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LACAN, Jacques - O seminário - Livro 4 - A relação de objeto

LACAN, Jacques - O seminário - Livro 4 - A relação de objeto

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Jacques Lacan O SEMINÁRIO

livro 4 a relação de objeto

Esta mãe insaciável, insatisloil.i. MM I,HM, .1, quem se constrói toda a escalada da crlnn caminho do narcisismo, é alguém raal, ala «»!« ali e, como .todos os seres insaciado'. nl.i i1" cura o que devorar, quaerens qtit<ni ,/, que a própria criança encontrou <>ui p» anular sua insaciedade simbólica,' v,n um trar possivelmente diante de si como um.i l".. escancarada. [...] Aí está o grando |>KH<|I> •!" nos é revelado por suas fantasias, s< v [...] ele nos dá a forma essencial soh ,\n .1 apresenta a fobia. Reencontramos isso mr, i, mores do pequeno Hans. [...] Com o siipoii daquilo que acabo de lhes trazer hojo, vo. ..•. \... ver melhor as relações entre a fobia i ' , i i « > < são. [...] Eu até diria que o caso cio |>ni|ui • Hans será melhor interpretado por voe . < • • . do i|n pôde ser feito por Freud. (Excerto do c.-. ii<iii ii, < * Mas a castração, não é atoa que se |><>n nlim de maneira tenebrosa, que ela tinha i.mi.. > . i cão com a mãe quanto com o pai. A c.r.liin ' materna — como vemos na descrig.Hi d.t ilu cão primitiva — implica para a criam,.1 ,i i bilidade dadevoração e da mordida, l osln MM anterioridade da castração materna, o a cmitm cão paterna é um seu substituto. (Excerto do capítulo X* n [No caso do pequeno Hans,] a transi ,u <•• que se verificará decisiva — [é] a d '« como desaparafusamento da banheira. l)« grrui para a outra, a relação entre os muda inteiramente. Não há semelhança morder gulosamente a mãe, apreendoí sua f ficação natural, até mesmo temer, om In H famosa mordida encarnada pelo cavalo, o i parafusar a mãe, desmontá-la, mobilizá-la se assunto, fazer com que ela entre também conjunto do sistema e, pela primeira vo/, um elemento móvel e ao mesmo tempo ni|uiv lente aos outros. (Excerto do capitulo XXI'i>

Jacques Laca n O SEMINÁRIO

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ISBN 85-7110-304-6

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J-Z-E| Jorge Zahar l A l it < n

ao de objeto
Jorge Zahar Editor

CAMPO FREUDIANO NO BRASIL
Coleção dirigida por Jacques-Alain e Judith Miller Assessoria brasileira: Angelina Harari

Jacques Lacan

O SEMINÁRIO
livro 4

a relação de objeto
Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller

Jorge Zahar Editor
Rio de Janeiro

livro 4
Título original: Lê Séminaire de Jacques Lacan Livre iv: La relation d'objet (1956-1957) Tradução autorizada da primeira edição francesa, publicada em 1994, por Éditions du Seuil, de Paris, França, na coleção Champ Freudien, dirigida por Jacques-Alain e Judith Miller Copyright © 1994, Éditions du Seuil Copyright © 1995 da edição brasileira: Jorge Zahar Editor Ltda. rua México 31 sobreloja 20031-144 Rio de Janeiro, RJ tel.: (21) 240-0226 / fax: (21) 262-5123 e-mail: jze@zahar.com.br site: www.zahar.com.br Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação do copyright. (Lei 5.988) [Edição para o Brasil] Composição: TopTextos Edições Gráficas CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. L129s Lacan, Jacques, 1901-1981 O seminário, livro 4: a relação de objeto / Jacques Lacan; texto estabelecido por Jacques Alain-Miller; tradução, Dulce Duque Estrada. — Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995 (Campo Freudiano no Brasil) Tradução de: Lê Séminaire de Jacques Lacan, livre iv: Ia relation d'objet (1956-1957) ISBN: 85-7110-304-6 1. Lacan, Jacques, 1901-1981. 2. Psicanálise, l. Miller, Jacques-Alain. II. Título. III. Título: A relação de objeto. 95-0034 CDD - 150.195 CDU - 159.964.2

a relação de objeto 1956-1957

Versão brasileira de Dulce Duque Estrada Revisão de Angelina Harari

SUMARIO

TEORIA DA FALTA DE OBJETO I. II. III. IV. V. Introdução 9 As três formas da falta de objeto 24 O significante e o Espírito Santo 40 A dialética da frustração 59 Da análise como Bundling e suas consequências 76 AS VIAS PERVERSAS DO DESEJO VI. O primado do falo e a jovem homossexual 95 VII. Bate-se numa criança e a jovem homossexual 112 VIII. Dora e a jovem homossexual 133 O OBJETO FETICHE IX. A função do véu 153 X. A identificação ao falo 167 XI. O falo e a mãe insaciável 182 A ESTRUTURA DOS MITOS NA OBSERVAÇÃO DA FOBIA DO PEQUENO HANS XII. XIII. XIV XV. XVI. XVII. XVIII. XIX. XX. Sobre o complexo de Édipo 203 Sobre o complexo de castração 220 O significante no real 237 Para que serve o mito 254 Como se analisa o mito 274 O significante e o chiste 291 Circuitos 309 Permutações 326 Transformações 344

XXI. Ensaio de uma lógica de borracha 381 XXIII. 1905) 452 Nota 455 Teoria da Falta de Objeto . "Me dará sem mulher uma progenitura" 400 ENVIO XXIV. De Hans-o-fetiche a Leonardo-no-espelho 425 Mapa de Viena (Baedeker. As calças da mãe e a carência do pai 362 XXII.

Este tema é a relação de objeto. a saber. Este tema.INTRODUÇÃO O esquema Z. o analisado e o analista. O primeiro ano tratou dos próprios elementos da conduta técnica do tratamento. O objeto perdido e reencontrado. que recordo sucintamente para vocês. nos interrogar sobre o que constitui as estruturas nas quais Freud nos mostrou que a análise se desloca e opera. só poderia ser tratado depois de se tomar uma certa distância da questão. de um tema a que a evolução histórica da psicanálise. ou o que se chama assim. O fetiche e o objeto fóbico. o furo. com efeito. Pérolas. isto é. Por que não o escolhi. este ano. uma posição central quanto à teoria e à prática. Vamos falar. as noções de transferência e de resistência. O segundo ano abordou a base da experiência e da descoberta freudianas. de maneira articulada ou não. A isso é que foram consagrados nossos três anos de comentários e de críticas aos textos de Freud. crítico? Precisamente pela razão que motiva a segunda parte de meu título: e as estruturas freudianas. muito especialmente a estrutura complexa da relação entre os dois sujeitos presentes na análise. ao começarmos estes seminários. Precisávamos. . preponderante. quando ele já era atual. em primeiro lugar. a angústia. O objeto. poderia dar.

mas cuja monotonia. sequência. responder pelos fatos? Pode o esquema mais complexo que lhe opusemos ser negligenciado. que seria — dizem ainda. na medida em que este é um outro sujeito. Tal como constituída no começo da análise. Esta mensagem lhe é interditada. sob a forma de uma palavra inconsciente. que dão a prevalência. que figuram em Além do princípio do prazer. é de certo surpreendente. verão. pela qual o sujeito recebe do Outro sua própria mensagem. um sujeito por excelência capaz de enganar. Ali vêem-se praticantes da análise tentando ordenar seus espíritos. Ao fim desses anos de crítica. à relação de objeto como primária. nem sempre é muito satisfatória no sentido do articulado. a relação de objeto valorizada e promovida de uma maneira que. à qual. ou sucessão. para compreender o que quer que seja. A relação imaginária. que tende cada vez mais a ocupar o centro da teoria analítica. se refere precisamente à linha a-a' de nosso esquema. a partir do . sobre a qual acredito ter-lhes mostrado bem que foi ela que impôs a Freud introduzir os princípios. e que é o seguinte: (Es) S a ) outro (eu) a A) (Outro) O ESQUEMA Este esquema inscreve. na relação de objeto. desacelera. é por ele profundamente desconhecida. eis-nos. o elemento teórico primeiro na explicação da análise. que é uma relação essencialmente alienada. a compreensão que eles possam ter de sua própria experiência. entre o eu e o outro. do começo ao fim. não podem se dissociar uma da outra e. O conjunto é absolutamente espantoso. inverte na maioria das vezes. é ela mesma que vamos pôr à prova. a noção do inconsciente. Não posso dizer que os convido a penetrar nela. e. no artigo "A clínica psicanalítica". Finalmente. Pois bem. por exemplo. inicialmente. sobre seus resultados. pois. mas. dei-lhes um exemplo manifesto da absoluta necessidade que existe de se isolar essa articulação essencial do simbolismo que se chama o significante. como dual. que é topológico — não se trata de localizações. estagnada. sobre a orientação dada à análise e. sempre se disse. interceptada pela interposição da relação imaginária entre ata'. Vai ser promovida ali a relação de objeto num artigo intitulado "Evolução da psicanálise". tendo em vista a maneira como esta última vem sendo formulada hoje em dia por um número cada vez maior de analistas. A teoria analítica e a prática. o termo coletivo se aplica particularmente bem. disso lhes darei um testemunho seguido numa obra coletiva publicada há pouco. por outro lado. mas num outro sentido. armados de um certo número de termos e de esquemas. esta relação do sujeito com o objeto. interrompe. deverá ser ele até mesmo descartado? Que a relação de objeto se tenha tornado. ao mesmo tempo. analiticamente falando. não sem que ela oriente sua prática. falando da situação analítica — excessivamente simples. o grande Outro. será possível a partir daí construir de maneira satisfatória o conjunto de fenómenos oferecidos à nossa observação na experiência analítica? Pode este instrumento permitir. sem que esta lhes pareça dar uma satisfação plena e integral. ao menos aparentemente. sem no entanto comentá-la mais extensamente. literalmente paradoxais no plano dialético. deformada. a relação do sujeito com o Outro. e funda-se o progresso analítico numa retificação da relação entre sujeito e objeto. e a penetre muito profundamente. Nossa elaboração culmina num esquema a que podemos chamar o esquema. que é seu objeto típico. e sim de relações de lugares. como último termo desta evolução. esta é a relação de fala virtual. Não se pode dizer que o fato de que eles concebam sua experiência nesse registro seja sem consequência sobre os próprios modos de sua intervenção. A espacialidade destes últimos não deve ser tomada no sentido intuitivo do termo "esquema". uniformidade. interposição. perfeitamente legítimo. no campo propriamente paranóico das psicoses. inteiramente. A partir do momento em que a relação de objeto. sem dúvida. não é em vão que o introduzimos na experiência analítica.10 TEORIA DA FALTA DE OBJETO INTRODUÇÃO 11 a saber.'com efeito. considerada como uma relação dual. Este esquema. por si só. Ali vocês vão ver. na teoria analítica. Volta-se a centrar nela a dialética do princípio do prazer e do princípio de realidade. no decorrer do terceiro ano. inibe. uma apresentação da própria clínica que a centra. desconhece profundamente a relação de palavra entre o sujeito e o Outro. Talvez eu lhes dê alguma ideia de como se pode alcançar uma tal apresentação. em torno da relação de objeto.

é muito difícil. simplesmente fazer uma breve recordação. senão inquietudes. Em contrapartida. para nós. o objeto que funda o homem numa realidade adequada. que há um certo tipo de relações em que a reciprocidade. de encontrar o objeto é. Esta é a primeira forma sob a qual. sob formas diversas. Freud insiste no seguinte: que toda maneira. texto sobre o qual vou lembrá-los que só foi publicado por uma espécie de acidente histórico. vou recordar-lhes. precisamente. nem que seja muito rapidamente. ou não. o fato de que o sujeito se faz de objeto para o outro. Reportando-nos. é patente. Fala-se dele. que faz com que o que é procurado não seja procurado da mesma forma que o que será encontrado. que nem mesmo seria concebível se não houvesse. aquilo que. de forma mais fundamentada. ainda. naturalmente. Não vamos poder fazer isso. precisamente. do objeto considerado na teoria moderna como o objeto plenamente satisfatório. o objeto por excelência. de um objeto a se reencontrar. o objeto que foi inicialmente o ponto de ligação das primeiras satisfações da criança. Certamente. A última divisão dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade se chama. portanto. se é fundado ou não dar-lhe uma situação central na teoria analítica. Logo. Este objeto. "A descoberta do objeto". e se vocês já não houvessem encontrado comigo. para o homem. os resultados práticos só podem ser entrevistos. Estou falando. pelo viés de um objeto. e que é encontrado e apreendido noutra parte que não no ponto onde se o procura. Die Objektfindung. a cada vez que entra em jogo a noção da realidade. Se vocês se remeterem ao capítulo três dos Três ensaios. a continuação de uma tendência onde se trata de um objeto perdido. o tema do objeto. . nos referir às posições freudianas não é duvidoso e. de saída. de uma terceira forma a cada vez que é implicada a ambivalência de certas relações fundamentais. É através da busca de uma satisfação passada e ultrapassada que o novo objeto é procurado. aparece a relação de objeto. de uma maneira desenvolvida. em Freud. precisamente. Vou fazer isso em primeiro lugar porque. é claro. Em Freud. uma tensão fundamental. através da qual se exerce todo o esforço da busca. este não é o mesmo objeto. ao próprio Freud. nossos três anos de colaboração na análise de textos. sem dúvida. os três modos sob os quais nos aparecem as noções relativas ao objeto em questão. o objeto harmonioso. Não se trata. de objeto. É precisamente no final que vamos encontrá-la. o que esta noção deve. o objeto reencontrado do primeiro desmame. nos temas fundamentais propriamente freudianos. partir do comentário freudiano. pois não só Freud não fazia questão de publicá-lo como se pode até dizer que foi publicado contra a sua vontade. ao mesmo tempo. por trás de nós. verão algo que já está lá desde a época em que foi redigido o Entwurf. e não passa disso. Para introduzir a questão da relação de objeto e. a este primeiro esboço de sua psicologia. fala-se. E. porque ela não está neles. Existe aí uma distância fundamental. isto é. não poderia sê-lo. introduzida pelo elemento essencialmente conflitual incluído em toda busca do objeto. no centro da relação sujeito-objeto. gira em torno da própria noção de objeto. ao menos resumidamente. o objeto típico. em última instância. É surpreendente ver que. A primazia dessa dialética coloca. Também senti em vocês este ano algumas interrogações.12 TEORIA DA FALTA DE OBJETO INTRODUÇÃO 13 momento em que se concebe a experiência num certo sentido. ao mesmo tempo. no momento em que faz a teoria da evolução instintual tal como esta se origina das primeiras experiências analíticas. em absoluto. a de saber se é legítimo. partir dos próprios textos de Freud. de uma crítica de suas posições. e mesmo constituinte. que corresponde a um estágio avançado da maturação dos instintos. já que. na realidade que prova a maturidade — o famoso objeto genital. todavia. o fato de devermos. é inevitável que se a conduza igualmente nesse sentido. devo realmente partir de textos recentes e. Freud nos indica que o objeto é apreendido pela via de uma busca do objeto perdido. Fala-se implicitamente do objeto. É claro que uma discordância é instaurada pelo simples fato dessa repetição. a propósito da relação de objeto. Uma nostalgia liga o sujeito ao objeto perdido. Quero. Ela marca a redescoberta do signo de uma repetição impossível. encontramos ali a mesma fórmula a propósito do objeto. não podemos deixar de evocar. daquilo que é muito formalmente afirmado aqui como um desvio da teoria analítica. quanto a saber se eu ia ou não partir dos textos freudianos. é uma espécie de guia. Gostaria de acentuar. e quase uma limitação técnica que nos impusemos aqui. é um objeto reencontrado. e que teremos de articulá-la.

existe uma hiância. Foi esta relação que pôde fornecer o pretexto para que se pusesse em primeiro plano a relação de objeto como tal. Mas aqueles para quem esses termos já têm um sentido. condicionando que o que ela apreende pode ser. intencionalmente. passivo-ativo. está sempre fadado nas suas exigências primordiais a um retorno. Essas relações são vividas numa reciprocidade — o termo é válido aqui — de ambivalência entre a posição do sujeito e a do parceiro. Essas duas posições não são. eles se implicam e se incluem um ao outro. a tensão fundamental do princípio do prazer. articuladas uma com a outra. com efeito. fundamentalmente diferente daquilo que é desejado. como tal. Se essa relação pode parecer sustentar-se de maneira direta e sem hiância é somente porque se trata das relações chamadas. de maneira mais ou menos implícita. por isso mesmo. enquanto o princípio de realidade implica a existência de uma organização ou de uma estruturação diferente e autónoma. é pela simples razão de que em nenhum caso a relação sujeito-objeto é central. implica. seria preciso que nos resolvêssemos a articulá-lo em termos filosoficamente elaborados. é essencialmente da oposição entre princípio de realidade e princípio de prazer que se trata? Princípio do prazer e princípio de realidade não são destacáveis um do outro. mais ou menos manifesta. Como poderia ser diferente. que mostra bem que Freud situa de saída a noção do objeto no quadro de uma relação profundamente conflitual do sujeito com seu mundo. mas nunca satisfeita. desde então. está em oposição fundamental em relação ao que é procurado pela tendência. sua identificação com o parceiro. numa relação dialética. a se realizar em formações profundamente irrealistas. Aí está a outra posição que Freud enfatiza vigorosamente. cooptado à maturação do sujeito. com efeito. introduzi eu mesmo na teoria analítica a noção do estádio do espelho. impossível de saciar. a satisfação do princípio do prazer. ela própria. um retorno impossível. que merece ser chamada uma relação em espelho. subjacente a todo exercício da criação do mundo. ele não passa de seu prolongamento e. Em outras palavras. entre os dois. O que é o estádio do espelho? É o momento em que a criança reconhece sua própria imagem. O sujeito vive essas relações de um modo que implica sempre. a repetição se opõe à reminiscência. repetição sempre procurada. desde sua primeira formulação plena e articulada da oposição entre o princípio de realidade e o princípio do prazer. já desde aquela época. isto é. Ele ilustra o caráter de conflito da relação dual. formulado aqui como irredutível. Se cada um desses dois termos encontra seu lugar em pontos diferentes da dialética freudiana. devido a certos conhecimentos filosóficos. sempre latente. A perspectiva platónica funda toda apreensão do objeto no reconhecimento. tende sempre. na reminiscência. literalmente. É nesse registro que se situa a noção freudiana da redescoberta do objeto perdido. como vimos há pouco. a se realizar numa forma mais ou menos alucinada. Diria mais. A organização subjacente ao eu. Vamos guardar este texto. justamente. inversamente. de pré-genitais: ver-ser visto. O princípio do prazer tende. para tentar resolvê-las. que é. alucinatória. Essa rejação de reciprocidade entre o sujeito e o objeto. mas que é. se. por toda a distância que há entre a experiência moderna e a experiência antiga. já podem perceber toda a distância que separa a relação freudiana do sujeito ao objeto das concepções precedentes. Esta relação introduz. que não se poderia distinguir se um fosse simplesmente a continuação do outro. como mostra a articulação do princípio de realidade e do princípio do prazer. Mas o estádio do espelho está bem longe de apenas conotar um fenómeno que se apresenta no desenvolvimento da criança.14 TEORIA DA FALTA DE OBJETO INTRODUÇÃO 15 Para dar plena ênfase ao que estou frisando aqui. é porque reservo isso para o momento em que voltarmos a este termo. um outro termo. Ainda assim. Por sua natureza. mais ou menos. introduz-se uma relação entre o sujeito e o objeto que não somente é direta e sem hiância. da noção dada em Kierkegaard sob o registro da repetição. de um tipo de certo modo pré-formado. aquela da tendência do sujeito como tal. e isso desde a Traumdeutung. já formula por si só tantas questões que. como tais. Tudo o que a criança aprende nessa cativação por sua própria imagem . O fato de que se apresentem em Freud como distintas marca bem que não é em torno da relação do sujeito ao objeto que se centra o desenvolvimento. Ela está separada. equivalente de um ao outro. atacar-ser atacado. que são fundadas na noção do objeto adequado. na dialética do sujeito e do objeto. tem sempre a possibilidade fundamental de se satisfazer numa realização irreal. e isso é o essencial da contribuição da teoria freudiana. Neste nível. Assim como o sujeito. O princípio de realidade só é constituído por aquilo que é imposto para sua satisfação ao princípio do prazer. Ela é sempre. o objeto esperado antecipadamente. em sua dinâmica e procura fundamental. Se não o faço. também a realidade.

