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BARRETO, Lima. Marginália

BARRETO, Lima. Marginália

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  • HOTEL 7 DE SETEMBRO
  • O ANEL DOS MUSICISTAS
  • ELOGIO DA MORTE
  • A MINHA CANDIDATURA
  • DIAS DE ROÇA
  • PALAVRAS DUM SIMPLES
  • BAILES E DIVERTIMENTOS SUBURBANOS
  • O NOSSO CABOCLISMO
  • D. Deolinda acaba de se apresentar candidato a intendente da cidade do Rio de
  • "A MAÇÃ" E A POLÍCIA
  • A POLÍTICA REPUBLICANA
  • Meu caro Bruno Lôbo:
  • DE CASCADURA AO GARNIER
  • A CARROÇA DOS CACHORROS
  • VESTIDOS MODERNOS
  • IMPRESSÕES DE LEITURA
  • O DESTINO DA LITERATURA
  • LIVROS
  • LITERATURA MILITANTE
  • LITERATURA E POLÍTICA
  • REFLEXÕES E CONTRADIÇÕES À MARGEM DE UM LIVRO
  • HISTÓRIA DE UM MULATO
  • VÁRIOS AUTORES E VÁRIAS OBRAS
  • URBANISMO E ROCEIRISMO
  • A OBRA DO CRIADOR DE JECA-TATU
  • MADAME POMMERY
  • A OBRA DE UM IDEÓLOGO
  • O SECULAR PROBLEMA DO NORDESTE
  • ANITA E PLOMARK AVENTUREIROS
  • ELOGIO DO AMIGO
  • UM ROMANCE SOCIOLÓGICO
  • LIMITES E PROTOCOLO
  • "LEVANTA-TE E CAMINHA"
  • S. Mateus
  • CANAIS E LAGOAS
  • VOLTO AO CAMÕES
  • TABARÉUS E TAIBAROAS
  • FETICHES E FANTOCHES
  • O PROFESSOR JEREMIAS
  • RECORDAÇÕES DA "GAZETA LITERÁRIA"
  • SONHEI COM ISTO: O QUE É?
  • HISTÓRIAS DE MACACO
  • HISTÓRIA DO MACACO QUE ARRANJOU VIOLA
  • "O MACACO E A ONÇA
  • UM DOMINGO DE PÁSCOA
  • CONTOS E HISTÓRIAS DE ANIMAIS
  • VII
  • HISTÓRIA DE UM SOLDADO VELHO
  • "HISTÓRIA DE UM SOLDADO VELHO
  • VIII
  • SUPERSTIÇÕES DOMÉSTICAS
  • IX
  • REZAS E ORAÇÕES
  • RESTOS DO "TABU" ANCESTRAL
  • XI
  • COISAS DO JOGO DO "BICHO"

A Virtual Bookstore apresenta mais uma grande obra de: Lima Barreto

Marginália
Virtual Bookstore (www.vbookstore.com.br), a verdadeira livraria virtual da Internet Brasileira. Texto scanneado e passado por processo de reconhecimento óptico de caracteres (OCR) por Renato Lima ( Precisamos de você! Visite nossa página de ajuda em e saiba como contribuir com o nosso projeto. Esse arquivo pode ser redistribuído livremente, desde que mantidas as informações acima. Prefácio da edição online. Se em todos os livros de Lima Barreto sempre há um pouco de personalismo, Marginália é talvez a obra em que estamos mais perto do mestre. Reúne-se nesse livro a sua intensa atividade jornalística, suas denúncias, suas pesquisas populares e seu maior amor: a literatura. Marginália é um verdadeiro amálgama de Lima Barreto. Temos todas as suas facetas em um compêndio. É possível identificar o Lima Barreto incentivador de novos escritores, sempre disposto a ajudar aqueles que escreviam com a “qualidade superior de escritor: a sua sinceridade.” O Lima Barreto da literatura militante, contra o helenismo pedante e ridículo, muito em voga no seu tempo. O folclorista, retomando as superstições, credos e sonhos do seu povo e compilando canções populares. Há até o Lima Barreto criador da Liga Brasileira Contra o Futebol... A obra está dividia em três partes: Marginália, Impressões de Leituras, Mágoas e Sonhos do Povo. É importante também destacar a sua conferência “O Destino da Literatura”, onde reafirma os princípios que nortearam a sua produção, e se não lhe deram a glória efêmera do seu tempo, o ascendeu para a glória da história. Renato Lima www.vbookstore.com.br

A QUESTÃO DOS "POVEIROS"

Essa questão dos pescadores originários de Póvoa do Varzim, em Portugal, que, desde muitos anos, se haviam especializado, entre nós, na pesca em alto mar, e como que a tinham monopolizado, por parecer terminada, merece ser epilogada, pois muitas são as notas que se lhe podem apor à margem. De parte a parte, nas afirmações e atos de um e outro adversário, um espírito imparcial encontra o que observar e material para reflexões. Os defensores lastimosos dos "poveiros", que não se quiseram naturalizar brasileiros e, por isso, se repatriaram, encarniçaram-se contra os japoneses, entre outros motivos, porque eles se insulam na massa da população nacional, com a qual parece não quererem ter senão rápidos contatos, os indispensáveis para os seus negócios. Curioso é que encontrem, unicamente nos japoneses, essa repugnância pela imitação com o geral da população brasileira, quando os tais "poveiros" a possuem ou possuíam também, a ponto de não permitirem que, entre eles, houvesse outra gente, empregada nas suas pescarias, senão os naturais de Póvoa do Varzim. Quando menino e adolescente, devido à ocupação de meu pai, na ilha do Governador, andei enfronhado nessas coisas de pesca e sabia bem desse exclusivismo dos "poveiros", extensivo até aos outros seus patrícios portugueses, oriundos de outras localidades de Portugal. Pessoa de toda a confiança, há dias, informou-me que dos estatutos de uma sociedade de tais pescadores naturais de Póvoa do Varzim constava, em letra redonda, não poder fazerem parte dela senão os nascidos naquele lugarejo de Portugal. Os portugueses de Outra origem, que possuíam canoas, redes, "currais" e outros petrechos de pesca em escala mais ou menos desenvolvida, e a exerciam no interior da baía, empregavam na sua indústria indiferentemente auxiliares quaisquer, fossem ou não seus patrícios. Os "poveiros" não; quem não é de Póvoa não pesca com eles; e a sua vida é toda feita à parte dos outros portugueses e dos demais de outra qualquer nacionalidade, brasileira ou não. Por aí, vê-se bem que eles levavam o seu isolamento do resto dos habitantes do Brasil mais longe que os japonêses. Estes fazem - estou disposto a crer - uma colônia confinada em si mesma, ferozmente isolada do grosso da nossa população; mas os "poveiros" só faziam uma colônia dentro da própria colônia de naturais do país de origem, com os quais pouco ou quase nada se misturavam. As minhas idéias e os meus princípios são inteiramente infensos a esse prurido de nacionalização quê anda por aí, e do qual os "poveiros" foram vitimas, tanto mais que, no caso desses homens, se trata de uma profissão humilde, tendo ligações muito tênues e remotas com a administração, a política e coisas militares do Brasil, não exigindo, portanto, o tal "fogo sagrado do patriotismo", a fim de apurar-lhe o exercício, junto a excelentes vencimentos. A verdade, porém, deve ser dita; e não foi senão isto que fiz. A desorientação a esse respeito é tal que estamos vendo como essa questão se vai desdobrando em lamentáveis espetáculos de violências inauditas. O inspetor de pesca, a quem não atribuo móveis subalternos - longe de mim tal coisa! - não contente de exercer draconianamente as atribuições que as leis e os regulamentos conferem a seu cargo, sobre redes e outras coisas próprias ao ofício de pescar, meteu-se também a querer regular o comércio do pescado. Com a sua educação militar, que só vê solução para os problemas que a sociedade põe na violência, não trepidou em empregá-la, violando os mais elementares princípios constitucionais. Com auxílio da marinhagem do cruzador sob seu comando e de sequazes paisanos, talvez mais brutais e ferozes do que as próprias praças de marinha, apesar de estarem habituadas estas, desde tenra idade, nas Escolas de Aprendizes, a ver, num oficial de marinha, um ente à parte, um semideus arquipoderoso, cujas ordens são ditames celestiais - com semelhante gente, violentamente, pôs-se a apreender as "marés" nas canoas de pescaria, para vendê-las ao preço que entendesse, deduzir percentagem arbitrariamente calculada, e, ainda por cima, a intimar os pescadores isolados a

se matricularem em umas famosas colônias de pesca, improvisadas do pé para a mão. Tudo isto consta de jornais insuspeitos e não houve quem contestasse. Essa subversão das mais comezinhas garantias constitucionais, levada a efeito por um oficial que, por mais distinto que seja, não pode possuir autoridade para tanto, como ninguém a tem, leva-nos a pensar como as nossas instituições republicanas vão respondendo muito mal aos intuitos dos seus codificadores e legisladores. Seja qual for a emergência, pouco a pouco, não só nos Estados longínquos, até mesmo nos mais adiantados, e no próprio Rio de Janeiro, capital da República, a autoridade mais modesta e mais transitória que seja procura abandonar os meios estabelecidos em lei e recorre à violência, ao chanfalho, ao chicote, ao cano de borracha, à solitária a pão e água, e outros processos torquemadescos e otomanos. É o regímen de "villayet" turco em que estamos; é o governo de beis, paxás e cádis o que temos. Isto é um sintoma de moléstia generalizada. A época que atravessamos parece ser de loucura coletiva em toda a humanidade. Havia de parecer que a gente de juízo e de coração, com responsabilidade na direção política e administrativa dos povos, depois dessa chacina horrorosa e inútil que foi a guerra de 1914, e das conseqüências de miséria, fome e doença que, acabada, acarretou ainda como contrapeso procurasse afugentar, por todos os meios, dos seus países, os germens desse aterrador flagelo da guerra; entretanto não é assim. Em vez de propugnarem uma aproximação mais fraternal entre os povos do mundo, um mútuo, sincero e leal entendimento entre todos eles, como que timbram em mostrar desejarem mais guerra, pois estabelecem iníquas medidas fiscais que isolam os países uns dos outros; tentam instalar artificialmente indústrias que só são possíveis em certas e determinadas regiões do globo, devido às condições naturais, e isto ainda no fito de prescindirem da cooperação de outra nação qualquer, amiga ou inimiga; e - o que é pior - todos se armam até os dentes, mesmo à custa de empréstimos onerosíssimos ou da depreciação das respectivas moedas, originada por emissões sucessivas e inúmeras, de papel-moeda. Estamos no tempo da cegueira e da violência. Max-Nordau, em artigo que uma revista desta cidade traduziu, cujo título é Loucura Coletiva, - observa muito bem, após examinar os despropósitos de toda a sorte que se seguiram à terminação oficial da grande guerra: "Dizia-se antigamente: "Todo o homem tem duas pátrias, a própria e depois a França". Pois esta mesma França, tão hospitaleira, tão carinhosa, mostra agora a todos os estrangeiros um semblante hostil e, durante a maior parte do tempo, torna-se impossível a estada em seu solo. As relações entre, povo e povo, entre homem e homem, quebraram-se violentamente e cada país encerra-se por detrás das suas fronteiras, opondo-se a tôda a, infiltração humana do exterior. "Esperava-se que à guerra sucedesse a reconciliação. Pelo contrário, procura-se por todos os lados atiçar os ódios, exasperar os rancores, excitar a sede de vingança. Mais adiante, ele acrescenta esta observação que pode ser verificada por qualquer: "Também se esperava um desarmamento geral, mas em toda a parte se reorganizam os exércitos e as marinhas, com mais impetuosidade que nunca. O militarismo torna-se mais forte e vai imperando em países onde anteriormente era desconhecido." Essa mania militar que se apossou de quase todos os países do globo, inclusive o nosso, levou todos eles a examinar e a imitar a poderosa máquina guerreira alemã. Os seus códigos e regulamentos militares vão sendo mais ou menos estudados e imitados, quando não são copiados. Não se fica só nisso. A tendência alemã, ou melhor, prussiana, de militarizar tudo, os mais elementares atos da nossa vida civil, por meio de códigos, regulamentos, penas e multas, vai-se também apossando dos cérebros dos governantes que, com afã, adotam tão nociva prática de asfixiar o indivíduo num "batras" legislativo.

O ideal dos militares atuais não é ser um grande general, ao jeito dos passados, que, aos seus predicados guerreiros, sabiam unir vistas práticas de sociólogo e de político. O ideal deles é o cabeçudo Ludendorff, cujas memórias denunciam uma curiosa deformação mental, obtida pelo ensino de uma multidão de escolas militares que o militarismo prussiano inventou, as quais têm de ser freqüentadas pelos oficiais que ambicionam altos postos. Tais escolas tiram-lhes toda e qualquer faculdade crítica, todo o poder de observação pessoal, fazendo-os perder de vista as relações que tem a guerra com outras manifestações de atividade social, para só ver a guerra, só a guerra com os seus petrechos, suas divisões, seus corpos, etc., citados pelo "Cabeçudo", cabalisticamente, pelas iniciais de suas denominações. Esqueceu-se ele que seu livro era destinado, por sua natureza, a ser lido pelo mundo inteiro, e o mundo inteiro não podia viver enfronhado nas coisas pasmosas da burocracia militar alemã, para decifrar tais hieróglifos. Ludendorff não é um general; é uma consolidação viva das leis e regulamentos militares da Alemanha. Não foi à toa que o célebre jornalista alemão Maximiliano Harden, falando do livro do general francês Buat sobre esse famigerado Ludendorff, a mais alta expressão da lamentável limitação do espírito militar em todos os tempos, disse: "... é uma obra -prima, de clara psicologia latina, dominada em toda sua extensão por um espírito cavalheiresco e uma forte consciência de justiça, que fornecerá ao leitor alemão uma relação maior de verdades que as execráveis e copiosas banalidades editadas por quase todos os generais alemães". Houve quem chamasse o Sr. general Ludendorff, autor também de "execráveis e copiosas banalidades", de César. Sim, ele pode ser César; mas um César que não escreverá nunca a Guerra das Gálias e não transformará nenhuma sociedade. O mundo todo, porém, está fascinado pelos métodos alemães. Pode-se dizer que a Alemanha, depois de vencida, é vencedora pela força hipnótica de sua mania organizadora, até as menores minúcias. O brutal e odioso Estados Unidos, com a Alemanha aparentemente vencida, é outro país modelo para os que estão sofrendo de mal de imitação e maluquice organizadora, concomitantemente. Foi talvez nas coisas peculiares do país de "Uncle Sam" que, certamente, o Sr. Norton de Matos, ministro de Estado de Portugal, buscou inspirar-se para estabelecer a seguinte cláusula, a que se deviam obrigar os "poveiros" repatriados, no caso de quererem estabelecer-se nas colônias portuguesas da África. Ei-la, como vem estampada na Pótria, de 28 de novembro último: "...que evitem (os "poveiros") a comunicação e as relações de ordem sexual com o elemento nativo da África, de cor". Uma cláusula destas é por demais pueril e ridícula. Não é preciso dizer por quê; e seria escabroso. Mas, à vista dela, nós nos podemos lembrar de dois casos célebres que deviam incidir na punição do Sr. Norton de Matos, se ele fosse ministro ou coisa que o valha, no grande século das descobertas e conquistas portuguesas. Um é com Camões, cuja glória universal é um dos mais justos orgulhos de Portugal. Pois bem: o grande épico andou lá, pelo ultramar, de gorra, com uma rapariga de côr. Creio até que se chamava Bárbara e o autor dos Lusiadas fez-lhe versos, aos quais intitulou se não me falha a memória "Pretidão do Amor". Li isto há bastantes anos no Cancioneiro Alegre, de Camilo Castelo Branco. O outro caso dessa espécie de comunicações e relações que o Sr. Norton de Matos divinamente proíbe, ao jeito da nação do Paraíso, passou-se com o Albuquerque terríbil. Ele mandou matar sumariamente um seu soldado ou homem d'armas (parece que se chamava Rui Dias), por suspeitá-lo amoroso de uma escrava, da qual o extraordinário Afonso d'Albuquer

que não desprezava totalmente os encantos secretos, segundo tudo leva a crer. Camões, no seu maravilhoso poema, alude ao fato; e Teófilo Braga, no seu Camões o elucida. E assim que o vate lusitano comenta o caso, no - Canto X, XLVII. Vou transcrever os quatro primeiros versos da oitava. Ei-los: Não será a culpa abominoso incesto, Nem violento estupro em virgem pura Nem menos adultério desonesto Mas cuma escrava vil, lasciva, e escura. Vejam bem como Camões diz quem foi a causa do terríbil Albuquerque por na sua "fama alva, nódoa negra e feia". Estou vendo daqui o Sr. Norton de Matos, quando foi aos embarques, para a Índia, de Albuquerque, em 1503 (primeira vez), e de Camões, em 1553. E preciso supor que o Sr. Matos pudesse ser ministro durante tão dilatado lapso de tempo. Admitido isso, certamente o ministro havia de recomendar a cada um deles ter sempre presente à lembrança, a sua prescrição mais ou menos de Deus que larga um qualquer Adão no Paraíso. E falaria assim: - Olhe, Sr. d'Albuquerque, V.M. foi estribeiro-mor del-Rei D. João lI, a quem Deus tenha em sua santa guarda; V.M. é um grande fidalgo e deu mostras em Nápoles de ser um grande guerreiro - não vá V.M. meter-se lá nas Índias com as negras. Cuide V.M. nisto que lho digo, para a salvação de su'alma e prestígio da nação portuguêsa. Ao cantor inigualável das proezas e feitos do Portugal glorioso, ele aconselharia desta forma: - Sr. Luís de Camões, V.S. é um poeta, ao que se diz, de bom e valioso engenho; V.S. freqüentou o paço dei-Rei; V.S. versejou para as damas e açafatas da côrte. Depois de tudo isto, não vá V.S. meter-se lá, nas índias, com as negras. Tome VS. tento nisso. Não há dúvida alguma que a providência do Sr. Matos é muito boa; mas a verdade é que os tais Amon, Lapouge, Gobineau e outros trapalhões antropólogos e etnográficos, tão do paladar dos antinipões, não admitem como lá muito puros os portugueses. Oliveira Martins também. Dá-lhes uma boa dose de sangue berbere. Isto não vem ao caso e só tratei de tal por mera digressão, mesmo porque este modesto artigo não passa de um ajustamento da marginália que fiz às notícias lidas por mim, nos quotidianos, enquanto durou a questão dos "poveiros". Era tal a falta de uma segura orientação nos que se digladiavam, que só tive um remédio para estudá-la mais tarde: cortar as notícias dos jornais, colar os retalhos num caderno e anotar à margem as reflexões que esta e aquela passagem me sugerissem. Organizei assim uma Marginália a esses artigos e notícias. Uma parte vai aqui; a mais importante, porém, que é sobre os Estados Unidos, omito por prudência. Hei de publicá-la um dia. Contudo, explico por que entram os Estados Unidos nela. O motivo é simples. Os defensores dos "poveiros" atacam os japonêses e se servem dos exemplos da grande república da América do Norte no seu proceder com os nipões. Fui estudar alguma coisa da história das relações yankees com outros Estados estrangeiros; é deplorável, é cheia de felonias. Lembrei-me também como lá se procede com os negros e mulatos. Pensei. Se os doutrinários que querem que procedamos com os japonêses, da mesma forma com que os Estados Unidos se comportam com eles, forem vitoriosos, com a sua singular teoria, não faltará quem proponha que também os imitemos, no tocante aos negros e mulatos. É lógico. Então, meus senhores, ai de mim e de... muita gente! Gazeta de Notícias, 2-1-1921.

HOTEL 7 DE SETEMBRO Li nos jornais que um grupo de senhoras da nossa melhor sociedade e gentis senhoritas inauguraram, com um chá dançante, a dez mil-réis a cabeça, o Hotel do Sr. Carlos Sampaio, nas encostas do morro da Viúva. Os resultados pecuniários de semelhante festança, segundo diziam os jornais, reverteriam em favor das crianças pobres, das quais as referidas senhoras e senhoritas, agremiadas sob o título de "Pequena Cruzada", se fizeram espontâneas protetoras. Ora, não há nada mais belo que a Caridade; e, se não cito aqui um profundo pensamento a respeito, motivo é não ter ao alcance da mão um dicionário de "chapas". Se o tivesse, os leitores veriam como eu ia além do esteta Antônio Ferro, que saltou no cais Mauá, para nos ofuscar, com os seus trapos de José Estêvão, Alexandre Herculano e outros que tais! Felizmente não o tenho e posso falar simplesmente - o que já é uma vantagem. Quero dizer que semelhante festa, a dez mil-réis a cabeça, para proteger crianças pobres, é uma injúria e uma ofensa, feita a essas mesmas crianças, num edifício em que o governo da cidade gastou, segundo ele próprio confessa, oito mil contos de réis. Pois é justo que a municipalidade do Rio de Janeiro gaste tão vultosa quantia para abrigar forasteiros ricos e deixe sem abrigo milhares de crianças pobres ao léu da vida? O primeiro dever da Municipalidade não era construir hotéis de luxo, nem hospedarias, nem zungas, nem quilombos, como pensa o Sr. Carlos Sampaio. O seu primeiro dever era dar assistência aos necessitados, toda a espécie de assistência. Agora, depois de gastar tão fabulosa quantia, dar um bródio para minorar o sofrimento da infância desvalida, só uma coisa resta dizer à edilidade: passem bem! Um dia é da caça e outro é do caçador. Digo assim, para não dizer em latim: "Hodie mihi, cras tibi". Nada mais ponho na carta. Adeus. Careta, 5-8-1922.

15 DE NOVEMBRO Escrevo esta no dia seguinte ao do aniversário da proclamação da República. Não fui à cidade, e deixei-me ficar pelos arredores da casa em que moro, num subúrbio distante. Não ouvi nem sequer as salvas da pragmática; e, hoje, nem sequer li a notícia das festas comemorativas que se realizaram. Entretanto, li com tristeza a notícia da morte da princesa Isabel. Embora eu não a julgue com o entusiasmo de panegírico dos jornais, não posso deixar de confessar que simpatizo com essa eminente senhora. Veio, entretanto, a vontade de lembrar-me o estado atual do Brasil, depois de trinta e dois anos de República. Isso me acudiu porque topei com as palavras de compaixão do Sr. Ciro de Azevedo pelo estado de miséria em que se acha o grosso da população do antigo Império Austríaco. Eu me comovi com a exposição do Dr. Ciro, mas me lembrei ao mesmo tempo do aspecto da Favela, do Salgueiro e outras passagens pitorescas desta cidade. Em seguida, lembrei-me de que o eminente Sr. Prefeito quer cinco mil contos para

numa "venda" de que minha família é freguesa. do falso brilho e luxo de "parvenu". 26-11-1921. e esta. como uma pessoa que se estarrece de admiração diante de suntuosidades desnecessárias. A minha alma é de bandido tímido.reconstrução da Avenida Beira-Mar. conforme o gosto antigo e roceiro. Ninguém compreende que se subam as escadas de Versalhes senão de calção. como devia qualificar perfeitamente a República. que a República é o regímen da fachada. Careta. olho-os. A estatística dos seus leitores é sempre provocadora de interrogações. Sal pelas ruas do meu subúrbio longínquo a ler as folhas diárias. para consultar . Pouco freqüento a Biblioteca Nacional. diz a notícia.obras de sua profissão. para pedir a meia dúzia de sestércios que lhe matasse a fome . como um burro. não se pode compreender subindo os degraus da Ópera. sinais certos da sua felicidade ou infelicidade. Não se discutia uma questão econômica ou política.o 15 de Novembro é uma data gloriosa. mais acessível. o mais importante era o de falsidade. Quero crer que sejam tristes homens desempregados. mais acolhedora. mas. Mas. quando vejo desses monumentos. tendo como "repoussoir" a miséria geral? Não posso provar e não seria capaz de fazê-lo. espadim e meias de sêda. Entretanto . Não será. e não sei por quê. que treze pessoas consultaram obras de ocultismo. mulheres sem decote e colares de brilhantes. para consultar uma obra rara. como é que o Estado quer que os mal vestidos. têm a sensação de estar pregando à mulher do seu amor? A velha biblioteca era melhor. em casa. Quase todas elas estavam cheias de artigos e tópicos. os tristes. . Afora o capítulo descomposturas. tratando das candidaturas presidenciais. de que era cliente. amo a biblioteca e. Vi em tudo isso a República. recentemente esborrachada pelo mar. Pois é possível que. medroso de entrar na vila do patrício. do Garnier. assim mesmo. para a escolha do Chefe de uma Nação. O antigo poeta é por demais sabido. sobretudo depois que se mudou para a Avenida e ocupou um palácio americano. os que não tem livros caros. com cujo manuseio.eu o sei bem . A BIBLIOTECA A diretoria da Biblioteca Nacional tem o cuidado de publicar mensalmente a estatística dos leitores que a procuram. mas vi. é das mais curiosas. cá com os meus botões. da ostentação. aí das ruas. Quem serão elas? Não acredito que seja o Múcio. que fossem procurar no invisível. de mil francos. os maltrapilhos "fazedores de diamantes" avancem por escadarias suntuosas. marcando um grande passo na evolução política do pais. e não tinha a empáfia da atual. Por exemplo: hoje. por cima de tudo. de abrigar uma casa de instrução. destinada aos pobres-diabos. o mais importante objeto de discussão seja esse? Voltei melancolicamente para almoçar. como o meu amigo Juvenal. para liquidar a sua dolorosa vida. talvez. pensando. mas um título do Código Penal. É ficar assim. das classes de obras que eles consultam e da língua em que as mesmas estão escritas. um pouco. num dizer.a espórtula! O Estado tem curiosas concepções. Lia-as. se não vou lá. leio-lhe sempre as notícias. em um palácio intimidador. nos fastos da nossa história. pensei de mim para mim.

Alberto Nepomuceno. dos dentistas. desde muito. trilhando os caminhos batidos. às claras. Entregue. que em geral nunca em arte foram criadoras .. a mulheres. Cherchez l'argent. só podem ser atribuidas à ganância dos professores e acólitos na caça e disputa de discípulos. esses dois leitores não foram os nossos professores de grego. das raparigas da Escola Normal. isto é. não dá nenhuma demonstração superior da nossa emoção. O ANEL DOS MUSICISTAS As meninas do Instituto de Música escreveram aos jornais.a arte musical. e certamente. que só duas pessoas procurassem ler obras na língua que. uma espécie de dote. Os motivos disto estão entrando nos olhos de todos os que residem no Rio de Janeiro e vivem sitiados por pianos ou violinos. Se a medida não trouxer progressos à arte de Euterpe. Será a D. O anel à mostra. do Sr. Limita-se a repetir. Quando uma moça. Arnaud Gouveia. O guarani foi procurado por duas pessoas. que escreve óperas para exportação. dos cônegos. nos fundos. a que tem maiores possibilidades entre nós é a de professora de música. lembrando a criação de um anel que as marcasse ao fim do curso ou dos cursos daquela casa sonora. dos bacharéis do Pedro II.. são doentes de manias. tudo o que possa concorrer para que elas o cumpram. melhor. não há distintivo? Como não cabe o mesmo direito às talentosas executoras do Instituto de Música? . tal e qual como no guarani. Para mim. Correio da Noite. Deolinda Daltro? Será algum abnegado funcionário da inspetoria de caboclos? É de causar aborrecimento aos velhos patriotas. porque de todas as profissões femininas. entre nós. como está. quando garantidas pelo Instituto do largo da Lapa. Não há invento nem novidade. dos anseios e sonhos peculiares a nós. for de anel no dedo pelos bondes a fora. que as brigas vergonhosas que há de vez em quando no Conservatório. entra. dos engenheiros. as obras consultadas foram unicamente duas. A música. na nossa cidade. deve merecer o nosso apoio entusiástico... ficará sendo assim. o que ele rende. talqualmente as senhorinhas da Escola Normal. do Sr. possa ser confundida com qualquer rapariga aí. Não é possível que num pais democrático. no entender deles. Em grego.Leio mais que houve quatro pessoas a consultar obras em holandês. uma moça que andou aos cuidados do Sr. As suas sacerdotisas agora querem um anel.estudam unicamente para o professorado . Ela garantirá a "zona" e o marido futuro ficará sossegado quanto às despesas da casa. é a dos verdadeiros brasileiros. seja a casa em bairro rico ou pobre. É muito justo. dos advogados. A exemplo dos médicos. Decididamente este país está perdido... De tal modo é rendoso o oficio de professora de música e de seus instrumentos. porque. ao fim da viagem não esperará muito que um namoro se transforme em noivado. entretanto. que foram um instante lembrar-se na língua amiga das amizades que deixaram lá longe. 13-1-1915. eles não lêem mais grego. quando acabam o seu curso secundário. pois se o destino da mulher é o casamento. na lógica da nossa sociedade. na frente. doutora do Instituto. elas querem também um distintivo que as extreme do vulgo. Richard. no Rio. nos lados. é a única arte em que raramente aparece uma tentativa de criação. Para todos os que têm um curso qualquer. a moças.

eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios. em música. Procure na Une Charogne isso. na escala da dureza. mas. Não há. Quando. 25-1-1918. para bem poupar e fazer render o que ganhar nas suas lições. iria magnificamente. que a safira. ocupa um dos primeiros lugares. a conta de juros da Caixa Econômica. e. porém. para ser dependente dos outros. porque . se dependesse do meu voto. Ortiz ou Villiot. e pode deixar de lado o nome pomposo da matemática. Não amesquinho seu noivo ou namorado. É inútil estar vivendo. como nós todos. depois que Ela nos leva. na Escola Politécnica. unicamente. "moisir parmi les ossementes. muito comumente. ela só quer acompanhadores de procissão. e. A moça que projetou o anel tem certamente um namorado aos cuidados dos Srs. desde já estariam usando o berloque simbólico. para a maioria dos engenheiros. Ficaria a senhora Dra. minha senhora. todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência. tem os "handbooks" que lhe suprirão as falhas na sabedoria. Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós. Tudo . Em vida. sous l'herbe et les fioraisons grassées". minha senhora. A vida não pode ser uma dor. Se o fito é distinguir-se. Seria melhor que a menina que ideou o anel. Aritmética. porém. extremar-se do vulgo feminino. pois nunca foi do meu temperamento amesquinhar um doutor ou futuro doutor. no fim quando ambos forem se servir de uma coisa e da outra. não se pode conseguir isto.justificam . no colo. Pense em outras. A matemática. gosto da Morte porque ela nos sagra. até que.a música tem muita coisa com a matemática.Certamente. a vida deve ser uma vitória. por exemplo. e a safira é a pedra dos anéis de engenheiros. campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. há um processo seguro: É a tatuagem. É a destruição contínua e perene que faz a vida. que só visam lucros ou salários nos pareceres. é assim como o latim para um grande número de padres: eles sabem só pronunciá-lo. A esse respeito. Contudo. A Lanterna. pelas nossas boas qualidades. a Morte é que deve vir em nosso socorro. Quanto ao seu futuro marido. De passagem seja-me permitido lembrar à futurosa Cellini acadêmica. Seria mais um. nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica). As pedras. desde já estudasse as divisões da nossa moeda. é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos. imagino eu. para isto. E. em certas partes dos corpos femininos. Faço uma observação. animo-me a lembrar a ambos. Além de tudo. fosse a gentil senhorinha formada. que os doutores também poderiam usar. basta o Viana. entre nós. uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas. que elas tem toda a razão. se algum dia passar além do trânsito ou do nível. a matemática que entrar nelas pouco além irá daquela que se aprende nas escolas primárias. que tanto a engenharia dele como a música da sua deidade. e uma pedra tão dura não fica bem para emblema de uma arte tão doce e tão pouco rígida. A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência. como diz Baudelaire. é indelével. É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças. ELOGIO DA MORTE Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. querem elas que sejam de safira. é dela que nós esperamos a nossa redenção. é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento.

não se quer isto. Procura-se abafar as opiniões. às vezes mesmo mulheres. eu a sagro. creio que a minha candidatura é perfeitamente legítima. que têm títulos literários equívocos e vão para os jornais e abrem uma subscrição em favor de suas pretensões acadêmicas. Sendo assim. para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino. são eles que trazem as grandes idéias. portanto. Eu sou escritor e. A agitação de uma idéia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa. tidas por doidos. Entretanto. na minha infelicidade. na minha desgraça e na minha honestidade. e. e é preciso.aqui é feito com o dinheiro e os títulos. as batatas! A MINHA CANDIDATURA Vou escrever um artigo perfeitamente pessoal. estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas. tenho direito a pleitear as recompensas . quem. Le Bon dizia isto a propósito de Maomé. como eu. muito bem recebidos pelos maiores homens de inteligência de meu país. São eles os heróis. seja grande ou pequeno. na sua Civilisation des Arabes. Sou candidato à Academia de Letras. que não confiam nos seus próprios méritos.. A divisa deles consiste em não ser panurgianos e seguir a opinião de todos. O que é preciso. são eles os iludidos. trata o agitador de louco. Portanto. são fechados e não aceitam nada que os possa lesar. nunca mendiguei elogios. na vaga do Sr. Se não disponho do Correio da Manhã ou do O Jornal. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus. é muito justo. sou alguma coisa nas letras brasileiras e ocultarem o meu nome ou o desmerecerem. por isso mesmo podem ver mais longe do que os outros. Nunca foram os homens de bom senso. são eles os reformadores. Além de produções avulsas em jornais e revistas. para melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade. só tem que fazer elogios à Morte. e não há Chanceler falsificado e secretária catita que o possa contestar. Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. Nunca lhes solicitei semelhantes favores. Ao vencedor. no Brasil. é coisa contra a qual eu protesto. nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência. Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar. Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo. antes que ela me sagre na minha pobreza. os honestos burgueses ali da esquina ou das secretarias "chics" que fizeram as grandes reformas no mundo. Todas elas têm sido feitas por homens. mas que procurem desmerecer os seus concorrentes. com toda a razão. para me estamparem o nome e o retrato. sou autor de cinco volumes. Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria. Paulo Barreto. para própria felicidade da espécie humana. chegam certos sujeitos absolutamente desleais. Mas. é que cada qual respeite a opinião de qualquer. para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes. Que eles sejam candidatos. não tem nada de indecente.. é uma injustiça contra a qual eu me levanto com todas as armas ao meu alcance. Não há nada mais justo e justificável. Dessa forma.

a que a Alemanha desde muito se vinha entregando. quando deixou de invadir a França pelas fronteiras que tinha com esse país. Apesar de não ser menino. apesar do mata-mouros do canhão 42. com auxilio de amuletos patrióticos. 18-8-1921. a superioridade esmagadora que era de esperar possuísse. Careta. Eu não temo abaixo-assinados em matéria de Letras. Correio da Noite. Entretanto. parece. SOBRE A GUERRA As últimas proezas de cruzadores alemães bombardeando as costas da Inglaterra é de molde a provocar a seguinte reflexão: a esquadra inglesa não é lá essas coisas. automatismo que adquiriu com manobras. não podendo fazer nada de eficiente para o aniquilamento dos vasos alemães. tão poderoso. penso eu. A orgia militar. tão cheio de ff e rr. o exército alemão até agora tem andado muito abaixo de sua fama. faziam esperar que ele esmagasse facilmente a França. ela não pôde evitar que tal se desse. para ter a vitória assim duvidosa. contra a independência. a dotá-lo de material aperfeiçoado. diante dos fortes franceses de Saona e Belfort. 19-12-1914 ATÉ MIRASSOL . de sítios e trincheiras. a Alemanha ficará por muito tempo diminuída e os seus idiotas partidos guerreiros que se crêem eleitos e com a missão de dominar o mundo. Com esse procedimento deu sobejas mostras de que não se fiava muito na eficiência do seu exército. essa violência aos temperamentos individuais que é o serviço militar obrigatório. O seu violento efetivo. tirava o sono ao mundo. exercícios e trenagens constantes. Para fazer a velha guerra lenta.que o Brasil dá aos que se distinguem na sua literatura. não estou disposto a sofrer injúrias nem a me deixar aniquilar pelas gritarias de jornais. Obrigou todos os países a estabelecerem esse crime contra a liberdade. tal não se deu e a Alemanha confessa que não tinha esse poder esmagador. Um exército tão famoso. levar a Alemanha tantos anos a adestrar um exército numeroso. que chega a poucos quilômetros de Paris e tem que recuar precipitadamente. concordemos. Da mesma forma. por sua vez ficou imobilizada. se ela imobilizou a frota germânica. poderão agir. não é essa formidável máquina de guerra que os nossos militaristas queriam que imitássemos. e violou a neutralidade belga para derrotar o país de Joana d'Arc. O seu sábio preparo anterior. custosos maquinismos e gastar as fabulosas somas que gastou. Numerosíssima. não valia a pena. era o seu constante pesadelo. quase toda acumulada diante das costas germânicas. as suas constantes manobras não lhe deram. há ainda a notar que. Agora. não encontrarão na massa de camponeses homens em que se apóiem. De resto. e os homens que criam o futuro. com o poder numérico.

Invejo-o. entretanto. Tratam com o "romano" a troca do lugar dele com o do amigo descoberto. muito confiante em si. O meu é novo em folha. O que me ficou defronte. Arrependo-me da viagem ou. barbados. a contrariedade com semelhante vizinhança. Devem ser russos ou polacos. Alegria. vi que. O último.(Notas de viagem) I A CONVITE de meu amigo e confrade Dr. está coberto com um encardido chapéu de palha. Estou encostado à portinhola e o viajante da esquerda. Um dos meus amigos conhece o vizinho de vis-à-vis. Vão-se. Não se sentam logo. É o meu lugar. Ei-lo que chega. Procuram com o olhar um amigo no carro. Fala mal dos cigarros pobres e alude a altos negócios de contos de réis. Por que deixaram a sua aldeia ou cidade? Foi a guerra.. Entretanto. tanto mais que não se aborrece com a mala. uma garrafa quebrada. satisfeito. cigarros dos outros. Pergunta -me por que não a ponho debaixo do banco. Explico-lhe a razão. erguida. alegre. Na frente o pai. mal vestidos. que fica nos confins de S. mostra incômodo com a mala. eu tão tímido! Chegam amigos e meu irmão. carregando sacos. É o Mário. antes. Encontram-no. O amigo "descoberto" e o mais animado no falar. Que será? Mete-me pena aquilo. leva na mão esquerda um saco e. fôssem tão ricos como aquele poderoso senhor que fala mal dos cigarros. que também tem horror aos "mata-ratos". Na portinhola. Há. por causa do tropêço que ela lhe vai causar às pernas. que. etc. italianos. seguem-se os filhos e filhas. na direita. embarquei para ela. Tem ar de ser de origem italiana. alemães. Até automóveis com malas postais e medas de jornais e revistas penetram nela. depois. Envergonho-me da minha pobreza e dos meus humildes cigarros. Fico contente. carregando um grande saco. É meu primeiro aborrecimento não caber o meu calhambeque de mala debaixo do banco. Olho a plataforma. Consolo-me. Ranulfo Prata. Paulo. na Central. ele não esconde. Tomei logo lugar no vagão de 1.uma hora antes da partida. É um rapaz simpático. guardando a escala de crescimento e da hierarquia doméstica. Ainda bem. clínico nessa localidade de Mirassol.. Põem-se a conversar. . na ordem da idade. Tendo eu ficado nos bancos que estão imediatamente próximos à porta.a classe . Parece pessoa poderosa e rica. talvez. o vis-à-vis é obrigatório. Já me olha o fronteiro com mais simpatia e não mostra tanto aborrecimento com a mala. Sentam-se. com um bebê ao colo. Há uma agitação que não é do meu gosto. aparece-me o G. portanto. de não ter tomado a segunda classe. atraído também pelo seu nome pitoresco. Os meus vizinhos desandam a conversar vivamente. se dirigiam tantos russos. ainda dois lugares disponíveis. a mulher. em 1 de abril. bacharel da Bahia. Vejo passar uma família de imigrantes em fila índia. Prevejo que terei que viajar com o azedume do companheiro de defronte. para ela. Isto me faz rir interiormente da sua presunção e do seu fumo. antes de 1914. uma criança de seis anos. de um louro sujo. O trem põe-se em movimento. Possui mesmo uma forte cabeça romana. curvado. Maldita seja a guerra! Estes meus pensamentos são interrompidos pela chegada de dois outros passageiros para os lugares restantes que me cercam.

Se os tivesse concentrado no seu município. o de Lacerda. Quem não podia comprar um. de Fagundes para Bernardes. queijos e café aos viajantes dos comboios que atravessavam as suas terras. Esse parece não ter título algum. Vai falando alto italiano. Vejo o bacharel G. passar com uma graúda italiana muito clara. É que o fogoso tribuno quis abarcar o mundo com as pernas. uma reflexão sobre o atual estado angustioso do mundo? Chegamos a Belém. como se tudo isso fosse a coisa mais natural deste mundo. de falsificações de atas. Chega um outro chefe eleitoral. A viagem continua.. não sei se devido ao progresso ou à moda. Tratam de coisas eleitorais. Já há o carro-restaurante e. para Barbacena. pedia-o emprestado.O de defronte. com essa morte. atravessa um empregado dele. por mais caro que seja. Explica por que o Maurício. de onde em onde. Matou o rudimentar comércio dos camaradas do interior. políticos. me parece médico. viajavam com caríssimos ternos de linho imaculadamente lavados e passados a ferro. . pode conversar tanto tempo e não ter uma idéia. poderosa e influente. e. do conservador para o liberal. Da maneira que fala de coisas de urna. Olho a plataforma da estação. como uma vestimenta chinesa ou japonesa. cuja profissão não é denunciada à primeira vista. Todos o olham com inveja e eu também invejo a sua despreocupação. Percebo que é coletor federal. Não compreendo nada dessa conversa de influências da roça. Hoje. A moda pede que não se os use e exige até que se viaje com roupas caras e finas. Dividiu os esforços por três Estados. porém. em menino. por demais disposto a fornecer aos viajantes o que eles quiserem. viajei com meu pai em trem de ferro. o que agora me olha com simpatia. certamente venceria o Henrique. A conversa se generaliza. Veio o progresso. sem conseguir ser ao menos deputado de Niterói. As tricas e os truques de tão odiosa instituição são explicados. A conversa eleitoral toma novo alento. os outros dois. porém. não foi diplomado. Quando a primeira vez. segundo me parece. percebo que é um velho politicão da roça que tem passado de partido para partido. não levar guarda-pó era sinal de lamentável pobreza ou de mau gosto sem igual. Fala de coisas de capangas. II Até bem pouco. 23-4-1921. Dois dos meus vizinhos. mas fico a pensar: como é que gente tão rica. tal qual fiz eu com o calhambeque da mala que levei e tantos dissabores me fez passar. desapareceram os guarda-pós. se não levar vaia. O de chapéu de palha encardida. pelos carros de passageiros. mesmo. que aprecia os cigarros caros. O vizinho. a capacidade comercial das gentes ribeirinhas à Estrada de Ferro Central do Brasil consistia em vender frutas. deste para Bertoldo. as coisas mudaram. nem mesmo de patente da Guarda Nacional. de distúrbios eleitorais. pelo menos é tomado como roceiro ou coisa parecida. mesmo que seja de sêda. é o mais velho dos três. o bacharel da Bahia. Careta. no carro. quem se apresentar no trem com um guarda-pó. secunda-o nas suas apreciações. Hoje.

ela fabrica necessidades. graças à sua capacidade de criar profissões miseráveis. membro virtual. quase quadrado e. achei absurdo semelhante moda . trouxe a supressão do guarda-pó. pela conversa. foi ele que me observou o seguinte: . etc. de que sou. a meus pés. peões e camaradas. Almachio Dinis e outros. naturalmente das autoridades do trem. sem suprimir o pó das estradas de ferro. Peixoto Fortuna. O Sr. Lembrei-me dessa frase do meu conspícuo amigo e confrade Mário de Alencar. os tripeiros. já resolveu.Eu tinha posto uma roupa nova naquele dia. Pinto da Rocha. a quem perguntei por que usava o paletó aberto com a camisa à mostra. passando instantes em uma estação.coisa que não aumentou nem diminuiu o meu valor. Careta. 30-4-1921. os engraxates. a questão social. porém. que é fértil em absurdos. como já disse. com os Srs. e a transparência venusina de seus vestidos que tanto indigna o Sr. assassinos e simples caipiras chamam pomposamente política. Mário de Alencar. em compensação faz nascer outras profissões. O trem partiu e os meus companheiros de viagem voltaram a tomar assento e a discutir política que. uma pobre criança que me lustrava. os massagistas. introduziu nos trens o lustrador de botinas dos graúdos do meu estofo que conseguem viajar na primeira classe. Dei-lhe um cruzado e bendisse. respondeu-me: . a organização da atual sociedade que me fazia tão rico e àquela criança tão miserável e pobre. vi agachada. com o Sr. deve ser coletor federal É um tipo atarracado.deusa. Por ventura existiam essas profissões antigamente? Não há motivo para maldizer o estado atual da sociedade. Essa grande arte de dirigir os povos e as nações é ali reduzida à mais simples expressão de modestas cifras. Os meus vizinhos voltam do carro-restaurante. para viajar . mesmo à noite . as minhas modestas botinas. aliás. Mário de Alencar. cujo fino talento tanta admiração me causa. segundo Bossuet. os "pedicures".Se o progresso traz miséria. A alguém. Eduardo Ramos. O pó das estradas de ferro continua a existir. quando.É porque é moda. os motorneiros. III O trem corre e se aproxima dos limites dos Estados do Rio e São Paulo. os "chauffeurs". é muito entendido nesse negócio que os doutores e coronéis do interior. e. da Liga Pela Moralidade. Elas não vão além de mil e é freqüente que os palestradores repitam o milheiro de várias formas: "porque o Maurício não podia contar com os mil votos que o Fábregas deu ao . em certa ocasião ao meio de uma grave sessão da Academia Brasileira. em compensação. para criar trabalho e profissões. uso que constituiria um sinal de má educação antigamente.por que então suprimir o capote de brim que resguardava as nossas roupas dele? Por que tornar chique viajar com roupas impróprias que muito mal se defendem da poeira? É difícil encontrar razões para os preceitos da moda. com grande simplicidade de meios e palavras. sem aviso algum. e com pressa e mêdo. Entretanto. acompanhados agora de um outro cidadão que. Eis um forte motivo que justifica os trejeitos de andadura que fazem as nossas melindrosas. Veja você só os "manicures". pelo que dele ouvi. O progresso. ainda dentro do Estado do Rio. é a arte de dar felicidade aos povos e tornar a vida cômoda. etc.

é natural que se esquecesse . . etc. mas descarregou-os no Brandão". um afrouxamento do uso da nacionalidade. por modelo o patriarcado bíblico. dissera que a sua fazenda era só de criação. se é mãe do Crime e do Vício. e ainda mais desejo conversar com ele sobre febre aftosa.. os meus amigos católico-nacionalistas resolverão ." Ainda mais simpatizo com esse meu companheiro de viagem. e o Mário fez seus estudos com o avisado Miguel Calmon. Sabem por quê? Porque ele. em ocasiões solenes.estou certo . A isto acode um outro: "não foi tanto pelos mil votos do Fábregas. com o mútuo tratamento de tu e você entre pais e filhos. apelara para o Ministério vizinho do Hospício.Olha o Maurício! Penso que é o de Lacerda e antegozo uma disputa de alta política eleitoral em que o meu Maurício de Lacerda certamente não deixará de pontilhá-la com algumas sentenças comunistas.. e acompanha a conversa política dos seus amigos. que. Ao chegar a uma estação qualquer. com quase quarenta anos. as damas e moças. É tradicional que. é um menino fardado de colegial. Careta.a questão a contento de todos e com rara sabedoria escolástica O menino saíra. antigamente. Não há nisto e. por ser agora. sobre coisas do Ministério Simões Lopes. como eu já era. uma injúria irrogada aos manes dos nossos avós? Penso que há ai alguma coisa como que uma diminuição da forte constituição católica da família brasileira que sempre teve. ele ganharia". desculpa este também: "ele tem muito que fazer. Não sou autoridade no assunto. e continuamos a correr sobre os rails da Central. É verdade que eu a estudei nas "public-houses" de New-York e Londres. tal e qual faziam. dentro da escuridão da noite. com o eminente Mark Twain. tão natural. ao ser apresentado ao tal coletor.. e toma parecenças com os discursos parlamentares do meu simpático Cincinato Braga ou com os artigos do Mário Guedes. mas. nas faces. nos telhados velhos do edifício. graças à doutrinação da Igreja. onde este último possui um campo experimental da cultura do fumo ou tabaco bravio. que dispõe de outros tantos. depois se abraçarem. exclama com terno espanto: . Percebo que é filho do médico. Dentro em breve. na Sociedade de Agricultura. foi porque ele não soube trazer para o seu lado o Assunção. Infelizmente não é o de Lacerda. sob o doce e longo olhar paterno. Há alguma diferença. que lhe enviara em auxílio um veterinário com uma lata de creolina. ah! não fosse isso e a intervenção do "centro". O pequeno quer descarregar a culpa para o chefe de trem. ligeiro e alegre. também. é também o intermediário mais perfeito entre o mistério da nossa alma e aquele que nos cerca. A política naquela palestra de influências eleitorais reduz-se a números. o médico que viajava em frente a mim desde a Central. para sossego da "brasilidade".Borges. que perdeu o trem ou fêz qualquer traquinada e não saltou na estação devida. o filho leve aos lábios a mão direita do pai e a beije no dorso. tomo a meu pai. 7-5-1921. porém.. O pai recebe com bonomia as explicações do filho. sem nenhum ralho na voz ou no olhar. Nessa despedida encontrei um problema nacionalista que rogo aos meus amigos Álvaro Bomilcar e Jackson de Figueiredo a resolverem-no quanto antes. ao se encontrarem. meu colega também. o pai. para assustar os contos de réis daquele insolente Mário que despreza os meus cigarros. o filho se despede. nesses momentos. tão simples. etc.. É a bênção que ainda hoje eu. e que. professor de agricultura. muito diferente dos amigos que o acompanham. Acontece que ultimamente foi introduzido o uso estrangeiro de se beijarem pai e filho. ao lhe aparecer não sei que peste no seu gado. na rua da Alfândega.

