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BARRETO, Lima. Marginália

BARRETO, Lima. Marginália

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  • HOTEL 7 DE SETEMBRO
  • O ANEL DOS MUSICISTAS
  • ELOGIO DA MORTE
  • A MINHA CANDIDATURA
  • DIAS DE ROÇA
  • PALAVRAS DUM SIMPLES
  • BAILES E DIVERTIMENTOS SUBURBANOS
  • O NOSSO CABOCLISMO
  • D. Deolinda acaba de se apresentar candidato a intendente da cidade do Rio de
  • "A MAÇÃ" E A POLÍCIA
  • A POLÍTICA REPUBLICANA
  • Meu caro Bruno Lôbo:
  • DE CASCADURA AO GARNIER
  • A CARROÇA DOS CACHORROS
  • VESTIDOS MODERNOS
  • IMPRESSÕES DE LEITURA
  • O DESTINO DA LITERATURA
  • LIVROS
  • LITERATURA MILITANTE
  • LITERATURA E POLÍTICA
  • REFLEXÕES E CONTRADIÇÕES À MARGEM DE UM LIVRO
  • HISTÓRIA DE UM MULATO
  • VÁRIOS AUTORES E VÁRIAS OBRAS
  • URBANISMO E ROCEIRISMO
  • A OBRA DO CRIADOR DE JECA-TATU
  • MADAME POMMERY
  • A OBRA DE UM IDEÓLOGO
  • O SECULAR PROBLEMA DO NORDESTE
  • ANITA E PLOMARK AVENTUREIROS
  • ELOGIO DO AMIGO
  • UM ROMANCE SOCIOLÓGICO
  • LIMITES E PROTOCOLO
  • "LEVANTA-TE E CAMINHA"
  • S. Mateus
  • CANAIS E LAGOAS
  • VOLTO AO CAMÕES
  • TABARÉUS E TAIBAROAS
  • FETICHES E FANTOCHES
  • O PROFESSOR JEREMIAS
  • RECORDAÇÕES DA "GAZETA LITERÁRIA"
  • SONHEI COM ISTO: O QUE É?
  • HISTÓRIAS DE MACACO
  • HISTÓRIA DO MACACO QUE ARRANJOU VIOLA
  • "O MACACO E A ONÇA
  • UM DOMINGO DE PÁSCOA
  • CONTOS E HISTÓRIAS DE ANIMAIS
  • VII
  • HISTÓRIA DE UM SOLDADO VELHO
  • "HISTÓRIA DE UM SOLDADO VELHO
  • VIII
  • SUPERSTIÇÕES DOMÉSTICAS
  • IX
  • REZAS E ORAÇÕES
  • RESTOS DO "TABU" ANCESTRAL
  • XI
  • COISAS DO JOGO DO "BICHO"

A Virtual Bookstore apresenta mais uma grande obra de: Lima Barreto

Marginália
Virtual Bookstore (www.vbookstore.com.br), a verdadeira livraria virtual da Internet Brasileira. Texto scanneado e passado por processo de reconhecimento óptico de caracteres (OCR) por Renato Lima ( Precisamos de você! Visite nossa página de ajuda em e saiba como contribuir com o nosso projeto. Esse arquivo pode ser redistribuído livremente, desde que mantidas as informações acima. Prefácio da edição online. Se em todos os livros de Lima Barreto sempre há um pouco de personalismo, Marginália é talvez a obra em que estamos mais perto do mestre. Reúne-se nesse livro a sua intensa atividade jornalística, suas denúncias, suas pesquisas populares e seu maior amor: a literatura. Marginália é um verdadeiro amálgama de Lima Barreto. Temos todas as suas facetas em um compêndio. É possível identificar o Lima Barreto incentivador de novos escritores, sempre disposto a ajudar aqueles que escreviam com a “qualidade superior de escritor: a sua sinceridade.” O Lima Barreto da literatura militante, contra o helenismo pedante e ridículo, muito em voga no seu tempo. O folclorista, retomando as superstições, credos e sonhos do seu povo e compilando canções populares. Há até o Lima Barreto criador da Liga Brasileira Contra o Futebol... A obra está dividia em três partes: Marginália, Impressões de Leituras, Mágoas e Sonhos do Povo. É importante também destacar a sua conferência “O Destino da Literatura”, onde reafirma os princípios que nortearam a sua produção, e se não lhe deram a glória efêmera do seu tempo, o ascendeu para a glória da história. Renato Lima www.vbookstore.com.br

A QUESTÃO DOS "POVEIROS"

Essa questão dos pescadores originários de Póvoa do Varzim, em Portugal, que, desde muitos anos, se haviam especializado, entre nós, na pesca em alto mar, e como que a tinham monopolizado, por parecer terminada, merece ser epilogada, pois muitas são as notas que se lhe podem apor à margem. De parte a parte, nas afirmações e atos de um e outro adversário, um espírito imparcial encontra o que observar e material para reflexões. Os defensores lastimosos dos "poveiros", que não se quiseram naturalizar brasileiros e, por isso, se repatriaram, encarniçaram-se contra os japoneses, entre outros motivos, porque eles se insulam na massa da população nacional, com a qual parece não quererem ter senão rápidos contatos, os indispensáveis para os seus negócios. Curioso é que encontrem, unicamente nos japoneses, essa repugnância pela imitação com o geral da população brasileira, quando os tais "poveiros" a possuem ou possuíam também, a ponto de não permitirem que, entre eles, houvesse outra gente, empregada nas suas pescarias, senão os naturais de Póvoa do Varzim. Quando menino e adolescente, devido à ocupação de meu pai, na ilha do Governador, andei enfronhado nessas coisas de pesca e sabia bem desse exclusivismo dos "poveiros", extensivo até aos outros seus patrícios portugueses, oriundos de outras localidades de Portugal. Pessoa de toda a confiança, há dias, informou-me que dos estatutos de uma sociedade de tais pescadores naturais de Póvoa do Varzim constava, em letra redonda, não poder fazerem parte dela senão os nascidos naquele lugarejo de Portugal. Os portugueses de Outra origem, que possuíam canoas, redes, "currais" e outros petrechos de pesca em escala mais ou menos desenvolvida, e a exerciam no interior da baía, empregavam na sua indústria indiferentemente auxiliares quaisquer, fossem ou não seus patrícios. Os "poveiros" não; quem não é de Póvoa não pesca com eles; e a sua vida é toda feita à parte dos outros portugueses e dos demais de outra qualquer nacionalidade, brasileira ou não. Por aí, vê-se bem que eles levavam o seu isolamento do resto dos habitantes do Brasil mais longe que os japonêses. Estes fazem - estou disposto a crer - uma colônia confinada em si mesma, ferozmente isolada do grosso da nossa população; mas os "poveiros" só faziam uma colônia dentro da própria colônia de naturais do país de origem, com os quais pouco ou quase nada se misturavam. As minhas idéias e os meus princípios são inteiramente infensos a esse prurido de nacionalização quê anda por aí, e do qual os "poveiros" foram vitimas, tanto mais que, no caso desses homens, se trata de uma profissão humilde, tendo ligações muito tênues e remotas com a administração, a política e coisas militares do Brasil, não exigindo, portanto, o tal "fogo sagrado do patriotismo", a fim de apurar-lhe o exercício, junto a excelentes vencimentos. A verdade, porém, deve ser dita; e não foi senão isto que fiz. A desorientação a esse respeito é tal que estamos vendo como essa questão se vai desdobrando em lamentáveis espetáculos de violências inauditas. O inspetor de pesca, a quem não atribuo móveis subalternos - longe de mim tal coisa! - não contente de exercer draconianamente as atribuições que as leis e os regulamentos conferem a seu cargo, sobre redes e outras coisas próprias ao ofício de pescar, meteu-se também a querer regular o comércio do pescado. Com a sua educação militar, que só vê solução para os problemas que a sociedade põe na violência, não trepidou em empregá-la, violando os mais elementares princípios constitucionais. Com auxílio da marinhagem do cruzador sob seu comando e de sequazes paisanos, talvez mais brutais e ferozes do que as próprias praças de marinha, apesar de estarem habituadas estas, desde tenra idade, nas Escolas de Aprendizes, a ver, num oficial de marinha, um ente à parte, um semideus arquipoderoso, cujas ordens são ditames celestiais - com semelhante gente, violentamente, pôs-se a apreender as "marés" nas canoas de pescaria, para vendê-las ao preço que entendesse, deduzir percentagem arbitrariamente calculada, e, ainda por cima, a intimar os pescadores isolados a

se matricularem em umas famosas colônias de pesca, improvisadas do pé para a mão. Tudo isto consta de jornais insuspeitos e não houve quem contestasse. Essa subversão das mais comezinhas garantias constitucionais, levada a efeito por um oficial que, por mais distinto que seja, não pode possuir autoridade para tanto, como ninguém a tem, leva-nos a pensar como as nossas instituições republicanas vão respondendo muito mal aos intuitos dos seus codificadores e legisladores. Seja qual for a emergência, pouco a pouco, não só nos Estados longínquos, até mesmo nos mais adiantados, e no próprio Rio de Janeiro, capital da República, a autoridade mais modesta e mais transitória que seja procura abandonar os meios estabelecidos em lei e recorre à violência, ao chanfalho, ao chicote, ao cano de borracha, à solitária a pão e água, e outros processos torquemadescos e otomanos. É o regímen de "villayet" turco em que estamos; é o governo de beis, paxás e cádis o que temos. Isto é um sintoma de moléstia generalizada. A época que atravessamos parece ser de loucura coletiva em toda a humanidade. Havia de parecer que a gente de juízo e de coração, com responsabilidade na direção política e administrativa dos povos, depois dessa chacina horrorosa e inútil que foi a guerra de 1914, e das conseqüências de miséria, fome e doença que, acabada, acarretou ainda como contrapeso procurasse afugentar, por todos os meios, dos seus países, os germens desse aterrador flagelo da guerra; entretanto não é assim. Em vez de propugnarem uma aproximação mais fraternal entre os povos do mundo, um mútuo, sincero e leal entendimento entre todos eles, como que timbram em mostrar desejarem mais guerra, pois estabelecem iníquas medidas fiscais que isolam os países uns dos outros; tentam instalar artificialmente indústrias que só são possíveis em certas e determinadas regiões do globo, devido às condições naturais, e isto ainda no fito de prescindirem da cooperação de outra nação qualquer, amiga ou inimiga; e - o que é pior - todos se armam até os dentes, mesmo à custa de empréstimos onerosíssimos ou da depreciação das respectivas moedas, originada por emissões sucessivas e inúmeras, de papel-moeda. Estamos no tempo da cegueira e da violência. Max-Nordau, em artigo que uma revista desta cidade traduziu, cujo título é Loucura Coletiva, - observa muito bem, após examinar os despropósitos de toda a sorte que se seguiram à terminação oficial da grande guerra: "Dizia-se antigamente: "Todo o homem tem duas pátrias, a própria e depois a França". Pois esta mesma França, tão hospitaleira, tão carinhosa, mostra agora a todos os estrangeiros um semblante hostil e, durante a maior parte do tempo, torna-se impossível a estada em seu solo. As relações entre, povo e povo, entre homem e homem, quebraram-se violentamente e cada país encerra-se por detrás das suas fronteiras, opondo-se a tôda a, infiltração humana do exterior. "Esperava-se que à guerra sucedesse a reconciliação. Pelo contrário, procura-se por todos os lados atiçar os ódios, exasperar os rancores, excitar a sede de vingança. Mais adiante, ele acrescenta esta observação que pode ser verificada por qualquer: "Também se esperava um desarmamento geral, mas em toda a parte se reorganizam os exércitos e as marinhas, com mais impetuosidade que nunca. O militarismo torna-se mais forte e vai imperando em países onde anteriormente era desconhecido." Essa mania militar que se apossou de quase todos os países do globo, inclusive o nosso, levou todos eles a examinar e a imitar a poderosa máquina guerreira alemã. Os seus códigos e regulamentos militares vão sendo mais ou menos estudados e imitados, quando não são copiados. Não se fica só nisso. A tendência alemã, ou melhor, prussiana, de militarizar tudo, os mais elementares atos da nossa vida civil, por meio de códigos, regulamentos, penas e multas, vai-se também apossando dos cérebros dos governantes que, com afã, adotam tão nociva prática de asfixiar o indivíduo num "batras" legislativo.

O ideal dos militares atuais não é ser um grande general, ao jeito dos passados, que, aos seus predicados guerreiros, sabiam unir vistas práticas de sociólogo e de político. O ideal deles é o cabeçudo Ludendorff, cujas memórias denunciam uma curiosa deformação mental, obtida pelo ensino de uma multidão de escolas militares que o militarismo prussiano inventou, as quais têm de ser freqüentadas pelos oficiais que ambicionam altos postos. Tais escolas tiram-lhes toda e qualquer faculdade crítica, todo o poder de observação pessoal, fazendo-os perder de vista as relações que tem a guerra com outras manifestações de atividade social, para só ver a guerra, só a guerra com os seus petrechos, suas divisões, seus corpos, etc., citados pelo "Cabeçudo", cabalisticamente, pelas iniciais de suas denominações. Esqueceu-se ele que seu livro era destinado, por sua natureza, a ser lido pelo mundo inteiro, e o mundo inteiro não podia viver enfronhado nas coisas pasmosas da burocracia militar alemã, para decifrar tais hieróglifos. Ludendorff não é um general; é uma consolidação viva das leis e regulamentos militares da Alemanha. Não foi à toa que o célebre jornalista alemão Maximiliano Harden, falando do livro do general francês Buat sobre esse famigerado Ludendorff, a mais alta expressão da lamentável limitação do espírito militar em todos os tempos, disse: "... é uma obra -prima, de clara psicologia latina, dominada em toda sua extensão por um espírito cavalheiresco e uma forte consciência de justiça, que fornecerá ao leitor alemão uma relação maior de verdades que as execráveis e copiosas banalidades editadas por quase todos os generais alemães". Houve quem chamasse o Sr. general Ludendorff, autor também de "execráveis e copiosas banalidades", de César. Sim, ele pode ser César; mas um César que não escreverá nunca a Guerra das Gálias e não transformará nenhuma sociedade. O mundo todo, porém, está fascinado pelos métodos alemães. Pode-se dizer que a Alemanha, depois de vencida, é vencedora pela força hipnótica de sua mania organizadora, até as menores minúcias. O brutal e odioso Estados Unidos, com a Alemanha aparentemente vencida, é outro país modelo para os que estão sofrendo de mal de imitação e maluquice organizadora, concomitantemente. Foi talvez nas coisas peculiares do país de "Uncle Sam" que, certamente, o Sr. Norton de Matos, ministro de Estado de Portugal, buscou inspirar-se para estabelecer a seguinte cláusula, a que se deviam obrigar os "poveiros" repatriados, no caso de quererem estabelecer-se nas colônias portuguesas da África. Ei-la, como vem estampada na Pótria, de 28 de novembro último: "...que evitem (os "poveiros") a comunicação e as relações de ordem sexual com o elemento nativo da África, de cor". Uma cláusula destas é por demais pueril e ridícula. Não é preciso dizer por quê; e seria escabroso. Mas, à vista dela, nós nos podemos lembrar de dois casos célebres que deviam incidir na punição do Sr. Norton de Matos, se ele fosse ministro ou coisa que o valha, no grande século das descobertas e conquistas portuguesas. Um é com Camões, cuja glória universal é um dos mais justos orgulhos de Portugal. Pois bem: o grande épico andou lá, pelo ultramar, de gorra, com uma rapariga de côr. Creio até que se chamava Bárbara e o autor dos Lusiadas fez-lhe versos, aos quais intitulou se não me falha a memória "Pretidão do Amor". Li isto há bastantes anos no Cancioneiro Alegre, de Camilo Castelo Branco. O outro caso dessa espécie de comunicações e relações que o Sr. Norton de Matos divinamente proíbe, ao jeito da nação do Paraíso, passou-se com o Albuquerque terríbil. Ele mandou matar sumariamente um seu soldado ou homem d'armas (parece que se chamava Rui Dias), por suspeitá-lo amoroso de uma escrava, da qual o extraordinário Afonso d'Albuquer

que não desprezava totalmente os encantos secretos, segundo tudo leva a crer. Camões, no seu maravilhoso poema, alude ao fato; e Teófilo Braga, no seu Camões o elucida. E assim que o vate lusitano comenta o caso, no - Canto X, XLVII. Vou transcrever os quatro primeiros versos da oitava. Ei-los: Não será a culpa abominoso incesto, Nem violento estupro em virgem pura Nem menos adultério desonesto Mas cuma escrava vil, lasciva, e escura. Vejam bem como Camões diz quem foi a causa do terríbil Albuquerque por na sua "fama alva, nódoa negra e feia". Estou vendo daqui o Sr. Norton de Matos, quando foi aos embarques, para a Índia, de Albuquerque, em 1503 (primeira vez), e de Camões, em 1553. E preciso supor que o Sr. Matos pudesse ser ministro durante tão dilatado lapso de tempo. Admitido isso, certamente o ministro havia de recomendar a cada um deles ter sempre presente à lembrança, a sua prescrição mais ou menos de Deus que larga um qualquer Adão no Paraíso. E falaria assim: - Olhe, Sr. d'Albuquerque, V.M. foi estribeiro-mor del-Rei D. João lI, a quem Deus tenha em sua santa guarda; V.M. é um grande fidalgo e deu mostras em Nápoles de ser um grande guerreiro - não vá V.M. meter-se lá nas Índias com as negras. Cuide V.M. nisto que lho digo, para a salvação de su'alma e prestígio da nação portuguêsa. Ao cantor inigualável das proezas e feitos do Portugal glorioso, ele aconselharia desta forma: - Sr. Luís de Camões, V.S. é um poeta, ao que se diz, de bom e valioso engenho; V.S. freqüentou o paço dei-Rei; V.S. versejou para as damas e açafatas da côrte. Depois de tudo isto, não vá V.S. meter-se lá, nas índias, com as negras. Tome VS. tento nisso. Não há dúvida alguma que a providência do Sr. Matos é muito boa; mas a verdade é que os tais Amon, Lapouge, Gobineau e outros trapalhões antropólogos e etnográficos, tão do paladar dos antinipões, não admitem como lá muito puros os portugueses. Oliveira Martins também. Dá-lhes uma boa dose de sangue berbere. Isto não vem ao caso e só tratei de tal por mera digressão, mesmo porque este modesto artigo não passa de um ajustamento da marginália que fiz às notícias lidas por mim, nos quotidianos, enquanto durou a questão dos "poveiros". Era tal a falta de uma segura orientação nos que se digladiavam, que só tive um remédio para estudá-la mais tarde: cortar as notícias dos jornais, colar os retalhos num caderno e anotar à margem as reflexões que esta e aquela passagem me sugerissem. Organizei assim uma Marginália a esses artigos e notícias. Uma parte vai aqui; a mais importante, porém, que é sobre os Estados Unidos, omito por prudência. Hei de publicá-la um dia. Contudo, explico por que entram os Estados Unidos nela. O motivo é simples. Os defensores dos "poveiros" atacam os japonêses e se servem dos exemplos da grande república da América do Norte no seu proceder com os nipões. Fui estudar alguma coisa da história das relações yankees com outros Estados estrangeiros; é deplorável, é cheia de felonias. Lembrei-me também como lá se procede com os negros e mulatos. Pensei. Se os doutrinários que querem que procedamos com os japonêses, da mesma forma com que os Estados Unidos se comportam com eles, forem vitoriosos, com a sua singular teoria, não faltará quem proponha que também os imitemos, no tocante aos negros e mulatos. É lógico. Então, meus senhores, ai de mim e de... muita gente! Gazeta de Notícias, 2-1-1921.

HOTEL 7 DE SETEMBRO Li nos jornais que um grupo de senhoras da nossa melhor sociedade e gentis senhoritas inauguraram, com um chá dançante, a dez mil-réis a cabeça, o Hotel do Sr. Carlos Sampaio, nas encostas do morro da Viúva. Os resultados pecuniários de semelhante festança, segundo diziam os jornais, reverteriam em favor das crianças pobres, das quais as referidas senhoras e senhoritas, agremiadas sob o título de "Pequena Cruzada", se fizeram espontâneas protetoras. Ora, não há nada mais belo que a Caridade; e, se não cito aqui um profundo pensamento a respeito, motivo é não ter ao alcance da mão um dicionário de "chapas". Se o tivesse, os leitores veriam como eu ia além do esteta Antônio Ferro, que saltou no cais Mauá, para nos ofuscar, com os seus trapos de José Estêvão, Alexandre Herculano e outros que tais! Felizmente não o tenho e posso falar simplesmente - o que já é uma vantagem. Quero dizer que semelhante festa, a dez mil-réis a cabeça, para proteger crianças pobres, é uma injúria e uma ofensa, feita a essas mesmas crianças, num edifício em que o governo da cidade gastou, segundo ele próprio confessa, oito mil contos de réis. Pois é justo que a municipalidade do Rio de Janeiro gaste tão vultosa quantia para abrigar forasteiros ricos e deixe sem abrigo milhares de crianças pobres ao léu da vida? O primeiro dever da Municipalidade não era construir hotéis de luxo, nem hospedarias, nem zungas, nem quilombos, como pensa o Sr. Carlos Sampaio. O seu primeiro dever era dar assistência aos necessitados, toda a espécie de assistência. Agora, depois de gastar tão fabulosa quantia, dar um bródio para minorar o sofrimento da infância desvalida, só uma coisa resta dizer à edilidade: passem bem! Um dia é da caça e outro é do caçador. Digo assim, para não dizer em latim: "Hodie mihi, cras tibi". Nada mais ponho na carta. Adeus. Careta, 5-8-1922.

15 DE NOVEMBRO Escrevo esta no dia seguinte ao do aniversário da proclamação da República. Não fui à cidade, e deixei-me ficar pelos arredores da casa em que moro, num subúrbio distante. Não ouvi nem sequer as salvas da pragmática; e, hoje, nem sequer li a notícia das festas comemorativas que se realizaram. Entretanto, li com tristeza a notícia da morte da princesa Isabel. Embora eu não a julgue com o entusiasmo de panegírico dos jornais, não posso deixar de confessar que simpatizo com essa eminente senhora. Veio, entretanto, a vontade de lembrar-me o estado atual do Brasil, depois de trinta e dois anos de República. Isso me acudiu porque topei com as palavras de compaixão do Sr. Ciro de Azevedo pelo estado de miséria em que se acha o grosso da população do antigo Império Austríaco. Eu me comovi com a exposição do Dr. Ciro, mas me lembrei ao mesmo tempo do aspecto da Favela, do Salgueiro e outras passagens pitorescas desta cidade. Em seguida, lembrei-me de que o eminente Sr. Prefeito quer cinco mil contos para

mais acessível. os que não tem livros caros. que fossem procurar no invisível.eu o sei bem . Pois é possível que. da ostentação. leio-lhe sempre as notícias. é das mais curiosas. diz a notícia.reconstrução da Avenida Beira-Mar. tratando das candidaturas presidenciais. Sal pelas ruas do meu subúrbio longínquo a ler as folhas diárias. como um burro. mas vi. aí das ruas. o mais importante objeto de discussão seja esse? Voltei melancolicamente para almoçar. amo a biblioteca e. para pedir a meia dúzia de sestércios que lhe matasse a fome . como devia qualificar perfeitamente a República. em um palácio intimidador. para consultar . sinais certos da sua felicidade ou infelicidade. numa "venda" de que minha família é freguesa. mais acolhedora. assim mesmo. os tristes. num dizer. com cujo manuseio. para liquidar a sua dolorosa vida. um pouco. os maltrapilhos "fazedores de diamantes" avancem por escadarias suntuosas. do Garnier. não se pode compreender subindo os degraus da Ópera. de mil francos. das classes de obras que eles consultam e da língua em que as mesmas estão escritas. para a escolha do Chefe de uma Nação. e não sei por quê. pensando.o 15 de Novembro é uma data gloriosa. olho-os. medroso de entrar na vila do patrício. mas um título do Código Penal. cá com os meus botões. como uma pessoa que se estarrece de admiração diante de suntuosidades desnecessárias. Afora o capítulo descomposturas. A BIBLIOTECA A diretoria da Biblioteca Nacional tem o cuidado de publicar mensalmente a estatística dos leitores que a procuram. 26-11-1921. como é que o Estado quer que os mal vestidos. recentemente esborrachada pelo mar. O antigo poeta é por demais sabido. tendo como "repoussoir" a miséria geral? Não posso provar e não seria capaz de fazê-lo. A estatística dos seus leitores é sempre provocadora de interrogações. nos fastos da nossa história. que a República é o regímen da fachada. quando vejo desses monumentos. Não se discutia uma questão econômica ou política. de que era cliente. destinada aos pobres-diabos. Quase todas elas estavam cheias de artigos e tópicos. Lia-as. o mais importante era o de falsidade. marcando um grande passo na evolução política do pais. Entretanto . sobretudo depois que se mudou para a Avenida e ocupou um palácio americano. espadim e meias de sêda. em casa. talvez. Quem serão elas? Não acredito que seja o Múcio. do falso brilho e luxo de "parvenu". conforme o gosto antigo e roceiro. pensei de mim para mim. É ficar assim. Por exemplo: hoje. Pouco freqüento a Biblioteca Nacional. Mas. . mas. Ninguém compreende que se subam as escadas de Versalhes senão de calção. mulheres sem decote e colares de brilhantes. Careta. para consultar uma obra rara. têm a sensação de estar pregando à mulher do seu amor? A velha biblioteca era melhor.obras de sua profissão. e não tinha a empáfia da atual.a espórtula! O Estado tem curiosas concepções. se não vou lá. A minha alma é de bandido tímido. de abrigar uma casa de instrução. que treze pessoas consultaram obras de ocultismo. Quero crer que sejam tristes homens desempregados. e esta. Vi em tudo isso a República. por cima de tudo. Não será. como o meu amigo Juvenal.

estudam unicamente para o professorado . é a única arte em que raramente aparece uma tentativa de criação. O guarani foi procurado por duas pessoas. na lógica da nossa sociedade. como está. Os motivos disto estão entrando nos olhos de todos os que residem no Rio de Janeiro e vivem sitiados por pianos ou violinos.. no entender deles. ao fim da viagem não esperará muito que um namoro se transforme em noivado. que só duas pessoas procurassem ler obras na língua que. De tal modo é rendoso o oficio de professora de música e de seus instrumentos. a mulheres. tal e qual como no guarani. Para mim. A exemplo dos médicos.a arte musical..Leio mais que houve quatro pessoas a consultar obras em holandês. são doentes de manias. Se a medida não trouxer progressos à arte de Euterpe. dos bacharéis do Pedro II. porque de todas as profissões femininas. doutora do Instituto. trilhando os caminhos batidos. nos lados. desde muito. melhor. pois se o destino da mulher é o casamento. do Sr.. Decididamente este país está perdido. na nossa cidade. dos dentistas. for de anel no dedo pelos bondes a fora. que as brigas vergonhosas que há de vez em quando no Conservatório. lembrando a criação de um anel que as marcasse ao fim do curso ou dos cursos daquela casa sonora. As suas sacerdotisas agora querem um anel. Arnaud Gouveia. É muito justo. Não é possível que num pais democrático. Cherchez l'argent. no Rio. só podem ser atribuidas à ganância dos professores e acólitos na caça e disputa de discípulos. Deolinda Daltro? Será algum abnegado funcionário da inspetoria de caboclos? É de causar aborrecimento aos velhos patriotas. Alberto Nepomuceno. Richard. na frente. que foram um instante lembrar-se na língua amiga das amizades que deixaram lá longe. Em grego. das raparigas da Escola Normal. uma espécie de dote. Limita-se a repetir. quando garantidas pelo Instituto do largo da Lapa. ficará sendo assim. a que tem maiores possibilidades entre nós é a de professora de música. Quando uma moça. entretanto. A música. não dá nenhuma demonstração superior da nossa emoção. Será a D. o que ele rende. elas querem também um distintivo que as extreme do vulgo. seja a casa em bairro rico ou pobre. porque. às claras. Ela garantirá a "zona" e o marido futuro ficará sossegado quanto às despesas da casa. Entregue.. O ANEL DOS MUSICISTAS As meninas do Instituto de Música escreveram aos jornais. entra. talqualmente as senhorinhas da Escola Normal. Não há invento nem novidade. O anel à mostra. quando acabam o seu curso secundário. Correio da Noite. dos engenheiros. 13-1-1915. Para todos os que têm um curso qualquer. isto é. eles não lêem mais grego. que em geral nunca em arte foram criadoras . esses dois leitores não foram os nossos professores de grego. dos cônegos. é a dos verdadeiros brasileiros. uma moça que andou aos cuidados do Sr. dos advogados. e certamente. que escreve óperas para exportação. dos anseios e sonhos peculiares a nós. tudo o que possa concorrer para que elas o cumpram.. a moças. do Sr. as obras consultadas foram unicamente duas. não há distintivo? Como não cabe o mesmo direito às talentosas executoras do Instituto de Música? . nos fundos. entre nós.. deve merecer o nosso apoio entusiástico. possa ser confundida com qualquer rapariga aí.

para a maioria dos engenheiros. 25-1-1918. É inútil estar vivendo. porque . a Morte é que deve vir em nosso socorro. não se pode conseguir isto. no colo. muito comumente. e pode deixar de lado o nome pomposo da matemática. como diz Baudelaire. e a safira é a pedra dos anéis de engenheiros. que elas tem toda a razão. unicamente. ELOGIO DA MORTE Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. que tanto a engenharia dele como a música da sua deidade. Quanto ao seu futuro marido. A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência. se dependesse do meu voto. em certas partes dos corpos femininos. e. há um processo seguro: É a tatuagem. desde já estudasse as divisões da nossa moeda. "moisir parmi les ossementes. Além de tudo. é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos. é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento. extremar-se do vulgo feminino. Pense em outras. Aritmética. no fim quando ambos forem se servir de uma coisa e da outra. a vida deve ser uma vitória. para isto. e. e uma pedra tão dura não fica bem para emblema de uma arte tão doce e tão pouco rígida. até que. todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência. basta o Viana. As pedras. na Escola Politécnica. E. é dela que nós esperamos a nossa redenção. para bem poupar e fazer render o que ganhar nas suas lições. para ser dependente dos outros.Certamente. A moça que projetou o anel tem certamente um namorado aos cuidados dos Srs. na escala da dureza. gosto da Morte porque ela nos sagra. Procure na Une Charogne isso. Não amesquinho seu noivo ou namorado. em música. iria magnificamente. é indelével. fosse a gentil senhorinha formada. Faço uma observação. que os doutores também poderiam usar. Quando. pois nunca foi do meu temperamento amesquinhar um doutor ou futuro doutor. Em vida. A vida não pode ser uma dor. depois que Ela nos leva. A matemática. sous l'herbe et les fioraisons grassées".justificam . ela só quer acompanhadores de procissão. é assim como o latim para um grande número de padres: eles sabem só pronunciá-lo. animo-me a lembrar a ambos. querem elas que sejam de safira. que só visam lucros ou salários nos pareceres. Ficaria a senhora Dra. pelas nossas boas qualidades. uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas. Não há. Seria mais um. porém. como nós todos. campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios. imagino eu. Contudo. É a destruição contínua e perene que faz a vida. A Lanterna. Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós. Se o fito é distinguir-se. Ortiz ou Villiot. a matemática que entrar nelas pouco além irá daquela que se aprende nas escolas primárias. entre nós. minha senhora. tem os "handbooks" que lhe suprirão as falhas na sabedoria. Seria melhor que a menina que ideou o anel. por exemplo. nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica). ocupa um dos primeiros lugares. desde já estariam usando o berloque simbólico. De passagem seja-me permitido lembrar à futurosa Cellini acadêmica. se algum dia passar além do trânsito ou do nível. que a safira. a conta de juros da Caixa Econômica. É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças. mas. Tudo .a música tem muita coisa com a matemática. porém. minha senhora. A esse respeito.

os honestos burgueses ali da esquina ou das secretarias "chics" que fizeram as grandes reformas no mundo. Que eles sejam candidatos. e é preciso. não tem nada de indecente. na vaga do Sr. são eles os iludidos. antes que ela me sagre na minha pobreza. trata o agitador de louco. Além de produções avulsas em jornais e revistas. tidas por doidos. tenho direito a pleitear as recompensas . quem. como eu. A agitação de uma idéia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa. com toda a razão. Sendo assim. Paulo Barreto. para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino. Le Bon dizia isto a propósito de Maomé. eu a sagro.. são fechados e não aceitam nada que os possa lesar. é muito justo. Não há nada mais justo e justificável. para me estamparem o nome e o retrato. Nunca foram os homens de bom senso. na sua Civilisation des Arabes.. para própria felicidade da espécie humana. Mas. só tem que fazer elogios à Morte. sou autor de cinco volumes. Eu sou escritor e. estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas. as batatas! A MINHA CANDIDATURA Vou escrever um artigo perfeitamente pessoal. não se quer isto. Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar. nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência. Entretanto. nunca mendiguei elogios. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus. é que cada qual respeite a opinião de qualquer. na minha desgraça e na minha honestidade. Nunca lhes solicitei semelhantes favores.aqui é feito com o dinheiro e os títulos. A divisa deles consiste em não ser panurgianos e seguir a opinião de todos. Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo. Portanto. que não confiam nos seus próprios méritos. na minha infelicidade. no Brasil. às vezes mesmo mulheres. O que é preciso. e não há Chanceler falsificado e secretária catita que o possa contestar. muito bem recebidos pelos maiores homens de inteligência de meu país. Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. seja grande ou pequeno. Procura-se abafar as opiniões. para melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade. Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria. por isso mesmo podem ver mais longe do que os outros. Todas elas têm sido feitas por homens. para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes. chegam certos sujeitos absolutamente desleais. é coisa contra a qual eu protesto. e. portanto. são eles que trazem as grandes idéias. creio que a minha candidatura é perfeitamente legítima. que têm títulos literários equívocos e vão para os jornais e abrem uma subscrição em favor de suas pretensões acadêmicas. mas que procurem desmerecer os seus concorrentes. Sou candidato à Academia de Letras. sou alguma coisa nas letras brasileiras e ocultarem o meu nome ou o desmerecerem. são eles os reformadores. Dessa forma. é uma injustiça contra a qual eu me levanto com todas as armas ao meu alcance. Ao vencedor. São eles os heróis. Se não disponho do Correio da Manhã ou do O Jornal.

há ainda a notar que. a dotá-lo de material aperfeiçoado. tão poderoso. que chega a poucos quilômetros de Paris e tem que recuar precipitadamente. automatismo que adquiriu com manobras. Eu não temo abaixo-assinados em matéria de Letras. não estou disposto a sofrer injúrias nem a me deixar aniquilar pelas gritarias de jornais. De resto. SOBRE A GUERRA As últimas proezas de cruzadores alemães bombardeando as costas da Inglaterra é de molde a provocar a seguinte reflexão: a esquadra inglesa não é lá essas coisas. Correio da Noite. e violou a neutralidade belga para derrotar o país de Joana d'Arc. de sítios e trincheiras. para ter a vitória assim duvidosa. ela não pôde evitar que tal se desse. Apesar de não ser menino. as suas constantes manobras não lhe deram. era o seu constante pesadelo. com o poder numérico. não é essa formidável máquina de guerra que os nossos militaristas queriam que imitássemos. contra a independência. não podendo fazer nada de eficiente para o aniquilamento dos vasos alemães. faziam esperar que ele esmagasse facilmente a França. Agora. Com esse procedimento deu sobejas mostras de que não se fiava muito na eficiência do seu exército. Numerosíssima. Da mesma forma. concordemos. tal não se deu e a Alemanha confessa que não tinha esse poder esmagador. 19-12-1914 ATÉ MIRASSOL . a Alemanha ficará por muito tempo diminuída e os seus idiotas partidos guerreiros que se crêem eleitos e com a missão de dominar o mundo. tão cheio de ff e rr. diante dos fortes franceses de Saona e Belfort. Entretanto. se ela imobilizou a frota germânica. não valia a pena. apesar do mata-mouros do canhão 42. Obrigou todos os países a estabelecerem esse crime contra a liberdade. a superioridade esmagadora que era de esperar possuísse. com auxilio de amuletos patrióticos. não encontrarão na massa de camponeses homens em que se apóiem. A orgia militar. quase toda acumulada diante das costas germânicas. e os homens que criam o futuro. Um exército tão famoso. O seu violento efetivo. tirava o sono ao mundo. essa violência aos temperamentos individuais que é o serviço militar obrigatório. poderão agir. parece. custosos maquinismos e gastar as fabulosas somas que gastou.que o Brasil dá aos que se distinguem na sua literatura. penso eu. Para fazer a velha guerra lenta. O seu sábio preparo anterior. levar a Alemanha tantos anos a adestrar um exército numeroso. o exército alemão até agora tem andado muito abaixo de sua fama. Careta. por sua vez ficou imobilizada. exercícios e trenagens constantes. quando deixou de invadir a França pelas fronteiras que tinha com esse país. 18-8-1921. a que a Alemanha desde muito se vinha entregando.

erguida. O amigo "descoberto" e o mais animado no falar. leva na mão esquerda um saco e. mal vestidos. de um louro sujo. a mulher. Tem ar de ser de origem italiana. carregando sacos. fôssem tão ricos como aquele poderoso senhor que fala mal dos cigarros. guardando a escala de crescimento e da hierarquia doméstica. barbados. Na frente o pai. na Central. Possui mesmo uma forte cabeça romana. Parece pessoa poderosa e rica. uma criança de seis anos. O último. Há uma agitação que não é do meu gosto. aparece-me o G. Há. por causa do tropêço que ela lhe vai causar às pernas. Já me olha o fronteiro com mais simpatia e não mostra tanto aborrecimento com a mala. Vejo passar uma família de imigrantes em fila índia. Olho a plataforma. muito confiante em si. Devem ser russos ou polacos. ainda dois lugares disponíveis. a contrariedade com semelhante vizinhança. Por que deixaram a sua aldeia ou cidade? Foi a guerra. Um dos meus amigos conhece o vizinho de vis-à-vis. Invejo-o. Fico contente. Arrependo-me da viagem ou. atraído também pelo seu nome pitoresco. É meu primeiro aborrecimento não caber o meu calhambeque de mala debaixo do banco. embarquei para ela. Não se sentam logo. É o meu lugar. bacharel da Bahia.uma hora antes da partida. Pergunta -me por que não a ponho debaixo do banco. Tendo eu ficado nos bancos que estão imediatamente próximos à porta. etc.(Notas de viagem) I A CONVITE de meu amigo e confrade Dr. Na portinhola. Estou encostado à portinhola e o viajante da esquerda. portanto. mostra incômodo com a mala. Tratam com o "romano" a troca do lugar dele com o do amigo descoberto. curvado. ele não esconde. na direita. Explico-lhe a razão. para ela. antes de 1914. Vão-se. antes. que. vi que. Ranulfo Prata. Maldita seja a guerra! Estes meus pensamentos são interrompidos pela chegada de dois outros passageiros para os lugares restantes que me cercam. Entretanto. cigarros dos outros. Isto me faz rir interiormente da sua presunção e do seu fumo. Até automóveis com malas postais e medas de jornais e revistas penetram nela. Ainda bem. Fala mal dos cigarros pobres e alude a altos negócios de contos de réis.. satisfeito. italianos. uma garrafa quebrada. Tomei logo lugar no vagão de 1. É o Mário. que fica nos confins de S. Põem-se a conversar. entretanto. Sentam-se. Prevejo que terei que viajar com o azedume do companheiro de defronte. clínico nessa localidade de Mirassol. de não ter tomado a segunda classe. Envergonho-me da minha pobreza e dos meus humildes cigarros. tanto mais que não se aborrece com a mala. que também tem horror aos "mata-ratos". depois. alemães. Que será? Mete-me pena aquilo. Consolo-me. O meu é novo em folha. está coberto com um encardido chapéu de palha. seguem-se os filhos e filhas. eu tão tímido! Chegam amigos e meu irmão. Paulo. Os meus vizinhos desandam a conversar vivamente. Encontram-no. o vis-à-vis é obrigatório. O que me ficou defronte. se dirigiam tantos russos. O trem põe-se em movimento. Alegria. Ei-lo que chega. alegre. em 1 de abril. É um rapaz simpático.a classe .. talvez. carregando um grande saco. com um bebê ao colo. Procuram com o olhar um amigo no carro. na ordem da idade. .

deste para Bertoldo. como se tudo isso fosse a coisa mais natural deste mundo. se não levar vaia. poderosa e influente. A viagem continua. Dividiu os esforços por três Estados. por mais caro que seja. de distúrbios eleitorais. Da maneira que fala de coisas de urna. os outros dois. quem se apresentar no trem com um guarda-pó. mesmo.O de defronte. para Barbacena. O de chapéu de palha encardida. as coisas mudaram. não foi diplomado. o bacharel da Bahia. passar com uma graúda italiana muito clara. não sei se devido ao progresso ou à moda. mas fico a pensar: como é que gente tão rica. é o mais velho dos três. desapareceram os guarda-pós. de onde em onde. não levar guarda-pó era sinal de lamentável pobreza ou de mau gosto sem igual. Esse parece não ter título algum.. A moda pede que não se os use e exige até que se viaje com roupas caras e finas. do conservador para o liberal. queijos e café aos viajantes dos comboios que atravessavam as suas terras. nem mesmo de patente da Guarda Nacional. É que o fogoso tribuno quis abarcar o mundo com as pernas. tal qual fiz eu com o calhambeque da mala que levei e tantos dissabores me fez passar. Chega um outro chefe eleitoral. de falsificações de atas. o que agora me olha com simpatia. A conversa se generaliza. Já há o carro-restaurante e. atravessa um empregado dele. políticos. cuja profissão não é denunciada à primeira vista. pode conversar tanto tempo e não ter uma idéia. Dois dos meus vizinhos. O vizinho. Todos o olham com inveja e eu também invejo a sua despreocupação. secunda-o nas suas apreciações. em menino. uma reflexão sobre o atual estado angustioso do mundo? Chegamos a Belém. porém. e. pelos carros de passageiros. Hoje. Se os tivesse concentrado no seu município. viajei com meu pai em trem de ferro. Matou o rudimentar comércio dos camaradas do interior. de Fagundes para Bernardes. segundo me parece. Percebo que é coletor federal. Quem não podia comprar um. me parece médico. Veio o progresso. Olho a plataforma da estação. Não compreendo nada dessa conversa de influências da roça. . Careta. como uma vestimenta chinesa ou japonesa. Vejo o bacharel G. sem conseguir ser ao menos deputado de Niterói. com essa morte. Hoje. viajavam com caríssimos ternos de linho imaculadamente lavados e passados a ferro. Vai falando alto italiano. Explica por que o Maurício. 23-4-1921. porém. As tricas e os truques de tão odiosa instituição são explicados. Quando a primeira vez. pedia-o emprestado. por demais disposto a fornecer aos viajantes o que eles quiserem. mesmo que seja de sêda. Tratam de coisas eleitorais. A conversa eleitoral toma novo alento. a capacidade comercial das gentes ribeirinhas à Estrada de Ferro Central do Brasil consistia em vender frutas. pelo menos é tomado como roceiro ou coisa parecida. que aprecia os cigarros caros. percebo que é um velho politicão da roça que tem passado de partido para partido. certamente venceria o Henrique. II Até bem pouco. no carro. o de Lacerda. Fala de coisas de capangas.

Eis um forte motivo que justifica os trejeitos de andadura que fazem as nossas melindrosas. quando. da Liga Pela Moralidade. e. com os Srs. com grande simplicidade de meios e palavras. com o Sr. já resolveu. O trem partiu e os meus companheiros de viagem voltaram a tomar assento e a discutir política que. uma pobre criança que me lustrava. de que sou. Pinto da Rocha. III O trem corre e se aproxima dos limites dos Estados do Rio e São Paulo. os motorneiros. Mário de Alencar.por que então suprimir o capote de brim que resguardava as nossas roupas dele? Por que tornar chique viajar com roupas impróprias que muito mal se defendem da poeira? É difícil encontrar razões para os preceitos da moda. Veja você só os "manicures". trouxe a supressão do guarda-pó. Lembrei-me dessa frase do meu conspícuo amigo e confrade Mário de Alencar. a organização da atual sociedade que me fazia tão rico e àquela criança tão miserável e pobre. etc. membro virtual. em certa ocasião ao meio de uma grave sessão da Academia Brasileira. pela conversa.É porque é moda. os "chauffeurs". naturalmente das autoridades do trem.Eu tinha posto uma roupa nova naquele dia. Peixoto Fortuna. como já disse. segundo Bossuet. 30-4-1921. deve ser coletor federal É um tipo atarracado. os massagistas. aliás. assassinos e simples caipiras chamam pomposamente política. para viajar . uso que constituiria um sinal de má educação antigamente. mesmo à noite . pelo que dele ouvi. introduziu nos trens o lustrador de botinas dos graúdos do meu estofo que conseguem viajar na primeira classe. cujo fino talento tanta admiração me causa. a quem perguntei por que usava o paletó aberto com a camisa à mostra. etc. os tripeiros. para criar trabalho e profissões. respondeu-me: . sem suprimir o pó das estradas de ferro. passando instantes em uma estação. e com pressa e mêdo. Os meus vizinhos voltam do carro-restaurante. é muito entendido nesse negócio que os doutores e coronéis do interior. Por ventura existiam essas profissões antigamente? Não há motivo para maldizer o estado atual da sociedade. as minhas modestas botinas. ainda dentro do Estado do Rio. O progresso. e a transparência venusina de seus vestidos que tanto indigna o Sr. a questão social. ela fabrica necessidades. acompanhados agora de um outro cidadão que. foi ele que me observou o seguinte: . é a arte de dar felicidade aos povos e tornar a vida cômoda. os "pedicures". achei absurdo semelhante moda . Elas não vão além de mil e é freqüente que os palestradores repitam o milheiro de várias formas: "porque o Maurício não podia contar com os mil votos que o Fábregas deu ao . Almachio Dinis e outros. Entretanto. O pó das estradas de ferro continua a existir. sem aviso algum. Eduardo Ramos. Essa grande arte de dirigir os povos e as nações é ali reduzida à mais simples expressão de modestas cifras. que é fértil em absurdos. os engraxates. Dei-lhe um cruzado e bendisse. a meus pés. porém. Mário de Alencar. O Sr. quase quadrado e. Careta. vi agachada. peões e camaradas. graças à sua capacidade de criar profissões miseráveis.Se o progresso traz miséria. A alguém.coisa que não aumentou nem diminuiu o meu valor. em compensação faz nascer outras profissões. em compensação.deusa.

