta adesão de todos engendra a interna solidez que distingue o Estado nacional de todos os antigos. não forma com eles uma nação. A nação está sempre ou fazendo-se ou desfazendo-se. cuja perpetuação decide. Renan encontrou a palavra mágica. Então ver-se-ia como delas têm vivido os europeus. teve de criar essa comunidade. ou a forma. que se compõe destes dois ingredientes: primeiro. E até que tenha o projeto de si mesma para que a nação exista. Como a unidade não era autêntica. e de nada valeram então os arquivos. A Espanha não soube inventar um programa de porvir coletivo que atraísse esses grupos zoologicamente afins. Pelo visto era forçoso que essa existência comum fenecesse. no Estado nacional uma estrutura histórica de caráter plebiscitário. Esta é a ótica decisiva. antes de possuir um passado comum. mas a nação. enquanto aqui nasce o vigor estatal da coesão espontânea e profunda entre os "súditos". Vejo. por isso que não implicavam a adesão fundente dos grupos humanos sobre os quais se tentavam. eram praticamente limitadas.tribo ou urbe -. e antes de criá-la teve de sonhá-la. Por isso o mais instrutivo seria reconstruir a série de empresas unitivas que sucessivamente inflamaram os grupos humanos do Ocidente. pois. exista um passado. de projetá-la. pelo visto. do arquivista. ou a consolidação que em cada momento requer o plebiscito. por isso que o Estado propriamente tal ficava sempre inscrito em uma limitação fatal . Um povo . raça comum. nos quais a união se produz e mantém por pressão externa do Estado sobre os grupos díspares. uma nação não está nunca feita.isto é o novo. entretanto. Com os povos do Centro e da América Meridional tem a Espanha um passado comum. segundo. que se refere a uma nação já feita. de querê-la.htm (90 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Falaríamos em tal caso de uma nação malograda (por exemplo. Outra coisa mostraria claramente esse estudo. Tertium non datur. Entretanto. a "pátria". mas até em sua existência mais privada.como algo estranhos a eles. as memórias. como "treinaram" ou se desmoralizaram. um projeto de convivência total numa empresa comum.A rebelião das massas. Eu preferiria trocar-lhe o signo e fazê-lo valer para a nação in statu nascendi. antes de tudo. o maravilhoso.

Sói afirmar-se que em tempo do Cid era já a Espanha Spania .uma idéia nacional. começa a atuar sobre os grupos mais próximos geográfica. A meu ver. numa diocese do Baixo Império. O Estado nacional do Ocidente. Isidoro falava da "mãe Espanha". unificação nacional teve de seguir uma série inexorável de etapas. em suma. Um exemplo esclarecerá o que tento dizer. Por muita realidade que se queira dar a essa idéia no século XI. Período de consolidação. As guerras nacionalistas servem para nivelar as diferenças de técnica e de espírito. e esta unidade leon-castelã era a idéia nacional do tempo. Os "espanhóis" haviam se acostumado a ser reunidos por Roma numa unidade administrativa.htm (91 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não obstante. continuamos considerando-os como estranhos e hostis. intelectual e moralmente com eles. A mera afinidade de ontem terá de esperar até amanhã para entrar em erupção de inspirações nacionais. Pouco a pouco vai se destacando no horizonte a consciência de que estes povos inimigos pertencem ao mesmo círculo humano que o nosso Estado. por seu turno. o de Alexandre ou o de Augusto. não íntima inspiração. a Hélade não foi nunca verdadeira idéia nacional. É o período em que o processo nacional toma um aspecto de exclusivismo. Deveria estranhar mais o fato de que na Europa não tenha sido possível nenhum império do tamanho que alcançaram o persa. era uma idéia principalmente erudita. isso é um erro crasso de perspectiva histórica.A rebelião das massas. que faz sentir o Estado como fusão de vários povos em uma unidade de convivência política e moral. Não obstante. e para superfetação da tese acrescenta-se que séculos antes já S. Não porque esta proximidade funde a nação. Mas. uma de tantas idéias fecundas que deixou semeadas no Ocidente o Império romano. Agora chega para os europeus a sazão em que a Europa pode converter-se em idéia nacional. étnica e lingüisticamente. tanto mais diretamente caminha para se depurar num gigantesco Estado continental. E é muito menos utópico crer nisso hoje assim como o houvera sido vaticinar no século XI a unidade da Espanha e da França. e em modo algum aspiração. em que se sentem os outros povos além do novo Estado como estranhos e mais ou menos inimigos. Mas o fato é que enquanto se sente politicamente os outros como estranhos e concorrentes. E. é quase certo que chegará sua hora. Mostra isto como as empresas de unidade nacional vão chegando à sua hora do modo como os sons em uma melodia. Então surge a nova empresa: unir-se aos povos que até então eram seus inimigos. de fechar-se em si mesmo dentro do Estado. Mas esta noção geográfico-administrativa era pura recepção. O Estado goza de plena consolidação. o que a Europa foi para os "europeus" no século XIX. Segundo momento. Spania. Eis aqui madura a nova idéia nacional. Terceiro momento. e Spania para os "espanhóis" do XI e ainda do XIV. o que hoje denominamos nacionalismo. quanto mais fiel permaneça a sua autêntica substância. No tempo do Cid estava se começando a urdir o Estado Leão-Castela. a idéia politicamente eficaz. reconhecer-se-á que não chega sequer ao vigor e precisão que já tem para os gregos do IV a idéia da Hélade. e que juntos formamos um círculo nacional ante outros grupos mais distantes e ainda mais estrangeiros. Cresce a convicção de que são afins com o nosso em moral e interesses. mas porque a diversidade entre próximos é mais fácil de dominar. A efetiva correspondência histórica seria melhor esta: a Hélade foi para os gregos do século IV. convive-se econômica. Os inimigos habituais vão se fazendo historicamente homogêneos (88). em todo caso. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. O peculiar instinto ocidental. ao contrário. O processo criador de nações teve sempre na Europa este ritmo: Primeiro momento.

são e serão tão diferentes como se queira. formam ligas contrapostas. a Europa. desejos. desfazem-nas. como um fundo. Resumo agora a tese deste ensaio. como "nacionais". e em obra de mera fantasia se extirpasse do homem médio francês tudo que usa. guerra como paz. não é a idéia erudita. Mas tudo isso. Só se opõe a isso o prejuízo das velhas "nações". Sofre hoje o mundo uma grave desmoralização. pesa muito mais em cada um de nós o que tem de europeu que sua porção diferencial de francês. mas possuem um mesmo plano ou arquitetura psicológicos e. que entre outros sintomas se manifesta por uma desatorada rebelião das massas.A rebelião das massas. filológica. vão adquirindo um conteúdo comum. Itália. nem o resto do mundo de ser mandado. apercebendo-se dela ou não. mas do fundo comum europeu. a idéia de nação como passado. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. que as quatro quintas partes de seu haver íntimo são bens jacentes europeus. Alemanha. maior que se as almas fossem de idêntico calibre. normas. sentiria terror. a política. A história destacou em primeiro termo as querelas e. França. o galo. que se lhe predicou. notaríamos que a maior parte de tudo isso não vem para o francês de sua França. Religião. recompõem-nas. a idéia do Estado nacional que o europeu. Não se vislumbra que outra coisa de monta possamos fazer os que existimos neste lado do planeta se não é realizar a promessa que há quatro séculos significa o vocábulo Europa. pelejam entre si. Afortunadamente. E esta a unidade de paisagem em que se vai mover desde o Renascimento. que é o terreno mais tardio para a espiga da unidade. Inglaterra. ao homem antigo. sobretudo. espanhol. a homogeneidade das almas se acrescentava. entretecendo a vida das nações hostis.opiniões. que sem adverti-lo começam já a abstrair de sua belicosa pluralidade. A homogeneidade redunda. Se se fizesse a experiência imaginária de se reduzir a viver puramente com o que somos. o britânico e o germano. direito. enquanto se batalhava numa gleba. A alusão a Roma. e. Espanha. Se hoje fizéssemos balanço de nosso conteúdo mental . serviu-nos de admoestação. e essa paisagem européia são elas mesmas. Uma das principais. Dir-se-ia que aquele fragor de batalhas foi só uma tela atrás da qual tanto mais tenazmente trabalhava a pacífica polipeira da paz. Ora bem: essas são as coisas espirituais de que se vive. em geral. Se se quer mais exatidão e mais cautela. ciência. mas. permutavam-se idéias e formas de arte e artigos da fé. A soberania histórica acha-se em dispersão. é muito difícil que certo tipo de homem abandone a idéia de Estado uma vez que ela se lhe encasquetou. Em cada nova geração. Hoje. com efeito. As causas desta última são muitas. o deslocamento do poder que outrora exercia sobre o resto do mundo e sobre si mesmo nosso continente. em geral. etc. Agora se vai ver se os europeus são também filhos da mulher de Lot e se obstinam em fazer história com a cabeça virada para trás. pensa. é conviver de igual para igual. pois. presunções -. sente. em virtude de recepção dos outros países continentais. diga-se deste modo: as almas francesas e inglesas e espanholas eram. valores sociais e eróticos vão sendo comuns. IX Apenas as nações do Ocidente preenchem seu atual perfil surge em torno delas e sob elas. arte. em cem se comerciava com o inimigo. e tem sua origem na desmoralização da Europa. o que nem na paz nem na guerra pode nunca fazer Roma com o celtibero. A Europa não está certa de mandar. Veria que não lhe era possível viver só disso.htm (92 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . nem para o espanhol de sua Espanha. trouxe ao mundo.

não é afã nem mister autêntico. inequívoco. nem as mulheres que tipo de homens preferem realmente. arejada. Mas todos estes nacionalismos são becos sem saída.repito . envilecem-se.até no íntimo -. posto que não se sabe quem vai mandar. sem mais exceção que algumas partes de algumas ciências. Um começo disto oferece-se hoje a nossos olhos.htm (93 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . as fronteiras se hiperestesiam . que tipo étnico.aconteceu assim. Mas agora abre-se outra vez o horizonte para novas linhas incógnitas. a mais extensa. E nem os homens sabem bem a que instituições de verdade servir.. Já não são senão passado que se acumula em torno e debaixo do europeu. Os europeus não sabem viver se não se lançam numa grande empresa unitiva. A última chama. Com mais liberdade vital que nunca sentimos todos que o ar é irrespirável dentro de cada povo. Enquanto o Estado antigo aniquilava o diferencial dos povos ou o deixava inativo fora ou em suma o conservava mumificado. Cada nação que antes era a grande atmosfera aberta. precisamente do princípio caduco. Quem.como sempre acontece em crises parelhas . Dá-se o caso contraditório de um estilo de vida que cultiva a sinceridade e ao mesmo tempo é uma falsificação. E sempre . Já não se pode fazer nada com eles a não ser transcendê-los. transformou-se em província e "interior". de um vazio entre duas organizações do mundo histórico: a que foi. lastrando-o. O resto. é precisamente falsificação da vida. porque tudo isso é pura invenção. Não se sabe para que centro de gravitação vão ponderar em um futuro próximo as coisas humanas. como se vai articular o poder sobre a terra. no mau sentido da palavra. desde a mania do esporte físico (a mania. Por isso é essencialmente provisória. de normas. prefixado. Não é criação do fundo substancial da vida. afrouxam. portanto. Só há verdade na existência quando sentimos seus atos como irrevogavelmente necessários. Na supernação européia que imaginamos. Mas . que a faz eqüivaler a capricho leviano. A véspera de desaparecer. Não há hoje nenhum político que sinta a inevitabilidade de sua política. Acertará quem não se fie de quanto hoje se apregoa. a pluralidade atual não pode nem deve desaparecer. Já não há "plenitude dos tempos". se ensaia e se encomia. menos exigido pelo destino. e por isso a vida do mundo entrega-se a uma escandalosa interinidade. a idéia nacional. O derradeiro suspiro.A rebelião das massas. Os círculos que até agora se chamaram nações chegaram há um século ou pouco menos à sua máxima expansão. Tudo. exige a permanência ativa desse plural que sempre foi a vida do Ocidente. portanto. Então acreditava-se saber o que ia acontecer amanhã. Não há mais vida com raízes próprias. como era o do século XIX. o mais profundo. é provisional. não o esporte em si) até a violência em política. a que vai ser.. tudo que hoje se faz em público e na vida privada . mais puramente dinâmica. Todo o mundo percebe a urgência de um novo princípio de vida. Este é o sentido da erupção "nacionalista" nos anos que correm.alguns ensaiam salvar o momento por uma intensificação extremada e artificial. isto é. Quando esta falta. porque isto supõe um porvir claro. tanto mais frívolo. Em suma: tudo isso é vitalmente falso. se ostenta. o que está em nossa mão pegar ou largar ou substituir. não há mais vida autóctone que a que se compõe de cenas iniludíveis. Tudo. que ideologia. A atual é fruto de interregno. que povo ou grupo de povos. porque é um ar confinado. Tudo isso irá com mais celeridade do que veio. e quanto mais extremo é seu gesto. aprisionando-o. Tente-se projetá-los para o futuro e sentir-se-á o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de molas vitais. desconjunta-se-lhes a alma. que sistema de preferências.as fronteiras militares e as econômicas. Nada disso tem raízes. desde a "arte nova" até os banhos de sol nas ridículas praias da moda.

Esta: que o europeu não vê na organização comunista um aumento da felicidade humana. Mas à unidade da Europa opõem-se.htm (94 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Isto pode trazer para elas a catástrofe. a disciplinar-se. o homem que vive exclusivamente de suas rendas e que as transmite a seus filhos tem os dias contados. o conteúdo do credo comunista à russa não interessa. como ele cria. Pelo contrário: por aqueles anos escrevi que o comunismo russo era uma substância inassimilável para os europeus. mas uma razão muito mais simples e prévia. Qualquer que seja o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não é. porfiados. Hoje parecem-nos bastante ridículos os arbitrários supostos em que há vinte anos fundava Sorel sua tática da violência. pois ao perigo genérico de que a Europa se desmoralize definitivamente e perca toda a sua energia histórica. como sempre aconteceu no processo de nacionalização. enquanto este é inclusivista.repito -. Não é isso o que imuniza a Europa para a fé russa. ajunta-se outro muito concreto e iminente. Os bourgeois do Ocidente sabem muito bem que. as classes conservadoras. Mas na Europa tudo está de sobra consolidado. acostume-se a não mandar nem se mandar. não desenha um porvir desejável aos europeus. revelou-se como mais violento que todo o obreirismo junto. não atrai. E não pelas razões triviais que seus apóstolos. por sua vez. Imagine-se que o "plano qüinqüenal" seguido herculeamente pelo Governo soviético conseguisse suas previsões e a enorme economia russa ficasse não só restaurada. A simplicidade de meios com que opera e a categoria dos homens que exalta revelam de sobra que é o contrário de uma criação histórica. como antes. mas exuberante. O tempo correu.A rebelião das massas. Vão passando os anos e corre-se o risco de que o europeu se habitue a este tom menor de existência que leva agora. e atualmente está mais disposto à violência que os operários. nada disso o que impede ao europeu embalar-se comunisticamente. ir-se-iam volatilizando todas as suas virtudes e capacidades superiores. o pretexto que se oferece para iludir o dever de invenção e de grandes empresas. e automaticamente a exigir muito de si. Voltaria ela a crer em si mesma. soem verbificar. surdos e sem veracidade. Voltaram à tranqüilidade quando chega justamente a época para que a perdessem. Mas a situação é muito mais perigosa do que se pode apreciar. Em época de consolidação tem. O burguês não é covarde. Entretanto . mesmo sem comunismo. Por aí não se sai para lado nenhum. O nacionalismo é sempre um impulso de direção oposta ao princípio nacionalizador. Minha presunção é a seguinte: agora. É exclusivista. Quando o comunismo triunfou na Rússia muitos acreditaram que todo o Ocidente ficaria inundado pela torrente vermelha. Porque agora sim pode derramar-se sobre a Europa o comunismo de roldão e vitorioso. e hoje voltaram à tranqüilidade os temerosos de outrora. Não por ele mesmo. pois. que é um movimento petit bourgeois. mas apesar dele. choque. O fascismo. como todos os apóstolos. foi porque na Rússia não havia burgueses (89). parece-me muitíssimo possível que nos anos próximos a Europa se entusiasme pelo bolchevismo. casta que pôs todos os esforços e fervores de sua história na carta Individualidade. e o nacionalismo não é mais que uma mania. Eu não participei de semelhante prognóstico. Ninguém ignora que se triunfou na Rússia o bolchevismo. Só a decisão de construir uma grande nação com o grupo dos povos continentais tornaria a dar tom à pulsação da Europa. Em tal caso. nem é muito menos temor. um valor positivo e é uma alta norma.

Se deixamos de um lado . Contanto que sirva a algo que dê um sentido à vida e fugir do próprio vazio existencial. O comunismo é uma "moral" extravagante .A rebelião das massas. o lisonjearia. a única empresa que poderia contrapor-se à vitória do "plano qüinqüenal". -.todos os grupos que significam sobrevivências do passado .algo assim como uma moral -. DESEMBOCA-SE NA VERDADEIRA QUESTÃO Esta é a questão: a Europa ficou sem moral.os cristãos. os velhos liberais. em ignorar toda obrigação e sentir-se. Eu vejo na construção da Europa. sem que ele mesmo suspeite por que sujeito de ilimitados direitos. Mas seria demasiado vil que o anticomunismo esperasse tudo das dificuldades materiais encontradas por seu adversário. Nego rotundamente que exista em lugar algum do continente grupo algum informado por um novo ethos que tenha visos de u'a moral. decisivamente. Qualquer substância que caia sobre uma alma assim. como grande Estado nacional. e se converterá em file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. seu esplêndido caráter de magnífica empresa irradiará sobre o horizonte continental como uma ardente e nova constelação. Se a Europa. Nele os homens abraçaram resolutamente um destino de reforma e vivem tensos sob a alta disciplina que essa fé lhes injeta. como poderia evitar o efeito contaminador daquela empresa tão prócer? E não conhecer o europeu esperar que possa ouvir sem se acender essa chamada a novo fazer quando ele não tem outra bandeira de semelhante altaneria que desfraldar ovante. os "idealistas". etc. É indiferente que se mascare de reacionário ou de revolucionário: por ativa ou por passiva. não se achará entre todos os que representam a época atual um só cuja atitude ante a vida não se reduza a crer que tem todos os direitos e nenhuma obrigação. ao cabo de umas ou outras voltas. tão só que lhe deixe via um pouco franca. não faz fracassar gravemente a tentativa. Se a matéria cósmica. O imoralismo chegou a ser tão barato que qualquer um alardeia exercitá-lo. Os técnicos da economia política garantem que essa vitória tem mui escassas probabilidades de sua parte.como se fez neste ensaio . a incitação de um novo programa de vida? XV. Não acrediteis uma palavra quando ouvirdes os jovens falar da "nova moral". persiste no ignóbil regime vegetativo destes anos. se sinta arrastado por sua atitude moral. Não é que o homem-massa menospreze uma antiquada em benefício de outra emergente. ou melhor. do homem atual.htm (95 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . entretanto. Por essa razão seria uma ingenuidade lançar em rosto ao homem de hoje sua falta de moral. conteúdo do bolchevismo. e já que não por sua substância. dará um mesmo resultado. representa um ensaio gigantesco de empresa humana. mas que o centro de seu regime vital consiste precisamente na aspiração a viver sem sujeitar-se a moral alguma. seu estado de ânimo consistirá. A imputação não lhe causaria a menor impressão. Não parece mais decente e fecundo opor a essa moral eslava uma nova moral do Ocidente. sem projeto de vida nova. indócil aos entusiasmos do homem. Quando se fala da "nova" não se faz senão cometer uma imoralidade mais e buscar o meio mais cômodo para passar contrabando. frouxos os nervos por falta de disciplina. não é difícil que o europeu engula suas objeções ao comunismo. O fracasso deste equivaleria à derrota universal: de todos e de tudo.

