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YEU AOR TUL LO UT ig RUS ERRATA .. ano 3, n° 6, 1997... 8 3 g 6 3 3 8 ° 8 5 = 5 2, 22 € inas de abertt 1998... .. ano 4, n" No rodapé das pai & de Regina Thompson. ao de “Sindicalismo e conflitos de status nos Estados Unidos: por uma estratégia de pesquisa integrada’ A tradug Revista Latinoamericana de Estudios del Trabajo Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho Revista Latinoamericana de Estudios det Trabajo Publicagio semestral da Alast ~_ Associagio. Latino- americana de Sociologia do ‘Trabalho DIRETORIA Presidente: Alice Abreu Secretiria: Magda Neves ‘Tesoureira: Leda Gitahy EDITORAS Marcia de Paula Leite Nadya Araujo Casto COMITE DE REDAGAO Fidna Castro Elida Rubini Liedke José Ricardo Ramatho Maria Célia Paoli Maria Cristina Bruschini Maria Teresa Fleury Ricardo Antunes CONSELHO EDITORIAL Adriana Marshall (Argentina) Enrique de la Garza (México) Harry Katz (Fstados Unidos) Helena S. Hirata (Frang:t) John Humphrey (Inglaterra) Juan José Castillo (Espanha) Juarez Lopes (Brasil) Michelle de la Rosa (cilia) iner Dombois (Alemanha) Richard Hyman (Inglaterra) ‘SECRETARIA Rua Morgado de Mateus, 615 04015.902, S20 Paulo, SP, Bras Fone: +5511-5744)309 Fax: +5511-574-5928 E-mail das editoras: < Assinatura anual (dois. i= meros), Brasil S20 + RS 5 (correlo) = S25 ‘Outsos. paises da América Latina: USS20 + USS 5 (come) = US825 Paises fora da América Latina 1USS40 + U5S10(comeio) «USS Prego por exemplar: Brasil: RS 12 + RS 5 (correio) = RS17 Outros paises da América Latina: USS 12 + RS 5 (comreio) = 4517 Paises fora da América Latina USS 25 + RS 19 (comteio) = RS35, Sesto MeeEEEEETTEEHEE Ano 3, N26, 1997 Uma nova trama produtiva? Competitividade, novos atores e relagdes interfirmas Nota das editoras 3 Para além do principio do mercado Francisco de Oliveira 5 Redes sociais e flexibilidade do trabalho: uma andlise comparativa Scott Martin 9 Relagoes interfirmas, eficiéncia coletiva e emprego em dois clusters da inddstria brasileira Leda Gitahy, Roberto Ruas, Flavio Rabelo e Elaine Antunes 39 Competitividad en la industria de televisores en México Jorge Carrillo e Michael Mortimore 79 Competitividade ¢ redes na cadeia produtiva do vestudrio na América do Norte Gary Gereffi 101 La “trama productiva” del sector automotriz argentino: cambios en las firmas y demvanda de nuevas competencias laborales Marta Novick e Mariana Buceta 128 - Debates - Sindicalismo e conflitos de status nos Estados Unidos: por uma estratégia de pesquisa integrada Daniel Cornfield 157 ~ Avangos de pesquisa - Calidad total, control y trabajo Maria Eugenia Trejos 167 - Resenhas - Sociologia del trabajo. Un proyecto docente, de J. J. Castillo, por R. Valle * 4’socializagdo, de C. Dubar, por P. Tripier * Sindicalismo e politica: A trajetéria da CUT, de I. J. Rodrigues, por H. Martins * O fim dos empregos, de J. Rifkin, por V. Pero ¢ La heterogeneidad productiva en la industria de Aguascalientes, de R. Aleman ef al, por P. Gutierrez 179 A publicagao desse ntimero contou com 0 apoio de: Programa de Apoio a Pubficagées Cientificas Finep/MCT/CNPq Fundagiio José Bonifacio de Apoio 4 Pesquisa (FUJB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Faculdade de Educagao da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Centro Brasileiro de Andlise e Planejamento (Cebrap) Revista Latinoamericana de Estudios del Trabajo ano 3, ntimero 6, 1997 Revista semestral da Alast - Associagéo Latino-americana de Estudos do Trabalho Certificado de licitud 9332 ISSN 1 405-1311 Capa e produgao grafica: Germana Monte-Mor Editoragao: Fernando Mismetti e Milton Paulo Revisdo do portugués: Alexandre Morales Secretaria: Claudinéia Rodrigues Impressio: Oficinas Grificas da Universidade Estadual de Campinas Ilustragiio da capa: Detalhe de pintura de Nuno Ramos, 1998. Este ntimero foi impresso em abril de 1998 Tiragem: |.000 exemplares. Fica permitida a reproducdo total ou parcial dos textos contidos neste ntimero desde que citada a fonte. As editoras agradecem especialmente 0 apoio recebido de: Agustin Escobar Latapi, Alejandro Covarrubias, Anne Posthuma, John Monteiro. Jorge Carrillo, Maria Eugenia Trejos, Marta Novick e Roque da Silva Nota das editoras O presente ntimero de Estudios del Trabajo traz em seu corpo principal um conjunto de textos dedicado aos temas das relagdes 1s, NOVOS atores € vinculos sociais num contexto de glo- entre empres balizagao. Uma grande indagagao da sentido a este niimero: estard em jogo uma nova trama produtiva? Andlises comparativas € estudos transver- sais em cadeias de empresas d&o 0 tom sos textos aqui apresentados. Assim, as conexdes entre economias e sociedades nacionais, vistas da perspectiva de cadeias produtivas globais, so analisadas tomando-se como ponto de referéncia os casos das inddstrias mexicana € norte- americana. Artigos sobre a Argentina ¢ o Brasil focalizam a tematica das relagdes interfirmas e dos seus efeitos sobre o trabalho. Andlises comparativas confrontam as realidades mexicana ¢ brasileira com vis- tas x entender as novas form: 9 ¢ de negociagio de interesses, no quadro de tajetorias de reestruturacdo e de sistemas de relacdes industriais especificos. Fechando este conjunto, rico em exploragdes sobre diversidades empiricas, um des:fio se nos coloca: nesta nova tama produtiva, qual 0 lugar do principio do mercado, do contrato mercantil fundante da sociabilidade burguesa, quando esta parece erodida em sua racionalidade? Seguindo a diretriz editorial de enriquecer e diversificar o forma- to da Revista, ora inauguram-se duas novas segdes. A primeint, “Deba- tes", pretende difundir t igantes € polémicos junto ao puiblico latino-americano; neste ntimero, um artigo inovador suscita importan- tes discussdes tedrico-metodoldgicas para o estudo das diversidades sociais no interior do movimento sindical. A segunda, “Avangos de pesquisa”, busca divulgar, em primeira mao, achados de investigacio que, conquanto ainda preliminares, se mostrem particularmente reveladores, seja por focalizarem espacos empiricos ainda pouco estu- dados no contexto Jatino-americano, se por perserutarem campos: temiaticos de escassa acumulagio de conhecimentos; inaugura-se esta segdo com os primeiros resultados de um estudo comparativo sobre efeitos da implantagio de programas de qualidade total em empr de distinta natureza em és pai entral, sobre os quais aises da América C muito pouca reflexdo tem sido difundida na bibliografia latino-ameri- cana voltada aos estudos do trabalho: Panama, Honduras ¢ Costa Rica. Assim, estamos certas de que esta edigao de Estudios del Trabajo ci 0 Ieitor de um Conjunto de reflexdes teéricas sobre temas sociologia do trabalho, tais como: mercado de trabalho e io da produgio ¢ sindicatos; vincu- prov centrais sistemas de emprego; flexibili Revista Lotino-americana de Estudis do Trabaino, ano 4, n° 6, 1998, pp. id Revisto Latino-americana de Estudos do Trabalho jos sociais no contexto da reestruturagao; redes produtivas e relagdes interfirmas; neoliberalismo e a sobrevida do principio do mercado, Ao lado destes temas substantivos, reflexdes de natureza metodoldgica explicitam algumas das nossas principais encruzilhadas e apontam solug6es para o modo de construir analises que capturem, confrontan- do, as especificidades e diversidades sem as quais 0 estudo da socie- dade seria carente de sentido. Nos nossos préximos ntimeros esperamos contar com a ativa colabora¢ao dos colegas latino-americanos, especialmente, conquan- to nao exclusivamente, em torno dos novos temas que neles serio abordados: género, tecnologia e trabalho; relagdes étnico-raciais e tra~ balho; direitos, cidadania e trabalho; mobilidade e trabalho. Para além do principio do mercado! Francisco de Oliveira Resumo ‘A racionalidade burguesa teve no contrato mercantil uma de suas bases mais sdlidas; ele representou uma das formas constitutivas da sociabilidade que estruturaram as relagdes sociais, Porém, as limitagdes do mercado ¢ do contrato mercantil, que resultam das transformagdes sociais na estrutura de classes € na relagiio Estado-sociedade, parecem hoje evidentes. A formagiio dos mereados de forca de trabalho no capitalismo contemporineo tem como elemento estruturador fundamental o deslacamento do contrato mercantil para o plano dos direitos. Assim, 0 autor poe em questio o argumento neoliberal fundamentalista que propugna pela volta clo contrato mercantil como estruturador (insdlito) do mercado de forga de trabalho e desafia a sociologia do trabalho a que, nos moldes do que foi feito peta antiga economia politica, desenvolva os instrumentos analiticos para a critica deste proceso. Palavras-chave: desregulamentacdo, mercado, neoliberalismo, direitos, Abstract Mercantile contracts stood as one of the central pillars of bourgeois rationality; they constituted one of the elementary forms of sociability, which structured and sustained social relations, However, the limitations of both the market and the mercantile contract today seem obvious; they derive from the enormous social transformations within the class structure and in the relations between state and society. In other words, the formation of bor markets in comemporary capitatism involves, as @ central structuring element, the displacement of the mercantile contract to the sphere of rights. With this in mind, the author contests the argument defended by fundamentalist neo-liberals calling for the return of the mercantile contract as the lone clement shaping the labor force, while at the same time, he challenges current labor sociology to develop analytical instruments capable of forming a critique of this process. along the lines of what was accomplished earlier by political economy Keywords: deregulation, market, neo-liberalism, rights. Nao ha nenhuma davida de que a racionalidade burguesa tem no contrato mercantil uma de suas bases mais sdlidas, 2 partir do qual ela- borou uma das formas elementares — no sentido de constitutiva — da sociabilidade que estrutura € traveja as relagdes sociais. A relacdo de trabalho tomiou também a forma de um contrato mercantil, ou, concor- dando com Marx, no sentido da compra e venda da mercadoria “forg: de trabalho”, ou, ainda, com Weber, no sentido de uma acao racional entre agentes no mercado buscando maximizar seus interesses. 1 Texto preparado com base na exposi¢ao do autor no simpdsio "Destituicao dos direitos & desregulagao do trabalho", no Il Congreso Latino-americano de Socioiogia do Trabalho. Aguas de Lindsia, Sao Paulo, 1.5 de dezembro de 1996. Revista Latino-americana de Estudos do Trabatho, ano 4, n° 6, 1998, pp. 5-8 6 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho A discussao contempordnea sobre as relacées de trabalho assala- riadas, no bojo da controvérsia gerada pelas proposicdes neoliberais sobre a desregulamentacao dos mercados de trabalho, de um lado, e pelas posicdes que reafirmam o carater ndo-mercantil da regulagio do “mercado” de forca de trabalho, de outro, oferece excelente oportuni- dade para uma atualizagio do debate em torno da questio da constru- Zio social do mercado € dos direitos e do papel da sociologia do trabalho nesse debate. £ a isso que tentarei dedicar algumas poucas € frouxas reflexdes. © mercado capitalista. nunca foi o que hoje ensina o “mainstream” da ciéncia econdmica dominante; dominante, alids, ha um século, desde os marginalistas de Viena, dominio interrompido neste século durante os quarenta anos de prestigio do keynesianismo, que passou a ser manual de escola. Agora, com o declinio do keynesianismo e a ressurreiglo insdlita deste Dricula que € 0 neoliberalismo, aquela concepgao de mercado reina sem contestacao A sociologia € particularmente nossa disciplina, a sociologia do traba- Iho, sempre souberam que a concep¢ao asséptica € a-historica de mercado que hoje anima os debates nunea vigorou em lugar nenhum do mundo, mesmo ali nos loci do capitalismo que veneramos como Mas também entre nds, no terreno de nossas disciplin: “sociais”, 0 individualismo metodolégico, a escolha racional e outras opedes metodolgico-tedricas provindas da mesma matriz que o neoclassicismo em economia comegam a ganhar terreno. Desde os dias do Marx e do Engels d'O manifesto do Partido Co- munista — e desde sempre, antes deles, conforme as notas de pé de pagina d’O Capital assinalam — 0 mercado de forga de trabalho complexificou-se _extraordinariamente, afastando-se léguas do “modelito” paradigmatico do manual neockissico neoliberal. A sintese dessa extraordinaria complexidade que € 0 mercado de forca de traba- Tho — na verdade, varios mercados, dispensados que estamos de descrevé-los para um seminirio de “experts” — é 0 que Francois Ewald caracteriza como “tecnologia da seguran¢a”, que substituiu a “tecnologia do contrato”, propria do capitalismo concorrencial em seus albores; ou, se preferirmos outro caminho, menos foucaultiano, uma espécie de des confianga da sociedade em relagio a letalidade das mercadorias que o capitalismo inventou: forga de trabalho, terra e dinheiro, na linha de Polanyi. Em outros termos, 0 mercado foi substituido pelos direitos, ou, se se preferir, numa formulagao mais rigorosa, a formacio dos merca- dos de forga de trabalho no capitalismo contemporaneo tem como ele- mento estruturador fundamental o deslocamento, para ser mais radical, do contrato mercantil para o plano dos direitos. O que propée o neoliberalismo fundamentalista? A volta do con- trato mercantil como estruturador insdlito do mercado de forga de Para além do principio do mercado 7 trabalho. Examinemos rapidamente a propriedade dessa proposicao. Ela se choca ou entra em contradi¢ao imediatamente com as premis sas das quais parte o neoliberalismo para propor a desregulamenta do mercado ou dos mercados de forga de trabalho. Desregulamentar, flexibilizar faz-se necessdrio porque j nao ha oportunidade de em- prego para todos, € por isso valeria a pena “esticar” 0 pouco de em- prego que hd, para que ainda atenda a muitos. Banalizando, em linguagem nao-socioldgica, é disto que se trata. Em nossa propria linguagem, trata-se da famosissima perda de centralidade do trabalho, tanto na teoria sociolégica quanto no mun- do real, onde a acumulacdo de capital que se expressa tecnicamente em tecnologia poupadora de mio-de-obra comanda © processo. Re- conhecemos imediatamente Habermas, Offe, Gorz, Touraine e todas as modalidades do “L'adieu au proletariat”, Nao estou incluindo-os como neoliberais; chamo a atencao para vermos onde est a impropri- edade das proposigdes neoliberais Ora, por que voltar ao contrato mercantil puro € simples se a forga de trabalho ja se faz desnecessiria? Sao evidentes as enormes transformages no proprio estatuto da forca de trabalho, em razio de enormes transformag6es sociais, na estrutura de classes, na relacao Estado-sociedade, Em poucas palavras, € evidente que 0 cobertor do contrato mercantil, que se evidenciou curto desde a Grande Depres- so, levando a universalizagdo da regulacao keynesiana, que eu prefi- ro chamar “social-democrata”, torna-se ainda mais improprio numa sociedade que jd estd indo mais além da mercadoria forca de trabalho. Mesmo em outra versdo tedrica, as limitagdes do mercado e do contra to mercantil parecem bastante evidente: Todos os que estamos do outro lado, antineoliberal, também estamos de acordo em que, de alguma maneira, a sociedade do traba- Iho esté se modificando. Nao na velocidade em que se diz, nem tampouco na abrangéncia. Como testemunhou Sebastido Salgado, 0 mundo que ele fotografa é, ainda, um mundo de trabalho e de traba- lhadores. O sentido mais forte em que ela esté se modificando é pro- vavelmente © sentido que constata a erosdo da racionalidade burgue- Sa: 0s limites dela para tratar ndo apenas das quest6es de género, raga, cor, etnia, sexo, meio ambiente, ciéncia € tecnologia, como hoje é moeda corrente falar-se para parecer moderno — seus limites pare- cem mais erodidos exatamente ali onde cla se erigiu como sistema social; no trabalho, sobre o trabalho, no sobretrabalho. O limite, enfim, de permanecer tratando como mercadoria 0 que ja nao tem mais a férrea necessidade, entendida como determinagao. Toda vez que essa contradicio entra em operacio, a de uma desnecessidade social virtualizada pela ampla expansao das forgas Produtivas mas bloqueada pela restri¢do do valor, da mercadoria, 0 8 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho stema como um todo entra em regressdao. A analogia com o nazismo. ito: ali, na ligho de Adorno extraida de Pollock, haveria a producdo de mercadorias sem equivalente, vale dizer, sem a ilusao da liberdade. O capitalismo neoliberal opera quase da mesma forma, com Auschwitz “frios": a extraordinaria expans’o das forgas produtivas esta extrapolando o mundo da mercadoria, mesmo ou so- bretudo 0 da mercadoria “forga de trabalho”. Submetida a restei monetaria, ou a lei do valor, mas desta vez sem recuo — a taxa de desemprego no recua e ela deixou de ser “funcional” para a cetoma- da do processo de acumulagio —, o sistema corta direitos ¢ racionali- za 0 corte em nome da criagdo de empregos que nio ocorre! Trata-se de uma versio de produgio de mercadorias sem equivalente, sem a ilusaio de liberdade, necessaria para a efetivagio do contrato mercan- til. Neste sentido, o sistema, como o nazismo mostrou, nao fica apenas sem © contrato mercantil: fica sem a liberdade! © papel da sociologia do trabalho é fazer a critica desse proce: so. Criada na raiz mesma da centralidade do trabalho como centralidade sociolégica, a sociologia do trabalho especializou-se, cresceu, saiu de simples intuigdes de Marx, Weber e Durkheim para, a partir delas, erguer um enorme ¢ potente edificio tedrico-empirico, mas nao pode contentar-se com seu proprio crescimento, 0 qual é imprescindivel para realizar a critica para a qual est preparada. Se se confundir, se apenas se debrugar sobre seu proprio embelezamento, estar cometendo o erro fatal do narcisismo cientificista, Na crise da sociedade do trabalho, como na crise da sociologia, na crise brasileira, cujo ataque a “direitos relutantemente reconhecidos” (para usar parte de um titulo de livro de Anthony Woodhwyss, gentilmente apontado por Michael Hall) indica 0 que pode acontecer a uma sociedade que permaneceu temendamente desigual mesmo depois de cingiienta anos de legislacio trabalhista, o papel da sociologia do trabalho talvez equivalha em importancia ao da antiga economia politica. Esta é uma provocagao para que pesquisas com essa ambigio tenham curso entre nds, ampliando nossa interlocu¢io cientifica, social € politic Francisco de Oliveira é professor titular do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia Letras € Ciencias Humanas da Universidade de $0 Paulo (USP), Brasil, e pesquisador do Nucleo de Estudos dos Direitos da Cidadania (Nedic) da USP. Redes sociais e flexibilidade do trabalho: uma andlise comparativa Scott B. Martin! Resumo ‘© impacto da mudanca em diregio havendo possibilidade de coexistén mento do poder ¢ da sutonomia nos lo montadoras de automével situadas em regides de longa experiénci no MExico argumenta que a chave para compreender o impacto diferenciado da mudanc: sobre os “regimes de trabalho” se encontet na natureza cht transi¢io. Enquanto. um transigio negociada levi a_um regime de tabalho mais inclusive (Bra Imposta aponta para um regime mais exclucente (México). Estas diferentes trajetOr mudanca sto atribuidas ao cariter panicular dos lagos sociais presentes entre os atores ‘envolvidos com tabalho, com fortes & densos lacos possibilitande uma reforma negoci da € fiacos e disperses kigos levando em direcao a um jogo de soma zero, que possibilita imposiqdes coercitivas dt yeréncia Palavras-chave: regimes de trabalbo, flexibilidade do trabalbo, redes sociais, negociagdo, confianca de trabalho mais flexiveis mio € univovo. 