A política naquela palestra de influências eleitorais reduz-se a números." Ainda mais simpatizo com esse meu companheiro de viagem. sem nenhum ralho na voz ou no olhar. mas descarregou-os no Brandão". para assustar os contos de réis daquele insolente Mário que despreza os meus cigarros. ele ganharia". É verdade que eu a estudei nas "public-houses" de New-York e Londres. Não sou autoridade no assunto.estou certo .Borges. por modelo o patriarcado bíblico. é um menino fardado de colegial. depois se abraçarem. o filho se despede. desculpa este também: "ele tem muito que fazer. ao ser apresentado ao tal coletor. e acompanha a conversa política dos seus amigos. ligeiro e alegre. Há alguma diferença. para sossego da "brasilidade".. tal e qual faziam. o médico que viajava em frente a mim desde a Central. e ainda mais desejo conversar com ele sobre febre aftosa. por ser agora. muito diferente dos amigos que o acompanham. Ao chegar a uma estação qualquer. onde este último possui um campo experimental da cultura do fumo ou tabaco bravio. é também o intermediário mais perfeito entre o mistério da nossa alma e aquele que nos cerca. foi porque ele não soube trazer para o seu lado o Assunção. A isto acode um outro: "não foi tanto pelos mil votos do Fábregas. se é mãe do Crime e do Vício.. Acontece que ultimamente foi introduzido o uso estrangeiro de se beijarem pai e filho. é natural que se esquecesse . os meus amigos católico-nacionalistas resolverão . etc. tão simples. porém. e toma parecenças com os discursos parlamentares do meu simpático Cincinato Braga ou com os artigos do Mário Guedes. antigamente. nos telhados velhos do edifício. as damas e moças. Dentro em breve. que. Careta. Infelizmente não é o de Lacerda. tão natural. É tradicional que. 7-5-1921. apelara para o Ministério vizinho do Hospício.. É a bênção que ainda hoje eu.. com quase quarenta anos. e continuamos a correr sobre os rails da Central. que lhe enviara em auxílio um veterinário com uma lata de creolina. dentro da escuridão da noite. nesses momentos. Não há nisto e.. ao se encontrarem. mas. o pai. O pai recebe com bonomia as explicações do filho. um afrouxamento do uso da nacionalidade. Percebo que é filho do médico. graças à doutrinação da Igreja. com o mútuo tratamento de tu e você entre pais e filhos. que dispõe de outros tantos. na Sociedade de Agricultura. . meu colega também. O pequeno quer descarregar a culpa para o chefe de trem. que perdeu o trem ou fêz qualquer traquinada e não saltou na estação devida. tomo a meu pai. professor de agricultura. o filho leve aos lábios a mão direita do pai e a beije no dorso.Olha o Maurício! Penso que é o de Lacerda e antegozo uma disputa de alta política eleitoral em que o meu Maurício de Lacerda certamente não deixará de pontilhá-la com algumas sentenças comunistas. nas faces. sobre coisas do Ministério Simões Lopes. também. com o eminente Mark Twain. Sabem por quê? Porque ele.a questão a contento de todos e com rara sabedoria escolástica O menino saíra. como eu já era. Nessa despedida encontrei um problema nacionalista que rogo aos meus amigos Álvaro Bomilcar e Jackson de Figueiredo a resolverem-no quanto antes. etc. na rua da Alfândega. ao lhe aparecer não sei que peste no seu gado. sob o doce e longo olhar paterno. uma injúria irrogada aos manes dos nossos avós? Penso que há ai alguma coisa como que uma diminuição da forte constituição católica da família brasileira que sempre teve. em ocasiões solenes. e que. ah! não fosse isso e a intervenção do "centro". e o Mário fez seus estudos com o avisado Miguel Calmon. exclama com terno espanto: . dissera que a sua fazenda era só de criação.

como já disse a V. hipotecas e anticreses são termos e instrumentos de créditos familiares a todos. Letras. É um livro de Contos que todos aí conhecem. Pois.DIAS DE ROÇA (Carta) Meu caro amigo. Faltam-lhe água e montanha. apesar de ser a negação para o gênero. abandona o pseudo clássico de Aloísio. Sente-se que o "rush" da população para aqui.. mas. mas brasileira. Tem ela por tema "O destino da Literatura". em pé. Um curioso tipo de plantador. É este o título do romance de Mário Sete. Essas complicações. Quero muito falar . por isso mesmo. faz . sem discordarem. e as florestas de perobeiras já fugiram para longe do povoado. aos céus de dia e de noite. devido à falsificação de títulos de posse. a crescer sobre as recentes derrubadas. a não sei que propósito. Ele marcha para o conto. já escrevi uma conferência literária que. entretanto. é a de oficial de justiça. me perguntou o que faço nestas paragens que não te mando o manuscrito prometido. não tem em grande conta a terra e as suas árvores. a de soldado. as grandes notas de cem.. a pedido de "várias famílias". Constituída assim a povoação do lugar. ainda não dei começo ao trabalho que tratei contigo fazer. Ela corre atrás desse demônio do café que vejo pequenino. para aqui trouxe. disse-me um dia destes: .Moço: a pior. a fim de estudá-lo convenientemente. a que chamam . como para significar o seu protesto e clamar. Imagina tu que estou aqui há bem um mês e ainda não pude ler convenientemente. não pude ler o Senhora de Engenho.. de dois e três anos. ainda. Um outro livro que. embora. ao que parece.que não escreve ao menos isso? Passeio e converso. é um romance que tem andado aqui de mão em mão e não sai de uma delas sem os maiores gabos e sem sugerir aos leitores reflexões sobre os encantos da vida roceira sobre a da cidade. Sem propósito algum. se é que tenho algumas. altos troncos carcomidos e enegrecidos pelo fogo. A bem dizer. vou pedir ao meu Félix Pacheco que a publique no Jornal do Comércio. Há aqui intermináveis questões de terras. escreve como eu ou como o Cardim do Jornal do Comércio. O caboclo passa por eles. Aqui só se fala em conto de réis. com a sua natural mescla de imigrantes de várias proveniências. a mais baixa profissão desta vida é a de advogado. autor do formoso Rosas e Espinhos. fazem as delicias dos advogados e . é um gozo observá-la em todas as camadas. apesar de médico. O horizonte é igual e unido. idéias muito diferentes das minhas. mas se revela um temperamento complexo de pensador-homem de letras. Mirassol não é uma paisagem. É muito pobre a esse respeito. depois. sem cessar. Merece ou não o Jornal do Comércio? Espero que ela será muito apreciada pelos conspícuos acadêmicos Afrânio Peixoto e Hélio Lôbo. é o de Gastão Cruís Coivara. para convenientemente dar noticia de dois livros. tenham ambos dos fins da literatura.. converso com este ou aquele e me edifico. quanto mais os ouve.dirá o amigo . Mas que diabo V. e nem os olha. para o conto de réis. Um é do Mário Sete. com ar tímido de criança sonsa.. depois. desse livro em que o autor. Este pequeno de fisionomia verde-chumbo vai ser o diabo."grilos". contra a violência que sofreram. V. não só paulista. deixando das derrubadas e das queimadas conseqüentes. pela circunspeção e seriedade. duzentos e quinhentos mil-réis são comuns. e até a conta de pares o é. não faço nada.

Todas as medidas de que os políticos lançam mão são nesse intuito. baseados nas referidas missivas. o que se chama política no Brasil. os edis de hoje mandam construir hotéis de oito mil contos. Ultimamente.são o pesadelo dos agricultores. atualmente eleito presidente da República. como se dizia antigamente. etc. que me ocupo aqui onde estou. Tais cartas continham insultos ao Exército e os adversários do Sr. A questão versava sobre uma falsificação de cartas. com a nossa democracia. no tempo de el-rei Nosso Senhor. tanto para elas como para nós. De V. as autoridades municipais se encarregavam do bem-estar do seu povo. Só admito que se morra em matéria de política quando se o faça por uma idéia que interesse um grande grupo humano. ver bobagens de uma "Exposição" de aterrado. porque não acredito nela e muito menos nos políticos. que vejo a "política" do Brasil ser justamente o contrário. 14-5-1921. etc. mas eles devem ser muito baixos e vagabundos. no Rio. são atualmente piores que os almotacés do conde de Resende. isto é. Para mim a política. Dai. hospedar estrangeiros. levei-o de troça. À noite. Havia nisto um apelo declarado ao que se chama nas repúblicas espanholas "o pronunciamento". como representante da imprensa carioca. No caso não havia isto e eu. meu caro amigo. vou ao cinema. desta nossa leal e heróica cidade do Rio de Janeiro. entre nós houve uma barulheira política que quase sacudiu o pais. conforme Bossuet. Deixemos isso para mais tarde. de superior. Não sei os pródromos de semelhante barulheira. é que o observador imparcial logo concluiu que nenhum dos grupos que se digladiavam falava a verdade. é melhor do que o . De forma que. Bernardes excitaram os brios da força armada contra ele. coisa que não fazia aí. É. Pus-me de parte e tive razão. Ela tende para tornar a vida incômoda e os povos infelizes. Careta. O dever nosso é evitá-lo de qualquer forma. caso fosse possível. essas mesmas autoridades se encarregam do bem-estar dos ricaços displicentes que vêm a passeio. cheios de dinheiro. para. São os meus dias de roça. Toda a gente sabe que isso tem sido um flagelo. A verdade. de que se revista o provimento deste ou daquele cargo de eleição. O intuito dos opositores à candidatura do Sr. e vou de graça. mais ou menos com isto. Desde menino. hoje porém. Não havia nessa agitação nada de ideal. por exemplo. PALAVRAS DUM SIMPLES Nunca me meti em política. aqui e ali. Estes tinham direito a certo número de línguas e "mãos de vaca" das reses abatidas no matadouro. pobre e oprimido. Bernardes era mover o Exército contra esta. tem por fim tornar a vida cômoda e os povos felizes. Qualquer modalidade de hipocrisia política.. Os prefeitos.. Por estas e outras eu sou completamente avesso a negócios de política... Artur Bernardes... atribuidas ao Sr. porém. E outra atitude ele não merecia. impedir a posse do mesmo senhor pela força. vetá-la e. Evite os protestos. a opinião do fazendeiro que ouvi Há coisas dolorosas provocadas por essa história de "grilo" que sociólogos da escola do super-homem já elogiaram no Rio de Janeiro.

não ouvi outra espécie de música. . São causas que nós. está aparecendo um tal de "shimmy".Não se gosta mais disso. rang-time. não há mal nenhum. Os pobres-diabos que se apaixonam por essas especulações de políticos é que levam o "chanfalho" da polícia e sofrem perseguições. nos últimos acontecimentos. humildes. . durante todo esse tempo. BAILES E DIVERTIMENTOS SUBURBANOS Há dias. porque elas não representam nenhum ideal elevado. quase em frente à minha casa. A não ser umas barcarolas cantadas em italiano. para a sua fôrça e o seu prestígio. mas a favor de Fagundes ou de Brederodes não dou um pingo do meu sangue. fui deitar-me cedo. fox-trot. O dia veio se fazer inteiramente. Como tinha passado um mês enfurnado na minha modesta residência. Sancho ou Martinho que governe. mas agora. a não ser polcas adoidadas e violentamente sincopadas. apelarem para eles. mas a informação me fez lembrar do . O que apreciam os dançarmos de hoje. Levantei-me da cama e. se nos dias presentes não se dançavam mais valsas. são músicas apolcadas. tocadas "a la diable". estava dormindo a sono solto. por aí assim. mazurcas. se insurgiram contra a intromissão. dentro em breve. a pressão dos militares nas causas políticas. Penso assim porque estou convencido de que seja Paulo. provocado pela monótona musicaria do baile da vizinhança. que servem para dançar o tango. etc. ou já se dançou. como sempre faço quando me resolvo a descansar a sério. Vimos em que deu a coisa. e. nem nada de sincero e de sério.. para implantar aqui o regímen maximalista... Nunca vi dançar tal coisa. a fim de tornar vencedora a própria causa. Hoje. Justifiquei-lhe o motivo da pergunta. as entradas das caixas de doces. Na noite do baile. houve um baile. nem me tenta vê-lo. deixando o chefe sozinho Que este fique só. quadrilhas ou quadras. não devemos esposar. Tenho para mim que se deve experimentar uma "tábua rasa" no regímen social e político que nos governa. pude perceber todos os preparativos da festa doméstica: a matança de leitões. não há muitos anos. sujeitos que. escafederam-se.. O baile já havia começado e ainda com algumas polcas repinicadas ao piano. tomava o café matinal em companhia de meus irmãos. Perguntei a minha irmã. Seria capaz de deixar-me matar.assassinato e a violência. . que vimos. Ao menor sopro de "mazorca" foram todos pelos ares e eles todos debandaram.Qual! . Ele é rico ou enriquecido e pode agüentar o repuxo: mas o povo não deve ir atrás dessa gente. . etc. mas mudar só de nomes de governantes nada adianta para a felicidade de todos nós."Cake-walk"? .disse-me ela. esta vida será sempre uma miséria. Às 9 horas. quando acabou o sarau. Às 2 e meia.perguntei. a ida dos assados para a padaria.Ainda não se dança. 22-7-1922. Demais. interrompi o sono e estive acordado até às 4 da madrugada. há tanta incoerência nesses políticos que nos azucrinam os ouvidos com velhos tropos quando querem satisfazer as suas ambições. na minha vizinhança. que para enfezar Copacabana denominei "Vila Quilombo".

Houve quem dissesse que nós fazíamos casa. especialmente suburbano. porque a melhor peça dela era destinada a estranhos. Há uma coisa a notar: é que esse maxixe familiar não foi dos "Escorregas" de Cascadura para o Acchilleon do Flamengo.desdenhava o subúrbio e acusava-o falsamente de dançar maxixe. Hei de falar mais detidamente sobre esse vigoroso livro: agora. porém. no Rio de Janeiro. e reveladoras de cultura.O Esporte está deseducando a mocidade brasileira . incluídos os Democráticos e o Music-Club das Laranjeiras. não sei se é. com um chôro. ao contrário. Por isso entre a gente média os bailes estão quase desaparecendo dos seus hábitos. O Sr. eles ficaram reduzidos ao mínimo de um concerto de violão ou a um recibo de sócio de um clube dançante na vizinhança. presidia sempre a capacidade da sala de visitas para a comemoração coreográfica das datas festivas da família. numa delas. Nos tempos idos. na gente pobre. Passando para os pés dos civilizados. Hoje. Ou moram em cômodos ou em casitas de avenidas. essa gente verde das nossas elegâncias . certos rapazes e moças. Isto. onde as moças vigiadas pelas mães possam pirutear em salão vasto. que são um pouco mais amplas do que a gaiola dos passarinhos. Eram célebres nos subúrbios. Pode haver exagero . não há diferença: todo o Rio de Janeiro. Convém notar que. Fazem parte dos rituais dos seus Deuses.sempre mutável e variável de ano para ano. e com elas invocam a sua proteção nas vésperas de guerras e em outras ocasiões solenes. O meu amigo Sussekind de Mendonça. O meu estimado Mendonça atribui o "andaço" dessas danças desavergonhadas ao futebol. mas de que forma. tanta brutalidade de maneiras. dessas danças luxuriosas que os hipócritas estadunidenses foram buscar entre os negros e os apaches. a coisa piora. que dançam "one-step" e o tango argentino. Nas salas de visitas das atuais mal cabem o piano e uma meia mobília. semelhantes danças não têm a significação luxuriosa e lasciva que se julga. santo Deus? Quando fui morar naquelas paragens não havia noite em que voltando tarde para casa. O subúrbio civiliza-se. no seu interessante livro . uma instituição nacional. Antônio Leão Veloso achou isso exagerado. de alto a baixo. que é bem possível não ser ele isento de culpa no recrudescimento geral. perdem o que significavam primitivamente e se tornam intencionalmente lascivas. hoje. porém. e.verde é sempre uma espécie de argot . além de irem a outros de famílias diferentes. e havia também cavalheiros e damas que não faltavam a eles. ou as tínhamos para os outros. e nessas bárbaras danças se nivelam. entre esses retardados exemplares da nossa humanidade. em que dançavam dúzias de pares? Evidentemente. Meia dúzia de pessoas. fora os extraordinários.mas o tal de futebol pos tanta grosseria no ambiente. Na escolha da casa. porém. cabe só uma observação. que era também suburbano. veio deste para aquela. mas tenho certeza de que era profundamente carioca. como tipos de dançarinos . não nos interessa. Mendonça alude ao que se passa no "set" carioca. era ou foi. diria o saudoso Figueiredo Pimentel.não ponho em dúvida tal coisa . as casas minguam em geral. tanto desdém pelas coisas de gosto. de frases e de gestos. quando em estado selvagem. O baile.refere-se à licenciosidade das danças modernas. Como é que elas podem comportar um baile à moda antiga. como se dizia na gíria do tempo. . Isto acontece com as famílias remediadas. na capacidade dos seus aposentos e cômodos. não topasse no caminho com um baile. porque não interessa tanto ao subúrbio como ao "set" carioca. provocantes e imorais. com as verdadeiramente pobres. e especialmente. Os construtores das casas já sabiam disso e sacrificavam o resto da habitação à sala nobre. estão ameaçadas de morrer asfixiadas com as janelas abertas. mas pelo que me informam.que era um baile familiar há vinte anos passados. elas são deturpadas. o dança. Havia famílias que davam um por mês. não. o subúrbio não lhe fica atrás. acentuadas na direção de um apelo claro à atividade sexual. adquirida a prestações.

tomava um ar de sílfide. dentre eles. não merecia consideração. Sereno. sem nenhuma espécie de convite. com o intervalo de um hora. quais os . penso de mim para mim: para que essa moça se cansou tanto? Chegou afinal ao ponto em que tantas outras chegam com muito menos esforço. Não' era bonita na rua. era chamado o agrupamento de curiosos que ficavam na rua a espiar o baile. vaporosa e adquiria um ar esvoaçante de visão extra-real.. porque Cacilda trazia Nenê e esta o irmão que era namorado daquela .. com dois ou três filhos que lhe dão um imenso trabalho para acomodar nos bondes. Fazia cumprimentos hieráticos e dava os passos com a dignidade e convicção artística de um Vestris. sempre requestada para esta e aquela contradança. via tantos e tantos cavalheiros. e. um traço próprio. O puritanismo era francamente favorável a eles. que essas reuniões facilitavam a aproximação dos moços de dois sexos. por tanto dançar não tinha tempo de namorar. assim. Dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano. valsando ficava outra. Dizia a todos que. ao valsar. lhes causou. abrigava. essas festas domésticas tinham um grande cunho de honestidade e respeito.. transitoriamente. Seu Gastão ainda existe. atualmente ainda encontro. mas a valsa era a sua especialidade. sem terem ocasião de trocar impressões. Não desdenhava as outras contradanças. Conheci alguns. Além destes subconvidados. por acaso. cabelos abundantes e sedosos. De fato. Em geral. Baile em que não aparecia seu Gastão. Nesses bailes suburbanos. de uma delicadeza exagerada. Quase sempre era formado de pessoas das vizinhanças e outras que não haviam sido convidadas e lá se postavam para ter assunto em que baseassem a sua despeitada crítica. porém. a encontro atrapalhada com os filhos. Hoje é diretor-gerente de uma casa bancária. de minueto ou de coisa parecida. só nos dias de luto da semana santa e no de finados. Afirmava ele. mora em Conde de Bonfim. Em todos os mais. sem comunicarem mutuamente quais os seus anelos. Dançou para a vida inteira e também pelos filhos e filhas. cuja vida particular a cada um deles se fazia isoladamente. simpático. e prosperou na vida. Era um rapaz de boa altura. Esses bailes burgueses não eram condenados pela religião. era o "pas-de-quatre". o mártir era o dono da casa: Seu Nepomuceno começava por não conhecer mais da metade da gente que.. ainda existiam os penetras. Quando rei suburbano do "pas-de-quatre" era empregado de um banco ou de um grande escritório comercial.domésticos. a casa se enchia de desconhecidos. para entrar nos bailes penetrar. Lembro-me bem. gordinha. sem grande relevo. numa vasta casa. tem filhos. A sua testa era alta e reta. de feições miúdas. Se não era bela na rua. às vezes. Os que a viram dançar e me falam dela. pela bôca de adeptos autorizados. apesar da multidão dos convidados. não dançava. em atitude comum de passeio. Chamava-se assim certos rapazes que. Chamavam-na Santinha. Se algumas nada diziam. O "pendant" masculino de Santinha era o seu Gastão. Outras até elogiavam. de divindade aérea. que acabava não vendo nenhum ou não firmando a fisionomia de nenhum. está casado. Eram raros os excessos e as danças. se prolongavam até o clarear do dia sem que o mais arguto do sereno pudesse notar uma discrepância nas atitudes dos pares. e quando hoje. Era estimada como discipula de Terpsícore burguesa. dançando ou não. Tinha. e o resto do vestuário de acordo. grandes e bastos bigodes. para uma ceia modesta. mas raramente dá bailes. A sua aparência era de uma moça como muitas outras. Santinha valsava até de madrugada.a única cuja família tinha relações com a do Seu Nepomuceno. e tinha uma notoriedade digna de um poeta de "Amor" ou de um gatimanhas de cinematógrafo. A sua especialidade não era a valsa. até hoje não escondem a profunda impressão que a moça. Só dançava de "smoking". pouco vulgar nas moças. que dançava com ademanes de dança antiga. testa de deusa a pedir um diadema. calavam-se. longe disso. e ouvi muitos falar neles. usavam deste ou daquele truque. de uma moça que. Fugia ao solo e como que pairava no espaço. A sua especialidade estava na valsa americana que dançava como ninguém.

segundo tudo faz crer. levarem a desgraça a lares pobres e perder moças ingênuas e inexperientes. o célebre pianista de bailes. de cansaço. A única novidade que notei. é o maior divertimento popular da gente suburbana. Resta-nos o Carnaval.Os homens são jograis. dignificou e tornou capaz da atenção dos intelectuais. extraordinariamente honesta em comparação com os tais "steps" da moda. pode-se dizer que o baile familiar e burguês. pelas causas apontadas. Quase todas as estações tinham mantido um Clube. Há por lá monstros desses que contam tais proezas às dezenas.Revelação: . Precisa-se de ruído. Estou certo de que os positivistas. O pequeno povo porém ainda não sabe o "fox-trot". com o seu talento e a sua obediência cega a um grande ideal. pondo de parte o Mafuá semi-eclesiástico. por intermédio de horríveis cantarolas.. em matéria de diversão. a exigüidade das casas atuais e a imitação da alta burguesia desfiguraram-no muito e tendem a extingui-lo. Até o pianista. como em todo este Brasil inteiro. O cinema absorveu todas elas e. para esquecer. maus de natureza e sem talento algum. mais ou menos africano com o futebol anglo-saxônio. os mesmos versos indignos de manicômio. como em Niterói. favorecendo tudo isso os saraus familiares. O do Riachuelo. Pode ser. foi transformado em escola municipal. mas sei que as suas regras de bom-tom em nada ficam a dever às dos congêneres dos bairros elegantes. enfim. são os mesmos cordões. com gambitos nus. Uma outra diversão que. bacantes. no seu último livro . se haja hoje generalizado nos subúrbios. foi a de festejarem a vitória sobre um rival. artista honesto. nos subúrbios. a fim de.seus desgostos. O que havia de característico na vida suburbana. dança ainda à antiga. pouco ou quase nada existe mais. ainda volteia a sua valsa ou requebra uma polca. O violão e a modinha que Catulo. Vi isto só uma vez e não garanto que essa hibridação do samba. com sua tenacidade. e. doces diversões familiares. as mulheres. "anathema sit". Os clubes pululam e os há em cada terreno baldio de certa extensão. e. a sua proeza homérica com letra e música da escola dos cordões carnavalescos. Lá. mas não tenho documentos para tanto afiançar. como em Maxambomba. Nunca lhes vi uma partida. possuía um edifício de razoáveis proporções. as mesmas músicas indigestas e. vão sendo mais prezados e já se fazem encantos dos saraus burgueses em que. era a do teatrinho de amadores. de zambumba. sob todos os pontos de vista. grupos. cantando os vencedores pelas ruas. É pena que para um Catulo. ao som do piano ou de estridulantes charangas. Nada tem. nem o "shimmy". que foi impossível. ao subúrbio dar-lhe alguma coisa de original. teve a sua meia hora de celebridade. não permitindo prazeres simples e suaves. É o caso de imitar o outro e escrever: O Código Penal e a inutilidade das leis. blocos. no recesso do lar com um terno de flauta. O subúrbio não se diverte mais. Sem receio de errar. mas desapareceu. antigamente. hoje. Nos seus clubes. equilibradas e plácidas. os suburbanos apreciavam muito e hoje está quase morta. haja uma dezena de Casanovas disponíveis. as danças mínguam.. se servem da arte reabilitada pelo autor de Sertanejo. A vida é cara e as apreensões muitas. e. o Carnaval em que como lá diz Gamaliel de Mendonça. é ele. e essa mesma não me parece ser grave. como na Avenida. para espançar as trevas que em . democrático e efusivo. de próprio ao lugar. está fora da moda. é tal e qual outro e qualquer cinema do centro ou qualquer parte da cidade em que haja pessoas cujo gosto de se divertir no escuro arrasta a ver-lhes as fitas durante hora e tanto. ele arrebatou e monopolizou. O futebol flagela também aquelas paragens como faz ao Rio de Janeiro inteiro. atualmente. A carestia da vida. entretanto. um cavaquinho e violão ou sob o compasso de um prestativo gramofone. porém. tão igual por toda a parte. julgariam que os atuais bailes aproximam por demais os sexos. porém. que.

só em milho. Quando Rondon foi chefe da Comissão das Linhas Telegráficas. o tupi. Tudo o está levando para isso. O que o general Rondon tem de mais admirável. contudo. porquanto tinha intensificado a agricultura entre os Nhambiquaras. em cujas delícias transitórias mergulha.. Ele não mais se diverte inocentemente. porquanto o caboclo. . Não há general como ele para estender linhas de telégrafo. percorreu o Brasil. admira Rondon porque sabe andar léguas a pé. 7-2-1922. Aí não é o sabre que cede à toga. mas não há também general como ele. essa missão estava reservada aos religiosos de toda a espécie. Até hoje. Em matéria de caboclismo. Rondon catequista é um grande general e o general Rondon é um grande catequista. quando um sujeito se quer fazer nobre. inclusive as suas descobertas já descobertas e a sua determinação de coordenadas de certos lugarejos pelo telégrafo. que tem um ar feroz de quem vai vencer a batalha de Austerlitz. porém. diz-se caboclo ou descendente de caboclo. A mania. Rondon. só gosto do Uruguai de Basílio da Gama. no Brasil. para catequizar caboclos. Muito influíram para isso os poetas indianistas e. mais densas se fazem. Entretanto. hoje general. Nunca se viu pessoa tão conspícua no caboclismo. criou esse seu paraíso artificial. com a lascívia das danças novas que o esnobismo foi buscar no arsenal da hipocrisia norte-americana. porque o seu talento é telegráfico. Sei disto porque nesse tempo era eu empregado da Secretaria da Guerra e vi os papéis a tal respeito. e. Depois de tão excepcional caboclista. O general Rondon nunca venceu batalhas. há uns caboclistas muito engraçados. sobretudo. dias e meses. ele gastava mais de quinhentos contos por ano. sobretudo quando fala da morte de Lindóia em cujo rosto a Morte era mais bela. que nada tinha de tupinambá. e não as vencerá. coisa pouco sabida e conhecida. é a batina que se vê vencida pelo sabre. dão-lhe um destaque excepcional. Vê-se nele a sua vocação de ditador e ditador mexicano. além de outras qualidades e artefatos. nas nossas origens. Gazeta de Notícias. atualmente. além do Guarani de José de Alencar. inebria-se minutos. Um deles é o Sr. o desinteresse que ela põe nele. o grande José de Alencar. A seriedade do seu ideal. para esperar. durante horas. Deolinda Daltro. O NOSSO CABOCLISMO Uma das manias mais curiosas da nossa mentalidade é o caboclismo. é a sua fisionomia de crueldade. a raça mais atrasada. um aumentozinho de vencimentos. dia para dia. Nada justifica semelhante aristocracia. era.torno da nossa vida. Para as dificuldades materiais de sua precária existência. o primeiro romancista do Brasil. acho eu que essa virtude não é das mais humanas. mas foi preciso que o Brasil se fizesse republicano para que tal coisa coubesse aos oficiais do Exército.. acompanhando "pari-passu" as suntuosidades republicanas. Chama-se isto a cisma que tem todo o brasileiro de que é caboclo ou descende de caboclo. só há a Sra. contudo toda a gente quer ser caboclo. Toda a gente. porém. o subúrbio se atordoa e se embriaga não só com o álcool.

nas seções especiais. conversas íntimas. foi. Em meio do "match" o jogador Jadir Brás deu um formidável "shoot". se não me parecesse que ela se enganava. apesar de tudo. uma terna missiva do Dr. o que não acontece com o Dr. As moças eram conhecidas como sendo torcedoras de tal ou qual clube.. COMO RESPOSTA O foguista da Armada. afiavam a pena. etc. de 16-1-1922. 11-10-1919. Nas famílias. nada sabia sobre educação física.O Esporte está deseducando a mocidade brasileira . etc. qualquer erudição especial no assunto. Nas segundas-feiras. Sussekind. não sou selvagem. de intrigas de sociedades. Páginas e colunas deles eram ocupadas com histórias de "matches". Confesso que. de absorção de todas atividades que o futebol vinha trazendo à quase totalidade dos espíritos nesta cidade. Francisco dos Reis. por intermédio desta revista. Carlos Sussekind de Mendonça me dirigiu. e suas teorias. e mesmo a vagabundíssima Educação de Spencer nunca li. Mendonça. nos cafés. o seu célebre Émile. meu saudoso amigo. a mim e ao falecido Dr. desse nosso engraçado Conselho que teima em criar teatro nacional. os jornais. Os jornais não falavam em outra coisa. nos trens não se discutia senão futebol. Nunca fui dado a essas sabedorias infusas e confusas entre as quais ocupa lugar saliente a chamada Pedagogia. procuravam epítetos e entoavam toscas odes aos vencedores dos desafios. como resposta ao veemente e ilustrado trabalho do Dr. O que me moveu. indo a bola partir a perna direita de Francisco dos Reis. ontem. e eu. assistir ao jogo de futebol. A respeito. e. não tinha. mas. publicando-a sob a forma de 'livro e com o título . Comecei a observar e a tomar notas. era de alguma aldeia de índios. como ainda não tenho. traziam notícias de conflitos e rolos nos campos de tão estúpido jogo. Não era do Rio de Janeiro que ela devia ser intendente. eu só tentava ler Rousseau. a fundar a Liga foi o espetáculo de brutalidade. Careta. à rua São Gabriel.lembrei-me de escrever estas linhas. Deolinda acaba de se apresentar candidato a intendente da cidade do Rio de Janeiro. por isso. Nada teria a opor. a fim de subvencionar regiamente graciosas atrizes .D. Rio-Jornal. quando fundei a Liga Brasileira Contra o Futebol. Não se tratava de outra coisa no Rio de Janeiro. A minha cidade já de há muito deixou de ser taba. senão esquecido. em suas. nas quais os sábios e virtuosos cronistas esportivos teimam em encaixar o esporte. Mário Valverde.até isso era relegado para segundo plano. e até a política do Conselho Municipal. TENDO recebido de Porto Alegre. Afonso de Aquino. no noticiário policial. como se ele fosse nacional. no campo do Seleto Clube. Percebi logo existir um grande mal que a atividade mental de toda uma população de uma grande cidade fosse absorvida para assunto . em que ele me fala da "Carta Aberta" que o meu amigo também Dr. Nos bondes. só se tratava do jogo de pontapés.

em todo o mundo. e é da natureza dos governos não admitirem crítica. escrevi também que eles cultivam preconceitos de toda a sorte. Spencer era inimigo do futebol. Careta. Sussekind pode ficar certo de que se a minha Liga morreu. anda a vigiar a A Maçã. tivesse as lesões que tivesse. porque estou convencido. Admitir que um simples delegado de polícia ou uma praça de pré do meu amigo coronel Badaró esteja nos casos de julgar os meus escritos.4. partidários de futebol e uma récua de nomes desconhecidos cujo talento só é conhecido na tal Liga Metropolitana. nem de chanfalho. E acrescento mais: da pretensão. Quando a fundamos. fosse de que constituição fosse. feito sem regra. mostrei que. Ela não foi avante. Sou escritor e. Sendo assim. se mérito outro não tenho. Quando se os critica. Ameaçaram-me com vigorosos polemistas. se permitia tão horripilante coisa. que o "sport" é o "primado da ignorância e da imbecilidade". é abdicar do meu esforço silencioso e doloroso durante vinte anos. que me insurgi. ela encontra atentados à . bolas! Certa vez. Combaterei sempre o tal de futebol. "A MAÇÃ" E A POLÍCIA Noticiam os jornais que a polícia por intermédio de seus agentes e prepotentes. como o meu amigo Sussekind. Um dia destes o Chefe de Policia proibiu um encontro de "box".. Esquecem totalmente da insignificância dele. 'Risum teneatis". O meu caro Dr. mas também porque nos faltava dinheiro. Ora.o que julgo essencial em ajuda da maior felicidade da comunhão humana. percebi também que não concorria tal jogo para o desenvolvimento físico dos rapazes. Dai em diante. ele me disse todos os inconvenientes de tal divertimento. Falando nisso a Valverde. Mendonça escreve no seu livro. Os seus autores falam do assunto como se tratassem de saúde pública ou de instrução. eram sempre os mesmos a jogar. Fundamos a Liga. pela sua feição própria. para dizer o meu pensamento sincero . qualquer poder que incida sobre a liberdade de pensamento. em todas as estações e por todo e qualquer sujeito. o cronista esportivo censurou asperamente essa autoridade que procedera tão sabiamente apresentou como único argumento que. nem medida. Dai o perigo que há em se entregar à polícia. Coelho Neto citou Spencer e eu. até numa sociedade. semanário que o ilustre poeta Humberto de Campos publica com um sal que. então. se não é de azedas. É ler uma crônica esportiva para nos convencermos disso. ela apela para a ordem e para a moralidade. é incapaz desse papel de censura de qualquer manifestação de pensamento. o governo não deu não sei que favor aos jogadores de futebol e um pequenote de um clube qualquer saiu-se dos seus cuidados e veio pelos jornais dizer que o futebol tinha levado longe o nome do Brasil.. Fazendo-a. ela faz obra dos governos e em qualquer trecho do escrito. não admito críticas a meus livros e aos meus escritos senão aquelas provindas de escritores que como eu não dispõem de força. Ela é uma emanação do governo. ao contrário.tão fútil e se absorvesse nele.1922. foi. eu fui alvejado com os mais soezes insultos e indelicadas referências. 8. A polícia. eu não morri ainda. não somente pelos motivos que o Dr. pela A Notícia. deve ser ático. porque verifiquei que. me gabo de ser independente. tenho voltado ao assunto com todo o vigor que posso.

Há os "grileiros" fabricantes de títulos falsos de propriedades de terras.moral. É um abridor de estradas. Era cara. a família do pequeno ou da pequena não a podia pagar. e. disfarçando-se e escondendo-se. que usa da liberdade de crítica que as leis lhe facultam. Ele se prontificou a fazê-la gratuitamente. A criança se salvou e não podia ver bilhete de loteria que não pedisse ao pai que o comprasse. para não me deixar ficar por aquelas bandas. é ponta de trilhos e para lá vão ter toda a espécie de aventureiros. Careta. em nome da liberdade de pensamento e tendo em vista a incompetência literária da polícia para fazer censura de escritos e a sua falta de autoridade moral. admito. formado na Suíça. confins desse Estado. O seu primeiro é Cenobelino. é de uma generosidade fidalga. mas há também os que querem horizontes novos para a sua atividade e para o seu trabalho. Se ainda tivesse energia para recordar esse estudo elementar. embora eu fosse incapaz de fazer o mesmo. no bom ou mau sentido. o Francisco de Sales. . e tive um grande desgosto em não saber mais nada de topografia para auxiliá-lo. onde ganhou um ar severo de alemão. inclusive do da polícia. Polícia foi feita para prender gatunos e assassinos e nunca para fazer crítica literária. próximo a Goiás e a Mato-Grosso. no bom sentido. porém. muito a de um médico. não posso conceber. Humberto de Campos escreve na sua revista é do conhecimento de todos nós. em Rio Preto. Conforme se diz em estilo diplomático. Que "pataqueiros". intoxicado de Rio de Janeiro. mesmo com um simples nível de pedreiro e uma trena. Ele as abre pelo deserto e faz por elas trafegar automóveis. Muitas figuras como essa lá conheci de energia e de combate. a responsabilidade dele não pode ser diante de simples apitos de polícia e delegados. Ele as traça por gosto e prazer. se o souberem. mas. no interior de São Paulo. GENEROSIDADE Quando estive agora. Lá. fabricantes de "revistas" e "peças" de duvidoso mérito a ela se sujeitem. há os advogados. É justo que essa gente se mova para o interior do Brasil. um escritor celebrizado. Cenobelino foi chamado para ver uma criança que tinha levado um coice de um cavalo. na cabeça. dirão que é a homenagem que o vício presta à virtude. O Dr. Feriu-me. Conto-lhes o caso. nos quais andei graças à sua generosidade. eu protesto contra a censura policial feita à revista de Humberto de Campos. Tive lá um amigo. A criança precisava de uma operação difícil. Eu lá senti muito que já estivesse desfibrado. O que o Sr.Para quê? . 1 1-3-1922. o faça. conquanto esteja iniciando a carreira. creio que de trepano. sob qualquer ponto de vista. e. cuja competência em tal assunto não tem nenhuma base na lei e nos costumes. e. Perguntarei aos policiais: o que é moral? Eles não saberão dizer. mas que tem o nome portuguesíssimo de Barros. que é um portento de energia e honestidade. tive muita coisa a observar e muita coisa a meditar. ultimamente. se ele edita o que edita. ficaria lá para ajudá-lo no seu mister. "cavando" e espalhando a graça e a harmonia da Guanabara que estão na minha alma.

sobre a questão. que era um pobretão. e. Era. nem trato de política. a pobreza da nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral da nossa população. entretanto. os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência. os homens tinham elevação moral e mesmo. mas o que não acho razoável é que eles queiram modelar todas as almas na forma das suas próprias. com toda a . As fórmulas eram mais ou menos respeitadas. pouco se incomodariam com os proventos da "indústria política" A República. infelizmente. a nossa falta de originalidade intelectual. a fim de que não pareça que há medo em dar. Não há assunto que mais me repugne do que aquilo que se chama habitualmente política. ninguém quer agitar idéias. A vida. mas a minha obrigação de escritor leva-me a dizer alguma coisa a respeito. Certo dia. Ninguém admite que se divirja deles e. trazendo tona dos poderes públicos. em alguns. por esta ou aquela paga. não era a ambição de dinheiro. não é homem. Eu a encaro. A República no Brasil é o regime da corrução. Esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual. "comem" os advogados. Escusado é dizer que recompensou generosamente o médico do filho. havia desinteresse. Todas as opiniões devem. "comem" os jornalistas: o Brasil é uma vasta "comilança". transformou completamente os nossos costumes administrativos e todos os "arrivistas" se fizeram políticos para enriquecer. "comem" os poetas. qualquer opinião. um ajuntamento de piratas mais ou menos diplomados que exploram a desgraça e a miséria dos humildes. a bôrra do Brasil. Como ele. "comem" os médicos. o pai satisfez o pedido do filho e tirou a sorte. Todos querem "comer". como todo o povo a vê. Nunca quereria tratar de semelhante assunto. ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos. porém. há a "verba secreta". por isso mesmo.. "Comem" os juristas. certamente. No Império. Já na Revolução Francesa a coisa foi a mesma. que muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e a sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu. isto é. O que havia neles. 25-6-1921. "comem" os filósofos.Para pagar ao doutor que me salvou. a de glória e de nome. Fouché. ela tinha alguma grandeza e beleza. "comem" os engenheiros. e quem não sabe lutar. Ninguém quer discutir. A gente do Brasil. Careta. sem ofício nem benefício. ser estabelecidas pelos poderosos do dia. A POLÍTICA REPUBLICANA Não gosto. Vem disto a nossa esterilidade mental. muitos outros que não cito aqui para não ser fastidioso. para obter ajudas de custo e sinecuras. Até este ponto eu perdôo toda a espécie de revolucionários e derrubadores de regimes. Não é mentira isto. atravessando todas as vicissitudes da Grande Crise. apesar de tudo. "comem" os romancistas. deve ser uma luta. acabou morrendo milionário. para que não haja divergências. tanto assim.

Não se admite mais independência de pensamento ou de espírito. Tu.. ali. porquanto tu és inteligente.C. Confiante neles. Dizia. Quiseste mais. num belo dia. Pleiteaste. Que pensou? Fez-se sabichão em Belas-Artes. Foi o novo regime que lhe deu tão nojenta feição para os seus homens públicos de todos os matizes. naquele famoso Júri em que tu foste presidente e eu fui perseguido por causa dele e tu homenageado. Feito diretor do Museu. emancipaste a mulher e nomeaste a inefável Berta Lutz secretário do referido Museu. O mundo dá muitas voltas e tem muitas surpresas. porém. quando não é a do arrocho. por dinheiro.B. graças à "reclame" que aqueles te fizeram. 19-10-1918. e. no Campo de Santana. Conheci-te ainda estudante quando não tinhas tido a honra e glória de escrever a famosa brochura sobre a A Estrutura do Cilindro-Eixo. tu.. abafa-se. quando passei em tua companhia cerca de oito dias no Júri. Assombrei-me. . Bruno. escultura. Tudo fazia que te encaminhasses por esse campo de Histologia e coisas parecidas. achastes que esse campo era estreito demais para os teus méritos intelectuais. a tua brochura tão especial teve grande repercussão. Michel. É verdade que. Viva a República! A. etc. Quando não se consegue. Lucílio e outros. etc.independência de espírito. não se deu. Bruno sabichão em História Natural.. arquitetura. mas. para sugar os cofres públicos. Parecia que o Império reprimia tanta sordidez nas nossas almas. O sábio histologista precisava mostrar que era capaz de maiores espantos. porém. quando estiveste em Paris. Eu mesmo tive ocasião de verificar isso.. li que tu eras nomeado Diretor do Museu Nacional. que tudo fazia crer que tu continuasses pelo campo da Histologia. Tal. gravura. proclamada que foi a República. Dou-te parabéns. desta ou daquela forma. que não é uma caixa delas. em antiguidades americanas! Quem o diria! Enfim. cabalaste e acabaste te fazendo presidente da Sociedade de Belas-Artes. e nessa Academia adquiristes profundos conhecimentos de artes plásticas. Ele tinha a virtude da modéstia e implantou em nós essa mesma virtude. Taine. freqüentaste Helios Seilinger. Era justo. porque vens revelar que o Brasil possui um Pico de Mirandola ou um Leonardo da Vinci. mas um caixão. Não chegava. Bruno. sem ler Winckelmann. nasceu-lhe depois da República. meu caro Bruno. arvorando-te em Congresso Nacional. Não ficaram aí as que me reservaram o meu amigo Bruno. em breve trataste de pontificar sobre elas. Hegel e mesmo Morales de los Rios. BILHETE Meu caro Bruno Lôbo: Lembra-te Bruno que sou teu velho conhecido de há muitos anos. É a política da corrução. por três batalhões. Não o quiseste. o Brasil perdeu a vergonha e os seus filhos ficaram capachos. Está aí como o meu amigo Bruno Lobo de "olhador" de microscópio passou a ser crítico de arte e pontífice em pintura. em arqueologia egípcia. Como tu tinhas fartas relações com jornalistas e aderentes.

"Titio Arrelia". Mais adiante. feio. e penso no passado. junto ao motorneiro. E o bonde corre. o bonde de Cascadura corre.. manejando o "controle". Ele vai manobrando com as manivelas e deitando pilhérias. de pensar nele e o bonde entra com toda a força na embocadura do Mangue. É de manhã. É o "Titio Arrelia" . meus olhos topam com medas de manganês. há um sopro de renascimento. Veio a Estrada de Ferro e matou-a.Minh'alma é triste como a rôla aflita. embora os bacorinhos. sob um céu ingratamente nevoento. Limita-se muito civilizadamente a tanger o tímpano regulamentar. . ele já não se contenta com o tímpano. Em grande trecho. que até bem pouco vivia esquecida. contemplo aquelas velhas casas de fazenda que se erguem no cimo das meias-laranjas. ainda lhe dêem muito do seu primitivo ar rural de antanho... graças a uma graçola que sublinha. trepam no bonde e dizem uma chalaça ao 'Titio". e as cabras. Desço. dos seus porcos. dos capinzais. das suas cabras.um crioulo forte. dos seus galos. que me recita: . como diz o povo. Então de novo me lembro da Estrada Real. a fuçar a lama. como todas as outras. as suas cabras. O bonde se enche de moças de todas as cores com os vestuários de todas as cores.. Fujo dele. a pastar pelas suas margens. por aqueles capinzais que já foram canaviais. A usina do Gás fica ali e olho aquelas chaminés. preguiçosamente.. aquele amontoado de carvão de pedra. Assim aconteceu com Inhomerim. porém. Ele percorre uma parte da cidade que até agora era completamente desconhecida. para a direita e para a esquerda. Ele os faz descer sem bulha nem matinada. espadaúdo. vai deitando pilhérias. Onde os seus bácoros. Entro na Garnier e logo topo um poeta. essa trilha lamacenta que. para um lado e para outro. o passado é um veneno. mas simpático. cujas palmeiras farfalham mansamente. os seus galos e os seus capinzais? Não sei ou esqueci-me. nem assovia. Estrela e outros "portos" do fundo da baía. DE CASCADURA AO GARNIER Embarco em Cascadura. Estamos no Largo de São Francisco. de príncipes e imperadores. zombando da velocidade do veículo. a Prefeitura Municipal vai melhorando. etc. Mas. 17-6-1922. mas "Titio Arrelia" não diz mais pilhérias. e eu vejo delinear-se uma nova e irregular cidade. Os garotos. uma palpitação de vida urbana. perlustra a velha Estrada Real de Santa Cruz.É pau! Esse estribilho tornou-o conhecido em todo o longo trajeto desse interessante bonde que é o Cascadura. com o estribilho: . Entretanto. No passado! Mas. aqueles guindastes. Penetro pela rua do Ouvidor. A Light. Vou ocupar o banco da frente.. assovia como os cocheiros dos tempos dos bondes de burro.Ainda bem! Careta. com o seu bonde de "Cascadura" descobriu-a de novo e hoje. Estamos em pleno Mangue. por ela toda... viu carruagens de reis. Quem é ele? É o mais popular da linha.

Eu quisera saber se Neto tem a concepção da beleza dos mármores obesos ou das estatuetas de Tanagra e se aplaudiria as vestes gregas.Vizinha! Lá vem a carrocinha! Prenda o Jupi! E toda a "avenida" se agita e os cachorrinhos vão presos e escondidos. Ela me lembra a antiga caleça dos Ministros de Estado. Sainte-Beuve já dizia que. quando eram seguidas por duas praças de cavalaria de polícia. Eugênia: . Diz D. Esse espetáculo tão curioso e especial mostra bem de que forma profunda nós homens nos ligamos aos animais. É preciso acabar com essa história da Grécia e de imaginar que os gregos tinham uma única concepção da beleza e que foram belos. quando vejo semelhante espetáculo. A DERRUBADA Fala-se muito na remoção das grades do Passeio Público e até Coelho Neto já exumou os gregos com o seu cânon de beleza. uma para uso próprio. na rua eu vejo o espetáculo mais engraçado desta vida. depositárias por excelência daquilo que faz a felicidade e infelicidade da humanidade . Esse negócio de gregos e de beleza é coisa muito engraçada. são elas que amam os cães sem dono. verdadeiras colchas de retalhos. eu bendigo a humanidade em nome daquelas pobres mulheres que se apiedam pelos cães. mulheres e crianças se agitam e tratam de avisar os outros. Amo os animais e todos eles me enchem do prazer da natureza. como os mármores que nos legaram. . mas são as mulheres e as mulheres pobres. está no seu direito em persegui-los. 29-7-1922. porém. na verdade. triste e saudoso da minha mocidade que se foi infecunda. Era no tempo da minha meninice e eu me lembro disso com as maiores saudades. 20-9-1919. não somos nós os homens. o cão nos dá. entretanto. no tempo do Império. pela manhã. Marocas a D.dizem. Sozinho. O espetáculo mais curioso é o da carroça dos cachorros. mais ou menos esbodegado.Lá vem a carrocinha! . A CARROÇA DOS CACHORROS Quando de manhã cedo. elas. de tempos em tempos. nós fazemos uma idéia da Grécia. e Coelho Neto tem. nós o amamos e nós o queremos. . para justificar a retirada das grades. Careta. Nada de útil.Careta. E todos os homens. os tristes e desgraçados cães que andam por aí à toa. São elas que defendem os cachorros das praças de policia e dos guardas municipais. estão no seu dever em acoitá-los. com a sua cavalaria e guardas municipais.o Amor. certamente. Quem os ama mais. eu. com que os arqueólogos vestiram há pouco a "Djanira". A lei. desço a rua e vejo. saio da minha casa. Todas as manhãs. de Saint-Saens.

me dá na telha olhar os vestidos e atavios das senhoras e moças. sob o sol inclemente. pelo Engenho Novo. Eu não me atrevo mesmo a dar opinião sobre a retirada das grades do Passeio Público. Olhei. saindo de meu subúrbio. a ganância e a imbecilidade vão pondo abaixo com uma inconsciência lamentável. uma coisa que ninguém vê e nota é a contínua derrubada de árvores velhas. que resignadamente ajudam a nossa vida. Nunca fui ao clube dos Democráticos.Convém não esquecer que tais mármores são imagens religiosas e sempre os homens fizeram os seus deuses mais belos. Era uma espécie de oásis. caminhões. Careta. entretanto. notei e concluí: estamos em pleno Carnaval. era um dia verdadeiramente dedicado a Momo. Nos subúrbios. vão sendo ceifados pelo machado impiedoso do construtor de avenidas Dentro em breve. Hesito. . Uma dama passava com um casaco preto. Mas. como diz não sei que clássico que o Costa Rego citou outro dia. tudo isso não vem ao caso. A venerável árvore não impedia coisa alguma e dava sombra aos pobres animais. e mangas vermelhas. os seus salões não se apresentam tão carnavalescos como a Avenida e adjacências nas horas que correm. ainda outra vestia uma saia patriótica verde e amarelo. que foram plantadas mais com o pensamento nas gerações futuras. cheias de anosas mangueiras piedosos tamarineiros. nem ao dos Fenianos. Passando hoje. tinha uma espécie de capote que parecia asas de morcego. as velhas chácaras. VESTIDOS MODERNOS Nunca foi da minha vocação ser cronista elegante. tanto cuidado de tecidos caros que mal encobrem o corpo das "nossas castas esposas e inocentes donzelas". outra. que a aridez. mesmo quando os fazem humanos. quando venho à Avenida. Há dias. É que sinto uma grande volúpia em comparar os requintes de aperfeiçoamentos na indumentária. do que mesmo para atender às necessidades justas dos que lançaram as respectivas sementes à terra. que demandavam o subúrbio longínquo. Mas. arrastavam pelo calçamento pesadas "andorinhas". mas estou disposto a apostar que em dias de bailes entusiásticos nesses templos de folia. com o meu absoluto relaxamento. vim à Avenida e à rua do Ouvidor e pus-me a olhar os trajes das damas. enfim. A razão é simples. plantadas há meio século. que. vetustas fruteiras. Isto acontece principalmente nos dias em que estou sujo e barbado. Correio da Noite. para as pobres alimárias. às vezes. 22-7-1922. muito preto. nem ao dos Tenentes. não restarão senão uns exemplares dessas frondosas árvores. 31-12-1914. vi que tinham derrubado um velho tarnarineiro que ensombrava urna rua sem trânsito nem calçamento.

tratou de valorizar o produto.. IMPRESSÕES DE LEITURA O DESTINO DA LITERATURA Minhas senhoras e meus senhores: . capaz de arranjar empregos e solver dificuldades. Careta.Que dê a licença? . 7-8-1915. Tomaram-lhe o cesto. mas sem empréstimo a 30%. depois de salvar o café. Este ano foi particularmente abundante em laranjas e o nosso homem teve a feliz idéia de vendê-las. não se atrapalhou em começo. poderosa. as suas bananeiras.Vai laranja boa! Uma a vintém! Foi feliz e pelo caminho apurou uns dois mil-réis. saiu-lhe ao encontro a lei.O "MOAMBEIRO" Quando saio de casa e vou à esquina da Estrada Real de Santa Cruz. porém. na esquina.Que licença? . porém. que os compradores na porta não lhe davam o preço devido. Houve um matador de porcos que pediu a minha opinião sobre este caso curioso: se devia aceitar dez mil-réis para matar o cevado do capitão M. Você é "moambeiro". Vamos para a Agência. Vendo. como tinha um pequeno sítio lá para as bandas do Timbó e algumas economias. Fulano. e. Eu. Notem bem: depois. às vezes mesmo. árvore de futuro com a qual o Sr. na pessoa de um guarda municipal: . vai salvar o Brasil. ou se devia comprar o canastra por cinqüenta mil-réis e revendê-lo aos quilos pela redondeza. Moro há mais de 10 anos naquelas paragens e não sei por que os humildes e os pobres têm-me na conta de pessoa importante. Eis aí como se protege a pomicultura.Já sei. a muito custo. o dinheiro e. com a salga e o fabrico de lingüiças. chegou a Todos os Santos. vejo bem a miséria que vai por este Rio de Janeiro. veio ao meu encontro um homem com quem conversei alguns minutos. encheu-o de laranjas e saiu a gritar: . deixaram-no com a roupa do corpo. olhei os Órgãos ainda fumarentos nestas manhãs de cerração e pensei que o meu destino era ser vigário de uma pequena freguesia. esperar o bonde. As economias foram-se. as laranjas. Cincinato Braga. o que lhe dava trabalho por três dias. pois há oito meses não trabalha no seu ofício de carpinteiro. que nunca fui versado em coisas de matadouro. ficara sem emprego. intimou o guarda. Quando. Pergunta-me um se deve assentar praça na Brigada. mas ficou-lhe o sítio. consultam-me sobre casos embaraçosos. Ele me contou a sua desdita com todo o vagar de popular. mas. Era operário não sei de que ofício. com as suas tangerineiras. Comprou um cesto. pergunta-me outro se deve votar no Sr. com as suas laranjeiras. Ultimamente.