é uma coisa que não existe. Como se pode acreditar na amoralidade da vida? Sem dúvida porque toda a cultura e a civilizacão moderna levam a esse convencimento. Neste ensaio desejou-se desenhar certo tipo de europeu. comicamente. que é sempre. O homem-massa está ainda vivendo precisamente do que nega e outros construíram ou acumularam. sentimento de submissão a algo. velis nolis. e. se declaram "jovens" porque ouviram que o jovem tem mais direitos que obrigações. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. tem. delas provém esta forma humana agora dominante. precisamente para atribuir-se todos os demais que pertencem só a quem tenha feito já alguma coisa. o fenômeno. lhe serve de disfarce para poder desentender-se de toda obrigação . o respeito ou estimação dos indivíduos superiores. Com um ou com outro aspira-se sempre ao mesmo: que o inferior. Embalou-se sem reservas pelo declive de uma cultura magnífica. Em realidade. Mas é estupefaciente que agora o tomem estes como um direito efetivo. Sempre o jovem. será para poder afirmar que a salvação da pátria. bem vimos como afagam o homem-massa. Agora recolhe a Europa as penosas conseqüências de sua conduta espiritual. e isto não é amoral. a veracidade. Se você não quer submeter-se a nenhuma norma. chegou a fazer-se da juventude uma chantagem. mas imoral. em parte. Eu sei de não poucos que ingressaram em um ou outro partido operário apenas para conquistar dentro de si mesmos o direito a desprezar a inteligência e poupar-se aos salamaleques diante dela. entre ridículo e escandaloso. analisando sobretudo seu comportamento ante a civilização mesma em que nasceu. Embora pareça mentira. que os não jovens concediam aos moços. mas sem raízes. Porque não se trata só de que este tipo de criatura se desentenda da moral. entre irônico e terno. sobretudo se o próximo possui uma personalidade valiosa. mas uma simples negação. que o homem vulgar possa sentir-se livre de toda sujeição.como a cortesia. de que se tenha feito em nossos dias uma plataforma da "juventude" como tal. Mas talvez é um erro dizer "simplesmente". por essência. não lhe façamos tão fácil a tarefa. pateando quanto parecia eminência. negação que oculta um efetivo parasitismo. Da moral não é possível desentender-se simplesmente. dá direito a alhear todas as outras normas e a massacrar o próximo. em última instância. uma caduca e a outra em alvor. de sujeitar-se à norma de negar toda moral. O que com um vocábulo falto até de gramática se chama amoralidade. Isto se acha na natureza do humano. Por isso não convinha mesclar seu psicograma com a grande questão: que insuficiências radicais padece a cultura européia moderna? Porque é evidente que. pretexto para não se sujeitar a nada concreto. vivemos um tempo de chantagem universal que toma duas formas de esgar complementário: há a chantagem da violência e a chantagem do humorismo. como tal. considerou-se isento de fazer ou haver feito façanhas. Sempre viveu de crédito. sobretudo. consciência de serviço e obrigação. Importava fazer assim porque esse personagem não representa outra civilização que lute com a antiga. Por isso não cabe enobrecer a crise presente mostrando-a como o conflito entre duas morais ou civilizações. As pessoas. Não. Mas a mesma coisa acontece se dá para ser revolucionário: seu aparente entusiasmo pelo operário manual. o miserável e a justiça social. Se se apresenta como reacionário ou antiliberal. Era como um falso direito. Quanto às outras Didaturas. já que pode demorar o cumprimento destas até as calendas gregas da madureza. Essa esquivança a toda obrigação explica.htm (96 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . O homem-massa carece simplesmente de moral. Quiçá não ofereça nosso tempo traço mais grotesco. do Estado. E uma moral negativa que conserva da outra a forma em oco.A rebelião das massas.

que já foi afugentado de outros acontecimentos. Dizia-se que era um povo em decadência. murmurada nelas. Não obstante .. exclamam: "Esta Inglaterra!. No meio da mais atroz tormenta. a nação não nasce. coçando a cabeça. por inércia mental. desde já. da vida inglesa nos últimos cem anos. É uma empresa que dá bem ou mal. mas à ordem sociológica. Em que pese esta vez à etimologia.. Há várias centúrias acontece periodicamente que os continentais acordam uma manhã e. que se desenvolve. sem muitas preparações. E preciso extirpar da história o psicologismo. a que tivera durante dois séculos e que em forma superlativa estava chamado a exercer hoje. até da Inglaterra. se tende a duvidar de tudo. mas incompreensível. reatar. O "caráter nacional". Não me refiro ao inglês individual. o fato mais estranho que há no planeta." É uma expressão que significa surpresa. Tudo isso sem uma gesticulação e muito além de todas as frases. quase tantas como de desfazê-las. O caráter nacional vai se fazendo e desfazendo e refazendo na história. EPÍLOGO PARA INGLESES Daqui a pouco faz um ano que numa paisagem holandesa. O povo inglês é. incluso das que acabo de proferir. ou. que se corrige. o navio inglês troca todas as suas velas. dizer por que é estranha e por que é maravilhosa a Inglaterra. que se inicia após um período de ensaios. usando um símil humorístico. Mas mesmo aquele que estime o modo de ser dos homens ingleses acima de todos os demais. reduz o assunto file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. por insólitos. pois. porque atrás dela está o verdadeiramente essencial e fértil. Enquanto se acredite que um povo possui um "caráter" prévio e que sua história é uma emanação deste caráter. O excepcional da Inglaterra não jaz no tipo de indivíduo humano que soube criar. sobressalto e a consciência de ter a sua frente algo admirável. com efeito. onde o destino me havia centrifugado. eu assinalava com fé robusta a missão européia do povo inglês. mas ao corpo social. É sobremaneira discutível que o inglês individual valha mais que outras formas de individualidade aparecidas no Oriente e no Ocidente. E como a sociologia é uma das disciplinas sobre as quais as pessoas têm em todas as partes menos idéias claras. como tudo que é humano. é portentosa. não é um dom inato. Mas essa grande questão tem de permanecer fora destas páginas. e tem de voltar a começar. porque é excessiva. cinge-se ao vento e a guinada de seu leme modifica o destino do mundo. É evidente que há muitas maneiras de fazer história. Insisto em empregar esta palavra. Ainda menos tentar a explicação de como chegou a ser essa estranha coisa que é. O que então não imaginava é que tão rapidamente viessem os fatos confirmar meu prognóstico e a incorporar minha esperança. A manobra de saneamento histórico que tenta a Inglaterra. Naquela data começava para a Inglaterra uma das etapas mais problemáticas de sua história e havia muito poucas pessoas na Europa que confiassem nas suas virtudes latentes. não seria possível. Durante os últimos tempos falharam tantas coisas que. como um contraponto. em seu interior.htm (97 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que "perde o fio" uma ou várias vezes. mas uma fabricação. O interessante seria precisar quais são os atributos surpreendentes. insinuada. atribuía eu a Inglaterra ante o Continente. Muito menos que se comprazessem com tal precisão em ajustar-se ao papel determinadíssimo que. não haverá maneira nem sequer de iniciar a conversação. o maravilhoso não pertence. à coletividade dos ingleses. O estranho. se faz. Depois viria a tentativa de mostrar como adquiriu a Inglaterra essas qualidades sociológicas. pelo menos. Talvez possa em breve ser exaltada. à ordem psicológica. vira dois quadrantes. apesar do pedante que é. fica entrelaçada. escrevi o Prólogo para franceses à primeira edição popular deste livro.A rebelião das massas. Obrigaria a desenvolver com plenitude a doutrina sobre a vida humana que.e ainda arrostando certos riscos de que não quero falar agora -.

os povos românicos forjaram línguas complicadas. Tenha-se presente que a Inglaterra não é um povo de escritores mas de comerciantes. não seja insuportável. o leitor não esquecerá o destinatário. no moral como no físico. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e em certa maneira. a respeito da Espanha. ". o primeiro que vemos são as suas fronteiras. vão elevadas. Quando chegamos a esse povo. Escutaram-se em sério as maiores imbecilidades com tanto que fossem indígenas. O que mais me surpreendeu é a decidida vontade de não tomar conhecimento das coisas que há na opinião pública desses países. olhado desde outro. ao contrário. O inglês não veio ao mundo para dizer. Se é benévolo. no tempo próximo. Sob esta disciplina. entrementes. esganiçar-se. e importa sobremaneira à espécie humana que se conserve intacto esse tesouro e essa energia de taciturnidade. línguas feitas à força de palavreados infindáveis . o mais estimável que há no mundo. exasperantes. a aproveitar o primeiro pretexto para falar sobre a Espanha e . quer dizer. ainda convencido de que forçava um pouco a conjuntura. A Grécia. Isto é uma força magnífica.tem se deixado circular a intriga. entorpecimento. na América do Norte representa atonia. Mas. tem havido a radical decisão de não querer ouvir nenhuma voz espanhola capaz de esclarecer as coisas. em palanque.não em seus governos.A rebelião das massas. dando ao vento em formas claras e eufônicas a mais arcana intimidade. No anglo-saxão . no modo como sabe ser uma sociedade. O homem do Sul propende a ser gárrulo.. Daí que nos sintamos sôfregos quando. o prejuízo arcaico e a hipocrisia nova sem lhes pôr um limite. vício e falha. na França. que. O nervosismo dos últimos meses fez que quase todas as nações tivessem vivido encarapitadas em suas fronteiras. Respeito semelhante à Inglaterra não nos exime da irritação ante seus defeitos.já a suspicácia do público inglês não tolerava outra coisa . ou de ouvi-la depois de deformá-la. E por este lado talvez são os ingleses. a frivolidade. dizer. que é. se me ofereça oportunidade para fazer ver tudo que quero dizer com isto. representam um esforço de acomodação a seus usos. de insinuar e ainda mais de iludir. a meu juízo. compreender-se-á até que ponto hei sofrido de quanto na Inglaterra. e para o ateniense viver era falar. sobre seus defeitos e limitações. a dureza de cabeça. consolidadas.em ágora e praça. a uma questão de mais ou de menos. tem sido alguma atitude de graça generosa. para silenciar. e a retórica acabou sendo para a civilização antiga o que tem sido a física para nós nestes últimos séculos. ao qual atribuíam mágica potência. o logos. O aticismo havia triunfado sobre o laconismo. Não há povo que. Renunciou-se nelas a todo "brilho" e vão escritas em estilo bastante pickwickiano. e o que mais falta tenho sentido. como as de um homem. velam os ingleses alerta sobre seus próprios segredos para que não escape nenhum. e. Dirigidas a ingleses. postos atrás de seus cachimbos. dificultam enormemente a inteligência com outros povos. Isto me levou. Eu sustento. por minha vez. taberna e tertúlia. Por isso divinizaram o dizer. Se se ajunta a isso que um dos principais temas de disputa tem sido a Espanha. de engenheiros e de homens piedosos. soltou nossas línguas e nos fez indiscretos a nativitate. Com faces impassíveis. Nisto sim é que se contrapõe a todos os demais povos e não é questão de mais ou de menos.falar sem parecer que dela falava nas páginas intituladas "Quanto ao pacifismo. uma plasticidade e um garbo incomparáveis. que o excepcional. os ouvimos emitir a série de leves miados displicentes em que consiste seu idioma. Talvez. mas sim nos países . são seus limites. mas deliciosas. em grau especial. dando um espetáculo exagerado de seus mais congênitos defeitos. que nos educou. de uma sonoridade.. composto de cautelas e eufemismos. mas. que a originalidade extrema do povo inglês radica em sua maneira de tomar o lado social ou coletivo da vida humana. ao mesmo tempo. Soube por isso forjar uma língua e uma elocução em que se trata principalmente de não dizer o que se diz. aproximando-nos destes esplêndidos ingleses. sobretudo com os nossos.htm (98 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . acrescentadas a seguir. E é que as virtudes de um povo.

E o caso é que . Este foi o sentido do cosmopolitismo que coagula no seu último terço.em princípio .quer dizer. O tema do ensaio que segue é a incompreensão mútua em que caíram os povos do Ocidente . pelo contrário. mas à sua integração. Sobretudo isto se raciocina tranqüilamente nas páginas imediatas. Ao enciclopedista francês do século XVIII. Busca a pluralidade de formas vitais com vistas não à sua anulação. não se lhe ocorria desdenhar um povo "inculto" e depauperado como a Espanha.que a ele lhe parece a exemplar desocupação de "tomar sol" a que o castiço espanhol sói dedicar-se conscientemente. 1938. porventura. Porque a Europa foi sempre como uma casa da vizinhança. que o unicamente civilizado é vestir umas bombachas e dar pancadas numa bolinha com uma vara.tinha razão. Como puderam chegar a não se entender tão radicalmente? A gênese de tão feia situação é longa e complexa. e no uso mais exótico e incompreensível suspeitava mistérios de grande sabedoria. É. o escândalo que provocava era prova de que o homem normal de então não via. mas se misturam a toda hora sua doméstica existência. O romanticismo que lhe sucedeu não é senão sua exaltação. abril. hermetizado pela consciência de seu poder político. Esse mútuo desconhecimento tornou possível que o povo inglês. Para enunciar só um dos mil fios que naquele fato se atam. enfim. de muito peso. Herder. Estes povos que agora se ignoram tão gravemente brincaram juntos quando eram crianças nos corredores da grande mansão comum. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. operação que habitualmente se dignifica denominando-a de "golf". Lema dele foram estas palavras de Goethe: "Só todos os homens vivem o humano".htm (99 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . cometesse o gigantesco de seu pacifismo. O cosmopolitismo de Fergusson. sutilíssima e de alto alcance nessa ocupação . Quando alguém o fazia. são fenômenos que. indubitável que o inglês de hoje. De todas as causas que geraram as presentes desgraças do mundo. Nutre-se não da exclusão das diferenças nacionais. Porventura tenha contribuído para que adote esta resolução a consciência da responsabilidade contraída. Pelo contrário: é o século das viagens cheias de curiosidade amável e prazenteira pela divergência do próximo. sem excessiva presunção. Devo advertir ao leitor que todas as notas foram acrescentadas agora e suas alusões cronológicas hão de ser referidas ao corrente mês. Paris. O assunto é. tão parco em erros históricos graves. onde as famílias não vivem nunca separadas. nas diferenças de poderio diferença de nível humano. Goethe . a que talvez pode concretizar-se mais é o desarmamento da Inglaterra. mas com o entranhável desejo de colaborar na reconstituição da Europa. mas. não é muito capaz de ver o que há de cultura refinada. apesar de supor-se dono da verdade absoluta. não obstante sua petulância e sua escassa ductilidade intelectual. de se desprezar e injuriar porque são diferentes.A rebelião das massas. por exemplo. Ele crê.é o oposto do atual "internacionalismo". povos que convivem desde sua infância. e as páginas que seguem não fazem outra coisa senão tomá-lo pelo lado mais urgente. O romântico enamorava-se dos outros povos precisamente porque eram outros. Seu gênio político permitiu-lhe nestes meses corrigir com um esforço incrível de self-control o mais extremo do mal. advirta-se que o uso de se converterem uns povos em juizes dos outros. O fato é estupefaciente. de se permitirem crer as nações hoje poderosas que o estilo ou o "caráter" de um povo menor é absurdo porque é bélica ou economicamente débil. como um parvenu. jamais se haviam produzido até os últimos cinqüenta anos. de entusiasmo por elas. pois. se não erro.

Para isso é preciso que nos resolvamos a estudá-lo a fundo. Dele emergiria não escassa claridade. base de toda civilização: ao descobrimento da disciplina. O pacifista vê na guerra um dano. mas um invento.seu Governo e sua opinião pública .seu Governo e sua opinião pública . de verdade. A guerra não é um instinto. O fracasso foi tão grande. o defeito maior do pacifismo inglês . com efeito. Mas os pacifistas começam a discrepar quando dão o passo imediato e interrogam-se até que ponto é em absoluto possível o desaparecimento das guerras. a realidade atual facilita desgraçadamente o assunto. Cometemos o erro de designar com este único nome atitudes mui diferentes. na apreciação das possibilidades de paz que o mundo atual oferecia e na determinação da conduta que há de seguir quem pretenda ser. Há. Como quase sempre acontece. todo erro é uma propriedade que acresce nosso haver. tão rotundo.htm (100 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Eu suponho que os ingleses se dispõem já. e vou supor que sua aspiração à paz do mundo era uma excelente aspiração. Mas é evidente que não me corresponde agora nem aqui fazer um estudo no qual ficaria definido com certa precisão o peculiar pacifismo em que a Inglaterra .e. QUANTO AO PACIFISMO Há vinte anos (90) a Inglaterra . Em vez de chorar sobre ele convém apressar-se a explorá-lo. Ao dizer isto não sugiro nada que possa levar ao desânimo. um crime ou um vício. Não há nunca razão suficiente nem para um nem para o outro. Mas esquece que. Mas eu prefiro agora adaptar-me quanto possa ao ponto de vista inglês.A rebelião das massas. serenamente. Os animais a desconhecem e é de pura instituição humana. Todas as demais formas de disciplina procedem da primigênia. Ela levou a um dos maiores descobrimentos. O reconhecimento de um erro é por si mesmo uma nova verdade é como uma luz que dentro deste se acende. pacifista. que alguém teria direito a revisar rapidamente a questão e a se perguntar se não é um erro todo pacifismo.tem sido subestimar o inimigo. Baste advertir o estranho mistério da condição humana consistente em que uma situação tão negativa e de derrota. que foi a disciplina militar. Talvez fosse muito mais útil do que se imagina um estudo completo sobre as diversas formas do pacifismo. a descobrir sem piedade suas raízes e a construir energicamente a nova concepção das coisas que isto nos proporciona. É um fato demasiado notório que esse pacifismo inglês fracassou. Por que desanimar? Talvez as duas únicas coisas a que o homem não tem direito são a petulância e seu oposto. entretanto. a guerra é um enorme esforço que os homens fazem para resolver certos conflitos. mas decididamente. O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. como a ciência e a administração. Enfim: a divergência torna-se superlativa quando se põem a pensar nos meios que exige uma instauração de paz sobre este pugnacíssimo globo terráqueo.embarcaram no pacifismo. dos que se apresentam como titulares do pacifismo . antes disso e acima disso. muitas formas de pacifismo. Contra o que acreditem os jeremias. A única que entre elas existe de comum é uma coisa muito vaga: a crença em que a guerra é um mal e a aspiração a eliminá-la como meio de trato entre os homens. a saber. Esta subestima lhes inspirou um diagnóstico falso. se converte magicamente em uma nova vitória para o homem. Por outra parte. Mas isso sublinha tanto mais quanto houve de erro no resto. o desânimo. tão diferentes que na prática vêem a ser com freqüência antagônicas.embarcou há vinte anos. apenas reconhecendo-o. Isso quer dizer que esse pacifismo foi um erro. a retificar o enorme erro que durante vinte anos tem sido seu peculiar pacifismo e a substituí-lo por outro pacifismo mais perspicaz. como é haver cometido um erro. em geral. Pelo contrário.

Do mesmo modo. que com isso se havia dado o mais breve passo eficiente no sentido da paz? Grande erro! A guerra. Os romanos. mui finamente. Não é. como a Inglaterra. sem mais reflexão. que é elementar. Não se espere nesta ordem nada fértil enquanto o pacifismo. o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. em suma. tentou fazer. a vontade de paz o que importa ultimamente no pacifismo. A renúncia à guerra não suprime estes conflitos. de ser um gratuito e cômodo desejo.Adeona e Abeona. era um meio que haviam inventado os homens para solucionar certos conflitos.A rebelião das massas. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano. a saber: o aspecto que têm ao chegar e o aspecto que têm ao ir. porque os conflitos reclamariam solução. não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Para ver com clareza a questão façamos o que fazia lord Kelvin para resolver seus problemas de física: construamos um modelo imaginário.htm (101 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. pelo contrário. encarregaram duas divindades de consagrar esses dois instantes . maldizer da escravidão. não parecerá surpreendente a crença em que esteve a Inglaterra de que o mais que podia fazer a favor da paz era desarmar. Imaginemos. sua rusticidade. também a paz é uma coisa que importa fazer. o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou. então. pondo na faina todas as potências humanas.e a nós nos corresponde generalizar sua advertência. o deus do chegar e o deus de ir. repitamos. só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior. por sua parte.libertando-se das tolices que Rousseau disse sobre ela . que em certo momento todos os homens renunciassem à guerra. pronta para que o homem a goze. em vez de matar os prisioneiros. Acredita-se que basta isso. A paz não "está aí". O outro é puro erro. Se se atende a tudo isso. mais ainda. requerem a venturosa intervenção do gênio. quer dizer. um fazer que se assemelha tanto a um puro omitir? Essa crença é incompreensível se não se adverte o erro de diagnóstico que lhe serve de base. costumamos. a guerra reapareceria inexoravelmente nesse imaginário planeta habitado só por pacifistas. viu já deste modo a instituição da escravidão . ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz. enquanto não se inventasse outro meio. tem a guerra dois aspectos: o da hora de sua invenção e o da hora de sua superação. tem ele de fazê-lo. trabalhar em que não se fizesse. de construí-lo. que há que fabricar. sua insuficiência. o belicismo ficará asfixiado. Na hora de sua invenção significou um progresso incalculável. simplesmente. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. e. pois. Augusto Comte. Como toda forma histórica. em parte. quando aspiramos a superá-la. a vontade pacífica de todos os homens seriam completamente ineficazes. e que se se reprime o apaixonamento. A ausência de paixões. um sistema de esforços complicadíssimos. seu horror. não passe a ser um difícil conjunto de novas técnicas. e que. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida. Por isso. histórico. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse. creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. portanto. Por desconhecer tudo isso. Mas o enorme esforço que é a guerra. Nada importante é apresentado ao homem. Pelo contrário. aprendendo a olhar todas as coisas humanas sob essa dupla perspectiva. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou. É preciso que este vocábulo deixe de significar uma boa intenção e represente um sistema de novos meios de trato entre os homens. Hoje. vemos dela apenas a suja espádua. deixa-os mais intactos e menos resolvidos que nunca. conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor. a saber: a idéia de que a guerra procede simplesmente das paixões dos homens. que tinha um grande sentido humano.