a própria lei da análise. propriamente falando. Esta referência à física moderna como fundamento para um novo racionalismo me parece dever dispensar comentários. em muito. da qual se faz a escala fenomênica a que se remeter. ao contrário. mas realmente conflituais. O importante é o seguinte: Era antes da guerra de 1914. desenha o sistema de coordenadas no interior das quais se situa toda a experiência analítica. como que introduzindo uma relação essencialmente dialética entre os diferentes termos. a saber. incidentalmente. a da tensão conflitual entre consciente e inconsciente. Sua concepção funda. Ora. para dizer a verdade. um ponto de chegada para o qual concorre toda uma série de experiências. validamente. sem personalidade própria. por si só. à identificação com essa imagem. . para a colocação em primeiro plano dessa relação sujeito-objeto. de uma maneira retroativa. de ponto central. creio não poder fazer melhor senão remetê-los às formulações encontradas das páginas 761 a 773 da obra coletiva de que falávamos. Segundo reconhecem aqueles mesmos que estão engajados nessa via. Para ilustrar isso para vocês. acompanhadas por correntes significativas no interior da análise. a ênfase foi dada à angústia. este famoso objeto ideal. existe outra coisa e um mais-além. coisas que nos parecem de pouco peso — o que é instrutivo é a enorme leviandade com que tais coisas são admitidas. foi Karl Abraham. segura de si. Sendo este mais-além fundamentalmente desconhecido pelo sujeito. Pouco importa se isso é fundamentado ou não. Este exemplo não é único. o progresso da experiência analítica teria sido a colocação em primeiro plano das relações do sujeito com o seu meio. relativismo. Aí está. probabilismo parecem tirar ao pensamento objetivo sua confiança em si mesmo. precisamente. a partir de uma experiência central. adequado. Eis o que se coloca em primeiro plano. desconhecimento. aprendemos. Um dos primeiros a ter dado essa ênfase nova. onde os pais surgem. de tal modo ela parece ser feita de uma curiosa homogeneização. pois o objeto ideal é literalmente impensável — na nova perspectiva. pois. a partir de 1926. o que serviu de tema. progressivamente. os indivíduos se reconhecem diferentes. mais precisamente. Enquanto isso nós retrocedemos para compreender como é atingido o ponto terminal. a angústia do mundo em transformação é vivida a cada dia. Tudo foi recentrado em função de um objeto e. de noções parciais do objeto. A ênfase posta no ambiente constitui uma redução do que é proporcionado por toda a experiência analítica.16 TEORIA DA FALTA DE OBJETO INTRODUÇÃO 2 17 é. e à interação entre o organismo e o meio ambiente. que aliás nunca é observado. antes de mais nada. Depois de nos frisarem que é das relações do sujeito com seu meio que se trata no progresso da psicanálise. pois estas são. É um retorno à posição simplesmente objetivante que coloca em primeiro plano a existência de um certo indivíduo em sua relação mais ou menos adequada. de elementos. a partir do momento em que Abraham a formulou em 1924 na sua teoria do desenvolvimento da libido. a distância que há de suas tensões internas. enquadra tudo aquilo que aí se passa. essa perspectiva foi abandonada. de sua origem e de seu sentido. ao mesmo tempo. e que se apresenta como característica do elemento motor de seu progresso. este objeto ideal é. mas não tão cedo quanto se acredita. mais que de uma articulação. Não é na via da consciência que o sujeito se reconhece. que isso é particularmente significativo na observação do pequeno Hans. concebido como um ponto de mira. O termo normalização já introduz. a questão de sua estrutura. um mundo de categorias bem estranho ao ponto de partida da análise. na época em que a sociedade ocidental. ao contrário. Tensão conflitual criada pelo fato fundamental de que o que é buscado pela tendência é obscuro. de seu estado terminal. a normalização do sujeito. fora do alcance de seu conhecimento. como nos dizem. O importante é aquilo que curiosamente é confessado de maneira indireta: que a psicanálise seria uma espécie de remédio social. aquelas mesmas que são evocadas nessa relação. Até ali. perfeito. ele coloca. incertezas. que é apresentado como marcando por si mesmo o alvo atingido. terminal. É a época em que a física se procura. foi assim que os alicerces da sociedade foram abalados. não formulava questões sobre a sua própria perenidade. Essa perspectiva se impôs. mais ou menos adaptada. de modo que aquilo que a consciência reconhece dele é. ao seu meio. a evolução do sujeito era sempre vista por reconstrução. por iniciativa de um certo número de personalidades. Não somos forçados a subscrever essa opinião. e determina seu ponto de encerramento. o que até então era apresentado em termos não só pluralistas. pois o próprio dessa obra é ser coletiva em seu interior mesmo.

). subjetivamente falando. Mais adiante — (. e veremos em que medida vamos poder conservá-los ou não. isto é. é praticamente irrealizável. precisamente. a partir de um certo momento.. Passo por outros termos que são da natureza da confissão — concebe-se que se possa experimentar uma impressão penosa de imponderável. que se nomeia relação de objeto genital. põe em jogo a sua individualidade. ou da simbolização. incondicional. Os genitais. Enquanto as pulsões em sua forma pré-genital apresentam um caráter de necessidade de possessão incoercível. o termo "Eu auxiliar" é plenamente justificado. podemos começar a formular questões. e à análise. Enquanto.. Eles não são dependentes de uma relação objétal. não perturba em nada a solidez de sua personalidade. tais como fenómenos de despersonalização e distúrbios psicóticos. para alguns de vocês. A perda dessas relações. que é uma atividade cujas variações no tempo ninguém pensa em contestar. aquele das relações sociais do doente — esta última expressão é sublinhada pelo autor. comportando um aspecto destrutivo. já que o objeto aqui só existe em função de suas relações com o sujeito. que. de artificial de uma tal concepção da análise. vai lhe permitir não se ver privado de relações objetais. daquilo que se apresenta. finalmente. Isso não quer dizer que ela nos deva satisfazer inteiramente. Sobre as relações do sujeito com o mundo. de fato. formula deliberadamente que afinal de contas a concepção geral necessária à compreensão atual da estrutura de uma personalidade é dada pelo ângulo de visão que se diz ser o mais prático e o mais prosaico possível. para eles essa perda. Esta é. acarreta graves desordens da atividade do Eu.) em toda neurose. mas simplesmente que sua unidade não está à mercê da perda de um contato com um objeto significativo. básica- . a percepção imediata de uma espécie de limpidez cristalina do espírito. atinge essa adaptação tão feliz ao mundo. Talvez vejamos daqui a pouco. O sujeito se esforça para manter suas relações de objeto a qualquer preço. de inapreensível. o que é. ou de seu objeto. A noção técnica que isso implica é a valorização das relações pré-genitais no interior da relação analítica. Mas sua consequência é a instauração. aquele cuja liquidação perfeita. como o representante de maturação das atividades instintuais em suas diferentes etapas. Pouco importa. a todo momento. ilimitada. uma explicação do caráter um tanto quanto pulverizador dos diferentes modos de abordagem nascidos nessa linha. Isso não quer dizer que prescindam com facilidade de qualquer relação objétal.. repito. e se o sujeito não se mostra oblativo. podem não parecer criticáveis em si mesmos. aliás. de tal maneira as relações de objeto são múltiplas e variadas. pois não vejo que os objetos de qualquer disciplina não estejam igualmente sujeitos a variações no tempo. Limpidez cristalina. se é possível exprimir-se assim. ao contrário. para tomar o exemplo mais simples. Vemos até onde a noção da perfeição da relação objétal pode levar este autor. em sua forma genital elas são verdadeiramente ternas. a perda de uma pessoa importante. mais um limite que uma realidade (. e que dá a todo observador o sentimento^de uma personalidade harmoniosa. no centro da análise. Em suma. desinteressado. Para ele. o ponto onde é procurado o teste que testemunharia a fragilidade profunda das relações do eu do pré-genital com seu objeto. e se os objetos são também. de passagem. Está escrito: Os pré-genitais são indivíduos que têm um Eu frágil — e neles a coerência do Eu depende estreitamente da persistência de relações objetais com um objeto significativo. aqui. a questão não é esta. É isso que. a estrutura do • eu é considerada como seu duplo (duble) e. o que é sinónimo.. o que. a que fiz alusão há pouco. amantes. os diferencia radicalmente dos precedentes. lendo o mesmo texio. utilizando todas as espécies de acomodações nesse objetivo: mudanças de objeto com o uso do deslocamento. uma evolução normal parece ter sido estancada pela impossibilidade em que se achou o sujeito de resolver o último dos conflitos estruturantes da infância. do ponto de vista da relação entre o Eu e a relação de objeto. possuem um Eu que não vê sua força e o exercício de suas funções depender da posse de um objeto significativo. Encontramos. para os primeiros. pela escolha de um objeto simbólico arbitrariamente investido dos mesmos valores afetivos do objeto inicial. vemos afirmado um paralelismo. até onde pode ir a noção desse objeto significativo não explicado. mas isso não depende do objeto próprio dessa disciplina. entre o estado de maturação mais ou menos adiantado das atividades instintuais e a estrutura do Eu num sujeito dado. por mais dolorosa que seja. Estes são termos que. como uma tipologia onde há os pré-genitais e os genitais. Aqui.18 TEORIA DA FALTA DE OBJETO INTRODUÇÃO 19 O primeiro artigo.

mostrando que ela está na origem da noção do objeto tal como promovida na obra de um Glover. é complexa. uma fortaleza no interior da qual ele se põe ao abrigo desses medos. até mesmo sentimental. certamente. de criticá-la. da fobia. de uma adolescência e de uma maturidade normais? Existe uma distinção essencial a ser feita. dizem-nos. que nos é indicada tanto pela noção de objetividade como pela experiência mais elementar. ao contrário. sob os termos diferentes. . Não posso. a estrutura íntima de suas relações objetais mostra que a participação do objeto no seu próprio prazer é indispensável à felicidade do sujeito. será ela legitimamente afirmada? Teremos. e o objeto que é muito essencialmente constituído para manter este medo à distância. Esta noção moderna. É necessário ainda ter feito o progresso que se impõe. como um objeto primitivo. Além disso. se podemos dizer assim. mesmo formulando as observações humorísticas que eles sugerem suficientemente por si mesmos. e no modo de condução da análise que caracteriza seu pensamento e sua técnica. do florescimento das construções fóbicas objetais primitivas.20 TEORIA DA FALTA DE OBJETO INTRODUÇÃO 21 mente. e que bem pode ser. Ele está essencialmente ligado à emissão de um sinal de alarme. com todos os problemas de adaptação que esta expõe. O medo dá ao objeto o seu papel. de tal modo que a objetividade se vê apresentada em tal texto como característica da relação com o outro na sua forma realizada. Textos como os de Glover. no fim de nosso encontro de hoje. constituindo-o como tal. o sujeito deve ser caracterizado. O fato de se tratar de uma angústia que é a angústia de castração. Muito pelo contrário. que são obra de verdadeiros cagadores de pérolas. condicionando o levar em conta as necessidades. o estabelecimento da relação com o outro em seu registro afetivo. antes de mais nada. e não sê-lo em outros. É assim que. em alguns casos. Não se pode em absoluto confundir o estabelecimento da realidade. Esta concepção. Freud e todos aqueles que estudaram a fobia com ele e depois dele não podem deixar de mostrar que não existe nenhuma relação direta entre o objeto e o pretenso medo que o iria colorir com sua marca fundamental. com certeza. da fobia. pelo fato de que ela resiste. a felicidade. Mas não basta citá-los. no entanto. na medida em que é um sujeito. a própria construção do objeto paterno. uma sentinela avançada contra um medo instituído. se recusa. na medida em que ele fala. nas diferentes etapas do desenvolvimento do sujeito. deixar de levantar: o que significa a saída de uma infância. O objeto tem ali um papel completamente outro. sua relação com o mundo. muito mais longe. com a noção mais ou menos implicitamente visada nesses próprios textos. fundamental. com efeito. freudiana. pontuar a concepção clássica. existe. objetividade e plenitude de objeto. objetos narcísicos como no caso precedente. em cada etapa. isto é. ao abordar esses textos. ilustrando-o com um exemplo. colocado sobre um fundo de angústia. típica nem evolutiva. enfeitar o fundo fundamental de angústia que caracteriza. que ali são nomeadas e definidas como tais. para mim. As conveniências. que não podemos. Vamos ter que voltar a esses textos. por exemplo. O objeto é instrumento para mascarar. é concebida de maneira inteiramente outra. foi pouco contestado até uma época recente. que a função do objeto. nos leva. cujas etapas caracterizam as diferentes épocas do desenvolvimento individual. deixar de dar relevo ao que lhes trago. uma distância entre aquilo que é implicado por uma certa construção do mundo considerada como mais ou menos satisfatória em determinada época e. Assim mesmo é notável que o desejo de reconstrução no sentido genético tenha chegado ao ponto de tentar deduzir. se podemos dizer. que não é. Isso é o bastante para introduzir um problema muito grave. Será suficiente. A constituição do outro como tal. do objeto. extraordinariamente primária. Não se trata de uma pura e simples cooptação do objeto com uma certa demanda do sujeito. A análise insiste em introduzir. de adaptação à situação do outro. Esta confusão é articulada. O objeto é. igualmente. da noção analítica de evolução instintual. uma noção funcional de uma natureza bem diferente daquela de um puro e simples correspondente do sujeito. isto é. os desejos. por outro lado. O objeto encerra o sujeito num certo círculo. o prazer do outro. as necessidades do objeto são tomados em consideração no ponto mais elevado. Vocês vão ver. num momento determinado de uma certa crise do sujeito. está longe de ser acolhida universalmente. ele é. trariam vocês de volta a uma noção e uma exploração bem diferentes das relações de objeto. uma distância considerável entre o medo em questão. ele aqui é capaz de compreensão. um medo primitivo. Existe.

a noção da lembrança encobridora como sendo especialmente constituinte do passado de cada sujeito — eis outras tantas questões que merecem ser tratadas por elas mesmas e para elas mesmas. assim. Pode-se dizer que ela não levante. wai exatamente nesse sentido. uma questão que foi efetivamente resolvida na teoria marxista por um termo. ao mesmo tempo. pois é dessas relações que poderão surgir as necessárias distinções de plano que nos permitirão definir de maneira articulada por que uma fobia e um fetiche são duas coisas diferentes. o fetiche? Em suma. na teoria analítica. e estabelecer a função de proteção desempenhada pelo objeto da fobia com referência a essa angústia. o fetiche desempenha. e à qual nos perguntamos por que não se continua a atribuir valor. Vamos partir de nossa experiência para alcançar os mesmos problemas. e todas as formas de objeto que possam supor no homem. ambas. por uma curiosa inversão do caminho que nos havia permitido remontar da fobia à noção de uma certa relação com a angústia. a de objeto-encobridor. o objeto tem uma certa função de complementação com relação a alguma coisa que se apresenta como um furo. isto é. pelo menos muito vizinho daquele que acabamos de mencionar. Mas. mas direta. a partir dos objetos que nos são propostos. Introduzo isso hoje para lhes mostrar que. a saber. que versará sobre a fobia e o fetiche. Que relação há entre o uso geral da palavra fetiche e o emprego preciso do termo para designar uma perversão sexual? É assim que vamos introduzir o assunto em nosso próximo encontro. na obra coletiva que citei. então. coisa curiosa. do ponto de vista essencialmente biológico que se coloca aqui em primeiro plano. a função tão singular dessa constituição da realidade. Não basta falar do objeto em geral. Um relatório de Mallet sobre a fobia. Não parece que seja pelo mesmo viés que o fetiche estaria mais particularmente ligado à angústia de castração. sobre a qual Freud desde o início lançou esta luz realmente fascinante. sobre o qual uma e outra seriam convocadas como uma medida de proteção ou de garantia da parte do sujeito. procedendo. não nos contentamos com explicações uniformes para efeitos diferentes. por si mesma. a questão de seu valor objetal? O fato de que. de uma forma não mais mítica. Não podem deixar de ver que. nossa questão inicial no que faz a diferença entre a função de uma fobia e a de um fetiche. a noção de objetofetiche. Foi precisamente deste ponto que tomei a resolução de partir. por exemplo. a angústia de castração. também aqui. senão sinónimo. como se o fato de ser chegado a ser um genital bastasse para resolver todas as questões. 21 DE NOVEMBRO DE 1956 . Pouco importa. e portanto abordamos. não é menos notável ver o que se tornam as noções de fetiche e de fetichismo. a questão sob esse prisma — mas. e. talvez seja preciso encontrar nos próprios fenómenos o ensejo. Aceitamos submetermo-nos à interrogação que nos é feita quanto ao objeto típico. na medida em que esta se liga à percepção da ausência de órgão fálico no sujeito feminino e à negação desta ausência. com efeito. por não-sei-que virtude de comunicação mágica. nós a percamos enquanto meio de troca. a propriedade de regularizar as relações com todos os outros objetos. nem de um objeto que teria. na medida em que estão centradas. de mil maneiras. Elas deverão ser igualmente analisadas em suas relações recíprocas. Vamos centrar. o objeto ideal. É pela via desse retorno à experiência que poderemos ressituar o termo relação de objeto. e restituir-lhe seu valor verdadeiro.22 TEORIA DA FALTA DE OBJETO INTRODUÇÃO 23 que seria como que a sua sequência e seu acabamento. nem abstraia. não me parece deva ser menos enigmático que qualquer objeto da experiência humana corrente. Num outro registro. num certo registro. uma função de proteção contra a angústia e. se tomarmos a coisa na perspectiva da relação de objeto. por exemplo. ou toda outra espécie de tomada em consideração para a troca de qualquer elemento da vida humana transposto em seu valor de mercadoria — isso não nos introduz. a origem de uma crítica. e sem nos recusarmos a abordar os problemas a partir da relação de objeto. até mesmo como um abismo na realidade. A questão é saber se existe algo em comum entre o objeto fóbico e o fetiche. O que pode ser um objeto para um genital. o objeto funcional. a mesma angústia. expondo-se as questões nestes termos. uma moeda. no mesmo fundo de angústia fundamental.

