Quando abria os olhos uma luz ofuscante fez-me virar
a cara para me esconder. - O nosso campeão já acordou! Aquela voz parecia-me conhecida, mas com a luz, que me parecia estar demasiado próxima, não tive coragem para satisfazer a minha curiosidade. Tinha a garganta seca e custava-me engolir a saliva que quase me sufocava. Foi então que, por momentos, a imagem de Sally me apareceu, e eu levantei-me logo de seguida, ao que quase me deitei de seguida. Estava cheio de fios ligados a mim e tinha dores em todo o lado, com a cabeça a latejar. Parecia ter ido contra um camião. - Daniel….Daniel…. – Murmurou uma voz demasiado conhecida e meiga para que eu não me movesse para a ver. Sally estava ali, tal como estivera toda a noite. - O que aconteceu? Onde… estou? - No hospital. Oh Daniel, pregaste-nos cá um susto… O que te passou pela cabeça? Tentei abrir os olhos que queriam obrigar-me a dormir. Mas a sua mão, ligeiramente fria conseguiu que recuperasse um pouco as forças, a ponto de me por meio sentado com a almofada atrás das costas que me ajudara a pôr. - Oh não – Fiquei aterrorizado com a ideia – Os meus padrinhos, eles devem estar preocupadíssimos. Tenho que sair daqui! Mas Sally travou-me com o seu braço, de maneira a barrar-me mais o caminho que me separava a cama do chão. - Não vais a lado nenhum até o doutor Lehman te mandar para casa, e além do mais, eles estão aqui. - Quem, os meus padrinhos? Os dois? Oh não… O seu rosto estava perplexo de surpresa e ela arregalou as sobrancelhas, quase soltando um “oh”. Depois agarrou-me a mão que permanecia ligada, o que me causou algumas dores. - Quando estiveres bom, vamos fazer algo emocionante, mas sem maluqueira, combinado? – Deu-me um beijo suave e rápido a que eu quase nem tive tempo de responder. Reparei que após me ter beijado o seu rosto mostrou alguma dureza. Mas o que estaria eu a fazer num hospital. Porque estaria ali toda a gente? Como é que Sally sobrevivera à tempestade? - Precisas de alguma coisa? Se quiseres algo pede-me que eu vou-te buscar. Tentei tomar uma posição mais rígida, mas com tantas dores vi que era impossível, optando pela expressão facial. Afinal a cara expressa bem o que sentimos, e eu mostrei um ar zangado, ou… tentei. - Preciso. – Mostrei impaciência batendo com um dedo solto na cama num batimento ritmado. - O que queres? – As suas mãos cerraram-se de imediato e ela fixou-me com o olhar a focar-me bem. - Conta-me a verdade! Acerca de ti e da tua família… Os seus olhos continuaram-me a fitar mas os seus dedos pararam. - De certeza que não queres saber, acredita. - Conta e logo veremos como reajo. Abraçou-me e falou-me ao ouvido de modo a que ninguém ouvisse. - Quando saíres daqui prometo que é a primeira coisa que farei. – Depois afastou-se e sorriu abertamente, com a íris dos olhos a brilharem num azul brilhante. Parecia que o que prometera, iria cumprir, e, eu comecei a desejar, mais que o minha recuperação, sair dali rapidamente. - Quando posso ir-me embora doutor? O Sr. Lehman era um grande amigo do meu pai e até já tinham andando os dois naquela mesma escola, mas o meu beicinho de nada serviu. De qualquer maneira sabia que o seu temperamento era sempre assim, no que tocava a pacientes, ele nunca dava o braço a torcer se não tivesse a certeza da sua recuperação total, ou quando os exames assim o permitiam. “Respeita-te primeiro e o teu futuro será derradeiro” – Era o seu ideal de vida, desde que me lembrava que ele existia. Na verdade ele era pai, tinha três filhos, e, a frase era igualmente aplicada aos três. As pessoas adoravam-no e quase