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Jorge Montana O local tem o potencial de converter-se em global, a ˙nica 1
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O local tem o potencial de converter-se em global, a ˙nica
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possibilidade de fazer design È sendo local.

Andries Van Onck

¿ Vera, minha esposa, sem cuja colaboraÁ„o e apoio n„o teria sido possÌvel esta jornada

Õndice:

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ApresentaÁ„o - 3 IntroduÁ„o - 4 CapÌtulo 1 ñO local È o Nordeste - 5 CapÌtulo 2 ñO setor do mÛvel e o Design - 10 CapÌtulo 3 ñ Estudo do fator local; procurando identidade -14 CapÌtulo 4 ñ O mÛvel popular - 17 CapÌtulo 5 ñ Fator local a favor - 24 Segunda parte - Da teoria a pr·tica - 27 CapÌtulo 6 ñ A Jangada -28 CapÌtulo 7 ñ Da Jangada ao produto -33 CapÌtulo 8 ñ¿ partir do mÛvel popular espaguete-45 CapÌtulo 9 ñ ¿ partir do folclore - 47 CapÌtulo 10 ñCen·rios - 50 CapÌtulo 11 ñOutros casos - 57 Conclus„o - 63 Bibliografia - 66

ApresentaÁ„o:

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Este trabalho partiu de uma pesquisa das particulares condiÁıes clim·ticas, econÙmicas, sÛcio-culturais, matÈrias primas e sistemas produtivos da zona central do Nordeste do Brasil, Cear· e Pernambuco, e de uma an·lise e aplicaÁ„o de conceitos implÌcitos em artefatos como a rede, o mÛvel popular e a jangada. Com base nesta pesquisa, foram projetados v·rios mÛveis que aproveitam a seu favor este ìfator localî, demonstrando assim, que ‡ partir do ìlocalî, È possÌvel estabelecer um diferencial perceptÌvel a escala global. O

presente texto relata e analisa dito processo teÛrico - pr·tico.

O resultado foi inicialmente apresentado como tese de pÛs-

graduaÁ„o em Design de MÛveis Mercosul, mestrado realizado no ìCentro de DiseÒo Industrialî de MontevidÈu em 2000 e 2001. Com o entusiasta apoio do SindmÛveis-PE e algumas empresas pernambucanas de diferentes portes, a teoria aqui apresentada foi aperfeiÁoada e posta em pr·tica.

A aceitaÁ„o dos produtos derivados desta experiÍncia, em

particular de algumas peÁas da coleÁ„o Jangada - menÁ„o honrosa nos concursos Movelsul 2002 e MCB 2001 - culminou com o lanÁamento destes mÛveis por parte de uma empresa pernambucana na Movelsul 2002. Uma consequente teoria derivada deste trabalho, tem sido expressa em forma de palestras e oficinas pr·ticas, criaÁ„o de outros produtos inÈditos em v·rias empresas moveleiras de Pernambuco, e finalmente, na presente monografia, que pretendo compartilhar, colaborando assim no discurso da identidade no Design.

IntroduÁ„o:

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Apesar de que nos encontramos em um mundo cada vez mais uniformizado em virtude da velocidade das comunicaÁıes e das polÌticas globalizadas, cada regi„o do planeta mantÈm, inclusive dentro de um mesmo paÌs, caracterÌsticas intrÌnsecas, devido aos costumes e cultura de seus habitantes, suas condiÁıes clim·ticas, localizaÁ„o geogr·fica, fatores sÛcio-culturais, condiÁıes econÙmicas, etc.

A arte popular, a arquitetura, os mÛveis e os artefatos s„o muitas vezes exemplos magistrais de adequaÁ„o a estas caracterÌsticas locais.

O designer tem neste tipo de soluÁıes, fontes de sabedoria das quais pode extrair formid·veis liÁıes tornando assim possÌvel desenvolver novos produtos com forte identidade e linguagem prÛprios, adaptados ‡s novas necessidades e mercados. Tomando como ponto de partida tais elementos, distanciados dos modelos tradicionais ou impostos por outras latitudes, È possÌvel de forma desencadeante, lograr um diferencial, sob o qual, futuramente, poder-se-ia falar de mÛveis ou produtos genuinamente prÛprios.

CapÌtulo 1

O local È o Nordeste

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Com ·rea superior a 1,5 milh„o km (18% do territÛrio nacional) o Nordeste abriga 46,5 milhıes de habitantes, quase 30% da populaÁ„o brasileira. A regi„o Nordeste inclui os estados do Maranh„o, PiauÌ, Cear·, Rio Grande do Norte ParaÌba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. As principais metrÛpoles regionais em ordem de import‚ncia econÙmica s„o as cidades de Salvador, Recife e Fortaleza. O Nordeste tambÈm È a regi„o brasileira mais prÛxima dos mercados europeu e norte-americano, o que lhe confere vantagens consider·veis no comercio internacional.

confere vantagens consider·veis no comercio internacional. Nas ˙ltimas quatro dÈcadas, o Nordeste passou de

Nas ˙ltimas quatro dÈcadas, o Nordeste passou de fabricante de

bens tradicionais para produtor de aÁos especiais, produtos eletrÙnicos e petroquÌmicos, barcos, chips, software, calÁados, frutas e flores para consumo interno e exportaÁ„o. A economia da regi„o tambÈm se baseia na agroind˙stria do aÁ˙car e cacau,

e nas plantaÁıes de arroz nos vales ˙midos do Maranh„o.

A regi„o est· investindo pesadamente na modernizaÁ„o da sua

infraestrutura e È hoje um ambiente favor·vel ‡ implementaÁ„o de diversos tipos de empreendimentos.

O setor do turismo tem demonstrado grande potencial, crescendo consideravelmente nos ˙ltimos anos. O Nordeste È a regi„o que mais cresce no Brasil e sua economia j· ultrapassa

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os R$134 bilhıes superando inclusive v·rios paÌses de AmÈrica Latina.

Os estados do Cear· e Pernambuco na regi„o central nordestina disputam a lideranÁa na produÁ„o de mÛveis.

O Cear· abrange uma superfÌcie de 148.016Km2,

equivalente ao 9,6% dos nove estados da regi„o Nordeste e ao 2% do territÛrio brasileiro. Seu litoral estende-se por 573 Km de belas paisagens de inesgot·vel potencial turÌstico, uma

caracterÌstica de toda essa regi„o brasileira. Em seus 184 municÌpios est„o distribuÌdos 6,8 milhıes de habitantes.

est„o distribuÌdos 6,8 milhıes de habitantes. Situado numa regi„o semi-·rida, de clima tÛrrido, e,

Situado numa regi„o semi-·rida, de clima tÛrrido, e, sendo um dos mais pobres estados do paÌs, apresenta no entanto, desde uma dÈcada atr·s, um crescimento maior devido a um projeto administrativo moderno e bem fundamentado, que prioriza a instalaÁ„o de ind˙strias com benefÌcios fiscais em seus 22 distritos e parques industriais j· implantados, ou em processo de implantaÁ„o, dotados pelo governo de toda a infra- estrutura necess·ria.

Em algumas regiıes melhores tratadas pela natureza s„o

produzidas frutas tropicais, carna˙ba, algod„o, pecu·ria de bovinos, ovinos e caprinos. Existe certa industrializaÁ„o para produÁ„o de algod„o (unidades tÍxteis), calc·rio, e pinturas. Ao oeste, a irrigaÁ„o favorece o cultivo do caju, mandioca, algod„o, feij„o, milho, hortaliÁas, cafÈ, e cana de aÁ˙car. Possui ind˙strias de couro, peles, madeira, tÍxteis, cimento e pl·stico.

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Pernambuco, estado fronteiriÁo com o Cear·, est· localizado numa posiÁ„o geogr·fica central e altamente estratÈgica, com cerca de 30 milhıes de consumidores a nÌvel regional, sendo sua capital, Recife, um centro din‚mico de distribuiÁ„o de produtos e serviÁos da regi„o, eq¸idistante de Fortaleza e Salvador. O estado de Pernambuco, respons·vel por 20% do PIB do Nordeste, conta com a melhor infra-estrutura de transportes da regi„o e uma base produtiva bem diversificada.

O desenvolvimento do Cear· na ˙ltima dÈcada logrou que sua capital, Fortaleza, chegasse a ser a quinta cidade do Brasil em populaÁ„o e uma das mais solicitadas para o turismo.

Fortaleza estende-se por 336 Km de ·rea, a 2 graus do equador, ao nÌvel do mar. Conta com uma populaÁ„o aproximada de 2,2 milhıes de habitantes. Os principais atrativos turÌsticos da cidade s„o suas praias contÌguas, algumas de areia de diferentes cores, imensas dunas e nascimentos de mananciais de ·gua doce, onde em suas margens, encontram-se pitorescas e multicoloridas povoaÁıes de pescadores.

Em realidade, a grande Recife, zona metropolitana totalmente emendada, que agrupa as cidades de Paulista, Olinda, Recife e Jaboat„o, supera a Fortaleza em populaÁ„o. Cidade tradicional com muitas universidades e um melhor nÌvel cultural, Recife, pela sua localizaÁ„o estratÈgica È o centro de distribuiÁ„o regional das maiores empresas do Brasil e base de prestaÁ„o de serviÁos, abrigando um dos maiores pÛlos mÈdicos do Brasil, quatro universidades de gabarito, v·rias faculdades independentes e centros de pesquisas que possuem um

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quantitativo de pesquisadores e professores com tÌtulos de mestre e doutor que È mais do dobro do que se encontra em qualquer outro estado do Nordeste . Conta com excelente aeroporto, (atualmente em fase de ampliaÁ„o) detentor da maior pista regional, alÈm de um novo e modernÌssimo porto (SUAPE) a 45 Kms da capital.

1-3 PALETA e CULTURA: A maior parte da regi„o Nordeste encontra-se situada em ·rea equatorial, motivo pelo qual sua luminosidade È bastante forte, o que torna as cores muito brilhantes. Esta luz t„o forte desbota rapidamente o colorido dos mÛveis e construÁıes ‡ intempÈrie, predominando assim as cores pastÈis. A forte brisa marinha ao levantar a areia, causa permanente fricÁ„o contra os objetos que est„o na praia, produzindo interessantes texturas, que podemos apreciar facilmente.

Tratando-se de estados predominantemente secos, n„o observamos, como em outras regiıes tropicais abundante

variedade de vegetaÁ„o. As praias, com suas enormes dunas e

o contraste com o azul do mar e a vegetaÁ„o rala, determina uma gama de cores bem caracterÌstica, composta

primordialmente por v·rios tons de azul, creme, areia, marrons

e verdes. As frutas tÌpicas, coco e o caju, este ˙ltimo, de cor

amarelo ou vermelho com a castanha na parte superior; a abundante fauna nativa, p·ssaros, borboletas e insetos; a variedade de seus tecidos artesanais, especialmente em linho e algod„o; os trabalhos tranÁados em diferentes materiais como palha de carna˙ba, cipÛ, e um rico universo artesanal de

grande diversidade, destacam o Nordeste.