1 do aumento da exploragdo com um potencial au sis de tabalho, Este estudo de duas tradicionais industrial no Brasil € Abstract The impact of moves toward highly flexible labor systems is not univocal, with possibl for heightened exploitation co-existing with a potential for empowerment, enrichment, autonomy in the workplace. This study of wo oldes “brownfied” assembly plants of the contemporary automobile industries of Mexico and Brazil, respectively argues that the key to understanding the variant impact of moves toward labor Hexibility on labor regimes, li in the nature of the transition mode. While a negotiated mode of transition leads toward a bor regime. in the Brazilian case sturdy, «in imposed mode leacls toward 4 more exclusionary one, in the Mexican case. These divergent modes of transitions and wajectories of change are attributed to the particular character of social networks Ges in Which labor and business actors are embedded, with strong. dense ties leading toward negotiations and “winawin” reforms and compromises while weak, dispersed ties leading toward zero-sum conflicts and openin, getial imposition, Keywords: labor regimes; labor flexibility; social networks; negotiation; trust and. more inclusionary kt us for coercive mi A mudanga em direcdo a sistemas flexiveis de trabalho tem se difundido pelo mundo inteiro a partir pressio gerada pela globalizacdo dos mercados e da produgio, da adogio de politicas econdmicas nacionais mais orientadas para o mercado, do declinio da 1 © autor agradece a Heloisa Buarque de Almeidt pela excelente waducio. A pesquisa de ‘campo foi financiada pela Inter American Foundavion, Program “Fulbright-Hays", Organiza io dos Estados Americanos e Instituto de Estudos Latino-Americanos € Ibéricos. ct Columbia University € contou também com o «peio intelectual e de infra-esteutura do Cen- tro de Estudos de Cultura Contemporinea (Cedec) em Sio Paulo ¢ do Centro de Estudios Internacionales de El Colegio de México, na Cidade do México. Revista Latino-americana de Estudios do Trabotho, ano 4,n°6, 1996, PP. 38 10 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho produgdo em massa e de uma variedade de outras forcas econdmicas contemporaneas. Seu impacto sobre o direito dos trabalhadores € suas responsabilidades no local de trabalho, contudo, nao é uma questio i Por um lado, observam-se maiores possibilidades de explo- racdo. Por outro, nota-se pelo menos uma chance potencial de maior participagio € autonomia dos trabalhadores no processo de trabalho por meio da organizagio de tarefas mais variadas, o que lhes permite maior responsabilidade por tomadas de decisdes imediatas ¢ uma par- ticipacao mais ativa, Este estudo sobre duas montadoras em dois grandes paises em desenvolvimento, México € Brasil, argumenta que a chave para a compreensio dos varios impactos da flexibilizagio nos “regimes de wabalho”, ou seja, nos sistemas de direitos dos trabalhadores e sua Tepresentacao coletiva, esti na natureza do processo de transigao. Es- tudos de caso de duas plantas montadoras “brownfield”, uma em cada pais, demonstram os contrastes agudos entre uma forma nego- ciada (no Brasil) e uma forma imposta (no México) de transigao para © trabalho flexivel. Estas formas de wansic&o resuftaram em di- ferentes trajetérias de mudanga no que se refere aos “regimes de trabalho”. Como explicar estes modos de transicdo tao contrastantes? A hi- potese central deste ensaio é de que a capacidade das empresas e dos representantes dos trabalhadores de transcender conflitos de soma zero quanto a flexibilidade ¢ forjar praticas novas ¢ inovadoras é de- terminada pelas recles sociais nas quais, juntos ou separaclamente, eles se encontram imersos no momento em que despontam as pressdes por maior flexibilidade. Tais redes — que pressupdem laos e vincu- los sociais — condicionam seus estilos de comunicagio, comporta- mento e interagdo, assim como as fontes de informa¢ao e outros recur- sos que lhes sao disponiveis. Na fabrica mexicana, uma estrutura de vinculos frageis entre os trabalhadores e entre eles € os atores empre- sariais, assim como em relagio aos atores externos, inviabilizou qual- quer possibilidade de transigao diferente da imposi¢ao. Na planta bra- sileira, todavia, um forte tecido social, constituido por densos vinculos entre os trabalhadores e entre eles e€ os atores empresariais, assim como com relagdo a organizagdes setoriais € nacionais externas, pos- ibilitou que os atores respondessem aos novos desafios ¢ oportunida des mediante negociagdes que levaram a reformas € compromis vantajosos as duas partes. Considerando a amplitude das mudangas que vém ocorrendo no mundo do trabalho, é importante compreender por que existem dife- rencas tio grandes na natureza € no resultado destes processos em termos da agao coletiva dos trabalhadores. © argumento principal da conclusio ¢ de que € necessirio ndo apenas tomar com seriedade o $08 Redes sociais ¢ flexibilidade do trabalho: uma analise comparativa n local de trabalho como terreno de andlise politica, mas também ascen- der a um outro nivel de analise por meio da énfase no modo como a estrutura local € 0s vinculos mais amplos nos quais os atores sociais esto inseridos condicionam suas respostas as pressdes pela reorgani- zacio do trabalho. Os casos, conceitos ¢ estrutura do texto O estudo centra-se em duas plantas montadoras de automéveis que se situam em nichos de mercado semelhantes, com aproximada- mente a mesma idade e estruturas organizacionais e tecnoldgicas Desta forma, controlam-se as diferen¢as qualitativas na organizacio é nas relagdes no local de trabalho que tradicionalmente distinguem fibricas mais antigas, construidas até os anos 70, das mais novas, de “iiltima geracio”, montadas por volta da Ultima década. Ambas sio filiais nacionais de duas distintas grandes multinacionais automobilisticas com sede no mundo industrializado. Os dados da planta brasileira, chamada aqui “B-1" para manter o anonimato dos informantes, foram coletados por extenso trabalho de campo, incluin- do entrevistas com gerentes, sindicalistas e trabalhadores. A discussio da planta mexicana, denominada aqui “M-1”, baseia-se em entrevistas com gerentes, documentos da empresa e fontes secundarias. Tal como € utilizado aqui, 0 conceito de “flexibilidade do traba lho” abrange quatro dimensdes: emprego, contetido do trabalho, jor- nada de trabalho e remuneracio. Flexibilidade no emprego refere-se a quebra na rigidez das condicdes de contratagdo e demissio de traba Ihadores (“flexibilidade externa”) e de transferéncia e promocdo den- tro da empresa (“flexibilidade interna”). Os exemplos incluiriam a desregulagio das demissdes, o aumento da mobilidade lateral de tra- balhadores (entre empregos, turnos etc.) e a maior liberdade de ago gerencial na determinagao de promogées em geral, acompanhadas de supostos indicadores de performance. Flexibilidade no contetido do trabalho significa maior amplitude e variagdo na natureza do trabalho, Os exemplos seriam a ampliagdo ou eliminagio das descrigées de cargos, chamados agora de cargos “multitarefas” ou trabalho “polivalente” (que pressupdem a realizagao de miltiplas tarefas antes feitas por trabalhadores distintos), ou sua substituigéo por grupos de trabalho aut6nomos ou semi-autonomos nos quais os empregados executam e concebem conjuntamente as tarefas que realizarao para alcangar determinados objetivos, trabalhando de forma coletiva com Pequena ou mesmo nenhuma supervisio direta Uma terceira dimensio € a flexibilidade de remuneracdo. A maior transformacao nesta questao é a remunera¢ao baseada no mé to ou no incentivo, em que os salirios (e por vezes os beneficios) comparivei 12 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho tornam-se total Ou parcialmente contingentes de acordo com certos objetivos e/ou indicadores de performance. Finalmente, flexibilidade na jornada de trabatbo refere-se a uma crescente variagio na duragao © periodicidade da jornada “regular” (isto é, excetuando horas extras) dos empregados. Os exemplos sio as chamadas “jornadas Aexiveis” Cem suas is Modalidades) € os turnos de revezamento, Nossa concepcio é€ de que a flexibilidade do trabalho nessas s dimensdes 6, de forma relevante, uma caracteristica basica co- mum a todos os principais modelos de sistemas de produgdo contem- Poriineos, assim como das conhecidas filosofias de reorganizacdo d corporacdes. Entre os primeiros esto os conceitas de “pés-fordismo", “produgao enxuta”, “especializacao flexivel” ¢ “producao diversificada de alta qualidade”. Entre as segundas destacam-se a Administragao da Qualidade Total (Hotal Quality Management), os sistemas fust-in- time, a “reengenharia", processos de melhoria continua e assim por diante, Este texto ndo pretende tomar uma posig¢ao sobre como se deve compreender os sistemas de produgdo, seja como um todo, seja no que se refere aos dois casos especificos aqui estudados. Este é um debate diferente, que envolve uma anilise especifica sobre 6 tamanho das empresas, redes de fornecimento € distribuigio, padrées de regulagdo estatal € intimeras outras quest6es que estio além do esco- po deste estudo. E particularmente crucial evitar qualquer associagio especifica entre 0 que denomino flexibilidade do trabalho — flexibili- dade no uso da forga de trabalho pelos empregadores — € 0 conceito de especializagio flexivel, que se refere a um padrao de relagdes entre empresas ¢ de certa forma entre estas e 0 Estado, no qual as relagdes de tabalho sao uma preocupacao secundaria ou derivada, Antes, a postura agnéstica aqui assumida reflete a tentativa de enfatizar a natu- reza, a variedade e as specto do conjunto das transfor- $ praticas dos recursos humanos ¢ relagdes industriais dentro das empresas, ou © que denomino de forma mais resumida “sistemas de trabalho”. Ademais, ao sugerir uma variedade de diferentes praticas como. parte da agenda de flexibilidade da reestruturacao produtiva con- temporinea, gostaria de evitar a concepgdo essencialista de que ha — ou deve haver — um tinico “modelo” de flexibilidade do trabalho. Flexibilidade ¢ uma questao de grau v a referencia Sbvia que da sen- tido ao termo é um local de trabalho Chistoricamente existente ou imaginario, dependendo do caso concreto em questio) caracterizado por ‘rigide2” em todas ou qttase todas estas quatro dimensdes. Para simplificar, discutirei “sistemas de trabalhos flexiveis” ¢ as transicoes em diregio a eles. Porém, nao quero sugerir que alcangaram 0 topo de algum cortintun evolucionista ou chegaram a um estado fixo, mas sim que atravessaram certo umbral (ainda que definido de forma varia Redes sociais e flexibilidade do trabalho: uma anélise comparativa 13 nebulosa) entre um sistema de trabalho (mais) rigido e outro (mais) flexivel. Além disso, a0 tessaitar 0 fato de que a flexibilidade pode se dar de forma mais ou menos opressiva, mais ou menos inclusiva ou participativa, meu propésito € sugerir que as praticas flexiveis podem ser incorporadas numa grande variedade de diferentes formas de rela- des sociais. Finalmente, 0 estudo postula trés amplas formas de classificar a transi¢o para sistemas de trabalho flexiveis: imposic’o unilateral, con- ciliagao (conhecida nos Estados Unidos como “concession bargaining’) € negociagao. Imposi¢do implica uma tentativa gerencial unilateral de impor aos trabalhadores novas praticas de emprego, sem passar por acordo com seus representantes. Normalmente, tais tentativas envolvem © uso ou a ameaca de coercSo por meio de demissdes em massa, redu- ¢40 dos sindicalizados ou vigilancia e pressao exacerbadas no ambiente de trabalho; em muitos, mas nado em todos os casos, segue-se algum. tipo de confronta¢do explicita entre a forca de trabalho e o nivel gerencial. Conciliagdorefere-se a situagdes de troca desigual em que os representantes dos trabalhadores concordam formalmente com mudan- gas nas relagdes de emprego concebidas unilateralmente e implementadas pela administragao, as quais geralmente corroem os pa- drées € praticas existentes. Finalmente, negociagdo implica situagdes de troca pelo menos relativamente equilibradas, em que os porta-vozes dos empregados aceitam e talvez até proponham mudangas que alteram as Praticas € padrdes de empregos existentes como parte de um jogo de trocas, no qual mantém uma forga significativa. Vinculos sociais contrastantes Quando a geréncia iniciou sua tentativa de implementar sistemas de trabalho altamente flexiveis, os principais atores nas duas plantas estavam inseridos em cendrios € relagGes sociais nitidamente contrastantes, No caso da fabrica mexicana, os vinculos eram frageis ou inexistentes em trés eixos: “internamente” (isto é, intra-organiza- ¢40), “externamente” (isto é, em relacdo a outros atores setoriais € nacionais no dominio do trabalho e da indistria) e “bilateralmente” (isto €, entre os niveis da geréncia e da forga de trabalho). Na fabrica brasileira, os vinculos eram fortes ou moderados nos mesmos eixos. Isso gerava um denso conjunto de relacdes com o ambiente externo a empreésa, que contrastava com o conjunto de relagdes esparsas € “encapsuladas” do caso mexicano. Para facilitar a exposigio, refiro-me a esta diferenga basica como “vinculos fortes” em B-1 (Brasil) por posi¢ao a “vinculos frageis” em M-1 (México). ___ Nesta segao, descreverei estes arranjos opostos de relacées soci- als estruturadas mediante trés amplas categorias: “vinculos da forca de Se eeeeeeEE 14 Revista Latino-americana de Estudos do Trabaiho trabalho”, “vinculos empresariais” € “vinculos entre forga de trabalho e geréncia”. A partir dai as diferengas serao apresentadas resumidamen- te, compondo o cendrio para a elaboragao da forma pela qual estes vinculos sociais definicam modos distintos de wansi¢do para sistentas de trabalho flexiveis e, portanto, distintas dindmicas de regime de trabalho. Vinculos da forga de trabalho Por tras de uma trajetoria histérica comum de sindicalismo mili- tante, com grande participagaio dos trabalhadores, nascido de movi- mentos dissidentes dos anos 70, escondiam-se diferengas significativas nos vinculos sociais da forga de trabalho entre as duas plantas. Vincu- los frdgeis em geral caracterizaram a situagio dos representantes dos operarios na planta M-1, tanto interna como externamente. Analisan- do primeiro as relagdes intesnas, os principais atores — trahalhadores scus representantes de base ¢ a lideranga do sindicato — eram pouco, organizados como entidades distintas € suas ligagdes cram precacias, intermitentes € cambiantes. Entre os trabalhadores, os estudos de chijo-de-fabrica demonstraram haver um alto nivel de identificagio coesio interna ao grupo de trabalho, mas igualmente um alto nivel de rivalidade entre os grupos de trabalho, caracteristicas, entre ou- tros fatores, derivam da divisio da planta em nove oficinas, ou raves, sepuradas; do rigido sistema de classificagio de cargos ¢ da hierarquia de trabalho, definido com base no tempo de servigo; do sistema de cleigao. de representantes. de base (conhecidos como delegados departamentales ou seccionaless, cujas jurisdigdes: core pequenas arcas de trabalho dentio das ofici Outra fonte de diviso entre os trabalhadores era o grande nime- te de irabalhadores temporarios ali empregados por periodos que Variavam entre poucas semanas e dois anos em alguns casos, por saldrios consideravelmente mais possibili spondiam a baixos, sem garantia ¢ sem qualquer ude de previsio de aquisigto do status de tabalhador per manente O trabalho temporirio era ur peio sindicate 2 partir do find de dée tica aceita com relutincia ia de 70, ainda que estes traba- Ihadores (erenniales) tiv essern que Ser necessariamente sindicali dlos == assim como. seus colegas Permanentes, sob o sistema de “closed shop? Na segunda metade da decada de 80, quando a partici- pacie dos erentiates no te wa forea de trabalho cresceu de aproxi- Madamente 20% para um pico de 4s. 0 sindicato lutou de modo SreSCENUG restringir esta pratis ainda que tenha atingido ape- nas resultados limitados. Dado que trequentemente estes operirios rilhavan fate com os permanentes € e pressées da geréncia, introduzi am muito mais vulnera- sun uma fonte adicional de Redes sociais e flexibilidade do trabalho: uma cnéiise comparative 15 tensao nas relagdes cotidianas no ambiente de trabalho ¢ na dinami interna do sinclicato. |A presenga de frigeis vinculos foi uma caracteristica persistente por muitas décadas nas relagdes entre os trabalhadores © 0s lideres sindicais. Havia uma forte tradicao de ativismo dos trabalhadores con- tra os abusos da Tideranga que vinha desde 6 movimento de 1972, quando romperam com a maior confederagio de trabalho naciona oficial”, ligada institucionalmente ao partido governante (PRD © 40 Estado — a CTM (Confederacion de los Trabajadores Mexicanos). O movimento dissidente tanto conseguiu 0 controle do sindicato como rompeu com a CTM, juntando-se 2 recém-formada Unidad Operaria Independiente (GOD, uma organizagio nacional de trabalhadores centrada principalmente na inddstria automobilistica. No entanto, continuaram os conflitos entre os operirios ea lideranga, especial mente porque um poderoso advogado do sindicato dos trahalhado- res, também presidente nacional da UOT, buscou exercer um controle cada vez mais rigido sobre as barganhas © os negécios internos do sindicato. Numa ¢lisputa em que tentaram violar os estitutos que im- pediam « reeleigdio para a presicéncia, os quais hatviam siclo impostos pelo movimento democratizante do sindicato, ele € seus aliados foram sumariamente expulsos do sindicato e os trabalhatdores voraram pels desvinculagio da UOT Os problemas, contudo, Mo terminarin at as dificuldades persistentes na transicao de momento de transigao” de im destituidas por votos de istente: como se pode notar pe poder no periodo que antecedeu o crucial 1992. Entre 1984 € 1992, duas cliretorias for assembléia geral, outra renunciou no inicio de seu mance € outra inda foi totalmente derrotack quando desafiout os estatutos do sindi- cato ao tentar at recleigio. No centro das cronicas tenses entre os trabalhadores © 2 lide- © 6 fato de que norms © procedimentos dos a elementos de democracia coexistiam ao lade de poderes ‘eldusnila ile ranga sindical destacava-s formalmente democraticos. mistu direta ¢ representativa ov plebiscitari de fato quase ditatoriais do sindicato. A denominada usividad’, que se tornou uma norma contratual anypkamente wtli- sada de 30, estubel fecendo a zada na economia mexicand a partir da dé obrigatoricdade de que todo opcririo contratado fosse sindicalizacle num sistema “closed-shop", constituia-se numa das principais fontes desse tipo de poder. Ademais, a “eldusiila de exclusién™ que normal- Mente a acompanhava. dava aos lideres sindieais o poder de expulsar determinado trabalhador do sindicato ©, com isso, obrigatr o empresit- dor a demiti-lo imediatamente. Os reformistas democritices nao ques- Tionaramt estas normas contratuatis, embora clas ndo tivessem forma cle nto, passiveis de reformukagio ou elimi- desta jai bem estabelevida estatuto legal ¢ fossem, por Nagao, Além disso, continuaran su 16 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho arma de exclusao, usada pelas oligarquias tradicionais do sindicalismo mexicano (charros) para enfraquecer seus oponentes, se bem que de forma bem mais seletiva. Ademais, embora o uso destas praticas vari- asse muito entre os lideres e tivesse se tornado bem menos comum do que nos sindicatos charros, abusos como a exigéncia de “gorjetas” em troca de contratagées € promogées e 0 uso ilegal da propriedade e dos fundos do sindicato continuaram nao sendo raros. Finalmente, foram grande fonte de conflitos entre operdrios e lideres as negocia- Ges secretas Ocasionais, nas quais estes ultimos participavam de bar- ganhas paralelas — normalmente sobre normas de trabalho, mas por vezes também sobre questées salariais — fora do processo de barga- nha coletiva. Tais disputas resultaram nos votos que destituiram lide- res sindicais em 1988 e 1992. Boa parte da explicagao para os abusos de autoridade dos lideres € seus conflitos endémicos com os operirios associa-se as regras for mais e informais sob as quais a vida sindical estava estruturada. Proibi- des normativas e estatutirias rigorosas quanto a reelei¢20 consecuti- va de membros do comité executivo, mandatos curtos (trés anos) e 0 costume de que membros do sindicato que estavam deixando seus cargos saissem também da empresa com indenizagdes generosas a0 final do periodo por causa de acordos arranjados entre os novos lide- res € a direcaio da empresa, tudo isso gerou grande rotatividade entre os lideres e uma tendéncia a comportamentos oportunistas durante curtos mandatos, Some-se a isso, ainda, a existéncia de regras eleito- rais que facilitavam enormemente a formagio de chapas de candida- tos e que freqdentemente geravam gestOes sindicais minoritdrias; a natureza cambiante € personalista das “panelinhas” na lideranca; e campanhas que freqientemente se centravam na promessa de desfa- zer as concessdes ou abusos (reais ou imagindrios) dos lideres anteri- ores. Com gestoes de diretoria sindical que, quase por definicao, ti- nham pouco apoio € eram pouco capazes, a tendéncia ao uso oportu- nista do poder coercitivo € arbitrario da organizago era muito alta, € Ppraticamente inerente ndo apenas para fins pessoais, mas também para poder dirigir 0 sindicato de modo minimamente efetivo. Agravando a fragilidade dos vinculos entre lideres e operarios havia o fato de que os trabalhadores — e também seus representantes de base, com quem tinham uma relagio mais direta € imediata — tinham instrumentos para fiscalizar as decisdes que eram facas de dois gumes — tanto poderosos quanto limitados. Assembléias gerais aber- tas a todos os operdrios sindicalizados tinham poder de aprovar acor- dos contratuais e criar — entre os operdrios, representantes de base e membros do comité executivo — comissdes ad hoc de greve e de negociagio que atuavam em acordos especificos. Os lideres tinham que trabalhar junto com estas grandes comissdes, por vezes dificeis de Redes socials ¢ flexibilidade do trabalho: uma anélise comparativa 7 lidar, durante os periodos de renovagio dos contratos bienais e nas discussdes sobre revisio salarial que aconteciam em anos alternados. As assembléias podiam ser convocadas também para votar sobre a destituicdio de uma diretoria ou outros cargos, para a qual bastava uma maioria simples