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A PROBLEMATICA DOS “iNDIOS MISTURADOS” E OS LIMITES DOS ESTUDOS AMERICANISTAS: UM ENCONTRO ENTRE ANTROPOLOGIA E HISTORIA Joao Pacheco de Oliveira Igumas vezes os debates sobre a histéria indigena ou sobre a relacio entre mito ¢ histéria, entre as populagdes amazonicas ou das terras baixas da América do Sul’, tém focalizado com exclusividade as sociedades indigenas do Amazonas, dando pouca atencio aos indios do Nordeste e aos estudos realizados sobre estes. O que reflete menos um parti-pris regional do que um desconforto quanto a populagdes indigenas com baixo grau de distintividade cultural, pteconceito esse enraizado na construgio de objetos tedricos € no estabelecimento de normatividades cientificas. Para a perspectiva dos estudos americanistas, no entanto, freqitentemente a pesquisa € a reflexao sobre sociedades marcadas por processos histéricos de mudanga e€ por mecanismos de transferéncia, dominacio ¢ integracio sociocultural, nio oferecem, em geral, muito interesse ou rentabilidade tedrica”. Mas se aprendemos as ligdes de outras correntes da Antropologia e das Ciéncias Humanas, se acreditamos que é mais fecundo estudar as unidades sociais situando-as no tempo ¢ na historia (ver Turner, 1973 ¢ Wolf, 1982); se abordamos as suas instituigdes e a construgio de suas fronteiras como resultado de processos politicos ¢ identitarios ocorridos em uma situacio de interagio especifica (ver Barth, 1969); se percebemos a necessidade de uma anilise dos fluxos culturais e das agéncias sociais que perpassam unidades étnicas, nacionais ¢ regionais (ver Anderson, ' Ver, por exemplo, a coletiinea Rethinking history and myth: indigenous South American perspectives on the past (Hill, 1988), ou o seminirio “Pesquisas Recentes em Etnologia e Historia Indigena na Amazénia” (1987), transformado, bem mais tarde, em livro (Castro & Cunha, 1993). Em importantes obras de referéncia, como a Histérte dos indies no Brasil (Cunha, 1992), no entanto, tal preocupacho se fiz presente através de cuidadosa anilise (ver, especialmente, Dantas, Sampaio & Carvalho, 1992). ara uma interessante anilise destas raizes histéricas consultar Taylor-Descola (1984). 27 bastante as 1983, Barth, 1988, ¢ Hannerz, 1996), entio devemos valoti: atuais que se realizam em diversas instituigdes de dentro ¢ chamados "indios aculturados", "misturado investigacoe de fora da regiio, sobre os ou “integrados". Ao recusarmos, na procura do exético, ter a fonte privilegiada (ou mesmo tinica) para a claboracio de conceitos ¢ teorias antropolégicas nos despimos de incémodos parimetros ¢ pressupostos que tornavam ecundirio 0 estudo das populagées indigenas do Nordeste, bem como st de outras regides do Pais (o sul, o leste ¢ diversas faixas da propria regiio amazénica). Acreditar no potencial dessas pesquisas, congregar estudiosos ¢ promover a confrontagio de scus pontos de vista, incentivar o debate ¢ o intercambio entre as diferentes sobre os problemas que afetam o destino dessas populacdes ¢ as suas perspectivas para o futuro constitui um grande mérito dos idealizadores desse seminario. Isto contribui para dar visibilidade a um grande investimento de pesquisa realizado, que afeta cerca de 40 mil indios (1/5 da populacio indigena brasileira), distribuidos em 23 etnias (ver Atlas das terras indigenas do Nordeste, PETI, 1994) Mas, diante desse conjunto tio representativo de especialistas — dedicados ao estudo dos indios do Nordeste qual pode ser a minha contribuigio? Em nivel de pesquisa de campo, os meus esforcos durante mais de 20 anos foram carreados para 0 estudo dos indios ticuna, do alto curso do Rio Solimdes (Amazonas), focalizando, em especial, temas como a organizacio politica, o faccionalismo, os movimentos milenaristas e a histéria do contato. Diferenciando-me em meu objeto ¢ em minha pratica de uma "antropologia de varanda”’, confirmo que uma parte significativa dos meus esforcos voltou-se para a viabilizacio dos direitos indigenas, especialmente no que tange 4 demarcacio de suas tetras (vitoria enfim alcancada em 1993), e para a criacio do MAGUTA: Centro de Documentagio e Pesquisa do Alto Solimdes, uma entidade nio-governamental constituida em 1986 ¢ que esta em vi inteiramente incorporada em uma organizacio indigenas. disciplinas ¢ debrucar-se * Nesse termo, no qual eu incluiria nilo somente formulagdes especulativas ¢ sem base etnogrifica, como as criticadas por Malinowski nos trabalhos evolucionistas, mas ainda os estudos que sio feitos a partir da naturalizagio da situagio colonial, tomando a fazenda, a missio e © posto indigena exclusivamente como pontos logisticos de apoio para uma observacio sobre os indios, realizada por um pesquisador supostamente objetivo, externo e imparcial. 