"grilos". é o de Gastão Cruís Coivara. a crescer sobre as recentes derrubadas. de dois e três anos.. contra a violência que sofreram. é a de oficial de justiça. Ele marcha para o conto. não faço nada. depois. desse livro em que o autor. não só paulista. a fim de estudá-lo convenientemente. altos troncos carcomidos e enegrecidos pelo fogo. a de soldado. e até a conta de pares o é. mas brasileira. Um outro livro que. Tem ela por tema "O destino da Literatura". Letras. é um gozo observá-la em todas as camadas. mas. vou pedir ao meu Félix Pacheco que a publique no Jornal do Comércio. Faltam-lhe água e montanha. Sente-se que o "rush" da população para aqui. se é que tenho algumas. pela circunspeção e seriedade. com ar tímido de criança sonsa. abandona o pseudo clássico de Aloísio.. O caboclo passa por eles. ainda não dei começo ao trabalho que tratei contigo fazer. É um livro de Contos que todos aí conhecem. Pois. escreve como eu ou como o Cardim do Jornal do Comércio. Há aqui intermináveis questões de terras. ao que parece. como já disse a V. a não sei que propósito.Moço: a pior. O horizonte é igual e unido. apesar de médico. e as florestas de perobeiras já fugiram para longe do povoado. sem cessar. Sem propósito algum. Constituída assim a povoação do lugar. para aqui trouxe. tenham ambos dos fins da literatura. entretanto. Mas que diabo V. V. é um romance que tem andado aqui de mão em mão e não sai de uma delas sem os maiores gabos e sem sugerir aos leitores reflexões sobre os encantos da vida roceira sobre a da cidade. não pude ler o Senhora de Engenho. É este o título do romance de Mário Sete. em pé. Ela corre atrás desse demônio do café que vejo pequenino. faz . sem discordarem. Um curioso tipo de plantador. hipotecas e anticreses são termos e instrumentos de créditos familiares a todos. autor do formoso Rosas e Espinhos.dirá o amigo . quanto mais os ouve. ainda. disse-me um dia destes: . e nem os olha.que não escreve ao menos isso? Passeio e converso. as grandes notas de cem. idéias muito diferentes das minhas. devido à falsificação de títulos de posse. mas se revela um temperamento complexo de pensador-homem de letras. a que chamam . deixando das derrubadas e das queimadas conseqüentes. aos céus de dia e de noite. depois. Este pequeno de fisionomia verde-chumbo vai ser o diabo. Imagina tu que estou aqui há bem um mês e ainda não pude ler convenientemente. Um é do Mário Sete. fazem as delicias dos advogados e . A bem dizer. a pedido de "várias famílias". me perguntou o que faço nestas paragens que não te mando o manuscrito prometido. É muito pobre a esse respeito. duzentos e quinhentos mil-réis são comuns. Aqui só se fala em conto de réis. para convenientemente dar noticia de dois livros.. não tem em grande conta a terra e as suas árvores.. para o conto de réis. Merece ou não o Jornal do Comércio? Espero que ela será muito apreciada pelos conspícuos acadêmicos Afrânio Peixoto e Hélio Lôbo. apesar de ser a negação para o gênero.. Quero muito falar . já escrevi uma conferência literária que.DIAS DE ROÇA (Carta) Meu caro amigo. converso com este ou aquele e me edifico. como para significar o seu protesto e clamar. a mais baixa profissão desta vida é a de advogado. por isso mesmo. Essas complicações. embora. com a sua natural mescla de imigrantes de várias proveniências. Mirassol não é uma paisagem.

O intuito dos opositores à candidatura do Sr. 14-5-1921... Evite os protestos. pobre e oprimido. Qualquer modalidade de hipocrisia política. o que se chama política no Brasil. mais ou menos com isto. atualmente eleito presidente da República. e vou de graça. coisa que não fazia aí. Toda a gente sabe que isso tem sido um flagelo. porém. com a nossa democracia. etc. Para mim a política. Só admito que se morra em matéria de política quando se o faça por uma idéia que interesse um grande grupo humano. Ela tende para tornar a vida incômoda e os povos infelizes. impedir a posse do mesmo senhor pela força. mas eles devem ser muito baixos e vagabundos. de que se revista o provimento deste ou daquele cargo de eleição. Não sei os pródromos de semelhante barulheira. para.. hospedar estrangeiros. levei-o de troça. que me ocupo aqui onde estou. São os meus dias de roça.são o pesadelo dos agricultores. Ultimamente. de superior. tanto para elas como para nós.. são atualmente piores que os almotacés do conde de Resende. Pus-me de parte e tive razão. De V. caso fosse possível. conforme Bossuet. No caso não havia isto e eu. PALAVRAS DUM SIMPLES Nunca me meti em política. por exemplo. a opinião do fazendeiro que ouvi Há coisas dolorosas provocadas por essa história de "grilo" que sociólogos da escola do super-homem já elogiaram no Rio de Janeiro. é melhor do que o . no Rio. entre nós houve uma barulheira política que quase sacudiu o pais. Por estas e outras eu sou completamente avesso a negócios de política. essas mesmas autoridades se encarregam do bem-estar dos ricaços displicentes que vêm a passeio. desta nossa leal e heróica cidade do Rio de Janeiro. vou ao cinema. Os prefeitos. Estes tinham direito a certo número de línguas e "mãos de vaca" das reses abatidas no matadouro. À noite. vetá-la e. Deixemos isso para mais tarde. Dai. como se dizia antigamente. meu caro amigo. tem por fim tornar a vida cômoda e os povos felizes. Bernardes era mover o Exército contra esta. as autoridades municipais se encarregavam do bem-estar do seu povo. E outra atitude ele não merecia. atribuidas ao Sr. aqui e ali. porque não acredito nela e muito menos nos políticos. é que o observador imparcial logo concluiu que nenhum dos grupos que se digladiavam falava a verdade. Desde menino. no tempo de el-rei Nosso Senhor. como representante da imprensa carioca. A verdade. etc. que vejo a "política" do Brasil ser justamente o contrário. Todas as medidas de que os políticos lançam mão são nesse intuito. Careta. ver bobagens de uma "Exposição" de aterrado. hoje porém. Artur Bernardes. Bernardes excitaram os brios da força armada contra ele. baseados nas referidas missivas. isto é. É. A questão versava sobre uma falsificação de cartas.. Havia nisto um apelo declarado ao que se chama nas repúblicas espanholas "o pronunciamento". cheios de dinheiro.. Tais cartas continham insultos ao Exército e os adversários do Sr. De forma que. O dever nosso é evitá-lo de qualquer forma. os edis de hoje mandam construir hotéis de oito mil contos. Não havia nessa agitação nada de ideal.

há tanta incoerência nesses políticos que nos azucrinam os ouvidos com velhos tropos quando querem satisfazer as suas ambições. 22-7-1922. tomava o café matinal em companhia de meus irmãos. Na noite do baile. estava dormindo a sono solto. Perguntei a minha irmã. mas a informação me fez lembrar do . etc. Seria capaz de deixar-me matar. Vimos em que deu a coisa. mas mudar só de nomes de governantes nada adianta para a felicidade de todos nós. Às 9 horas. fui deitar-me cedo.assassinato e a violência. ou já se dançou. O dia veio se fazer inteiramente. sujeitos que. O baile já havia começado e ainda com algumas polcas repinicadas ao piano. na minha vizinhança. Nunca vi dançar tal coisa. Demais. se insurgiram contra a intromissão. e. como sempre faço quando me resolvo a descansar a sério. esta vida será sempre uma miséria. mas agora."Cake-walk"? . Os pobres-diabos que se apaixonam por essas especulações de políticos é que levam o "chanfalho" da polícia e sofrem perseguições. Justifiquei-lhe o motivo da pergunta. a fim de tornar vencedora a própria causa. a não ser polcas adoidadas e violentamente sincopadas. fox-trot. nem me tenta vê-lo. para implantar aqui o regímen maximalista..Ainda não se dança. . Como tinha passado um mês enfurnado na minha modesta residência.. não ouvi outra espécie de música. Sancho ou Martinho que governe. houve um baile. Às 2 e meia. Hoje.. nem nada de sincero e de sério. provocado pela monótona musicaria do baile da vizinhança. Levantei-me da cama e.disse-me ela. interrompi o sono e estive acordado até às 4 da madrugada. para a sua fôrça e o seu prestígio. por aí assim. a pressão dos militares nas causas políticas.. mazurcas. se nos dias presentes não se dançavam mais valsas. apelarem para eles.Qual! . as entradas das caixas de doces. Penso assim porque estou convencido de que seja Paulo. . A não ser umas barcarolas cantadas em italiano. nos últimos acontecimentos. mas a favor de Fagundes ou de Brederodes não dou um pingo do meu sangue. deixando o chefe sozinho Que este fique só. etc.perguntei. Tenho para mim que se deve experimentar uma "tábua rasa" no regímen social e político que nos governa. não há mal nenhum. O que apreciam os dançarmos de hoje. Ele é rico ou enriquecido e pode agüentar o repuxo: mas o povo não deve ir atrás dessa gente. . . são músicas apolcadas. escafederam-se.Não se gosta mais disso. quase em frente à minha casa. está aparecendo um tal de "shimmy". quando acabou o sarau. Ao menor sopro de "mazorca" foram todos pelos ares e eles todos debandaram. quadrilhas ou quadras. dentro em breve. pude perceber todos os preparativos da festa doméstica: a matança de leitões. a ida dos assados para a padaria. que servem para dançar o tango. não há muitos anos. que vimos. São causas que nós. que para enfezar Copacabana denominei "Vila Quilombo". não devemos esposar. porque elas não representam nenhum ideal elevado. rang-time. tocadas "a la diable". BAILES E DIVERTIMENTOS SUBURBANOS Há dias. durante todo esse tempo. humildes.

presidia sempre a capacidade da sala de visitas para a comemoração coreográfica das datas festivas da família. e reveladoras de cultura. elas são deturpadas. porque a melhor peça dela era destinada a estranhos. uma instituição nacional. Havia famílias que davam um por mês. Pode haver exagero . era ou foi. que é bem possível não ser ele isento de culpa no recrudescimento geral. incluídos os Democráticos e o Music-Club das Laranjeiras. dessas danças luxuriosas que os hipócritas estadunidenses foram buscar entre os negros e os apaches. que era também suburbano. e havia também cavalheiros e damas que não faltavam a eles. perdem o que significavam primitivamente e se tornam intencionalmente lascivas. de frases e de gestos. além de irem a outros de famílias diferentes. que dançam "one-step" e o tango argentino. entre esses retardados exemplares da nossa humanidade. Mendonça alude ao que se passa no "set" carioca. como tipos de dançarinos . Isto. mas de que forma. semelhantes danças não têm a significação luxuriosa e lasciva que se julga.refere-se à licenciosidade das danças modernas. ou as tínhamos para os outros. com as verdadeiramente pobres. não sei se é. que são um pouco mais amplas do que a gaiola dos passarinhos. santo Deus? Quando fui morar naquelas paragens não havia noite em que voltando tarde para casa.verde é sempre uma espécie de argot . no seu interessante livro . Meia dúzia de pessoas. O meu amigo Sussekind de Mendonça. o subúrbio não lhe fica atrás. porém. quando em estado selvagem. Fazem parte dos rituais dos seus Deuses. porém. Isto acontece com as famílias remediadas.mas o tal de futebol pos tanta grosseria no ambiente. Convém notar que. Hei de falar mais detidamente sobre esse vigoroso livro: agora. veio deste para aquela. eles ficaram reduzidos ao mínimo de um concerto de violão ou a um recibo de sócio de um clube dançante na vizinhança.que era um baile familiar há vinte anos passados. diria o saudoso Figueiredo Pimentel.sempre mutável e variável de ano para ano. e com elas invocam a sua proteção nas vésperas de guerras e em outras ocasiões solenes. porque não interessa tanto ao subúrbio como ao "set" carioca. em que dançavam dúzias de pares? Evidentemente. acentuadas na direção de um apelo claro à atividade sexual. provocantes e imorais. o dança. O baile. especialmente suburbano. O meu estimado Mendonça atribui o "andaço" dessas danças desavergonhadas ao futebol. Eram célebres nos subúrbios. com um chôro. e. como se dizia na gíria do tempo. não. porém. Antônio Leão Veloso achou isso exagerado. de alto a baixo. e especialmente. Passando para os pés dos civilizados. onde as moças vigiadas pelas mães possam pirutear em salão vasto. Nos tempos idos. Na escolha da casa. . mas pelo que me informam.desdenhava o subúrbio e acusava-o falsamente de dançar maxixe. Há uma coisa a notar: é que esse maxixe familiar não foi dos "Escorregas" de Cascadura para o Acchilleon do Flamengo. O subúrbio civiliza-se. hoje. não há diferença: todo o Rio de Janeiro. adquirida a prestações. não nos interessa.O Esporte está deseducando a mocidade brasileira . numa delas. ao contrário. não topasse no caminho com um baile. na gente pobre. na capacidade dos seus aposentos e cômodos. Por isso entre a gente média os bailes estão quase desaparecendo dos seus hábitos.não ponho em dúvida tal coisa . Os construtores das casas já sabiam disso e sacrificavam o resto da habitação à sala nobre. fora os extraordinários. as casas minguam em geral. Como é que elas podem comportar um baile à moda antiga. Nas salas de visitas das atuais mal cabem o piano e uma meia mobília. e nessas bárbaras danças se nivelam. essa gente verde das nossas elegâncias . a coisa piora. Houve quem dissesse que nós fazíamos casa. cabe só uma observação. Ou moram em cômodos ou em casitas de avenidas. O Sr. certos rapazes e moças. estão ameaçadas de morrer asfixiadas com as janelas abertas. tanto desdém pelas coisas de gosto. tanta brutalidade de maneiras. Hoje. no Rio de Janeiro. mas tenho certeza de que era profundamente carioca.

A sua especialidade estava na valsa americana que dançava como ninguém. Era um rapaz de boa altura. Dizia a todos que. mas a valsa era a sua especialidade. Além destes subconvidados. está casado. cuja vida particular a cada um deles se fazia isoladamente. para uma ceia modesta. com dois ou três filhos que lhe dão um imenso trabalho para acomodar nos bondes. Seu Gastão ainda existe. Afirmava ele. ao valsar. A sua testa era alta e reta. Quando rei suburbano do "pas-de-quatre" era empregado de um banco ou de um grande escritório comercial. por tanto dançar não tinha tempo de namorar. grandes e bastos bigodes. calavam-se. gordinha. sempre requestada para esta e aquela contradança. porém. porque Cacilda trazia Nenê e esta o irmão que era namorado daquela . atualmente ainda encontro. Dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano. Hoje é diretor-gerente de uma casa bancária. penso de mim para mim: para que essa moça se cansou tanto? Chegou afinal ao ponto em que tantas outras chegam com muito menos esforço. testa de deusa a pedir um diadema.domésticos. em atitude comum de passeio. Fazia cumprimentos hieráticos e dava os passos com a dignidade e convicção artística de um Vestris. Eram raros os excessos e as danças. era o "pas-de-quatre".. transitoriamente. não dançava. Outras até elogiavam. O puritanismo era francamente favorável a eles.. de uma delicadeza exagerada. para entrar nos bailes penetrar. Nesses bailes suburbanos. Esses bailes burgueses não eram condenados pela religião. Só dançava de "smoking".. Chamava-se assim certos rapazes que. mora em Conde de Bonfim. que acabava não vendo nenhum ou não firmando a fisionomia de nenhum. dentre eles. que dançava com ademanes de dança antiga. a casa se enchia de desconhecidos. valsando ficava outra. assim. sem nenhuma espécie de convite. cabelos abundantes e sedosos. e o resto do vestuário de acordo. tem filhos. longe disso. lhes causou. Se algumas nada diziam. não merecia consideração. Não desdenhava as outras contradanças. sem terem ocasião de trocar impressões. se prolongavam até o clarear do dia sem que o mais arguto do sereno pudesse notar uma discrepância nas atitudes dos pares. e tinha uma notoriedade digna de um poeta de "Amor" ou de um gatimanhas de cinematógrafo. Era estimada como discipula de Terpsícore burguesa. às vezes. só nos dias de luto da semana santa e no de finados. Sereno. Santinha valsava até de madrugada. um traço próprio. Não' era bonita na rua. quais os . de minueto ou de coisa parecida. Baile em que não aparecia seu Gastão. Em todos os mais. A sua especialidade não era a valsa. Fugia ao solo e como que pairava no espaço. por acaso. mas raramente dá bailes.. via tantos e tantos cavalheiros. com o intervalo de um hora. dançando ou não. Chamavam-na Santinha. o mártir era o dono da casa: Seu Nepomuceno começava por não conhecer mais da metade da gente que. pela bôca de adeptos autorizados. Dançou para a vida inteira e também pelos filhos e filhas. Quase sempre era formado de pessoas das vizinhanças e outras que não haviam sido convidadas e lá se postavam para ter assunto em que baseassem a sua despeitada crítica. tomava um ar de sílfide. A sua aparência era de uma moça como muitas outras. de divindade aérea. de feições miúdas. e prosperou na vida.a única cuja família tinha relações com a do Seu Nepomuceno. ainda existiam os penetras. a encontro atrapalhada com os filhos. sem comunicarem mutuamente quais os seus anelos. abrigava. Conheci alguns. apesar da multidão dos convidados. De fato. e ouvi muitos falar neles. era chamado o agrupamento de curiosos que ficavam na rua a espiar o baile. sem grande relevo. pouco vulgar nas moças. e quando hoje. até hoje não escondem a profunda impressão que a moça. Se não era bela na rua. Os que a viram dançar e me falam dela. Em geral. que essas reuniões facilitavam a aproximação dos moços de dois sexos. essas festas domésticas tinham um grande cunho de honestidade e respeito. de uma moça que. numa vasta casa. usavam deste ou daquele truque. Tinha. O "pendant" masculino de Santinha era o seu Gastão. vaporosa e adquiria um ar esvoaçante de visão extra-real. Lembro-me bem. simpático. e.

doces diversões familiares. grupos. nos subúrbios. porém. é tal e qual outro e qualquer cinema do centro ou qualquer parte da cidade em que haja pessoas cujo gosto de se divertir no escuro arrasta a ver-lhes as fitas durante hora e tanto. de zambumba.Revelação: . Precisa-se de ruído. são os mesmos cordões. é o maior divertimento popular da gente suburbana. que. no seu último livro . nem o "shimmy". era a do teatrinho de amadores. A vida é cara e as apreensões muitas. A carestia da vida. Estou certo de que os positivistas. um cavaquinho e violão ou sob o compasso de um prestativo gramofone. atualmente. pode-se dizer que o baile familiar e burguês. sob todos os pontos de vista. Resta-nos o Carnaval. em matéria de diversão. extraordinariamente honesta em comparação com os tais "steps" da moda. se haja hoje generalizado nos subúrbios. É o caso de imitar o outro e escrever: O Código Penal e a inutilidade das leis. Sem receio de errar. O do Riachuelo. haja uma dezena de Casanovas disponíveis. julgariam que os atuais bailes aproximam por demais os sexos. as mesmas músicas indigestas e.seus desgostos. O violão e a modinha que Catulo. e. no recesso do lar com um terno de flauta. como em todo este Brasil inteiro. entretanto. possuía um edifício de razoáveis proporções. está fora da moda. ao som do piano ou de estridulantes charangas. ainda volteia a sua valsa ou requebra uma polca. os suburbanos apreciavam muito e hoje está quase morta. O subúrbio não se diverte mais. como em Niterói. ao subúrbio dar-lhe alguma coisa de original. porém. de cansaço. que foi impossível. Pode ser. vão sendo mais prezados e já se fazem encantos dos saraus burgueses em que. democrático e efusivo. favorecendo tudo isso os saraus familiares. pouco ou quase nada existe mais. a exigüidade das casas atuais e a imitação da alta burguesia desfiguraram-no muito e tendem a extingui-lo.Os homens são jograis. para espançar as trevas que em . antigamente. blocos. se servem da arte reabilitada pelo autor de Sertanejo. Vi isto só uma vez e não garanto que essa hibridação do samba. os mesmos versos indignos de manicômio. levarem a desgraça a lares pobres e perder moças ingênuas e inexperientes. as mulheres. Uma outra diversão que. com o seu talento e a sua obediência cega a um grande ideal. de próprio ao lugar. dança ainda à antiga. artista honesto. Lá. mas desapareceu. foi transformado em escola municipal. enfim. como na Avenida. Até o pianista. ele arrebatou e monopolizou. mas sei que as suas regras de bom-tom em nada ficam a dever às dos congêneres dos bairros elegantes. mas não tenho documentos para tanto afiançar. o Carnaval em que como lá diz Gamaliel de Mendonça. tão igual por toda a parte.. Nunca lhes vi uma partida. "anathema sit". A única novidade que notei. É pena que para um Catulo. para esquecer. o célebre pianista de bailes. hoje. segundo tudo faz crer. a sua proeza homérica com letra e música da escola dos cordões carnavalescos. O cinema absorveu todas elas e. Há por lá monstros desses que contam tais proezas às dezenas. pelas causas apontadas. pondo de parte o Mafuá semi-eclesiástico. e. como em Maxambomba. Os clubes pululam e os há em cada terreno baldio de certa extensão. Nada tem. O que havia de característico na vida suburbana. mais ou menos africano com o futebol anglo-saxônio. e essa mesma não me parece ser grave. foi a de festejarem a vitória sobre um rival. O pequeno povo porém ainda não sabe o "fox-trot". bacantes. maus de natureza e sem talento algum. é ele. por intermédio de horríveis cantarolas. a fim de. cantando os vencedores pelas ruas. Nos seus clubes. com sua tenacidade. teve a sua meia hora de celebridade. Quase todas as estações tinham mantido um Clube. dignificou e tornou capaz da atenção dos intelectuais. as danças mínguam.. não permitindo prazeres simples e suaves. com gambitos nus. e. equilibradas e plácidas. O futebol flagela também aquelas paragens como faz ao Rio de Janeiro inteiro.

Vê-se nele a sua vocação de ditador e ditador mexicano. só em milho. dias e meses.. Aí não é o sabre que cede à toga. Para as dificuldades materiais de sua precária existência. admira Rondon porque sabe andar léguas a pé. hoje general. porém. coisa pouco sabida e conhecida. era. Tudo o está levando para isso. Rondon catequista é um grande general e o general Rondon é um grande catequista. durante horas. diz-se caboclo ou descendente de caboclo. Rondon. inebria-se minutos. um aumentozinho de vencimentos. criou esse seu paraíso artificial. além de outras qualidades e artefatos. porém. Ele não mais se diverte inocentemente. Um deles é o Sr. mais densas se fazem. a raça mais atrasada. O general Rondon nunca venceu batalhas. dão-lhe um destaque excepcional. Deolinda Daltro. sobretudo. Entretanto. A mania. só há a Sra. há uns caboclistas muito engraçados. o desinteresse que ela põe nele. o tupi. no Brasil. porquanto tinha intensificado a agricultura entre os Nhambiquaras. porque o seu talento é telegráfico. O NOSSO CABOCLISMO Uma das manias mais curiosas da nossa mentalidade é o caboclismo. ele gastava mais de quinhentos contos por ano. só gosto do Uruguai de Basílio da Gama. acompanhando "pari-passu" as suntuosidades republicanas. e não as vencerá. inclusive as suas descobertas já descobertas e a sua determinação de coordenadas de certos lugarejos pelo telégrafo. contudo toda a gente quer ser caboclo. Nada justifica semelhante aristocracia. atualmente. Até hoje. acho eu que essa virtude não é das mais humanas. além do Guarani de José de Alencar. Toda a gente. O que o general Rondon tem de mais admirável. Chama-se isto a cisma que tem todo o brasileiro de que é caboclo ou descende de caboclo. Muito influíram para isso os poetas indianistas e.torno da nossa vida. mas foi preciso que o Brasil se fizesse republicano para que tal coisa coubesse aos oficiais do Exército. dia para dia. percorreu o Brasil. essa missão estava reservada aos religiosos de toda a espécie. Sei disto porque nesse tempo era eu empregado da Secretaria da Guerra e vi os papéis a tal respeito. Em matéria de caboclismo. que nada tinha de tupinambá. Não há general como ele para estender linhas de telégrafo. o subúrbio se atordoa e se embriaga não só com o álcool. quando um sujeito se quer fazer nobre. porquanto o caboclo. sobretudo quando fala da morte de Lindóia em cujo rosto a Morte era mais bela. contudo. para catequizar caboclos. o primeiro romancista do Brasil. que tem um ar feroz de quem vai vencer a batalha de Austerlitz. Gazeta de Notícias. com a lascívia das danças novas que o esnobismo foi buscar no arsenal da hipocrisia norte-americana. mas não há também general como ele. e. Nunca se viu pessoa tão conspícua no caboclismo. Quando Rondon foi chefe da Comissão das Linhas Telegráficas. nas nossas origens. A seriedade do seu ideal. para esperar. o grande José de Alencar. em cujas delícias transitórias mergulha.. 7-2-1922. é a sua fisionomia de crueldade. é a batina que se vê vencida pelo sabre. . Depois de tão excepcional caboclista.

no noticiário policial. em que ele me fala da "Carta Aberta" que o meu amigo também Dr.. Nos bondes. nos cafés. Mário Valverde. Afonso de Aquino. Os jornais não falavam em outra coisa. TENDO recebido de Porto Alegre. e suas teorias. apesar de tudo. Percebi logo existir um grande mal que a atividade mental de toda uma população de uma grande cidade fosse absorvida para assunto . de intrigas de sociedades. Francisco dos Reis. Deolinda acaba de se apresentar candidato a intendente da cidade do Rio de Janeiro. As moças eram conhecidas como sendo torcedoras de tal ou qual clube. era de alguma aldeia de índios. só se tratava do jogo de pontapés.D. nas seções especiais. nos trens não se discutia senão futebol. Não era do Rio de Janeiro que ela devia ser intendente. a fundar a Liga foi o espetáculo de brutalidade. no campo do Seleto Clube. não sou selvagem. Carlos Sussekind de Mendonça me dirigiu. A respeito. uma terna missiva do Dr. Nada teria a opor. como ainda não tenho. traziam notícias de conflitos e rolos nos campos de tão estúpido jogo. como resposta ao veemente e ilustrado trabalho do Dr. por intermédio desta revista. A minha cidade já de há muito deixou de ser taba. Sussekind. Nas famílias. etc. desse nosso engraçado Conselho que teima em criar teatro nacional. indo a bola partir a perna direita de Francisco dos Reis. mas. o que não acontece com o Dr.O Esporte está deseducando a mocidade brasileira . Comecei a observar e a tomar notas. os jornais. nada sabia sobre educação física. qualquer erudição especial no assunto. Confesso que. a mim e ao falecido Dr. conversas íntimas. de 16-1-1922. o seu célebre Émile. por isso. e eu. e. Não se tratava de outra coisa no Rio de Janeiro. Nas segundas-feiras.lembrei-me de escrever estas linhas. e até a política do Conselho Municipal. 11-10-1919. nas quais os sábios e virtuosos cronistas esportivos teimam em encaixar o esporte. se não me parecesse que ela se enganava. Rio-Jornal. COMO RESPOSTA O foguista da Armada. Mendonça. etc. meu saudoso amigo. Nunca fui dado a essas sabedorias infusas e confusas entre as quais ocupa lugar saliente a chamada Pedagogia. assistir ao jogo de futebol. em suas. à rua São Gabriel. e mesmo a vagabundíssima Educação de Spencer nunca li. Em meio do "match" o jogador Jadir Brás deu um formidável "shoot". procuravam epítetos e entoavam toscas odes aos vencedores dos desafios. Páginas e colunas deles eram ocupadas com histórias de "matches". publicando-a sob a forma de 'livro e com o título . de absorção de todas atividades que o futebol vinha trazendo à quase totalidade dos espíritos nesta cidade. não tinha. Careta. senão esquecido. O que me moveu. foi. afiavam a pena. eu só tentava ler Rousseau. como se ele fosse nacional.até isso era relegado para segundo plano. quando fundei a Liga Brasileira Contra o Futebol. a fim de subvencionar regiamente graciosas atrizes . ontem.

Dai em diante. não admito críticas a meus livros e aos meus escritos senão aquelas provindas de escritores que como eu não dispõem de força. Spencer era inimigo do futebol. tenho voltado ao assunto com todo o vigor que posso. eu não morri ainda. Ora. Sussekind pode ficar certo de que se a minha Liga morreu. A polícia.1922. nem medida. o governo não deu não sei que favor aos jogadores de futebol e um pequenote de um clube qualquer saiu-se dos seus cuidados e veio pelos jornais dizer que o futebol tinha levado longe o nome do Brasil. Combaterei sempre o tal de futebol. e é da natureza dos governos não admitirem crítica. semanário que o ilustre poeta Humberto de Campos publica com um sal que. escrevi também que eles cultivam preconceitos de toda a sorte. Quando a fundamos. anda a vigiar a A Maçã. Quando se os critica. Admitir que um simples delegado de polícia ou uma praça de pré do meu amigo coronel Badaró esteja nos casos de julgar os meus escritos.o que julgo essencial em ajuda da maior felicidade da comunhão humana. bolas! Certa vez. Esquecem totalmente da insignificância dele. que me insurgi. eu fui alvejado com os mais soezes insultos e indelicadas referências. O meu caro Dr. Ela é uma emanação do governo. foi. pela A Notícia. 'Risum teneatis". mostrei que. se permitia tão horripilante coisa. para dizer o meu pensamento sincero . porque verifiquei que. "A MAÇÃ" E A POLÍCIA Noticiam os jornais que a polícia por intermédio de seus agentes e prepotentes. partidários de futebol e uma récua de nomes desconhecidos cujo talento só é conhecido na tal Liga Metropolitana. até numa sociedade. É ler uma crônica esportiva para nos convencermos disso. Ela não foi avante. é abdicar do meu esforço silencioso e doloroso durante vinte anos. ao contrário. em todas as estações e por todo e qualquer sujeito. se não é de azedas. que o "sport" é o "primado da ignorância e da imbecilidade". Um dia destes o Chefe de Policia proibiu um encontro de "box".tão fútil e se absorvesse nele.4. como o meu amigo Sussekind. então. não somente pelos motivos que o Dr. ela encontra atentados à . qualquer poder que incida sobre a liberdade de pensamento.. feito sem regra. em todo o mundo. mas também porque nos faltava dinheiro. ela faz obra dos governos e em qualquer trecho do escrito. Ameaçaram-me com vigorosos polemistas. o cronista esportivo censurou asperamente essa autoridade que procedera tão sabiamente apresentou como único argumento que. 8. me gabo de ser independente. Careta. percebi também que não concorria tal jogo para o desenvolvimento físico dos rapazes. Falando nisso a Valverde. Coelho Neto citou Spencer e eu. ele me disse todos os inconvenientes de tal divertimento. Sou escritor e. Dai o perigo que há em se entregar à polícia. eram sempre os mesmos a jogar. se mérito outro não tenho. tivesse as lesões que tivesse. Mendonça escreve no seu livro. nem de chanfalho. E acrescento mais: da pretensão. Fazendo-a. deve ser ático. pela sua feição própria.. Os seus autores falam do assunto como se tratassem de saúde pública ou de instrução. Fundamos a Liga. ela apela para a ordem e para a moralidade. fosse de que constituição fosse. Sendo assim. é incapaz desse papel de censura de qualquer manifestação de pensamento. porque estou convencido.

que é um portento de energia e honestidade. e. Perguntarei aos policiais: o que é moral? Eles não saberão dizer. e. Tive lá um amigo. Polícia foi feita para prender gatunos e assassinos e nunca para fazer crítica literária. em nome da liberdade de pensamento e tendo em vista a incompetência literária da polícia para fazer censura de escritos e a sua falta de autoridade moral. É um abridor de estradas. Lá. é ponta de trilhos e para lá vão ter toda a espécie de aventureiros. É justo que essa gente se mova para o interior do Brasil. muito a de um médico. o Francisco de Sales. se ele edita o que edita. na cabeça. cuja competência em tal assunto não tem nenhuma base na lei e nos costumes. a família do pequeno ou da pequena não a podia pagar. Careta. ficaria lá para ajudá-lo no seu mister. Cenobelino foi chamado para ver uma criança que tinha levado um coice de um cavalo. dirão que é a homenagem que o vício presta à virtude. no bom sentido. 1 1-3-1922. sob qualquer ponto de vista. e. embora eu fosse incapaz de fazer o mesmo. GENEROSIDADE Quando estive agora. creio que de trepano. é de uma generosidade fidalga. mesmo com um simples nível de pedreiro e uma trena. O Dr. formado na Suíça. no interior de São Paulo. Muitas figuras como essa lá conheci de energia e de combate.moral.Para quê? . Há os "grileiros" fabricantes de títulos falsos de propriedades de terras. ultimamente. há os advogados. conquanto esteja iniciando a carreira. Ele as traça por gosto e prazer. eu protesto contra a censura policial feita à revista de Humberto de Campos. Conto-lhes o caso. Se ainda tivesse energia para recordar esse estudo elementar. O seu primeiro é Cenobelino. em Rio Preto. Ele se prontificou a fazê-la gratuitamente. Que "pataqueiros". mas há também os que querem horizontes novos para a sua atividade e para o seu trabalho. mas que tem o nome portuguesíssimo de Barros. intoxicado de Rio de Janeiro. Ele as abre pelo deserto e faz por elas trafegar automóveis. admito. onde ganhou um ar severo de alemão. porém. Conforme se diz em estilo diplomático. e tive um grande desgosto em não saber mais nada de topografia para auxiliá-lo. que usa da liberdade de crítica que as leis lhe facultam. confins desse Estado. . próximo a Goiás e a Mato-Grosso. Feriu-me. nos quais andei graças à sua generosidade. no bom ou mau sentido. A criança se salvou e não podia ver bilhete de loteria que não pedisse ao pai que o comprasse. Era cara. o faça. Eu lá senti muito que já estivesse desfibrado. mas. tive muita coisa a observar e muita coisa a meditar. um escritor celebrizado. se o souberem. fabricantes de "revistas" e "peças" de duvidoso mérito a ela se sujeitem. não posso conceber. a responsabilidade dele não pode ser diante de simples apitos de polícia e delegados. inclusive do da polícia. disfarçando-se e escondendo-se. para não me deixar ficar por aquelas bandas. O que o Sr. "cavando" e espalhando a graça e a harmonia da Guanabara que estão na minha alma. A criança precisava de uma operação difícil. Humberto de Campos escreve na sua revista é do conhecimento de todos nós.

pouco se incomodariam com os proventos da "indústria política" A República. ninguém quer agitar idéias. a fim de que não pareça que há medo em dar. mas a minha obrigação de escritor leva-me a dizer alguma coisa a respeito. "comem" os romancistas. a nossa falta de originalidade intelectual. a pobreza da nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral da nossa população. Ninguém admite que se divirja deles e.Para pagar ao doutor que me salvou. a de glória e de nome. A POLÍTICA REPUBLICANA Não gosto. A gente do Brasil. porém. mas o que não acho razoável é que eles queiram modelar todas as almas na forma das suas próprias. "comem" os advogados. o pai satisfez o pedido do filho e tirou a sorte. Careta. muitos outros que não cito aqui para não ser fastidioso. Esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual. não era a ambição de dinheiro. As fórmulas eram mais ou menos respeitadas. Ninguém quer discutir. Já na Revolução Francesa a coisa foi a mesma. O que havia neles. trazendo tona dos poderes públicos. nem trato de política. os homens tinham elevação moral e mesmo. Como ele. Todos querem "comer". Não é mentira isto.. "comem" os jornalistas: o Brasil é uma vasta "comilança". que muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e a sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu. com toda a . não é homem. Certo dia. Não há assunto que mais me repugne do que aquilo que se chama habitualmente política. sobre a questão. transformou completamente os nossos costumes administrativos e todos os "arrivistas" se fizeram políticos para enriquecer. "comem" os poetas. "comem" os filósofos. por esta ou aquela paga. como todo o povo a vê. ela tinha alguma grandeza e beleza. ser estabelecidas pelos poderosos do dia. havia desinteresse. "Comem" os juristas. infelizmente. e. entretanto. tanto assim. Até este ponto eu perdôo toda a espécie de revolucionários e derrubadores de regimes. os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência. 25-6-1921. qualquer opinião. Nunca quereria tratar de semelhante assunto. pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos. ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. "comem" os engenheiros. "comem" os médicos. um ajuntamento de piratas mais ou menos diplomados que exploram a desgraça e a miséria dos humildes. Era. Fouché. certamente. que era um pobretão. sem ofício nem benefício. A República no Brasil é o regime da corrução. atravessando todas as vicissitudes da Grande Crise. apesar de tudo. por isso mesmo. e quem não sabe lutar. Escusado é dizer que recompensou generosamente o médico do filho. deve ser uma luta. a bôrra do Brasil. acabou morrendo milionário. para obter ajudas de custo e sinecuras. Vem disto a nossa esterilidade mental. No Império. para que não haja divergências. A vida. isto é. Eu a encaro. Todas as opiniões devem. em alguns. há a "verba secreta".

19-10-1918. desta ou daquela forma. Hegel e mesmo Morales de los Rios. mas. porquanto tu és inteligente. Tu. nasceu-lhe depois da República.. porém. O mundo dá muitas voltas e tem muitas surpresas. quando passei em tua companhia cerca de oito dias no Júri.B. por três batalhões. Viva a República! A. a tua brochura tão especial teve grande repercussão. Não se admite mais independência de pensamento ou de espírito. Era justo. É a política da corrução. li que tu eras nomeado Diretor do Museu Nacional. tu. cabalaste e acabaste te fazendo presidente da Sociedade de Belas-Artes. etc. Dizia. que tudo fazia crer que tu continuasses pelo campo da Histologia. que não é uma caixa delas. porém. Foi o novo regime que lhe deu tão nojenta feição para os seus homens públicos de todos os matizes. e. porque vens revelar que o Brasil possui um Pico de Mirandola ou um Leonardo da Vinci. BILHETE Meu caro Bruno Lôbo: Lembra-te Bruno que sou teu velho conhecido de há muitos anos. Bruno. naquele famoso Júri em que tu foste presidente e eu fui perseguido por causa dele e tu homenageado. arvorando-te em Congresso Nacional. Taine. sem ler Winckelmann.C.independência de espírito.. Confiante neles. Quiseste mais. Tudo fazia que te encaminhasses por esse campo de Histologia e coisas parecidas.. escultura. em antiguidades americanas! Quem o diria! Enfim. etc. É verdade que. Lucílio e outros.. Que pensou? Fez-se sabichão em Belas-Artes. Quando não se consegue. meu caro Bruno. Michel. Conheci-te ainda estudante quando não tinhas tido a honra e glória de escrever a famosa brochura sobre a A Estrutura do Cilindro-Eixo. Não ficaram aí as que me reservaram o meu amigo Bruno. Feito diretor do Museu. Eu mesmo tive ocasião de verificar isso. em arqueologia egípcia. para sugar os cofres públicos. Bruno. Não o quiseste. não se deu. num belo dia. quando estiveste em Paris. graças à "reclame" que aqueles te fizeram. emancipaste a mulher e nomeaste a inefável Berta Lutz secretário do referido Museu. gravura. Bruno sabichão em História Natural. por dinheiro. no Campo de Santana. proclamada que foi a República. Ele tinha a virtude da modéstia e implantou em nós essa mesma virtude. Dou-te parabéns. o Brasil perdeu a vergonha e os seus filhos ficaram capachos. ali. achastes que esse campo era estreito demais para os teus méritos intelectuais. quando não é a do arrocho. Pleiteaste. O sábio histologista precisava mostrar que era capaz de maiores espantos. Tal. Como tu tinhas fartas relações com jornalistas e aderentes. e nessa Academia adquiristes profundos conhecimentos de artes plásticas. arquitetura. em breve trataste de pontificar sobre elas. Assombrei-me. Parecia que o Império reprimia tanta sordidez nas nossas almas. mas um caixão. . freqüentaste Helios Seilinger. abafa-se. Não chegava. Está aí como o meu amigo Bruno Lobo de "olhador" de microscópio passou a ser crítico de arte e pontífice em pintura.

porém. perlustra a velha Estrada Real de Santa Cruz. . É de manhã. para a direita e para a esquerda. etc. É o "Titio Arrelia" . a pastar pelas suas margens.um crioulo forte.Ainda bem! Careta. manejando o "controle". Mais adiante. e penso no passado. Ele os faz descer sem bulha nem matinada. nem assovia. aqueles guindastes.. viu carruagens de reis. e as cabras. contemplo aquelas velhas casas de fazenda que se erguem no cimo das meias-laranjas. uma palpitação de vida urbana. preguiçosamente. as suas cabras. meus olhos topam com medas de manganês. Vou ocupar o banco da frente. embora os bacorinhos. A usina do Gás fica ali e olho aquelas chaminés. graças a uma graçola que sublinha. O bonde se enche de moças de todas as cores com os vestuários de todas as cores.. Quem é ele? É o mais popular da linha. das suas cabras. DE CASCADURA AO GARNIER Embarco em Cascadura. Fujo dele. Limita-se muito civilizadamente a tanger o tímpano regulamentar. feio. sob um céu ingratamente nevoento. aquele amontoado de carvão de pedra. para um lado e para outro. cujas palmeiras farfalham mansamente. dos seus galos. mas "Titio Arrelia" não diz mais pilhérias. Então de novo me lembro da Estrada Real... E o bonde corre. Estamos em pleno Mangue. zombando da velocidade do veículo.. como todas as outras.. o passado é um veneno. a fuçar a lama. Ele percorre uma parte da cidade que até agora era completamente desconhecida. vai deitando pilhérias. mas simpático. essa trilha lamacenta que. 17-6-1922. ele já não se contenta com o tímpano. Desço. a Prefeitura Municipal vai melhorando. por ela toda. dos capinzais. Estamos no Largo de São Francisco. os seus galos e os seus capinzais? Não sei ou esqueci-me. Ele vai manobrando com as manivelas e deitando pilhérias.. junto ao motorneiro. com o estribilho: . e eu vejo delinear-se uma nova e irregular cidade. No passado! Mas. espadaúdo. como diz o povo. dos seus porcos. ainda lhe dêem muito do seu primitivo ar rural de antanho. Entretanto. Mas. o bonde de Cascadura corre. que até bem pouco vivia esquecida.Minh'alma é triste como a rôla aflita. Penetro pela rua do Ouvidor. há um sopro de renascimento. que me recita: . assovia como os cocheiros dos tempos dos bondes de burro. Os garotos. "Titio Arrelia".É pau! Esse estribilho tornou-o conhecido em todo o longo trajeto desse interessante bonde que é o Cascadura. por aqueles capinzais que já foram canaviais. A Light. Veio a Estrada de Ferro e matou-a. trepam no bonde e dizem uma chalaça ao 'Titio". Em grande trecho. de príncipes e imperadores. com o seu bonde de "Cascadura" descobriu-a de novo e hoje. Estrela e outros "portos" do fundo da baía. Assim aconteceu com Inhomerim.. de pensar nele e o bonde entra com toda a força na embocadura do Mangue. Onde os seus bácoros. Entro na Garnier e logo topo um poeta.

Amo os animais e todos eles me enchem do prazer da natureza. Eugênia: .o Amor. nós fazemos uma idéia da Grécia. Marocas a D. Quem os ama mais. 20-9-1919.Vizinha! Lá vem a carrocinha! Prenda o Jupi! E toda a "avenida" se agita e os cachorrinhos vão presos e escondidos. 29-7-1922. eu bendigo a humanidade em nome daquelas pobres mulheres que se apiedam pelos cães. Sozinho. Careta. uma para uso próprio. triste e saudoso da minha mocidade que se foi infecunda.Careta. Ela me lembra a antiga caleça dos Ministros de Estado. verdadeiras colchas de retalhos. entretanto. mais ou menos esbodegado. são elas que amam os cães sem dono. mas são as mulheres e as mulheres pobres. É preciso acabar com essa história da Grécia e de imaginar que os gregos tinham uma única concepção da beleza e que foram belos. para justificar a retirada das grades. nós o amamos e nós o queremos. estão no seu dever em acoitá-los. com que os arqueólogos vestiram há pouco a "Djanira". A CARROÇA DOS CACHORROS Quando de manhã cedo. de Saint-Saens. na verdade. no tempo do Império. pela manhã. como os mármores que nos legaram. Sainte-Beuve já dizia que. Diz D. quando vejo semelhante espetáculo. mulheres e crianças se agitam e tratam de avisar os outros. Esse negócio de gregos e de beleza é coisa muito engraçada. Nada de útil. não somos nós os homens.Lá vem a carrocinha! . os tristes e desgraçados cães que andam por aí à toa. eu. desço a rua e vejo. Esse espetáculo tão curioso e especial mostra bem de que forma profunda nós homens nos ligamos aos animais. E todos os homens. certamente. A lei. . e Coelho Neto tem. Eu quisera saber se Neto tem a concepção da beleza dos mármores obesos ou das estatuetas de Tanagra e se aplaudiria as vestes gregas. com a sua cavalaria e guardas municipais. quando eram seguidas por duas praças de cavalaria de polícia. saio da minha casa. depositárias por excelência daquilo que faz a felicidade e infelicidade da humanidade . na rua eu vejo o espetáculo mais engraçado desta vida. São elas que defendem os cachorros das praças de policia e dos guardas municipais. . Todas as manhãs. A DERRUBADA Fala-se muito na remoção das grades do Passeio Público e até Coelho Neto já exumou os gregos com o seu cânon de beleza. de tempos em tempos. Era no tempo da minha meninice e eu me lembro disso com as maiores saudades. porém. o cão nos dá. O espetáculo mais curioso é o da carroça dos cachorros. elas. está no seu direito em persegui-los.dizem.

ainda outra vestia uma saia patriótica verde e amarelo. A razão é simples. Correio da Noite. Olhei. e mangas vermelhas. os seus salões não se apresentam tão carnavalescos como a Avenida e adjacências nas horas que correm. a ganância e a imbecilidade vão pondo abaixo com uma inconsciência lamentável. Nunca fui ao clube dos Democráticos. pelo Engenho Novo. É que sinto uma grande volúpia em comparar os requintes de aperfeiçoamentos na indumentária. Careta. muito preto. que demandavam o subúrbio longínquo. as velhas chácaras. vim à Avenida e à rua do Ouvidor e pus-me a olhar os trajes das damas. Mas. vi que tinham derrubado um velho tarnarineiro que ensombrava urna rua sem trânsito nem calçamento. plantadas há meio século. sob o sol inclemente. A venerável árvore não impedia coisa alguma e dava sombra aos pobres animais. 31-12-1914. tanto cuidado de tecidos caros que mal encobrem o corpo das "nossas castas esposas e inocentes donzelas". com o meu absoluto relaxamento. que.Convém não esquecer que tais mármores são imagens religiosas e sempre os homens fizeram os seus deuses mais belos. . vão sendo ceifados pelo machado impiedoso do construtor de avenidas Dentro em breve. saindo de meu subúrbio. Hesito. não restarão senão uns exemplares dessas frondosas árvores. vetustas fruteiras. mas estou disposto a apostar que em dias de bailes entusiásticos nesses templos de folia. que resignadamente ajudam a nossa vida. Era uma espécie de oásis. caminhões. Nos subúrbios. como diz não sei que clássico que o Costa Rego citou outro dia. uma coisa que ninguém vê e nota é a contínua derrubada de árvores velhas. nem ao dos Tenentes. arrastavam pelo calçamento pesadas "andorinhas". era um dia verdadeiramente dedicado a Momo. que a aridez. quando venho à Avenida. outra. cheias de anosas mangueiras piedosos tamarineiros. 22-7-1922. Há dias. Passando hoje. notei e concluí: estamos em pleno Carnaval. enfim. Eu não me atrevo mesmo a dar opinião sobre a retirada das grades do Passeio Público. nem ao dos Fenianos. VESTIDOS MODERNOS Nunca foi da minha vocação ser cronista elegante. Isto acontece principalmente nos dias em que estou sujo e barbado. que foram plantadas mais com o pensamento nas gerações futuras. para as pobres alimárias. Uma dama passava com um casaco preto. tinha uma espécie de capote que parecia asas de morcego. tudo isso não vem ao caso. entretanto. Mas. me dá na telha olhar os vestidos e atavios das senhoras e moças. mesmo quando os fazem humanos. às vezes. do que mesmo para atender às necessidades justas dos que lançaram as respectivas sementes à terra.

como tinha um pequeno sítio lá para as bandas do Timbó e algumas economias. Eu. porém. intimou o guarda.. As economias foram-se. encheu-o de laranjas e saiu a gritar: . veio ao meu encontro um homem com quem conversei alguns minutos. árvore de futuro com a qual o Sr. as laranjas.Vai laranja boa! Uma a vintém! Foi feliz e pelo caminho apurou uns dois mil-réis. IMPRESSÕES DE LEITURA O DESTINO DA LITERATURA Minhas senhoras e meus senhores: .Que dê a licença? . com as suas laranjeiras. Ele me contou a sua desdita com todo o vagar de popular. às vezes mesmo. vai salvar o Brasil. Fulano. pois há oito meses não trabalha no seu ofício de carpinteiro. na esquina. as suas bananeiras. Cincinato Braga. com a salga e o fabrico de lingüiças. ficara sem emprego. esperar o bonde. poderosa. não se atrapalhou em começo. chegou a Todos os Santos. tratou de valorizar o produto. Careta. saiu-lhe ao encontro a lei. o que lhe dava trabalho por três dias. Moro há mais de 10 anos naquelas paragens e não sei por que os humildes e os pobres têm-me na conta de pessoa importante. 7-8-1915. mas ficou-lhe o sítio. Comprou um cesto. ou se devia comprar o canastra por cinqüenta mil-réis e revendê-lo aos quilos pela redondeza. vejo bem a miséria que vai por este Rio de Janeiro. deixaram-no com a roupa do corpo. capaz de arranjar empregos e solver dificuldades. porém. Houve um matador de porcos que pediu a minha opinião sobre este caso curioso: se devia aceitar dez mil-réis para matar o cevado do capitão M. Tomaram-lhe o cesto. Eis aí como se protege a pomicultura. Vendo. na pessoa de um guarda municipal: . mas sem empréstimo a 30%. olhei os Órgãos ainda fumarentos nestas manhãs de cerração e pensei que o meu destino era ser vigário de uma pequena freguesia. que os compradores na porta não lhe davam o preço devido. Quando. a muito custo.Já sei. Notem bem: depois. o dinheiro e.O "MOAMBEIRO" Quando saio de casa e vou à esquina da Estrada Real de Santa Cruz.Que licença? . Ultimamente. Pergunta-me um se deve assentar praça na Brigada. consultam-me sobre casos embaraçosos. mas. depois de salvar o café. e. Você é "moambeiro". Vamos para a Agência. que nunca fui versado em coisas de matadouro. com as suas tangerineiras. Este ano foi particularmente abundante em laranjas e o nosso homem teve a feliz idéia de vendê-las. Era operário não sei de que ofício. pergunta-me outro se deve votar no Sr.