a importância dessas magistraturas. de imoral. quer dizer. Com efeito: se se passa revista às matérias julgadas por esses tribunais. maltratadas ou em ruínas. o mesmo que já existia antes de seu estabelecimento. E não só não existe no sentido de que não haja alcançado ainda "vigência". O enorme dano que aquele pacifismo trouxe à causa da paz consistiu em não deixar-nos ver a carência das técnicas mais elementais. é o direito como forma de trato entre os povos. de direito. que não se tenha consolidado como norma firme na "opinião pública". isto é. Ora bem: isto é gravemente oposto à verdade. Se aquelas idéias senhoreiam de verdade as almas. E esta é a verdadeira substância do direito.htm (102 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não havendo nem em teoria um direito dos povos. de norma vigente. A paz. e só então. Mas é indispensável para contribuir um pouco a despertar o interesse para novas grandes empresas. para novas tarefas construtivas e salutíferas. 3o. no essencial. como puro teorema incubado na mente de algum pensador. descubram certas idéias ou princípios de direito. Mas a importância desses tribunais internacionais tem se reduzido a isso até hoje. cujo exercício concreto e preciso constitui isso que. por exemplo. Repugna-me atrair a atenção do leitor sobre coisas falidas. que aquelas idéias de direito se consolidem em forma de "opinião pública". contribui a ocultar-nos a indigência de verdadeiro direito internacional que padecemos. Para que o direito ou um ramo dele exista é preciso: 1o. que estava aí à disposição dos homens e que só as paixões destes e seus instintos de violência induziam a ignorá-lo. que alguns homens.A rebelião das massas... 2o. que os últimos cinqüenta anos presenciaram. que essa expansão chegue de tal modo a ser predominante. atuarão inevitavelmente como instâncias para a conduta às quais se pode recorrer. adverte-se que são as mesmas resolvidas de há muito pela diplomacia. incluindo os domínios ingleses da Oceania). chamamos de paz. entende-se. como não existe nem sequer como idéia. É preciso que não se volte a cometer um erro como foi a criação da Sociedade das Nações. com um vago nome. a coletividade que formam os povos europeus e americanos. pretende-se que desapareçam as guerras entre eles? Permita-se-me que qualifique de frívola. Então. simplesmente porque a desejamos. pelo menos. especialmente inspirados. E não havendo nada disso. não importa que não haja juizes. Não importa que não haja legislador. o que concretamente foi e significou esta instituição na hora de seu file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Pois bem: um direito referente às matérias que originam inevitavelmente as guerras não existe. para só nos referirmos aos dois maiores e mais recentes cadáveres.. Não desestimo. Só é moral o desejo que é acompanhado da severa vontade de aprontar os meios de sua execução. na plenitude do termo. de maneira nenhuma. Porque é imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente. semelhante pretensão. Sempre é importante para o progresso de uma função moral que apareça materializada em um órgão especial claramente visível. Nem era lícito esperar maior fertilidade nesta ordem. de órgãos de arbitragem entre Estados. O direito que administram é. podemos falar. Não significam progresso algum importante no que é essencial: na criação de um direito para a peculiar realidade que são as nações. A proliferação de tribunais internacionais. de uma etapa que se iniciou com o Tratado de Versalhes e com a instituição da Sociedade das Nações. Não sabemos quais são os "direitos subjetivos" das nações e não temos nem indícios de como seria o "direito objetivo" que possa regular seus movimentos. a propaganda e expansão dessas idéias de direito sobre a coletividade em questão (em nosso caso. Pois bem: o pacifismo usual dava como suposto que esse direito existia.

os quais. sequer teoricamente. Em certo modo. pelos temas de que habitualmente se ocupam. mas pelo contrário. Também aqui se trataria de libertar uma atividade humana . Mas. Formule-se o leitor qualquer dos grandes conflitos que há atualmente estabelecidos entre as nações. os mais toscos e elementais que podem ser apontados.htm (103 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Dentro do povo produzem-se as revoluções. o sistema de idéias filosóficas. nascimento. e diga-se a si mesmo se encontra em sua mente uma possível norma jurídica que permita. Foi um erro que reclama o atributo de profundo. Sem dúvida. sem remédio. Sua vacuidade de justiça encheu-se fraudulentamente com a sempiterna diplomacia. põem bem à vista o caráter ilusório de todo pacifismo que não comece por ser uma nova técnica jurídica. e longe de antecipar o futuro era já arcaico. O "espírito" que propeliu para aquela criação. Mas uma época que assistiu ao invento das geometrias não-euclidianas. Baste dizer que na fauna humana representam a espécie mais oposta ao político. recebem antes que os demais a visita do porvir (91). pode. Houve homens na Europa que já então denunciaram seu inevitável fracasso. E não se diga que é coisa fácil proclamar isto agora. históricas. recentemente -. quer dizer. a esta altura da história e da civilização. sem profecia. como os habituais na difícil faina que é a política. A Sociedade das Nações foi um gigantesco aparelho jurídico criado para um direito inexistente. Cada vez é menos possível uma sã política sem larga antecipação histórica. Mas é o caso que as coisas humanas não são res stantes. que se converte em uma camisa de força. puro movimento. Se fosse fácil existiria há muito tempo. Mercê disso produziu-se o vergonhoso fenômeno de que. exatamente tão difícil como a paz. e entre os povos estalam as guerras. uma vez mais. É difícil. de uma física de quatro dimensões e de uma mecânica do descontínuo. mas importa muito aos destinos humanos que o político ouça sempre o que o profeta grita ou insinua. que ao disfarçar-se de direito contribuiu à universal desmoralização. os direitos de um povo que ontem tinha vinte milhões de homens e hoje tem quarenta ou oitenta? Quem tem direito ao espaço não habitado do mundo? Estes exemplos. coisas históricas. com efeito. O direito tradicional é só regulamento para uma realidade paralítica. E como a realidade histórica muda periodicamente de modo radical. Daí . sociológicas e jurídicas de que emanaram seu projeto e sua figura estava já historicamente morto naquela data. É talvez uma das causas profundas do atual desconcerto seja que há duas gerações os políticos se declararam independentes e cancelaram essa colaboração. navegue o mundo mais à deriva que nunca. e não debalde seu órgão principal se chama Estado. o direito que aqui se postula é uma invenção muito difícil. é estático. o problema do novo direito internacional pertence ao mesmo estilo que esses recentes progressos doutrinais. Evito precisar a que grêmio pertenciam os profetas. Todas as grandes épocas da história nasceram da sutil colaboração entre esses dois tipos de homem. mutação perpétua. Talvez as catástrofes presentes abram de novo os olhos dos políticos para o fato evidente de que há homens. choca. ou por possuir almas sensíveis como finos registradores sísmicos. Mas uma camisa de força posta num homem são tem a virtude de torná-lo louco furioso. Uma vez mais aconteceu o que é quase normal na história. Foi um erro histórico. também os políticos não fizeram caso desses homens. O homem não conseguiu ainda elaborar uma forma de justiça que não esteja circunscrita na cláusula rebus sic stantibus. pertencia ao passado. e não o profeta. enfrentar aquela empresa e resolver-se a acometê-la. sem espanto. resolvê-lo. com a qual coincide. Sempre será este quem deva governar. Não foi um erro qualquer. Quais são. a saber: que foi predita. como já nos ensina a Bíblia: "Por que tomastes o direito file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas.de certa radical limitação que sempre padeceu.o direito . por exemplo. com a estabilidade do direito. entregue a uma cega mecânica. O direito.A rebelião das massas.dizia eu. O bem que pretende ser o direito se converte em um mal. esse estranho aspecto patológico que tem a história e que a faz parecer como uma luta sempiterna entre os paralíticos e os epilépticos.

chega a sua máxima potência. é que se prevê seu movimento. 6.A rebelião das massas. o direito. embora estas se apresentem com a pretensão de ser essencialmente vagas. ao menos em teoria.o fenômeno jurídico mais avançado que se produziu até hoje no planeta: a British Commonwealth of Nations. porque nele se declara a aspiração a um direito semovente. esta incongruência entre a estabilidade da justiça e a mobilidade da realidade. em fel e o fruto da justiça em absinto?" (Oseas. gigantesco aparelho construído para administrar o statu quo. pois. 12). nem utópica. o formulado por Balfour em 1926 com suas famosas palavras: Nas questões do Império é preciso evitar o refining. E enquanto não existam princípios de justiça que. Por exemplo: quase todas as constituições contemporâneas procuram ser "abertas". A demanda não é exorbitante. no qual adquire sua expressão mais extrema e depurada o que talvez é o destino intelectual do Ocidente. Mas é evidente que há outros homens cuja missão é fazer o que ao político. E isso não certamente por casualidade. Porque a elasticidade é a condição que permite a um direito ser plástico. uma idéia de que a princípio se julgou inteligível e que é hoje base da nova mecânica. Embora o expediente seja um pouco ingênuo. a unidade do Império britânica não está feita sobre uma constituição lógica. No direito internacional. quieta e fixa por forças. Longe disso. o princípio "da margem e da elasticidade". o fracasso da Sociedade das Nações. capaz de acompanhar a história em sua metamorfose. a saber: interpretar tudo que é inerte e material como puro dinamismo. Considerada no que ao direito importa.htm (104 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Importaria muito reduzir a conceitos claros essa situação efetiva de direito que consiste em puras "margens" e simples "elasticidades". não é mais nem menos difícil definir o triângulo que a névoa. Porque queremos conservar a toda coisa uma margem e uma elasticidade. todo pacifismo é pena de amor perdida. Provavelmente. expressam mui adequadamente a formidável realidade que é a British Commonwealth of Nations e a designam precisamente sob seu aspecto jurídico. tanto civil como político. Não estranhe. a história é. extrair a teoria que nele jaz muda . regulem satisfatoriamente essas mudanças do poderio. as tomamos como realidades positivas. Dir-me-ão que isto é impossível. Mas. a constituição do Império britânico parece-se muito ao "molusco de referência" de que falou Einstein. antes de tudo. discussing or defining. a meu juízo. Em princípio. Se em vez de entender estes dois caracteres como meras ilusões e como insuficiências de um direito. parecerá evidente que a injúria máxima seja o statu quo. Não está sequer baseada numa Constituição." Seria um erro não ver nestas duas fórmulas senão emanações do oportunismo político. é possível que se abram diante de nós as mais férteis perspectivas. a mudança na divisão do poder sobre a terra. está proibido: definir as coisas. nem sequer nova. O homem necessita um direito dinâmico. Há mais de setenta anos. O que não fazem é defini-la. evolui neste sentido. um direito plástico e em movimento. e se o político é inglês sente que definir algo é quase cometer uma traição. A capacidade para descobrir a nova técnica de justiça que aqui se postula está pré-formada em toda a tradição jurídica da Inglaterra mais intensamente que na de nenhum outro país. O outro. que o pacifista quer submeter àquela. enunciado por sir Austin Chamberlain em seu histórico discurso de 12 de setembro de 1925: "Vejam-se as relações entre as diferentes seções do Império britânico. e se se lhe atribui uma margem. movimentos e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o mais fértil seria analisar a fundo e tentar definir com precisão -. porque um político não veio ao mundo para isso. convém recordá-lo. e especialmente ao inglês. substituir o que não parece ser senão "coisa" jacente. porque precisamente esse estranho fenômeno jurídico foi forjado mediante estes dois princípios: um. isto é. A maneira inglesa de ver o direito não é senão um caso particular do estilo geral que caracteriza o pensamento britânico. Porque se a realidade histórica é isso ante tudo.

Desgraçadamente. Isto significa a invenção e exercício de toda uma série de novas técnicas.htm (105 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . o próprio nome de direito internacional estorva uma clara visão do que seria em sua plena realidade um direito das nações. Está bem que o homem pacífico se ocupe diretamente em evitar esta ou aquela guerra. parecerá. a imaginar um direito que acontece entre elas.A rebelião das massas. mas em construir a outra forma de convivência humana que é a paz. tal como o uso e o costume. manifeste meu desideratum de ler um livro cujo tema seja este: o newtonismo inglês. mas mais enérgico. isto é. Permita-se-me apenas que. Talvez o Estado proporciona ao direito certas perfeições. Sem que eu pretenda resolver agora com atitude dogmática. que seria. e mediante um pacto criariam uma sociedade nova. Essa área onde a sociedade ajustada surge é outra sociedade preexistente. fora da física. A primeira delas é uma nova técnica jurídica que comece por descobrir princípios de eqüidade referentes às mudanças da divisão do poder sobre a terra. Turva a evidência disto a confusão habitual que padecemos ao crer que toda autêntica sociedade tem forçosamente de possuir um Estado autêntico. em todas as demais ordens da vida. a Sociedade das Nações. Daí o calembour. de passagem e avoadamente. em todas as ordens da vida. atrevo-me a insinuar que caminha seguro quem exija. mas num estádio muito avançado de sua evolução. Porque o direito nos pareceria ser um fenômeno que acontece dentro das sociedades. mas o pacifismo não consiste nisso. mas é necessário enunciar ante leitores ingleses que o direito existe sem o Estado e sua atividade estatutária. A tal ponto é assim. formam parte dele os bíceps dos gendarmes ou seus sucedâneos. e o chamado "internacional" nos convida. Quando falamos das nações tendemos a representá-las como sociedades separadas e fechadas em si file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas não creio que seja necessário deter-me neste ponto. dos quais o direito é irmão menor. Suponho que cem vezes se terá feito constar e terá sido demonstrado com suficiente pormenor. Uma sociedade constituída mediante um pacto só é sociedade no sentido que este vocábulo tem para o direito civil. Mas uma associação não pode existir como realidade jurídica se não surge sobre uma área onde previamente tem vigência certo direito civil. que não existe sintoma mais seguro para descobrir a existência de uma autêntica sociedade que a existência de um fato jurídico. Outra coisa são puras fantasmagorias. portanto. que lhe indique a sociedade portadora desse direito e prévia a ele. as questões mais intrincadas da filosofia do direito e da sociologia. Se resumo agora meu raciocínio. que não é obra de nenhum pacto. Não esqueçamos que o direito se compõe de muitas coisas mais que uma idéia: por exemplo. num vazio social. Mas isso tudo tem o ar de um calembour (92). Mas a idéia de um novo direito não é ainda um direito. creio eu. quando alguém lhe fale de um fato jurídico. uma associação. À técnica do puro pensamento jurídico devem acompanhar muitas outras técnicas ainda mais complicadas. pelo contrário. funções. No vazio social não há nem nasce direito. Mas é bem claro que o aparelho estatal não se produz dentro de uma sociedade. constituído por uma linha simples e clara. Nesse vazio social as nações se reuniriam. newtoniana. Esta autêntica sociedade e não associação só se parece à outra no nome. por mágica virtude dos vocábulos. como empedernido leitor. Este requer como substrato uma unidade de convivência humana. mas é o resultado de uma convivência inveterada. quer dizer. A Inglaterra tem sido.

Mas não pode haver convivência duradoura e estável sem que se produza automaticamente o fenômeno social por excelência.que só mantêm alguns contatos externos. usos que a imperam ou "direito -. mas não se ignore seu efetivo caráter de sociedade.A rebelião das massas. não é preciso dizer o dano que engendra uma errônea imagem visual convertida em hábito de nossa mente. O que costumamos chamar assim não é mais do que um estado de guerra mínima ou latente. como o bilhar. Corrijamo-la. Diga-se. Em vez de nos afigurarmos as nações européias como uma série de sociedades livres. A Europa tem sido sempre um âmbito social unitário. Os ingleses podem ver isto com alguma clareza no livro do Dawson: The Making of Europe. a qual atua como uma última instância a que se pode recorrer em casos de conflito. mas de dar expressão gráfica ao que realmente foi desde a sua iniciação. Por esta razão censuro essa figura da Europa em que esta aparece constituída por uma multidão de esferas .convicções comuns e tábuas de valores . e que estas nasceram e se desenvolveram no regaço maternal daquela. Introduction to the History of European Society. pois. por exemplo. porque jamais faltou esse fundo ou tesouro de "vigências coletivas" . Como os fenômenos corporais são o idioma e o hieróglifo. Esta figura corresponde muito mais aproximadamente que a outra ao que. imaginemos uma sociedade única . velha de muitos séculos e que tem uma história própria como possa tê-la cada nação particular. sentimental ou físico que se impõe aos indivíduos. mesmas. podem os pacíficos despedir-se rapidamente de suas esperanças (93). Não seria nada exagerado dizer que a sociedade européia existe antes que as nações européias. o que chamaremos sua "vigência". Se a Europa é só uma pluralidade de nações. viver em sociedade ou formar parte de uma sociedade. usos que dirigem a conduta ou "moral". por sua conta e risco. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Não se trata com isso de desenhar um ideal. foi a convivência ocidental. Esta sociedade geral possui um grau ou índice de socialização menos elevado que o alcançado desde o século XVI pelas sociedades particulares chamadas nações européias. e. que a Europa é uma sociedade. porque. O indivíduo poderá. mas precisamente este esforço de resistência demonstra melhor que nada a realidade coactiva do uso. O caráter geral do uso consiste em ser uma norma do comportamento . a convivência entre os homens da Inglaterra e os homens da Alemanha ou da França. A convivência. pois. Pois bem: uma sociedade é um conjunto de indivíduos que mutuamente se sabem submetidos à vigência de certas opiniões e avaliações. mercê ao qual pensamos as realidades morais. sem fronteiras absolutas nem descontinuidades. Sem dúvida. a convivência ou trato dos ingleses entre si é muito mais intensa que. tão somente. porque as únicas possibilidades de paz que existem dependem de que exista ou não efetivamente uma sociedade européia. portanto. após a morte do período romano. não há sociedade sem a vigência efetiva de certa concepção do mundo. Segundo isto. essa convivência (94). não nos promete mais eventualidade que a "carambola".a Europa -. Convivência implica só relações entre indivíduos.dotadas dessa força coactiva tão estranha em que consiste "o social". usos de técnica vital ou "costumes". Esta metáfora de jogador de bilhar deveria desesperar ao bom pacifista.usos intelectuais ou "opinião pública".as nações . que a Europa é uma sociedade mais tênue que a Inglaterra ou que a França. queiram ou não queiram.intelectual. não significa sociedade. Mas é evidente que existe uma convivência geral dos europeus entre si. Mas isto é uma abstração que deixa de fora o mais importante da realidade. com efeito. Entre sociedades independentes não pode existir verdadeira paz.htm (106 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que são os usos . resistir ao uso. dentro da qual se produziram grumos ou núcleos de condensação mais intensa. A coisa importa superlativamente.

instituto anti-histórico que um maldizente poderia supor inventado em um clube cujos membros principais fossem M. independente de que seja acertado ou errôneo.a sociedade européia -. Que profano. é possível diagnosticar com certa precisão o lugar ou estrato do corpo histórico onde a enfermidade radica. vivem e são". E o é. porque as formas tradicionais da ótica histórica tapavam esta realidade unitária que chamei. A foro de sociedade. os fenômenos físicos . A história que eu postulo nos contaria as vicissitudes desse espaço humano e nos faria ver como seu índice de socialização variou.o credo intelectual e moral da Europa -. Quer dizer. Mais: talvez é o único no Universo que tem por si mesmo estrutura. mas que possui uma estrita anatomia e uma clara estrutura. em vez de revelar. Há um século. mas não está em mim evitá-lo. São fatos soltos aos quais o físico tem que inventar uma estrutura imaginária. aparece no título de Ranke: História dos povos germânicos e românicos. Quando a estudamos bem.A rebelião das massas. em ocasiões. que é por si um dos males do nosso tempo. atuava nas camadas profundas do Ocidente. Pickwick. entendida como acabo de apontar. Pois bem: nada hoje deveria importar tanto ao pacifista como averiguar que é o que acontece nessas camadas profundas do corpo ocidental. conceitos mais ou menos melodramáticos e míticos que ocultam. respeitáveis.carece dela. Poderia acontecer que hoje em dia faltassem essas instâncias em uma proporção sem exemplo. por baixo de todas as suas superficiais desordens. vê ali definida uma terrível enfermidade? Esforcei-me sempre em combater o esoterismo. Entretanto. por exemplo. Também os diagnósticos mais rigorosos da medicina atual são abstrusos. sobretudo. embora achacados do vício oposto. que não se pode esperar remédio algum da Sociedade das Nações. Mas não forjemos ilusões. Mas essa anatomia da realidade histórica necessita ser estudada. estava constituída por uma ordem básica devido à eficiência de certas instâncias últimas . que é um excessivo exoterismo. O anterior diagnóstico. as ciências derivam irresistivelmente em direção esotérica. e pôs nele.htm (107 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A realidade histórica ou. em parte. Havia no mundo uma amplíssima e potente sociedade . sem "idealizações". parecerá abstruso. não é um amontoado de fatos soltos. Homais e congêneres. ao longo de toda a história européia. como. Eu o lamento. M. como a dose de paz em cada época esteve na razão direta desse índice. a despeito das aparências. Está escrito por uma mente alerta e ágil. ao ler um fino exame de sangue. mais vulgarmente dito. e. Mas este assunto nunca foi visto. conforme foi e continua sendo. qual é seu índice atual de socialização. mas que não se liberou de modo completo do arsenal de conceitos tradicionais na historiografia. Tudo o mais por exemplo. como. Porque o direito é operação espontânea da sociedade. Os editoriais dos jornais e os discursos de ministros e demagogos não nos dão notícia dela. Por file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas a sociedade é convivência sob instâncias. toda a ordem de que esse resto era capaz. o livro de Dawson é insuficiente. e se. o que sucede no mundo humano. as realidades históricas. por que se volatilizou o sistema tradicional de "vigências coletivas". desceu gravemente fazendo temer a cisão radical da Europa e. quer só dizer que fora necessário chamar médicos ótimos e não qualquer transeunte. Esta ordem que. em maior ou menor escala. Isso não quer dizer que seja incurável. sobretudo. Neste caso a enfermidade seria a mais grave que sofreu o Ocidente desde Diocleciano ou os Severos. Poucas coisas contribuiriam a apaziguar o horizonte como uma história da sociedade européia. com efeito.as nações -. conserva alguma destas latente vivacidade. A verdade é que esses povos em plural flutuam como ludiões dentro do único espaço social que é a Europa: "nele se movem. É uma das muitas coisas cuja grave importância os políticos não souberam ver. sensu stricto. Este último aspecto é o que mais nos importa para as aflições atuais. "sociedade européia" e a suplantavam por um plural . organização. uma história realista. por causas profundas. irradiaram durante gerações sobre o resto do planeta.