de sdcios registrados no sindicato. Era relativamente facil convocar estas assembléias (ainda que exigissem grande divulga- Gio € aviso prévio), bastando uma simples maioria de representantes de base ou uma peticaio dos membros. Nesse sentido, ao mesmo tem- po que detinham armas potentes para punir e destituir lideres abu- ‘sivos, 08 trabalhadores também estavam sujeitos ao exercicio do po- der arbitrario cotidiana ¢ individualmente, € faltavam mecanismos normatizadores que pudessem garantir a transparéncia € a responsa- bilidade das gestées sindicais. Desta forma, vinculos frageis geraram uma dindmica perpétua de lideres com muito poder aparente e for- mal, mas politicamente fracos, que se sentiam tentados a usar seu poder para cometer abusos € fechar acordos secretos com a gerencia empresarial, simplesmente para poder se manter no cargo € continuar tomando decisdes em nome dos representados. Todavia, uma vez que abusos ou concess6es particularmente ultrajantes ultrapassavam certo limite de tolerincia de acordo com operarios € representantes de base onfiados e vigilantes, os lideres sindicais eram rapidamente ex- 9s € substituidos, : Como esta implicito na discussao acima, Os representantes de base formavam uma camada intermedidria de representago no sin- dicato, O fato de serem diretamente eleitos nas varias segdes, de poderem se candidatar a reeleigdes consecutivas (sendo freqiien- temente reeleitos) e de ocuparem um posto intermediério na linha de frente entre operirios e supervisores quanto a uma grande gama le questées — por exemplo, disputas sobre promogdes, sancoes disciplinares, ritmos de trabalho etc. — tornava-os um certo tipo de contrapeso 2 lideranga sindical. Especialmente sua relacio com os supervisores possibilitava que garantissem ou negassem “favores” — digamos, uma promogao ou transferéncia — aos operirios e as: sim ganhassem sua lealdade. Seu prestigio € autoridade tornava-os aliados importantes, embora nao garantidos, para os lideres sindicais vigentes ou futuros. Externamente, os sindicalistas da M-1 tinham vinculos extrema- mente frageis com o resto do movimento operario nio-oficial, mesmo com outros sindicatos independentes da mesma industria que havia no México central. De sua parte, a UOI era dominada por um lider carismatico de destaque que focava sua atengao nas questdes em nivel s industriais mais gerais) ¢ mantinha distin- € dissidentes mais amplos , da década de 70, € a de fabrica (em vez de tema cia de movimentos sindicais independentes € politizados, como a Tendencia Democratic: EE ———————— 18 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho Frente Auténtica de Trabajo (FAT). Depois de desligar-se da UOI, 0 sindicato da M-1 manteve apenas contatos esporadicos com sindicatos que seguiam a mesma orienta¢ao politica, Uma escassez semelhante de ligacdes marcou as relagdes dos sindicalistas da M-1 com correntes politicas contrérias ao regime, movimentos sociais, organizacdes nio- governamentais e intelectuais. A auséncia ou fragilidade de relagdes externas tanto refletiram a fragilidade dos vinculos internos como contribuiram para tal. Por um lado, uma organizacio fragmentada, com alta alternancia de lideres, nao estava em posicio de manter lagos sustentaveis, e muito menos formais, com outras organizagoes. Por outro, a falta de ligagdes tangi- veis com referéncias externas € recursos materiais € simbdlicos — que de forma alguma estavam ausentes neste periodo efervescente da vida politica € social mexicana — contribuiu para a altamente cambiante, personalista e pouco programitica natureza da competi¢ao e do con- flito interno ao sindicato. Por oposicao, no periodo que antecedeu a transigio 4 maior fle- xibilidade na planta B-1, os representantes dos operdrios estavam in- seridos em densos vinculos sociais, tanto interna como externamente. A base para estes vinculos foi fornecida pela trajetoria do Sindicato dos Metaltirgicos de $40 Bernardo, como pélo de lideranga de um ressurgimento operario militante que datava dos anos 70, 0 “novo sindicalismo”?. Este sindicato foi e — hoje transformado no Sindicato dos Metaltirgicos do ABC — continua sendo, sem dtivida, a mais influ- ente organizacao dentro da Central Unica dos Trabalhadores (CUT), criada em 1983, a maior € mais ativa central sindical do Brasil. Em 1976, novos lideres assumiram o sindicato com propostas de uma linha de aco mais combativa em relacdo a atuacdo mais acomodada da lideranca anterior. Eles democratizaram © sindicato, refizeram os vinculos com os operirios € criaram conexdes com ativistas sindicais € politicos de outros setores € regides. Sob a lideranca do presidente Luis Inacio Lula da Silva, o sindicato de Sao Bernardo encabegou uma onda de greves de escopo nacional no periodo 1978-80 que ajudou a enfraquecer o regime militar e atraiu amplo apoio da oposigao politica ao governo. Lula e outros sindicalistas também uniram-se a ativistas da Igreja progressista, associacdes de bairro e outros movimentos sociai: para fundar em 1980 0 Partido dos Trabalhadores (PT), de orientagao xemplos S30 sua participagdo numa coalizao de curta duragio de sindicatos automo- bilisticos independentes no final dos anos 80 (Coalicién Auténoma de Sindicatos Automotrices - Casia), em algumas reunides do férum de debates de 1987, Union Concertation Roundtable, ¢ em passeatas ndo-oficiais do Dia do Tr lho. 3 A literatura sobre 0 novo sindicalismo € extensa. Trabalhos important (1989), Antunes (1991) € Rodrigues (1997). io os de Keck Redes sociais e flexibilidade do trabalho: uma anélise comporativa 19 socialista, que se tornou 0 principal partido de oposig’o na nova de- mocracia que se instaurou em 1985. No front interno, os vinculos que uniam os varios lideres entre si, entre as liderangas ¢ os operdrios da planta B-1, assim como entre eles € os sindicalistas, eram bastantes fortes. Sob o sistema brasileiro de sindicato nico, as organizagées sindicais representavam todos os tra- balhadores das induistrias metalurgicas, definidas de forma ampla, em Varios municipios contiguos, 0 maior deles $40 Bernardo do Campo, localizado na periferia industrial de S40 Paulo. A categoria ocupa- cional dos metalargicos incluia as empresas montadoras, de autope- gas, de maquinas e equipamentos € do setor de metalurgia de forma geral, Os novos sindicalistas reverteram a tradicao conhecida no Brasil de peleguismo da lideranga burocratica, indiferente em relacdo as ba- ses; dominada pelo Estado; distante do local de trabalho; garantida pela renda gerada pelo imposto sindical compuls6rio, coletado pelo Estado por meio do salario de todos trabalhadores; e que se relaciona- va com 0 operarios essencialmente como coordenadora dos benefici- os médicos e odontolégicos subsidiados pelo Estado. Em 1981, a B-1 foi a primeira entre muitas grandes fabricas de $40 Bernardo em que o movimento liderado pelo sindicato conseguiu 0 reconhecimento da empresa para os recém-criados conselhos operirios eleitos pelos tra- balhadores, as comissdes de fabrica. Ademais, em meados desta déca- da, 0 sindicato recusou-se a permanecer recebendo a renda do impo: to sindical, substituindo-a por um sistema mais baseado nas mensali- dades voluntarias. Esta atitude refletiu e impulsionou a grande campa- nha de sindicalizagao liderada pelo sindicato*. No final da década de 80, © sindicato tinha uma das maiores taxas de adesao do Brasil, (aproximadamente 40%), sendo que na B-1 € outras ués grandes montadoras a taxa registrava ou superava 80%. Desde 1993, 0 sindicato passou a se chamar Sindicato dos Metalirgicos do ABC, em fungao da fusio com 0 sindicato do munici- pio de Santo André, embora aqui continuemos utilizando 0 nome antigo ao longo do texto para nio confundir o leitor. ‘Além da alta taxa de adesao sob um sistema voluntirio, outro indi- ce do forte vinculo entre operarios e lideranga eram as freqiientes as sembléias sindicais e de fabrica, com alto grau de comparecimento, convocadas para discutir contratos € outras questdes. AS S eram “soberanas” quanto a questdes relacionadas a demand contratuais e condigdes de trabalho de forma geral e abertas a tod Nas pouieas ocasides em que as recomendagdes da lideranga foram recu- 4 E importante frisar que, diversamente do caso da M-L, na planta BA — de acordo com as ormas que regem a vids sindical do pais — a sindicalizacio é um ato voluntitio. 20 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho sadas pelos operirios, estas decis6es foram totalmente respeitadas e le- vadas a cabo, Tais fatos tenderam a reforgar a legitimidade dos lideres. Ainda outro sinal do apoio dos trabalhadores aos lideres sindicais foi o fato de que, sob um processo cleitoral aberto, baseado no voto secreto, ¢ com grande comparecimento dos operdrios, a linhagem que tem suas raizes na lideranga de Lula continuou no poder com 90% ou mais dos votos durante os anos 80 € 90. Ocorreram, no entanto, fre- qiientes mudangas de lideres nessa tendéncia geral de continuidade, impedindo a burocratizagio. Por meio da combinacao entre restrigdes estatut (que incluem limite de dois mandatos para o presidente do sindicato) ¢ normas informais de renovacdo de quadros, garantiu- se a alternancia substantiva de lideres ao final de cada periodo de trés anos, com novatos advindos ¢la militincia dle fabrica sendo continua- mente chamados a assumir os postos de liderancas no sindicato e os mais antigos abandonando os postos sindicais para assumir cargos eletivos na CUT, no partido, ou mesmo voltando para as fabricas. Desde a época em que Lula € seus colegas foram cassados pelo gover- no militar em 1980, 0 sindicato teve quatro presidentes diferentes, cada um representando sangue novo e trazendo novas idéias ao pro- jeto comum de sindicalismo participativo e ativista. Além disso, um beneficio da continuidade — e resultado de uma politica especifica em vigor — foi o desenvolvimento de um grupo altamente qualificado e cada vez mais experiente de profissionais progressistas na area legal, de ciéncias sociais e jornalistica que fornecem assessoria € desenvol- vem relacdes préximas com os funcionarios do sindicato. Tal situagio contrasta com 0 baixo nivel de profissionalismo e grande alternancia de staff no sindicato da M-1. O alto grau de identificagdo entre os lideres e a base relaciona-s com os fortes vinculos de solidariedade entre os trabalhadores. Ao entrevistar uma amostra de treze operirios da B-1 em 1992, pude observar que as identidades grupais eram bem mais fortes do que aquelas mencionadas em estudos sobre a M-1. Tal situacio deriva de uma variedade de fatores: a forga da identidade coletiva dos “metalirgicos de Sao Bernardo”, o fato de a B-I ser uma planta mais concentrada fisicamente e a menor rigidez na estrutura de cargos € larios da B-1, em relagao a M-1. No nivel do chio-de-fabrica, havia dois grandes grupos de re- presentantes trabalhistas: os da comissio bilateral de seguranca e satide estabelecida por lei, a Comissio Interna de Prevencio de Acidentes (Cipa), ¢€ os membros da comissio de fabric casos, os membros, eleitos dirctamente por seus colegas, eram inva- riavelmente ativistas jd atuantes que haviam sido treinados para o cargo pelo seu envolvimento com as atividades do sindicato — pela participacio em comicios, lideranga de greves, acompanhamento de 1. Nos dois Redes sociais € flexibitidade do trabalho: uma andlise comparativa 21 cursos de treinamento (que normalmente enfatizavam habilidades de lideranga ¢ negociagdo, nogdes de sindic: lismo € quest6es técnicas da produgio) —, tendo sido, consegitentemente, escolhidos como candidatos nas “primarias” informais internas do sindicato antes de se candidatarem na fabrica. Na pratica, este relacionamento implica que os representantes de base ¢ os sindicalistas trabalhem juntos nas negociagdes © estratégias de mobilizacao, sendo que os primeiros tem acesso aos lideres do sindicato @ aos assessores especializados que os aconselham em varias situacdes. Diversamente da situagao da M-1, havia portanto relagdes de trabalho intimas entre os represen- tantes de Fabrica e 0 sindicato’ Fortes vinculos externos trabalhistas reforgavam vinculos inter- hos € vice-versa, tanto na B-1 € nas outras pkintas como no sindicato ste sindicato 6, sem diivida, o mais influente na sumiram tendo gerado seus dois presidentes € muitos dos que a car ecutivos nacionais, setoriais € estaduais. Ademais, Os sindi listas provenientes do Sindicado dos Metaltirgicos de Sao Bernardo sempre foram lideres proeminentes da tendéncia de centro-esquerda dominante na CUT, « Articulagdo Sindlical, O sindicato tinha um papel de chefia na coordenagao das atividades dos sindicatos metalurgicos filiados & CUT, no estado de Sao Paulo € também em nivel nacional, tanto por meio da lideranga formal no Departamento Nacional dos Metaldirgicos da Central, depois transformado em confederagao, como por contatos mais informais. Os sindicalistas de $20 Bernardo também eram procminentes na chefia nacional do PT ¢ elegeram candidatos nos niveis municipal, estadual ¢ nacional. Apesar de cuidadosas sepa- ragdes institucionais, as fortes afinidades politicas permanecem © a sensacao de ser ativista da CUT e do PT (ou pelo menos simpatizante) reforcou as ligacdes interpessoais intergeracionais dentro da rede de ativistas de $0 Bernardo. Além disso, direta ou indiretamente, por meio da CUT e do PT, os sindicalistas de Sao Bernardo — de forma de seus colegas na M-1 — mantém vinculos importantes com nao-governamentais do pais e de fora que fornecem as- assim como com outros sindicatos € organizagoes ises. diver organi sisténcia tGenic: trabalhistas internacionais com sede em muitos pa Vinerilos empresariais Tradicionalmente pensadas como hierarquias simples de coman- do © controle, as corpor costumam ter hoje relagdes internas: Oe! rato assim. que os inlormantes falaysam sobre eles como se fossem a mesma coisst, Com frases como “ele & do situicato", tanto pact se referie aos funcionirios do sinlcate. como os membros dt comissio de Fibriea @ «ks Cipa fee 22 Revista Latino-americana de Esfudos do Trabalho s, especialmente no caso de multina: is com redes de Ao, fornecimento ¢ distribuigio globais, como as aqui descritas. Nesta secdo, tratarei da natureza destas relagdes na area de adminis- tracio de recursos humanos e relacdes trabalhistas, Em corporagdes modernas especializadas como estas, considera-se que a responsabili- dade de lidar com a forga de trabalho é dividida entre especialistas de humanos ¢ relagdes industriais, por um lado, e © pessoal da produgio € supervisores responsaveis pela inspecdo cotidiana € ime- diata ¢ a chefia dos operarios, por outro, No tocante 4 coordenagio gerencial, ha a questio interna de como se da a ligagao entre estes dois conjuntos de atores e, por extensio, entre eles ¢ 0 nivel gerencial mais alto. Além disso, considerando que as relagdes de trabalho po- dem extrapolar 6 dominio de uma Gnica empresa ¢ abranger outras no mesmo setor Ou regio, ou mesmo na esfera da economia nacional mais ampla, é importante considerar, no que diz respeito a gestio da mao-de-obra por parte de qualquer empresa ou Fibrica, a questo “externa” da natureza das suas relagdes com as outras empresas A geréncia da fabrica M-1 caracterizava-se por conexoes relati- vamente frageis em ambas as dimensdes. Os recursos humanos e a geréncia responsavel pela produgao tinham uma relagdo distante, ba- seada na divisio funcional das tarefas. Havia pouca coordenagdo em fireas de interesse e responsabilidade miituas, como programas de treinamento, testes de selegdo, ou processos de promogio. Ademais, os recursos humanos € as relagdes industriais ocupavam posicio marginal na hierarquia gerencial da afiliada multinacional. Isso se manifestava no pequeno tamanho € pouco profissionalismo de seu pessoal, seu baixo orcamento e prestigio. Até a época das mudang que este texto analisa, a maior miss jong io do departamento cra “negati- va”, devendo lidar com os problemas de interrupgao de trabalho, mantendo tais paralisagdes num nivel minimo ou buscando seu tér- mino imediato. Externamente, os gerentes da M-1 mantinham vinculos ténues com seus Concorrentes na industria, assim como com as Outras empre- sas ¢ organizagdes empresariais como um todo. Quanto a tiltima co- nexao, os estudos mostram com consisténcia que as multinacionais automotivas operantes no México buscavam, no periodo que vai des- de os anos 60 até as negociagGes do Nafta, no inicio da década de 90, estratégias individuais de influ@ncia nas politicas regulatérias estatais na esfcra do comércio ¢ dos investimentos (cf. por exemplo, Bennet ¢ Sharpe, 1986; Aliza, 1994), A M-1 costumava ter inter des distintas dos seus concorrentes em ra; es © po 240 de uma integracao mais vertical de seu proceso de produgio, Além disso, a principal confe- deragio industrial, a Asociacién Mexicana de la Industria Automotiva (Amia), tinha um papel menor nestas questées regulatorias de grande ———————————————————————— Redes socials e flexibilidade do trabalho: uma andlise comparativa 23 pilidade e no mantinha virtualmente nenhum papel em questoes as que eram de menor destaque para o ramo, A Amia nao ou mediagao nas discussdes s 1 recursos humanos € vi trabalhist atuava como agente de negoci contratuais, nem deu énfase a questOes ligad: relagdes indlustriais nos estudos € reunides que promoveu. Por oposigao, os gerentes: da B-1, no Brasil, mantinham fortes vinculos empresarias internos ¢ externos quanto a questdes trabalhis- tas, Se tradicionalmente as relagdes entre o pessoal de recursos hu- manos e a geréncia de produgdo eram distantes, tornaram-se mais proximas depois da crise de 1986, quando a geréncia de produgio € } dirctoria brasileira da emprest pressionaram, com éxito, pela extingio da comi 1 de Fabrica. As entrevistas que realizei com fun- Figs dlestes dois setores em 1990 € 1992 deixaram claro que ©: gerentes de recursos humanos trabalharam muito para convencer seus colegas da producdo a aceitar 0 restabelecimento da comissiio, que ocorreu no inicio de 1988, ¢ a abalhar com representantes operarios. Estes esforgos incluiram cursos de treinamento na area de relagdes interpessoais. Ademais, tais iniciativas foram reforcadas ne a proposta do escaldio mais alto da corporagio de modernizar as divi- soes da hierarquia brasileira (resultando num turnover maior no ni- vel gerencial médio no final dos anos 80 € inicio dos 90) € a a produtividade mediante técni: de controle de estoque e oe de qualidade, que exigiam, entre outras mudangas, uma fora de tra- balho mais compromissada € atuante. O resultado foi a crescente coordenacio entre os responsaveis pelas areas de produgio € de recui cion: sos humanos. ‘A administragao da B-1 também mantinha fortes ligagdes exter- has quanto a questdes trabalhistas. Sob o sistema brasileiro de organi- zacdo compulsoria das empresas em seus proprios sindicatos (confe- derages industriais, federagdes industriais estaduais € organiza setoriais), a B-l € outras empresas metaltirgicas com plantas em Sac Bernardo negociavam conjuntamente por meio da federagao industri- al estadual (Fiesp) a renovagao de contrato anual. Na primeira metade dos anos 80, © sindicato de Sao Bernardo conseguiu_reforgar seus Vinculos com outros sindicatos metaltirgicos filiados a CUT no interior do estado de $20 Paulo, num processo de barganha coletiva das in- dustrias deste setor no Ambito estadual. Na segunda metade da dé da, no entanto, desenvolveu-se uma tendéncia crescente entre estes sindicatos de fechar acordos individuais com as companhias automo- bilisticas nas questoes relativas a reajustes salariais ¢ jornada de traba- Iho, entre outras, dado que desta forma alcangavam condigoes mais vantajosas. Esta tendéncia serviu aumentar a importancia do sin- dicato setorial automotivo, 0 Sindicato Nacional dos Fabricantes de Veiculos Automotivos (Sinfavea), como forum para discussdo € coor 24 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho dlenagdo das estratégias das montadoras de automovel, mesmo quan- do a regra era de acordos especificos em cada empresa. O Sinf:vea ¢ sua organizagao “irma”, a Associagio Nacional dos Fabricantes de Ve iculos Automotivos (Anfavea), associagao setorial voluntiria que trata- va de outras quest6es setoriais e que mantinha a mesma lideranga, funcionarios © infra-estrutura, estiveram sob crescente pressio da B-1 e de outras empresas para aprimorar seu fornecimento de informa- des, assisténcia técnica, lobbies e outros servicos. No inicio de 1992, tal exigéncia levou A mudanga na gestio da orgunizagio, com um executivo mais jovem ¢ ativo da Mercedes-Benz subindo a0 poder. Ele aumentou a visibilidade e a eficiéncia do Sinfavea-Anfavea em geral ¢. mais especificamente, tornou camara setorial, as quitis s se a figura central nas negociacdes cla > discutidas a seguir, Vinculos entre forca de trabalho e geréncia Oterceiro € tiltimo contraste entre as duas fabricas refere-se aos vinculos entre os atores mais importantes no periodo que antecede a transic¢ao dos sistemas de trabalho — frageis no caso da M-1 ¢ de moderados af na B-1, Em ambos os casos, algumas ten ivas. ante os periodos considerados (aproximadamente entre 1988 ¢ 1992 na planta mexicana € 1988 ¢ 1993 na brasileira). Eles desenvolve- ram-se de modo notavelmente semelhante nas cluas sem ter mos de estratégias gerenciais, com Os seguintes clementos basicos: maior énfase na participagao dos operirios no controle de qualidade (por exemplo, mediante a organizagdo de operarios e supervisores em “circulos de controle de qualidade” - CCQs); algumas inovacdes tecnoldgicas com objetivos especificos que criaram novos cargos para individuos com alta qualificagao, dispensando grande ntimero de ope- ririos semiqualificados; subcontratagio de alguns servigos ¢ trabalhos de manutencio auxiliares ¢ terecirizagdo de algumas pecas e compo- nentes antes produzidos internamente; uso maior do recurso da hora xtra nos periodos de picos produtivos e de paralisagdes tempora nas fases de haixa; ¢ maior énfase na mobilidace lateral da forga de trabalho dentro da planta. Enquanto relagdes de desconfianga ¢ adversidade persistiam na M-1, um clima de respeito mtituo € cooperacao, ainda que incipiente, quanto a questées do ambiente de tabalho surgiu na B-1 pela primei- ra vez, As cliferentes trajetorias dos vinculos entre forga de trabalho e geréncia destacam-se quando se examinam dois aspectos desta rela- 40 bilateral: a natureza € a forma de lidar com os conflitos ¢ as interagdes nos programas de participaca 10, Kas dusts pkintas havia ele vado grau de conflito, especialmente no que se refere tis questos Redes sociais € flexibllidade do trabalho: uma andlise comparativa 28 is de austeridade vo do local de salariais (nuM contexto de politicas governament sakaial), assim Como no que diz respeito a reestrutur ‘ trabalho, Na M-1 havia ainda os elementos de disputa interna do sin- sitos mais detalhadamente dicato, pois, antecipando os eventos des lumen na proxima secio, em TBS € 1992 a yerencia promoveu conflitos 0 Fentar fechar controversos acordos secretos com lideres sinclicais. Jo- gar com as divisdes internas do sindicato era uma pritica arraigada ny Ail, Em sua defesa, os executivos argumentavam que, “com Tntt alternancia © luta interna no sindicato, nunca sabiamos com quem “como expressou 6 antigo diretor de relagdes in- vamos lidand dustriais © atual membro do consetho executivo” Na Bel, a0 contririo, os dois lados indicaram em enirevistas em. 1990 © 1992 que havia respeito meituo ¢ uM canal aberto de comuni- 16, mesmo nos periodos dle conilito, O gerente de recursos hum: nos descreveu sua rekigio com at lideranga do sindicato de Sio Bernardo da seguinte forma: “Hoje ha um didlogo muito franco, com respeito matuo © Compreensio™. O diretor de recursos humanos det mento dos dois lados, sidacle dos movi- Ss coisas que planta considerou que houve um amadures compreensio da geréncia cla fabrica quaint mentos”, assim como “MeEnos pressio de piquetes € OUT los sindicalistas] costumavam fazer™. E um dlos lideres da comissao de fabrica enfatizou que a melhoria nas rekagdes associava-se ao fato de que “hoje « companhia nao faz nada sem falar com a gente™. Os vinculos bilaterais quanto & reestruturagio do local cle traba- mbém expdem diferengas importantes entre as fabricas. N ve 1a clis- nec Iho praticamente nado havia contatos entre sindicato ¢ geréncia pa Cussio sobre CCQs Ou Outras instincias de participacio operat sindicalistas nto eram convidados a tomar parte € nem eram informa- programas, © no mostravam interesse em partcipar ou tis foram convocadas dos sobre 0s informar-se, Na B-1, entretanto, reunides especial i. para que os membros dat comissio de Fabrica, representantes dla Cipa © os sindicalistas Conhecessem os Objetivos visados por programas de participacdo como os chamados grupos de “solucao de problemas” € uma iniciativa de desverticalizacao gerencial chamada de “integragao organizacional”, entre outros. Embora de forma irregular, os sindicalis- tas comecaram a freqdentar essas reunides, ainda que insistissem na postura de que tis iniciativas 86 funcionariam se também lewassem em conta a melhoria das condigdes de trabalho, ¢ ndo apenas qualida- 6 Entrevista ao autor, 18 08:96. 7 Entrevista ao autor, 15:08 90. 8 Entrevista sto autor, 16/08/92. 9 Kntres ist sto autor, 24/11/92 26 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho de de processos € produtos. Mesmo esta timida cooperacao represen- tou uma importante ruptura em relagio ao periodo anterior a 1988, quando a geréncia tentou implementar circulos de qualidade € pro- gramas de “envolvimento” dos empregados de forma unilateral ¢ agressiva, com a dbvia intencio de enfraquecer as relagdes entre ope- Farios e sindicato, provocando boicote e dentincias por parte dos sin- dicalistas. Além das iniciativas de qualidacle ¢ participagdo, outras are- as em que aconteceram passos iniciais de cooperacdo apés 1988 in- cluiram: sadide, seguranca e mudancas no layout da Fabrica; mobilic de intema da forca de trabalho por meio de transferéncias; 0 calends tio de produgio ¢ a duragio dos periodos de diminuigao ou total paralisacio das atividades € os casos disciplinares envolvendo opera rios especificos. O impacto dos vinculos sociais Antes de considerar como este: vinculos sociais afetaram a tran- sigdo para sistemas de trabalho mais flexiveis, € importante enfatizar como em cada caso os vinculos internos a forga de trabalho e¢ 4 gerén- cia, bem como entre a forga de trabalho ea geréncia, encaixam-se logicamente para formar um coerente — se nado necessariamente coe- so — tecido social. Na M-1, a fragilidade dos lagos sociais no interior da forca de trabalho ¢ da geréncia contribuiu para a instabilidade e precariedade dos vinculos bilaterais € vice-versa, formando algo se- melhante a um circulo vicioso. Ja na B-1 a situagao aproxima-se de um circulo virtuoso: a forga (ou o fortalecimenta) dos vinculos em ambos os lados criou condigées favoraveis para a construgdo de um vinculo bilateral que, por meio de seus beneficios mutuos", veio reforgar os vinculos internos. Planta M-1: transigdo por imposigao Na M-1, 08 vinculos sociais existentes condicionaram as reunides sobre flexibilidade no trabalho, realizadas entre a geréncia ¢ os opera- rios no inicio de 1988, e geraram um impasse em que as opgde: ciadas diminuiam, resultando numa abrupta “twansigao por imposigio” em meados de 1992. Considerando a capacidade dos sindicalistas de criar rupturas € a natureza extensiva das réncia buscou uma aceit que tentava limitar as conce protegdes contratuais, a ge- (© formal das reformas, 2o mesmo tempo ses que fazia € a influéncia do sindicato 10 Enquanto « empress aleangou uma melhorc modest na produtivickide € quallile, os sindicalistas (¢ operiries) ginharam maior acesso e influénci 60, peso io prodtutivo ete. Redes sociais e flexibilidade do trabatho: uma anélise comparativa 27 e dos delegados sobre 0 contetido destas reformas, Dificuldades inter- nas 20 sindicato encorajaram os gerentes nesse sentido ¢ estes tenta- vam fechar acordos com a diretoria do sindicato. . De fato, a conciliagdo nao parecia ser um modo de transi¢ao vidvel, |@ que vinculos frageis em ambos os lados dificultavam esta op¢ao. Isso era evidente no caso do sindicato: se os lideres sentianr-s e tentados a fechar acordos, a8 concessdes geravam reagdes violents por parte dos operiirios e ds 1988, quando a diretoria foi destituida por fazer conces ; na area de subcontratagdes, Em seguida a este episddio, ¢ tendo sido mantida a mesma dindimica nas relagdes sociais da fabrica, a nova lideranca naturalmente mostrou-se inflexivel os operirios cada vez mais vigilantes quanto &s propostas da geréncia, Para ganhar um min} mo de apoio dos operirios ¢ representantes de base, a nova lideranga indical no teve outra saida sendo endurecer. Agiu deste modo, por exemplo, to obter algumas concessdes da geréncia num novo acordo paralelo sobre subcontratagao que se firmou no ano seguinte. A lide- ranca resistin firmemente As exigéncias da empresa para concessdes que permitissem a introdugio unilateral de reformas voltadas part flexibilizacdo, apesar de nio ter conseguido impor demandas que re~ forcariam © sistema de protecio de emprego vigente ¢ 0 papel clo sindicato como entidade responsdvel pela fiscalizagdo do cumprimen- to de tal sistema. - As negociagdes contratuais de 1990 consistiram num tipico con- flito entre forga de trabalho e geréncia: uma atitude agressiva da em- presa buscou persuadir o sindicato a ceder sem oferecer nenhuma recompensa material ou institucional, ou qualquer poder no processo de reforma, 20 mesmo tempo que os representantes dos trabalhadores agarravam-se tenazmente a limitagdes de utoriclacde gerencial incor: poradas nas normas contratuais € praticas informais vigentes conseguidas a duras penas em anos anteriores. No cotidiano da pro- dugio, sindicali e gerentes reproduziam continuamente @ relagao, conflituosa: representantes trabalhistas recusavam-se a aceitar qual- quer transferéncia, promogio ou decisio disciplinar, aceleramento da velocidade de producao ou outra mudanga qualquer que nao estives- se estritamente de acordo com as priticas estabelecidas anteriormen- te, exceto de forma ad hoc, mediante concessées custosas negociadas em troca de alguma compensagio. Por outro kado, 08 gerentes ndo divulgavam aos representantes trabalhistas nenhuma informagao além do estritamente necessirio quando se tratava de questoes como 0 quadro financeiro da empresa, planos de reorganizagio produzida € redes de produgao global, ¢ mantinham-nos bem distantes deci- s6es relacionadas 2 reestruturacio da empre s de explorar as bilidades de parceria. Enquanto esta reagio contra a conciliagao s correntes de oposi¢ao. Isso se deu em es Secretas | re 28 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho aU Curso © Os conflitos caracteristicos desta rela cio bilateral arraigavam-se, os gargalos de produtividade e qu cresciam @ a empresa impacient 2 de modo crescente: A naturezit destes contlitos esclarece também por que a negoci ¢&o nao era um modo de transigio vidvel. Para que as duas part alcancassem, vit negociagdes, uma mudanca fundamental nos termos do seu relacionamento — como as que implicam a transformagzo para um sistema de trabalho altamente flexi necessario certo, nivel de cont O terme onfianca”. significa aqui a disposigdo de tornar-se vulneravel as acgdes do outro nat auséncia de agentes ou condigdes © possam garantir 0 acordo, antecipando beneficios muituos. Refiro-me aun nivel de confianca relativamente modesto, Como proposto por Sabel (1993) com seu conceito de “confianga estudada’ Cstrcdied trust). Ele permite uma vigilancia mutua em um encontro ex; erimen- tal ¢ de sondagem no qual os dois kudos efetivamente neg suat miitua lealdade, Tal confianga estava perceptivelmente ausente nas relacdes entre os dois atores, em face de sua hostilidade mutua ¢ de seu estilo de comunicacio, Cada laclo agarrava-se tenazmente as suas demandas, sem se dispor a conversar sobre cenarios hipotétice io tipo “se cu fizer X, o que voce estaria disposto a fazer?", temendo que qualquer declaracio fosse interpretada como sinal de fraqueza Vulnerabilidade a ser exploridaa pelo outro. Ademais. em ambos os Jades contribuiam de diversas formas para a manuten- cio desta dindmica bilateral antagonica. A auséncia de coordenacdo efetiva internamente a cada um dos lados ¢ os altos niveis de contlito, wt ¢ alterniincia de lideres por parte do impediram © desenvolvimento de qualquer tipo de aprendizado das duas partes que indicasse a possibilidade de negociagio. Além disso, 2 natureza complexa ¢ intrincada das questdes técnicas envolvi Nexibilizagdo do trabalho exige certo conhecimento espeeializ (© por parte dai empresa como dos sindicalistas; caso contzirio, torna se impossivel negociar seriamente sobre estas questoes. Tal situacdo era inatingivel. considerando-se 0 isolunrento dos sindicalistas da M-1 com relagio ao meio trabalhista mais amplo ¢ os agudos conflitos internos ao campo dit representacdo dos tahalhadores, O sistema de vinculos frageis no qual os atores principais da M-1 estavam inseridos impediu, portato, « transigdo para um sistema fle- xivel de wabalho por meio da conciliagio ou da negociagaio. Dois elementos desta equagio mudar cativamente no final de 1991 ¢ inicio de 1992, abrindo espago para uma solugao coercitiva em meados de 1992. Em primeiro lugar, havia a urgéncia recente de incrementar a produtividade ¢ a qualicktde, comunicada de modo ine- quivoco pelos diretores da M-1 aos gerentes de fibrica. ‘Tratava sindical anterior toma lidade vel — seri na © capacidade cle comunicacho entre cl ternas que m signi se de Redes socials € flexibilidade do trabalho: uma andlise comparativo 29 duas pressoes basicas: a fabrica estava sendo reorganizada para iniciar a produgio de um novo modclo de automével, mais sofisticado, no que seria a segunda transigio deste tipo desde a década de 70 e a primeira em que a nova linha seria produzida simultaneamente na fibrica mexicana € no pais-sede da empresa; as negociagdes do Nafta em curso acenavam com maior oportunidade de exportagio para 0: grande mercado norte-americano, assim como, em prazo mais longo, com uma competi¢ao mais apertada no mercado doméstico, que se liberalizava. A segunda mudanga foi a eleigao sindical no final de 1991, que fez emergir uma situacdo ainda mais dividida do que ante- riormente. Assim como em 1988, houve competigao entre — exagera- ete chapas rivais, mas desta vez nenhuma alcangou 0 indice necessirio de 30%. No segundo turno, em que concorriam as duas chapas mais votadas, a vencedora (que havia ficado em segundo lugar no primeiro turno) ganhou por uma margem muito pequena — 50,6% contra 49,4%, Tal situagdo deixou a lideranga com uma base de apoio ainda mais fragil do que suas predecessor: Com um novo senso de dirego € propésito em seus planos de reestruturacdo, a empresa percebeu uma chance de fechar um acordo secreto com a lideranca sindical. As negociagdes sobre renovagio contratual bienal estavam resultando em outro impasse, tanto nas questées econdmicas como no choque entre as propostas de flexibilizagio do trabalho da empresa (agora mais ambiciosas) e as do sindicato, de impor mais limites 2 capacidade gerencial de subcontratar ou contratar funciondrios tempordrios. Assim, ao lado das conversagdes, 0 nove comité executive do sindicado negociou outro acordo exigindo implementagdo gradual, com participagio do sindicato, de um novo sistema de tralalho baseado em equipes ¢ com Pagamentos € promogées por critérios de performance. Reagindo ao fato de que 0 acordo fora fechado em segredo ¢ o sindicato © revelara de forma superficial e posteriormente 2 sua realizago, 08 operirios € representantes de base, insatisfeitos, prepararam uma greve € convo- caram uma assembléia geral de fabrica assim que souberam do acor. clo, Na assembléia, votaram pela destituicao da diretoria clo sindicato e Nomearam uma interina, com 9 mil dos 16 mil sindicalizados assinan- do uma petigéio que desautorizava 0 acordo e exigia que as autorida- des trabalhistas reconhecessem a nova lideranga interina Depois de quatro dias de greve, a empresa tomou a ofensiva. O presidente da M-1 mexicana declarou que, ainda que a disputa pela chefia fosse um problema interno ao sindicato, se os operarios nao Yoltassem a trabalhar no dia seguinte, rescindiria os contratos indivi- duais ¢ coletivos. Quando apenas uns poucos apresentaram-se ao tra- balho no dia seguinte, encaminhou uma peti¢io formal 4 Junta Fede- ral de Conciliacion y Arbitraje, formalmente tripartite mas de fato 30 Revista Latino-americana de Estudos do Trabatho dominada pelo Estado, para dissolver o sindicato € anular 0 contrato coletivo. A presidéncia fechou a fabrica, deixou os operarios de fora, promovendo um verdadeiro lock-out, e anunciou que nao negociaria mais. Trés semanas depois, com 0 conhecimento do governo federal sobre as ameacas da empresa de encerrar suas operagdes no México e solidario aos planos de reorganizacdo visando aumento de produtivi- dade, © tribunal aceitou a petigao. Com 0 apoio da empresa, 0 secre- tario geral do sindicato assumiu novamente € teve reconhecimento oficial. Mas isso se deu com a condigao de que ele ratificasse um novo contrato planejado pela companhia em que os grupos de trabalho seriam criados e remunerados com base no mérito e com promocées baseadas na produtividade, sem participagao do sindicato na sua implementacao; o sistema de representagdo de base foi consideravel- mente reduzido (de duzentos para quatorze delegados e com seu poder circunscrito e subordinado ao sindicato), e eliminaram-se todas as restrigdes a liberdade da geréncia de contratar, demitir, transferir e promover. Além disso, aproveitando-se da situagio de que toda a forca de trabalho da empresa estava legalmente sem emprego, a com- panhia iniciou um processo de recontratacdo e treinamento em que aproximadamente 1,500 funcionarios — considerados muito idosos, improdutivos ou “problematicos” para trabalhar sob © novo sistema — foram excluidos e uma quantidade bem menor de trabalhadores foi contratada em seu lugar. Todos os que voltaram ao trabalho o fizeram sob Os novos termos contratuais. Ademais, 0 estatuto do sindicato foi transformado, reforcando a “confiabilidade” e maleabilidade da exe- cutiva do sindicato perante a empresa (por meio da possibilidade de reeleigio e exigéncia de experiéncia de dez anos na fabrica) e aumen- tando seu poder diante das assembléias, comités de greve e de nego- ciagdo e delegados cujo poder (e ntimero) nesses tiltimos dois casos foi restringido nos novos estatutos. Para compreender a interven fatal neste conflito, é preciso: destacar que aconteceu apenas diante da requisigao explicita e sob intensa pressio da empresa — e mesmo assim depois de demora consideravel. Desde a década de 70 e incluindo os trés primeiros anos do governo Salinas, a empresa e 0 sindicato conseguiram man- ter a intervengio estatal relativamente circunscrita. De fato, parecia haver um acordo ticito de que era preferivel evitar a politizacdo desta relagio bilateral por meio de pedidos de arbitragem ou inter- vengdo nos conflitos as autoridades nacionais trabalhistas. Este acor- do foi abalado quando a empresa bateu 2 porta do Estado deman- dando uma atitude de carater coercitivo. Mesmo que 0 governo Sali- nas no tivesse demonstrado qualquer incOmodo em intervir deste modo em outras disputas trabalhistas, a grande visibilidade internaci- onal da industria automobilistica e a natureza das negociagdes do Redes sociais ¢ flexibilidade do trabalho: uma andlise comparative 31 Nafta parecem té-lo tornado mais relutante, neste caso, em atuar com mao firme. Em termos do conflito interno 4 organizagao que abriu caminho a esta seqiiéncia de eventos, ha duas possiveis interpretacdes, mas, seja qual for a mais acertada, ambas ressaltam a forma pela qual o sistema de vinculos frageis tornou invidvel qualquer outro caminho de transi¢Zo para um sistema flexivel de trabalho que ndo o da imposi- ao. Seja porque os membros do comité executivo “se venderam”, seja porque cairam numa armadilha, de boa fé, ao tentar negociar refor- mas, 0 ponto mais importante é que nem o modo conciliatério nem o negociado seriam possiveis no sistema vigente de vinculos sociais. Vinculos frigeis nao s6 impediram a consumagao da taigao, se assim se pode chamar, por parte do sindicato, como minaram 0 desenvolvi- mento de vinculos de trabalho bilaterais € internos necessarios para a realizacdo de um genuino processo de negociagao. ‘As conseqiiéncias imediatas desta transi¢do imposta sao claras em termos da ruptura forgada e unilateral do sistema de trabalho ante- rior e de um acréscimo do poder coercitivo da empresa. Nunca foi permitido que os trabalhadores votassem 0 novo contrato, e eles fo- ram forcados @ aceitar de volta o lider que haviam repudiado. Se o regime trabalhista anterior foi caracterizado por um impulso geral de inclusio, misturado a elementos de exclusio (especialmente no caso dos trabalhadores temporarios), as tendéncias de exclusio predomi- naram no regime de trabalho posterior a 1992. Planta B-1: transigdo por meio da negociagado Uma vez que os atores perceberam a forte pressdo no sentido de aprimorar a qualidade e produtividade por meio da flexibilizagio do trabalho, 0 tecido social de vinculos relativamente (e crescentemente) fortes na fabrica B-1 de S40 Bernardo direcionou a forga de trabalho e a geréncia para uma resolugéo negociada. Mediante uma série de acordos feitos na empresa em 1994 e 1995, foram adotadas as seguin- tes inovagdes: uma nova estrutura de cargos € salérios; mecanismos e Procedimentos para a avaliagdo e implementagdo conjunta de projetos de terceirizago; jornada semanal de trabalho flexivel e reduzida; e um acordo de participacio nos resultados com base em indicadores de Pprodutividade, absenteismo e qualidade. Existiram também outras melhorias menos formais na cooperagio bilateral cotidiana em ques- tes como mudangas tecnolégicas € no lay-out e a mobilidade interna dos funcionrios. Antes de explicitar estes acordos, € importante ex- Plicar rapidamente como foram adotados. Estes importantes acordos combinaram elementos de uma res- Posta contingente