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A grande riqueza desta regi„o È sem duvida nenhuma sua cultura popular, presente na m˙sica, festas e folclore, literatura de cordel, artesanato e artefatos, arquitetura e outras manifestaÁıes.

CapÌtulo 2

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O Setor Do MÛvel e o Design

Concentrando 30% da populaÁ„o brasileira, o Nordeste representa quase 20% do potencial de consumo nacional de mÛveis e artigos do lar. Apenas 20% de todo o mobili·rio consumido no Nordeste È aÌ fabricado; o restante procede principalmente dos pÛlos moveleiros do sudeste e sul do Brasil, onde est· concentrada a produÁ„o.

A maior parte da populaÁ„o vive em zonas urbanas (60.6%). O consumidor nordestino procura principalmente preÁo, porÈm pela acirrada concorrÍncia dos ˙ltimos anos, tambÈm apreendeu a exigir qualidade. Outra caracterÌstica marcante do Nordeste est· associada ao fator poder aquisitivo. O contraste entre ricos e pobres È bem maior que em outras regiıes do Brasil, sendo o Nordeste o campe„o em concentraÁ„o de renda, o que tal vez explique o fato do varejo de mÛveis ter duas concentraÁıes distintas: as das lojas de alta classe e a do varejo popular. O padr„o mÈdio concentra uma estreita faixa do mercado e encontra-se associado ao fato das grandes redes n„o proliferarem na regi„o. O varejo de mÛveis È dominado pelas redes regionais. Diferentemente do sul, onde se praticam prazos mais curtos para obter preÁos melhores, no Nordeste os prazos mÈdios do varejo s„o de 120 dias, em funÁ„o das caracterÌsticas j· mencionadas.

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O setor de produÁ„o do mÛvel, com contadas exceÁıes

ainda È bastante prec·rio no Nordeste. O Cear·, seguido por Pernambuco, È o principal produtor da regi„o, embora com uma parcela pouco significativa do mercado. Pernambuco atÈ os anos 80s era o principal produtor da zona, quando atendia majoritariamente seu mercado interno e regional; ‡ partir desta dÈcada atÈ agora, devido a forte concorrÍncia de empresas mais competitivas dos estados do sul do Brasil, e de polÌticas fiscais errÙneas(atÈ hoje o ICMS È 5 pontos maior que o dos estados do sul para os mÛveis locais), o estado viu sua competitividade seriamente afetada, o que ocasionou o fechamento da maior parte das f·bricas tradicionais de mÛveis. Os principais pÛlos moveleiros nordestinos, localizam-se no interior do estado de Cear·, nas cidades de Marco e Bela Cruz, onde s„o elaborados mÛveis de madeira, e em Iguat˙, onde se fabricam principalmente mÛveis tubulares. Em Pernambuco alÈm da regi„o metropolitana de Recife, destacam-se as cidades de Gravat·, Lajedo e Afogados .

As matÈrias-primas, quase todas elas, s„o origin·rias de outros estados; a madeira, da regi„o amazÙnica, que fica relativamente perto, e tambÈm do Paraguai e sul do paÌs. J· se comeÁam a fabricar mÛveis em eucalipto cultivado, produzido no sul da Bahia.

¿ exceÁ„o do algod„o, utilizado para tecidos e redes e

manufaturado por importantes empresas que exportam a maior parte da produÁ„o, o Nordeste n„o conta com matÈrias primas prÛprias a escala industrial, embora qualquer insumo ingresse facilmente via marÌtima ou terrestre. Isso implica um alto sobre-custo, j· que a maioria das peÁas, especialmente de

matÈrias primas semi-processadas vem do sul.

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Um fator pouco estudado ou mesmo ignorado com respeito ao mobili·rio È a sua inter-relaÁ„o com os fatores clim·ticos; as altas temperaturas, umidade relativa, insetos, pragas e alta maresia, s„o fatores que afetam dramaticamente

a durabilidade e praticidade do mÛvel.

2-1 DESIGN NO NORDESTE :

O Nordeste conta com poucas faculdades profissionais de Design, localizando-se estas em Campina Grande (cidade da

ParaÌba), Recife, S„o LuÌs e Salvador; no entanto È muito pobre

a participaÁ„o dos profissionais de Design Industrial dentro do setor produtivo. Observa-se ainda n„o existir uma vinculaÁ„o direta das universidades com a ind˙stria. O Design, a nÌvel empresarial, È bastante prec·rio, e, com raras exceÁıes, utilizado. A quase totalidade dos mÛveis produzidos nestes estados corresponde a cÛpias.

No Cear·, a participaÁ„o dos designers, È inexistente, assim tambÈm como o real interesse do empresariado local em implement·-lo. Os empres·rios cearenses normalmente copiam os lanÁamentos efetuados nas feiras do sul e do exterior com minguadas mudanÁas ou trabalham com modelos determinados pelos clientes. Pernambuco possui a faculdade de design mais antiga da regi„o, e em Recife, encontram-se operando reconhecidas empresas de design (especialmente nas ·reas visual e de embalagem) e uma tradicional AssociaÁ„o de Designers. O Sindicato de MÛveis do estado pernambucano, organiza anualmente um concurso de Design do MÛvel na procura de novos talentos dentro da feira regional denominada ìUtimÛveisî.

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Levando em conta todos estes aspectos, pode-se afirmar, que Pernambuco, a nÌvel de Nordeste, È o estado mais vi·vel em termos de implementaÁ„o de programas e aÁıes efetivas de Design.

NOTA: Esta an·lise n„o inclui o estado da Bahia pois a pesquisa foi feita na regi„o central do Nordeste.

CapÌtulo 3

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Estudo do Fator Local: procurando identidade

A soma das caracterÌsticas e dificuldades do setor de mÛveis e design, sempre inspirado na concorrÍncia ou no mercado alto, e pendente das ìtendÍnciasî de Mil„o, n„o tem dado um resultado apreci·vel em termos de desenvolvimento, muito pelo contr·rio, a participaÁ„o vem decrescendo em termos comparativos com outras regiıes, com melhores vantagens competitivas. … necess·rio procurar uma linguajem prÛpria; a soluÁ„o est· em procurar os prÛprios caminhos. A discuss„o sobre identidade pode parecer ultrapassada em um mundo globalizado, onde as necessidades e desejos de consumo

da populaÁ„o parecem estar-se uniformizando, mas na verdade,

e devido a isso mesmo, È que esta discuss„o toma de novo

radical import‚ncia, j· que tal uniformidade, em volume, È causadora da guerra de preÁos em meio a acirrada concorrÍncia, esquecendo-se aÌ as caracterÌsticas regionais e culturais do consumidor, e principalmente, a sua necessidade de identificaÁ„o com o objeto comprado, como de fato acontece no setor de moda (vestu·rio).

A identidade do produto nasce, em primeira inst‚ncia, do fator

adaptaÁ„o, pois as matÈrias-primas, processos e mercado especÌfico de cada f·brica v„o moldando as caracterÌsticas dos seus mÛveis. A identidade comeÁa a aparecer quando estes fatores locais se fazem conscientes e se tornam pontos fortes.

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SÛ que neste ponto n„o basta ser competitivo, È necess·rio

tambÈm ser criativo para fazer evidentes estas fortalezas,

dando personalidade, alma e car·ter ao produto para que este

chame a atenÁ„o do consumidor. Se quisermos que esta

identidade se transforme em vendas e lideranÁa, precisamos

tornar consciente, de maneira quase cientÌfica, os fatores locais.

Estes, in˙meras vezes encontram-se na volta da esquina, nos

produtos anÙnimos da cultura popular, naqueles que continuam

anÙnimos da cultura popular, naqueles que continuam SÛ o tradicional carro de boi consegue entrar no

SÛ o tradicional carro de boi consegue entrar no pedregoso sert„o nordestino.

vigorando atravÈs dos sÈculos. Por que objetos como a jangada

nordestina, o chapÈu de vaqueiro, o gib„o e o carro de boi,

elementos tÌpicos do Nordeste, regi„o pobre em recursos,

porÈm rica em cultura popular, ainda vem sendo fabricados e

utilizados como antigamente?

A resposta est· nos seus sistemas de produÁ„o com matÈrias-

primas locais, na sua adaptaÁ„o ao meio e clima, no

aproveitamento das habilidades da m„o-de-obra local e mais

que tudo, na perfeita funcionalidade aperfeiÁoada ao longo de

geraÁıes.

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Muitos destes produtos contÈm implÌcitas aulas

magistrais de bom design que est„o disponÌveis para aplicar em

novos produtos.

¿ continuaÁ„o uma an·lise de alguns destes elementos

demonstrando com exemplos pr·ticos, como estes fatores locais

podem ser aplicados em novos produtos adaptados ‡s

condiÁıes locais do Nordeste.

produtos adaptados ‡s condiÁıes locais do Nordeste. Fotos feitas na feira de Lajedo no agreste pernambucano.
produtos adaptados ‡s condiÁıes locais do Nordeste. Fotos feitas na feira de Lajedo no agreste pernambucano.
produtos adaptados ‡s condiÁıes locais do Nordeste. Fotos feitas na feira de Lajedo no agreste pernambucano.

Fotos feitas na feira de Lajedo no agreste pernambucano. O sert„o nordestino tem muitas empresas artesanais que fabricam artefatos desenvolvidos para a atender as necessidades especÌficas do habitante destas regiıes. Necessidades estas, n„o compreendidas pela ind˙stria tradicional.

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CapÌtulo 4 O mÛvel popular

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O mÛvel popular, de origem incerto e autores anÙnimos,

fabricado localmente por micro-empresas e artes„os, È

perfeitamente adaptado ‡s necessidades e ao meio que o

produz. Por isso torna-se uma excelente fonte de inspiraÁ„o.

Ao chegar anos atr·s a Fortaleza, no Cear·, me chamou

poderosamente a atenÁ„o uma cadeira, tosca e simples, porÈm

muito confort·vel, e que abundava na cidade, especialmente

em escritÛrios e locais de atenÁ„o ao p˙blico. A cadeira

conhecida localmente como Palhinha, parece ser um hÌbrido

entre a cadeira Cesca de Marcel Breuer e uma tradicional

cadeira de quatro pÈs. Consiste em duas molduras de madeira

para encosto e assento com palhinha, e uma estrutura de

quatro pÈs em ferro. O produto equivale no design aos

cachorrinhos vira-latas que, com pais de diferentes raÁas, e

ainda sendo muito feios, tornam-se atrativos pela sua

personalidade.

Tal cadeirinha, ao meu modo de ver, È um dos mais

representativos elementos de adaptaÁ„o ‡s condiÁıes

cearenses. Ela representa um dos fatores claves do design: a

adaptaÁ„o do produto ao meio, aos materiais e ao sistema de

produÁ„o local. Jamais figurar· nos livros de design e do ponto

de vista formal parece imperfeita. No entanto seu preÁo e

comodidade a fazem muito competitiva.

entanto seu preÁo e comodidade a fazem muito competitiva. Cadeiras de palhinha ‡ venda no centro

Cadeiras de palhinha ‡ venda no centro de Fortaleza.

