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Dramas da Obsessão - Yvone do Amaral Pereira - Bezerra de Menezes

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Pelo terceiro decênio deste século 20, eu atendia ao honroso mister de
conselheiro e médico espiritual em certo Posto de Assistência aos Necessitados,
para receituário e beneficências físicas, morais e espirituais, anexo a um Grêmio de
aprendizes espíritaa dedicadíssimos aos deveres abraçados perante o Evangelho,
os quais se devotavam aos serviços de socorro ao próximo, inspirados num
sentimento de fraternidade verdadeiramente encantador, e cuja singeleza de
caráter, atingindo as raias da humildade cristã, para eles atraía as simpatias do
Além esclarecido e virtuoso.
Os serviços em geral, verificados nesse núcleo, programados pelo venerando
Espírito de Bitencourt Sampaio, através de um médium explícito e positivo, eram
diários e muito eficientes, o que sobremodo nos satisfazia por nos permitir ensejos
variados na difusão e prática dos serviços do Consolador.
Era meu assistente, por esse tempo, uma entidade em aprendizado, atualmente
reencarnada, generosa e dedicada, que adotara o prenome de Roberto, conquanto
essa não fôsse realmente a sua identidade, além de outros que não precisaremos
nomear.

Certa noite, após o receituário, deteve-se o médium, responsável pelo gabinete
em que se processava o melindroso mandato, na súplica ardorosa para visitação
espiritual a um ambiente doméstico atacado de singulares manifestações de
provação, intensas e dolorosas.
Uma carta chegara do Sul do país às mãos do médium, enviada pela caridosa
gentileza de um famíliar do mesmo instrumento, solicitando seus préstimos de
intermediário entre os poderes invisíveis e a Terra para alívio de criaturas que se
debatiam contra torrentes de desesperações positivamente irremediáveis por outra
forma. Leu-a o médium para mim, por entre as irradiações da prece caritativa... e
eu, captando o assunto através de suas vibrações, decalquei-a em minha mente
desde então, arquivando-a de molde a me permitir hoje reerguê-la dos escombros
mentais, a fim de transcrevê-la neste momento. Particularizava-Se a missiva pela
exposição se-guinte:

— “Rogo algo tentares, como espírita que és, a benefício da família do nosso
amigo Leonel. Passam-se fatos verdadeiramente desorientadores, deixando perple-
xos os amigos da casa. Desde a morte do pobre Leonel, verificada, como sabes, por
um suicídio em tão trágicas condições, a família inteira sente ímpetos para o
suicidio. Não ignoras que sua filha Alcina suicidou-se também, dez meses depois
dele próprio. Agora é seu filho Orlando que deseja morrer, havendo já tentado
algumas vezes o ato terrível! Vivem todos a chorar, desesperados, sem ânimo para
a continuação da existência. Somente a viúva de Leonel consegue algo de
estimulante para se impor à situação, que é a mais anormal possível. A miséria lhes
bate à porta, pois nada possuem e ninguém, senão ela, trabalha. Finalmente, peço-
te que rogues a Deus por eles, já que cultivas a fé em teu coração, porqüanto a
Terra é impotente para deter a avalanche de desgraças que sobre essa pobre gente
se arremessou.

Ora, minutos antes de iniciado o meu expediente no referido Centro, fora eu
prevenido de que essa carta havia sido escrita ao meu médium e, portanto, recebi-a
sem surpresa, através deste. Procurara-me uma entidade espiritual denominada

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Ester, formosa e redimida, cujo aspecto angelical atraía veneração de quantos se
lhe aproximassem, a qual me asseverara haver inspirado a carta a quem a
escreveu, assim provocando o trabalho que faríamos, visto estar ligada aos
obsessores de Leonel e a este próprio por laços espirituais seculares, e que, agora,
apresentara-se o momento oportuno de agir em socorro da falange litigante.
Rogava, por isso, nosso concurso, uma vez que não poderia operar sosinha, e
ainda porque os serviços de Além-Túmulo são produtos de equipe e jamais de um
trabalhador isolado.