Li o que os psicanalistas escreveram sobre o tema que será o nosso este ano. Pois bem. mas sobre o fundo de realidade comum. é a mulher. as fizessem. Este é o objeto. Não. vocês vão encontrá-la em Molestar na civilização. foi com um certo número de leituras sobre a sexualidade feminina que eu me gratifiquei. uma hiância. é o da reciprocidade imaginária. inicialmente. Trata-se de reencontrar o real. que se opõe da maneira mais categórica à noção do sujeito autónomo. Medo é um termo a se distinguir de angústia. e não eu. bem como nas Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. o objeto tomado ele próprio numa busca. dizia Renan. tal como surge do exercício do que Freud chama de sistema primário do prazer. a relação sujeito-objeto. e principalmente sob este. para este tema? O que lhes direi hoje provavelmente não irá mais além. O falicismo e o imaginário. A estupidez humana dá uma ideia do infinito. Então. em consequência dos enunciados. é surpreendente ver a que dificuldades extraordinárias se submeteram os espíritos de diferentes analistas. seria mais importante que vocês. teria acrescentado: e as divagações teóricas dos psicanalistas. tão abruptos e tão espantosos. 24 Lembro a vocês que o esquecimento a que se relega comumente a noção de objeto não é tão acentuado em seu relevo. não haveria análise em absoluto. afinal. A ideia de um objeto harmónico. para chamá-lo por seu nome. O objeto transicional do sr. Com efeito. Esta semana. o lugar do termo em relação é simultanea- . Inteiramente oposto a ele. seguindo-o em Freud. E depois. existe a noção do objeto que se reduz. de Freud. na prática analítica. Winnicott. Realidade e Wirklichkeit.As TRÊS FORMAS DA FALTA DE OBJETO 25 II AS TRÊS FORMAS DA FALTA DE OBJETO O que é um obsessivo? A tríade imaginária. Essas leituras. é perfeitamente contradita pela experiência — não diria nem mesmo a experiência analítica. e o limite da pesquisa analítica é perceber que não há razão para dele se ter medo. o terceiro tema em que o objeto nos aparece. É o seguinte. Isso lhes facilitaria a compreensão do que serei levado a dizer-lhes sobre nosso tema. portanto. se ele vivesse em nossos dias. por sua natureza. Qual foi a contribuição de Freud. mas a experiência comum das relações entre o homem e a mulher. e mais especialmente o objeto genital. Se a harmonia nesse registro não fosse coisa problemática. essas leituras são muito instrutivas sob outros pontos de vista. em uma busca do objeto perdido. por que não chamá-lo pelo seu nome? Portanto. Não creiam que eu as esteja assimilando à estupidez. alguma coisa que não funciona. sempre sozinho. fiz algumas leituras. se podemos dizer assim. Igualmente. O objeto se apresenta. a saber que. mas elas são de uma ordem própria a dar uma ideia do infinito. lição 31. A afirmação positiva de que isso não funciona está em Freud. onde desemboca a ideia do objeto acabado. a saber. Nada mais preciso que as formulações de Freud sobre esse ponto — há. neste registro. O objeto é sempre o objeto redescoberto. se acompanharmos a maneira como a experiência e a doutrina freudianas situam e definem este objeto. Enfim. ao real. o que não quer dizer que isso baste para defini-la. O objeto genital. Este objeto se destaca não mais sobre um fundo de angústia. a nos questionar quanto ao objeto. já sublinhei da última vez a noção do objeto alucinado sobre um fundo1 de realidade angustiante. Isso nos leva. encerrando. pensando em vocês. em toda relação do sujeito com o objeto. o objeto.

O jogo a que ele se entrega é uma maneira de colocá-lo ao abrigo da morte. Afinal. do objeto significativo para este sujeito. de um tal de N. o progresso da análise se reduz à identificação com o eu do analista. Vocês vão ver aonde isso leva. mas podemos cometer mil erros se não soubermos onde este jogo é conduzido. ou nos bastidores. Evidentemente. se não a viram. já que ele participa de um jogo ilusório. Para este fim. se assim podemos dizer. Vocês saíram do picadeiro por medo de levar um tabefe. vocês o terão interiorizado. Ao considerar a relação dual como real. neste caso. segundo ele. tendo como resultado o que chamarei de um imperialismo da identificação. isso tudo é bobagem. Podemos acompanhar isso com uma cançãozinha. Verão aí que o manejo da relação de objeto consiste. a relação de objeto. já que eu posso me identificar com você. que era uma espécie de génio. o duplo dele mesmo. Vamos vê-lo numa espécie de exibição onde se trata. Tão sombria parecia essa espécie de ofício. . porque o sujeito. enquanto. O que ele faz. numa depuração ideal. a noção do objeto não é dada imediatamente. que é o melhor modelo. que nos permita não nos perder em nosso vocabulário. em fazer alguma coisa que seria análoga a o que ocorreria se assistissem a uma cena de circo em que Auguste e Chocolat administram uma série de bofetadas um ao outro. Aqueles que não o conheceram quando se apresentava num cabaré parisiense não podem ter ideia do caráter sagrado que ele dava a essa exibição de um clown a propósito de um simples chapéu. ele o mortificou. Seria erróneo acreditar que esse objeto possa ser designado em termos de relação dual. É claro que. É uma noção sobre a qual não direi que ela se esquiva. talvez não possam compreender o que significa. é-a este último ponto que mais se liga a prática da relação de objeto na técnica analítica moderna. matou antecipadamente o desejo em si mesmo.26 TEORIA DA FALTA DE OBJETO As TRÊS FORMAS DA FALTA DE OBJETO 27 mente ocupado pelo sujeito. um jogo de retorção agressiva. Quem dirige o jogo. tratem de engolir mutuamente seus bastões e assim vão tê-los no lugar certo. O que é um obsessivo? É. Peco-lhes que retomem o caso do obsessivo no autor de que falo. ele não sabe que lugar ocupa. realmente imortal. falando propriamente. Semelhante parcialidade no manejo da relação de objeto pode condicionar um extremo desvio. uma forma de resolver a situação e dar-lhe uma saída. até aonde pode ir outrem. Ele se dá conta. inclusive suas características ilusórias — isto é. o sujeito os dá. que não passa de seu alter ego. mas isso não quer dizer que ele saiba de onde vê tudo isso. como pensa a maioria dos aqui presentes. O jogo se desenvolve diante de um Outro que assiste ao espetáculo. A noção de objeto aí é infinitamente complexa. e leiam o que. Nesse ponto. que consiste em chegar o mais perto possível da morte ficando ao mesmo tempo fora do alcance de todos os golpes. de certa forma. O que aparece em filigrana. realmente. um ator que desempenha seu papel e assegura um certo número de atos como se estivesse morto. que tem todas as características de um jogo. Esta é. faz com fins de álibi. uma noção estruturante que pode se exprimir mais ou menos assim. nessa situação muito complexa. em virtude de sua agressividade. de misSa. Ele próprio nada mais é que um espectador. Vamos tentar dar a essa noção de objeto um emprego uniforme. se quisermos ao menos saber de que objeto estamos falando. Assim. Isso ele é capaz de entrever. e em cujo lugar nos instala à medida que a transferência progride. e sim que ela se propõe como absolutamente difícil de demarcar. um jogo de trapaça. Daí a noção do objeto. e merece ser acentuada a cada instante. e o desfecho dessa relação de objeto é a fantasia de incorporação fálica. para ele. com auxílio da noção da relação de objeto tal como elaborada pelo autor em questão. Em contrapartida. A neurose obsessiva é. que você pode se identificar comigo. Para acentuar nossa comparação. ao contrário. o pequeno outro. a identificação com o objetp está no fundo de toda relação com este. é certamente de nós dois o eu que tem a melhor adaptação à realidade. é o caráter profundamente oral da relação de objeto imaginária. representa o progresso da análise. de que o jogo não é jogado ali onde ele está. a própria possibilidade do jogo e o prazer que dele retira residem aí. uma prática não pode escapar às leis do imaginário. afinal? Sabemos que é ele mesmo. eis o que há de inconsciente nele. em suma. alternadamente. digamos que se trata de demonstrar o que o sujeito articulou para esse Outro espectador que ele é sem o saber. exercita um adestramento que condiciona todas as suas abordagens de outrem. Isso foi mais particularmente ilustrado pela prática da neurose obsessiva. com efeito. o Monsieur Loyal chega e diz: Ora vamos. Já. de mostrar até aonde pode ir no exercício. É um jogo vivo que consiste em mostrar que ele é invulnerável. e é por isso que quase nada do que acontece tem para ele verdadeira importância. de ritual a que se assistia naquela ocasião que.

farei referência. mas terceiro. pois isso seria dar um passo que ainda não demos juntos. e é a ela que vamos chegar. efetivamente. e que não está absolutamente excluído que um sentimento de amor. Se existe um elemento agressivo. à medida em que dela nos aproximamos. Tenta-se reduzi-la. por exemplo. o ponto a que se dirige atualmente toda a teoria da situação analítica. assim. O autor acrescenta. mesmo nos autores que fazem dela o fundamento de toda a génese analítica. Isso lhes mostra a que redução de plano chega uma tal concepção da relação de objeto. agressiva. Este é o passo que tento fazê-los dar hoje. imaginário e real. de fato.28 TEORIA DA FALTA DE OBJETO As TRÊS FORMAS DA FALTA DE OBJETO 29 Por quê? Não somente a experiência não acompanha a noção ideal que podemos ter de sua consumação. o texto dá. sobre a qual tomo a resolução de não mais lhes falar a partir de agora. a saber que. só se pode. em toda a continuação da génese. no entanto. fazer intervir este elemento imaginário sem que se apresente como um ponto-chave. Isso é demonstrado tanto pela experiência quanto pela evolução da teoria analítica. ao longo desta conferência. quando se busca a origem de toda a dialética analítica na ausência da trindade dos termos simbólico. por sua natureza. O autor admite. que eu chamava há pouco a das recíprocas. o que podemos chamar de falicismo da experiência analítica. e reencontramse. com certeza. os traços e os reflexos dessa posição inicial. com tudo o que esta tem de problemático. isto é. e só a exprime mostrando um leve aborrecimento que seria provocado pela rigidez técnica. seja qual for. o fato deste jamais querer exprimir sua agressividade. Quanto a dizer que uma reação como a da ironia seja. A noção da relação de objeto é impossível de compreender. dar um toque final a minha descrição da maneira como é conduzida a relação dual numa certa orientação e teorização da experiência analítica. no centro da noção de relação de objeto. e este é. Este é o nosso esquema inaugural: Falo O Mãe Criança A TRÍADE IMAGINÁRIA A relação imaginária. Quando o analista. isso não me parece compatível com o que todo mundo sabe. que enfim todos sabem muito bem que o aborrecimento e a ironia são da classe das manifestações agressivas. Ora. para fazê-lo situar o analista na relação dual. Toda a ambiguidade da questão levantada em torno do objeto e de seu manejo na análise se resume no seguinte: o objeto é ou não o real? . Eis que chegamos à questão fundamental de que devemos realmente partir porque vamos precisar voltar a ela. Para lhes dar um último traço. Isso é o que evidencia esse esquema que eu lhes havia apresentado. se não pusermos nela o falo como um elemento. que a agressão pode ser provocada por um sentimento inteiramente outro. afinal de contas. de maneira significativa. ele é estruturalmente secundário com referência ao elemento em questão. a ironia é antes de tudo uma maneira de questionar. ainda. um modo de questão. que insiste em remeter perpetuamente o sujeito ao tema da agressividade. mas também como introdução ao que pretendia propor este ano a vocês com referência à relação de objeto. no fim do ano anterior. os impasses que resultam de toda tentativa de reduzir esse falicismo imaginário a qualquer dado real que seja. Essa relação. Com efeito. longe de ser uma reação agressiva. esteja no princípio de uma reação de agressão. insiste em fazê-lo reconhecer sua agressividade. de tal modo que toda a consumação da relação dual. em última instância. não digo mediador. como um testemunho do desconhecimento que o sujeito tem da situação. mas essa noção só faz acentuar ainda mais seus paradoxos. é impossível. é feita realmente para dar a ideia de que se trata de uma relação real. como se ali estivesse o tema central. faz surgir em primeiro plano este objeto imaginário privilegiado que se chama o falo. Será evidente que o aborrecimento é característico da relação agressiva? Bem sabemos. está modelada numa certa relação que é. como conclusão da análise do significante a que nos levara a exploração da psicose. e vou tentar fazê-los ver. e até mesmo de exercer. a não ser mais que o desenvolvimento das relações mãe-criança. rcferir-se ao real. entrando no jogo imaginário do obsessivo. à epígrafe da obra coletiva de que lhes falei. fundamental — a relação mãe-criança.

que não se deve confundir falo e pênis. a perspectiva que deve adotar é uma perspectiva energética. para mostrar quanto os psicanalistas ficam prisioneiros de categorias realmente estranhas a tudo a que sua prática deveria. Mas antes mesmo de entrar nisso. diria facilmente. e também pela intuição mais imediata. para um espírito da tradição mecano-dinamista. o que estava em jogo era. gira em torno de um objeto principal que é o falo. pois. É isso que implica. Essa posição com referência ao real é explicada. Quando lhes falam da relação de objeto no tom do acesso ao real. Com efeito. de Wirkung. só podemos nos referir ao real teorizando. Quando. em mais detalhe. porque este é um ponto realmente saliente da experiência analítica. Freud disse isso também. Ele deu a essa realidade uma importância inteiramente diversa. Mesmo sem ir ao núcleo da problemática do falicismo que introduzo hoje. mas é verossímil que todos possamos ter acesso a certas distinções ou dissociações essenciais para contribuir quanto ao manejo do termo real. contrariamente ao que nos dizem quando a apresentam para nós como uma situação tão simples. tudo o que se passa no nível da vida mental exige ser referido a algo que se propõe como material. o que queremos dizer quando invocamos o real? É pouco provável que tenhamos dele. à tentativa de La Mettrie e de Holbach de elaborar o homem-máquina. não temos por que nos espantar com isso. chegamos a ela ao mesmo tempo pela via do vocabulário elaborado de que nos servimos aqui. A matéria. na dialética analítica. toda possibilidade de efeito. simplesmente é preciso reportar-se ali onde ele o disse. quanto à própria noção de realidade. distinguir o pênis enquanto órgão real. de modo bastante suficiente. penso. introduzi-los. entretanto. Não se pode dizer que o falo não seja. Há mais de uma maneira de se abordar essa questão. espontaneamente? O objeto é real ou não? O que se encontra no real é o objeto? Isso vale a pena ser perguntado. imaginário e real. Trata-se em primeiro lugar do conjunto daquilo que acontece efetivamente. Quando se fala do real. Caso acompanhe Freud. mesmo assim permanece o fato de que é isso que vocês verão surgir em todas as linhas. por volta dos anos 1920-1930. em si. Este é o conjunto do mecanismo. em que essa perspectiva pode ter o mínimo interesse para um analista? — ao passo que o próprio princípio do exercício de sua função atua numa sucessão de efeitos que se admite por hipótese. Fosse apenas isso. como os outros médicos. A referência ao fundamento orgânico não responde. simbólico. percebemos bem que o real tem mais de um sentido. formulemos a questão do que quer dizer a posição recíproca do objeto e do real. de soltar um pequeno suspiro de satisfação: Enfim ele vai nos falar do famoso real. que tem a vantagem de discernir na realidade uma função que a língua francesa permite mal isolar. como no que lhe responderam alguns. a mesma noção. que toda a dialética do desenvolvimento individual. e um objeto de que o indivíduo tem a ideia como tal. Farei aqui somente algumas reflexões de passagem. Esta é a noção implicada no termo alemão Wirklichkeii. nos analistas. o real está no limite de nossa experiência. que até agora tinha ficado na sombra. de saída. Todavia. como também toda a dialética de uma análise. se ele é analista. Se nunca foi formulado que o isolamento deste objeto só era concebível no plano do imaginário. um imenso atravancamento que ocupou toda a comunidade analítica se ordenou em torno da noção de falicismo e da questão do período fálico. se examinarmos de perto que uso é feito dele. pode-se perceber. pode-se visar coisas diferentes. de fato. já valeria a pena nos perguntarmos o que a noção de objeto quer dizer. com funções definíveis por certas coordenadas reais. a nada mais que uma espécie de necessidade de segurança. um objeto prevalente. Melanie Klein e Ernest Jones em particular. A noção de falicismo implica por si mesma o desprendimento da categoria do imaginário. Mas. Se é concebível que. pela tela de nossa experiência. quando a abordamos. numa certa data. que remonta ao século XVIII. e ver que função isso tem. que os leva a retomar incessantemente essa l . Alguns de vocês não deixarão. ao que me parece. tanto no que Freud contribuiu. Hélène Deutsch.30 TEORIA DA FALTA DE OBJETO 2 As TRÊS FORMAS DA FALTA DE OBJETO 31 Esta questão. cujas condições são muito artificiais. exerce um tal fascínio sobre o espírito médico que se acredita dizer alguma coisa quando se afirma de maneira inteiramente gratuita que nós. terem uma ordem própria. colocamos no princípio de tudo o que se exerce na análise uma realidade orgânica. este acesso que deve ser obtido no término da análise. ou realidade. o que é que isso representa para vocês. o Sío/f primitivo. e o falo em sua função imaginária. Veremos. conceba o que dirige todo o espírito do sistema.