Cadeiras de palhinha ‡ venda no centro de Fortaleza. Cadeiras espaguete ‡ venda no interior de

Cadeiras espaguete ‡ venda no interior de Pernambuco.

Como as cidades da regi„o Nordeste caracterizam-se

pelo clima seco e temperatura tropical, as cadeiras e sof·s

acolchoados, ‡ temperatura ambiente, nem sempre s„o

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confort·veis, j· que a espuma e os tecidos estimulam o suor,

dificultando a limpeza e gerando mau odor.

A simplÈrrima e ventilada cadeira "palhinha" È

eminentemente urbana, utilizada sobretudo em escritÛrios,

repartiÁıes e zonas de atenÁ„o ao p˙blico, apesar de sua

origem ser residencial (cadeira de sala de jantar), como

veremos mais adiante.

Este mesmo conceito de ventilaÁ„o o encontramos em

outro tipo de cadeiras: as chamadas espaguete, e na tradicional

rede.

4-1-1 A ìPALHINHAî - AN£LISE HIST”RICA

A palhinha, vime ou cana da Õndia È um material muito

antigo; podemos referenci·-lo como aquele usado nas linhas de

cadeiras de Tonet para assento e encosto. No entanto, a

palhinha È muito mais antiga, chegando ao Brasil com os

portugueses, e tornando-se um material muito tradicional no

mÛvel nacional. Foi retomada com muita forÁa nos anos 50s e

60s, combinada com madeira, por personagens como o artista

e os famosos arquitetos

Niemayer e SÈrgio Rodrigues.

e designer Joaquim Tenreiro,

A cadeira confeccionada com palhinha, e de maior

categoria para mercados mais altos, teve seu auge atÈ a dÈcada

de 60, ‡ partir da qual decaiu especialmente nos mÛveis de

estratos altos, provavelmente por caprichos da moda e

popularizaÁ„o de mÛveis de pl·stico e sof·s com espuma.

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de mÛveis de pl·stico e sof·s com espuma. 19 Cadeira de Palhinha Jockey por SÈrgio Rodrigues,

Cadeira de

Palhinha Jockey

por SÈrgio

Rodrigues,

produzida nos

anos 50¥s.

Jorge Montana

4-1-2. A CADEIRA PALHINHA

A cadeira de palhinha, abundante no Nordeste do Brasil,

especialmente em Fortaleza, tem sua origem num modelo

muito similar ao atual desenhado ent„o para uso residencial.

Esta cadeira podemos vÍ-la na foto tomada de um cat·logo de

1954 da f·brica Unilabor cujos mÛveis eram projetados por

Geraldo de Barros. Foi produzida originariamente com destino

ao lar, mas seu uso se estendeu a escritÛrios e repartiÁıes,

onde

foi

definitivamente bem mais

amplo.

onde foi definitivamente bem mais amplo. AtÈ o dia de hoje È vendida e produzida quantidades.

AtÈ o dia de hoje È vendida e produzida

quantidades.

em grandes

Os materiais destas cadeiras, s„o o vime tranÁado(agora

tambÈm em vers„o com perfil pl·stico), madeira e tubos

20

A mais famosa de todas as cadeiras em palhinha : a Tonet.

20 A mais famosa de todas as cadeiras em palhinha : a Tonet. Na foto central,

Na foto central, ‡ direita, a cadeira de palhinha na vers„o original para ·rea de refeiÁıes, do cat·logo da Unilabor. Embaixo, a vers„o cearense cinq¸enta anos depois.

original para ·rea de refeiÁıes, do cat·logo da Unilabor. Embaixo, a vers„o cearense cinq¸enta anos depois.

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quadrados, que podem ser adquiridos facilmente em qualquer localidade. Isto, somado ao seu baixo preÁo, comodidade e praticidade, a fazem um autÍntico best-seller do mÛvel.

Embora siga sendo produzida e distribuÌda desde o sul do Brasil, especificamente para o Nordeste, inumer·veis empresas locais tambÈm as est„o produzindo em diferentes versıes: corrente e giratÛria em v·rios tamanhos.

Assim foi como uma cadeira projetada em S„o Paulo para sala de jantar nos anos 50¥s foi o modelo de inspiraÁ„o para a cadeira mais popular vendida em Fortaleza atÈ os dias de hoje.

4-1-3 CADEIRAS ESPAGUETE

em Fortaleza atÈ os dias de hoje. 4-1-3 CADEIRAS ESPAGUETE Os mÛveis em mangueirinha ou tubo

Os mÛveis em mangueirinha ou tubo de pl·stico (espaguete) s„o elaborados sobre estruturas de vergalh„o,

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comumente com design popular. Inumer·veis modelos de

cadeiras, poltronas e cadeiras de balanÁo espalham-se ao longo

de toda AmÈrica Latina, a maior parte delas elaboradas em

pequenas oficinas artesanais. A cadeira italiana espaguete, um

dos cl·ssicos do design, com sua estrutura em tubo de ferro

cromado, com assento e espaldar em pl·stico tubular, est·

provavelmente inspirada neste tipo de cadeiras que tanto

abundam nas regiıes quentes latino-americanas.

Diferentemente da "palhinha", a cadeira espaguete È

eminentemente rural e popular. CaracterÌstica de povoados e

cidades pequenas, onde s„o colocadas nos terraÁos e atÈ

calÁadas das casas, È comumente utilizada para descanso ou

lazer, j· que seu material flexÌvel amolda-se perfeitamente ao

corpo. Cadeiras espaguete s„o encontradas em diferentes

versıes, sendo mais populares as poltronas e as de balanÁo.

4-1-4 A REDE

A rede È

pelos

antiq¸Ìssima. De origem

indÌgenas

muito

um

aporte

antes

os tomates e

americana, j· era

dos

americano ao mobili·rio, t„o

utilizada

europeus; foi

importante, como o foram

culin·ria.

da

chegada

as batatas

Consistente num ret‚ngulo de tecido de algod„o,

pendurado em suas duas extremidades, È utilizada para

repousar e dormir. AtÈ bem entrado o sÈculo XX com a

introduÁ„o da espuma de poliuretano que permitiu elaborar

colchıes confort·veis, foi a cama da maioria dos habitantes das

zonas tropicais americanas e de fato se mantÈm cumprindo

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zonas tropicais americanas e de fato se mantÈm cumprindo 22 Primeira ilustraÁ„o da rede, tomada do
zonas tropicais americanas e de fato se mantÈm cumprindo 22 Primeira ilustraÁ„o da rede, tomada do
zonas tropicais americanas e de fato se mantÈm cumprindo 22 Primeira ilustraÁ„o da rede, tomada do
zonas tropicais americanas e de fato se mantÈm cumprindo 22 Primeira ilustraÁ„o da rede, tomada do

Primeira ilustraÁ„o da rede, tomada do livro:

ìHistÛria general de las Indiasî de Fernando Gonz·les Oviedo 1514

este labor sobretudo nos lares humildes das equatoriais.

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zonas tÛrridas

Todas estas cadeiras anteriormente mencionadas, com exceÁ„o da rede, compartilham espaÁo e mercado com cadeiras de pl·stico injetado, que, apesar de baratas, em muitos casos n„o s„o adequadas a seu uso, atestando uma feia velhice e partindo-se com facilidade, ademais de serem poluentes ao final de sua vida ˙til.

4-2-

PAR¬METROS

mÛvel popular:

DO

PROJETO,

ditados

pelo

O estudo do fator local no mÛvel popular permite determinar os principais par‚metros necess·rios para novos produtos adaptados ‡s condiÁıes locais. Sua transposiÁ„o na concepÁ„o destes novos produtos, È o resultado da an·lise feita anteriormente.

¿ seguir, a relaÁ„o destes par‚metros:

- AdequaÁ„o ao clima c·lido tropical.

-ElaboraÁ„o em materiais de f·cil consecuÁ„o, matÈrias primas abundantes. (n„o obrigatoriamente prÛprias do lugar)

-Tecnologia simples para sua fabricaÁ„o.

-Durabilidade

-Facilidade de limpeza

-Facilidade de reparaÁ„o

-Uso vers·til

-Baixo peso.

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-Aproveitamento da habilidade do nordestino em tecer e tranÁar materiais.

4-2: MERCADO.

O mercado natural para um projeto de fator local no Nordeste, È inicialmente toda a regi„o tropical do paÌs, pois apresenta em tÈrminos gerais as mesmas caracterÌsticas b·sicas: clima, tipo de consumidores, etc. Juntando todos estes estados, eles n„o chegam a produzir o 6% da totalidade dos mÛveis brasileiros. Como j· foi mencionado, a agressividade, a vocaÁ„o produtiva, e as economias de escala das grandes empresas dos estados do sul, fazem que os mÛveis desta regi„o dominem o mercado. Por isso mesmo, parece ser adequado pensar que as empresas nordestinas, em lugar de concorrerem com os mesmos mÛveis, devem adaptar-se e apropriar-se das condiÁıes locais para aproveit·-las a seu favor, com projetos que levem em conta o fator local, impresso nos mÛveis atravÈs da cultura popular ou do entorno.

Um mercado possÌvel È o exterior, j· que um mÛvel que aporte um diferencial em seu design, determinado por fatores locais e especÌficos da regi„o, n„o deixa de apresentar forte conte˙do Ètnico, que conquista clientes em outros paÌses. Os mÛveis dever„o aproveitar o fator local a favor.

CapÌtulo 5

Fator Local A Favor

Jorge Montana

O mÛvel popular local alÈm de estar perfeitamente adaptado ‡s necessidades locais, È produzido com tÈcnicas e matÈrias primas abundantes, os materiais de uma cadeira de palhinha ou de espaguete podem ser adquiridos em qualquer depÛsito de construÁ„o. Por isto um projeto de mÛvel ‡ partir do fator local n„o deve estar superditado a grandes investimentos para sua produÁ„o. Vejamos como, por exemplo, alguns dos fatores que agora s„o problemas que atentam contra a qualidade e preÁo do mÛvel produzido no Cear·, Pernambuco ou ParaÌba, podem jogar a favor.

1) Problema: Falta de fornos para secagem da madeira

SoluÁ„o do projeto local: Uso de madeira cultivada de Eucalipto produzida na Bahia (estado do Nordeste); esta madeira È entregue semiprocessada, completamente seca e prÈ-cortada.

2) Problema: Falta de espuma de v·rias densidades, alto custo do poliÈster espumado pela falta de produÁ„o local e seu alto volume em transporte. Estes fatores somados ao calor fazem que sof·s e poltronas locais tenham baixo nÌvel de conforto.

SoluÁ„o: Produzir poltronas sem espuma j· que esta n„o È adequada ao calor, tomando o exemplo da rede, e das cadeiras de vime e espaguete.