Um outro meu amigo. grande poeta nacional e parlamentar conceituado. Não é só essa a opinião de Botafogo. Tudo eram moças e senhoras. elegância na exposição. É verdade também que assisti conferências concorridas de Anatole France e do professor George Dumas. Estão bem a ver que nunca quis fazer uma ou mais conferências. em uma das vezes. que é excepcionalmente lindo e louro. caixões de cigarras secas que as suas admiradoras. para elas fui atraído. caixas. empregando para isto todos os subterfúgios. faz conferências com sucesso. caixinhas. sempre que.quem sabe lá? . entretanto. de alto a baixo. as conferências literárias. atrevia-me a freqüentar festas familiares e quase sempre delas saia fortemente despeitado com os oradores dos brindes de aniversário. só e cinicamente. mas não da beleza que fere as mulheres. menos estridente e mais suavemente amorosa do que aquela com que esses insetos o fazem quando inspirados pelos crepúsculos aloirados do estio. Na forma que nós o naturalizamos é um gênero de literatura fácil e ao mesmo tempo difícil e isto porque ele não só exige de quem o cultiva saber nas letras. pelo menos no Rio de Janeiro. e de estar convencido de que. mas é que. Ele possui. Pede tal gênero ao expositor desembaraço e graça distinção de pessoa. nas demais modalidades de atividade literária. de casamento ou mesmo com aquele eloqüente conviva que erguera solenemente sua taça (era um simples copo. É um verdadeiro pesadelo. nas salas do bom-tom do Rio de Janeiro. desde a simples desculpa de doença até à fuga covarde diante do inimigo. a esta parte atrapalhado para guardar em casa. Quando bem moço. a minha organização literária tinha falhas. habilidade no tratar o assunto. quase de nenhum valor. ainda imperfeitamente conhecedor da minha verdadeira personalidade. lá para que se diga. em . pelo fato de conhecer a minha cidade natal. O meu belo camarada Olegário Mariano canta as cigarras com voz melhor. e não eram eles. que. solicitado por isto ou por aquilo. achamos eu e alguns amigos um belo homem. lhe mandam insistentemente. É opinião geral da gente carioca. a segunda série de qualidades do bom conferencista. em alto grau. quase menino. mas. do Amazonas ao Prata. porque. Explico-me. mas também porque impõe outras qualidades ao conferencista. possui hoje a imaterial da idade madura. não por orgulho nem por pretender ser mais profundo do que os meus confrades que as fazem. esta não viu no auditório um só homem. todas as excusas.É a primeira vez que faço o que nós brasileiros convencionamos chamar conferência literária. o discurso nunca foi o meu forte e desde bem cedo me convenci disso. De resto. se não tem ou não teve a beleza de moço. de Copacabana ou Laranjeiras. E esta é a qualidade fundamental para se fazer uma excelente conferência. no julgar de todos ou de todas da cidade brasileira em que nasci. me eximi de experimentar fazê-las. de batizado. palestras ou conferências. embora da Terra do Sol. a que acima aludi. são. Conhecedor desse feitio característico que tomaram entre nós. pela respectiva esposa. por este ou por aquele. Augusto de Lima. para o sucesso. Sabem o que lhe tem acontecido? Olegário Mariano vê-se de tempos. foi proibido de continuar a fazê-las.beleza física e sedução pessoal. capricho no vestuário e . É verdade que o Sr. homens bonitos e chiques. Em Anatole. O auditório de suas conferências é monopolizado pelas moças e senhoras. É o critério nacional de que tenho muitas provas nas torturas por que têm passado aqueles meus amigos e confrades aos quais Deus galardoou com tão raras virtudes. belo "diseur" de sólidas conferências. no tocante a elas. ela é partilhada pelas minhas vizinhas do Méier e também pelas deidades do morro da Favela e da Gamboa. capitais e indispensáveis para nele se obter um bom resultado.

e uma rebeldia. quando o censor é educado. foi este pavor do auditório que me fez até hoje fugir às conferências. Embora convencido disso. Tudo isto. certamente fui levado a isto. mais do que outros motivos. Afinal. haveis de formular intimamente. quando esquartejavam esse nobre mártir dos gramáticos e professores de português de todos os tempos. o maior geômetra brasileiro. sobre este ou aquele assunto. através de fórmulas de polidez. um esto de impaciência mal sopitado. como já vos disse. quando. naqueles tempos. Procurava então desculpar essa minha incapacidade para orador de sobremesa. era menino e é próprio de menino não achar grande diferença entre um simples mortal e um grande homem. mais de quatorze na rua. . este gênero de literatura e uma arte de sociedade. Tenho. Quase com lágrimas. e eu. cônscio da minha obscuridade e a pesar da minha natural timidez. em uma revista ou num jornal. de vós para vós mesmos. arroubos outros e tropos de toda sorte. aliás inocente. é através de artigo ou de carta. os quais tanto assustavam os nossos avós. No presente caso. mas. as mais das vezes. para mim. se as suas vidas não são cheias de torpes episódios. nunca fui homem de sociedade: sou um bicho-do-mato. a crítica fica longe e se ela se manifesta. sem o qual ambos não teriam existência: é o auditório. tanto mais que conferência literária não é bem discurso. nem doméstico-festivo. Muitas vezes todos vós que me ouvis. é a palestra aliteratada o mais proveitoso gênero de literatura que se possa cultivar no Brasil. todos os temores. desde já vos aviso. era outro. conforme me hão dito confrades autorizados. a primeira que faço e talvez seja a última. qualidades que este próspero município de São Paulo vai me emprestar por instantes. um cochicho. animando-me a falar-vos. são. não vem ao caso. serei breve. . a minha adolescência vaidosa tentava explicar por que razão a minha relativa superioridade sobre tais oradores não permitia fazer os brilharetes de eloqüência que eles faziam. que dispensa os estos demostênicos. apesar de ser um sujeito sociável e que passo. da minha parte contra ela. enfim.geral) ao belo sexo. e a muito custo. que. Quando se publica um livro. ainda sentia medo da conferência porque há nela um elemento que a relaciona com o discurso. não tenham medo. anotando anedotas da vida de grandes homens que não conseguiram falar. porque estou encerrando o que prontamente se chama carreira literária. É antes uma digressão leve e amável. uma manifestação de cansaço. Newton era um deles. em um jornal ou em uma revista. nem mesmo mitingueiro. me orgulhava. Certas delicadezas de sofrer me acobardam mais diante dela do que os calabouços da ilha das Cobras. nem judiciário. perguntas como estas: para que serve "isto"? por que se honram os homens que fazem essas coisas. as soberbas metáforas de Rui Barbosa. Muitos mais grandes homens tinha eu a meu lado e. quando não é o de também supor-se um verdadeiro gênio. É. das vinte e quatro horas do dia. diretamente ao público. o menor sinal de reprovação do auditório desnorteia quem expõe e se atreveu a amolar pessoas de boa vontade e que tem mais que fazer do que ouvir uma xaropada qualquer. Tem sido para mim desvantajoso esse proceder. ao topardes. com isso. despretensiosa. e Gomes de Sousa. nem parlamentar.que fica um pouco acima do jogo de prendas e muito abaixo de um step qualquer. mas. Venço agora. entretanto. e só a título de amenidade pode ser explicável que aqui viesse aparecer. com um soneto ou um artigo. quando se fala. me põe sempre canhestro quando sou obrigado a mergulhar no seu seio. antigamente tão bem catalogados pela defunta retórica. um artigo. onde a desaprovação vem filtrada. pois. uma única vez na sua existência. que é o grande Camões. por ter pisado em terras de iniciativa e de audácia. perante qualquer auditório. conversando com pessoas de todas as condições e classes.

Uma porção de definições da ciência estética se baseia. que fogem das recepções e dos chás dançantes. não deixava de ser também um grande poeta. Segundo Tolstoi. e os franceses mais do que aqueles. Em redor dele. em que se inclui a Literatura. Os alemães mais do que os ingleses. relaxados e distraídos. percebido pelos sentidos e tem por destino deleitar e excitar este ou aquele desejo nosso. para os filósofos. Platão que. não em toda ela. se algum dos ouvintes quiser ter o trabalho de ler muitas delas. aquela gabada qualidade gaulesa capricha em se fazer densa. tendo cada uma delas. os estetas profundos que doutrinam sobre o Amor e o Belo sem nunca terem amado. outros. Às vezes. para resolvê-lo. um determinado critério do que seja Belo. quando a tradicional clareza dos franceses é fascinada pela proverbial névoa germânica. nas proximidades do velho Mercado. ou a Arte. de Guyau. às vezes. parecerá ociosa. e de que. Cada um desses doutos. Essas definições de arte. porque uma parte dessa célebre rua. eram lidos e morriam na rua do Ouvidor. na beleza. há cerca de vinte anos. de bustos. com o assunto da indicação. para não dizer sociológico. por sua vez. as de verdadeiros vagabundos? como é que todos lhes guardam os nomes e muitos se honram com a sua amizade? como é que nós os cercamos de honrarias. e jornalecos que nasciam. em virtude de não tê-los à mão. para condenar a Arte. para exaltá-la. da humanidade. Filósofos e moralistas. meus senhores e senhoras. mas. Tais perguntas. desprezando tais caprichos literários. Deixo de citar muitas. como os de Taine. entre as quais a de Hegel. em conjunto. sendo que esta é o perfeito ou o absoluto. os abstratores de quinta-essência. como esta. muito se há debatido e as mais contrárias teorias tem sido construídas. enquanto a verdadeira Beleza foge deles com a velocidade do aeroplano. para essa multidão de senhores sombrios. sugerem logo a interrogação: o que é a Beleza? Eis aí uma pergunta que às senhoras e às senhoritas. para não me tornar fastidioso. de Brunetière e outros. sociólogos e doutrinários de toda a sorte têm-no discutido. com mais ou menos liberdade. baixam até à troca de soezes insultos. contribuir para a felicidade de um povo. ou tão-somente a Literatura. não admitia artistas do verso na sua República ideal. me pus juvenilmente a escrever para o público. me sirvo aqui. constituem em súmula o resumo do problema da importância e do destino da Literatura que se contém no da Arte em geral.o fundador dessa absconsa ciência foi o filósofo alemão Baumgarten. de estátuas.O que é a arte? . que é muito interessante. minhas senhoras e meus senhores. mais nevoentamente. pode procurá-las no livro de Tolstoi que citei. segundo Tolstoi. com o ser grande filósofo. Como os senhores sabem perfeitamente. O debate a esse respeito não está encerrado e nunca ficará encerrado enquanto não concordarem os sábios e as autoridades no assunto que o fenômeno artístico é um fenômeno social e o da Arte é social. do que seja Beleza. . porque. mais se ocupa em coisas sérias que dizem respeito ao nosso estômago. a menos que eles se traduzam em fartos ágapes. quando. isto acontece e a literatura e os literatos ficam valorizados no seio da finança cautelosa. e nos esquecemos do inventor da utilíssima máquina de costura? em que pode a Literatura. de uma nação. para toda essa gente livresca constitui tal pergunta objeto de apaixonadas discussões que. mas que.entretanto. enfim? São perguntas naturais e espontâneas que não há um homem que as não tenha feito no seu fôro íntimo e que eu mesmo as fiz. na sua sólida e acessível obra . tanto mais que estou longe dos meus livros e dos meus apontamentos. que a definia como tendo por objeto o conhecimento da Beleza. há uma que pretende ser a da teoria geral da Arte. enfim. como todos vós sabeis. explica de seu modo o que seja Beleza e cada um deles o faz mais incompreensivelmente. Muitos. entre as muitas ciências ocultas e destinadas a iniciados que ultimamente tem surgido. no famoso Hotel do Minho. por estarem muito familiarizadas. mais rebarbativamente. em revistas.

Obrigado pela sua vida miserável. é a manifestação. Mas. um livro famoso. Como obtê-lo. para transmitir as suas idéias aos outros.. fetiches de amor.que deveis conhecer. que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mistério que nos cerca. de jogo e equilíbrio das partes em vista de um fim. para responder à pergunta que angustia os filósofos e que a metade do gênero humano. É. a importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos de perfeição de forma. como querem os helenizantes de última hora e dentro de cuja concepção muitas vezes não cabem as grandes obras modernas e. Tomo como exemplo. indo em transação à casa da tal velha. como ele. a ignóbil onzenária possui naturalmente o dinheiro de que ele precisa para realizar. ele não o tem. que emprestava níqueis sobre objetos de pequeno valor intrínseco. neles. de correção gramatical. de ritmo vocabular. Relíquias de família. tantos outros? .mais densa ainda do que. de Dostoiewsky . não praticaram ou não autorizaram a prática de crimes. não suspeita até que possa ser formulada. compreende melhor as dos outros. tanto assim que o sacodem idéias para acabar com as misérias dos homens. talvez. Um dia. A Beleza. A velha onzenária não tem o mínimo remorso de explorar a miséria dos que a procuram. dizia eu.todos os benfeitores da humanidade e os seus grandes homens em geral. segundo a opinião geral. A descoberta fere-o profundamente. Precisa dinheiro para estudar. perante o qual aquele pouco vale.pergunta ele de si para si . a neblina germânica. porque. Não é um caráter extrínseco da obra. para a plena realização de sua obra? Napoleão não foi um deles e. mas como se apoderar dele? Furtá-lo? Não podia porque a imunda agiota não arredava o pé da pocilga de seus imundíssimos negócios. senão a de todo o gênero humano. profundo e autorizado. é inteligente. mas . O estudante chama-se Raskolnikoff. tudo ela recebe. uma tal importância. para lançar a sua obra generosa que fará a felicidade de muitos. e aluda às questões de nossa conduta na vida. por meio de livros. deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano. na proporção e harmonia das partes. Raskolnikoff. Trata-se de um estudante que curte as maiores misérias em São Petersburgo. por meio dos elementos artísticos e literários. Como há de ser? Eis o problema. em geral. então? Só matando-a. de um mês. em outras palavras. sabendo perfeitamente que os objetos serão resgatados. diretamente ou indiretamente.. dando miseráveis vinténs para recebê-los triplicados. percebe que ela tem na gaveta uma grossa quantia em notas de banco. não são as suas aparências. Sendo assim.. jornais e revistas. o parecer de Brunetière. no encanto plástico. ensopadas de ternuras de mãe e afetos de irmãs. do caráter essencial de uma idéia mais completamente do que ela se acha expressa nos fatos reais. no fim de uma quinzena e. a fim de esclarecer esse pensamento. sem alma e sem piedade. há muito da alma e dos sonhos dos que os levam a penhor. é honesto. cobrando juros despropositados. É a substância da obra. É bom. enriquecidos de beijos de noivas e de amantes. mas. As que passa não o fazem sofrer tanto. Não os seguirei nas suas nebulosidades de procurarei um autor claro. por sofrê-las. de estilo. vem a conhecer uma velha sórdida. para Taine. Portanto. de obter unidade na variedade. ela já não está na forma. Lembrem-se bem que se trata de miséria russa e de um estudante russo. mas intrínseco. é a mais interessante parte dele. hoje universal .. mesmo. por muito favor. Isto leva-o a meditar teimosamente sobre os erros da nossa organização social. algumas antigas. precisa dinheiro.Crime e Castigo. É um crime.

mas. o Crainquebille. como este. executado que seja o crime. não pode sentir-se bem na vida sem o sofrer. Toda a gente se julga capaz de escrever o D. Depois de consumado o crime. com auxílio de sua técnica. Mas esta pura idéia.não é ele mesmo. como que se havia posto fora da espécie e se feito menos que um verme asqueroso. a obra do grande escritor russo. a regra. É por aí. possuidor de um ideal . em face dele e dos augustos destinos da humanidade. em força de ligação entre os homens. foi escrever "a história". Quixote. a qual. logo se sente outro . variável e inexato. incorporá-lo ao leitor. mas poucos se afirmam com aptidões para alinhavar o Rocambole. não há nada de comum com o que os escritores mais ou menos helenizantes chamam belo. Está na manifestação sem auxílio dos processos habituais do romance. O que não soubemos. convencemo-nos de que já havíamos sentido a sensação que o outro nos transmitiu. tinha. mais do que isso. direito a matar aquela vilíssima velha. o preceito. o Robinson. É preciso que esse argumento se transforme em sentimento. porém. É verificado por todos nós que quando acabamos de ler um livro verdadeiramente artístico.pergunto eu. com auxílio dos seus recursos próprios. mais fortemente possuindo essa capacidade de sugerir em nós o sentimento que agitou o autor ou que ele simplesmente descreve. segundo a minha humilde opinião. tem fraco poder sobre a nossa conduta. nem mesmo quando é perpetrado no mais ínfimo e repugnante dos nossos semelhantes e tem por destino facilitar a execução de um nobre ideal. que a nossa poesia. portanto. embora obedecendo a generalizações aparentemente verdadeiras. torná-lo assimilável à memória. é em vão que procura fugir dele. que entrava quando ele acabava de perpetrar o assassínio. Mata a ambas da forma mais cruel e horrorosa que se pode imaginar.generoso e alto. do caráter saliente da idéia. as Viagens de Gulliver. assim expressa sob essa forma seca que os antigos chamavam de argumentos e os nossos Camões escolares dessa forma ainda chamam aos resumos. O testemunho da consciência o persegue sempre e Raskolnikoff se torna. por elas. por assim dizer. Além. e ele conclui que. dizem uns. a ela e também à irmã. o Nick Carter ou outro qualquer romance-folhetim. mas os pretensiosos dizem logo: "Isto! Também eu fazia!" Tal fato se dá mais comumente com as grandes obras de que com as medíocres. o remorso dele mesmo. se assim é. resumida e palidamente. a literatura salutar tem o poder de fazê-lo. em traço de união. tem por hábito atribuir à Grécia. pois nem dinheiro tivera para comprar outra arma mais própria e capaz. Insisto neste ponto porque ele me . Estes são os modestos. só como idéia.Ocorrem raciocínios dessa natureza a Raskolnikoff. em prosa ou verso. Quer o castigo. porque as suas relações com o resto da humanidade já são outras e ele se sente perfeitamente fora da comunhão humana. etc. aparentemente mais diferentes.. Passemos além: mais do que nenhuma outra arte. tanto velha. e ainda mais no ressumar de toda a obra que quem o pratica. e. Nisso tudo que é. dos cantos dos Lusíadas. tendo deixado apagar-se-lhe na consciência todos os nobres sentimentos humanos. Não há lógica nem rigor de raciocínio que justifiquem perante a nossa consciência o assassinato. cujos laços ele mesmo rompera. e pensado no assunto. sendo capaz. a arte literária se apresenta com um verdadeiro -poder de contágio que a faz facilmente passar de simples capricho individual. que devemos orientar a nossa atividade literária e não nos ideais arcaicos e mortos. em sentimento. Mata as duas mulheres com uma embotada machadinha de rachar lenha que encontrara no quintal do casarão da sua residência. de transformar a idéia. Mata-a. reveladas. como nova. de concorrer para o estabelecimento de uma harmonia entre eles. onde está a beleza dessa estranha obra? . como semelhantes no sofrimento da imensa dor de serem humanos. com o furor homicida de bandido consumado. orientada para um ideal imenso em que se soldem as almas. e a arte.

instável. é impedir que realizemos o nosso ideal. Para isto fazer. as obras esculturais não podiam ser pintadas. que nada autoriza a admitirmos um certo e exato ideal de arte helênica. quem curiosamente os segue. o deleite dos sentidos. a sua alma. Ainda há bem pouco o Sr. se representou na Ópera. tenho combatido esse ideal grego que anda por aí. com o acúmulo de idéias que trouxe o tempo. que era assim como Mme. as idéias que a animavam. epilogar bastamente. Devia-se interpretar a sua linguagem misturada de fogo. os sonhos que queria ver realizados na Terra. Lalo. sempre que posso. com o muito pouco que sei sobre ela. e não exclusivamente nas suas relações com os prazeres que ela nos proporciona. e o que nos tinha a dar já nos deu e vive em nós inconscientemente. Esta modificação no trajar tradicional dos heróis gregos. aqui e ali. entre muitos. Sabem os leitores (sic) como vinham vestidos os personagens? Sabem? Com o que nós chamamos nas casas das nossas famílias pobres . para mostrar de que maneira podem variar as nossas idéias sobre a velha Grécia. segundo Max Collignon.apaixona. assim variável e fugidia. aquele que está na nossa consciência. critica muito justamente semelhante opinião. no livro de que me venho servindo e a cujo título mais atrás aludi. de acordo com os preceitos gregos. segundo os seus pensamentos religiosos. Houve escândalo. de cinqüenta em cinqüenta anos. na dependência de suas causas e efeitos. com as seguintes palavras: "Quando se quer definir todo um ramo de atividade humana. para procurar a beleza em uma carcaça cujos ossos já se fazem pó. Em matéria de escultura grega. o resultado das suas investigações sobre Safo. no dizer de Plutarco. obedecia a injunções das últimas descobertas arqueológicas. na sessão das cinco Academias de França reunidas. mas. Em outra parte. entretanto. o que o diálogo de Platão é em relação ao homem. Tinha razão. como sáfica séria. e totalmente incapazes para nos mostrar ela viva. está admitido que as frisas do Pártenon eram coloridas. Creio que. Reinach lia. vinha dizer que Safo não era nada disso que nós dela pensamos. já tive ocasião de observar isto.Djanira." Mesmo que a Grécia . nas seguintes palavras: "Sainte-Beuve disse algures que. É que eles tinham visto os mármores gregos lavados pelas chuvas. com rápidas leituras. em relação à mulher. para ser coisa muito diversa. no Temps. Teodoro Reinach. vivo no fundo de nós mesmos. e outros fatores mais. com as descobertas modernas que alargaram o mundo e a consciência do homem. para nós. Li isto em um folhetim do Sr. os brasileiros. Não é este o único detalhe. estamos na infância. que deve entender bem dessas coisas de Grécia. o prazer. pela mesma época em que o Sr. insuficientes talvez para recompô-la como foi em vida. é necessário procurar-lhe o seu sentido e o seu alcance. pouco sabemos de arqueologia antiga. de Paris. pode concluir. nós. P. O meu simpático missivista (sic) pode ver por aí como a sua Grécia é. um drama lírico de Saint-Saens . fazíamos da Grécia uma idéia nova. Em geral.colchas de retalhos.tivesse por ideal de arte realizar unicamente a beleza plástica. Ela não nos pode mais falar. porque. esse ideal não podia ser o nosso. É suficiente lembrar que era regra admitida pelos artistas da Renascença que.o que não é verdade . tanto assim que. Tolstoi. A nossa Grécia varia muito e o que nos resta dela são ossos descarnados. e só . talvez nem mesmo balbuciar. o destino da Literatura e da Arte deixou de ser unicamente a beleza. pois se tratava deles no drama. Ainda mais: "Se dissermos que o fim de uma certa atividade humana é unicamente o prazer. de Sevigné. podia eu. hoje. e nem lhe acompanhamos os estudos feitos nessa língua. Atemo-nos a ela. é primeiramente indispensável estudar tal atividade em si mesma.

Os homens só dominam os outros animais e conseguem em seu proveito ir captando as forças naturais porque são inteligentes. e evoca em nós ao mesmo tempo." Há muitos que são agradáveis. que é o de conservar a vida do nosso corpo. a consciência mais profunda da existência. tudo compreender para tudo perdoar. tem e terá um grande destino na nossa triste Humanidade. a que me dediquei e com que me casei. no fim de contas. que não são nutritivos. quanto mais perfeito for esse poder de associação. esteta. mais longe que pode. ela faz compreender. para alcançar a vida total do Universo e incorporar a sua vida na do Mundo. moralista e poeta. por intermédio da Arte." Mais do que qualquer outra atividade espiritual da nossa espécie. sob a forma de sentimentos. de Jean Marie Guyau. mas também ainda pelos sentimentos profundamente humanos que exprime". mesmo. ela explicou e explica a dor dos humildes aos poderosos e as angustiosas dúvidas destes. ele vai além disso. das mais diversas épocas. até. Guyau. a verdadeira floração da planta em que aparece A arte. continua Guyau "e a expressão da vida refletida e consciente. são dele.ensinou "que beleza não é uma coisa exterior ao objeto: que ela não pode ser admitida como uma excrescência parasítica na obra de arte. de seu nascimento. dispondo de um meio quase perfeito de comunicação. mais intensa será a ligação entre os homens. incluindo nela a literatura. digo agora eu. não fica adstrito aos preceitos e preconceitos de seu tempo. os sentimentos mais elevados. não só a coletiva como a individual. as verdades que interessavam e interessam à perfeição da nossa sociedade. Toda a gente compreende que a satisfação do nosso paladar não pode servir de base à nossa definição de mérito dos nossos alimentos. portanto. Ela ergue o homem de sua vida pessoal à vida universal. será ela evidentemente falsa. por exemplo. mais diferentes. examinando-se as questões de nutrição. ganhando com isso a nossa inteligência. É o que se dá com a definição de Arte assim concebida. concorre. num curioso livro. as almas dos homens dos mais desencontrados nascimentos.A Arte sob o ponto de vista sociológico . morto prematuramente aos trinta e três anos. das nações e das raças. das abstrações da Filosofia e das inacessíveis revelações da Fé. São ainda dele. para torná-las sensíveis a todos. Quer dizer: o homem. com a qual nos é permitido somar e multiplicar a força de pensamento do indivíduo. meus senhores e minhas senhoras.sobre ele fizermos repousar a nossa definição. tendo o poder de transmitir sentimentos e idéias. as palavras desta formosa divisa: "Ama tudo para tudo compreender. o destino de qualquer arte no prazer que ela nos proporciona. especialmente a Literatura. de sua raça. mas que preenchem perfeitamente o fim da nutrição. meus senhores. Ela sempre fez baixar das altas regiões. para o seu acréscimo de inteligência e de felicidade. Ver o fim. e mais nos amaremos mutuamente. como os selvagens. Com efeito. é imitar os homens de uma moralidade primitiva. ela é. mais do que ela nenhum outro qualquer meio de comunicação entre os homens. tão profundo quanto claro . assim trabalhando. e há outros que não são lá muito saborosos. teve. Portanto. antes são prejudiciais à economia do nosso organismo. da família. o genial filósofo. das gerações passadas. e o progresso e o desenvolvimento desta decorrem do fato de sermos nós animais sociáveis. em virtude mesmo do seu poder de contágio. A sua verdadeira força é a inteligência. quanto mais compreendermos os outros que nos parecem. que não vêem na alimentação outro alcance que não seja o da satisfação agradável que lhes proporciona a ingestão de alimentos. não só pela sua participação nas idéias e crenças gerais. à primeira vista. A arte. de sua pátria. umas às outras. àqueles. que é a linguagem. trabalha pela união da espécie. a Arte. ninguém se atreverá a afirmar que o prazer de comer é a função principal da nutrição. graças à escrita e à tradição oral que guardam as cogitações e conquistas mentais delas e as ligam às subseqüentes. e. das mais divergentes . os pensamentos mais sublimes.

conquanto a opinião externada em contrário cubra-nos de ridículo. Todavia executo. trabalho. seja como for.e sigo o meu caminho. realçando-lhes as qualidades e zombando dos fúteis motivos que nos separam uns dos outros. pede que todos os que manejam uma pena não esmoreçam no propósito de pregar esse ideal. O Amor sabe governar com sabedoria e acerto. umas às outras. quanto mais trabalho mais espero. com a minha atividade. O meu pensamento vai adiante dela. Ela tende a obrigar a todos nós a nos tolerarmos e a nos compreendermos. o heroísmo dos homens de letras. mas uma coisa garanto-vos: pronunciei-as com toda a sinceridade e com toda a honestidade de pensar. Conquanto não se saiba quando ele será vencedor. A minha atividade excede em cada minuto o instante presente. nesta hora de tristes apreensões para o mundo inteiro. LIVROS Recebo-os às pencas. É que eu não soube dizer com clareza e brilho o que pretendi. tendo diante dos olhos o exemplo de seus antecessores. e de justiça entre os homens e um sincero entendimento entre eles. dizia Carlyle. de chufas e baldões.raças. não devemos deixar de pregar. A literatura é um sacerdócio. estas palavras que ouso fazê-las minhas: "Porventura sei eu se viverei amanhã. Fazendo-nos assim tudo compreender. ela nos faz compreender o Universo. ao rio. por aí. assimilável. estende-se ao futuro. do vagabundo. se a minha mão poderá terminar esta linha que começo? A vida está. por todos os lados. o ideal de fraternidade. porque o meu poder não é equivalente a nenhuma quantidade determinada. imponho-me privações. Revista Sousa Cruz. ao cão. à flor. explicando-lhes os defeitos. Deus e o Mistério que nos cerca e para o qual abre perspectivas infinitas de sonhos e de altos desejos. a quem não me canso de citar. Talvez isso faça que eu mereça perdão pelo aborrecimento que vos acabo de causar. a uma certeza e torna possível a minha liberdade . ao mar e à estrela inacessível. ainda nos liga à árvore. e em todos os meus atos. quanto de Napoleão prisioneiro ou de Maria Antonieta subindo à guilhotina. em todos os meus pensamentos. Possam estas palavras de grande fé. ns. a Terra. nós nos chegaremos a amar mais perfeitamente na superfície do planeta que rola pelos espaços sem fim. ela se apieda tanto do criminoso. e não é à toa que Dante diz que ele move o Céu e a alta Estrela. para que ela cumpra ainda uma vez a sua missão quase divina. entrando no segredo das vidas e das coisas. outubro e novembro de 1921. possam elas na sua imensa beleza de força e de esperança atenuar o mau efeito que vos possa ter causado as minhas palavras desenxavidas. não cansada de ligar as nossas almas. Que me importa o presente! No futuro é que está a. E o destino da Literatura é tornar sensível. Parece-me que sou senhor do infinito. de prepara o mundo. Guyau. e. daqui e de acolá . se viverei mais uma hora. empreendo. para mim. disse em uma de suas obras. Eu consumo a minha energia sem recear que este consumo seja uma perda estéril. 58-59. Atualmente.é o fundamento da moral especulativa com todos os risos. Esta incerteza que me comprime de todos os lados equivale. dispõe do futuro. cercada pelo Desconhecido. ela. vulgar esse grande ideal de poucos a todos. existência dos verdadeiros homens. eu pressuponho este futuro com o qual nada me autoriza a contar. a Literatura reforça o nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes. contando que o futuro as resgatará .

e ainda não escrevi sobre ele uma linha. Há mais de um mês . depois de tê-los lido e refletido sobre o que eles dizem. justamente. e o notável romancista que aprecio e admiro. A minha vida.recebi o romance de meu amigo Ranulfo Prata Dentro da Vida . A vida tem dessas coisas. Carlos M. 12-8-1922.O meu desejo era dar notícia deles.e pela maravilhosa meiguice em tratar os personagens e a paisagem. Débora do Rego Monteiro. que ele não leve a mal uns reparos que vou fazer sobre um seu recente artigo no O País intitulado . O que me feriu logo nele foi o primeiro período. Era assinado por uma senhora: D. Infelizmente não posso fazer isso com a presteza que a ansiedade dos autores pede.Pascal e a Inquietação moderna . mas com a qual me vejo atrapalhado. e. como a obra de D. mas fi-lo de bonde. A ilustre autora há de desculpar-me isso. LITERATURA MILITANTE Conheci O Sr. que não há como os homens conversarem. devido à falta de método na minha vida. diz o povo. Entretanto os livros chovem sobre mim . mas também o meu intuito era noticiá-los honestamente. pareceu-me querer que me demorasse com ele a conversar. Falou-se muito naturalmente e o homem que eu pensava ter todo o escrúpulo em trocar quatro palavras comigo.coisa que muito me honra. e a vou levando assim como Deus quer. isto é.Chico Ângelo. Débora requeria. uma obra sua recente . em plena via pública. há bastante tempo. Trata-se de contos e curioso pus-me a lê-lo com açodamento. surgiu-me como a pessoa mais simples deste mundo. mas foi uma leitura cheia de simpatia e boa vontade. no Recife. Carlos Malheiro (eu queria por o s) há dias. porque seria prova de inépcia imaginar que as centenas de milhares de volumes das suas obras foram exclusivamente adquiridas pelos literatos aprendizes. pela despretensão no escrever da autora . se não é afanosa. Diz o autor da Paixão de Maria do Céu: "A aura gloriosa e nos nossos tempos incomparável de Anatole France servirá grandemente aos historiadores futuros para comporem uma opinião judiciosa sobre o bom gosto das élites sociais nossas contemporâneas e digo sociais.coisa rara em mulher . mas quando se lembrar que a vida tem terríveis imperativos. Tive a mais bela impressão e o Sr. Dias pode ficar certo de que a idéia que eu fazia dele era muito diferente. Espero.vejam só! . de outro amigo. Encantou-me pela sua simplicidade.. e tinha por título . por apresentação de João Luso. militantes e honorários..da qual ainda não pude falar como ela merece. quer fosse nesta ou naquela revista. Agradecido. Acreditava-o um literato janota. Há dias veio ter-me às mãos um volumezito editado em Pernambuco.À margem do último livro de Anatole France. Careta. de forma que não é uma leitura meditada. para se entenderem." . é tumultuária e irregular. Tenho também. Jackson de Figueiredo. desses das montras para uso das damas alambicadas.

Creio que temo não amar. empregou-o. de incolores. os bois e os carneiros conquistam o mundo com a sua solidariedade entre eles. . se não visam a propaganda de um credo social. militantes e honorários. O Eça. no Brasil. Sendo assim. Isto em geral dentro daquele preceito de Guyau que achava na obra de arte o destino de revelar umas almas às outras. proclamou a sua grande admiração pelos leões. Em vez de estarmos aí a cantar cavalheiros de fidalguia suspeita e damas de uma aristocracia de armazém por atacado. Júlio Dantas ou o Sr. Nós nos precisamos ligar. dos casos sentimentais e amorosos e da idealização da natureza Aquelas eram . não foi pela primeira vez empregado por mim. Eles estão aí. do que Portugal. tendo por ideal de arte essa concepção. ou quase todas as suas obras. A velha terra lusa tem um grande passado. tigres e jaguares. para bem suportarmos o fardo da vida e dos nossos destinos. disse Taine. Malheiro Dias que a grande força da humanidade é a solidariedade. Eles nada têm de contemplativos. de plásticos. precisamos dizer as qualidades que cada um de nós tem. Nós não temos nenhum. Malheiro Dias poderá classificar a Ilha dos Pingüins. tudo o que pertence ao destino de todos nós. no interesse comum de todos nós. eu como literato aprendiz que sou. Antero de Figueiredo não mereciam esse "engagement" que estamos tendo por eles é que eles não mereciam. se bem me julgando aprendiz. A começar por Anatole France. mas não honorário. na ordem social econômica. O Brasil é mais complexo. Um doido que andou na moda e cujo nome não cito. no seu próprio destino. E é dele que a nossa literatura deve tratar. e mais alguns livros do grande mestre francês. mais do que nenhuma outra coisa. quando as religiões estão mortas ou por morrer. cheio dessa concepção. Brunetière diz em um seu estudo sobre a literatura que ela tem por fim interessar. creio que nas Prosas Bárbaras. O termo "militante" de que tenho usado e abusado. para nós fazermos grandes obras de arte. à proporção que essas feras desaparecem. tem por fim dizer o que os simples fatos não dizem. pela virtude da forma. um índio. venho para as letras disposto a reforçar esse sentimento com as minhas pobres e modestas obras. a grande literatura tem sido militante. Militam. Eu chamo e tenho chamado de militantes. por quem não cesso de proclamar a minha admiração. da maneira literária. só temos futuro. e a solidariedade humana. um português ou um italiano se podem entender e se podem amar. o estímulo para elas é a arte. Hoje.militantes. Ele mostrou que desde muito as letras francesas se ocuparam com o debate das questões da época. Eu me atrevo a lembrar ao Sr. enquanto estas eram contemplativas e de paixão. interessa o destino da humanidade. Malheiro Dias não sei por que despreza os aprendizes literatos. Não sei como o Sr. Como eu sempre falei em literatura militante. tomei o pião na unha. à mão. tem por mira um escopo sociológico. devemos mostrar nas nossas obras que um negro. quando comparou o espírito da literatura francesa com o da portuguesa. os Bergeret. enquanto as portuguesas limitavam-se às preocupações da forma. A obra de arte. precisamos nos compreender uns aos outros. Quando disse que o Sr. senão dessa maneira. Pode-se lê-lo lá e lá o encontrei.Pelo que aí diz o Sr. os homens. a influência que vão tendo. mas. pois já tenho publicado livros. às obras de arte que têm semelhante escopo. porque moram em Botafogo ou Laranjeiras. de restabelecer entre elas uma ligação necessária ao mútuo entendimento dos homens. Todas.

Coelho Neto ficou sendo unicamente um plástico. o Sr. com as suas chinesices de estilo. ficaram-lhe inteiramente estranhas. não se impressionou com as mais absorventes preocupações contemporâneas que lhe estavam tão próximas. Isto é explicável muito facilmente para quem conhece. Coelho Neto é daqueles a afirmar que Clotilde de Vaux foi uma rameira . Coelho Neto não foi incluído na lista dos que. tendo conseguido.. e sempre fascinado por uma Grécia que talvez não seja a que existiu mas. Por mais que não queiram. morais. Se ele estivesse ao par dos males do seu tempo. e muito justamente pelo seu poder verbal. Neto não se deteve jamais em examinar esta trágica angústia do seu tempo.os políticos seus conterrâneos. eu também sou literato e o que toca a coisas de letras não me é indiferente. embora os seus projetos morressem nas . o nome do Sr. Não descubro razão para tanto barulho. Tenho para mim que o Sr. era uma reforma social e moral. o Sr. problema que interessava todas as inteligências de quaisquer naturezas que fossem. Em tais anos. só nos deve interessar arqueologicamente. 7-9-1918. quando uma outra sua obra recebe gabos da mais alta autoridade eclesiástica do Rio de Janeiro. querendo como os Goncourts. LITERATURA E POLÍTICA Conforme resolveram os chefes políticos do Maranhão. as suas obras. religiosas. em religião. da Pátria. durante duas legislaturas. da Legislação. As cogitações políticas. cujo máximo problema mental.. devem ser aproximadamente sufragados nas urnas. do seu século. O mundo é hoje mais rico e mais complexo. e nelas descobre as suas tendências literárias e espirituais. A. O grande romancista. muito curiosamente. ficou num corriqueiro deismo ou.. por conta e risco deles. sociais. pedindo que não vejam nestas considerações a mínima hostilidade ao conhecido escritor. Vamos ao que serve.É de Fouillée a segunda parte do período. que me julgo obrigado a tratar do escandaloso acontecimento. de renovação latente. Em um século de crítica social. em um catolicismo singular e oportunista que. e o prestígio do seu nome. com o talento que tem. mesmo ligeiramente. que surgiu para as letras nas últimas décadas do século XIX. deram-lhe. poderia ter apresentado muita medida útil e original. fazendo todas as citações de memória. O Sr. A coisa tem levantado tanta celeuma nos arraiais literários. Ligeiramente. que viu pouco a pouco desmontar-se o mecanismo do Estado.B. quando é excomungado por um arcebispo do Chile (vide Magda) e exultar. uma cadeira de deputado pelo seu Estado natal. em um século deste. fez "forfait". é o que posso dizer sobre o que seja literatura militante. magnetizado pelo Flaubert da Mme. talvez. deputados federais por aquele Estado. das bases das nossas instituições. Bovary. Coelho Neto como literato-político. um contemplativo.. pintar com a palavra escrita. mesmo que fosse. o faz orgulhar-se. não deu para o estudo das soluções apresentadas um pouco do seu grande talento. Coelho Neto. em um século que levou a sua análise até os fundamentos da geometria.. a simpatia ativa e incansável de gregos e troianos . para chegar aos seus elementos primordiais de superstições grosseiras e coações sem justificações nos dias de hoje.C. Glorioso. nem mesmo tratou de conhecer o positivismo que lhe podia abrir grandes horizontes. por fás e por nefas. O Sr.

na ordem econômica. que isto não bastava e muito pouco podia impedir que se avolumasse a sincera onda de revolta que crescia em todos os corações contra o atroz despotismo da riqueza e os miseráveis e torpes processos de enriquecimento. de uma literatura militante. 18-1-1918. resolveram apelar para a religião. manteve-se mudo. um batedor do futuro. morais e sociais. Mas.pastas das comissões. Muitas dessas inteligências voltaram um pouco ao catolicismo romano. isto foi uma decepção. Quem não quer ser lôbo não lhe veste a pele. em quem não repercutiram as ânsias de infinita justiça dos seus dias.Deus sabe como! . nada fez. os fartamente enriquecidos. uma utopia ou ajudar a solapar a construção social que já encontrou balançando. sem cogitações outras que não as da arte poética. portanto. O que vai acontecer. vergonha e orgulho de si mesmo. onde também não podia ser político à guisa do Sr. sucessos externos e internos trouxeram ao nosso país. Neto tem talento. A última guerra foi-lhes favorável em dois sentidos: eles. a fim de estabilizar a sua situação e o futuro de sua descendência. porque o Sr. só dando um ar de sua graça para justificar votos de congratulações a Portugal. Urbano Santos. e a crueldade sem nome do espetáculo e a amplitude da inútil carnificina levaram inteligências honestas e desinteressadas a pensar mais maduramente sobre o mistério da nossa existência e o sentido dela. O deputado ficou sendo o romancista que só se preocupou com o estilo. dizia. essa gente superenriquecida . mas que não fez do seu instrumento artístico um veículo de difusão das grandes idéias do tempo. ele ficou sendo um qualquer Fulgêncio ou Marcelino. Fausto Ferraz. A Lanterna. Neto tem senso comum. com a mais sinistra amoralidade para também edificar. porém. Indo para a Câmara. REFLEXÕES E CONTRADIÇÕES À MARGEM DE UM LIVRO De uns tempos a esta parte. no intuito de defender as suas cobiçadas fortunas. em quem não encontrou eco nem revolta o clamor das vítimas da nossa brutalidade burguesa. onde não podia ser poético ao jeito do Sr. consagrada no círculo dos grandes burgueses embotados pelo dinheiro. com o vocabulário. usados atualmente. estilizante. porque o Sr. com a paisagem. Para os literatos. por isto ou por aquilo. fonte de consolação para os humilhados e oprimidos. indo para a Câmara. Coelho Neto ficou sendo puramente contemplativa. cheia de preocupações políticas. e eis os . Em anos como os que estão correndo. esses gananciosos que simulam caridade e temor aos mandamentos da Santa Madre Igreja. Viram. que um Fulgêncio ou um Marcelino tenham eles escolhido para substituí-lo. sobretudo a religião católica. com o abalo que.. mete-lhes medo e pedem auxílio à religião. do seu honesto trabalho e da grandeza da sua glória. feita de avidez de ganho. mediante o dote das filhas que tinham passado pelos colégios de irmãs de caridade. por sua vez. empregando nos discursos vocábulos senis ou caducos. o grande romancista sem estar saturado dos ideais da época. Até bem pouco. prosperaram ainda mais.contentava-se em converter o genro ambicioso. não pôde ser o que um literato deve ser quando logra pisar em tais lugares: um semeador de idéias. para os políticos. Não é de admirar. a literatura do Sr.

Há uma segunda parte que podia ser dispensada. Perilo Gomes. não só no que toca a eles. mas também a filhos e netos. isso de lado. os grandes acontecimentos da humanidade sempre se revestiram de aspecto de crença mística. para o desconhecido ou para o debatido. ao menos de abalá-los no seu volterianismo ou agnosticismo. no intuito. De mais. Andava bem o catolicismo de Petrópolis necessitado de um espírito como esse que põe a serviço dele a sua fé sincera e o seu talento. no respeitado e no que está claro como água. não é um ato de contrição de sua irreligiosidade passada.S. uma obra política e o catolicismo de Petrópolis. Digo catolicismo de Petrópolis porque o Sr. Seja com que fito for. sobressai por todos os títulos Jackson de Figueiredo. Entre eles. telefone ou teléfono. aos condutores do pensamento nacional. o autor quis provar. etc. já por ser escrito superiormente. que o nosso interesse artístico ou a nossa angustiosa perquirição intelectual. cedendo a esse impulso que a crise guerreira acelerou. hoje há ou está aparecendo um outro: o pedantismo católico que se entrincheira atrás de São Tomás de Aquino e outros respeitáveis e sutis doutores da Igreja.Penso e Creio . É. com os artigos de sua lavra. é a sua veemência apaixonada e. do banco e da indústria. até agora. científica e teológica. Essa revivescência religiosa é muito natural.magnatas do comércio. que aduziu à parte principal de sua obra. sorrateiramente. tem visado fins políticos. e a humanidade passou ou está passando por uma das mais duras privações de sua existência. de quem muito sinto andar em tal matéria afastado. em geral. para considerar somente o escritor e o pensador do Penso e Creio.. Ele tende à reforma da Constituição. O seu livro . o homem nunca deixou de ser um animal religioso e a religião é uma necessidade fundamental de sua natureza. Algumas vezes é proveitoso que o nosso exame e as nossas faculdades pensantes se dirijam e repousem no evidente. cantando vitória e contentes porque tinham esmagado os adversários que lhes ameaçavam o pleno gozo e uso das fortunas. com grande "élan" de paixão e soberbos toques de poesia. Todo o livro não é ocupado somente com a parte apologética propriamente. senão de convencê-los. em substância. etc. Deixemos. Não há como a provação das dores profundas para nos impor indagações sobre as coisas do Além. os que ele nos dá. Perilo não se pode furtar em confessar que a sua obra não é de pura contemplação. diversos moços. forte. já houve o pedantismo dos positivistas que aterrava toda a gente com a matemática. é dirigida aos que pensam. contentara-se com disfarces na violação dos . não devem tão-somente ser encaminhados para o obscuro..é deveras notável. no sentido mais alto da palavra. a sua simplicidade no dizer e a sua total ausência de pedantismo. é a sua clareza. sobretudo. Entre nós. nos quais o saber de detalhes e a pouca familiaridade com a língua tiram as indispensáveis qualidades de escritor de combate: a atração e a veemência. de religião enfim. se hão dedicado à apologética católica. já pela erudição que demonstra. de mãos dadas ao inacismo. entre nós. pacientemente. porque o que encanta nele é o escritor. por todos os meios. ele é um escritor para toda a gente. escondendo com pudor o seu real saber. de férvida esperança no futuro. Aparece agora como uma brilhante revelação o Sr. não é uma confissão. Já houve. Ao que me parece. é militante. claro. pois nenhum parentesco tem com a primeira.. porém. o pedantismo dos gramáticos que andou esterilizando a inteligência nacional com as transcendentes questões de saber se era necrotério ou necroteca. pois. são jesuítas alemães ou italianos e irmãos leigos da Companhia. Perilo Gomes não parece nada com esses senhores respeitáveis que hão de ser camareiros de S. é o seu poder de expressão.

está sempre a apelar para as tradições católicas de nossa terra. O tal partido. Admiro muito a religião católica. definindo de vez o meu humilde pensamento em face da agitação católico-nacionalista que está empolgando todos que no Brasil tem alguma responsabilidade mental. em matéria que muito pouco tenho meditado e muito menos pensado. por parte da massa que nem sempre está com a razão . representada pelos improvisados ricaços de Petrópolis. se ligam a elas algumas das suas afirmações. crê ou têm crido em Deus. me causa apreensões e. dos simples deístas. o autor não faz entre eles a separação dos católicos. Estas reformas me parecem odiosas e sobremodo retrógradas. dos protestantes. dos religiosos de qualquer espécie. pelos seus órgãos mais autorizados. Entretanto. O Jeca deve continuar Jeca. como fato consumado. remotamente. Mas tal culto tende a excomungar. nasceu no islamismo ou na igreja grega voltaria para o catolicismo ou para o maometismo ou para a igreja ortodoxa? A resposta não se faz esperar: ele voltaria para a doutrina religiosa em que foi educado. não só à religião. decretada como oficial a Igreja Romana. O culto à brasilidade que ele prega. quando afirma que a ciência não satisfaz. não o estrangeiro. que a anima e a sustém no seu velho sonho de domínio universal. mas não Deus mesmo. Perilo. aliás muito antigo. e a recrudescência exaltada do sentimento de pátria. é em afirmar ele que essa revelação de Deus em nós. Estaria e estou de acordo com o Sr. como: o casamento civil e o ensino oficial inteiramente leigo. em seu favor aqui. por isto ou aquilo. Perilo Gomes não trata dessas questões claramente. eu filio Penso e Creio à ação do partido que se esboça aí com o título de nacionalismo. É minha desautorizada opinião. também conseqüência dela. mas. com a Igreja. Por isso. que ela parte do mistério e acaba no mistério. As religiões são expressões humanas de Deus. . de que a maioria dos homens eminentes em toda a sorte de atividades teóricas e práticas. A Igreja quer aproveitar ao mesmo tempo a revivescência religiosa que a guerra trouxe. é evidente que há em semelhante ato uma violência inqualificável contra a consciência individual. de argumentos dos seus inimigos contra ela. Não sei por quê! Para os que nasceram na religião católica e a abandonaram. se o convertido ou arrependido de irreligiosidade. e que. mesmo toleradas outras seitas. o Sr. sei bem disso tudo.preceitos dela que interessam ao Catolicismo. mas. sei que ela tem sabido aproveitar as conquistas de toda a ordem obtidas por este ou aquele homem. talvez com um pouco de farinha a mais. mas também à riqueza e às regras sociais vigentes. No argumento. ao se sentirem tocados pela graça divina. porém. Perilo. no Brasil. Dado que a maioria dos brasileiros seja verdadeiramente de católicos. há muitas razões de crer em Deus e de obedecer à revelação da voz divina na nossa consciência. dai a aliança da jovem fortuna. fora dela. Sem que nada me autorize a tal explicitamente. e até aproveitou-se em seu favor. Mas. no que não estou de acordo com o Sr. só nos pode levar ao catolicismo. como ameaça. é muito natural que voltem a ela. mas sei bem que ela é uma criação social. é o apego à herança do passado de respeito. e nao é difícil ver nisso o desejo de riscar da carta de 24 de Fevereiro a separação do poder temporal do espiritual e suas conseqüências. não pode deixar de revoltar um liberal como eu.coisa que. baseada na nossa necessidade fundamental de Deus e impregnada do cesarismo romano. aproveitando o momento de angústias que atravessamos. como já disse. nos dias atuais. julgo não ser demais fazer as observações que acima ficam. quer obter a vitória completa. incorporando-as ao seu patrimônio. já que se me oferece pretexto para fazê-las. mas as idéias estrangeiras de reivindicações sociais que são dirigidas contra os cresos de toda a ordem.