Ele possui. Tudo eram moças e senhoras. para elas fui atraído. É um verdadeiro pesadelo. sempre que. palestras ou conferências. caixas. caixinhas. esta não viu no auditório um só homem. empregando para isto todos os subterfúgios. É verdade que o Sr. lhe mandam insistentemente. em alto grau. só e cinicamente. pelo fato de conhecer a minha cidade natal. que é excepcionalmente lindo e louro.É a primeira vez que faço o que nós brasileiros convencionamos chamar conferência literária. a que acima aludi. foi proibido de continuar a fazê-las. belo "diseur" de sólidas conferências. É o critério nacional de que tenho muitas provas nas torturas por que têm passado aqueles meus amigos e confrades aos quais Deus galardoou com tão raras virtudes. o discurso nunca foi o meu forte e desde bem cedo me convenci disso. caixões de cigarras secas que as suas admiradoras. em . Um outro meu amigo. atrevia-me a freqüentar festas familiares e quase sempre delas saia fortemente despeitado com os oradores dos brindes de aniversário. no julgar de todos ou de todas da cidade brasileira em que nasci. solicitado por isto ou por aquilo. grande poeta nacional e parlamentar conceituado. de alto a baixo. ela é partilhada pelas minhas vizinhas do Méier e também pelas deidades do morro da Favela e da Gamboa. nas salas do bom-tom do Rio de Janeiro. de batizado. não por orgulho nem por pretender ser mais profundo do que os meus confrades que as fazem. as conferências literárias. O auditório de suas conferências é monopolizado pelas moças e senhoras. É verdade também que assisti conferências concorridas de Anatole France e do professor George Dumas. capricho no vestuário e . no tocante a elas. Pede tal gênero ao expositor desembaraço e graça distinção de pessoa. embora da Terra do Sol. Augusto de Lima. e não eram eles. por este ou por aquele. Em Anatole. para o sucesso. que. mas. desde a simples desculpa de doença até à fuga covarde diante do inimigo. Não é só essa a opinião de Botafogo. a segunda série de qualidades do bom conferencista. de Copacabana ou Laranjeiras. capitais e indispensáveis para nele se obter um bom resultado. achamos eu e alguns amigos um belo homem. todas as excusas. quase de nenhum valor. Quando bem moço. E esta é a qualidade fundamental para se fazer uma excelente conferência. a esta parte atrapalhado para guardar em casa. habilidade no tratar o assunto. mas é que. Na forma que nós o naturalizamos é um gênero de literatura fácil e ao mesmo tempo difícil e isto porque ele não só exige de quem o cultiva saber nas letras. Conhecedor desse feitio característico que tomaram entre nós. em uma das vezes. possui hoje a imaterial da idade madura. a minha organização literária tinha falhas. Estão bem a ver que nunca quis fazer uma ou mais conferências. de casamento ou mesmo com aquele eloqüente conviva que erguera solenemente sua taça (era um simples copo. elegância na exposição. me eximi de experimentar fazê-las. mas não da beleza que fere as mulheres. menos estridente e mais suavemente amorosa do que aquela com que esses insetos o fazem quando inspirados pelos crepúsculos aloirados do estio. quase menino. do Amazonas ao Prata.quem sabe lá? . Explico-me. O meu belo camarada Olegário Mariano canta as cigarras com voz melhor. homens bonitos e chiques. são.beleza física e sedução pessoal. De resto. nas demais modalidades de atividade literária. mas também porque impõe outras qualidades ao conferencista. Sabem o que lhe tem acontecido? Olegário Mariano vê-se de tempos. e de estar convencido de que. faz conferências com sucesso. ainda imperfeitamente conhecedor da minha verdadeira personalidade. pela respectiva esposa. se não tem ou não teve a beleza de moço. entretanto. É opinião geral da gente carioca. pelo menos no Rio de Janeiro. porque. lá para que se diga.

não vem ao caso. as mais das vezes. Afinal. anotando anedotas da vida de grandes homens que não conseguiram falar. Tem sido para mim desvantajoso esse proceder. com isso. por ter pisado em terras de iniciativa e de audácia. mas. . conforme me hão dito confrades autorizados. não tenham medo. a crítica fica longe e se ela se manifesta.que fica um pouco acima do jogo de prendas e muito abaixo de um step qualquer. são. enfim. perguntas como estas: para que serve "isto"? por que se honram os homens que fazem essas coisas. quando. sem o qual ambos não teriam existência: é o auditório. mas. perante qualquer auditório. cônscio da minha obscuridade e a pesar da minha natural timidez. Certas delicadezas de sofrer me acobardam mais diante dela do que os calabouços da ilha das Cobras. quando não é o de também supor-se um verdadeiro gênio. haveis de formular intimamente. é através de artigo ou de carta. uma manifestação de cansaço. em um jornal ou em uma revista. pois. e só a título de amenidade pode ser explicável que aqui viesse aparecer. nem judiciário. e uma rebeldia. É antes uma digressão leve e amável. um esto de impaciência mal sopitado. em uma revista ou num jornal. Tenho. um cochicho. No presente caso. as soberbas metáforas de Rui Barbosa. Procurava então desculpar essa minha incapacidade para orador de sobremesa. a minha adolescência vaidosa tentava explicar por que razão a minha relativa superioridade sobre tais oradores não permitia fazer os brilharetes de eloqüência que eles faziam. com um soneto ou um artigo. arroubos outros e tropos de toda sorte. quando se fala. o maior geômetra brasileiro. através de fórmulas de polidez. me orgulhava. quando esquartejavam esse nobre mártir dos gramáticos e professores de português de todos os tempos. aliás inocente. Muitas vezes todos vós que me ouvis. qualidades que este próspero município de São Paulo vai me emprestar por instantes. Venço agora. diretamente ao público. nem parlamentar. Quando se publica um livro. foi este pavor do auditório que me fez até hoje fugir às conferências. e a muito custo. quando o censor é educado. este gênero de literatura e uma arte de sociedade. era outro. apesar de ser um sujeito sociável e que passo. como já vos disse. mais do que outros motivos. de vós para vós mesmos. Tudo isto. um artigo. ao topardes. Newton era um deles. desde já vos aviso. antigamente tão bem catalogados pela defunta retórica. onde a desaprovação vem filtrada. o menor sinal de reprovação do auditório desnorteia quem expõe e se atreveu a amolar pessoas de boa vontade e que tem mais que fazer do que ouvir uma xaropada qualquer. se as suas vidas não são cheias de torpes episódios. para mim. despretensiosa. entretanto. ainda sentia medo da conferência porque há nela um elemento que a relaciona com o discurso. e Gomes de Sousa. que. os quais tanto assustavam os nossos avós. nunca fui homem de sociedade: sou um bicho-do-mato. porque estou encerrando o que prontamente se chama carreira literária. nem mesmo mitingueiro. que é o grande Camões. das vinte e quatro horas do dia. serei breve. Quase com lágrimas. que dispensa os estos demostênicos. da minha parte contra ela. certamente fui levado a isto. uma única vez na sua existência. a primeira que faço e talvez seja a última. sobre este ou aquele assunto. tanto mais que conferência literária não é bem discurso. me põe sempre canhestro quando sou obrigado a mergulhar no seu seio. e eu. era menino e é próprio de menino não achar grande diferença entre um simples mortal e um grande homem. mais de quatorze na rua. Embora convencido disso. naqueles tempos. É. todos os temores. animando-me a falar-vos. Muitos mais grandes homens tinha eu a meu lado e. . nem doméstico-festivo. é a palestra aliteratada o mais proveitoso gênero de literatura que se possa cultivar no Brasil.geral) ao belo sexo. conversando com pessoas de todas as condições e classes.

ou tão-somente a Literatura. mas que. Platão que. enquanto a verdadeira Beleza foge deles com a velocidade do aeroplano. eram lidos e morriam na rua do Ouvidor. tendo cada uma delas. para os filósofos. nas proximidades do velho Mercado. porque. parecerá ociosa. pode procurá-las no livro de Tolstoi que citei. em virtude de não tê-los à mão. Segundo Tolstoi. como esta. entre as quais a de Hegel.O que é a arte? . para não dizer sociológico. os estetas profundos que doutrinam sobre o Amor e o Belo sem nunca terem amado. de Brunetière e outros. mais nevoentamente. para condenar a Arte. com mais ou menos liberdade. enfim? São perguntas naturais e espontâneas que não há um homem que as não tenha feito no seu fôro íntimo e que eu mesmo as fiz. mais rebarbativamente. quando a tradicional clareza dos franceses é fascinada pela proverbial névoa germânica. . Uma porção de definições da ciência estética se baseia. meus senhores e senhoras. Tais perguntas. com o ser grande filósofo. muito se há debatido e as mais contrárias teorias tem sido construídas. Essas definições de arte. quando. Os alemães mais do que os ingleses. de Guyau. não admitia artistas do verso na sua República ideal. sendo que esta é o perfeito ou o absoluto. para resolvê-lo. há cerca de vinte anos. enfim. tanto mais que estou longe dos meus livros e dos meus apontamentos. contribuir para a felicidade de um povo. a menos que eles se traduzam em fartos ágapes. minhas senhoras e meus senhores. e nos esquecemos do inventor da utilíssima máquina de costura? em que pode a Literatura. segundo Tolstoi. Em redor dele. explica de seu modo o que seja Beleza e cada um deles o faz mais incompreensivelmente. que a definia como tendo por objeto o conhecimento da Beleza. aquela gabada qualidade gaulesa capricha em se fazer densa. em conjunto.o fundador dessa absconsa ciência foi o filósofo alemão Baumgarten. mas. por estarem muito familiarizadas. de estátuas. sociólogos e doutrinários de toda a sorte têm-no discutido. O debate a esse respeito não está encerrado e nunca ficará encerrado enquanto não concordarem os sábios e as autoridades no assunto que o fenômeno artístico é um fenômeno social e o da Arte é social. no famoso Hotel do Minho. do que seja Beleza. Filósofos e moralistas. como todos vós sabeis. as de verdadeiros vagabundos? como é que todos lhes guardam os nomes e muitos se honram com a sua amizade? como é que nós os cercamos de honrarias. isto acontece e a literatura e os literatos ficam valorizados no seio da finança cautelosa. que é muito interessante. relaxados e distraídos. me sirvo aqui. e de que. entre as muitas ciências ocultas e destinadas a iniciados que ultimamente tem surgido. constituem em súmula o resumo do problema da importância e do destino da Literatura que se contém no da Arte em geral. me pus juvenilmente a escrever para o público. e os franceses mais do que aqueles.entretanto. de uma nação. não em toda ela. Cada um desses doutos. em que se inclui a Literatura. por sua vez. desprezando tais caprichos literários. na sua sólida e acessível obra . ou a Arte. outros. Às vezes. em revistas. às vezes. que fogem das recepções e dos chás dançantes. Deixo de citar muitas. e jornalecos que nasciam. mais se ocupa em coisas sérias que dizem respeito ao nosso estômago. Muitos. na beleza. Como os senhores sabem perfeitamente. de bustos. porque uma parte dessa célebre rua. para não me tornar fastidioso. há uma que pretende ser a da teoria geral da Arte. para essa multidão de senhores sombrios. se algum dos ouvintes quiser ter o trabalho de ler muitas delas. um determinado critério do que seja Belo. percebido pelos sentidos e tem por destino deleitar e excitar este ou aquele desejo nosso. baixam até à troca de soezes insultos. os abstratores de quinta-essência. da humanidade. não deixava de ser também um grande poeta. com o assunto da indicação. sugerem logo a interrogação: o que é a Beleza? Eis aí uma pergunta que às senhoras e às senhoritas. como os de Taine. para exaltá-la. para toda essa gente livresca constitui tal pergunta objeto de apaixonadas discussões que.

. Não é um caráter extrínseco da obra. de correção gramatical. por meio dos elementos artísticos e literários. na proporção e harmonia das partes. a importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos de perfeição de forma.pergunta ele de si para si . É bom. de um mês. A velha onzenária não tem o mínimo remorso de explorar a miséria dos que a procuram. compreende melhor as dos outros. e aluda às questões de nossa conduta na vida. é a manifestação. há muito da alma e dos sonhos dos que os levam a penhor. por muito favor. por sofrê-las. Relíquias de família. porque. é a mais interessante parte dele. Portanto. de Dostoiewsky . As que passa não o fazem sofrer tanto. ela já não está na forma.. não são as suas aparências. a fim de esclarecer esse pensamento. dizia eu. É um crime. Trata-se de um estudante que curte as maiores misérias em São Petersburgo. no encanto plástico. não praticaram ou não autorizaram a prática de crimes. de obter unidade na variedade. vem a conhecer uma velha sórdida. dando miseráveis vinténs para recebê-los triplicados. para a plena realização de sua obra? Napoleão não foi um deles e. Obrigado pela sua vida miserável. diretamente ou indiretamente. algumas antigas. O estudante chama-se Raskolnikoff. segundo a opinião geral. fetiches de amor. Lembrem-se bem que se trata de miséria russa e de um estudante russo. então? Só matando-a. mas. de ritmo vocabular. é inteligente.. neles. em geral. ele não o tem. mesmo. senão a de todo o gênero humano.. por meio de livros. a ignóbil onzenária possui naturalmente o dinheiro de que ele precisa para realizar. que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mistério que nos cerca. para lançar a sua obra generosa que fará a felicidade de muitos. no fim de uma quinzena e. Tomo como exemplo. é honesto. perante o qual aquele pouco vale. de jogo e equilíbrio das partes em vista de um fim. tanto assim que o sacodem idéias para acabar com as misérias dos homens. profundo e autorizado. Mas.mais densa ainda do que. para transmitir as suas idéias aos outros. É. A descoberta fere-o profundamente. cobrando juros despropositados. do caráter essencial de uma idéia mais completamente do que ela se acha expressa nos fatos reais. em outras palavras. como querem os helenizantes de última hora e dentro de cuja concepção muitas vezes não cabem as grandes obras modernas e. sem alma e sem piedade. uma tal importância. mas . deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano. jornais e revistas. de estilo. o parecer de Brunetière.Crime e Castigo. enriquecidos de beijos de noivas e de amantes. tantos outros? . para Taine. ensopadas de ternuras de mãe e afetos de irmãs. Isto leva-o a meditar teimosamente sobre os erros da nossa organização social. mas como se apoderar dele? Furtá-lo? Não podia porque a imunda agiota não arredava o pé da pocilga de seus imundíssimos negócios. tudo ela recebe. não suspeita até que possa ser formulada. a neblina germânica.que deveis conhecer. É a substância da obra. precisa dinheiro. A Beleza. Um dia. que emprestava níqueis sobre objetos de pequeno valor intrínseco. indo em transação à casa da tal velha. Precisa dinheiro para estudar. para responder à pergunta que angustia os filósofos e que a metade do gênero humano. Como há de ser? Eis o problema.todos os benfeitores da humanidade e os seus grandes homens em geral. mas intrínseco. sabendo perfeitamente que os objetos serão resgatados. Sendo assim. como ele. talvez. hoje universal . Raskolnikoff. percebe que ela tem na gaveta uma grossa quantia em notas de banco. Não os seguirei nas suas nebulosidades de procurarei um autor claro. Como obtê-lo. um livro famoso.

Mata-a.. de concorrer para o estabelecimento de uma harmonia entre eles. Estes são os modestos. como este. não pode sentir-se bem na vida sem o sofrer. que a nossa poesia. em traço de união. mais fortemente possuindo essa capacidade de sugerir em nós o sentimento que agitou o autor ou que ele simplesmente descreve. É preciso que esse argumento se transforme em sentimento. a regra. por assim dizer. o preceito. o Robinson. em força de ligação entre os homens. tem fraco poder sobre a nossa conduta. nem mesmo quando é perpetrado no mais ínfimo e repugnante dos nossos semelhantes e tem por destino facilitar a execução de um nobre ideal. Depois de consumado o crime. embora obedecendo a generalizações aparentemente verdadeiras. mas poucos se afirmam com aptidões para alinhavar o Rocambole. Quer o castigo. possuidor de um ideal . logo se sente outro . em face dele e dos augustos destinos da humanidade. como que se havia posto fora da espécie e se feito menos que um verme asqueroso. executado que seja o crime. dizem uns. Insisto neste ponto porque ele me . porém. mais do que isso. e ainda mais no ressumar de toda a obra que quem o pratica. resumida e palidamente. dos cantos dos Lusíadas. e pensado no assunto. torná-lo assimilável à memória. tinha. mas. mas os pretensiosos dizem logo: "Isto! Também eu fazia!" Tal fato se dá mais comumente com as grandes obras de que com as medíocres. por elas. reveladas. e a arte. e. tanto velha. assim expressa sob essa forma seca que os antigos chamavam de argumentos e os nossos Camões escolares dessa forma ainda chamam aos resumos. Passemos além: mais do que nenhuma outra arte. do caráter saliente da idéia. a obra do grande escritor russo. tendo deixado apagar-se-lhe na consciência todos os nobres sentimentos humanos. o Crainquebille. Mata a ambas da forma mais cruel e horrorosa que se pode imaginar. pois nem dinheiro tivera para comprar outra arma mais própria e capaz. É verificado por todos nós que quando acabamos de ler um livro verdadeiramente artístico. aparentemente mais diferentes. Além. em prosa ou verso. em sentimento.Ocorrem raciocínios dessa natureza a Raskolnikoff. e ele conclui que. só como idéia. direito a matar aquela vilíssima velha. orientada para um ideal imenso em que se soldem as almas. sendo capaz. que entrava quando ele acabava de perpetrar o assassínio.generoso e alto. segundo a minha humilde opinião. a arte literária se apresenta com um verdadeiro -poder de contágio que a faz facilmente passar de simples capricho individual. É por aí. se assim é. cujos laços ele mesmo rompera. Não há lógica nem rigor de raciocínio que justifiquem perante a nossa consciência o assassinato. a ela e também à irmã. é em vão que procura fugir dele. como nova. Nisso tudo que é. Mata as duas mulheres com uma embotada machadinha de rachar lenha que encontrara no quintal do casarão da sua residência. de transformar a idéia. Mas esta pura idéia. onde está a beleza dessa estranha obra? . a literatura salutar tem o poder de fazê-lo. portanto.não é ele mesmo. convencemo-nos de que já havíamos sentido a sensação que o outro nos transmitiu. foi escrever "a história". o remorso dele mesmo. etc. tem por hábito atribuir à Grécia. o Nick Carter ou outro qualquer romance-folhetim. a qual. incorporá-lo ao leitor. O que não soubemos. Está na manifestação sem auxílio dos processos habituais do romance. como semelhantes no sofrimento da imensa dor de serem humanos. variável e inexato. não há nada de comum com o que os escritores mais ou menos helenizantes chamam belo. com o furor homicida de bandido consumado. com auxílio dos seus recursos próprios. porque as suas relações com o resto da humanidade já são outras e ele se sente perfeitamente fora da comunhão humana. O testemunho da consciência o persegue sempre e Raskolnikoff se torna.pergunto eu. Toda a gente se julga capaz de escrever o D. com auxílio de sua técnica. as Viagens de Gulliver. Quixote. que devemos orientar a nossa atividade literária e não nos ideais arcaicos e mortos.

Tolstoi. pela mesma época em que o Sr. Devia-se interpretar a sua linguagem misturada de fogo. se representou na Ópera. com rápidas leituras. vinha dizer que Safo não era nada disso que nós dela pensamos. com o acúmulo de idéias que trouxe o tempo. Atemo-nos a ela. com as descobertas modernas que alargaram o mundo e a consciência do homem. segundo Max Collignon. Em outra parte. tenho combatido esse ideal grego que anda por aí. entre muitos. está admitido que as frisas do Pártenon eram coloridas. com as seguintes palavras: "Quando se quer definir todo um ramo de atividade humana. os sonhos que queria ver realizados na Terra. O meu simpático missivista (sic) pode ver por aí como a sua Grécia é." Mesmo que a Grécia . as idéias que a animavam.Djanira. como sáfica séria. instável.colchas de retalhos. Ainda mais: "Se dissermos que o fim de uma certa atividade humana é unicamente o prazer. é primeiramente indispensável estudar tal atividade em si mesma. para nós. e não exclusivamente nas suas relações com os prazeres que ela nos proporciona. quem curiosamente os segue. Houve escândalo. já tive ocasião de observar isto. na dependência de suas causas e efeitos. os brasileiros. é necessário procurar-lhe o seu sentido e o seu alcance. Creio que. epilogar bastamente. insuficientes talvez para recompô-la como foi em vida. o destino da Literatura e da Arte deixou de ser unicamente a beleza. Ainda há bem pouco o Sr. um drama lírico de Saint-Saens . de Paris. segundo os seus pensamentos religiosos. o que o diálogo de Platão é em relação ao homem. de Sevigné. Ela não nos pode mais falar. e outros fatores mais. de cinqüenta em cinqüenta anos. porque. que era assim como Mme. fazíamos da Grécia uma idéia nova. o deleite dos sentidos. e o que nos tinha a dar já nos deu e vive em nós inconscientemente. vivo no fundo de nós mesmos. nós. com o muito pouco que sei sobre ela. que deve entender bem dessas coisas de Grécia.apaixona. É suficiente lembrar que era regra admitida pelos artistas da Renascença que. e nem lhe acompanhamos os estudos feitos nessa língua. sempre que posso. Em matéria de escultura grega. em relação à mulher. pouco sabemos de arqueologia antiga. é impedir que realizemos o nosso ideal. podia eu.tivesse por ideal de arte realizar unicamente a beleza plástica. e só . para ser coisa muito diversa. e totalmente incapazes para nos mostrar ela viva. obedecia a injunções das últimas descobertas arqueológicas. pois se tratava deles no drama. entretanto. pode concluir. Reinach lia. no Temps. para mostrar de que maneira podem variar as nossas idéias sobre a velha Grécia. o prazer.o que não é verdade . Não é este o único detalhe. as obras esculturais não podiam ser pintadas. de acordo com os preceitos gregos. Sabem os leitores (sic) como vinham vestidos os personagens? Sabem? Com o que nós chamamos nas casas das nossas famílias pobres . Lalo. hoje. Li isto em um folhetim do Sr. assim variável e fugidia. para procurar a beleza em uma carcaça cujos ossos já se fazem pó. estamos na infância. no livro de que me venho servindo e a cujo título mais atrás aludi. Tinha razão. Teodoro Reinach. aqui e ali. Esta modificação no trajar tradicional dos heróis gregos. esse ideal não podia ser o nosso. mas. tanto assim que. na sessão das cinco Academias de França reunidas. A nossa Grécia varia muito e o que nos resta dela são ossos descarnados. Para isto fazer. nas seguintes palavras: "Sainte-Beuve disse algures que. que nada autoriza a admitirmos um certo e exato ideal de arte helênica. o resultado das suas investigações sobre Safo. Em geral. a sua alma. É que eles tinham visto os mármores gregos lavados pelas chuvas. no dizer de Plutarco. aquele que está na nossa consciência. talvez nem mesmo balbuciar. P. critica muito justamente semelhante opinião.

das mais divergentes . trabalha pela união da espécie. por intermédio da Arte. especialmente a Literatura. quanto mais compreendermos os outros que nos parecem. não fica adstrito aos preceitos e preconceitos de seu tempo." Há muitos que são agradáveis. Quer dizer: o homem. A arte. que não são nutritivos. de seu nascimento. Ela ergue o homem de sua vida pessoal à vida universal. das nações e das raças. mais longe que pode. a Arte. àqueles. ele vai além disso. Ela sempre fez baixar das altas regiões. em virtude mesmo do seu poder de contágio. das abstrações da Filosofia e das inacessíveis revelações da Fé. tem e terá um grande destino na nossa triste Humanidade. das gerações passadas." Mais do que qualquer outra atividade espiritual da nossa espécie. ela explicou e explica a dor dos humildes aos poderosos e as angustiosas dúvidas destes. é imitar os homens de uma moralidade primitiva.sobre ele fizermos repousar a nossa definição. graças à escrita e à tradição oral que guardam as cogitações e conquistas mentais delas e as ligam às subseqüentes. de sua raça. para o seu acréscimo de inteligência e de felicidade. meus senhores. mais diferentes. as palavras desta formosa divisa: "Ama tudo para tudo compreender. Portanto. para torná-las sensíveis a todos. São ainda dele. quanto mais perfeito for esse poder de associação. tudo compreender para tudo perdoar. ela é. concorre. Toda a gente compreende que a satisfação do nosso paladar não pode servir de base à nossa definição de mérito dos nossos alimentos. o destino de qualquer arte no prazer que ela nos proporciona. da família. não só pela sua participação nas idéias e crenças gerais. as almas dos homens dos mais desencontrados nascimentos. ganhando com isso a nossa inteligência. como os selvagens. num curioso livro.ensinou "que beleza não é uma coisa exterior ao objeto: que ela não pode ser admitida como uma excrescência parasítica na obra de arte. mais do que ela nenhum outro qualquer meio de comunicação entre os homens. as verdades que interessavam e interessam à perfeição da nossa sociedade. o genial filósofo. portanto. tendo o poder de transmitir sentimentos e idéias. moralista e poeta. É o que se dá com a definição de Arte assim concebida. a que me dediquei e com que me casei.A Arte sob o ponto de vista sociológico . para alcançar a vida total do Universo e incorporar a sua vida na do Mundo. será ela evidentemente falsa. Com efeito. mais intensa será a ligação entre os homens. que é a linguagem. a consciência mais profunda da existência. mas também ainda pelos sentimentos profundamente humanos que exprime". e evoca em nós ao mesmo tempo. ela faz compreender. mas que preenchem perfeitamente o fim da nutrição. assim trabalhando. sob a forma de sentimentos. examinando-se as questões de nutrição. dispondo de um meio quase perfeito de comunicação. por exemplo. que não vêem na alimentação outro alcance que não seja o da satisfação agradável que lhes proporciona a ingestão de alimentos. no fim de contas. esteta. são dele. meus senhores e minhas senhoras. digo agora eu. mesmo. os sentimentos mais elevados. e. de Jean Marie Guyau. à primeira vista. umas às outras. Guyau. a verdadeira floração da planta em que aparece A arte. antes são prejudiciais à economia do nosso organismo. Os homens só dominam os outros animais e conseguem em seu proveito ir captando as forças naturais porque são inteligentes. com a qual nos é permitido somar e multiplicar a força de pensamento do indivíduo. continua Guyau "e a expressão da vida refletida e consciente. os pensamentos mais sublimes. que é o de conservar a vida do nosso corpo. incluindo nela a literatura. das mais diversas épocas. e mais nos amaremos mutuamente. Ver o fim. ninguém se atreverá a afirmar que o prazer de comer é a função principal da nutrição. tão profundo quanto claro . e há outros que não são lá muito saborosos. não só a coletiva como a individual. e o progresso e o desenvolvimento desta decorrem do fato de sermos nós animais sociáveis. A sua verdadeira força é a inteligência. até. de sua pátria. teve. morto prematuramente aos trinta e três anos.

imponho-me privações. por todos os lados. É que eu não soube dizer com clareza e brilho o que pretendi. ao cão. Fazendo-nos assim tudo compreender. a quem não me canso de citar. assimilável. Atualmente. dispõe do futuro. estas palavras que ouso fazê-las minhas: "Porventura sei eu se viverei amanhã. conquanto a opinião externada em contrário cubra-nos de ridículo. Que me importa o presente! No futuro é que está a. o heroísmo dos homens de letras. realçando-lhes as qualidades e zombando dos fúteis motivos que nos separam uns dos outros. seja como for. O meu pensamento vai adiante dela. e.é o fundamento da moral especulativa com todos os risos. ao rio. entrando no segredo das vidas e das coisas. Guyau. de prepara o mundo. nós nos chegaremos a amar mais perfeitamente na superfície do planeta que rola pelos espaços sem fim. Parece-me que sou senhor do infinito. Todavia executo. o ideal de fraternidade. pede que todos os que manejam uma pena não esmoreçam no propósito de pregar esse ideal.e sigo o meu caminho. e de justiça entre os homens e um sincero entendimento entre eles. ela nos faz compreender o Universo. quanto de Napoleão prisioneiro ou de Maria Antonieta subindo à guilhotina. Deus e o Mistério que nos cerca e para o qual abre perspectivas infinitas de sonhos e de altos desejos. Eu consumo a minha energia sem recear que este consumo seja uma perda estéril. a Terra. para mim. não devemos deixar de pregar. estende-se ao futuro. explicando-lhes os defeitos. umas às outras. para que ela cumpra ainda uma vez a sua missão quase divina. eu pressuponho este futuro com o qual nada me autoriza a contar. por aí. trabalho. daqui e de acolá . se a minha mão poderá terminar esta linha que começo? A vida está. a uma certeza e torna possível a minha liberdade . tendo diante dos olhos o exemplo de seus antecessores. Conquanto não se saiba quando ele será vencedor. LIVROS Recebo-os às pencas. e em todos os meus atos. outubro e novembro de 1921. porque o meu poder não é equivalente a nenhuma quantidade determinada. ainda nos liga à árvore. mas uma coisa garanto-vos: pronunciei-as com toda a sinceridade e com toda a honestidade de pensar. A literatura é um sacerdócio. ela se apieda tanto do criminoso. em todos os meus pensamentos. Ela tende a obrigar a todos nós a nos tolerarmos e a nos compreendermos. e não é à toa que Dante diz que ele move o Céu e a alta Estrela.raças. nesta hora de tristes apreensões para o mundo inteiro. cercada pelo Desconhecido. Possam estas palavras de grande fé. ao mar e à estrela inacessível. Revista Sousa Cruz. 58-59. ela. com a minha atividade. O Amor sabe governar com sabedoria e acerto. E o destino da Literatura é tornar sensível. do vagabundo. Talvez isso faça que eu mereça perdão pelo aborrecimento que vos acabo de causar. se viverei mais uma hora. Esta incerteza que me comprime de todos os lados equivale. disse em uma de suas obras. A minha atividade excede em cada minuto o instante presente. vulgar esse grande ideal de poucos a todos. empreendo. possam elas na sua imensa beleza de força e de esperança atenuar o mau efeito que vos possa ter causado as minhas palavras desenxavidas. não cansada de ligar as nossas almas. ns. de chufas e baldões. existência dos verdadeiros homens. dizia Carlyle. a Literatura reforça o nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes. à flor. contando que o futuro as resgatará . quanto mais trabalho mais espero.

coisa que muito me honra. Diz o autor da Paixão de Maria do Céu: "A aura gloriosa e nos nossos tempos incomparável de Anatole France servirá grandemente aos historiadores futuros para comporem uma opinião judiciosa sobre o bom gosto das élites sociais nossas contemporâneas e digo sociais. e a vou levando assim como Deus quer. mas também o meu intuito era noticiá-los honestamente.Pascal e a Inquietação moderna . de forma que não é uma leitura meditada. Encantou-me pela sua simplicidade. porque seria prova de inépcia imaginar que as centenas de milhares de volumes das suas obras foram exclusivamente adquiridas pelos literatos aprendizes. por apresentação de João Luso. mas foi uma leitura cheia de simpatia e boa vontade. A vida tem dessas coisas. Débora do Rego Monteiro. de outro amigo. Trata-se de contos e curioso pus-me a lê-lo com açodamento. Há mais de um mês . Carlos Malheiro (eu queria por o s) há dias. Dias pode ficar certo de que a idéia que eu fazia dele era muito diferente. A ilustre autora há de desculpar-me isso. é tumultuária e irregular. em plena via pública. isto é. no Recife. e tinha por título . como a obra de D.coisa rara em mulher . para se entenderem.e pela maravilhosa meiguice em tratar os personagens e a paisagem. militantes e honorários. Tive a mais bela impressão e o Sr. Há dias veio ter-me às mãos um volumezito editado em Pernambuco. devido à falta de método na minha vida. Careta.recebi o romance de meu amigo Ranulfo Prata Dentro da Vida . 12-8-1922. Falou-se muito naturalmente e o homem que eu pensava ter todo o escrúpulo em trocar quatro palavras comigo. mas com a qual me vejo atrapalhado.O meu desejo era dar notícia deles.. Jackson de Figueiredo.. diz o povo. pareceu-me querer que me demorasse com ele a conversar. quer fosse nesta ou naquela revista. Acreditava-o um literato janota. desses das montras para uso das damas alambicadas. A minha vida. se não é afanosa.da qual ainda não pude falar como ela merece. Carlos M. depois de tê-los lido e refletido sobre o que eles dizem. e. Entretanto os livros chovem sobre mim . que ele não leve a mal uns reparos que vou fazer sobre um seu recente artigo no O País intitulado . justamente. Tenho também.À margem do último livro de Anatole France. Débora requeria.vejam só! ." . e o notável romancista que aprecio e admiro. Agradecido. pela despretensão no escrever da autora .Chico Ângelo. há bastante tempo. Era assinado por uma senhora: D. mas quando se lembrar que a vida tem terríveis imperativos. Espero. que não há como os homens conversarem. surgiu-me como a pessoa mais simples deste mundo. uma obra sua recente . Infelizmente não posso fazer isso com a presteza que a ansiedade dos autores pede. mas fi-lo de bonde.e ainda não escrevi sobre ele uma linha. LITERATURA MILITANTE Conheci O Sr. O que me feriu logo nele foi o primeiro período.

os homens. o estímulo para elas é a arte. Sendo assim. se bem me julgando aprendiz. ou quase todas as suas obras. para bem suportarmos o fardo da vida e dos nossos destinos. interessa o destino da humanidade. creio que nas Prosas Bárbaras. mas. Malheiro Dias que a grande força da humanidade é a solidariedade. só temos futuro. O Eça. pois já tenho publicado livros. Júlio Dantas ou o Sr. na ordem social econômica. A começar por Anatole France. Todas. enquanto estas eram contemplativas e de paixão. a influência que vão tendo. os bois e os carneiros conquistam o mundo com a sua solidariedade entre eles. mais do que nenhuma outra coisa. precisamos nos compreender uns aos outros. tomei o pião na unha. O termo "militante" de que tenho usado e abusado. militantes e honorários. proclamou a sua grande admiração pelos leões. Como eu sempre falei em literatura militante.militantes. Ele mostrou que desde muito as letras francesas se ocuparam com o debate das questões da época. eu como literato aprendiz que sou. precisamos dizer as qualidades que cada um de nós tem. dos casos sentimentais e amorosos e da idealização da natureza Aquelas eram . cheio dessa concepção. um índio. e a solidariedade humana. de incolores. Hoje. quando comparou o espírito da literatura francesa com o da portuguesa. Eu me atrevo a lembrar ao Sr. do que Portugal. tigres e jaguares. Nós não temos nenhum. às obras de arte que têm semelhante escopo. a grande literatura tem sido militante. Pode-se lê-lo lá e lá o encontrei. Nós nos precisamos ligar. Isto em geral dentro daquele preceito de Guyau que achava na obra de arte o destino de revelar umas almas às outras. se não visam a propaganda de um credo social. de plásticos. . à proporção que essas feras desaparecem. no Brasil. Malheiro Dias não sei por que despreza os aprendizes literatos. Eles nada têm de contemplativos. quando as religiões estão mortas ou por morrer. mas não honorário. venho para as letras disposto a reforçar esse sentimento com as minhas pobres e modestas obras. pela virtude da forma. Antero de Figueiredo não mereciam esse "engagement" que estamos tendo por eles é que eles não mereciam. devemos mostrar nas nossas obras que um negro. Um doido que andou na moda e cujo nome não cito.Pelo que aí diz o Sr. os Bergeret. disse Taine. tudo o que pertence ao destino de todos nós. à mão. no interesse comum de todos nós. porque moram em Botafogo ou Laranjeiras. Militam. tem por fim dizer o que os simples fatos não dizem. Quando disse que o Sr. de restabelecer entre elas uma ligação necessária ao mútuo entendimento dos homens. Não sei como o Sr. Eles estão aí. um português ou um italiano se podem entender e se podem amar. Creio que temo não amar. enquanto as portuguesas limitavam-se às preocupações da forma. tem por mira um escopo sociológico. no seu próprio destino. por quem não cesso de proclamar a minha admiração. Em vez de estarmos aí a cantar cavalheiros de fidalguia suspeita e damas de uma aristocracia de armazém por atacado. Brunetière diz em um seu estudo sobre a literatura que ela tem por fim interessar. empregou-o. tendo por ideal de arte essa concepção. da maneira literária. Malheiro Dias poderá classificar a Ilha dos Pingüins. não foi pela primeira vez empregado por mim. A obra de arte. O Brasil é mais complexo. Eu chamo e tenho chamado de militantes. senão dessa maneira. E é dele que a nossa literatura deve tratar. para nós fazermos grandes obras de arte. e mais alguns livros do grande mestre francês. A velha terra lusa tem um grande passado.

que me julgo obrigado a tratar do escandaloso acontecimento. eu também sou literato e o que toca a coisas de letras não me é indiferente. por conta e risco deles. o Sr. só nos deve interessar arqueologicamente. cujo máximo problema mental. Neto não se deteve jamais em examinar esta trágica angústia do seu tempo. Coelho Neto ficou sendo unicamente um plástico. Se ele estivesse ao par dos males do seu tempo. nem mesmo tratou de conhecer o positivismo que lhe podia abrir grandes horizontes. mesmo que fosse. muito curiosamente. por fás e por nefas. pedindo que não vejam nestas considerações a mínima hostilidade ao conhecido escritor. Glorioso. em um século que levou a sua análise até os fundamentos da geometria. era uma reforma social e moral. magnetizado pelo Flaubert da Mme. mesmo ligeiramente. e muito justamente pelo seu poder verbal.os políticos seus conterrâneos. Vamos ao que serve. morais. de renovação latente. LITERATURA E POLÍTICA Conforme resolveram os chefes políticos do Maranhão. A coisa tem levantado tanta celeuma nos arraiais literários. em um século deste. as suas obras. Coelho Neto. fez "forfait". quando uma outra sua obra recebe gabos da mais alta autoridade eclesiástica do Rio de Janeiro. A. Não descubro razão para tanto barulho. talvez. embora os seus projetos morressem nas .É de Fouillée a segunda parte do período. e sempre fascinado por uma Grécia que talvez não seja a que existiu mas. deram-lhe. Em um século de crítica social.. fazendo todas as citações de memória. Bovary. Por mais que não queiram. pintar com a palavra escrita.. Coelho Neto como literato-político. quando é excomungado por um arcebispo do Chile (vide Magda) e exultar. da Legislação. Coelho Neto é daqueles a afirmar que Clotilde de Vaux foi uma rameira . O Sr. Em tais anos. o Sr.. 7-9-1918. Isto é explicável muito facilmente para quem conhece. deputados federais por aquele Estado. Ligeiramente. que viu pouco a pouco desmontar-se o mecanismo do Estado. sociais. com as suas chinesices de estilo. problema que interessava todas as inteligências de quaisquer naturezas que fossem. não deu para o estudo das soluções apresentadas um pouco do seu grande talento. O grande romancista. o nome do Sr.. ficou num corriqueiro deismo ou. com o talento que tem. As cogitações políticas. devem ser aproximadamente sufragados nas urnas. poderia ter apresentado muita medida útil e original. é o que posso dizer sobre o que seja literatura militante. em religião. das bases das nossas instituições. e o prestígio do seu nome. religiosas. Tenho para mim que o Sr. Coelho Neto não foi incluído na lista dos que. durante duas legislaturas. não se impressionou com as mais absorventes preocupações contemporâneas que lhe estavam tão próximas. ficaram-lhe inteiramente estranhas. tendo conseguido. em um catolicismo singular e oportunista que. e nelas descobre as suas tendências literárias e espirituais. querendo como os Goncourts. do seu século. O mundo é hoje mais rico e mais complexo. uma cadeira de deputado pelo seu Estado natal. um contemplativo. para chegar aos seus elementos primordiais de superstições grosseiras e coações sem justificações nos dias de hoje. o faz orgulhar-se. da Pátria.C. a simpatia ativa e incansável de gregos e troianos ..B. que surgiu para as letras nas últimas décadas do século XIX. O Sr.

os fartamente enriquecidos. sucessos externos e internos trouxeram ao nosso país. e eis os . Em anos como os que estão correndo. resolveram apelar para a religião. ele ficou sendo um qualquer Fulgêncio ou Marcelino. em quem não repercutiram as ânsias de infinita justiça dos seus dias. e a crueldade sem nome do espetáculo e a amplitude da inútil carnificina levaram inteligências honestas e desinteressadas a pensar mais maduramente sobre o mistério da nossa existência e o sentido dela. sem cogitações outras que não as da arte poética. uma utopia ou ajudar a solapar a construção social que já encontrou balançando.Deus sabe como! . Neto tem senso comum. 18-1-1918. morais e sociais.pastas das comissões. mediante o dote das filhas que tinham passado pelos colégios de irmãs de caridade. onde não podia ser poético ao jeito do Sr. estilizante. A Lanterna. Coelho Neto ficou sendo puramente contemplativa. dizia. consagrada no círculo dos grandes burgueses embotados pelo dinheiro. Viram. prosperaram ainda mais. sobretudo a religião católica. porém. para os políticos. a literatura do Sr. Urbano Santos. no intuito de defender as suas cobiçadas fortunas. Muitas dessas inteligências voltaram um pouco ao catolicismo romano. mete-lhes medo e pedem auxílio à religião. que isto não bastava e muito pouco podia impedir que se avolumasse a sincera onda de revolta que crescia em todos os corações contra o atroz despotismo da riqueza e os miseráveis e torpes processos de enriquecimento. fonte de consolação para os humilhados e oprimidos. porque o Sr. de uma literatura militante. vergonha e orgulho de si mesmo. A última guerra foi-lhes favorável em dois sentidos: eles. com o vocabulário. REFLEXÕES E CONTRADIÇÕES À MARGEM DE UM LIVRO De uns tempos a esta parte. que um Fulgêncio ou um Marcelino tenham eles escolhido para substituí-lo. Para os literatos. indo para a Câmara. por isto ou por aquilo. usados atualmente.. Fausto Ferraz. empregando nos discursos vocábulos senis ou caducos. em quem não encontrou eco nem revolta o clamor das vítimas da nossa brutalidade burguesa. cheia de preocupações políticas. não pôde ser o que um literato deve ser quando logra pisar em tais lugares: um semeador de idéias. feita de avidez de ganho. Até bem pouco. isto foi uma decepção. com o abalo que. O deputado ficou sendo o romancista que só se preocupou com o estilo.contentava-se em converter o genro ambicioso. mas que não fez do seu instrumento artístico um veículo de difusão das grandes idéias do tempo. portanto. com a paisagem. o grande romancista sem estar saturado dos ideais da época. O que vai acontecer. Indo para a Câmara. Mas. Neto tem talento. porque o Sr. essa gente superenriquecida . na ordem econômica. manteve-se mudo. a fim de estabilizar a sua situação e o futuro de sua descendência. um batedor do futuro. onde também não podia ser político à guisa do Sr. esses gananciosos que simulam caridade e temor aos mandamentos da Santa Madre Igreja. com a mais sinistra amoralidade para também edificar. por sua vez. nada fez. do seu honesto trabalho e da grandeza da sua glória. só dando um ar de sua graça para justificar votos de congratulações a Portugal. Quem não quer ser lôbo não lhe veste a pele. Não é de admirar.

sobressai por todos os títulos Jackson de Figueiredo. de férvida esperança no futuro. isso de lado. porém. Essa revivescência religiosa é muito natural. é dirigida aos que pensam. hoje há ou está aparecendo um outro: o pedantismo católico que se entrincheira atrás de São Tomás de Aquino e outros respeitáveis e sutis doutores da Igreja.magnatas do comércio. claro. são jesuítas alemães ou italianos e irmãos leigos da Companhia. Digo catolicismo de Petrópolis porque o Sr. a sua simplicidade no dizer e a sua total ausência de pedantismo. Deixemos. etc. ao menos de abalá-los no seu volterianismo ou agnosticismo. senão de convencê-los.Penso e Creio . de quem muito sinto andar em tal matéria afastado. Algumas vezes é proveitoso que o nosso exame e as nossas faculdades pensantes se dirijam e repousem no evidente. cantando vitória e contentes porque tinham esmagado os adversários que lhes ameaçavam o pleno gozo e uso das fortunas. de mãos dadas ao inacismo. já por ser escrito superiormente.é deveras notável. de religião enfim. não é um ato de contrição de sua irreligiosidade passada. Entre nós. pacientemente.. pois. diversos moços. em substância. no respeitado e no que está claro como água. no intuito. já pela erudição que demonstra. cedendo a esse impulso que a crise guerreira acelerou. uma obra política e o catolicismo de Petrópolis. até agora. Ele tende à reforma da Constituição. ele é um escritor para toda a gente. De mais. em geral. nos quais o saber de detalhes e a pouca familiaridade com a língua tiram as indispensáveis qualidades de escritor de combate: a atração e a veemência. Aparece agora como uma brilhante revelação o Sr. entre nós. para considerar somente o escritor e o pensador do Penso e Creio. contentara-se com disfarces na violação dos . Já houve. o pedantismo dos gramáticos que andou esterilizando a inteligência nacional com as transcendentes questões de saber se era necrotério ou necroteca. com grande "élan" de paixão e soberbos toques de poesia. Seja com que fito for. Todo o livro não é ocupado somente com a parte apologética propriamente. os que ele nos dá. escondendo com pudor o seu real saber. os grandes acontecimentos da humanidade sempre se revestiram de aspecto de crença mística.. para o desconhecido ou para o debatido. Perilo Gomes não parece nada com esses senhores respeitáveis que hão de ser camareiros de S. Andava bem o catolicismo de Petrópolis necessitado de um espírito como esse que põe a serviço dele a sua fé sincera e o seu talento. pois nenhum parentesco tem com a primeira. se hão dedicado à apologética católica. e a humanidade passou ou está passando por uma das mais duras privações de sua existência. é a sua clareza. que o nosso interesse artístico ou a nossa angustiosa perquirição intelectual. forte. já houve o pedantismo dos positivistas que aterrava toda a gente com a matemática. não é uma confissão. o homem nunca deixou de ser um animal religioso e a religião é uma necessidade fundamental de sua natureza. etc. o autor quis provar. telefone ou teléfono. Ao que me parece.. Perilo Gomes. do banco e da indústria. que aduziu à parte principal de sua obra. porque o que encanta nele é o escritor. mas também a filhos e netos. científica e teológica. aos condutores do pensamento nacional. O seu livro . Perilo não se pode furtar em confessar que a sua obra não é de pura contemplação. é a sua veemência apaixonada e. por todos os meios. tem visado fins políticos. é o seu poder de expressão. não devem tão-somente ser encaminhados para o obscuro. sorrateiramente. no sentido mais alto da palavra. Entre eles. É. com os artigos de sua lavra. é militante. sobretudo.S. Não há como a provação das dores profundas para nos impor indagações sobre as coisas do Além. Há uma segunda parte que podia ser dispensada. não só no que toca a eles.