Jorge Montana

3) Problema : ConcorrÍncia desigual com empresas externas que por seu tamanho e mercado nacional ou global, detÈm altas economias de escala de produÁ„o.

SoluÁ„o: Em lugar de competir contra estas empresas oferecendo seus mesmos produtos, estudar o fator local para criar produtos que atendam os problemas locais. Futura expans„o em territÛrios (nacionais e internacionais) que atestem similares problemas para os quais nossa soluÁ„o seja adequada. Atender setores com melhor capacidade aquisitiva que paguem a diferenÁa que oferece o produto adequado ao fator local.

4) Problema: MatÈrias-primas importadas do sul a altos custos pelos fretes.

SoluÁ„o: Aproveitar as matÈrias-primas locais ou aquelas abundantes por seu alto consumo noutros setores.

5) Problema: MÛveis em aglomerado que se incham devido o alto grau de umidade, mau odor dos sof·s, ataques de cupins aos de madeira leve, alta salinidade do ar que oxida os metais.

SoluÁ„o: SeleÁ„o de matÈrias-primas adequadas a estes fatores locais.

6) Problema: M„o de obra que desconhece as

tÈcnicas de produÁ„o de mÛveis convencionais e est·

treinada

manufatura de redes, bordados e confecÁıes.

em outras atividades como a pesca, a

SoluÁ„o:

Realizar

habilidades citadas.

projetos

que

aproveitem

as

Jorge Montana

7) Problema: Pouco h·bito de compra de mÛveis j· que se privilegia o exterior ao interior das casas.

SoluÁ„o:

Projetar

mÛveis

externas ou port·teis.

adequados

a

atividades

O anteriormente exposto trata apenas de alguns exemplos de an·lise do produto e de seu mercado, com base no fator local. Tal an·lise, e sua posterior aplicaÁ„o, torna-se um dos principais fatores para o Íxito de uma empresa e de um produto. Ainda que n„o solucione todos os problemas, nos abre um caminho para a diferenciaÁ„o, que È, em sÌntese, o que mantÈm e faz crescer uma empresa.

Podemos dizer que os produtos dados como exemplos, e que acompanham este informe, levam em conta estes e outros par‚metros de mercado, estando enfocados inicialmente ‡ classe mÈdia e mÈdia alta dos centros urbanos do Nordeste e regiıes com condiÁıes clim·ticas similares.

O estudo do fator local nos proporciona os par‚metros em direÁ„o a um conceito diferente, que pode redundar em projetos com design inovador.

Segunda Parte

Da Teoria ‡ Pratica

Jorge Montana

V·rios s„o os possÌveis caminhos, para a geraÁ„o de produtos com base no fator local. Veremos detalhadamente trÍs exemplos:

1-¿ partir dos artefatos: coleÁ„o jangada

2-¿ partir do mÛvel popular: cadeira espaguete

3-¿ partir do folclore(Lampi„o): linha CangaÁo

CapÌtulo 6

A Jangada

Jorge Montana

Elemento tÌpico e representativo do Nordeste, desde Alagoas atÈ o Cear·, trata-se de uma pequena embarcaÁ„o de pesca de origem remota. A jangada de madeira, com casco quase plano adequado ‡s fortes ondas do mar, era atÈ vinte anos atr·s, feita em toras maciÁas, geralmente de pi˙ba, madeira importada do Par·; atualmente s„o elaboradas com t·buas (bordos, meios e minbur·) deixando uma c‚mara de ar no seu interior. As mais pequenas, de um tempo para c·, apresentam aÌ pranchas em isopor, o que as torna insubmergÌveis. Sua vela È triangular (latina) e o mastro È assegurado a um cavalete (banco do mastro) que permite mudar a posiÁ„o. V·rias cavidades na base deste cavalete (carlinga) sustentam este mastro na posiÁ„o desejada. Na parte superior do banco do mastro existe um buraco (enora), no qual passa o mastro, onde se articula o suporte horizontal da vela. Dois suportes cÙnicos de madeira em sua parte posterior (espetes) permitem amarrar a vela a bordo ou estibordo. Entre estes suportes e o mastro localiza-se um banquinho para o pescador (banco do mestre) e um espaÁo para uma cesta grande onde È colocada a pesca (sambur·). Nas jangadas maiores que podem permanecer v·rios dias em alto mar, a cesta È substituÌda por uma caixa de maior tamanho. No interior do casco bem estreito, podem dormir os tripulantes. ¿ modo de quilha, para manter o equilÌbrio em alto mar, utiliza- se uma enorme t·bua (bolina) que se enfia numa abertura bem no meio da jangada (casa da bolina).

29

mar, utiliza- se uma enorme t·bua ( bolina ) que se enfia numa abertura bem no
mar, utiliza- se uma enorme t·bua ( bolina ) que se enfia numa abertura bem no
mar, utiliza- se uma enorme t·bua ( bolina ) que se enfia numa abertura bem no
mar, utiliza- se uma enorme t·bua ( bolina ) que se enfia numa abertura bem no

Jorge Montana

A ‚ncora das jangadas, de forma piramidal, tambÈm elaborada

em madeira, contÈm no seu interior um espaÁo no qual se coloca uma pedra ou pesos met·licos.

… interessante fazer uma an·lise etimolÛgica dos nomes das

peÁas das jangadas; algumas delas tem origem ibÈrica (escota,

carlinga, espete, bolina), outras, indÌgena (aracaÁanga, tauaÁu, atap˙, sambur·) e atÈ mesmo africana (quimang·), o que demonstra como a jangada È fruto da mistura das trÍs culturas.

A jangada È feita totalmente ‡ m„o, por mestres especialistas

que aprendem o ofÌcio de geraÁ„o em geraÁ„o. As ferramentas b·sicas na fabricaÁ„o s„o machado e serrote, e a ˙nica ferramenta elÈtrica utilizada È a furadeira, que facilita a colocaÁ„o de tarugos de madeira, j· que a jangada n„o leva pregos na sua construÁ„o.

j· que a jangada n„o leva pregos na sua construÁ„o. ¬ncora de uma jangada As proporÁıes

¬ncora de uma jangada

As proporÁıes e relaÁıes geomÈtricas entre as diferentes peÁas

s„o a clave da perfeita navegabilidade e tambÈm da beleza da

embarcaÁ„o. Estas proporÁıes s„o respeitadas em todos os tamanhos de jangadas que v„o deste 3 atÈ 10 metros de cumprimento. (Ver gr·fico).

O mestre jangadeiro, alÈm de ser Ûtimo marceneiro, È

especialista em trabalhar com fios de nylon e cordas que utiliza para segurar firmemente os diferentes componentes da jangada. Na segunda metade do sÈculo XX devido a adaptaÁ„o de novos materiais, a jangada teve um determinante aperfeiÁoamento tÈcnico e funcional. O isopor melhorou a seguranÁa e flutuabilidade, fazendo a embarcaÁ„o mais leve e conseq¸entemente mais r·pida; novas cordas de fibras em pl·stico, substituÌram as anteriores de sisal que perdiam suas caracterÌsticas com a umidade. Tubos de PVC envolveram o

30

Jorge Montana

mastro nas partes que levam atrito substituindo peÁas de flange que se enferrujavam e ofereciam perigo de corte ao marujo.

A Jangada continua evoluindo aos poucos, sua permanÍncia, por sÈculos de aperfeiÁoamento, a torna uma das magistrais peÁas de Design autÛctone brasileiro.

Jorge Montana

Uma an·lise geomÈtrica da jangada surpreende pela perfeiÁ„o das proporÁıes, dadas sem d˙vida, por fatores pr·ticos derivados da efetividade na navegaÁ„o. A jangada insere- se num ret‚ngulo perfeito dado pela soma de dois quadrados; a quarta parte desse quadrado (a) È um mÛdulo b·sico que se encontra repetidamente. A proporÁ„o ·urea dos antigos gregos, esta presente neste artefato.

3A 3A 8A 4A 2A A A
3A
3A
8A
4A
2A
A
A

4A

32

AS PARTES DA JANGADA

Jorge Montana

IlustraÁıes tomadas do livro: El DiseÒo en la Periferia. De Gui Bonsiepe.

Este designer alem„o que j· trabalho muito em AmÈrica Latina, foi o primeiro a analisar a Jangada:

ìNeste desenho vern·culo se condensam largas experiÍncias que levam a soluÁıes exemplaresî.

se condensam largas experiÍncias que levam a soluÁıes exemplaresî. articulaÁ„o da vela banco do mastro 33

articulaÁ„o da vela

banco do mastro

33

ancora

CapÌtulo 7

Jorge Montana

Da Jangada ao Produto.

7-1 ¿ primeira vista n„o parece existir muita relaÁ„o entre um barco e uma cadeira. No entanto, esta pode fazer-se evidente se pensarmos nos dois elementos a nÌvel de estruturas, uma para velejar, a outra para suportar o usu·rio sentado. Este fator de equivalÍncia levou ‡ constataÁ„o de v·rios elementos interessantes que foram analisados e retomados no presente projeto, tais como:

-Encaixes cÙnicos por press„o das diferentes partes, sem uso de pregos, j· que eles se oxidam e se afrouxam em alto mar. No caso de uma cadeira, os pregos tambÈm se desajustam com o uso. A terminaÁ„o cÙnica funciona melhor quanto maior seja a press„o. O ponto fraco desta uni„o d·-se na parte externa do cone, onde, na jangada, È solucionado pelas cordas que s„o tencionadas para baixo do banco e do cavalete. Este elemento de tens„o dever· tambÈm se fazer presente na cadeira que tenha este tipo de uni„o.

est„o

sujeitos ao piso da jangada devido a que a estrutura destes

elementos È trapezoidal e fechada. Uma estrutura trapezoidal

similar em uma cadeira ou poltrona seria interessante. foto 5)

(ver

-

Os pÈs ou suportes do cavalete e do banco

- A vela na jangada pode ser solta com facilidade; uma capa de cadeira, desmont·vel e lav·vel, seria muito pr·tica. A opÁ„o de desmonte seria vi·vel para a totalidade da cadeira pois isto facilita sua venda e transporte.

Jorge Montana

- O mastro da jangada tem mobilidade em v·rios

‚ngulos, sendo suportado atravÈs de v·rios furos que se localizam no ch„o dentro do ìbanco do mastroî. Em uma cadeira com estrutura trapezoidal similar, se poderia lograr a possibilidade de optar por v·rios pontos de inclinaÁ„o de encosto e assento em forma simult‚nea. (foto)

Os elementos anteriormente especificados e detalhados, de por si, geram produtos com uma estÈtica prÛpria, a qual est· totalmente baseada na funcionalidade. Totalmente desarm·veis, as cadeiras Jangada possuem sua estrutura elaborada em madeira de eucalipto cultivado e encosto em tecido de rede ou lona. Produtos da linha apresentar„o alternativas de assento em palhinha ou madeira. Planejada para diferentes espaÁos habit·veis, trata-se de uma linha bastante adequada n„o apenas para zonas litor‚neas como tambÈm zonas c·lidas em geral.