a coisas que talvez saibamos um dia. que permitiu introduzir os termos sistema primário e sistema secundário na ordem do psiquismo. Pois bem. com efeito. o princípio de realidade e o princípio de prazer. para falar do que acontece nessa máquina. que pode ser depois distribuída e posta à disposição dos consumidores. num pequeno artigo onde ele -fala daquilo a que chama o transitional object — vamos pensar em transição de objeto ou fenómeno transicional. Isso quer dizer que a oposição dialética e impessoal dos dois princípios. posta em jogo igualmente no duplo princípio. é alguém bastante liberador. tudo deve se referir. Winnicott. O uso do termo realidade. a sonhar com o momento em que a paisagem ainda era virgem e as águas do Reno fluíam em abundância. Esta criança será uma idiota? Será um génio? É malandrinha? É feroz? Ninguém jamais vai saber. com aquilo que está realmente em jogo no exercício da realidade analítica nada mais representa que um desconhecimento da Wirklichkeit simbólica. mas de uma maneira muito fugaz. A realidade é. o Reno. que nos interessamos sempre mais pela função da mãe. por exemplo. no caso essa força elétrica. e ela só se acumula a partir do momento em que as máquinas foram acionadas. se é que este admite a ordem de efetividade em que se desloca. querer a todo custo reencontrar em algo que estaria ali desde toda a eternidade a permanência daquilo que é acumulado ao final como o elemento de Wirkung. dão ao que está em questão um alcance energético inteiramente outro. falando propriamente. aqui. de Wirklichkeit possível. quase que devemos nos referir. revelou-se. à criança que diz que o rei está nu. enquanto o princípio de realidade foi identificado por nós ao fato de que a criança deva aprender a dele se abster. esses sujeitos são realmente ideais. antes de tudo. Foi o que aconteceu com o Sr. um outro uso da noção de realidade. em última instância. Winnicott observa. Este uso que se mostrava tão fecundo inicialmente. A necessidade que temos de confundir o Stoff. Trata-se. penso mesmo que a análise é feita para demonstrá-lo. É mais ou menos como se. e que a consideramos absolutamente decisiva na apreensão da realidade pela criança. à matéria principal que está na origem de tudo o que acontece. Vêem-se os analistas voltar a uma espécie de intuição primitiva. ou a tendência. a relação com o seio materno. O que se acumula na máquina tem. a estruturação de elementos que se compõem e se edificam. Deixem-me fazer uma simples comparação para mostrá-lo a vocês. pois o princípio de prazer não se exerce de maneira menos real que o princípio de realidade. alguém se pusesse. ou a matéria primitiva. Ora. aí. e perceber que tudo o que se dizia até então não explicava nada. isso acontece de vez em quando. só pomos em jogo mecanismos superficiais. Faz-se. Dizer que a energia já estava ali em estado virtual na corrente do rio não nos adianta nada. de algo inteiramente diferente. ou o fluxo. Vou lhes mostrar que não há mais sentido algum dessa ordem ali onde Freud aparentemente o menciona. posso realmente qualificá-la nesta ocasião de supersticiosa. Essa referência. Sem dúvida. neste caso. Para perceber a distância percorrida entre o primeiro uso que foi feito da oposição entre os dois princípios e o ponto a que chegamos agora com um certo deslizamento. Sem dúvida. Isso não quer dizer nada. na análise. é inteiramente outro. ou o impulso. elas são animadas por uma propulsão que vem da corrente do rio. isso só poderia vir à ideia de alguém que fosse inteiramente louco. Existe aqui um contraste bastante surpreendente. pois a energia. simplesmente. O princípio de prazer. e mesmo que é a força. que é muito mais importante e nada tem a ver com o precedente. É desconhecer a realidade própria em que nos deslocamos conservar a necessidade de falar da realidade última como se ela estivesse noutra parte que não nesse próprio exercício. a dialética. foi substituída por atores. o que acontece de vez em quando. ou de guignol imaginário. É uma espécie de sequela do postulado dito organicista. a mais íntima relação com a máquina. a organização. princípio de prazer e princípio de realidade. só começa a nos interessar a partir do momento em que é acumulada. mas foi aí que chegamos. O sr.32 TEORIA DA FALTA DE OBJETO As TRÊS FORMAS DA FALTA DE OBJETO 33 ladainha. . mais problemático. O conflito. Existe aí uma espécie de absurdo para um analista. tendo que discorrer sobre uma usina hidrelétrica em pleno meio da corrente de um grande rio. é a máquina que está no princípio da acumulação de uma energia qualquer. mas acreditar que a correnteza do rio é a ordem primitiva da energia. à medida que avançava o progresso da análise. confundir com uma noção da ordem do mana esta coisa de uma ordem bem diferente que é a energia. nós o identificamos com uma certa relação de objeto. que não pode ter literalmente nenhum sentido na perspectiva analítica. sem dúvida que se trata mais de uma espécie de figuração. como quem bate na madeira: Afinal de contas. Com certeza. isto é.

o que aparece no decorrer de um período que. Winnicott observa. é preciso que a mãe opere estando sempre ali no momento necessário. Não é um negativo. ligada ao funcionamento do processo primário. é impensável numa tal dialética. com muita justeza. e tudo o que vai mal nós fazemos derivar de uma anomalia primordial. Vou fazer algumas observações para tentar. Existe ainda um terceiro termo de que se começa a falar. que intervêm no desenvolvimento do campo do desejo humano. ou seja. de castração. Espreitam. no momento da alucinação delirante da criança. o objeto real que a satisfaz. Elas devem ser distinguidas. Mesmo que o sr. Eles são levados a buscar. ou seja. é a noção da falta do objeto. começa pela noção tão paradoxal que podemos dizer que ainda não está completamente elaborada. de que veremos quão necessariamente a noção foi introduzida. que surge por princípio do processo primário. Esta diferença só pode se instalar pela via de uma desilusão. Em suas obras. em absoluto. a esses objetos que são sempre levados os autores que procuram explicar a origem de um fato como . a realidade não coincide com a alucinação surgida do desejo. isto é. Estas não são. sem se interrogarem sobre a distância que possa haver aí entre a erotização do objeto-fetiche e a primeira aparição do objeto enquanto imaginário. Todos os objetos dos jogos da criança são objetos transicionais. nós vamos chamá-los. e encarnada. em suma. a análise da neurose. a criança a submeter-se às frustrações e ao mesmo tempo a perceber. trata-se de que a mãe ensine. quando.i existência do fetiche sexual. ainda assim. pois. em primeiro lugar. ou. a criança não tem. simplesmente. e a apreensão do real que a preenche e satisfaz efetivamente. não é preciso perguntar se são mais subjetivos ou mais objetivos — eles são de outra natureza. não existe inicialmente. da frustração. Falamos bem mais é da frustração. em nossa experiência concreta da teoria analítica. fazê-los compreender inicialmente o que é isso. Acreditamos falar sempre dela como se falava no tempo de Freud. É totalmente errado. de imaginários. A propósito destes. Logo. a propósito do artigo de Winnicott — e que um dos pontos mais essenciais da experiência analítica. e em que via e por que exigência: é a noção de privação. de uma ponta de lençol. e isso desde o começo. mesmo na criança mais nova.34 TEORIA DA FALTA DE OBJETO l As TRÊS FORMAS DA FALTA DE OBJETO 35 O sr. O que é esquecido numa tal dialética — esquecimento que obriga a essas formas de suplementação que enfatizo. cheias de rodeios e t k' confusões. Winnicott não ultrapasse os limites chamando-os assim. precisamente vindo colocar. tanto instrumentais quanto fantasiosos. da alucinação e do objeto real. de tempos em tempos. de um lenço furtado à mãe. no momento em que esta se encarne em dois atores reais. e sim um período permanente do desenvolvimento da criança. nem por isso constitui um período intermediário. Em segundo lugar. três coisas equivalentes. a satisfação sexual. por ser chamado aqui transicional. na criança. de alguma parte da realidade posta acidentalmente ao alcance. podemos prescindir de uma noção da falta do objeto como central. falando propriamente. progressivamente. Os brinquedos. já que os cria a partir de tudo o que lhe cai nas mãos. Se tudo correr bem. é um fato de experiência que. a análise. Portanto. Desde seu início. para que as coisas corram bem. nenhum meio de distinguir entre o que é da ordem da satisfação fundada na alucinação do princípio. Winnicott observa que. vemos que é. termo tornado chave em nossa dialética. A extrema diversidade dos objetos. a criança não precisa que lhe sejam dados. a mãe e a criança. São objetos transicionais. sob que condições tudo corre bem — pois é importante que tudo corra bem. . para que a criança não seja traumatizada. sob a forma de uma certa tensão inaugural. Winnicott observa simplesmente. vemos aparecer esses objetos que Winnicott chama de objetos transicionais porque não podemos dizer de que lado eles se situam na dialética reduzida. na relação ideal mãe-criança. o manejo um tanto privilegiado de uma miudeza. a diferença que existe entre a realidade e a ilusão. mais exatamente. tanto quanto possível. segundo a noção que temos. mas a própria mola da relação do sujeito com o mundo. Jamais. nenhuma espécie de distinção entre a alucinação do seio materno. e o encontro do objeto real de que se trata. que no interior de uma tal dialética é inconcebível que qualquer coisa possa se elaborar que vá além da noção de um objeto estritamente correspondente ao desejo primário. pontos comuns entre o objeto na criança e o fetiche que vem ocupar o primeiro plano das exigências objetais para a satisfação maior c|ue pode haver para um sujeito. O de que mais falamos é da frustração. Desse modo são levados a quase confundir esses dois tipos de objeto. simplesmente. certamente muito hesitantes. e estamos errados.

o objeto da castração é um objeto imaginário. para seguir a maneira com que o fazemos entrar em jogo na nossa dialética. se pensarmos nisso agora. não é absolutamente obrigatório que a falta e o objeto. até segunda ordem. o fato da castração ser uma falta imaginária do objeto. como uma coisa inteiramente distinta do imaginário. é. ele não tem. em sua natureza. fica absolutamente claro que não é. referindo-nos simplesmente ao uso quê é feito dela quando dela falamos. com efeito. Parece mais problemático. só observamos essas coisas em casos excessivamente raros. É no plano imaginário que ela se situa. o sentido do que foi inicialmente enunciado por Freud. o que é a punição. cuja natureza essencial.36 TEORIA DA FALTA DE OBJETO As TRÊS FORMAS DA FALTA DE OBJETO 37 ~ Vamos começar por aquela cujo uso é o mais familiar. A partir dessas duas observações. um prejuízo que. do que há de lei fundamental na interdição do incesto e na estrutura do Édipo. pois é certamente maravilhoso que só queiramos não falar disso. É só na lei de Manu que se diz que aquele que se deitar com sua mãe deve cortar os genitais e. o domínio da reivindicação. Ela diz respeito a algo que é desejado e não obtido. a exigência do falo. e mesmo um terceiro termo a que vamos chamar o agente. situando-nos no nível do objeto. formadora. l''.nos permite situar esses três elementos a que vamos chamar os ires lermos de referência da falta do objeto. Ora. A castração só pode se classificar na categoria da dívida simbólica. Que diferença há entre uma frustração e uma privação? Vamos partir daí. um objeto real. Sem dúvida isso será aceito por alguns com uma certa reserva. na medida em que esta é constituída pela dívida simbólica. é essencialmente uma falta real. nos maravilhar com isso. Dívida simbólica. Foi por uma espécie de salto mortal na experiência que Freud pôs uma noção tão paradoxal como a da castração no centro da crise decisiva. segurando-os nas mãos. que se levou tanto tempo para identificar como tal. na medida em que é preciso ater-se fortemente à noção central de que se trata de categorias da falta do objeto. é na medida em que o falicismo. que nos facilitou crer que a frustração nos permitiria alcançar bem mais facilmente ao centro dos problemas. em contrapartida. que é o Édipo. pois. É essa comunidade que existe entre o caráter imaginário da falta na frustração e o caráter imaginário do objeto da castração. o ponto principal de todo o jogo imaginário no progresso conflitual que é o descrito pela análise do sujeito. que se pode falar em privação. vamos poder formular a questão — o que é o objeto que falta nesses três casos? É no nível da castração que isso fica mais claro. principal. em sua natureza de falta. real. é a de um dano. que nada têm a ver com nossa experiência. Isso é algo de muito ousado. numa ordem bem diferente daquela dos mecanismos estruturantes e normalizantes comumente em jogo na nossa experiência. O objeto é imaginário. ou ausência. Ora. por definição. já que Jones introduz a noção de privação e diz que essas duas noções são experimentadas da mesma maneira no psiquismo. A castração de que se trata é sempre a de um objeto imaginário. tal como temos o hábito de vê-lo se exercer. que um ser apresentado como uma totalidade possa sentir-se privado de algo que. o Wesen. Portanto. e é isso que nos deve fazer levantar a questão do que é o falo. eis o • nu. é um dano imaginário. diremos que a privação. Nós. sujeito preferencial da nossa dialética da frustração. é somente a propósito deste real. É uma lesão. dano imaginário e furo. a noção de frustração. aliás. Digo falta do objeto e não objeto. É sempre de um objeto real que sente falta a criança por exemplo. e que nos parecem merecer explicações que permanecem. na medida em que esta é uma das categorias da i falta. Aí está. a alguma coisa que sanciona a lei e que lhe dá seu suporte c seu inverso. Não é por aí que a exigência fálica se exerce. se temos que nos referir a ela. para que isso seja válido. no só-depois. a saber. cm nossa experiência analítica. foi muito mais negligenciada que aprofundada. É um furo. O centro da noção de frustração. talvez nos seja mais fácil perceber o que vem a ser a castração. A frustração é. . É claro que a privação. dirigir-se para o oeste até a morte advir. Isso vai nos ajudar a perceber essa evidência que exige um pouco mais de manejo metafísico dos termos do que se tem o hábito de fazer quando nos referimos a esses critérios de realidade de que falávamos há pouco — o objeto da privação. sejam do mesmo nível nessas categorias. é sempre um dano imaginário. De fato. Podemos. um objeto real. como diz Freud. A frustração é por si mesma o domínio das exigências desenfreadas e sem lei. mas que é desejado sem nenhuma referência a qualquer possibilidade de satisfação nem de aquisição. é realmente. este não passa jamais de um objeto simbólico. A noção que temos da frustração.Ios terão razão. O que falta no nível da castração. O objeto da frustração. por essência. A castração foi introduzida por Freud de uma maneira absolutamente coordenada à noção da lei primordial. por mais imaginária que seja a frustração.

É na medida em que definimos pela lei o que deveria estar ali que um objeto falta no lugar que é seu. Mas este agente é simbólico. até mesmo se deduzir de uma maneira Absolutamente formal. da criança e do falo. como verão. Quero acrescentar simplesmente uma noção que terá igualmente seu alcance na sequência. que é o de uma primeira questão referente i\ relações do objeto e do real. Isso quer dizer que o bibliotecário vive inteiramente num mundo simbólico. em princípio. por que a evolução é muito diferente nos dois sexos. a seguir. ser formuladas. Tudo o que é real está sempre e obrigatoriamente em seu lugar. ele pode estar bem ao lado. em seu lugar de pedaços. Isso pode parecer um pouco abstraio.10 que nos limitamos hoje. 28 DE NOVEMBRO DE 1956 . e de nada mais. por princípio. enquanto o agente aqui é. ainda assim nossos corpos vão continuar em seu lugar depois da explosão de uma bomba atómica. vocês vêem que a qualificação do agente nesses três níveis é uma questão que nos é manifestamente sugerida pelo começo ila construção do falo. ao menos. Ainda assim. em aberto. Quero simplesmente completar o quadro. porque a noção do agente foge totalmente . invisível. não está? Do ponto de vista do real. mesmo quando se o perturba. manifestamente. justamente. na verdade. falta no seu lugar — ele é. Podem desarrumar quanto quiserem o real. nenhuma espécie de existência real. isto é. não estar num lugar onde. Fazem. Quando falamos de privação. a de um agente. a evolução completamente diferente daquilo a que se chama a sexualidade no homem e na mulher — e para reduzir os dois termos a um só princípio. isso não quer dizer absolutamente nada. A ausência de alguma coisa no real é puramente simbólica. Aqui estou dando um salto que exigiria que eu voltasse à tríade imaginária da mãe. ela não poderia em caso algum ser satisfatória no ponto em que estamos. para detectar os passes de mágica graças aos quais dão-se soluções que não são soluções para falsos problemas. O agente desempenha ele também seu papel na falta do objeto. esforços desesperados para chegar a romper com isso que parece intolerável. Não há melhor referência do que esta: pensem no que acontece quando vocês pedem um livro numa biblioteca. mas não tenho tempo de fazer isso. mas ainda assim. Ficamos nas categorias do imaginário e do real. no fim desta sessão. Se a resposta pudesse talvez.38 TEORIA DA FALTA DE OBJETO As TRÊS FORMAS DA FALTA DE OBJETO 39 Isso é absolutamente claro — como é que alguma coisa poderia não estar em seu lugar. mas vocês vão ver o quanto nos será útil. trata-se de objeto simbólico. de uma outra ordem. de saída. imaginário ou real? Quem é o agente da privação? Não tem ele. Ora. como eu observava há pouco? Eis algumas questões que merecem. Dizem-lhes que não está no lugar. Vou deixá-las. Tratando-se da frustração. algo que permita conceber de uma maneira muito simples e muito clara. talvez exista. aqui. imaginário ou real? E quem é o agente da castração? É simbólico. temos a noção proeminente de que é a mãe quem faz o papel do agente. O real tem por propriedade carregar seu lugar na sola dos sapatos. se esboçar.