28 A minha relacio com os indios do Nordeste é informada pela leitura de trabalhos de colegas do PNEB/UFBA, da UFSE. ¢ da UFCE, mas principalmente é mediatizada pelos cursos que dei sobre Relacoes Interétnicas ¢ Antropologia Politica ¢ pelas discussdes que mantive com os meus alunos ¢ ex-alunos no PPGAS/Museu Nacional, mas também no Mestrado de Antropologia da UFPE ¢ no Mestrado de Sociologia da UFBA. Nos ultimos PPGAS sobre a problemitica indigena no Nordeste, duas na UPL! (uma na condicio de co-orientador), participei de diversas bancas na UFBA e¢ atuo ainda como orientador de trés teses de doutorado em andamento no. PPGAS. e fessa ocasiao tentei consolidar em um pequeno testo (intitulado “1 Ges relativas ao estudo do ste dissertacdes de mestrado do dez anos, orientei s \companhei a preparacio do Ady das ferras indigenas da Nordeste, viagem da volld) algumas impressGes € suges' fenomeno da emergéncia de identidades indigenas Ao iniciar minha exposicio quero deis mim, portanto, contribuicdes substanciais. sobre qualquer uma dessas sociedades _ indfgenas interpretagdes novas sobre suas miutuas articulagdes historia regional ou nacional. © que posso faz didlogos que mantive nesses tiltimos dez anos com textos € pesquisadores sobre os indios do nordeste, é tentar estabelecer pontos que reflitam a ar claro que nao esperem de Nio tenho dados inéditos , mem trago iO na sas ou ins rea ando-ne nos » bass otiginalidade desses estudos e¢ possam funcionar como uma base — de convergéncia para os trabalhos futuros. Irei assim falar de coisas absolutamente simples ¢ basicas, de idéias minima € pressupostos que chumero e tento apresentar de forma cristalina e transparente, com a expectativa de que scjam ouvidas (ou que venham a ser tomadas mais tarde) como verdades corriqueiras, A minha inspiragio assim como em alguns outros exercicios teéricos vel por meio nessa aventura a ctenca de que todo 0 avango do conhecimento s6 poss da ctitica e da retificacto das certezas anteriores. E através de uma psicanalise do erro, em um exercicio de catarse ¢ libertacio, que se pode aceder ao desvendamento das utilidades (praticas ¢ normativas) dos erros anteriores, bem como dos encantamentos ¢ sedugdes que exercem sobre 0 imaginatio. E, © que nos mostra Ga imprescindivel para moldar os habitos contempo epistemologica. "Quando cle se apresenta A cultura cientifica, o espirito no é jamais jovem. Ele é de fato muito velho, pois tem a idade de seus ‘er acesso 4 ciéncia é intelectualmente rejuvenescer, aceitar ston Bachelard em um pequeno livro, aneos de vigilincia Ppreconccitos. | 29 uma mutagio brusca que deve contradizer um pa 1970:22). A construcio de um jargio técnico, de conceitos novos ou de uma metalinguagem, nao pode por si s6 evitar que as velhas idéias retornem ¢ ‘nham a aninhar-se em novos escaninhos. O estabelecimento de novos objetos € a fixagio de novas diretiva Humanas, mas nao s6 ne: ado" (Bachelard, — especialmente nas Ciéncias s Bachelard, aliés, nio se ocupou delas nao pode ser realizado com a mesma facilidade ¢ eficiéncia com que se colocam placas indicativas nos desvios das estradas. O ponto de partida para pensar sobre uma area relativamente nova do conhecimento — uma antropologia dos "indios misturados" — nao é fazer tabula rasa de sistematizacdes cientificas anteriores nem de saberes priticos, mas justamente fazer passar por um exame critico algumas das perguntas ¢ atividades que constituiam, classificavam ¢ atribuiam significagio Aquele fendmeno. O que precisamos é saber reconhecet, dentro do acumulado da etnologia brasileira, aqueles pressupostos que podem © devem ser adotados em nossos daqueles outros que irio anular a sua originalidade © enquadri-los cm bili studos, distinguindo-os formulas gastas ¢ inadequadas, que inv’ nova zam a colocacio de questdes Em torno de algumas © objetivos Pressupostos que operam como verdadeiros obs pesquisas com populagées indigenas fortemente integradas em contextos regionais. E como se tais obs se cristalizam alguns ulos a consecugio das ‘iculos operassem como pontos de reinscticio do velho no novo, onde os achados resultantes das pesquisas concretas fossem anulados ou reformatados dentro de uma linguagem supostamente ger ica, mas de fato concebida para populacdes marcadamente contrastantes com as frentes de espansio ou outros segmentos da sociedade brasileira. Para fornecer um suporte narrativo & nossa reflexio, vou propor- Ihes trés teses que apontam para caminhos ou expectativas