Perilo Gomes não trata dessas questões claramente. e nao é difícil ver nisso o desejo de riscar da carta de 24 de Fevereiro a separação do poder temporal do espiritual e suas conseqüências. dos protestantes. está sempre a apelar para as tradições católicas de nossa terra. o autor não faz entre eles a separação dos católicos. por isto ou aquilo. se o convertido ou arrependido de irreligiosidade. Admiro muito a religião católica. mesmo toleradas outras seitas. dos religiosos de qualquer espécie. nasceu no islamismo ou na igreja grega voltaria para o catolicismo ou para o maometismo ou para a igreja ortodoxa? A resposta não se faz esperar: ele voltaria para a doutrina religiosa em que foi educado. é em afirmar ele que essa revelação de Deus em nós. sei que ela tem sabido aproveitar as conquistas de toda a ordem obtidas por este ou aquele homem. como fato consumado. julgo não ser demais fazer as observações que acima ficam. remotamente. em seu favor aqui. como já disse. no Brasil. quando afirma que a ciência não satisfaz. talvez com um pouco de farinha a mais. Sem que nada me autorize a tal explicitamente. mas as idéias estrangeiras de reivindicações sociais que são dirigidas contra os cresos de toda a ordem. se ligam a elas algumas das suas afirmações. eu filio Penso e Creio à ação do partido que se esboça aí com o título de nacionalismo. no que não estou de acordo com o Sr. mas também à riqueza e às regras sociais vigentes. e a recrudescência exaltada do sentimento de pátria. mas não Deus mesmo. porém.preceitos dela que interessam ao Catolicismo. aliás muito antigo. incorporando-as ao seu patrimônio. O tal partido. de que a maioria dos homens eminentes em toda a sorte de atividades teóricas e práticas. e até aproveitou-se em seu favor. ao se sentirem tocados pela graça divina. Perilo. de argumentos dos seus inimigos contra ela. Dado que a maioria dos brasileiros seja verdadeiramente de católicos. Estas reformas me parecem odiosas e sobremodo retrógradas. baseada na nossa necessidade fundamental de Deus e impregnada do cesarismo romano. há muitas razões de crer em Deus e de obedecer à revelação da voz divina na nossa consciência. Não sei por quê! Para os que nasceram na religião católica e a abandonaram. As religiões são expressões humanas de Deus. mas. . não o estrangeiro. em matéria que muito pouco tenho meditado e muito menos pensado. Perilo. Estaria e estou de acordo com o Sr. com a Igreja. o Sr. O Jeca deve continuar Jeca. é muito natural que voltem a ela. é o apego à herança do passado de respeito. como: o casamento civil e o ensino oficial inteiramente leigo. por parte da massa que nem sempre está com a razão . sei bem disso tudo. também conseqüência dela. No argumento. fora dela. quer obter a vitória completa. dai a aliança da jovem fortuna. já que se me oferece pretexto para fazê-las. e que.coisa que. nos dias atuais. O culto à brasilidade que ele prega. mas sei bem que ela é uma criação social. crê ou têm crido em Deus. não pode deixar de revoltar um liberal como eu. É minha desautorizada opinião. que a anima e a sustém no seu velho sonho de domínio universal. não só à religião. Mas tal culto tende a excomungar. mas. é evidente que há em semelhante ato uma violência inqualificável contra a consciência individual. me causa apreensões e. só nos pode levar ao catolicismo. Entretanto. dos simples deístas. A Igreja quer aproveitar ao mesmo tempo a revivescência religiosa que a guerra trouxe. representada pelos improvisados ricaços de Petrópolis. como ameaça. Por isso. que ela parte do mistério e acaba no mistério. Mas. pelos seus órgãos mais autorizados. aproveitando o momento de angústias que atravessamos. decretada como oficial a Igreja Romana. definindo de vez o meu humilde pensamento em face da agitação católico-nacionalista que está empolgando todos que no Brasil tem alguma responsabilidade mental.

como a França. Seria certamente um capítulo de uma espécie de geologia religiosa em que. já se esvaneceu ou vai se esvanecendo. que. Penso e Creio é luxuriante e há tanta riqueza de idéias nele que a gente se perde querendo escolher as que deseja discutir. foi repelido. no assunto. não soube ou não pôde impedir a moderna escravidão negra nem propagou a sua abolição. afinal. até hoje. talvez. e no final desaparecimento desta última forma de elementar trabalho humano. mas nunca um ato solene da igreja que a condenasse. onde. a um filósofo que a Igreja mais combate . não me lembro onde. e os filantropos ingleses. amoldando-se a cada idade e cada transformação social. a demonstrar que tem havido. quem acabou com esta infame instituição. mesmo quando essa ambição desenfreada de dinheiro e de lucro se faça em troca da dignidade moral da pessoa humana. a classificação dos termos não fosse difícil de estabelecer. a que o mundo antigo. como sendo patrimônio dele. chamando-os ao bom caminho da paz e da concórdia. desde o édito de Milão. É fato. portanto. Vou me deter alguns instantes no que toca à extinção da escravidão antiga. . se tal tentou. A Convenção extinguiu-a nas colônias francesas. É por isso que Macaulay diz. talvez ainda a escravatura negra estivesse admitida como legal. não foi um concílio muito ortodoxo. que não é preciso aqui mostrar de quanto é credora a humanidade ao catolicismo. através de quase dois mil anos de existência. Mas. sob a benéfica influência da Igreja. citando o Sr. A força moral da Igreja é toda aparente. ela. conforme tudo leva a crer. entretanto. Esta incapacidade que a Igreja demonstrou para abolir a escravidão negra nas colônias dos países catolicíssimos. segundo tudo faz crer. nessa questão do acabamento dessa odiosa instituição na Europa. Não fossem os filósofos do século XVIII. a força. Esse serviço.Origines de la France Contemporaine). foi a de reconhecer-lhe. e essa grande Convenção Francesa. que. Estou a muitas centenas de quilômetros dos meus modestos livros. Perilo. Guiraud. que a Igreja possa resolver a questão social que os nossos dias põem para ser solucionada urgentemente. tivesse verdadeira erudição pois não tenho nenhuma.Augusto Comte.nessa questão há um argumento em desfavor do papel social da Igreja moderna. ateus ou não. apesar dos Evangelhos. Há exemplos isolados de eclesiásticos que a combateram. todos nós que conhecemos os homens bebemos inspiração. estava a tal ponto identificado que os seus filósofos mais eminentes. desaparecimento que só se fez total com a Grande Revolução (Vid. quem conseguiu a vitória de extinguir semelhante infâmia. . a Espanha e Portugal. A sua atitude perante a nefanda instituição foi a dos filósofos antigos de que fala o Sr. pelo menos a necessidade. durante o século XVII. deve-se pela primeira vez. várias igrejas superpostas com os afloramentos fatais das mais antigas através das mais modernas. mesmo o virtuoso Sócrates. essa admirável plasticidade da Igreja. mesmo o quase divino Platão e o conciso Aristóteles reconheciam a sua legalidade. no acertado dizer do Sr. Taine . ou mesmo antes. os Evangelhos tinham passado das mãos dos religiosos para a dos filósofos. a cupidez. especialmente Condorcet. Perilo. senão citaria integralmente esse famoso trecho do grande escritor inglês. para Napoleão criminosamente a restabelecer. Não creio.Porém. Perilo. como diz o Sr. senão a legalidade. dizia eu. na sua transformação em selvagem. que ela instituindo o dogma da fraternidade humana matava a escravatura. e. dá a entender que ela não tem mais força para reprimir no coração dos seus fiéis a ganância. A última guerra mostrou a fraqueza do ascendente do Papado que não quis francamente experimentar o seu prestígio sobre os povos em luta. Entretanto. poderia tentar a outro.

é em nome dela . Que o que se vê. mas.. tanto mais que não me preocupo com essas coisas transcendentes de gramática e deixo a minha atividade mental vagabundar pelas ninharias do destino da Arte e das categorias do pensamento. as suas cerimônias domésticas.P. Queimam-se grossas perobeiras e duros jacarandás. mas tal coisa não vem ao caso. mas que dará a seu autor mais fama. O seu primeiro conto . inesperadamente. a vida de fazenda. positivistas. anarquistas. O Sr.C. As relações do fazendeiro com os colonos. Não há nele um toque distinto que denuncie esse amor. Vale a pena ler seu livro.. aos bois. É a indústria clínica que se ceva nos cadáveres dos pobres desgraçados que morrem nos hospitais. Não é só à paisagem. nas mãos. 23-4-1921. no livro do Sr. À MARGEM DO "COIVARA". Admitindo a velha definição dos dicionários. mas. um caso a estudar.Se os socialistas. a dissecar. há alguns que são verdadeiras toras de cerne. Escreve como toda a gente. Gastão Cruls. mas mesmo aos bichos. aos carneiros. não são delgados galhos secos. o que ele ama é.sem ter diante dos olhos o redundante padre Vieira e o enfático Herculano.C. há "atrás" do que se vê muitas e muitas coisas. não há positivamente "coivara". ensina ele alguma . de cuja ação e de cuja crença quisera partilhar para sossego de sua alma. os seus negócios.o 13 . não a podem resolver estou muito disposto a crer que o catolicismo não a resolverá também. Esse professor Rodrigues que vai seguido de uma récua de estudantes. Despertou-me refletir um pouco. não há o menor sinal de má vontade ou de hostilidade. mas quase sempre essa sua singular feição de escritor nacional se trai aqui e ali. a vida social da roça. não escreve no calão pedante dos seus colegas. Os contos que o compõem. principalmente no seu cadáver.A. DE GASTÃO CRULS Dizem os dicionários que "coivara" e uma fogueira de gravetos. Perilo Gomes me provocou fazer. Nota-se nele que o autor ama muito a vida da roça.B.coisa singular . Digo isso de um modo geral. assistentes e enfermeiros e faz discursos mirabolantes (é do autor) diante do doente. mas . Gastão Cruís é médico. Gastão Cruls. É delicioso de naturalidade e precisão. após a leitura desse magistral conto do Sr. etc. sobre certas ficções do atual ensino médico. naturalmente procurando os efeitos artísticos da arte de escrever. para escrever daí a dias uma chôcha memória que certamente morrerá na vala comum das revistas especiais.que concubinato! . pois nele não se queimam só gravetos. não é tudo que existe. que tem como título essa palavra de origem tupaica. tanto mais que nunca foram tão íntimas as relações do clero com o capital.é estranho e como que o autor quis manifestar nele que a sua concepção da vida não é rígida nem mecânica. por assim dizer. Nem sempre os seus contos mantêm na aparência esse tom de transcendente espiritualidade. encontra diante de si campeão contrário de tão raro valor e estranha bizarria. e é contra este que se dirige toda a guerra dos revolucionários. portanto mais clientes e mais dinheiro.O Noturno n. etc.esse amor que ama a vida da roça não ama a natureza. É possível que o professor Assis Cintra tenha outra opinião. sem querer de forma alguma diminuir o mérito do autor. tão-somente humilde homenagem de um adversário que. mas escreve sem o Elucidário de Viterbo e o Blutteau. Por exemplo: no G.que ele protesta contra os brutais processos da nossa atual medicina que só vê no doente. A. graças a Deus. Nestas reflexões que o vibrante livro do Sr. sindicalistas.espiritualidade . e .

um lente de partos quis fazê-la sujeitar-se ao "toque" por toda uma turma de estudantes. seguindo na esteira do Sr. tendo-se recolhido à Santa Casa. É tão importante a medicina na nossa vida que toda a crítica deve ser feita por todos. vamos ver no . nos contos do Sr. Compreendes agora por que lhe receitei os crustáceos? Ora. Quanto mais reduzido for o número de alunos. Há. Vejamos este caso. agora. entre nós. o Dr. queixando-se muito da marcha propulsiva.A Neurastenia do professor Filomeno . Beijos de uma morfética. O Dr. Uma parturiente. como é Coivara.maneira que é exigida "malgré-tout" . lido no "Thinherabos". melhor eles compreenderiam o lente. As nossas escolas de grande freqüência devem ser condenadas. ao invés de qualquer prescrição medicamentosa. Ela tinha razão sob todos os pontos de vista. talvez demais um pouco. no João de Barros e outros cacêtes. dessa maneira afetada e oratória . nada mais natural do que neutralizar essa força propulsora por meio dos gânglios nervosos dos siris e caranguejos. é possível? Penso bem que não. quanto menos palavras arrevesadas. no frei Luís de Sousa. àqueles que nos têm de curar. começando por lhe citar um aforismo latino: "Cancri nunquam recte ingrediuntur"."King of Life". por experiência ou estudo. "Noites Brancas". Eis aí como narra o arguto autor do Coivara: "A um indivíduo que o fora consultar enfermado pela moléstia de Friedreich. fantástico e doloroso. Os jornais falaram e não sei como as coisas ficaram. A verdade."Os caranguejos nunca andam em linha reta". porém. diante do doente. é conto fora dos nossos moldes. vai para morrer.coisa? É possível transmitir a outrem o que se sabe. porém. De resto .outra feição do nosso ensino médico. Filomeno logo traduziu: . Vimos já esse professor Rodrigues. Mais tarde ele explicara a Raul por que assim procedera. terrível. Ela se revoltou e houve escândalo. só sabem andar para os lados. A sua lógica é de uma inflexibilidade aristotélica e ele a aplica largamente na sua clínica. se esse indivíduo tem uma desordem do equilíbrio que o impele a correr e cair para a frente. que são animais exclusivamente laterigrados. no Diogo do Couto.pelo auditório numérico que o cerca. Mas era preciso. Valha-me Deus! Eu me alonguei nestes dois contos em que se tratam de coisas do ensino médico. porém. tal qual o autor nos conta e conforme expõe o grande Filomeno. Cruís muita coisa outra que não a pura preocupação das coisas de sua profissão. Esse Wilde que se intitulava a si mesmo . . Clark acaba de afirmar que há pelo Brasil inteiro quatro mil médicos que não sabem medicina. ele soube conquistar a alta sociedade de sua terra. essa. "Como Raul não compreendesse o latinório e se mostrasse um tanto atrapalhado. Dr. tanto assim que o Sr. sobretudo àqueles que isso ensinam. melhor ele poderia iniciá-los. é a admiração que parece ter por Oscar Wilde e se traduz em frases quentes no seu conto "A Noiva de Oscar Wilde". Oh! que horror! O que estranho no autor de um livro tão digno. Lembro agora um caso que se passou há tempos.o que o autor também nota . a fazer hipóteses mirabolantes e ousadas. Com uma singular sagacidade. Cruís. que já o fizera levar várias quedas.não passou antes de "Reading" de nada mais do que o "Rei dos Cabotinos". em vez de ir para tratar-se. Filomeno é um sábio em medicina porque conhece o léxico antigo da nossa língua. Tem outras manias. isto é. no Rui de Pina. o professor Filomeno. é que todo esse nosso ensino médico é malvado e improdutivo. preferira recomendar uma alimentação intensiva pelos siris e caranguejos. é a principal. De forma que um pobre-diabo que cai num hospital. "Rei da Vida" .não é um suplício para um doente grave estar a ouvir palavras campanudas sobre a sua moléstia durante uma hora? Poderá isso concorrer para a sua cura? Não. por exemplo." Filomeno chama isto opoterapia. dentro da noite escura.

mas possuo grandes extratos que vem na obra do Dr. O derivativo para essa tortura. no personagem do Sr. Aí. Às vezes até. Enéias Ferraz . de grande cultura. a de ostentar o porco vício que o levou ao cárcere.talvez tenha dado um bom resultado. Não tenho todo o processo a que foi submetido. entre as quais. embora seja ele um estudioso. mesmo nos paradoxos. desta cidade. Ao que parece. com arremedos. tratando de Tito Lívio de Castro. HISTÓRIA DE UM MULATO O livro do Sr.A mulher e a sociogenia .. como todas da Livraria Castilho. Sabe qual é. Dostoiewsky passou alguns anos na Sibéria. É um caso de "moléstia da cor". tascas e prostíbulos reles. 23-7-1921. apesar de umas ousadias fáceis que a sua mocidade desculpa. e não se abateu. A. Trata-se de um rapaz de cor. Tudo nele é factício e destinado a causar efeito. A sua vaidade. não é o estudo.aparecido recentemente. Faltou a Wilde sempre o senso da vida. todo o seu cinismo em mostrar-se possuidor de vícios refinados e repugnantes. Adquiriu-a para chamar a atenção sobre si. ele em si não era portador de tal tara.. entre os mais inumanos bandidos que se possa imaginar.prefaciada por Zola. meu caro Dr.. não é a arte. com uma originalidade duvidosa. lançou mão das mais ignominiosas ousadias. e essa análise é feita . porque os outros. para fazer sucesso. ficam apagados diante da força com que o autor analisou o seu personagem central. toda a sua vaidade . durante muito tempo. Ele é um mascarado que enganou e explorou toda uma sociedade. a sua falta de profundo sentimento moral.desse malogrado escritor. nem sempre de bom quilate. . nem pequeno. é que afirmei sobre ele o que acima fica dito. A vida é coisa séria e o sério na vida está na dor. trejeitos e "poses" de artista requintado.B.Perversion et perversité sexuelles .expondo-lhe os vícios e. até esse imundo vício que o levou à prisão de "Reading". Queria distinções sociais e dinheiro. perde toda a basófia e abate-se. Para isso. Não é um artista. menos da das bodegas.é feita com grande cuidado e rara lucidez. A edição do Coivara é primorosa. egresso de toda e qualquer sociedade. As suas obras são medíocres e sem valimento.pode-se dizer sem favor algum . Pelas leituras deles. Enéias Ferraz. a sua jactância. Era elegante.tudo isso que o arrastou à desgraça. ele despe-se do peplo.C. ao mesmo tempo. é o . num atroz presídio. sentimento do alto destino do homem. nem grande.História de João Crispim . embora escreva e seja ilustrado. ele é um egoísta simulador de talento que uma sociedade viciosa e fútil impeliu até ao "hard labour". para essa moléstia especial. o seu narcisismo imoral obrigaram-no a simular tudo que ferisse e espantasse a massa. embora não hesite em freqüentar o mais baixo que seja. o seu egoísmo. Toda a sua jactância.. a grandeza da concepção e a força de execução. mais longamente estudado. na desgraça.. na miséria e na humildade. é obra de mérito que merece ser lida. mesmo o do poeta Afonso Pina. É livro de um tipo só. no prefácio que escreveu para . como qualifica Sílvio Romero. não é o bordel. tira o anel da múnia do dedo. Cruls? É tê-lo feito escrever o De Profundis. a frescura e a ingenuidade do verdadeiro talento. os justificando com paradoxos. põe fora o cravo verde. Laups .

é querido. nela dormindo. mais ou menos. quem o levava . compreendendo a dor dos outros. neste vasto Rio de Janeiro. perde a sua significação e trai o seu destino.talvez o fabricante de túmulos não amasse o moço mulato. em geral. uma vida. vai para o necrotério. às vezes. com honrarias e cargos. e sofrimento por perceber que essa superioridade não se pode manifestar plenamente. Cercado de amigos. de suas várias partes e de seus vários aspectos. Ferraz se saiu da tentativa. de necessidade de simpatizar com todos. bem cedo. é estimado. Ao que me conste. porém. se insurgiu. que lhe tiram o direito de uma completa e total revolta contra a sociedade que o cerca. porém. o motivo de tão estranho viver quando. aliás. por sua vez. . completamente.como diz o vulgar "podia ser muita coisa".. não posso. Ferraz. nunca tentou a pena de um romancista. Como o Sr. para eles. A sua significação era a insurreição permanente contra tudo e contra todos. após os trabalhos de redação. seja em que for. a ninguém revela. ou pelo governo. um homem que possui uma alma dessa natureza enche-se de bondade. Crispim. sobre a qual não vale a pena insistir. Os detalhes da obra do Sr. está ele cheio de amizades. muito orgulho e muito sofrimento. e ninguém percebe naquela alma e naquela inteligência. que se não fôsse o "copito" . nesses homens assim alanceados. nos lábios de um rapaz. Temperamentos como este que o Sr. de forma que. cachaça. Redator de jornal. sorvidos. num sábado de carnaval. O marmorista que lhe fez o túmulo da mãe simpatiza com ele. o marmorista. deixar de observar que um tipo como esse João Crispim devia ser conhecido.como se diz nos jornais . tão comuns entre nós. o dia pela noite. debaixo das rodas de um automóvel. encontrando por toda a parte uma afeição e uma simpatia. nas nossas sociedades democraticamente niveladas.leva-lhe o cadáver para [a] sepultura. Orgulho que lhes vem da consciência da sua superioridade intrínseca. é uma nuga sem importância. pois não foi reconhecido. se assim se pode dizer. leva uma vida solta de boêmio. A sua dor íntima. e ele possui. uma das mais belas do livro. mas a gratidão e as amizades fazem-no recalcar a revolta. de afetuosidade. Há nessas almas. como a do personagem do Sr. donde a caridade do Estado.. o autor da História de João Crispim é o primeiro que o faz. em diversas horas do dia e da noite. e o seu destino seria a apoteose. tanto mais que os que a sorte aquinhoa e o Estado estimula.expansão da dor íntima de Crispim . trocando. Isto. onde sujeitos menos originais que Crispim são apontados por toda a gente. na parte estática. embora mulato. porém. de fel contra as injustiças que o obrigaram a sofrer. nem de leve. toda a gente pode vê-lo com a leitura de seu interessante e atraente livro. como ninguém. a não ser inofensivamente em palestras e na platônica insurreição do cálice de cachaça. de dedicações de toda a sorte e espécie. João Crispim é assim: por toda a parte. Não quero epilogar sobre essa cena. Morre. na verdade. não têm nenhuma espécie de superioridade essencial sobre ele. comparada com os demais semelhantes que os cercam. ou ser assassinado por um bandido. por todo o mundo. mal sabia ele. para não ferir os amigos. por toda a parte. Entretanto. o sentimento da cidade. limites tacitamente impostos e intransponíveis para a sua expansão em qualquer sentido. com o sofrimento. quando corre lugares suspeitos. excelentes. pelo menos. Enéias Ferraz estuda. A orgia carnavalesca não permitiu que o fosse. possuidor de uma pequena fortuna. mesmo. "whisky".álcool. álcool forte. pois acaba. De resto. pois há. como indigente. a sôldo de um poderoso qualquer. após os folguedos de Momo . Ferraz são. mas educado e com instrução superior à vulgar. mas lastima que gostasse tanto do "copito". a explosão de ódio. que é.

Quase sempre, nós nos esquecemos muito dos aspectos urbanos, do "ar" das praças, das ruas, lojas etc., das cidades que descrevemos em nossos livros, conforme as horas em que eles nos interessam em nossos escritos. A Balzac e a Dickens, os mestres do romance moderno, não escapa isso; e ao Sr. Ferraz também interessou essa feição do romancear do nosso tempo, tanto assim que nos dá belas descrições de trechos e coisas da cidade. Não citarei senão aquele das imediações do Teatro Municipal, alta noite; e também a da tradicional livraria do velho Martins, na rua General Câmara - um Daumier! No final de contas, a estréia do Sr. Enéias Ferraz não é uma simples promessa; vai muito além disso, sem que se possa dizer que seja uma afirmação, mesmo porque nós só nos afirmamos com o conjunto de nossas obras, e o Sr. Ferraz ainda pode e deve compor muitas outras. Sobra-lhe talento e vocação para isso; o que é preciso, porém, é não esmorecer, não perder o entusiasmo, nem embriagar-se com os louros colhidos. É o que espero, como amigo que sou dele. O País, 17-4-1922.

VÁRIOS AUTORES E VÁRIAS OBRAS Nós nunca somos senhores do rumo que deve tomar a nossa vida. Nos primeiros anos, com os exemplos familiares, com os conselhos paternos, pensamos que ela deve seguir este ou aquele caminho e orientar-se segundo tal ou qual estrela. Os acontecimentos supervenientes, porém, chegam e, aos poucos, devido aos embates deles, a nossa existência toma outro rumo muito diferente daquele que traçamos na carta do viver neste mundo. É vão delinear todo e qualquer projeto de vida nesta terra ou em outra, porque nós não somos senhores dos acontecimentos, não podemos dominá-los nem evitar que eles nos levem para onde não queríamos ir. Quando, há cerca de vinte anos, época em que já devia estar formado, me pus a escrever em pequenos jornais chamados humorísticos, nunca imaginei que tais ensaios, quase infantis, meros brincos de quem acabava de sair da meninice, viessem um dia me pôr em colisões mais atrozes do que as que passei, ao ser examinado em Mecânica Racional e Cálculo das Variações pelo Sr. Licínio Cardoso. Perdi o respeito infundado que tinha desse meu antigo lente, no que fiz muito bem; mas, hoje, com a minha incipiente literatura, à vista das atrapalhações que ela, de onde em onde, me traz, sou obrigado a recordar-me dele e da sua mecânica. A oferta de livros não cessa de me ser feita. É coisa que muito me desvanece; mas muito me embaraça também. Às vezes, são poetas que me oferecem as suas "plaquettes" e mesmo os seus livros. Sou obrigado, por delicadeza e para não parecer presunçoso, a dar uma opinião sobre eles. Ora, nunca estudei, mesmo nos seus menores elementos, a arte de fazer versos; não conheço as suas escolas, nem sei bem como elas se distinguem e diferenciam; entretanto, segundo as praxes literárias, tenho, ou por carta ou em artigo, que dar uma opinião sobre as obras poéticas que me são enviadas. É daí que me vem uma das complicações dolorosas que a literatura trouxe à minha existência. Se, de antemão, tivesse eu adivinhado que havia de escrevinhar livros e artigos de jornais, pelo que havia de merecer a atenção dos poetas, teria

logo, nos meus primeiros anos de vida, tratado de estudar o Castilhos, porquanto, ao que parece, esse negócio de fazer versos, como a música e a geometria, só se aprende bem aí pelos quinze anos e mesmo antes. Nessa idade, porém, não tinha a mínima preocupação literária, havia até abandonado o meu Júlio Verne e todo eu era seduzido para o positivismo e coisas correlatas. Vieram, porém, os fatos duros e fatais que o destino guarda secretos, e eles me empurraram para as letras, sem nada saber de versificação. Não é só ai que a minha humilde literatura complica a minha vida e me causa incômodos. Há outros pontos em que ela me põe abarbado. Ainda há dias, recebi de S. Paulo, com uma lisonjeira dedicatória da autora, D. Maria Teresa de Abreu Costa, um curioso livro: Noções de Arte Culinária. A autora pede-me justiça e eu que já escrevi sobre a sua obra, fiz o que estava em minhas mãos fazer. Sou incompetente para dizer sobre o assunto que tanto interessa a todos os homens; mas, consultei minha irmã que, nessas coisas de Culinária, deve ser mais autorizada do que eu, e ela me afirmou que o livro de D. Maria Teresa é excelente como método e exposição; é muito claro e não tem as obscuridades daquele curioso Cozinheiro Imperial, edição do Laemmert, em 1852, a terceira, em cujas páginas fui buscar algum chiste para alegrar meus artiguetes de vários números da Careta, desta cidade. Diz-me, por carta, o Sr. J. N. Pereira, que a Sra. D. Maria Teresa dirigiu um curso anexo à Escola Normal da capital paulista, onde as respectivas alunas aprendiam a ser donas de casa. Esse curso, por economias mal entendidas, foi extinto. Longe de mim querer censurar este ou aquele governo, daqui ou de S. Paulo. Tenho um medo "brabo" de todos eles, nestes tempos que correm, de violência e pavor, governamentais, mas uma coisa, sem perigo, posso notar, à vista da criação desses cursos de coisas domésticas e similares: é a decadência da família; é o enfraquecimento das tradições domésticas. Há cinqüenta anos ninguém admitiria que uma moça, fosse qual fosse a sua condição, aprendesse essas artes familiares, senão no seu lar, ou no dos parentes ou no dos amigos de sua família. Não era só a culinária, incluindo os doces, que dessa forma se aprendia; era a renda de almofada, o "crochet", o "filet", o bordado, etc., etc. Hoje, não; as famílias não sabem ensinar mais essas coisas às suas filhas ou às dos amigos e parentes; e quando as moças querem aprendê-las, tem que se dirigir a escolas especiais. Se é bom ou não, não sei. O tempo dirá. À oferta deste livro tão curioso da professora paulista, seguiu-se uma outra a mim feita pelo coronel Ivo do Prado, da sua sólida obra: A Capitania de Sergipe e as suas ouvidorias. É uma obra de erudição e de pensamento. O Sr. Ivo do Prado não é unicamente um cartógrafo, nem um compilador de cartas de sesmarias e outros documentos rebarbativos. É também um observador das coisas sociais, dos movimentos das populações, das razões naturais e sociais por que elas preferiram tais ou quais caminhos, para o povoamento do interior. Não tenho espaço nem competência para acompanhar de perto o seu valioso trabalho; entretanto, uma observação sua me traz algumas reflexões que, talvez, não sejam de todo minhas, mas cujo contexto me apaixona. Trata-se de nossa nomenclatura topográfica. O coronel Ivo do Prado nota, e com muita razão, que é difícil identificar os nossos acidentes da terra e mesmo os potamográficos, porque eles estão, a toda hora e a todo momento, a mudar de nomes, por mero capricho

vaidoso das autoridades a que tal coisa incumbe. É uma grande verdade. Basta ver o que se passa na Estrada de Ferro Central, onde a vaidade ou a bajulação dos engenheiros, que isso podem, faz mudar, em curto prazo de tempo, os nomes tradicionais das estações, batizando-as com os apelidos de figurões e poderosos do momento. Podia citar exemplos; mas creio não ser necessário. No Ministério da Marinha, um ministro, usurpando as atribuições da respectiva Câmara Municipal, mudou o nome da enseada da Tapera, em Angra dos Reis, para o pomposo de almirante doutor Batista das Neves. Decididamente não é o bom senso e o sentimento do equilíbrio que dominam os nossos atos. Para prestar homenagem à memória do desditoso almirante Batista das Neves, há, havia e haverá outros meios que não este, onde não se encontra uma razão qualquer que o explique. A observação do coronel Ivo do Prado, sobre essa nossa mania de estar, a toda a hora, mudando a denominação das nossas localidades, rios., etc, provocou-me lembrar um artigo de Gaston Boissier, tratando de saber onde exatamente ficava Alésia, a célebre cidadela em que César encurralou Vercingétorix e foi cercado também, mas derrotou os que o sitiavam, e acabou ornando o seu "triunfo" com aquele infeliz chefe gaulês. Um dos elementos para identificar Alésia foram as denominações locais que, com alguma corrução, desde quase dois mil anos, guardavam mais ou menos a fisionomia da primitiva denominação. Entre nós um tal meio de pesquisa seria impossível... Estão em moda os Estados Unidos; mas acredito que, apesar do amor histérico dos "yankees" pela novidade, lá as coisas não se passam desse modo. O livro que o Sr. Carlos Vasconcelos me ofereceu e é de sua autoria, dá-me a entender isso. Em Casados... na América, tal é o titulo da obra, aqui e ali nos apelidos de lugares, vê-se que há ainda lá muita coisa de huron e pele-vermelha. Os americanos mataram-nos sem dó nem piedade; mas os nomes que eles deram às regiões de que se apossaram os seus algozes foram conservados por estes e passaram até aos seus couraçados e cruzadores. O livro do Sr. Carlos de Vasconcelos é livro de um grande escritor. O que me parece diminuir o seu valor, é a preocupação do autor em encaixar, a força, os Estados Unidos nas suas novelas. Não sei se é porque tenho uma rara antipatia por semelhante país, não sei se é por outra qualquer causa; o certo, porém, é que a sua mania americana me dá a impressão de que a sua obra não é sincera, não nasceu do seu fundo íntimo. Estou convencido de que se a sua frase quente e ondeante, colorida e musical, fosse aplicada a assuntos mais nossos, o seu trabalho ganharia muito e muito! Esse "engouement" pelos Estados Unidos há de passar, como passou o que havia pela Alemanha, e da mesma forma. Não dou cinqüenta anos para que todos os países da América do Sul, Central e o México se coliguem a fim de acabar de vez com essa atual opressão disfarçada dos "yankees", sobre todos nós; e que cada vez mais se torna intolerável. Quem viver, verá! Um outro escritor que, com raras qualidades, parece ainda estar à procura do seu caminho, é o Sr. Adelino Magalhães. Há nele uma grande capacidade de observação até ao mínimo detalhe, à minúcia; é vivo e ligeiro; tem grande originalidade no dizer; mas lá vem o "mas"! - o Sr. Adelino Magalhães não quer ver nada além dos fatos concretos, atém-se às aparências, pretende ficar impassível diante do Tumulto da vida (é o título de sua última obra) e não o perfuma de sonho, de dor, de piedade e de amor.

É com estas palavras da mais pura satisfação que fecho esta crônica. A observação sobre o nosso "doutor" é aguda e perfeita. Contudo. As suas reflexões e observações são pensadas e repensadas. outras. O autor da A Crítica de Ontem é muito filósofo para não fazer semelhante tolice. muito legitimamente e brilhantemente explana e discute essa questão de urbanismo que os nossos autorizados sociólogos práticos têm posto e semeado pelos jornais em fora. Nestor Vítor. Há falta de espontaneidade. faz também meditar e provoca inevitavelmente o aparecimento. Gazeta de Notícias. céticas. URBANISMO E ROCEIRISMO Acabo de ler o novo livro do Sr. Há muitas morais e muitas sociais. Não há doutrinação alguma. as suas "tranches de vie" têm alguma coisa de bárbaro.o que bem condiz com o seu nome. Ninguém pense que o Sr. prudente. se ele faz sorrir.Pan! Pan! É uma dificuldade passar de autor tão impulsivo. apesar do abuso da onomatopéia . depois de Deus. Há algumas profundas e irônicas. de selvagem. de abandonarmos a cidade pela roça.é sobre todos os aspectos notável. É vezo hoje dos nossos economistas. de maldade inconsciente. na inteligência do leitor. mas mesmo pelo fato de ser assim. Nestor as mandou para o livro tal qual elas saíram do primeiro jacto da sua pena ou do seu lápis. e assim é quase todo o livro.. Espécie de obra muito rara na nossa produção literária. como é o Sr. o Sr. encarregada de dirigir os nossos destinos. isto é. Nestor é a cautela em pessoa . É um livro de reflexões esparsas a que o autor tentou coordenar em várias partes. requer vagar e tempo."Um prego! Mais outro prego! . Se há defeito no seu último livro . 6-12-1920.deve provir desse seu feitio de ser. os seus contos ou antes. para um escritor laborioso. O trabalho com que o abre . outras." . nele.. o seu livro tem um grande merecimento: é próprio. cauteloso. Adelino Magalhães. que. Nestor Vítor dá-lhe um lugar à parte nas nossas letras. Não é possível lê-lo de um hausto. Possam todos eles crer que a leitura de suas obras foi nesta minha quinzena de "férias" o máximo encanto do meu voluntário recolhimento. procurar ele demonstrar pela ficção e com auxílio dos recursos da novela a necessidade. desdobrando-se aqueles em outros diferentes. o trabalho do Sr. até perder-se a origem de que eles provieram. Mário Sete . sob a forma de romance. com a qual me desobrigo dos compromissos que contraí com tantos autores e amigos. porque. a reflexão sobre o "Marimbondo metafísico" é de uma ironia acerada e do melhor quilate.Folhas que ficam .Senhora de Engenho . é original. amargas. aconselhar aos que se queixam das . políticos e outra espécie de gente que está.A sua estética é muito cruel e primitiva. não deixa a obra de sugerir comentários que me parecem oportunos. mas que só ele mesmo poderá justificar semelhante coordenação. Se Adelino é todo arremesso.autor pernambucano muito justamente apreciado. tal qual se nos apresenta o Sr. de pensamentos contíguos ao do autor.

vem para o Rio de Janeiro acabar os estudos começados no Recife.coisa muito favorável ao desenvolvimento humano. Nestor e a mulher. dando nascimento. a bordo. Chega a gravidez a carioca.que. não estão sujeitos a mandões tirânicos e caprichosos e as autoridades são mais escrupulosas.de Leo Vaz.o que atraiu para as cidades milhares e milhares de trabalhadores rurais. Há ainda mais. Hortênsia. como dizia acima. tanto mais que nota no marido certa inclinação por uma moça da casa. a carioca. . no seu magnífico romance. sobretudo por Botafogo e seus complementos. pouco depois de casado. começa a afeiçoar-se àquela vida e ambos. o engenho dos velhos. dá-se o oposto: há sempre uma ebulição de idéias. Essa fascinação pelo Rio. aos pobres-diabos.Vão para a lavoura! O mirabolante aritmético Cincinato assim fala. uma pequena Manchester. vem para o Rio acabar os estudos. inclusive Petrópolis. porquanto a característica dos nossos governos é fazer e desfazer. antigamente célebre pela sua feira de muares.duras condições da vida nas cidades: . não há nada disso. e. Nestor. Como todo bom nortista. por meio de tarifas proibitivas. o filho do senhor de engenho pernambucano. Ela fica. Veio depois a megalomania dos melhoramentos apressados. às vezes. Até no irônico . Não há nada mais pueril do que semelhante conselho. mas os há. a cidade é a evolução. Mais ainda: nas cidades. Como todo bom nortista.O Professor Jeremias . Na roça. Na cidade. de sentimentos . há hospitais. Não leio um romance provinciano em que não note isto. para estar bem perto de um Ministro. trata de cavar um emprego e o quer numa Secretaria de Estado. de modo a fazer da longínqua Sorocaba. do pé para mão. necessidade maior ainda é. há bem pouco. Tinha travado conhecimento. Tem uma filha moçoila. Só energias raras podem de uma hora para outra mudar de profissão e de hábitos. pula de praticante do Ministério da Praia Vermelha para o de chefe de seção do Ministério da Justiça. Mostra-nos o Sr. de comum acordo. No começo. Vão para Águas Claras. também. O campo. Nestor e Hortênsia. se faça motorneiro. que o leva à sua casa. mas. eles tem mais garantia. fez a estatística da necessidade de braços nas fazendas paulistas e repetiu o conceito do seu colega de bancada. Veiga Miranda. a roça é um depósito de preconceitos e superstições sociais. o urbanismo foi criado pelo próprio governo da República. dos palácios e das avenidas . ela se aborrece. A carioca foi vencida e o carioca adotivo que é o seu marido Nestor. antiga namorada dele e que é uma das figuras mais curiosas e mais bem estudadas do livro. bem depressa. é coisa verificada em todos os moços mais ou menos bacharéis deste Brasil imenso. se faça capinador de cafezais. ele consegue a sinecura. quer voltar. um moço filho de fazendeiros pernambucanos . realizam.lá se chamam senhores de engenho . embarcam para Pernambuco. Na cidade. e o Sr. maus é verdade. é o mesmo que exigir que um médico. com um conterrâneo desenraizado. Querer que um tecelão. Não é de admirar. lá está a tal história de Petrópolis. fascinado pela cidade. A cidade é uma necessidade. O governo fez isso e agora quer desfazer. Sete. casado. Aproximando-se as bodas de ouro dos pais. no que toca aos rotos. resolvem estabelecer definitivamente residência no engenho de Águas Claras. o espetáculo daquela vida encanta e seduz Hortênsia. e muitos deles são devidos aos governos. De resto. ei-lo namorado. O campo é a estagnação. a um grande surto industrial. Uma porção de fatores têm concorrido para o êxodo das populações dos campos para as cidades. de uma hora para outra. e uma grande cidade. pouco depois de formado. Maria da Betânia. como a chamam os paulistas. especialmente os do Norte. Um verdadeiro milagre administrativo que só os nortistas conseguem realizar.

que o uso. admito que. que o Sr. e ele mesmo o sancionou.. dos seus muxoxos e dengues.Urupês. a falta de escrúpulos de toda a ordem dos nossos dirigentes de norte a sul do país . enquanto o personagem propriamente assanhou a crítica dos quatro pontos cardeais destas terras de Santa Cruz. ele é ainda por cima um administrador excelente. A. pelo menos de nome. Não há nele nenhum arroubo. Não está no seu primeiro ano. um editor avisado. um desastre irremediável. a expressão político-administrativa . sabia como ninguém aliar a uma atividade literária pouco comum. Sete não é um escritor nervoso. cujo pensamento. A criação principal de um dos seus contos.B.coisa rara entre nós. Monteiro Lobato conseguiu atrair para ela a atenção de todas as atividades intelectuais deste vasto país. um ativo diretor de uma revista sem igual no Brasil de hoje. logrou ver o seu nome conhecido no Brasil todo e as edições de sua obra se esgotarem umas sobre as outras. 10-9-1921. O Sr. já bem conhecida aqui. o famoso Jeca-Tatu.Brasil . . toda a festa por inteiro. está no quinto de sua útil existência . mas. que as coisas continuem no pé em que estão. aquele que dá o nome ao livro. Monteiro Lobato. Supondo por absurdo. A descrição da festa das bodas de ouro dos pais de Nestor é tão cheia de naturalidade. como prospera. dirigindo com sucesso uma revista sem igual na nossa terra. o criador de Jeca-Tatu. no narrar os mínimos detalhes das coisas domésticas. Não sofro da horrível mania da certeza. a vê de pronto diante dos olhos. mesmo a linda Maria da Betânia. e muita simpatia pelos lares felizes e ricos. como diz a canção patriótica. sem favor algum. fico a pensar que.por muito tempo não subsistirá. um espírito comercial. que. tudo é como em Águas Claras. de que falava Renan. em todas as bocas. no Rio de Janeiro. Tendo uma forte capacidade de trabalho propriamente literário. cuja execução é soberba. de singeleza. rápido. Dizia eu. ele excele na descrição das cenas familiares. mas há. em bem pouco tempo. fez Jeca-Tatu andar. com reservas. Ele é amoroso de moças. e fazê-la prosperar. Ela se publica na cidade de São Paulo e é a Revista do Brasil. dos seus atavios. não está no terceiro. uma grande fidelidade na reprodução do que observa. o Sr.Eis aí o entrecho do livro. nenhuma abertura para o Mistério da Vida e o Infinito do Universo.C. de graça. de modo que o lendo eu. no bom sentido. em contraposição. dos seus arrebiques. sejam quais forem as transformações políticas e sociais que o mundo venha a passar.tudo isto leva a prever para nossa organização política. qualquer que a leia. porém. Com uma clarividência difícil de se encontrar em brasileiro. os crimes. em Pernambuco. Publicando há dois ou três anos um volume de contos . de ontem e não sei se de amanhã. salte logo da cabeça para o papel. A OBRA DO CRIADOR DE JECA-TATU O criador de Jeca-Tatu é um caso muito curioso nas nossas letras. Por isso. as concussões. a inabilidade. o Sr. como já se disse sobre alguém. Lobato. tudo é feliz. e isto num lapso de tempo bem curto.

Ele viu a sua decadência. criação do cearense exul. Não me convence. A secura dos desertos da Ásia Central fez descer para as margens do mar Negro e outras paragens hordas e hordas. amaldiçoando aqueles bárbaros: "deixa estar"! O que o Sr. ele não tem a pretensão de encaixar no seu Jeca-Tatu.Negrinha . com ela. Deve-se lê-lo para bem perceber o pensamento geral que domina a produção do autor da Bucólica. e o Sr. ele relembra seu esplendor passado. Lobato viveu ou nasceu na região a que chamam "norte paulista". Isto está a ver-se nas suas Cidades Mortas. energia no trabalho. ao menos tipos de uma energia excepcional. de fato. nem coisa alguma. Trata-se de um preto. e mais filhos d'Aymon das gestas tupaicas. mas há. que tanto escandalizou o patriotismo indígena. é a sua simpatia. nem Reinaldos bororós. construindo obras ditadas pela própria iniciativa daquelas gentes. no seu charco desafiou. e. se não me falha a memória. se. Ao que me parece."O jardineiro Timóteo" . o Acre. talvez mais curioso que o famoso Urupês. no êxodo. De resto. alguma coisa mais. que se intitula. do Ceará. porquanto nele há. quando chegam as secas. do Paraná. Mandam destruir o jardim. Não acredito absolutamente nas miríficas virtudes dos sertanejos do norte. No seu último livro . mas não li a contradita do Sr. amores-perfeitos. que esses senhores se sangraram em saúde. Rolandos de Uruburetama. Timóteo não dá por isto e continua a plantar as suas flores humildes e modestas: esporinhas. porém. o seu Guaratinguetá. Li o Sr. nem o sertanejo. existissem. Essa energia. do nosso sertanejo . etc. Mané Chique-Chique."o caboclo" como se diz por eufemismo. como nunca tiveram os grandes mestres da literatura. e. especialmente os cearenses. flores-de-noiva. pois querem nele flores raras e caras: camélias. . o Sr. Os azares da fortuna dos seus proprietários determinam a venda da propriedade agrícola a pessoas da cidade. o Sr. Citam. encontram as populações desarmadas. muito de índio. crisântemos. quando menino. para aproveitar os bons anos de chuvas. de uma capacidade de trabalho extraordinária e não sei o que mais. e é a sua saudade. nem de outra parte do Brasil. mas o holandês. por isso ou por aquilo. senão esforçados "preux". Surgiram contraditores de toda a parte e os mais notáveis. que fez pintá-los como pintou. brincou lá com aqueles Jecas. Loiola. esta vai decaindo. o vale da parte de São Paulo do Paraíba do Sul. os antigos senhores e patrões.há um conto . livro seu. O humilde negro despede-se e deixa-se morrer na porteira da fazenda. Albano. foram o Sr. aos poucos.que denuncia bem esse seu feitio de sentir. Ele não tem pretensões simbolistas. que era jardineiro de uma fazenda daquelas regiões. Mas tal não se dá. Leônidas de Loiola. Certamente. essa tenacidade se faria constante. Monteiro Lobato não quis simbolizar em Jeca-Tatu. Creio. estão dispostos a fazer deles. Todos os nortistas.Quiseram ver nela o símbolo do nosso roceiro. de modo a captar as águas meteóricas e outras. com a sua tenacidade e diques. para os anos maus. Daí a celeuma. Monteiro Lobato vê e sente é o seu Taubaté. e os novos donos implicam com as "esporinhas”e "perpétuas" do Timóteo. em compensação. pois só epistolarmente conheço o autor do Urupês. não na emigração. crisandálias. é a sua mágoa por não vê-los prósperos. É ela que ele descreve com tanta ternura e emoção contida nos seus livros de ficção. Ildefonso Albano. sempre-vivas. Julgo que haveria tenacidade. daqueles que conheço e tenho notícia. o Timóteo. Tais pretensões são cabíveis nos transcendentes autores que ninguém lê. mas na constância em lutar com o flagelo climatérico que assola aquele Estado e os circunvizinhos. as fúrias do mar do Norte. palmas-de-santa-rita etc. então. de fato.

o fato de um certo colega seu. que se acha e que se vai além dela. Lomendo cambuquira. como quer Hegel. em tabuleiros ou cestos. transbordamentos de vocabulário e de imagens. não é desprezo. vendo tudo. que ele cita a cada passo. e lá. por aquelas priscas eras em que o general era estudante.que não sei verdadeiramente quem seja . Monteiro Lobato é um grande e nobre artista. todos os fatos. Monteiro Lobato nenhuma das exterioridades habituais dos escritores: pompa de forma. A natureza não o interessa e nenhum. torrada. Gazeta de Noticias. Vive a afamada gente paulistana E aquelas a que chamam caipira. a existência toda num plano só no plano da nossa integral miséria humana. relembra isso quando acaba a leitura dessa estranha. ou pouco. animada pela poesia da sua terra. em pleno teatro de gala. recitar.. discípulo de Montaigne. seja agreste ou risonha: mas é cheia de sadia verdade a sua literatura. O café ainda não tinha pulado do vale do Paraíba para o do Tietê. Não há no Sr. sem paixão pró ou contra. acompanhado de gargalhadas dos colegas. ainda apregoado à noitinha nos bairros pobres deste Rio de Janeiro. não é rancor. em uma espécie de preâmbulo. dá um grande realce à modéstia e pacatez daqueles tempos de São Paulo. que começava assim: Comendo içá. E. se a Arte. mas sempre brilhante obra. O livro.Toda a sua obra é simples e boa. o general Couto de Magalhães conta como causou um grande rôlo. seja ela pobre ou farta. sob o sugestivo título de Mme. A ostentação de hoje que este livro nos revela. O seu autor . Que parecem não ser da raça humana. A sua visualidade artística e literária. nossa mãe comum. que é a crônica ou romance ou as duas coisas juntas. todos os acontecimentos.Negrinha . pelas ruas. entendimento tem com as coisas mudas. Basta ler este conto . por ocasião de uma festa de 7 de Setembro. apesar da ironia e da troça. sendo guloseima apreciada como o nosso mindobi torrado. O que se evola de suas palavras não é ódio. um soneto satírico. inclusive a deliciosa . descobrir a sua entranhada afeição pelos que sofrem e pensam neste mundo. é piedade. também paulista. editadas pela Revista do Brasil. Içá é o que chamamos formiga tanajura. Quem leu a Viagem desse curioso tipo de brasileiro que foi o general Couto de Magalhães..com que intitula o seu último livro. original. é amor. para nos impregnarmos da sua alma compassiva. Pommery. se vendia. abrange um arco de horizonte muito mais amplo do que o do comum dos nossos escritores. ao que parece. quando ele era ainda estudante de direito. apesar da limitação do campo. sem piedade e sem ódio. MADAME POMMERY Na sua Viagem ao Araguaia. além de ser dedicado a várias sociedades sábias. por vezes desordenada.é um filósofo risonho. é a idéia que se procura. é tristeza de não ver o Jeca em condições melhores. 1 1-5-1921. É um clássico de alma. há um grande sonho íntimo de obter a harmonia entre todos os homens e destes com a Terra.