íslo é. se é que são objetos.O SIGNIFICANTE E o ESPÍRITO SANTO 41 III O SIGNIFICANTE E O ESPÍRITO SANTO A imagem do corpo e seu significante. Se tivesse que falar disso. como nem mesmo poderia se tornar um objeto. em todos os casos. A transmissão significante do objeto. É difícil fazer surgir sua forma t lê um dado primitivo que estaria. Como conceber seu valor cinético na economia da libido? Será ele da ordem do que pode se originar de uma génese. encontram-se apenas as ligas. por exemplo. Este objeto possivelmente imaginário. 40 Com efeito. afinal. vocês puderam observar que o número de fetiches sexuais era bastante limitado. os resíduos nas explicações científicas são sempre o que há de mais fecundo a se considerar. para fazer ensinamento. Se ontem à noite falou-se em objeto. não sendo o leão um objeto encontrado de maneira excessivamente comum em nossa experiência. Vocês ouviram ontem um relatório da sra. que não foi feita por ninguém a não ser de maneira indireta. não apenas a imagem do corpo não é um objeto. Considerando o inte- . nos embaraçam muito. Sua discordância imaginária. inscrito na imagem do corpo. se vejam obrigadas a ter medo de leões. iis crianças. génese fantasística. machos ou fêmeas. certamente não é escamoteando-os que se pro|ride. Esta observação. vai lhes permitir situar exatamente o estatuto da imagem do corpo com referência a outras formações imaginárias. contorsão. mas que esta é a i|iiestão central que formulamos no nível da clínica para introduzir o que nos interessa agora na noção do objeto. há um resíduo. e que é evidente em primeiro lugar: a imagem do corpo não é um objeto. as meias. o significado e a morte. nem que partamos dela — partimos tão pouco dela que é precisamente isso o que questionamos. o. i. As circunstâncias quiseram que eu não pudesse dizer outra coisa sobre ele senão o quanto o achava bom. A usina do isso. que daiempenham aí um papel tão importante que podemos perguntar como é que não se presta mais atenção a eles. e com efeito a noção de objeto é importante nesse aspecto. Para fixar as ideias. esses objetos. mas mesmo assim fica um resíduo. Podemos nos exercitar nisso. ( > principal é o sapato. Aí estão os objetos sobre os quais vamos nos perguntar se são nl)|clos imaginários. que todos já sabem muito bem. Se partirmos agora da imagem do corpo tal como nos foi apresentada ontem à noite para situá-la com relação a este seminário. Tampouco estou aborrecido por não ter tido que fazê-lo. seria para situar esse trabalho com relação ao que fazemos aqui. Dolto sobre a imagem do corpo. com que vocês lidaram ontem à noite. os sutiãs e outros — todos muito chegados a pele. isto é. foi para tentar definir os estádios do desenvolvimento. Como se podia ser fetichista nos tempos de ( ' a i u Io? Aí. tal como nos é dado de fato na experiência analítica. sobre os quais disse que iria me centrar: a fobia e o fetiche. Não digo que sejam de natureza imaginária. em suma. Seja qual for o exercício a que nos cm reguemos. Estão longe disso. Estariam errados se acreditassem que esses objetos já revelaram sou segredo. Do mesmo modo. Mesmo assim. direi o seguinte. como se pode fazer qualquer < oisa.i (ornei dois exemplos dele. ainda assim permanece misterioso o fato de que. em certas épocas de suas vidas. lidamos na experiência analítica com objetos a propósito dos quais podemos levantar a questão de sua natureza imaginária. muito simples. já é conhecido por vocês. de uma ectopia com referência a uma certa relação típica? lísscs objetos surgem simplesmente da sucessão típica daquilo a que chamamos os estágios? Seja como for. Por quê? Além dos sapatos. O significante. Ora. acrobacia. e isso me repugna num contexto de trabalho científico que é de uma natureza inteiramente outra. também. Isso não significa atermo-nos à hipótese do objeto imaginário.

Já que se trata aqui de um ensino. a energia de que poderão dispor. no caso. Lidamos constantemente com isso. mais uma vez. e isso é mesmo o que há de mais sólido na miragem que sustenta a objeção que me fizeram. É a propósito delas que são obrigados a fazer numerosos cálculos. esta queda d'água é tudo. Mas o mais espantoso é o uso que disso é feito — e de que não se duvida por um só instante que seja eficaz —. e que nada mais importante que os mal-entendidos. Em primeiro lugar. à noção do significante. Portanto. E vocês só pensam em medi-la a partir do momento em que as usinas funcionam. certamente. Dolto. que é dada previamente no local onde instalamos a usina. com efeito. O senhor fala de energia acumulada na usina. É sempre com relação a uma outra dessas imagens que cada uma delas assume seu valor cristalizante. À primeira abordagem. por si só. negando que haja alguma coisa qualquer antes. ou suposto como tal.existe energia absoluta do reservatório nalural. Não tive l empo de lhes expor a terceira perspectiva sob a qual se pode apresentar o tema do real. para o engenheiro. absolutamente. A potência da usina rstá determinada daí em diante pelas condições anteriores. A questão é que é preciso que certas condições naturais se realizem para que a energia desperte o mínimo . A energia só começa a ser levada em conta a partir do momento em que vocês a medem. antes que o Eu adviesse.pela operadora. e a situei para vocês através do exemplo da usina. trata-se. Este entrave é ir buscar a realidade em algo que teria o caráter de ser mais material. entre dois pontos de referência. Aí está. É como significante que a imagem entra em jogo em seu diálogo. um fato que só se pode situar a partir das noções de significado e de significante. a saber. lendo que lhes falar da realidade. havia alguma coisa. Eu disse que os psicanalistas tinham da realidade uma noção tão mítica que remete àquela que entravou o progresso da psiquiatria há décadas e de que se poderia acreditar que a psicanálise iria libertá-la. Isso é particularmente evidente pelo fato de que nenhuma delas se sustenta por si mesma. Esta objeção exige diversas observações. Para me fazer entender. no caso a queda d'água. a sra. o sistema psíquico. existe uma energia deste reservatório com relação ao nível inferior onde será lançado o líquido em fluxo quando se tiver acrescentado ao reservatório um escoadouro. Tudo já está dado na energia potencial. e disse que era como se. diante dos diversos acidentes que pudessem ali sobrevir. a criança pequena. Não . eis-nos referidos. no caso da usina. quando falei da noção de realidade. Mas. o tema é fascinante. a ênfase colocada no que está antes. como foi dito. Quis. articulam um certo vivido. vou começar frisando que pude constatar. suas obras de ampliação ou de reparos. Jamais disse outra coisa. de construções que ordenam. apegar-se ao que vem antes c|iie um funcionamento simbólico se exerça. o que existe antes é a energia. se acreditasse raciocinar de maneira válida sobre o que se deveria fazer reportando-se à matéria primitiva que entra em jogo para fazê-la funcionar. e é como significante que ela representa alguma coisa. que ela penetra o sujeito em questão. orientador. direta e indiretamente. Esta é. esta imagem. existe um mundo. basta ao engenheiro medir a altura no lençol d'água com relação ao nível onde ela será lançada. que certas coisas que eu disse da última vez. Esse objeto. Por exemplo. Sobre isso. no caso. e que só se pode compreender a partir daí. Dolto o emprega como significante. vieram me dizer: O que o senhor pretende com isso? Imagine que. mas esta energia nada mais é que a transformação da energia potencial. naturalmente. organizam. a noção de energia é efetivamente construída sobre a necessidade que se impõe de uma civilização produtora querendo fazer o balanço — que trabalho é necessário dispender para se obter uma retribuição disponível de eficácia? Esta energia.42 TEORIA DA FALTA DE OBJETO O SIGNIFICANTE E o ESPÍRITO SANTO 43 resse levantado na assembleia e a importância da discussão. comecei por defini-la pela Wirklichkcit. Para fazer o cálculo. Mas a questão não é esta. vocês a medem sempre. a sra. dei o exemplo da usina hidrelétrica. d isso era. Trata-se simplesmente de saber o que é este isso. por exemplo. um escoadouro não basta para permitir-lhes calcular a energia — é com relação ao nível de água inferior que a energia é calculável. precisar-lhes o caráter mítico de uma certa concepção da realidade. uma maneira legítima de considerar a realidade. Mas entre a energia e a realidade natural. por outro lado. entre os quais se inclui. incluindo nesses acidentes a redução de capacidade da usina. Dizem-me que. justamente. pela eficácia do sistema. Em outras palavras. não foram compreendidas. Não estou aqui. a saber.

tenha falado pela primeira vez. mesmo na posição passiva. como é organizado. . a posição ativa ou passiva — mas. É uma noção que. Não há nada que seja menos fixado a um suporte material do que a noção de libido em análise. que é.44 TEORIA DA FALTA DE OBJETO O SIGNIFICANTE E o ESPÍRITO SANTO 45 interesse para ser calculada. aquele onde o comportamento de um ser vivo na presença de um outro ser vivo a ele está ligado pelos laços do desejo. A usina não é construída pela operação do Espírito Santo. que haja uma para a feminilidade e uma para a masculinidade. Isso não se pode contestar. Só se instala uma usina ali onde certas coisas privilegiadas se apresentam na natureza como utilizáveis. como mensuráveis. é isso: o Es não é uma ícalidade bruta. por mais paradoxal que o termo lhes pareça. isso não tem importância alguma. articulado. como significantes e. se não se tratasse simplesmente de uma noção que se apresenta apenas para nos permitir encarnar a ligação de um tipo particular que se produz num certo nível. destinada a permitir um certo jogo do pensamento. senão ligeiramente. pode realmente comportar. e se duvidarem disso estarão errados. nem simplesmente o que está antes. o que é /•'. se posso dizê-lo. nos diz Freud. É preciso que já se esteja no caminho de um sistema tomado como significante. tal como esta se apresenta a alguém que não sabe absolutamente como ela funciona. Qualquer diferença de nível no escoamento de água. e apenas uma. que lhes faço esta teoria do significante e do significado. É realmente aí que está o interesse essencial. com a diferença que ela não é só transformada. É preciso ainda que. a existência de uma medida comum. Freud foi levado pela noção energética a forjar uma noção que se deve usar na análise de modo comparável à da energia. A referência a um suporte químico é. Vejamos agora como ele se delineia. um certo valor de energia em reserva.v? A que a introdução da noção da usina nos permite compará-lo? l'ois bem. Freud chega a formular que só existe a forma masculina da libido a nosso alcance. como é com efeito muito possível que seja. Não existe aí nenhuma maravilha. A pessoa inculta que a vê pensa que talvez seja o génio da corrente que se põe a fazer travessuras no interior e transforma a água em luz ou em força. mas no real. É precisamente para lhes recordar a presença do Espírito Santo. essa passagem. estritamente falando. sem importância alguma em se tratando da libido. Assim. em todos os casos. efeitos ativos. e que consiste numa simles petição de princípio. que é. pelo fato de tratar-se de nina usina hidrelétrica. Como tudo isso seria paradoxal. quer se trate de riachos ou mesmo de gotículas. Ora. O importante é a aproximação que fiz com o psiquismo. Freud o diz: que haja uma. Temos o hábito de considerar o Es como uma instância que tem enorme relação com as tendências. por exemplo. Esta ainda é a melhor definição. e não simplesmente de uma usina hidromecímica. em potencial. Freud chega a indicar que. é inteiramente abstrata. a libido. articulado. esta libido tem. O Es é aquilo que no sujeito é suscetível. já na natureza. u qual é absolutamente essencial ao progresso de nossa compreensão dn análise. ou que haja uma. aspecto que a faria mais aparentada à posição masculina. por exemplo. A libido é o que liga o comportamento dos seres entre si. os instintos. podendo ser também acumulada. da vontade. ainda iissim. justamente à usina. Toda u força que já se encontra lá pode vir a ser transformada. pois é realmente necessária uma atividade para adotar a posição passiva. simplesmente isso não interessa a ninguém. ela se construiu pela operação do Espírito Santo. propriamente falando. no caso. e não simplesmente na paisagem. Se a análise nos trouxe alguma coisa. de tornar-se Eu. as matérias que vão entrar em jogo no uso da máquina se apresentem de uma certa maneira privilegiada e. nos Três ensaios. ou qiie sejam intercambiáveis. e que lhes dará. para dizer tudo. em 1905. o nível imaginário. Assim. o Es já está organizado. neutralizado. Mesmo que haja toda essa energia antes. Fica-se maravilhado que Freud. pois de qualquer maneira a experiência analítica nos traz a necessidade de pensar que só existe uma e única libido. Freud situa de imediato a libido num plano que é. o significante. uma vez construída a usina ninguém pode contestar que existe uma diferença sensível. de uma maneira significante. Isso se aplica igualmente ao que é produzido pela máquina. do suporte psíquico da libido em termos tais que a difusão ulterior da noção dos hormônios sexuais não o obrigou a modificar. uma das molas essenciais do pensamento freudiano para organizar o que está nu jogo em todos os comportamentos da sexualidade. assim como a da energia. entre manifestações que se apresentam como qualitativamente muito distintas. que haja várias. por esse motivo. Trata-se da noção de libido. Ela permite unicamente expor — e ainda assim de forma virtual — uma equivalência. Mais i-xalamente. ou duas ou três para cada uma. por intermédio da mensagem do Outro. com efeito. a libido se apresenta sempre sob uma forma eficaz e ativa.

se Freud introduziu a noção de libido. algo que não é i li. o Lust. Foi isso.modo algum marcado pela impressão do significante.o o encontramos nos escritos últimos de uma certa experiência filosófica. há pouco. aparentemente contraditórios. exterior. de sua existência. à tendência ao retorno ao repouso. como se diz. Nada da expe1 lencia analítica se explica senão por este esquema fundamental. provavelmente mítico. Este esquema comporta que o que é significante de alguma coisa pode se tornar a qualquer momento significante de outra coisa. o que lhe permite entrever a morte como a condição absoluta. de colocação entre parênteses de tudo aquilo que é vivido. Todavia. que ele acentua: é ao mesmo tempo o prazer e a vontade. a existência do Espírito Santo. Assim. o desvio da realidade. Já situei. pela tendência a voltar ao repouso. mas do outro lado a vontade. Ora. Assim como existe. nem por isso estão menos ligados eficazmente na experiência. O Espírito Santo é a entrada do significante no inundo. O paradoxo do princípio do prazer é este. como uma superfície . aquele a que vocês se entregam diariamente. mas nunca esquecido na prática. assim também não existe apenas a realidade contra a qual nos batemos. há dois anos. e o curso do significado. A intervenção do significante levanta um problema. níio apenas sobre a palavra. O que se passa no seu nível se apresenta. insuperável. tem um sentido ambíguo em alemão. seu próprio paradoxo. ou no demand. isto é o estado de repouso mas também a ereção do desejo.i vecordar-lhes. mas também o contorno. a tendência. que Freud nos trouxe sob o termo instinto de morte. que me levou . ou do discurso concreto. e ele o diz formalmente. e entre os sujeitos. sem dúvida. frequentemente eludido. de um lado o retorno ao repouso. no nível do princípio do prazer. primário e secundário.\e recorre a língua inglesa como a uma expressão primitiva do iípctite. no que e como que se apresenta a continuidade do vivido. Vocês nunca usam isso com nenhum desses processos sem provê-lo de um índice particular que é de certa forma. numa espécie de superposição paralela. As relações do homem com o significante no seu eonjunto estão muito precisamente ligadas a essa possibilidade de supressão. com toda certeza. Trata-se desse limite do significado que jamais é atingido por algum ser vivo. O significante 6 introduzido no movimento natural. o curso do significante. Um não menor paradoxo se encontra no nível da realidade.46 TEORIA DA FALTA DE OBJETO 2 O SIGNIFICANTE E o ESPÍRITO SANTO significante significado 47 Vamos retomar isso num outro nível. De que maneira os dois processos. isto é. nem sobre a linguagem. e que indo o que se apresenta na vontade. os dois níveis da palavra que se exprimem nas noções de significante e de significado. tal como lhes é indicado. mas sobre os fenómenos que se apresentam na análise. a libido do sujeito é sempre marcado pelo vestígio de um significante — o que não exclui t|iie talvez haja outra coisa na pulsão ou na vontade. pode-se dizer o seguinte: o que se passa no nível do sistema primário é governado pelo princípio do prazer. Isso fica muito mais claro se. Esses dois termos. correlativamente à existência dos dois princípios. como se expressa Heidegger. o do princípio de realidade e do princípio de prazer. pode-se dizer ijiie a vontade vira significado. por exemplo. no desejo. e do significante sobre o significado. fizermos intervir os dois termos que os ligam e permitem seu funcionamento dialético -— a saber. como ligado à lei do retorno ao repouso. a não ser num caso excepcional. Todavia é algo que se encontra virtualmente no limite da reflexão do homem sobre sua vida. para cada um. nada nessas definições dá o sentimento daquilo que ressalta do caráter conflitual e dialético do uso desses dois termos na prática. enquanto o que se passa no nível do sistema de realidade é definido pelo que força o sujeito à conduta do desvio na realidade. a menos que se admita a possibilidade essencial de perpétuos deslizamentos do significado sob 0 significante. no uso concreto. O que está no fundo da existência do significante. de sua presença no mundo. vamos colocá-lo em nosso esquema. se opõem? Se nos ativermos somente ao que os define externamente. pois •. termo . o qual vimos. qualificando-o de exigência embora o apetite enquanto tal não seja marcado pelas leis próprias do significante. o que representava para nós e o que é no pensamento e no ensinamento de Freud. ou mesmo que jamais é atingido de modo algum. o fluxo das tendências num sujeito. ESQUEMA DAS PARALELAS Esta representação é tanto mais válida que nada se pode conceber. é de fato porque o prazer no sentido concreto.