. A força moral da Igreja é toda aparente. desaparecimento que só se fez total com a Grande Revolução (Vid. talvez. a classificação dos termos não fosse difícil de estabelecer.Augusto Comte. conforme tudo leva a crer. afinal. desde o édito de Milão. amoldando-se a cada idade e cada transformação social. ela. na sua transformação em selvagem. como a França. a Espanha e Portugal. estava a tal ponto identificado que os seus filósofos mais eminentes. chamando-os ao bom caminho da paz e da concórdia. sob a benéfica influência da Igreja. Seria certamente um capítulo de uma espécie de geologia religiosa em que. mesmo o quase divino Platão e o conciso Aristóteles reconheciam a sua legalidade. e essa grande Convenção Francesa. poderia tentar a outro. e os filantropos ingleses. mesmo quando essa ambição desenfreada de dinheiro e de lucro se faça em troca da dignidade moral da pessoa humana. no acertado dizer do Sr. senão a legalidade. Esta incapacidade que a Igreja demonstrou para abolir a escravidão negra nas colônias dos países catolicíssimos. . pelo menos a necessidade. para Napoleão criminosamente a restabelecer. apesar dos Evangelhos. Estou a muitas centenas de quilômetros dos meus modestos livros. dizia eu. os Evangelhos tinham passado das mãos dos religiosos para a dos filósofos. como sendo patrimônio dele. Mas. Vou me deter alguns instantes no que toca à extinção da escravidão antiga. dá a entender que ela não tem mais força para reprimir no coração dos seus fiéis a ganância. todos nós que conhecemos os homens bebemos inspiração. como diz o Sr. através de quase dois mil anos de existência. Entretanto. foi repelido. e. se tal tentou. A última guerra mostrou a fraqueza do ascendente do Papado que não quis francamente experimentar o seu prestígio sobre os povos em luta. essa admirável plasticidade da Igreja. no assunto. A Convenção extinguiu-a nas colônias francesas. senão citaria integralmente esse famoso trecho do grande escritor inglês. Perilo.nessa questão há um argumento em desfavor do papel social da Igreja moderna. A sua atitude perante a nefanda instituição foi a dos filósofos antigos de que fala o Sr. ou mesmo antes. já se esvaneceu ou vai se esvanecendo. não me lembro onde. não soube ou não pôde impedir a moderna escravidão negra nem propagou a sua abolição. Esse serviço. É fato. Perilo. quem conseguiu a vitória de extinguir semelhante infâmia. quem acabou com esta infame instituição. segundo tudo faz crer. tivesse verdadeira erudição pois não tenho nenhuma. mesmo o virtuoso Sócrates. entretanto. Não creio. a cupidez. citando o Sr. várias igrejas superpostas com os afloramentos fatais das mais antigas através das mais modernas. Perilo. Taine . que ela instituindo o dogma da fraternidade humana matava a escravatura. deve-se pela primeira vez. que não é preciso aqui mostrar de quanto é credora a humanidade ao catolicismo. a demonstrar que tem havido. e no final desaparecimento desta última forma de elementar trabalho humano. foi a de reconhecer-lhe. onde. a um filósofo que a Igreja mais combate .Porém. portanto. mas nunca um ato solene da igreja que a condenasse. durante o século XVII. É por isso que Macaulay diz. talvez ainda a escravatura negra estivesse admitida como legal. nessa questão do acabamento dessa odiosa instituição na Europa. que. não foi um concílio muito ortodoxo. Penso e Creio é luxuriante e há tanta riqueza de idéias nele que a gente se perde querendo escolher as que deseja discutir. ateus ou não. a que o mundo antigo. até hoje. Guiraud. Não fossem os filósofos do século XVIII. a força.Origines de la France Contemporaine). especialmente Condorcet. Há exemplos isolados de eclesiásticos que a combateram. que. que a Igreja possa resolver a questão social que os nossos dias põem para ser solucionada urgentemente.

. pois nele não se queimam só gravetos. não a podem resolver estou muito disposto a crer que o catolicismo não a resolverá também. A. É possível que o professor Assis Cintra tenha outra opinião. encontra diante de si campeão contrário de tão raro valor e estranha bizarria. Gastão Cruls. anarquistas. Nota-se nele que o autor ama muito a vida da roça. tanto mais que não me preocupo com essas coisas transcendentes de gramática e deixo a minha atividade mental vagabundar pelas ninharias do destino da Arte e das categorias do pensamento.C. inesperadamente.o 13 . não é tudo que existe.espiritualidade . Despertou-me refletir um pouco.Se os socialistas. As relações do fazendeiro com os colonos. mas que dará a seu autor mais fama. mas escreve sem o Elucidário de Viterbo e o Blutteau. Nestas reflexões que o vibrante livro do Sr.A. tanto mais que nunca foram tão íntimas as relações do clero com o capital. positivistas. O seu primeiro conto . Perilo Gomes me provocou fazer.C. nas mãos. sobre certas ficções do atual ensino médico. Escreve como toda a gente. ensina ele alguma . por assim dizer. mas. Não é só à paisagem. Não há nele um toque distinto que denuncie esse amor. tão-somente humilde homenagem de um adversário que.esse amor que ama a vida da roça não ama a natureza. que tem como título essa palavra de origem tupaica. assistentes e enfermeiros e faz discursos mirabolantes (é do autor) diante do doente. não há positivamente "coivara".é estranho e como que o autor quis manifestar nele que a sua concepção da vida não é rígida nem mecânica.O Noturno n. sem querer de forma alguma diminuir o mérito do autor. mas tal coisa não vem ao caso. Vale a pena ler seu livro. no livro do Sr. a vida de fazenda. Digo isso de um modo geral. os seus negócios. sindicalistas. etc. para escrever daí a dias uma chôcha memória que certamente morrerá na vala comum das revistas especiais.que ele protesta contra os brutais processos da nossa atual medicina que só vê no doente. mas.B. DE GASTÃO CRULS Dizem os dicionários que "coivara" e uma fogueira de gravetos. não há o menor sinal de má vontade ou de hostilidade.que concubinato! . mas mesmo aos bichos. não são delgados galhos secos. etc. Queimam-se grossas perobeiras e duros jacarandás. Gastão Cruls. mas quase sempre essa sua singular feição de escritor nacional se trai aqui e ali. Admitindo a velha definição dos dicionários. Gastão Cruís é médico. aos bois. 23-4-1921. portanto mais clientes e mais dinheiro. Os contos que o compõem. Por exemplo: no G. não escreve no calão pedante dos seus colegas.sem ter diante dos olhos o redundante padre Vieira e o enfático Herculano. e . É a indústria clínica que se ceva nos cadáveres dos pobres desgraçados que morrem nos hospitais. É delicioso de naturalidade e precisão.. a vida social da roça. aos carneiros. naturalmente procurando os efeitos artísticos da arte de escrever. um caso a estudar. há alguns que são verdadeiras toras de cerne. Que o que se vê. é em nome dela . de cuja ação e de cuja crença quisera partilhar para sossego de sua alma.coisa singular . O Sr. graças a Deus. principalmente no seu cadáver. e é contra este que se dirige toda a guerra dos revolucionários. Esse professor Rodrigues que vai seguido de uma récua de estudantes. o que ele ama é. À MARGEM DO "COIVARA". há "atrás" do que se vê muitas e muitas coisas.P. Nem sempre os seus contos mantêm na aparência esse tom de transcendente espiritualidade. após a leitura desse magistral conto do Sr. a dissecar. as suas cerimônias domésticas. mas .

Uma parturiente.não passou antes de "Reading" de nada mais do que o "Rei dos Cabotinos".A Neurastenia do professor Filomeno . o professor Filomeno. Clark acaba de afirmar que há pelo Brasil inteiro quatro mil médicos que não sabem medicina. o Dr. como é Coivara."King of Life". Eis aí como narra o arguto autor do Coivara: "A um indivíduo que o fora consultar enfermado pela moléstia de Friedreich. queixando-se muito da marcha propulsiva. a fazer hipóteses mirabolantes e ousadas. ao invés de qualquer prescrição medicamentosa. Os jornais falaram e não sei como as coisas ficaram. porém. tendo-se recolhido à Santa Casa. essa. Cruís muita coisa outra que não a pura preocupação das coisas de sua profissão. dessa maneira afetada e oratória . "Como Raul não compreendesse o latinório e se mostrasse um tanto atrapalhado. é possível? Penso bem que não. àqueles que nos têm de curar. um lente de partos quis fazê-la sujeitar-se ao "toque" por toda uma turma de estudantes. seguindo na esteira do Sr.maneira que é exigida "malgré-tout" . diante do doente. quanto menos palavras arrevesadas.o que o autor também nota . Esse Wilde que se intitulava a si mesmo . Beijos de uma morfética. É tão importante a medicina na nossa vida que toda a crítica deve ser feita por todos. Cruís. lido no "Thinherabos". é a principal. Ela tinha razão sob todos os pontos de vista. que já o fizera levar várias quedas. isto é. Oh! que horror! O que estranho no autor de um livro tão digno. De resto .outra feição do nosso ensino médico. Lembro agora um caso que se passou há tempos. é a admiração que parece ter por Oscar Wilde e se traduz em frases quentes no seu conto "A Noiva de Oscar Wilde". por exemplo. Há. tal qual o autor nos conta e conforme expõe o grande Filomeno. ele soube conquistar a alta sociedade de sua terra. O Dr." Filomeno chama isto opoterapia. por experiência ou estudo. porém. talvez demais um pouco. "Rei da Vida" . Com uma singular sagacidade. no João de Barros e outros cacêtes. porém. vamos ver no . é conto fora dos nossos moldes. Compreendes agora por que lhe receitei os crustáceos? Ora. Ela se revoltou e houve escândalo. nos contos do Sr. . terrível. no frei Luís de Sousa. melhor eles compreenderiam o lente. Mais tarde ele explicara a Raul por que assim procedera. A verdade. só sabem andar para os lados. A sua lógica é de uma inflexibilidade aristotélica e ele a aplica largamente na sua clínica. "Noites Brancas".coisa? É possível transmitir a outrem o que se sabe. se esse indivíduo tem uma desordem do equilíbrio que o impele a correr e cair para a frente. agora. Filomeno logo traduziu: . no Diogo do Couto. fantástico e doloroso. De forma que um pobre-diabo que cai num hospital. é que todo esse nosso ensino médico é malvado e improdutivo. vai para morrer."Os caranguejos nunca andam em linha reta". Valha-me Deus! Eu me alonguei nestes dois contos em que se tratam de coisas do ensino médico. Tem outras manias. tanto assim que o Sr.pelo auditório numérico que o cerca. Dr. preferira recomendar uma alimentação intensiva pelos siris e caranguejos.não é um suplício para um doente grave estar a ouvir palavras campanudas sobre a sua moléstia durante uma hora? Poderá isso concorrer para a sua cura? Não. melhor ele poderia iniciá-los. Quanto mais reduzido for o número de alunos. dentro da noite escura. entre nós. no Rui de Pina. Filomeno é um sábio em medicina porque conhece o léxico antigo da nossa língua. que são animais exclusivamente laterigrados. nada mais natural do que neutralizar essa força propulsora por meio dos gânglios nervosos dos siris e caranguejos. Vimos já esse professor Rodrigues. As nossas escolas de grande freqüência devem ser condenadas. Vejamos este caso. Mas era preciso. começando por lhe citar um aforismo latino: "Cancri nunquam recte ingrediuntur". sobretudo àqueles que isso ensinam. em vez de ir para tratar-se.

embora não hesite em freqüentar o mais baixo que seja.. para fazer sucesso. Faltou a Wilde sempre o senso da vida.. nem grande. ele em si não era portador de tal tara. Enéias Ferraz . a sua falta de profundo sentimento moral.prefaciada por Zola. porque os outros. mesmo nos paradoxos. não é o estudo. na desgraça. sentimento do alto destino do homem. o seu egoísmo. até esse imundo vício que o levou à prisão de "Reading". põe fora o cravo verde.História de João Crispim . Dostoiewsky passou alguns anos na Sibéria. Laups . não é a arte. embora seja ele um estudioso. 23-7-1921. menos da das bodegas. o seu narcisismo imoral obrigaram-no a simular tudo que ferisse e espantasse a massa. mais longamente estudado. embora escreva e seja ilustrado. não é o bordel.aparecido recentemente. ele despe-se do peplo. mas possuo grandes extratos que vem na obra do Dr. perde toda a basófia e abate-se.pode-se dizer sem favor algum . Adquiriu-a para chamar a atenção sobre si. Queria distinções sociais e dinheiro. A sua vaidade.tudo isso que o arrastou à desgraça.é feita com grande cuidado e rara lucidez. a de ostentar o porco vício que o levou ao cárcere.expondo-lhe os vícios e. entre os mais inumanos bandidos que se possa imaginar. é que afirmei sobre ele o que acima fica dito. todo o seu cinismo em mostrar-se possuidor de vícios refinados e repugnantes. É livro de um tipo só. com uma originalidade duvidosa. egresso de toda e qualquer sociedade. . com arremedos. Ao que parece. Às vezes até. de grande cultura. ele é um egoísta simulador de talento que uma sociedade viciosa e fútil impeliu até ao "hard labour".Perversion et perversité sexuelles . A. a frescura e a ingenuidade do verdadeiro talento. e essa análise é feita . ficam apagados diante da força com que o autor analisou o seu personagem central. É um caso de "moléstia da cor".. é o . na miséria e na humildade. As suas obras são medíocres e sem valimento. trejeitos e "poses" de artista requintado. no personagem do Sr. os justificando com paradoxos. tira o anel da múnia do dedo. entre as quais. a grandeza da concepção e a força de execução. Para isso. para essa moléstia especial. Aí.C. Tudo nele é factício e destinado a causar efeito.. desta cidade.desse malogrado escritor. Ele é um mascarado que enganou e explorou toda uma sociedade. O derivativo para essa tortura. Era elegante. durante muito tempo. Não tenho todo o processo a que foi submetido. Enéias Ferraz. Trata-se de um rapaz de cor.A mulher e a sociogenia . num atroz presídio.. ao mesmo tempo. lançou mão das mais ignominiosas ousadias. nem sempre de bom quilate. meu caro Dr. no prefácio que escreveu para .B. como qualifica Sílvio Romero. nem pequeno. Toda a sua jactância. é obra de mérito que merece ser lida. HISTÓRIA DE UM MULATO O livro do Sr. Não é um artista.talvez tenha dado um bom resultado. A edição do Coivara é primorosa. Pelas leituras deles. toda a sua vaidade . apesar de umas ousadias fáceis que a sua mocidade desculpa. como todas da Livraria Castilho. Cruls? É tê-lo feito escrever o De Profundis. e não se abateu. a sua jactância. Sabe qual é. mesmo o do poeta Afonso Pina. tratando de Tito Lívio de Castro. A vida é coisa séria e o sério na vida está na dor. tascas e prostíbulos reles.

ou ser assassinado por um bandido. nem de leve.leva-lhe o cadáver para [a] sepultura. tanto mais que os que a sorte aquinhoa e o Estado estimula. por toda a parte. quando corre lugares suspeitos. de suas várias partes e de seus vários aspectos. o autor da História de João Crispim é o primeiro que o faz. nas nossas sociedades democraticamente niveladas. Entretanto. neste vasto Rio de Janeiro. de afetuosidade. se insurgiu. está ele cheio de amizades. Ao que me conste. nunca tentou a pena de um romancista. por todo o mundo. A orgia carnavalesca não permitiu que o fosse. na parte estática. que se não fôsse o "copito" . num sábado de carnaval. às vezes. mesmo. embora mulato. com o sofrimento. encontrando por toda a parte uma afeição e uma simpatia. como indigente. muito orgulho e muito sofrimento. para não ferir os amigos.. A sua dor íntima. porém. comparada com os demais semelhantes que os cercam. que é. vai para o necrotério. Os detalhes da obra do Sr. em diversas horas do dia e da noite. tão comuns entre nós. em geral. de dedicações de toda a sorte e espécie. não posso. se assim se pode dizer. mas a gratidão e as amizades fazem-no recalcar a revolta. pois há. o motivo de tão estranho viver quando. o sentimento da cidade. mas educado e com instrução superior à vulgar. é uma nuga sem importância. Como o Sr.. mal sabia ele.talvez o fabricante de túmulos não amasse o moço mulato. um homem que possui uma alma dessa natureza enche-se de bondade. trocando. de fel contra as injustiças que o obrigaram a sofrer. nos lábios de um rapaz. limites tacitamente impostos e intransponíveis para a sua expansão em qualquer sentido. seja em que for. toda a gente pode vê-lo com a leitura de seu interessante e atraente livro. não têm nenhuma espécie de superioridade essencial sobre ele. Ferraz.como se diz nos jornais . aliás. que lhe tiram o direito de uma completa e total revolta contra a sociedade que o cerca. pois acaba. perde a sua significação e trai o seu destino. e ele possui. mais ou menos. Cercado de amigos. na verdade. após os trabalhos de redação. é estimado. e sofrimento por perceber que essa superioridade não se pode manifestar plenamente. ou pelo governo. sorvidos. é querido. Há nessas almas. Enéias Ferraz estuda.expansão da dor íntima de Crispim . uma vida. Isto. Morre. A sua significação era a insurreição permanente contra tudo e contra todos. quem o levava . Redator de jornal. Crispim. compreendendo a dor dos outros. a sôldo de um poderoso qualquer. debaixo das rodas de um automóvel. mas lastima que gostasse tanto do "copito". Ferraz se saiu da tentativa. o marmorista. pois não foi reconhecido. Ferraz são. álcool forte. para eles. com honrarias e cargos. leva uma vida solta de boêmio. como ninguém. por sua vez. a ninguém revela. a explosão de ódio. onde sujeitos menos originais que Crispim são apontados por toda a gente. deixar de observar que um tipo como esse João Crispim devia ser conhecido. donde a caridade do Estado. Orgulho que lhes vem da consciência da sua superioridade intrínseca. possuidor de uma pequena fortuna. e ninguém percebe naquela alma e naquela inteligência. uma das mais belas do livro. De resto.como diz o vulgar "podia ser muita coisa". "whisky". João Crispim é assim: por toda a parte.álcool. excelentes. Temperamentos como este que o Sr. O marmorista que lhe fez o túmulo da mãe simpatiza com ele. como a do personagem do Sr. Não quero epilogar sobre essa cena. porém. de necessidade de simpatizar com todos. cachaça. . completamente. a não ser inofensivamente em palestras e na platônica insurreição do cálice de cachaça. bem cedo. nesses homens assim alanceados. o dia pela noite. e o seu destino seria a apoteose. nela dormindo. após os folguedos de Momo . porém. pelo menos. sobre a qual não vale a pena insistir. de forma que.

Quase sempre, nós nos esquecemos muito dos aspectos urbanos, do "ar" das praças, das ruas, lojas etc., das cidades que descrevemos em nossos livros, conforme as horas em que eles nos interessam em nossos escritos. A Balzac e a Dickens, os mestres do romance moderno, não escapa isso; e ao Sr. Ferraz também interessou essa feição do romancear do nosso tempo, tanto assim que nos dá belas descrições de trechos e coisas da cidade. Não citarei senão aquele das imediações do Teatro Municipal, alta noite; e também a da tradicional livraria do velho Martins, na rua General Câmara - um Daumier! No final de contas, a estréia do Sr. Enéias Ferraz não é uma simples promessa; vai muito além disso, sem que se possa dizer que seja uma afirmação, mesmo porque nós só nos afirmamos com o conjunto de nossas obras, e o Sr. Ferraz ainda pode e deve compor muitas outras. Sobra-lhe talento e vocação para isso; o que é preciso, porém, é não esmorecer, não perder o entusiasmo, nem embriagar-se com os louros colhidos. É o que espero, como amigo que sou dele. O País, 17-4-1922.

VÁRIOS AUTORES E VÁRIAS OBRAS Nós nunca somos senhores do rumo que deve tomar a nossa vida. Nos primeiros anos, com os exemplos familiares, com os conselhos paternos, pensamos que ela deve seguir este ou aquele caminho e orientar-se segundo tal ou qual estrela. Os acontecimentos supervenientes, porém, chegam e, aos poucos, devido aos embates deles, a nossa existência toma outro rumo muito diferente daquele que traçamos na carta do viver neste mundo. É vão delinear todo e qualquer projeto de vida nesta terra ou em outra, porque nós não somos senhores dos acontecimentos, não podemos dominá-los nem evitar que eles nos levem para onde não queríamos ir. Quando, há cerca de vinte anos, época em que já devia estar formado, me pus a escrever em pequenos jornais chamados humorísticos, nunca imaginei que tais ensaios, quase infantis, meros brincos de quem acabava de sair da meninice, viessem um dia me pôr em colisões mais atrozes do que as que passei, ao ser examinado em Mecânica Racional e Cálculo das Variações pelo Sr. Licínio Cardoso. Perdi o respeito infundado que tinha desse meu antigo lente, no que fiz muito bem; mas, hoje, com a minha incipiente literatura, à vista das atrapalhações que ela, de onde em onde, me traz, sou obrigado a recordar-me dele e da sua mecânica. A oferta de livros não cessa de me ser feita. É coisa que muito me desvanece; mas muito me embaraça também. Às vezes, são poetas que me oferecem as suas "plaquettes" e mesmo os seus livros. Sou obrigado, por delicadeza e para não parecer presunçoso, a dar uma opinião sobre eles. Ora, nunca estudei, mesmo nos seus menores elementos, a arte de fazer versos; não conheço as suas escolas, nem sei bem como elas se distinguem e diferenciam; entretanto, segundo as praxes literárias, tenho, ou por carta ou em artigo, que dar uma opinião sobre as obras poéticas que me são enviadas. É daí que me vem uma das complicações dolorosas que a literatura trouxe à minha existência. Se, de antemão, tivesse eu adivinhado que havia de escrevinhar livros e artigos de jornais, pelo que havia de merecer a atenção dos poetas, teria

logo, nos meus primeiros anos de vida, tratado de estudar o Castilhos, porquanto, ao que parece, esse negócio de fazer versos, como a música e a geometria, só se aprende bem aí pelos quinze anos e mesmo antes. Nessa idade, porém, não tinha a mínima preocupação literária, havia até abandonado o meu Júlio Verne e todo eu era seduzido para o positivismo e coisas correlatas. Vieram, porém, os fatos duros e fatais que o destino guarda secretos, e eles me empurraram para as letras, sem nada saber de versificação. Não é só ai que a minha humilde literatura complica a minha vida e me causa incômodos. Há outros pontos em que ela me põe abarbado. Ainda há dias, recebi de S. Paulo, com uma lisonjeira dedicatória da autora, D. Maria Teresa de Abreu Costa, um curioso livro: Noções de Arte Culinária. A autora pede-me justiça e eu que já escrevi sobre a sua obra, fiz o que estava em minhas mãos fazer. Sou incompetente para dizer sobre o assunto que tanto interessa a todos os homens; mas, consultei minha irmã que, nessas coisas de Culinária, deve ser mais autorizada do que eu, e ela me afirmou que o livro de D. Maria Teresa é excelente como método e exposição; é muito claro e não tem as obscuridades daquele curioso Cozinheiro Imperial, edição do Laemmert, em 1852, a terceira, em cujas páginas fui buscar algum chiste para alegrar meus artiguetes de vários números da Careta, desta cidade. Diz-me, por carta, o Sr. J. N. Pereira, que a Sra. D. Maria Teresa dirigiu um curso anexo à Escola Normal da capital paulista, onde as respectivas alunas aprendiam a ser donas de casa. Esse curso, por economias mal entendidas, foi extinto. Longe de mim querer censurar este ou aquele governo, daqui ou de S. Paulo. Tenho um medo "brabo" de todos eles, nestes tempos que correm, de violência e pavor, governamentais, mas uma coisa, sem perigo, posso notar, à vista da criação desses cursos de coisas domésticas e similares: é a decadência da família; é o enfraquecimento das tradições domésticas. Há cinqüenta anos ninguém admitiria que uma moça, fosse qual fosse a sua condição, aprendesse essas artes familiares, senão no seu lar, ou no dos parentes ou no dos amigos de sua família. Não era só a culinária, incluindo os doces, que dessa forma se aprendia; era a renda de almofada, o "crochet", o "filet", o bordado, etc., etc. Hoje, não; as famílias não sabem ensinar mais essas coisas às suas filhas ou às dos amigos e parentes; e quando as moças querem aprendê-las, tem que se dirigir a escolas especiais. Se é bom ou não, não sei. O tempo dirá. À oferta deste livro tão curioso da professora paulista, seguiu-se uma outra a mim feita pelo coronel Ivo do Prado, da sua sólida obra: A Capitania de Sergipe e as suas ouvidorias. É uma obra de erudição e de pensamento. O Sr. Ivo do Prado não é unicamente um cartógrafo, nem um compilador de cartas de sesmarias e outros documentos rebarbativos. É também um observador das coisas sociais, dos movimentos das populações, das razões naturais e sociais por que elas preferiram tais ou quais caminhos, para o povoamento do interior. Não tenho espaço nem competência para acompanhar de perto o seu valioso trabalho; entretanto, uma observação sua me traz algumas reflexões que, talvez, não sejam de todo minhas, mas cujo contexto me apaixona. Trata-se de nossa nomenclatura topográfica. O coronel Ivo do Prado nota, e com muita razão, que é difícil identificar os nossos acidentes da terra e mesmo os potamográficos, porque eles estão, a toda hora e a todo momento, a mudar de nomes, por mero capricho

vaidoso das autoridades a que tal coisa incumbe. É uma grande verdade. Basta ver o que se passa na Estrada de Ferro Central, onde a vaidade ou a bajulação dos engenheiros, que isso podem, faz mudar, em curto prazo de tempo, os nomes tradicionais das estações, batizando-as com os apelidos de figurões e poderosos do momento. Podia citar exemplos; mas creio não ser necessário. No Ministério da Marinha, um ministro, usurpando as atribuições da respectiva Câmara Municipal, mudou o nome da enseada da Tapera, em Angra dos Reis, para o pomposo de almirante doutor Batista das Neves. Decididamente não é o bom senso e o sentimento do equilíbrio que dominam os nossos atos. Para prestar homenagem à memória do desditoso almirante Batista das Neves, há, havia e haverá outros meios que não este, onde não se encontra uma razão qualquer que o explique. A observação do coronel Ivo do Prado, sobre essa nossa mania de estar, a toda a hora, mudando a denominação das nossas localidades, rios., etc, provocou-me lembrar um artigo de Gaston Boissier, tratando de saber onde exatamente ficava Alésia, a célebre cidadela em que César encurralou Vercingétorix e foi cercado também, mas derrotou os que o sitiavam, e acabou ornando o seu "triunfo" com aquele infeliz chefe gaulês. Um dos elementos para identificar Alésia foram as denominações locais que, com alguma corrução, desde quase dois mil anos, guardavam mais ou menos a fisionomia da primitiva denominação. Entre nós um tal meio de pesquisa seria impossível... Estão em moda os Estados Unidos; mas acredito que, apesar do amor histérico dos "yankees" pela novidade, lá as coisas não se passam desse modo. O livro que o Sr. Carlos Vasconcelos me ofereceu e é de sua autoria, dá-me a entender isso. Em Casados... na América, tal é o titulo da obra, aqui e ali nos apelidos de lugares, vê-se que há ainda lá muita coisa de huron e pele-vermelha. Os americanos mataram-nos sem dó nem piedade; mas os nomes que eles deram às regiões de que se apossaram os seus algozes foram conservados por estes e passaram até aos seus couraçados e cruzadores. O livro do Sr. Carlos de Vasconcelos é livro de um grande escritor. O que me parece diminuir o seu valor, é a preocupação do autor em encaixar, a força, os Estados Unidos nas suas novelas. Não sei se é porque tenho uma rara antipatia por semelhante país, não sei se é por outra qualquer causa; o certo, porém, é que a sua mania americana me dá a impressão de que a sua obra não é sincera, não nasceu do seu fundo íntimo. Estou convencido de que se a sua frase quente e ondeante, colorida e musical, fosse aplicada a assuntos mais nossos, o seu trabalho ganharia muito e muito! Esse "engouement" pelos Estados Unidos há de passar, como passou o que havia pela Alemanha, e da mesma forma. Não dou cinqüenta anos para que todos os países da América do Sul, Central e o México se coliguem a fim de acabar de vez com essa atual opressão disfarçada dos "yankees", sobre todos nós; e que cada vez mais se torna intolerável. Quem viver, verá! Um outro escritor que, com raras qualidades, parece ainda estar à procura do seu caminho, é o Sr. Adelino Magalhães. Há nele uma grande capacidade de observação até ao mínimo detalhe, à minúcia; é vivo e ligeiro; tem grande originalidade no dizer; mas lá vem o "mas"! - o Sr. Adelino Magalhães não quer ver nada além dos fatos concretos, atém-se às aparências, pretende ficar impassível diante do Tumulto da vida (é o título de sua última obra) e não o perfuma de sonho, de dor, de piedade e de amor.

o trabalho do Sr. prudente. apesar do abuso da onomatopéia . Não é possível lê-lo de um hausto. aconselhar aos que se queixam das . como é o Sr. Espécie de obra muito rara na nossa produção literária. que. Há muitas morais e muitas sociais. Nestor é a cautela em pessoa . de pensamentos contíguos ao do autor. isto é. de abandonarmos a cidade pela roça. Não há doutrinação alguma. Se Adelino é todo arremesso. 6-12-1920.é sobre todos os aspectos notável. outras. O autor da A Crítica de Ontem é muito filósofo para não fazer semelhante tolice. Nestor Vítor dá-lhe um lugar à parte nas nossas letras. mas que só ele mesmo poderá justificar semelhante coordenação. requer vagar e tempo. faz também meditar e provoca inevitavelmente o aparecimento. A observação sobre o nosso "doutor" é aguda e perfeita. É com estas palavras da mais pura satisfação que fecho esta crônica.A sua estética é muito cruel e primitiva. O trabalho com que o abre . Adelino Magalhães. até perder-se a origem de que eles provieram. não deixa a obra de sugerir comentários que me parecem oportunos. tal qual se nos apresenta o Sr.."Um prego! Mais outro prego! . de maldade inconsciente. o Sr. a reflexão sobre o "Marimbondo metafísico" é de uma ironia acerada e do melhor quilate. Possam todos eles crer que a leitura de suas obras foi nesta minha quinzena de "férias" o máximo encanto do meu voluntário recolhimento. na inteligência do leitor. cauteloso. mas mesmo pelo fato de ser assim. nele.Senhora de Engenho .deve provir desse seu feitio de ser. os seus contos ou antes. o seu livro tem um grande merecimento: é próprio. porque. muito legitimamente e brilhantemente explana e discute essa questão de urbanismo que os nossos autorizados sociólogos práticos têm posto e semeado pelos jornais em fora. céticas.Folhas que ficam . desdobrando-se aqueles em outros diferentes. amargas.o que bem condiz com o seu nome. Nestor as mandou para o livro tal qual elas saíram do primeiro jacto da sua pena ou do seu lápis. As suas reflexões e observações são pensadas e repensadas. sob a forma de romance.autor pernambucano muito justamente apreciado. de selvagem." . com a qual me desobrigo dos compromissos que contraí com tantos autores e amigos. É vezo hoje dos nossos economistas. Há falta de espontaneidade. Mário Sete . políticos e outra espécie de gente que está. outras. É um livro de reflexões esparsas a que o autor tentou coordenar em várias partes. Contudo. Ninguém pense que o Sr.. depois de Deus. Se há defeito no seu último livro . as suas "tranches de vie" têm alguma coisa de bárbaro. Gazeta de Notícias. Nestor Vítor. encarregada de dirigir os nossos destinos. e assim é quase todo o livro.Pan! Pan! É uma dificuldade passar de autor tão impulsivo. URBANISMO E ROCEIRISMO Acabo de ler o novo livro do Sr. se ele faz sorrir. é original. Há algumas profundas e irônicas. para um escritor laborioso. procurar ele demonstrar pela ficção e com auxílio dos recursos da novela a necessidade.

No começo. a bordo. inclusive Petrópolis. O governo fez isso e agora quer desfazer. e muitos deles são devidos aos governos. Tem uma filha moçoila. como a chamam os paulistas. tanto mais que nota no marido certa inclinação por uma moça da casa. é o mesmo que exigir que um médico. antigamente célebre pela sua feira de muares. Há ainda mais. e o Sr.duras condições da vida nas cidades: . . sobretudo por Botafogo e seus complementos. Como todo bom nortista. no seu magnífico romance. vem para o Rio de Janeiro acabar os estudos começados no Recife. o engenho dos velhos. fez a estatística da necessidade de braços nas fazendas paulistas e repetiu o conceito do seu colega de bancada. antiga namorada dele e que é uma das figuras mais curiosas e mais bem estudadas do livro. Vão para Águas Claras. bem depressa. casado. não estão sujeitos a mandões tirânicos e caprichosos e as autoridades são mais escrupulosas. a cidade é a evolução. com um conterrâneo desenraizado. Na cidade. mas.coisa muito favorável ao desenvolvimento humano. Na roça. Querer que um tecelão. pula de praticante do Ministério da Praia Vermelha para o de chefe de seção do Ministério da Justiça. trata de cavar um emprego e o quer numa Secretaria de Estado. e. para estar bem perto de um Ministro. A carioca foi vencida e o carioca adotivo que é o seu marido Nestor.o que atraiu para as cidades milhares e milhares de trabalhadores rurais. ela se aborrece. por meio de tarifas proibitivas. às vezes. mas os há. resolvem estabelecer definitivamente residência no engenho de Águas Claras. pouco depois de casado. a um grande surto industrial. dos palácios e das avenidas . A cidade é uma necessidade. uma pequena Manchester. eles tem mais garantia. O campo. Não é de admirar. como dizia acima. O campo é a estagnação. de modo a fazer da longínqua Sorocaba. de uma hora para outra. um moço filho de fazendeiros pernambucanos . de comum acordo. Um verdadeiro milagre administrativo que só os nortistas conseguem realizar. que o leva à sua casa. no que toca aos rotos. ele consegue a sinecura. Mostra-nos o Sr. a carioca. ei-lo namorado. Só energias raras podem de uma hora para outra mudar de profissão e de hábitos. Sete. não há nada disso. do pé para mão. o filho do senhor de engenho pernambucano. fascinado pela cidade. Veiga Miranda. Ela fica. lá está a tal história de Petrópolis. Nestor. quer voltar. Como todo bom nortista. o urbanismo foi criado pelo próprio governo da República. Uma porção de fatores têm concorrido para o êxodo das populações dos campos para as cidades. Até no irônico . Essa fascinação pelo Rio. Não há nada mais pueril do que semelhante conselho. porquanto a característica dos nossos governos é fazer e desfazer.de Leo Vaz.que. de sentimentos . vem para o Rio acabar os estudos. se faça motorneiro. necessidade maior ainda é. a roça é um depósito de preconceitos e superstições sociais. o espetáculo daquela vida encanta e seduz Hortênsia. Nestor e a mulher. se faça capinador de cafezais. dá-se o oposto: há sempre uma ebulição de idéias. pouco depois de formado. Mais ainda: nas cidades. Nestor e Hortênsia. Na cidade. Maria da Betânia. é coisa verificada em todos os moços mais ou menos bacharéis deste Brasil imenso. Aproximando-se as bodas de ouro dos pais. também. Chega a gravidez a carioca.O Professor Jeremias . dando nascimento. De resto. há hospitais. há bem pouco. Não leio um romance provinciano em que não note isto. maus é verdade. Hortênsia. Tinha travado conhecimento. embarcam para Pernambuco. realizam. começa a afeiçoar-se àquela vida e ambos. e uma grande cidade. Veio depois a megalomania dos melhoramentos apressados. aos pobres-diabos.Vão para a lavoura! O mirabolante aritmético Cincinato assim fala. especialmente os do Norte.lá se chamam senhores de engenho .

dos seus atavios. no narrar os mínimos detalhes das coisas domésticas. Não sofro da horrível mania da certeza. que o Sr. o famoso Jeca-Tatu. que. Monteiro Lobato. fico a pensar que.B. que as coisas continuem no pé em que estão. e ele mesmo o sancionou.. em Pernambuco. aquele que dá o nome ao livro. no Rio de Janeiro. como diz a canção patriótica.Brasil . A OBRA DO CRIADOR DE JECA-TATU O criador de Jeca-Tatu é um caso muito curioso nas nossas letras. em contraposição. como já se disse sobre alguém. a vê de pronto diante dos olhos. admito que. O Sr. e isto num lapso de tempo bem curto.coisa rara entre nós.tudo isto leva a prever para nossa organização política. e muita simpatia pelos lares felizes e ricos. A descrição da festa das bodas de ouro dos pais de Nestor é tão cheia de naturalidade. tudo é feliz. Monteiro Lobato conseguiu atrair para ela a atenção de todas as atividades intelectuais deste vasto país. uma grande fidelidade na reprodução do que observa. Publicando há dois ou três anos um volume de contos . A. de graça. nenhuma abertura para o Mistério da Vida e o Infinito do Universo. salte logo da cabeça para o papel. de ontem e não sei se de amanhã. um editor avisado. como prospera. o criador de Jeca-Tatu. Tendo uma forte capacidade de trabalho propriamente literário. a falta de escrúpulos de toda a ordem dos nossos dirigentes de norte a sul do país . ele é ainda por cima um administrador excelente. de que falava Renan. . dos seus arrebiques. Ela se publica na cidade de São Paulo e é a Revista do Brasil. porém. enquanto o personagem propriamente assanhou a crítica dos quatro pontos cardeais destas terras de Santa Cruz. Com uma clarividência difícil de se encontrar em brasileiro. cuja execução é soberba. Ele é amoroso de moças. no bom sentido. está no quinto de sua útil existência . um espírito comercial. as concussões. A criação principal de um dos seus contos. Por isso. dos seus muxoxos e dengues. Dizia eu. mesmo a linda Maria da Betânia.por muito tempo não subsistirá. qualquer que a leia. o Sr. de singeleza. já bem conhecida aqui. rápido. pelo menos de nome. mas há.C. ele excele na descrição das cenas familiares. mas. em bem pouco tempo. que o uso. sem favor algum. de modo que o lendo eu.Eis aí o entrecho do livro. um desastre irremediável. a inabilidade. o Sr. cujo pensamento. a expressão político-administrativa . dirigindo com sucesso uma revista sem igual na nossa terra. 10-9-1921. e fazê-la prosperar.Urupês. toda a festa por inteiro. Lobato. sabia como ninguém aliar a uma atividade literária pouco comum. em todas as bocas. não está no terceiro. os crimes. fez Jeca-Tatu andar. Não está no seu primeiro ano. um ativo diretor de uma revista sem igual no Brasil de hoje. sejam quais forem as transformações políticas e sociais que o mundo venha a passar. tudo é como em Águas Claras. com reservas. Não há nele nenhum arroubo. logrou ver o seu nome conhecido no Brasil todo e as edições de sua obra se esgotarem umas sobre as outras. Supondo por absurdo. Sete não é um escritor nervoso.

Monteiro Lobato vê e sente é o seu Taubaté. É ela que ele descreve com tanta ternura e emoção contida nos seus livros de ficção. que esses senhores se sangraram em saúde. A secura dos desertos da Ásia Central fez descer para as margens do mar Negro e outras paragens hordas e hordas. de fato. o Acre. que se intitula. por isso ou por aquilo. existissem. que fez pintá-los como pintou. e é a sua saudade. o Sr. amores-perfeitos. talvez mais curioso que o famoso Urupês. o seu Guaratinguetá. Mané Chique-Chique. o Timóteo. e mais filhos d'Aymon das gestas tupaicas. se não me falha a memória. Leônidas de Loiola. do Ceará. no êxodo.Quiseram ver nela o símbolo do nosso roceiro. Monteiro Lobato não quis simbolizar em Jeca-Tatu. nem coisa alguma. criação do cearense exul. crisântemos."o caboclo" como se diz por eufemismo. Deve-se lê-lo para bem perceber o pensamento geral que domina a produção do autor da Bucólica. nem de outra parte do Brasil. O humilde negro despede-se e deixa-se morrer na porteira da fazenda. estão dispostos a fazer deles. Surgiram contraditores de toda a parte e os mais notáveis.que denuncia bem esse seu feitio de sentir. Li o Sr.há um conto . e. com ela. esta vai decaindo. de fato. ele relembra seu esplendor passado. nem o sertanejo. crisandálias. Timóteo não dá por isto e continua a plantar as suas flores humildes e modestas: esporinhas. etc. para aproveitar os bons anos de chuvas. flores-de-noiva. os antigos senhores e patrões. daqueles que conheço e tenho notícia. Ildefonso Albano. mas na constância em lutar com o flagelo climatérico que assola aquele Estado e os circunvizinhos. quando chegam as secas. pois querem nele flores raras e caras: camélias. do nosso sertanejo . Julgo que haveria tenacidade. No seu último livro . Citam. Ele viu a sua decadência. Creio. Ao que me parece.Negrinha . porém. Ele não tem pretensões simbolistas. Isto está a ver-se nas suas Cidades Mortas. amaldiçoando aqueles bárbaros: "deixa estar"! O que o Sr. que era jardineiro de uma fazenda daquelas regiões. . energia no trabalho. brincou lá com aqueles Jecas. o vale da parte de São Paulo do Paraíba do Sul. do Paraná. ao menos tipos de uma energia excepcional. Mas tal não se dá. Mandam destruir o jardim. Trata-se de um preto. alguma coisa mais. Tais pretensões são cabíveis nos transcendentes autores que ninguém lê. e o Sr. Lobato viveu ou nasceu na região a que chamam "norte paulista". livro seu. no seu charco desafiou. Não me convence. Não acredito absolutamente nas miríficas virtudes dos sertanejos do norte. encontram as populações desarmadas. em compensação. e. senão esforçados "preux". o Sr. se. mas o holandês. Rolandos de Uruburetama. porquanto nele há. então. sempre-vivas. é a sua mágoa por não vê-los prósperos."O jardineiro Timóteo" . que tanto escandalizou o patriotismo indígena. Loiola. as fúrias do mar do Norte. essa tenacidade se faria constante. palmas-de-santa-rita etc. para os anos maus. de modo a captar as águas meteóricas e outras. especialmente os cearenses. Daí a celeuma. é a sua simpatia. Albano. nem Reinaldos bororós. De resto. como nunca tiveram os grandes mestres da literatura. mas não li a contradita do Sr. ele não tem a pretensão de encaixar no seu Jeca-Tatu. mas há. Essa energia. foram o Sr. muito de índio. e os novos donos implicam com as "esporinhas”e "perpétuas" do Timóteo. de uma capacidade de trabalho extraordinária e não sei o que mais. Os azares da fortuna dos seus proprietários determinam a venda da propriedade agrícola a pessoas da cidade. não na emigração. Todos os nortistas. Certamente. pois só epistolarmente conheço o autor do Urupês. construindo obras ditadas pela própria iniciativa daquelas gentes. quando menino. aos poucos. com a sua tenacidade e diques.

em tabuleiros ou cestos. entendimento tem com as coisas mudas. O livro. A natureza não o interessa e nenhum. que ele cita a cada passo. que começava assim: Comendo içá. acompanhado de gargalhadas dos colegas. seja agreste ou risonha: mas é cheia de sadia verdade a sua literatura. original. por vezes desordenada. que se acha e que se vai além dela. O café ainda não tinha pulado do vale do Paraíba para o do Tietê. animada pela poesia da sua terra. não é rancor. O seu autor . se a Arte. sendo guloseima apreciada como o nosso mindobi torrado. Içá é o que chamamos formiga tanajura. Monteiro Lobato nenhuma das exterioridades habituais dos escritores: pompa de forma.com que intitula o seu último livro. apesar da limitação do campo. vendo tudo. recitar. por aquelas priscas eras em que o general era estudante. Lomendo cambuquira. transbordamentos de vocabulário e de imagens. além de ser dedicado a várias sociedades sábias. em uma espécie de preâmbulo. por ocasião de uma festa de 7 de Setembro. a existência toda num plano só no plano da nossa integral miséria humana. e lá..que não sei verdadeiramente quem seja . todos os acontecimentos. também paulista. apesar da ironia e da troça. torrada. pelas ruas. É um clássico de alma. é amor. ao que parece. 1 1-5-1921. há um grande sonho íntimo de obter a harmonia entre todos os homens e destes com a Terra. mas sempre brilhante obra.. sob o sugestivo título de Mme. é piedade. quando ele era ainda estudante de direito. dá um grande realce à modéstia e pacatez daqueles tempos de São Paulo.é um filósofo risonho. nossa mãe comum. relembra isso quando acaba a leitura dessa estranha. é tristeza de não ver o Jeca em condições melhores. Que parecem não ser da raça humana. o general Couto de Magalhães conta como causou um grande rôlo. Pommery. abrange um arco de horizonte muito mais amplo do que o do comum dos nossos escritores. editadas pela Revista do Brasil. O que se evola de suas palavras não é ódio. Gazeta de Noticias. sem piedade e sem ódio. Vive a afamada gente paulistana E aquelas a que chamam caipira. MADAME POMMERY Na sua Viagem ao Araguaia. é a idéia que se procura.Toda a sua obra é simples e boa. ou pouco. se vendia. todos os fatos.Negrinha . um soneto satírico. para nos impregnarmos da sua alma compassiva. discípulo de Montaigne. A sua visualidade artística e literária. Quem leu a Viagem desse curioso tipo de brasileiro que foi o general Couto de Magalhães. Monteiro Lobato é um grande e nobre artista. A ostentação de hoje que este livro nos revela. E. como quer Hegel. inclusive a deliciosa . Não há no Sr. ainda apregoado à noitinha nos bairros pobres deste Rio de Janeiro. em pleno teatro de gala. Basta ler este conto . o fato de um certo colega seu. descobrir a sua entranhada afeição pelos que sofrem e pensam neste mundo. não é desprezo. que é a crônica ou romance ou as duas coisas juntas. sem paixão pró ou contra. seja ela pobre ou farta.