afirmavam que conseguia salvar pessoas que aparentemente já quase que estavam mortas, vejam lá o que elas são capazes de dizer quando estão desesperadas. - Amanhã já estarás pronto para ir à escola rapaz. O teu amigo é que foi muito corajoso, quando te encontrou deitado no chão quase a sofrer de hipotermia, pegou em ti e veio até aqui, no meio da tempestade. E olha que também não se encontra lá em muito boas condições. Teve que suportar aquela chuva toda e o vento, Mas não é nada de preocupante – Disse ele ao analisar-me as narinas e a garganta com uma luzinha que me incomodava mesmo quando estava longe dos olhos. Detestava hospitais. Depois os meus olhos olharam surpreendentemente quem entrava na porta. - Olá. Então como te sentes? - Tu? Mas como…. - Hum – Parou a conversa com um som na garganta rouco, quase pedindo licença para me calar. - Ok desculpa. Mas… Tu salvaste-me e tu… - Oh não foi nada… estava por perto e não podia evitar o que estava a ver. No instante em que falávamos o doutor aproximou-se e deu uma palmadinha nas costas do meu aparente “salvador”. Mais estranho era impossível. - Eu sempre soube que aqui o Cullen era uma grande pessoa. Na verdade o pai dele, O Carlisle também é médico, como deves saber. - Nós não somos amigos. Respondi olhando de lado de lado para Edward. Ele porém parecia calmo e não me olhava com repulsa, como da vez em que o conheci. Estava admirado. Era verdade que já o tinha visto, duas vezes, não foram as melhores ocasiões, mas de onde eu o conhecia era de um livro que lera chamado crepúsculo. Contava a história de Bella, que também conhecera, mas que de momento não parecia estar presente. - Ela não pôde vir. Fica para amanhã. - Ok – Voltei a responder com dureza sem que ele desse algum sinal de que me queria comer ou algo assim. A sua expressão era quase de leveza, os braços ao lado do corpo e não cruzados, as mãos abertas e não com os punhos cerrados e um sorriso, que era o que me “intimidava” agora. - Bem a minha missão acabou, agora tenho que ir. E no momento seguinte, tal e qual Sally quando me salvara, saiu com rapidez. O momento de dureza passara e relaxei. Relaxei tanto que a única coisa de que me lembro a seguir a Edward, foi, a cara dos meus padrinho na porta do quarto. Quando acordei novamente deviam ser umas dez horas da noite. Estava escuro e frio. Cobri-me melhor e alguém me ajudou. Acordas-te querido. Como te sentes? A minha madrinha. Sempre protectora e vigilante como sempre. Os seus olhos que permaneciam doces e não zangados. Agarrava-me com as suas mãos quentes e suaves, quase tão suaves como as de Sally. - Então já queres ir para casa? - Não. Ela retraiu-se. Depois olhou em volta e suspirou antes de falar. - Então Daniel? O médico já disse que te dava alta quando acordasses e agora não queres sair daqui filho? - Primeiro quero comer. Estou faminto. – E sorri juntamente com ela. O meu padrinho, mais fechado, também lá estava, a olhar por mim e…por Sally que estava numa cadeira ao lado da cama a dormir, debruçada sobre uma almofada alta. Nem imaginava o sacrifício para estar ali daquela gente toda. Realmente era um monte de problemas e sentia-me mal por tal. A seguir a comer, fomos para casa e Sally também lá dormiu, no meu quarto, enquanto eu dormi na sala, no sofá, o que não me chateou. Afinal tinha a minha “namorada” ali, ou era o que eu pensava da nossa relação atribulada. Na manhã seguinte acordei cedo e meio tonto. Tudo que acontecera eu lembrava-me. Até da presença do Cullen no meu quarto de hospital. Sally já se tinha levantado e andava as voltas pela sala, talvez