Indico a vocês que este é 0 seu ponto de partida quando ele reconstrói o desenvolvimento. só existe uma única representação primitiva do estado. Ele já está lá. de espíritos fracos. na medida em que ela é o suporte. é o aparelho genital masculino com exceção de seu complemento. que cria um problema insolúvel para todos os analistas desde que estes surgiram. não podem lembrar-se para além disso. O falo não é o aparelho genital masculino em seu conjunto. a base. a que fariam obstáculo apenas os acidentes que pudessem sobrevir na estrada. que vocês vão buscar nas profundezas. como aborda o desenvolvimento primeiro da mulher e seu famoso complexo de castração. Mas a análise sublinha. hipótese a que voltam sempre aqueles a que não hesitarei em chamar. que as (corias sexuais infantis. que a experiência nos faz descobrir um número grande de acidentes que rstão longe de serem tão naturais assim. mas porque. Literalmente. nem é em razão do fato de que existe somente uma libido. O que situo aqui no princípio da experiência analítica é a noção de que há significante já instalado e já estruturado. Esta usina é a linguagem. Quando se imagina que o inconsciente quer dizer que o que está num sujeito foi feito para adivinhar o que lhe deve responder num outro. a existência na natureza da usina hidrelétrica feita por obra do Espírito Santo é o 1 ontrário mesmo da noção de natureza. que já estejam construídos os trilhos de acesso livre do homem à mulher e vice-versa. a operação do Espírito Santo pela qual o significante existe. que ali funciona há tão longo tempo quanto vocês podem lembrar. do fluxo das emoções. será ele o que é designado no Es? Formulamos a questão — e a resolvemos. Não estou ratificando o que diz Freud. não é algo tão natural assim. a saber. mais adiante. que se produz antes do desenvolvimento completo do Édipo.48 TEORIA DA FALTA DE OBJETO O SIGNIFICANTE E o ESPÍRITO SANTO 49 eficaz do significante onde este reflete. Para dizer a verdade. a fase fálica. do desenvolvimento da criança. tudo o que será para ele a relação entre os sexos. que vão marcar com seus vestígios o desenvolvimento de um sujeito. isto é. Não se trata em absoluto de um encontro. no plano imaginário. só pode ser por alguma desordem secundária. Por esse motivo. desta vez não é em nome de uma igualdade energética fundamental que só está ali para a comodidade do pensamento. não se faz outra coisa senão supor uma harmonia primitiva. justamente. Não há outra escolha senão uma imagem viril ou a castração. Para compreender o que quer que seja do que fazemos na análise. a moça e o rapaz. algum processo de defesa. O escândalo desse fato. e que funciona. o Es. há significante incompreendido. Desde que existem aí signi1'icantes que funcionam. os sujeitos estão organizados em seu psiquismo pelo jogo próprio desses significantes. que é realmente uma pena que nada mostre. e isso mesmo é o que foi feito em tudo o que antecede os Três rnxaios sobre a sexualidade. não é uma propriedade primitiva e confusa qualquer. O erro é partir da ideia de que existem a linha e a agulha. sabemos que já há na natureza algo que . do fluxo libidinal. da vida. de tal maneira que se alguma dificuldade se manifesta. aí está onde reside a posição analítica. Encabeçando essa lista. A imagem ereta do falo é o que é fundamental aí. algum acontecimento puramente acidental e contingente. apresenta-se um sr. primitiva. toda a sua história. Não foram vocês que a fizeram. Jones. Já existe uma usina leita. e menos ainda que as imagens. ou seja. A esta concepção se opõe a observação tão simples de Freud em seus Três ensaios. sejam estas reconhecíveis ou não num fenómeno dado. sobre quem lhes direi. de certa maneira. Só existe uma. do estágio genital — o falo como tal. e precisamente na sua relação com as imagens sexuais. e entre um e outro uma harmonia preestabelecida. mas é do significante. O Es de que se trata na análise é de que há significante e está já no real. estão ligadas à primeira maturidade da fase genital. o que se pode chamar a última palavra do significado. é preciso responder: sim. Se esta fase é dita fálica. Quando abordamos o sujeito. oriunda de alguma harmonia preestabelecida. isto é. falo da história da humanidade em seu conjunto. do vivido. É a morte. nesta ocasião. O que diz Freud é justo o contrário. Pode-se ir procurar referências naturais a essa ideia descoberta na análise. morte significante significado ESQUEMA DAS PARALELAS(2) Este significante que tem suas leis próprias. os icstículos por exemplo.

ilcançada depois da última edição dos Três ensaios. A pedra erigida é um de seus exemplos. Não se deve ler os Três ensaios sobre a sexualidade como se fosse uma obra escrita de um só fôlego. que se caracteriza pelo fato de articuliir-se segundo leis lógicas. o discurso existe. pois não reconheceriam nada dos temas que lhes são familiares no livro. a pura e simples ereção. que Freud tenha sido levado pela experiência analítica a poder apenas caracterizá-lo dizendo que o significante funciona sobre o fundo de uma certa experiência da morte.Ir não se reencontrar. mas impossíveis . por exemplo. o jogo de par ou ímpar a propósito do instinto de morte. especialmente. nem da vagina. suas contradições. aquela que é dinamicamente criadora. Trata-se dessas coisas inapreensíveis. A existência do significante não está ligada a outra coisa senão ao fato. tal como o lêem habitualmente. Mas se a Inuimdeutung. mortal. Se os fiz jogar. mesmo assim. nem do esperma. foi realmente que se trata apenas de uma reconstrução. não iriam acreditar. a saber. No nível da experiência analítica. no fato de que a criança não tem nenhuma noção. motivada por certos paradoxos da experiência. que é completamente velada ao significado e igualmente ao uso do significante: a possibilidade de que nada do que está no significado exista. Se nosso comentário do Além do princípio do prazer. precisamente pelo deste fenómeno inexplicável — que o sujeito é levado a se comportar de uma maneira essencialmente significante. e uma vez isoladas ns icorias sexuais da criança com seus mal-entendidos principais. com efeito. assim como a morte está ali refletida no fundo do significado. é uma Wiederfindung. foi para lembrálos que existem leis últimas. suas armas primeiras. no nível da experiência analítica. toda Findung do objeto. di/-nos Freud. Inversamente. e não simplesmente à experiência vivida • Io corpo. foi sem que nada fosse mudado em seu equilíbrio original. Em contrapartida. Esta é a primeira coisa que deveriam ter em mente ao estudar esse texto. se os ensinei a escrever séries de mais e de menos ngrupadas em duas ou três numa sequência temporal. Achei que devia recordar essas posições que me parecem tão fundamentais. \o central de objeto. presentes nu lodo ponto de partida. um certo número de elementos que são dados na experiência como acidentes do corpo. e é introduzido no mundo sobre um fundo. no significado. constituem elementos primeiros. O instinto de morte nada mais é. sua profunda diferença das cooptações naturais. Certamente. Assim como já há na natureza alguns -reservatórios. naturalmente implícitas. tomados de empréstimo à rKpcriência. Noções deste tipo nada têm a ver com qualquer espécie de exercício vivo. não há obra de Freud que não tenha sido sujeita a revisão. e no entanto irredutíveis. É assim que um certo número de elementos todos ligados à estatura corporal. que são as leis do significante. se lessem a primeira edição dos Três ensaios. dentre as quais o termo fálico. pois o exercício vivo consiste precisamente em fazer sua pequena passagem na existência exatamente como todos aqueles que nos precederam na mesma linhagem típica. Por trás do significante. o corpo. propriamente falando. e que está estruturado segundo o modo de uma articulação significante marcando tudo aquilo que se exerce no sujeito com seus vestígios. diz Freud. foi enriquecida. a noção do corpo humano como ereto é outro. no passado. nem da geração. Kl a é sua falha essencial. todas incluem notas acrescentadas. Tudo n <|iie se refere ao desenvolvimento pré-genital da libido só é concebi vel depois da aparição da teoria do narcisismo. há dois anos. mais ou menos conhecido ou desconhecido. iis modificações do texto são extremamente frequentes. mas completamente transformados pelo fato de serem simbolizados. que consistem. pôde mostrar alguma coisa. se assim podemos dizer. repetindo indefinidamente algo que lhe é. Voltemos agora ao ponto em que havíamos deixado as coisas da liltima vez. é n da falta. com os acréscimos feitos principalmente em l 1 )15. ou seja. pois isso é um fato. também há.50 TEORIA DA FALTA DE OBJETO O SIGNIFICANTE E o ESPÍRITO SANTO 51 é o seu Es. A experiência em questão nada tem a ver com o que quer que seja de vivido. A promoção da noção de fase fálica só será . mas que são retomados no significante e lhe dão. Simbolizados quer dizer que eles são introduzidos no lugar do significante como tal. também o significante toma emprestado toda uma série de elementos que estão ligados a um termo profundamente envolvido no significado. vários anos depois da Einfilhrung dês Narzissmus. situei para vocês no esquema essa realidade última. no artigo de 1923 . que percebermos que a vida é improvável e completamente caduca. o qual é curioso.

fundamentalmente conflitual. A introdução do imaginário. Tudo o que se destaca da relação pré-genital i . designa-se por relação pré-genital a lembrança das experiências que são preparatórias para a (-ipcriência edipiana. É neste quadro. e que aparecem submetidos a operações cuja estrui i n a significante é impossível de se extrair. no objeto reencontrado. só se articula à iraria da sexualidade em 1915. muito mais que concorda. de uma imagem que ele porta em si mesmo. Este objeto vem em seguida entrar em discordância. depois que temos a noção de uma Ich-libido como reservatório da libido constituinte dos objetos. transmissão significante. já são considerados romo outra coisa além do que são. e à revelia do sujeito. precisamente o da mãe. seu progresso na pesquisa da relação pré-genital como tal só se explica. a do centro de reserva a partir do que se estabelece toda relação objetal. e no próprio fato de sua redescoberta. elas mesmas. efetivamente exercidas ou vividas. pré-genital.ma que se apresenta sobretudo. dos diferentes períodos. é rememorado de uma maneira que não pôde mudar. isto é. foi na medida em que não se supunha uma harmonia preestabelecida. introduz-se então a camada imaginária. e ele acrescenta a propósito desse reservatório: só podemos vislumbrar de relance por sobre as muralhas. Ela se opõe. Trata-se. na medida em que ela é fundamentalmente imaginária. essencialmente. que não passa. mas que só se articulam nesta última. pois existe sempre discordância do objeto reencontrado com relação ao objeto procurado. Essa experiência. como organizá-la? Como lhes disse da última vez. durante o período de latência. que são aquelas que os organizam.ihpo que se situou a dialética chamada.1 ornado no interior desse parêntese.rn material em alguma parte do significado. e isso dez anos mais tarde. dominam e permitem urticulá-los. à ideia tio um desenvolvimento harmónico regular. e não. com o i . de uma experiência que se Ir/ no contato do significante e do significado.o se produz a partir do artigo sobre o narcisismo. na época. Numa dialética que é em primeiro luj'. encontro. i «mo os faço observar. A origem da própria ideia da teoria da libido pode ser compreendida por nós. só se formula a propósito da fase fálica mi 1920. Portanto. Dessa falta. O termo pré-edipiano foi introduzido a propósito da sexualidade trminina. que introduziu a ideia da medida comum libidinal. Como nos mostram os Três ensaios na sua versão primeira e original.52 TEORIA DA FALTA DE OBJETO O SIGNIFICANTE E o ESPÍRITO SANTO 53 sobre "A organização genital infantil". Se foi possível mais tarde. pré-edipiana. foi a noção da tensão narcísica. de tal modo que foi com referência ao r. em certas articulações eleitas | n u m certo tempo desta evolução que se descobrem as funções pro|ii lamente imaginárias. ação eficaz. de tal sorte que o objeto jamais será senão um objeto reencontrado. conservação do objeto na memória. e que se estrutura essa organização imagiii. é em torno da noção da falta do objeto que temos que fazê-lo. diz Freud. isto é. mas se afirma então de uma maneira tão categórica que desde essa época se apresenta perturbadora. uma conveniência natural do objeto ao sujeito.arcísica como tal. Em outras palavras. As imagens e as fantasias que formam o material significante da relação pré-genital vêm. O mesmo se dá com a própria teoria da libido. O significante toma •.ar. desempenhar um papel perturbador. e ficará marcado pelo estilo primeiro do objeto.u. Devido ao período de latência. •. uma dialética do simbóIK o c do real. à memória latente que atravessa esse período. pela importância das teorias sexuais. Eis a última palavra da teoria narcísica. ao contrário. Este momento crucial da genitalidade no desenvolvimento permanece fora dos limites dos Três ensaios. o objeto primeiro. como silo chamados. em que desde a origem os objetos. em toda relação de i il>|Uo ulterior do sujeito. que é — diz Freud — irreversível. afinal. É só-depois que rsle passado é apreendido. e mergulha toda a audiêni i. existe sempre uma divisão essencial. mostrei-lhes os três níveis que são essenciais de situar u cada vez que há crise. e. tornada tão prevalente desde então. São objetos que já estão trabalhados pelo significante.i analítica na perplexidade. O capítulo intitulado "A teoria da libido" concerne à noção n. Aí está a noção a partir da qual se introduz a primeira dialética freudiana da teoria da sexualidade. oral e anal. da relação do homem com a imagem. quando a reencontramos. no entanto. Isso é precisamente o que se designa por todas as noções de incorporação. Mas se estes não são totalmente bem-sucedidos. Esta experiência fundamental supõe que haja. em nosso vocabulário. Em suma. Em 1920.íier de ser paradoxal. reconhecer nas fantasias um valor organizador. ao mesmo tempo. de uni desenvolvimento crítico. no registro da busca . o desenvolvimento da sexualidade infantil se caracteriza por uma divisão em dois tempos. numa certa orientação da análise. uma das articulações essenciais é a fascinação do sujeito pela imagem. num certo número de t dações vivas. wiedergefunden. A relação l n c genital é apreendida somente a partir da articulação significante do l dipo.

a estrutura como ponto de partida da organização objetal é a falta de objeto. devemos i-ntii rbê-la em seus diferentes escalões no sujeito —no nível da cadeia •iimlinlica. Na castração. A privação está no real. Esta falta do objeto. que no entanto foi a descoberta original de Freud. da próxima vez. tal como se a concebe atualmente. Vou sublinhar. e vamos ver que o sujeito não está . a falta está pura e simplesmente no real. Para que o sujeito apreenda a privação. Efeito mais ou menos regressivo. que já o simbolize. é preciso que ele conceba o real como podendo ser diferente do que é. Vê-se. prevalente por um certo tempo. com toda a aparência de uma fidelidade exemplar.n-esso à privação. Para que o sujeito tenha . ou o primeiro destes quadros. em nome de iiAo-sei-que maturação preestabelecida com os objetos que vão termiii. com efeito. 0 preciso inicialmente que ele simbolize o real. A referência à privação. com efeito. Entregamo-nos ii '. onde ele está. vamos tentar também ver o que dela compreende aquela que o relata. nunrcurto lapso de tempo. à génese (|iu. da experiên• M. •• <|ue. Esta viu produzir-se. Ela se opõe. acreditamos lidar somente com uma dilifiildade de linguagem. O que eles são como falta. num certo momento. nic.54 TEORIA DA FALTA DE OBJETO O SlGNIFICANTE E O ESPÍRITO SANTO 55 de objeto. simplesmente. uma fobia. Na frustração. a imagem do corpo como signifii iinie. que pode mesmo ser progressivo em certos casos. veremos o que vamos compreender dela. Jones. de um exemplo que tomei ao acaso no volume 3-4 do Psychoanalytic Study of the Child publicado em 1949. vamos nos colocar no ponto exato em que se instalam a teoria moderna e a prática atual. como dívida. A somatognosia. que não exclui o emprego de categorias preestabelecidas. uma criação imaginária privilegiada. a falta está no real. por que não? — mas um fenómeno como o da fobia poderá se compreender a partir unicamente de sua situação numa certa ordem cronológica? As coisas não vão se esclarecer melhor se fizermos referência aos três termos que enumerei? Isso é o que veremos. Esta observação. e é assim que procede o sr. em ÍM/n tia privação o equivalente da frustração. indo se passa à maneira de um sonho idealista: cada sujeito é como n i i i . Anneliese Schnurmann. Mas isso é porque. Nas lições seguintes.nos é habitualmente dada do psiquismo. Como o sujeito é levado •i . e que tem toda uma série de efeitos sobre o comportamento do sujeito. • > • u|cito secretar de si mesmo suas relações sucessivas. pois quando falamos aqui em privação. instalado num vivido (Wiisiívcl por si mesmo — mas igualmente esta falta. numa das crianças confiadas à guarda da Hampstead Nursery de Anna Freud. limite ou hiância real. Vamos apreciar se é realmente possível à autora articular o que é essencial nesse caso a partir da noção de frustração. Na psicogênese corrente que nos é feita atualmente em análise. assim. e toda a sua concepção do inundo deve ser extraída de si mesmo e de suas imagens.1 ia privação experimentada. a sra. consiste em situar o simbólico antes —antes t|ne pudéssemos dizer coisas sensatas. junto com a do Édipo.u sendo os objetos do mundo humano que é o nosso. a falta só se compreende no plano imaginário. não se trata . existem todas as aparências i Ir 11 ue a psicanálise o torna possível. no mundo humano. ni. quando isso é uma manifestação do erro < MI <|iie estamos. como dano imaginário. sua estrutura central a cada um. Só se pode expor corretamente o problema das relações de objeto ii | >a ri i r de um certo quadro quê deve ser considerado como fundaIM. e a astúcia consiste simplesiii. uma fobia. são coisas essencialmente distintas. isto é. Este quadro.i vez que nos atrapalhamos. uma entre mil outras. Esses níveis são os seguintes: castração. • ' 'mpleiamente fora do sujeito. assim. com efeito. i i l como formulada aqui. há uma falta fundamental que se situa.d para a compreensão. privação. que é sempre. que contém uma conferência de uma discípula de Anna Freud. negligenciando a noção de castração. Quando digo que. devemos considenl-la no real.miholizá-lo? Como a frustração introduz a ordem simbólica? Esta t n i|iiestão que vamos formular. em si mesma. bem o demonstra. tanto em seu começo como no seu fim — H" nível da frustração. Os analistas de hoje reorganizam. Na privação. A privação é o centro de referência de que precisamos. busca crítica. que lhe escapa. a experiência analítica a partir do nível da frustração. i aranha que deve tirar de si mesma todo o fio de sua teia. e depois desaparece. ao passo que id. Chegou-se M uni ponto em que todos se servem dela. isso quer dizer que ela não está no sujeito. frustração. lá está i ir sc envolvendo em seda no seu casulo. na cadeia simbólica. só se quer reter os aspectos que vão nesse sentido.cmelhante exercício porque. É assim que vou partir. isto é. vamos lê-la. relacionando-a com a privação de um objeto privilegiado. O que ela recolhe é suficiente para nos dar a noção de uma sucessão temporal durante a qual aparece. o que querem dizer esses termos. aquele do estágio em que o sujeito se encontra no momento da aparição da dita privação. em se tratando da privação.

ao contrário. em certas formas muito jwiliculares de dependência onde anomalias podem se apresentar com imlas as aparências do normal. no entanto. não sabe nada disso. Vnllaremos a isso. Já lhes mostrei no ano passado: para que haja os In ' lermos do trio. certamente. Até que ponto ela entra nisso? iSrrá de maneira espontânea e direta que a relação mãe-falo se dá à 111. se ela é efetivamente a criança.K i-om relação ao falo? Ou. extremamente distan- . de sua escola. que vê todas essas imagens do corpo. um elemento simbólico que aparece no ima- c H L u n > ? Estes são pontos cruciais em torno dos quais formulamos a > i " < Milo.i aberta para a solução do problema. A fobia. é preciso um espaço fechado. até mesmo de uma projeção? Isso não é supor que toda relação entre sujeitos seja da mesma ordem que a relação da sra.56 TEORIA DA FALTA DE OBJETO O SlGNIFICANTE E O ESPÍRITO SANTO 57 nem isolado. Dolto com seu sujeito? Estou surpreso que ninguém lhe tenha perguntado se além dela. quando nenhuma via de outra natureza t '. É surpreendente que ninguém tenha falado ontem à noite de uma passagem da maior importância do que nos trouxe a sra. e que não é ele quem introduz a ordem simbólica. para a mãe. este é o ponto importante. o apelo a um elemento simbólico singular. aqui. ou introduzida. será assim. vou lhes dizer ainda que se trata. tão essencial no desenvolvimento da fobia. a fobia constitui um apelo por (incorro. Ela concerne a este laço demarcador. Esta ia outra questão além da fobia. Dolto. da mãe — do sexo oposto. é de uma maneira de certa forma direta que ele aborda o dano imaginário — não o seu. Kl» não repousa sobre a ligação dita acima. que a criança só tem acesso a isso depois de uma época de simbolização. da criança e do falo. da criança e do falo. de questionar o fetichismo. em imagem corporal a propósito da criança. uma organização do mundo simbólico. ao contrário. Será. por exemplo. e que certamente nos levará longe. Hm que consiste sua singularidade? Digamos que seja por aparecer . e ainda. aí. vem ocupar mais ou menos a posição da ni. aqui. a criança esteja longe de ser apenas a criança. Pois bem. que tem sua relação com a mãe. em certos casos. Igualmente. a posição do falo em relação à mãe? l ' i > i (|iie chegamos a isso? O que aqui está em jogo é a ligação que a i 1 i. com o triplo • i|iirma da mãe. havia alguém que as visse assim? No entanto. já que ela é também o falo. satura e satisfaz nela. que a mãe vê seu filho? Esta é uma questão que não foi. a fobia é mais desta nidcin. constitui uma discordância imaginária. que se chama o pai. é induzida. Ela constitui um outro modo de solução do difícil problema introduzido pelas relações entre H criança e a mãe. e foi por isso mesmo que situei o trio da mãe. ao lado da criança. O fato de que. dela. só se tornam fóbicas as crianças de um e de outro sexo cuja mãe se viu tendo que suportar um distúrbio na relação objetal que a ligava ao seu progenitor — dela. em que momento a criança é capaz de perceber que o que sua mãe deseja nela. em absoluto. que a criança simboliza ou realiza mais ou menos. um imaginário que é refletido no simbólico? Será. isto é. uma coisa completamente diferente das relações entre a criança e a mãe. Isso está ao alcance da experiência. Falo fetichismo Mãe Criança ESQUEMA DO FETICHISMO l'or que a criança. Aí está uma noção que faz intervir. nem independente. Já a criança. mas que. a exigência do falo. e para desde já MI rndcr uma luz. é sua imagem fálica. a saber que. levantada. tanto menino como menina.rnipre como extremamente simbólica. mãe? Que possibilidade tem a criança de ter acesso a este elemento relacional? Será isso da ordem de uma efusão direta. ontem à noite. Existe sempre na mãe. Por ocasião de um moincnio particularmente crítico. Certos elementos que daí se destacam mostram-nos. quando se desenvolve. uma coisa deve realmente lhes ter surgido: esta imagem do corpo. e de um ou outro analista.mca estabelece entre o falo e a mãe.i. Quando se falou. Para não deixá-los completamente em jejum. se é mesmo acessível à criança. não é absolutamente desta ordem. mas aquele em que a mãe se encontra quanto à privação do falo.inça? Tudo acontece simplesmente porque ela olha para a mãe e l" H rhe que é um falo que esta deseja? Parece realmente que não. segundo ela. sobre a qual se formula a questão de saber de que maneira a criança.