a novos desafios e oportunidades e a culminagio 32 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho de um processo de aprendizado, em andamento, de natureza indivi- dual e coletiva. Os desafios ¢ oportunidades resultaram da mudanca no panorama econdmico com trés caracteristicas: aumento da compe- tigdo Ce um decréscimo na participagao da B-1 no mercado) dentro de um processo de liberalizagdo do mercado automobilistico doméstico e de perspectivas de competigio cres s importagde como pela entrada de novas empresas na produgao interna; oportuni- dades crescentes de exportagao por meio do Mercosul e do padrio, adotado pela companhia, de comércio entre suas fibricas brasileiras e argentinas; ¢ uma conjuntura macroeconémica instivel que de forma alternada chegava aos limites da capacidade de produgao durante os periodos de elevagio da procura e criava ampla capacidade ocios durante as fases de baixa. Ainda que os sintomas imediatos desta situ- acao tivessem produzido alguns momentos de tensio e mesmo de crises (incluindo varias paralisagdes e greves, normalmente curtas), os atores foram capazes de gerar respostas negociadas que atendiam nao apenas a estes problemas, mas também a alguns gargalos provenien- tes do sistema de trabalho vigente. Isso se deu de uma maneira que aliava a necessidade da empresa de qualidade € produtividade ao interesse dos operdarios e sindicatos por um ambiente de trabalho mais participativo € seguro € por recompensas materiais pelo esforco € compromisso crescentes. A estrutura de vinculos densos ¢ fortes foi de muitas maneiras responsavel pela natureza da transicdo para um sistema de trabalho mais flexivel. A conciliagio era improvavel neste contexto, pois teri ameagado as conexdes importantes entre sindicalistas, trabalhadores e outros sindicatos da CUT e traria o risco de gerar resist@ncia por parte das bases. A imposigio também cra improvavel porque arriscaria os tentes advindos da cooperagdo € com certeza enfrenta- ria uma oposi¢do sindical unificada. Assim, os vinculos densos torna- ram mais “natural” € provavel a ocorréncia da negociagiio. Como nota Locke (1995) em seu estudo sobre © ajuste industrial italiano, estes tipos de vinculos mantém as linhas de comunicagao abertas, de forma direta ou indireta, mesmo durante as crises. Cabe ressaltar que 0 cara- ter ndo-instrumental, ou, digamos, deliberativo, desta comunicagio — no sentido de partilhar informagées ¢ trocar idéias quanto a solugdes alternativas — é também crucial. Outro meio pelo qual tis tipos de vinculo levam a negociagdo, conforme este caso evidencia, é do inces sante diilogo e da continua difusio de informagio que eles geram, seja entre a gerGncia, seja entre os trabalhadores. As origens dos acordos de meados dos anos 90 remetem tanto aos incipientes lacos de cooperagio do inicio da década como as politicas industriais do setor negociadas em 1992-93. Como j comen- tei anteriormente (Martin, 1996), estes vinculos incipientes na B-1 ee, -__"=EZX Redes sociais e flexibilidade do trabalho: uma andlise comparativa 33 outras empresas, assim como as conexOes fortes e crescentes internas a forga de trabalho € ao campo empresarial, foram a base fundadora do inicio das discuss6es nacionais tripartites do final de 1991, Ainda que os acordos se voltassem basicamente para precos, saldrios, impos- tos ¢ tarifas, os grupos de trabalho da cAmara setorial constituiram um forum a partir do qual os representantes dos tabalhadores ¢ as em- pres questdes relacionada: reestruturagio produtiva e ao papel dos operarios e dos sindicatos neste contexto. Embora as atividades da camara tenham se interrom- pido em 1993, quando o Estado se retirou, continuou havendo troca de informagées e idéias entre os sindicalistas e as empresas, e também a Anfavea/Sinfavea, Estas trocas constituiram a base de um padrao de negociagdes por meio do qual as quatro maiores empresas de auto- moveis € caminhées de Sio Bernardo alcangaram acordos individuais similares nas mesmas trés areas de reestruturagdo do local de trabalho, assim como na participagio dos lucros, durante 0 periodo 1994-95 (Leite ef a/., 1996; Arbix, 1996a, b; Arbix e Rodrigues, 1996). Seus interlocutores foram os funcionarios do sindicato € as respectivas co- missOes de Fabrica, que trabalhavam juntos, Enquanto no caso da jor- nada de trabalho havia uma estrutura de acordos entre 0 sindicato € as associagdes das inddstrias automotivas que serviu de base para as negociagdes em cada empresa, no caso da terceirizacdo € dos sistema de classificagao de cargos e sakirios havia uma dindmica especifica em cada empresa que, a partir do primeiro acordo, constituiu um ponto de referéncia para os acordos seguintes. Claramente, estes acordos reforgaram os elementos inclusivos do regime de trabalho na 3-1, a0 mesmo tempo que criaram um sistema de trabalho mais flexivel. Por exemplo, a estrutura de cargos e salirios foi diminuida (de dez para cinco graus ou niveis), com um sistema de Promogses baseado no enriquecimento do trabalho (multitarefas) e centrado mais no mérito do que no tempo de casa, enquanto os ope- ririos ganharam mais oportunidades de mobilidade salarial (de cinco Para oito niveis salariais) dentro de cada fungdo € maior padronizagio dos salarios entre as montadoras. A antiga demanda do empregador de jornadas flexiveis de acordo com as variagdes da producio foi implantada, mas com base em uma proposta sindical que contempla- va redugio na média de horas semanais (de 44 para 42 horas), com Pequena faixa de variagdo semanal (entre 38 e 44), e suspensao das demissdes anteriormente planejadas, tornadas agora desnecessari Finalmente, 0 acordo de terceirizagao colocou este tema controverso ede apelo emocional num plano “técnico”, em que a empresa poderia terceirizar quando pudesse documentar a necessidade em toca de Sarantir aos sindicalistas uma audiéncia sobre o caso e estabelecer Procedimentos para uma nova alocagao e, se necessario, novo treina- s comegaram 2 discutir seriamente as. 34 Revista Latino-americana de Estudos do Trabatho mento para os empregados deslocados, Em resumo, os acordos gera- ram situagGes em que as duas partes podiam sair ganhando. Conclusdes Viarias implicagoes emergem deste estudo comparativo entre pkan- tas de dois paises. O primeiro tem relagdo com a relevancia de enfatizar © local de trabalho como espaco importante para estudar questdes de inclusio e exclusio no sistema global contemporiineo. O mundo do tra- balho é usualmente presumido como espaco “econémico” onde nio beriam as preocupacd. s basicas da ciéncia politica — quem ganha o que e como. No entnto, hoje mais do que nunea, dada a velo- Cidade das mudangas tecnolégicas e organizacionais, bem como do pro- cesso de globalizagio, é importante compreender as variagdes de priti- cas e normas — 0 que denominei regimes de trabalho — sob as quais os trabalhadores conseguem ou nao participar coletivamente das decisdes basicas que afetam sua existéncia. Estas diferengas nao apenas existem, mas, 20 que parece, também brotam no meio de uma grande difusio de conceitos totalizadores como flexibilidade e uma enxurrada de filosofi- s administrativas a eles associadas. Uma tarefa importante da ciéncia politica, entendida de forma ampla, é explicar por que surgem estas di- ferengas. Uma segunda implicagdo, mais ampla, trata da necessidade de maior criatividade nos termos conceituais € te6ricos para dar conta destas diferencas. Talvez 0 “viés dos sistemas nacionais" (ational systems bias) que ainda permeia as ci@ncias politicas comparativas esteja mais firmemente estabelecido do que os estudos multinacionais sobre a politica no mundo industrial e do trabalho (Locke, 1992 e€ 1995). A convicgao de que os sistemas nacionais de trabalho sio cen- trais no estudo das diferencas entre as nagdes — mesmo na esfera da produgio — é ainda forte, tanto nas anilises de paises em desenvolvi- mento como dos industrializados. Este trabalho traz uma nota dissonante ao sugerir que se relativize a importancia do sistema nacional quando se estuda a reestruturagio produtiva. Para responder 3 obje¢3o natural que pode surgir a esta pers~ pectiva, deve-se notar que, certamente, existiam diferencas importantes (apenas indicadas neste ensaio) entre os padrdes nacionais de regulacio estatal das quest6es trabalhistas no periodo mencionado, Entretanto, 0 fato de que 0s recursos coercitivos estatais que poderiam ser usados con- tra sindicatos “incontrolaveis” eram mais disponiveis no México do que no Brasil ndo foi decisivo na conformagado contrastante das transigdes para flexibilidade. No maximo, baixou o “limite de toferdncia” da em- presa com relagio aos persistentes impasses. Mas foram o impasse € também a oportunidade repentina de profunda mudanga, que se apre- I ne CE Redes sociais € flexibilidade do trabalho: ume andlise comparative 35 sentou pela disputa interna ao sindicato, que motivaram sua agdo. Nem © impasse nem a oportunidade podem ser entendidos sem se examinar o carater dos vinculos sociais nos quais Os atores estavam inseridos. Isto nado significa justificar as atitudes da empresa ou do Estado, mas sim- plesmente colocd-las em uma perspectiva anatitica mais apropriada. Com relaga abordagem dos sistemas de trabalho nacionai instrutivo notar que as tendéncias contrastantes nas transigdes para a flexibilidade aqui descritas nao sao redutiveis a nenhuma tendéncia na- cional geral, ou mesmo setorial, de incorporacdo ou exclusio da forca de trabalho. Se o sistema politico brasileiro, mais aberto, criou espaco de manobra para os atores sociais, é importante lembrar que os sindica- tos nao faziam parte de nenhuma coalizio governamental dos varios presidentes do periodo (Collor, Franco ¢ Cardoso), com tendéncias en- tre moderadas a conservadoras, e que 6 tipo de pacto social defendido por muitos na nova democracia do Brasil nunca se materializou, De fate, a tendéncia nos anos 90 tem sido no sentido de uma regulagao estatal que fortalece a versio hegemOnica da flexibilidade entre os emprega- dores, que € a unilateral (Arbix, 1996). Nesse sentido, nem o carater tripartite da cimara setorial nem os pactos da B-1 e das outras plantas de Sao Bernardo em 1994 e 1995 sao indicativos de tendéncias nacionais mais amplas. Pelo contrario, seja quando se analisa a indtstria automotiva do pais como um todo — onde empresas de outras areas com sindicatos mais frageis e mais distantes do ambiente de trabalho sofrem transigdes dominadas pelo empregador"! —, seja quando se con- sideram outros setores econémicos, now-se 4 emergéncia de unva col- cha de retalhos complexa na qual diferengas significativas sobressaem, tanto entre ramos industriais como entre regides e empresas. Voltando ao México, ndo € visivel nenhuma correspondéncia perfeita entre uma ordem trabalhista nacional mais dominada pelo Estado e tendéncias na reestruturagao do local e dos regimes de traba- tho, Em primeiro lugar, ha inddstrias — especialmente no setor estatal — em que os empregadores concordaram com um “arranjo” com os sindicatos quanto a flexibilidade Gainda que sob certas condigdes po- liticas ausentes no caso da B-1)". Em segundo lugar, mesmo numa 1L Os exemplos so a at em Betim, Minas Gerais: a General Motors em Sao Caetano do Sul » Jose dos Campos, estado de S20 Paulo; ¢ a Mercedes-Benz em Campinas, no mesmo identilicadias, ambas localizadas em “reas de peque Processos de Cansicio unilateral para equipes de trabalho e outras formas de organizacao lexivel do teahalbo nos anos 90. 12 Os casos mais conheciclos slo © monopolio de telefonia € telecomunicagdes: agora Privatizado, Telefonos de Mexico, € a Compania de Luz y Fuerza del Centro, « empresa de eletricidade que fornece energin paca a Cidade do México e arredores. 36 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho tendéncia geral de determinacao unilateral do empregador sobre a organizagio do trabalho diante de sindicatos “oficiais” fracos na indds- tria automobilistica, ha sinais relevantes de diversidade entre as fabri- cas, A licho que se pode tirar deste estudo em termos analiticos consiste em que, se 0 objetivo é compreender € explicar estas varia- Ges nas diferentes experiéncias de reorganizagao do trabalho e dos regimes de trabalho, uma estratégia de ir ascendendo (scaling up) analiticamente a partir dos atores locais € setoriais, € O seu contexto imediato, ¢ examinar suas formas contingentes e especificas de articu- lagdo com os atores € processos nacionais € mais frutifera do que 0 modo mais convencional (ao menos entre cientistas politicos que es- tudam quest6es trabalhistas) de ir descendo (scaling down) do mais amplo para o mais especifico, freqiientemente deixando de lado as mediagdes crucia Uma terceira e dltima implicagao trata da importincia de trazer para estas questoes alguns dos conceitos hasicos das anilises de redes sociais. Entre “analistas de sis e aqueles que sondam mais profundamente os niveis médio e micro, ha uma tendéncia a enfatizar apenas as instituigdes formais — leis trabalhistas, processos de contratag’io coletiva etc, Mas as tendéncias atuais da reorganizagio do trabalho envolvem pelo menos na mesma medida, sé ndo de forma ainda mais importante, as mudangas nas regras € priticas cotidianas — padrdes de comunicagio, cooperagdo etc. —, que sio dificilmente apreendidas ou explicadas cabalmente por aquela énfase, Neste senti- do, as andlises de redes fornecem instrumentos valiosos para combi- nar as dimensdes formais ¢ informais do comportamento social is. Scott 8. Martin & vice-diretor do Institute of Latin American and Iberian Studies (llais), Columbia University, Estados Unidos. Trodugéo do ingiés: Heloise Buarque de Almeida 13 Covarrubias (1996), por exemplo, menciona Ihadlores na teinsformagio de uma phinta da Ford, cle dez anos, pa no estilo japonés, em Hermosillo; Rodriguez, L. (1992) 1 envolvimento maior do. sindicato. na mudanga negociah da planta da Nissan em Cuernavaca em relagao as tendéncias industriais mais gerais: ¢ Arteaga Garcia encontea cluas plants mais recentes da General Motors “uma tendéncia a revener 0s efeitos da Aexibilizagio unilateral [por meio dol do esforgo maior (dos trahalhadores} para revalori seu Gabalho ¢ demandar envolvimento na administrsico da produgio” Num estudo com: parative da planta de Hermosillo & M-1, ¢ examinando as tencléncias contratutis por todo pais no ramos das Montadoris, Pries © Garcia (1996) documentam uma “convergéncia para xo" NOS sak lho por todo o México, com uma melhora” nas plants Mlexiveis construidas no norte nos anos 80 © uM “pioFa” Nas Fabrics brownfield” de décadas anteriores do poder crescente dos tabs pe 10 Matis flexivel tis lento ¢ um fos © condigoes de t Redes sociais ¢ flexibilidade do trabatho: uma andlise comparativa 37 Bibliografia Aliza, Laura del (1994), “Las reylas de origen en el TLC”. 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EE eee EL DS er se eee Relagées interfirmas, eficiéncia coletiva e emprego em dois clusters da industria brasileira Leda Gitahy, Roberto Lima Ruas, Flavio Rabelo e Elaine Diego Antunes Resumo Este trabatho analisa ¢ compara a natureza da relago interfirmas em dois clusters: a induistria de calgados do Rio Grande do Sul ¢ a indtistrin metal-mecinica da regido de Campinas, no interior do estado de Sao Paulo, € seu impacto na competitividade industrial e nas condigoes de emprego. Discutem-se os principais obsticulos para © estabelecimento do modelo de especializagio flexivel (EF) nos dois clusters ¢ em que medida esse modelo induz cons- cauigao do fenémeno centro/periferia no mercado de trabalho € mudangas na estrutura de quilificagio. © estudo demonstra que « difusio de inavagdes associadas ao conceito de EF nos dois clusters pesquisados tem seguido diferentes trajet6rias & afetado de diferentes ma- neiras as condigbes de emprego. Essas difesengas sto resultsdo, em grande medida, das estratégias competitivas predominantes em suas respectivas cadeias produtivas. Valavras-chave: relagdes interfirmas, especializagdo flexivel, indiistria de calgados, indiisiria metal-mecdnica Abstract This study analyses and compares the nature of inter-firm relations within two different bra- zilian clusters, ie. the shoe industry in the state of tio Grande do Sul (RS) and the me- talworking industry clustered around the city of Campinas in the state of Sto Paulo (SP) and their impact on industrial competitiveness and employment. It attemps to identify the major obstacles to the establishment of the flexible specialization (FS) model in both clusters and to assess ewhether this model shows a trend coward a core-periphery segmentation of the labour force and whether it contributes to greater workers skilling. The study shows that the diffusion of innovations associated with the FS model in the two clusters surveyed has follo- wed different patterns and affect employment and intes-Sirm selations in different ways. Keywords: inter-firm relations, flexible specialization, shoe manufacturing, metalworking industries. Introdugio Pesquisas recentes apontam para a crescente importancia das rela- es interfirmas, especialmente entre grandes e pequenas empresas, no Processo de reestruturagao em curso na inddstria brasileira, A busca de novos padrdes de competitividade para enfrentar a redugao do mercado interno, conseqiiéncia da recessao, e a elevagio desses padrdes no mer- cado externo tem levado a varias formas de acao coletiva entre pequenas e médias empresas e 2 expansdo ou mesmo criagdo de redes de subcon- tatagio, Nao existem, entretanto, informagées suficientes para analisar 68 impactos desses arranjos no desempenho das firmas envolvidas e na natureza ¢ qualidade do emprego. Neste momento, é necessirio estudar Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho, ano 4, n°6, 1998, pp. 39-78 40 Revista Latino-americana de Estudos do Trabatho melhor a natureza e a extensio dessas relagdes (especializagio, com- plementaridade, subcontratagao, cooperagao etc.). Em pesquisas anteriores, dois exemplos foram descritos: a indlistria de calcados no Rio Grande do Sul (RS) e a indtistria metal-mecinica no interior de $40 Paulo (SP), particularmente a regido proxima a cidade de Campinas. Segundo dados de 1989, o cluster produtor de calgados no RS estava composto por 1.986 empresas geograficamente concentradas em torno da cidade de Novo Hamburgo, empregando 198.492 pessoas (SCI, 1992). Essa regiao € © principal centro produtor de calgados no Brasil, produzindo 150 milhdes de pares de sapatos em 1990 (faturamento de US$ 1,8 bilhao). A industria de calgados do RS pode ser considerada um auténtico cluster produtivo aut6nomo, como veremos mais adiante. De acordo com os estudos mencionados, este cluster combina formas avan- cadas de flexibilidade com outras mais rudimentares, como resultado da associagdo entre novas formas de gestio da produgao (just-in-time, cé- lulas de manufatura e grupos de trabalho) e formas de uso do trabalho precarias e instdveis (Ruas, 1985 ¢ 1989; Ruas e Antunes, 1992) Pesquisas realizadas no interior de Sao Paulo, em empresas pro- dutoras de autopecas, maquinas-ferramenta e computadores (Gitahy, Rabelo e Costa, 1988 ¢ 1990; Rabelo, 1989) apontaram para a exis téncia de redes industriais, em que a produgdo de grandes empre estava relativamente integrada a grupos de pequenos ¢ médios forne- cedores. Apesar de seu alto grau de verticalizagao, as grandes em- presas demonstravam clara tendéncia & descentralizagao. Em todas as firmas visitadas observaramy-se esforcos para apoizr os pequenos for- necedores a aumentar seus padrOes de qualidade e produtividade. As grandes empresas estavam caminhando na direcao da certificagio de seus fornecedores, um passo necessirio para poder tansferir a el (externalizar) uma parte maior de sua produgdo O objetivo deste trabalho € comparar a natureza das relagdes inter- firmas no interior dos dois clusters € seus impactos sobre a competiti vidade industrial ¢ 0 emprego. Trata-se de identificar os aspectos comuns de seu modo de funcionamento ¢ explicar as diferengas observadas. Os principais pontos a serem abordados sao: avaliar a naturezat das relago interfirmas nos dois clusters, utilizando os conceitos dle distrito industrial © eficiéncia coletiva; identificar os principais obstaculos para 0 estabele- cimento do modelo de especializagao flexivel (qualidade dos fornece- dores, instabilidade econdmica, politicas governamentais); identificar as principais caracteristicas do emprego nas empresas que estio utilizando a especializagao flexivel (treinamento, politicas de estabilizacdo da mao- de-obra, estruturas de cargos ios) e discutir as mudangas no con- tetido das qualificagdes; ¢ verificar em que medida esse modelo induz a constituigio do fendmeno centro/periferia no mercado de trabalho. ee Relagées interfirmas, eficiéncia coletiva e emprego 4 Especializacao flexivel e eficiéncia coletiva nos paises em desenvolvimento O wabalho pioneiro que desenvolveu 0 conceito de especializagio flexivel (Piore ¢ Sabel, 1984) se refere a duas experiéncias de organi- zacio industrial, diferentes em sua natureza, que provaram ser eficazes em adaptar as empresas a