quanto as pesquisas empiricas, considerando-as cnquanto obsticulos teéricos que devem passar por um crivo critico ¢ exigem uma mudanca radical de pressupostos. Os meus comentarios nio devem ter seu foco limitado 4 ea geogrifica do Nordeste. Algumas vezes os historiadores, para autodistinguir-se uns dos outros, agrupam-se segundo 0 tipo de fonte ou mesmo o arquivo com que trabalharam concretamente (Torre do Tombo, Arquivos de Coimbra, Casa das Indias, Arquivo Nacional, Arquivo Publico do Para, ete). Em 30 uma perspectiva ainda mais empirista, a novidade de certos trabalhos é aptesentada como decorrente da localizacio (ou "descoberta") de determinados documentos desconhecidos pelos pesquisadores anteriores, como se 0 avanco do conhecimento supusesse mentes homogéneas ¢ fosse sempre cumulativo ¢ seguisse em linha reta. Muitas vezes os antropélogos que estudam populacdes indigenas incidem no mesmo vicio positivista, supondo que cultura é um conjunto de objetos ¢ que totalidade é a soma do conhecimento das partes, pretendendo distinguir-se uns dos outros de acordo com unidades sociais Apontam entio o especificas que estudaram com maior intensidade. especialista em tal ou tal cultura ou, procedendo por inclusdes um pouco mais abrangentes, freqiientemente lingiiisticas, constituem verdadeiros subdominios (o dos "gedlogos”, 0 dos "tupinélogos", etc.). Em um nivel mais alto de abstragdes, falam de dominios regionalizados de uma disciplina (como o americanismo, 0 africanismo, o orlentalismo, etc.), nos quais os trabalhos antropologicos sao supostos como convergentes ¢ compariveis. Evidentemente, tal compartimentalizacio ¢ objetifivagio da pesquisa comporta muitos problemas tedricos ¢ politicos. No atual mundo globalizado, arquivos isolados tendem a ser incorporados tapidamente ao conjunto de fontes consultadas ¢ sobre as quais se debate se reflete. As unidades sociais cada vez menos podem ser descritas de modo satisfatério como auto-contidas, descontinuas ¢ territorializadas. E, sobretudo, os dominios regionalizados freqiientemente operam com consensos arbitratios ¢ unilaterais (como observa criticamente Said sobre © orientalismo), ofuscando e minimizando as diferengas quanto 4 construcio dos objetos de conhecimento, propiciando, algumas vezes, 0 estabelecimento de uma associacio (nunca explicitada) entre teorias interpretativas ¢ o poder institucional’ (ver Fardom). Ademnais, é preciso ter em mente que pesquisadores diferentes nio realizam uma descrigao homogénea das realidades que observaram. Uma etnografia nio resulta da aplicagio mecnica de um questionirio; a sua simples existincia ¢ unidade supde um esforco sintético ¢ interpretative, bem como uma experiéncia narrativa. Mesmo grandes projets colas” * Este tiltimo material tide tanto em termos académicos (pelo fendmeno das “ io das 10 ¢ hierarquizacio das problemiticas, com o controle na viabiliz (na claboracio e as € no exercicio do ensino) quanto em termos social 10. com as populagies nativas e a administracio aracdes, na rel legitimacio das repr colonial) 31 comparativos (como o de Murdock, nos anos 50, de colocar em fich: sobre itens etnogrificos especificos todas as informacdes contida monografias disponiveis sobre as populagdes nativas) ressentem-se da inexisténcia de uma matriz descritiva comum a todos os pesquisadores*. Uma imagem muito populatizada ¢ quase arquetipica do tempo é a do lento, permanente ¢ irrefreivel fluso das aguas de um tio. Instalados ao longo desse caudal, escribas de diferentes época objetos que singraram as suas ag) tuidos ¢ posigdes relativ: Ss nas registraram os , descrevendo suas formas, cores, Seri que para fazer ctno-histéria bastaria comparar esses relatos, construindo uma trajetoria imaginaria entre esses Pontos, narrando naufragios ¢ navegacoe triunfais, indicando causas (ou apenas levantando hipoteses). Ou seja, com base em registros tomados como "protocientificas", 0 trabalho do analista transformar o descontinuo em continuo, ¢ 0 concebido em verossimil’. Se assim for, a etno-historia — uma presumida unio entre antropologia & historia — torna-se de fato uma perigosa terra de ninguém, por um lado imune ao exercicio habitual do historiador de realizar rigorosas criticas de fontes; ¢ por outro lado, desprezando a contextualizacio social dos relatos ¢ interpretagdes, exercicio habitual do antropdlogo. cria apenas de Os pensadores pré-socréticos foram muito mais tadicais em conceber a mutabilidade do mundo ¢ a caducidade e relatividade das instituicdes ¢ dos saberes, Diziam que "nao te banharis duas v Agu es nas s do mesmo tio", querendo lembrar que coisa alguma se preservs