7-1-2 Par‚metros de Design tomados da jangada

-

SeleÁ„o de madeira e tecido como materiais

do

produto.

- Estrutura trapezoidal.

-

Estrutura vertical de seÁ„o circular com arremate

cÙnico.

-

SujeiÁ„o vertical para n„o deixar sair os arremates

cÙnicos.

- Possibilidade de articulaÁ„o do encosto similar ‡ da vela da jangada.

Jorge Montana

- Acabamento r˙stico desgastado (jato de areia).

- Tri‚ngulo da vela como proposta formal.

- Encosto e/ou assento em tecido desmont·vel.

7-1-3 Par‚metros de Design tomados da vela e da

rede:

- Uso de tecido de algod„o.

- Frescura do tecido.

- Portabilidade.

-Possibilidade de lavado.

7-1-4 Par‚metros de Design tomado

do mÛvel popular

-Assento de palhinha

de Design tomado do mÛvel popular -Assento de palhinha Poltrona Enora, da coleÁ„o Jangada, desmontada. 7-1-4:

Poltrona Enora, da coleÁ„o Jangada, desmontada.

7-1-4: Mercado: Classe mÈdia de zonas de clima

quente. Possibilidades futuras de exportaÁ„o, devido ao baixo

peso e volume.

7-1-5: Produto: COLE« O JANGADA

Os resultados ‡ continuaÁ„o, correspondem ‡ origem de

uma coleÁ„o de cadeiras, mesas, estantes e poltronas

inspiradas nesta embarcaÁ„o. Inicialmente pensou-se ilustrar

este trabalho unicamente com uma poltrona, no entanto, a

riqueza conceptual da jangada foi gerando v·rias alternativas,

que acumuladas, formaram uma coleÁ„o. Para efeito de

36

Jorge Montana

avaliaÁ„o de resultados, foram elaborados inicialmente trÍs

protÛtipos em madeira ìLyptusî com algumas peÁas torneadas,

predomÌnio de encaixes cÙnicos com amarre vertical atravÈs de

de encaixes cÙnicos com amarre vertical atravÈs de Poltrona Enora e cadeira TauaÁu, encima de uma
de encaixes cÙnicos com amarre vertical atravÈs de Poltrona Enora e cadeira TauaÁu, encima de uma

Poltrona Enora e cadeira TauaÁu, encima de uma Jangada. Visualiza-se com clareza a origem conceitual.

parafuso de aÁo inoxid·vel ou bronze. Os mÛveis desta coleÁ„o

podem ser montados por pessoas inexperientes, j· que

dispensam de colas e prensados; todos os produtos s„o

desmont·veis. A coleÁ„o jangada consta dos seguintes mÛveis:

Poltrona Minbur·

Poltrona Enora (gradu·vel)

Cadeira TauaÁu

Mesas de jantar

Mesas de centro de sala.

Mercado: Classe mÈdia de zonas de clima quente.

Possibilidades futuras de exportaÁ„o, devido ao baixo peso e

volume.

37

Jorge Montana

Uso: residencial e institucional (hotÈis, pousadas e

restaurantes de climas quentes).

ComprovaÁ„o: A totalidade das cadeiras foram

premiadas. A poltrona Enora ganhou MenÁ„o Honrosa no XV

PrÍmio Museu da Casa Brasileira 2001. A poltrona Minbur· foi

MenÁ„o Honrosa no concurso de design Movelsul 2002 e a

cadeira TauaÁu, MenÁ„o Honrosa no concurso Expodema na

Argentina. A coleÁ„o completa foi finalista no concurso Design

Movelsul 2002.

A coleÁ„o Jangada entrou em produÁ„o pela

empresa

pernambucana Kakakis MÛveis, a meados de 2002.

pela empresa pernambucana Kakakis MÛveis, a meados de 2002. Poltrona Minbur· da coleÁ„o Jangada. A poltrona

Poltrona Minbur· da coleÁ„o Jangada. A poltrona desmontada cabe em um pequeno saco, j· desmonta-se em peÁas soltas. MenÁ„o Honrosa Sal„o Design Movelsul 2002 * patente requerida

38

Jorge Montana

Jorge Montana 39 Mesa e cadeiras TauaÁu da ColeÁ„o Jangada. MenÁ„o Honrosa Expodema 2001- Argentina *
Jorge Montana 39 Mesa e cadeiras TauaÁu da ColeÁ„o Jangada. MenÁ„o Honrosa Expodema 2001- Argentina *
Jorge Montana 39 Mesa e cadeiras TauaÁu da ColeÁ„o Jangada. MenÁ„o Honrosa Expodema 2001- Argentina *

39

Mesa e cadeiras TauaÁu da ColeÁ„o Jangada. MenÁ„o Honrosa Expodema 2001- Argentina * patente requerida

Mesa de sala Jangada.

* patente requerida

Poltrona Enora: Os principais elementos da jangada s„o reinterpretados numa cadeira que conserva o espÌrito da embarcaÁ„o. MenÁ„o Honrosa XV PrÍmio Museu da Casa Brasileira.

* patente requerida

CADEIRA TAUA«U(*):

Jorge Montana

a d b c Na figura podemos ver um gr·fico desta cadeira, inspirada na jangada
a
d
b
c
Na figura podemos ver um gr·fico desta cadeira, inspirada na jangada
nordestina:
a-
Encosto em tecido entre duas peÁas de madeira com inspiraÁ„o no mastro e
na vela.
b-
PeÁa de amarraÁ„o entre pÈs e assento; os pÈs entram dentro desta peÁa
que apresenta furos cÙnicos e um parafuso de tens„o que fica preso ao
assento; a inspiraÁ„o vem do banco do mastro.
c-
ReforÁos horizontais; estas peÁas tambÈm tem encaixe cÙnico.
d-
Assento: A forma e o material inspiram-se no formato do casco da
jangada.

A cadeira È totalmente desmont·vel, o que facilta sua exportaÁ„o e transporte. Elaborada em madeira Lyptus com encosto em tecido de algod„o ou couro; acabamento com verniz PU. Medida montada : 90x48x45 Medida desmontada: 45x60 x7

*Patente requerida

Jorge Montana

POLTRONA MINBUR£(*) b d c
POLTRONA MINBUR£(*)
b
d
c

a

Na figura, podemos ver um gr·fico desta poltrona inspirada na jangada

nordestina:

a- Encosto em tecido entre duas peÁas de madeira com inspiraÁ„o no mastro e na vela

b- Estrutura lateral ‡ partir da an·lise dos espetes do banco do leme da popa da jangada.

c- PÈ de apoio, ‡ partir dos mesmos elementos.

d- ReforÁos horizontais, com encaixe cÙnico, tais como nas peÁas da jangada.

Esta poltrona conta com seu respectivo banquinho para os pÈs. … totalmente desmont·vel em peÁas soltas.

A ColeÁ„o Jangada se complementa com mesas de centro, laterais e de jantar

levando em conta os mesmos conceitos.

A poltrona È totalmente desmont·vel, o que facilta seu transporte. Elaborada

em madeira Lyptus, com encosto em tecido de algod„o; acabamento com verniz PU.

Medida montada : 90x60x70 Medida desmontada: 95x18x18

*Patente requerida

Jorge Montana

Jorge Montana Quadro de referencia Poltrona Minbur· 42

Quadro de referencia Poltrona Minbur·

42

Jorge Montana

Quadro de referencia Poltrona Enora
Quadro de referencia Poltrona Enora

43

Jorge Montana

POLTRONA ENORA(*) d b c
POLTRONA ENORA(*)
d
b
c

a

Na figura, podemos ver um gr·fico desta poltrona inspirada na jangada

nordestina:

a-Encosto em tecido entre duas peÁas de madeira, com inspiraÁ„o no mastro e

na vela. b- PeÁa lateral ‡ partir da an·lise do banco do mastro, do qual utiliza-se o sistema de articulaÁ„o; a poltrona oferece trÍs posiÁıes de graduaÁ„o para encosto e assento. c- ReforÁos horizontais, onde as peÁas, como as da jangada, apresentam encaixe cÙnico.

d -Assento: moldura com recobrimento em palhinha, lembrando a cesta e a rede de pesca. A m„o de obra cearense tem tradiÁ„o de tecelagem.

A cadeira È totalmente desmont·vel o que facilta seu transporte. Elaborada em

madeira Lyptus com encosto em tecido de algod„o ou couro; acabamento com

verniz PU.

Medida montada : 85x67x70 Medida desmontada: 70x60x18

*Patente

requerida

Jorge Montana

Jorge Montana Partindo dos quadros erg onÙmicos de O¥hara interiores) onde o autor analisa cerca de
Jorge Montana Partindo dos quadros erg onÙmicos de O¥hara interiores) onde o autor analisa cerca de

Partindo dos quadros ergonÙmicos de

O¥hara

interiores) onde o autor analisa cerca de 200 inclinaÁıes de assentos e encostos ,( entre 90 e 110 )e concluindo que na pr·tica, existem seis tipologias significativas, o designer Andries Van Onck criou o quadro superior.

do

quatro

quadro,

princÌpio

(Ergonomia na arquitetura e nos

A

aplicaÁ„o

deste

na

poltrona

Enora,

permite

posiÁıes diversas de encosto e assento.

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Jorge Montana

Jorge Montana Fotos do cat·logo da coleÁ„o Jangada: O ambiente e a presencia do mar evocam
Jorge Montana Fotos do cat·logo da coleÁ„o Jangada: O ambiente e a presencia do mar evocam

Fotos do cat·logo da coleÁ„o Jangada: O ambiente e a presencia do mar evocam o origem das peÁas.

CapÌtulo 8

Jorge Montana

¿ Partir Do MÛvel Popular Espaguete.

Outra opÁ„o para criar novos produtos, È partindo do mÛvel popular, o que leva a uma pesquisa das soluÁıes aplicadas de longa data, j· que elas apresentam as soluÁıes funcionais e tÈcnicas adequadas ‡ regi„o; È o caso das cadeiras e poltronas com estrutura em vergalh„o e espaguete pl·stico abundantes em toda a zona tropical do Brasil. Estas d„o origem a um novo design mais urbano e adequado ‡s novas necessidades, porÈm com o mesmo conforto. O produto de origem determina os fatores funcionais e produtivos, porÈm implica busca de um conceito criativo externo.

O mÛvel popular proporcionou os seguintes par‚metros:

-PreÁo acessÌvel.

-Comodidade e ventilaÁ„o (adequaÁ„o ao clima).

-Mistura de dois materiais abundantes e econÙmicos (perfil P.V.C. e metal).

-Facilidade de reparaÁ„o (espaguete ou palhinha).

-Habilidade

da

m„o

de

obra

local

em

tranÁado

(espaguete ou palhinha).