mercados instiveis € mais segmentados, por meio de maior flexibilidade € menores custos: as cadeias produtivas verticalmente integradas, comandadas por grandes empresas, presentes na industria automobilistica japonesa, € os complexos de pequenas e médias empresas independentes, geograficamente concentradas em cer- tas regides do norte da Italia. As caracteristicas do chamado modelo japonés ja foram discutidas por uma ampla literatura. Crucial para seu sucesso foi a habilidade em combinar flexibilidade com padronizagao. Trata-se de um processo cle mudanga profundo, com impacto substancial no mercado de trabalho, especialmente do ponto de vista da gestao da mio-de-obra. A utilizacio de um conjunto articulaco de inovagées organizacionais implica a pas- sagem de um modelo baseado no uso extensivo de mao-de-obra semi- qualificada para outro baseado no uso intensive de mio-de-obra quali- ficada, polivalente € cooperativa (Gitahy ¢ Rabelo, 1992). No caso dos complexos geograficamente concentrados, ou clus- ters, a especializagio flexivel estaria baseada numa divisio e organizagio da produgio, na qual predominam pequenas € médias empresas espe- cializadas que dividem entre si as diferentes fases da produgio de um no bem ou de uma familia deles (Schmitz, 1992). As principais carac- 1 de firmas que atuam num mesmo setor industrial; presenca de empresas de diversos tamanhos, com papel destacado das de médio e pequeno porte; especi: lizagdo da produgao entre firmas diferentes no nivel da divisio vertical na cadeia produtiva, envolvendo produtores ¢ fornecedores de todos os tipos de produtos ¢ servigos; grande flexibilidade de quantidade e dife- renciacio; firmas diferentes dividem a produgio no nivel horizontal, por meio de subcontratagio € complementaridade; os complexos de maior sucesso concorrem em outras dimensdes além do prego; s barreiras de entrada; € acesso a redes de informacées ¢ de servigos A esse tipo de estrutura atribui-se 0 conceito de clrsterde empresa que podem usufruir da eficiéncia coletiva. Eficiéncia coletiva é a capacica- de do clusierde obter vantagens compartilhaclas por todas as empresas do agrupamento, que o produtor individual, isokadamente, nao poderia obter. Exemplos de ganhos coletivos tipicos do clusterseriam: proximidade entre clientes ¢ fornecedores, permitindo o aprovisionamento rapido, reducao dlos niveis de estoque ¢ dos custos de fabricacao; alto dinamismo dos ch: mados nichos de mercado, por meio do desenvolvimento de muitos tipos teristicas clesse modelo seriam: concentragio geograti 42 Revista Latino-americana de Estudos do Trabaiho de fornecedores industriais e de servigos; presenca de empresas e/ou ins- tituigdes de apoio tecnolégico e/ou financeiro; presenga de mao-de-obsra qualificada nos niveis técnico e operacional. No que se refere as relages interfirmas, é importante distinguir entre as relacSes verticais (complemen- taridade na cadeia produtiva) ¢ as horizontais, as quais podem abranger desde a concorréncia acirrada até estratégias de colaboracio. Entretanto, nem todo cluster apresenta tendéncias a especiali- za¢ao e a inovagao, dependendo da natureza dos bens que produz e da dinamica do mercado do qual faz parte. Em paises menos desen- volvidos, competitividade requer capacidade para adaptacao a situa- ges inesperadas. Além da flexibilidade e da eficiéncia coletiva, outros elementos estruturais podem estabelecer as caracteristicas especificas do cluster, como 0 baixo custo da mao-de-obra e a existéncia de um exército de reserva significativo. Nessas condigdes, é comum encon- war estratégias de competi¢ao baseadas em precos baixos, sustentadas por baixos salarios e emprego precirio. Nossa hipdtese é de que os padrées de uso da forca de trabalho podem estar relacionados as estratégias competitivas utilizadas pelas empresas. Mais do que assumir uma perspectiva determinista das rela- ces enve estratégia de negocios e politicas de gestao de recursos humanos, trata-se de pensar que é mais provavel que uma firma, com- petindo com base em precos baixos num nicho de mercado com bai- xas exigéncias no que se refere 4 qualidade, utilize formas mais pre- cdrias de emprego (baixos saldrios e altos indices de rotatividade) do que outra, competindo com base em qualidade e inovago. Ou, nos termos propostos por Segenberger e Pyke (1990: 10), é mais provavel que as empresas que seguem a estratégia high road estejam mais pro- pensas a priorizar o desenvolvimento de seus recursos humanos do que aquelas que seguem a estratégia low road. Para explorar esta hipdtese, analisamos dois exemplos: 0 da in- dustria metal-mecanica na regido de Campinas, cuja dindmica esta determinada pelo processo de reestruturagio da industria automo- bilistica, claramente inspirado na imitagao do modelo japonés, e o da industria de calcados do RS, cujo funcionamento se aproxima mais da nogao de cluster acima descrita, mas cuja participagao no mercado. internacional esta associada a estratégias competitivas baseadas em precos baixos e disponibilidade de matéria-prima Eficiéncia coletiva no complexo calgadista do RS © uso do conceito de eficiéncia coletiva no complexo calgad do RS exige algumas consideragdes sobre a estrutura desse sistema produtivo, especialmente no que se refere as suas articulagoes com 0 mercado externo e suas principais relagdes internas. Relagées interfirmas, eficiéncia coletiva e emprego 423 No contexto da reestruturacao da industria mundial, a partir do final dos anos 70 grande parte dos processos tecnologicamente madu- ros e intensivos em trabalho foi transferida para paises do Terceiro Mundo, caso da produgio de calgados de couro (Ruas, 1985). A pro- dugio de calcados em paises como os Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido sofreu um consideravel declinio, particularmente nos segmentos dedicados aos consumidores de baixa renda, nos quais 0 fator competitivo mais importante é 0 prego. Esses paises transfor- maram-se em importadores de paises produtores de calgados carac- terizados por baixos custos de mao-de-obra, entre os quais os produ- tores asiaticos e o Brasil. Alguns dos antigos grupos produtores de calgados nos Estados Unidos e na CEE adotaram a estratégia de organizar grandes pools de importacao e distribuigio para controlar esse mercado em seus paises, dedicando-se mais intensamente 4s atividades vinculadas ao design e marketing de calgados. A partir desta forte base no mercado mundial, esses grupos expandem suas atividades para qualquer parte do mun- do, negociando com os produtores locais os modelos a serem produ- zidos, 0s precos, 0 tamanho dos lotes € os prazos de entrega', A produgio de calcados no é uma atividade expressiva no con- junto da industria brasileira, mas no que se refere a geracdo de empre- GO este setor aparece como um dos que relativamente mais absorvem mao-de-obra. Ja seus salarios ¢ niveis de produtividade aparecem nu- ma posi¢do bastante inferior 4 média geral da industria, A principal caracteristica do setor calcadista no Brasil é sua relagdo com o mer- cado externo. Dados recentes mostram que o Brasil aparece entre os maiores produtores € exportadores mundiais de calgados, especial- mente de couro. © complexo calcadista do RS desempenha papel estratégico nes- te segmento, sendo responsavel por cerca de 75% da producao brasi- leira de calcados de couro € 80% do faturamento das exportagoes deste tipo de calgado. Alguns aspectos estruturais do complexo calgadista so relevan- tes para 0 uso do conceito de eficiéncia coletiva: Estrutura do complexo calgadista — Este complexo concentra, num espaco geografico de raio equivalente a 30 km, a produgio de todos os tipos de insumos, componentes, maquinas e servicos neces- srios 4 elaboragdo de calcados de couro, além da existéncia de um tebanho bovino de 25 milhdes de cabegas no RS, potencializando a oferta de couro in natura, e de um polo petroquimico a poucos quilé- 1.0 mercado mundial de calgados se caracteriza pela hegemonia da comercializagio sobre 3 producio, dindmica oposta a da inddstria automobilistica, na qual os produtores detém a hegemonia, ee 44 Revista Latino-americona de Estudos do Trabalho mews desta regido (que fornece os componentes quimicos neces- Arios 4 produgio de colas, tintas e aditivos). Tamanho das firmas— De acordo com dados da Federacio das Induistrias do RS, aproximadamente 45% dos produtores de calgacdos do estado sao pequenas ou microempresas (até 100 empregados), 35% sio médias (101 a 499 empregaclos) ¢ cerca de 15% sao grandes Cacima de 500) (SCT, 1992). Tecnologia e processo de trabalbo — Em segmentos industriais como 0 de caleados, as inovacdes mais transformadoras ocorrem em ciclos de longa duragao, geralmente pela adaptagao de inovagdes de senvolvidas em outros setores, tais como maquina de costura par couros (adaptada da industria do vestudrio) ou esteira transportadora (criagdo de setores industriais direcionados 4 montagem). O que ca- racteriza a difusio de inovagdes nessa industria € 0 desenvolvimento, tecnolégico do tipo incremental em produtos e/ou processos muneira de incorporar inovagdes tecnologicas est especialmente sociada as condigdes técnicas de produgio de calgados de couro. Tr ta-se de um proceso pouco mecanizado, compreendendo operacdes simples € independentes umas das outras, que podem ser tratad pontualmente ¢ nao requerem q ages especificas. Por essas racteristicas, @ produgdo de caleados de couro é um dos segmentos industriais mais intensivos em trabalho. Essa configuragao favorece os movimentos de relocalizagdo internacional de partes do processo de produgio na busea de mao-de-obra barata, além de movimentos mais pontuais de subcontratagao de servigos em pequenas empresas, ou mesmo de trabalho a domicilio, considerando que as fases da pro- Jo podem ser realizadas em pkintas diferentes e depois integradas num outro local. Gestdo do trabalho — Além da tecnologia, as politicas de gestio do trabalho sao afetacas pelas formas de concorréncia predominames no mercado, Nesse mercado, © fator crucial € 0 preco (embora atua mente os compradores também estejam pressionando pela eleva da qualidade), fato que induz os produtores cujo focoé a reducio dos custos, especialmente os relativos 4 mao-de-obra. Uma andlise das formas de uso do trabalho nessa industria revela os seguin- tes aspectos predominantes: uso intensivo de mado-de-obra, ji que o trabalho humano é fator fundamental no processo de produgio de calcadas; saldrios inferiores & média da industria brasileira; uso de grande proporgio de trabalhadores nao qualificados, resultado do predominio de formas de organizagdo do wabalho caracterizadas por extrema parcelizacdo das tarefas, nas quais um grande contingente de trabalhadores pouco ou nada qualificados executa a maior parte de um Conjunto de operagdes extremamente simplificadas (entretanto, algumas empresas apresentam mudangas em curso, por meio da difu- s ee Relagées interfirmas, eficiéncia coletiva e emprego 45 slo de inovagées organizacionais, 0 que tem requerido um perfil dos trabalhadores qualitativamente diferente); baixos indices de produ- tividade do trabalho e rotatividade elevada, resultado da associagio de baixos salirios com pouca qualificagao e baixa motivagao. Novas tendéncias na gestdo da produgdo— A tendénci substancial do tamanho dos lotes médios tanto para o mercado interno quanto para exportacdo tem exigido dos produtores uma preocupacao especial com a flexibilidade dos sistemas produtivos. Isto tem aumen- tado 0 uso de trabalho subcontratado, especialmente por meio de “fac- ces” € dos chamados “ateliés domiciliares” (Quadro 1). A flexibilizagio © as exigéncias em qualidade t@m induzido a difusio de principios ¢ técnicas tais como a sistema just-in-time ¢ programas de qualidade total, Um dos procedimentos inovadores € a organizagio dos tahalhadores em grupos de trabalho (especialmente nas segdes de costura), o que determina uma mudanga no /ayout (formato U), mudangas na prepar cdo dos trabalhadores para a multifuncionalidade ¢ para um desem- penho mais coletivo. Ja a difusto de programas de qualidade aparece como um fendmeno recente, sendo ainda relativamente poucas as em- presas que iniciaram sua implementagwo (Ruas ¢ Antunes, 1992). O estudo do complexo calgadista do RS, baseado no conceito de cluster (Schmitz, 1992), nos permite identificar algumas das condigdes que © sustentam, tais como: existéncia de um auténtico cluster, geo- graficamente concentrado, orientado para a produgiio de um produto determinado (calgaclo de couro), compreendendo desde produtores de -primas basicas até produtores de maquinas € equipamentos para calcados, englobando todo 0 tipo de servigos; divisiio ¢ especia- 10 interfirmas na cadeia vertical de produgio na regidio; relacoes horizontais, especialmente sob forma de subcontratagdo para a elabo- ragho de partes da produgao, envolvendo grandes ¢ médias empresas (contratantes) ¢ pequenas e micro (subcontratadas); existéncia de um grande ntimero de pequenas e médias empresas (cerca 85% do total de empresas no complexo), ocupando cerca de 30% da fora de trabalho (SCT, 1992); disponibilidade de mio-de-obra qualificada e de recursos técnicos capazes de resolver, dentro do complexo, grande parte dos problemas relacionados 4 tecnologia de produto € processo; presen¢a de servigos de apoio tecnologico especificos para o setor € de instituigoes de reconhecida competéncia em nivel nacional e internacional: 0 Servico Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), com um centro tecno- Idgico do couro, um centro tecnologico do calgado e€ um centro tec- nolgico para testes e ensaios (CTCCA), além de uma fiaculdade regional (Feevale), em que a problematica do setor coureiro-calgadista € muito discutida; aprovisionamento rapido de insumos, componentes, equi- Pamentos € servigos; lideranca nacional no setor, por meio cla present dle associagdes patronais fortes e representativas, tais como a Asso 46 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho Brasileira de Produtores de Calgados (Abicalgados), Associagao Brasi- leira dos Exportadores de Calgados ¢ Afins (Abaex) e, em nivel regional, a Associagao Comercial ¢ Industrial (ACD. Embora essa configuragio confirme a existéncia de um cluster na regido investigada, essas condigdes precisam ser analisadas mais deti- damente a fim de que se possa identificar a natureza, as caracteristicas, 0 estado de desenvolvimento e a estabilidade das relagdes que se formam no interior deste complexo. A amostra estudada compreendeu um total de 24 empresas: dez apresentavam entre 100 ¢ 300 empregados, sete entre 301 ¢ 500, e as sete restantes, mais de 500 empregados. Todas utilizam 0 couro como matéria-prima principal. Seus principais produtos sio calgados femini- nos (fabricados por 83% das empresas entrevistadas). O volume mé- dio de producdo aumentou gradativamente nos quatro anos anterio- res € © prego médio do calgado passou de US$ 9,8 para US$ 13,3, entre 1989 e 1993. Relagées interfirmas verlicais e horizontais De acordo com Segenberger ¢ Pyke (1990: 2), os clusters asso- ciados a0 conceito de especializacio flexivel apresentam fortes redes internas entre as empresas que Os Compoem: “A especializagdo com- binada com subcontratagio divide, entre as empresas, 6 trabalho re- querido para a produgdo de produtos especificos”. Existem dois tipos de relagées interfirmas: verticais ¢ horizontais. — Relagdes verticais As relagdes verticais sd0 aquelas que conformam a cadeia produtiva de um setor, incluindo diferentes segmentos e/ou ramos afins, No caso da produgio de calcados, trata “aca s, componentes colas, maquinas, incluindo também a comercializagdo € os servigos tec- nologicos, enfim, todos os elementos que compdem, direta ou indi- retamente, « produgao ea comercializagao de calgados, Um cluster asso- ciado 4 nocio de especializagio flexivel deve apresentar uma confi- guracio de sua cadeia produtiva na qual a produgio dos diversos itens que a compéem seja distribuida entre firmas independentes com forte relacao entre si, dispondo de todas as atividades e servigos i montante € a jusante do produto final (Segenberger e Pyke, 1990: 11). Assim, em primeiro lugar, vamos analisar as relagdes dos pro- dutores de calgados com seus fornecedores, considerando os seguin- Tes fatores: a Comparacao entre a quantidade de bens e/ou servicos comprados no interior do cluster relativamente As compras realizadas fora; a percepeao do cliente quanto 4 qualidade dos bens ou servicos El ———————————— Relagées interfirmas, eficiéncia coletiva e emprego 47 geralmente oferecidos no cluster; € 0 atendimento a0 cliente, no que se refere a entregas no prazo previsto, ao cumprimento das espe cificagdes, 2 devolugio ou troca de produtos defeituosos € 4 i tencia técnica. A seguir, vamos examinar, ainda por meio da percep- Gao dos produtores de calgados (Tabela 1), quais as caracteristicas dos processos de troca de informagées entre os produtores € seus forne- cedores, visando & melhoria € ao desenvolvimento de bens ¢ servigos, Tabela 1 Relagdes verticais entre os produtores de calgados: e scus fornecedore: Natureza Fornecimento Intensidade ct da de bens roca de relagio € servigos (%) informagdes (%) com Grande Qualidade Atendimento Fre-— Qeasio- Nenhu- fornece: quantidade intrinseca_oferecido qiiente nal ma dores de compras superior 4. superior ao no interior — salisfintGria satisfatorio do cluster De couro 73 83 94 : 7 7 De outras 61 78 72 Be Be id materia primas De solados 72 50 73 - - ie De produtos 89 95 100 83 - : quimico: De miquinas ¢ 67 84 73 22 or u equipamentos De servigos de 80 : - : - : manutencio Agentes 100 : - - : : de vend: Com clientes © compradores 19 a7 M Com firmas de consulloria 11 33 56 Uso de hibliotecas especializadas : 33 o7 Contatos cons servicos especializadios - Senai 36 4i : Contatos com servigos tecnolégicos - CTCCA, 50 4i 6 Umia avaliagao preliminar acerca das relagdes verticais neste clus- ter revela que a interface cliente-fornecedor apresenta uma configu- ragdo proxima at nogio de cficiéncia coletiva, especialmente no que se refere ao fornecimento de bens ¢ servigos, ainda que estas rekagdes sejam frdgeis em termos de troca de informagoe: Fornecimento de bens e servigos — © abastecimento dle matéria Primas, insumos € maquinas ¢ realizado, na sua maior parte, por for- necedores do proprio chuster(em menor proporgio 6 coure, tendo em 48 Revista Latino-americano de Estudos do Trabalho vista 0 acesso facilitado ao couro do Uruguai). Constat a qualidade dos bens e servicos oferecidos, bem como as condigdes de atendimento na relagdo clicnte-fornecedor, sio bastante satisfatérias, atingindo niveis acima da média. Da mesma forma, os custos desses produtos € servigos parecem estar ao nivel da competicao internacional, tendo em vista a preferéncia pelos fornecedores locais. Em fungio dessas condigdes de disponibilidade € acesso aos bens € servigos da cadeia produtiva, possivel associar as relagdes verticais deste chister com o conceito de eficiéncia coletiva, ou seja, identificar a presenga de vanta- gens competitivas baseadas na proximidade entre clientes e fornece- dores, tais como agilidade no abastecimento, especificacdes técnicas para 0 fornecimento de insumos, capacidade de negociagao mais clara e direta de precos, prazos e atendimento ete. Intercdmbio de informagées — Por outro lado, os resultados dia amostra revelam que as interagdes entre cliente € fornecedor visando. a melhoria dos bens e servigos, desenvolvidas no interior do cluster, sao relativamente frageis. E 0 caso, por exemplo, das relagdes entre fornecedores de maquinas e produtores de calcados: 78% das empre- sas pesquisadas nao trocam informagées com aqueles fornecedores. Também € bastante fragil a interacio com os agentes de comer “+ lizacdo e, em conseqiiéncia, as informagdes acerca das necessidades ¢ desejos dos consumidores finais sio muito restritas. No mesmo sen- tido, a relagdo com empresas de consultoria, bem como 0 recurso a bibliotecas técnicas, aparecem como atividades muito timidas. Isso aponta para uma das fraquezas deste cluster: a falta de dinamismo no fluxo de informagdes no Ambito das relagdes verticais. A tinica exce- Gao so as relagdes dos produtores com os fornecedores de insumos quimicos: Senai ¢ CTCCA. também que — Relagdes horizontais Existem varias formas de relagdes horizontais no cluster produtor de calgados, destacando-se trés tipos principais: cooperagao entre duas ou mais empresas individuais que produzem o mesmo produto a fim de realizar conjuntamente algum tipo de iniciativa (exemplos: consércios orientados para atingir mercados especificos ou cooperacdo em trei- namento de recursos humanos € em pesquisa tecnologica de base); especializagao € complementaridade na fabricacdio do mesmo produto final, caso em que as empresas dividem os estagios do processo de producdo; e relagdes de subcontratagio, sendo a produgio concentrada em empresas de grande e médio porte (contratantes) que, por sua vez, organizam pequenas € microempresas para integrat partes de seu pro- cesso produtivo (subcontratadas), fazendo emergir um processo de es- pecializacio dependente. eee EEE