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Siegfried Kracauer O ornamento da massa traducdo Carlos Eduardo J. Machado e Marlene Holzhausen COSACNAIFY Culto da distragao Sobre os cineteatros de Berlim Os grandes cineteatros [Lichtspiethduser] em Berlim sao palacios da distracao: defini-los simplesmente como cinemas seria depreciativo. Os cinemas ainda podem ser encontrados apenas na velha Berlim e nas cidades periféricas onde atendem o pequeno piiblico; seu ntimero todavia decresce. O rosto de Berlim, além disto, é caracterizado menos pela existéncia destes cinemas ou pelos tea- tros comuns do que por aqueles locais de magia ética. Os ura-Paldste [Pald- cios uPA] - sobretudo aquele junto ao zoolégico - 0 Capitol -, construido por Palzig’, 0 Marmorhaus, ou quaisquer que possam ser os seus nomes, todos os dias tém lotago maxima. Que o desenvolvimento se propague na direcao assinalada por eles, comprova-o a construgao recente do Gloria-Palast. O cuidadoso esplendor da superficie é a caracteristica destes teatros de massa, Como os sagudes dos hotéis, sao locais de culto do prazer, o seu brilho visa a edificagdo. E ainda que a arquitetura assalte os espectadores com um 1 Hans Pélzig (1869-1936), um dos fundadores do movimento moderno na arquitetura alema. Além disso, foi responsdvel pelo cenério expressionista do filme Golem (1920), de Paul Wegener. 343 344 bombardeio de impress6es, no recai jamais na pompa barbara das igrejas profanas do perfodo guilhermino, como por exemplo, no Ouro do Reno, que quer dar impressao de que oculta o tesouro wagneriano dos Nibelungos. Ao contrdrio, a arquitetura aqui alcangou uma forma que evita excessos estilisticos. O bom gosto soube dominar as dimensées e, juntamente com uma fantasia ar- tesanal refinada, criou a preciosa decoragao interior. O Gloria-Palast apresen- ta-se como teatro barroco. A comunidade dos aficionados, que se contam aos milhares, pode ficar satisfeita; seus locais de reuniao sao uma estancia digna. ‘Também os espetéculos sao de uma grandiosidade bem-acabada. Passou 0 tempo em que se projetava um filme apés outro com 0 correspondente acom- panhamento musical. Pelo menos os principais teatros adotaram o principio americano dos espetaculos completos, nos quais o filme se insere como parte de um todo maior. Assim como as folhas dos programas alcangaram agora a dimensio de revistas ilustradas, da mesma forma os espetaculos tornaram-se uma bem-articulada profuusio de produces. Do cinema surgiu uma espléndida imagem do género revista: a obra de arte total [Gesamtkunstwerk] dos efeitos. Esta obra de arte total dos efeitos se desencadeia com todos os meios diante de todos os sentidos. Refletores irradiam suas luzes pelo ambiente, salpicando os alegres penduricalhos ou chuviscando através de cachos de vidro colorido. A orquestra se afirma como poder auténomo, sua mtisica é apoiada pelos res- ponsorios da iluminagao. Toda sensacdo recebe a sua expresso sonora e 0 seu correspondente valor cromatico dentro do espectro. E um caleidoscépio 6tico e actistico, ao qual se une 0 jogo cénico dos corpos: pantomima, balé, Até que, ao final, baixa a superficie branca da tela e os acontecimentos do palco transformam-se inadvertidamente na ilusao bidimensional. Espetdculos como estes so hoje, juntamente com as verdadeiras revistas, a grande atracio de Berlim. A distracao alcanca neles a sua cultura. Eles sio feitos para as massas. ‘Também na provincia, as massas se retinem; mas elas sio mantidas sob uma tal pressdo, que nao podem se realizar espiritualmente na medida apropriada a sua quantidade e A sua real significacao social. Nos centros industriais, onde aparecem compactas, essas massas, constituidas por operdrios, sao solicitadas em excesso € néo podem realizar sua propria forma de vida. A elas so ofere- cidos o lixo e as antiquadas divers6es (Unterhaltungen] da classe superior que, por mais que estejam interessadas em ressaltar a sua alta posi¢ao social, tem modestas exigéncias culturais. Nas cidades provincianas maiores, nao domina- das de maneira predominante pela industria, as relagdes tradicionais sio muito poderosas para que as massas estejam em condi¢des de impor, sozinhas, uma marca na sua estrutura intelectual. As camadas médias burguesas continuam separadas delas e a se iludirem de que sao guardias de uma cultura superior, como se 0 preenchimento deste reservatério