Vice-versa. de que se encontra em um mundo onde falta ou está muito debilitado o requisito principal para a organização da paz. Ficam. há anos. pois. Ao adverti-lo. enquanto não há senão aceitar a situação e reconhecer que o conhecimento distanciou-se radicalmente das conversações de beer-table. Ora bem: isto acontece ainda hoje. Mas. separados e frente a frente. impessoal. que anulava a porosidade das nações e as tornava herméticas. E a origem que atribui a esta situação parece-me confirmado pelo fato de que não somente existe uma guerra virtual entre os povos. mas é inquestionável e constitui o fato fundamental da sociedade. seja um ou outro o sentido desse comportamento. Uma parte da Europa esforça-se em fazer triunfar uns princípios que considera "novos". temo que seja funesto para o pacifismo. referir-se a ele. declarada ou preparando-se. teria de ver se não foi um dos fatores que contribuíram ao desprestígio das vigências européias o peculiar uso que delas tem feito a Inglaterra. A atmosfera de sociabilidade em que flutuavam e que. inversamente. A questão deverá algum dia ser estudada a fundo.A rebelião das massas. não recebe seu vigor do esforço senão impô-la ou sustentá-la empregam grupos determinados dentro da sociedade. Quando uma opinião ou norma chegou a ser de verdade "vigência coletiva". É frívolo interpretar os regimes autoritários do dia como engendrados pelo capricho ou pela intriga. mas não agora nem por mim (96). No trato de uns povos com outros não cabe recorrer a instâncias superiores. anônimo. convertendo-se em matéria córnea. esta é a melhor prova de que nem uns nem os outros são vigentes e perderam ou não alcançaram a virtude de instâncias. quando é com plenitude vigente. quando uma idéia perdeu esse caráter de instância coletiva. Mas. o que é o mesmo. No momento em que é preciso lutar em prol de um princípio. Enquanto. interposta. produz uma impressão entre cômica e inquietante ver que alguém considera suficiente aludir a ela para se sentir justificado ou fortalecido. todos vimos como iam rapidamente endurecendo-se. como um éter benéfico entre eles. em um estado de guerra substancialmente mais radical que em todo o seu passado. Esta debilitação subitânea da comunidade entre os povos do Ocidente eqüivale a um enorme file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. porque no homem anglo-saxão a função de se expressar. há trinta anos. O fenômeno é surpreendente. uma grave discórdia. mas dentro de cada povo há. Pelo contrário: todo grupo determinado procura sua máxima fortaleza reclamando para si essas vigências. como se faz com a lei de gravidade. Bem claro está que são manifestações iniludíveis do estado de guerra civil em que quase todos os países se encontram hoje. Isso é que o pacifista precisa compreender. as fronteiras eram para o viajor pouco mais que coluros imaginários. com excessiva freqüência. Ora bem. na Inglaterra e na América do Norte (95). quietas e jacentes no fundo das almas. ou. ficamos perplexos. talvez represente um papel diferente que nos demais povos europeus. amparar-se nele. aniquilou-se.htm (108 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A pura verdade é que. independente de todo grupo ou indivíduo determinado. A Europa está hoje dissocializada. a Europa se encontra em estado de guerra. há somente que usá-lo. e às vezes crendo inclusive que combatem contra elas. Esta conduta significa erro. a outra esforça-se em defender os tradicionais. Agora se vê como a coesão interna de cada nação se nutria em boa parte das vigências coletivas européias. às vezes sem que estas se apercebam de que estão dominadas por elas. porque não as há. quer dizer que este não é ainda ou deixou de ser vigente. As vigências operam seu mágico influxo sem polêmica nem agitação. faltam princípios de convivência que sejam vigentes e a que caiba recorrer. As vigências são o autêntico poder social. Mais ainda. ou uma ficção deliberada? É inocência ou é tática? Não sabemos a que nos ater. lhes permita comunicar suavemente. de "dizer".

Dito de outro modo: para os efeitos da vida pública universal. que a efetiva transformação técnica do mundo é um fato recentíssimo. Como vimos de uma das épocas históricas em que a aproximação era aparentemente mais fácil.aproximaram os povos e unificaram a vida no planeta. aproximar-se a outro ser humano. e que essa mudança está produzindo agora . mudança à qual não teve tempo de se adaptar o organismo econômico. Os princípios comuns constituíam uma espécie de linguagem que lhes permitia entender-se. Mas nem se havia ainda aperfeiçoado sua invenção nem se haviam posto amplamente em serviço. Não poucos dos profundos desajustes na economia atual advêm da súbita mudança que causaram na produção estes inventos. de sopetão. com certas reservas. O século XIX. Mas com isto frisamos a linha de nossas considerações iniciais. o tamanho do mundo subitamente se contraiu. está visto claramente hoje que se tratava só de uma entusiasta antecipação. com efeito. telégrafo. reduziu-se. Por isso corre ao longo de toda a história a evolução da técnica da aproximação. tão necessário que cada povo conhecesse bem a singulatim a cada um dos demais. essa opinião era um exagero. Quase sempre as coisas humanas começam por ser lendas.A rebelião das massas. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. o perigoso de semelhante conjuntura? Sabido é que o ser humano não pode. distanciamento moral. O trato entre eles é dificílimo. transferência de produtos e transmissão de notícias . portanto. com efeito. etc. Porque esse distanciamento moral se complica perigosamente com outro fenômeno oposto.agora e não de há um século .vapores. Há quase meio século fala-se de que os novos meios de comunicação . sem mais nem menos. De tal sorte que. o "progresso material". que provocou nele a ilusão de que. nestes últimos anos recebe cada povo. Não era. Alguns dos meios que haviam de tornar efetiva essa aproximação existiam já em princípio . tal quantidade de notícias e tão recentes sobre o que se passa nos outros. da distância normal a que estão uns homens dos outros. Convencido o homem médio de que a centúria anterior era a que havia dado cume aos grandes empreendimentos. Talvez. pudesse dizer-se que as formas da saudação são função da densidade de povoação. cujas características convém precisar um pouco. e o ritmo de seu efetivo emprego nessa brevíssima etapa. Refiro-me a um gigantesco fato. E isto acontece precisamente na hora em que os povos europeus mais se distanciaram moralmente. Que uma só fábrica seja capaz de produzir todas as lâmpadas elétricas ou todos os sapatos de que necessita meio continente é um fato demasiado afortunado para não ser. e só mais tarde se convertem em realidades. E isso em todas as ordens. como são o motor a explosão e a rádio-comunicação. realizado já o que aquela fraseologia proclamava. pois. a tempo e hora. O número e importância dos descobrimentos. Mas como sempre acontece. embora os aceitassem como verídicos. telefone -. as almas começaram a se cansar desses lugares comuns. Isto ocasionou um curioso erro de ótica histórica que impede a compreensão de muitos conflitos atuais. ainda que haviam chegado a persuadir-se de que o século XIX havia. entretanto. afinal.htm (109 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . monstruoso. supera em muito todo o pretérito humano tomado em conjunto. nem sequer se haviam inventado os mais decisivos. Não adverte o leitor. que é o que inspirou de modo concreto todo este artigo. isto é. ferrocarris. está em os outros povos ou em sua absoluta imediação. emocionado ante as primeiras grandes conquistas da técnica científica. tendemos a esquecer que sempre foram mister grandes precauções para aproximar-se dessa fera com veleidades de arcanjo que costuma ser o homem. Os povos se encontram de improviso dinamicamente mais próximos. não se apercebeu de que a época sem par dos inventos técnicos e de sua realização foram os últimos quarenta anos. apressou-se a emitir torrentes de retórica sobre os "avanços".deslocamento de pessoas. Quer dizer. Neste caso. Isso mesmo aconteceu com as comunicações. Sem tardança e de verdade. cuja parte mais notória e visível é a saudação.suas conseqüências radicais (97).

e em vez de "tu" dirá algo assim como "a maravilha presente". os fatos insofisticáveis. a meu juízo. no essencial. tóxica. e em lugar de "eu" fará um salamaleque e dirá "a miséria que há aqui". um órgão relativamente "racionalizado" dentro de cada sociedade. sobrevinda nos últimos quinze ou vinte anos. indefeso. temos de reconhecer a toda autêntica "opinião pública" consiste.htm (110 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . que ao extremo oriental lhe produz o europeu a impressão de ser um grosseiro e insolente. As realidades que ajuíza são o que efetivamente passou o mesmo sujeito que as ajuíza. Se uma simples mudança da distância entre dois homens comporta semelhantes riscos. em compacto formigueiro. Na China e no Japão. que são diferentes das do povo B. Esta "razão" ou "verdade" viventes. imaginem-se os perigos que engendra sua súbita aproximação entre os povos. A causa disso é óbvia. irreflexivo e irresponsável. muito mais grave que aquela. O povo inglês. Suas atuações são deliberadas e dosificadas pela vontade dos indivíduos determinados os homens políticos -. mas. O povo A pensa e opina. Isso não obstante. ao menos com suficiente ênfase. que só poderia contrariar mediante uma coisa muito difícil. em suma. nariz contra nariz. quando opina sobre a vida de seu próprio país tem sempre "razão" no sentido de que nunca é incongruente com as realidades que ajuíza. Padecerá erros secundários e de detalhe. precipitam nesta uma "verdade" vital. que é a realidade histórica mesma e tem um valor e uma força superiores a todas as doutrinas. a saudação e o trato complicaram-se na mais sutil e complexa técnica de cortesia. da intervenção que exerce hoje de fato a opinião de umas nações na vida de outras. A saudação do tuaregue começa a cem jardas e dura três quartos de hora. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. a rigor. lá do fundo de suas próprias experiências vitais. que viveu e. Porque o Estado é. onde os homens vivem. sua inércia ao influxo de todas as intrigas. Mas a opinião de todo um povo ou de grandes grupos sociais é um poder elementar. tão refinada. Dito com outras palavras obtemos esta proposição: é maximamente improvável que em assuntos graves de seu país a "opinião pública" careça da informação mínima necessária para que seu juízo não corresponda organicamente à realidade julgada. Tem se falado muito estes meses da intervenção ou não-intervenção de uns Estados na vida de outros países. como atributo. que ademais oferece. que. Pode levar isto a outra coisa que não o jogo dos despropósitos? Eis aqui. Como vai. como se vê. Mas não se falou. equivocar-se? A interpretação doutrinal desses fatos poderá dar oportunidade às maiores divergências teóricas. haveria que substitui-la por uma verdade de conhecimento. afinal das contas. aos quais não pode faltar um mínimo de reflexão e sentido de responsabilidade. por assim dizer. Estritamente o contrário acontece quando se trata da opinião de um país sobre o que acontece em outro. É maximamente provável que essa opinião surta em alto grau incongruente. só o combate é possível. por baixo dessas discrepâncias "teóricas". opina sobre fatos que lhe aconteceram. No Saara cada tuaregue possui um raio espacial que alcança bastantes milhas. com quem. Como aqui falta a "verdade" do vivido. ao opinar sobre as grandes questões que afetam sua nação. em sua congruência. a saber: uma informação suficiente. e estas suscitar opiniões partidistas sustentadas por grupos particulares. Eu creio que não se reparou devidamente neste novo fator e que urge prestar-lhe atenção. pois. E esta é hoje. que experimentou em sua própria carne e em sua própria alma. mas tomada com atitude microscópica não é verossímil que seja uma reação incongruente com a realidade inorgânica a respeito dela e. às vezes mui remotas. são ele mesmo. empilhados. Por isso o japonês chegou a exclui-los de seu idioma. povos pululantes. a primeira causa de uma inevitável incongruência. a opinião pública sensu stricto de um país. Nessa proximidade superlativa tudo é feridor e perigoso: até os pronomes pessoais se convertem em impertinências. por conseguinte. gozados ou sofridos pela nação.A rebelião das massas.

Dito fracasso declara estrondosamente que o povo inglês . mas esse direito é uma injuria e não se aceita uma obrigação correspondente: a de estar bem informado sobre a realidade da guerra civil espanhola. irremediavelmente. ao atravessá-la. e que a surpreenderam. Pois é o caso que se o homem inglês rememora num lance d'olhos encontrará que aconteceram no mundo coisas de grave importância para a Inglaterra. por motivos particulares. nestes últimos anos.sabia pouco do que realmente estava acontecendo nos demais povos. Mas como essas notícias chegam hoje com superlativa rapidez. O exemplo mais claro disto. de vinte anos de política internacional inglesa. sem fina perspectiva. daninhos. Tudo isto é verdade. e a opinião. que. mas. de bom sentido. há muitos outros cuja imparcialidade é inquestionável e cuja exatidão em transmitir dados exatos não é fácil de superar. e não seu Governo . sobrecarrega-se de intenções ativas e adota imediatamente um caráter de intervenção. Nada mais longe de minha pretensão que toda intenção de podar o arbítrio a ingleses e americanos. as causas que a produziram.apesar de seus inúmeros correspondentes . Não é questão de "direito" ou da desprezível fraseologia que sói amparar-se nesse título: é uma questão. As notícias que o povo A recebe do povo B suscitam nele um estado de opinião . Terá o inglês ou o americano todo o direito que entenda para opinar sobre o que passou e deve acontecer na Espanha. A distância dinâmica entre povo e povo é tão grande. o povo B recebe também com abundância. Sempre há. Mas aqui é onde os meios atuais de comunicação produzem seus efeitos. além disso.A rebelião das massas. Vice-versa. de fato . por suas formidáveis dimensões. de grandes grupos sociais norte-americanos está intervindo. Enquanto o Governo americano não atuasse. Há um século não importava que o povo dos Estados Unidos se permitisse ter uma opinião sobre o que acontecia na Grécia. discutindo seu "direito" a opinar quanto estimem sobre quanto lhes apraza. porque essa opinião não está ainda regida por uma técnica adequada à troca de distância entre os povos. intrigantes que. a complicação do processo que tem lugar. Como na história nada de algum relevo acontece de repente. O mesmo digo da opinião inglesa. Como será fácil persuadir ao homem inglês de que não está informado sobre o fenômeno histórico que é a guerra civil espanhola ou outra emergência análoga? Sabe que os jornais ingleses gastam somas fortíssimas em sustentar correspondentes dentro de todos os países. e que essa opinião estivesse mal informada. entre os quais escapole o mais autenticamente real da realidade. Representemo-nos esquematicamente. a opinião incongruente perdia toxidez (98). os povos entraram numa extrema proximidade dinâmica.htm (111 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Sabe que. e porque o é. não seria excessiva suspicácia no homem inglês admitir a hipótese de que está muito menos informado do que supõe crer. por exemplo. menos compacto e elástico. Mas. se ocupam deliberadamente em fustigá-la. simplesmente. é o fato gigantesco que serviu a este artigo de ponto de partida: o fracasso do pacifismo inglês.seja de amplos grupos ou de todo o país -.na guerra civil espanhola. O mundo era então "maior". como há um século. desde logo. Porque a quantidade de notícias que constantemente recebe um povo sobre o que sucede em outro é enorme. Sustenta que a ingerência da opinião pública de uns países na vida dos outros é hoje um fator impertinente. venenoso e gerador de paixões bélicas. cujo primeiro e mais substancial capítulo é sua origem. ou que essa informação tão copiosa se compõe de dados externos. é perigoso (99). abundância e freqüência. a fim de entendê-la bem. essa opinião não se mantém num plano mais ou menos "contemplativo".diretamente como tal opinião. rapidez e file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. essa opinião era inoperante sobre os destinos da Grécia. ainda que entre esses correspondentes não poucos exercem seu ofício de maneira apaixonada e partidista.

A diferença numérica na votação é daquelas diferenças quantitativas que. a união com os comunistas. Mas esse mesmo partido e a massa de opinião que pastoreia ocupam-se em favorecer e fomentar. a "Frente Popular" que se formou em outros países. e me reduzo a confrontar dois comportamentos de um mesmo grupo de opinião. Talvez isto o mova a corrigir seu insuficiente conhecimento das demais nações. como dizia Dante: che saetta previsa vien più lenta. que oscila entre o grotesco e o trágico. por 2. a união com o comunismo. Felizmente. Mas eis aqui outro exemplo mais geral. O espírito que o leva a esta insolente intervenção é o mesmo que há muito tempo vem causando o desprestígio universal do homem intelectual. a despeito de suas copiosas "informações". isentos de toda pressão. comodamente sentados em seus escritórios ou em seus clubes.100. falto de pouvoir spirituel.A rebelião das massas. Mas esta reação de aborrecimento multiplica-se até à exasperação porque o povo B adverte ao mesmo tempo a incongruência entre a opinião A e o que em B. que está ali. invadiu seu país. Essas cifras mostram que. não é "natural". atuando. há séculos e sempre.talvez a civilização não seja outra que essa montagem . Há pouco. com intolerável impertinência.000. do modo mais concreto e eficaz. para o bloco do Partido Laborista. efetivamente. quer dizer. a "Frente Popular". não contribuiu a debilitar minha surpresa. O natural seria que eu estivesse agora em guerra apaixonada contra esses escritores ingleses. além disso. sua audácia provoca em nós frenesi. Evitemos os espaventos e as frases. segundo Hegel. etc. aconteceu. sob as mais graves ameaças. a falar nas rádios. Mas é o caso que. mas que a considerariam como uma doença terrível para a nação inglesa. alguns dos principais escritores ingleses assinavam outro manifesto onde se garantia que esses comunistas e seus afins eram os defensores da liberdade. que. por sua vez.e. de seu nervosismo. Enquanto em Madri os comunistas e seus afins obrigavam. escritores e professores a assinar manifestos. o Congresso do Partido Laborista rechaçou.. que denunciei como um fator de primeira grandeza entre as causas da presente desordem.000 votos contra 300. mas se além disso revela ignorar completamente nossa vida. cuidei durante toda minha vida de montar em meu aparelho psico-físico um sistema muito forte de inibições e de freios . Deixo intacta a questão de se uma "Frente Popular" é uma coisa benéfica ou catastrófica. mas permita-se-me convidar o leitor inglês a que imagine qual pode ser meu primeiro movimento ante semelhante fato. e me reduzo a procurar que o leitor inglês admita por um momento a possibilidade de que não está bem informado. se convertem automaticamente em diferenças qualitativas. a formação na Inglaterra de uma "Frente Popular". não é uma questão de mais ou de menos.htm (112 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Ora bem. ao mesmo tempo. Por isso é um exemplo concreto do mecanismo belicoso que criou o mútuo desconhecimento entre os povos. Alberto Einstein usufrui uma ignorância radical sobre o que acontece na Espanha agora. Há uns dias. e a sublinhar sua nociva incongruência. de seus movimentos e tem a impressão de que o estranho. esse file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas esta moderação que por sorte posso ostentar. freqüência notícias dessa opinião remota. faz com que o mundo vá à deriva. Já é irritante que o próximo pretenda intervir em nossa vida. Note-se que falo da guerra civil espanhola como um exemplo entre muitos. Alberto Einstein acreditou ter "direito" a opinar sobre a guerra civil espanhola e tomar possessão ante ela. Porque não é fácil encontrar maior incongruência. o exemplo que mais exatamente me consta. Há muitos anos que me ocupo em fazer notar a frivolidade e a irresponsabilidade freqüentes no intelectual europeu. quase presente. suposto o mais decisivo para que no mundo volte a reinar uma ordem.

umas frente às outras. Outra coisa seria pura tolice. Não pense o leitor em nada vago nem místico. pensava. penas de amor perdidas. Ora bem: o velho e barato "internacionalismo". Há a lei do libelo e há a formidável ditadura das "boas maneiras". Enquanto se produzam fenômenos como este. Daí que acabam por se unir contra a incongruência da opinião estrangeira. versado mais acima. Não há razão para que não sofra análoga regulamentação a opinião de um povo sobre outro. Era um curioso internacionalismo aquele que em suas contas esquecia sempre o detalhe de que há nações (100). como uma pessoa. Não tenho inconveniente em declarar qual é a minha. e isto é uma intervenção. embora me exponha a todos os riscos de uma enunciação esquemática. o oposto.A rebelião das massas. Como antes postulávamos uma nova técnica jurídica. no fundo. à-toa. Esta só pode esperar agradecimento perdurável na medida em que. Porque essa incongruente conduta. Toda realidade desconhecida prepara sua vingança. Nenhuma de suas doutrinas ou atuações é compreensível se não se descobre em sua raiz o desconhecimento do que é uma nação e de que isso que são as nações constitui uma formidável realidade situada no mundo e com a qual há que contar. mas comprazem à outra. Na Inglaterra o indivíduo aprendeu a guardar certas cautelas quando se permite opinar sobre outro indivíduo. essa duplicidade da opinião laborista só irritação pode inspirar fora da Inglaterra. Claro que isto supõe estar de acordo sobre um princípio básico. Talvez o leitor reclame agora uma doutrina positiva. por exemplo. Tome qualquer função coletiva. uma intimidade . E me pareceria vão objetar que essas intervenções irritam uma parte do povo que as sofre. Sobre este: que os povos. todas as esperanças de que a paz reine no mundo são. poderia dizer-se que é uma intervenção guerreira.portanto. que as nações existem. posto que tem não poucos caracteres da guerra química. pois. A parte do país favorecida momentaneamente pela opinião estrangeira procurará. Bem notório é que surte praticamente impossível conhecer intimamente um idioma estrangeiro por muito que o estudemos. e ambos os partidos hostis coincidem nela. que a nova estrutura do mundo converte os movimentos da opinião de um país sobre o que acontece em outro . beneficiar-se dessa intervenção. quando as nações européias pareciam mais próximas a uma superior unificação.em autênticas incursões. Mas por baixo dessa aparente e transitória gratidão corre o processo real do vivido pelo país inteiro. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. A nação acaba por estabilizar-se em "sua verdade". a língua. começaram repentinamente a fechar-se dentro de si mesmas. Eu creio que há aqui um novo problema de primeira ordem para a disciplina internacional. claro está. declarando-o ou não. por sorte. a hermetizar suas existências. mais ainda. Isto bastaria para explicar por que. embora de outro modo e por outras razões. Esta é uma observação demasiado óbvia para que seja verídica. repito. aqui reclamamos uma nova técnica de trato entre os povos. acerte ou seja menos incongruente com essa vivente "verdade". no que efetivamente aconteceu. mesmo grupo de opinião se ocupa em cultivar esse mesmo micróbio em outros países. que corre paralelo ao do direito. E não será uma insensatez crer coisa fácil o conhecimento da realidade política de um país estranho? Sustento. Por isso será funesta toda tentativa de desconhecer que um povo é. um sistema de segredos que não pode ser descoberto.htm (113 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Não outra é a origem das catástrofes na história humana. que engendrou as presentes angústias.movimentos que antes eram quase inócuos . e a converter-se as fronteiras em escafandros isoladores. de fora -.