donde emitiu a sua irradiação e baniu daí a cerveja. Pommery em Santos. Fase C . Pommery. autor de um apreciado tratado . Kant e Pedro Lessa e o resto da ferragem de erudição que não se dispensa em conjunturas semelhantes. hereditário. Hilário Tácito. não muito igual à de Pantagruel e muito menos à dos pândegos de Paris. O autor mesmo diz: "E ficou. donde o autor tira essa comparação.lOO$OOO. Tratou de escrever o relato da vida de Mme. foi suscitado pelo atual movimento nacionalista. começou a funcionar. as vãs histórias. se possível fosse. Após muitas aventuras. Podia. de fato.o que não é possível. tal propósito e desembarcou logo Mme. até o dia em que repontou na filha. que. de Ivã do mesmo nome. nem de emendas. com que chegou a este paradoxo de regulamentar os desregramentos de alto bordo por um sistema tão completo e tão adequado ao nosso caso. no seio da nossa trevosa Humanidade. A usina. ao Rio de Janeiro. pelo menos em estado latente.30$OOO. a 30$OOO a garrafa. o autor. chegou cheia da "centelha divina". Abandonou. chamou-a "Au Paradis Retrouvé". segundo regras de uma particular mecânica aplicada. noviça espanhola.. porém. regras e etiquetas. além de cocotte.que. . coronel. mas eu mostrarei em termos gerais como esse "a natural luminary shining by the gift of Heaven" a operou. na mãe. descendente do famoso padre Sanchez. A operação executa-se em três fases: Fase A . gordunchuta. na Polônia ou adjacências. havia muita coisa com que não se sonhava. como um pendor natural para tudo disciplinar no seu colégio à imitação das ordens monacais. Dessa "radiance" celestial de Mme. se fosse posto em vulgar. creio que jesuíta.. a rua Paissandu.Cocotte engrena coronel. Resistência inicial . à força de regimentos.De Matrimônio . é a de Odin. viu que entre elas. Iniciava a sua missão heróica nas terras do Tietê. é aquela em que se trata do Herói-Divindade. movimento giratório cerebral."Eugência". afirma ele. Hilário Tácito. a descendente polaca do teólogo conjugal vem dar com o costado em Santos. Pommery montou uma usina central produtora e transformadora. nem de retoques. champanha engrena coronel. com auxílio de um "coronel" camarada. mas que nela haviam ficado como um estigma. citar Spencer. farto das vás histórias da marquesa de Santos e da Pompadour. domador de feras de profissão. Resistência ao rolamento . que nunca mais necessitou de aperfeiçoamentos. justificar o seu asserto. Mme. champanha. isto é. Pommery. cuja teoria geral convém pedir emprestada ao autor. E a "Lecture". avelhantadas. movimento retardado. tinham dado em droga. Ei-la num exemplo: "Trata-se de aliviar dito indivíduo (um coronel) dos seus 1 35$OOO por um processo automático mecânico. claro e forte. Resultante: atração. embora moça ainda. com grande cópia de considerações filosóficas sobre o valor da história. porém. "née" Ida Pomerikowsky. por demais. diz-se simplesmente fiel cronista dos feitos e proezas de Mme. sem nenhuma força a mais. Resultante: contração. e de Consuelo Sanchez. nem de propósito. Ela aí chegou como um herói de Carlyle. substituindo-a pela champanha. Consuelo fugiu com o lambe-feras de um convento de Córdova e foram dar nascimento à futura heroína da crônica. praxes. Pommery vem logo uma grande transformação no opulento "mundo" do grande Estado cafeeiro. Segui-la seria repetir o autor ." Era uma espécie de Abbaye de Theléme. onde ela empregava toda a foôrça e capacidade de disciplina e rigor monacais da sua ascendência. teria grande sucesso nos colégios de adolescentes púberes. se o quisesse desenvolver. Fase B Cocotte engrena champanha. para fazer arder os gravetos da sociedade paulista. A usina era uma espécie de convento ou colégio. adequada a São Paulo e.Coronel engrena cocotte. "abbaye" ou coisa que o valha.

nem escreveu. . segundo a fama. um titulo de merecimento e remate indispensável de toda a educação aprimorada. Os gêneros que herdamos e que criamos estão a toda a hora a se entrelaçar. .Vamos tomar uma "lambada". o Carnaval. A Finança. por ocasião da assinatura do Tratado de Versalhes. movimento ascensional acelerado. porém. sem ser tão bela. além de favores que prestou a outros para escrever futuramente as suas magníficas obras. a se enxertar. Mme. "A sociedade de Ninon de Lenclos gozou da mesma opinião favorável do seu século. Pommery. como diz o autor: "Ora. Bebe-se muita champanha em casa de Mme. a Política recebiam o seu influxo e a ele obedeciam. a Moda. pois nem filosofou. aproveita 130 em trabalho útil. Mas devemos reconhecer que Mme. embora ainda pudesse dizer muito e ele o merece.Então? .Resistência final 100$000.. de falar de um modo geral de tão curioso livro. em afinadora de maneira dos rapazes ricos. a Valorização." Diz Hilário Tácito que esse mecanismo é o mais perfeito que se possa imaginar. E. Nós não temos mais tempo nem o péssimo critério de fixar rígidos gêneros literários.É que não se devem deixar os amigos velhos pelos novos. Seria estulto querer encarar semelhante obra pelo modelo clássico de romance. .. porque. alcançou contudo um grau de superioridade superior ao de Ninon. pois.Como? Não há mais dinheiro? . no conceito geral da gente fina. Não quero mais tratar dele. em toda a comunhão brasileira. para variar e atrair. Beberam champanha. É rico e sem modelo. O livro do Sr. de uma certa falta de coordenação. que vai da simples malícia ao mais profundo "humour" em que assenta afinal o fundo de sua inspiração geral. 2-6-1920. de 135 mil-réis de combustível.perguntou um dos outros que queria "morder". Num dado momento. por estes efeitos indiretos o prestígio de Mme. o Bar Municipal. .Há. Pommery transcendeu desmesuradamente. à moda dos retóricos clássicos com as produções do seu tempo e anteriores. à moda de Flaubert ou mesmo de Balzac. dando até a certo e determinado um principado em Zanzibar. e só se perdem cinco na gorjeta. Resultante: convulsão. não lhe sendo bastante isto.. pois.Nada. como na casa de Mme. Vale sobretudo pela suculenta ironia de que está recheado. Certo doudivanas "pronto". Pommery. sobre os daqui. Pommery rapidamente começou a influir nos destinos da sociedade paulista e. o anfitrião levantou-se e convidou: . É tempo. Encontrou uns amigos e convidou-os a beber. nada! .fez o "pagante". naturalmente sobre os paulistas.. indiretamente. Pommery granjeou igual estima por meios muitíssimo mais práticos." Assim. Gazeta de Notícias. jogou na "centena" e ganhou. ironia muito complexa. . e eu me lembro de um caso de boêmia que um camarada me contou. num belo dia. Hilário Tácito obedece a esse espírito e é esse o seu encanto máximo: tem de tudo. Cursar o "Paradis Retrouvé" ficou sendo. empolga e faz pensar. Pommery influiu sobre as várias e todas as partes da sociedade. estou informado de gente limpa que ela influiu dadivosamente. e. Bebe-se muita champanha em casa de Mme. apesar da intemperança de citações. Realizando esta obra portentosa. Pommery. transformaram-na em educadora. Mme. exceto sobre os literatos. e.

por menos que conheça a concepção do Paraíso. etc. de uns tempos a esta parte. Ela não lhe adivinha os obscuros alicerces robustos. D. se não uma certa difusão de idéias. que é muito plástica. Exaltou a brutalidade. o seu equilíbrio na vida universal: aventuras. de Daudet. explicando a moral do "Super-Homem". mas seria hipocrisia não lhe falar assim. Albertina Berta ."não" . sonhos e angústias. Dos meus vícios.. o vago e o impreciso de suas concepções. desviar as reações. mesmo em tom de ironia. Ei-las: "Aos primeiros. essa franqueza. que se emaranham e se tecem inextrincavelmente. senão de condição real. de Maupassant. creio não ter o da hipocrisia. a inumanidade e. de clareza e coerência de idéias. caracteriza o pensamento de D. que se o pudesse fazer. o próprio excesso. Os termos não se prestam a que se estabeleça qualquer comparação. Acuso-o. entretanto. e a do Nirvana. as aias. Albertina. para mostrar o absurdo de tal coisa. a duplicidade. a ele e ao Esporte. compara o "Super-Homem" deste ao Nirvana búdico e ao Paraíso cristão. que são muitos. sob sua pena. O que. e só a flecha da igreja do burgo se ergue um pouco acima dele. como causadores do flagelo que vem sendo a guerra de 1914. linda e inteligente. construiu um castelo de encantos. o cinismo.. do "amor integral". Ele deu à burguesia rapace que nos governa uma filosofia que é a expressão de sua ação. tenho por ele ojeriza pessoal. Aparece-nos como uma novela de grande dama. Neste seu último livro. os pajens e os guardas. bastam estas palavras da autora. É possível admitir sujeito de tal moral digno do Paraíso ou do Nirvana? Não há quem hesite em dizer . a rudeza". D. Do alto do seu castelo. Nenhum outro homem. uma falta de nitidez. manejar as paixões em proveito próprio (tomem nota). desconhecendo do edifício da vida muitos dos seus vários andares de misérias. sobre o amor platônico. a esses seres privilegiados. O drama da rainha dos cabos fazia apologia do amor livre. Albertina é. repouso. lembrei-me do drama que a milhardária americana Clarence Mackay leu a Jules Huret. no seu excelente estudo sobre Nietzsche. para quem a existência só tem o merecimento e mesmo é o seu principal fim o de terminar o amor de um casal. O último livro da Sra. têm aparecido entre nós. ela (a tal moral dos Super-Homens) tudo permite para a sua existência. incredulidades. que. A autora há de me desculpar essa rudeza. muito ilustrada mesmo. a amoralidade. o constante borbotar de idéias. rasas com o solo. para seu uso e gozo. na leitura. quando ele andou em alta reportagem pelos Estados Unidos. Muito inteligente. artistas do pensamento e da ação. lá embaixo. talvez. a tal Hélade. Albertina Berta é um dos mais perturbadores temperamentos literários que. movendo-se nele soberanamente. a autora do Exaltação com auxílio de leituras de poetas e filósofos. pelo seu nascimento e educação.é talvez mais do que o seu romance de estréia demonstrativo da originalidade do seu temperamento e do seu curioso talento. o romance Exaltação de D. apesar de todo o seu apêlo à Grécia. Albertina Berta.. embora extremamente abstrata. a Sra. Quando li o seu romance. Mme. mas suficientemente principal. D. a impiedade. que lá não são ou não eram monopólio do Estado. falou tão mal da caridade e da . sem ver os criados. tanto mais curioso quando se trata de uma mulher brasileira. ela percebe as casas dos peões e homens d'armas. admitindo. que sabem governar-se. nos surge cheio de um delicioso anacronismo.A Sra.Estudos . Não gosto de Nietzsche. lhe dão mais parentesco com os luxuriantes poetas hindus do que com os helenos cediços. Clarence era casada com o rei dos telégrafos americanos. a eloqüência torrencial e tumultuosa do seu escrever. Eu me permitiria dizer-lhe se não temesse desagradar-lhe. às naturezas plenas (os "Super-Homens"). Depois de Balzac.

no seu último livro: Fatos e Comentários. Albertina. Ele inspirou essa guerra monstruosa de 1914 e o esporte a executou. não é mais um grande sentimento de resgate e um anelo à perfeição. tinha uma grande admiração por essa espécie de gente. quando ele pregava a caridade e o amor com a sua palavra de fogo e o seu coração cheio de fé nos destinos da humanidade. apesar de não se poder tirar dos seus livros um pensamento nítido. para César Bórgia. diz em alguma parte do seu livro que é cristã. cujo único propósito consistia em derrubar o Império Romano. só podendo subsistir pela associação. Condenando-os. um desprezo pelo refreamento moral. mas. entretanto. Admiro-me muito que pessoa tão inteligente. D. Não se compreende que a humanidade. no seu Anti. os seus ideais não são os dos nossos tempos. Jules Gaultier. a engendrar guerras. Albertina. têm procurado extrair das elocubrações de Nitzsche um sistema de filosofia. possa prescindir de sentimentos que reforçam essa associação e a embelezam. porém. de dureza de coração. mas continuo. até pelo amor que. para ele. o que. o engenhoso descobridor do Bovarismo. dos banqueiros e industriais que não trepidam em reduzir à miséria milhares de pessoas. em 1902. o grande filósofo dizia muito bem que todo o espetáculo violento há de sugerir imagens violentas que determinarão sentimentos violentos.Cristo. cuja delicadeza da oferta de ambos os seus livros muito me tem desvanecido. 35 do seu soberbo livro. de bom grado. mais confusos do que ele. sobretudo o futebol. para ganhar alguns milhões mais. Nietzsche. que já estava em adiantado estado de putrefação. especialmente o Sr. não têm como estes o senso da beleza e da arte. pela bondade. São eles sem educação e sem gosto algum. à pág. quando Nietzsche. previa esse papel retrógrado que o atletismo havia de representar no mundo. catecismo da burguesia dirigente. do nosso tempo de brutalidade. devido à convivência em Bale com Burckhardt. da minha parte. essa alma extraordinária da epístola a Filemon. O Sr. como sempre. possa fazer semelhante profissão de fé. O seu estudo sobre a "Evolução do Romance" é magistral. em geral. Nietzsche é bem o filósofo do nosso tempo de burguesia rapinante. pela piedade. mas não posso. no artigo "Regresso à Barbaria". mas uma espécie de vinho de bacantes em festas dionisíacas. Eu lha dou. do "make-money" seja como for. com a sua habitual falta de senso histórico. que eu queria exprimi-las com mais serenidade. D'Annunzio é um retrógrado. combinando-se com uma massa habituada à luta ou a espetáculos de lutas. peço desculpas à ilustre autora. Nietzsche. com a crueza dos "condottieri". à força. De novo.piedade. Spencer. incestuoso. D. como já foi notado. cuja cultura eu desejaria ter. claro e harmônico. pede piedade para ele. só podia dar em resultado essa guerra brutal. dessecando a simpatia humana. estúpida. anarquista. que parece não ter percebido essa influência nefasta do filósofo de que é admiradora. Os seus comentadores. cruel. Creio que a autora do Estudos não desconhece a influência dele sobre a novela francesa dos anos próximos. que continua ainda e não resolveu coisa alguma. O seu espírito nietzschista (vá lá!) levou a autora do Exaltação a exaltar o coronel Rapagneta ou Rapagneto. Não vejo por quê. se depreende deles é um apelo à violência. o ignóbil César Bórgia. tornam-se. Entretanto. talvez. a sua admiração se encaminhava para o pior. certamente fratricida e. de 1914. mas este último é tão cheio de idéias e opiniões a ponto de sugerir outras idéias e outras opiniões. chama S. Até em Maupassant é bem sensível a influência de Tourgueneff. Paulo. enfraquecendo a solidariedade entre os homens. ele . sem escrúpulos. embora lhe faltem referências ao romance russo.

Estudos é um livro de fragmentos e livros desses não podem ser analisados. por entre a dentuça. parte por parte. César Bórgia. É Ema que adivinha o sonhador. isto é. são muito opostas às da ilustrada autora do Exaltação. quando se tem opiniões sinceras. escreve e lê isto. José Saturnino de Brito já é digna de exame.. expeliram sobre mim o insulto soez. A cooperação é um Estado. que foi publicada há dois anos. e a autora melhor do que eu sabe. Entre pequenos e maiores. cujo desespero. mas sabe também que é daquelas armaduras divinas ou infernais dos romanos de cavalaria que os gênios bons e maus davam aos seus protegidos mas que estes não sabiam forjá-las e nem qualquer outro mortal. Não há nele nenhuma simpatia pelos homens. fez o mesmo diante de Carlos VIII. em que ele pudesse dar expansão aos seus infrenes pendores para a volúpia e a crueldade. A Escravidão dos pequenos lavradores e Socialismo pátrio. me julgando rico. aqui ou ali. ela já conta cerca de Oito trabalhos. Gazeta de Notícias. que é poeta. O que eu quis fazer foi caracterizar o espírito da autora e se. felizmente. responde. A musicalidade da língua italiana ilude muito. ele encheu as prisões e. Há de me perdoar qualquer observação menos bem dita.. se as tenho. sentado a uma mesa. depois de escrito: "A hipocrisia dos que me acolheram entre lisonjas. por vários motivos. por isso acodem-lhe maus pensamentos. sem que o artigo que se escreva sobre ele tome proporções que um jornal não comporta. não tardará em transformar-se em desânimo. pois penso. um trecho de bosque à D. e pergunta-lhe o que faz. é porque teme o inimigo mais poderoso que o vigia. foices de salafrários. pregando.sempre sonhou com um ducadozinho italiano da Idade Média. rei de França. tirado a algum museu italiano. artista e revolucionário. da volúpia e da crueldade. Escreve. A esse sonhador solitário. além das peças: Amor. em tão perturbado momento." Stélio.. Vem de não saber forrar-se de egoísmo. amaldiçoando e .. A pirataria em paroxismo. a sua arte não é uma interrogação diante do angustioso mistério da nossa existência. é uma apologia do sangue. Vê-se uma parte do hotel. é porque é um livro de idéias e as minhas. se tem paixão. Saturnino vem daí. em prol dos outros. se não faz execuções. a fim de que ele mesmo descreva o cenário: "Stélio se acha no terraço das Paineiras. Esta última. do destino e sentido da nossa vida. Duque de Fiume. O melhor é darmos a palavra ao autor. vence! e Entre neblinas. o pavilhão envidraçado à E. Ser homem.. é bem doloroso! O tormento do Sr. abrindo-se no meu caminho como cloacas humanas. Pensa nos homens. 26-10-1920. com um machado medieval. e isso ela o é já pela beleza que há de por força ter (o que é sempre indispensável em deuses e deusas seja de que religião for). surge a seus olhos uma verdadeira visão de divindade florestal. e ei-lo a ceder à fatalidade do seu temperamento. o terrível. que. sabe bem qual é a armadura que nos pode proteger. e muito poeticamente se passa nas Paineiras. nesta cavalgata de sombras do abismo social. que são: Socialismo progressivo. cujo saber admiro muito e não cesso de preconizar. correu parelhas com a difamação promovida pelos perversos e o silêncio pretensioso dos falsos críticos. naquele desconhecido. é deveras interessante. anunciado no trecho acima. imprecando.. houve alguma aspereza. já pelo mistério do aparecimento. O fundo de cena é todo neblina. A OBRA DE UM IDEÓLOGO A obra do Sr. Não me alargarei mais.

e este é grande. venha a ser uma festa perene. No teu olhar. e é belo! . Ele. de imprecar. vibra e arde o ideal rubro. não pode nunca esquecer a sua missão de sociólogo e apóstolo social. porém. que.maldizendo. O seu conto "Ana". não se deleita unicamente com o choque de umas nas outras. as afirmações de sua obra . e só me basta a honra de o ser sinceramente. não ama as almas pelas almas. "foi simplesmente o terror dos maus que dominam a Beócia". tiveram também a sua influência entre nós. Os apóstolos da regeneração. Ama a metáfora e a alegoria. Nesta coletânea de contos. como já disse alguém. o herói do Sr. a sua paixão não procura diques. não cessa de sonhar. de modo que digam ao leitor mais do que dizem. em nome de um sonho que não toma corpo.vêm diluídas nas suas novelas a todo o propósito. Continua a ser o apóstolo disfarçado no literato. Tanto nas suas obras de ficção como nas de propaganda. o autor do Socialismo Progressivo afirma completamente as tendências principais e superiores da sua atividade intelectual. O real. ao ancião. e prega com força e eloqüência o seu credo. pelo pai desta. e. O mundo dele e das suas criaturas não é este. por meio da educação racional das massas mourejantes e da propaganda geral contra os preconceitos e os abusos do bronco capitalismo. O Sr. É só lê-los para o verificar. mas também é denúncia da sua qualidade superior de escritor: a sua sinceridade. para que essa esperança seja um fato. O ardor do seu gênio não lhe permite que as suas produções tenham a serenidade de expor fatos. O seu sonho grandioso de cooperativismo destinado a melhorar as condições de nossa vida.A Cooperativa é um estado . o aborrece. e convencer os poderosos de que devem trabalhar. delata poderosamente essa feição primordial do artista que. Aqui as feras que devoram as vítimas do trabalho fecundo são também inúmeras e de todos os matizes. Saturnino de Brito. ele quer contribuir um pouco para encher de esperança os que sofrem e não podem. o Sr. Bendito seja tão nobre e desinteressado escritor! Ele vale pelo que vale o seu pensamento. embora outros também o denunciem. de exortar.. longe de ser a geena que é hoje. tão enamorado da natureza como é. Querendo baixar até nós. dá-se a conhecer pela seguinte forma arrebatada: "Mestre. aliado à política de rapina. Será defeito. é um muito outro que se entrevê entre névoas. A sua obra é de profeta da Bíblia e ninguém como ele obedece ao clamor que a injustiça do nosso estado social provoca da indignação dos bons corações. segundo a filha. pertenço ao número dos teus mais veneradores discípulos.. e o mundo. ao contrário." Todos os trabalhos do Sr. no teu gesto. O autor se apaixona. que entrevê rapidamente e logo se esvai entre neblinas. enquanto dotado esplendidamente de outros dotes. no seu ideal. é que ele vive e faz viver os seus personagens. Inunda tudo. declama e abandona-se à eloqüência. Surpreendido em colóquio com a druideza. o ideal do sangue que só palpita pela Liberdade culta nesse gelo da Sibéria social cm que farejam os lôbos monetários e vaidosos. que é a sua última obra e a que intitulou Da Volúpia ao Ideal. Saturnino de Brito têm sido dominados por esse pensamento que ele põe na boca do seu Stélio. de ordená-los artisticamente.. como que se compraz em extravasar por todos os lados. Saturnino de Brito. aqui. Saturnino fica prosaico e mostra-se logo o escritor que não pode falar em tom familiar e em coisas familiares.. e não tem o dom da ironia e da sátira.

que o meu dever de escritor e justiceiro é animar o confrade. e capaz de todas as dedicações. O drama encerrava um poderoso exemplo de moral. 5-2-1921.é estudado com toda a minúcia e exatidão.o que o Paiva fez muito bem quer estrangular o fidalgo.O Triunfo. antes. recebendo uma grande bofetada. Ranulfo Prata teve a bondade e a gentileza de me oferecer um exemplar de seu livro de estréia . A Angelina do Sr. de cabeleira. o pintor e um conde. Ranulfo Prata no detalhar uma pequena cidade do interior da Bahia e. não podendo sufocar o seu desejo. O pintor casualmente entra no momento. nunca encontrei uma moça que a tivesse. penetrou audaciosamente no humilde lar do artista e quis forçá-la. alucinado. . que não o faça. beleza. tais são as promessas que ele encerra. de meninota da roça. O Triunfo está cheio de cenas de costumes cativantes. O TRIUNFO O Sr. a sua pintura de Anápolis sai muito viva e original. pois não quero que um só de talento me passe despercebido. "O papel de pintor coube ao Paiva. Algumas vezes que tenho visitado tais vilarejos. Tais são as qualidades do livro. num teatrinho do interior. É um romance. Ranulfo Prata venha a ser .A. Os protagonistas eram a mulher de um pintor. A rivalidade das bandas de música é uma delas e eu não posso deixar de transcrever aqui a descrição da representação de um drama. passa logo a "coquette" do Rio. Já possui a sobriedade de dizer. o último. é nitidamente examinado e explicado. gravata preta e olhar romântico.o triunfador . Uma noite. "Quando o pano caiu a platéia aplaudia delirantemente. tudo isso são nugas sobre as quais não quero insistir.C. A mulher fiel pede-lhe. fácil. O personagem principal . Teimam todos os romancistas que tratam de tais cenas. Prata é linda. vertendo lágrimas de emoção. humilhado. apesar desse gênero de estudo ser por demais comum. e raivoso.. Contudo. a naturalidade do diálogo e não limalha a frase estafadamenente. pedindo que ele continue. A minha experiência a esse respeito é infelizmente nula e não posso apresentar objeção de preço. é bela e. Eu o li com o interesse e o cuidado de todos os livros de moços que me caem nas mãos. cheia de amantes. ali mesmo saca do revólver e suicida-se. apesar do ouro oferecido. Compraz-se o Sr.B." Com tantas e superiores qualidades. Ei-la: "Entrava o terceiro ato. que o encarnou muito bem. de joelhos. O seu caráter amoldável. em atribuir às moças dessas cidadezinhas. Ele queria à viva força possuir a fresca mulher do pintor. que ele se esforce mais. de carmim nos lábios. uma novela em que o autor revela grandes qualidades para o gênero. O conde. que resistia tenazmente. a fim de tirar da nossa vida brasileira obras de arte dignas da imortalidade dos séculos. O conde era um rapaz alto. aprendiz de alfaiate. é de esperar que o Sr. mas duvido que seja assim.

28-9-1918. na sua distribuição de águas ou na correção da declividade de seus rios. chamamos discurso. quando a chuva é escassa. Ildefonso Albano. Nós não podemos estar limitados a. Tive com a leitura do seu livro o máximo prazer e espero que se repita em um segundo livro que. oferecer terra e trabalho aos "retirantes". exigindo só uma correção. de Bossuet. organizarmos bandos precatórios. o Ceará vê o seu subsolo pouco infiltrado e os seus rios correrem somente três ou quatro meses no ano. do seu excelente discurso sobre O Secular problema do nordeste. relativamente mínima. o café. mas que toca em todos os pontos do tema presente. despovoando uma grande região do Brasil. já nos deviam também ter ensinado que tais trabalhos. de Descartes. uma dissertação. Se ainda lhe falta. O SECULAR PROBLEMA DO NORDESTE O Sr. e é então que se desenrola toda aquela lancinante tragédia do Ceará e proximidades. isto é. que de há muito deviam ter preocupado todos nós brasileiros. mais ou menos mundanos. de norte a sul. um quadro muito vasto desse atroz problema das secas chamadas do Ceará. Se nós temos tido não sei quantas centenas de mil contos para valorizar. É aquilo que os antigos chamavam por esse nome. para povoar ou encher de necessitados outras. Ildefonso Albano é. em todos os pontos do nosso território. conjuntamente com a fraca espessura do seu solo permeável.um grande romancista. deputado Ildefonso Albano mandou-nos a 2. como explica o Sr. em breve. com os nossos costumes de Assembléias e Câmaras Legislativas. mostram que nós podíamos seguir no Ceará e proximidades esse mesmo rumo de audácia eficaz que tem dado tão bons resultados àqueles. É desejo de quem escreve estas ligeiras notas e o faz ardente e sinceramente. pois. de quando em quando. Dr. ao citá-las aqui. dos franceses. A obra do Sr. quase anualmente.a edição. Não é bem o que nós. Todas as que têm aparecido já deviam ter nos ensinado que o caminho era outro e os trabalhos que lá se têm feito e não têm resultado palpável. a terra fica ressequida e os rios tão secos. A. creio. para que venha a sê-lo de fato? Devido à inclinação do seu solo. a quem aconselho abandonar toda a preocupação de elegâncias para só atender o que é propriamente de sua arte: a alma humana e os costumes. talvez.C. na Argélia. De forma que. como já mandara a primeira. deviam ter seguido outra orientação mais ampla e audaciosa. Os trabalhos dos ingleses no Egito. menos do que um "tratado". dos americanos no Colorado. quando elas aparecem. Com o tempo. e creio não haver a mínima exibição de sabença. de leste a este. ele nos dará. para elucidar o que afirmo. o Discours sur 1'histoire universelie. estou certo. por que não temos outro tanto para tornar fecunda uma grande região do país que é das mais férteis. merecidamente. e o Discours sur la méthode.. o jovem escritor corrigirá os defeitos e nós teremos um grande romancista digno das nossas letras e dos destinos da nossa língua. . festivais de caridade. Ambas essas obras são clássicas e conhecidas de todos.B. sobram-lhe outras qualidades de escritor que suprem aquela falta. por serem mofinos e mesquinhos. E eu me atrevo a lembrar. uma profunda e sagaz visão da vida.

cujos nomes encimam a lista fúnebre das vítimas da seca." Eu poderia tirar do livro do Dr. que o Sr." Mais outro: O vigário de Ipueiras. sem que o seja em prazo de tempo regular. voltou ao Jaguaribe. "Rezam as crônicas antigas que em 1603. mas com largueza qualquer e audácia. em data de 26 de agosto de 1915. Em data de 16 de fevereiro de 1916 o padre Raimundo Bezerra. que este pequeno escrito tem unicamente por escopo chamar para ela toda a atenção dos brasileiros. os habitantes daquelas flageladas regiões são tomados de surpresa. foi até a serra de Buapava e teve grandes recontros com os tabajaras de Mel Redondo. apesar das nossas pretensões de termos decifrado a natureza. demais acha-se alojada aqui uma grande porção de emigrantes de outras freguesias. mas os que aí vão já bastam para que todos procurem na sua obra uma imagem bem viva do que ela é. morador na Praiva (?) do Estado do Brasil. vigário de Jaguaribe-mirim. na impossibilidade de também reproduzir as gravuras que um amigo do Dr. para produzir o melhor algodão do mundo. Ipueiras sempre foi um município pobre. de transcrever algumas cartas e outros documentos particulares. homem nobre. com Diogo Campos Moreno. como literais. como já no começo do século XVII foram também os primeiros conquistadores do Ceará. Registro. tanto de engenheiros. não timidamente. Pêro Coelho de Sousa. não só aí. Desde essa primeira notícia. escrevia: "Os famintos aqui se acham em extrema miséria. como é dos nossos costumes. para comover o coração dos mais duros. É preciso que façamos cessar. É preciso que eles se façam. onde fundou uma povoação com o nome de Nova Lisboa.Como em geral nos fenômenos meteorológicos não se pode determinar o seu período de sucessão. como de outra profissão. mas em todas as partes que eles forem precisos. . parte dos quais pereceram de fome. Como isto aqui é uma simples notícia de vulgarização de um trabalho que precisa ser divulgado e não uma crítica que não tenho competência nem estudos especiais para fazer. hoje. Albano queria fossem reproduzidas. O povo não pode mais resistir e nesses dias morrerão muitos de fome. Teimoso que é de continuar a mostrar nos seus constantes renascimentos que é capaz das maiores possibilidades. marchou até o Jaguaribe. 80 brancos e 800 índios. Ildefonso Albano ilustra com os mais dolorosos documentos tanto iconográficos. Sendo assim. todos nós brasileiros. lista longa e interminável. que esse vale do Jaguaribe. tem sido assolado pelas secas e mal convalesce de uma. encontrando-se pessoas caídas de fome. Tomo a citação do Sr. "Daí para cá se têm sucedido com cruel periodicidade os tétricos fenômenos. de Lima Ferreira. depois de lhe arrebatar os inocentes filhinhos. por meio da ciência. que ainda está por encerrar. Ildefonso Albano. não me furto ao dever. e deu-lhe Deus grandes vitórias. padre J. agradecendo a remessa de 300$. onde no Siará ajuntou a si todos aqueles índios moradores. De volta para Pernambuco. cai-lhe outra em cima. Ildefonso Albano mais outros depoimentos simples e tocantes do que é uma seca. acusa a recepçao de 400$ e diz: "Como é grande a necessidade do povo. ainda uma vez. ele continua a pedir sábios trabalhos hidráulicos. resolvi socorrê-las e empregar o resto do dinheiro em sementes. que expulsaram do Ceará o primeiro civilizado. de modo que nunca se pode prever quando é o ano de chuvas escassas e o ano de chuvas abundantes. se veio deixando tudo miseramente a pé com sua mulher e filhos pequenos. Muitos estão quase completamente nus. Por falta de provimento e socorro. esse horrível espetáculo.

Se se pode compreender . empregado na colônia federal Inconfidentes. a quem desde menino. porém. dizia eu. Todas chegam aos jornais por oferecimento dos editores e autores. do Sr. são menos cínicos. escrito de colaboração com o Sr. à Willy.B. à espera de uma nova revolução francesa com os seus desdobramentos inevitáveis. Dos três. estando eu nos arredores de Ouro Fino. Para isso toda a propaganda é pouca. Nada de paliativos. do saudoso José Veríssimo. só conhecia bem o Sr. sem oásis. de obras de autores gabadas. Oliveira Lima. enfim.C. de épocas em épocas. Júlia Lopes . e tudo isto sem pedantismo de frase ou exibições de uma sabedoria de empréstimo. de patifes de toda a sorte e origem. um romance do nosso Teo Filho . de "plaquetes" de versos ou de discursos laudatórios. Quem vive neles pode logo imaginar em que consistem elas. inclusive aquele famoso tratado de agricultura da Sra. É o Anita e Plomark . como secretário. mal lhe conhecendo a feição literária. tenho em mãos. O Sr. a . passando tempos em casa de um amigo.Mme. O meu bom amigo era o Emílio Alvim. tive ocasião de ler pela primeira vez um livro de Teo Filho. em geral.Teo me surpreendeu. obras de Sr. Agora. tanto no que toca às almas. formando uma corja que pode ser "sui-generis". uma pintura da vida pernambucana com todos os aspectos de fidelidade. Constam de publicações oficiais.aventureiros.é como um laço moral e esse laço não nos pode permitir que deixemos à míngua. e. em geral do Ministério da Agricultura. Bifteck-Paff. Alvim tinha além de exemplares das edições dos Srs. vivo. mas que. milhares de patrícios a morrer miseravelmente. Eu fiz aqui o que pude. ANITA E PLOMARK AVENTUREIROS No ano passado. tinha organizado uma econômica biblioteca característica dos secretários de jornal.. Li-os lá.tinha. Alberto Torres. Robert de Bedarieux. por uma crônica de Patrocínio. perfumado de graça. ninguém as lê ou procura. mas que me é visceralmente antipática. Achei o seu romance raro. como no que se refere ao ambiente em que elas se moviam. Alberto Torres me pareceu um fabricante de constituições. me habituei a ler com interesse e carinho. um novo livro seu. e acabo de ler. de gente que perdeu a alma ou nunca teve uma. mas. que fica distante oito quilômetros daquela pequena cidade do sul de Minas. uma espécie de Sieyès. em que me surgiu como um aprendiz de Casanova . A. Não posso compreender nem perdoar semelhantes vagabundos de caso pensado..Correio da Roça . Teo. que deve ser um autor extraordináriamente novo. Confesso que a leitura deste não me deixou tão forte impressão quanto a do outro.Todos nós nos devemos interessar por esse problema e de interessa todos nós. também.Pátria . de quem eu tinha lido um artigo de jornal ou outro. Perdôo os criminosos declarados. desde a Revista Brasileira.. 21-9-1918. O par de aventureiros agita-se em um meio de "rastas" parvos. nada havia lido em livro. muito natural. Oliveira Lima e. que havia sido durante anos secretário de jornais de péssima fortuna. grandes obras para que elas cessem ou sejam atenuadas antes que aquilo lá fique um Saara. dos dois outros. Rodolfo de Miranda e Toledo.

das falsificações e. mas há muitos estados intermediários entre a senhora de família e a meretriz. quando é fatal e nua. nós poderíamos muito bem estabelecer o funcionamento normal da mentalidade feminina na nossa sociedade. para vencer certas dificuldades. uma tal e qual generosidade espontânea. sem nada de sério na cabeça. é de uma estupidez assombrosa e sem nenhum traço superior de coração ou inteligência. Creio que foi Maxime du Camp quem demonstrou isto em um estudo sobre a prostituição em Paris. não é mesmo o que os venezianos da Renascença chamavam. É da camada delas. por Anitas e outras. Geralmente. sem necessidade de tal. só lhes desejo a guilhotina. valorizações. sem uma mania. dir-me-á Teo. mas as mulheres? Que procurem tais homens. a não ser por defeito orgânico. Há. defesas. isto é. as mulheres públicas da nossa sociedade burguesa. a cortesã eivada de arte. Tenho que aceitá-lo tal qual é. senão idiota. nem dos seus ancestrais. E depois deste primeiro amante. e olha. e e "sorte grande" o amásio rico e gastador constante. Para os machos como tais. Não será tanto assim. Há mesmo quem diga que. A prostituição na mulher é a expressão de sua maior desgraça. Ao contrário. com tanto respeito. o "gato de nove caudas" ou a roda das penitenciárias. no novo romance de Teo Filho. sobretudo. Anita. nas modestas classes. Os homens têm tais recursos. mas o luxo e a riqueza. sem se intimidarem diante do mistério da vida e sem uma ingenuidade sequer. Não gosto dos disfarces. uma hetaira "onesta". o primeiro amante não é o velho rico da lenda. como em geral. do aproveitamento dessa sagrada marca do destino. são eles muito fáceis. dirão. sem uma paixão. Mas. nada perde com isto. são acidentes na carreira das hetairas. para ludibriar os outros. quando verdadeiros e francos. A prostituta só é digna da piedade e respeito dos homens de coração. e as raparigas do prazer se recrutam. e a desgraça só merece compaixão quando é total. quando ela o é em toda a força do seu deplorável estado. e talvez o próprio autor não tenha percebido. O assassínio que ela pratica tem tanto de útil quanto de estupidamente executado. Não é assim a heroína do romance de Teo Filho. vi que aí seria discutir o livro no meu ponto de vista . É como ele mostra o mecanismo espiritual . homens medíocres sabem sacar de oportunidades. para as fêmeas como essa Anita. ela mata e rouba. desses estéreis de todos os modos. ensopada de poesia. seguem-se outros equivalentes. estudam de preferência o órgão doente para lhe descobrir a função em estado normal. "convênios. quando ela sabe com resignação e sofrimento arcar declaradamente com a sua tristíssima condição. Anita faz isto. em bloco. com certo desinteresse natural e. talvez. Não é pois admirável que uma inteligência lúcida espere retirar de tão degradante estado as fortunas que. pois. a mulher só se prostitui por estupidez. Não. das intrujices. meu caro.o que é coisa bastante impertinente. mais ou menos. dos seus recursos. mas de uma inata maldade aliada a uma perfeita incompreensão das altas coisas da natureza e da humanidade. Os fisiologistas às vezes. estados que as mais atiladas aproveitam muitas vezes para sair da prostituição declarada.vida desses inúteis sem desculpa alguma. para elas. auxílios às usinas de açúcar" e outros sutis expedientes honestos da gente progressista de São Paulo.. por exemplo. A "Nouvelle" seria menos gentil. que Teo parece querer exaltar. um aspecto que o torna notável e muito me interessou. São espíritos perversos demais e o cansaço da vida não lhes vem do trabalho próprio. É verdade que a riqueza e o luxo tentam. em geral..

perdida. É. cheio de sentenças. onde uma mulher. não pode existir sem o apoio de um homem qualquer. No caso. Nesse tempo. mas. Nestor é uma floresta do Paraná. quando fazia preparatórios no Ginásio Nacional.a novela nos prende pela estranheza do assunto. o livro é notável como análise de um dos mais curiosos fenômenos da psicologia mórbida dos nossos tempos. interrogação. não. capaz de dedicações e sacrifícios. evidenciando o sáfaro de todos eles . As árvores de sua floresta são quase sempre de uma mesma espécie. Ele não é efusivo e revolto. surge-me deliciosamente como uma grande alma. ELOGIO DO AMIGO Não sei como possa dizer bem da atividade literária de Nestor Vítor. É ele o seu único apoio moral. Não tem entrelaçamentos dos nossos cipós nem as surpresas de variedades de essências que a nossa mata tropical ou subtropical oferece.. e sempre pela vivacidade dos matizes que o autor emprega nas breves e firmes descrições de que está cheio. para torná-lo digno de atenção. só são mantidas graças à ignorância do seu verdadeiro estado.. Não afirmo que seja peculiar à época atual.C. creio eu. A nossa floresta tropical ou subtropical é triste. sente o vazio ao redor dela e tem medo desse vácuo moral.. Não terá mais afeições. está certa que o resfriamento virá. abandonada no vício. quase sempre unicamente determinado por laços psicológicos. é Plomarck. mas as araucárias são de uma tristeza impassível e sem .pelo qual se dá esse estranho fenômeno do caftinismo. essa abdicação da vontade da mulher.é um livro singular e curioso por todos os aspectos que se o encare. que não atinamos para que roubam. Há nelas alguma coisa daquela secura que lhe notei em menino. já meio-criminosa. seja como for. dos seus antecedentes. Tudo nela é mistério. irmão. Comecei a ler-lhe as obras. por mais que ela possua força de amor em uma delas. espiritual e sentimental. amante ou mesmo cáften. na de um homem. Estranha Cavalaria. Ela o ama? A bem dizer. um livro: e basta isto. de damas "chics" e gatunos de alto coturno. pai. retratando a estupidez de recentes ricos. são araucárias. e sempre araucárias. são como as do Paraná.. toda inteira. Sob este aspecto. esse ascendente. Teotônio analisa muito bem como uma mesquinha alma de mulher. pululamento de vida. de todos os países e côres. mas grandiosa e impressionadora. Eu o conheci menino. desde que o afeiçoado saiba quem ela é. dogmático. a análise é sagaz no livro de Teotônio. aventureiros . esse domínio de corpo e alma do rufião sobre a meretriz. seja ele marido. Não há árvore mais monótona e mais fácil de explorar do que ela. 16-2-1918. Ah! Essa solidão. de fato.. pelo simples motivo de que o Velho Testamento está recheado de exemplos de alguma coisa análoga e são conhecidos de nós todos. e. por ela.B. filho. Anita e Plomarck. Correm os tempos e aquele homem que me parecia seco. mas precisa dele no mundo. e eu não gostava dele. desenrolando-se quase todo nas paisagens delambidas e ajeitadas. com dados atuais. e a aceita como ela é. em que não entra a mínima violência. e as que vai obtendo aqui e ali. ao que parece. "ad usum Delphini". Só lhe resta o cáften. A. a única alma que se interessa. da Côrte D'Azur. Nestor era vice-diretor do Internato. sem indagação. pois há quem diga que ele é tão geral entre judeus. Descrevendo esse meio de "parvenus" e "toquées". na vida.

Isolada na sua vastidão. forma o grande Paraná. pelo vale do Paraná. nas suas obras. pontes levadiças. no romance do Sr. que é a fazenda. graças ao atrativo do contraste. recebendo o Paranaíba. a seu talante. a querer atingir um outro que lhe fica bem distante. A "casa grande" não o possui como o tinha o castelo antigo. UM ROMANCE SOCIOLÓGICO A fazenda "Boa Esperança" está situada no vale do rio Grande. Veiga Miranda. mas sempre tive amigos. Nunca amei.eloqüência. Li este seu livro. como se neste país todos nós não fôssemos mais ou menos pretos e todos nós não fizéssemos versos. eu aprecio Nestor. Mau Olhado. a fazenda era como um feudo em que o seu dono governava. a não ser a amizade de Sílvio Romero por Tobias Barreto. cheio de embevecimento e entusiasmo. já não contando com ciganos e índios mansos. boiadeiros. Carreiros. com as suas escassas ramagens. Segundo Guyau e pelas suas intenções. quando ele revela as modalidades naturais do seu temperamento. Neste Elogio do Amigo mais do que em nenhuma obra. porque ele o soube ser de um pobre preto que teve audácia de fazer versos. próxima à serra da Canastra. das de Goiás e Mato-Grosso. pelos afluentes e confluentes destes dois grandes rios. distribuía justiça. a grande propriedade agrícola sofre o influxo e a influência de gentes do sul do Brasil. Falta-lhe também o aspecto militar do feudo antigo. pelo de São Francisco. Nestor é bem um amigo dessa forma. ditava leis.C. para ter uma completa semelhança com o senhorio medieval. outro exemplo de tão forte amizade literária que esta de Nestor por Cruz e Sousa. exceto o sal. ou raramente. fossos. em que Nestor tão bem retrata o seu íntimo de amigo. nos transes mais dolorosos da minha vida. na vertente oposta. pinta-o e descreve-o o autor com minúcia e carinho. classificarei de sociológica a sua interessante novela. nunca tive amor. Colocada nesse vale e nas divisas de Minas e S. ao alcance do primeiro chamado. É mais completa que muitas outras que não fornecem o pano. agregados e escravos todo o necessário à vida. tropeiros e vagabundos. li-o. que a todos descreve e analisa soberbamente. ameias. Paulo. só não cunhava moeda para vir a ser um verdadeiro príncipe soberano. a sua força de amar o camarada. Essa espécie de "bravi" está sempre à mão. eu vejo Nestor meditativo. mas que a do alferes . o São Francisco. repito.. 5-8-1922. Não há na literatura brasileira. como. Não há barbacãs. por ela mesmo. É por isso que gostei muito do livro que o meu amigo Nestor Vítor me ofereceu e que me deu extraordinária satisfação intelectual. vizinhos. em que nasce tanto aquele rio. e foi excomungado por ser preto e fazer versos. dos quatro pontos cardeais do sertão do Brasil passam pelas proximidades e. solitário. Entretanto. mediante boa paga. Não se fixa. homens d'armas. A "Boa Esperança" é um perfeito tipo de fazenda: e ela fornece aos proprietários. chegam ao auge. do norte. daquele rio Grande que. e mesmo a nossa capangada só aparece no latifúndio quando as rixas entre senhores de fazenda. como um pinho do Paraná.B. assim como. Esse tipo curioso da nossa antiga propriedade agrícola. A.