Fase B Cocotte engrena champanha. Tratou de escrever o relato da vida de Mme. justificar o seu asserto. cuja teoria geral convém pedir emprestada ao autor. Pommery. a 30$OOO a garrafa.. que. é a de Odin. a rua Paissandu. praxes. Consuelo fugiu com o lambe-feras de um convento de Córdova e foram dar nascimento à futura heroína da crônica. com grande cópia de considerações filosóficas sobre o valor da história.De Matrimônio . donde o autor tira essa comparação. citar Spencer. Resistência ao rolamento . se possível fosse. claro e forte."Eugência". Mme. Pommery em Santos. E a "Lecture". começou a funcionar. adequada a São Paulo e. é aquela em que se trata do Herói-Divindade. até o dia em que repontou na filha. sem nenhuma força a mais. A usina era uma espécie de convento ou colégio. por demais. noviça espanhola. pelo menos em estado latente. Hilário Tácito. champanha engrena coronel. Resultante: contração. foi suscitado pelo atual movimento nacionalista. com que chegou a este paradoxo de regulamentar os desregramentos de alto bordo por um sistema tão completo e tão adequado ao nosso caso. Hilário Tácito. nem de retoques. de fato.Coronel engrena cocotte. regras e etiquetas. Resultante: atração. o autor. chegou cheia da "centelha divina". Dessa "radiance" celestial de Mme. isto é.que. Pommery montou uma usina central produtora e transformadora. a descendente polaca do teólogo conjugal vem dar com o costado em Santos. com auxílio de um "coronel" camarada." Era uma espécie de Abbaye de Theléme. porém. "abbaye" ou coisa que o valha. não muito igual à de Pantagruel e muito menos à dos pândegos de Paris. como um pendor natural para tudo disciplinar no seu colégio à imitação das ordens monacais. A usina. havia muita coisa com que não se sonhava. no seio da nossa trevosa Humanidade. de Ivã do mesmo nome. Segui-la seria repetir o autor . Iniciava a sua missão heróica nas terras do Tietê. tal propósito e desembarcou logo Mme. afirma ele.. Após muitas aventuras. Abandonou. farto das vás histórias da marquesa de Santos e da Pompadour. tinham dado em droga. movimento retardado. nem de propósito. nem de emendas.30$OOO. as vãs histórias. teria grande sucesso nos colégios de adolescentes púberes. autor de um apreciado tratado . Podia. se fosse posto em vulgar. movimento giratório cerebral. descendente do famoso padre Sanchez. Resistência inicial . Kant e Pedro Lessa e o resto da ferragem de erudição que não se dispensa em conjunturas semelhantes. O autor mesmo diz: "E ficou. na mãe. Fase C . diz-se simplesmente fiel cronista dos feitos e proezas de Mme. domador de feras de profissão. A operação executa-se em três fases: Fase A . além de cocotte. onde ela empregava toda a foôrça e capacidade de disciplina e rigor monacais da sua ascendência. viu que entre elas. na Polônia ou adjacências.Cocotte engrena coronel. que nunca mais necessitou de aperfeiçoamentos. hereditário. Pommery. avelhantadas. embora moça ainda. Ela aí chegou como um herói de Carlyle. chamou-a "Au Paradis Retrouvé".o que não é possível. . coronel. gordunchuta. segundo regras de uma particular mecânica aplicada. Pommery vem logo uma grande transformação no opulento "mundo" do grande Estado cafeeiro. donde emitiu a sua irradiação e baniu daí a cerveja. para fazer arder os gravetos da sociedade paulista. à força de regimentos. ao Rio de Janeiro. porém. Ei-la num exemplo: "Trata-se de aliviar dito indivíduo (um coronel) dos seus 1 35$OOO por um processo automático mecânico. mas eu mostrarei em termos gerais como esse "a natural luminary shining by the gift of Heaven" a operou. se o quisesse desenvolver. e de Consuelo Sanchez.lOO$OOO. substituindo-a pela champanha. creio que jesuíta. mas que nela haviam ficado como um estigma. "née" Ida Pomerikowsky. champanha.

Vamos tomar uma "lambada". Bebe-se muita champanha em casa de Mme. Mme. Os gêneros que herdamos e que criamos estão a toda a hora a se entrelaçar. e. Nós não temos mais tempo nem o péssimo critério de fixar rígidos gêneros literários. Pommery. A Finança. um titulo de merecimento e remate indispensável de toda a educação aprimorada. segundo a fama. à moda de Flaubert ou mesmo de Balzac. o anfitrião levantou-se e convidou: . E." Diz Hilário Tácito que esse mecanismo é o mais perfeito que se possa imaginar. O livro do Sr. . em afinadora de maneira dos rapazes ricos. empolga e faz pensar. a Política recebiam o seu influxo e a ele obedeciam. de uma certa falta de coordenação. apesar da intemperança de citações. jogou na "centena" e ganhou. Num dado momento. num belo dia. Seria estulto querer encarar semelhante obra pelo modelo clássico de romance. dando até a certo e determinado um principado em Zanzibar. naturalmente sobre os paulistas. transformaram-na em educadora. à moda dos retóricos clássicos com as produções do seu tempo e anteriores. Mas devemos reconhecer que Mme." Assim. e. o Bar Municipal. pois. como na casa de Mme. sobre os daqui. pois. estou informado de gente limpa que ela influiu dadivosamente. não lhe sendo bastante isto. Cursar o "Paradis Retrouvé" ficou sendo. Bebe-se muita champanha em casa de Mme.Resistência final 100$000. Resultante: convulsão. Certo doudivanas "pronto". alcançou contudo um grau de superioridade superior ao de Ninon. além de favores que prestou a outros para escrever futuramente as suas magníficas obras. de falar de um modo geral de tão curioso livro. o Carnaval. exceto sobre os literatos. Vale sobretudo pela suculenta ironia de que está recheado. para variar e atrair. embora ainda pudesse dizer muito e ele o merece.. a Moda. sem ser tão bela. Pommery. por estes efeitos indiretos o prestígio de Mme.. em toda a comunhão brasileira.perguntou um dos outros que queria "morder". Beberam champanha. Encontrou uns amigos e convidou-os a beber.Então? .É que não se devem deixar os amigos velhos pelos novos.Nada.fez o "pagante". Hilário Tácito obedece a esse espírito e é esse o seu encanto máximo: tem de tudo. Pommery influiu sobre as várias e todas as partes da sociedade. a Valorização. . movimento ascensional acelerado. "A sociedade de Ninon de Lenclos gozou da mesma opinião favorável do seu século. indiretamente.Como? Não há mais dinheiro? . e eu me lembro de um caso de boêmia que um camarada me contou. que vai da simples malícia ao mais profundo "humour" em que assenta afinal o fundo de sua inspiração geral. . nem escreveu. Pommery transcendeu desmesuradamente. Pommery. por ocasião da assinatura do Tratado de Versalhes. . porque.Há. aproveita 130 em trabalho útil. a se enxertar. Realizando esta obra portentosa. Gazeta de Notícias. Pommery granjeou igual estima por meios muitíssimo mais práticos. É rico e sem modelo. Pommery rapidamente começou a influir nos destinos da sociedade paulista e. É tempo. e só se perdem cinco na gorjeta.. Mme. de 135 mil-réis de combustível. nada! . . 2-6-1920. como diz o autor: "Ora. porém. no conceito geral da gente fina. pois nem filosofou. ironia muito complexa. Não quero mais tratar dele..

embora extremamente abstrata. Albertina Berta . Clarence era casada com o rei dos telégrafos americanos. Neste seu último livro. o seu equilíbrio na vida universal: aventuras. a eloqüência torrencial e tumultuosa do seu escrever. de uns tempos a esta parte. lembrei-me do drama que a milhardária americana Clarence Mackay leu a Jules Huret. caracteriza o pensamento de D. Ele deu à burguesia rapace que nos governa uma filosofia que é a expressão de sua ação. etc. sonhos e angústias. D. O último livro da Sra. D. construiu um castelo de encantos. O que. Quando li o seu romance. que lá não são ou não eram monopólio do Estado. bastam estas palavras da autora. a tal Hélade. O drama da rainha dos cabos fazia apologia do amor livre. Ei-las: "Aos primeiros. Exaltou a brutalidade. lá embaixo. que são muitos. o vago e o impreciso de suas concepções. A autora há de me desculpar essa rudeza. Albertina Berta. a esses seres privilegiados. na leitura. Albertina. a autora do Exaltação com auxílio de leituras de poetas e filósofos. Ela não lhe adivinha os obscuros alicerces robustos. a rudeza". no seu excelente estudo sobre Nietzsche. desconhecendo do edifício da vida muitos dos seus vários andares de misérias. o próprio excesso. mas seria hipocrisia não lhe falar assim. Albertina é. ela (a tal moral dos Super-Homens) tudo permite para a sua existência. a ele e ao Esporte. de Maupassant. que é muito plástica. admitindo. e a do Nirvana. a inumanidade e. Não gosto de Nietzsche. artistas do pensamento e da ação. do "amor integral". rasas com o solo. sob sua pena."não" . Mme.. creio não ter o da hipocrisia. a Sra. apesar de todo o seu apêlo à Grécia. que se o pudesse fazer. mas suficientemente principal.Estudos . tanto mais curioso quando se trata de uma mulher brasileira. Dos meus vícios. pelo seu nascimento e educação. É possível admitir sujeito de tal moral digno do Paraíso ou do Nirvana? Não há quem hesite em dizer . incredulidades. Os termos não se prestam a que se estabeleça qualquer comparação. uma falta de nitidez. ela percebe as casas dos peões e homens d'armas. e só a flecha da igreja do burgo se ergue um pouco acima dele. a amoralidade. Aparece-nos como uma novela de grande dama. sobre o amor platônico. a duplicidade. quando ele andou em alta reportagem pelos Estados Unidos. falou tão mal da caridade e da . Eu me permitiria dizer-lhe se não temesse desagradar-lhe. para seu uso e gozo. muito ilustrada mesmo. como causadores do flagelo que vem sendo a guerra de 1914. senão de condição real. que se emaranham e se tecem inextrincavelmente. que sabem governar-se. os pajens e os guardas. se não uma certa difusão de idéias. desviar as reações. o constante borbotar de idéias. talvez. de clareza e coerência de idéias. sem ver os criados.. repouso. que.. a impiedade. lhe dão mais parentesco com os luxuriantes poetas hindus do que com os helenos cediços. têm aparecido entre nós. às naturezas plenas (os "Super-Homens"). explicando a moral do "Super-Homem". o romance Exaltação de D. D. de Daudet.A Sra. Nenhum outro homem. para mostrar o absurdo de tal coisa. movendo-se nele soberanamente. tenho por ele ojeriza pessoal. manejar as paixões em proveito próprio (tomem nota). Muito inteligente. o cinismo. linda e inteligente. compara o "Super-Homem" deste ao Nirvana búdico e ao Paraíso cristão. mesmo em tom de ironia.é talvez mais do que o seu romance de estréia demonstrativo da originalidade do seu temperamento e do seu curioso talento. nos surge cheio de um delicioso anacronismo. essa franqueza. Depois de Balzac.por menos que conheça a concepção do Paraíso. para quem a existência só tem o merecimento e mesmo é o seu principal fim o de terminar o amor de um casal. Acuso-o. entretanto. Albertina Berta é um dos mais perturbadores temperamentos literários que. Do alto do seu castelo. as aias.

chama S. São eles sem educação e sem gosto algum. D'Annunzio é um retrógrado. que parece não ter percebido essa influência nefasta do filósofo de que é admiradora. Não vejo por quê. de bom grado. Albertina.piedade. D. Até em Maupassant é bem sensível a influência de Tourgueneff. O Sr. essa alma extraordinária da epístola a Filemon. só podendo subsistir pela associação. possa prescindir de sentimentos que reforçam essa associação e a embelezam. devido à convivência em Bale com Burckhardt. que já estava em adiantado estado de putrefação. De novo. Spencer. pela piedade. só podia dar em resultado essa guerra brutal. à força. para César Bórgia. como sempre. pela bondade. sem escrúpulos. não é mais um grande sentimento de resgate e um anelo à perfeição. Admiro-me muito que pessoa tão inteligente. que continua ainda e não resolveu coisa alguma. em 1902. 35 do seu soberbo livro. Ele inspirou essa guerra monstruosa de 1914 e o esporte a executou. enfraquecendo a solidariedade entre os homens. Albertina. diz em alguma parte do seu livro que é cristã. que eu queria exprimi-las com mais serenidade. para ele. incestuoso. cuja cultura eu desejaria ter. ele .Cristo. o engenhoso descobridor do Bovarismo. Nietzsche. se depreende deles é um apelo à violência. Jules Gaultier. no seu último livro: Fatos e Comentários. até pelo amor que. com a crueza dos "condottieri". Entretanto. o que. pede piedade para ele. especialmente o Sr. à pág. o ignóbil César Bórgia. têm procurado extrair das elocubrações de Nitzsche um sistema de filosofia. cujo único propósito consistia em derrubar o Império Romano. O seu espírito nietzschista (vá lá!) levou a autora do Exaltação a exaltar o coronel Rapagneta ou Rapagneto. os seus ideais não são os dos nossos tempos. entretanto. quando Nietzsche. peço desculpas à ilustre autora. cruel. claro e harmônico. no seu Anti. mas este último é tão cheio de idéias e opiniões a ponto de sugerir outras idéias e outras opiniões. quando ele pregava a caridade e o amor com a sua palavra de fogo e o seu coração cheio de fé nos destinos da humanidade. em geral. D. da minha parte. do "make-money" seja como for. sobretudo o futebol. Paulo. talvez. previa esse papel retrógrado que o atletismo havia de representar no mundo. mais confusos do que ele. mas. O seu estudo sobre a "Evolução do Romance" é magistral. dos banqueiros e industriais que não trepidam em reduzir à miséria milhares de pessoas. Nietzsche. tornam-se. de 1914. o grande filósofo dizia muito bem que todo o espetáculo violento há de sugerir imagens violentas que determinarão sentimentos violentos. Condenando-os. possa fazer semelhante profissão de fé. um desprezo pelo refreamento moral. apesar de não se poder tirar dos seus livros um pensamento nítido. Creio que a autora do Estudos não desconhece a influência dele sobre a novela francesa dos anos próximos. para ganhar alguns milhões mais. a sua admiração se encaminhava para o pior. tinha uma grande admiração por essa espécie de gente. Não se compreende que a humanidade. Eu lha dou. mas não posso. Nietzsche é bem o filósofo do nosso tempo de burguesia rapinante. de dureza de coração. mas continuo. catecismo da burguesia dirigente. do nosso tempo de brutalidade. com a sua habitual falta de senso histórico. Os seus comentadores. combinando-se com uma massa habituada à luta ou a espetáculos de lutas. dessecando a simpatia humana. mas uma espécie de vinho de bacantes em festas dionisíacas. porém. certamente fratricida e. anarquista. não têm como estes o senso da beleza e da arte. cuja delicadeza da oferta de ambos os seus livros muito me tem desvanecido. estúpida. a engendrar guerras. embora lhe faltem referências ao romance russo. como já foi notado. no artigo "Regresso à Barbaria".

Escreve. me julgando rico. amaldiçoando e .. A Escravidão dos pequenos lavradores e Socialismo pátrio. surge a seus olhos uma verdadeira visão de divindade florestal. e muito poeticamente se passa nas Paineiras. responde. A cooperação é um Estado. se as tenho. por isso acodem-lhe maus pensamentos. se tem paixão. que é poeta. 26-10-1920. já pelo mistério do aparecimento. sabe bem qual é a armadura que nos pode proteger. artista e revolucionário. Há de me perdoar qualquer observação menos bem dita. é porque teme o inimigo mais poderoso que o vigia. um trecho de bosque à D. fez o mesmo diante de Carlos VIII. expeliram sobre mim o insulto soez. Vê-se uma parte do hotel. correu parelhas com a difamação promovida pelos perversos e o silêncio pretensioso dos falsos críticos. Não há nele nenhuma simpatia pelos homens. e a autora melhor do que eu sabe. rei de França. em tão perturbado momento. da volúpia e da crueldade. anunciado no trecho acima. se não faz execuções.. nesta cavalgata de sombras do abismo social. pois penso.sempre sonhou com um ducadozinho italiano da Idade Média. Duque de Fiume. é deveras interessante. em prol dos outros. do destino e sentido da nossa vida. José Saturnino de Brito já é digna de exame. sem que o artigo que se escreva sobre ele tome proporções que um jornal não comporta. o terrível. aqui ou ali. houve alguma aspereza. cujo desespero.. que são: Socialismo progressivo. é bem doloroso! O tormento do Sr. sentado a uma mesa. Esta última. O fundo de cena é todo neblina. com um machado medieval. além das peças: Amor. por entre a dentuça. O que eu quis fazer foi caracterizar o espírito da autora e se. A esse sonhador solitário. César Bórgia. Ser homem. Vem de não saber forrar-se de egoísmo. isto é. A musicalidade da língua italiana ilude muito.. a sua arte não é uma interrogação diante do angustioso mistério da nossa existência. a fim de que ele mesmo descreva o cenário: "Stélio se acha no terraço das Paineiras. tirado a algum museu italiano. que foi publicada há dois anos. é uma apologia do sangue. escreve e lê isto. Não me alargarei mais. Pensa nos homens. o pavilhão envidraçado à E. cujo saber admiro muito e não cesso de preconizar. em que ele pudesse dar expansão aos seus infrenes pendores para a volúpia e a crueldade. É Ema que adivinha o sonhador." Stélio. não tardará em transformar-se em desânimo. O melhor é darmos a palavra ao autor. A pirataria em paroxismo.. felizmente. e ei-lo a ceder à fatalidade do seu temperamento. naquele desconhecido. A OBRA DE UM IDEÓLOGO A obra do Sr. ela já conta cerca de Oito trabalhos. são muito opostas às da ilustrada autora do Exaltação. pregando. abrindo-se no meu caminho como cloacas humanas. Saturnino vem daí. foices de salafrários. vence! e Entre neblinas. Gazeta de Notícias. imprecando. e isso ela o é já pela beleza que há de por força ter (o que é sempre indispensável em deuses e deusas seja de que religião for).. Entre pequenos e maiores. ele encheu as prisões e. e pergunta-lhe o que faz. que. quando se tem opiniões sinceras. depois de escrito: "A hipocrisia dos que me acolheram entre lisonjas. é porque é um livro de idéias e as minhas. mas sabe também que é daquelas armaduras divinas ou infernais dos romanos de cavalaria que os gênios bons e maus davam aos seus protegidos mas que estes não sabiam forjá-las e nem qualquer outro mortal. por vários motivos. Estudos é um livro de fragmentos e livros desses não podem ser analisados. parte por parte.

enquanto dotado esplendidamente de outros dotes.A Cooperativa é um estado . Ama a metáfora e a alegoria. de ordená-los artisticamente. o aborrece. tão enamorado da natureza como é. como já disse alguém. por meio da educação racional das massas mourejantes e da propaganda geral contra os preconceitos e os abusos do bronco capitalismo. no seu ideal. não pode nunca esquecer a sua missão de sociólogo e apóstolo social. É só lê-los para o verificar. que é a sua última obra e a que intitulou Da Volúpia ao Ideal. e. Saturnino de Brito. e prega com força e eloqüência o seu credo. vibra e arde o ideal rubro. Saturnino fica prosaico e mostra-se logo o escritor que não pode falar em tom familiar e em coisas familiares.maldizendo. não ama as almas pelas almas. A sua obra é de profeta da Bíblia e ninguém como ele obedece ao clamor que a injustiça do nosso estado social provoca da indignação dos bons corações. O real. no teu gesto. Surpreendido em colóquio com a druideza.. Inunda tudo. aliado à política de rapina. não se deleita unicamente com o choque de umas nas outras. ao contrário.. a sua paixão não procura diques. em nome de um sonho que não toma corpo. e este é grande. porém. Nesta coletânea de contos. Tanto nas suas obras de ficção como nas de propaganda. Saturnino de Brito. o herói do Sr. e convencer os poderosos de que devem trabalhar. mas também é denúncia da sua qualidade superior de escritor: a sua sinceridade. Ele. que entrevê rapidamente e logo se esvai entre neblinas. as afirmações de sua obra . o autor do Socialismo Progressivo afirma completamente as tendências principais e superiores da sua atividade intelectual. Bendito seja tão nobre e desinteressado escritor! Ele vale pelo que vale o seu pensamento. e só me basta a honra de o ser sinceramente. para que essa esperança seja um fato. o Sr. tiveram também a sua influência entre nós. longe de ser a geena que é hoje.vêm diluídas nas suas novelas a todo o propósito. ao ancião. O mundo dele e das suas criaturas não é este. embora outros também o denunciem.. aqui. de imprecar. O Sr. como que se compraz em extravasar por todos os lados. O ardor do seu gênio não lhe permite que as suas produções tenham a serenidade de expor fatos. e é belo! . é um muito outro que se entrevê entre névoas. Saturnino de Brito têm sido dominados por esse pensamento que ele põe na boca do seu Stélio. não cessa de sonhar. segundo a filha. Continua a ser o apóstolo disfarçado no literato. No teu olhar. Os apóstolos da regeneração. O seu sonho grandioso de cooperativismo destinado a melhorar as condições de nossa vida. Será defeito. Querendo baixar até nós. delata poderosamente essa feição primordial do artista que. dá-se a conhecer pela seguinte forma arrebatada: "Mestre. ele quer contribuir um pouco para encher de esperança os que sofrem e não podem. e não tem o dom da ironia e da sátira. e o mundo. de modo que digam ao leitor mais do que dizem. o ideal do sangue que só palpita pela Liberdade culta nesse gelo da Sibéria social cm que farejam os lôbos monetários e vaidosos. "foi simplesmente o terror dos maus que dominam a Beócia". O autor se apaixona.. pelo pai desta. O seu conto "Ana". pertenço ao número dos teus mais veneradores discípulos. venha a ser uma festa perene." Todos os trabalhos do Sr. de exortar. é que ele vive e faz viver os seus personagens. declama e abandona-se à eloqüência. Aqui as feras que devoram as vítimas do trabalho fecundo são também inúmeras e de todos os matizes. que.

Ranulfo Prata venha a ser .O Triunfo. que resistia tenazmente. Ranulfo Prata teve a bondade e a gentileza de me oferecer um exemplar de seu livro de estréia .o que o Paiva fez muito bem quer estrangular o fidalgo. gravata preta e olhar romântico. pedindo que ele continue. de meninota da roça." Com tantas e superiores qualidades. penetrou audaciosamente no humilde lar do artista e quis forçá-la. de cabeleira. alucinado. tais são as promessas que ele encerra. "Quando o pano caiu a platéia aplaudia delirantemente. uma novela em que o autor revela grandes qualidades para o gênero. Prata é linda. que não o faça. Já possui a sobriedade de dizer. apesar do ouro oferecido. 5-2-1921. Eu o li com o interesse e o cuidado de todos os livros de moços que me caem nas mãos. e raivoso. Os protagonistas eram a mulher de um pintor. O pintor casualmente entra no momento. tudo isso são nugas sobre as quais não quero insistir. não podendo sufocar o seu desejo. O seu caráter amoldável. pois não quero que um só de talento me passe despercebido. O conde era um rapaz alto.B. O personagem principal . que ele se esforce mais. nunca encontrei uma moça que a tivesse. recebendo uma grande bofetada.C. que o encarnou muito bem. fácil. A minha experiência a esse respeito é infelizmente nula e não posso apresentar objeção de preço. e capaz de todas as dedicações. a naturalidade do diálogo e não limalha a frase estafadamenente. O Triunfo está cheio de cenas de costumes cativantes. de carmim nos lábios. Ele queria à viva força possuir a fresca mulher do pintor. É um romance. passa logo a "coquette" do Rio. O TRIUNFO O Sr.é estudado com toda a minúcia e exatidão. que o meu dever de escritor e justiceiro é animar o confrade. vertendo lágrimas de emoção. Compraz-se o Sr. Tais são as qualidades do livro. Uma noite. num teatrinho do interior. aprendiz de alfaiate. cheia de amantes. A mulher fiel pede-lhe. o último. . antes. O conde.o triunfador . a fim de tirar da nossa vida brasileira obras de arte dignas da imortalidade dos séculos. em atribuir às moças dessas cidadezinhas. a sua pintura de Anápolis sai muito viva e original. A Angelina do Sr. Ranulfo Prata no detalhar uma pequena cidade do interior da Bahia e. A rivalidade das bandas de música é uma delas e eu não posso deixar de transcrever aqui a descrição da representação de um drama. apesar desse gênero de estudo ser por demais comum. humilhado. Teimam todos os romancistas que tratam de tais cenas. beleza. é nitidamente examinado e explicado.A. "O papel de pintor coube ao Paiva. é de esperar que o Sr.. O drama encerrava um poderoso exemplo de moral. é bela e. de joelhos. mas duvido que seja assim. ali mesmo saca do revólver e suicida-se. o pintor e um conde. Ei-la: "Entrava o terceiro ato. Contudo. Algumas vezes que tenho visitado tais vilarejos.

creio. mostram que nós podíamos seguir no Ceará e proximidades esse mesmo rumo de audácia eficaz que tem dado tão bons resultados àqueles. conjuntamente com a fraca espessura do seu solo permeável. e é então que se desenrola toda aquela lancinante tragédia do Ceará e proximidades. menos do que um "tratado". despovoando uma grande região do Brasil. na Argélia. É aquilo que os antigos chamavam por esse nome.a edição. ele nos dará. com os nossos costumes de Assembléias e Câmaras Legislativas. de leste a este. A. Se nós temos tido não sei quantas centenas de mil contos para valorizar. isto é. o café. Os trabalhos dos ingleses no Egito. festivais de caridade. Não é bem o que nós. Dr. relativamente mínima. que de há muito deviam ter preocupado todos nós brasileiros. o jovem escritor corrigirá os defeitos e nós teremos um grande romancista digno das nossas letras e dos destinos da nossa língua. Todas as que têm aparecido já deviam ter nos ensinado que o caminho era outro e os trabalhos que lá se têm feito e não têm resultado palpável. e creio não haver a mínima exibição de sabença. dos americanos no Colorado. uma dissertação. deputado Ildefonso Albano mandou-nos a 2. uma profunda e sagaz visão da vida. merecidamente. chamamos discurso. para povoar ou encher de necessitados outras. um quadro muito vasto desse atroz problema das secas chamadas do Ceará. o Discours sur 1'histoire universelie. em todos os pontos do nosso território. Ambas essas obras são clássicas e conhecidas de todos. a quem aconselho abandonar toda a preocupação de elegâncias para só atender o que é propriamente de sua arte: a alma humana e os costumes. na sua distribuição de águas ou na correção da declividade de seus rios. Ildefonso Albano é. organizarmos bandos precatórios. dos franceses. por que não temos outro tanto para tornar fecunda uma grande região do país que é das mais férteis. a terra fica ressequida e os rios tão secos. de quando em quando. de Descartes. e o Discours sur la méthode. Tive com a leitura do seu livro o máximo prazer e espero que se repita em um segundo livro que. para que venha a sê-lo de fato? Devido à inclinação do seu solo. já nos deviam também ter ensinado que tais trabalhos.C. . O SECULAR PROBLEMA DO NORDESTE O Sr. deviam ter seguido outra orientação mais ampla e audaciosa. exigindo só uma correção. de norte a sul. de Bossuet. Com o tempo. oferecer terra e trabalho aos "retirantes". estou certo. para elucidar o que afirmo. mas que toca em todos os pontos do tema presente. 28-9-1918. talvez. quando elas aparecem. por serem mofinos e mesquinhos. mais ou menos mundanos. em breve. É desejo de quem escreve estas ligeiras notas e o faz ardente e sinceramente. Nós não podemos estar limitados a. pois. do seu excelente discurso sobre O Secular problema do nordeste..um grande romancista.B. quando a chuva é escassa. como já mandara a primeira. De forma que. Ildefonso Albano. quase anualmente. ao citá-las aqui. A obra do Sr. E eu me atrevo a lembrar. o Ceará vê o seu subsolo pouco infiltrado e os seus rios correrem somente três ou quatro meses no ano. sobram-lhe outras qualidades de escritor que suprem aquela falta. Se ainda lhe falta. como explica o Sr.

." Mais outro: O vigário de Ipueiras. Muitos estão quase completamente nus. Ildefonso Albano. para produzir o melhor algodão do mundo. de modo que nunca se pode prever quando é o ano de chuvas escassas e o ano de chuvas abundantes. Ildefonso Albano mais outros depoimentos simples e tocantes do que é uma seca. Sendo assim. resolvi socorrê-las e empregar o resto do dinheiro em sementes. Registro. em data de 26 de agosto de 1915. esse horrível espetáculo. onde fundou uma povoação com o nome de Nova Lisboa. de Lima Ferreira. ainda uma vez. depois de lhe arrebatar os inocentes filhinhos. marchou até o Jaguaribe. cai-lhe outra em cima. que o Sr. lista longa e interminável. mas em todas as partes que eles forem precisos. voltou ao Jaguaribe. "Daí para cá se têm sucedido com cruel periodicidade os tétricos fenômenos. hoje. Teimoso que é de continuar a mostrar nos seus constantes renascimentos que é capaz das maiores possibilidades. Como isto aqui é uma simples notícia de vulgarização de um trabalho que precisa ser divulgado e não uma crítica que não tenho competência nem estudos especiais para fazer. com Diogo Campos Moreno. para comover o coração dos mais duros. Pêro Coelho de Sousa." Eu poderia tirar do livro do Dr. É preciso que façamos cessar. ele continua a pedir sábios trabalhos hidráulicos.Como em geral nos fenômenos meteorológicos não se pode determinar o seu período de sucessão. de transcrever algumas cartas e outros documentos particulares. sem que o seja em prazo de tempo regular. agradecendo a remessa de 300$. os habitantes daquelas flageladas regiões são tomados de surpresa. Albano queria fossem reproduzidas. Desde essa primeira notícia. padre J. É preciso que eles se façam. escrevia: "Os famintos aqui se acham em extrema miséria. "Rezam as crônicas antigas que em 1603. por meio da ciência. que expulsaram do Ceará o primeiro civilizado. que este pequeno escrito tem unicamente por escopo chamar para ela toda a atenção dos brasileiros. Por falta de provimento e socorro. 80 brancos e 800 índios. apesar das nossas pretensões de termos decifrado a natureza. foi até a serra de Buapava e teve grandes recontros com os tabajaras de Mel Redondo. como é dos nossos costumes. mas com largueza qualquer e audácia. se veio deixando tudo miseramente a pé com sua mulher e filhos pequenos. cujos nomes encimam a lista fúnebre das vítimas da seca. que esse vale do Jaguaribe. De volta para Pernambuco. acusa a recepçao de 400$ e diz: "Como é grande a necessidade do povo. Em data de 16 de fevereiro de 1916 o padre Raimundo Bezerra. como literais. e deu-lhe Deus grandes vitórias. na impossibilidade de também reproduzir as gravuras que um amigo do Dr. todos nós brasileiros. tanto de engenheiros. que ainda está por encerrar. tem sido assolado pelas secas e mal convalesce de uma. encontrando-se pessoas caídas de fome. como de outra profissão. parte dos quais pereceram de fome. Tomo a citação do Sr. vigário de Jaguaribe-mirim. não timidamente. mas os que aí vão já bastam para que todos procurem na sua obra uma imagem bem viva do que ela é. Ildefonso Albano ilustra com os mais dolorosos documentos tanto iconográficos. Ipueiras sempre foi um município pobre. O povo não pode mais resistir e nesses dias morrerão muitos de fome. não só aí. homem nobre. não me furto ao dever. onde no Siará ajuntou a si todos aqueles índios moradores. demais acha-se alojada aqui uma grande porção de emigrantes de outras freguesias. morador na Praiva (?) do Estado do Brasil. como já no começo do século XVII foram também os primeiros conquistadores do Ceará.

Eu fiz aqui o que pude. Bifteck-Paff. Júlia Lopes . Para isso toda a propaganda é pouca. ANITA E PLOMARK AVENTUREIROS No ano passado. a quem desde menino. O meu bom amigo era o Emílio Alvim. Oliveira Lima e. como secretário. um novo livro seu.é como um laço moral e esse laço não nos pode permitir que deixemos à míngua. grandes obras para que elas cessem ou sejam atenuadas antes que aquilo lá fique um Saara. também. Todas chegam aos jornais por oferecimento dos editores e autores. porém. mal lhe conhecendo a feição literária. tanto no que toca às almas. em geral do Ministério da Agricultura. por uma crônica de Patrocínio. de gente que perdeu a alma ou nunca teve uma. passando tempos em casa de um amigo. à Willy. desde a Revista Brasileira. Nada de paliativos. tive ocasião de ler pela primeira vez um livro de Teo Filho. Quem vive neles pode logo imaginar em que consistem elas. de obras de autores gabadas.C. mas. são menos cínicos. de "plaquetes" de versos ou de discursos laudatórios. Agora.aventureiros. dos dois outros. Teo. do Sr. dizia eu. enfim. ninguém as lê ou procura. me habituei a ler com interesse e carinho. É o Anita e Plomark . Dos três. de épocas em épocas. sem oásis.Teo me surpreendeu. Alvim tinha além de exemplares das edições dos Srs. Perdôo os criminosos declarados.B. do saudoso José Veríssimo. tenho em mãos. que fica distante oito quilômetros daquela pequena cidade do sul de Minas. uma pintura da vida pernambucana com todos os aspectos de fidelidade. de patifes de toda a sorte e origem. em que me surgiu como um aprendiz de Casanova . Constam de publicações oficiais. obras de Sr. a . Confesso que a leitura deste não me deixou tão forte impressão quanto a do outro.Pátria . uma espécie de Sieyès. só conhecia bem o Sr. 21-9-1918.. Achei o seu romance raro. milhares de patrícios a morrer miseravelmente.tinha.. mas que. que havia sido durante anos secretário de jornais de péssima fortuna. estando eu nos arredores de Ouro Fino. O par de aventureiros agita-se em um meio de "rastas" parvos. que deve ser um autor extraordináriamente novo. em geral. A. Oliveira Lima. vivo. mas que me é visceralmente antipática. e acabo de ler. à espera de uma nova revolução francesa com os seus desdobramentos inevitáveis. Não posso compreender nem perdoar semelhantes vagabundos de caso pensado. como no que se refere ao ambiente em que elas se moviam. inclusive aquele famoso tratado de agricultura da Sra. um romance do nosso Teo Filho . Robert de Bedarieux. muito natural. O Sr. Rodolfo de Miranda e Toledo. formando uma corja que pode ser "sui-generis". Alberto Torres me pareceu um fabricante de constituições. Alberto Torres. e.Correio da Roça .Todos nós nos devemos interessar por esse problema e de interessa todos nós.. escrito de colaboração com o Sr. empregado na colônia federal Inconfidentes. nada havia lido em livro. de quem eu tinha lido um artigo de jornal ou outro. Se se pode compreender . Li-os lá. tinha organizado uma econômica biblioteca característica dos secretários de jornal. e tudo isto sem pedantismo de frase ou exibições de uma sabedoria de empréstimo.Mme. perfumado de graça.

Não gosto dos disfarces. do aproveitamento dessa sagrada marca do destino.vida desses inúteis sem desculpa alguma.o que é coisa bastante impertinente. O assassínio que ela pratica tem tanto de útil quanto de estupidamente executado. isto é. meu caro. é de uma estupidez assombrosa e sem nenhum traço superior de coração ou inteligência. talvez. mas de uma inata maldade aliada a uma perfeita incompreensão das altas coisas da natureza e da humanidade. das falsificações e. por Anitas e outras. um aspecto que o torna notável e muito me interessou. sem uma mania. Não será tanto assim. auxílios às usinas de açúcar" e outros sutis expedientes honestos da gente progressista de São Paulo. dir-me-á Teo. ensopada de poesia. É da camada delas. uma hetaira "onesta". Ao contrário. como em geral. mas as mulheres? Que procurem tais homens. A prostituta só é digna da piedade e respeito dos homens de coração. Anita. dirão. e as raparigas do prazer se recrutam. mas o luxo e a riqueza. quando verdadeiros e francos. sem uma paixão.. mais ou menos. Para os machos como tais. sem nada de sério na cabeça. e talvez o próprio autor não tenha percebido. estudam de preferência o órgão doente para lhe descobrir a função em estado normal. sem se intimidarem diante do mistério da vida e sem uma ingenuidade sequer. "convênios. e olha. vi que aí seria discutir o livro no meu ponto de vista . sem necessidade de tal. E depois deste primeiro amante. São espíritos perversos demais e o cansaço da vida não lhes vem do trabalho próprio. em geral. quando é fatal e nua. valorizações. e a desgraça só merece compaixão quando é total. em bloco. Anita faz isto. É como ele mostra o mecanismo espiritual . Não. pois. são eles muito fáceis. A "Nouvelle" seria menos gentil. o "gato de nove caudas" ou a roda das penitenciárias. Geralmente. senão idiota. Há. Tenho que aceitá-lo tal qual é. seguem-se outros equivalentes. nada perde com isto. nós poderíamos muito bem estabelecer o funcionamento normal da mentalidade feminina na nossa sociedade. das intrujices. o primeiro amante não é o velho rico da lenda. com certo desinteresse natural e. É verdade que a riqueza e o luxo tentam. Os fisiologistas às vezes. que Teo parece querer exaltar. a não ser por defeito orgânico. ela mata e rouba. por exemplo. não é mesmo o que os venezianos da Renascença chamavam. e e "sorte grande" o amásio rico e gastador constante. homens medíocres sabem sacar de oportunidades. Não é assim a heroína do romance de Teo Filho. desses estéreis de todos os modos. são acidentes na carreira das hetairas. as mulheres públicas da nossa sociedade burguesa. A prostituição na mulher é a expressão de sua maior desgraça. a cortesã eivada de arte. Creio que foi Maxime du Camp quem demonstrou isto em um estudo sobre a prostituição em Paris. Há mesmo quem diga que. a mulher só se prostitui por estupidez. quando ela o é em toda a força do seu deplorável estado. Não é pois admirável que uma inteligência lúcida espere retirar de tão degradante estado as fortunas que. dos seus recursos.. para as fêmeas como essa Anita. nem dos seus ancestrais. sobretudo. para elas. mas há muitos estados intermediários entre a senhora de família e a meretriz. com tanto respeito. uma tal e qual generosidade espontânea. nas modestas classes. quando ela sabe com resignação e sofrimento arcar declaradamente com a sua tristíssima condição. para vencer certas dificuldades. no novo romance de Teo Filho. defesas. Mas. estados que as mais atiladas aproveitam muitas vezes para sair da prostituição declarada. Os homens têm tais recursos. para ludibriar os outros. só lhes desejo a guilhotina.

sente o vazio ao redor dela e tem medo desse vácuo moral. Tudo nela é mistério. para torná-lo digno de atenção.. Nesse tempo. mas grandiosa e impressionadora. por mais que ela possua força de amor em uma delas. Ah! Essa solidão. Anita e Plomarck. surge-me deliciosamente como uma grande alma. um livro: e basta isto. de fato. interrogação. essa abdicação da vontade da mulher. Só lhe resta o cáften. que não atinamos para que roubam. ELOGIO DO AMIGO Não sei como possa dizer bem da atividade literária de Nestor Vítor. Nestor era vice-diretor do Internato. desde que o afeiçoado saiba quem ela é. mas as araucárias são de uma tristeza impassível e sem . mas. Comecei a ler-lhe as obras. e a aceita como ela é. Correm os tempos e aquele homem que me parecia seco. em que não entra a mínima violência. dogmático. filho.C. a análise é sagaz no livro de Teotônio. Há nelas alguma coisa daquela secura que lhe notei em menino. e as que vai obtendo aqui e ali. desenrolando-se quase todo nas paisagens delambidas e ajeitadas. esse ascendente. a única alma que se interessa. e. por ela. são araucárias. perdida. É. já meio-criminosa. "ad usum Delphini". Descrevendo esse meio de "parvenus" e "toquées".pelo qual se dá esse estranho fenômeno do caftinismo. É ele o seu único apoio moral. pois há quem diga que ele é tão geral entre judeus. o livro é notável como análise de um dos mais curiosos fenômenos da psicologia mórbida dos nossos tempos. Não há árvore mais monótona e mais fácil de explorar do que ela. amante ou mesmo cáften. ao que parece. Não afirmo que seja peculiar à época atual. de damas "chics" e gatunos de alto coturno. toda inteira. onde uma mulher. Teotônio analisa muito bem como uma mesquinha alma de mulher. retratando a estupidez de recentes ricos. na vida. creio eu. sem indagação. é Plomarck. pai.. na de um homem. esse domínio de corpo e alma do rufião sobre a meretriz. seja ele marido.é um livro singular e curioso por todos os aspectos que se o encare. quando fazia preparatórios no Ginásio Nacional. não pode existir sem o apoio de um homem qualquer. dos seus antecedentes. abandonada no vício.. Nestor é uma floresta do Paraná. Eu o conheci menino. quase sempre unicamente determinado por laços psicológicos. de todos os países e côres. Ele não é efusivo e revolto. A nossa floresta tropical ou subtropical é triste.. e sempre araucárias. capaz de dedicações e sacrifícios. irmão. Não tem entrelaçamentos dos nossos cipós nem as surpresas de variedades de essências que a nossa mata tropical ou subtropical oferece.. e eu não gostava dele. Ela o ama? A bem dizer. com dados atuais. evidenciando o sáfaro de todos eles . espiritual e sentimental. Estranha Cavalaria. aventureiros . Não terá mais afeições. 16-2-1918. pelo simples motivo de que o Velho Testamento está recheado de exemplos de alguma coisa análoga e são conhecidos de nós todos. seja como for. mas precisa dele no mundo. No caso.a novela nos prende pela estranheza do assunto. pululamento de vida. da Côrte D'Azur. cheio de sentenças. só são mantidas graças à ignorância do seu verdadeiro estado. e sempre pela vivacidade dos matizes que o autor emprega nas breves e firmes descrições de que está cheio. não. está certa que o resfriamento virá. Sob este aspecto.B. As árvores de sua floresta são quase sempre de uma mesma espécie. são como as do Paraná. A.

pelos afluentes e confluentes destes dois grandes rios. Segundo Guyau e pelas suas intenções. li-o. como um pinho do Paraná. chegam ao auge. repito. a sua força de amar o camarada. Li este seu livro. como se neste país todos nós não fôssemos mais ou menos pretos e todos nós não fizéssemos versos. ditava leis. Nunca amei. ameias. ou raramente. Isolada na sua vastidão. ao alcance do primeiro chamado. a não ser a amizade de Sílvio Romero por Tobias Barreto.. na vertente oposta. dos quatro pontos cardeais do sertão do Brasil passam pelas proximidades e. pelo vale do Paraná. Esse tipo curioso da nossa antiga propriedade agrícola. já não contando com ciganos e índios mansos. UM ROMANCE SOCIOLÓGICO A fazenda "Boa Esperança" está situada no vale do rio Grande. e foi excomungado por ser preto e fazer versos. A "casa grande" não o possui como o tinha o castelo antigo. É mais completa que muitas outras que não fornecem o pano. mediante boa paga. vizinhos. que a todos descreve e analisa soberbamente. homens d'armas. eu aprecio Nestor. pelo de São Francisco. o São Francisco. no romance do Sr. a grande propriedade agrícola sofre o influxo e a influência de gentes do sul do Brasil. 5-8-1922. quando ele revela as modalidades naturais do seu temperamento. a querer atingir um outro que lhe fica bem distante. graças ao atrativo do contraste. em que Nestor tão bem retrata o seu íntimo de amigo. classificarei de sociológica a sua interessante novela. Veiga Miranda. É por isso que gostei muito do livro que o meu amigo Nestor Vítor me ofereceu e que me deu extraordinária satisfação intelectual. Neste Elogio do Amigo mais do que em nenhuma obra. exceto o sal. boiadeiros. e mesmo a nossa capangada só aparece no latifúndio quando as rixas entre senhores de fazenda. Não há na literatura brasileira. mas sempre tive amigos. a fazenda era como um feudo em que o seu dono governava. tropeiros e vagabundos. daquele rio Grande que. com as suas escassas ramagens. outro exemplo de tão forte amizade literária que esta de Nestor por Cruz e Sousa. Não se fixa. pinta-o e descreve-o o autor com minúcia e carinho. em que nasce tanto aquele rio. Colocada nesse vale e nas divisas de Minas e S. Falta-lhe também o aspecto militar do feudo antigo. A. nos transes mais dolorosos da minha vida. eu vejo Nestor meditativo. Paulo. Nestor é bem um amigo dessa forma. só não cunhava moeda para vir a ser um verdadeiro príncipe soberano. das de Goiás e Mato-Grosso. por ela mesmo. assim como. a seu talante. cheio de embevecimento e entusiasmo. A "Boa Esperança" é um perfeito tipo de fazenda: e ela fornece aos proprietários. Não há barbacãs. que é a fazenda.B. Essa espécie de "bravi" está sempre à mão. Entretanto. para ter uma completa semelhança com o senhorio medieval. agregados e escravos todo o necessário à vida. nas suas obras. solitário. pontes levadiças. nunca tive amor. próxima à serra da Canastra.eloqüência. fossos. do norte. forma o grande Paraná. Carreiros. distribuía justiça. porque ele o soube ser de um pobre preto que teve audácia de fazer versos. recebendo o Paranaíba. como. Mau Olhado.C. mas que a do alferes .

diz Darwin. Lá. Veiga Miranda. atmosfera essa em que morre de amor por este a interessante Maria Isolina. as duas orelhas ainda sangrentas. Veiga Miranda. inacabado. que o Sr. em torno do mundo. fazem-lhe falta e como deixam o estudo desse elemento da fixação da nossa população rural. explicaria melhor aquela atmosfera de crendice e abusão que desde o começo cerca os personagens do drama. Vejam só este trecho que trata do empalhamento de rapaduras: "Ao longo da mesa. Não me lembro de autor moderno nosso que seja tão cuidadoso nesse ponto como o autor do Mau Olhado. não deixou de vê-los e senti-los. as das indústrias agrícolas próprias à fazenda. mas. os antebraços das mulheres agitavam-se. a destemida virgem selvagem que se entregara por um ímpeto carnal ao mais valente tropeiro do sertão. no mais. porém. propriedade do Sr. sociológicas. seria melhor dizer. "Beagle". cardada e tecida. E. Não só os personagens principais e secundários. dando os nós fortes.. por intermédio da lã. A impressão que se tem é magnífica. de mangas arregaçadas. ao jeito artístico da alma do escravo. não faltou nenhuma pincelada para o seu bom acabamento. A justificativa que não havia nela. o Sr. sagaz e ilustrado. não devia ter esquecido esse ponto que o tema do seu romance como que torna primordial e requeria ser estudado à luz das modernas correntes de pensamento superior. No seu livro em que narra a viagem que fez. de dizer quanto ao que não foi feito no seu livro. a vida da senzala.. à minha vontade. o objeto do livro. não escapou o fenômeno social da nossa escravatura e o Sr. Nessa parte a obra é de uma rara virtuosidade de execução que às vezes peca pela exuberância do detalhe. envolvendo as rapaduras. pelo Sr. É o escravo. etc. creio eu. filho de fazendeiro) à sua direita e à esquerda. O eito. bem depressa ouvi elevar-se nos ares o hino que cantam em coro os negros no momento de começar o trabalho. castigos. se traem no propósito e no desenvolvimento de sua novela. a descrição de sua vida total. que é inegavelmente um escritor moderno. protestando tragicamente contra a sua infecundidade imposta e criada pelas regrinhas da sociedade. matando-o pouco depois. compete-nos falar do que o foi. Darwin que visitou uma. nesta passagem e em algumas outras.. alguma coisa deliciosa na sua vida patriarcal. Veiga Miranda. não podia existir sem o escravo que ela supõe. e trazendo para a casa. Nada temos. É a fazenda. cujas vistas sociais. alude a eles. se bem que ligeiramente. Ele as acaba e as arredonda suavemente. pondo de parte a idéia de escravatura. A antiga propriedade agrícola de um tipo geral. mas as cenas domésticas. conta o autor da Origem das Espécies: "Uma madrugada fui passear uma hora antes de sair o sol para admirar. Mais adiante. o banzo. o leitor menos comum procura alguma coisa que lhe falta. O padre ficou entre a madrasta (Maria Isolina) e a Placidina. À grande tela em que o autor trabalhou com ciência e vigor. à . a bordo da corveta. algumas décadas antes da ereção daquela que é o cenário do Mau Olhado. nos arredores do Rio de Janeiro. O jovem e talentoso autor paulista só se ocupa dele na cena do batuque e. tinha. Veiga Miranda não se limita a esboçá-las rapidamente. o solene silêncio da paisagem. só se compra o sal. Manuel Figueiredo. à sua frente (do padre Olívio. como as abelhas rainhas. tão profundamente nela se está separado e independente do resto do mundo. A fazenda do "Sossêgo". enlaçando as embiras. mas. ele. A boa compreensão.Malaquias. e por sê-lo. acabada a leitura da excelente obra do Sr. nome ou alcunhas interessantes. ergue o feiticeiro Lelé às culminâncias de guia de multidão e aniquila o padre Olívio. deixa-o como simples. dos seus grandes rebanhos de ovinos. não me parece valiosa. filha do Laurindo Bravo." Ao grande naturalista inglês. dá. dentro do seio. na fazenda. Veiga Miranda tratou. ali pelas bandas de Maricá.