à minha espera. - Olá – Cumprimentei, observando que ela andava em voltas, tensa e com as mãos atrás das costas. Decerto modo sentia-se tonto por isso. - Bom dia – Respondeu com os maxilares quase cerrados. Aquilo tinha saído com um sussurro demasiado longínquo. – Podes despachar-te para irmos? - Mas ainda são sete horas Sally. – Informei-a de maneira suave para que não se zangasse. - Posso perguntar-te uma coisa? - Claro. Pergunta o que quiseres. - Menos Daniel, muito menos. – Corrigiu com firmeza e arrogância nas palavras. Fitei-a com um ar aborrecido. O dia não estava a começar bem, mas mais zangado devia estar eu por ela ter fugido e eu ter ido para ao raio do hospital. - O que tens? Pareces tensa. E porque estás a falar comigo assim? Ela parou. Depois sentou-se ao meu lado no sofá, numa distancia de mais ou menos longe, pois o sofá era demasiado longo. - O que te deu ontem? – Perguntou fazendo com as mãos o gesto de quem está maluco. - Isso pergunto eu. Desapareces e depois eu vou para te salvar… Ela interrompeu com um riso demasiado alto para aquela altura da manhã – Tens imensa piada. Salvares-me? Eu não precisava de ajuda. - Mas não estavas na escola. Onde te metes-te? - Hum… pois… - Pois, não tens resposta. Ela olhou-me surpreendida. - Não te lembras do dia que é hoje pois não? - Porque haveria de me lembrar? Alguma data de real importância? Eu que saiba não faço anos nem nada parecido. Baixou a face e olhou para as mãos que mantinha entrelaçadas. - Pensava que te lembrasses. – Disse quase chorando. Naquele momento senti-me péssimo. Ela estava mesmo triste e eu não sabia porquê. - Em vez de me preparares tu uma surpresa tenho eu de preparar uma para ti, e depois é esta a paga que tenho… – Confessou desanimada. Era claro! Os anos de Sally. E era mesmo verdade que na altura em que tínhamos ido para casa a pé ela me tinha dito a data, sabendo eu que era breve. Não tive coragem de contestar aquele estado. Não sabia sequer o que dizer. - Ok… parabéns? Mas não ficas zangada comigo, por… favor? – A minha voz sofria de alturas, baixando e levantando quando lhe fiz a questão. - Estava a brincar seu tonto. Claro que não estou zangada, mas podias-te ter lembrado. Dou-te um desconto por teres ido parar ao hospital por minha causa. – Agora sorria finalmente com os braços estendidos para que a abraçasse. Foi o que fiz. - Agora podes revelar o teu segredo? Ela sorriu e apertou-me com mais força. - Antes de começar a escola. – Prometeu. E saímos. A rua estava deserta, com o barulhos dos carros ao longe. Após dois quarteirões a andar ela desviou numa rua que eu desconhecia. Ao fundo reparei que se encontrava lá o seu irmão, e ela correu para junto dele. Fiquei a observar tal coisa até que de um momento para outro ela estava de novo ao meu lado. Desta vez vira bem, ela não correra, ela voara, rápido com um trovão. Depois ficou muito quieta e comecei a ver a expressão de Kevin mudar. Da sombra quase mudou para a luz, ficando na penumbra, só vendo eu a sua cara, forte e robusta. O sol atingira quase metade da rua e comecei a ver o rosto dele mudar para um tom bastante escuro. Começara por um pequeno brilho que, a pouco e pouco tornou-se num tom de bronze, mas o meu maior espanto foi quando Sally também se transformou. A sua cara e os seus braços, descobertos ficaram quase dourados num tom bastante carregado, e também brilhava com o sol a embater-lhe suavemente. Era fenomenal olhar para um “ser humano” tão inigualável. - Tu és…linda. – Disse boquiaberto. - Não te iludas. Se tu soubesses do que somos capazes… os monstros que somos…