Não se trata de que a Europa está enferma. e que. 1937. seja provável o desaparecimento da Europa e sua substituição por outra forma de realidade histórica . comum. Uma nova forma de vida não consegue instalar-se no planeta até que a anterior e tradicional não se tenha ensaiado em seu modo extremo. dezembro. um oco. o manancial de uma nova fé. Entretanto. A enfermidade por que atravessa é. Mas seria um erro crer que isto significa seu desaparecimento ou definitiva dispersão. A mesma inspiração que formou as nações do Ocidente continua atuando no subsolo com a lenta e silente proliferação dos corais. sê-lo-á também o restabelecimento. porque isso significa. Se olhamos a realidade com uma ótica de retícula fina. O extravio metódico que representa o internacionalismo impediu ver que só através de uma etapa de nacionalismo exacerbados se pode chegar à unidade concreta e cheia da Europa. a proposição é mais falsa que verídica. Paris. pois. Porque se isso acontece na Europa é porque sofre uma crise de sua fé comum. teríamos de lhe tirar e lhe pôr alguns ingredientes para que a idéia fosse luminosa. portanto. se costuma chamar de "totalitária". No livro The Revolt of the Masses (101). A Europa será a ultra-nação. Mas tem também seus direitos a visão de retícula grossa. um vazio e nada. das vigências em que sua socialização consiste. não será. Desde já. mas de integrá-las. Porque é disso que se trata. Este equilíbrio mecânico e provisório permitirá uma nova etapa de mínimo repouso. um passo à frente na organização jurídica e política de sua unidade. a inter-nação. As nações européias chegam agora a seus pontos cruciais e a cabeçada será a nova integração da Europa. no fundo de bosque que as almas possuem. mas não mana no meio da alteração. a sociedade européia parece volatilizada. em claras noções de história. Nada disto se oferece no horizonte -.htm (114 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Porque é estranho que tempos sobremodo file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Pois acontece que em muitas épocas históricas se falou o que agora se fala. e então não há inconveniente em aceitar essa terrível sentença. A Europa não é. mas que gozem de plena saúde estas ou as outras nações. Esta é o autêntico poder de criação histórica. mas como é comum e européia a enfermidade. que foi bastante lido em língua inglesa. e graças a isso veremos dentro em breve um novo liberalismo temperar os regimes autoritários. virá uma articulação da Europa em duas formas diferentes de vida pública: a forma de um novo liberalismo e a forma que. Isto salvará a Europa. deixando ao Ocidente todo seu rico relevo. como acabo de insinuar. com um nome impróprio. DINÂMICA DO TEMPO AS VITRINAS MANDAM Dizem que o dinheiro é o único poder que atua sobre a vida social. e isto convida a suspeitar ou que nunca foi verdade ou que o tem sido em sentidos mui diversos. imprescindível para que volte a brotar.A rebelião das massas. destilando sobre ele. Não de laminar as nações. O "totalitarismo" salvará o "liberalismo". Os povos menores adotarão figuras de transição e intermediárias. O estado atual de anarquia e superlativa dissociação na sociedade européia é uma prova mais da realidade que esta possui. e sim no recato do ensinamento. da fé européia.por exemplo: as nações soltas ou uma Europa oriental dissociada até à raiz de uma Europa ocidental. Mais uma vez ficará patente que toda forma de vida precisa de sua antagonista. Nesta data. Esta idéia européia é de signo inverso àquele abstruso internacionalismo. propugno e anuncio o advento de uma forma mais avançada de convivência européia. depurando-o.

o poder que. e que sempre nos colhe de surpresa? É. Que conseqüência tiramos desta monótona insistência? Que o dinheiro. Em todas estas lamentações insinua-se algo mais. porque . pode descobrir-se nelas uma nota comum: são sempre épocas de crise moral. que alheia toda a graça do problema. mas usurpado às outras forças ausentes.htm (115 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . para adubar as coisas segundo a pauta de sua tese. o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. ante o poder do dinheiro encerra uma porção de problemas curiosos ainda não aclarados. seu dinheiro é o homem!" No tempo de César dizia-se o mesmo. esta clarividência para o próprio destino é coisa relativamente nova na história. Os marxistas. chrémata aner! "Seu dinheiro. Em geral. ainda sendo isto verdade e calibrando na devida cifra o peso puramente econômico do dinheiro na dinâmica da economia medieval. essa surpresa e essa insinuação perene de que o poder exercido não lhe corresponde. Os princípios sociais que regeram uma idade perderam seu vigor e ainda não amadureceram os que vão imperar na seguinte.A rebelião das massas. Eu creio que esta surpresa. sua surpresa de que o dinheiro tenha mais força da que devia ter. e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules. porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde. entre si. e no XVII. Não se diga que o dinheiro não era a forma principal da riqueza. mas não nos inspira asco. a rigor. As épocas em que mais autenticamente e com mais dolentes gritos se lamentou esse poderio. sempre renovada. Só como uma possibilidade de interpretação vai tudo isto que digo. também o possuíam na Idade Média e eram o excremento da Europa. não há correspondência entre a riqueza daqueles judeus e sua posição social. Porque. e foi necessário depois refazer a história econômica daquela idade para mostrar a importância efetiva que nos Estados medievais tinha o dinheiro hebreu.eram mui pouco inteligentes a respeito de si. Esta perspicácia sobre o próprio modo de ser. não o deve ter porque não é seu. Se hoje os judeus possuem o dinheiro e são os donos do mundo. O importante é evitar a concepção econômica da história. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência. deplorando-o. talvez. no século XIV o põe em circulação nosso turbulento tonsurado de Hita. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. desde que se inventou. é uma grande força social? Isso não era necessário sublinhar: seria uma calinada. Gôngora faz disso letras. pelo menos. um magnífico atributo do ser vivente. Como? Será que o dinheiro não possui. E de onde nos vem essa convicção. Pelo visto. se lhe atribui e que seu influxo só é decisivo quando os demais poderes organizadores da sociedade se retiraram? Se assim fosse entenderíamos um pouco melhor essa estranha mescla de submissão e de asco que ante ele sente a humanidade. No século VII antes de Cristo corria já por todo o Oriente do Mediterrâneo o apotegma famoso: Chrémata.é forçoso declará-lo . Quem as usa expressa com elas. são. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela. tempos muito transitórios entre duas etapas. A questão é sobretudo complicada e não pode ser resolvida em dois tempos. segundo a qual o dinheiro devia ter menos influência da que efetivamente possui? Como não nos habituamos ao fato constante depois de tantos e tantos séculos. menosprezaram excessivamente a importância da moeda na etapa pré-capitalista da evolução econômica. Porque é demasiado evidente que em muitas épocas humanas o poder social do dinheiro foi muito reduzido e outras energias alheias ao econômico informaram a convivência humana. não se deve fazer muito caso do que as épocas passadas disseram de si mesmas. da realidade econômica nos tempos feudais. muito diferentes. fazendo da história inteira uma monótona conseqüência do dinheiro. Entretanto. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. diferentes coincidam em ponto tão principal.

Qual seja o princípio desta é outra questão. Parece o mais verossímil que seja o dinheiro um fator social secundário. para seu poder. que eram os mais ricos como classe. Isto nos permite formar uma escala com as épocas de crematismo e dizer: o poder social do dinheiro . Mas algum terá de existir sempre. Morta uma constituição política e moral. Pois bem: no século XVI. fustigada por esse instinto irreprimível de jerarquia. se cedem os verdadeiros e normais poderes históricos . por muito dinheiro que haja e por muito livre que se encontre sua ação de conflitos com outras potências. Ninguém. Resta só o dinheiro.será tanto maior quantas mais coisas haja para comprar. isto aconteceu várias vezes na história. vice-versa. Nem a religião nem a moral dominam a vida social nem o coração da multidão. por muito dinheiro que tivesse um judeu. Se os normais faltam. Onde há cinco homens em estado normal produz-se automaticamente uma estrutura jerarquizada. religião. como indiquei. mas vai para o sacerdote na teocrática. A fantasia humana. mas. Se há poucas coisas para comprar. por ser elemento material. seu influxo será escasso. tudo que acontece em nossa hora parecer-nos-á único e excepcional na série dos tempos. Há. em sua combinação com os fabulosos progressos da técnica. O novo. É também idade de crise: os prestígios há anos ainda vigentes perderam sua eficiência. um pseudo princípio se encarrega de modelar a jerarquia e definir as classes. que o dinheiro pode desenvolver fantasticamente sua essência: o comprar. se reparte segundo se acha repartido o poder social.raça. Ora bem: isto é impossível. É uma das forças principais que atuam no equilíbrio de todo ofício coletivo. mas havia pouco para comprar. Pelo contrário. mas não é a musa de seu estilo tectônico. Talvez o poder social não depende normalmente do dinheiro. O sintoma de um poder social autêntico é que cria jerarquias. que. e vai para o guerreiro na sociedade belicosa. idéias -. de tantas classes e qualidades. uma razão que dá probabilidade clara à suspeita de ser nosso tempo o mais crematístico de quantos foram. a meu juízo. Mas. pois. inventa sempre algum novo tema de desigualdade. pode duvidar da importância que o dinheiro tem na história. o homem mais invejado era aquele que possuía certa tulipa rara. tinha de inventar um apetite e o objeto que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas talvez possa duvidar-se de que seja um poder primário e substantivo. Diríamos. eu me pergunto se há alguma razão para afirmar que em nosso tempo goza o dinheiro de um poder social maior que em tempo algum do passado. Durante um momento . e no tempo de César os "cavaleiros". Ora bem: não há dúvida que o industrialismo moderno. de outro modo: o dinheiro não manda mais senão quando não há outro princípio que mande.A rebelião das massas. não ascendiam ao cume da sociedade. Contra a ingenuidade igualitária é preciso fazer notar que a jerarquização é o impulso essencial da socialização. toda a energia social vacante é absorvida por ele.ceteris paribus . produziu nestes anos um cúmulo tal de objetos mercáveis. O dinheiro é apenas um meio para comprar coisas. incapaz por si mesmo de inspirar a grande arquitetura da sociedade. que quando se volatilizam os demais prestígios resta sempre o dinheiro. nem o mais idealista. O dinheiro teve. não pode volatilizar-se. Mas.htm (116 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . entretanto. O rico.na Holanda. continuava sendo um infra-homem. fica a sociedade sem motivo que jerarquize os homens. ainda limitando de tal sorte a frase inicial que dá ocasião a esta nota. não quanto maior seja a quantidade do dinheiro mesmo. A cultura intelectual e artística é avaliada menos que há vinte anos. Ou. Se nos envaidecemos. política. Assim se explica essa nota comum a todas as épocas submetidas ao império crematístico que consiste em ser tempos de transição. o exclusivo do presente é esta outra conjuntura. Também esta curiosidade é exposta e difícil de satisfazer. se queria algo mais que o breve repertório de mercadorias existente. que seja ele quem destaca o indivíduo no corpo público. No século XVIII existiam também grandes fortunas. um limite automático em sua própria essência.o século XVII .

como nos mitos mais arcaicos pode se recordar confusamente.o melhor automóvel. .de que se fazia. são. Agora um homem chega a uma cidade e aos quatro dias pode ser o mais famoso e invejado habitante dela sem mais trabalho que passear ante as vitrinas.dilúvios. o melhor isqueiro. e por isso as causas ou princípios de suas variações devem ser buscados no interior do organismo. dependente. 15 de maio de 1927. sem querer. e esta reação de dentro do organismo à mudança física do contorno. A existência tem sido. e cada uma destas classes sexuais (102) em meninos. é uma operação que se faz de dentro para fora. mecanicamente. nunca idêntica. As formas biológicas mesmas foram. El Sol. as primeiras file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pelo menos dentro de um mesmo período histórico zoológico. súbitas mudanças extremas de clima -. é jovem ou é velha. pelo visto. vai para trinta anos.A rebelião das massas. Como se pode pensar que estes módulos elementaríssimos e divergentes da vitalidade não sejam gigantescos poderes plásticos da história? Foi. modele a vida. um dos descobrimentos sociológicos mais importantes o que se fez. aprontará uma resposta mais ou menos diferente. que os verões sejam um pouco mais frescos. a bem dizer. . o decisivo influxo das diferenças biológicas mais elementais. que a vida seja um processo de fora para dentro. e mesmo cada indivíduo. satisfaria.e comprá-los. etc. não tiveram caráter de grande espetáculo. Viver. é a verdadeira variação histórica. perguntas que o ser vivo responde com uma ampla margem de originalidade imprevisível. havia de parecer-me sobremodo verossímil que nos mais profundos e amplos fenômenos históricos apareça. A estrutura mais primitiva da sociedade se reduz a dividir os indivíduos que a integram em homens e mulheres. Se houve catástrofes telúricas . JUVENTUDE I As variações históricas não procedem nunca de causas externas ao organismo humano. a meu juízo. sempre muito cotidiana. O mais provável é que o homem não assistiu nunca a semelhantes catástrofes. em suma. Convém abandonar a idéia de que o meio. As modificações externas atuam só como excitantes de modificações intraorgânicas. tinha de buscar o artífice que o realizasse e dar tempo a sua fabricação. seleção do artífice. A lentidão e suavidade deste processo dá tempo a que o organismo reaja. portanto. os períodos glaciais. em classes de idade. Pensando assim. Em definitivo. A vida é masculina ou feminina. quando se advertiu que a organização social mais primitiva não é senão a marca na massa coletiva dessas grandes categorias vitais: sexos e idades. Caberia imaginar um autômato provido de um bolso em que metesse mecanicamente a mão e chegasse a ser o personagem mais ilustre da urbe. escolher os objetos melhores . Basta que durante algum tempo a temperatura média do ano desça cinco ou seis graus para que a glacialização se produza. As mudanças mais violentas que nossa espécie conheceu. mais ou menos claro. jovens e velhos.htm (117 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . etc. Em todo este intrincamento intercalado entre o dinheiro e objeto complicava-se aquele com outras forças espirituais fantasia criadora de desejos no rico. o melhor chapéu. por assim dizer. Cada espécie. submersão de continentes. o efeito por elas produzido transcendeu os limites do histórico e transtornou a espécie como tal. trabalho técnico deste. e mesmo cada variedade.

Chega uma época em que prefere. O "filho". prefere o velho ao jovem e submete-se à figura do senador. que lhes serve de norma. a masculinidade e a feminilidade. Vêem a ser como estilos diversos do viver. reflete-se na consciência sob a espécie de preferências e desdéns. Para compreender bem uma época é preciso determinar a equação dinâmica que nela dão essas quatro potências. a graça e o vigor juvenis são postos a serviço de algo acima deles. ou bem acha a graça máxima nos modos femininos diante dos masculinos. da alma. Hoje de um lugar. os homens maduros? O varonil ou o feminino? É sobremaneira interessante perseguir nos séculos as deslocações do poder para uma ou a outra dessas potências. produz-se entre eles uma colisão. mas sob condição de servir ao espírito que Sócrates representa. e pospõe. seremos forçados a dizer: tem havido na história outras épocas em que predominaram os jovens. está o homem maduro que o educa e dirige. Eu não sei se este triunfo da juventude será um fenômeno passageiro ou uma atitude profunda que a vida humana tomou e que chegará a qualificar toda uma época. quer dizer. O jovem Alcibíades triunfa sobre a sociedade. O que realmente me parece evidente é que nosso tempo se caracteriza pelo extremo predomínio dos jovens. antes de tudo. (104) o predomínio tem sido tão extremado e exclusivo. entre as bem conhecidas. Masculinidade e feminilidade. íntegra. a existência humana. este império dos jovens vinha se preparando desde 1890. Deste modo. A parelha Sócrates-Alcibíades simboliza muito bem a equação dinâmica de juventude e madureza desde o século V no tempo de Alexandre. foram desalojadas a madureza e a ancianidade: em seu oposto se instalava o homem jovem com seus peculiares atributos. do pai de família. imagem. E como a história é.htm (118 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . às vezes súbitas? Eis aqui uma questão sobre a qual não podemos ainda dizer uma só palavra clara (103). sendo rítmica toda vida.A rebelião das massas. desestima as da vida madura. a vida toda organiza-se em torno do efebo. o interessante será descrever a projeção na consciência desses predomínios rítmicos. Por que acontecem estas variações da preferência. são duas parelhas de potências antagônicas. Os dois nomes que enunciam os partidos da file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. mas junto a ele. o jovem atua sempre diante do senador em forma de oposição. que estima mais as qualidades da vida jovem. O fenômeno é demasiado recente e ainda não se pode ver se esta nova vida in modo juventutis será capaz do que depois direi. Nos séculos clássicos da Grécia. e como potência compensatória. toma a vida de repente um aspecto de triunfante juventude. juventude e senectude. o é também a história. Roma. um forcejar em que cada qual tenta arrastar. mas nunca. que há tempos de jovens e tempos de velhos. sentimento. e que os ritmos fundamentais são precisamente os biológicos. quer dizer. instituições. Cada uma destas potências significa a mobilização da vida toda em um sentido divergente do que possui sua contrária. E como todos coexistem em qualquer instante da história. Então adverte-se o que de antemão devia presumir-se: que. e depois de uma guerra mais triste que heróica. desde o fin de siècle. em seu sentido. entretanto. Na realidade. de incitação e de freio. e perguntar: Quem pode mais? Os jovens ou os velhos. A luta misteriosa que mantém nas secretas oficinas do organismo a juventude e a senectude. É surpreendente que em povos tão velhos como os nossos. que há épocas em que predomina o masculino e outras senhoreadas pelos instintos da feminilidade. pelo contrário. No ser humano a vida se duplica porque ao intervir a consciência a vida primária se reflete nela: é interpretada por ela em forma de idéia. sem o que não é possível a perduração de seu triunfo. história da mente. Mas se fossemos atender só ao aspecto do momento atual. amanhã de outro. como tantas outras coisas. E preciso que passe algum tempo para poder aventurar este prognóstico.

uns são filhos de pai cidadão.A rebelião das massas. Todas as gerações do século XIX aspiraram a ser maduras o mais depressa possível e sentiam uma estranha vergonha de sua própria juventude. O que o jovem afirma então não é a sua juventude. o velho de nascimento. El Sol. e a peruca empoada cobre toda testa primaveril . luta multissecular aludem a esta dualidade de potências: patrícios e proletários. e os jovens ao olhar dentro de si só acham inapetência vital. não é filho de "alguém" reconhecido. 9 de junho de 1927.com uma suposição de sessenta anos. Entretanto. detesta o sentimento e a paixão. dos suicídios. uma subversão contra o passado e é um ensaio de se afirmar a si mesma a juventude. O gesto de combate que parece interpolar-se entre ambos pertence. é mero descendente e não herdeiro. de negro. mas princípios recebidos: nada tão representativo como Robespierre. (Como se vê a tradição exata de patrício seria fidalgo). o ar prematuramente caduco no andar e no sentir. que com uma ou outra intensidade impregna todo o século XIX. Tertium non datur. ao passo que o proletário é filho no sentido da carne. Ao chegar ao século XVIII neste virtual processo temos de nos interrogar. O jovem revolucionário é só o executor das velhas idéias confeccionadas nos dois séculos anteriores. a rigor.htm (119 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . E a época dos blasés. vestido à espanhola. o garoto genial. Para achar outra época de juventude como a nossa. Esta é a causa que decide file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. efetivamente. que abomina de toda qualidade juvenil. Se damos um passo atrás caímos no século vieillot por excelência. prole. cadáver vivente que passa sorrindo de si mesmo no sorriso inumerável de suas rugas. prefere suas atitudes fatigadas e apressa-se a abandonar sua mocidade. é genial porque antecipa a ancianidade dos geômetras. seria preciso descer até o Renascimento. Pascal. Repasse o leitor rapidamente a série de épocas européias.que tendem a prolongar ilimitadamente sua mocidade e se instalam nela como definitivamente. são só adequados à gente dessa idade. a um ou outro estilo. oferece este tempo o exemplo de um falso triunfo juvenil. II Todo gesto vital. Busca-se por toda a parte a raison e interessa mais que nada a teologia: jesuítas contra Jansênio. ingenuamente surpresos: Para onde foram os jovens? Quanto vale nesta idade parece ter quarenta anos: o traje. Compare-se com os jovens atuais . casado segundo lei do Estado e por isso herdeiros de bens. O jovem imita em si o velho. ou é um gesto de domínio ou um gesto de servidão. É o século do entusiasmo pelos decrépitos. A guerra defensiva sói empregar táticas vis. O romanticismo. Quando no romanticismo se reage contra o século XVIII é para voltar a um passado mais antigo. não a confusa juventude. A Revolução fizera tábua rasa da geração precedente e permitiu durante quinze anos que ocupassem todas as eminências sociais homens muito moços. A guerra ofensiva vai inspirada pela segurança na vitória e antecipa o domínio. Ambos significam "filhos". porque no fundo de sua alma o atacado estima mais que a si mesmo o ofensor.homem ou mulher . o corpo elástico e nu. Para extremar tal estilo de vida finge-se na cabeça a neve da idade. Domina a centúria Descartes. que estremece ao passo de Voltaire. e o romanticismo porá de manifesto sua carência de autenticidade. Há nele. os modos. pode parecer em sua iniciação um tempo de jovens. o XVIII. De Ninon estima-se a madureza. O jacobino e o general de Bonaparte são rapazes. o uso.varões e fêmeas .