A mãe. a confusão de que os analistas i' i nu provas. o elemento que intervém na fobia tem um caráter verdadeiramente mítico. A fobia da pequena inglesa. Retorno ao Fort-Da. tal como este se coloca em análise. A criança e a imagem fálica. e que permite articular com precisão u |nol)lcma do objeto. teve como resultado um deslizamento curioso. AGENTE FALTA DE OBJETO Castração Dívida simbólica Frustração Dano imaginário Privação Furo real OBJETO imaginário real simbólico \1 '. 5 DE DEZEMBRO DE 1956 IV A DIALETICA DA FRUSTRAÇÃO A frustração e o verdadeiro centro da relação mãe-filho.58 TEORIA DA FALTA DE OBJETO ciada do imaginário. No momento em que é chamado em socorro para manter a solidariedade essencial ameaçada pela hiância introduzida pela aparição do falo entre a mãe e a criança. A falta de rigor nessa matéria. do simbólico ao real.lá o quadro a que chegamos. 59 .

ii Ilustração e a privação. > de Freud. ritual. e por outro lado se furta mesmo. ou que é posto em jogo. e por ter participação no fato de que isso se tenha tornado um lugar-comum. que concerne ao objeto. na . i 11. nada que lhe esteja originariamente ligado. por exemplo —. várias vezes. por um lado. Em suma.iuul é o objeto que está em causa. ni. e não à relação de objeto. com outras características. seus paradoxos.ilinente. como já frisei para vocês muitas vezes. Mas é uma citação entre outras que vão no mesmo sentido. agora. jamais é satisfatória. segundo o princípio do prazer.60 TEORIA DA FALTA DE OBJETO A DlALÉTICA DA FRUSTRAÇÃO 61 A análise partiu de uma noção. Pode-se dizer também: a possibilidade de seu apaziguamento. n o de que a castração esteja no nível da dívida simbólica é sufi• . . i h i i r a . A questão agora é articular a concepção do objeto em jogo aqui e. e é disso que vou partir hoje para tentar levar um pouco ( M M . o • |M. vimos. Para fazê-los avaliar a distância que separa esta noção do que o próprio Freud articulava com o maior rigor. Estes são três termos cujas diferenças é l. a redescoberta. para fazer isso. que a Wiederfindung.. nem cultivada. Trata-se da satisfação na medida em que. l i v n l . O objeto não lhe está literalmente ligado. da análise. e em particular a rever aquela que foi posta no centro lln teoria analítica atual. Não é tanto por ter valorizado o papel da sexualidade. e portanto. Adiante a dialética da frustração. que o objeto é. somente.iilo. escolhi para vocês uma citação das mais significativas. graças a vários pontos articulados diversamente na obra de Freud. prossigo.1 Kiialidade. na concepção de . i n . em si mesmo e fundai i i . Isso não é uma doutrina.i-la? Trata-se. a saber. coerente com aquilo que constitui a base da doutrina ' i i i . mído marcar. nirinente justificado. i. Aqui está. das relações afetivas do homem.n i i ( . a noção i l « Ilustração é marginal. É singular que a partir daí tenhamos deslizado para uma noção harmónica do objeto. penso. a noção de que o objeto é sempre. e mesmo demonstrado. isto é. por essa ob1 1 í . nem posta de saída na premissa. ( ) que vem a ser a castração? A castração está essencialmente ligada a uma ordem simbólica IM . Além disso. ver por que desvios Freud nos conduz para nos fazer conceber sua instância eficaz.irão apreciada. a noção de frustração. é um objeto imaginário. e muito mais ainda que ela. Mesmo as pessoas menos avisadas observam que a obra de Freud contém muitas coisas relativas ao objeto — a escolha do objeto. provocou de saída tanto escândalo. que a abordagem do objeto sexual apresenta uma dificuldade essencial que é de ordem interna. de criticá-la a fim de torná-la utilizável. está articulada a noção de que não existe harmonia preestabelecida entre o objeto e a tendência.unpouco nada tem que introduza em si mesmo. Pelo menos é isso que l n ml afirma. cada um se sai como pode. a frase de Freud: O objeto da pulsão é aquele através do qual o instinto pode atingir seu alvo. sustentada por todas as nossas reflexões anterioi. ao mesmo tempo que esta noção. onde. é uma citação. Portanto. I M u ida. I ' i iibrci a vocês o que se apresentava de saída no dado: a castração. é porque o plexo de Édipo comporta. daí por diante. Já chegamos a destacar. Mas é precisamente porque ela introduzia. i. A frustração. para nós. o que. l ím que medida esta noção foi necessária? Em que medida convém i . mas algo que lhe é subordinado apenas em consequência de sua apropriação para seu apaziguamento. Ela ocupa a posição central neste quadro.. parcialmente. que chamarei de escandalosa. 1'cin como por esta simples observação: em Freud.1 dizer tudo. o alvo da tendência é alcançar seu próprio apaziguamento.11. como o elemento de articulação essencial de toda a evolução • l i . I 1 f . Eis-nos agora levados a delimitar com mais rigor as noções fundamentais. i simbólica instituída pela castração? Como lhes indiquei da nl i vez. A ligação da castração com a nitlrm simbólica é evidenciada por todas as nossas reflexões anterioi. i MI. à apreensão . a noção da lei. desde o início. l ogo. senão por condições que lhe são próprias. mas que a própria noção de relação de objeto não é ali em absoluto enfatizada. N uisiração foi ligada à posição central atribuída ao complexo de fttlipo. um objeto reencontrado a partir de uma Findung primitiva. da qual em caso i i l | M i i i i o sujeito poderia ser isolado. Ele é o que há de mais variável no instinto. o que ainda permanece fundamentalmente o pensani. que dele é absolutamente ineliminável. o falo. inade- (|ii. Acredito já ter sublinhado. Se escrevi dívida simbólica no quadro. que comporta toda uma longa coerência. extraída de seu artigo sobre "as pulsões e suas vicissitudes".

Trata-se.i|. e a sra. Trata-se de condições reais. pelo viés da experiência analítica. simplesmente.1.a criança enfrenta um estádio absolutamente primitivo de seu desenvolvimento.nas primeiras fixações.62 TEORIA DA FALTA DE OBJETO A DlALÉTICA DA FRUSTRAÇÃO 63 vocês. que com a noção de frustração introduz-se no condicionamento. As provas para o que esta observação nos desperta não faltam. Como Freud falou do estáilio vivido de auto-erotismo. por excelên> 1.i em Freud. aquelas que permitiram descrever os tipos de diferentes estádios instintuais. ao contrário. da única forma de amor em que o egoísmo e o dom são peileitamente conciliáveis. Basta reportar-se aos textos para ver o passo que foi dado na investigação da criança guiada pela análise. considerada como um conjunto de impressões reais.iis premente? Existe aí um mal-entendido nascido de uma confusão que fez a diseussão marcar passo e chegou a formulações tão diversas que não posso. em presença de um sujeito que está numa posição i Ir desejo para com o seio como objeto real. I s i a m o s . O que pode ser mais manifestamente exterior ao sujeito que este objeto que é. Ela modela a experiência do sujeito e prepara nele certas inflexões que darão a vertente segundo a qual o conflito edipiano será levado a se infletir. fixações. que o sujeito seja dois.ul. c Io sujeito com o objeto real? Os teóricos da análise viram-se. pois.icão do que está em jogo. uma certa soma de benefícios adaptados. a cada uma das etapas do desenvolvimento do jovem sujeito. na medida em que se estabelece uma per- . nesse sentido. A noção de frustração. alguns mantiveram sua noção interpretando este auto-erotismo como a relação primitiva da criança com o <ili|i-io materno primordial. Isso lhes será fácil de avaliar. quando posta em primeiro plano da teoria analítica. Balint chamaram de Primary Lave. ou pelo menos está articulado diferentemente no nível conceituai. Este interesse pelas condições reais que fulgura em tal trecho da literatura analítica atual está. a necessidade ni. Limitando-nos aqui. devido apenas ao fato desse deslocamento de interesse na literatura analítica. sádica etc. Outros objetaram que era difícil relacionar u n i a noção que parece fundada no fato de que o sujeito só conhece a M mesmo com os inúmeros traços da observação direta de relações entre criança e mãe que parecem contradizer que nessa ocasião não h. de certa forma. ausente das primeiras observações analíticas. num sentido que poderá ser atípico ou heterotípico. gratificação. tal como é il. enumerá-las antes de ter progredido na conceituah/.i posição do outro. se refere à primeira idade da vida. a que se refere. no desenvolvimento do sujeito.i relações eficazes do sujeito com um objeto. Ela está ligada à investigação dos traumas. com efeito. veremos aonde isso nos leva. o terreno preparatório. O importante é compreender o que quer dizer a frustração. todo um cortejo de noções que se traduzem numa linguagem de metáforas quantitativas — fala-se em satisfação. que se supõe devamos observar nos antecedentes do sujeito. Foi a partir daí que se puderam articular as relações da fase oral e da fase anal. e de que ele tem. em seu conjunto. com suas subdivisões fálica. Essa teoria quer conciliar a noção de auto-erotismo. a base e o fundamento. temos aqui a anatomia imaginária do desenvolvimento do sujeito. e cuja saturação mais ou menos completa — ou. nr^undo eles. que participe sempre de uma situação dual. como ela foi introduzida. Ela atinge uma concepção articulada e surpreendenIr. a de Alice Balint.iinhivalência. — e mostrar que são todas marcadas por um elemento de . Eis. carência — é assim considerada como um elemento essencial. Em suma. Qual é o modo de relação para o objeto que está em jogo na frustração? Ele introduz manifestamente a questão do real. que o ST. que é a do desejo. a mais primitiva. o primeiro alimento. envolvidos numa ihscussão que fervilha de mal-entendidos. sem a qual nenhuma assunção geral de sua posição será possível. Eis-nos transportados ao cciiiro da questão — o que vem a ser esta relação. e inscrever-se •. não anulamos muito a noção posta por Freud no centro da conflitualidade analítica. um descentramento ou uma desordem. vividas pelo sujeito num período de desenvolvimento em que sua relação com o objeto real está centrada habitualmente na imago dita primordial do seio materno. com referência ao qual vão se formar nele o que chamei há pouco de suas primeiras vertentes. A frustração é. ao menos para aqueles dentre vocês bastante familiarizados com as três noções no quadro para reconhecê-las com facilidade. com efeito. simplesmente. adequados. a i rói ia de que já falamos. de maneira mais ou menos intensa. Isso não implica que seja exterior ao Édipo — ela lhe dá. impressões. provenientes de experiências pré-edipianas. com o que parece se impor da realidade do objeto com « i u < . de imediato. portanto. Vou lembrar a vocês. Acentuando a noção de frustração. que faz com que a própria posição do sujeito participe il.

É claro que a representação fundamental que nos dá a teoria kleiniana não é exatamente aquela do Primary Love. à conclusão que pensam poder tirar da contribuição kleiniana — de que se trata. um artigo dos srs. no sujeito. a saber. adequado. a formulação que o conjunto iinnj'. Caiu-me nas mãos um certo boletim.11.1 veria. .i estaria contido na bolota. sem vergonha. 11. nesse boletim. a mãe leva sempre a criança nas costas.c. Neste boletim mais confidencial. de tal maneira que não seria surpreendente ver ••MI consequência.r inscreve no desenvolvimento aquilo que é trazido do exterior. Para tal sujeito. Logo. mas sim reconhecer. inicialmente. só pode ser • Miicchida como um esquema pré-formado. a partir do quê se instaura n |>icicnsa posição depressiva. já potencialmente articulados. e que constitui o centro do artigo. de que ali onde as relações são naturais. e absolutamente incriticada. com efeito. autores que figuram no volume que evoquei quando de minha primeira conferência. em Mother's Love and Love ofthe Mother. no país dos sonhos. do campo materno. Isso é formulado a título de crítica. uma perfeita complementariedade dos dois pólos da necessidade. Lidamos perpetuamente. A teoria deste auto-proclamado amor primitivo perfeito e complementar comporta além disso. lealmente. posta em primeiro plano e de modo prevalente. É alhures. mas de que w lembra. na teoria do desenvolvimento biológico.I hereditariedade. e é por isso que é divertido ver-se por que viés é atacada a reconstrução teórica que ela propõe. Chegam. no sujeito. o qual frisam que i* ninito difícil representar. lá onde. que reproduz a crítica dirigida por eles às posições kleinianas por ocasião do Congresso de Genebra. a progressiva • < >nstrução da totalidade da mãe que. as coisas são abordadas com mais nuanças. a noção do objeto interno.n K ditam ler em Melanie Klein que aquilo já está dado de saída numa i unsielação interna. assim. 11. situaria tudo no interior do sujeito de uma maneira pré-formada. uma teoria do desenvolvimento que. da relação de objeto. gostaria simplesn i f i i i c de sublinhar para vocês. como todos sabem. Tomei este exemplo somente para nos introduzir ao que será o elemento motor de nossa crítica da noção de frustração. já estaria incluído no dado instini u. senão ideativa.i i M c valência da agressividade é manifesta em Melanie Klein quando m. De fato. em estado de esquemas pré-formados. dizem eles. Eles . mas também se os autores não estão bem mais próximos do que «creditam da posição que reprovam em Melanie Klein. pois. a saber. Os autores pedem que se compare isso com a maneira como. Os autores parecem aqui fascinados pela questão de saber como •. de que só se tem que lembrar.a compreende nessa perspectiva —. no Jardim das Hespérides. a criança é sempre mantida em contato com a mãe. com a evocação da marca de tudo aquilo que pôde sobrevir de discordâncias verdadeiramente fundamentais. Este mundo.n. Essa concepção é perfeitamente contrária a toda experiência clínica. Encontra-se. O caráter platónico dessa formulação não pode escapar. Pois são eles. paradoxalmente. por intermédio destes.i necessário para apreciá-las em seu justo valor. em Melanie Klein. nr. e só deixassem isso transparecer em lugares afastados onde. em MI. e a maioria de vocês vai reconhecê-lo. depois.iura-se em função de uma certa preparação imaginária à qual o Miieito se encontra. c os diferentes elementos. i mu seu desenvolvimento possível. a assinatura dessa discordância. em seu sumário. sentidos pelo sujeito como vindos do extei n > i . isto é. as pulsões agressivas primitivas — com efeito. e como que destinado por si mesmo a encontrar sua reciprocidade. nada viria do exterior. Todo o Édipo.i. umas depois das outras.64 TEORIA DA FALTA DE OBJETO A DlALÉTICA DA FRUSTRAÇÃO 65 feita reciprocidade entre o que a criança exige da mãe e o que a mãe exige da criança. entre os selvagens. aqui. e que ela em seguida nada terá a fazer a partir de si mesma nem de qualquer outra coisa.i alguns. quando se toma conhecimento dela. isso a faz parecer ainda mais meritória. Encontram-se. pelo que nos dizem. Pasche e Renard. e mesmo de oposição. Trata-se da observação de Alice Balint. os choques de retorno dessas pulsões agressivas. Mas teremos que pôr à prova não nomente se esta crítica não vai de encontro a tudo o que Freud escreveu. a criança nasce com Instintos herdados diante de um mundo que não percebe. certamente. e que está centrado numa visão otimista. como • M. só teriam ijiie sair. Eles desaprovam. nem mesmo descobrir por uma série de descobertas insólitas. constitui uma evasão tão pouco compatível com uma teorização correta que os autores acabam por confessar que esta é uma posição ideal. que indicam que existem daí para a frente. a teoria kleiniana. da noção de esquema hereditariamente pré-formado. em sua opinião. em seu enunciado mesmo. e prontos . como se fosse da falta de segurança que tivessem um pouco de vergonha. todo o carvalho |. que é o da Associação dos Psicanalistas da Bélgica. e. a noção de um amor tão estritamente complementar. daí por diante. Sem considerar todas as críticas.