Ambos os apelos — o de Ester e o da carta — eram impressionantes e
impossível seria não atendê-los, tentando algo a benefício dos sofredores. Os
serviços ficaram, assim, sob meu critério, dadas as minhas atividades naquele
núcleo espírita, muito embora fraterno concurso alheio me coadjuvasse. Submeti o
aparelho mediúnico à letargia branda do transe, mantendo-o a mim ligado pela troca
das vibrações necessárias à comunicação que se processava; arregimentei os
assistentes espirituais auxiliares, de plantão no Centro naquela noite, e partimos
para o endereço apontado, em inspeção indispensável. Impossível, porém, nos fora
ali penetrar pelos meios comuns, tal a densidade vibratória asfixiante do recinto, o
clima obsessor que expandia malefícios em derredor do lar sinistrado pela onda de
tragédia que a ele se adaptava. Eu levara, no entanto, em nossa comitiva, um
indígena brasileiro da raça Tamoio, Espírito hábil, honesto e obediente, que
voluntariamente se associara à nossa falange, desejando servir ao Bem, e mais o
nosso assistente Roberto, a quem eu muito amava e em quem confiava
plenamente. Ambos ali penetraram, sacrificando a própria harmonia vibratória, a fim
de se inteirarem minuciosamente do que realmente se passava.
Retornaram logo após ao Posto Mediúnico de onde haviam partido, chocados e

ansiosos.

E Roberto, que chefiava a expedição, tomou a palavra (transmitiu as irradiações
mentais), desincumbindo-se do noticiário sobre o reconhecimento efetuado:
—Trata-se de um caso de obsessão coletiva simples, meu caro irmão...
carente de intervenção imediata de socorro espiritual, a fim de que se evitem outros
suicídios na família... São, quase todos os membros dessa numerosa família,
constituída do velho casal e dez filhos menores, portadores de faculdades
mediúnicas ignoradas... Não cultivam o estudo edificante para o saneamento
mental, nem a meditação sobre assuntos elevados do espírito, e tão-pouco a
prece.... tornando-se, por isso mesmo, campo raso para os assédios das trevas....
pois que também não alimentam sentimentos religiosos de qualquer espécie,
apenas afetando um interesse convencional pela crença católica romana..
—Dizes, pois, meu caro Roberto — intervim, procurando inteirar-me dos
detalhes a fim de melhor estabelecer o programa de operações beneficentes — ter
havido, com efeito, mais de um suicídio no seio dessa pobre família?...
— Sim! Inteirei-me de que o chefe da mesma família, de nome Leonel, pôs
termo à existência terrena, desfechando um tiro de revólver no ouvido direito, e que
sua filha primogênita, jovem de vinte primaveras, lhe imitou o gesto alguns meses
depois, servindo-se, porém, de um tóxico violento... Inteirei-me ainda de que outro
filho seu, de quinze anos de idade, tentou igualmente o sinistro ato, salvando-se, no
entanto, graças à ação prestimosa de amigos agilíssimos, que evitaram fôsse ele
colhido por um trem de ferro, pois o tresloucado lançou-se aos trilhos, enfrentando o
comboio, que se aproximava...
—E como te inteiraste de que se trata de ação obsessora simples, sobre

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médiuns que ignoram estar sob influências maleficentes da sugestão extraterrena,
visto que vivem alheios aos fenômenos e às observações espíritas?...
—Vimos ambos os suicidas ainda retidos no próprio teatro dos acontecimentos:
— Leonel, vagando, desolado e sofredor, a bradar por socorros médicos, traindo
nas próprias repercussões vibratórias o gênero da morte escolhida sob pressões
invisíveis... e Alcina, a filha, com o perispírito ainda em colapso, desmaiada sob o
choque violento do ato praticado... Distinguimos também os obsessores...
—E como se apresentam estes?... Odientos, vingativos?... Sofredores, que
destilam o vírus mental e vibratório contundente, sem saberem o que fazem?...
Afeiçoados às vítimas por simples afinidades de caráter, ou índole?... pois sabemos
que até mesmo um sentimento de amor — ou paixão — mal orientado ocasionará
desastres como esses...
— Não, Senhor! — explicou vivamente o dedicado assistente. — Trata-se de
algo ainda mais doloroso! São ódios, vinganças pessoais de um passado que se me
afigura intensamente dramático! Os obsessores pertencem às falanges do antigo
judaísmo! Ainda conservam nas irradiações mentais, refletindo sobre a sensibilidade
do perispírito, as sombras, as imagens, mui concretizadas, da indumentária usada
pelos judeus de Portugal, pelo século XVI... Eu também vivi nessa época, meu caro
irmão, na Espanha como em Portugal.... pertenci igualmente ao judaísmo... e fácil
me foi compreender o amargor da situação que acabo de presenciar...
Compreendi, efetivamente, ser gravíssima a situação de encarnados e
desencarnados enleados em tão incomodativas teias, situação que bradaria por
intervenção enérgica e imediata.

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