Nessa mesma passagem do empacotamento de rapaduras. pelo defeito de uma palha. com intermitências. servido primeiro aos dois compadres e a Lelé (que andava agora nas boas graças de ambos. O autor. aproveitando-se de epidemias e desgraças climatéricas. Veiga Miranda põe todo o seu talento de observação e de psicólogo dos indivíduos e das multidões para o estudo e a ação desse personagem. o alferes Malaquias. sem motivo nem causa. depois que os convencera de que salvara Maria Isolina). letrado a seu modo. uma medicina de pajé. rezas e exorcismos. Olívio. mais velha do fazendeiro) não tomava parte na tarefa noturna. para vingar-se do padre e realizar a sua estulta e bronca ambição de pontificar como um bispo autêntico na capela branca da fazenda "Boa Esperança". cercado cada vez de maior consideração." Maria Isolina. com muito relevo e habilidade. com a sua terapêutica de ervas silvestres. apossa-se de Isolina uma raiva súbita que a leva a expulsar. a moça alquebrantada se apaixonara secretamente por ele. tímido e triste. ladeando como sempre a figura alegre de Ismênia. puxando muito aos do pai. Feiticeiro e sacristão. travessas e peneiras cheias de pipocas. do seminário de Mariana. ajudando-a até a enlaçar com elas os molhos já formados. E daí a pouco mandava colocar sobre a mesa. sardento. com o seu rosto comprido. . Fui aprender a amar bem cedo. onde vai freqüentemente para arranjar o desimpedimento de matrimônios entre parentes próximos. gradua esse sentimento da sinhá dona da "Boa Esperança" e o marca por gestos e palavras muito expressivos. por uma demora. feio e cheio de espinhas. de fato. por uns alheamentos esquisitos. Uma quadrinha que há no romance. os olhos brilhantes. uma a uma. Ele percorre o livro todo e é como que a alma da obra. Maria Isolina repreendia-o de quando em quando. a pobre agregada. num pouso de caminho. e o nariz acarneirado. desembaraçava as embiras. se deixava apoderar. transforma a todos em fanáticos obedientes ao seu mando. tenta dizer o indefinido mal dessa parada de sentimento: Sina do meu coração. "Iaiá. (a filha. em vários pontos. receando que o contato das outras a arrepiasse.sua frente. se tomara de uma invencível repugnância pelo marido e viera a adoecer duradoura e inexplicavelmente depois do primeiro e único parto mal sucedido. que saíra padre. Mandava logo ao começo uma bandeja de café. "Olívio adestrou-se em pouco tempo no mister que lhe designaram. "Olívio. E guardar a vida inteira Esse amor como um segredo. depois do primeiro contato matrimonial. um todo de traços meio masculinos. emprega o seu ascendente sobre o povo e também sobre os senhores de fazenda em cujo espírito o seu prestígio se tinha infiltrado. falando-lhe com vivacidade infantil. Leonor e Gabriela. parecendo mais largos sob a luz forte do lampião belga. ficavam as duas primas mais velhas. Um tanto crente e um tanto impostor. etc. as crenças superiores da Igreja Católica com as primitivas do animismo fetichista dos negros e índios. Escolhia para a madrasta as palhas mais macias. e depois transitado ao longo da mesa pelas empalhadeiras. com cuidado. mistura e combina. A figura central e mais original do romance é o Lelé. etc. ao descobrir que o padre estava fornecendo embiras a Placidina. Continuava a caber-lhe a mordomia da casa. a madrasta. do serão. O Sr. esse Lelé confunde. desempenhada ainda com grande exibição de atividade e meticulosos zelos. brincalhona. Após a chegada do enteado. rábula de câmaras eclesiásticas. Alia a isso. violento e animal. que casara muito moça com o fazendeiro. cozimentos. É médico e sacerdote..

acaba de imprimir e publicar. se não inteligência e capacidade.. termos. por muitas razões. o Distrito Federal.. e há outras causas que agora me escapam. Um trabalho desses. agora que queremos organizar pequenas pátrias. Veiga Miranda e do seu belo livro. lugar -tenente de Malaquias. entretanto. o pequeno defeito de esquecer que nem o Império e. 241: "Pairavam (os corvos) primeiro no alto. ambos os governos. Analisar o livro. quanto aqui. a filha mais moça do fazendeiro. Lê-lo será melhor para travar conhecimento com um autor nacional que. Podem objetar que. que revela esforço e paciência. que. Não há tal. sobretudo a Borginha. pág. podiam alterá-las quando quisessem. Até logo! Revista Contemporânea. filhas e noras. quase imperceptíveis. o Município Neutro. às qualidades exigidas a um simples romancista. O seu trabalho. quando a Regência criou. neles prepostos. sofre do mesmo erro de visão que os demais referentes a tais questões. como argumento decisivo da validade de tal ou qual linha divisória entre as antigas províncias. muito menos. sem lhe fazer uma crítica de mestre-escola. Noronha Santos. À vontade para falar dessas questões de limites estaduais. quando dividiram e subdividiram o Brasil. o governo colonial. são todos bem característicos e as concepções familiares e domésticas do Zamundo Bravo. são documentos preciosos para o estudo dos nossos costumes do interior. por meio de delegados seus. avisos e outros atos administrativos. para mim e para os leitores.. por ordem e conta da respectiva Prefeitura. fastidioso e fatigante. E. Era o . há cerca de cem anos. decretos. por falar nisto. traquinas e desenvolta. Diz o autor. porquanto sou carioca.Os personagens secundários. uma outra é que a topografia do interior brasileiro devia ser mal conhecida. Todos eles querem ir buscar. tinham em mira. baralhada de denominações e corruptelas de denominações tupaicas. 26-4-1919. Riamo-nos um pouco como bons camaradas que somos. não militam tais causas. A precisão era-lhes então absolutamente indiferente.. capitanias. uma excelente memória sobre os limites desta leal e heróica "urbs" com o Estado do Rio. não nos despedimos do Sr. que cada um pronunciava a seu modo." Será mesmo espiral?. detalhe por detalhe. a propósito de sua curiosa obra. aproveito a ocasião para o fazer de um modo geral.. Uma delas é que eles. tem. segundo a terminologia republicana. criar nele nacionalidades. permitissem ser mais bem dirigidas estas terras. e de seus filhos. seria. em 1833. comarcas. O Amazonas e o Paraná nasceram ontem. que é exaustivo e minucioso. Nós podemos bem imaginar o que era tudo isto. até o ponto do banquete. e iam baixando numa espiral invertida. O seu fito era outro: era obter províncias. diretor do Arquivo Municipal desta cidade. milhares. os documentos oficiais. portarias.. alia as de um psicólogo da nossa curiosa "multidão" roceira e as de um sociólogo que veio a sê-lo passando pela geometria. para dar a tais documentos um valor muito relativo e sem valor para nós outros. a começar pelos de lá. Não se trata de linhas rígidas e imobilizadas no tempo. põem a máxima pureza e moralidade. LIMITES E PROTOCOLO O Sr. onde todos.

Deviam ser resolvidas por amigável acordo. é maravilhosa. E é pena.B. simbolizava uma em Débora . Chama-se Rogério e é um drama em três atos. . embora me parecesse ela não possuir uma certa fluidez.Estas questões não têm. com os respectivos cortejos de sentimentos derivados. elas só têm por fim justificar ao meu ilustre amigo. . como estando sendo efetuados na Província do Rio de Janeiro e no Município do Iguaçu. da protagonista. a ponto de atingir as minhas próprias algibeiras. como nas outras partes do Brasil. no Arquivo Municipal. já haviam sido fixados no ano anterior.a outra.julgando-se rei e coroando-se com uma caixa de papelão. O autor não esconde a sua antipatia pelos revolucionários não só russos.Rogério . o autor. quando publicada. em Malvina. originado pelo choque e luta entre a violência e a brandura. As que não se adquirem são as que ele têm: poder de imaginar. para mim. porquanto. onde e por que influíram os índios e as suas denominações locais. A cena final da loucura do terrível revolucionário . sendo que uma destas. que. Admirei muito a peça. Isto ele o faz com o pensamento geral da peça. é que semelhantes trabalhos.A Cisma . há dias: . entretanto. O Sr. das quais três consideráveis. em crônica literária. senão uma importância mínima. aludindo a obras do canal da Pavuna relatou-as à Assembléia Geral do Império. mas que me chega da atualmente benfazeja Paraíba. as palavras que lhe disse. podiam ser mais bem empregados para um mais perfeito conhecimento da fisionomia do nosso povoamento. O que me parece. *** Temo muito transformar esta minha colaboração no A. .indistinto. dos seus caminhos. mas recebo tantas obras e a minha vida é de tal irregularidade.C. porque o dramaturgo não tem tido a felicidade de obter a representação das suas produções teatrais. Isto nada quer dizer. nas atitudes governamentais e imperiais que eles tomam quando assumem o mando. entretanto. de criar situações e combiná-las. pela leitura . principalmente no cerimonial. que demandam tantas qualidades de inteligência e caráter.espécie de Thervigne.elas deviam ser merecedoras dessa experiência. a fim de não parecer inteiramente grosseiro. como os de todo o jaez. É uma peça revolucionária. Os limites do atual Distrito Federal. das razões de fixação da população aqui e ali. me vejo na contingência de fazê-lo por este modo. Na atual o autor intenta o estudo do drama íntimo que se deve passar no peito de um revolucionário. e não quero com isso de forma alguma diminuir-lhe o trabalho e o mérito. na impossibilidade de acusar logo o recebimento das obras. Aprendi tudo isto na obra do amigo Noronha Santos (o da Prefeitura). a quem aqui muito conheci. Está neste caso o trabalho do Sr. o Conselheiro Chichorro da Gama.foi aqui muito elogiada. Soares é autor de mais quatro outras peças. não esquecendo as pequenas localidades onde todos estes três elementos se misturaram. Orris Soares.estou julgando por esta do Rogério . Noronha Santos. inspirada nos acontecimentos da atual revolução russa o que se denuncia por alusões veladas e claras no decorrer dela. tanto assim que um Ministro de Estado. porque é qualidade que se adquire. A barafunda devia ter sido a mesma. o estudo dos personagens. Ele. generoso e sincero.. Dr. Considerações ligeiras sobre trabalho de tanta monta. e intensa. como também nos detalhes. onde e por que aconteceu tal coisa com os negros e onde e por que se deu tal com os portugueses.

Carlos Antônio Lopez. e a citação eu a tiro de artigos que o ilustrado Sr. no dia da inauguração. eles não se parecem assim. os há de muitas espécies. ainda se pode repetir: cá e lá más fadas há. eles nos aparecem medíocres. que. Afonso de Taunay publicou. Um é o do ditador do Paraguai. que lembra todo o poder divino de Jesus e a suave e ingênua poesia dos Evangelhos. Há. no tempo. com quase um metro de alto. Quem conta isto é um escritor argentino. E assim é sempre quando se trata de grandes movimentos de sentimentos e de idéias que apaixonam as multidões. sem linhas nem contornos e como que tinha a forma de uma pêra. os de certos magnatas sul-americanos vaidosos que se fazem escoltar por navios de guerra quando dão passeios pelos lagos azuis e plácidos do país. não é preciso ser muito . S. deixa o teu leito.B. A. mamútico. deixando perpetrar pequenos desleixos.C.. Walfrido Souto Maior. mas com os de sempre. impresso na conhecida tipografia . sob esse título. Esses homens podem ser para nós ridículos. Heitor Varela. A cabeça completamente unida ao rosto prosseguia numa imensa papada. "LEVANTA-TE E CAMINHA" Pois para que saibais que o Filho do Homem tem poder sobre a terra de perdoar os pecados. Calvinistas. Católicos. etc. disse ele então ao paralítico: Levanta. Mateus. na Revista do Brasil. porém. com o título "Álbum de Elisa Lynch". 2-5-1920. para inaugurar um teatro feito por ele e construído por um literato espanhol. São talvez plantas de estufa. acaba de publicar um poema. e os mais grotescos. Eu não aconselharia a Orris Soares a leitura das Origines de Taine nem o recentíssimo Les Dieux ont soif.Não é só com os de hoje que tal se dá. Compreendo muito mal as "Cruzadas" e seus barões e ainda menos as guerras de religião de Luteranos. O Sr. Versifica com muita facilidade e abundância. verdadeiramente carnavalesco na sua feição de quiosque.Revista dos Tribunais . Quando nos transportamos à efervescência das idéias do meio que os criou. disforme de gordura. Sou de todo incompetente em matéria de versificação. depois de passada a borrasca. que esteve em Assunção. mas dois casos curiosos conheço fora dos revolucionários. Walfrido logo demonstra que este não é o seu primeiro. e vai para a tua casa.hoje uma das mais procuradas pelos nossos intelectuais de todos os matizes. mas o motivo é porque os julgamos fora do seu tempo ou longe dele. Portanto.te. mas são plantas imponentes e grandiosas. Não tenho à mão nenhum exemplar de livro que me informe dos que os reis do Haiti se fizessem cercar. A leitura do poema do Sr. até ao ponto dessa facilidade traí-lo. outros. para sentir como me julgo com razão e para encontrar o motivo por que. Quanto ao cerimonial e ao protocolo de que se fazem cercar os recém-chegados ao poder. mesmo aquecidas artificialmente. mas. se apresentou na sala de espetáculo. Cobria-a colossal chapéu de palha.

É que a fonte da vida. cujos alexandrinos tem uma grande ressonância e maravilhosa amplitude sonora. Na primeira parte. Debelar num sorriso os golpes de agonias Que trazem sempre o luto ao nosso coração! Uma dessas sentinelas perdidas que é preciso despertar. Pospontar. alegre. Deixando a porta da alma inteiramente aberta! Devemos despertar depressa esses soldados. e muito lentamente Perdendo a vida vai.lhes na farda alguns galões dourados. e o heptassílabo. Souto Maior está familiarizado com a técnica do verso. Ei-lo: Deve ser como a planta o pensamento humano: Livre deve nascer. se a mesma planta ou tronco. e vai saudando a primavera. O tema do poema é todo espiritual. que. O autor. e morre. se a planta enxertam. demonstra estudo e uma visão particular do autor."Anatomia Ideal" . desalogadamente Florir.que. Não posso deixar de ceder à tentação de transcrever o final desse trecho do poema. sem ação. Sem nunca precisar das bênçãos de uma igreja! Percebe-se bem. à moda de Castro Alves. depois de mostrar os fatores de nossa queda moral.los de valor. mostra os outros da nossa elevação. Procurando como um cego . talvez a mais bela parte do seu poema. que vão passando a vida adormecidas.lhes disciplina. porque. à Junqueiro. numa formosa poesia. se a mesma hera. Fazendo-os da razão ouvir sempre o tambor! Precisamos trazer de pé as energias Que vivem dentro da alma inertes. mas ama sobretudo o alexandrino. farão que se realize esse milagre a célebre ordem de Jesus a um paralítico: "surge et ambula". e se aniquila. Passo para aqui esta que é típica: Vi Lamarck nesse pego Da camada subterrânea.forte nela. é o pensamento que. Souto Maior a luz e a sombra de seu talento poético. nem um ano Conserva o seu vigor. Porém. há décimas de fino gosto do grande poeta baiano. diz muito bem o autor: Trazemos dentro de nós sentinelas perdidas Que devem gritar sempre e muito forte: alerta! Porém. por aí e por outras partes do seu poema. que o Sr. a verdadeira mola (A sua essência enfim. vencendo aqueles. E dar. Rebenta. ele aconselha como agir. levanta-te e caminha. essência que se asila Na própria Natureza) arrefece e se estiola. Apenas puro sol aquece onde ela esteja. Para que o milagre se opere. como todas do livro. logo na segunda poesia . enchê. para sentir no Sr.

Vi. Era meu desejo alongar-me mais na análise do poema: mas. pela Livraria Jacinto Ribeiro dos Santos. mas não posso deixar de citar esta estrofe. extremo. Com muitos sábios de escol! Isto não diminui em nada o valor da obra. me surpreendeu encontrar. CANAIS E LAGOAS Com este título. como também mostra todas as feições íntimas do seu estro e do seu temperamento literário. por assim dizer. Walfrido Souto Maior. n. Discutindo o valor teu. encobre uma originalidade sempre latente do autor. acaba de ser editado um curioso volume da autoria do Sr.! Herschel sustinha o astrolábio. potamográfico. não só dá a capacidade de pensador. "Coração-Alma" com que abre a segunda parte do poema. pois esse aspecto. aí pelos meus doze ou treze anos. É uma curiosidade corográfica que só pode ser bem conhecida por especialistas ou pelos naturais da região.A Geração espontânea! Estava lá Goethe . O objeto do livro. embora a mais singela. Argos. Se quis mesmo andar nu! Pelo pouco que citei. primeiro volume de urna série de três. é uma poesia lírica de raro valor e apreço. crivada de canais e lagoas.0 9-10. o espinho em que te feres Criaste-o mesmo tu: Quem a túnica rasga. é o estudo. no qual. como Laplace. outubro e novembro de 1919. Querendo falar ao Sol. Linneu. etc. Otávio Brandão. . se não temesse parecer que queria assinar trabalho alheio. ela me passou completamente desapercebida. Souto Maior. Vejamo-la: Não te maldigas nunca. O trabalho do Sr. Contudo. baseada sobre fortes leituras que se tocam aqui e ali. cuja visão do mundo e da vida. sob o aspecto orográfico. não só um bom poeta. mineralógico. Não pode maldizer o frio que o regela. por um espiritualismo fluídico que perpassa por toda a obra. que. de uma curiosa região de Alagoas. apesar de conhecer eu homem há tantos anos. vai aqui o preito da minha admiração por tão raro poeta. segundo o prefaciador. assoberbado como ando com pequenos trabalhos que me forneçam o necessário para as despesas imediatas da vida. é transfigurada de um materialismo genuíno. geológico. mas também um singular poeta. Quando estudei corografia do Brasil.. para tanto não me sobra tempo. e isto deve ter acontecido a muitos outros. poderão avaliar os leitores do raro valor do livro do Sr.o sábio . e nunca te exasperes Contra a dor que te oprime. Daria toda ela aqui. tão sentida e tão profunda. que parece ter sido a primeira crença do autor. vai da lagoa Manguaba até a do Norte. que os leitores ficarão admirados de não ter eu tido ânimo de pôr também nesta notícia as outras.

um "croquis" topográfico. de climatologia e. irá. transforma-a no papel. Brandão que. sem lamentar e lavrar o meu protesto pelos tormentos e perseguições que sofreu. por assim dizer. Ele os compara. Não me quero despedir do Sr. quando vem a força das águas dos lagos. tantas qualidades de escritor apresenta neste livro. No Brasil se encontra o diamante de uma forma. enfim. uma planta. donde ele se origina. com a balança de Jolly. o que aconselha aos letrados. diz mesmo que muito lhe custou compreender tanta complicação de lagoas e canais. à Caldéia.. singularidades e possibilidades daquela parte do seu Estado natal. e o próprio Oiticica.O Sr. à Holanda. de certas efusões pessoais inoportunas e de uma exagerada avaliação do merecimento e valor dos lugares. que tão entusiasmado se mostra pelas belezas. há de abandonar os processos de um otimismo livresco sobre a nossa Natureza que lhe inoculou Euclides da Cunha. com os seus canais. irá. como diz o autor estudado. num dos primeiros pontos do mundo! Há evidentemente exagero de bairrista nessa hidráulica papeleira e rápida. que tantas qualidades de observador demonstra. tal qual são. denuncia um etnógrafo de valor. Com o avanço da idade o Sr. para uma mais perfeita compreensão de seu trabalho. os termos geológicos. ao que me consta. de húmus que se reserva anualmente. O Sr. inundando e adubando o velho país dos Faraós. e as enchentes arrastam em certas épocas do ano. então? Concebida com uma largueza de vistas muito notável na sua idade."Uma síntese". da corografia. se mostrou capaz de profundos estudos de geologia. a execução do seu trabalho ressente-se. publicando o seu interessante livro. Uma tal disposição geográfica. numa obscura lagoa. cidades. no capítulo que intitula . Brandão diz uma parecida no seu livro. em instantes. como o Egito e o Nilo. costumes e folclore devia abandonar a visão literária de altas regiões clímicas. aqui e ali. mundos. porque tem entre ele mesmo e suas nascentes. Otávio Brandão. ressente-se da falta de um mapa. que ao menos marcasse. etc. irá à Amazônia. o Bahr-el-Gagol. dragando. as quais. vilas. que uma rara capacidade de estudo revela. perdendo a diretriz científica que sempre devia obedecer. Otávio Brandão perturbada por tão infantil sentimento de um patriotismo. Que diremos nós. não se encontra em nenhum rio da terra. devia fazê-lo acompanhar da carta respectiva. que é de uma minúcia extraordinária e feito com uma exaltação místico-lírica. onde durante meses apodrecem ao sol inclemente toda a sorte de matérias orgânicas. 19. na África do Sul. Otávio Brandão. entretanto. até agora somente sulcada por canoas. nenhum deles tem um reservatório de adubo. Otávio Brandão que. para examinar a terra diretamente com o maçarico e o bico de Bunsen. no prefácio. de outra. O autor que percorreu esse pedaço de terra brasileira. são compelidas. um analista de usanças. a força de estudioso do Sr. . para unicamente ver o seu Cadiz e o seu humilíssimo Paraíba. e o Sr. em forma de lodo em suspensão nas águas para o verdadeiro Nilo. no art. de mineralogia. A Natureza apresenta frescos aspectos semelhantes e muitos menos iguais. não direi todos os acidentes topográficos. O seu estudo. com tão poucos recursos. aldeias. os seus leitores. por parte dos estranhos à região que fossem ler a sua original obra. comarquense ou distrital. uma planície de imersão. e também a situação dos povoados. aprofundando canais e construindo muros protetores. aqui e ali. É ideante e diversa. pesquisar rochas com o microscópio próprio e fazer. por parte do Governo de Alagoas. e eu não queria ver a alta capacidade do observador. O Nilo é ele e só ele. mas as linhas gerais da potamografia.

Mendes Leal. e esses estudos devem tentar as jovens inteligências operosas. de meninos. por ser assim como herói anônimo da Academia. Machado de Assis. não me considerando de todo velho.0 11. simpático.América Latina . não se trata desse ou daquele. Um tal estado de coisas não pode continuar. difíceis de encontrar em inteligências tão moças.que vai prosperando com o vagar com que prosperam essas nobres tentativas entre nos. Gonçalves Dias. mas hoje. pontos. ensaios sobre autores notáveis. apostilas. que nem ao menos tem um vício. Motivos de toda ordem me têm impedido. arrastarem para enxovias nauseabundas. publicam. e não há lei que permita essa indigna opressão ao pensamento nacional. dezembro de 1919. sereno. Com a violência dos antigos processos do governo dos reis absolutos. nas quais. os posso tratar assim familiarmente. ensaios dos Srs. violar e estuprar. sem instrução nenhuma e muito menos cultura. por todos os meios adequados. lançaram-se à crítica literária. tanto assim que eu. para o despotismo espiritual. fundaram uma excelente revista . cedendo a uma incoercível vocação íntima. paternalmente. uma biografia do Sr. Alfredo Pujol. à boa crítica do estudo profundo. apresentando-os ao complicado mundo das letras. Eram. Daí vem que bacharéis ou não. pois é campo pouco explorado. encontram na mais leve crítica às teorias governamentais vigentes manifestações de doutrinas perversas. Não contentes com isso. doces sonhadores. tendentes a matar. n. como se costuma dizer. mas não tenho dúvida nenhuma em aceitar como verdade. O governante do Brasil. mereceu diversos. apesar de não serem ricas em amadores de qualquer ordem. resvalam pelo caminho perigoso da coação ao pensamento alheio. como toda a gente. poema de Araripe Júnior. Na sua imbecilidade nativa e na sua ignorância total de doutores que fizeram os seus estudos em cadernos. felizmente. mas que parece fecundo. contudo. posso fazê-lo. José de Alencar. Muito moços. se não havia remígios. DOIS MENINOS De há muito queria eu dizer publicamente todo o bem que me merecem o esforço e o ardor intelectual desses dois meninos que se assinam Tasso da Silveira e Andrade Murici. os seus cartões de visita. entre os quais avultam o de Alcides Maia e o do Sr. este. de quando em quando. investidos de funções policiais. roubar.. Argos. Mostraram essa aptidão aqui e ali. ao menos com a máxima boa vontade. Xavier Marques e Afrânio Peixoto. tanto mais que a Constituição dá a cada um a mais ampla liberdade de pensar e exprimir as suas idéias. Daí por diante. qualidades de penetração e discernimento artístico. até que ponto não pode pensar. Castro Alves. entretanto. se não completa. etc. não denunciavam. monografias dos seus melhores representantes. produção suficiente para exigir o estudo isolado. Nossas letras. eles ressuscitaram o crime de lesa-majestade e a razão de Estado. .É incrível o que ele narra. com "plaquettes" de versos. estrearam. mas de todos. Ninguém sabe até que ponto pode pensar desta ou daquela maneira. já têm. de autores e de obras. a par de pequenos defeitos próprios à pouca idade dos signatários. Poucos deles têm merecido esse estudo. em que se acham. quedas irremediáveis. como este bom Otávio Brandão.

adivinha as obscuridades e justifica as contradições do seu pensamento. era já estimada discretamente no seu país e.Assim. além do que. nesse seu estudo de autor francês. pode-se dizer que é definitivo e completo. sente-se bem. completamente. com os elementos que lhe são fornecidos pela obra do mesmo. Ainda não tive a ventura de ler nenhum dos volumes. é preciso também participar dela. Essa ambiência sutil nos faz falta. e excelentes. O que me alvoroça. se não tiver à mão esses estudos e outras achegas. Era este autor pouco conhecido entre nós antes da guerra de 1914. não vem isso ao caso. O seu estudo sobre o autor da Ilusão. penetra por ele todo e perpassa na sua obra. será muito difícil. não era bem esse. Esse atroz acontecimento pô-lo em foco. sob todos os aspectos valiosos e dignos de nota. quando. há de por força falhar e ser incompleto. tudo isso que pode esclarecer o pensamento e a tenção de suas obras. Tasso da Silveira e Andrade . Emiliano Perneta. fez-me julgar de outra forma o poeta da terra dos pinheirais. por mais esforços que façamos. a fim de julgá-lo perfeitamente. Além de ser conterrâneo desse notável poeta paranaense. atmosfera que cerca o autor estranho no seu meio natural. em toda a parte onde se lê francês. porém. não é o meu intuito fazer crítica da crítica. e. confesso. apesar disso. não se concebe possa ser feito por um só autor. que versa sobre o Sr. de onde em onde. Entretanto. desde há anos. senão impossível. Ultimamente. Se não estou de todo esquecido. suas amizades. para nos apurarmos com o autor. tendo de julgá-los numa única obra geral. um longo romance que ele vinha compondo e publicando os volumes lentamente. devido à atitude de desassombro e independência que tomou. Desautorizadamente. os desgostos. em face da cegueira delirante do patriotismo francês. seus estudos. a sua obra. seus amores. não me recordo de outros autores nacionais que tenham sido tomados como objeto de trabalhos especiais sobre as suas vidas e suas obras. o Jean Christophe. penso que isto já foi dito não sei por quem. O que me interessa. porque. tradicional. de pronto. julgo eu que nenhuma história da nossa literatura poderá se aproximar da perfeição enquanto não houver de sobra esses estudos parciais dos seus autores. Não me deterei na análise das duas obras. sua correspondência. entretanto. porque acho abolutamente ilógica uma crítica segunda. mas. estrangeiros. pois surgem. ao escrever estas linhas. é verificar a capacidade que tem Tasso. é ver que há nesses dois meninos. enfim. e. Murici foi seu discípulo. externa Tasso da Silveira. por isso nada posso dizer da justeza dos conceitos que. o impulso que me fez escrever estas ligeiras e despretensiosas linhas. por mais ativo e diligente que seja. de Veiga Lima e outros. a atividade da nossa critica literária parece ter compreendido isto. de Nestor Vítor. Não se dá isso com o trabalho de Murici. Farias Brito tem merecido diversas. um pouco. como já disse. de focar um autor e estudá-lo em todas as suas faces. feito de uma junção de nadinhas. de Almeida Magalhães. porquanto a nós. compreende-o inteiramente.autor que está exigindo justiça dos seus envergonhados admiradores e imitadores. Pesquisas sobre as suas vidas. monografias especiais sobre autores de monta e sobre outros assuntos relativos às letras nacionais. ilumina-lhe as sombras. Creio também que Nestor Vítor escreveu uma sobre Cruz e Sousa . Há de haver. Agora. isto se me afigura de uma indeclinável necessidade. Tasso da Silveira e Andrade Murici. em dois desenvolvidos estudos literários. histórica. para bem se aquilatar afinal do valor e do alcance do nosso pensamento total. por força. mas. "sentir" o imponderável da ambiência nacional.ambiência. de Jackson de Figueiredo. sobre o Jean Christophe. evanescentes . um único erudito. aparecem esses dois meninos. lacunas. seus começos. quanto a mim. O de Tasso é um ensaio sobre Romain Rolland.

Antero de Figueiredo. pelo rigor das cenas. com grande sucesso. creio. que não interpretam mais sagazmente um personagem histórico. estofo para realizar os sérios estudos que os nossos autores notáveis estão exigindo sejam feitos. O Sr. pela largueza de vistas do autor. No nosso tempo de literatura militante. 1-6-1920. de algum modo originais. Antônio Nobre.obra que não é senão um superficial "lever de rideau". sem concepção própria da vida. muitos deles concorreram para reformar a música do período português. por serem valiosos pelo fulgor do seu desenvolvimento. Que nós tivéssemos sofrido a ascendência e a influência de Garrett.O Reposteiro Verde. a fim de que não fiquemos nós outros. mantém-se ainda no cartaz. dois inócuos fazedores de frases bimbalhantes. provocando um mútuo entendimento entre elas. mas há outros em que diz muito. que não revelam uma alma. que não põem em comunicação as várias partes da sociedade. inventaram muitas formas de dizer. de Eça de Queirós e mesmo de Camilo Castelo Branco. do mundo e da história do seu país. em que o palco e o livro são tribunas para as discussões mais amplas de tudo o que interessa o destino da humanidade. Pinheiro Chagas. Esse drama do Sr. Júlio Dantas e o Sr. mas. embora. entretanto. por uma lamentável incompreensão do pensamento deles. em junção da época em que floresciam. não podem ser resumidos e o resumo nada diz deles. não vêm fazendo mais do que repetir o que já foi dito com tanta força de beleza pelos velhos mestres em glosar episódios de alcova da história anedótica portuguêsa. mas a regra não é tão absoluta como querem por aí certos doutores artísticos cujas asserções trazem o vício de origem do interesse próprio ou dos seus chegados. esses dois senhores a que aludi mais acima. Júlio Dantas. todos esses dizia são criadores. "verroterie" poética que fascinou toda a gente aqui e. mas que não aventam uma idéia. Portugal manda para aqui. sem uma emoção mais distinta. Júlio Dantas não passa de um Rostanzinho de Lisboa que fez A Ceia dos Cardeais . de Alexandre Herculano. o Sr. para gáudio das professoras públicas aliteratadas. A Folha. mais plasticidade. de quando em quando. um barulho de frase. gosto de ler as notícias que os jornais dão das "premières". para não falar em alguns outros mais. de Oliveira Martins. não passa de um dramalhão de capa e espada. sobretudo em se tratando de peças portuguesas. admite-se. pelos resumos por mim lidos nos jornais. As suas peças históricas não têm um julgamento original de acordo com qualquer . cheio de assassinatos e outros matadores da velha escola. sabendo-se-lhes unicamente os nomes e os títulos dos seus livros. Sei bem que é de bom alvitre não julgarmos uma obra literária pelo seu resumo. Júlio Dantas . Ramalho Ortigão. sem um pensamento superior. também em Portugal. às vezes passe noites inteiras em claro a perambular pelas ruas e botequins. Encontram-se trabalhos literários que. Há dias li o "compte-rendu" de uma peça do Sr. ativa. pela percuciente análise dos personagens. É curioso observar o "engouement" que o nosso público vai tendo por esses autores portugueses de uma mediocridade evidente que a disfarçam com um palavreado luxuriante. como Arnaldo Gama. Antero de Quental. VOLTO AO CAMÕES Raramente vou ao teatro. deram-lhe mais números. mas. Todos estes.Murici.

De teus olhos o pranto nunca enxuto. O nome que no peito escrito tinhas. Malheiro Dias talvez ache superiores aos decassílabos de Camões e um assombro literário. ágil do passado. Carlos Dias eu volto ao Camões. lêdo e cego. médico do Regimento de Cavalaria 7. da Mouraria. E citam uma porção de patifarias e baixezas de toda a ordem. vá! Que lá ele se console em rever a grandeza passada dos Lusíadas em um marquês que tem por amante uma fadista. de lá extraisse um tronco. e que campo vasto está aí para uma grande literatura. Antero de Figueiredo? Este senhor me parece um marmorista canhestro que fizesse uma "fouille" na Grécia. que direi então desse Sr. pois nada temos com essas alcouvitices históricas que o Sr. Nos saudosos campos do Mondego. Se digo isto do Sr. É chegada. e. uma perna. temos que rever os fundamentos da arte e da ciência. a imortal literatura dos Tourgueneffs. mas esta obra é.ideal estético ou filosófico. abro o meu "Lusíadas". do gigantesco Dostoiewsky. O campo de suas escavações é o grande Camões. a humanidade. São glosas dialogadas de tradições e crônicas suspeitas. onde vai retirar os episódios mais perfeitos e belos que as oitavas do poema esculpiram para fazer romances edulçorados que a transcendência estética do Sr. dos Tolstois. muito melhores". sem um comentário que denuncie o pensador. o Cruel. do Gorki! E só falo nestes. a hora de reformarmos a sociedade. mesmo. linda Inês. Júlio Dantas. num país como o Brasil. não politicamente que nada adianta. Entretanto. ou que outro nome tenha. ainda assim mesmo. em que. sem uma vista original do autor. nós nos estamos deixando arrastar por esses maçantes carpidores do passado que bem me parecem ser da raça desses velhos decrépitos que levam por aí a choramingar a toda a hora e a todo o tempo: "Isto está perdido! No meu tempo as coisas eram muito outras. da propriedade. políticas. Aos montes ensinando. Jehan Bojer e quantos mais! O caminho que devemos seguir. ainda poderia falar em outros de outras nacionalidades como Ibsen. igual a Shakespeare. Compará-lo a Rostand é uma grande injustiça. discreteia pelos palcos com o chamariz da sua elegância e das suas lindas feições tratadas cuidadosamente. além do anúncio das suas imagens sonoras de carrilhão com que atrai as devotas. o Rostanzinho de Lisboa. Júlio Dantas. edição pobre. Dos teus anos colhendo o doce fruito. Mas. Temos que rever os fundamentos da pátria. uma bela e forte peça no fundo e idéia. posta em sossêgo. pois a peça do autor francês que fascina o autor português é o Cyrano de Bergerac. não traem um avaliador sagaz. da família. como se não tivessem batina. um braço de um mármore antigo e dele fizesse um "bibelot". e leio: Estavas. não é um simples bródio de prelados cínicos que comem glutonicamente a fartar e falam de amor. Que Portugal faça isto. George Eliot. e às ervinhas. Naquele engano da alma. por suas condições naturais. em que pese ao Sr. mas que o Brasil o siga em semelhante choradeira não vejo por que. do Estado. Que a fortuna não deixa durar muito. concebe-se. Pedro. no mundo. e sempre que quero ter a emoção poética dos amores de Dona Inês de Castro e D. tal e qual nos deu a Rússia. mas socialmente que é tudo. sociais e econômicas. . de rigor psicológico nada têm os seus personagens. se devem debater tantas questões interessantes e profundas.

Aspectos desses de tão chocante contraste só podem ser colhidos por um artista de raça em que preocupações gramaticais e estilísticas não deturpem a naturalidade da linguagem dos personagens nem transformem a paisagem rala daquelas paragens em florestas da Índia. pelo nascimento ou por outra circunstância qualquer. 27-4-1918. o Sr.C. sob o título de Tabaréus e Tabaroas . tudo enfim. O autor dos Tabaréus e Tabaroas conseguiu isto e realizou com rara felicidade uma obra honesta. nos entendamos melhor e melhor nos compreendamos. contos. crenças. É de esperar que ele não fique nisso e continue o trabalho a que se dedicou. Mário Hora é um epítome da vida curiosa daquelas regiões. A. Em boa ocasião. é uma das suas funções normais. deveria tocar no assunto. se não o seu principal destino.alguns contos em que cenas do nordeste brasileiro são apanhados num flagrante feliz. tenho grande prazer em ler romances. depois dele.B. . determinada pela estranheza de certos hábitos. As almas também são aquelas rudes e agrestes daquelas regiões adustas e calcinadas. carioca da gema. simples e sincera. A literatura é de alguma forma um meio de nos revelar uns aos outros.. sem profanar. em que a vida ameiga o clima ingrato e a faca está sempre a sair da bainha para ensangüentar as caatingas. neste "vasto pais". TABARÉUS E TAIBAROAS Pouco viajado pelo interior do Brasil. Qualquer dos contos do Sr. eles fazem com que nós brasileiros que vivemos tão afastados. Não tenho nenhuma autoridade para contestar tal opinião. tratando os conhecedores de costumes. Há quem veja nisto um mal. Ultimamente. novelas. preconceitos das gentes das regiões que.Lido todo o episódio. sem esquecer a própria indumentária são de uma propriedade. 24-6-1922. Mário Hora compreendeu isto e acaba de enfeixar. às vezes. tal foi a força de beleza com que seu gênio animou a história e a lenda de tão desgraçado amor. a nossa produção literária tem se comprazido em cultivar tal gênero de literatura. crônicas que tratam de costumes dos nossos sertões. Admitido isto. onde a crueldade se mistura com o cavalheirismo e o banditismo com a mais feroz honestidade. opiniões e crendices das gentes do nosso interior. A língua. como diz a canção. Sempre os li com agrado e surpresa. mas faço uma observação simples. a paisagem. fecho o livro. não esquecendo de que ele bem pode servir para estudos de mais vulto. de uma cor local que atrai e encanta. sentindo bem que li grande poeta e ninguém. Careta. habitaram.

que aqui esteve a exercer atos de soberania na nossa baía . Se o Sr. A publicação de Araújo Jorge é ela mesma. Há no volume do Sr. O Sr. Grieco. é péssimo. Nunca me despedi dessa lição do mestre das "Causeries du Lundi". quando é mau. entretanto.FETICHES E FANTOCHES O Sr. é algo distante. O PROFESSOR JEREMIAS A Revista do Brasil. que existe no Brasil. No meu amigo Grieco se manifesta esse pequeno defeito. representa um esforço de moços. Como muitas de suas congêneres estrangeiras. Careta. acaba de publicar a Livraria Schettino. tanto mais que já tive a honra de ocupar suas páginas com coisa minha. muito original pelo seu programa. Não é do Sr. . conquanto seja um homem culto. com o título acima. Félix Pacheco.coisa a que se habituara em São Domingos e a Americana nos informou. e os senões que se lhe podém notar. é ótimo. porém. Tem os seus números. feita pelo autor do Fetiches e Fantoches. de Tasso da Silveira e Andrade Murici. é fartamente ilustrada. senador e redator-chefe do Jornal do Comércio. Ele vê longe e largo. vontades e energias que merecem todo o nosso aplauso. Um exemplo que cito com amargor é a análise do Sr. mesmo quando publica as proezas do almirante Caperton. é hoje sem dúvida nenhuma publicação verdadeiramente revista. Agripino tivesse meditado mais. quase meninos. Sainte-Beuve. Muitas outras há dignas de nota. grandes qualidades e grandes defeitos. A América Latina. de quem falo. entretanto. assuntos para os paladares de todos os leitores. de São Paulo. certa idéia geral do Mundo e do Homem. como também porque tudo o que cheira a cópia. A primeira. Isto é indispensável para aquilatar um autor. havia de ver que um homem como o Félix é uma necessidade na nossa literatura. mas há nele uma desenvoltura de dizer e um poder de expressão que bem denunciam as origens do autor. uma larga visão da Arte e da Vida. afirmando porém. Agripino Grieco é merecedor de toda a atenção pelo livro que. falta-lhe. corno a América Latina. é a mais equilibrada e pode e deve ser a mais popular. as suas injustiças nos seus julgamentos. Daí. Não é que nessa obra haja grandes pontos de vista. quando examinava um autor. muitos outros da minha têmpera. advêm disso e de mais nada. tem certas reservas diplomáticas e discertas atitudes que não de gosto do leitor comum. procurando os seus editores reproduzir pela gravura quadros nacionais notáveis ou desenhos de antigas usanças e costumes do nosso país. 2-9-1922. Agripino. e. Félix Pacheco. Não vai nisso nenhuma censura da minha parte. Pode-se dizer dele o que alguém disse de Rabelais: quando ele é bom. protetor dos escritores desprezíveis ou desprezados a quem me refiro e de quem só tenho recebido homenagens. A Revista do Brasil. procurava saber qual tinha sido a sua educação primeira. quando faz o exame e crítica de certos vultos da nossa atividade intelectual. como eu. É do Félix. para o paladar comum. me aborrece. conforme meu fraco juízo. que um grupo de moços de iniciativa e talento vem aqui mantendo.

é como se não tivesse: não me vexa. pelo que acabo de dizer. pois?.A bambear o cordel. É uma obra toda ela escrita com uma candura aparente. Jeremias escreve o livro para seu filho. A esse quietismo singular chegou o novo Lao-Tsé do professorado paulista. no Lírico. entretanto estou certo de que poucos saberão que se trata do personagem de um conto desse mesmo Monteiro Lobato. Ao passo que a primeira opinião adotada. Não há vida mais doce do que a de quem não tem opiniões. interpretações. A mulher era birrenta. e ficarás imediatamente livre de uma série de coisas aborrecidas: política. o apelido de Jeca-Tatu a este ou àquele. não me era possível tratar de uma bela obra. a quem fizeram sonhar ou sonhou grandes posições. monótona. têm visto aplicar. Com a sua atual futilidade e recente ligeireza que veio. a adquirir com as mágicas avenidas frontinas. o Rio de Janeiro mal a conhece . impostos. como o faz. mas que o desenvolvimento ulterior de sua vida foi.Olha: começa pelas opiniões. a marquesa de Sapopemba. pois também o era de um lugarejo de São Paulo.. se é que os tenho. Restringe-se o círculo dos meus movimentos. Nela são tratados assuntos que interessam a todo este vasto país.Publicada em São Paulo. a Revista do Brasil. Um modesto mestre-escola. filosofia. D. Chama-se O Professor Jeremias. chega-me às mãos uma novela de grande mérito do Sr. impôs fosse com ela. ela não se inspirou pelo espírito e pela colaboração ao Estado em que surge. assim se chamava a esposa de Jeremias. Antoninha. não se conformava com o seu destino de professora pública. justamente.. pois lá escrevi e ela me imprimiu um despretensioso calhamaço. com ou sem propósito. Rui Barbosa. pois todos nós somos como aquele cão que aparece no fim do livro com uma lata no rabo atada. enervante. dentro de um círculo menor. constante e permanente. que a mulher por ocasião da separação. Quando bambeio o cordel da minha lata. . como diz a canção patriótica. o Joãozinho. inclusive o seu casamento. levaram os dois esposos a pedir o desquite. dizendo: . a sua meia mulher. Espera que o acaso ponha sob os olhos do Joãozinho as reflexões que lhe ocorreram. mas fico livre. mas a massa nem do nome deste terá notícia. Rixas. implicâncias. aos poucos. Acontecimento sem-par no Brasil de que a obra é perfeitamente merecedora. sem me referir aos préstimos da publicação de Monteiro Lobato. é um passo fora do círculo: é a lata a chiar atrás de mim. e é fácil de verificar. nem seu filho. caixeiros-viajantes.. num seu discurso. por ela editada. ranzinza e mais birrenta ficou quando a irmã veio a casar rica e fixar-se em Petrópolis com a sua sogra.. calos. interpretando os fatos . embora seu livro tenha tido excepcional tiragem. infelizmente. porquanto. animada de um meio sorriso. era o contrário do marido. no seu magnífico livro Urupês.Aconselha-me. em sucessivas edições de 10. é certo. Os mais conscientes hão de se lembrar que foi o Sr. quem lançou à popularidade a inimitável criação de Monteiro Lobato. O professor não sabe onde ela anda. de acordo com o seu gênio birrento.. Muitos dos meus leitores. . mas da qual se extrai uma filosofia amarga da vida e da sociedade. Livra-te das opiniões. Embora possa parecer parcialidade de minha parte. Não me cabe dizer mais a respeito dela. depois de muita observação e transtornos de vida.000 exemplares. Não tenha opiniões. a aconselhar o professor. Editada pela Revista do Brasil. de tudo o que acontecia.. sistemas. certamente por uma criança traquinas. por consentimento mútuo. Leo Vaz que sinceramente me deslumbrou. talvez mais. assim como nos seus sumários se encontram nomes de autores que nasceram ou residem nos quatro cantos dessa terra brasileira. entre nós é uma publicação sui-generis e digna de todo o apreço. levando o seu espírito para a resignação e para a indiferença por tudo o que lhe acontece e arrasta os outros.o que é uma injustiça.

e que por elas o filho governe o seu futuro. mas nunca leu os livros da Biblioteca do Ensino de Belas-Artes. UM ROMANCISTA O Sr. nas ancas calipígias. deparei um capítulo de um seu romance na Gazeta de Notícias. Não conheço absolutamente o autor.. Niterói. Leo Vaz." Diga-me uma coisa. mas nesse gênero há tanta coisa. Paulo Gardênia é um moço cheio de elegâncias. Tenho medo de ir a São Paulo.. em pregas moles. Paulo Gardênia. o corpo venusino que era esgalgo. Coelho Neto gostou? . tão intensa. entrou pelo quarto. em Grécia. o busto flexível. os quadris largos. e. em perfeição de formas.. Ontem. como pérolas. ou melhor. A sua visualidade é tão perfeita. de coisas decentes. o Vaticano: "O peignoir. maravilhosamente róseos e macios. um Digesto de coisas preciosas. neste pedacinho de estilo de calouro de academia: "E o dia louro.. Se os tivesse lido. nos braços torneados. para julgar com acerto esta nossa vida tormentosa? Não sei dizer. cobria-lhe. que lhe prendia os cabelos. O Estado. Vejam só este pedacinho tão cheio de perfeição escultural. não conheço grandes damas e preciso conhecê-las para exprimir certas idéias nas rimas que imagino. acompanha e respeita tanto os conselhos que Flaubert deu a Guy de Maupassant. Gardênia ficou tanto tempo diante do "dia" que acabou vendo-o ao mesmo tempo louro e azul. fui ler o Sr. louros como mel. luziam esmeraldas. 13-2-1920. Bonifácio fala muito em Hélade. como gosto de romances e nunca fui dado a modernismos. numa surpresa de curvas opulentas. que se vendem ali no Garnier. tão nova. Parece nada. fino e leve. O que não aprenderia eu com o risinho irônico do autor do Professor Jeremias. deixá-lo-ia falar à vontade. seu Bonifácio: como é que essa senhora é esgalga e ao mesmo tempo tem os quadris largos? Como é que essa senhora é "fausse maigre" e tem curvas opulentas e ancas calipígias? O senhor sabe o que se chama Vênus calipígia? O Sr. indolentemente. que acabou achando essa coisa magnífica. de receitas de namoros. as galerias de Munique. Mas. Bonifácio Costa. voluptuoso e quente. Li e gostei. na alegria iluminada do sol. Na corrente argentina. certo de que havia de regalar-me com alguns conceitos melhores do que aqueles que o professor Jeremias emitiu no livro do Sr. exaltar a cultura literária e estética das meninas de Botafogo. não vivia a dizer tais barbaridades para extasiar. mas se o conhecesse e privasse com ele. revelador de homem que conhece mármores. azul. que apareceu aí nos jornais e sucedeu a Figueiredo Pímentel no Binóculo. "fausse maigre autêntica arredondavam-se-lhe as linhas. E os seus dedos. o Louvre. Vaz. tanta observação fina que é singular gozo ler a obra do Sr. eram rematados em unhas polidas.. poderoso e fecundo.triviais da vida de uma vila obscura do interior de São Paulo.

há muitos outros. vi em uma revista católica . Impresso em bom papel e nas oficinas Leuzinger. embora pouco conhecidos do grande público. bem feito e curioso. que tanto devia ajudar o renome de Rio Branco. muito cuidado na revisão. entre os meus 16 e os 20 anos. alguns cheios hoje de glória inesquecível. embora não saiba agora escrevê-lo (o que lastimo). poucos terão notícia dessa livraria e da Gazeta talvez nenhum. tem sido seguido de outros semelhantes e. intitulada Gazeta Literária. publicou na revistinha literária a sua famosa memória sobre a questão das Missões. no dizer dos entendidos. 1-3-1915.. entretanto. foi publicado em volume. Teixeira de Melo. Os salões do século XVIII não dariam coisa melhor.0 74. ao que parece. publicou-se aqui. MÁGOAS E SONHOS DO POVO I RECORDAÇÕES DA "GAZETA LITERÁRIA" Em 1884. muito estimados pelos que se interessam com as etapas do nosso acanhado desenvolvimento intelectual. mas havia no cabeçalho a indicação que se assinava e se vendia na livraria de Faro & Lino. Correio da Noite. Raul Pompéia. o amigo e êmulo de Casimiro de Abreu. Esse trabalho que. a pequena revista quinzenal.um semelhante da autoria de um sacerdote dessa religião. mas que constituem um bom manancial para o famoso Dicionário . na Lapa.A roda da rua do Roso deve orgulhar-se de semelhante rebento. tanto dos derivados de línguas conhecidas como daqueles cuja origem é ignorada. que eu conheci velho e diretor da Biblioteca Nacional. O jornalzinho literário era. de forte cunho intelectual. neste Rio de Janeiro. Araripe Júnior. tinha um aspecto muito simpático e uma leitura variada. e Beaurepaire Rohan dava nas suas colunas as primeiras páginas do seu Glossário de vocábulos brasileiros. De nós que andamos hoje nessas coisas de jornais e revistas. como Capistrano de Abreu. quando a freqüentei ali.Vozes de Petrópolis . cujo nome. e outros que. à rua do Ouvidor n. me pareceu ser de alemão. Valentim Magalhães. Não tinha o nome do diretor ou redator-chefe.. menos gerais talvez. João Ribeiro. ainda são. ainda bem pouco tempo. Como estes dois glossários de brasileirismos. não obstante. Colaboravam nele nomes conhecidos. Urbano Duarte.