 

¿

diferenÁa

da

Jangada,

muito

rica

em

conceitos

construtivos, as cadeiras populares oferecem ao designer exclusivamente par‚metros pr·ticos ˙teis para a produÁ„o.

Jorge Montana

ApÛs uma an·lise do espaguete, do seu efeito Ûtico quando est·

tranÁado, aliado ‡ transparÍncia, procurei uma fonte conceitual

nos insetos, pois estes precisamente por sua transparÍncia

atestam os mesmos efeitos Ûticos do material espaguete.

Assim, originou-se uma cadeira com corpo e coluna vertebral,

onde como asas, surgem assento e encosto.

A transparÍncia, o material pl·stico, e o metal, se

identificam bem com os computadores e interface da Apple, de

moda quando estava trabalhando nesta cadeira; isto de por si,

j· d· algumas pistas do mercado da mesma.

Criada tomando os principais elementos dos mÛveis

populares de espaguete e inspirada nos peixes e insetos, sua

estrutura, composta de duas partes, È elaborada em tubo de

alumÌnio, ferro ou aÁo inoxid·vel. Acabamento epÛxico prata ou

cromo com recobrimento em espaguete ou vime. Mercado:

classe mÈdia Uso: copas, salas de jantar e escritÛrios

domÈsticos.

Uso: copas, salas de jantar e escritÛrios domÈsticos. 48 Fonte de conceitos: A borbuleta e os

48

Uso: copas, salas de jantar e escritÛrios domÈsticos. 48 Fonte de conceitos: A borbuleta e os
Uso: copas, salas de jantar e escritÛrios domÈsticos. 48 Fonte de conceitos: A borbuleta e os
Uso: copas, salas de jantar e escritÛrios domÈsticos. 48 Fonte de conceitos: A borbuleta e os

Fonte de conceitos:

A borbuleta e os insetos. Computadores Mac da Apple ( acima)

Resultado Final:

Cadeira Bugboleta.

1 lugar concurso de Design UtimÛveis Recife

2001

* patente requerida

CapÌtulo 9

Jorge Montana

¿ Partir Do Folclore

Quando se trata de obter um conceito de partida para desenhar

um produto, torna-se atÈ v·lido inspirar-se em personagens do

folclore ou lendas populares; isto pode parecer estranho ao

leitor, porÈm v·rios dos carros que s„o os maiores sucessos de

venda, partem conceitualmente das histÛrias de quadrinhos que

o novo consumidor lia quando crianÁa. Este È o caso do Renault

Twingo e todos os ìfeiososî, ou seja, aqueles novos carros

pequenos de maior altura, mistura de carro de passeio com

utilit·rio (Fiat Doblo, Renault Kangoo) que est„o tendo o maior

sucesso. Nestes veÌculos o conceito È t„o Ûbvio que

personagens de quadrinhos se misturam com o veÌculo real na

publicidade televisiva.

Se Mickey e Pateta podem ser fontes de conceitos para novos

produtos, porque n„o o Saci PererÍ ou Lampi„o?

Neste caso os par‚metros pr·ticos s„o os usuais para mÛveis de

madeira, ‡ partir da minha experiÍncia como designer e do

conhecimento das condiÁıes produtivas da f·brica que

encomendou o projeto (Kakakis MÛveis de Recife)

9-1 COLE« O CANGA«O

projeto (Kakakis MÛveis de Recife) 9-1 COLE« O CANGA«O Twingo e Kangoo, VeÌculos da Renault inspirados

Twingo e Kangoo, VeÌculos da Renault inspirados nos quadrinhos.

e Kangoo, VeÌculos da Renault inspirados nos quadrinhos. Virgolino Ferreira, o Lampi„o, era o chefe de

Virgolino Ferreira, o Lampi„o, era o chefe de um grupo de

bandidos que assolou o Nordeste do Brasil a princÌpios do

sÈculo passado. O carisma fanfarr„o e desrespeito por um

estado, atÈ hoje omisso com respeito ‡s necessidades

49

Jorge Montana

elementares da populaÁ„o, fizeram deste personagem uma lenda que segue incÛlume no imagin·rio popular, integrando-se ao patrimÙnio cultural desta regi„o atravÈs da m˙sica, da moda, do artesanato e literatura de cordel entre outras manifestaÁıes.

Lampi„o e sua banda de cangaceiros, vestiam com as roupas utilizadas pelos vaqueiros da regi„o, em couro cru, para se protegerem da caatinga nordestina, um terreno monÛtono cheio de pequenas ·rvores sem folhas na Època da seca e normalmente cheias de espinhos.

O tradicional gib„o, o chapÈu nordestino, a cartucheira, a espingarda e os enfeites de prata, constituÌram-se para o Designer, num Ìcone muito forte, do qual poude extrair v·rios conceitos para criar uma linha de mÛveis em sua homenagem (ver figuras). Infelizmente n„o foi possÌvel aproveitar elementos tais como as costuras de couro ou a riquÌssima decoraÁ„o dos chapÈus, pelo menos dentro das condiÁıes da f·brica que encomendou esta linha, mas tambÈm para n„o correr o risco de ser assaz Ûbvio e cair no ìkitchî, em cujo caso, estabeleceria-se mais um desrespeito que uma homenagem.

Deste modo, os elementos tomados do cangaÁo foram os mais representativos, onde simplificou-se a figura do vaqueiro: a forma do chapÈu, as espingardas e a cartucheira. O uso de couro, metal, tecidos e a madeira, lembram tambÈm os apetrechos e a roupa destes personagens.

50

O uso de couro, metal, tecidos e a madeira, lembram tambÈm os apetrechos e a roupa

Lampi„o

O uso de couro, metal, tecidos e a madeira, lembram tambÈm os apetrechos e a roupa

Jorge Montana

O fato de inspirar-se no Lampi„o, para uma cadeira, n„o deixa

de ser engraÁado, de modo que o humor È um elemento

importante no projeto.

Estes mÛveis s„o elaborados na mesma regi„o origin·ria do

personagem, aproveitando as tÈcnicas e matÈrias primas

abundantes na regi„o, de forma industrializada.

A coleÁ„o CangaÁo, inicialmente para sala de jantar, È

elaborada em madeira cultivada da regi„o Nordeste (Lyptus)

com detalhes em metal e couro. Totalmente desmont·vel em

peÁas separadas, j· foi concebida para exportaÁ„o.

em peÁas separadas, j· foi concebida para exportaÁ„o. 51 ProtÛtipos da linha CangaÁo por Jorge Montana

51

ProtÛtipos da linha CangaÁo por Jorge Montana para Kakais MÛveis (PE)

CapÌtulo 10 Cen·rios

Jorge Montana

A diferenÁa de um projeto de design realizado para uma

empresa com um esquema j· existente de vendas; seja rede

prÛpria, representante ou lojas - um projeto que nasce de uma procura conceitual nos fatores locais, precisa encontrar o seu setor do mercado especifico no qual vai apresentar-se e com a finalidade de criar a estratÈgia de comunicaÁ„o para introduzi-lo

no mercado.

A estratÈgia do fator local determina em forma natural estes campos novos do mercado, j· que basea-se na comparaÁ„o do

existente com respeito ‡s condiÁıes do lugar, motivo pelo qual pode-se inferir que estes produtos teriam o maior sucesso no mercado original, neste caso o Nordeste, onde foram projetados. Infelizmente as coisas n„o s„o t„o simples assim. N„o podemos ainda determinar um p˙blico alvo especÌfico que precise e compreenda estes produtos. N„o sabemos ainda qual

È o setor do mercado, o nicho, como se denomina em

marketing aonde nosso produto vai se posicionar.

Para compreender isto È de utilidade aplicar o mÈtodo de

ìcen·riosî, esta tÈcnica aplicada inicialmente na moda, comeÁa a ser utilizada em outros setores do consumo como eletrodomÈsticos e automÛveis. Seu objetivo È estabelecer claramente as ligaÁıes do produto atravÈs de seus fatores sem‚nticos com o grupo dos potenciais consumidores. Como a resposta ‡ pergunta n„o se faz de forma autom·tica, o sistema

de cen·rios permite visualizar claramente estas relaÁıes.

Jorge Montana

A novidade neste caso especifico È que dita relaÁ„o foi feita depois de ter os produtos e n„o antes como manda a teoria. Esta È outra das caracterÌsticas interessantes da aplicaÁ„o do fator local; o cen·rio j· est· configurado na pr·tica e implÌcito na estrutura dos projetos, o que n„o acontece com um projeto convencional; em outras palavras, o produto baseado no fator local, tem um forte car·ter dado pela simbiose com os conceitos originais, isto se a base de pesquisa conceitual t„o rica e variada, for transposta corretamente e com bom senso.

Para efeito de montagem do cen·rio dos produtos: ìBugboletaî, ìColeÁ„o Jangadaî, e mÛveis Lampi„o, veremos um quadro para cada produto onde relaciona-se em uma matriz, as ìsensaÁıesî que estes produtos transmitem versus outros fatores que possam ser de interesse como contexto, tradiÁ„o e consumo. Esta relaÁ„o determina uma sÈrie de fatores psicolÛgicos e sÛcio-culturais que nos ajudam a determinar em forma pr·tica e bem elaborada o setor de mercado, caracterÌsticas e uso do produto.

Estas conclusıes n„o sÛ ser„o Ûtimas para determinar o mercado sen„o tambÈm para uma futura campanha publicit·ria que pretenda fazer desej·vel a compra do produto, para a ambientaÁ„o de espaÁos de venda e design de cat·logos.

10-1 CADEIRA BUGBOLETA

Jorge Montana

SENSA«’ES VISUAIS

OUTROS SENTIDOS

COMPONENTES

AMBIENTE

PSICOL”GICOS

USU£RIO -USO

POPULAR

CALOR

EXTERIOR

COZINHA

TRADI« O

BRISA

ESPORTE

COPA

PASSEIO AO INTERIOR RECARREGADO COR FORTE IRIDISC NCIA PEIXES INSETOS BICHO -AGILIDADE CARDUME OU GRUPO TRANSPARENCIA MOVIMENTO VELOCIDADE MATERIAL ARTIFICIAL

LIMPEZA

TEMPO LIVRE LABORAT”RIO INDIVIDUALISMO VELOCIDADE AGILIDADE JOVEM AUD£CIA ATUAL GRUPO ñ TRIBO E-BUSSINES AQU£RIO -CAZULO

ESCRIT”RIO

METAL FRIO

HOME-OFFICE

PL£STICO

25-35

QUENTE

DIRIG NCIA

CONFORT£VEL

INDEPENDENTE

EFEITO ”TICO

M…DIO-ALTO

URBANO

LINHAS RESOLU« O

DE

AMPLITUDE

 

REMINISC NCIA

TECNOLOGIA

A transposiÁ„o das sensaÁıes na cadeira bugboleta indica um mercado jovem, para casa, estudo e copa, o quadro nos indica a necessidade de complementar o projeto com uma mesa de copa e uma cadeira giratÛria para o mercado de escritÛrio e estudos.