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um ou outro estilo de atitude. O gesto servil o é porque o ser não gravita sobre si mesmo, não está seguro de seu próprio valor e em todo instante vive comparando-se com outros. Necessita deles em uma ou outra forma; necessita de sua aprovação para se tranqüilizar, quando não de sua benevolência e de seu perdão. Por isso o gesto leva sempre uma referência ao próximo. Servir é encher nossa vida de atos que têm valor só porque outro ser os aprova ou aproveita. Têm sentido olhados da vida deste outro ser, não da nossa vida. E esta é, em princípio, a servidão: viver desde outro, não desde si mesmo. O estilo de domínio, por seu turno, não implica a vitória. Por isso aparece com mais pureza que nunca em certos casos de guerra defensiva que concluíram com a completa derrota do defensor. O caso de Numância é exemplar. Os numantinos possuem uma fé inquebrantável em si mesmos. Sua longa campanha contra Roma começou por ser de ofensiva. Desprezavam o inimigo e, com efeito, o derrotavam uma vez e outra (105). Quando mais tarde, recolhendo e organizando melhor suas forças superiores, Roma aperta Numância, esta, dir-se-á, toma a defensiva, mas propriamente não se defende, efetivamente aniquila-se, suprime-se. O fato material da superioridade de forças no inimigo convida ao povo de alma dominante a preferir sua própria anulação. Porque só sabe viver desde si mesmo, e a nova forma de existência que o destino lhe propõe - servidão - lhe é inconcebível, lhe sabe a negação do viver mesmo; portanto, é a morte. Nas gerações anteriores a juventude vivia preocupada com a madureza. Admirava os maiores, recebia deles as normas - em arte, ciência, política, usos e regime de vida -, esperava sua aprovação e temia seu enfado. Só se entregava a si mesma, ao que é peculiar a tal idade, subrepticiamente e como à margem. Os jovens sentiam sua própria juventude como uma transgressão do que é devido. Objetivamente se manifestava isto no fato de que a vida social não estava organizada em vista deles. Os costumes, os prazeres públicos haviam sido ajustados ao tipo de vida próprio para as pessoas maduras, e eles tinham de se contentar com as zurrapas que estas lhes deixavam ou lançar-se às estroinices. Até no vestir viam-se forçados a imitar os velhos: as modas estavam inspiradas na conveniência da gente maior. As moças sonhavam com o momento em que se vestiriam "à vontade", quer dizer, em que adotariam o traje de suas mães. Em suma, a juventude vivia a serviço da madureza. A mudança operada neste ponto é fantástica. Hoje a juventude parece dona indiscutível da situação, e todos os seus movimentos vão saturados de domínio. Em sua atitude transparece bem claramente que não se preocupa o mínimo com a outra idade. O jovem atual habita hoje sua juventude com tal resolução e denodo, com tal abandono e segurança, que parece existir só nela. O que a madureza pense dela não lhe importa um caracol; mais ainda: a madureza possui a seus olhos um valor próximo ao cômico. Mudaram-se as tornas. Hoje o homem e a mulher maduros vivem quase sobressaltados, com a vaga impressão de que quase não têm direito a existir. Advertem a invasão do mundo pela mocidade como tal e começam a fazer gestos servis. Desde logo, imitam-na no trajar. (Tenho sustentado muitas vezes que as modas não eram um fato frívolo, mas um fenômeno de grande transcendência histórica, obediente a causas profundas. O exemplo presente esclarece com exaustiva evidência essa afirmação). As modas atuais estão pensadas para corpos juvenis, e é tragicômica a situação de pais e mães que se vêem obrigados a imitar seus filhos e filhas na indumentária. Os que já andamos na curva descendente da

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vida vemo-nos na inaudita necessidade de ter de desandar um pouco o caminho percorrido, como se o houvéssemos errado, e fazer-nos - de grado ou não - mais jovens do que somos. Não se trata de fingir uma mocidade que se ausenta de nossa pessoa, mas que o módulo adotado pela vida objetiva é o juvenil e nos força a sua adoção. Como com o vestir, acontece com tudo o resto. Os usos, prazeres, costumes, modos, estão talhados à medida dos efebos. É curioso, formidável, o fenômeno, e convida a essa humildade e devoção ante o poder, ao mesmo tempo criador e irracional, da vida que eu fervorosamente recomendei durante toda a minha. Note-se que em toda a Europa a existência social está hoje organizada para que possam viver a gosto só os jovens das classes médias. Os maiores e as aristocracias ficaram fora da circulação vital, sintoma em que se enlaçam dois fatores distintos - juventude e massa - dominantes na dinâmica deste tempo. O regime de vida média aperfeiçoou-se - por exemplo, os prazeres -, e, em troca, as aristocracias não souberam criar para si novos refinamentos que as distanciem da massa. Só lhe resta a compra de objetos mais caros, mas do mesmo tipo geral que os usados pelo homem médio. As aristocracias, desde 1800 no político, e desde 1900 no social, têm sido levadas de roldão, e é lei da história que as aristocracias não podem ser levadas de roldão senão quando previamente caíram em irremediável degeneração. Mas há um fato que sublinha mais que outro algum este triunfo da juventude e revela até que ponto é profundo o transtorno de valores na Europa. Refiro-me ao entusiasmo pelo corpo. Quando se pensa na juventude, pensa-se antes de tudo no corpo. Por várias razões: em primeiro lugar, a alma tem uma frescura mais prolongada, que às vezes chega a ornar a velhice da pessoa; em segundo lugar, a alma é mais perfeita em certo momento da madureza que na juventude. Sobretudo, o espírito - inteligência e vontade - é, sem dúvida, mais vigoroso na plenitude da vida que em sua etapa ascensional. Por seu turno, o corpo tem sua flor - seu akmé, diziam os gregos - na estrita juventude, e, vice-versa, decai infalivelmente quando esta se transpõe. Por isso, desde um ponto de vista superior às oscilações históricas, por assim dizer, sub specie aeternitatis, é indiscutível que a juventude rende a maior delícia ao ser olhada, a madureza, ao ser ouvida. O admirável do moço é o seu exterior; o admirável do homem feito é sua intimidade. Pois bem: hoje prefere-se o corpo ao espírito. Não creio que haja sintoma mais importante na existência européia atual. Talvez as gerações anteriores rendessem demasiado culto ao espírito e - salvo a Inglaterra - desdenharam excessivamente a carne. Era conveniente que o ser humano fosse admoestado e se lhe recordasse que não é só alma, mas união mágica de espírito e corpo. O corpo é por si puerilidade. O entusiasmo que hoje desperta inundou de infantilismo a vida continental, afrouxou a tensão do intelecto e vontade em que se retorceu o século XIX, arco demasiado retesado para metas demasiado problemáticas. Vamos dar um descanso ao corpo. A Europa - quando tem diante de si os problemas mais pavorosos - entrega-se a umas férias. Brinda elástico o músculo do corpo desnudo atrás de uma bola de futebol que declara francamente seu desdém a toda transcendência voando pelo ar com ar em seu interior. As associações de estudantes alemães solicitaram energicamente que se reduza o plano de estudos universitários. A razão que davam não era hipócrita: urgia diminuir as horas de estudo porque eles precisavam do tempo para seus jogos e diversões, para "viver a vida". Esta atitude dominante que hoje tem a juventude parece-me significativo. Só me ocorre uma reserva
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mental. Entrega tão completa a seu próprio momento é justa enquanto afirma o direito da mocidade como tal, ante a sua antiga servidão. Mas, não é exorbitante? A juventude, estádio da vida, tem direito a si mesma; mas por ser um estádio vai afetada inexoravelmente de um caráter transitório. Fechando-se em si mesma, cortando as pontes e queimando as naves que conduzem aos estádios subseqüentes, parece declarar-se em rebeldia e separatismo do resto da vida. Se é falso que o jovem não deve fazer outra coisa senão preparar-se para ser velho, também é erro parvo iludir por completo esta cautela. Pois é o caso que a vida, objetivamente, necessita da madureza; portanto, que a juventude também a necessita. É preciso organizar a existência: ciência, técnica, riqueza, saber vital, criações de toda ordem, são requeridas para que a juventude possa alojar-se e divertir-se. A juventude de agora, tão gloriosa, corre o risco de arribar a uma madureza inepta. Hoje goza o ócio florescente que lhe criaram gerações sem juventude (106). Meu entusiasmo pelo aspecto juvenil que a vida adotou não se detém senão ante esse temor. Que vão fazer aos quarenta os europeus futebolistas? Porque o mundo é certamente uma bola, mas tendo dentro de si mais do que simples ar. El Sol, 19 de junho de 1927.

MASCULINO OU FEMININO? Não há dúvida que nosso tempo é tempo de jovens. O pêndulo da história, sempre inquieto, ascende agora pelo quadrante "mocidade". O novo estilo de vida começou não há muito, e ocorre que a geração próxima já aos quarenta anos tem sido uma das mais infortunadas que existiram. Porque quando era jovem reinavam ainda na Europa os velhos, e agora que entrou na madureza depara que o império se transferiu para a mocidade. Faltou-lhe, pois, a hora de triunfo e de domínio, a oportunidade de grata coincidência com a ordem reinante na vida. Em suma: que viveu sempre ao revés com o mundo, e, como o esturjão, teve de nadar sem descanso contra a correnteza do tempo. Os mais velhos e os mais jovens desconhecem este duro destino de não haver flutuado nunca; quero dizer, de nunca haver sentido a pessoa como levada por um elemento favorável, e que pelo contrário dia após dia e lustro após lustro teve de viver em suspenso, sustentando-se a pulso sobre o nível da existência. Mas talvez esta mesma impossibilidade de se abandonar um só instante a disciplinou e purificou sobremaneira. É a geração que mais combateu, que ganhou a rigor mais batalhas e menos triunfos tem gozado (107). Mas deixemos por enquanto intacto o tema dessa geração intermediária e retenhamos a atenção sobre o momento atual. Não basta dizer que vivemos em tempo de juventude. Com isso não fizemos mais do que defini-lo dentro do ritmo das idades. Mas ao lado deste atua sobre a substância histórica o ritmo dos sexos. Tempo de juventude! Perfeitamente. Mas, masculino ou feminino? O problema é mais sutil, mais delicado - quase indiscreto. Trata-se de filiar o sexo de uma época. Para acertar nesta, como em todas as empresas da psicologia histórica, é preciso tomar um ponto de vista elevado e libertar-se de idéias estreitas sobre o que é masculino e o que é feminino. Antes de tudo é urgente desasir do trivial erro que entende a masculinidade principalmente em sua relação com a mulher. Para quem pensa assim, é muito masculino o fanfarrão que se ocupa acima de tudo de cortejar as damas e falar das boas fêmeas. Este era o tipo de varão dominante em 1890: traje barroco, sobrecasaca cujas abas
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sensualidade. Seria um erro atribuir este masculinismo. que lhe permite em ampla medida bastar-se a si mesmo. apenas a vê. a mulher se adianta um pouco: Aspásia. Seu trato normal com a mulher fica excluído na zona diurna e luminosa em que acontece o mais valioso da vida. O homem maduro assiste aos jogos dos efebos nus e habitua-se a discernir as mais finas qualidades da beleza varonil. mas tampouco o invento. política. Eu não o aplaudo nem o vitupero. A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil. que o escultor vai comentar no mármore. paternidade. sem que a mulher tenha intervenção substantiva. A veracidade. cabelo em volutas. Século só para homens. nos obriga a contar. até o ponto de que o historiador. com efeito. o adolescente bebe no ar ático a fluência de palavras agudas que brota dos velhos dialéticos. uma espécie de atleta com seios. É uma realidade de primeira grandeza com que a Natureza. no subterrâneo das horas inferiores. Por que? Porque aprendeu o saber dos homens. como apoio e pausa à conversação que languidece. como tal. É uma época de profunda insinceridade: discursos parlamentários e prosa de "artigo de fundo") (108). talvez pareça irritante. É possível que o seja. barbearia. Este privilégio do masculino. forçado a uma ótica de lonjura. acampamento.. Sim. portanto. (O bom fisionomista das modas descobre logo a idéia que inspirava esta: a ocultação do corpo viril sob uma profusa vegetação de tela e pelame. capeavam o vento. por si só. Egrégia ocasião de masculinidade foi o século de Péricles. nariz e olhos. inexorável em suas vontades. a uma nativa cegueira do file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. me força a dizer que todas as épocas masculinas da história se caracterizam pela falta de interesse pela mulher. tem este o privilégio de que a maior e a melhor porção de si mesmo é independente por completo de que a mulher exista ou não. e se recolhe na treva. sua interpretação da beleza feminina não conseguiu desprender-se da preferência que sentia pela beleza do varão. Porque assim como a mulher não pode em nenhum caso ser definida sem referi-la ao varão. quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura. Esta fica relegada ao fundo da vida.amarga desilusão. plastrão. No frontispício histórico aparecem só homens. guerra.A rebelião das massas. porque se masculinizou.htm (123 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Vive-se em público: ágora. no banquete varonil. familiaridade -. que culmina no século de Péricles. Ficavam só à vista mãos. A forma feminina lhe parece como uma mutilação da masculina. extrema feminilidade. ginásio. são coisas em que o homem se ocupa com o centro vital de sua pessoa. e.. (É curioso advertir que a sensualidade noviça da criança a faz normalmente sonhar com o hermafrodita. A mulher?. Ciência. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX.. Alguma vez. Só quando a mulher é o que mais se estima e encanta tem sentido apreciar o varão pelo serviço e culto que a esta renda. e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita. Embora o grego tenha sabido esculpir famosos corpos de mulher. como algo incompleto e vulnerado) (109). é preterido e desestimado. que nessa época predominavam os valores de feminilidade. O fato de que ao pensar no homem se destaque primeiramente seu afã pela mulher revela. à última hora. esporte. sentados nos pórticos com o cajado na axila. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista.por um instante . Por sua parte. entregues aos puros instintos . muito ao fundo da cena. etc. Não há sintoma mais evidente de que o masculino. quando mais tarde separa a forma masculina sofre . os homens vivem na época só com homens. O resto era falsificação. literatura textil. pois. barba de mosqueteiro. aparece sob a espécie de flautistas e dançarinas que executam suas humildes destrezas ao fundo. trirreme. técnica. um duelo por mês.

o regime de vida que vai inspirado pelo entusiasmo pela mulher. Na primeira Idade Média a vida tem o mais rude aspecto. A verdade é que em outras épocas da Grécia anteriores à clássica triunfou o feminino. a feminilidade eleva-se a máximo poder histórico. de bem-estar. imagina a valquíria. Já não se aprecia o gesto bronco. só com outros homens. da crina de seu cavalo e passará sua vida à sombra da lança". desde o século XII. a segunda. Agora aparece a "cortesia" triunfadora da "clerezia". contar com um pouco de ordem. grácil. Os homens começam a polir-se na palavra e nos modos. O homem vive quase sempre em acampamentos. caça.. os Soldanieri . feminina. E a "cortesia" é. que por si mesma se divide em duas porções: a primeira. mas "corte de amor". Chamou-se então "corte" . E preciso guerrear cotidianamente e à noite compensar o esforço com o abandono e o frenesi da orgia. 26 de junho de 1927. Mercê a ela conseguiu-se já no século XII acumular alguma riqueza. Entendamo-nos: em todas as épocas desejou-se a mulher. como diz um texto da época. de todo um novo estilo de cultura e de vida. Como aceitam este jugo o guerreiro e o sacerdote. em perpétua emulação com eles sobre temas viris: esgrima. como em certas etapas do germanismo domina o varonil. A mulher é presa de guerra. Esta nova forma de vida pública. nada mais nada menos. o subsolo do porvir europeu. contém o germe do que. cavalaria.A rebelião das massas. mas não em todas foi estimada. El Sol. A Corte dos Carolíngios era exclusivamente feminina. vai se chamar séculos mais tarde "sociedade". Quando o germano destes séculos se ocupa em idealizar a mulher. Trata-se. Todavia em tempos de Dante alguns nobres os Lamberti. E eis aqui que rapidamente. Mas no século XII as altas damas de Provença e Borgonha têm a audácia surpreendente de afirmar. de todo um novo estilo de cultura e de vida. Vê-se nela a norma e o centro da criação. a fêmea beligerante. Porque até o século XII não se havia encontrado a maneira de afirmar a delícia da existência. em cujas mãos se achavam todos os meios da luta? Não cabe mais claro exemplo da força indomável que o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. e opor-lhe o suposto rendimento do germano ante a mulher. muda a face da história. o valor específico da pura feminilidade. Sem a violência do combate ou do anátema.mas não como a antiga corte de guerra e de justiça. o privilégio de ser enterrados a cavalo (110). Esta existência de áspero regime cria as bases primeiras. de paz. mas o gesto mesurado. como em certas jornadas de primavera. ante o Estado dos guerreiros e ante a Igreja dos clérigos. Precisamente esclarece melhor que outro exemplo a diferença entre épocas de um e outro sexo o acontecido na Idade Média. À contínua pendência substitui o solatz e deport que quer dizer conversação e jogo. nada mais nada menos. Assim nesta bronca idade. A mutação se deve ao ingresso da mulher no cenário da vida pública. ante o Estado e a Igreja.. homem grego para os valores da feminilidade. antes de tudo. a mulher carece de papel e não intervém no que podemos chamar vida de primeira classe.htm (124 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . II Trata-se. bebida. não "deve separar-se. O homem. onde a mulher é o centro. masculina. suavissimamente. Em tal paisagem moral. com efeito. virago musculosa que possui atitudes e destrezas de varão.conservavam. até a morte. do mundanal ante o enérgico "tabu" que sobre todo o terreno fizera cair a Igreja.

de tudo que é aspiração. mas de juventude masculina. efeminamento. salvo à idéia mesma da mocidade. Os rapazes convivem juntos nos estádios e áreas de esportes. No final das contas. Por isso. mas quando sobrevêm etapas de masculinismo descobre-se o que neles há de efetivo efeminamento. consequentemente. cuja cifra põe no escudo. que projeta nas regiões transcendentes a entronização do feminino. E o é. mas a força de desdém. apesar de seu aspecto de mata-mouros. "sentir do tempo" possui. volta-se ao panorama atual e conhece no mesmo instante que nosso tempo não é só tempo de juventude. o homem muito preocupado com a mulher. montado sobre os nervos de uma nova geração. que versam sobre qualidades viris. sem se preocupar com o resto. como desviação fisiológica da espécie. sem acatar ou render culto a nada que não seja sua própria juventude. é tão poderoso que não necessita combater.htm (125 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A mulher torna-se ideal do homem. acontecida na ordem sublunar. É surpreendente a resolução e a unanimidade com que os jovens decidiram não "servir" a nada nem a ninguém. pois. e seu caráter patológico os impede de representar a normalidade de nenhuma época. Porque a palavra "efeminado" tem dois sentidos muito diversos.A rebelião das massas. Os trajes dos homens começam a imitar as linhas do traje feminino. cheiraria hoje a efeminamento. Estes indivíduos monstruosos existem em todos tempos. As moças perderam o hábito de ser galanteadas. simplesmente se instala no mundo como uma propriedade indiscutida. O velho "efeminado" denomina este novo entusiasmo dos jovens pelo corpo viril e esse esmero com que o tratam. e esse gesto em que há trinta anos ressumavam todas as resinas da virilidade. que estão ordenados para ser vistos pelas damas. Por um deles significa o homem anormal que fisiologicamente é um pouco mulher. Exercitada a pupila nestes esquemas do pretérito. À força de contemplar-se nos exercícios onde o corpo aparece isento de falsificações têxteis. em seu outro sentido. no tempo do Dante. Não lhes interessa mais que seu jogo e a maior ou menor perfeição na postura ou na destreza. mas feita de sonho do varão. ajustam-se à cintura e se decotam até o colo. a seus exercícios e preferências. que gira em torno dela e dispõe suas atitudes e pessoa em vista de um público feminino. que facilmente poderíamos multiplicar. Suas armas preferem ao combate a justiça e o torneio. Desta época provém o culto à Virgem Maria. O dono do mundo é hoje o rapaz. adquirem uma fina percepção da física file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. retorcida como um caracol. A mocidade masculina afirma-se a si mesma. Quando chega. Convivem. O poeta deixa um pouco a gesta em que se canta o herói varonil e torneia a trova que foi inventada sol per domnas lauzar (111). cuida de seu corpo e tende a ostentá-lo. esses homens parecem muito homens. Nada pareceria mais obsoleto que o gesto rendido e curvo com que o cavalheiro fanfarrão de 1890 se aproximava da mulher para lhe dizer uma frase galante. e chega a ser a forma de todo ideal. em perpétuo concurso e emulação. "efeminado" significa simplesmente homme à femmes. o homem estima sua figura mais que a do sexo contrário e. Hoje. a figura feminina absorve o ofício alegórico de tudo que é sublime. consta pelo Gênese que a mulher não está feita de barro como o varão. como sempre que os valores masculinos predominaram. O cavalheiro desvia suas idéias feudais para a mulher e decide "servir" a uma dama. entrega-se a seus gostos e apetites. Em tempos deste sexo. A rigor. Mas. não porque o tenha conquistado. A vida do varão perde o módulo da etapa masculina e se conforma ao novo estilo. quando é o contrário.