que não tinha uma finalidade guerreira e pretendia tão-somente conhecer as coisas da nossa terra. por aí assim. Múcio Teixeira. Capistrano de Abreu. está se vendo que. guerreiro. sem talvez um programa definido (não tenho o número inicial).o jogo de guerra . ainda há bem pouco tempo. veio para ensinar disciplinas. Pacífico Pereira. Luís Conty. tantas outras que o meu precário viver não me permite consultar e estudar. não se poderia nunca adivinhar que. há também de uma Revista do Exército Brasileiro que já trata do que hoje parece novidade . Moncorvo. em modestos outros provincianos. se nota: é que as nossas tentativas de hoje têm pouca novidade e se nós não as encadearmos com as que nos precederam. sem nome de diretor. há trinta anos. Tenho esses números da Gazeta Literária desde a minha meninice e desde a minha meninice que os leio. Sei bem que há em Couto Magalhães. há muita coisa curiosa e muita informação surpreendente. para nos ligarmos mais fortemente no tempo e no espaço. mas de que até hoje nada ou quase nada fez. mas anda esparsa em obras tão difíceis de encontrar que me resignei ao acaso das leituras para ganhar uma noção mais ou menos exata da poesia e outras criações da imaginação anônima da nossa terra. em 1874. com artigos do Dr. Nas suas notícias sobre o "Movimento Artístico e Literário". porém. "redigida pelo Sr. viesse a ser o Barão Ergonte dos dias atuais. em um. de Moura. Todo brasileiro julga-se um inovador. e do Dr. no outro. e. O que é curioso observar na interessante publicação dos livreiros Faro & Lino é que. No número de 20 de maio de 1884. à Gazeta Literária. do Sr. com um artigo desse espírito inquieto e de tudo curioso que foi o Dr.. e um parecer do professor Rebourgeon a respeito dos trabalhos sobre a febre amarela do Dr. o Sr. mas que acaba na comodidade das linhas de tiro de classes e repartições e deixa para as funções árduas do verdadeiro soldado a pobre gente que sempre as exerceu. Alexandre Gasparoni Filho e Américo Guimarães . entre nós novas. a "da Liga do Ensino". Domingos Freire. coisas velhas e notar a transformação espiritual dos homens.num artigo do Sr. Uma delas foi o conhecimento das coisas do folclore nacional e esse desejo até hoje não pude cumprir honestamente. há também a de uma Revista Literária. Múcio e Gasparoni quem os não conhece hoje? Mas. A. enumerar. também. Muita sugestão lhes devo e muito desejo eles me despertaram. ainda não havia despertado o amor pela fotogravura ultramundana.. o seu passado. há. Dos viajantes estrangeiros. Muita coisa há sobre o assunto. podemos dizer que. que. Era um patriotismo mais espiritual. Voltando. a alma das suas populações. como a vida mudou! Pelos títulos de suas publicações de 1884. e transmitir tudo isto aos outros. Osvaldo Cruz fez esquecer totalmente. através das páginas da revistinha de 1884. F. Nas suas "Publicações recebidas" há notícia de uma União Médica. tudo e todos. se tentavam publicações da mesma natureza que ainda hoje se tentam. no O Imparcial. grande poeta que ele era. Rui Barbosa". além de outra revista.de Brasileirismos que a Academia Brasileira de Letras se propôs a organizar. deixam de ter alguma força e são destinadas a morrer no esquecimento como as anteriores. Seria um nunca acabar. porém."ex-redatares do Cometa". era de um grande nacionalismo. o espírito que a animava. na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. mas há também nos viajantes estrangeiros outras coisas mais e. João Ribeiro muita coisa a ler. professor contratado de uma espécie de Missão. com sorteio ou sem ele. João Ribeiro. em virtude desse próprio entendimento mútuo. com o espírito dos anos que o tempo vai-me pondo às costas. a ambos. que o sucesso do Sr. espingardeiro. como os leitores estão vendo. Uma coisa. em português. há a notícia de uma Fôlha Literária dos Srs. Não era o do nacionalismo dos nossos dias. "cantativo". deu a tradução de um conto popular amazonense que vem no livro de viagem de . Sílvio Romero. em francês.

anexins. da esperteza. Se. poderia fazer um volumezito bem aproveitável. Era tão interessante que eu imaginei que messe de fábulas e narrativas. da pessoa "boa na língua". Ele publicou as cartas do padre Nóbrega. de temas. Embora o passarinho da canção fosse um pouco extravagante com os seus dentes. Dos olhos carta fechada. muito me comoveram e comovem e ainda as guardo na memória. aos poucos. não vem cá mais. Não me fio nas . etc. foram soterradas na minha memória por uma avalanche de regras de gramática. Hoje. tirando as que Perrault registra e dando-lhes forma. pela primeira vez. dos meus pobres sete anos de idade. é para matar saudades e lembrar os meus bons tempos de menino que leio: Menina. fazei tinteiro. O seu artigo sobre as canções populares da Bahia muito me impressionou e há maia de vinte anos que não folheio a coleção mutilada da Gazeta que não o leia com este ou outro espírito. Da língua pena aparada. Todas essas coisas ingênuas de contos. dos nossos defeitos e qualidades morais. que. pouco conhecido e muito menos lembrado atualmente.Wallace. que os via catar pedras e ervas. Se não tiveres papel. mas traiçoeira e ingrata. de teorias de química. Falando baixo. etc. afora essas quadrinhas e outros versos como o do famoso "chula": Onde vai. sondavam a alma e a inteligência do povo. intitulado Algumas canções populares da Bahia. No número 11 da Gazeta Literária. os Anais da Imprensa Nacional. do Mestre Simão e da Comadre Onça. Mas não as guardei e pouco retive de cor dessa arte oral e anônima. e nos números da Gazeta que possuo há trechos das famosas Memórias de Drummond sobre o primeiro reinado. estas quadrinhas. quando tu fôres Escreve-me pelo caminho. com o mesmo método que os seus hábitos científicos lhes tinham imposto à inteligência. que suponho terem sido publicados por ele. foi funcionário da Biblioteca Nacional e um dos mais ativos reveladores de coisas da nossa história. letras miúdas. cheia de força. Dos dentes. por exemplo. sem deixarem de ser profundos nas suas especialidades de ciências naturais. me vão morrendo na lembrança. Nas asas dum passarinho. O macaco é o símbolo da malignidade. de princípios de física. Nessas confusas recordações que tenho das fábulas e "histórias" populares que me contaram entram animais. anedotas. senhor Pereira de Morais? Você vai. José Bonifácio. Este Vale Cabral. como as retive. Da bôca. lendas. nós poderíamos encontrar nas obras desses sábios pesquisadores que. como a "Gata Borralheira". há um artigo de Vale Cabral. quadrinhas. algo originais e denunciadoras do nosso gênio. em luta com a onça.. que sempre ouvi e recitei em criança. só até então conhecidas pelos pacientes eruditos. disto e daquilo. tivesse retido as "histórias" que me contavam naquela idade. com precisas informações sobre os primeiros livros nela impressos. As mulatinhas ficam dando aism. que é datado de 20 de março de 1884. etc. para deixar emergir nela as histórias humildes do Compadre Macaco.

eu não me animo a asseverar que a minha generalização possa ser de qualquer forma certa. vale a pena fazer um trabalho destes. têm usado e abusado do sonho. socorre-se da cumplicidade do Cágado ou Jabuti. e. quase toda ela. talvez. de alguma forma o faz o seu herói epônimo. A humanidade. etc. portanto. que tenho dessas coisas de folclore. Em todas as pequenas crenças religiosas de toda parte. devido à ignorância. mas a manha do macaco. não sei de que localidade: o Sr. ao que me parece. planos e esperteza do macaco. sobre o sonho. e. onde se vem resumir todas as mágoas. não havendo. os contos populares lhe emprestam também alguma generosidade e alguma graça e uma filosofia de matuto "tinguejador". tenham alguma razão quando nos chamam de "macaquitos" ou "little monkeys". Os estudiosos dessas coisas que verifiquem se a minha generalização é cabível. na conversa com homens e raparigas do povo. Queira Deus que leve avante o meu inquérito! Amém. Hoje. sem mesmo indagar se eles foram publicados. As literaturas de todos os quilates. é explicar as razões por que fui levado a procurar. O que elas visam. Antônio Higino. Apesar das manhas. aquela de que me recordo mais é a . Pode ser que ela tenha razão. eu transcrevo uma das "histórias do macaco". A onça aí figura perfeitamente com o feitio moral a que aludi. entre elas. ex-praça do Exército e natural do Rio Grande do Norte. não narram a vida de um herói que não se refira a eles. como me ensinou esse singular "totalista" que é o meu amigo Tigre. nasci. mas creio não me ter enganado redondamente. em que se encontra gente de todo o Brasil. todos os sonhos. contos.minhas lembranças. mas sempre me pareceu assim. está convencida de que o sonho é um aviso por parte do Mistério. revelado tudo isso na sua arte anônima e popular. de todas as línguas. um grande papel profético. de coisas boas e más que vão acontecer. mas leituras semi-esquecidas me dizem mais ou menos isso. já confessada. a natureza e o mecanismo do sonho continuam mais ou menos inexplicados à luz dos estudos mais modernos. Contudo. e Plutarco. Os livros antigos. . Se o nosso povo não o fez o seu "totem". Agora de pronto lembro-me de muita poucas obras literárias que o aproveitem. Não tenho certeza. todas as dores dos brasileiros. em que ele aparece mais ou menos com essa feição. e o intuito dessas linhas não é esse. foi um contínuo da Secretaria da Guerra. Sou homem da cidade. para vencê-lo. e dar nesta revista o resultado das minhas conversações com gente de toda a parte. Quem me contou. Não sei se ele figura em alguns dos nossos florilégios e estudos desses assuntos de folclore. ele tomou uma atitude oracular indiscutida. a origem. obter narrações. Não me recordo nitidamente de nenhum.Athalie -. Há mesmo em todas elas. cuja regra é a insegurança de tudo. pois. o povo tem. uma grande simpatia por ele. em que se mostre que a nossa cidade não é só a capital política do país. para não errar. tão cheios de alusões a sonhos divinatórios. pessoa bastante autorizada para condenar a crença que. mas também a espiritual. criei-me e eduquei-me no Rio de Janeiro. e quase todos os agrupamentos humanos organizaram e organizam uma tábua para a sua interpretação. SONHEI COM ISTO: O QUE É? O sonho sempre representou na nossa atribulada vida terrena. ou. que infelizmente já não tenho. segundo me parece. Os estrangeiros. onde fui empregado. nele. de origem popular. 20-3-1919. Em uns dos meus modestos livros.

e não seria eu quem havia de censurá-los por isso.frase com que Abner remata essa parte da narração do sonho profético da filha de Jezabel. mas particulares quase clandestinos não eram como aqueles áugures e arúspices de Roma. Mais un trouble importun vient. Quase todos os heróis e heroínas de romances e poemas sonham. antigo seminarista. o hipopótamo. não observava a sua teologia monoteica a heresia de haver um deus especial para os judeus. no Brás Cubas. quando ela tenta abraçar a sombra da mãe. tirava os óculos de aros de ouro. e declamava-o com entusiasmo eclesiástico de um patético sermão de Páscoa: Je jouissois en paix du fruit de ma sagesse. fille digne de moi. De mes prospérités interrompre le cours.. . como dizia. dizem e resumi mais acima. bons e maus. que talvez se picasse de realista. tenho. Le cruel dieu des Juifs l'emporte aussi sur toi. para acentuar bem a fala. como se depreende dela. senão nas partes. etc. essa sobriedade e esse vigor. é por conta própria.o que talvez não fique muito aquém do que as garotas desta ou daquela classe. se aproxima do seu leito. ao recitar o final dessa fala de Athalie. era o prato de resistência da nossa tradução em aula. seria um nunca acabar estar relembrando os sonhos registrados nas grandes obras literárias.je inquiéter d'un songe?) Quando o Dr. É um efeito de que grandes e pequenos autores. tem na A Relíquia uma visão ou um sonho muito pouco verossímil. agarrava o Théâtre Classique. que prediziam os acontecimentos pelo modo de voar dos pássaros. descreveu um com muita coerência para o destino literário que ele tinha. Por fim o seu furor dramático já era muito menor. é a confusão de coisas disparatadas. Proféticos ou não. e Machado de Assis. aproximava-se mais do natural e dizia: Mais je n'ai plus trouvé qu'un horrible mélange D'os et de chair meurtris. m'a-t-elle dit. esse nosso professor. punha toda força de voz que lhe restava.Grand Dieu! . Eça de Queirós. Parava nesse ponto infalivelmente. como as namoradas desprezadas. Por aí assim. que ela é uma ilusão . se não digo. depuis quelques jours. com a Summa. longo e cheio de pitoresco e pinturesco. O trecho é poderoso.Quando estudei francês. no todo. chegava bem perto dos olhos esse trecho da tragédia bíblica de Racine. certamente por causa de um tal esforço. e. Todos nós já sonhamos e sabemos bem que uma das regras gerais do sonho é a falta de nitidez de plano. Frutuoso da Costa. A interpretação dos sonhos tem merecido desde muito tempo sacerdotes especiais. mas ambos são sonhos muito pouco comuns. já lá vão vinte e seis anos. muito para mim. ao que parece. O nosso professor. Santo Tomás de Aquino. et trainés dans la fange Des lambeaux pleins de sang et des membres affreux Que des chiens dévorants se disputeient entre eux. Frutuoso atingia à imprecação de Jezabel: Tremble. mas nem sempre os sonhos literários têm essa grandeza. não tomou ordens definitivas de sacerdote devido à exigência canônica de um bom resultado no processo de "puritate sanguinis". no sonho. deste ou daquele país. certamente aborrecido com a nossa leitura arrastada e indiferente. Un songe (me devrois . Nessa passagem a sua voz era menos retumbante. se têm socorrido. quando não é com seus autores. e nem mesmo exclamava . que. que. que a vida é um sonho. o bom Dr. o famoso sonho da heroína dessa tragédia. respeitados e oficializados. ele me ficou quase inteiramente de cor. havia menos ênfase nela. entretanto. mesmo porque. vivo e desenhado em breves e poucas linhas fortes.

. à vista disso. Passam-se anos e nos convencemos de que nem burros eram. as rendas. um deles é ao jeito da analfabeta e simples "Sinhá" Maria. essa maravilha que é o Dicionário dos Sonhos. Quem anda em telhado. coelho e qualquer outro animal. Veio a tarde.. Wilsons e Clemenceaus (não! estes últimos viriam do inferno). Contam os cronistas que não havia general que prescindisse de tal horóscopo antes de entrar em batalha. É pena. de lá. pedindo-se que Deus favoreça com a vitória cada um dos inimigos. porém. porque. acertamos. Hidenburgos. aquele verdadeiro. é crime. apesar das dificuldades. tenho conhecidos que me afirmam que só se ama para ter dinheiro. no telhado. a "Sinhá" Maria. é gato. livro barato e portátil. aquele que não sabe ler e escrever. porém.."Filha! Credo! Reza um Padre Nosso e uma Ave Maria para as almas". Lloyds Georges.. nem por isso."Burra sou eu. Hoje." Desde tal descoberta da "Sinhá" Maria ficou assentado entre os jogadores de bicho que burro. todos eles divinos para combater pró e contra Mercúrio ou São José. Está aí uma afirmação que o Dicionário desmente: o Amor é irmão do Dinheiro. se a nossa época não possui sacerdotes destinados à interpretação de sonhos. Conto um caso. é gato. Eis aí! Há muitos modos de nos enganarmos com os nossos sonhos. impediu essa nossa pobreza de deuses que a guerra última permitisse à Discórdia levar a sua obra até ao céu e. sabemos ler e. nunca burro andou em telhado. que o nosso Panteon seja reduzido a um único Deus. avestruz. criou. Os poetas dizem que o Amor é irmão da Morte. cobra. o povo. não há mais disto. Hoje. cheios de "manicolas". Eu não sei. é saúde. O que quer dizer?" pergunta uma lavadeira à outra. Já folheei um e observei que a maioria das predições se encaminha para o amor e para a fortuna. enfim com tudo aquilo com que havia de se revestir para ir à festa da Glória no Outeiro. Durante o tempo em que preparava os seus quitutes. Só não ama quem não tem dinheiro. Pobre "Sinhá" Maria! Ela não tem motivos para se amaldiçoar! Todos nós vemos muitos burros nos telhados e afirmamos logo que é bicho muito inteligente. é fortuna. Pediu cinco mil-réis adiantados à patroa e jogou-os no burro. as missas solenes. e assim por diante. responde a companheira e continua: "Sonhar com dente é defunto na família".. . entretanto. ressoam. entretanto. e pôs-se a analisar o seu . sonhar com carne crua. Sonhar com excremento. mas.. Eram bonecos de papelão. um outro é ao nosso."Inácia! Sonhei hoje que estava arrancando um dente. o Empírio fazer descer Fochs. Voz do povo. porém. mas já se esboça uma. Digo São José porque é patrono dos nossos bancos católicos... Onde foi o povo descobrir essas equivalências? Não há ainda para os sonhos aplicados ao jogo do bicho uma teoria interpretativa e segura.sonho. "Sinhá" Maria sonhou um dia com um burro em cima do telhado de uma casa.pela maneira com que as galinhas e outras aves sagradas comiam os grãos. Seria um belo espetáculo . além de tal fato atrapalhá-lo com pedidos contraditórios..não acham? Reatando. . Nunca pude atinar com a relação que há entre uma coisa e outra. foi sonhando com o vestido. e são mandadas rezar por cada um dos partidos em briga. para isto ou para aquilo. 17-7-1919. se este fosse Deus. os sapatos. sonhar com defunto. mas deve haver. voz de Deus. a narração. tenho a lembrar que. Ficou triste. chegando a esta conclusão: . tem uma regra muito diferente para interpretar os seus sonhos. correu a loteria e saiu o gato. precisamos de auto-ilusões.

porém.deixem-me ir sossegado pelo meu caminho. é bem miúdo. Estado do Rio. Essa história que ai vai e me foi contada pela minha vizinha. são fortíssimos e de uma robustez muito acima da do homem.HISTÓRIAS DE MACACO O nosso macaco. da simpatia de nossa gente humilde.Por que você "concerta" o peixe com a mão? . sobretudo este. muito instado e ameaçado. muito naturalmente.dizia o mestre Simão. o macaco resolveu dirigir-se a um barbeiro e pedir-lhe que amputasse a sua cauda. é tão solerte e inquieto. O nosso macaquinho não tem esse aspecto de força estúpida. natural de Valença. O chimpanzé. Assim. porém. apesar de vê-lo bem vestido. por não ter faca ou outro instrumento cortante adequado. as suas semelhanças com o homem não são bastante flagrantes como as dos grandes macacos da África e da Ásia. quando não de esperteza e malandragem. . Certamente. Todos esses macacões africanos. Feito o que. mas de astúcia e malignidade curiosa. o povo o representa nas suas histórias. o gorila. consentiu e Simão voltou à rua extremamente contente. onde ele é fecundo em ardis e variadas manhas. O barbeiro. não o atendiam e continuavam de surriada: .Meninos. o orangotango e o gibo. continuou o seu caminho e veio a encontrar uma mulher que escamava peixe com as unhas. é exemplo disto que acabo de dizer e é intitulada: HISTÓRIA DO MACACO QUE ARRANJOU VIOLA Um macaco saiu à rua muito bem vestido.. possuem mais fortes traços comuns a eles e ao homem. caso não fizesse a operação que solicitava. é de ferocidade e bestialidade. As crianças. Dubois. às vezes. As crianças. . Ao ver tal coisa.Homessa! Que pergunta! Porque não tenho faca.Olha o rabo! Olha o rabo dele! Olha o rabo do macaco! Aborrecido e incomodado com a vaia da petizada. continuou: . não estiveram pelos autos e. por mais forte que seja. para vencer dificuldades e evitar lutas desvantajosas. o macaco indagou: . pelas gravuras dos compêndios. mas tem tal ar de inteligência. que o povo não podia deixar de impressionar-se com ele e dar-lhe a máxima importância nas suas histórias de animais. O macaco furtou-lhe então a navalha. com as suas parecenças humanas. A assuada das crianças.Olha o rabo do macaco! Olha o rabo dele! . mostrou-lhe que era impossível. Minerva Correia da Costa. . mas a que possuo. O barbeiro. porém. O "fígaro" recalcitrou e não quis atendê-lo. D.Olha o macaco cotó! Olhem só como ele está rabicó! E tudo isso seguido de assovios e outras chufas! O macaco tomou o alvitre de procurar novamente o barbeiro para que lhe recolocasse a cauda. asiáticos e javaneses. Não sei qual será a impressão que se tem deles. tal e qual o vemos nas gaiolas e preso a correntes. são mais simples e as narrativas populares procuram fazer ressaltar unicamente o pendor "planista" do símio.. que passa por ser o avô desaparecido do gênero humano. O macaco insistiu e ameaçou-o de furtar-lhe a navalha. O último desses macacos antropóides é até tido como bem próximo parente do "Pitecanthropus" do Sr. começaram a troçá-lo: . porém. porém. ao natural.

A professora . natural do Rio Grande do Norte. arrebatou uma das crianças. Pela primeira vez. que ele não podia atravessar. Seguiu adiante. há anos.Não seja por isso.Pois não tens notícias de que Nosso Senhor vai mandar um pé de vento muito forte e só se salvará quem estiver bem amarrado? Amedrontada e por não ter mão com que ela própria se atasse.perguntou a onça.. Tem você aqui uma navalha. depois de tantas aventuras.Macaco com seu rabo arranjou navalha. Antônio Higino. as mais espalhadas dão sempre a vitória final ao símio sobre todos os obstáculos inimigos que encontre na vida e nas florestas.Que fazes aí. que tem travado um duelo de morte interminável.Como? . que é hoje contínuo do gabinete do Ministro da Guerra e foi praça do exército.Ah! então tu não sabes.. Ei-lo: "O MACACO E A ONÇA Andava o macaco. de implicância com a onça. Despediu-se logo após e. Foi-se o macaco após o almoço. apesar da gritaria da mestra e das outras discípulas.. deu-lhe na telha de retomar a navalha. Não havia lábia ou astúcia que lhe valesse. no romancear do povo. caminhando. bem cedo. o que estou fazendo? Trato da minha salvação. compadre macaco? . O rio. prontos que eles foram. o felino veio a encontrar o símio trepado em um galho de pau. arrependeu-se e voltou sobre os seus passos para reclamar a farinha. O Sr. arranjou viola. como sempre.. . com farinha. vencidas com facilidade. encontrava um obstáculo que a sua manha e a sua astúcia não podiam vencer. arrependido. o que foi aceito pelo sujeito. quando encontrou um tipo que. vindo a topar com uma professora que dava bolos de pau às alunas. continuava a correr mansamente em toda a sua largura intransponível. Agradecida. A mulher recusou. com a navalha. resolveu cantar as suas proezas com acompanhamento de viola. a mulher. Viu bem que era impossível vadeá-lo. era cortado por um largo rio. e a onça com o macaco. Assim cantou: . Com ela às costas. foi indo. então. o macaco não se fez de rogado e entrou também nos bolos. arranjou farinha. . com peixe.. Para consolar-se. Propôs a troca da menina pelo instrumento. . porém. arranjou peixe. A professora aceitou e. pelo curial motivo de lhe ter dado a comer peixe e farinha. em troca. Desesperado atirou-se nele para morrer... narrou-me um conto passado entre os dois dos mais expressivos. O macaco não teve dúvidas: carregou-lhe um bom bocado de farinha. A onça é sempre o seu inimigo natural e é com ela. comadre onça.não a tinha mais. O macaco. a tirar cipós. portanto. deu-lho a comer com farinha. não a podia restituir. Esta história de um final pessimista para as manobras e espertezas do macaco. tendo andado um pouco.o que era naturalmente ele esperar . a onça pediu imediatamente: . tangia uma viola.. não é das comuns. arranjou menina. Ofereceu-lhe a farinha para fazer bolos que substituíssem os de pau. com menina. com toda a razão. Um belo dia. mas. depois de preparar o peixe. Continuou o caminho que. e..

Então. que bebia tanta água. adivinhando o que o esperava. muito atilado e esperto. Tem pena de mim que não tenho mãos! Amarra-me também pelo amor de Deus! O macaco obteve todas as juras e promessas que a comadre não lhe faria nenhum mal e desceu para atá-la num tôco de pau. no que se demorou muito. Todos os animais iam até ali desalterar-se. depois. compadre macaco. mas não saiu da tocaia. amarra-me também para eu não morrer. As outras onças conseguiram soltar a irmã. perguntava: . água jamais bebi! A vingança da onça foi mais uma vez adiada.Admiraste-te! Pois desde que surra te meti. acudiu escarninho: .Comadre. 16-4-1919. e exclamou admirada: . UM DOMINGO DE PÁSCOA Na Guerra dos Mundos. que se lhe grudaram aos pêlos. de Wells. limitando-se a perguntar: . Hoje. o macaco apanhou um cipó bem grosso. não foi.. Como esta. mas segura.É o ará. com o qual a onça não tem implicância alguma. Disfarçado desse modo. pôs-se de alcatéia num único lugar em que havia água. possuo escritas mais algumas. O suposto ouriço muito calmamente abeirou-se do poço e pôs-se a beber água a fartar. e o macaco atava mais fortemente o lugar que lhe parecia mais frouxo.Quem vem lá? O macaco com voz simulada. À proporção que a ia amarrando. eles topam com um estranho espetáculo que os . em uma das praças da cidade. ideou um ardil para ir até à cacimba saciá-la. pudesse fazer o mínimo movimento. quando os marcianos já estão de posse de quase toda Londres. espojou-se num monte de folhas secas. sem serem incomodados pelo felino: mas o macaco. Veio uma seca muito grande e a onça. Vendo-a bem amarrada. logo que se pôs fora do alcance da terrível comadre. besuntou todo o seu corpo com ele e.Que sede! O macaco precavidamente afastou-se e. entretanto. e esta jurou a seus deuses vingar-se do macaco. Tendo encontrado um pote de melaço. Além da que aí vai. sem que esta. por mais que quisesse. que não reproduzo agora para não me tornar fastidioso. Assim pôde conseguir amarrar a comadre. deu na onça uma valente surra e fugiu em seguida. Apertando-lhe a sede.. Ará é o que nós chamamos ouriço-caixeiro. muitas outras passagens desta curiosa luta são contadas pelas pessoas do povo e eu tenho ouvido diversas. encaminhou-se para o bebedouro. a onça desconfiou daquele animal. você pode se mexer? A onça fazia esforços para desvencilhar-se. para pilhar o símio e cevar nele o seu ódio recolhido.. Comadre onça começou a desconfiar de tal bicho. respondeu: .

. e. hoje. A residência do meu amigo fica longe da estação. considero aquela dúzia de crianças de várias origens e diversa pigmentação.. não está em moda olhar o céu. que isto fazia parte do manual do namorado elegante. a du Chatelet. despreocupadamente. as suas máquinas de guerra e o seu asfixiante fumo negro. que traduziu Newton e ensinou Física e Astronomia a Voltaire. parece que era "chic". folgam e riem. cuja casa fica em uma das estações dos subúrbios mais consideradas pela posição social dos seus habitantes e muito conhecida pelos namoradores. Hoje mesmo. não há muito amor às coisas do céu e todos estão preocupados com as terrenas. dizem que ela "s'élève dans les airs et le but de ses travaux est d'éclairer les hommes". o que raras vezes faço e fiz. não é tanto o maximalismo que amedronta os pobretões. quando me recolho à casa e subo a ladeira que é a rua em que ela está. paro um pouco. porém. nunca quis observar estrelas pela luneta do teodolito. creio que fazendo roda. Já houve tempo. nas varandas ou sentado o casal nos bancos do jardim. continuando a voltear. O amor que tu me tinhas Era pouco e se acabou! Parado ainda. Subo a ladeira e logo dou com uma roda de crianças a cantar: Ciranda. e houve uma mesmo. passei eu o dia com um amigo. esta sobretudo. para as quais devia ter o transcendente desprezo e a superior despreocupação que aquela meninada tem e manifesta com seu brinquedo pueril e inocente. de falidos sociais de toda espécie. então eu me lembro de ver o céu. portanto. Quando andei fingindo que estudava astronomia. Flammarion andava em moda e todo "almofadinha" daquele tempo sabia essa carta de nomes celestes. Era poético mostrar à amada o Cão. tudo o que conversei. se encontro crianças. pondo-me a pensar na importância de tanta coisa fútil que me encheu o dia. tudo o que percebi nas fisionomias estranhas. segundo Fontenelle. Lira. dá fundos . Atualmente. De noite. pelas primeiras horas de treva. Não são já as de dinheiro. Preferi sempre encarregar-me do cronômetro que repousava no chão. que cantam. Não é toa. algumas para mim unicamente. Arturo. faz-me sempre olhá-lo e é então que me aborreço de não saber o nome das estrelas e das constelações. porém. até as marquesas faziam-no.faz parar de admiração. A cantoria das crianças. tudo o que ouvi. com o seu terrível raio de calor. Durante as cinco ou seis horas que passei no centro da cidade. não é também a fórmula Rui-Epitácio que abala o povo e faz cansar os lindos lábios das mulheres. eu me lembro dessa passagem do extraordinário Wells. brincando de roda. entretanto. foram graves preocupações. Meu pensamento vem pejado de questões importantes. a Vega. que uns versos postos em baixo da gravura de um seu retrato. um troço de vagabundos. No século XVIII. É que encontram no largo. No último domingo de Páscoa. cirandinha! Vamos todos cirandar! Vamos dar a meia-volta. as meninas e infantes emendam: O anel que tu me deste Era vidro e se quebrou. Volta e meia vamos dar! Para ouvi-las. Se faz lua. e outras para os meus descendentes. enquanto todos fogem diante dos habitantes de Marte. em cima de suas máquinas que a nossa mecânica não saberia nem conceber. que não terei. as boas maneiras de um perfeito namorado não pedem tanto e as ingenuidades são mais apreciadas.

No domingo de Páscoa. entoavam as suas canções que devemos chamar infantis. A roda era de seis ou oito crianças e o chefe era um menino. tinham nascido em vários pontos do Brasil.para uma montanha que cai quase abruptamente e deixa adivinhar o granito de que é formada. que fora em Lorena. pela estrada de ferro. aquela paisagem pobre de horizonte fica magnífica. com nove anos de idade. para poetizar o quadro. que. Não é de hoje que essas canções infantis são mais ou menos amorosas e tratam de casamentos e namorados.com balouço característico que o título da canção lembra: Sou marinheiro! Sou rei! Sou rei! Adorador! Adorador! Hei de amar! Amar! És meu amor! Amor! Amor! Ninguém me peça a significação disso tudo. que estavam na roda. entretanto. Fernandes Pinheiro. foi suprida pela presença de um bando de crianças. mas ouçam cantada e dançada por crianças. há um estribilho que as crianças cantam. não houve luar. as estrelas palpitavam de amor pela terra distante. Se todas fosse eu transcrever. deve sê-lo desse rio inspirador de poetas. Como toda a gente sabe é uma cidadezinha que fica a meio caminho daqui para São Paulo. e todas elas me pareceram muito modernas. tem desafiado a sagacidade dos eruditos para traduzi-la: e houve um. Com toda certeza esse "marinheiro" da canção. imponente e grande. Não é de hoje que muitas canções populares não querem exprimir nada. Tive curiosidade de perguntar onde o Walter a tinha aprendido a cantar. Quando há luar e ele dá de chapa nesse costão. não tinhas rabos" etc. que é rei. porém. ao lado da habitação. Guardei diversas cantigas e me pareceu interessante dar alguns exemplos aqui. que hão de ficar embevecidos e encantados como eu fiquei com essa canção. nas proximidades do Paraíba. acompanhadas de gestos e meneios adequados. Eis uma delas. A seguir. por onde seu pai andara cumprindo deveres de sua profissão militar. e ela toda riu-se muito à custa do sábio cônego e doutor. mas os seus outros irmãos e irmãs. que a interpretou assim: "tinhas rabos. Estive a ouvi-las. no céu. pelas grandes massas dessa rocha que salpicam a sua vegetação escassa e rala. para conhecer-lhe o sentido e significação.um monumento da língua de priscas eras. e disse-me ele. porque nada percebo aí. que é tão comum. dançando aos pares alguns passos da valsa chamada . non tinherabos . Domingo de Páscoa. talvez não chegasse um volume razoável. que me parece chamar-se "O Marinheiro": Não me namore meus olhos Nem meus brincos das orelhas. Acontecia isso nas antigas. o Sr. Só me namore meus olhos Debaixo das sobrancelhas. Sílvio Romero citou essa interpretação. em resposta. A famosa "relíquia" . na sessão que as crianças me deram de seus brincos . Era carioca.Tinherabos. e podia observá-lo nas modernas que agora ouvia naquele domingo. Cônego Dr.. deixo. A falta de luar. em plena sessão pública da Academia de Letras. Walter Borba Pinto.à americana . precisamos ir ao dicionário e saber que "Ciranda" é uma peneira de junco. usada na Europa para joeirar cereais. Na própria "Ciranda". de parte muitas. cujo nome tupi quer dizer "rio mau". pois nenhuma era dos meus tempos de menino. portanto..

com sua voz fanhosa e indecisa. Segue-se o estribilho e por fim esta última quadra: Minha mulata bonita! Como é que se namora? Bota o lencinho no bôlso.peculiares. e vendo aquelas crianças cantar tais coisas. O estribilho. a fim de explicar-nos o seu sentido e objeto. O PRÍNCIPE TATU . Está com a cabeça quebrada. E a cantoria continuava sem eco algum na "quebrada" próxima Hoje. 21-4-1919. Onde estão eles? Onde estão elas? Não sei.. É inútil lembrar que muitas outras canções de roda ouvi nesse domingo da Ressurreição. Trata-se do "Sambalelê".. Pesei a minha vida passada. Quanto mais se vocês vissem O nariz de meu irmão. que é acompanhado de palmas e sapateados. diz assim: bis / \ Pisa! Pisa! Pisa! Ó mulato! Pisa na barra da saia! Ó mulato! Depois continua a cantiga: Ô mulata bonita! Onde é que você mora? Moro na Praia Formosa. há uma cantiga que é própria para desafiar a paciência de um sábio investigador. Sambalelê precisava Uma dúzia de palmada. De nariz de pimentão. ao tempo que a voz fraca de um menino entoava: Todos me chamam de feio.. com outros meninos e meninas.. recordei-me que tinha cantado na minha infância canções semelhantes. olhei o céu que não me pareceu vazio. Logo mais vou-me embora. E a pontinha de fora. cujo texto é assim: Sambalelê está doente.

pois vais ver! Morre já e já! Em seguida. que era um tatu perfeito. O príncipe parecia teimar em escolher esposa sempre entre as filhas do conde. foi ele criado com todos os cuidados de um príncipe e educado e instruído. Antes de tudo. À hora de recolherem-se ao quarto nupcial. conforme a sua hierarquia em nascimento. foi avisada de que devia desejar que as cerimônias do casamento fôssem as mais festivas possível. Quando o Príncipe Tatu entrou nos aposentos conjugais encontrou a mulher com a fisionomia mais natural que se pode imaginar. demonstrou desejo de desposar a filha de um conde. que parecia ter esquecido todos os propósitos matrimoniais. que não deixa de ter aquele fundo de todos os contos para crianças. numa revista de inferiores do Exército. cheia de peripécias fantásticas e intervenções misteriosas.. não tivera a felicidade de dar à luz um filho. Minerva Correia da Costa. de sacrifício primeiro. o povo parece não dar aos primeiros matéria para que os segundos organizem livros da Carochinha dignos e de acordo com os ideais da nossa atual sociedade. a quem já aludi nestas rápidas notas e cujo nome talvez tenha demais vezes citado. Da mesma forma que a primeira. mostrou desejos de casar-se com a segunda filha do conde. mesmo que fosse como aquele tatu! Os seus desejos foram satisfeitos. Aconteceu-lhe a mesma coisa que à primeira noiva. porém. que tinha três. pois não sou nem folclorista nem educador.caçador com . Apesar de ser assim. É uma história complicada e longa. A moça aceitou o pedido com repugnância e impôs que o seu palácio e residência fosse decorado e guarnecido como se se tratasse de um luto e o casamento se fizesse de preto. Não é caso para isso. portanto. que não a verdadeira. que nunca vi escrita nem nunca ouvi narrada senão pela pessoa que ma pronunciara pela primeira vez. Ao fim de alguns anos o Príncipe Tatu. viram passar um . infelizmente. Abstenho-me de discutir se essa generalização é segura e se é útil. em Todos os Santos. disse: . estrangulou a mulher. para afinal obter-se a felicidade completa. até então. o Príncipe Tatu. cujo nome me escapa agora. Tendo crescido e chegado a época própria ao casamento. guardei uma: "História do Príncipe Tatu". e que o recebia como um verdadeiro noivo da . que já encontrara a mulher no leito.Ah! meu Deus! Vês tu!. um tatu às costas.Ah! Quiseste que o nosso casamento fosse de luto. Chegou. nesta cidade.Das notas que andei tomando há anos. A rainha.. e por isso disse para o rei: . ditos. entendeu a segunda que o casamento fosse feito de luto e as salas do palácio em que ele se realizasse tivessem aspecto funéreo. convém notar que já dei uma redação minha a essa história do Príncipe Tatu. e dentro de menos de um ano a rainha veio a ter um filho. A condição foi aceita e assim os esponsais foram realizados. conforme me contavam nos azares dos passeios e dos encontros. de abnegação. que tinha por madrinha uma boa fada. a vez da terceira. A publicação foi feita em dois números e ambos perdi-os eu. crendices de povo. Foi ela uma senhora da minha vizinhança. de histórias. natural de Valença e residente à rua Piauí. Houve espanto e mesmo sua mãe quis dissuadi-lo desta sua tenção. e esta. portanto. com muitos erros de revisão. Publiquei-a. mas. contos. Realizaram-se elas. cuja morte foi atribuída a outra qualquer causa. com muita pompa e brilho como se fosse o enlace comum de um príncipe normal e uma princesa qualquer. guardei as notas e agora as colijo da maneira que se segue: Estando uma vez o rei e a rainha à janela do seu palácio. Quem me dera ter um filho. Trata-se de D.

. quem deve saber disso é minha filha. seu marido de poucos dias. não se deu. e respondeu ternamente.. Andou muito.Minha velha. de grande velhice e largo olhar de bondade. E ela. com voz macia e pausada: . não se deu.Ah! ingrata! Fôste revelar o meu segredo! Faltavam-me só cinco dias para desencantar. não pudesse mais retomar as formas do animal que aparentava a todos ser a sua. o príncipe despertou e falou assim dolorosamente: .perguntou a princesa. pois não tardará. mas sem deixar de contar dentro de uma semana como se chega ao país dos Campos Verdes. devemos por isso interromper a narração para continuá-la na noite seguinte. despertando ele e não a encontrando. Seja . quer na anônima. não satisfeita de saber-lhe o segredo. sempre entraram em toda e qualquer literatura. quer na popular.. é ela que nos ama. Dito isso. a rainha. e o príncipe não a recriminava. porém. . mas que o encantamento fizera animal. ela. que ela venha. . Passaram-se meses e anos e ela. domesticados e selvagens. contou-o à mãe. Julgando que lhe fizessem bem e viesse ele a ter sempre a forma da nossa espécie. é ela quem percorre todos os descampados. junto da qual estava uma velhinha. partiu em procura das tais terras que ninguém sabia em que canto do mundo ficavam. e. que os jornais trazem para o gáudio dos seus leitores artísticos. Sabedora que foi do caso. Muito contente com isto. é ela que nos beija. deve ser. o príncipe seu filho com a forma humana. à beira da estrada.Minha netinha. Tal. sem que ela pudesse perceber como. CONTOS E HISTÓRIAS DE ANIMAIS Os animais domésticos. não pôde por mais tempo suportar a ausência do Príncipe Tatu.só chorava. a Lua. o Príncipe Tatu sumiu-se dos seus olhos totalmente. se tu me quiseres ver. Arrumou a trouxa e. quem o saberá. muito e muito por esse mundo de Cristo. Sentindo o cheiro de osso queimado. certa noite. porém.Agora. minha netinha.onde ficam as terras dos Campos Verdes? A velhinha abandonou um instante a renda que estava fazendo sobre a almofada. Espera. Hoje.. A princesa nada dizia. esperava que o seu marido voltasse da mesma forma misteriosa como a que envolvera o seu desaparecimento. e topou afinal com uma casinha. . Como nas clássicas histórias da Princesa Scheherazade. sempre cheia de saudades.espécie humana. mas continuava a falar com muito queixume na voz: .. sem norte e sem guia. 8-5-1919. portanto. parece. A moça ficou exuberante de alegria. tens que ir às terras dos Campos Verdes. Desde muito cedo que os homens se associaram aos animais para fazer a sua jornada na vida. o Príncipe Tatu retirou o casaco e veio a ser o homem bonito que era. a mãe e mais a sua nora lembraram-se de queimar a casca óssea do tatu na persuasão que. não pôde a mãe conter a curiosidade e veio ver. quer na pessoal e cultivada. Tal. leitores amigos. cheia de saudades. que a aurora vem rompendo. completamente. Deixamos de pôr aqui o habitual "continua" dos romances-folhetins.

e as conservaram para a nossa atual edificação. e ia já pelo fim. mas não nos deram as suas qualidades irredutíveis de caráter. A transcendente imaterialidade do Divino Espírito Santo é representada na iconografia católica por um pombo. a serpente. A mistura dos animais com os deuses. sob pena de morte em caso de desobediência. não admitia o sacrifício de nenhum para sustento do homem. esse hipogrifo cheio de candura que suportava candidamente os arrebatamentos do sonho generoso de justiça do seu amo e amigo. o melhor corcel da cristandade. de ímpeto. mas que no livro de Crusoé nos parece tão simpática. de ardor. como era de esperar. para exibir leituras ou erudição. exceto o caramujo. e todos os outros guerreiros de antanho possuem os seus "destriers" bem crismados e extremados da turbamulta dos cavalos anônimos. certos animais à própria Humanidade. mais abaixo. rei dos animais. a minorar. de coração e inteligência . o paladino dos paladinos. só lhes viram as aparências. os aspectos de bravura. o iluminado Çakia-Muni. de Minerva. como toda gente sabe. São João Batista. Van Gennep. no seu conhecidíssimo livro. galos. que lhes contaram as façanhas nas festas. crônicas e romances. com os quais se comemora o nascimento de Jesus Cristo. ele é unicamente o corcel de D. os "clercs". traz uma narrativa de animais que me parece típica para o gênero e que me atrai entre todas. e nos presepes. seja para sacrificá -los. ora com esta intenção. os pombos. na espontânea atividade literária de todos os povos. a fim de obter alimento. e Buda. Pode-se dizer que. Comte incorporou. Os troveiros. das justas e torneios medievais. para que o cavalo entrasse na literatura com a posse de sua alma individual. os "preux" esforçados das batalhas. tem Bayard. tem Neillantif. Além deste animal. batizavam os seus ginetes de guerra com nomes flamejantes e significativos que ainda vivem na literatura e na memória dos homens. que não é das mais naturalistas e zoomórficas. os trovadores. os altissonantes de alma e couraça. dos poemas hindus. é coisa fácil de verificar em todas as religiões. há o burro. o "bon cheval courant" da sua imortal gesta. para esclarecer o meu pensamento. galinhas. mas meu propósito é outro e não convém perdê-lo de vista. de Vênus e assim por diante. discreteando. em geral maçante. um dos quatro filhos d'Aymon. dando-lhe a larga visão da sociedade e dos homens . enfim. Rolando. A que reproduzo aqui.como simples companheiros.a sua alma. Todos compareceram. é figurado com um carneiro ao lado. a águia. É aquela em que se explica a origem de certas deformidades ou melhor singularidades morfológicas de determinados animais. ora com aquela moralidade ou aquela outra filosofia. certos santos têm o acompanhamento de animais. é originária da África. com aquela sua generosidade de filósofo pobre. o cavalo é animal de Netuno. a vaca.quem não se lembra dela? Podia ainda falar no "Roman de Renard". Rocinante não se parece com outro qualquer cavalo. Quixote. a quebrar o isolamento que oprime o seu companheiro da ilha deserta. Ei-la: "O elefante. de Júpiter. orgulhoso e bom. Na greco-romana. quando os animais se puseram a gritar: . Foi preciso que Cervantes nos pintasse o doce e resignado Rocinante. O Sr. quem não se lembra do irrequieto e falador papagaio de Robinson Crusoé? Dessa ave doméstica. "A conferência teve lugar. Na nossa religião católica. sob a presidência do elefante. seja com qualquer outro sentido. Os paladinos. os animais que os cercam figuram humanizados. narrando. sentenciando. eles sempre viveram entrelaçados aos sonhos e devaneios da humanidade. Reinaud de Montauban. dos combates singulares. das fábulas. falando. seja como atributos de sua força e do seu poder. etc. convocou um dia todos os seus súditos para uma assembléia.

tu e toda a tua geração. depois de Pöe e Baudelaire.". damas de sociedade e outras pessoas dignas de verem o seu "interior" estampado nos jornais catitas e revistas de elegância. terás teus olhos na ponta dos chifres. É bicho que Nosso "Sinhô" não gosta. Doravante. Passou. estão em moda entre os literatos poetas.. muito fiel e dedicado. é bicho "madiçuado" por Deus. porém. passeando. Foram esses os motivos que me fizeram voltar e me decidiram a carregar a minha casa nas costas. bichos e ele pedia água. entre nós. sim..Recebi-a. sem lhe responder à pergunta. Contava-me. Nossa Senhora não encontrava ninguém que a tirasse da perplexidade. meu saudoso preto velho o motivo por que ficaram malditos os gatos. contam as nossas velhas.E por que tardaste? Não recebeste a ordem? ". pai elefante. nos nossos dias. arremedou-a nas palavras e exagerou para melhor debicar o modo por que Nossa Senhora tinha articulado os lábios. e eu temo muito o frio e a chuva. mas veio a sabê-lo. até a consumação dos séculos! Assim foi e ainda hoje. ". então. e poderás escondê-los. Depois. carregarás sempre.Vem aí o caramujo! Está aí o caramujo! "O caracol aproximou-se todo trêmulo. a maré enche ou vaza? O peixe que devia ser. cabinda de nação.Donde vens? perguntou-lhe o elefante. gato é bicho do diabo. quando se aproximou mais das águas e viu um linguado que andava próximo. O linguado não sabia com quem estava falando. Em todo o caso. quando Nossa Senhora lhe disse: . mesmo no prato. Não é só esse animal que mereceu dos nossos deuses católicos punição ou maldição pelo seu mau proceder em relação a eles. então. Mas. de um natural mofador e grosseiro. Cachorro. a fazer não sei o quê. um negro velho. assim disse: "." Diz o Sr. nós lhe vemos o estigma.Ficarás com a boca torta. respondeu-lhe o caramujo. quando os animais ouviam e falavam. para punir-te de ter faltado à conferência. "O elefante-rei riu-se muito e durante longo tempo com essa explicação. que viveu com a minha família e me viu menino de sete ou oito anos. por esse tempo. Perguntou com toda doçura e delicadeza: . que como castigo lhe deixou no seu corpo o justo ressentimento de nossa Mãe Santíssima. tendo morrido há pouco tempo. um gato que Nosso Senhor julgou ser capaz de fazer a obra de caridade que o Homem-Deus suplicava lhe . à mesa do almoço ou do jantar. Van Gennep que certa tribo africana acrescenta a esta história a consideração de que o castigo não foi grande. a tua casa nas costas. que ele assim ficou por ter tomado a liberdade de caçoar com Nossa Senhora. Assim. logo que os ramos das árvores os ameacem. É corrente. não gostava de gatos e não me cessava de explicar essa sua ojeriza: . porquanto o caramujo não precisou trabalhar mais para ter casa. Nosso Senhor Jesus Cristo estava na cruz e teve sede.. ". ". tu só me deste um pé para andar. não procederam os nossos severos e terríveis deuses mais ou menos judaicos com o linguado. os ramos me cegavam.. Todos conhecem esse peixe que tem a boca numa disposição especial e anormal.Da minha aldeia. a fim de pronunciá-los. levando naturalmente o filho ao colo. que. Ninguém se importou e não lha trouxe. durante toda a vida.Linguado. como diz o povo. Andava a mãe de Jesus por uma praia."Seu Lifonso". Não havia meio de atinar se o mar estava enchendo ou vazando. Manuel de Oliveira. mulheres. pai caramujo. e me pus logo em caminho. Passaram homens.Tu falaste claro. torta.