Relagées interfirmos, eficiéncia coletiva e emprego 49 As relagdes interfirmas horizontais diferem bastante das relagdes verticais, na medida em que a concorréncia permanece ativa entre empresas que produzem © mesmo bem, dificultando o desenvolvi- mento de relagdes de cooperagao. Entretanto, os clusters mais eficien- tes conseguem combinar competigio interna com esforgos de coope- ragao, tais como grupos para compras conjuntas, iniciativas: de treina- mento € pesquisa etc. Relacdes de cooperagao As relagdes interfirmas horizontais s40 muito mais frageis que as verticais no interior do cluster (Tabela 2). A dindmica das relagoes horizontais aparece mais vinculada as oportunidades do que sob a forma de um processo sistematico e coordenado. Tabela 2 Relagdes horizontais entre os produtores de calcados ipo de relagio Intensidade das relagdes (96) Freqiiente Ocasional Nenhuma Participagao em consércios - - 100 Contratos para empréstimos de miquinas uw u 78 ‘Troca de informagdo entre firmas 22 67 a Visitas :t outros produtores u 89 7 Visitas de outros fabricantes 17 83 - Troca de informagio em reunides soci 28 28 44 Uso de boletim da Associago dos Fabricantes 44 39 7 No fluxo de informagdes entre os fabricantes, parecem predo- minar © ocasional e 0 pessoal: os indices mais elevados sao justa- mente originados na troca de informagoes entre diretores e gerentes € na casualidade dos acontecimentos sociais. Segundo os entrevistados, a concorréncia entre as empresas produtoras de calgados, especial- mente entre aquelas que produzem também para 0 mercado interno, constitui a principal razio de seu relativo isolamento. Entretanto, o: resultados de nossa pesquisa revelamt que essa situagdo comeca a mudar, tendendo a haver mais interacdo entre elas, embora seja ainda uma tendéncia ainda minoritaria, Subcontratagio A subcontratagio é uma pratica muito difundida a0 cluster. Em geral, nesse tipo de relacho as grandes ¢ médias empresas atuam como contratantes e as pequenas € microempresas como subcontratadas. Essas 50 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho pequenas empresas, em fungio de suas chamadas de ateliés. Entre as 24 empre viam utilizado este tipo de subcontratagao nos tiltimos cinco anos. A maioria das empresas (62,5%) subcontratava entre um a quinze ateliés no ano, seis (23%) empregavam de dezesseis a trinta subcontratadas ¢ tés (12,5%), mais de trinta subcontratadas. Segundo as entrevistas, a quantidade de trabalho subcont havia crescido na maioria das empresas desde 1991, acompanhando o ritmo de crescimento da produgdo. Assim, as relagdes de subcontra- tacdo tém um papel estrutural no sistema produtivo do cluster do RS, ou seja, ndo s&o apenas um recurso adotado eventualmente em face da flutuacao da demanda, mas constituem uma espécie de “organis- mo” interno @ sua estrutura. As caracteristicas dos principais tipos de empresas subcontrata- das sio descritas no Quadro 1. Entre as empresas pesquisadas, os ateliés manuais aparecem como as formas mais freqtientes de subcon- do. E importante enfatizar 0 papel do trabalho a domicilio ¢ temporirio, realizado especialmente por mulheres, nesse tipo de uni- dade produtiva. As principais razdes mencionadas pelas empresas pa- faa utilizagio desse tipo de subcontratagio sio, por ordem decres cente de importincia: flutuagio da demanda; economia com maqui- nas ¢ instalacdes; eficiéncia de terceiros; falta de mao-de-obra espe- cializada; altos niveis de rotatividade da mao-de-obra feminina; e dife- 0 dos modelos encomendados. As empresas que subcontratam procuram trabalhar com os mes- mos ateliés, embora nao haja nenhum compromisso formal entre as partes. Os acordos sao feitos por encomenda, de maneira verbal € informal. Quando contratam um novo atelié, as empresas costumam enviar uma ordem experimental (que pode ser acompanhada por um funcionario da empresa contratante). Todas as empresas estudadas definem rigorosamente para as subcontratadas as caracteristicas dos servigos que devem ser realizados. As empresas controlam a quali- dade do trabalho realizado nos ateliés por meio da revisio do lote no momento em que é entregue. Este processo é realizado diariamente e em pequenos lotes O pagamento pelo servico do atelié é quinzenal € ocorre apés quinze dias da ultima entrega. O critério empregado para estimar o valor do pagamento baseia-se num teste de cronometragem realizado na empresa contratante € depois negociado com os ateliés. Algumas empresas contratantes ap6iam as subcontratadas na or- ganizagdo da produgio, enquanto outras auxiliam’ com transporte pa- ra os produtos acabados. Em alguns casos, emprestam maquinas ¢ equipamentos e fornecem manutengao. Entretanto, assisténcia téenii efetiva ¢ continuada aos ateliés € pratica muito rara. tado - ee Relagées interfirmas, eficiéncia coletiva e emprego 51 AS entrevistas revelam que © nivel de qualificagao dos trabalha- dores das empresas subcontratadas € regular, ainda que inferior a0 dos trabalhadores das empresas contratantes. Os ateliés ndo possuem procedimentos formais de selecao, nem promovem treinamento e, em geral, ndo costumam assinar a carteira de seus trabalhadores. J alguns ateliés de costura cumprem a legislagao trabalhista. subcontratadas Caracteristicas das manual Responsivel pekt maior parte do trabalho subcontratado. Pe- quenas empresas, geralmente familiares, que executam ope- ragdes manuais no proprio domicilio, O tipo de atelié encontrado conta com cinco ou até dez luncionarios fixos Ateli qiientemente membros de uma mesma fam la uma mao-de-obra tempo- ia, 80s pendendo da demanda, & agre; riria, JS vezes em ntimero bastante grande, Embora os atelid e2es, possum registro legal para funcionamento, eles maioria dos muitas nao tém a pritica de assinar carteira de trabalho, Na Iho temporario basicamente feminino, subcon- proximas, Assim, 0 atelié aparece como aos pedidos das empresas e 08 distribui casos, 0 taba tratado nas residénci um posto que centr nas residéncias proximas. Ateli¢ Estes ateliés apresentam priticas de wabalho menos rudimen- de costura tares do que os do primeiro tipo, € incluem © emprego dle ma- quinas de costura (embora mais simples que as utilizadas pelas empresas contratantes). Também combinam trabalhadores efe- tivos com mio-de-obra temporiria e, em geral, so formados por um grupo de 10 a 20 funcionirios, sobretudo do sexo lemi- nino € com idade que varia dos 18 aos 45 anos. Alelié de Eo tipo de atelié utilizado com menor freqiténcia. Sua atividade bricado Pré-fabricado —biisica consiste na montagem da sola. O atelié de pré- apresenta uma organizagao mais avangada do que a dos an- mio-de-obra predominantemente masculi- teriores, sendo sua na. E.0 tinico tipo de atelié cujas caracteristica 5 de produgio sto mais industriais que artesanais, 10 sucediinea a crise recente > & uma empresa pequena, as vezes Trata-se de uma configura duistria de calgados. A fic até de porte medio, subcontratada para produzir o sapato in- tegralmente. Posteriormente, « empresa contratinte insere sua alcadlo fabricado pela facgio. propria marca ao 52 Revista Latino-americana de Estudos do Trabaiho Subcontratagao, eficiéncia coletiva € priticas de emprego Como a subcontratagao é uma pritica difundida nesta industria e usada principalmente na produgdo de modelos mais baratos, € possivel concluir que seu uso esta associado a estratégias de reducdo de custos € que sua utilizacao contribui para a flexibilizagio da produgio. Esse modelo de producao se caracteriza por intensa especializagao do trabalho subcontratado, 0 que pode ser associado a um dos aspectos do modelo eficiéncia coletiva: cada subcontratada executa um ntimero. limitado de atividades, mas 0 conjunto delas abrange uma gama muito grande de possibilidades de servigos, permitindo as contratantes uma variedade de alternativas. Embora ainda pouco visivel em muitos casos, as relagdes de sub- contratagao estao sendo também influenciadas pelas novas formas de gestdo associadas a0 Just-in-fime, No sistema tradicional, as empresas trabalhavam com grandes lotes de produtos ¢ estoques em process, © que se refletia também nas formas de subcontratagao. Agora, as empresas tendem a reduzir lotes de producdo, estoques € prazos de entrega. [sso resulta num novo perfil de relacionamento com as em- Ppresas subcontratadas, por meio de maior acompanhamento e a téncia aos ateliés, o que implica aumento do grau de confianga mutua entre as partes. Quando os entrevistados apontam as “flutuagdes na demanda” como 0 principal motivo do uso da subcontratagao, estio se referindo AOS Custos associados aos processos de admissdio/demissdo de forga de trabalho. Assim, a principal raz4o para 0 uso da subcontratagio é reduzir 0 custo da mio-de-obra. As relacdes de emprego nas empresas subcontratadas si0 extre- mamente precdrias: trabalho informal e salirios mais baixos do que os dos trabalhadores regulares da industria de calcados (que ja esto entre os mais baixos da industria de transformagao). Assim, esses tra- balhadores nado tém acesso as vantagens do trabalho formalizado, nao recebem beneficios sociais ¢ ndo participam de atividades de trei- namento. Relagées interfirmas e eficténcia coletiva E importante observar que as caracteristicas das relag6es inter- firmas no interior do cluster estio associadas i sua principal estratégia competitiva, isto €, produzir com pregos baixos. Enquanto esta for a ldgica da maioria das empresas, a configuracao das relacdes verticais estara mais associada a “otimizagdo do abastecimento”, em termos de preco, prazos e atendimento. Por isso, 0 uso do conceito de eficiéncia coletiva neste cluster esti mais vinculado >. condigdes de abasteci- ll ———————— Relagées interfirmas, eficiéncia coletive e emprego 53 mento € acesso facilitado a insumos € servigos do que a processos de interagdo e de troca de informagées. Embora essas condigdes sejam importantes para a competitividade do setor, ainda nao sio suficientes para considerar a relagio cliente-fornecedor como diretamente asso- ciada & nogdo de eficiéncia coletiva. Isto porque a troca de infor magdes, na interacdo entre clientes e fornecedores, é um dos prin- cipais diferenciais entre 0 cluster constituido espontaneamente € 0 cluster avancado. Por outro lado, a estratégia de competigao predominante no cluster também exerce influéncia sobre as relacées horizontais, isto é, sobre possiveis relagdes de cooperagio e complementaridade entre produtores de um mesmo bem, Na medida em que 0 preco constitui o principal vetor de competigdo, a concorréncia entre fabricantes € acir- tada, dificultando iniciativas de cooperacdo ¢ complementaridade. Relagées interfirmas e condi¢ées de emprego A anilise das relagdes verticais mostrou que as formas de coope- © interfirmas sio ainda frageis. sa razio, os impactos desse tipo de relago sobre os mercados de trabalho, em cada segmento industrial que compde o cluster, sao ainda muito restritos ou de dificil identificacio. Nao foi possivel identificar, por exemplo, nenhuma inte- racdo significativa entre os diversos mercados de trabalho que com- pdem os segmentos concentrados no cluster (calgados, couro, qui- mico, metal-mecanico). Isso nos permite concluir que as relagdes in- terfirmas verticais no tém transformado substancialmente as carac- teristicas dos mercados de trabalho de cada segmento. A Gnica exce- co encontrada & 0 segmento produtor de artefatos de metal para calgados, cujas condigdes de emprego so mais semelhantes as do emprego no setor calcadista (mais precarias) do que as predominantes em empresas metaltirgi Da mesma forma, as relagdes horizontais de cooperacdo entre empresas produtoras de calgados também tém sido muito ténues, Por 0, NAO € possivel destacar nenhum efeito desse tipo de interagio ‘Obre as condigdes € 0 volume do emprego. Ja a subcontratacdo exer- ce papel fundamental sobre as praticas de emprego, na medida em que constitui uma atividade capaz de regular as relacdes de emprego no setor calgadista, especialmente em periodos de aquecimento da demanda (como em 1992 € no primeiro semestre de 1993). Seu efeito Tegulador permite, por um lado, evitar 0 crescimento do emprego formal nos periodos de alta demanda (o que induz a expansio de telagdes precdrias) e, por outro, manter baixos niv ‘alariais, espe- cialmente para ocupacdes pouco qualificadas. 54 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho Impactos sobre 0 emprego da difusdo dos principios da especieliza- ¢40 flexivel A partir do inicio dos anos 90, os produtores de calgados tém tentado melhorar seus processos produtivos por meio da introdugio de técnicas de gestao m: istados, Os motivos principais para a difusao dessas técnicas siio: maiores exigén- cias dos clientes em geral (94% das empresas), exigéncias do mercado exportador (78%) ¢ necessidade de acompanhar as empresas con- correntes (67%). A difusaio de inovagdes (utilizagio e/ou plano de introdugdo) nas empresas da amostra € estimulada por mudangas nos padrdes de deman- da € aponta para a melhoria das condigdes de flexibilidade e qualidade (Tabela 3). Nesse sentido, é possivel afirmar que as empresas esto adotando principios ¢ técnicas relacionadas 20 conceito de especia- lizagio flexivel, Esse conjunto de mudangas, ainda restritas, implica alte- r¢Ges importantes nas atribuicdes € responsabilidades dos trabalha dores. E importante destacar que 62% das empresas entrevistadas men- cionaram a necessidade de muckancas na organizagio ¢ nas relacdes de trabalho. cficientes. Segundo os entre Tabela 3 Difusdo de inovagdes nas empresas da amostra Inovagdes na gestio dit produgio Tipo de inicia vir das empresas que adotam Redugdo do volume do material em processo 94 Simplificacio do produto 72 Linhas focalizadas 44 Transferencia de atividackes de qualidade para a produgdo 44 Redugito do tempo de set-up 44 Controle Estatistico do Processo (CEP) 39 Uso de células de produgio 39 Grupos de methoria 22 Manutengio preventiva 2 Kanban 2 Inovagdes na organizegio do trabalho Tipo dle iniciativa 4% das empresas que adotam Transferencia das fungdes de qualidade para os operitios diretos 72 Redugdo do ntimero de trabathadores no controle dat qualidade 56 Introdugio de avaliagio do desempenho Transferencia dis fungdes de manutengio pit o de trabalho em grupo 10 dos niveis hierarquicos 10 no plano de beneficios Uso de abonos ou prémios de producio Redegao do nimero de wabalhadores na manutengio Redugio das fatixas saktriais para os tabalhadores da produgio © pessoal operacional EE Relagées interfirmas, eficiéncia coletiva e emprego 55 De acordo com os dados obtidos, as principais mudaneas obser- yadas nas atribuigdes dos trabalhadores € nas politicas de gestio de recursos humanos foram: ampliacio das responsabilidades dos traba- Ihadores, incluindo atividades de qualidade e manutengio; trabalho em grupo; multifuncionalidade; maior controle da performance dos trtbathadores, por meio de avaliagao do desempenho € de prémios de produgao ¢ assiduidade; ¢ aumento da participagdo dos trabalhadores nas decisdes acerca da produgio, por meio da redugdo dos niveis hierarquicos. Para adequar a organizagio a essas mudangas, 89% das empresas haviam iniciado programas de envolvimento com seus funcionarios. No entanto, no momento da pesquisa, somente 22% delas estavam atingindo os funciondrios de produgao nesse processo, mediante pa- lestras, debates, apresentagdo de videos e reunides setoriais. Ja 72% das empresas pesquisadas declararam que estavam conscientizando sua alta diregio, 83% desenvolviam esses processos com) suas gerén- IS € 78% com suas geréncias intermedizirias Simultaneamente, para motivar seus funciondrios, 83% das em- s estavam desenvolvendo novos planos de beneficios, ofere- assisténcia médico-odontoldgica (67%); vale-transporte (50%); convénios com farmicias (44%); refeitério proprio (33%); cesta basica 33%); convénios com supermercados (22%); premiagdo por assidui- dade (22%), € premiagio por produgao/racionalizagaio (22%). ses beneficios aparecem como politicas compensatérias para apoiar a adogio dos novos sistemas de produgAo, nos quais o traba- thador deve assumir maiores responsabilidades. Um importante as pecto dos novos métodos é a transferéncia de atividades de qualidade ¢ manutencio para 0 trabalhador de produgao, transformando o perfil da mao-de-obra empregada no segmento produtor de catgados na io de um padrao orientado para a multifuncionalidade. Como conseqiiéncia, encontramos também uma mudanga nos critérios de selecdo de trabalhadores: maior escolaridade, maior experiéncia e dis- Posicdo para o trabalho em grupo. Como parte do mesmo processo, 67% das empresas pretendem reduzir seus indices de rotatividade (considerados ainda bastante altos, reflexo da politica de redugdo de instabilidade no emprego), por meio de planos de bene- is, associados @ politics salariais mais compativeis e valo- tizagko dos recursos humanos em todos os niveis. Esta nova atitude relativa 4 gestao de recursos humanos tem re- querido teinamento de chefes € gerentes (78% das empresas estavam investindo nesse tipo de treinamento). Ja o treinamento para o con- junto dos trabalhadores diretos era bastante incipiente: cerca de 60% das empresas nao tinham programas de weinamento. A forma mai comum de treinamento utilizada por essas empresas era on the job, 56 Revista Latino-americana de Estudos do Trabaiho realizado com 0 apoio do chefe imediato. Por isso, o treinamento dos chefes passa a ser Ho importante nessa estratégia (Antunes, E., 1993). Estas novas formas de organizagio do trabalho, no entanto, se chocam com a estratéyia de competico baseada em precos baixos, que tradicionalmente se traduz em uma cultura ja bastante arraigaca no setor € que atua no sentido de valorizar praticas relacionada: io de salirios e instabilidade do emprego. O fenémeno centro/periferia no mercado de trabalho do cluster produtor de calgados Os dados sobre as formas de emprego e as relagdes de sub- contratagdo predominantes no setor calgadista, j apresentados, sus- tentam, a primeira vista, 2 hipdtese de que, em alguns aspectos, 0 fendmeno da segmentagio centro-periferia (Piore, 1980) ocorre no. mercado de trabalho. Assim, © mercado de trabalho constituido pelos fabricantes de calgados seria 0 mercado de trabalho central, na medi- da em que as empresas, quase sem excegio, regularizam suas relagdes de trabalho por meio de contratos formais em toda a sua extensio (beneficios sociais, férias, auxilio-transporte). JA as empresas subcontratadas e especialmente os ateliés manuais ¢ de costura, onde predominam a informalidade e 0 uso de trabalho a domicilio, cons- tituiriam 0 mercado periférico. No mercado de trabalho periférico, os trabalhadores sio menos qualificados do que os do central, dedicando-se principalmente a ati- vidades manuais (ateliés manuais ¢ de costura) que nado demandam a utilizagio de equipamentos sofisticados. Nos ateliés de pré-fabricados cresce a necessidade de uma mao-de-obra um pouco mais qualificada. No entanto, é possivel identificar algumas especificidades que vdo constituir uma dinamica mais complexa do que a concepgao dual centro-periferia. Em primeiro lugar, as condigées de emprego no cha- mado mercado central se caracterizam por baixos saldrios, pouca qua- lificagdo, baixa mobilidade intra e interfirmas e auséncia de politicas formais de teinamento e valorizagdo de recursos humanos. Assim, se para 0 universo das indistrias produtoras de calgados esse mercado de trabalho pode ser considerado “centro”, na comparacio com o mercado de trabalho da industria metalurgica, por exemplo, pode até constituir-se em mercado de trabalho central, mas sem duvida de s« gunda linha. Apesar de adequar-se ao padrio geral de mercado periférico, 0 uso do trabalho nos ateliés também apresenta algumas especificidades interessantes. Em primeiro lugar porque grande parte do trabalho a domicilio é realizada por mulheres que repartem essa atividade com atividades domésticas de cuidados com a casa e filhos pequenos, en- Relagées interfirmas, eficiéncia coletiva e emprego 87 quanto seus maridos esto, freqiientemente, empregados no mer central. Assim, impedidas por condigdes familiares, econdmicas e cut- turais de atuarem profissionalmente, © trabalho a domicilio em tempo parcial constitui uma alternativa efetiva de aumentar a renda familiar. Neste contexto, freqiientemente se estabelece, de uma forma ardua mas também original, um processo de vinculagdo dos mercados cen- tral e periférico por meio da integragio da renda familiar como con- digdo de reprodugdo da mao-de-obra. Em segundo lugar, a0 contrario da tese classica cla relagdo centro-periferia, que pressupde baixa mo- bilidade entre os dois segmentos, observamos em nossa pesquisa que a mobilidade entre os diversos submercados € bastante significativa. E freqtiente 0 caso do trabalhador qualificado que, depois de muitos anos de atuagio como empregado de uma firma produtora de cal- cados, termina criando um ateli¢ de subcontratagao. Essa mudanga pode ser 0 resultado de uma iniciativa propria, aliada 2s condigdes econdmicas conjunturais ou ainda a dificuldade em conseguir outro emprego. No mesmo sentido, também € freqiiente 0 caso de trabalhadores qualificados do mercado central (especialmente cortador ou costureira especializada) que vao cumprir nos ateliés 0 papel do mestre de servigos, apoiando © proprietério no treinamento e supervisio da mao-de-obra temporaria € pouco especializada, dominante nestas atividades, Além dessas modalidacles, ¢ numa dindmica mais importante do ponto de vista quantitativo, observa-se que muitos trabalhadores classificaclos no nivel mais baixo das empresas produtoras de calcados (servigos gerais) tém tomado a iniciativa de solicitar sua demissdo junto as empresas, a fim de receber os encargos trabalhistas correspondentes ao periodo trabalhado, como férias € 132 sakirio proporcionais e Fundo de Garantia por Tempo de Servico, e, em seguida, solicitar ao sistema previdenciario o salario- desemprego (que € extremamente baixo), passando a atuar como traba- Ihador por pega numa relacao de trabalho informal junto aos ateli¢s, 0 que Ihe permite acumular essa nova remuneragio com o sakirio-desem- Prego. Assim, a migracdo do mercado central para 0 periférico significa © aumento dos rendimentos desses trabalhadores. Ha, porém, 0 grave ‘0 social de que essa mado-de-obra informal possa, em casos de redu- Gao da demanda, transitar para a marginalidade efetiva. Redes de subcontratacao na industria metal-mecanica da regiao de Campinas Este estudo de caso discute as relagdes de subcontratagdo na regiio de Campinas entre ués empresas lideres cla inddstria metal- mecinica (empresas contratantes) e um grupo de dez de seus peque- nos € microfornecedores (empresas subcontratadas), apresentadas nas 58 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho Tabelas 4 € 5%. O objetivo da pesquisa foi investigar como o proces de reestruturagdo em curso na industria metal-mecanica brasileira tem afetado as relagdes entre grandes € pequenas empresas, com énfase nas condigdes de emprego ¢ relagées de trabalho. Para isso decidimos explorar a relacdo entre trés grandes empresas em distintas etapas de so de reestruturacdo, afetadas de forma diferente pela crise econdmica brasileira, ¢ dez, de seus micro © pequenos fornecedores. S Gltimos foram incluidos na amostra porque, de acordo com a literatura, este tipo de empresa, por sua posicdo mais frigil e vulnerdvel na cadeia produtiva, tem maior possibilidade de sucumbir 4 chamada estratégia /ow road, ou seja, enfrentar a pressio por redugdo de custos via precarizagio das condigdes de emprego, Tabela 4 Caracteristicas das empresas contratantes Neimero de luramento/1992—_Localizagao Principais empregados (em USS 1.000) produtos LPI 896 35.9) Indaistuba —— Lonas de freios 1543 58,5 Sta, Barbart — Miquinas-ferramenta LF3 342 36,5 Campinas Sistemas de freios Tabela 5 Caracteristicas das empresas subcontratadas Numero cle ‘wturamento Locali > Atividade — Fornecedor empregados anual em US$ 1.000 de SPL 18, i00 Stl. Barbara Rebarbagie LP SF2 43 600 Indaiauba — Ferramentaria — LF1 © usinagem 1 24 Slt, Birbara Polimento LF2 5 108 Jundiaé Ferramentaria LEI 2 156 Indaiatuba — Ferrament FI 2%6 2.160 Campinis — Trefilagho Lr2 2% 600 Inclaiatuba — Usinagem Ls 12 255 Sta, Barbara Ferramentaria — LF2 29 1,200 Sumaré Usinagem LES 3l 600 Piracicaba— Usinagem irl y dle seus 2 Inicialmente visitamos as és empresas ContRANIeS e SObeitAMeS st Ncicate pequenos fornecedlores. As emprexzes subbcontratalas foram posterinemente Visitatckas © um quevtioninio, referent t procedimentos de gestion, tecnologia. sivema Ue qualidade ¢ politi plicaulo ode pessoal, for Relagées interfirmas, eficiéncia coletiva e emprego 59 Nossa hipotese € de que a natureza das relagdes de subcontra- tacdo pode sofrer mudancas importantes na presenga de maior pres- sao pela qualidade na cadeia produtiva. Ainda que as empresas sem- pre exijam um determinado grau de conformidade com padrdes preestabelecidos, consideragdes sobre preco muitas vezes podem se sobrepor a critérios referentes & qualidade na escolha do fornecedor. Empresas clientes costumam manter um grupo de empresas subcon- tratadas para o fornecimento de um mesmo servicgo, para estimular a competigao entre elas ¢ evitar a dependéncia de um tinico fornecedor. A conseqiéncia desse tipo de arranjo para a empresa subcontratada € a falta de estimulo para investir em equipamentos, tecnologia € mao- de-obra, na medida em que, facilmente, ela pode perder © contrato para outro competidor. Para muitas pequenas empresas, a Gnica ma- neira de manter uma razodvel margem de lucro é mediante a utili- Arios. Como a maioria das pequenas: empresas metal-mecanicas entrevistadas foi fundada por trabalhado- res altamente qualificados oriundos de grandes empresas, este tipo de proprietario tem condigdes de assumir diretamente a responsabilidade pela qualidade dos produtos (as vezes com © apoio de alguns traba- thadores qualificados), mantendo o resto da forga de trabalho pouco qualificada e sub-remunerada. De fato, a literatura mais tradicional sobre subcontratagio aponta como uma das vantagens desse sistema os baixos salarios pagos pelas pequenas ¢ médias empresas, No en- tanto, quando a qualidade assume maior importancia como fator de competitividade no interior de uma cadeia produtiva, a escolha de fornecedores determinada somente pelo fator prego pode transfor- mar-se em um procedimento de risco © mesmo implicar a elevagio dos custos de produgio. E importante explicar por que consideramos a regiao de Cam- pinas adequada para discutir os conceitos de distrito industrial ¢ efi- ciéncia coletiva. Esta regiio, formada por 83 municipios (4,5 milhdes de habitantes em 1990) é a mais importante area econdmica clo estado. de Sao Paulo, apés a Regio Metropolitana (Negri, 1990: 88). A regio se caracteriza pela existéncia de um setor industrial cxtremamente dindmico, que cresceu mesmo durante a chamada “década perdica”’ Em 1987, sua produgio industrial correspondia a 44% do total da pro- dugao, © uns pouco menos em termos do emprego industrial do inte- rior do estado, respondendo por 9% da produgao industrial brasileira: ta estrutura industrial redne uma enorme variedade de setores ¢ ividades, como quimica, metal-mecinica, téxtil e alimentos. A pro- zacio de politicas de baixos 5 3.\ regio foi responsivel por 10.0% do valor da produgio inelusteial do estado de Sio Paulo em 1970. crescendlo para 15.8% em 1980 € atingindlo, 17,0% em 1987 60 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho ducao da indiistria metal-mecanica da regiao corresponde a um quin- to da producao total do estado, Essa indtistria tem uma longa tradigao na regio, que remonta a década de 30, quando as principais em- presas nacionais de miquinas e equipamentos foram fundadas. Ou- {ros importantes grupos nacionais € multinacionais estabeleceram suas plantas na regiao em outras fases da politica de substituigao de importagdes. Outro fator relevante a presenga de varios campi uni- versitarios, diversos centros de pesquisa (com destaque para as é de informatica € telecomunicagdes € pesquisa agricola), uma rede sig- nificativa de escolas na drea de formagao profissional, além de dois polos tecnolégicos. Este complexo cendrio econémico é suportado por uma extens rede de transportes e servicos. E no marco desta estrutura, mais asso- ciada a idéia de zona industrial que a de distrito, que t@m emergido diversos tipos de esforcos cooperativos entre grandes ¢ pequenas em- presas, diferentes instituigdes educacionais ¢ de servicos tecnolgicos. A proximidade geogrifica ¢ a atuagao de prefeituras, universidades ¢ outras instituigdes locais tém favorecido esse processo. Mudancas na indiistria de autopecas e seu impacto nas redes de subcontratagéo Do ponto de vista estrutural, duas caracteristicas da industria de autopecas sio especialmente relevantes para este estudo: a grande proporgio de médias e pequenas empresas que compodem o setor ea concentragio geogrifica no estado de Sao Paulo. O crescimento da industria de autopecas no Brasil esta intima- mente ligado a implantacio da industria automobilistica no pais. O primeiro ciclo de expansdo dessa industria se iniciou no periodo 1957- 62, seguido por cinco anos de crescimento relativamente lento. Du- rante este ciclo inicial, um grande nimero de empresas de compo- nentes se estabeleceu no pais. Um indicador do crescimento do setor de autopecas € que ja em 1962 os niveis de nacionalizagao atingiram taxas de 86,4% a 94,3%, dependendo do tipo de veiculo. O ritmo de crescimento aumenta entre 1968 a 1974, atingindo seu auge em 1980, periodo que é seguido pela intensa crise do inicio dessa década, que provoca enorme retragio no mercado interno. A partir da crise dos anos 80, © setor de autopecas inicia uma estratégia agressiva de penetragio nos mercados externos'. As ex- portagdes cresceram continuamente, atingindo US$ 2.120 milhdes em 4 Inicialmente como um movimento defensivo em face da retragio do mereado interno, 10 qual se divi , Mas que se consolida a0 longo cla década maior parte de sua produ Relagées interfirmas, eficiéncia coletiva e emprego 61 1989%. Vale destacar que 62% dessas exportagdes foram destinadas ao mercado norte-americano € que uma parcela significativa correspon- deu a itens do motor, parte “nobre” dos veiculos (Sindipegas, 1991). ‘Ao longo dos anos 80, 0 desempenho do setor acompanhou o da economia como um todo, mas com um dinamismo maior, ji que sua participagao no PIB cresceu de 2,2% em 1980 para 3,2% em 1989. Ja o emprego caiu muito mais do que o faturamento, refletindo nao s6 os efeitos da crise, mas também do processo de reestruturagdo em curso do setor. Os anos 90 se iniciam com uma nova crise e com a mudanga na politica industrial, quando 0 governo Collor anun- a abertura do mercado e 0 abandono das politicas de substituigao, de importagdes®. Nesse contexto se intensifica a difusdo de inovagdes: tecnolégicas e organizacionais e de mudancas nas relagdes entre clientes e fornecedores nas empresas desta cadeia produtiva. As empresas contratantes tém tratado de seguir uma estratégia de redugado do ntimero de fornecedores fortemente baseada em critérios relativos 20 desempenho em qualidade (ainda que © prego mantenha grande importincia) e, em alguns casos, mantendo somente um for- necedor para alguns produtos ou servicos. A idéia € estabelecer um tipo de relagao mais cooperativo com alguns fornecedores selecio- nados. Essa cooperagiio pode assumir diferentes formas: apoio as em- presas subcontratadas no desenvolvimento de melhores tecnologias de produc’o; sugestées para as empresas subcontratadas melhorarem seus sistemas de qualidade; estabelecimento de acordos de compras de maior duragdo; ¢ envolvimento do fornecedor no processo de de- senvolvimento de novos produtos. Pesquisas realizadas sobre redes de subcontratagao na regiio de Campinas em 1988 (Gitahy, Rabelo € Costa, 1988 ¢ 1990) identificam. algumas mudangas importantes, entre pequenos € médios fornece- dores de servigos de usinagem, em termos de uso da forga de tra- balho. O achado mais importante foi o esforgo de estabilizagio da forga de trabalho: para satisfazer 4 elevagao dos requerimentos de qualidade de seus clientes, algumas das pequenas e médias empresas estavam revisando as suas politicas de gestao de mao-de-obra e mui- tos empresirios reconheciam que baix rios, rotatividade elevada nas empresas 5 Tendéncit que se manteve: as exportagdes atingiram USS 3.300 milhdes em 1995 (Sindipecas, 1996) 6 Os anos 90 ini fase no desenvolvimento do complexo stutomotivo. Ap6s crise do inicio dt de at retomadks do crescimento, em fungio especialmente dos acordos redlizidos na Camara Setorial Automotiva. Com a estabilizagao da econon acelera-se 0 processo de reestruturagio, que se traduz em um movimento sustentudo de clevagdo da produtividade nesta cadeia produtiva (Gitahy & Bresciani, 1997) 62 Revista Latino-americana de Estudos do Trabalho € © nao-cumprimento da legislacdo trabalhista sto obsticulos para a constituigao de uma forga de trabalho qualificada e motivada, neces- sdria para a melhoria da qualidade e da produtividade. No entanto, como pretendemos demonstrar neste trabalho, a velocidade ¢ as caracteristicas deste processo de mudanga vaio de- pender, em grande medida, da natureza da tecnologia de processo, do histérico das empresas € de sua posigio na cadeia produtiva. Para analisar os efeitos da difusio de inovagdes nas redes de sub- contratagio sobre 0 emprego € as condigdes de trabalho, selecio- namos os seguintes itens: treinamento; politicas de estabilizagao, es- truturas de cargos e salirios ¢ politicas de remuneragio (incluindo beneficios sociais). De acordo com © modelo proposto, as médias e pequenas em- presas subcontratadas deveriam estar engajadas na implantagio de estratégias de recursos humanos mais ativas para atingir os patamares de qualidade desejados. Isto significa maior investimento em treina- mento e na estabilizagao de uma forga de trabalho mais qualificada. Para obter a certificagao pelas normas ISO 9000, as empresas neces- sitam implementar varias medidas relativas a seu pessoal. As audi- torias exigem que os empregados demonstrem conhecimentos sobre os procedimentos de produgio (inclusive inspegdo). Programas par- ticipativos, por exemplo, sio mencionados por varias grandes em- presas como um método importante para motivar seu pessoal. Tam- bém € importante comparar as condigdes de emprego das grandes empresas com as de seus pequenos fornecedores para verificar se ocorre uma tendéncia que aponta na diregio do fendmeno centro- periferia, A tendéncia nas empresas lideres do setor de autopegas é trabalhar com uma mao-de-obra reduzida, mais bem remunerada e mais qualificada (Gitahy € Rabelo, 1992). Tecnologia, qualidade e emprego Duas grandes empresas da amostra pertencemi ao setor de auto- pecas € uma ao de maquinas € equipamentos, a qual se tem destacado por uma longa tradi¢io de inovagio na area de produto, tendo sido a primeira a produzir miquinas CNC no Brasil (1978). Ainda que todas tenham sofrido de forma intensa a crise de 1991-92, esta empresa, assim como todo © setor de bens de capital, foi a mais afetada da amostra’. Partindo-se das wés grandes empresas da amostra, observa-se uma violenta queda no emprego dentre elas. A LF2, por exemplo, 7 0 fim da politica de reserva de mercado nat dn havia investido uy dat pute eletrdnica do CNC. <1 afetow a empresa, que nacion: Relagées interfirnas, eficiéncia coletiva e emprego 63 parte cle um contingente de cerca de 5.000 funciondrios em 1980, chegando a cerca de 2.000 no ponto baixo da crise (1981-82), retoma ‘© crescimento em 1987, chegando a 4.000, quando entio volta a cair gradativamente até os 1.563 encontrados em 1993. Ja a LF3 se est beleceu na regio de Campinas em 1981, atingindo um patamar de cerca de 500 funcionarios no final dos anos 80. Em 1990, inicia um processo intenso de reestruturacio, atingindo, no momento da pes quisa, 340 funcionarios. A diferenga entre os dois periodos mais rec sivos, ou picos da crise da histéria recente da industria brasilei (1981-83 ¢ 1991-92), & que, no segundo, um grande ntimero de em- presas desenvolveu um projeto de reestruturagdo com o objetivo de “enxugar” sua estrutura, adotando uma politica basica de manutengio de um ntimero reduziclo de funciondrios mais qualificados ¢ coope- rativos. Isto significa que a retomada econdmica destas empresas, ain- da que com elevagao da producio ¢ dos investimentos, nao levara 4 retomada dos niveis de emprego anteriores. No caso das empresas subcontratadas, observa-se que nas mais antigas 0 emprego acompanha o crescimento da produgio no periodo 1985-89 © cai durante a crise do inicio dos anos 90. Ja nas empresas formadas em meados dos anos 80 verifica-se um certo crescimento até 1989-90, seguido por queda e posterior estabilizagdo. De qualquer maneira, oO emprego tende a flutuar menos nas pequenas empresas do que em seus grandes clientes (Tabela 6). Tabela 6 Emprego nas pequenas empresas 1980 1985 1986-1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 - - - . i - . 14 16 18 70 60nd nd ond 93 nd 350 45 43 - - S60 1 1 1 4 3 1 1 proprietirio Sh : 5 1nd nd SS. . - + - - - - a ra ra SFO. - - : - oe 10302 26. 26 SF? nd 19 4 hd 85 0 26 Sipe 25 ad fd Od nd nd i 12 So : nd nd nde nd On a0) SFIO - : 3 nd ond 75350 ond nT Em termos de estratégia de reestruturagao, as és grandes em- 10 em etapas bastante distintas (Quadro 2). A LF3 € clara- mente a mais avangada e¢ jé reorganizou completamente o seu layout, adotando 0 conceito de produgio celular ¢ just-in-time. O programa ee 64 Revista Latino-americana de Estudos do Trabatho Relagées interfirmas, eficiéncia coletiva e emprego 65 seguido é extremamente sistematico e tem contado com forte apoio mo por seu importante papel como fornecedora de maquinas CNC da diregio. A estrutura de cargos e saldrios foi totalmente adaptad para pequenas e médias empresas, teve scu programa interrompido aos novos métodos de trabalho, por meio da introdugao da carreira pela crise. multifuncional na produgao. No momento da pesquisa, a empresa estava se preparando para a certificagio pela norma ISO 9002, pre- Quadro 2 vista para o final de 1993, Ela havia obtido os grtus maximos nas a avaliacdes feitas pelos seus principais clientes (grandes montadoras de veiculos pesados no Brasil ¢ exterior). Na LF2, 0 programa de Inovagdes na gestio de produgio qualidade, ja bastante desenvolvido em meados dos anos 80, estava Tipo de iniciativa LFI Lez LFS virtualmente paralisado pela crise do inicio dos anos 90 (somente a Uso de equipamentos de base microeletrOnic em ee Che ae : | . Redugao do volume de material em proceso sim sim sim fundigao havia conseguido manter ¢ avancar o programa). As outras implificacao do produto ae ae a unidades produtivas estavam reorganizando-se num ritmo extrema Transferencia de ativiclaces de qualidade mente lento. Em todas as dreas observou-se enorme falta de recurso para a produgio. sim sim ¢ de pessoal. Apesar dessa situagio, a LF2 é uma das empresas de Redugao do tempo de set-up sim melhor reputagdo no mercado, entre os produtores nacionais de ma- Controle Estatistico do Processo (CEP) sim Uso de cékitas de produgio nao, quinas-ferramenta. A empresa LF, depois de centar introduzir uma Gara série de métodos e técnicas de qualidade de forma isolada € sem Manutengio preventiva sucesso, iniciou um programa mais amplo € articulado ha dois anos. Kanban Este programa ainda se encontra em fase inicial: um comité foi criado Jasttit-time interno envolvendo todos 0s principais executivos ¢ tem definido as metas mn Just-in-lime externo introd. : Desenvolvimento de fornecedores sim conjunto com os consultores. As trés grandes empresas esto adotando programas de desen- Inovagdes na organizagdo do trabalho voivimento dle fornecedores*, com 0 objetivo de elevar seus niveis de ‘Tipo de iniciativa LF. LF2 LF3 externalizagao. Esse tipo de programa envolve um esforgo inicial de Transferéncia das funcdes de qualidade avaliacdo dos niveis de qualidade dos fornecedores ¢ de sua dispo- Para os operdrios dliretos nao niio sim . : : ae 6 Recugdo do ntimero de trabalhadores no sicao para introduzir melhorias, OQ objetivo € reduzir o ntimero de i : ¢ mere controle da qualidade nao sim fornecedores, mantendo somente aqueles que atinjam os niveis de- Introdugio de avaliagao do desempenho. nio sim sejados ou demonstrem capacidade para atingi-los. A redugdo do nu- transferéncia das fungdes de manutengio mero de fornecedores implica mudanga da pritica tradicional de licita- Para o pessoal opericional nao sim des, baseadas em prego para um mesmo produto €/ou servigo, o Hee wo de ae em grupo sim sim ie + Ave ‘edugao dos niveis a COS s 8 que, pelo menos em tese, significa uma relagao mais proxima e 140 dos niveis hierarquicos sim sim : ae i‘ Modificagao no plano de beneficios sim sim cooperativa com os fornecedores selecionad los. Uma d as vantagens Uso de abonos ou prémios de producao nio aa para as empresas clientes € que o fornecimento com “qualidade asse- Reducao do ntimero de trabalhadores gurada” implica a eliminagio da inspecdo de entrada. O programa se na manuteni nao sim sim encontrava mais avancado na LF3. Ja a LF2, que tradicionalmente tem Redugao das faixas salariais para os sido ativa na regi&o, ajudando ex-funcionarios a formar seus proprios trabalhadores da produgao sim sim sim Negécios, organizando compras conjuntas de matérias-primas e mes Acerca do hist6rico das micro e pequenas empresas da amostra, constatamos que somente trés empresas se formaram antes de 1980, 8 Todas as empresas da amostea (grandes ¢ pequenas) estavam: envolvidas em um, quatro se formaram no periodo 1986-87 e trés entre 1990 € 1991. A progrania de desenvolvimento de pequenos fornecedores, como pane de um convénio origem de trés delas parece associada mais claramente ao movimento entre 2) Unicamp, as téx grandes empresas da saiostea € 0 Sebrae, com o objetivo de ae 7 an 3 le externalizagao de atividades das grandes empresas. A maior parte aduptar os métodos ¢ técnicas de avaliagao disponiveis & realidade das pequenas © granc das empresas € formada por ex-funcionarios de grandes empresas da mire errr Ol, rr tsti(‘COCOCOCSCOCSCSCSCOC;C