A dama Diretório acentuava. se afirmasse o corpo do futebolista. apontar que a sentiam muito menos que na atualidade. Antes. A mulher procura achar em sua compleição as linhas do outro sexo. entusiasmo pela esplêndida figura do atleta.htm (126 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .para descobrir a essência variante. Ao ouvir hoje com tanta freqüência o cínico elogio do homem simpático brotando dos lábios femininos. aparentemente tão generoso na nudificação. oculta. perscrutando sinceramente em seu interior. bastante curta.A rebelião das massas. É uma equivocação psicológica explicar as modas vigentes por um suposto afã de excitar os sentidos file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Vê. que tenha alguma verdade. porque se esfalfa em esportes físicos. De tudo aquilo que é um impulso coletivo e propele a vida histórica inteira em uma ou outra direção. Entretanto. hoje a mulher imita o homem no vestir e adota seus ásperos jogos. não nos apercebemos nunca. Talvez desde os tempos gregos não se tenha estimado tanto a beleza masculina como agora.1800 . sopros gigantescos que nos mobilizam a seu capricho. Daí que as modas masculinas tenham tendido estes anos a sublinhar a arquitetura masculina do homem jovem. em vez de colegir ingênua e simplesmente: "A mulher de 1927 gosta superlativamente dos homens simpáticos". Basta comparar o traje de hoje com o usado na época de outro Diretório maior . se é que a sentiam. arrastam o ânimo e o sobrecolhem (112). Só estas excelências. cingia e ostentava o atributo feminino por excelência: aquela túnica era o mais sóbrio talhe para sustentar a flor do seio. com efeito. claramente percebidas. O traje Diretório era também uma simples túnica. Se no século XII o varão se vestia como a mulher e fazia sob sua inspiração versinhos dulcífluos. mas não a bastante. Era mister que sob os tubos ou cilindros de tela em que este horrível traje existe. varonil. Por isso o mais característico das modas atuais não é a exiguidade do encobrimento. porque se veste como se veste. não é quase nunca espontâneo. que revela o predomínio do ponto de vista varonil. um sintoma de primeira categoria. que cobra a seus olhos um valor enorme. ainda. sabiam calar seu entusiasmo pela beleza de um varão. Um velho psicólogo habituado a meditar sobre estes assuntos sabe que o entusiasmo da mulher pela beleza corporal do homem. sobretudo pela beleza fundada na correção atlética. em virtude de razões que supõe personalíssimas. Cada uma poderá dar sua razão diferente. nem a faina química em que se ocupam nossas células. reconhecesse que não se apercebia de ser influída em sua estima da beleza masculina pelo apreço que dela fazem os jovens. faz um descobrimento mais profundo: a mulher de 1927 deixou de cunhar os valores por si mesma e aceita o ponto de vista dos homens que nesta data sentem. O traje atual. Cada qual crê viver por sua conta. escamoteia. mas o oposto. o seio feminino. Agora a mulher vai nua como um rapaz. Convém. nisso. tanto mais expressiva quanto maior é a semelhança. pois. aquele nu era um perverso nu de mulher. anula. E o bom observador nota que nunca as mulheres falaram tanto e com tanto descaro como agora dos homens simpáticos. quase como a de agora. os poderosos alísios da história. simplificando um tipo de traje tão pouco propício para isso como o herdado do século XIX. Note-se que só se estima a excelência nas coisas de que se entende. Não seria objeção contra isto que alguma leitora. por seu turno. como não nos apercebemos do movimento estelar de nosso planeta. É muita casualidade que atualmente o regime da assistência feminina nas ordens mais diversas coincida sempre nisto: a assimilação ao homem. Também sabe bem a mulher de hoje porque fuma. Mas o fato é que sob essa superfície de nossa consciência atuam as grandes forças anônimas.

só na França. (3) Monarchie universelle: deux opuscules. no Renascimento.entre eles. e eu não nego que no detalhe da indumentária e das atitudes influa esse propósito incitativo: mas as linhas gerais da atual figura feminina estão inspiradas por uma intenção oposta: a de se parecer um pouco com o homem jovem. paradisíacas e moderadas como agora. nota Luchaire. A princípios do século XIII. uma bobagem perseguir em nome da moral a brevidade das saias em uso. O descaro e impudor da mulher contemporânea são. sua retirada do primeiro plano social trouxe o império da descortesia. ainda mais. O perigo está verdadeiramente na direção inversa. sobre a causa de que essa iniciação se malograsse. 1891. pag. Esta indolência é um fato. Santo Inácio. no de César. London. (2) É justo dizer que foi na França. 36. "os sermonários não cessam de fulminar contra a longitude exagerada das saias. que se tornaram um pouco indolentes. Neste encontrará o leitor o desenvolvimento e justificação de tudo que acabo de dizer. as relações entre os sexos nunca foram tão sadias. mais que femininos. de próxima publicação. Homages to Ernst Cassirer. Há nos sacerdotes uma mania milenar contra os modismos. desinteressadas da mulher. 1939 (V. O resultado de minhas reflexões acha-se no livro. pois. e quando passa a ronda dos coquetéis bebe como gente grande. pois. Em outro lugar achará o leitor alguma indicação sobre isto e. 3 de julho de 1927. Assim foi no tempo de Péricles. Madrid. do varão. Em que ficamos? Qual a saia diabólica? A curta ou a longa? Quem passou sua juventude numa época feminina consterna-se de ver a humildade com que hoje a mulher. 1942). a uma exibição lúbrica e viciosa. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. uma invenção diabólica" (113).htm (127 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . A este fim aceita na conversação os temas de preferência dos moços e fala de esportes e de automóveis. procura insinuar-se e ser tolerada na sociedade dos homens. que são. S. destronada. superior nesta ordem de temas às demais. El Sol. edição espanhola Historia como sistema. renderam estranho culto ao amor dórico. Esta diminuição do poder feminino sobre a sociedade é causa de que a convivência seja em nossos dias tão áspera. O fato foi que a beatificação sofreu uma longa demora pela disputa surgida entre os cardeais sobre quem devia entrar primeiro na oficial beatitude: a dama Cepeda ou os varões jesuítas. Hoje não se compreenderia um fato como o acontecido no século XVII por motivo da beatificação de vários santos espanhóis . É. dizem. Veja-se o tomo VI das Obras Completas do autor.A rebelião das massas. De minha parte procurei colaborar neste esforço de esclarecimento partindo da recente tradição francesa. NOTAS (1) Veja-se o ensaio do autor intitulado "History as a System". Provavelmente. Inventora a mulher da "cortesia". o descaro e impudor de um rapaz que entrega à intempérie sua carne elástica. no volume Philosophy and History. El hombre y la gente. Francisco Xavier e Santa Teresa de Jesus -. Porque aconteceu sempre que as épocas masculinas da história. onde se iniciou um esclarecimento e mise au point de todos estes conceitos. Tudo contrário.

Eis aqui uma vez mais a melhor inspiração européia reduzindo a dinamismo tudo que é estático. (6) "La coexistence et le combat de principes divers". p. Correspondance avec Mme. 35. 110. dizia aludindo a ele: "E un gran ministro.entende-se que tenha "consciência" intelectual . nob.quando interpretou a política de "resistência" como pura e simplesmente conservadora. seja qual for. quer dizer. Guizot. sem nobreza." Oeuvres complètes. digamos de 1790 a 1830. Como se isto não acontecesse em toda escola intelectual e não constituísse a diferença mais importante entre um grupo de homens e um grupo de gramofones (9) Nestes últimos anos. 38. em cuja ulterior contraposição e luta vêem precisamente desenvolver-se as mudanças das épocas históricas". 248. uma e outra vez. Não há nestas palavras de Ranke uma clara influência de Guizot? Um fator que impede ver certos estratos profundos da história do século XIX é que não esteja bem estudado o intercâmbio de idéias entre a França e a Alemanha. M. (10) Por exemplo. Guizot. e embora sejam sumamente vivazes. Dicono que non ride mai". Histoire de La Civilisation en Europe. de Gasparin que falando o Papa Gregório XVI com o embaixador francês. No fim de tudo é preciso recorrer aos estudos de Faguet sobre o idearium de um e outro. Pouthas tomou sobre si a fatigante tarefa de despojar os arquivos de Guizot e oferecer-nos numa série de volumes um material sem o qual seria impossível empreender a ulterior faina de reconstrução. junto ao nome dos simples burgueses aparecia a abreviatura s. pag. ninguém pode ficar com a consciência tranqüila . file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. pág. (4) Oeuvres completes (Calman-Lévy). 283. encontrar-se-á. com a fórmula ilusória de que os doutrinários não possuíam uma doutrina idêntica. Charles H. XXII.. tenta o domínio absoluto. encontra sempre uma resistência que se lhe opõe desde os mais profundos seios vitais. que sua leitura é uma pura delícia de intelecção. (8) Se o leitor deseja informar-se. Talvez o resultado desse estudo revelasse que a Alemanha recebeu nessa época muito mais da França que inversamente. p. mas que variava de um para outro. Por isso. É demasiado evidente que os homens Royer-Collard.. Em um homem tão diferente de Guizot como Ranke encontramos a mesma idéia: "Logo que na Europa um princípio. II. que é divertida e até alegre. Em outro lugar (tomos 8 e 10. 3): "0 mundo europeu se compõe de elementos de origem diversa. exibe-nos suas arcanas vísceras quando em um discurso de Royer-Collard lemos: "Les libertés publiques ne sont pas autre chose que des resistences". de Gasparin. 130). são absolutamente insuficientes. (7) Com certa satisfação refere-se Mme. toma. e que constituem a última manifestação do melhor estilo cartesiano.htm (128 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . por assim dizer. pág. Vol. O estado de liberdade surte de uma pluralidade de forças que mutuamente se resistem. (Veja-se de Barante: La vie et les discours de Royer-Collard. uma súbita mudança de sentido e. Não há nada melhor. Sobre Royer-Collard não há nem isso. Broglie. Mas os discursos de Royer-Collard são hoje tão pouco lidos que parecerá impertinência se digo que são maravilhosos. por sua vez.A rebelião das massas. que ao aparecer na citação de Ranke documenta o influxo de Guizot sobre este grande historiador. A palavra "resistência". Esta é a origem da palavra snob. não eram conservadores à-toa. (5) Na Inglaterra as listas de residências indicavam junto a cada nome o ofício e classe da pessoa.

A origem francesa do coletivismo não é uma casualidade e obedece às mesmas causas que fizeram da França o berço da sociologia e de seu renovo em 1890 (Durkheim). 16. (21) J. I. mais imprévoyante et superficielle révolution de 1848 eut pour conséquence. com introdução e notas de C. pág. Renan: Questions contemporaines.htm (129 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .. 0 que demonstra duas coisas. I. (11) Veja-se o citado ensaio do autor: História como sistema. et se glissant dans les livres à la mode disposent toutes choses à la révolution générale dont d'Europe est menacée". (16) Gesammelte Schriften. (14) Obra fácil e útil que alguém deveria empreender. 204." D'Alembert: Discours préliminaire à l'Enciclopédie. nota). era capaz de prever o que aconteceu um século depois. B. (20) "Cette honnête. (17) Histoire de Jacques II.. (19) ".. Renan. (15) Stuart Mill: La liberté. o trabalho acumulado nas notas por MM. seria reunir os prognósticos que em cada época se fazem sobre o futuro próximo. em 1700. IV. Eu colecionei os suficientes para ficar estupefato ante o fato de que tenha havido sempre alguns homens que prevêem o futuro. feita em 1829. (12) Pretendem os alemães que foram eles os descobridores do social como realidade diferente dos indivíduos e "anterior" a estes. que em 1848 era jovem e simpatizou com aquele movimento. Este é um dos casos que mais recomendam o estudo minucioso do intercâmbio intelectual franco-germânico de 1790 a 1830 a que em nota anterior me refiro. (13) Veja-se Doctrine de Saint-Simon. Dupont-White (páginas 131-132). é uma das obras mais geniais do século. Chap. (22) Veja-se História como sistema. supondo que foi "honrado e irreprochável ". Oeuvres: 1. data aproximada em que Leibniz escrevia isto. 143. le plus obstinément conservateur de notre pays". Mas o termo Volksgeist mostra demasiado claramente que é a tradução do voltairiano esprit des nations.56 (1821). au bout de moins d'un an. vê-se obrigado na sua madureza a fazer algumas reservas benévolas a seu favor. (18) "Je trouve même que des opinions approchantes s'insinuant peu à peu dans l'esprit des hommes du grand monde. Carré: La Philosophie de Fontenelle. de donner le pouvoir à l'élement le plus pesant. irreprochable. Nouveaux Essais sur l'entendement humain. 106. Bouglé e Halévy constitui uma das contribuições mais importantes que eu conheço ao efetivo esclarecimento da alma européia entre 1800 e 1830. O Volksgeist parece-lhes uma de suas idéias mais autóctones. 843. trad. Primeira: que um homem. XVI. le moins clairvoyant. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. notre siècle qui se croit destiné à changer les lois en tout genre. segunda: que os males presentes da Europa são oriundos de regiões mais profundas cronológica e virtualmente do que sói presumir-se..A rebelião das massas. Além de que esta exposição do saint-simonismo. qui réglent les autres et dont dépendent les affaires. Halévy (p. Bouglé e E.

il n'y a pas "d'ancien droit anglais". em Buenos Aires (1928). Moderno é o que está posto segundo o modo: entende-se o modo novo. (27) 0 trágico daquele processo é que. pois. "modernidade" com que os últimos tempos se batizaram a si mesmos. (25) Veja-se o ensaio Hegel y América. num artigo de El Sol. 1a. de Stuart Mill. Le droit anglais est un droit historique. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Meu propósito agora é recolher e completar o que eu disse então. tradução de José Gaos. que agora analiso. en Anglaterre tout le droit est actuel. às vezes. ocupei-me do tema que o presente ensaio desenvolve. págs. tradicionais. "aucune barrière entre le présent et le passé. expressa mui agudamente essa sensação de "altura dos tempos". Saeculum aureum. dificuldades para precisar a data de seu primeiro aparecimento. no direito. nota 6. (Veja-se pág. À parte o grande repertório numismático de Cohen. Para o "moderno". modificação ou moda que em tal presente tenha surgido ante os modos velhos. A palavra "moderno" expressa. (31) O sentido original de "moderno". e ao mesmo tempo o imperativo de estar à altura dos tempos. os tomos II e IV de Obras Completas). quel qu'en soit l'âge". superior à antiga. 35 do tomo III das Obras Completas). publicados pouco depois. 353 do tomo III de Obras Completas). Sans discontinuité le droit positif remonte dans l'histoire jusqu'aux temps immémoriaux. (30) Não se deixem de ler as maravilhosas páginas de Hegel sobre os tempos satisfeitos em sua Filosofia de la historia. 41 e seguintes. data de sua primeira publicação como série de artigos no jornal diário El Sol. 1928. e os artigos sobre Los Estados Unidos. muita parte dela levou muitos anos em atrever-se a ser livro (1946). a saber. pag. edição. 1926. e encontram. (29) Nos cunhos das moedas de Adriano lêem-se coisas como estas: Italia Felix. o fato de que quase toda a minha obra saiu ao mundo usando a máscara de artigos jornalísticos. começava o despovoamento das campinas. a consciência de uma nova vida. publicado em 1921. de modo que surta uma doutrina orgânica sobre o fato mais importante de nosso tempo.htm (130 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . Na Inglaterra. Aproveito esta oportunidade para fazer notar aos estrangeiros que generosamente escrevem sobre meus livros. (Vejam-se.A rebelião das massas. Lévy-Ullmann: Le système juridique de l'Anglaterre. I. Temporum felicitas. Revista de Occidente. Don. págs. 44. lâmina LII e 588. (23) Em seu prólogo a sua tradução de La Liberté. Juridiquement parlant. Tellus stabilita. que havia de trazer a diminuição absoluta no número dos habitantes do Império. vejam-se algumas moedas reproduzidas em Rostovtzeff: The social and economic history of the Roman Empire. posto que valha na ordem onde a palavra "vigência" tem hoje seu sentido mais imediato. não sê-lo eqüivale a cair baixo o nível histórico. tomo I. enquanto se formavam estas aglomerações. mas sim verdade ao pé da letra. 38/39. (24) Não é uma simples maneira de falar. (32) La deshumanización del arte. (28) Veja-se España invertebrada. que se usaram no passado. (Veja-se pág. respectivamente. (26) Em meu livro España Invertebrada. intitulado "Masas" (1926) e em duas conferências dadas na Associação Amigos del Arte. 1921.

que com repetidos "vivas!" se encaminharam ao depósito municipal de trigo e de suas janelas arrojaram o cereal file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. (36) 0 mundo de Newton era infinito. "Depois mandaram trazer de beber a todo aquele grande concurso. costuma dizer em conversação privada que se morressem subitamente dez ou doze determinadas pessoas. (33) Precisamente porque o tempo vital do homem é limitado. Que lhe importa não ser mais rico que outros. cômoda e segura que a do mais poderoso em outro tempo. seja qual seja. se o mundo o é e lhe proporciona magnificas estradas de rodagem. (34) No pior caso. segurança física e aspirina? (42) Abandonada à sua própria inclinação. careceria de sentido o automóvel. plebéia ou "aristocrática". Foi necessária uma preparação de muitos séculos para acomodar o órgão mental à abstrata complicação da teoria física. uma utopia abstrata e inane. mede-se por sua capacidade de dissociar idéias tradicionalmente inseparáveis. sempre haveria duas: essa e sair do mundo. (38) Esta é a origem radical dos diagnósticos de decadência. o que aconteceu em Nijar.A rebelião das massas. Não que sejamos decadentes. O mundo de Einstein é finito. como de uma habitação a porta. já que não uma orientação positiva. telégrafo. Fez-se a proclamação na praça da vila. além do mais. cujo espírito os acalorou de tal modo. (35) Assim. é quase certo que a maravilha da física atual se perderia para sempre na humanidade. mas que. Veja-se o ensaio El origen deportivo del Estado. se proclamou rei a Carlos III. mas uma vazia generalização. como a totalidade do mundo era pobre. o qual consumiu setenta e sete arrobas de vinhos e quatro odres de aguardente. a destruir as causas de sua vida. quer dizer. dispostos a admitir toda possibilidade. de ferro. tende sempre. já no prólogo de meu primeiro livro: Meditaciones del Quijote. não excluímos a da decadência. necessita triunfar da distância e da tardança. povoado próximo a Almería. Sempre me pareceu uma caricatura engraçada dessa tendência a propter vitam. Qualquer evento poderia aniquilar tão prodigiosa possibilidade humana. um mundo mais rico de coisas e. a massa. (41) Por muito rico que um indivíduo fosse em relação com os demais. A vida do homem médio é hoje mais fácil. mas cheio e concreto em todas as partes. quando. companheiro e continuador de Einstein. portanto. (37) A liberdade de espírito. precisamente porque é mortal. Para um Deus cuja existência é imortal. recolhido no tomo VII del El Espectador. entretanto. (40) Hermann Weyl. (39) Veremos. vivendi perdere causas. por afã de viver.htm (131 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . 607 do tomo II de Obras Completas). como demonstrou Köhler em suas investigações sobre a inteligência dos chimpanzés. como cabe receber do passado. Mas a saída do mundo forma parte deste. Jamais o entendimento humano teve como agora maior capacidade de dissociação. de maior tamanho. (Veja-se a pág. que é. em 13 de setembro de 1759. Nas Atlântidas aparece sob o nome de horizonte. mas o que devemos evitar. hotéis. Dissociar idéias custa muito mais que associá-las. a potência do intelecto. a esfera de facilidades e comodidades que sua riqueza podia proporcionar-lhe era muito reduzida. um dos maiores físicos atuais. efetivamente. 1926. base da técnica futura. mas essa infinitude não era um tamanho. Não nos dirá o pretérito o que devemos fazer. certos conselhos negativos. e quando o mundo parecera reduzido a uma única saída. 1916.

falando a sério.verdadeiras ou falsas . pois.) (48) Muitas vezes levantei de mim para mim a seguinte questão: é indubitável que sempre teve de ser para muitos homens um dos tormentos mais angustiosos de sua vida o contacto. em El Espectador. (Veja-se pag. entretanto. quantos gêneros líquidos e comestíveis havia nelas.A rebelião das massas. C. C. ou. e o tabaco. que nele havia e 900 reais de suas caixas. (46) Veja-se El origen deportivo del Estado. o que não é. Nas lojas fizeram o mesmo. 156.) (47) Sobre a indocilidade das massas. tomo II. pelo contrário. com esta única diferença: uns pensarão que. pois não restou nelas pão. e os outros. tomo VII. e só aceita como digno dele aquilo que está acima dele e exige um novo estirão para alcançá-lo. e ao dito ali remeto-me. o que executaram com o maior desinteresse. O Estado eclesiástico concorreu com igual eficácia. vida é o processo existencial de uma alma. é intelectualmente um bárbaro. mandando derramar. intacta esta questão. Fica. pratos. nem cadeiras. Dali passaram ao Estanco do Tabaco e mandaram jogar fora o dinheiro da Mesada. C.um estudo sobre ela. se deixará ganhar pelo sentido primário destas frases e será precisamente quem . (Veja-se página 607 do tomo II de O. citado em Reinado de Carlos III. aniquila-se a si mesmo.as entenda. (44) Veja-se España invertebrada (1922). (Veja-se pág. ficando a vila destruída: Segundo um papel do tempo em poder do senhor Sánchez de Toca. o choque com a imbecilidade alheia. se não tem vontade de ser verídico. pelo senhor Manuel Danvila.). De fato. Não creio que melhore minha situação ante leitores tão herméticos resumir toda uma maneira de pensar dizendo que o sentido primário e radical da palavra vida aparece quando a empregamos no sentido de file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Como é possível.cevada. essa é a posição do homem-massa quando fala.htm (132 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . pelo menos. Admirável Nijar! Teu é o porvir! (43) É intelectualmente massa aquele que ante um problema qualquer se contenta com pensar o que boamente encontra em sua cabeça. Entre os demais reinará a mais efusiva unanimidade. já falei em España invertebrada (1922). que exclui a herança. É.parece-me . egrégio aquele que desestima o que acha sem prévio esforço em sua mente. (45) Como no anterior trata-se só de retrotrazer o vocábulo "nobreza" a seu sentido primordial. para mais autorizar a função. especialmente das espanholas. pág. almofarizes. um ensaio sobre a imbecilidade? (49) Não se pretenda escamotear a questão: todo opinar é teorizar. dá conferências ou escreve. que não se tenha tentado nunca . 10. 35 do tomo III de O. caçarolas. pág. pois em altas vozes induziram as mulheres a sacudir fora o que havia nas suas casas. (51) Não é preciso dizer que quase ninguém levará a sério estas expressões. morteiros. Este povoado. Só algum leitor bastante ingênuo para não crer que sabe já definitivamente o que é a vida. (50) Se alguém em sua discussão conosco se desinteressasse de se ajustar à verdade. talvez comoventes. não há oportunidade para estudar o fato de que tantas vezes apareça na história uma "nobreza de sangue". para viver sua alegria monárquica. que é uma sucessão de reações químicas. e os melhores intencionados as entenderão como simples metáforas. 35 do tomo III de O. trigo. nota 2. farinha.