No seu livro em que narra a viagem que fez. a descrição de sua vida total. Nada temos. sagaz e ilustrado. E. É o escravo. ali pelas bandas de Maricá. mas. o leitor menos comum procura alguma coisa que lhe falta. não faltou nenhuma pincelada para o seu bom acabamento. atmosfera essa em que morre de amor por este a interessante Maria Isolina. se bem que ligeiramente. as duas orelhas ainda sangrentas. algumas décadas antes da ereção daquela que é o cenário do Mau Olhado. fazem-lhe falta e como deixam o estudo desse elemento da fixação da nossa população rural." Ao grande naturalista inglês. a vida da senzala. protestando tragicamente contra a sua infecundidade imposta e criada pelas regrinhas da sociedade. Veiga Miranda. explicaria melhor aquela atmosfera de crendice e abusão que desde o começo cerca os personagens do drama. Darwin que visitou uma. propriedade do Sr. dando os nós fortes. só se compra o sal. nos arredores do Rio de Janeiro. que o Sr. o Sr. Manuel Figueiredo.. cujas vistas sociais. não escapou o fenômeno social da nossa escravatura e o Sr. à minha vontade. dá. os antebraços das mulheres agitavam-se. Ele as acaba e as arredonda suavemente. sociológicas. ao jeito artístico da alma do escravo. conta o autor da Origem das Espécies: "Uma madrugada fui passear uma hora antes de sair o sol para admirar. tão profundamente nela se está separado e independente do resto do mundo.. ergue o feiticeiro Lelé às culminâncias de guia de multidão e aniquila o padre Olívio. que é inegavelmente um escritor moderno. tinha. Não me lembro de autor moderno nosso que seja tão cuidadoso nesse ponto como o autor do Mau Olhado. dos seus grandes rebanhos de ovinos. não devia ter esquecido esse ponto que o tema do seu romance como que torna primordial e requeria ser estudado à luz das modernas correntes de pensamento superior. diz Darwin. o objeto do livro. creio eu. Veiga Miranda tratou. Não só os personagens principais e secundários. compete-nos falar do que o foi. de mangas arregaçadas. alguma coisa deliciosa na sua vida patriarcal. alude a eles. O jovem e talentoso autor paulista só se ocupa dele na cena do batuque e. Mais adiante. no mais. pondo de parte a idéia de escravatura. nesta passagem e em algumas outras. Veiga Miranda. o solene silêncio da paisagem. dentro do seio. A impressão que se tem é magnífica. como as abelhas rainhas. ele. etc. as das indústrias agrícolas próprias à fazenda. não me parece valiosa. se traem no propósito e no desenvolvimento de sua novela. Veiga Miranda. nome ou alcunhas interessantes. envolvendo as rapaduras.Malaquias. A justificativa que não havia nela. não deixou de vê-los e senti-los. mas as cenas domésticas. Lá. deixa-o como simples. É a fazenda. em torno do mundo. matando-o pouco depois. de dizer quanto ao que não foi feito no seu livro. a destemida virgem selvagem que se entregara por um ímpeto carnal ao mais valente tropeiro do sertão. por intermédio da lã. não podia existir sem o escravo que ela supõe. o banzo. na fazenda. à . inacabado. À grande tela em que o autor trabalhou com ciência e vigor. à sua frente (do padre Olívio. A fazenda do "Sossêgo". porém. O padre ficou entre a madrasta (Maria Isolina) e a Placidina. cardada e tecida. A boa compreensão. Nessa parte a obra é de uma rara virtuosidade de execução que às vezes peca pela exuberância do detalhe. castigos. bem depressa ouvi elevar-se nos ares o hino que cantam em coro os negros no momento de começar o trabalho. "Beagle". Veiga Miranda não se limita a esboçá-las rapidamente. acabada a leitura da excelente obra do Sr. filho de fazendeiro) à sua direita e à esquerda. mas. seria melhor dizer. A antiga propriedade agrícola de um tipo geral. Vejam só este trecho que trata do empalhamento de rapaduras: "Ao longo da mesa. pelo Sr. enlaçando as embiras.. e trazendo para a casa. a bordo da corveta. O eito. e por sê-lo. filha do Laurindo Bravo.

depois do primeiro contato matrimonial. Uma quadrinha que há no romance. brincalhona. ao descobrir que o padre estava fornecendo embiras a Placidina. transforma a todos em fanáticos obedientes ao seu mando. Um tanto crente e um tanto impostor. as crenças superiores da Igreja Católica com as primitivas do animismo fetichista dos negros e índios." Maria Isolina. A figura central e mais original do romance é o Lelé. Olívio. por uns alheamentos esquisitos. Alia a isso. com intermitências. Feiticeiro e sacristão. Continuava a caber-lhe a mordomia da casa. mistura e combina. Veiga Miranda põe todo o seu talento de observação e de psicólogo dos indivíduos e das multidões para o estudo e a ação desse personagem. em vários pontos. aproveitando-se de epidemias e desgraças climatéricas. "Olívio adestrou-se em pouco tempo no mister que lhe designaram. do seminário de Mariana. Escolhia para a madrasta as palhas mais macias. com o seu rosto comprido. um todo de traços meio masculinos. apossa-se de Isolina uma raiva súbita que a leva a expulsar. parecendo mais largos sob a luz forte do lampião belga. sem motivo nem causa. travessas e peneiras cheias de pipocas. E guardar a vida inteira Esse amor como um segredo. uma medicina de pajé. E daí a pouco mandava colocar sobre a mesa.. etc. com a sua terapêutica de ervas silvestres. "Iaiá. gradua esse sentimento da sinhá dona da "Boa Esperança" e o marca por gestos e palavras muito expressivos. que casara muito moça com o fazendeiro. mais velha do fazendeiro) não tomava parte na tarefa noturna. Leonor e Gabriela. ficavam as duas primas mais velhas. rábula de câmaras eclesiásticas. violento e animal. (a filha. ajudando-a até a enlaçar com elas os molhos já formados. de fato. puxando muito aos do pai. para vingar-se do padre e realizar a sua estulta e bronca ambição de pontificar como um bispo autêntico na capela branca da fazenda "Boa Esperança". a pobre agregada. emprega o seu ascendente sobre o povo e também sobre os senhores de fazenda em cujo espírito o seu prestígio se tinha infiltrado. desempenhada ainda com grande exibição de atividade e meticulosos zelos. com cuidado. o alferes Malaquias. do serão. rezas e exorcismos. se deixava apoderar. . num pouso de caminho. uma a uma. Mandava logo ao começo uma bandeja de café. É médico e sacerdote. depois que os convencera de que salvara Maria Isolina). pelo defeito de uma palha.sua frente. e depois transitado ao longo da mesa pelas empalhadeiras. desembaraçava as embiras. tenta dizer o indefinido mal dessa parada de sentimento: Sina do meu coração. cercado cada vez de maior consideração. ladeando como sempre a figura alegre de Ismênia. os olhos brilhantes. O Sr. Nessa mesma passagem do empacotamento de rapaduras. onde vai freqüentemente para arranjar o desimpedimento de matrimônios entre parentes próximos. por uma demora. com muito relevo e habilidade. e o nariz acarneirado. Fui aprender a amar bem cedo. Maria Isolina repreendia-o de quando em quando. a madrasta. receando que o contato das outras a arrepiasse. a moça alquebrantada se apaixonara secretamente por ele. servido primeiro aos dois compadres e a Lelé (que andava agora nas boas graças de ambos. Ele percorre o livro todo e é como que a alma da obra. etc. sardento. tímido e triste. esse Lelé confunde. se tomara de uma invencível repugnância pelo marido e viera a adoecer duradoura e inexplicavelmente depois do primeiro e único parto mal sucedido. Após a chegada do enteado. que saíra padre. feio e cheio de espinhas. letrado a seu modo. O autor. "Olívio. cozimentos. falando-lhe com vivacidade infantil.

termos.. acaba de imprimir e publicar. os documentos oficiais. A precisão era-lhes então absolutamente indiferente. lugar -tenente de Malaquias.. aproveito a ocasião para o fazer de um modo geral. quando dividiram e subdividiram o Brasil. 241: "Pairavam (os corvos) primeiro no alto. E. que é exaustivo e minucioso. O Amazonas e o Paraná nasceram ontem. porquanto sou carioca. alia as de um psicólogo da nossa curiosa "multidão" roceira e as de um sociólogo que veio a sê-lo passando pela geometria. segundo a terminologia republicana. agora que queremos organizar pequenas pátrias. uma outra é que a topografia do interior brasileiro devia ser mal conhecida. neles prepostos. capitanias.. e iam baixando numa espiral invertida. o Município Neutro. baralhada de denominações e corruptelas de denominações tupaicas. detalhe por detalhe. O seu trabalho.. a propósito de sua curiosa obra. não nos despedimos do Sr. comarcas. Diz o autor. o governo colonial. como argumento decisivo da validade de tal ou qual linha divisória entre as antigas províncias. e de seus filhos. que revela esforço e paciência. diretor do Arquivo Municipal desta cidade. por falar nisto. em 1833. são documentos preciosos para o estudo dos nossos costumes do interior. Lê-lo será melhor para travar conhecimento com um autor nacional que. por meio de delegados seus. entretanto.. O seu fito era outro: era obter províncias. por ordem e conta da respectiva Prefeitura. sem lhe fazer uma crítica de mestre-escola. quanto aqui. avisos e outros atos administrativos. À vontade para falar dessas questões de limites estaduais. Analisar o livro. sobretudo a Borginha. até o ponto do banquete. portarias. uma excelente memória sobre os limites desta leal e heróica "urbs" com o Estado do Rio. onde todos." Será mesmo espiral?. Todos eles querem ir buscar. põem a máxima pureza e moralidade. Até logo! Revista Contemporânea. criar nele nacionalidades. que. sofre do mesmo erro de visão que os demais referentes a tais questões. seria. Veiga Miranda e do seu belo livro. fastidioso e fatigante. pág. Podem objetar que. por muitas razões. a começar pelos de lá. Não se trata de linhas rígidas e imobilizadas no tempo. Uma delas é que eles. há cerca de cem anos. decretos. são todos bem característicos e as concepções familiares e domésticas do Zamundo Bravo. para dar a tais documentos um valor muito relativo e sem valor para nós outros. 26-4-1919. quando a Regência criou. Um trabalho desses. ambos os governos. não militam tais causas. às qualidades exigidas a um simples romancista.. tinham em mira. Não há tal. Era o . quase imperceptíveis. muito menos. a filha mais moça do fazendeiro. milhares. Nós podemos bem imaginar o que era tudo isto. permitissem ser mais bem dirigidas estas terras.Os personagens secundários. se não inteligência e capacidade. tem. Riamo-nos um pouco como bons camaradas que somos. Noronha Santos. o pequeno defeito de esquecer que nem o Império e. o Distrito Federal. traquinas e desenvolta. LIMITES E PROTOCOLO O Sr. e há outras causas que agora me escapam. filhas e noras. para mim e para os leitores. podiam alterá-las quando quisessem. que cada um pronunciava a seu modo.

porquanto.espécie de Thervigne. É uma peça revolucionária. . Na atual o autor intenta o estudo do drama íntimo que se deve passar no peito de um revolucionário. para mim. Isto ele o faz com o pensamento geral da peça.Rogério .B. Considerações ligeiras sobre trabalho de tanta monta. embora me parecesse ela não possuir uma certa fluidez.a outra. Soares é autor de mais quatro outras peças. há dias: . Orris Soares. Chama-se Rogério e é um drama em três atos. Dr. me vejo na contingência de fazê-lo por este modo. tanto assim que um Ministro de Estado. é que semelhantes trabalhos.A Cisma . entretanto. as palavras que lhe disse. A barafunda devia ter sido a mesma. como nas outras partes do Brasil. E é pena. Deviam ser resolvidas por amigável acordo. pela leitura . das quais três consideráveis. . a fim de não parecer inteiramente grosseiro. O que me parece. porque o dramaturgo não tem tido a felicidade de obter a representação das suas produções teatrais. dos seus caminhos.indistinto.Estas questões não têm. Ele. As que não se adquirem são as que ele têm: poder de imaginar. é maravilhosa. Isto nada quer dizer. e não quero com isso de forma alguma diminuir-lhe o trabalho e o mérito. que demandam tantas qualidades de inteligência e caráter. Os limites do atual Distrito Federal. em Malvina.julgando-se rei e coroando-se com uma caixa de papelão. senão uma importância mínima. Noronha Santos. principalmente no cerimonial. na impossibilidade de acusar logo o recebimento das obras.. com os respectivos cortejos de sentimentos derivados.C. em crônica literária. inspirada nos acontecimentos da atual revolução russa o que se denuncia por alusões veladas e claras no decorrer dela. originado pelo choque e luta entre a violência e a brandura. aludindo a obras do canal da Pavuna relatou-as à Assembléia Geral do Império. no Arquivo Municipal. como estando sendo efetuados na Província do Rio de Janeiro e no Município do Iguaçu. das razões de fixação da população aqui e ali. A cena final da loucura do terrível revolucionário . Admirei muito a peça. o Conselheiro Chichorro da Gama. o estudo dos personagens. elas só têm por fim justificar ao meu ilustre amigo. *** Temo muito transformar esta minha colaboração no A. de criar situações e combiná-las. como os de todo o jaez. simbolizava uma em Débora . podiam ser mais bem empregados para um mais perfeito conhecimento da fisionomia do nosso povoamento. onde e por que aconteceu tal coisa com os negros e onde e por que se deu tal com os portugueses. sendo que uma destas. Está neste caso o trabalho do Sr. da protagonista. mas recebo tantas obras e a minha vida é de tal irregularidade. como também nos detalhes. entretanto. quando publicada. o autor. O autor não esconde a sua antipatia pelos revolucionários não só russos. porque é qualidade que se adquire. onde e por que influíram os índios e as suas denominações locais.elas deviam ser merecedoras dessa experiência. mas que me chega da atualmente benfazeja Paraíba. O Sr. não esquecendo as pequenas localidades onde todos estes três elementos se misturaram. generoso e sincero.estou julgando por esta do Rogério . a quem aqui muito conheci. que. Aprendi tudo isto na obra do amigo Noronha Santos (o da Prefeitura). já haviam sido fixados no ano anterior. nas atitudes governamentais e imperiais que eles tomam quando assumem o mando.foi aqui muito elogiada. . e intensa. a ponto de atingir as minhas próprias algibeiras.

A. sem linhas nem contornos e como que tinha a forma de uma pêra.. Versifica com muita facilidade e abundância. Compreendo muito mal as "Cruzadas" e seus barões e ainda menos as guerras de religião de Luteranos. os há de muitas espécies.Não é só com os de hoje que tal se dá. mesmo aquecidas artificialmente. sob esse título. não é preciso ser muito . E assim é sempre quando se trata de grandes movimentos de sentimentos e de idéias que apaixonam as multidões.C. "LEVANTA-TE E CAMINHA" Pois para que saibais que o Filho do Homem tem poder sobre a terra de perdoar os pecados. Afonso de Taunay publicou. impresso na conhecida tipografia . Portanto. ainda se pode repetir: cá e lá más fadas há. depois de passada a borrasca. S. que. que esteve em Assunção. Quanto ao cerimonial e ao protocolo de que se fazem cercar os recém-chegados ao poder. Católicos. disse ele então ao paralítico: Levanta. com o título "Álbum de Elisa Lynch". Um é o do ditador do Paraguai. Cobria-a colossal chapéu de palha. Esses homens podem ser para nós ridículos. na Revista do Brasil. se apresentou na sala de espetáculo. para inaugurar um teatro feito por ele e construído por um literato espanhol. Quando nos transportamos à efervescência das idéias do meio que os criou. mas. mamútico. outros. disforme de gordura. Quem conta isto é um escritor argentino. até ao ponto dessa facilidade traí-lo. deixa o teu leito. no dia da inauguração. Eu não aconselharia a Orris Soares a leitura das Origines de Taine nem o recentíssimo Les Dieux ont soif. Heitor Varela. etc. porém. A leitura do poema do Sr. com quase um metro de alto. São talvez plantas de estufa. O Sr. para sentir como me julgo com razão e para encontrar o motivo por que. mas com os de sempre. mas o motivo é porque os julgamos fora do seu tempo ou longe dele. verdadeiramente carnavalesco na sua feição de quiosque. 2-5-1920. eles não se parecem assim.B. Calvinistas. no tempo. e vai para a tua casa. Sou de todo incompetente em matéria de versificação. mas são plantas imponentes e grandiosas. os de certos magnatas sul-americanos vaidosos que se fazem escoltar por navios de guerra quando dão passeios pelos lagos azuis e plácidos do país. eles nos aparecem medíocres. Mateus. e os mais grotescos.Revista dos Tribunais .hoje uma das mais procuradas pelos nossos intelectuais de todos os matizes. deixando perpetrar pequenos desleixos. Walfrido logo demonstra que este não é o seu primeiro. mas dois casos curiosos conheço fora dos revolucionários.te. A cabeça completamente unida ao rosto prosseguia numa imensa papada. Carlos Antônio Lopez. acaba de publicar um poema. e a citação eu a tiro de artigos que o ilustrado Sr. que lembra todo o poder divino de Jesus e a suave e ingênua poesia dos Evangelhos. Há. Walfrido Souto Maior. Não tenho à mão nenhum exemplar de livro que me informe dos que os reis do Haiti se fizessem cercar.

se a mesma hera. Não posso deixar de ceder à tentação de transcrever o final desse trecho do poema. porque.los de valor. levanta-te e caminha. enchê.lhes disciplina.lhes na farda alguns galões dourados. depois de mostrar os fatores de nossa queda moral. se a mesma planta ou tronco. e vai saudando a primavera. nem um ano Conserva o seu vigor. essência que se asila Na própria Natureza) arrefece e se estiola. como todas do livro. Rebenta. que vão passando a vida adormecidas."Anatomia Ideal" . talvez a mais bela parte do seu poema. Souto Maior a luz e a sombra de seu talento poético. mostra os outros da nossa elevação. Fazendo-os da razão ouvir sempre o tambor! Precisamos trazer de pé as energias Que vivem dentro da alma inertes. farão que se realize esse milagre a célebre ordem de Jesus a um paralítico: "surge et ambula".que. Debelar num sorriso os golpes de agonias Que trazem sempre o luto ao nosso coração! Uma dessas sentinelas perdidas que é preciso despertar. Procurando como um cego . Porém. sem ação. desalogadamente Florir. O autor. é o pensamento que. e muito lentamente Perdendo a vida vai. há décimas de fino gosto do grande poeta baiano. se a planta enxertam. Passo para aqui esta que é típica: Vi Lamarck nesse pego Da camada subterrânea. que. Souto Maior está familiarizado com a técnica do verso. demonstra estudo e uma visão particular do autor. e morre. mas ama sobretudo o alexandrino. numa formosa poesia. alegre. logo na segunda poesia . diz muito bem o autor: Trazemos dentro de nós sentinelas perdidas Que devem gritar sempre e muito forte: alerta! Porém. que o Sr. à moda de Castro Alves. vencendo aqueles. e o heptassílabo. Sem nunca precisar das bênçãos de uma igreja! Percebe-se bem. Deixando a porta da alma inteiramente aberta! Devemos despertar depressa esses soldados. Ei-lo: Deve ser como a planta o pensamento humano: Livre deve nascer. à Junqueiro. e se aniquila. a verdadeira mola (A sua essência enfim. cujos alexandrinos tem uma grande ressonância e maravilhosa amplitude sonora. É que a fonte da vida. Apenas puro sol aquece onde ela esteja. Pospontar. Para que o milagre se opere. ele aconselha como agir. E dar. O tema do poema é todo espiritual. por aí e por outras partes do seu poema. Na primeira parte.forte nela. para sentir no Sr.

mas também um singular poeta. como também mostra todas as feições íntimas do seu estro e do seu temperamento literário. por um espiritualismo fluídico que perpassa por toda a obra. Contudo. n. baseada sobre fortes leituras que se tocam aqui e ali. Discutindo o valor teu. é o estudo. potamográfico. e isto deve ter acontecido a muitos outros. não só dá a capacidade de pensador. O trabalho do Sr. É uma curiosidade corográfica que só pode ser bem conhecida por especialistas ou pelos naturais da região. de uma curiosa região de Alagoas. o espinho em que te feres Criaste-o mesmo tu: Quem a túnica rasga. para tanto não me sobra tempo. vai da lagoa Manguaba até a do Norte. Vejamo-la: Não te maldigas nunca. Era meu desejo alongar-me mais na análise do poema: mas. . "Coração-Alma" com que abre a segunda parte do poema. segundo o prefaciador. que os leitores ficarão admirados de não ter eu tido ânimo de pôr também nesta notícia as outras. O objeto do livro. me surpreendeu encontrar. Daria toda ela aqui. Linneu. Com muitos sábios de escol! Isto não diminui em nada o valor da obra. e nunca te exasperes Contra a dor que te oprime. embora a mais singela. geológico. crivada de canais e lagoas. Se quis mesmo andar nu! Pelo pouco que citei. mas não posso deixar de citar esta estrofe. Argos. que parece ter sido a primeira crença do autor.A Geração espontânea! Estava lá Goethe . Querendo falar ao Sol. sob o aspecto orográfico. poderão avaliar os leitores do raro valor do livro do Sr. Vi. cuja visão do mundo e da vida.o sábio . tão sentida e tão profunda. CANAIS E LAGOAS Com este título. é transfigurada de um materialismo genuíno. pela Livraria Jacinto Ribeiro dos Santos. por assim dizer.0 9-10. é uma poesia lírica de raro valor e apreço. ela me passou completamente desapercebida. que. assoberbado como ando com pequenos trabalhos que me forneçam o necessário para as despesas imediatas da vida. encobre uma originalidade sempre latente do autor. Walfrido Souto Maior. extremo. primeiro volume de urna série de três. apesar de conhecer eu homem há tantos anos. vai aqui o preito da minha admiração por tão raro poeta. Quando estudei corografia do Brasil. outubro e novembro de 1919. etc. pois esse aspecto. Otávio Brandão. no qual. se não temesse parecer que queria assinar trabalho alheio. mineralógico. aí pelos meus doze ou treze anos. não só um bom poeta. Souto Maior. Não pode maldizer o frio que o regela. acaba de ser editado um curioso volume da autoria do Sr. como Laplace..! Herschel sustinha o astrolábio.

como diz o autor estudado. e o Sr. na África do Sul.. entretanto. o que aconselha aos letrados. sem lamentar e lavrar o meu protesto pelos tormentos e perseguições que sofreu. publicando o seu interessante livro. Que diremos nós. aqui e ali. costumes e folclore devia abandonar a visão literária de altas regiões clímicas. mundos. à Caldéia. inundando e adubando o velho país dos Faraós. aldeias. que ao menos marcasse. as quais. com os seus canais. É ideante e diversa. de certas efusões pessoais inoportunas e de uma exagerada avaliação do merecimento e valor dos lugares. a execução do seu trabalho ressente-se. Otávio Brandão perturbada por tão infantil sentimento de um patriotismo. Otávio Brandão. O autor que percorreu esse pedaço de terra brasileira.O Sr. e também a situação dos povoados. 19. um "croquis" topográfico. uma planície de imersão. por parte dos estranhos à região que fossem ler a sua original obra. por assim dizer. Otávio Brandão. ressente-se da falta de um mapa. os seus leitores. e as enchentes arrastam em certas épocas do ano. no capítulo que intitula . há de abandonar os processos de um otimismo livresco sobre a nossa Natureza que lhe inoculou Euclides da Cunha. O Nilo é ele e só ele. diz mesmo que muito lhe custou compreender tanta complicação de lagoas e canais. para unicamente ver o seu Cadiz e o seu humilíssimo Paraíba. os termos geológicos. até agora somente sulcada por canoas. de climatologia e. No Brasil se encontra o diamante de uma forma. Brandão que. irá à Amazônia. à Holanda. denuncia um etnógrafo de valor. numa obscura lagoa. comarquense ou distrital. de outra. Não me quero despedir do Sr. Ele os compara. um analista de usanças. nenhum deles tem um reservatório de adubo. mas as linhas gerais da potamografia. da corografia. A Natureza apresenta frescos aspectos semelhantes e muitos menos iguais. donde ele se origina. para uma mais perfeita compreensão de seu trabalho. se mostrou capaz de profundos estudos de geologia. cidades. de húmus que se reserva anualmente. que tantas qualidades de observador demonstra. irá. transforma-a no papel. e eu não queria ver a alta capacidade do observador. quando vem a força das águas dos lagos. no prefácio. então? Concebida com uma largueza de vistas muito notável na sua idade. irá. Otávio Brandão que. Brandão diz uma parecida no seu livro. que tão entusiasmado se mostra pelas belezas. e o próprio Oiticica. aprofundando canais e construindo muros protetores. o Bahr-el-Gagol. porque tem entre ele mesmo e suas nascentes. como o Egito e o Nilo. pesquisar rochas com o microscópio próprio e fazer. tantas qualidades de escritor apresenta neste livro. etc. não direi todos os acidentes topográficos. Uma tal disposição geográfica. uma planta. perdendo a diretriz científica que sempre devia obedecer. com tão poucos recursos. no art. dragando. em instantes. vilas. enfim. que é de uma minúcia extraordinária e feito com uma exaltação místico-lírica. devia fazê-lo acompanhar da carta respectiva. de mineralogia. Com o avanço da idade o Sr. O seu estudo. O Sr. singularidades e possibilidades daquela parte do seu Estado natal."Uma síntese". em forma de lodo em suspensão nas águas para o verdadeiro Nilo. onde durante meses apodrecem ao sol inclemente toda a sorte de matérias orgânicas. com a balança de Jolly. tal qual são. a força de estudioso do Sr. ao que me consta. que uma rara capacidade de estudo revela. num dos primeiros pontos do mundo! Há evidentemente exagero de bairrista nessa hidráulica papeleira e rápida. aqui e ali. para examinar a terra diretamente com o maçarico e o bico de Bunsen. são compelidas. . por parte do Governo de Alagoas. não se encontra em nenhum rio da terra.

de autores e de obras. como se costuma dizer. se não completa. Com a violência dos antigos processos do governo dos reis absolutos. nas quais. Nossas letras. eles ressuscitaram o crime de lesa-majestade e a razão de Estado. Gonçalves Dias. etc. ao menos com a máxima boa vontade. entretanto. não me considerando de todo velho. tanto mais que a Constituição dá a cada um a mais ampla liberdade de pensar e exprimir as suas idéias. Castro Alves. como este bom Otávio Brandão. Um tal estado de coisas não pode continuar. roubar. por todos os meios adequados. até que ponto não pode pensar. DOIS MENINOS De há muito queria eu dizer publicamente todo o bem que me merecem o esforço e o ardor intelectual desses dois meninos que se assinam Tasso da Silveira e Andrade Murici. se não havia remígios. apesar de não serem ricas em amadores de qualquer ordem. quedas irremediáveis. Poucos deles têm merecido esse estudo. ensaios sobre autores notáveis. em que se acham. qualidades de penetração e discernimento artístico. Eram. felizmente. tanto assim que eu. de meninos. ensaios dos Srs. a par de pequenos defeitos próprios à pouca idade dos signatários. investidos de funções policiais. n. uma biografia do Sr. dezembro de 1919. pois é campo pouco explorado.É incrível o que ele narra. paternalmente. apostilas. lançaram-se à crítica literária. arrastarem para enxovias nauseabundas. os seus cartões de visita. publicam. à boa crítica do estudo profundo. poema de Araripe Júnior. simpático. não denunciavam. difíceis de encontrar em inteligências tão moças. Muito moços. Mostraram essa aptidão aqui e ali. Alfredo Pujol. mas que parece fecundo. encontram na mais leve crítica às teorias governamentais vigentes manifestações de doutrinas perversas. produção suficiente para exigir o estudo isolado. mereceu diversos. não se trata desse ou daquele. por ser assim como herói anônimo da Academia. Daí vem que bacharéis ou não. este. Não contentes com isso. violar e estuprar. e não há lei que permita essa indigna opressão ao pensamento nacional. contudo. os posso tratar assim familiarmente. como toda a gente. estrearam.que vai prosperando com o vagar com que prosperam essas nobres tentativas entre nos. já têm. Argos. mas hoje. tendentes a matar. doces sonhadores. pontos. Xavier Marques e Afrânio Peixoto. sem instrução nenhuma e muito menos cultura. fundaram uma excelente revista . . apresentando-os ao complicado mundo das letras. de quando em quando.. monografias dos seus melhores representantes.América Latina . resvalam pelo caminho perigoso da coação ao pensamento alheio. José de Alencar. sereno. Mendes Leal. Daí por diante.0 11. Ninguém sabe até que ponto pode pensar desta ou daquela maneira. que nem ao menos tem um vício. Na sua imbecilidade nativa e na sua ignorância total de doutores que fizeram os seus estudos em cadernos. com "plaquettes" de versos. Machado de Assis. posso fazê-lo. e esses estudos devem tentar as jovens inteligências operosas. entre os quais avultam o de Alcides Maia e o do Sr. mas de todos. mas não tenho dúvida nenhuma em aceitar como verdade. para o despotismo espiritual. O governante do Brasil. cedendo a uma incoercível vocação íntima. Motivos de toda ordem me têm impedido.

devido à atitude de desassombro e independência que tomou. seus amores. desde há anos. Há de haver. de Nestor Vítor. porquanto a nós. aparecem esses dois meninos. para nos apurarmos com o autor. é ver que há nesses dois meninos. é verificar a capacidade que tem Tasso. por força. julgo eu que nenhuma história da nossa literatura poderá se aproximar da perfeição enquanto não houver de sobra esses estudos parciais dos seus autores. se não tiver à mão esses estudos e outras achegas. Tasso da Silveira e Andrade . que versa sobre o Sr. para bem se aquilatar afinal do valor e do alcance do nosso pensamento total. de Almeida Magalhães. histórica. O que me alvoroça. adivinha as obscuridades e justifica as contradições do seu pensamento. de pronto. por mais esforços que façamos. ao escrever estas linhas. pode-se dizer que é definitivo e completo. externa Tasso da Silveira. isto se me afigura de uma indeclinável necessidade. Desautorizadamente. era já estimada discretamente no seu país e. O de Tasso é um ensaio sobre Romain Rolland. é preciso também participar dela. em dois desenvolvidos estudos literários. "sentir" o imponderável da ambiência nacional. Farias Brito tem merecido diversas. sua correspondência. fez-me julgar de outra forma o poeta da terra dos pinheirais. lacunas. com os elementos que lhe são fornecidos pela obra do mesmo. a sua obra. Ainda não tive a ventura de ler nenhum dos volumes. além do que. Esse atroz acontecimento pô-lo em foco. não vem isso ao caso. sobre o Jean Christophe. compreende-o inteiramente. Era este autor pouco conhecido entre nós antes da guerra de 1914. Não se dá isso com o trabalho de Murici. não me recordo de outros autores nacionais que tenham sido tomados como objeto de trabalhos especiais sobre as suas vidas e suas obras. Além de ser conterrâneo desse notável poeta paranaense. porque acho abolutamente ilógica uma crítica segunda. e excelentes. de focar um autor e estudá-lo em todas as suas faces. Se não estou de todo esquecido. tradicional. seus começos. a fim de julgá-lo perfeitamente. evanescentes . Creio também que Nestor Vítor escreveu uma sobre Cruz e Sousa . de onde em onde. quando. em toda a parte onde se lê francês. o Jean Christophe. não era bem esse. porém.autor que está exigindo justiça dos seus envergonhados admiradores e imitadores. entretanto. Murici foi seu discípulo. um pouco. como já disse. não se concebe possa ser feito por um só autor. Essa ambiência sutil nos faz falta. sob todos os aspectos valiosos e dignos de nota. será muito difícil. estrangeiros. de Jackson de Figueiredo. por isso nada posso dizer da justeza dos conceitos que. em face da cegueira delirante do patriotismo francês.Assim. ilumina-lhe as sombras. não é o meu intuito fazer crítica da crítica. Agora. Tasso da Silveira e Andrade Murici. Não me deterei na análise das duas obras. feito de uma junção de nadinhas. senão impossível. penso que isto já foi dito não sei por quem. seus estudos. um único erudito. os desgostos. Emiliano Perneta. Ultimamente. o impulso que me fez escrever estas ligeiras e despretensiosas linhas. monografias especiais sobre autores de monta e sobre outros assuntos relativos às letras nacionais. confesso. pois surgem. penetra por ele todo e perpassa na sua obra. quanto a mim. tendo de julgá-los numa única obra geral. tudo isso que pode esclarecer o pensamento e a tenção de suas obras. mas. completamente.ambiência. O que me interessa. e. sente-se bem. enfim. atmosfera que cerca o autor estranho no seu meio natural. Entretanto. O seu estudo sobre o autor da Ilusão. nesse seu estudo de autor francês. porque. de Veiga Lima e outros. mas. suas amizades. um longo romance que ele vinha compondo e publicando os volumes lentamente. Pesquisas sobre as suas vidas. e. a atividade da nossa critica literária parece ter compreendido isto. há de por força falhar e ser incompleto. apesar disso. por mais ativo e diligente que seja.

pela largueza de vistas do autor. a fim de que não fiquemos nós outros. gosto de ler as notícias que os jornais dão das "premières". Todos estes. No nosso tempo de literatura militante. sobretudo em se tratando de peças portuguesas. creio. O Sr. que não põem em comunicação as várias partes da sociedade. por serem valiosos pelo fulgor do seu desenvolvimento. 1-6-1920. pelo rigor das cenas. por uma lamentável incompreensão do pensamento deles. pelos resumos por mim lidos nos jornais. sem concepção própria da vida. pela percuciente análise dos personagens. para não falar em alguns outros mais. "verroterie" poética que fascinou toda a gente aqui e. mas há outros em que diz muito. embora. mais plasticidade. mas. Antônio Nobre. um barulho de frase. Encontram-se trabalhos literários que. Júlio Dantas e o Sr. inventaram muitas formas de dizer. mas a regra não é tão absoluta como querem por aí certos doutores artísticos cujas asserções trazem o vício de origem do interesse próprio ou dos seus chegados. Há dias li o "compte-rendu" de uma peça do Sr. Esse drama do Sr. que não interpretam mais sagazmente um personagem histórico. Ramalho Ortigão. em que o palco e o livro são tribunas para as discussões mais amplas de tudo o que interessa o destino da humanidade. A Folha. de Eça de Queirós e mesmo de Camilo Castelo Branco. mantém-se ainda no cartaz. também em Portugal. do mundo e da história do seu país. Júlio Dantas. ativa. VOLTO AO CAMÕES Raramente vou ao teatro. de Alexandre Herculano.obra que não é senão um superficial "lever de rideau". As suas peças históricas não têm um julgamento original de acordo com qualquer . dois inócuos fazedores de frases bimbalhantes. É curioso observar o "engouement" que o nosso público vai tendo por esses autores portugueses de uma mediocridade evidente que a disfarçam com um palavreado luxuriante. mas que não aventam uma idéia. de algum modo originais. cheio de assassinatos e outros matadores da velha escola. às vezes passe noites inteiras em claro a perambular pelas ruas e botequins.Murici. Que nós tivéssemos sofrido a ascendência e a influência de Garrett. Júlio Dantas . provocando um mútuo entendimento entre elas. sem uma emoção mais distinta. todos esses dizia são criadores. entretanto. que não revelam uma alma. de quando em quando. o Sr. estofo para realizar os sérios estudos que os nossos autores notáveis estão exigindo sejam feitos. deram-lhe mais números. com grande sucesso. Antero de Figueiredo. Portugal manda para aqui. Sei bem que é de bom alvitre não julgarmos uma obra literária pelo seu resumo. de Oliveira Martins. como Arnaldo Gama. não passa de um dramalhão de capa e espada. admite-se. sabendo-se-lhes unicamente os nomes e os títulos dos seus livros. em junção da época em que floresciam. esses dois senhores a que aludi mais acima. sem um pensamento superior. Pinheiro Chagas. Júlio Dantas não passa de um Rostanzinho de Lisboa que fez A Ceia dos Cardeais . muitos deles concorreram para reformar a música do período português. para gáudio das professoras públicas aliteratadas.O Reposteiro Verde. não podem ser resumidos e o resumo nada diz deles. Antero de Quental. não vêm fazendo mais do que repetir o que já foi dito com tanta força de beleza pelos velhos mestres em glosar episódios de alcova da história anedótica portuguêsa. mas.

Compará-lo a Rostand é uma grande injustiça. em que pese ao Sr. Júlio Dantas. Dos teus anos colhendo o doce fruito. o Rostanzinho de Lisboa. e. discreteia pelos palcos com o chamariz da sua elegância e das suas lindas feições tratadas cuidadosamente. do gigantesco Dostoiewsky. Nos saudosos campos do Mondego. Carlos Dias eu volto ao Camões. linda Inês. médico do Regimento de Cavalaria 7. políticas. De teus olhos o pranto nunca enxuto. da família. do Gorki! E só falo nestes. e leio: Estavas. vá! Que lá ele se console em rever a grandeza passada dos Lusíadas em um marquês que tem por amante uma fadista. Mas. de rigor psicológico nada têm os seus personagens. mas esta obra é. e que campo vasto está aí para uma grande literatura. Naquele engano da alma. do Estado. o Cruel. ou que outro nome tenha. pois a peça do autor francês que fascina o autor português é o Cyrano de Bergerac. Júlio Dantas. a imortal literatura dos Tourgueneffs. ainda poderia falar em outros de outras nacionalidades como Ibsen. em que. por suas condições naturais. Antero de Figueiredo? Este senhor me parece um marmorista canhestro que fizesse uma "fouille" na Grécia. Se digo isto do Sr. Jehan Bojer e quantos mais! O caminho que devemos seguir. E citam uma porção de patifarias e baixezas de toda a ordem. a humanidade. concebe-se. e às ervinhas. É chegada. no mundo. abro o meu "Lusíadas". se devem debater tantas questões interessantes e profundas. . sociais e econômicas. de lá extraisse um tronco. e sempre que quero ter a emoção poética dos amores de Dona Inês de Castro e D. mas que o Brasil o siga em semelhante choradeira não vejo por que. edição pobre. ainda assim mesmo. São glosas dialogadas de tradições e crônicas suspeitas. posta em sossêgo. O campo de suas escavações é o grande Camões. temos que rever os fundamentos da arte e da ciência. Que Portugal faça isto. uma bela e forte peça no fundo e idéia. muito melhores". nós nos estamos deixando arrastar por esses maçantes carpidores do passado que bem me parecem ser da raça desses velhos decrépitos que levam por aí a choramingar a toda a hora e a todo o tempo: "Isto está perdido! No meu tempo as coisas eram muito outras. além do anúncio das suas imagens sonoras de carrilhão com que atrai as devotas. que direi então desse Sr. mas socialmente que é tudo. igual a Shakespeare. sem um comentário que denuncie o pensador. Temos que rever os fundamentos da pátria. Que a fortuna não deixa durar muito. uma perna. não é um simples bródio de prelados cínicos que comem glutonicamente a fartar e falam de amor. Pedro. não traem um avaliador sagaz. da Mouraria. Aos montes ensinando. pois nada temos com essas alcouvitices históricas que o Sr. O nome que no peito escrito tinhas. a hora de reformarmos a sociedade. como se não tivessem batina. não politicamente que nada adianta. onde vai retirar os episódios mais perfeitos e belos que as oitavas do poema esculpiram para fazer romances edulçorados que a transcendência estética do Sr. tal e qual nos deu a Rússia. Entretanto. George Eliot. dos Tolstois. ágil do passado.ideal estético ou filosófico. lêdo e cego. sem uma vista original do autor. da propriedade. Malheiro Dias talvez ache superiores aos decassílabos de Camões e um assombro literário. um braço de um mármore antigo e dele fizesse um "bibelot". num país como o Brasil. mesmo.

mas faço uma observação simples. às vezes. a nossa produção literária tem se comprazido em cultivar tal gênero de literatura. fecho o livro. o Sr. Aspectos desses de tão chocante contraste só podem ser colhidos por um artista de raça em que preocupações gramaticais e estilísticas não deturpem a naturalidade da linguagem dos personagens nem transformem a paisagem rala daquelas paragens em florestas da Índia. não esquecendo de que ele bem pode servir para estudos de mais vulto.alguns contos em que cenas do nordeste brasileiro são apanhados num flagrante feliz. . Há quem veja nisto um mal. A. habitaram. Mário Hora compreendeu isto e acaba de enfeixar.C. como diz a canção. 27-4-1918. sob o título de Tabaréus e Tabaroas . É de esperar que ele não fique nisso e continue o trabalho a que se dedicou. em que a vida ameiga o clima ingrato e a faca está sempre a sair da bainha para ensangüentar as caatingas. deveria tocar no assunto. contos. se não o seu principal destino. neste "vasto pais". tal foi a força de beleza com que seu gênio animou a história e a lenda de tão desgraçado amor.B. tratando os conhecedores de costumes. tenho grande prazer em ler romances. a paisagem. nos entendamos melhor e melhor nos compreendamos. A língua. opiniões e crendices das gentes do nosso interior. preconceitos das gentes das regiões que. Admitido isto. Qualquer dos contos do Sr. crenças. As almas também são aquelas rudes e agrestes daquelas regiões adustas e calcinadas. Sempre os li com agrado e surpresa. 24-6-1922. A literatura é de alguma forma um meio de nos revelar uns aos outros. novelas. carioca da gema. Careta. tudo enfim. simples e sincera. Não tenho nenhuma autoridade para contestar tal opinião. sentindo bem que li grande poeta e ninguém. depois dele.Lido todo o episódio. é uma das suas funções normais.. eles fazem com que nós brasileiros que vivemos tão afastados. O autor dos Tabaréus e Tabaroas conseguiu isto e realizou com rara felicidade uma obra honesta. Ultimamente. onde a crueldade se mistura com o cavalheirismo e o banditismo com a mais feroz honestidade. crônicas que tratam de costumes dos nossos sertões. Mário Hora é um epítome da vida curiosa daquelas regiões. sem profanar. sem esquecer a própria indumentária são de uma propriedade. pelo nascimento ou por outra circunstância qualquer. determinada pela estranheza de certos hábitos. Em boa ocasião. de uma cor local que atrai e encanta. TABARÉUS E TAIBAROAS Pouco viajado pelo interior do Brasil.

O PROFESSOR JEREMIAS A Revista do Brasil. entretanto. é hoje sem dúvida nenhuma publicação verdadeiramente revista. com o título acima. A publicação de Araújo Jorge é ela mesma. No meu amigo Grieco se manifesta esse pequeno defeito. Daí. quando é mau. A primeira. Não é que nessa obra haja grandes pontos de vista. feita pelo autor do Fetiches e Fantoches. porém. protetor dos escritores desprezíveis ou desprezados a quem me refiro e de quem só tenho recebido homenagens. afirmando porém. 2-9-1922. de Tasso da Silveira e Andrade Murici. como também porque tudo o que cheira a cópia. tem certas reservas diplomáticas e discertas atitudes que não de gosto do leitor comum. Como muitas de suas congêneres estrangeiras. Félix Pacheco. é péssimo. Muitas outras há dignas de nota. certa idéia geral do Mundo e do Homem. acaba de publicar a Livraria Schettino. uma larga visão da Arte e da Vida. Félix Pacheco. Pode-se dizer dele o que alguém disse de Rabelais: quando ele é bom. conforme meu fraco juízo. Não é do Sr. que um grupo de moços de iniciativa e talento vem aqui mantendo. Agripino Grieco é merecedor de toda a atenção pelo livro que. as suas injustiças nos seus julgamentos. procurando os seus editores reproduzir pela gravura quadros nacionais notáveis ou desenhos de antigas usanças e costumes do nosso país. representa um esforço de moços.FETICHES E FANTOCHES O Sr. senador e redator-chefe do Jornal do Comércio. É do Félix. mesmo quando publica as proezas do almirante Caperton. Tem os seus números. Se o Sr. procurava saber qual tinha sido a sua educação primeira. Agripino tivesse meditado mais. tanto mais que já tive a honra de ocupar suas páginas com coisa minha. me aborrece. é ótimo. quase meninos. Há no volume do Sr. e os senões que se lhe podém notar. muito original pelo seu programa. é algo distante. Nunca me despedi dessa lição do mestre das "Causeries du Lundi". grandes qualidades e grandes defeitos.coisa a que se habituara em São Domingos e a Americana nos informou. mas há nele uma desenvoltura de dizer e um poder de expressão que bem denunciam as origens do autor. Não vai nisso nenhuma censura da minha parte. Sainte-Beuve. Grieco. Isto é indispensável para aquilatar um autor. como eu. é fartamente ilustrada. Um exemplo que cito com amargor é a análise do Sr. que aqui esteve a exercer atos de soberania na nossa baía . quando examinava um autor. de São Paulo. O Sr. é a mais equilibrada e pode e deve ser a mais popular. muitos outros da minha têmpera. Ele vê longe e largo. havia de ver que um homem como o Félix é uma necessidade na nossa literatura. . A América Latina. que existe no Brasil. vontades e energias que merecem todo o nosso aplauso. corno a América Latina. entretanto. de quem falo. conquanto seja um homem culto. Careta. advêm disso e de mais nada. e. para o paladar comum. Agripino. falta-lhe. A Revista do Brasil. assuntos para os paladares de todos os leitores. quando faz o exame e crítica de certos vultos da nossa atividade intelectual.

. interpretações. Antoninha. por consentimento mútuo. no seu magnífico livro Urupês. pois lá escrevi e ela me imprimiu um despretensioso calhamaço. impôs fosse com ela. por ela editada. Acontecimento sem-par no Brasil de que a obra é perfeitamente merecedora. a quem fizeram sonhar ou sonhou grandes posições. é certo. Jeremias escreve o livro para seu filho. é como se não tivesse: não me vexa. Restringe-se o círculo dos meus movimentos. Chama-se O Professor Jeremias. Ao passo que a primeira opinião adotada. é um passo fora do círculo: é a lata a chiar atrás de mim. a adquirir com as mágicas avenidas frontinas. talvez mais. Rui Barbosa.. nem seu filho. e ficarás imediatamente livre de uma série de coisas aborrecidas: política. mas que o desenvolvimento ulterior de sua vida foi.o que é uma injustiça. Muitos dos meus leitores. num seu discurso. entre nós é uma publicação sui-generis e digna de todo o apreço. de tudo o que acontecia. assim como nos seus sumários se encontram nomes de autores que nasceram ou residem nos quatro cantos dessa terra brasileira. quem lançou à popularidade a inimitável criação de Monteiro Lobato. sem me referir aos préstimos da publicação de Monteiro Lobato. implicâncias.. que a mulher por ocasião da separação. não me era possível tratar de uma bela obra. Quando bambeio o cordel da minha lata. pois também o era de um lugarejo de São Paulo. Os mais conscientes hão de se lembrar que foi o Sr. porquanto. no Lírico. Embora possa parecer parcialidade de minha parte. a sua meia mulher. A esse quietismo singular chegou o novo Lao-Tsé do professorado paulista. não se conformava com o seu destino de professora pública.Publicada em São Paulo. caixeiros-viajantes. . Com a sua atual futilidade e recente ligeireza que veio. pois?. de acordo com o seu gênio birrento. pois todos nós somos como aquele cão que aparece no fim do livro com uma lata no rabo atada. Editada pela Revista do Brasil.. animada de um meio sorriso. D. ranzinza e mais birrenta ficou quando a irmã veio a casar rica e fixar-se em Petrópolis com a sua sogra. monótona. depois de muita observação e transtornos de vida. o apelido de Jeca-Tatu a este ou àquele.000 exemplares. o Joãozinho. Nela são tratados assuntos que interessam a todo este vasto país. como diz a canção patriótica. justamente. chega-me às mãos uma novela de grande mérito do Sr. enervante. o Rio de Janeiro mal a conhece .A bambear o cordel. mas a massa nem do nome deste terá notícia. a marquesa de Sapopemba. era o contrário do marido. mas fico livre. O professor não sabe onde ela anda. ela não se inspirou pelo espírito e pela colaboração ao Estado em que surge. dizendo: . inclusive o seu casamento. impostos. mas da qual se extrai uma filosofia amarga da vida e da sociedade. sistemas. Leo Vaz que sinceramente me deslumbrou. interpretando os fatos . Rixas.Olha: começa pelas opiniões. levaram os dois esposos a pedir o desquite. Um modesto mestre-escola. com ou sem propósito.. A mulher era birrenta. Não há vida mais doce do que a de quem não tem opiniões. têm visto aplicar. a Revista do Brasil. a aconselhar o professor. É uma obra toda ela escrita com uma candura aparente. aos poucos. em sucessivas edições de 10. levando o seu espírito para a resignação e para a indiferença por tudo o que lhe acontece e arrasta os outros. pelo que acabo de dizer. constante e permanente. . certamente por uma criança traquinas. e é fácil de verificar. se é que os tenho.Aconselha-me. calos. filosofia. dentro de um círculo menor. infelizmente. Não tenha opiniões. entretanto estou certo de que poucos saberão que se trata do personagem de um conto desse mesmo Monteiro Lobato. embora seu livro tenha tido excepcional tiragem.. assim se chamava a esposa de Jeremias. como o faz. Espera que o acaso ponha sob os olhos do Joãozinho as reflexões que lhe ocorreram. Não me cabe dizer mais a respeito dela. Livra-te das opiniões.

13-2-1920. Mas. o busto flexível. ou melhor.. acompanha e respeita tanto os conselhos que Flaubert deu a Guy de Maupassant. Na corrente argentina. exaltar a cultura literária e estética das meninas de Botafogo. na alegria iluminada do sol. Leo Vaz. fui ler o Sr. azul. Bonifácio Costa. Ontem. mas nesse gênero há tanta coisa. Niterói. O Estado. tanta observação fina que é singular gozo ler a obra do Sr.. "fausse maigre autêntica arredondavam-se-lhe as linhas. nos braços torneados. certo de que havia de regalar-me com alguns conceitos melhores do que aqueles que o professor Jeremias emitiu no livro do Sr. eram rematados em unhas polidas. O que não aprenderia eu com o risinho irônico do autor do Professor Jeremias. neste pedacinho de estilo de calouro de academia: "E o dia louro. o Louvre.. mas se o conhecesse e privasse com ele. Paulo Gardênia é um moço cheio de elegâncias. em Grécia. indolentemente. em perfeição de formas." Diga-me uma coisa. que se vendem ali no Garnier. de coisas decentes. tão intensa. entrou pelo quarto. maravilhosamente róseos e macios. cobria-lhe. Vejam só este pedacinho tão cheio de perfeição escultural. não conheço grandes damas e preciso conhecê-las para exprimir certas idéias nas rimas que imagino. Não conheço absolutamente o autor. Paulo Gardênia.. como pérolas. o Vaticano: "O peignoir. numa surpresa de curvas opulentas.. Tenho medo de ir a São Paulo. os quadris largos. como gosto de romances e nunca fui dado a modernismos.triviais da vida de uma vila obscura do interior de São Paulo. o corpo venusino que era esgalgo. revelador de homem que conhece mármores. em pregas moles. não vivia a dizer tais barbaridades para extasiar. poderoso e fecundo. mas nunca leu os livros da Biblioteca do Ensino de Belas-Artes. nas ancas calipígias. Vaz. Gardênia ficou tanto tempo diante do "dia" que acabou vendo-o ao mesmo tempo louro e azul. luziam esmeraldas. voluptuoso e quente. tão nova. deixá-lo-ia falar à vontade. fino e leve. e. louros como mel. Coelho Neto gostou? . seu Bonifácio: como é que essa senhora é esgalga e ao mesmo tempo tem os quadris largos? Como é que essa senhora é "fausse maigre" e tem curvas opulentas e ancas calipígias? O senhor sabe o que se chama Vênus calipígia? O Sr. Parece nada. UM ROMANCISTA O Sr. de receitas de namoros. deparei um capítulo de um seu romance na Gazeta de Notícias. Li e gostei. para julgar com acerto esta nossa vida tormentosa? Não sei dizer. E os seus dedos. e que por elas o filho governe o seu futuro. que apareceu aí nos jornais e sucedeu a Figueiredo Pímentel no Binóculo. A sua visualidade é tão perfeita. Bonifácio fala muito em Hélade. que acabou achando essa coisa magnífica. que lhe prendia os cabelos. um Digesto de coisas preciosas. Se os tivesse lido. as galerias de Munique.