54

10-2 COLE« O JANGADA

Jorge Montana

SENSA«’ES

OUTROS SENTIDOS

COMPONENTES

AMBIENTE

VISUAIS

PSICOL”GICOS

USU£RIO USO

NAVEGA« O £GUA ESPA«O ABERTO AMPLO MOVIMENTO

CALOR VENTO MOLHADO MARESIA PROTE« O FETO

EXTERIOR DESCANSO TEMPO LIVRE INTROSPEC« O SEGURAN«A TRADI« O PERMAN NCIA IDENTIDADE CULTURA EDUCA« O PROTE« O REF⁄GIO PAZ

TERRA«O

EXTERIOR

ESTUDO

HOTEL

POUSADA

PAZ LIBERDADE

INTERIOR

ABRA«O CARINHO

GER 5ñ120

FUNCIONAL

DESCANSO

TRANQULIDADE

PAUSA

SIMPLICIDADE

PERMAN NCIA

PRAIA

INTERIOR

ESPA«O ABERTO

EVOCA« O REUNI O ATEMPORAL INTROSPEC« O PRAZER

 

CIDADE

REMINISC NCIA

A ColeÁ„o Jangada È atemporal, talvez por ser baseada em um elemento eminentemente funcional e aperfeiÁoado por sÈculos, seu mercado torna-se muito amplo com Ínfase em espaÁos abertos em climas tropicais. Por ter uma linguajem mais neutra, evoca um coletivo cultural; as poltronas geram uma sensaÁ„o de paz quase maternal que convida ao descanso. … uma linha de mÛveis atemporal, poderia ser projetada hoje, ou 40 anos atr·s e teria a mesma permanÍncia no gosto do consumidor.

10-3 COLE« O LAMPI O

Jorge Montana

SENSA«’ES

OUTROS SENTIDOS

COMPONENTES

AMBIENTE

VISUAIS

EVOCA«’ES

PSICOL”GICOS

USU£RIO USO

AVENTURA SECA DUREZA ESPA«O ABERTO POEIRA MOVIMENTO VIOL NCIA RUSTICIDADE LIBERDADE POBREZA FOR«A UNI O DESERTO SOFOCO SIMPLICIDADE SERT O

CALOR VENTO PESADO TRADI« O EXOTISMO

EXTERIOR SEGURAN«A TRADI« O PERMAN NCIA IDENTIDADE ROMANTICISMO CULTURA

CASA

SITIO

HOTEL

POUSADA

ESPA«O ABERTO REMINISC NCIA TRANSPOSI« O HUMOR

INTERIOR

EVOCA« O REUNI O EVOCA« O INTROSPEC« O COMPROMISSO

GER 35ñ120

¿ ColeÁ„o Lampi„o È ìde difÌcil digest„oî, pois mistura elementos como tradiÁ„o e humor ou violÍncia com romanticismo. O curioso È que a figura de Lampi„o e o cangaÁo, apresentam as mesmas contradiÁıes, estas se fazem explÕcitas nos mÛveis; n„o est· claro ainda o sucesso comercial desta linha por…m garante-se seu sucesso ao nÌvel de imagem para a empresa produtora, pois o usu·rio e a mÌdia percebem inconscientemente esta contradiÁ„o e o produto se destaca.

O sucesso comercial poder· estar na sua apresentaÁ„o no ponto de venda e conseq¸ente imagem.

Para venda no exterior, ou em regiıes onde n„o existem tais contradiÁıes, estes mÛveis entrariam com sucesso dentro de um mercado Ètnico que valoriza o cultural, que em ˙ltimas, contÈm forte identidade brasileira.

Jorge Montana

Capitulo 11. Aprendizado

O presente trabalho deixa como fruto alguns produtos

que mais que propriamente um resultado, s„o uma afirmaÁ„o e

manifestaÁ„o da tese demonstrar o seguinte:

exposta, com a qual pretende-se

-O fator local, que v·rias vezes È apercebido como um obst·culo, È na verdade a soma de v·rias oportunidades que podem ser analisadas e aplicadas.

-O fator local, aplicado atravÈs dos mÛveis populares nos

proporciona par‚metros claros com respeito a matÈrias primas,

adaptaÁ„o e funcionalidade. … funÁ„o do designer selecionar, com base a estes elementos de avaliaÁ„o, os conceitos que conduzem a um produto inovador.

-O fator local partindo de lendas, folclore e personagens,

traz intrÌnsecos os conceitos. … funÁ„o do designer depur· -los e selecion·-los assim como as matÈrias primas e tÈcnicas

construtivas.

-Alguns artefatos magistrais como a jangada, levam intrÌnsicamente os conceitos que far„o a diferenÁa no produto; isso sobretudo quando ditos conceitos s„o de ordem pr·tica, funcional e estrutural, e n„o apenas decorativos ou estÈticos.

-O trabalho de estudo do fator local baseado nos artefatos, permite diminuir o componente subjetivo do design, logrando-se produtos mais racionais, e portanto, de mais f·cil aceitaÁ„o.

Jorge Montana

-Devido a isto, o estudo destes artefatos e o traslado de suas liÁıes aos produtos, permitem dar aos mesmos, uma linguajem mais limpa que se constituir· em garantia de permanÍncia no gosto do consumidor.

-… possÌvel com este processo de Design, definir com absoluta claridade o mercado destes novos produtos, fazendo explÌcitos os conceitos neles contidos, inclusive transferindo-os ‡s caracterÌsticas do consumidor.

- Quando o conceito gerado a partir da cultura popular local È principalmente de tipo estÈtico È preciso analisar tambÈm as limitaÁıes e caracterÌsticas do entorno local e produtivo.

-O estudo e aplicaÁ„o do fator local e os conceitos daÌ originados, n„o apenas funciona como arma defensiva para conquistar seu mercado original, mas tambÈm pode resultar no elemento agressivo para a introduÁ„o bem sucedida de novos produtos a escala global.

-O estudo e aplicaÁ„o do fator local tÍm o potencial para ser a principal arma para o progresso das empresas, conferindo-lhes assim os elementos e produtos para competirem globalmente com produtos que possuem prÛpria identidade.

-Os resultados apartam-se das regras e par‚metros do que se considera ìbom designî tendo como referencial o design europeu, caminho a meu entender altamente passÌvel de saturaÁ„o, que j· se comeÁa a perceber nesta mistura de moda e alta tecnologia descart·vel que apresenta-se em Mil„o todos os anos.

Jorge Montana

-O estudo e aplicaÁ„o do fator local potencializa a

identidade dos produtos desenvolvidos como um diferencial cultural atrativo perante o futuro usu·rio.

Capitulo 11 Outros casos

Jorge Montana

O tema da identidade cultural do produto brasileiro n„o È

novidade, de fato v·rios designers no Brasil est„o aplicando

com Íxito os fatores locais como fonte de conceitos para novos

produtos. A maior parte destes trabalhos nasce como uma

adaptaÁ„o e aproveitamento das condiÁıes existentes no local.

Quem j· recorreu sem pressa o centro de S„o Paulo, cheio das

mais inusitadas lojas de materiais para usos diversos,

compreende melhor o trabalho dos irm„os Campana e a sua

escola, que procura surpreender com o uso n„o convencional de

materiais inÈditos no mobili·rio. Este tipo de proposta n„o seria

possÌvel numa cidade diferente a Rio ou S„o Paulo. Ao respeito

cito palavras dos designers:

ìS„o Paulo È nossa grande fonte de inspiraÁ„o, o caos, a forma

como as pessoas se organizam nas ruas, as lojas de materiais

ou mesmo pequenos cantos da cidade. Procuramos fincar o

olhar na cultura localî .

As

madeiras

amazÙnicas

na

sua

diversidade

crom·tica

criaÁ„o

para o trabalho muito

s„o

a

fonte da

pessoal

do

designer

MaurÌcio

Azeredo

e

v·rios

outros

que

pretendem

valorizar

a

e v·rios outros que pretendem valorizar a 60 Cadeira vermelha por Fernando e Humberto Campana para

60

e v·rios outros que pretendem valorizar a 60 Cadeira vermelha por Fernando e Humberto Campana para

Cadeira vermelha por Fernando e Humberto Campana para EDRA (It·lia)

Lumin·ria Euca de Chico Lobo ( ‡ direita) e gaveteiro de MaurÌcio Azaredo(embaixo)

Campana para EDRA (It·lia) Lumin·ria Euca de Chico Lobo ( ‡ direita) e gaveteiro de MaurÌcio

Jorge Montana

beleza das madeiras da AmazÙnia, trabalho complexo, pois o

multi-cromatismo das madeiras torna as peÁas visualmente

carregadas, e por isto de difÌcil aceitaÁ„o dentro de um

ambiente, exceto como peÁas soltas. Outros designers que

trabalham no Nordeste procuram seus conceitos na mistura de

tÈcnicas artesanais em produtos industriais, como È o caso da

lumin·ria Euco do designer maranhense Francisco Lobo. (foto)

Elaborada em fibra de carna˙ba e com estrutura em aÁo inox e

chapa de lat„o perfurada originada no descarte da produÁ„o das

moedas, onde a fibra È tranÁada ou amarrada manualmente.

moedas, onde a fibra È tranÁada ou amarrada manualmente. MÛveis Imigrante por Tina e Lui. Produzidos

MÛveis Imigrante por Tina e Lui. Produzidos pela Schuster (RS)

O mais destacado trabalho dos anos recentes,

atualmente em

produÁ„o pela empresa

Schuster, mas gestado

na

Casabimovel, evento

organizado pela

Abimovel em 1999, È

sem d˙vida ‡ linha imigrantes,

criada pelas designers ga˙chas

Ana Luisa Lo Pumo, Ma. Cristina

Moura (mais conhecidas como Tini

e Lui ) e Debora Eichenberg.

Inspirada nos mÛveis coloniais dos

imigrantes italianos e alem„es do

sul do paÌs porÈm adaptadas ‡s medidas dos espaÁos e ‡s

condiÁıes modernas.

‡s medidas dos espaÁos e ‡s condiÁıes modernas. Primeira Trata-se de uma linha completa para sala

Primeira

Trata-se de uma linha completa para sala de refeiÁıes e

estar, onde as designers n„o sÛ retomaram conceitos

61

Jorge Montana

esquecidos como o guarda louÁa superior e inovaÁıes pr·ticas

como o reaproveitamento de espaÁos nos tampos das mesas,

mas tambÈm conceitos de aproveitamento multiutilit·rio em

mÛveis que os artesıes europeus trouxeram consigo quando

imigraram ao Brasil, h· mais de um sÈculo.

Retoma a simplicidade do mÛvel antigo integrado ‡s

condiÁıes produtivas da ind˙stria moveleira atual. Isto, sem

perder de vista caracterÌsticas artesanais como o tranÁado de

couro no assento. A coleÁ„o ìImigranteî ganhou o XIV PrÍmio

Museu da Casa Brasileira 2000.