humano nada significasse. Sua arrogancia, que cria um oasis aparente para si propria, pressiona a massa para baixo, estragando sua distra¢ao. Nao se deve esquecer que Berlim possui 4 milhdes de habitantes. A sua ne- cessidade de circulagao, por si s6, transforma a vida da rua em uma inescapavel rua da vida e produz figuras acessorias que penetram até mesmo no ambiente doméstico. Mas, quanto mais os homens se sentem como uma massa, tanto antes a massa atinge, também no campo intelectual, energias criativas que vale apena financiar. Ela néo permanece mais abandonada a si mesma; nao suporta que lhe sejam servidos restos, mas quer ser servida em uma mesa coberta. Pouco espaco hé para as chamadas camadas cultas. Blas devem sentar-se a mesa ou manter-se 4 parte em uma posi¢ao esnobe; em todo caso esta posigao provinciana acabou. Com a sua imersio na massa surge 0 homogéneo piiblico cosmopolita que ~ do diretor de banco aos auxiliares do comeércio, da diva & datilografa - sente do mesmo modo. Lamentos lacrimosos sobre esta guinada para o gosto de massa vém agora tarde demais. O patriménio cultural, que as massas recusam acolher, reduziu-se em parte 4 mera apropriagao histérica, porque se transformou a realidade econémico-social ligada a ele. Reprova-se os berlinenses por serem viciados em distragdo; mas esta ¢ uma reprovacio pequeno-burguesa. E certo que em Berlim o desejo de distracao & maior do que na provincia, porém maior e mais perceptivel é também 0 es- forgo das massas trabalhadoras, um esforco essencialmente formal, que ocupa a jornada sem preenché-la de sentido. E necessario recuperar aquilo que se perdeu, mas pode-se pretender recuperd-lo apenas na mesma esfera superficial 345 346 A qual se esta submetido. A forma empresarial da ocupacao do tempo livre ¢ a forma da empresa, do negécio [Betrieb]. Um justo instinto prové para que a necessidade seja por ele satisfeita. Os aparatos dos grandes cineteatros ttm um tinico fim: manter o piiblico amar- rado ao que é periférico para que nao se precipite no vazio. Nestes espeta- culos a excitagéo dos sentidos se sucede sem interrupcao, de modo que nio haja espaco para a minima reflexéo. Como os salva-vidas, as luzes difundi- das pelos refletores e os acompanhamentos musicais servem para se manter a superficie. A tendéncia a distraco, que exige uma resposta, encontra-se na exibigdo da pura exterioridade. Dai, precisamente em Berlim, a incontestavel intengao de transformar em revista todos os espetaculos; daf,como fendmeno paralelo, o actimulo de material ilustrativo na imprensa didria e nas publica- des periddicas. Estas exteriorizaces tém a sinceridade como vantagem. Nao é através dela que a verdade ¢ posta em perigo. Mas através da ingénua afirmacao de valo- res culturais que se tornaram irreais, através do duvidoso abuso de conceitos como personalidade, interioridade, tragicidade etc., que certamente, por si 6s, indicam contetidos objetivos de alto valor, mas que em razo das trans- formacoes sociais perderam em grande parte a sustenta¢ao da qual se nutriam. Valores, que na maioria dos casos, assumem hoje um sabor equivoco, uma vez que desviam a atengao dos males objetivos da sociedade além do conveniente, orientando-os para a pessoa privada. Nos ambitos da literatura, da misica, do teatro, sdo bastante frequentes tais recalcamentos [ Verdrdngungserscheinun- gen]. Apresentam-se como manifestagdes da arte superior ¢ na realidade sio produtos ultrapassados que se evadem das necessidades atuais da época - um fato que ¢ indiretamente confirmado pela produgao respectiva, que é também intrinsecamente uma arte epigonal. O publico berlinense comporta-se de uma maneira adequada a verdade no seu sentido mais profundo, recusando cada vez mais estes acontecimentos artisticos que, por motivos dbvios, nao vao além da mera pretensio, atribuindo a sua preferéncia ao brilho superficial das stars, dos filmes, das revistas e das decoragées. Aqui, na pura exterioridade, o publico encontra a si mesmo; a sequéncia fragmentada das espléndidas im- pressdes sensoriais traz a luz a sua propria realidade. Se esta lhe fosse ocultada © ptiblico nao poderia atacé-la e transformé-la; a sua revelacao na distracéo possui um significado moral. Entretanto, este é 0 caso apenas quando a distrac4o nao é fim em si mesma. O fato de que os espetaculos que entram na esfera da distracao sejam uma mis- tura