Correio da Noite. tem sido seguido de outros semelhantes e. entre os meus 16 e os 20 anos. vi em uma revista católica .. como Capistrano de Abreu.0 74. cujo nome. MÁGOAS E SONHOS DO POVO I RECORDAÇÕES DA "GAZETA LITERÁRIA" Em 1884. ainda são. de forte cunho intelectual. Raul Pompéia. que eu conheci velho e diretor da Biblioteca Nacional. intitulada Gazeta Literária. há muitos outros. e Beaurepaire Rohan dava nas suas colunas as primeiras páginas do seu Glossário de vocábulos brasileiros.Vozes de Petrópolis . ao que parece. Como estes dois glossários de brasileirismos. publicou na revistinha literária a sua famosa memória sobre a questão das Missões. no dizer dos entendidos.. bem feito e curioso. que tanto devia ajudar o renome de Rio Branco. 1-3-1915. embora pouco conhecidos do grande público. à rua do Ouvidor n. Não tinha o nome do diretor ou redator-chefe. menos gerais talvez. entretanto. poucos terão notícia dessa livraria e da Gazeta talvez nenhum. e outros que. De nós que andamos hoje nessas coisas de jornais e revistas. Urbano Duarte. não obstante. Impresso em bom papel e nas oficinas Leuzinger. Araripe Júnior. Valentim Magalhães. alguns cheios hoje de glória inesquecível. foi publicado em volume. tanto dos derivados de línguas conhecidas como daqueles cuja origem é ignorada. Colaboravam nele nomes conhecidos. quando a freqüentei ali. João Ribeiro. O jornalzinho literário era. ainda bem pouco tempo.um semelhante da autoria de um sacerdote dessa religião. muito cuidado na revisão. mas havia no cabeçalho a indicação que se assinava e se vendia na livraria de Faro & Lino. neste Rio de Janeiro. o amigo e êmulo de Casimiro de Abreu. publicou-se aqui. muito estimados pelos que se interessam com as etapas do nosso acanhado desenvolvimento intelectual. Esse trabalho que. mas que constituem um bom manancial para o famoso Dicionário . a pequena revista quinzenal. Teixeira de Melo. na Lapa. embora não saiba agora escrevê-lo (o que lastimo). Os salões do século XVIII não dariam coisa melhor. tinha um aspecto muito simpático e uma leitura variada. me pareceu ser de alemão.A roda da rua do Roso deve orgulhar-se de semelhante rebento.

com um artigo desse espírito inquieto e de tudo curioso que foi o Dr. viesse a ser o Barão Ergonte dos dias atuais. o espírito que a animava. veio para ensinar disciplinas. Nas suas notícias sobre o "Movimento Artístico e Literário". o Sr. sem talvez um programa definido (não tenho o número inicial). Múcio e Gasparoni quem os não conhece hoje? Mas. com artigos do Dr. No número de 20 de maio de 1884. porém. há a notícia de uma Fôlha Literária dos Srs. Rui Barbosa". mas anda esparsa em obras tão difíceis de encontrar que me resignei ao acaso das leituras para ganhar uma noção mais ou menos exata da poesia e outras criações da imaginação anônima da nossa terra. que o sucesso do Sr. à Gazeta Literária. no outro. mas que acaba na comodidade das linhas de tiro de classes e repartições e deixa para as funções árduas do verdadeiro soldado a pobre gente que sempre as exerceu. guerreiro. como os leitores estão vendo. há muita coisa curiosa e muita informação surpreendente. Domingos Freire. se tentavam publicações da mesma natureza que ainda hoje se tentam. para nos ligarmos mais fortemente no tempo e no espaço. Voltando. Sei bem que há em Couto Magalhães. além de outra revista. professor contratado de uma espécie de Missão. grande poeta que ele era. em 1874. Múcio Teixeira. e um parecer do professor Rebourgeon a respeito dos trabalhos sobre a febre amarela do Dr. e.o jogo de guerra . Capistrano de Abreu. Não era o do nacionalismo dos nossos dias. Sílvio Romero. Era um patriotismo mais espiritual. espingardeiro. está se vendo que. A. do Sr. mas de que até hoje nada ou quase nada fez. Muita coisa há sobre o assunto. ainda há bem pouco tempo.num artigo do Sr. podemos dizer que."ex-redatares do Cometa". era de um grande nacionalismo. também. Uma coisa. Dos viajantes estrangeiros. que não tinha uma finalidade guerreira e pretendia tão-somente conhecer as coisas da nossa terra. Tenho esses números da Gazeta Literária desde a minha meninice e desde a minha meninice que os leio. o seu passado. Pacífico Pereira. há também a de uma Revista Literária. com sorteio ou sem ele. João Ribeiro muita coisa a ler. João Ribeiro. Uma delas foi o conhecimento das coisas do folclore nacional e esse desejo até hoje não pude cumprir honestamente. em virtude desse próprio entendimento mútuo. em modestos outros provincianos. deu a tradução de um conto popular amazonense que vem no livro de viagem de . entre nós novas. Nas suas "Publicações recebidas" há notícia de uma União Médica. há também de uma Revista do Exército Brasileiro que já trata do que hoje parece novidade . enumerar. O que é curioso observar na interessante publicação dos livreiros Faro & Lino é que. em português. F. no O Imparcial. a ambos. a alma das suas populações. deixam de ter alguma força e são destinadas a morrer no esquecimento como as anteriores. Seria um nunca acabar. não se poderia nunca adivinhar que. se nota: é que as nossas tentativas de hoje têm pouca novidade e se nós não as encadearmos com as que nos precederam. Alexandre Gasparoni Filho e Américo Guimarães . tudo e todos. e do Dr. "cantativo". em um. Muita sugestão lhes devo e muito desejo eles me despertaram. há. porém.. ainda não havia despertado o amor pela fotogravura ultramundana. Osvaldo Cruz fez esquecer totalmente. Luís Conty. mas há também nos viajantes estrangeiros outras coisas mais e. através das páginas da revistinha de 1884. tantas outras que o meu precário viver não me permite consultar e estudar. "redigida pelo Sr. com o espírito dos anos que o tempo vai-me pondo às costas. Moncorvo.. Todo brasileiro julga-se um inovador. como a vida mudou! Pelos títulos de suas publicações de 1884. e transmitir tudo isto aos outros. em francês. que. na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. há trinta anos. por aí assim. sem nome de diretor. a "da Liga do Ensino". de Moura.de Brasileirismos que a Academia Brasileira de Letras se propôs a organizar. coisas velhas e notar a transformação espiritual dos homens.

Embora o passarinho da canção fosse um pouco extravagante com os seus dentes. José Bonifácio. pela primeira vez. para deixar emergir nela as histórias humildes do Compadre Macaco. como a "Gata Borralheira". cheia de força. dos meus pobres sete anos de idade. Se não tiveres papel. sondavam a alma e a inteligência do povo. Dos dentes. anexins. anedotas. Nas asas dum passarinho. afora essas quadrinhas e outros versos como o do famoso "chula": Onde vai. lendas. por exemplo. O seu artigo sobre as canções populares da Bahia muito me impressionou e há maia de vinte anos que não folheio a coleção mutilada da Gazeta que não o leia com este ou outro espírito. Nessas confusas recordações que tenho das fábulas e "histórias" populares que me contaram entram animais. só até então conhecidas pelos pacientes eruditos. Mas não as guardei e pouco retive de cor dessa arte oral e anônima. estas quadrinhas. etc. há um artigo de Vale Cabral. letras miúdas. com precisas informações sobre os primeiros livros nela impressos. com o mesmo método que os seus hábitos científicos lhes tinham imposto à inteligência. que os via catar pedras e ervas. os Anais da Imprensa Nacional. tivesse retido as "histórias" que me contavam naquela idade. Não me fio nas . e nos números da Gazeta que possuo há trechos das famosas Memórias de Drummond sobre o primeiro reinado. da pessoa "boa na língua". Todas essas coisas ingênuas de contos. Se. que suponho terem sido publicados por ele. dos nossos defeitos e qualidades morais. etc. Da língua pena aparada. que sempre ouvi e recitei em criança. No número 11 da Gazeta Literária. quadrinhas. de teorias de química. muito me comoveram e comovem e ainda as guardo na memória. senhor Pereira de Morais? Você vai. sem deixarem de ser profundos nas suas especialidades de ciências naturais. etc. intitulado Algumas canções populares da Bahia. Dos olhos carta fechada. mas traiçoeira e ingrata. Da bôca. O macaco é o símbolo da malignidade.. As mulatinhas ficam dando aism. fazei tinteiro. Ele publicou as cartas do padre Nóbrega. aos poucos. como as retive. que. algo originais e denunciadoras do nosso gênio. Falando baixo. de temas. Hoje. de princípios de física. disto e daquilo.Wallace. Era tão interessante que eu imaginei que messe de fábulas e narrativas. é para matar saudades e lembrar os meus bons tempos de menino que leio: Menina. tirando as que Perrault registra e dando-lhes forma. foram soterradas na minha memória por uma avalanche de regras de gramática. poderia fazer um volumezito bem aproveitável. nós poderíamos encontrar nas obras desses sábios pesquisadores que. pouco conhecido e muito menos lembrado atualmente. Este Vale Cabral. em luta com a onça. do Mestre Simão e da Comadre Onça. não vem cá mais. foi funcionário da Biblioteca Nacional e um dos mais ativos reveladores de coisas da nossa história. da esperteza. que é datado de 20 de março de 1884. me vão morrendo na lembrança. quando tu fôres Escreve-me pelo caminho.

entre elas. tão cheios de alusões a sonhos divinatórios. onde se vem resumir todas as mágoas. mas creio não me ter enganado redondamente. a origem. Pode ser que ela tenha razão. revelado tudo isso na sua arte anônima e popular. e dar nesta revista o resultado das minhas conversações com gente de toda a parte. cuja regra é a insegurança de tudo. mas sempre me pareceu assim. pois. foi um contínuo da Secretaria da Guerra. na conversa com homens e raparigas do povo. eu transcrevo uma das "histórias do macaco". quase toda ela. Os estrangeiros. Em uns dos meus modestos livros. Não tenho certeza. pessoa bastante autorizada para condenar a crença que. Queira Deus que leve avante o meu inquérito! Amém. o povo tem. mas leituras semi-esquecidas me dizem mais ou menos isso. contos. Hoje. 20-3-1919. não sei de que localidade: o Sr. de todas as línguas. que tenho dessas coisas de folclore. e o intuito dessas linhas não é esse. é explicar as razões por que fui levado a procurar. mas também a espiritual. e. não havendo. ex-praça do Exército e natural do Rio Grande do Norte. ele tomou uma atitude oracular indiscutida. aquela de que me recordo mais é a . de alguma forma o faz o seu herói epônimo. uma grande simpatia por ele. etc. já confessada. para vencê-lo. e Plutarco. Contudo. em que se mostre que a nossa cidade não é só a capital política do país. SONHEI COM ISTO: O QUE É? O sonho sempre representou na nossa atribulada vida terrena. Há mesmo em todas elas. para não errar. tenham alguma razão quando nos chamam de "macaquitos" ou "little monkeys". criei-me e eduquei-me no Rio de Janeiro. obter narrações. Agora de pronto lembro-me de muita poucas obras literárias que o aproveitem. e.Athalie -. em que se encontra gente de todo o Brasil. . ao que me parece. Os estudiosos dessas coisas que verifiquem se a minha generalização é cabível. As literaturas de todos os quilates. Não sei se ele figura em alguns dos nossos florilégios e estudos desses assuntos de folclore. Os livros antigos. eu não me animo a asseverar que a minha generalização possa ser de qualquer forma certa. A humanidade. sem mesmo indagar se eles foram publicados. socorre-se da cumplicidade do Cágado ou Jabuti. nasci. Sou homem da cidade. de origem popular. de coisas boas e más que vão acontecer. um grande papel profético. O que elas visam. devido à ignorância. está convencida de que o sonho é um aviso por parte do Mistério. onde fui empregado. planos e esperteza do macaco.minhas lembranças. ou. em que ele aparece mais ou menos com essa feição. não narram a vida de um herói que não se refira a eles. têm usado e abusado do sonho. a natureza e o mecanismo do sonho continuam mais ou menos inexplicados à luz dos estudos mais modernos. mas a manha do macaco. talvez. que infelizmente já não tenho. A onça aí figura perfeitamente com o feitio moral a que aludi. Não me recordo nitidamente de nenhum. sobre o sonho. todos os sonhos. segundo me parece. os contos populares lhe emprestam também alguma generosidade e alguma graça e uma filosofia de matuto "tinguejador". e quase todos os agrupamentos humanos organizaram e organizam uma tábua para a sua interpretação. vale a pena fazer um trabalho destes. portanto. Se o nosso povo não o fez o seu "totem". como me ensinou esse singular "totalista" que é o meu amigo Tigre. nele. todas as dores dos brasileiros. Em todas as pequenas crenças religiosas de toda parte. Apesar das manhas. Antônio Higino. Quem me contou.

esse nosso professor. que ela é uma ilusão . com a Summa. Frutuoso da Costa. Quase todos os heróis e heroínas de romances e poemas sonham. como dizia. certamente aborrecido com a nossa leitura arrastada e indiferente. ao que parece. e não seria eu quem havia de censurá-los por isso. essa sobriedade e esse vigor. no sonho. era o prato de resistência da nossa tradução em aula. para acentuar bem a fala.frase com que Abner remata essa parte da narração do sonho profético da filha de Jezabel. quando ela tenta abraçar a sombra da mãe. se têm socorrido. mas nem sempre os sonhos literários têm essa grandeza. Todos nós já sonhamos e sabemos bem que uma das regras gerais do sonho é a falta de nitidez de plano. tirava os óculos de aros de ouro. o bom Dr. se aproxima do seu leito. dizem e resumi mais acima. é a confusão de coisas disparatadas. Por fim o seu furor dramático já era muito menor. como as namoradas desprezadas. Le cruel dieu des Juifs l'emporte aussi sur toi. ao recitar o final dessa fala de Athalie. Santo Tomás de Aquino. não observava a sua teologia monoteica a heresia de haver um deus especial para os judeus. Por aí assim.je inquiéter d'un songe?) Quando o Dr. quando não é com seus autores. chegava bem perto dos olhos esse trecho da tragédia bíblica de Racine. mas particulares quase clandestinos não eram como aqueles áugures e arúspices de Roma. agarrava o Théâtre Classique.Quando estudei francês. entretanto. deste ou daquele país. O nosso professor. seria um nunca acabar estar relembrando os sonhos registrados nas grandes obras literárias. Parava nesse ponto infalivelmente. e declamava-o com entusiasmo eclesiástico de um patético sermão de Páscoa: Je jouissois en paix du fruit de ma sagesse. que a vida é um sonho. já lá vão vinte e seis anos. e Machado de Assis.o que talvez não fique muito aquém do que as garotas desta ou daquela classe. bons e maus. longo e cheio de pitoresco e pinturesco. Proféticos ou não. punha toda força de voz que lhe restava. muito para mim. De mes prospérités interrompre le cours. depuis quelques jours. antigo seminarista. m'a-t-elle dit. se não digo.Grand Dieu! . que. fille digne de moi. havia menos ênfase nela. é por conta própria. e. não tomou ordens definitivas de sacerdote devido à exigência canônica de um bom resultado no processo de "puritate sanguinis". e nem mesmo exclamava . Nessa passagem a sua voz era menos retumbante. que talvez se picasse de realista. que prediziam os acontecimentos pelo modo de voar dos pássaros. . o famoso sonho da heroína dessa tragédia. senão nas partes. É um efeito de que grandes e pequenos autores. que. Frutuoso atingia à imprecação de Jezabel: Tremble. vivo e desenhado em breves e poucas linhas fortes. certamente por causa de um tal esforço. como se depreende dela. respeitados e oficializados. mas ambos são sonhos muito pouco comuns. et trainés dans la fange Des lambeaux pleins de sang et des membres affreux Que des chiens dévorants se disputeient entre eux. tenho. O trecho é poderoso. A interpretação dos sonhos tem merecido desde muito tempo sacerdotes especiais. no todo.. o hipopótamo. Eça de Queirós. descreveu um com muita coerência para o destino literário que ele tinha. aproximava-se mais do natural e dizia: Mais je n'ai plus trouvé qu'un horrible mélange D'os et de chair meurtris. etc. mesmo porque. ele me ficou quase inteiramente de cor. Mais un trouble importun vient. Un songe (me devrois . no Brás Cubas. tem na A Relíquia uma visão ou um sonho muito pouco verossímil.

Hoje. cobra.não acham? Reatando. Só não ama quem não tem dinheiro.. se a nossa época não possui sacerdotes destinados à interpretação de sonhos. Conto um caso. Pobre "Sinhá" Maria! Ela não tem motivos para se amaldiçoar! Todos nós vemos muitos burros nos telhados e afirmamos logo que é bicho muito inteligente. Hidenburgos. Eram bonecos de papelão. os sapatos. Contam os cronistas que não havia general que prescindisse de tal horóscopo antes de entrar em batalha. criou. enfim com tudo aquilo com que havia de se revestir para ir à festa da Glória no Outeiro.. tenho conhecidos que me afirmam que só se ama para ter dinheiro. chegando a esta conclusão: . "Sinhá" Maria sonhou um dia com um burro em cima do telhado de uma casa. avestruz. é gato. e pôs-se a analisar o seu . responde a companheira e continua: "Sonhar com dente é defunto na família". a narração.sonho. Eu não sei. correu a loteria e saiu o gato. Hoje. é gato. Pediu cinco mil-réis adiantados à patroa e jogou-os no burro. . Seria um belo espetáculo . Onde foi o povo descobrir essas equivalências? Não há ainda para os sonhos aplicados ao jogo do bicho uma teoria interpretativa e segura."Burra sou eu. Sonhar com excremento. mas deve haver. O que quer dizer?" pergunta uma lavadeira à outra. Quem anda em telhado. . no telhado. porque. Durante o tempo em que preparava os seus quitutes. . Ficou triste. Eis aí! Há muitos modos de nos enganarmos com os nossos sonhos. apesar das dificuldades. Wilsons e Clemenceaus (não! estes últimos viriam do inferno). 17-7-1919. sabemos ler e. voz de Deus.. porém. nunca burro andou em telhado. Voz do povo. sonhar com defunto. Veio a tarde. porém. livro barato e portátil. sonhar com carne crua." Desde tal descoberta da "Sinhá" Maria ficou assentado entre os jogadores de bicho que burro. acertamos. pedindo-se que Deus favoreça com a vitória cada um dos inimigos. entretanto. e são mandadas rezar por cada um dos partidos em briga. mas já se esboça uma. é saúde. Nunca pude atinar com a relação que há entre uma coisa e outra. que o nosso Panteon seja reduzido a um único Deus. as missas solenes. as rendas. Está aí uma afirmação que o Dicionário desmente: o Amor é irmão do Dinheiro. É pena. entretanto.. é crime. porém. não há mais disto. o povo. Lloyds Georges. coelho e qualquer outro animal.. a "Sinhá" Maria. tenho a lembrar que. nem por isso. de lá. tem uma regra muito diferente para interpretar os seus sonhos. Passam-se anos e nos convencemos de que nem burros eram..pela maneira com que as galinhas e outras aves sagradas comiam os grãos. à vista disso. foi sonhando com o vestido. aquele verdadeiro. um deles é ao jeito da analfabeta e simples "Sinhá" Maria. aquele que não sabe ler e escrever. mas. todos eles divinos para combater pró e contra Mercúrio ou São José. ressoam. Digo São José porque é patrono dos nossos bancos católicos. e assim por diante."Filha! Credo! Reza um Padre Nosso e uma Ave Maria para as almas"."Inácia! Sonhei hoje que estava arrancando um dente. Já folheei um e observei que a maioria das predições se encaminha para o amor e para a fortuna. se este fosse Deus. é fortuna. para isto ou para aquilo. essa maravilha que é o Dicionário dos Sonhos.. um outro é ao nosso. cheios de "manicolas". impediu essa nossa pobreza de deuses que a guerra última permitisse à Discórdia levar a sua obra até ao céu e. precisamos de auto-ilusões. o Empírio fazer descer Fochs. além de tal fato atrapalhá-lo com pedidos contraditórios. Os poetas dizem que o Amor é irmão da Morte..

continuou o seu caminho e veio a encontrar uma mulher que escamava peixe com as unhas. por mais forte que seja. mas tem tal ar de inteligência. Feito o que. tal e qual o vemos nas gaiolas e preso a correntes. para vencer dificuldades e evitar lutas desvantajosas.Olha o macaco cotó! Olhem só como ele está rabicó! E tudo isso seguido de assovios e outras chufas! O macaco tomou o alvitre de procurar novamente o barbeiro para que lhe recolocasse a cauda. natural de Valença. o orangotango e o gibo. é exemplo disto que acabo de dizer e é intitulada: HISTÓRIA DO MACACO QUE ARRANJOU VIOLA Um macaco saiu à rua muito bem vestido. onde ele é fecundo em ardis e variadas manhas. porém. às vezes.deixem-me ir sossegado pelo meu caminho. O "fígaro" recalcitrou e não quis atendê-lo. Todos esses macacões africanos.Olha o rabo! Olha o rabo dele! Olha o rabo do macaco! Aborrecido e incomodado com a vaia da petizada. continuou: . caso não fizesse a operação que solicitava.Olha o rabo do macaco! Olha o rabo dele! . possuem mais fortes traços comuns a eles e ao homem. com as suas parecenças humanas. o macaco indagou: . O nosso macaquinho não tem esse aspecto de força estúpida. por não ter faca ou outro instrumento cortante adequado. A assuada das crianças. porém. As crianças. quando não de esperteza e malandragem. As crianças.Meninos. são mais simples e as narrativas populares procuram fazer ressaltar unicamente o pendor "planista" do símio. que o povo não podia deixar de impressionar-se com ele e dar-lhe a máxima importância nas suas histórias de animais. . O barbeiro. o macaco resolveu dirigir-se a um barbeiro e pedir-lhe que amputasse a sua cauda. Não sei qual será a impressão que se tem deles. ao natural. O macaco insistiu e ameaçou-o de furtar-lhe a navalha. que passa por ser o avô desaparecido do gênero humano. mostrou-lhe que era impossível..Homessa! Que pergunta! Porque não tenho faca. Certamente. consentiu e Simão voltou à rua extremamente contente.Por que você "concerta" o peixe com a mão? . O barbeiro. as suas semelhanças com o homem não são bastante flagrantes como as dos grandes macacos da África e da Ásia. Estado do Rio. o gorila. D. muito naturalmente.. começaram a troçá-lo: . O chimpanzé. . Dubois. não o atendiam e continuavam de surriada: . o povo o representa nas suas histórias. . pelas gravuras dos compêndios. é tão solerte e inquieto. Essa história que ai vai e me foi contada pela minha vizinha. porém. é de ferocidade e bestialidade. não estiveram pelos autos e. mas de astúcia e malignidade curiosa.dizia o mestre Simão. muito instado e ameaçado. da simpatia de nossa gente humilde. O último desses macacos antropóides é até tido como bem próximo parente do "Pitecanthropus" do Sr. são fortíssimos e de uma robustez muito acima da do homem. mas a que possuo.HISTÓRIAS DE MACACO O nosso macaco. é bem miúdo. porém. O macaco furtou-lhe então a navalha. Ao ver tal coisa. Minerva Correia da Costa. asiáticos e javaneses. porém. Assim. sobretudo este. apesar de vê-lo bem vestido.

narrou-me um conto passado entre os dois dos mais expressivos. Não havia lábia ou astúcia que lhe valesse. há anos.. . não a podia restituir. era cortado por um largo rio. com menina. Desesperado atirou-se nele para morrer. a mulher. deu-lhe na telha de retomar a navalha. então. pelo curial motivo de lhe ter dado a comer peixe e farinha. O macaco.Pois não tens notícias de que Nosso Senhor vai mandar um pé de vento muito forte e só se salvará quem estiver bem amarrado? Amedrontada e por não ter mão com que ela própria se atasse. foi indo.não a tinha mais. Propôs a troca da menina pelo instrumento. com farinha. a tirar cipós. quando encontrou um tipo que.Que fazes aí. caminhando. mas. arranjou farinha. com a navalha. arrependeu-se e voltou sobre os seus passos para reclamar a farinha. que é hoje contínuo do gabinete do Ministro da Guerra e foi praça do exército.. Tem você aqui uma navalha. .. Esta história de um final pessimista para as manobras e espertezas do macaco. resolveu cantar as suas proezas com acompanhamento de viola. prontos que eles foram. Um belo dia. o que foi aceito pelo sujeito. natural do Rio Grande do Norte. A professora . não é das comuns. arrebatou uma das crianças. Continuou o caminho que. que ele não podia atravessar. continuava a correr mansamente em toda a sua largura intransponível. no romancear do povo. como sempre. vindo a topar com uma professora que dava bolos de pau às alunas. Ei-lo: "O MACACO E A ONÇA Andava o macaco. depois de preparar o peixe. Seguiu adiante. que tem travado um duelo de morte interminável. A mulher recusou. arrependido. . as mais espalhadas dão sempre a vitória final ao símio sobre todos os obstáculos inimigos que encontre na vida e nas florestas. Pela primeira vez. A onça é sempre o seu inimigo natural e é com ela. Para consolar-se. comadre onça. portanto.. e. e a onça com o macaco. o felino veio a encontrar o símio trepado em um galho de pau. arranjou peixe.Ah! então tu não sabes.Como? . A professora aceitou e.Macaco com seu rabo arranjou navalha. com toda a razão.. Despediu-se logo após e. Foi-se o macaco após o almoço. tangia uma viola. Antônio Higino. porém.Não seja por isso. o macaco não se fez de rogado e entrou também nos bolos. a onça pediu imediatamente: . bem cedo... deu-lho a comer com farinha.. O rio. arranjou menina. Ofereceu-lhe a farinha para fazer bolos que substituíssem os de pau. Agradecida. Com ela às costas. em troca. encontrava um obstáculo que a sua manha e a sua astúcia não podiam vencer. tendo andado um pouco. Assim cantou: .perguntou a onça. apesar da gritaria da mestra e das outras discípulas. o que estou fazendo? Trato da minha salvação.o que era naturalmente ele esperar . com peixe. vencidas com facilidade. arranjou viola.. depois de tantas aventuras. Viu bem que era impossível vadeá-lo. O macaco não teve dúvidas: carregou-lhe um bom bocado de farinha. O Sr. de implicância com a onça. compadre macaco? .

Quem vem lá? O macaco com voz simulada. que se lhe grudaram aos pêlos. pudesse fazer o mínimo movimento. Ará é o que nós chamamos ouriço-caixeiro. Tendo encontrado um pote de melaço. sem que esta. Comadre onça começou a desconfiar de tal bicho. Como esta. pôs-se de alcatéia num único lugar em que havia água. água jamais bebi! A vingança da onça foi mais uma vez adiada. que não reproduzo agora para não me tornar fastidioso. mas segura. Assim pôde conseguir amarrar a comadre. muito atilado e esperto. acudiu escarninho: . e o macaco atava mais fortemente o lugar que lhe parecia mais frouxo.. mas não saiu da tocaia. de Wells. compadre macaco. Tem pena de mim que não tenho mãos! Amarra-me também pelo amor de Deus! O macaco obteve todas as juras e promessas que a comadre não lhe faria nenhum mal e desceu para atá-la num tôco de pau. em uma das praças da cidade. Hoje. Disfarçado desse modo.Comadre. Vendo-a bem amarrada. deu na onça uma valente surra e fugiu em seguida. por mais que quisesse. espojou-se num monte de folhas secas. limitando-se a perguntar: . entretanto. Veio uma seca muito grande e a onça. 16-4-1919. possuo escritas mais algumas. eles topam com um estranho espetáculo que os . perguntava: . para pilhar o símio e cevar nele o seu ódio recolhido. a onça desconfiou daquele animal. O suposto ouriço muito calmamente abeirou-se do poço e pôs-se a beber água a fartar. muitas outras passagens desta curiosa luta são contadas pelas pessoas do povo e eu tenho ouvido diversas. Todos os animais iam até ali desalterar-se. adivinhando o que o esperava.Que sede! O macaco precavidamente afastou-se e.Admiraste-te! Pois desde que surra te meti. que bebia tanta água. e esta jurou a seus deuses vingar-se do macaco. no que se demorou muito. amarra-me também para eu não morrer. e exclamou admirada: . sem serem incomodados pelo felino: mas o macaco. logo que se pôs fora do alcance da terrível comadre.. ideou um ardil para ir até à cacimba saciá-la. respondeu: . besuntou todo o seu corpo com ele e. você pode se mexer? A onça fazia esforços para desvencilhar-se. Além da que aí vai. depois. As outras onças conseguiram soltar a irmã. com o qual a onça não tem implicância alguma. UM DOMINGO DE PÁSCOA Na Guerra dos Mundos. À proporção que a ia amarrando. não foi. encaminhou-se para o bebedouro.Então. quando os marcianos já estão de posse de quase toda Londres.É o ará. Apertando-lhe a sede.. o macaco apanhou um cipó bem grosso.

portanto. Quando andei fingindo que estudava astronomia. de falidos sociais de toda espécie. para as quais devia ter o transcendente desprezo e a superior despreocupação que aquela meninada tem e manifesta com seu brinquedo pueril e inocente. dá fundos . até as marquesas faziam-no. O amor que tu me tinhas Era pouco e se acabou! Parado ainda. então eu me lembro de ver o céu. Durante as cinco ou seis horas que passei no centro da cidade. em cima de suas máquinas que a nossa mecânica não saberia nem conceber. cirandinha! Vamos todos cirandar! Vamos dar a meia-volta. não há muito amor às coisas do céu e todos estão preocupados com as terrenas. quando me recolho à casa e subo a ladeira que é a rua em que ela está. De noite. É que encontram no largo. pondo-me a pensar na importância de tanta coisa fútil que me encheu o dia. Volta e meia vamos dar! Para ouvi-las. não é também a fórmula Rui-Epitácio que abala o povo e faz cansar os lindos lábios das mulheres. que uns versos postos em baixo da gravura de um seu retrato. e. tudo o que conversei. as boas maneiras de um perfeito namorado não pedem tanto e as ingenuidades são mais apreciadas. que não terei. Subo a ladeira e logo dou com uma roda de crianças a cantar: Ciranda. No último domingo de Páscoa. considero aquela dúzia de crianças de várias origens e diversa pigmentação. brincando de roda. as meninas e infantes emendam: O anel que tu me deste Era vidro e se quebrou. enquanto todos fogem diante dos habitantes de Marte. esta sobretudo. Não são já as de dinheiro. as suas máquinas de guerra e o seu asfixiante fumo negro. passei eu o dia com um amigo. um troço de vagabundos. Hoje mesmo. cuja casa fica em uma das estações dos subúrbios mais consideradas pela posição social dos seus habitantes e muito conhecida pelos namoradores. A cantoria das crianças. pelas primeiras horas de treva. a Vega. entretanto. com o seu terrível raio de calor. segundo Fontenelle. foram graves preocupações. Preferi sempre encarregar-me do cronômetro que repousava no chão. continuando a voltear. e outras para os meus descendentes. que cantam. porém. que isto fazia parte do manual do namorado elegante. dizem que ela "s'élève dans les airs et le but de ses travaux est d'éclairer les hommes". No século XVIII. creio que fazendo roda. Se faz lua.. Flammarion andava em moda e todo "almofadinha" daquele tempo sabia essa carta de nomes celestes. Já houve tempo. não está em moda olhar o céu. porém. eu me lembro dessa passagem do extraordinário Wells. se encontro crianças. nas varandas ou sentado o casal nos bancos do jardim. a du Chatelet. não é tanto o maximalismo que amedronta os pobretões. despreocupadamente. folgam e riem. e houve uma mesmo. faz-me sempre olhá-lo e é então que me aborreço de não saber o nome das estrelas e das constelações. algumas para mim unicamente. que traduziu Newton e ensinou Física e Astronomia a Voltaire. o que raras vezes faço e fiz. tudo o que ouvi. Não é toa. Lira. paro um pouco. A residência do meu amigo fica longe da estação. hoje. Meu pensamento vem pejado de questões importantes.. parece que era "chic".faz parar de admiração. tudo o que percebi nas fisionomias estranhas. Arturo. Atualmente. nunca quis observar estrelas pela luneta do teodolito. Era poético mostrar à amada o Cão.

Cônego Dr. Só me namore meus olhos Debaixo das sobrancelhas. porém. deve sê-lo desse rio inspirador de poetas. Não é de hoje que essas canções infantis são mais ou menos amorosas e tratam de casamentos e namorados. Com toda certeza esse "marinheiro" da canção. que. Acontecia isso nas antigas. que é tão comum. pelas grandes massas dessa rocha que salpicam a sua vegetação escassa e rala. que estavam na roda. entretanto. que hão de ficar embevecidos e encantados como eu fiquei com essa canção. em resposta. Eis uma delas. deixo. que fora em Lorena.. e disse-me ele. pois nenhuma era dos meus tempos de menino. pela estrada de ferro. cujo nome tupi quer dizer "rio mau".à americana . mas ouçam cantada e dançada por crianças. que é rei. precisamos ir ao dicionário e saber que "Ciranda" é uma peneira de junco. em plena sessão pública da Academia de Letras. Era carioca. talvez não chegasse um volume razoável. há um estribilho que as crianças cantam. foi suprida pela presença de um bando de crianças. e ela toda riu-se muito à custa do sábio cônego e doutor. e todas elas me pareceram muito modernas. entoavam as suas canções que devemos chamar infantis. Se todas fosse eu transcrever. não tinhas rabos" etc. Quando há luar e ele dá de chapa nesse costão. de parte muitas. Walter Borba Pinto. o Sr. nas proximidades do Paraíba. Sílvio Romero citou essa interpretação. que me parece chamar-se "O Marinheiro": Não me namore meus olhos Nem meus brincos das orelhas. Estive a ouvi-las. A roda era de seis ou oito crianças e o chefe era um menino. não houve luar. com nove anos de idade. non tinherabos . mas os seus outros irmãos e irmãs. dançando aos pares alguns passos da valsa chamada . A seguir. Fernandes Pinheiro. acompanhadas de gestos e meneios adequados.com balouço característico que o título da canção lembra: Sou marinheiro! Sou rei! Sou rei! Adorador! Adorador! Hei de amar! Amar! És meu amor! Amor! Amor! Ninguém me peça a significação disso tudo.. as estrelas palpitavam de amor pela terra distante. porque nada percebo aí.Tinherabos. tem desafiado a sagacidade dos eruditos para traduzi-la: e houve um. na sessão que as crianças me deram de seus brincos . No domingo de Páscoa. usada na Europa para joeirar cereais. Na própria "Ciranda". tinham nascido em vários pontos do Brasil. aquela paisagem pobre de horizonte fica magnífica. A famosa "relíquia" . e podia observá-lo nas modernas que agora ouvia naquele domingo. para conhecer-lhe o sentido e significação. para poetizar o quadro. A falta de luar.para uma montanha que cai quase abruptamente e deixa adivinhar o granito de que é formada. ao lado da habitação. que a interpretou assim: "tinhas rabos. no céu. portanto.um monumento da língua de priscas eras. imponente e grande. Guardei diversas cantigas e me pareceu interessante dar alguns exemplos aqui. Domingo de Páscoa. por onde seu pai andara cumprindo deveres de sua profissão militar. Como toda a gente sabe é uma cidadezinha que fica a meio caminho daqui para São Paulo. Não é de hoje que muitas canções populares não querem exprimir nada. Tive curiosidade de perguntar onde o Walter a tinha aprendido a cantar.

recordei-me que tinha cantado na minha infância canções semelhantes.. E a pontinha de fora. Sambalelê precisava Uma dúzia de palmada. Quanto mais se vocês vissem O nariz de meu irmão. Logo mais vou-me embora. diz assim: bis / \ Pisa! Pisa! Pisa! Ó mulato! Pisa na barra da saia! Ó mulato! Depois continua a cantiga: Ô mulata bonita! Onde é que você mora? Moro na Praia Formosa.. 21-4-1919. olhei o céu que não me pareceu vazio. com outros meninos e meninas.. Pesei a minha vida passada. com sua voz fanhosa e indecisa. a fim de explicar-nos o seu sentido e objeto. Segue-se o estribilho e por fim esta última quadra: Minha mulata bonita! Como é que se namora? Bota o lencinho no bôlso. O PRÍNCIPE TATU . Está com a cabeça quebrada. cujo texto é assim: Sambalelê está doente. que é acompanhado de palmas e sapateados. O estribilho. É inútil lembrar que muitas outras canções de roda ouvi nesse domingo da Ressurreição. ao tempo que a voz fraca de um menino entoava: Todos me chamam de feio. há uma cantiga que é própria para desafiar a paciência de um sábio investigador. Trata-se do "Sambalelê".peculiares. Onde estão eles? Onde estão elas? Não sei. e vendo aquelas crianças cantar tais coisas. De nariz de pimentão. E a cantoria continuava sem eco algum na "quebrada" próxima Hoje..

disse: . conforme a sua hierarquia em nascimento. É uma história complicada e longa.. Trata-se de D. Tendo crescido e chegado a época própria ao casamento. em Todos os Santos. de histórias. para afinal obter-se a felicidade completa. A rainha. com muita pompa e brilho como se fosse o enlace comum de um príncipe normal e uma princesa qualquer. A publicação foi feita em dois números e ambos perdi-os eu. nesta cidade. viram passar um . e dentro de menos de um ano a rainha veio a ter um filho. cheia de peripécias fantásticas e intervenções misteriosas. Ao fim de alguns anos o Príncipe Tatu. mostrou desejos de casar-se com a segunda filha do conde.Ah! meu Deus! Vês tu!. Quem me dera ter um filho. não tivera a felicidade de dar à luz um filho. de sacrifício primeiro. estrangulou a mulher. conforme me contavam nos azares dos passeios e dos encontros. um tatu às costas. Publiquei-a. portanto. crendices de povo. e por isso disse para o rei: . Quando o Príncipe Tatu entrou nos aposentos conjugais encontrou a mulher com a fisionomia mais natural que se pode imaginar. mesmo que fosse como aquele tatu! Os seus desejos foram satisfeitos.caçador com . que tinha por madrinha uma boa fada. Antes de tudo. Foi ela uma senhora da minha vizinhança. Houve espanto e mesmo sua mãe quis dissuadi-lo desta sua tenção. pois não sou nem folclorista nem educador. a vez da terceira. porém. que já encontrara a mulher no leito. mas. que nunca vi escrita nem nunca ouvi narrada senão pela pessoa que ma pronunciara pela primeira vez. que era um tatu perfeito. Aconteceu-lhe a mesma coisa que à primeira noiva. guardei as notas e agora as colijo da maneira que se segue: Estando uma vez o rei e a rainha à janela do seu palácio. até então.. infelizmente. Não é caso para isso. e que o recebia como um verdadeiro noivo da . Realizaram-se elas. A condição foi aceita e assim os esponsais foram realizados. pois vais ver! Morre já e já! Em seguida. que não deixa de ter aquele fundo de todos os contos para crianças. ditos. Chegou. Abstenho-me de discutir se essa generalização é segura e se é útil. o Príncipe Tatu. À hora de recolherem-se ao quarto nupcial. entendeu a segunda que o casamento fosse feito de luto e as salas do palácio em que ele se realizasse tivessem aspecto funéreo. de abnegação. Apesar de ser assim. foi avisada de que devia desejar que as cerimônias do casamento fôssem as mais festivas possível. que parecia ter esquecido todos os propósitos matrimoniais.Ah! Quiseste que o nosso casamento fosse de luto. cujo nome me escapa agora. Minerva Correia da Costa. guardei uma: "História do Príncipe Tatu". numa revista de inferiores do Exército. e esta. foi ele criado com todos os cuidados de um príncipe e educado e instruído. natural de Valença e residente à rua Piauí. Da mesma forma que a primeira. com muitos erros de revisão. convém notar que já dei uma redação minha a essa história do Príncipe Tatu. O príncipe parecia teimar em escolher esposa sempre entre as filhas do conde. o povo parece não dar aos primeiros matéria para que os segundos organizem livros da Carochinha dignos e de acordo com os ideais da nossa atual sociedade. demonstrou desejo de desposar a filha de um conde. cuja morte foi atribuída a outra qualquer causa. que tinha três. portanto. A moça aceitou o pedido com repugnância e impôs que o seu palácio e residência fosse decorado e guarnecido como se se tratasse de um luto e o casamento se fizesse de preto. que não a verdadeira. a quem já aludi nestas rápidas notas e cujo nome talvez tenha demais vezes citado. contos.Das notas que andei tomando há anos.

sempre entraram em toda e qualquer literatura. mas que o encantamento fizera animal. e o príncipe não a recriminava. que ela venha. o príncipe seu filho com a forma humana. o príncipe despertou e falou assim dolorosamente: . .onde ficam as terras dos Campos Verdes? A velhinha abandonou um instante a renda que estava fazendo sobre a almofada. A princesa nada dizia. Arrumou a trouxa e.perguntou a princesa. mas continuava a falar com muito queixume na voz: . despertando ele e não a encontrando. parece. deve ser. Muito contente com isto. ela. não pudesse mais retomar as formas do animal que aparentava a todos ser a sua. quem o saberá. é ela que nos ama. Passaram-se meses e anos e ela. Espera. o Príncipe Tatu retirou o casaco e veio a ser o homem bonito que era. e. portanto. se tu me quiseres ver. sempre cheia de saudades. 8-5-1919. Hoje. com voz macia e pausada: . devemos por isso interromper a narração para continuá-la na noite seguinte. que os jornais trazem para o gáudio dos seus leitores artísticos. seu marido de poucos dias. E ela. Tal. quem deve saber disso é minha filha. não pôde por mais tempo suportar a ausência do Príncipe Tatu. e respondeu ternamente. contou-o à mãe. sem que ela pudesse perceber como. Tal. partiu em procura das tais terras que ninguém sabia em que canto do mundo ficavam. Andou muito. é ela quem percorre todos os descampados. e topou afinal com uma casinha... porém. Julgando que lhe fizessem bem e viesse ele a ter sempre a forma da nossa espécie. mas sem deixar de contar dentro de uma semana como se chega ao país dos Campos Verdes.Agora. quer na anônima.Minha velha. Seja . junto da qual estava uma velhinha. Deixamos de pôr aqui o habitual "continua" dos romances-folhetins. a mãe e mais a sua nora lembraram-se de queimar a casca óssea do tatu na persuasão que. a rainha. certa noite. pois não tardará.. cheia de saudades. não se deu. porém. à beira da estrada. Sabedora que foi do caso. Sentindo o cheiro de osso queimado. Como nas clássicas histórias da Princesa Scheherazade.Minha netinha. não satisfeita de saber-lhe o segredo. quer na pessoal e cultivada. muito e muito por esse mundo de Cristo.só chorava. não pôde a mãe conter a curiosidade e veio ver. CONTOS E HISTÓRIAS DE ANIMAIS Os animais domésticos. A moça ficou exuberante de alegria. sem norte e sem guia.. . é ela que nos beija. não se deu. quer na popular. que a aurora vem rompendo. minha netinha. Desde muito cedo que os homens se associaram aos animais para fazer a sua jornada na vida.espécie humana. tens que ir às terras dos Campos Verdes. .Ah! ingrata! Fôste revelar o meu segredo! Faltavam-me só cinco dias para desencantar. esperava que o seu marido voltasse da mesma forma misteriosa como a que envolvera o seu desaparecimento. de grande velhice e largo olhar de bondade. . Dito isso. o Príncipe Tatu sumiu-se dos seus olhos totalmente. domesticados e selvagens. completamente. a Lua. leitores amigos.

dos combates singulares. enfim. o melhor corcel da cristandade. tem Neillantif. o cavalo é animal de Netuno. de ardor. ele é unicamente o corcel de D. a quebrar o isolamento que oprime o seu companheiro da ilha deserta. os animais que os cercam figuram humanizados. e ia já pelo fim. é figurado com um carneiro ao lado. a águia. Os troveiros.quem não se lembra dela? Podia ainda falar no "Roman de Renard". é originária da África. A transcendente imaterialidade do Divino Espírito Santo é representada na iconografia católica por um pombo. traz uma narrativa de animais que me parece típica para o gênero e que me atrai entre todas. certos santos têm o acompanhamento de animais. não admitia o sacrifício de nenhum para sustento do homem. mais abaixo. com aquela sua generosidade de filósofo pobre. ora com aquela moralidade ou aquela outra filosofia.como simples companheiros. a vaca. os aspectos de bravura. Foi preciso que Cervantes nos pintasse o doce e resignado Rocinante. Os paladinos. São João Batista. de ímpeto. a fim de obter alimento. batizavam os seus ginetes de guerra com nomes flamejantes e significativos que ainda vivem na literatura e na memória dos homens. os "preux" esforçados das batalhas. os altissonantes de alma e couraça. sob a presidência do elefante. das fábulas. como toda gente sabe. o paladino dos paladinos. a minorar. Na nossa religião católica. esse hipogrifo cheio de candura que suportava candidamente os arrebatamentos do sonho generoso de justiça do seu amo e amigo. sentenciando. seja com qualquer outro sentido. O Sr. tem Bayard. sob pena de morte em caso de desobediência. mas meu propósito é outro e não convém perdê-lo de vista. e Buda. eles sempre viveram entrelaçados aos sonhos e devaneios da humanidade. o "bon cheval courant" da sua imortal gesta. crônicas e romances. Comte incorporou. os "clercs". galos. no seu conhecidíssimo livro. "A conferência teve lugar.a sua alma. para que o cavalo entrasse na literatura com a posse de sua alma individual. Ei-la: "O elefante. convocou um dia todos os seus súditos para uma assembléia. de Júpiter. falando. e todos os outros guerreiros de antanho possuem os seus "destriers" bem crismados e extremados da turbamulta dos cavalos anônimos. dando-lhe a larga visão da sociedade e dos homens . há o burro. a serpente. Reinaud de Montauban. É aquela em que se explica a origem de certas deformidades ou melhor singularidades morfológicas de determinados animais. com os quais se comemora o nascimento de Jesus Cristo. ora com esta intenção. narrando. em geral maçante. quando os animais se puseram a gritar: . na espontânea atividade literária de todos os povos. mas não nos deram as suas qualidades irredutíveis de caráter. etc. para esclarecer o meu pensamento. certos animais à própria Humanidade. galinhas. e nos presepes. só lhes viram as aparências. como era de esperar. Van Gennep. de coração e inteligência . o iluminado Çakia-Muni. quem não se lembra do irrequieto e falador papagaio de Robinson Crusoé? Dessa ave doméstica. exceto o caramujo. das justas e torneios medievais. é coisa fácil de verificar em todas as religiões. seja como atributos de sua força e do seu poder. Além deste animal. Quixote. Pode-se dizer que. que não é das mais naturalistas e zoomórficas. mas que no livro de Crusoé nos parece tão simpática. dos poemas hindus. um dos quatro filhos d'Aymon. orgulhoso e bom. que lhes contaram as façanhas nas festas. os pombos. de Minerva. e as conservaram para a nossa atual edificação. Rolando. para exibir leituras ou erudição. de Vênus e assim por diante. A que reproduzo aqui. A mistura dos animais com os deuses. Todos compareceram. Na greco-romana. discreteando. seja para sacrificá -los. os trovadores. rei dos animais. Rocinante não se parece com outro qualquer cavalo.