pelo menos. pois. pelo contrário. Se eu defendo o liberalismo do século XIX contra as massas que incivilmente o atacam. preferências e gostos da geração imperante são extremistas. (60) Não se confunda o aumento. concorrência. 893 a 10. Pela fortíssima razão de que toda biologia é em definitivo só um capítulo de certas biografias. (55) Não falemos de questões mais internas. condição de todo grande avanço histórico. e ainda a abundância de meios. biografia e não no de biologia. Quando as idéias. pelo contrário. moral. dizia eu sobre isto no ensaio "Biologia e Pedagogia".aproximadamente . o substantivo da última centúria. uma claríssima obrigação de toda "época crítica".todos os demais princípios vitais política.htm (133 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . C. fantasia e mito. não diz nada quem supõe haver dito algo definindo a América do Norte por sua "técnica". É um caso particular da desproporção que mais adiante aponto entre a complexidade dos problemas atuais e a capacidade das mentes. Outra coisa é abstração. religião . (Página 281 do tomo II de O. Só a ciência não falha. preferências e gostos. Veja-se o que. Esse seria o verdadeiro nome. mas. por outra parte. e por isso revolucionários. arte. não há poucos anos. a meu juízo. A maior parte dos investigadores mesmos não têm hoje a mais leve suspeita da gravíssima. é o que em sua vida (biografável) fazem os biólogos.A rebelião das massas. o que jamais foram as restaurações. No século XIX file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. os quais. dia a dia cumpre com fabulosos acréscimos quanto promete e mais do que promete. (57) Centuplica a monstruosidade do fato que . que incluísse ambas. Uma das coisas que perturbam mais gravemente a consciência européia é o conjunto de juízos pueris sobre a América do Norte que se ouvem expendidos até pelas pessoas mais cultas. transitória falha. El Espectador. a nova geração faz a propaganda de suas idéias. de alma substancialmente restauradora. (56) Aristóteles: Metafísica. Mas essa atuação divide-se em duas etapas e toma duas formas: durante a primeira metade . (52) Esta folga de movimentos ante o passado não é. e. "O paradoxo do selvagismo". preferências e gostos. Vice-versa: o primitivismo que neste ensaio aparece sob seu pior aspecto é. portanto. em. perigosíssima crise íntima que hoje atravessa sua ciência. adquirem vigência e são o dominante na segunda metade de sua carreira. Mas a geração educada sob seu império traz consigo outras idéias. mais genérico. finalmente.) (53) Daí que. que daqui a pouco ocupará a nossa atenção. e em certo sentido. não quero dizer que renuncie a uma plena liberdade diante desse próprio liberalismo. a democracia liberal e a técnica se implicam e inter-supõem por sua vez tão estreitamente que não é concebível uma sem a outra. tomo III. que começa a injetar no ar público. pois. não cabe desculpar o desapego por ela supondo o homem médio distraído por algum outro entusiasmo de cultura.desse período. Claro que não se deve entender restauração como simples "volta ao antigo". direito. fora desejável um terceiro nome. uma petulante rebeldia. (54) A rigor. (59) Uma geração atua em média durante trinta anos.como indiquei . a nova geração é anti-extremista e anti-revolucionária. (58) Já aqui entrevemos a diferença entre o estado das ciências de uma época e o estado de sua cultura. quer dizer.se acham efetivamente e por si mesmos em crise. Não tem. com a sobra.

Assim. Este seu autêntico ser não morre por isso. a nobreza inglesa tem sido a menos "sobrada" da Europa e tem vivido em mais constante perigo que nenhuma outra. que sinto asco pela sujeição beata à internacionalidade. Apenas um exemplo disto: a segurança que parecia oferecer o progresso (aumento sempre crescente de vantagens vitais) desmoralizou o homem médio. O que acontece é que sua crença científica detém. Como não era abundante de meios. (63) 0 que é a casa ante a sociedade. (64) Quem crê copernicamente que o sol não cai no horizonte. acho. como em outras coisas. (65) Envilecimento. teve de aceitar. 1923. mais claras e volumosas do "senhoritismo" vigente é. Uma das manifestações. Coincide com este só num ponto. Isto significa que o destino desse católico é em si mesmo trágico. E ao aceitar essa porção de inautenticidade cumpre com seu dever. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. não é mister que os filósofos imperem . grotesco esse transitório "senhoritismo" das nações menos gradas. queira ou não. confirma a regra. pelo contrário. mas não se refere a ele a censura radical que dirijo ao homem-massa de nosso tempo. e a não ater-se aos privilégios. e isso produz o prodigioso crescimento . E porque tem vivido sempre em perigo soube e conseguiu sempre fazer-se respeitar . o país mais pobre do Ocidente. Esquece-se o dado fundamental de que a Inglaterra tem sido. como veremos. a aristocracia inglesa parece uma exceção do dito. excessivamente rico.precisamente para escapulir a toda tragédia. acanalhamento. ao "mocinho satisfeito". (61) Nisto. bastaria desenhar as linhas gerais da história britânica para patentear que esta exceção. em fantasma. Mas chegou um momento em que o mundo civilizado. inspirando-lhe uma confiança que é já falsa. continua vendo-o cair. sua própria. Mas. constantemente. que lhe faz sentir constantemente a inferioridade da existência que leva a respeito da que tinha que levar. posto em relação com a capacidade do homem médio. Esta alusão ao caso desse católico vai aqui só como exemplo para esclarecer a idéia que agora exponho. autêntica crença liberal. os efeitos de sua crença primária ou espontânea. é evidente. até mui avançado o século XVIII. decidiu-se muito cedo a viver economicamente em forma criadora.o que supõe haver permanecido sem descanso na brecha -. e como o ver implica uma convicção primária. O que lanço em rosto ao "mocinho satisfeito" é a falta de autenticidade em quase todo o seu ser. ao mesmo tempo. este católico nega com sua crença dogmática. de homem moderno .quantitativo e qualitativo da própria vida como apontei acima. o ser seu caso admirabilíssimo. atrófica. A nobreza salvou-se por isso mesmo. continua crendo.ignóbil no continente -.como Platão quis primeiro -. O envilecido é o suicida sobrevivente. O "mocinho satisfeito". mas converte-se em sombra acusadora.porque quer ser fiel a outra parte efetiva de seu ser que é sua fé religiosa. deserta de si mesmo por mera frivolidade e de tudo . O católico não é autêntico em uma parte de seu ser . isto é. Mas ainda esta coincidência parcial é só aparente. E eu. adquiria um aspecto demasiado. (62) Veja-se Olbricht: Klima und Entwicklung.A rebelião das massas. embora o seja. supérfluo. é-o em escala maior a nação ante o conjunto das nações. Contra o que sói dizer-se.htm (134 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . a ocupação comercial e industrial .tudo que tem. a decisão que algumas nações tomaram de "fazer o que está na sua vontade" na convivência internacional. A isso chamam ingenuamente "nacionalismo". não é outra coisa senão o modo de vida que resta a quem se negou a ser o que tem que ser. viciosa. (66) Para que a filosofia impere. por outra parte. aumentavam as facilidades de vida.

40. nem sequer que os imperadores filosofem . 1927. nega-se a reconhecer como absoluto nenhum fato. que formaram os suíços. A pólvora é conhecida de tempo imemorial. 563 do tomo II de O. (71) Veja-se Elie Halévy: Histoire du peuple anglais au XIXe. de O. 1921. edição). Os "nobres" usaram em pequenas doses a arma de fogo mas era demasiado cara.. o ensaio Historia como sistema (R. se o Estado tudo podia . Porque esta. A invenção da carga num tubo deveu-se a alguém da Lombardia. mais modestamente. Mas não basta isso. em El Espectador. são pedagogos. C. Para ela. pág. do autor. 1912).A rebelião das massas. (70) Recordem-se as últimas palavras de Septimio Severo a seus filhos: Permanecei unidos.são políticos. basta que os filósofos sejam filósofos.como quis. a rigor. profissional. siècle (tomo I. como literalmente certo que os nobres foram derrotados de maneira definitiva pelo novo exército. pagai ao soldado e desprezai o resto. mas com menos sentido da responsabilidade histórica. (67) Veja-se España invertebrada. não se fazia mais forte? Uma das causas é a apontada: incapacidade técnica. 1930. Por que.htm (135 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . 2a. o Estado absoluto respeita instintivamente a sociedade muito mais que o nosso Estado democrático. Contra o que se crê. Tomo VII. Sua força primária consistiu na nova disciplina e na nova racionalização da tática. quer dizer. Ainda assim. Só os exércitos burgueses. Há quase uma centúria os filósofos são tudo. basta que haja filosofia. menos isso . Tomo VI. melhor organizados economicamente. (68) Esta imagem simples da grande mudança histórica em que se substitui a supremacia dos nobres pelo predomínio dos burgueses deve-se a Ranke. Como se explica isto? Já a sociedade em torno começava a crescer. das aristocracias de sangue. (Veja-se pág. mas claro é que sua verdade simbólica e esquemática requer não poucos aditamentos para ser completamente verdadeira. não foi eficaz até que se inventou a bala fundida. depois -. Para que a filosofia impere. racionalizadora. Fica. (Veja-se o tomo VI de O. 35 do tomo III das Obras Completas). não obstante. (69) Mereceria a pena insistir sobre este ponto e fazer notar que a época das Monarquias absolutas européias operou com Estados muito débeis. C.) (74) Isto é o que faz a razão física e biológica. demonstrando com isso que é menos razoável que a "razão histórica". (Veja-se pag. quando trata a fundo das coisas e não de soslaio como nestas páginas. C. Veja-se. mais inteligente.) (73) Veja-se o ensaio Sobre la muerte de Roma. (72) Veja-se o ensaio "Hegel y América" em El Espectador. 1a. puderam empregá-la em grande escala. são literatos ou são homens de ciência. burocrática.) (75) Seria interessante mostrar como na Catalunha colaboram duas inspirações antagônicas: o file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. raciocinar consiste em fluidificar todo fato descobrindo sua gênese. a "razão naturalista". (Veja-se pág. não representados pelo exército de tipo medieval dos borguinhãos. Ambas as coisas são. edição.era "absoluto" -. funestíssimas. mas de burgueses. 537 do tomo II de O. Além disso aconteceu no Estado absoluto que aquelas aristocracias não quiseram ampliar o Estado à custa da sociedade.

Não obstante. desejos. (84) Confirma isto o que a primeira vista parece controvertê-lo: a concessão da cidadania a todos os habitantes do Império. nossas idéias. sedes aratorum. mas no preferir. em que pervive sempre a tendência do velho homem mediterrâneo. por outro tem idéias sobre si mesmo que coincidem mais ou menos com sua autêntica realidade. (80) Os romanos não se resolveram a chamar cidades às povoações dos bárbaros. os casos de Koinón e língua franca. Como é sabido. Há. tomo II páginas 3 e 4. De uma civilização em que a escravidão tinha valor de princípio não se podia esperar outra coisa. aparente contradição entre uma e outra tese. "moderno" quer dizer o novo. o que nega o uso antigo. (Veja-se página 607 do tomo II de O. dizendo que aquele é relativamente fechado ao futuro. dos inimigos de César. o melhor livro sobre o assunto é o de Eduardo Meyer: La Monarquia de César y el Principado de Pompeyo. preferências. 1918. por mui denso que fosse o casario. tomo VII. e este. ao novo como tal este antagonismo. nem todos os alemães alto-alemão. É revelador que apenas o europeu desperta e toma posse de si. (82) Nem sequer como puro fato é verdade que todos os espanhóis falem espanhol. para se converter ou em simples carga e serviço do Estado ou em mero título de direito civil. (77) 0 sentido desta abrupta asseveração supõe que uma idéia clara sobre o que é a política. (81) Sabido é que o Império de Augusto é o contrário do que seu pai adotivo. começa a chamar a sua vida "época moderna". o ser humano tem irremediavelmente uma constituição futurista. Chamavam-nas "faute de mieux". Para nossas "nações". Augusto opera no sentido de Pompeu. mas sim complicá-lo ou modulá-lo. C.) (79) Veja-se Dopsch: Fundamentos económicos y sociales de la civilización europea. Evidentemente. não podem anular nosso verdadeiro ser. não no ser. quer dizer. O antigo e o europeu estão igualmente preocupados com o porvir. que não são linguagens nacionais. enquanto nós deixamos maior autonomia ao futuro. aspirou a instaurar. (85) Segundo isso. César. (78) Veja-se do autor "El origen deportivo del Estado". está claro. em El Espectador. Eu já disse outra vez que o levantino é o resto do homo antiquus que há na Península. mas especificamente internacionais.A rebelião das massas. Surge essa aparência quando se esquece que o homem é um ente de dois andares: por um lado é o que é. nem todos os ingleses inglês. foi a escravidão um simples fato residual. Já nos fins do século XW começa-se a sublinhar a modernidade. (76) Homogeneidade jurídica que não implica forçosamente centralismo.htm (136 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .se achará no tratado sociológico do autor intitulado El Hombre y la Gente. relativamente aberto. mas aquele submete o futuro ao regime do passado. Pois a conseqüência é que esta concessão foi feita precisamente à medida que ia perdendo seu caráter de estatuto político. pois. Segunda edição 1924. toda política . (83) Ficam fora. pelo contrário. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. nacionalismo europeu e o cidadanismo de Barcelona. eu contrapus o homem antigo ao europeu. vive antes de tudo no futuro e do futuro. Até hoje. justifica que qualifiquemos o europeu de futurista e o antigo de arcaizante.a "boa" como a má . 1930.

Isso evita o equívoco. e fala-se. conclui-se que é muito difícil encontrar alguma que merecesse então. É esta um fenômeno coletivo.htm (137 of 139) [7/11/2001 21:34:39] .o machado. e muito menos mereça agora. (95) Por exemplo: as apelações a um suposto "mundo civilizado" ou a uma "consciência moral do mundo". (87) Agora vamos assistir a um exemplo gigantesco e claro. o fogo. como de laboratório. (96) Há cento e cinqüenta anos a Inglaterra fertiliza sua política internacional mobilizando sempre que lhe convém e só quando lhe convém . Na medida em que as massas se distanciam destas aumenta o arcaísmo da sociedade. uma sociedade cujos membros sejam as nações. os europeus. (93) Sobre a unidade e a pluralidade da Europa. o canastro. (91) Certa dose de anacronismo é conatural à política. (90) Estas páginas foram publicadas no número de junho de 1937 na revista The Nineteenth Century. (92) Os ingleses. mas. a roda.o princípio melodramático de "women and children". (89) Bastaria isso para se convencer de uma vez para sempre que o socialismo de Marx e o bolchevismo são dois fenômenos históricos que apenas têm alguma dimensão comum. e de uma magnitude normal. estimação intelectual. indivíduos humanos. um dos primeiros sintomas do romanticismo . ao mesmo tempo. pois. contempladas de outra perspectiva. "mulheres e crianças. Se se repassa a lista das pessoas que intervieram na criação da Sociedade das Nações. Precisamente por ser o suposto de todos os demais e haver sido conseguidos em períodos milenares. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. de devotio moderna. espanhóis. obrigados a desenvolver e executar os desatinos daqueles políticos. nesta obra.A rebelião das massas. Não me refiro. (86) 0 princípio das nacionalidades é.fins do século XVIII. cronologicamente. (97) Ficam fora da consideração os que podemos chamar de "inventos elementais" . é muito difícil sua comparação com a massa dos inventos derivados ou históricos. precisamente nas questões que mais agudamente interessavam ao tempo. que além de ser europeus são ingleses. seus membros são homens. é claro. eis ai um exemplo. a vasilha. com bom acordo. (88) Se bem essa homogeneidade respeita e não anula a pluralidade de condições originárias. constitutiva. aos "experts" e aos técnicos. veja-se o Prólogo para franceses. etc. (94) A sociedade européia não é. vamos ver se a Inglaterra acerta a manter em unidade soberana de convivência as diferentes porções de seu Império. situa a agrupação de Estados fora do direito. a saber. alemães. uma espécie de vanguardismo na "mística teologia". Como em toda autêntica sociedade. propondo-lhe um programa atrativo. que tão freqüentemente fazem sua cômica aparição nas cartas ao diretor de The Times. por exemplo. passa a ser um caráter patológico. consignando-a francamente à política. preferiram chamá-la de "liga". e todo o coletivo ou social é arcaico relativamente à vida pessoal das minorias inventoras. -.

A rebelião das massas. (107) Um exemplo destes combates em que a vitória efetiva não deu. portanto. a origem de certas coisas humanas. Os que combateram e em realidade venceram a velha política pseudo-parlamentária. Basta isso para demonstrar que esse correspondente. mudanças políticas. E. Porque o paralelismo com o momento presente da Espanha é surpreendente e luminoso. (103) Há. e o resto é desviver.500 a 1. sem embargo. mas resisto a considerá-lo decisivo. é absolutamente incapaz de informar sobre a realidade da vida espanhola. (106) Do ponto de vista mais geral. a meu juízo. que. o triunfo ao combatente. sem dúvida. como de coisa sabida e que tudo explica. ou que na juventude culmina a vida. Mas todo o raciocínio do artigo que mobiliza e dá um sentido a esses dados minuciosos e a essas cifras exatas. mas do econômico. as conseqüências que trouxe para a vida romana. entretanto. entre elas o Estado. por razões de curioso espelhismo histórico. com efeito. tem sentido dizer que a vida não é senão juventude. Londres. (100) Os perigos maiores que como nuvens negras ainda se amontoam no horizonte. e ao mesmo tempo. é sumamente provável que pouco tempo depois surgirá outro estilo com as figuras em posição diagonal (mudança da pintura italiana de 1. se não se supõe em épocas muito primitivas uma etapa de enorme predomínio dos jovens que deixou. etc. faria uma boa obra. pode ser visto na ordem pública. reforma das instituições. o triunfo foi gozado pelos que não combateram nunca esse regime enquanto foi file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. Mas isto vale para um conceito mais minucioso de juventude que o habitualmente usado e ao qual este ensaio se acolhe. o haver sido nossos antepassados os mouros. (98) Acrescente-se que nessas opiniões jogavam sempre grande papel as vigências comuns a todo Ocidente. um que só falam os homens e o outro só para as mulheres. (99) Neste mês de abril. Até que ponto é inevitável uma pavorosa catástrofe econômica em todo o mundo? Os economistas deviam dar-nos ocasião para que cobrássemos confiança em seu diagnóstico. Mas não mostram nenhuma pressa. É o contraste. (102) Até o ponto de existir em certos povos primitivos dois idiomas. parte de supor. qualquer que seja sua operosidade e sua imparcialidade. (105) Quem quisesse contar-nos com algum detalhe a guerra de Numância. não provêem diretamente do quadrante político. Se no estilo pictórico as figuras aparecem em posição vertical. (104) Não se explica.. foram os "intelectuais" dessa geração. ou que viver é ser jovem. reabilitar-se para o estímulo oposto. George Allen & Unwin. muitos vestígios positivos nos povos selvagens do presente. (101) Tradução inglesa do presente livro. de se embotar para um estímulo.htm (138 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não contradiz o dito agora.600). É evidente que uma nova técnica de mútuo conhecimento entre os povos reclama uma reforma profunda da fauna jornalística. o correspondente de The Times em Barcelona envia a seu jornal uma informação onde procura os dados mais minuciosos e as cifras mais exatas para descrever a situação. um fator que colabora nestas mudanças como em todos os do organismo vivo. A vida tem a condição inexorável de se cansar.

(109) Tenho idéia de que Freud se ocupa minuciosamente deste fato. (110) Veja-se a Cronaca. poderoso.A rebelião das massas. Simplesmente porque os franceses entendem de literatura. file:///C|/site/livros_gratis/rebeliao_massas. La société française au temps de Philippe Auguste. Como fazem dezesseis anos que li esse autor. de Fra Salimbene (Parma. (108) 0 dia que se faça em sério a história do último século. pág. (113) Achille Luchaire. 376. diz o trovador Giraud de Bornelh. (112) Por isto a estimação do escritor na Espanha é sempre falsa e a rigor mais obra da boa vontade que de sincero entusiasmo. mas com alguma probabilidade dirijo o leitor à que então se intitulava Três ensaios sobre teoria sexual. páginas 94/102). (111) "Só para louvar as damas".htm (139 of 139) [7/11/2001 21:34:39] . não recordo bem em que obra trata o assunto. na França tem o escritor um formidável poder social. Pelo contrário. ver-se-á que essa geração é a efetivamente culpada do desajuste atual da Europa. 1957.

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