As autoras gentilmente enviaram a seguinte descriÁ„o:

ìSempre nos interessou o mobili·rio original de Època

encontrado em uso ainda pelos descendentes . O resultado da

busca e posterior an·lise tanto do mÛvel trazido alÈm do mar,

como o mÛvel aqui elaborado pelo colono, utilizando a memÛria

e matrizes como modelo, tudo isso ensejou a transiÁ„o e a

releitura para o mÛvel contempor‚neo. » claro que nessa

transposiÁ„o, ocorreram simplificaÁıes de detalhes, novas

propostas de funcionalidade e supressıes de adornos para

adaptar o mÛvel ao uso e forma adequados ‡

contemporaneadade. » lÛgico que as tÈcnicas construtivas e

material utilizado, visando a produÁ„o industrial, foram

preocupaÁıes b·sicas.

O espirÌto da funcionalidade quisemos ressaltar. A

queijeira, que em sua origem provÈm das queijeiras elaboradas

pelos pomeranos radicados na regi„o Sul do estado, e cuja

funÁ„o era a preservaÁ„o de queijos recÈm elaborados em

mÛvel ventilado, daÌ advindo o gradil de madeiras nas portas .

Na vers„o moderna suprimimos front„o decorativo superior e

62

moderna suprimimos front„o decorativo superior e 62 Queijeira Imigrantes. ( acima) MÛvel colonial ga˙cho

Queijeira

Imigrantes.

( acima)

MÛvel colonial ga˙cho inspiraÁ„o da linha. ( embaixo)

decorativo superior e 62 Queijeira Imigrantes. ( acima) MÛvel colonial ga˙cho inspiraÁ„o da linha. ( embaixo)

Jorge Montana

mantivemos o gradil, a escala e a simplicidade da forma. Serve î

para guardar, como bar, guardar som, etc

ìNosso foco alÈm de pesquisa das nossas raÌzes para inspiraÁ„o dos mÛveis È tambÈm a apropriaÁ„o de Ìcones ou tem·ticas de nossa histÛria como pontos de partida. O mÈtodo b·sico foi observaÁ„o, pinÁar o que ach·vamos relevante, no caso, o sentido funcional dos mÛveis (tanto que em alem„o os mÛveis chamam-se guarda-louÁas, quarda-queijo etc., indicando explicitamente sua funÁ„oî

A idÈia de trabalhar ‡ partir da jangada, teve neste trabalho minha principal referÍncia; esta dupla de irm„s menos conhecidas que o seu par masculino no design brasileiro, porÈm com muito mais sucesso de vendas no mercado nacional tem grande respeito dentro do setor moveleiro.

Em todos os casos citados anteriormente, fica claro uma origem, um conceito e uma identidade local.

Quando o criador do produto n„o tem um conceito claro, como infelizmente acontece com alguma freq¸Íncia, o resultado n„o tem ìalmaî, suas formas ficam sem sentido, desconexas ou rebuscadas, confundindo ao consumidor, gerando rejeiÁ„o:

quando n„o se tem em conta o local, o produto ser· invi·vel e de pÈssima qualidade.

Quando como designers, nos inspiramos nos produtos de outras praÁas, estamos desperdiÁando o potencial dos fatores locais e tomando uma identidade emprestada, fazendo ent„o, uma am·lgama de m· qualidade pela qual o produto vai se perder na selva do mercado. Tomando emprestada uma frase copiada do livro de visitas da exposiÁ„o Brasil faz Design 2002, apresentada em Mil„o na semana da feira do MÛvel: ìestamos

Jorge Montana

pretendendo vender gelo no pÛlo norteî, pode-se entender melhor o anteriormente explicitado.

Neste sentido considero funesta a influÍncia do ìdesign de autorî do mÛvel de Mil„o, correspondente a uma realidade diversa de um mercado maduro e saturado, de alta tecnologia e com forte concorrÍncia, onde o fator moda peza muito na compra mais por impulso que por necessidade. O que realmente temos que aprender dos italianos s„o as estratÈgias de marketing que conseguem que o mundo inteiro aplauda, sem parar para pensar, o festival do desperdÌÁio em que se converteu o chamado ìmÛvel de designî, cujo destino ‡ volta de dois anos ser· a cesta do lixo.

Quando o produto parte do local, e por isto mesmo, possui car·ter e adaptaÁ„o ‡s condiÁıes produtivas e necessidades especÌficas de nossos clientes, vai vender n„o sÛ pela integraÁ„o destas condiÁıes, mas tambÈm pela identificaÁ„o ìmaternalî que o consumidor faz dos seus valores e tradiÁ„o. Vai ter sucesso tambÈm no exterior pelo exotismo e novidade que o consumidor de fora encontra no novo produto. Aplicando o velho ditado, ìvamos ter a faca e o queijo na m„oî.

Conclus„o:

Jorge Montana

A pesar dos esforÁos do setor moveleiro representado no Abimovel e seu programa Promovel, o mÛvel brasileiro n„o consegue aumentar as exportaÁıes de forma significativa, muito pelo contrario, comeÁa a perder inclusive parte de seu mercado interno.

Uma crise de identidade toma conta do setor na hora de exportar, isto È normal em um setor novo e atÈ pouco tempo sem concorrÍncia externa.Por outra parte a forÁa da cultura popular brasileira È t„o forte que transcende as fronteiras. A imagem do Brasil no mundo È de alegria, exotismo e colorido. Os elementos para isto est„o aqui, no nosso quintal, infelizmente temos a tendÍncia a olhar fora dele procurando no sucesso dos outros a receita para o prÛprio sem perceber o que temos de bom e n„o estamos aproveitando.

O presente trabalho consistiu numa reflex„o sustentada pela pr·tica dos produtos projetados e do que considero seja um caminho que leve as empresas a crescerem a traves do estudo das caracterÌsticas que lhes confere estar localizadas num determinado lugar.

Em qualquer empresa este estudo junto a sua prÛpria individualidade, as particulares condiÁıes de mercado e produÁ„o, s„o o antÌdoto contra uma agressiva globalizaÁ„o de mercados que apesar de estar apoiada em empÛrios econÙmicos n„o tem como poder valorizar e aproveitar isto que definimos como o fator local.

Jorge Montana

O fator local ademais, n„o sÛ permite as empresas

crescer em sua zona de influÍncia mas È condiÁ„o para que o produto seja exitoso em outros mercados j·, que esta adaptaÁ„o e aproveitamento dos fatores locais representada no produto, È fator de novidade no mercado externo e finalmente se transformam em um fator de identidade.

A sabedoria popular em suas produÁıes materiais, como j· aconteceu com a biÙnica e a arte, podem ser fonte de inspiraÁ„o de soluÁıes inÈditas e n„o sÛ cosmÈticas, j· que nelas se encontram soluÁıes magistrais com a maior simplicidade.

… em nos mesmos, em nossa cultura e entorno que

devemos procurar nossas respostas n„o tento em propostas exÛgenas que chegam na velocidade da informaÁ„o pero n„o

sempre s„o as melhores soluÁıes.

designer È a luta contra a tendÍncia

pessoal a procurar referÍncias e conceitos em produtos j·

existentes, È por isto que n„o sempre surgem trabalhos realmente ineditos

A vida

de

um

O presente trabalho, como j· mencionado, deixa como

fruto alguns produtos, que mais que um resultado s„o o manifesto palp·vel do aqui escrito. Para mim como designer, registrar e fazer o esforÁo de tornar consciente todo o processo foi fascinante e enriquecedor cheio de constantes descobertas, na luta pessoal para racionalizar um processo que finalmente, apesar de todos os esforÁos tem sempre um definitivo elemento subjetivo e pessoal, a pesar que como designer intente de

forma consciente gerar um linguajem objetivo, medÌvel e qualific·vel.

Jorge Montana

Neste ponto me aproximo da velha metodologia da

escola alem„ de ULM que marcou atÈ pouco o ensino de design;

tal vez a forma seja conseq¸Íncia da funÁ„o depois de tudo, sÛ

que a funÁ„o esta muito mais no campo da percepÁ„o e a

psicologia do que achavam os velhos mestres. Para mim,

submergir neste processo mas como interprete que como

criador foi fonte de aprendizado e sabedoria.

O tema das cadeiras como produto escolhido no trabalho

pr·tico foi o grande reto; n„o tem no design de mÛveis produto

com maior complexidade na hora de avaliar uma novidade que

uma cadeira, pois cada dia torna-se mais limitada possibilidade

de lograr algo diferente.

O fato de ter-lo conseguido È a prova final e a grande

conclus„o deste trabalho; a dificuldade de projetar cadeiras e

poltronas, n„o est· em conseguir variaÁıes formais, sen„o em

encontrar um ponto de partida, neste caso, as soluÁıes

populares.

Esta monografia relaciona a pratica profissional com a

teoria do design; poucas publicaÁıes cumprem este objetivo.

Poder· viabilizar-se como o ponto de partida para

estudos mais rigorosos a serem executados por designers

acompanhados de antropÛlogos e fotÛgrafos que pesquisem a

cultura popular procurando extrair conceitos, Uma deste teor,

seria de fundamental import‚ncia tanto para os designers como

para a industria brasileira.

Apoiar a criatividade no marco da interpretaÁ„o dos

artefatos e da cultura populares, as vezes com centenas de

anos de lenta evoluÁ„o, È beber das fontes da sabedoria.

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Jorge Montana

Fortaleza, Junho de 2002 www.jorgemontana.com www.jangadacollection.com

Fone- fax: 85- 4768029 jmontana@ultranet.com.br

BIBLIOGRAFÕA

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Jorge Montana

Leitura Moveleira 2 - AbimÛvel PromÛvel - Alternativa Editorial

Project Management

David Burstein - Frank Stasiowski De GG

MÛvel moderno no Brasil

Ma. Cecilia Loschaivo Dos Santos - Studio Nobel Fapesp Edusp

El diseÒo en la Periferia

Gui Bonsiepe Ed GG -1985

Design - El sentido de las formas en los productos.

Andries Van Onck - Centro Analise Sociale Progetti 1995

AntologÌa do Folclore Cearence

Florival Seraine - EdiÁıes UFC ñ1983

11 ao 15 PrÍmio Museu da Casa Brasileira 1997/2001

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Sal„o Design Movelsul- 2002 Cat·logo geral.

Revista MÛveis de Valor, EdiÁ„o Especial: Nordeste Top

Curitiba Junho de 2002

Revistas Mobile Nordeste, n˙meros v·rios.

Curitiba 2000-2002

Revista Arc Design S„o Paulo, Julho Agosto 1999

SITIOS WEB:

www.brasil.gov.br www.ceara.gov.br www.pernambuco.gov.br www.lyptus.com.br www.abimovel.org.br www.fiesp.org.br www.geocities.com.br/msslkc www.brfcolors.com www2uol.com.br/animae/desenho anonimo www.chicolobo.com.br