". a tua casa nas costas. respondeu-lhe o caramujo.Recebi-a. a maré enche ou vaza? O peixe que devia ser. contam as nossas velhas. levando naturalmente o filho ao colo. nós lhe vemos o estigma. É corrente. tendo morrido há pouco tempo. nos nossos dias. Em todo o caso. damas de sociedade e outras pessoas dignas de verem o seu "interior" estampado nos jornais catitas e revistas de elegância. Doravante. Contava-me. até a consumação dos séculos! Assim foi e ainda hoje. "." Diz o Sr. Passaram homens. Perguntou com toda doçura e delicadeza: . porém. meu saudoso preto velho o motivo por que ficaram malditos os gatos. cabinda de nação. para punir-te de ter faltado à conferência. Mas. mas veio a sabê-lo. Foram esses os motivos que me fizeram voltar e me decidiram a carregar a minha casa nas costas. que ele assim ficou por ter tomado a liberdade de caçoar com Nossa Senhora. Não é só esse animal que mereceu dos nossos deuses católicos punição ou maldição pelo seu mau proceder em relação a eles. que como castigo lhe deixou no seu corpo o justo ressentimento de nossa Mãe Santíssima. Andava a mãe de Jesus por uma praia.Tu falaste claro. "O elefante-rei riu-se muito e durante longo tempo com essa explicação. pai caramujo. sim. então. quando Nossa Senhora lhe disse: . bichos e ele pedia água. quando se aproximou mais das águas e viu um linguado que andava próximo. tu e toda a tua geração.. terás teus olhos na ponta dos chifres. muito fiel e dedicado. a fazer não sei o quê. quando os animais ouviam e falavam. um gato que Nosso Senhor julgou ser capaz de fazer a obra de caridade que o Homem-Deus suplicava lhe . não gostava de gatos e não me cessava de explicar essa sua ojeriza: . mesmo no prato. à mesa do almoço ou do jantar. depois de Pöe e Baudelaire. por esse tempo.E por que tardaste? Não recebeste a ordem? ". Nosso Senhor Jesus Cristo estava na cruz e teve sede. durante toda a vida. Manuel de Oliveira. passeando. pai elefante. Não havia meio de atinar se o mar estava enchendo ou vazando. O linguado não sabia com quem estava falando. Nossa Senhora não encontrava ninguém que a tirasse da perplexidade. sem lhe responder à pergunta. mulheres. os ramos me cegavam. é bicho "madiçuado" por Deus. Assim. Ninguém se importou e não lha trouxe."Seu Lifonso". estão em moda entre os literatos poetas. carregarás sempre. arremedou-a nas palavras e exagerou para melhor debicar o modo por que Nossa Senhora tinha articulado os lábios. Cachorro. Passou.Donde vens? perguntou-lhe o elefante. tu só me deste um pé para andar.. entre nós. gato é bicho do diabo. e poderás escondê-los.Vem aí o caramujo! Está aí o caramujo! "O caracol aproximou-se todo trêmulo. Van Gennep que certa tribo africana acrescenta a esta história a consideração de que o castigo não foi grande. Depois. de um natural mofador e grosseiro. um negro velho. como diz o povo..Da minha aldeia. Todos conhecem esse peixe que tem a boca numa disposição especial e anormal.".. a fim de pronunciá-los. e me pus logo em caminho. É bicho que Nosso "Sinhô" não gosta. ". logo que os ramos das árvores os ameacem. que viveu com a minha família e me viu menino de sete ou oito anos. assim disse: ". que. então. torta. e eu temo muito o frio e a chuva.Ficarás com a boca torta. porquanto o caramujo não precisou trabalhar mais para ter casa.Linguado. não procederam os nossos severos e terríveis deuses mais ou menos judaicos com o linguado.

tendo de mordiscá-los antes de enfiá-los na culatra das carabinas. havendo outras muitas que explicam a maldição de certos animais. Quando. nada valem à vista dos que ficaram esquecidos e à mercê das traças das bibliotecas. Por suporem ser de porco a graxa com que deviam umedecer os cartuchos de umas certas espingardas antigas. podemos afirmar que os animais irracionais. Algumas não personificam o Deus ou o Santo que os castigou. Rogou ao gato que lhe trouxesse um pouco d'água para lhe abrandar a ardência dos seus lábios ressecados. VII HISTÓRIA DE UM SOLDADO VELHO A literatura nacional possui obras maravilhosas que pouca gente conhece. julgam encontrar em tal coisa uma singular deformação de um totemismo primitivo e esquecido. sem . para pesquisas bacteriológicas.. levantaram-se em uma formidável revolta que pôs em perigo a dominação britânica nas terras do Ganges.Antes fosse eu! ai mô gado!" disseram-me que ele pronunciara ao chorar.Gato.fala o Manuel de Oliveira. os cipaios muçulmanos da Índia. outros.que é bicho mau e do "demônho". uma prescrição com fim higiênico feita religiosamente pela Biblia. . porém. Os livros conhecidos. o pobre português mostrava como aquelas humildes alimárias interessavam o seu destino e o seu viver. ". infelizmente. e vi em uma sua dependência. 17-4-1919. sobre as suas próprias vidas que nós erguemos a nossa. . "Seu Lifonso" . a "Jupepa" e o "Garoto". coelhos de olhar meigo e cobaias de grande esperteza. . Na sua manifestação ingênua. Num caso ou noutro. a locomotiva matou-lhe os burros. .E o cachorro.perguntava eu. É sobre o seu sofrimento. mas outras personalizam-nos francamente. A história de Manuel de Oliveira é muito conhecida e familiar entre nós. mas que. lembrei-me daquele "Manel Capineiro". a serviço da Inglaterra. tão poderosa sobre as almas duma grande parte da humanidade.Cachorro não fez isso. "Nosso Sinhô" mardiçuô ele pra sempre e até hoje "ele" é "mardiçuado" por Deus. agora não me acodem. entram mais na nossa vida do que supomos. há meses. ao atravessar a linha da Estrada de Ferro com o seu carro. desta ou daquela forma. É coisa muito sabida o horror que os judeus e muçulmanos têm ao porco e a tudo que a ele se refere. em gaiolas. que chorou. Há muitos dessa literatura subjacente que talvez nem tenham chegado aos depósitos oficiais de livros e permaneçam nos desvãos poeirentos dos "sebos". Manuel? . Hoje. estive no Hospital Central do Exército. quando certa vez.. sabe o que fez? Pois fez isto: "mixô" numa caneca e deu a "bebê" a "Nosso Sinhô". Muitos autores querem ver nessa ojeriza. citados e estimados. é bicho que tem parte com o “capeta”. por isso ele é bicho de Deus. Buscou água fresca e deu a "Nosso Sinhô". seja qual for a razão. português carreiro de capinzais da minha vizinhança. as suas deformidades.fizessem.

apesar de muito expressivo e curioso.. Lauro Müller e Lauro Sodré.. ditos e outras formas de dizer que se tomaram populares. O seu autor era. na antiga casa Mont'Alverne. Toda a gente sabe que esse verbo de jargão nasceu na velha Escola Militar. porque. terrestre ou flutuante. isto é. com divisas adequadas e outras coisas. um sentimento desses ou de qual. e agora não estou disposto a repeti-la. histórica. O Sr. a diversas pessoas de sua família.o que não impede de chamar o seu único filho varão de "unigênito". entre os meus poucos livros. tanto mais que na Academia Francesa já se tratou há tempos do "argot" parisiense. como toda a caserna. no prefácio. de anedotas picarescas. é sincera. muitos termos da nossa geringonça. Além de suas singularidades dramáticas e cênicas. em um prólogo. pelo Sr. nos leilões das livrarias das velhas famílias portuguêsas. esse encouraçado literário é precedido por uma porção de "vedetas" explicativas e contratorpedeiras de ofertórios significativos. Há um muito conhecido.. O autor. 47. A sua leitura. a peça do Sr. a fazer descobertas dessas relíquias. Trata-se de uma obra filosófica. e. manuscritos e "in-fólios". Ninguém mais a teve. como diz na capa. tem ou terá. havia de andar pelas lojas de livros usados. nasceram lá.quer admiração por esse senhor só pode existir nos que passaram por aquele estabelecimento de ensino militar. que interessem a qualquer período da nossa história. trata-o sempre de Sr. pode bem ser que fosse da Polícia ou da Guarda Nacional. Como este. A antiga escola da Praia Vermelha. Figueiredo Coimbra. quatro atos e quatro quadros. crítica. mas a minha . Todos os bibliófilos ricos do Rio de Janeiro podem comprar.encontrarem mão amiga que os traga para aquela forte luz da grande publicidade a que eles foram destinados ao nascer. de que nós temos a cortante e eloqüente imagem viva nos Srs. Rui Barbosa. o quase isolamento dos seus alunos . Não tenho documento para afirmar que fosse do Exército. dela se propagou pela cidade inteira e chegou até aos jornais e à literatura escrita. à rua Uruguaiana. de anexins e sentenças de sainete peculiar.A redenção de Tiradentes. tenho uma brochura desconhecida. Foi impresso nesta cidade do Rio de Janeiro. além destes. do 15 de Novembro. Prefaciado pelo falecido Figueiredo Coimbra. Se me sobrasse fortuna e lazer tivesse eu. o verbo "engrossar". cujo valor é para mim inestimável. mas tenho muitas razões para acreditar que tivesse passado pela legendária Escola Militar da Praia Vermelha. Lopes Trovão e mais sete próceres republicanos. porém. por longas páginas. era muito favorável à formação de termos de gíria. e aprovado pelo Conservatório Dramático. nunca! É um drama histórico. A sua obra que. capitão do Exército. Fernando Pinto de Almeida Júnior. denuncia uma admiração filial pelo Sr. republicana e cívica. ela pode fornecer ao exegeta arguto e ágil de espírito vasta documentação do sentir dos heróicos cadetes de 1889.. original brasileiro. em 1893. Almeida Júnior é preciosa porque foi onde pela primeira vez vi grafado. mais cívica do que as recentes canções militares que o carnaval fez esquecer."Às minhas filhas. Não é meu propósito. Os estudiosos dessas coisas que procurem determinar a sua origem. capitão Almeida Júnior. eu a fiz em anos passados. tendo o "visto" da polícia. pois há uma indeterminada dedicatória . senão fesceninas. A sua segregação parcial do total da sociedade. com todas as letras. como processo de formação de palavras novas. Bote." . Em falta de cronicons e códices manuscritos de antanho. oferece o seu drama a Saldanha Marinho. mas que não me atrevo a escrever aqui. ou parece ter sido. tinha. havia de encontrar muita brochura curiosa e reveladora de novos predicados intelectuais de seus autores. Imagino que tal se desse. Para mim. além de abracadabrante e cívica. analisar a peça singular do capitão Almeida Júnior. cuja conta não se pode bem fazer.lho de Magalhães.

A sua história. Hoje. Uma carta do doutor Audiffrent. de menino. Talvez sem fundamento. não registra a existência de fortes amizades de moço. e com um pensamento diretor que lhes acaricia a sua desfavorável situação social. Participando da sociedade em geral e sendo habitantes de uma caserna estavam. cambiantes. mas literato até à medula. de dedicações de uns alunos pelos outros. para ele sempre um ignorante. pois a sua vida. devia levar os cadetes a criar. embora por fragmentos e alusões figure no falar familiar. esses dizeres pitorescos saem das casas de jogo: "deu o suíte". que me foi fornecido pela ex-praça Francisco José dos Santos. a monotonia da vida que exige conversas. Entretanto. Euclides da Cunha manifestou. justificava essa crença. Voltemos ao assunto. algumas qualidades e atributos que vieram encontrar a sua expressão máxima em Euclides da Cunha. em que a rigidez de certo positivismo estreito e pedante não domina mais. uns modos de linguagem própria e literatura oral sua. essa capacidade de criar gíria. no seu estilo. Nas pequenas revistas da velha escola da Praia Vermelha. há sempre a preocupação de demonstrar saber universal. seus ardis ou esperteza de meios destros. abandonos. entretanto. desdém pelas impressões do primeiro instante. Entre os soldados propriamente. de homem de ciência que despreza o simples escritor. o encontro forçado ali de gente oriunda de vários lugares.do resto dos homens de outras profissões e ofícios. Aquele estabelecimento tinha. etc. no Ceará. e todo ele cheio de um orgulho intelectual desmedido. portanto. dos quais publico hoje um. que entre nós são em geral originários das mais humildes camadas da sociedade. "bancou o trouxa". que sempre foi uma criação do pendor dos homens para o seu agregamento. No seu escrever. O Sr. modificações e derivações na linguagem comum. devia aparecer algum que colhesse da boca dos soldados exemplares dessa literatura plebéia. criados com os elementos que lhes estão à mão. levadas ao extremo. os seus alunos muito adequados a trazer para a massa os modismos que o quartel criava. Era corrente até bem pouco. e ter tido ela influência decisiva nos nossos motins políticos. contos. a demonstração das recriminações dos soldados. talvez. Nessas historietas e anedotas. certamente. a influência do seu primeiro meio intelectual e o seu orgulho mental devia tê-lo tomado muito cedo. de proveniências familiares as mais diferentes. nos seus escritos. além do calão quarteleiro. e também nas anedotas e "casos" contados pelos seus ex-discípulos. Sinais dos tempos? Não me compete examinar tal coisa. Alberto Rangel é o único que assim é apontado. até ao rebuscamento dos vocábulos raros. Não se nota. que talvez não tenha muito de original para o comum. natural de Aracati. pândegas adequadas entre eles. que aquele instituto de ensino era o primeiro estabelecimento científico do mundo. além dessa feição peculiar à sua natureza. A sua alma era seca e árida. Entre os nossos jovens oficiais. tinha a pretensão de filósofo. que a tornava ainda mais seca e mais árida. de grande sociabilidade. pode-se notar esse modo de espírito peculiar a ela. de criança. Não possuo muitos. com estes ou aqueles elementos. e os consola da sua pobreza e do seu estado de obediência e inferioridade. até à tortura de procurar um estilo original e inconfundível. a Escola Militar era de fortes camaradagens. Tendo estudado difíceis disciplinas e. há histórias. pejado de metáforas e comparações científicas. quanto à exigüidade dos vencimentos de suas reformas. é. sem o sentir. sobre os seus superiores civis ou militares. tanto mais interessante quanto desconhecida do grande público. entre seus alunos. . mas tenho alguns. Daí. as conhecendo. desejo de esconder a colaboração do inconsciente sob a crosta espessa das leituras. suaves esbatimentos nas transições. há sempre como moralidade a vingança ou a vitória da praça com seu espírito. discípulo de Augusto Comte. eu creio mais literária do que simples e espontânea amizade de colegas de mocidade a que existia entre eles. Atualmente é contínuo ou servente da Secretaria da Guerra. que anda contada de boca em boca. com o seu cômico reduzido.

Após certo espaço de tempo chega um frade para penetrar na casa e pergunta-lhe o que estava ali fazendo. puxou uma cadeira e sentou-se. e ambos entram. não cessou de falar. Vamos. Chega a noite. A dona da casa continuava furiosa. À vista disto. ele disse o custo de dois cruzados. pois. quando eu era efetivamente oficial da Secretaria da Guerra. ao qual não faltou o pato de cabidela. quando me contou a história do "Soldado velho" era ainda cabo efetivo do exército. um dos estafetas para entrega da correspondência. Eu a dou mais abaixo quase como o ex-cabo ma forneceu por escrito. representantes das classes que antigamente disputavam o domínio da sociedade. O frade não tinha dado até ali uma palavra. O soldado. vendo que todos já estavam dormindo. servindo na Secretaria como "correio". o soldado o acompanha. Já estava a terminar o jantar quando bateram à porta. O frade gratificou-o com um conto de réis para que ele nada mais dissesse. Pediu-lhe este que não falasse ali. . provocou uma conversação com o frade. que parecia peculiarmente muito íntimo da casa. Recebeu o dinheiro o "Soldado Velho". O seu companheiro. se tal fizesse. e assim vão os três até à hora de jantar. "Soldado Velho" que bispou alguma coisa no caso disse que estava à espera do pagamento de um pato que vendera à família. para ver se ele se calava. O frade logo perguntou quanto era. manda pagá-lo. nem com coragem para perguntar ao frade que homem era aquele. portanto. que lá não são civis como nas outras secretarias. Deu-lhe o frade mais outro conto de réis ficando sem vintém. vai falar à patroa. fazendo das tripas coração. O frade tomou lugar na mesa. Dispõe-se depois a entrar na casa. mas aceitava silenciosamente a situação. O soldado que recebia em recompensa de muitos anos de serviço era um cruzado. O religioso puxa do bolso da batina o dinheiro e paga. mas praças de certa graduação. dizendo uma coisa é outra sem relação com ele. O marido não saiu mais e a mulher cada vez mais ficava amedrontada. mas o outro continuou a falar. ficou interiormente furiosa. mas imediatamente continuou a dizer que no dia que comia pato não podia ficar calado. A dona da casa vendo o frade entrar. a praça reformada. por não servir mais para o trabalho. Chegando perto de uma casa saiu-lhe uma criada a comprar o pato. tem aquele velho espírito de antagonismo entre o padre e o soldado. Estava tudo perdido. que manda vir o pato e. o "Soldado Velho" também. "Soldado Velho" teimou em afirmar que no dia em que comia pato não podia estar calado. eles . porém. a mulher tranca o frade e o soldado em uma alcova. e o "Soldado Velho" também. "Soldado Velho". mas sem saber o que devia fazer. Chegando na sala. isto é. Era o dono da casa. porém. por sua vez. além do mais. deu-lhe a batina de sêda. quando foi aí pelas 10 horas. a criada. vencendo uma minguada diária. acompanhado por aquele homem desconhecido. o que fez ele? Comprou um pato e saiu a revendê-lo. O eclesiástico não lhe explicava o fato. lê-la: "HISTÓRIA DE UM SOLDADO VELHO "Soldado Velho" deu baixa do serviço do Exército. Santos. o frade. O frade já lhe pedia pelo amor de Deus que não falasse mais. ela. mas. Ora. pois. o militar fez o mesmo. Ele disse que o custo era de dois cruzados.Não parece muito recente. não saiu mais do portão.

desta ou daquela seita ou fé religiosa. mas com a condição do dono da casa mandar a sua mulher contar e trazer ali onde estavam. o seu desejo era só falar. vendo nos seus contos. O homem. fábulas. O homem chamou a mulher e mandou que ela contasse os contos de réis com toda a pressa e os trouxesse. onde os sociólogos profundos atribuem as nossas. Isto não quer dizer que todos os homens. as superstições abundam. se ele o soltasse. ali e acolá. O dono da casa certamente despertaria e era capaz de matá-los. O homem. a depósitos na nossa consciência de crendices africanas. vexado. Dá-se lá o que se dá entre nós. O Sr Van Gennep diz que da Cendrillon de Perrault. há mais de quatrocentas variantes. "Soldado Velho". a maquia. Quem pagou o pato? Hoje. Os estudiosos de folclore já têm observado essa unidade espiritual da raça humana. "Soldado Velho" pula em seguida ao dono e o prende. mas é idéia feita que só os italianos o sejam e um pouco os espanhóis. O dono da casa. É própria da nossa fraqueza mental essa pressa em explicar com criações arbitrárias o que não podemos cabalmente elucidar de outra forma. dar-lhe doze contos. "Soldado Velho". quando não tupaicas. saiu da aventura com 14:OOO$. Já sendo meia-noite. pois ele. tanto mais que o preso tinha dado um tiro num homem. cantigas. sempre procura nas coisas externas sinais seguros do seu destino e marcos certos para o seu roteiro na vida. "Soldado Velho" não queria saber de nada. Na Europa. vendo a resolução do "Soldado Velho" e que tinha mesmo de ir à presença das autoridades. mas "Soldado Velho" não queria saber de nada. . que era pessoa de grande reputação. VIII SUPERSTIÇÕES DOMÉSTICAS Houve quem dissesse que a superstição é a religião do homem que a não tem. Estava o "grosso" preso e bem preso. É uma atividade fundamental do nosso espírito que se traduz de vários modos desde os samoiedas e esquimós até os araucânios e patagões. O frade. de todos os tempos e todos os países. que só vencia um pobre cruzado por mês. quatro cruzados. O frade. não as tenham também. na cadeia. acompanhou o frade. cheio de mistério e cercado de mistério. Este pulou uma janela mas o dono da casa pula atrás dele e dá-lhe um tiro. as mulheres principalmente. era o rondante e tinha que cumprir o serviço. vivendo aqui. com medo. "Soldado Velho" aceitou o trato. que ainda não estava vestido com a batina. propôs ao militar. o "Soldado Velho" ouviu e respondeu com outro formidável brado. Todos nós sabemos disso.ficariam desgraçados. ritos particulares e superstições uma relativa analogia substancial de temas a se manifestar com aparências narrativas de formas variadas. percebendo que não tinha mais o que dar. conhecida por nós como A Gata Borralheira. não quis logo sujeitar-se à prisão. Assim foi feito. 10-4-1919. em qualquer parte dela. ele que era muito conhecido e respeitado por todos. que. meteu as mãos na porta e saiu nu. a batina de sêda do frade e todos os seus panos menores. desde a Europa até ao Extremo-Oriente e à nossa América. soldado. às vezes são bem européias. daí essas simplistas generalizações de nossos falsos sábios. quanto às origens das nossas crendices e abusões. despiu-se de toda a roupa e entregou ao tagarela para que ele não falasse mais. Não podia de maneira alguma soltá-lo. a sentinela soltou o brado de alerta.

e cheguei mesmo a projetar. vaticina grandes desgraças domésticas. Desde menino. não é a de fazer um estudo mais amplo sobre o assunto. Todas as superstições caseiras ou familiares têm quase sempre por base o temor dos gênios. às vezes. Já o notei. com os níqueis que ajuntava em um cofre. não se podendo. que acarreta moléstias. essa ave é na mitologia consagrada a um Deus ou Deusa que. entretanto. a Atena grega. em um caixão de sabão. Os pombos. pousados nas árvores. Nunca em casa me permitiram que eu os tivesse. Negam observadores autorizados essas proezas da cobra. pois. mortes. como sempre com os meus gostos. sinal de prosperidade no lar. gosto muito de pombos. desde que comecem a fugir.O que se dá com a conhecidíssima Gata Borralheira dá-se com quase toda a produção literária coletiva e anônima cujas manifestações são encontradas em todas e as mais diversas partes da Terra e na boca de raças diferentes. tão cheia de legendas aterradoras e de habilidades cruéis. como negam também que ela atraia o passarinho que quer engolir. demonstrou a existência na África do Norte de múltiplos temas. é consagrada a Minerva. A ferradura. errando este. mas. de trazer a satisfação para a casa que a possui. É artigo de fé entre a nossa gente roceira que ela não morde mulher grávida. nas minhas conversas com pessoas do povo e gente humilde. A serpente também. a cobra vem certa pela fumaça do deflagrar da carga da espingarda e morde o atirador. Em toda a parte. possuir um casal. vai uma grande distância. A minha tenção. perdas de emprego e outros acontecimentos nefastos à vida satisfeita do lar. por essa abusão familiar de nossa gente pobre. entre os matutos a recomendação de que se deve visá-la bem quando se a quer matar a tiro. Os roceiros dizem que a cobra salta para morder o indivíduo que a afronta. mas os sábios negam isso. É uma crendice geral que qualquer observador pode colher entre as famílias pobres e remediadas. atravessando gerações e as situações mais diversas de fortuna das respectivas famílias. entretanto. não distingo no objeto deles o que é de luxo ou o que é comum. que não é o vulgar. segundo a minha fraca lembrança. sem nenhuma outra pretensão mais elevada. e perde o poder de locomoção desde que a mulher dê três voltas no cordão que lhe amarra as saias. algumas. e. registrar impressões. Nas manifestações da psicologia popular. e o bramanismo simboliza nela o infinito. mas para a qual será muito difícil achar uma razoável explicação. nada tem de maléfico. das forças. Há até. determinar o foco de sua irradiação. indicam que as coisas vão desandar. ou eram no meu tempo de menino. que eram na antiguidade consagrados a Vênus e cuja posse no regime feudal constituía um privilégio de senhor. pelo menos nos países europeus e os que surgiram deles. dar o meu depoimento individual. o pombal. O certo é que quem tem vivido na roça ouve. têm por fim invocar a felicidade e pedir a prosperidade para ele. porém. Todas elas se dirigem contra o Azar. porém. Muitas vezes. a coruja é tida como uma ave de mau agouro e o seu pio. ouvido à noite. a nossa cobra. apanhada ainda quente dos pés do cavalo quando a perde. mesmo porque não me sobra nem a competência nem a vasta leitura que ele exige. misteriosas contrárias à nossa felicidade. mas disso a afirmar que seja devido ao "magnetismo" da cobra a atraí-lo. tem a virtude. . quando a representa mordendo a própria cauda. com o estudo dos árabes e berberes. Tento unicamente com o que tenho observado e ouvido. dizem. O autor que citei diz que a conquista da Argélia. são perseguidos. um modo particular de gemer dos passarinhos. quis. arrulhantes pombos das beiras das casas. pregada atrás da porta da entrada. uma das mais curiosas é a superstição caseira que se transmite de pais a filhos. É crença familiar entre nós que os pombos são. quando se reproduzem muito. gozando de uma extensa voga na Europa Central.

tendo como fito perturbar a felicidade da nossa existência. leva-nos às mais curiosas e inesperadas superstições domésticas. sem certeza do que fomos. quando as religiões não nos satisfazem. porque traz azar.. é para essas pequenas e ingênuas crendices que ficaram guardadas na nossa memória.. é porque não as encontro à mão.. A luta contra o azar. porque traz azar. o povo atribui poderes superiores e miraculosos de várias aplicações. se não as transcrevo aqui. à custa de regrarem a nossa sede e fome de Infinito e de Deus. e assim são inúmeras as superstições que procuram evitar o azar e todas elas são obedecidas cegamente. coisas misteriosas. a "coisa feita". desde a meninice mais tenra. 27-3-1919. nascida da convicção de que a nossa sorte é insegura e que somos cercados de entidades superiores e pouco amigas da nossa felicidade e repouso. porque traz azar. há também o costume de escrevê-las e enviar pelo correio aos amigos. IX REZAS E ORAÇÕES A oração. nos abarrotam de tolices e patranhas manhosas a enfarar. quando elas. porque traz azar. não só nas freguesias afastadas. Para evitar tais coisas. Hoje. sem marcos. . às vezes mesmo orações com a invocação de certos santos ou palavras cabalísticas. à reza. mesmo por aqueles que se julgam livres de tais crendices. há as que se empregam em conjuração de moléstias. perante o que vier. e. que é como caminhamos na nossa breve existência. ninguém deixe um calçado com a sola voltada para cima. o "azar" . espontâneo e inexplicável ou provocado pela inveja de inimigos e desafetos. Além desse amuleto e dos santinhos. porém. Eu não deixo nunca o meu chinelo virado com a sola para o ar. afastar o "mau olhado". No que toca a orações. e elas nos guiem na nossa vida e nos desculpem. ninguém quebre um espelho. porque traz azar. devem-se trazer. que nos voltamos para que a obscuridade do viver não nos cegue de todo. mas mesmo nas centrais.Na sua generalidade. as crendices populares visam evitar. mas os lares também têm. há a figa-de-guiné. há outras para a proteção contra feitiços e "coisas feitas" de qualquer origem. os "breves". ninguém ponha uma vassoura "de pernas para o ar". Chamam a isto pequenos saquinhos. a nossa mais urgente necessidade é estar bem com o mistério. para afastar desgraças e feitiços. depois da nossa morte. ninguém vista uma meia ou outra peça de roupa pelo avesso. do que somos e do que seremos.. com a recomendação de repeti-las tantas vezes e passá-las adiante. Tenho nos meus papéis um espécime dessas. contra a incerteza do dia seguinte. que os indivíduos usam. pendurados no pescoço. Há as que são destinadas a fins de cura. e. Ninguém derrame tinta ou azeite no chão. Nesse debater nas trevas da nossa vida terrena.

Volta .A FELICIDADE! Ele é o único que possui os MIMOS NUPCIAIS. e não sei como explicá-la.É corrente. nas primeiras horas da manhã. na crença da nossa gente. Os que anunciam nos periódicos não me merecem interesse. moças e velhas. tem entrevista com os repórteres. em um dos nossos jornais. Hadjina. de todas as condições. não. "rezadeiras" são mais poderosas que os homens no seu comércio com a Divindade e com o Mistério. precisa ir aos "barbadinhos" ou rezar nos "barbadinhos". onde está o túmulo de Estácio de Sá e no cunhal da qual existe o marco quinhentista da fundação da cidade. que se diz na Igreja da Cruz dos Militares. em que se maranham raparigas e senhoras. Os homens são quase todos de idade. Não sei em que dias é a assim chamada. distribuídas pelas cartomantes-feiticeiras. em ruas sombrias e pouco transitadas. a frase: "Você anda caipora."ela" disse! . entre duas pequenas ou garotas. de raparigas de vida airada e outros devotos do Acaso. para lavar-se de culpas e pecados peculiares a seu sexo. já ouvi o seguinte diálogo. Os "barbadinhos do Castelo" entram sempre em tudo que se alude a benzeduras. que vivem acorrentados aos seus caprichos. Passeando nos subúrbios. mas há também as particulares. cujo convento é no morro do Castelo. São cínicos demais e os seus anúncios de extremada publicidade. Nas tricas galantes mesmo. Outra missa muito curiosa é a chamada das "arrependidas".O PROFESSOR BAÇU . mas as mulheres da cidade a freqüentam. Ele vos fará um trabalho rápido e perfeito para que nesta reunião "reinem" A PAZ .A CONCÓRDIA . como toda a gente sabe. Muitas vezes. da igreja mais antiga da cidade. por aqueles que querem vaticínios certos de vida amorosa. como chamam hoje os namoradores profissionais: . pitonisa Os sucessos políticos. atualmente. Nunca a ela fui. médiuns femininos. .Desvio das correntes adversas que surgem na vida . Vejam só este. há algum tempo: "MISTÉRIOS DA VIDA . que são procuradas pelas informações de boca em boca. nas freguesias rurais. Há a cartomante quase licenciada que anuncia nas gazetas. Todas as esperanças daqueles e daquelas que o amor abrasa. detentores. mas muitos que lá foram me contam que tem uma freqüência segura de jogadores de todas as classes. e uma das suas missas. porém. mas as mulheres. que há por aí e vivem com favor dos seus poderes sobre-humanos de unir corações e fazer toda a sorte de felicidades. é na cartomante. professores-cartomantes-feiticeiros. creio que a primeira sexta-feira do mês. A religião católica não quis sacerdotisas nas suas cerimônias. desafiando a polícia são a mais segura demonstração do seu charlatanismo explorador.portanto do sacerdote católico que a oração." Os "barbadinhos". aparecido.Qual! fez a outra lacrimejante. o povo prescinde do sacerdote ungido regularmente e escolhe um outro que ele mesmo sagra e consagra. é tida entre os supersticiosos como possuindo a virtude de afastar o azar.Ide vos casar? Quereis vos casar? Tendes dificuldade de obter noivo ou de realizar vosso enlace? Não sois feliz com o casamento? . sobretudo. o caiporismo. Não é unicamente. etc.Procurai o Professor Baçu. É o "rezador" ou "rezadeira"."Ele" volta. com o auxílio da missa .Volta. que se encontram. sim! O que é preciso é você rezar a oração. com as quinas do velho reino lusitano. nos feiticeiros machos. exerce poderes maravilhosos e extraordinários sobre a causa da nossa vida e da nossa consciência. Nunca me foi dado ler uma oração destas. muito pouca fé têm os amantes e namorados nos hierofantes. são os capuchinhos italianos. mas as antigas não passavam sem elas e a crença geral e popular é que as feiticeiras. .

Disse-me a pessoa que as lagartas se foram enfileirando militarmente e saindo processionalmente pela abertura. a ilha não era o Petrópolis de quinta classe que o meu amigo Pio Dutra está fazendo ou dela já fez."a fortuna. Ela veio e colocou cruzes de graveto nas bordas da plantação deixando na "cabeceira". CLEMENTE N. devido à decadência de suas culturas perseguidas atrozmente pela saúva. exercendo um pequeno emprego nas Colônias de Alienados.o 183. quase sem comunicações diárias com o centro urbano. dia de nascimento e sintomas. aspergindo os cantos com uma certa água "rezada". sendo doutor em medicina. lenhadores e carvoeiros. Têm fé no seu mister e a sua sinceridade comunica essa fé aos outros. mostra bem que a clientela não lhes falta. Benzem outrossim as plantações. Também possui as fórmulas em "líquidos e sólidos". isto em 1890. erisipelas. abandonada pelos seus grandes proprietários. Benzem ou rezam também as casas. Rezam tudo. Tendo dado as lagartas em uma sua plantação de feijão. desesperado consentiu ele que chamassem uma "rezadeira" famosa. em toda a localidade. É morta a pessoa que me contou. uma abertura maior. preparadas com as pedras "Natal". Faz todo e qualquer trabalho. e muitas vezes narrou-me esse surpreendente espetáculo. em larga escala. não pode merecer um pingo de atenção. que teve uma fazendola. As "rezadeiras" são ajudadas por facas. recentemente fundadas pelo governo republicano. com os quais. pela eficácia dos seus exorcismos. aproximações de pessoas afastadas e realização de qualquer negócio considerado irrealizável.Aos que sofrem. há entre o ceu e a terra. aspersão que se faz com o auxílio de um ramo de alecrim ou arruda.. isolada do Rio de Janeiro.." Leram? Há tanto cinismo e tanta desfaçatez que aquilo que um mago anunciante nos fornecer em "breve". que tenazmente se batiam contra a implacável formiga. idade. apanhadores de suas frutas semi-silvestres. pescadores e alguns roceiros portugueses. os "benzedores" e "rezadeiras" não são desse quilate. Horácio. e pessoa digna de fé. contou-me um caso a que já aludi no meu Policarpo Quaresma. e era muito digna de fé. Quando meu pai foi para a ilha do Governador. de abóboras. Vivendo. Botafogo. A credulidade humana. acompanhado de envelope selado ao Capitão José Leão. de batatas-doces. Chamam a isto "cortar" a dor ou a moléstia. acompanham o balbuciar da oração adequada. fazendo sucessivas cruzes ou outros sinais cabalísticos sobre os pontos afetados do corpo do paciente. ou era. de quiabos. não tem fundo. mesmo a distância. e até de melões. Peçam prospectos. estava toda ela entregue a moradores pobres. há alguns anos. o que atrairá para vós . como tendo visto com os seus próprios olhos. por assim dizer. Na roça carioca. pelas bandas de Guaratiba. Essa espécie de "enclave" que era a ilha do Governador naquele . como caju. e dores vagabundas e sem explicação. fazendo roças de aipins. Horóscopos. de melancias. NOTA . Reside com sua família à RUA 5. usadas pelas mais formosas mulheres da celeste Jerusalém.verdadeiras relíquias. porém. de pesquisas e investigações para a descoberta de fatos de caráter mais ou menos íntimo. Combate todos os males físicos e morais e todos os malefícios. Rio de Janeiro. ameaçando mesmo matá-la de todo. obtendo reconciliações. peço nome. pôs-se nos pés e começou a rezar. entre as cruzes que havia na "cabeceira". diagnósticos e prognósticos. Mas as suas especialidades são para curar certas moléstias particulares às senhoras: "cobreiros". como ia eu dizendo. a fartura e os ensejos de feliz ventura". em amuleto. anéis e outros objetos de metal. apesar das perseguições da polícia. e a insistência com que este e outros apregoam. oração ou quer que seja. com a mais luxuosa publicidade. os seus poderes e as suas virtudes excepcionais. Essa usurpação de atributos sacerdotais por particulares é feita.

porém. No artigo anterior. agente do Correio. um verdadeiro triunfo ao comandante Marchand. no ano de graça de 1913. Hoje. o obscuro . Esta oração foi enviada pelo Bispo Rio l.na esplanada defronte à ilha da Freguesia. rogamos a Deus que se contemple de compaixão e misericórdia e perdoai-nos por vossa Mãe santíssima. muito infelizmente mesmo. X RESTOS DO "TABU" ANCESTRAL O comandante Baratier." Aos leitores que têm fé. no Galeão. apesar da minha vaga e imponderável religiosidade. aqui pertinho da capital do Brasil. na reza. isto é. em número determinado. no Sudão egípcio. toma este ou aquele aspecto bárbaro e tosco. com uma ovação. Não a tinha encontrado. eu e a minha família. no mundo inteiro. A ilha não tinha vigário e o culto da população aos santos de sua fé era feito por intermédio de certos capelães rústicos. 3-4-1919. e aqui a dou tal e qual. Jesus Cristo rogamos a vós por nossos pecados e vosso sangue derramado na Cruz por nós. favorecendo-nos nos nossos propósitos. pelas tropas francesas. e o povo francês quis mostrar a sua reprovação ao ato do seu governo. para mais eficazmente agir no perímetro urbano da nossa cidade. Jesus Cristo Senhor Nosso. que deve ser hoje general. Do lugar em que morávamos. entre os meus papéis. entoavam nas cabanas ladainhas e outras orações. o Jorge Martins e outros. Em Jesus a bem dizer que quem não fizer caso desta oração sofrerá um castigo grave perda em família. Conforme a recebi. Encontrei-a. mas é sempre tocante e penetrante por isso mesmo. infelizmente. por intermédio do carteiro.o de janeiro de 1913. confesso que não creio. citei esse ato de distribuir. próximo da venda do Joaquim. Senhor Jesus Cristo. Quem tiver esta oração deve distribuir durante nove dias a nove pessoas cada dia uma e no fim dos nove dias terá uma alegria em sua casa. Elevado assim na estima popular. profundamente rural e pobre. e. foi encarregado por Marchand de abrir a sua marcha através das origens ocidentais do Nilo. eu peço que sigam as prescrições que essa oração recomenda. Que fim terá levado? Essa forte crença na oração. transcrevo abaixo: "Oração S. próprias ao divertimento. pediu auxílio ao Correio.tempo. aqui e ali. orações escritas que devem ser lidas um certo número de vezes e enviadas a outras pessoas amigas. pintor. ainda me lembro do nome do respectivo capelão: . quando chegou a Paris. "rezadores" ingênuos e ignorantes. sem nada mudar ou omitir. Ainda é da memória de todos a repercussão que. foi que me deu uma reduzida visão de roça e de hábitos e costumes roceiros. teve a ocupação desse lugarejo desconhecido. Ela não abandona a nossa gente humilde na sua obscura luta contra a miséria. hoje e sempre eternamente por todos os séculos dos séculos. o "Minhoto". tendo como adestrados disputadores das sortes. fazendo desocupar aquele lugarejo do alto Nilo. Cheguei a ver lá cavalhadas . em demanda de Fáchoda.que pobres cavalhadas! . Não as segui porque. A guerra quase estalou entre a França e a Inglaterra. contra a política e contra a moléstia. Amém. acompanhados pela assistência.o Apolinário. que diante de toscos oratórios. intimamente. que buscamos como alívio para as nossas dores morais e como uma súplica à Divindade para que intervenha na nossa vida.

a sua parada teve um retardamento imprevisto e os viveres se esgotaram. tenha por causa um motivo qualquer higiênico. Há um outro mais estranho. ces feurs sont de la viande". ainda na infância da civilização. Assim ele descreve a emoção de tão auspicioso encontro: "A leur vue tous les regards se sont allumés: ces fleurs sont vivants.. referindo-se aos selvagens que os perseguiam na sua fuga. Baratier. que tabu quer dizer que certa coisa é de tal forma sagrada que ninguém pode tocá-la sem chamar a maldição dos Deuses sobre si e sua tribo. empreendeu a viagem com vinte e cinco atiradores senegaleses. não tomam parte nele. O gigantesco paquiderme jaz no chão meio decepado.soldado colonial convenceu-se de seu excepcional heroísmo e desandou em delirar de orgulho. a qual tem o hipopótamo por totem. avoengo da tribo. Essa aventura não é das mais eloqüentes. . Reinach. "Djingues". e todos encontravam na morte seguro asilo. Moribah: . Isto aqui é tabu! E não vieram. não permitiria haver entre nós. dizer para os seus companheiros que vão encontrá-lo numa altura em que estava sepultado um chefe "maori". Os leitores de Jules Verne. a convite. Os homens impacientes de fome apanham os bocados de carne apenas sapecado e. ele e o intérprete. dizia ele. os devoram caninamente. Acredita o sábio francês que esse ódio de Mafoma ao toucinho provém paradoxalmente de um totem que se obliterou em ódio. que acabou pedindo demissão do Exército francês. contesta que o horror que os judeus e muçulmanos tem à carne do porco. . essa raça atroz do capitalista moderno onde. Não só os negros. devem lembrar-se de que forma o encantador romancista da infância tirou partido dessa curiosa superstição. Se a religião católica tivesse esse poder sobre as almas. também. mas logo os seus guias locais. num dos seus interessantes livros de vulgarizaçao. dez auxiliares de outra proveniência e um intérprete árabe. ela. no seu manto de linho néo-zelandês. a religião do amor ao próximo. só poucos da expedição. certa vez. e totem diz-se do animal que é tido como parente. para ir servir no russo. apesar de me parecer inútil. da pobreza e da humildade.Ne tire pas". Baratier ia apontar a carabina para abatê-los. para demonstrar a força e o poder dessa crença do totem sobre as almas infantis desses povos retardados. que habitava aquelas paragens. A sua viagem é muito interessante e dela ele próprio publicou uma viva narração. como eu o fui apaixonado em menino.Não tenham medo! Subam! Eles não virão até aqui. Com fome. de quando em quando. em horror. embrulhado até ao pescoço. fazendo tal coisa. O legislador mosaico não podia ter cogitações dessa natureza. ela vai buscar seus condes. navegando em águas quase livres. Após um instante de reflexão. a crescer numa ilhota. Convém dizer. que são brancos.. O fogo crepita. embora não fosse. São seis atiradores senegaleses da tribo Keita. A fome continua e eles acabam abatendo um hipopótamo. avistou uma porção de grandes "marabuts" empoleirados nos galhos de uma árvore. se assustaram e ele viu bem que. ocidentais. Tantas fez. Naquele banquete repugnante em que há fome de feras. entre os quais Moribah. Emaranhado numa teia espessa de ervas aquáticas o "umsuf" (ounun-souf). os perderia irremediavelmente e toda a nação "Djingue" declarar-lhe-ia guerra sem tréguas. retomando o meu primitivo propósito. Ainda estou a ver o meu amigo Paganel. segue o conselho do seu sargento. no último volume de Os filhos do Capitão Grant. O "marabut" era tabu. às dentadas. oriunda de uma prescrição da Bíblia. com o correr dos anos. do próprio Czar. por isso fica tabu. por ser totem da tribo "Djingue".

Ave assim sagrada. dizem que o urubu é protegido dessa maneira. sobre o porco. tendo eles por ofício limpar a superfície do mar. estou certo. Os pescadores não os matam porque. empurrando-os para a praia. como eu que não tenho nenhuma competência. mas entretanto o povo não o persegue. Todos conhecem esta canção que as crianças entoam por aí: Urubu veio de cima Com parte de dançador. socorrem os náufragos. Ora! Dança urubu! . ficando. que é aí mais troçada amigavelmente do que mesmo debochada com azedume. as estradas das carniças putrefatas. por isso. como todos nós. na verba iluminação. Todos que viajam na nossa baía conhecem-no.Não sei dançar! Urubu veio de cima Com parte de homem sério. prestar-se-ia. O urubu é absolutamente inútil para qualquer fim alimentício ou outro por ser repugnante e nauseabundo. nenhuma antipatia contra a ave carniceira. é o do urubu. com o bôto. a impotência das leis. É muito conhecido esse peixe que vive à flor d'água. Organizou ministério. como fazem com tudo que bóia nas suas águas sem medida. há uma crença semelhante a esta do urubu. apesar de quase nunca se lhe ver a cauda e a cabeça.urubu malandro. mas não ressuma dela. pergunta de si para si. devido a obsoletas posturas municipais. Se não se presta para alimento. Os eruditos. por ser gorduroso. muito ao contrário do que se dá com o porco entre os judeus e muçulmanos. Um caso muito corriqueiro que deve ter chamado a atenção dos observadores para ele. girando como se fosse uma roda. dois terços mergulhados. se o urubu não foi totem para os nossos afastadíssimos avós. a ponto de viver entre a criação. Chegando no palácio. a opinião de Reinach. Não sei toda a cantiga. tabu até hoje. os senegaleses de Baratier esfomeados preferiram alimentar-se com a carne imunda de aves semelhantes a servirem-se do seu hipopótamo totêmico. Entre os pescadores. e quem leu. mas. Com o bôto. podemos na nossa vida vulgar aventurar que certas usanças se enraízam naquela crendice do totem. assim mesmo. porque limpa os arredores das casas. o urubu não é odiado. Por que não se o mata? É um pássaro repugnante. as ruas. nos quintais de certas pequenas cidades do interior. não leva muito a sério a última explicação. Quem conhece. eu faço essa consideração porque entre nós. não se dá o mesmo. ela o é no dizer do povo. . Entretanto. porém.há cantigas e várias peças de folclore em que o urubu entra com relativa simpatia. porém. com o urso de Berna. Vemos só o seu dorso azulado a revolver-se nas águas azuis ou verdes do mar e é dos grandes prazeres das crianças que tomam a barca de Niterói. Há frases .Sem procurar os outros vestígios do antigo totemismo nos costumes atuais. Aventurando em mar ignoto. à extração de azeite que poderia aliviar um pouco. nenhum deles se lembra disso e o bôto vive na segurança sob um tabu . os orçamentos praieiros.

de chapinhas. dava de lucro. O tipógrafo tinha razão e ele mesmo se encarregava de fortificar a minha convicção do império excepcional que o "Jogo do Jardim" exercia sobre a população carioca. o tipo de compras era este: um tostão de café. que inoculam no nosso organismo não sei quantas doenças. Há outras aves. além de compor os jornais. por mês. Todas ressumavam esperança na sua clarividência transcendente para dizer o bicho. pois propaga a epizoetia.que desapareceu. auxiliar de bruxas e bruxedos.. todos vinte e cinco animais da rifa do Barão. Aos poucos fui tomando conhecimento com o pessoal. nas vendas da minha vizinhança que. A Mascote e O Talismã. Mostrou-me pacotes de cartas de toda a sorte de gente. em setecentos e poucos mil-réis. era de todos camarada. perseguido pelas crianças. de palpite deste ou daquela. que não são perseguidas. mantendo estreitas relações com o proprietário de uma tipografia. e. XI COISAS DO JOGO DO "BICHO" Há alguns anos. é bendito pelos higienistas. A extensão que os nossos atuais estudos médicos têm levado ao exame de certas moléstias. sob este ou aquele disfarce de seções. por exemplo. um ou dois de açúcar e um Bicho ou Mascote.. Solicitado pelas informações do jornalista "animaleiro". Li algumas.imemorial. nefasta ao gado. como também certos insetos. O urubu tão sagrado pelo povo. 10-8-1919. a regular por aí assim. na média. redigia-os também. rendiam mais. 50 mil-réis por dia. em breve. o sapo. com o cuidado indispensável em tais jornais-oráculos de por.que suga moscas. de senhoras de todas as condições. naqueles anos. o que se via pela redação. Conversando mais detalhadamente com o tipógrafo dos jornalecos de bicho. tido corno diabólico. é maldito para os sábios. cuja transmissibilidade é atribuida. a fazer isto ou aquilo.O Talismã . quase o subsídio diário de um deputado naquele tempo. a dezena e a centena que dariam à tarde deste ou qualquer dia. a cambaxirra. que os vencimentos de um chefe de seção de secretaria. O encarregado dessa obra. de homens em todas as posições. tinha ocasião de passar por ela toda a tarde. na rua da Alfândega. por devorar as larvas dos mosquitos. pela manhã. a insetos parasitas. tem levado os sábios a amaldiçoar certos animais e a abençoar outros. algumas eram . como esse quase doméstico . A tipografia do meu amigo tinha a especialidade de imprimir jornais de "bicho" e ele mesmo editava um . se não forneciam um lucro tão avultado. o mais famoso e conhecido. Atualidade. Era tão rendosa essa parte de sua indústria tipográfica que ele destacava um único tipógrafo para executá-la. ele me deu inúmeras informações sobre os seus periódicos "zoológicos". pus-me a observar. É mais um conflito entre a religião e a ciência. mas aquela é por ser uma ave azarenta que nenhuma criança quer ver no seu alçapão.o meirinho . as mais das vezes. O Bicho. Este é naturalmente por ser útil. nas mais das vezes conversar unicamente. demorar-me.

Não era só em cartas que se revelava total e poderosa fé de pessoas de todas as condições nos poderes divinatórios do Dr. "Aqui aguardo a vossa proteção. tenha Compaixão deste pobre Sofredor que a 2 anos está desempregado. do jornal. ou. Sr. é muito triste vergonhoso. o meu senhorio já está Com a cara ruvinhaso comigo. saber de antemão os algarismos da felicidade. Havia uma senhora de Paquetá. e poder utilizar-se em qualquer mister que vos aprouver. jóias. Peixeiro. por me parecer a mais típica e mostrar de que maneira a situação desesperada de um pobre homem. mas não o ponho aqui. Bico-Doce. etc. e Compro todos os dias: "Mascote". vós que Deus dotou Com tanta doçura. bem trajada. O prestígio da letra de forma. "Deus que lhe queira ajudar. Rua Senador Pompeu. e possa fruir os mais esplendorosos gozos. Deus lhe dê Saúde e felicidade pra Si e toda vossa família. etc e só neste ou deve 200$. É um documento humano de impressionar e de comover. como salvação. eu a transcrevo aqui. e que neste longo período. no mínimo. um palpite. terá vós um Criado para qualquer Serviço que estiver em minhas fracas força e me apresentarei diante da vossa nobre pessoa. além do fervoroso agradecimento.agradecidas e se alongavam em palavras efusivas. Bico-Doce Muito Dig. por terem os missivistas acertado com o auxílio dos "palpites" do Dr. na centena. Se ganhava. e lhe dê boa inspiração e força para minorar as aflições dos pobres.Em primeiro que tudo muito estimarei que esta inesperada Carta vos encontrem Com perfeita Saúde Conjuntamente a toda vossa família. Ei-lo: (cliché de um envelope selado e subscritado: "Ilmo.F.0 182 Sobrado"). . 20-12-911. e estou tão oberado. Lembro-me de uma assinada por certa adjunta de um colégio municipal. por todos os aspectos. "E Se vós me libertar deste jugo pode Contar que eu saberei reconhecer o meu bemfeitor.mo Redator-Chefe do Jornal O "Talismã" Rua da Alfândega n. em nome de Deus vos peço Dê-me uma Dezena ou Centena num destes dias em que a Natureza lhe der inspiração. "Bicho" e o "Talismã" e nunca Sou capaz de acertar em um Bicho ou numa Dezena que me liberte deste jugo que tanto tem me morteficado o espírito e já me acho desanimado da Sorte que me tem Sido tão tirana. pois um pobre que deve 1:OOO$600. "Enquanto eu minha família. Ele as recebia a toda a hora do dia e de pessoas de todos os sexos e idade. e o mistério de que se cercava o "palpitador". a ir almoçar ou jantar com ela e a família. tal e qual. Com o Quitandeiro. "Pois bem. peço dinheiro emprestado." .. plumas. . Julgavam-no capaz de adivinhar de fato o número a ser premiado na "Loteria"..Rio de Janeiro. Dr. também. Bico-Doce.. posso vos dizer que tenho passado os dias bem acerbos.. no Engenho de Dentro. já meio tuberculoso.. "Ilmo. Apesar da relutância do redator-tipógrafo de tão curiosos exemplares da nossa imprensa cotidiana. vós que Sois tão caridoso.mo Snr. que convidava o pobre tipógrafo. .O vosso Abedê.. Padeiro. etc.. portanto. pode Ser que Se vós Condoer-se das minhas misérias em breve me libertarei desta vergonha que estou passando. . Nas visitas. Recordo-me ainda do nome da moça. em oferecimentos. e a ingênua crença de que o redator do jornaleco de palpites seria capaz de indicar o número a ser premiado. Bico-Doce. pode reforçar a fé no "Jogo do Bicho". por motivos fáceis de adivinhar. era certo. uma gratificação qualquer. Bico-Doce para obter de viva voz. vós que Sois um bondoso. redator-tipógrafo de O Talismã. e sem poder pagar. das quais uma. . porque aos Espíritos bem formados ele proteje a fim de poderem espalhar com aqueles menos favorecidos as Sorte. só omitindo a assinatura e o número da residência do signatário... vamos passando uma vida penosa. que não vinha ao Rio que não fosse ao Dr. podendo.. Vosso humilde Criado e Obrigado. eu pude conseguir algumas cartas. Senhor. Dig. apalavrado com os homens dela. e que Sois uma alma bem formada!. operavam sobre as imaginações de uma forma verdadeiramente inacreditável.

O destemido não teve o prazer de dar-lhe a propina em mão. O povo afirma que quem espera sempre alcança. mas a deixou com um colega do Dr. Plutarco. abril 1919.A mais curiosa e assustadora visita que ele recebeu. . É fácil de supor a atrapalhação do "profeta-bicheiro". O valente falou ao Dr. Bico-Doce meio amigável e meio ameaçador. Bico-Doce que lha entregou no dia seguinte. distribuiu o seu império entre os seus generais.. temendo não acertar e levar uns pescoções. Ai de nós se não fosse assim. Para sair-se da entalação.Felizmente.. indicou uma centena qualquer e safou-se logo. n. mal ganha para a sua vida! A Esperança. Será verdade? Parece que aí a voz do povo não é a voz de Deus. Livros novos. dizia-me o pobre jornalista do Talismã. calças bombachas. Bico-Doce. general? O macedônio logo respondeu: A esperança. conta que Alexandre. normalmente. um valentão.. ou outro qualquer. foi a de um capoeira da Saúde. nas vésperas de morrer. O bicho deu e a centena também. que. Um deles lhe perguntou: Que te fica. e navalha a adivinhar-se nas algibeiras ou em qualquer dobra das roupas. mesmo quando a Esperança é representada pelo jogo do bicho e o palpite de um humilde tipógrafo como o Dr. o homem não quis voltar mais. de chapéu de abas largas. .0 2..

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