semelhante ao mundo da multidao das grandes cidades, o fato de que eles possam prescindir de todo auténtico nexo objetivo, e mesmo do cimento da sentimentalidade, 0 qual oculta a caréncia sé para torna-la mais visivel, o fato enfim de que estes espetaculos pressagiem a milhares de olhos e de ouvidos, de modo exato e claro, a desordem da sociedade, precisamente isto faz com que eles provoquem e mantenham acordada aquela tensao que deve preceder a necessaria mudanca. Frequentemente pelas ruas de Berlim se é surpreen- dido pela ideia de que tudo venha um dia, improvisadamente, rachar no meio. ‘Também as distragées, para as quais 0 publico ¢ compelido, deveriam operar do mesmo modo. Geralmente elas nao conseguem alcancar este efeito; as apresentagdes dos grandes cineteatros comprovam-no exemplarmente. Ao mesmo tempo em que chamam a distracdo, tornam repentinamente a roubé-la do seu significado, agregando em uma unidade “artistica” a multiplicidade dos efeitos - efeitos que pela sua natureza requerem ser isolados um do outro - e comprimindo na forma de um todo a sequéncia colorida de elementos exteriores. Jé os 4m- bitos arquiteténicos tendem a enfatizar uma dignidade que seria propria das instituig6es artisticas superiores. Favorecem 0 que ¢ elevado e 0 que é sacro, como se neles estivessem guardadas criagdes de duragao eterna; mais um passo adiante e vemos as incandescentes velas de uma ceriménia solene. O espeté- culo também aspira alcangar 0 mesmo alto nivel, ser um organismo bem acor- dado, uma totalidade estética, como sé a obra de arte pode ser. O filme teria muito pouco para oferecer, nao tanto porque gostaria de acumular ainda mais distragSes, mas para alcangar um acabamento artistico. O cinema conquistou o seu reconhecimento independentemente do teatro: mas as diregées dos mais importantes cineteatros aspiram novamente o retorno ao teatro. ‘Tendéncias reaciondrias sao inerentes a estes objetivos que podem ser con- siderados o sintoma da vida social berlinense. As leis e as formas daquela 347 348 cultura idealista, que sobrevive hoje apenas como espectro, perderam todo seu direito, mas gostariam de preparar uma nova cultura, alegremente evo- cada, dos elementos da exterioridade. A distracdo, que tem sentido apenas como improvisagao, como cépia da confusdo incontrolada do nosso mundo, é recoberta de véus e reconduzida forcosamente a uma unidade que jé nao ha mais. Ao contrario de confessar o declinio que lhe caberia representar, elas colam os pedagos e os oferecem como uma criagao adulta. E um procedimento que se vinga no plano puramente artistico. O filme de fato perde a sua possivel eficdcia se é inserido em um programa jé completo. Nao possui nenhum valor em si, a ndo ser como coroamento de alguma coisa semelhante & revista, na qual nao sao levadas em conta as suas condigdes de existéncia. A sua bimensionalidade produz a aparéncia do mundo corpéreo, que nao tem nenhuma necessidade de complementagao. Se, todavia, cenas de real corporeidade forem associadas aquele jogo de luzes que é 0 cinema, este retorna a superficie da tela e o engano ¢ revelado. A proximidade de aconteci- mentos que se desenvolvem em uma profundidade espacial destréi.a espaciali- dade daquilo que é mostrado na tela. O filme, pela sua propria natureza, requer que o mundo nele refletido seja tinico; necesita subtrai-lo a todo ambiente t perde a sua forga quando aparece entre imagens vivas. Para nao falar do fato limensional, pois de outra forma apaga-se como ilusao. Também a pintura de as ambigées artisticas que, através da incorporagio do filme em uma apa- rente totalidade, estao fora do lugar e por isso permanecem necessariamente sem solugao. Em todo caso aquilo que surge é artesanato. Mas os cineteatros tém tarefas bem mais urgentes a cumprir do que se preocupar com obras artesanais. Somente poderdo realizar sua tarefa ~ que é uma tarefa estética se e quando ela coincide com a tarefa social - se no mais flertarem com 0 teatro e nao procurarem mais reproduzir reverentemente uma cultura ultrapassada, mas liberar os seus espetaculos de todos aqueles ingre- dientes que privam o filme de seus direitos, colocando radicalmente como fim uma distragdo que revele o declinio [Zerfall] ao contrario de escondé-lo. Tudo isto seria possivel em Berlim, onde vivem as massas que se deixam entorpecer com tanta facilidade, apenas porque estio proximas da verdade.