mas que. . "Nosso Sinhô" mardiçuô ele pra sempre e até hoje "ele" é "mardiçuado" por Deus. em gaiolas. os cipaios muçulmanos da Índia. sem .Cachorro não fez isso. É sobre o seu sofrimento. . .fizessem. Buscou água fresca e deu a "Nosso Sinhô". para pesquisas bacteriológicas. a locomotiva matou-lhe os burros. ao atravessar a linha da Estrada de Ferro com o seu carro.que é bicho mau e do "demônho".fala o Manuel de Oliveira. coelhos de olhar meigo e cobaias de grande esperteza.. tendo de mordiscá-los antes de enfiá-los na culatra das carabinas. julgam encontrar em tal coisa uma singular deformação de um totemismo primitivo e esquecido. Os livros conhecidos. é bicho que tem parte com o “capeta”. entram mais na nossa vida do que supomos. outros. Há muitos dessa literatura subjacente que talvez nem tenham chegado aos depósitos oficiais de livros e permaneçam nos desvãos poeirentos dos "sebos". Muitos autores querem ver nessa ojeriza. sabe o que fez? Pois fez isto: "mixô" numa caneca e deu a "bebê" a "Nosso Sinhô". É coisa muito sabida o horror que os judeus e muçulmanos têm ao porco e a tudo que a ele se refere. que chorou.Antes fosse eu! ai mô gado!" disseram-me que ele pronunciara ao chorar. português carreiro de capinzais da minha vizinhança. 17-4-1919. infelizmente. lembrei-me daquele "Manel Capineiro". porém. citados e estimados.perguntava eu.E o cachorro. podemos afirmar que os animais irracionais. havendo outras muitas que explicam a maldição de certos animais.. . quando certa vez. VII HISTÓRIA DE UM SOLDADO VELHO A literatura nacional possui obras maravilhosas que pouca gente conhece. "Seu Lifonso" . A história de Manuel de Oliveira é muito conhecida e familiar entre nós. Por suporem ser de porco a graxa com que deviam umedecer os cartuchos de umas certas espingardas antigas. desta ou daquela forma. a serviço da Inglaterra. a "Jupepa" e o "Garoto". nada valem à vista dos que ficaram esquecidos e à mercê das traças das bibliotecas. mas outras personalizam-nos francamente. Manuel? .Gato. Quando. e vi em uma sua dependência. o pobre português mostrava como aquelas humildes alimárias interessavam o seu destino e o seu viver. Na sua manifestação ingênua. tão poderosa sobre as almas duma grande parte da humanidade. Num caso ou noutro. sobre as suas próprias vidas que nós erguemos a nossa. estive no Hospital Central do Exército. ". uma prescrição com fim higiênico feita religiosamente pela Biblia. agora não me acodem. as suas deformidades. Hoje. levantaram-se em uma formidável revolta que pôs em perigo a dominação britânica nas terras do Ganges. Algumas não personificam o Deus ou o Santo que os castigou. seja qual for a razão. Rogou ao gato que lhe trouxesse um pouco d'água para lhe abrandar a ardência dos seus lábios ressecados. por isso ele é bicho de Deus. há meses.

mas que não me atrevo a escrever aqui. mas tenho muitas razões para acreditar que tivesse passado pela legendária Escola Militar da Praia Vermelha.lho de Magalhães. apesar de muito expressivo e curioso. Não é meu propósito. e aprovado pelo Conservatório Dramático. de que nós temos a cortante e eloqüente imagem viva nos Srs. além de abracadabrante e cívica. Bote. nos leilões das livrarias das velhas famílias portuguêsas. Como este. Rui Barbosa...o que não impede de chamar o seu único filho varão de "unigênito". no prefácio. capitão Almeida Júnior. é sincera. Todos os bibliófilos ricos do Rio de Janeiro podem comprar. a fazer descobertas dessas relíquias. tenho uma brochura desconhecida. A sua leitura. nunca! É um drama histórico. a peça do Sr. Há um muito conhecido. republicana e cívica. tanto mais que na Academia Francesa já se tratou há tempos do "argot" parisiense. Para mim. original brasileiro. pelo Sr. dela se propagou pela cidade inteira e chegou até aos jornais e à literatura escrita. como processo de formação de palavras novas.encontrarem mão amiga que os traga para aquela forte luz da grande publicidade a que eles foram destinados ao nascer. O autor. em 1893. Além de suas singularidades dramáticas e cênicas. Os estudiosos dessas coisas que procurem determinar a sua origem. o verbo "engrossar". porém. manuscritos e "in-fólios". como toda a caserna. havia de encontrar muita brochura curiosa e reveladora de novos predicados intelectuais de seus autores. cuja conta não se pode bem fazer. histórica. do 15 de Novembro. Lauro Müller e Lauro Sodré. de anexins e sentenças de sainete peculiar. Toda a gente sabe que esse verbo de jargão nasceu na velha Escola Militar. capitão do Exército. e. Lopes Trovão e mais sete próceres republicanos. Em falta de cronicons e códices manuscritos de antanho. denuncia uma admiração filial pelo Sr. tinha. muitos termos da nossa geringonça. Trata-se de uma obra filosófica. 47. A antiga escola da Praia Vermelha. com todas as letras. Prefaciado pelo falecido Figueiredo Coimbra. em um prólogo. O Sr."Às minhas filhas. o quase isolamento dos seus alunos . era muito favorável à formação de termos de gíria. ou parece ter sido. mais cívica do que as recentes canções militares que o carnaval fez esquecer. O seu autor era.A redenção de Tiradentes. que interessem a qualquer período da nossa história. pois há uma indeterminada dedicatória . Não tenho documento para afirmar que fosse do Exército. Foi impresso nesta cidade do Rio de Janeiro. trata-o sempre de Sr. Fernando Pinto de Almeida Júnior. e agora não estou disposto a repeti-la. esse encouraçado literário é precedido por uma porção de "vedetas" explicativas e contratorpedeiras de ofertórios significativos. com divisas adequadas e outras coisas. entre os meus poucos livros. A sua obra que.. porque. Se me sobrasse fortuna e lazer tivesse eu. Ninguém mais a teve. ditos e outras formas de dizer que se tomaram populares. nasceram lá. como diz na capa.quer admiração por esse senhor só pode existir nos que passaram por aquele estabelecimento de ensino militar. tendo o "visto" da polícia. terrestre ou flutuante. Almeida Júnior é preciosa porque foi onde pela primeira vez vi grafado. oferece o seu drama a Saldanha Marinho. Imagino que tal se desse. tem ou terá. senão fesceninas. eu a fiz em anos passados. a diversas pessoas de sua família. A sua segregação parcial do total da sociedade. quatro atos e quatro quadros. na antiga casa Mont'Alverne.. isto é. havia de andar pelas lojas de livros usados. mas a minha . Figueiredo Coimbra. à rua Uruguaiana. além destes. por longas páginas. analisar a peça singular do capitão Almeida Júnior. cujo valor é para mim inestimável. de anedotas picarescas. ela pode fornecer ao exegeta arguto e ágil de espírito vasta documentação do sentir dos heróicos cadetes de 1889. crítica. pode bem ser que fosse da Polícia ou da Guarda Nacional. um sentimento desses ou de qual." .

pois a sua vida. Daí. A sua história. portanto. embora por fragmentos e alusões figure no falar familiar.do resto dos homens de outras profissões e ofícios. tanto mais interessante quanto desconhecida do grande público. cambiantes. de grande sociabilidade. . quanto à exigüidade dos vencimentos de suas reformas. Participando da sociedade em geral e sendo habitantes de uma caserna estavam. que a tornava ainda mais seca e mais árida. a monotonia da vida que exige conversas. e com um pensamento diretor que lhes acaricia a sua desfavorável situação social. sobre os seus superiores civis ou militares. natural de Aracati. discípulo de Augusto Comte. há histórias. Euclides da Cunha manifestou. além do calão quarteleiro. nos seus escritos. além dessa feição peculiar à sua natureza. Era corrente até bem pouco. e também nas anedotas e "casos" contados pelos seus ex-discípulos. que entre nós são em geral originários das mais humildes camadas da sociedade. pândegas adequadas entre eles. que sempre foi uma criação do pendor dos homens para o seu agregamento. em que a rigidez de certo positivismo estreito e pedante não domina mais. de dedicações de uns alunos pelos outros. no Ceará. certamente. seus ardis ou esperteza de meios destros. justificava essa crença. de proveniências familiares as mais diferentes. No seu escrever. Entre os soldados propriamente. uns modos de linguagem própria e literatura oral sua. etc. eu creio mais literária do que simples e espontânea amizade de colegas de mocidade a que existia entre eles. entretanto. esses dizeres pitorescos saem das casas de jogo: "deu o suíte". que aquele instituto de ensino era o primeiro estabelecimento científico do mundo. Alberto Rangel é o único que assim é apontado. dos quais publico hoje um. pejado de metáforas e comparações científicas. Aquele estabelecimento tinha. algumas qualidades e atributos que vieram encontrar a sua expressão máxima em Euclides da Cunha. e ter tido ela influência decisiva nos nossos motins políticos. com o seu cômico reduzido. tinha a pretensão de filósofo. a Escola Militar era de fortes camaradagens. essa capacidade de criar gíria. para ele sempre um ignorante. até à tortura de procurar um estilo original e inconfundível. Tendo estudado difíceis disciplinas e. Sinais dos tempos? Não me compete examinar tal coisa. criados com os elementos que lhes estão à mão. Talvez sem fundamento. e os consola da sua pobreza e do seu estado de obediência e inferioridade. pode-se notar esse modo de espírito peculiar a ela. Não se nota. desejo de esconder a colaboração do inconsciente sob a crosta espessa das leituras. há sempre a preocupação de demonstrar saber universal. a influência do seu primeiro meio intelectual e o seu orgulho mental devia tê-lo tomado muito cedo. no seu estilo. contos. que talvez não tenha muito de original para o comum. desdém pelas impressões do primeiro instante. A sua alma era seca e árida. com estes ou aqueles elementos. de menino. entre seus alunos. Atualmente é contínuo ou servente da Secretaria da Guerra. e todo ele cheio de um orgulho intelectual desmedido. suaves esbatimentos nas transições. devia levar os cadetes a criar. "bancou o trouxa". Hoje. não registra a existência de fortes amizades de moço. Não possuo muitos. as conhecendo. que anda contada de boca em boca. o encontro forçado ali de gente oriunda de vários lugares. Entretanto. mas literato até à medula. a demonstração das recriminações dos soldados. Uma carta do doutor Audiffrent. talvez. sem o sentir. Nessas historietas e anedotas. há sempre como moralidade a vingança ou a vitória da praça com seu espírito. O Sr. devia aparecer algum que colhesse da boca dos soldados exemplares dessa literatura plebéia. abandonos. que me foi fornecido pela ex-praça Francisco José dos Santos. de homem de ciência que despreza o simples escritor. levadas ao extremo. Nas pequenas revistas da velha escola da Praia Vermelha. até ao rebuscamento dos vocábulos raros. Entre os nossos jovens oficiais. mas tenho alguns. é. modificações e derivações na linguagem comum. de criança. Voltemos ao assunto. os seus alunos muito adequados a trazer para a massa os modismos que o quartel criava.

e ambos entram. puxou uma cadeira e sentou-se. o que fez ele? Comprou um pato e saiu a revendê-lo. e o "Soldado Velho" também. representantes das classes que antigamente disputavam o domínio da sociedade. ficou interiormente furiosa. Chegando na sala. porém. O seu companheiro. mas o outro continuou a falar. O eclesiástico não lhe explicava o fato. pois. um dos estafetas para entrega da correspondência. "Soldado Velho" que bispou alguma coisa no caso disse que estava à espera do pagamento de um pato que vendera à família. portanto. Chegando perto de uma casa saiu-lhe uma criada a comprar o pato. isto é. O frade já lhe pedia pelo amor de Deus que não falasse mais. A dona da casa continuava furiosa. que lá não são civis como nas outras secretarias. quando eu era efetivamente oficial da Secretaria da Guerra. O marido não saiu mais e a mulher cada vez mais ficava amedrontada. o soldado o acompanha. a praça reformada. Após certo espaço de tempo chega um frade para penetrar na casa e pergunta-lhe o que estava ali fazendo. ele disse o custo de dois cruzados. vai falar à patroa. não cessou de falar. Dispõe-se depois a entrar na casa. fazendo das tripas coração. não saiu mais do portão. o "Soldado Velho" também. Ele disse que o custo era de dois cruzados. Chega a noite. a mulher tranca o frade e o soldado em uma alcova. manda pagá-lo. Deu-lhe o frade mais outro conto de réis ficando sem vintém.Não parece muito recente. "Soldado Velho". "Soldado Velho" teimou em afirmar que no dia em que comia pato não podia estar calado. Santos. mas praças de certa graduação. O religioso puxa do bolso da batina o dinheiro e paga. Pediu-lhe este que não falasse ali. se tal fizesse. O frade logo perguntou quanto era. O soldado. além do mais. lê-la: "HISTÓRIA DE UM SOLDADO VELHO "Soldado Velho" deu baixa do serviço do Exército. o frade. Era o dono da casa. Vamos. que manda vir o pato e. Ora. ao qual não faltou o pato de cabidela. mas imediatamente continuou a dizer que no dia que comia pato não podia ficar calado. deu-lhe a batina de sêda. servindo na Secretaria como "correio". mas. tem aquele velho espírito de antagonismo entre o padre e o soldado. por sua vez. mas aceitava silenciosamente a situação. Já estava a terminar o jantar quando bateram à porta. e assim vão os três até à hora de jantar. acompanhado por aquele homem desconhecido. mas sem saber o que devia fazer. a criada. provocou uma conversação com o frade. para ver se ele se calava. O frade gratificou-o com um conto de réis para que ele nada mais dissesse. Recebeu o dinheiro o "Soldado Velho". A dona da casa vendo o frade entrar. o militar fez o mesmo. quando me contou a história do "Soldado velho" era ainda cabo efetivo do exército. quando foi aí pelas 10 horas. O frade não tinha dado até ali uma palavra. À vista disto. porém. vendo que todos já estavam dormindo. por não servir mais para o trabalho. Eu a dou mais abaixo quase como o ex-cabo ma forneceu por escrito. O frade tomou lugar na mesa. . ela. que parecia peculiarmente muito íntimo da casa. pois. Estava tudo perdido. dizendo uma coisa é outra sem relação com ele. nem com coragem para perguntar ao frade que homem era aquele. vencendo uma minguada diária. O soldado que recebia em recompensa de muitos anos de serviço era um cruzado. eles .

que era pessoa de grande reputação. daí essas simplistas generalizações de nossos falsos sábios. Os estudiosos de folclore já têm observado essa unidade espiritual da raça humana. propôs ao militar. com medo. o "Soldado Velho" ouviu e respondeu com outro formidável brado. "Soldado Velho". despiu-se de toda a roupa e entregou ao tagarela para que ele não falasse mais. . em qualquer parte dela. pois ele. Já sendo meia-noite. meteu as mãos na porta e saiu nu. que ainda não estava vestido com a batina. vendo a resolução do "Soldado Velho" e que tinha mesmo de ir à presença das autoridades. a batina de sêda do frade e todos os seus panos menores. VIII SUPERSTIÇÕES DOMÉSTICAS Houve quem dissesse que a superstição é a religião do homem que a não tem. percebendo que não tinha mais o que dar. Isto não quer dizer que todos os homens. Quem pagou o pato? Hoje. quatro cruzados. O homem. de todos os tempos e todos os países. soldado. não quis logo sujeitar-se à prisão. a sentinela soltou o brado de alerta. ele que era muito conhecido e respeitado por todos. vivendo aqui. O Sr Van Gennep diz que da Cendrillon de Perrault. quando não tupaicas. mas é idéia feita que só os italianos o sejam e um pouco os espanhóis. cheio de mistério e cercado de mistério. mas "Soldado Velho" não queria saber de nada. dar-lhe doze contos. "Soldado Velho" aceitou o trato. O dono da casa. desde a Europa até ao Extremo-Oriente e à nossa América. ali e acolá. a depósitos na nossa consciência de crendices africanas. o seu desejo era só falar. as mulheres principalmente. O homem. cantigas. Todos nós sabemos disso. há mais de quatrocentas variantes. as superstições abundam. Não podia de maneira alguma soltá-lo. acompanhou o frade. Assim foi feito. às vezes são bem européias.ficariam desgraçados. O frade. fábulas. mas com a condição do dono da casa mandar a sua mulher contar e trazer ali onde estavam. a maquia. desta ou daquela seita ou fé religiosa. quanto às origens das nossas crendices e abusões. onde os sociólogos profundos atribuem as nossas. não as tenham também. "Soldado Velho" pula em seguida ao dono e o prende. O homem chamou a mulher e mandou que ela contasse os contos de réis com toda a pressa e os trouxesse. ritos particulares e superstições uma relativa analogia substancial de temas a se manifestar com aparências narrativas de formas variadas. que. sempre procura nas coisas externas sinais seguros do seu destino e marcos certos para o seu roteiro na vida. É própria da nossa fraqueza mental essa pressa em explicar com criações arbitrárias o que não podemos cabalmente elucidar de outra forma. Dá-se lá o que se dá entre nós. O frade. conhecida por nós como A Gata Borralheira. que só vencia um pobre cruzado por mês. se ele o soltasse. tanto mais que o preso tinha dado um tiro num homem. era o rondante e tinha que cumprir o serviço. "Soldado Velho". Estava o "grosso" preso e bem preso. "Soldado Velho" não queria saber de nada. Este pulou uma janela mas o dono da casa pula atrás dele e dá-lhe um tiro. vendo nos seus contos. É uma atividade fundamental do nosso espírito que se traduz de vários modos desde os samoiedas e esquimós até os araucânios e patagões. O dono da casa certamente despertaria e era capaz de matá-los. Na Europa. saiu da aventura com 14:OOO$. 10-4-1919. na cadeia. vexado.

por essa abusão familiar de nossa gente pobre. quando a representa mordendo a própria cauda. mas disso a afirmar que seja devido ao "magnetismo" da cobra a atraí-lo. Tento unicamente com o que tenho observado e ouvido. apanhada ainda quente dos pés do cavalo quando a perde. vai uma grande distância. pois. Todas elas se dirigem contra o Azar. atravessando gerações e as situações mais diversas de fortuna das respectivas famílias. gozando de uma extensa voga na Europa Central. que não é o vulgar. com o estudo dos árabes e berberes. tem a virtude. em um caixão de sabão. uma das mais curiosas é a superstição caseira que se transmite de pais a filhos. vaticina grandes desgraças domésticas. É artigo de fé entre a nossa gente roceira que ela não morde mulher grávida. A minha tenção. misteriosas contrárias à nossa felicidade. É crença familiar entre nós que os pombos são. desde que comecem a fugir. pregada atrás da porta da entrada. Negam observadores autorizados essas proezas da cobra. porém. Muitas vezes. ouvido à noite. às vezes. O certo é que quem tem vivido na roça ouve. Há até. indicam que as coisas vão desandar. e perde o poder de locomoção desde que a mulher dê três voltas no cordão que lhe amarra as saias. determinar o foco de sua irradiação. sem nenhuma outra pretensão mais elevada. dizem.O que se dá com a conhecidíssima Gata Borralheira dá-se com quase toda a produção literária coletiva e anônima cujas manifestações são encontradas em todas e as mais diversas partes da Terra e na boca de raças diferentes. segundo a minha fraca lembrança. mas para a qual será muito difícil achar uma razoável explicação. um modo particular de gemer dos passarinhos. como negam também que ela atraia o passarinho que quer engolir. A serpente também. Nunca em casa me permitiram que eu os tivesse. que eram na antiguidade consagrados a Vênus e cuja posse no regime feudal constituía um privilégio de senhor. entretanto. errando este. pousados nas árvores. Todas as superstições caseiras ou familiares têm quase sempre por base o temor dos gênios. como sempre com os meus gostos. a nossa cobra. e. a Atena grega. têm por fim invocar a felicidade e pedir a prosperidade para ele. registrar impressões. mas os sábios negam isso. mas. dar o meu depoimento individual. e o bramanismo simboliza nela o infinito. É uma crendice geral que qualquer observador pode colher entre as famílias pobres e remediadas. mortes. com os níqueis que ajuntava em um cofre. nada tem de maléfico. tão cheia de legendas aterradoras e de habilidades cruéis. são perseguidos. e cheguei mesmo a projetar. quis. mesmo porque não me sobra nem a competência nem a vasta leitura que ele exige. arrulhantes pombos das beiras das casas. perdas de emprego e outros acontecimentos nefastos à vida satisfeita do lar. possuir um casal. não se podendo. Desde menino. não distingo no objeto deles o que é de luxo ou o que é comum. Em toda a parte. a cobra vem certa pela fumaça do deflagrar da carga da espingarda e morde o atirador. sinal de prosperidade no lar. A ferradura. ou eram no meu tempo de menino. porém. não é a de fazer um estudo mais amplo sobre o assunto. Os roceiros dizem que a cobra salta para morder o indivíduo que a afronta. das forças. é consagrada a Minerva. entre os matutos a recomendação de que se deve visá-la bem quando se a quer matar a tiro. entretanto. pelo menos nos países europeus e os que surgiram deles. algumas. essa ave é na mitologia consagrada a um Deus ou Deusa que. que acarreta moléstias. . Já o notei. nas minhas conversas com pessoas do povo e gente humilde. demonstrou a existência na África do Norte de múltiplos temas. de trazer a satisfação para a casa que a possui. Nas manifestações da psicologia popular. a coruja é tida como uma ave de mau agouro e o seu pio. Os pombos. O autor que citei diz que a conquista da Argélia. gosto muito de pombos. o pombal. quando se reproduzem muito.

porém.Na sua generalidade. há outras para a proteção contra feitiços e "coisas feitas" de qualquer origem. do que somos e do que seremos. porque traz azar. as crendices populares visam evitar. pendurados no pescoço. Além desse amuleto e dos santinhos. que nos voltamos para que a obscuridade do viver não nos cegue de todo. mas mesmo nas centrais. sem certeza do que fomos. e. tendo como fito perturbar a felicidade da nossa existência. mas os lares também têm. que os indivíduos usam.. há as que se empregam em conjuração de moléstias. há também o costume de escrevê-las e enviar pelo correio aos amigos. nascida da convicção de que a nossa sorte é insegura e que somos cercados de entidades superiores e pouco amigas da nossa felicidade e repouso. à custa de regrarem a nossa sede e fome de Infinito e de Deus. o "azar" . IX REZAS E ORAÇÕES A oração. perante o que vier. desde a meninice mais tenra. ninguém quebre um espelho. Tenho nos meus papéis um espécime dessas. a nossa mais urgente necessidade é estar bem com o mistério. Ninguém derrame tinta ou azeite no chão. porque traz azar. e. Para evitar tais coisas. ninguém deixe um calçado com a sola voltada para cima. o povo atribui poderes superiores e miraculosos de várias aplicações. Há as que são destinadas a fins de cura.. que é como caminhamos na nossa breve existência. A luta contra o azar. há a figa-de-guiné. sem marcos. não só nas freguesias afastadas. Chamam a isto pequenos saquinhos. espontâneo e inexplicável ou provocado pela inveja de inimigos e desafetos.. e assim são inúmeras as superstições que procuram evitar o azar e todas elas são obedecidas cegamente. às vezes mesmo orações com a invocação de certos santos ou palavras cabalísticas. porque traz azar. para afastar desgraças e feitiços.. é para essas pequenas e ingênuas crendices que ficaram guardadas na nossa memória. Nesse debater nas trevas da nossa vida terrena. coisas misteriosas. leva-nos às mais curiosas e inesperadas superstições domésticas. a "coisa feita". se não as transcrevo aqui. ninguém vista uma meia ou outra peça de roupa pelo avesso. Eu não deixo nunca o meu chinelo virado com a sola para o ar. quando elas. Hoje. afastar o "mau olhado". No que toca a orações. quando as religiões não nos satisfazem. . à reza. 27-3-1919. contra a incerteza do dia seguinte. os "breves". com a recomendação de repeti-las tantas vezes e passá-las adiante. e elas nos guiem na nossa vida e nos desculpem. devem-se trazer. mesmo por aqueles que se julgam livres de tais crendices. é porque não as encontro à mão. ninguém ponha uma vassoura "de pernas para o ar". depois da nossa morte. porque traz azar. nos abarrotam de tolices e patranhas manhosas a enfarar. porque traz azar.

Nunca me foi dado ler uma oração destas."ela" disse! . como toda a gente sabe. para lavar-se de culpas e pecados peculiares a seu sexo. Ele vos fará um trabalho rápido e perfeito para que nesta reunião "reinem" A PAZ . em que se maranham raparigas e senhoras. sobretudo. médiuns femininos. creio que a primeira sexta-feira do mês. detentores. São cínicos demais e os seus anúncios de extremada publicidade. em ruas sombrias e pouco transitadas. mas as mulheres. na crença da nossa gente. Não é unicamente.portanto do sacerdote católico que a oração. Os "barbadinhos do Castelo" entram sempre em tudo que se alude a benzeduras. Muitas vezes. tem entrevista com os repórteres. que há por aí e vivem com favor dos seus poderes sobre-humanos de unir corações e fazer toda a sorte de felicidades. não. nas freguesias rurais. exerce poderes maravilhosos e extraordinários sobre a causa da nossa vida e da nossa consciência. entre duas pequenas ou garotas.A CONCÓRDIA . o povo prescinde do sacerdote ungido regularmente e escolhe um outro que ele mesmo sagra e consagra. Vejam só este. que se diz na Igreja da Cruz dos Militares. aparecido. É o "rezador" ou "rezadeira". é na cartomante. sim! O que é preciso é você rezar a oração. Não sei em que dias é a assim chamada. professores-cartomantes-feiticeiros. Nas tricas galantes mesmo. precisa ir aos "barbadinhos" ou rezar nos "barbadinhos". Há a cartomante quase licenciada que anuncia nas gazetas. Os homens são quase todos de idade. "rezadeiras" são mais poderosas que os homens no seu comércio com a Divindade e com o Mistério. porém. .Procurai o Professor Baçu. desafiando a polícia são a mais segura demonstração do seu charlatanismo explorador. como chamam hoje os namoradores profissionais: .É corrente. são os capuchinhos italianos. de todas as condições. a frase: "Você anda caipora. onde está o túmulo de Estácio de Sá e no cunhal da qual existe o marco quinhentista da fundação da cidade. etc. moças e velhas.Ide vos casar? Quereis vos casar? Tendes dificuldade de obter noivo ou de realizar vosso enlace? Não sois feliz com o casamento? . há algum tempo: "MISTÉRIOS DA VIDA . cujo convento é no morro do Castelo. que são procuradas pelas informações de boca em boca. Volta . Hadjina. nas primeiras horas da manhã. distribuídas pelas cartomantes-feiticeiras. mas muitos que lá foram me contam que tem uma freqüência segura de jogadores de todas as classes. já ouvi o seguinte diálogo." Os "barbadinhos". que se encontram.Desvio das correntes adversas que surgem na vida . mas as mulheres da cidade a freqüentam. nos feiticeiros machos.Qual! fez a outra lacrimejante. Todas as esperanças daqueles e daquelas que o amor abrasa. e não sei como explicá-la. que vivem acorrentados aos seus caprichos. com as quinas do velho reino lusitano. em um dos nossos jornais. Passeando nos subúrbios. mas há também as particulares. o caiporismo. pitonisa Os sucessos políticos. muito pouca fé têm os amantes e namorados nos hierofantes. é tida entre os supersticiosos como possuindo a virtude de afastar o azar. Nunca a ela fui. e uma das suas missas. A religião católica não quis sacerdotisas nas suas cerimônias.Volta. atualmente. por aqueles que querem vaticínios certos de vida amorosa. . Outra missa muito curiosa é a chamada das "arrependidas". mas as antigas não passavam sem elas e a crença geral e popular é que as feiticeiras."Ele" volta. com o auxílio da missa . Os que anunciam nos periódicos não me merecem interesse.A FELICIDADE! Ele é o único que possui os MIMOS NUPCIAIS. de raparigas de vida airada e outros devotos do Acaso.O PROFESSOR BAÇU . da igreja mais antiga da cidade.

Tendo dado as lagartas em uma sua plantação de feijão. uma abertura maior. e era muito digna de fé. anéis e outros objetos de metal. mesmo a distância. de batatas-doces. pescadores e alguns roceiros portugueses. Rio de Janeiro. não pode merecer um pingo de atenção. Combate todos os males físicos e morais e todos os malefícios. em amuleto. Vivendo. Benzem ou rezam também as casas. há alguns anos. aspergindo os cantos com uma certa água "rezada". em larga escala. obtendo reconciliações. Faz todo e qualquer trabalho. que teve uma fazendola. Peçam prospectos. a ilha não era o Petrópolis de quinta classe que o meu amigo Pio Dutra está fazendo ou dela já fez. e muitas vezes narrou-me esse surpreendente espetáculo. devido à decadência de suas culturas perseguidas atrozmente pela saúva. de abóboras. As "rezadeiras" são ajudadas por facas. entre as cruzes que havia na "cabeceira". apanhadores de suas frutas semi-silvestres. como tendo visto com os seus próprios olhos. Horóscopos. Rezam tudo. pelas bandas de Guaratiba. abandonada pelos seus grandes proprietários. apesar das perseguições da polícia. idade. não tem fundo. como caju.. quase sem comunicações diárias com o centro urbano.verdadeiras relíquias. ou era. em toda a localidade. de quiabos. contou-me um caso a que já aludi no meu Policarpo Quaresma. lenhadores e carvoeiros. e a insistência com que este e outros apregoam. CLEMENTE N. que tenazmente se batiam contra a implacável formiga. Horácio. Chamam a isto "cortar" a dor ou a moléstia. e até de melões. Ela veio e colocou cruzes de graveto nas bordas da plantação deixando na "cabeceira". acompanhado de envelope selado ao Capitão José Leão. isto em 1890. de melancias. pela eficácia dos seus exorcismos. desesperado consentiu ele que chamassem uma "rezadeira" famosa. NOTA . oração ou quer que seja. Também possui as fórmulas em "líquidos e sólidos". diagnósticos e prognósticos. com os quais. fazendo sucessivas cruzes ou outros sinais cabalísticos sobre os pontos afetados do corpo do paciente. sendo doutor em medicina. preparadas com as pedras "Natal". Benzem outrossim as plantações. os seus poderes e as suas virtudes excepcionais. os "benzedores" e "rezadeiras" não são desse quilate. a fartura e os ensejos de feliz ventura". ameaçando mesmo matá-la de todo. Disse-me a pessoa que as lagartas se foram enfileirando militarmente e saindo processionalmente pela abertura. peço nome. pôs-se nos pés e começou a rezar. com a mais luxuosa publicidade.Aos que sofrem. Quando meu pai foi para a ilha do Governador.. mostra bem que a clientela não lhes falta. Têm fé no seu mister e a sua sinceridade comunica essa fé aos outros. fazendo roças de aipins. recentemente fundadas pelo governo republicano."a fortuna. isolada do Rio de Janeiro." Leram? Há tanto cinismo e tanta desfaçatez que aquilo que um mago anunciante nos fornecer em "breve". e dores vagabundas e sem explicação. acompanham o balbuciar da oração adequada. É morta a pessoa que me contou. erisipelas. Mas as suas especialidades são para curar certas moléstias particulares às senhoras: "cobreiros". Na roça carioca. o que atrairá para vós . de pesquisas e investigações para a descoberta de fatos de caráter mais ou menos íntimo. Botafogo. aspersão que se faz com o auxílio de um ramo de alecrim ou arruda. usadas pelas mais formosas mulheres da celeste Jerusalém. A credulidade humana. estava toda ela entregue a moradores pobres. por assim dizer. exercendo um pequeno emprego nas Colônias de Alienados. aproximações de pessoas afastadas e realização de qualquer negócio considerado irrealizável. Essa usurpação de atributos sacerdotais por particulares é feita. e pessoa digna de fé. como ia eu dizendo. há entre o ceu e a terra. Reside com sua família à RUA 5. dia de nascimento e sintomas.o 183. Essa espécie de "enclave" que era a ilha do Governador naquele . porém.

Que fim terá levado? Essa forte crença na oração. pintor. rogamos a Deus que se contemple de compaixão e misericórdia e perdoai-nos por vossa Mãe santíssima. aqui pertinho da capital do Brasil. fazendo desocupar aquele lugarejo do alto Nilo. Jesus Cristo Senhor Nosso. Esta oração foi enviada pelo Bispo Rio l. Conforme a recebi. porém.o de janeiro de 1913. e o povo francês quis mostrar a sua reprovação ao ato do seu governo. infelizmente. ainda me lembro do nome do respectivo capelão: . o obscuro .tempo. "rezadores" ingênuos e ignorantes. agente do Correio. em demanda de Fáchoda. Ainda é da memória de todos a repercussão que. transcrevo abaixo: "Oração S.o Apolinário. tendo como adestrados disputadores das sortes. pelas tropas francesas. no ano de graça de 1913. confesso que não creio. foi encarregado por Marchand de abrir a sua marcha através das origens ocidentais do Nilo. no Galeão. Do lugar em que morávamos. no mundo inteiro. eu peço que sigam as prescrições que essa oração recomenda. e. com uma ovação. quando chegou a Paris. muito infelizmente mesmo. por intermédio do carteiro. para mais eficazmente agir no perímetro urbano da nossa cidade. na reza. e aqui a dou tal e qual. Em Jesus a bem dizer que quem não fizer caso desta oração sofrerá um castigo grave perda em família. isto é. que buscamos como alívio para as nossas dores morais e como uma súplica à Divindade para que intervenha na nossa vida. no Sudão egípcio. A guerra quase estalou entre a França e a Inglaterra. citei esse ato de distribuir. Encontrei-a. Não as segui porque. sem nada mudar ou omitir. No artigo anterior. entre os meus papéis. próprias ao divertimento. eu e a minha família. entoavam nas cabanas ladainhas e outras orações. contra a política e contra a moléstia. que deve ser hoje general. um verdadeiro triunfo ao comandante Marchand. pediu auxílio ao Correio. Jesus Cristo rogamos a vós por nossos pecados e vosso sangue derramado na Cruz por nós. Cheguei a ver lá cavalhadas . orações escritas que devem ser lidas um certo número de vezes e enviadas a outras pessoas amigas. aqui e ali. Ela não abandona a nossa gente humilde na sua obscura luta contra a miséria. favorecendo-nos nos nossos propósitos. foi que me deu uma reduzida visão de roça e de hábitos e costumes roceiros. Elevado assim na estima popular. mas é sempre tocante e penetrante por isso mesmo. o "Minhoto".na esplanada defronte à ilha da Freguesia. intimamente." Aos leitores que têm fé. apesar da minha vaga e imponderável religiosidade. o Jorge Martins e outros.que pobres cavalhadas! . Senhor Jesus Cristo. que diante de toscos oratórios. teve a ocupação desse lugarejo desconhecido. 3-4-1919. Quem tiver esta oração deve distribuir durante nove dias a nove pessoas cada dia uma e no fim dos nove dias terá uma alegria em sua casa. X RESTOS DO "TABU" ANCESTRAL O comandante Baratier. acompanhados pela assistência. Hoje. próximo da venda do Joaquim. Amém. Não a tinha encontrado. profundamente rural e pobre. toma este ou aquele aspecto bárbaro e tosco. hoje e sempre eternamente por todos os séculos dos séculos. A ilha não tinha vigário e o culto da população aos santos de sua fé era feito por intermédio de certos capelães rústicos. em número determinado.

ainda na infância da civilização. Os leitores de Jules Verne. devem lembrar-se de que forma o encantador romancista da infância tirou partido dessa curiosa superstição. que habitava aquelas paragens. por isso fica tabu. de quando em quando. Convém dizer. Moribah: . do próprio Czar. Ainda estou a ver o meu amigo Paganel. avoengo da tribo. O "marabut" era tabu. O gigantesco paquiderme jaz no chão meio decepado.soldado colonial convenceu-se de seu excepcional heroísmo e desandou em delirar de orgulho. num dos seus interessantes livros de vulgarizaçao. fazendo tal coisa. que tabu quer dizer que certa coisa é de tal forma sagrada que ninguém pode tocá-la sem chamar a maldição dos Deuses sobre si e sua tribo. e todos encontravam na morte seguro asilo. ele e o intérprete. para demonstrar a força e o poder dessa crença do totem sobre as almas infantis desses povos retardados. A fome continua e eles acabam abatendo um hipopótamo. A sua viagem é muito interessante e dela ele próprio publicou uma viva narração. avistou uma porção de grandes "marabuts" empoleirados nos galhos de uma árvore. ela vai buscar seus condes. a crescer numa ilhota. ocidentais. ces feurs sont de la viande". só poucos da expedição. a sua parada teve um retardamento imprevisto e os viveres se esgotaram. Com fome. Tantas fez.Ne tire pas". que acabou pedindo demissão do Exército francês. entre os quais Moribah. os devoram caninamente. Reinach. Após um instante de reflexão. Não só os negros. em horror. Os homens impacientes de fome apanham os bocados de carne apenas sapecado e. no seu manto de linho néo-zelandês. Acredita o sábio francês que esse ódio de Mafoma ao toucinho provém paradoxalmente de um totem que se obliterou em ódio. empreendeu a viagem com vinte e cinco atiradores senegaleses. certa vez. contesta que o horror que os judeus e muçulmanos tem à carne do porco. São seis atiradores senegaleses da tribo Keita. a qual tem o hipopótamo por totem. Baratier ia apontar a carabina para abatê-los. segue o conselho do seu sargento. .. Naquele banquete repugnante em que há fome de feras. e totem diz-se do animal que é tido como parente. mas logo os seus guias locais. não permitiria haver entre nós.Não tenham medo! Subam! Eles não virão até aqui.. às dentadas. para ir servir no russo. navegando em águas quase livres. Assim ele descreve a emoção de tão auspicioso encontro: "A leur vue tous les regards se sont allumés: ces fleurs sont vivants. se assustaram e ele viu bem que. a convite. os perderia irremediavelmente e toda a nação "Djingue" declarar-lhe-ia guerra sem tréguas. oriunda de uma prescrição da Bíblia. a religião do amor ao próximo. que são brancos. dez auxiliares de outra proveniência e um intérprete árabe. "Djingues". tenha por causa um motivo qualquer higiênico. . da pobreza e da humildade. Baratier. por ser totem da tribo "Djingue". embora não fosse. embrulhado até ao pescoço. essa raça atroz do capitalista moderno onde. ela. retomando o meu primitivo propósito. Há um outro mais estranho. não tomam parte nele. O fogo crepita. como eu o fui apaixonado em menino. Emaranhado numa teia espessa de ervas aquáticas o "umsuf" (ounun-souf). também. no último volume de Os filhos do Capitão Grant. O legislador mosaico não podia ter cogitações dessa natureza. dizer para os seus companheiros que vão encontrá-lo numa altura em que estava sepultado um chefe "maori". Se a religião católica tivesse esse poder sobre as almas. Isto aqui é tabu! E não vieram. referindo-se aos selvagens que os perseguiam na sua fuga. Essa aventura não é das mais eloqüentes. com o correr dos anos. apesar de me parecer inútil. dizia ele.

não leva muito a sério a última explicação. Com o bôto. por ser gorduroso. girando como se fosse uma roda. mas não ressuma dela. assim mesmo.Sem procurar os outros vestígios do antigo totemismo nos costumes atuais. socorrem os náufragos. Ave assim sagrada. Entre os pescadores. eu faço essa consideração porque entre nós. com o bôto. pergunta de si para si. devido a obsoletas posturas municipais. as ruas. Vemos só o seu dorso azulado a revolver-se nas águas azuis ou verdes do mar e é dos grandes prazeres das crianças que tomam a barca de Niterói. a impotência das leis. dizem que o urubu é protegido dessa maneira.Não sei dançar! Urubu veio de cima Com parte de homem sério. tendo eles por ofício limpar a superfície do mar. Todos conhecem esta canção que as crianças entoam por aí: Urubu veio de cima Com parte de dançador. Todos que viajam na nossa baía conhecem-no. por isso. apesar de quase nunca se lhe ver a cauda e a cabeça. Os pescadores não os matam porque. podemos na nossa vida vulgar aventurar que certas usanças se enraízam naquela crendice do totem. ela o é no dizer do povo. É muito conhecido esse peixe que vive à flor d'água. nenhum deles se lembra disso e o bôto vive na segurança sob um tabu . muito ao contrário do que se dá com o porco entre os judeus e muçulmanos. como eu que não tenho nenhuma competência. com o urso de Berna. não se dá o mesmo. ficando. Os eruditos. sobre o porco. o urubu não é odiado. a ponto de viver entre a criação. Ora! Dança urubu! . empurrando-os para a praia.há cantigas e várias peças de folclore em que o urubu entra com relativa simpatia. Se não se presta para alimento. como todos nós. na verba iluminação. Chegando no palácio. Organizou ministério. Entretanto. porque limpa os arredores das casas.urubu malandro. Há frases . os orçamentos praieiros. Um caso muito corriqueiro que deve ter chamado a atenção dos observadores para ele. há uma crença semelhante a esta do urubu. nos quintais de certas pequenas cidades do interior. porém. se o urubu não foi totem para os nossos afastadíssimos avós. estou certo. mas entretanto o povo não o persegue. é o do urubu. que é aí mais troçada amigavelmente do que mesmo debochada com azedume. à extração de azeite que poderia aliviar um pouco. tabu até hoje. nenhuma antipatia contra a ave carniceira. Quem conhece. e quem leu. dois terços mergulhados. os senegaleses de Baratier esfomeados preferiram alimentar-se com a carne imunda de aves semelhantes a servirem-se do seu hipopótamo totêmico. O urubu é absolutamente inútil para qualquer fim alimentício ou outro por ser repugnante e nauseabundo. a opinião de Reinach. mas. Não sei toda a cantiga. porém. prestar-se-ia. Aventurando em mar ignoto. . como fazem com tudo que bóia nas suas águas sem medida. as estradas das carniças putrefatas. Por que não se o mata? É um pássaro repugnante.

de palpite deste ou daquela. pela manhã. era de todos camarada. por mês.. um ou dois de açúcar e um Bicho ou Mascote.o meirinho . é maldito para os sábios. demorar-me. Era tão rendosa essa parte de sua indústria tipográfica que ele destacava um único tipógrafo para executá-la. perseguido pelas crianças. O Bicho. tinha ocasião de passar por ela toda a tarde. A extensão que os nossos atuais estudos médicos têm levado ao exame de certas moléstias. cuja transmissibilidade é atribuida. nas vendas da minha vizinhança que. Mostrou-me pacotes de cartas de toda a sorte de gente. como esse quase doméstico . algumas eram . pus-me a observar. O urubu tão sagrado pelo povo. o tipo de compras era este: um tostão de café. A tipografia do meu amigo tinha a especialidade de imprimir jornais de "bicho" e ele mesmo editava um . o que se via pela redação. na média. além de compor os jornais. de chapinhas. por devorar as larvas dos mosquitos. tido corno diabólico. que não são perseguidas. naqueles anos. que os vencimentos de um chefe de seção de secretaria. todos vinte e cinco animais da rifa do Barão. as mais das vezes. A Mascote e O Talismã. mas aquela é por ser uma ave azarenta que nenhuma criança quer ver no seu alçapão. Todas ressumavam esperança na sua clarividência transcendente para dizer o bicho. na rua da Alfândega. a cambaxirra. como também certos insetos. é bendito pelos higienistas. por exemplo. de senhoras de todas as condições. em setecentos e poucos mil-réis. Atualidade. XI COISAS DO JOGO DO "BICHO" Há alguns anos. Conversando mais detalhadamente com o tipógrafo dos jornalecos de bicho. Aos poucos fui tomando conhecimento com o pessoal. com o cuidado indispensável em tais jornais-oráculos de por. a regular por aí assim. 50 mil-réis por dia. dava de lucro. a insetos parasitas. de homens em todas as posições. pois propaga a epizoetia. rendiam mais. Solicitado pelas informações do jornalista "animaleiro". tem levado os sábios a amaldiçoar certos animais e a abençoar outros. nas mais das vezes conversar unicamente. Há outras aves. ele me deu inúmeras informações sobre os seus periódicos "zoológicos".que desapareceu. se não forneciam um lucro tão avultado. que inoculam no nosso organismo não sei quantas doenças. 10-8-1919. em breve. O encarregado dessa obra.O Talismã . e.imemorial. a fazer isto ou aquilo. a dezena e a centena que dariam à tarde deste ou qualquer dia. Li algumas. nefasta ao gado.que suga moscas. quase o subsídio diário de um deputado naquele tempo. É mais um conflito entre a religião e a ciência. O tipógrafo tinha razão e ele mesmo se encarregava de fortificar a minha convicção do império excepcional que o "Jogo do Jardim" exercia sobre a população carioca. sob este ou aquele disfarce de seções. redigia-os também. Este é naturalmente por ser útil.. auxiliar de bruxas e bruxedos. o sapo. o mais famoso e conhecido. mantendo estreitas relações com o proprietário de uma tipografia.

redator-tipógrafo de O Talismã. como salvação. Apesar da relutância do redator-tipógrafo de tão curiosos exemplares da nossa imprensa cotidiana. vós que Sois um bondoso. Peixeiro. que não vinha ao Rio que não fosse ao Dr. tal e qual. mas não o ponho aqui. plumas. Bico-Doce. um palpite. etc. no Engenho de Dentro. . "Ilmo.. e a ingênua crença de que o redator do jornaleco de palpites seria capaz de indicar o número a ser premiado. e que Sois uma alma bem formada!. por todos os aspectos. "Deus que lhe queira ajudar." . "Pois bem. e sem poder pagar. eu a transcrevo aqui. em oferecimentos. . pois um pobre que deve 1:OOO$600.. vós que Deus dotou Com tanta doçura. que convidava o pobre tipógrafo. "Aqui aguardo a vossa proteção. É um documento humano de impressionar e de comover. portanto. Dr. por terem os missivistas acertado com o auxílio dos "palpites" do Dr. Julgavam-no capaz de adivinhar de fato o número a ser premiado na "Loteria"..0 182 Sobrado"). Lembro-me de uma assinada por certa adjunta de um colégio municipal. Bico-Doce. e Compro todos os dias: "Mascote".mo Redator-Chefe do Jornal O "Talismã" Rua da Alfândega n.agradecidas e se alongavam em palavras efusivas. posso vos dizer que tenho passado os dias bem acerbos. do jornal. operavam sobre as imaginações de uma forma verdadeiramente inacreditável. é muito triste vergonhoso. pode Ser que Se vós Condoer-se das minhas misérias em breve me libertarei desta vergonha que estou passando. . das quais uma. Padeiro. já meio tuberculoso. e lhe dê boa inspiração e força para minorar as aflições dos pobres. Com o Quitandeiro. etc e só neste ou deve 200$. apalavrado com os homens dela.mo Snr. era certo. e que neste longo período. Recordo-me ainda do nome da moça.Rio de Janeiro. por me parecer a mais típica e mostrar de que maneira a situação desesperada de um pobre homem.. etc. .. jóias. também. vós que Sois tão caridoso.. . Deus lhe dê Saúde e felicidade pra Si e toda vossa família. e possa fruir os mais esplendorosos gozos. saber de antemão os algarismos da felicidade. ou. Ei-lo: (cliché de um envelope selado e subscritado: "Ilmo. só omitindo a assinatura e o número da residência do signatário. tenha Compaixão deste pobre Sofredor que a 2 anos está desempregado.O vosso Abedê. Rua Senador Pompeu.. e poder utilizar-se em qualquer mister que vos aprouver. Não era só em cartas que se revelava total e poderosa fé de pessoas de todas as condições nos poderes divinatórios do Dr. 20-12-911. bem trajada. Se ganhava. em nome de Deus vos peço Dê-me uma Dezena ou Centena num destes dias em que a Natureza lhe der inspiração. porque aos Espíritos bem formados ele proteje a fim de poderem espalhar com aqueles menos favorecidos as Sorte. "E Se vós me libertar deste jugo pode Contar que eu saberei reconhecer o meu bemfeitor. Senhor. Dig. na centena. por motivos fáceis de adivinhar. Bico-Doce para obter de viva voz.. Vosso humilde Criado e Obrigado. O prestígio da letra de forma. uma gratificação qualquer. Havia uma senhora de Paquetá. "Enquanto eu minha família. pode reforçar a fé no "Jogo do Bicho". além do fervoroso agradecimento.Em primeiro que tudo muito estimarei que esta inesperada Carta vos encontrem Com perfeita Saúde Conjuntamente a toda vossa família. peço dinheiro emprestado. o meu senhorio já está Com a cara ruvinhaso comigo. "Bicho" e o "Talismã" e nunca Sou capaz de acertar em um Bicho ou numa Dezena que me liberte deste jugo que tanto tem me morteficado o espírito e já me acho desanimado da Sorte que me tem Sido tão tirana. vamos passando uma vida penosa. podendo. e o mistério de que se cercava o "palpitador". Bico-Doce Muito Dig. Sr. Nas visitas. Ele as recebia a toda a hora do dia e de pessoas de todos os sexos e idade.. no mínimo.F. a ir almoçar ou jantar com ela e a família.. terá vós um Criado para qualquer Serviço que estiver em minhas fracas força e me apresentarei diante da vossa nobre pessoa. e estou tão oberado. eu pude conseguir algumas cartas. Bico-Doce.

um valentão. n. e navalha a adivinhar-se nas algibeiras ou em qualquer dobra das roupas.A mais curiosa e assustadora visita que ele recebeu. Bico-Doce que lha entregou no dia seguinte. distribuiu o seu império entre os seus generais. normalmente. indicou uma centena qualquer e safou-se logo. O bicho deu e a centena também. Plutarco. . conta que Alexandre. Um deles lhe perguntou: Que te fica. O povo afirma que quem espera sempre alcança. mesmo quando a Esperança é representada pelo jogo do bicho e o palpite de um humilde tipógrafo como o Dr. mal ganha para a sua vida! A Esperança. nas vésperas de morrer. Ai de nós se não fosse assim. dizia-me o pobre jornalista do Talismã.. . O destemido não teve o prazer de dar-lhe a propina em mão. É fácil de supor a atrapalhação do "profeta-bicheiro". temendo não acertar e levar uns pescoções. foi a de um capoeira da Saúde..0 2. ou outro qualquer.Felizmente. de chapéu de abas largas. que.. calças bombachas. Bico-Doce meio amigável e meio ameaçador. mas a deixou com um colega do Dr. general? O macedônio logo respondeu: A esperança. Será verdade? Parece que aí a voz do povo não é a voz de Deus. o homem não quis voltar mais. O valente falou ao Dr. Bico-Doce. Para sair-se da entalação. abril 1919.. Livros novos.

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