objetivamentè>imas articulada pelo 'mimo. um caráter retroativo. Essas fantasias têm apenas. constituição do outro. na concepção kleiniana. No c . onde não f x isto. o agente é a mãe. que é originariamente a m i . Já d entóiciamós>èrn'nossos estudos do atiô passado: a presen- . deslocando-se em meio aos irmãos e irmãs nessa espécie de campo definido pelo interior do corpo materno. a relação direta. É um erro não partir da frustração. é uma bola. jogos de domínio sobre um objeto perfeitamente imlilcrente em si mesmo e sem nenhuma espécie de valor biológico. muito mais. Melanie Klein tomar um sujeito na idade extremamente avançada de dois anos e meio e. isto é. precisamente. as lembranças do sujeito. irão constituinte da criança diante dos jogos de repetição. Este acoplamento de presença-ausência. é possível introi l i i / n a noção do agente. A mãe é outra coisa que não o objeto primitivo. será bastante lembrá-los do que já estudamos nesses últimos anos. senão com relação à falta. no entanto. nem abordagem i uni cbível da relação. despedaçadas. do pênis. mas poderia ser igualmente qualquer coisa que i i i i i . uma questão fecunda. i^-'" fimoJ a. e trata-se justamente de saber como algo como uma ordem pode se estabelecer a partir daí. todos os elementos que permitirão ao sujeito cooptar-se a uma série de etapas que não são ditas ideais.66 TEORIA DA FALTA DE OBJETO A DlALÉTICA DA FRUSTRAÇÃO 67 a surgir num determinado ponto. Para lhes mostrar isso. Com efeito. elemento novo de lomlulade. Kxiste. alguma coisa de que a sra. Foi isso que Melanie Klein quis dizer? É estritamente impensável sustentá-lo. O que é característico na origem é o rumor e o furor das pulsões. e não se trata de segui-la quando ela nos diz que o Édipo já estava lá sob as próprias formas.iso. nem entra em função. como a pitonisa num espelho mântico. que se opõe aoiCaoS de õbjetos despedaçados que caracteMnria a etaipa precedente. Podemos escrever por S (M) o símbolo da frustração. Pois bem.meia. parece-me. Melanie Klein nos dá a ideia — e não é este. Assim acontece. dizem-nos que em certa etapa do desenvolvimento. por um lado.irão fundamental que é relação da falta do objeto. Muito se esclarece caso d nhordemos da seguinte maneira: existem.ii a apanhar em seguida. duas < i lentes na frustração. Tudo isso. não está de acordo. É unicamente em função de uma periodicidade em que podem aparecer furos e carências que vai se estabelecer um certo modo de relação do Mi|ciio que não necessita em absoluto admitir que haja mesmo para rir distinção entre um eu e um não-eu. a partir desses IM nuciros jogos.s. falando propriamente.i noção central. por exemplo. desde a origem. a saber. Essa articulação teórica. E nessa i r l. situa de saída uma premissa que. Que haja. que darão seu tipo e norma. ter-se uma noção justa. conota a prifncir-a constituição do agente da frustração. como frisou Freud. com certeza. que encontramos reunidas até o final. O objeto é real. • i' '. existe o agente.cucial à posição geral do problema. com o que mostra a experiência. que é o verdadeiro centro quando se trata de situar as relações primitivas da criança. Nobre ã'Mãe. ela introduz um. aliás. Se existe.ela obqB ob oK^rrol ÍP-J lista tiãó^ô'situada'e&iiRs-tal. senão na medida em que são. existe aí algum tipo de miragem. muito precisamente. a partir de pontos que podem ser muito precoces. Ela não surge o tal desde o início. Sem dúvida. e articulável muito precocemente. É certo que um objeto pode • "inccar a exercer sua influência nas relações do sujeito bem antes de In sido percebido como objeto. É na construção do sujeito que vamos vê-las se reprojetar no passado. mas. no comportamento desta. e. é certamente que a situação primeira é caótica. i|nr c a da posição depressiva. Por outro lado. divinatório. ii presença-ausência. de fato. o objeto real. que vai nos permitir trazer uma formulação • v. Neste caso. de maneira tão fulgurante. algo de mítico. disso não se duvida. este elementoHQvo>é. suas lembranças filogenéticas. nu posição auto-erótica no sentido em que a entende Freud. Mas. ler retroativamente em seu passado nada menos que a estrutura edipiana? Existe para isso alguma razão. eis o que nos coloca. puramente hipotética. que essa articulação seja revelada numa certa relação com a criança. que ele niplou. i criancinha de seis meses deixasse cair da beira da cama para loin. começa a lhes indicar o viés por onde podemos introduzir algo de novo na confusão que permanece no nível da relação primordial mãe-criança. n MI nlado de modo extremamente precoce pela criança. o que Freud articulou quanto à l "r. o sentido da crítica dos autores? —. É preciso ainda. verdadeiramente anárquica. é claro. o objeto não tem IN i. Mas por que esses pontos podem ser tão precoces? Como pode a sra. para melhor satisfazer nossa ideia de harmonias naturais.

ele satisfaz a uma necessidade. O objeto materno é chamado. que. em seguida. o . os objetos. portanto. mas também mmboliza uma potência favorável. O objeto tem. ela sai da estruturação. e as marcas. entra inicialmente pela imagem do outro i n i por aquilo que é passível de se possuir —. uma série. este elemento não basta por si só para constituí-la. Quando. Isso seria nhsiirdo. objetos de dom. é ela quem é onipotente. quando está ausente — e quando está presente. não a criança. destacar um elemento distinto da relação de objeto real. entre a noção de um agente. a conotação mais-menos. por parte dessa |ink-ncia. e o par de opostos presença-ausência. isto é. questão de observação. a partir daí. Em i n n l rapartida. em seguida. é a da onipotência do pensamento. não responde mais? Se. e torna-se real. que não é metafórico. o essencial desta. O que se introduz desse modo é o que tende naturalmente a adormecer no momento da frustração. a possibilidade. expondo a questão seguinte: o que acontece se > o agente simbólico.i e simplesmente. Conceber isso leva a impasses. a condição fundamental. i realidade posterior. ele é duas vezes objeto possível de satisfação — i n m o anteriormente. antes. o que acontece? Estes objetos que eram até então. Quando i l. possuíveis — deixo de lado a questão. a saber. Em suma. A criança se situa. Ela nos permite. cm. como dependentes desse objeto real que é. ou traços. distinta do objeto real que é o objeto de satisfação da criança. mas já há virtualmente na oposição mais e menos. e sim a m. Antes de mostrar-lhes isso de uma forma mais manifesta. duas ordens de prol > i u-ilade satisfatória. de certa forma. produz-se uma inversão da posição do objeto. se pensarmos que uma das es mais espinhosas da teoria. o uma fórmula.68 TEORIA DA FALTA DE OBJETO A DIALÉTICA DA FRUSTRAÇÃO 69 ça-ausência é. a posição se inverteu — a mãe se tornou real. os objetos que a criança i|uiT reter consigo não são mais tanto objetos de satisfação. suscetíveis de entrar na conotação pirsLMiça-ausência. real. vamos observar. no sentido em que ir. já que é necessário. e que é dela que manifestamente depende.mu-. É claro que esta escansão do apelo está longe de nos dar. rejeitado. Por quê? Até então ela existia na estruturação como agente. seja introduzido o par de opostos presença-ausência. estava inscrita na estruturação simbólica que a fazia objeto presenteausente em função do apelo — ela se torna real.i não responde mais. de uma ordem simbólica.u rsso aos objetos. não-eu. que nos dá o primeiro elemento de uma ordem simbólica. presença e ausência. com sua escansão. i 11 objeto simbólico. Ela decai. e como lul. toda a ordem simbólica. só responde a seu i nk-rio. vai oferecer precisamente ao sujeito a possibilidade de estabelecer uma relação com um objeto real. por uma vocalização. o termo essencial da relação da criança com o objeto real. de onipotência. objetos de satisfação. na experiência da criança. de realização ila mãe. Isso. a mãe como tal. A questão agora é a seguinte — como conceber o momento de virada onde a relação primordial com o objeto real se abre a uma relação mais complexa? O que é o momento de mudança em que a relação mãe-criança se abre para os elementos que vão introduzir o que chamamos de uma dialética? Creio que podemos formulá-lo de maneira esquemática. o seio — vamos toma-lo como r u-niplo — pode ser considerado tão envolvente quanto se quiser. no mesmo registro que o apelo. Nesse momento que estou descrevendo para vocês. dora* . entendemos aqui. propriamente. que já participa da ordem da simbolicidade. quero simplesmente evidenciar o que está envolvido pelo simples fato de que.io i|uer dizer que a onipotência em questão seja a sua. Isso é o que oferece ao sujeito a possibilidade de conciliar a relação real com uma relação simbólica. Correlativamente. l i n | u a n t o se trata de uma relação real. que dele restam. desde que esta se transformou. A onipotência de que se trata é a da mãe. Mas é concebível que a criança tenha a noção da (impotência? Talvez ela tenha. para a criança. desde a abordagem. a origem. é também o início da estruturação de i ' " l . em psicanálise genética. articulada no registro do apelo. tornam-se. E ei-los agora. quando. Sem dúvida. ao apelo do sujeito. o nascimento. ela não responde mais? Vamos dar a resposta nós mesmos. com efeito. O objeto vale como o testemunho do dom oriundo dii potência materna. Hm outras palavras. nem mais nem menos que a mãe até então. É fácil imputá-la a tudo o que está mais distante de nós. agrupada como tal. os objetos apreensíveis. Este é um momento . da mesma forma. para o sujeito.uva do valor dessa potência que pode não responder. assim. a potência materna. mas ela nos mostra seu começo. de saber ne a noção de not-me. Isso é muito importante de se guardar. e que é a poicncia da mãe. mas isso n. a partir do momento em que a mãe vira potência. torna-se uma poicncia.

Em • • i i u . como permitido. I N I . e dos quais toda a vida sexual fica.70 TEORIA DA FALTA DE OBJETO A DlALÉTICA DA FRUSTRAÇÃO 71 decisivo. nos diz que a mulher tem. a partir daí.n . assim como o casal MoPtimffr. Todas as espécies de variedades vão poder introduzir-se aí. num nível primordial. de modo apro* i i n . como veremos.i única totalidade de necessidades. como objeto de dom. a relação da mãe . e trilhar caminhos que não são os que se tomam correntemente" Vão ver agora a que. à maneira dos Balint. real. O que se situava até então no plano da primeira conotação presença-ausência passa. parecem ser ainda mais importantes para os membros da humanidade a quem falta o correlato real. como real. e como. l . dentre suas faltas ile tibjetos essenciais. as decepções. assumem-no como lícito. A questão. A questão é saber em que nu -mo. mas quase tudo que nos interessa nesse desenvolvimento e nos acidentes que o envolvem está aí para nos mostrar que a sua pretensa onipotência e os fracassos que esta encontraria não valem nada nessa questão. como real. segundo Michael e Alice Balint. não é possível de modo algum confundi-lo com o pênis em sua realidade. afinal. no mundo dos objetos. no imaginário. pois. Digamos. assume para a ni. Todavia. mais ou menos bem. que permanece definitivamente mítico. Existe sempre para a mãe ligo (|iie permanece irredutível no que está em questão. É errado. e torna-se algo que se pode recusar e que detém tudo aquilo que o sujeito pode necessitar. propriamente falando. da relação com aquilo que é o falo para a .ogo. Freud nos diz que. a um outro registro. nossa mãe e nossa criança que. a criança em presença de algo que ela realizou como potência. de um lado. In unira nesta algo que atenua. i li Ican Cocteau. a saber. diremos que a criança. vocês vão ver. palavras. A criança itttpcra alguma coisa da mãe. Esta investigação lhes poderá parecer um pouco teórica. que é. mas os fenómenos que se manifestam a ludii instante na experiência. a saber. e inteiramente impensável. Este objeto é definido como imaginário. imaginariamente. desconhecemos não Mimcnte o ensino de Freud. tal como se produz para a mãe. Consideremos. o falo. conservo-os no quadro o dois círculos exteriores. ou seja. entretanto. Não apenas nada indica. Mais precisamente — a criança. Vamos expor agora a questão de um ponto de partida completamente diferente. Niin podemos deixar de introduzir isso aqui.10 com a criança. são as carências. que ela a tenha. ao menos. em seu desenvolvimento.ijrm da criança? Onde existe diplopia. subordinada ao fato de que. eles assumem verdadeiramente seu uso. eis a mãe e a criança numa certa relação dialética. elas nos conduzem. e também recebe alguma coisa desta. se Mi'ompnnharmos Freud. Mipostamente primordial? Longe de ser harmónica. a imagem erigida. simboliza M imagem. a sua forma. a partir do momento em que isso depende dessa potência. é a seguinte — o que acontece na medida em . e que isso está estreitamente ligado à sua n l. a vantagem de introduzir distinções essenciais. Aí está. Esse falo tem um papel tão decisivo que sua nostalgia. em que a mãe passa à realidade a partir de uma simbolização absolutamente arcaica. têm um só coração. que a criança pode acreditar ser amada l » ' i M mesma.H. doravante. o falo. do que para aqueles que podem se assegurar de possuir sua realidade. Aí está uma premissa para nós. O que conta. divisão do objeto desejado. então. 1'rcud. Ela tem. os homens.1 função simbólica de sua necessidade imaginária — os três 1 1 1 1 n o s estão a í . por seu lado. algo que o satura. instinluitl. iHncórs reais eficientes com a criança. na medida em que . E mesmo que ele não precise disso. tanto quanto sua presença ou sua instância. por poderem existir ali.1 imagem do falo para a mãe não é completamente reduzida à HM. i i i v o . as mulheres. em que momento a criança pode entrar — e assumir Mi uma maneira. que afetam a onipotência materna. abre-se a possibilidade para a criança de um objeto intermeil > como tal. a criança pode ser introduzida diretamente à estruiiiin Minbólico-imaginário-real. que a criança tenha a noção de sua onipotência. isso se torna simbólico. Todos | 111 «is de situações já estruturadas existem entre a criança e a mãe. E nesse momento a mãe pode dar qualquer coisa. formam iiin. e. i . A | «n n i r do momento em que a mãe é introduzida no real ao estado de i* H ia. Afinal. Não considerando isso.1 criança é duplicada. muito precisamente. e de outro. mais ou menos simbolizada — na tlliwcao imaginária. existe um cuja função é paradoxalmente decisiva.. Por uma simples razão — se a mulher encontra ii i i nunca uma satisfação é. pela necessidade de uma certa Mlmacuo imaginária. com efeito. de súbito. sua necessidade ílf fulo.

não só por causa da guerra. Sai da cama. com todas as interdi«. e ao fato de ser uma discípula de Anna Freud quem faz a observação. um • ic IIOITO que morde. quando vem. nn ili/. isto é. Anunciei-lhes. Será isso que lhes quero dizer. percebendo que não é ela quem é amada. é recair sempre na mesma ideia. que não passaria de u n i i espécie de revestimento e de pretexto recobrindo algo de mais liiiiil. e é aí que intervém. e dedica-se. Esta observação nos é apresentada como uma fobia e. Esta imagem fálica. tendo. HM lohia. e que morde o sexo. A fobia se segue à descoberta da ausência do pênis? Por que In/anos esta pergunta? Porque este cachorro é. a cultura. Essa menininha. em que medida essa experiência vem se articular com o que lhe é oferecido na presença da mãe e de sua ação? Como se inscreve. será para o sujeito mais decisiva que tudo. Ela faz tudo para ser como os meninos. o caso de uma fobia numa menina. não somente de algo além dele próprio. que vamos acompanhar e entender o M"i i-Ia conta. a presença-ausência é regular.niismo da fobia. pois. Há nessa concepção algo de justo — é certamente o n u . a criança tem os objetos reais que quer quando a mãe não está lá. i|iic comporta.miental. ao passo que as angústias são primorilini 1 . para a rilmica.i que o cachorro morde a perna do menino mau. e dizer que se trata simplesmente. como lhes dizia há pouco. . ii onlx-r. o instinto de inoile. a ponto de dizer que ele explica. uma bela noite. passam-se i|Uiilin meses entre a descoberta pela criança. de que ela própria é desejante. de i" i "iializá-las. A primeira frase realmente longa e articulada que ela l< meia — tem um certo retardamento em sua evolução — é para i l i / i . trazendo aqui este caso ili i ' > l n a ? Não. I 11 11 anqueamento é feito a cada instante. o reconhecimento deste terceiro termo imaginário que é o falo para a mãe? Muito mais. porém simplesmente desejante. Mas o TI «iiiero que observem é que o objeto da fobia está ali como agente i|in u-iira o que no início fora mais ou menos admitido como ausente. de um álibi imaginário. Jones. o ii iiipo levado pela fobia para eclodir é bem mais longo. dia a dia — e sua fecundidade.». com certeza. desempenha seu papel de mãe simbólica. primitivas. Com efeito. ela não compreende nada. Um drama se produz nesse sentido. quando está. Viimós fazer um curto-circuito. é preciso levá-la para outra cama. a garotinha acorda assaltada por um medo louco. como se expressa o pequeno Hans. Em consequência. percebendo que os meninos possuem umfaz-pipi. falando propriamente. e isso em pleno •i. Portanto. o supereu talvez não passe. chega de mansinho. ou ainda que as imagens do sonho são apenas mu i (crta maneira que o sujeito tem de revestir suas angústias. Esta criança está separada de sua mãe. neste sentido. os fatos vão deixá-la num estado de espanto que faz toda a precisão da observação — tudo é anotado. isto é. Por que o cachorro? — vamos falar disso mais tarde. o desconhecimento da ordem simbólica. a saber. afetada em sua potência. Em outras palavras. como faz o sr. mas uma certa imagem? Existe aqui algo que vai mais longe. l islão vendo a relação existente entre a simbolização e o objeto ilii lohia. ao abrigo do que vem repousar II ijiio existe de fundamental. Mas o mecanismo da fobia é o mecanismo da fiihin. como se pode dizer. põe-se a funcionar em posição de rivalidade. O sr. sentir-se despossuída ela mesma de algo que exige da mãe. Devido à guerra. é algo de caduco. da intervenção i h um demento que é. de uma passagem no nível da lei? — isto é. vê-se a sua função de mãe simbólica. e. querendo mordê-la. e vou lhes indicar agora o seu interesse.n lulo. provido de potência. Não compreende nada porque a teoria da sra. Tem um cachorro ali. e a . por ter sido nu . min de sua fobia. extraído? < ) esquema que tentei articular hoje vai.ilei. ' i interesse da observação é indicar com precisão as ausências da lurante o mês que precede a eclosão da fobia. feito a descoberta de que os meninos têm umfaz-pipi. r estendê-lo. muito claramente: afinal. por exemplo. quer imitá-los. todos os tipos de boas condições estão reunidas. em certa medida. Pasche no fim do artigo de que i i " i. Anna Freud é falsa. a relação narcísica. de seu afalicismo. então. Ela vem ver a filha. Em suma. da última vez. Certamente. mas sem nenhuma consequência. de fato. e também manuseá-los. A criança é observada de ponta a ponta. M fim ile justificar o que está ausente por estar ausente.72 TEORIA DA FALTA DE OBJETO A DlALÉTICA DA FRUSTRAÇÃO 73 mãe? Em que momento a criança pode. a joguinhos de aproximação — anda na ponta dos pés. A menina — que tem dois anos e cinco meses —. a noção de que à mãe falta esse falo. e a fobia evolui por algum tempo. manifestamente. e por uma boa observadora. Isso sabemos à medida que v n i nos analisar a criança. mas porque a mãe perdeu o marido no início da guerra. a criança a realiza sobre si mesma. no fundo. No momento em que a criança apreende a diferença dos sexos. tudo vai muito bem. por exemplo.. as angústias em seu estado Inronsiituído.

e sua falta inscreveu-se na reação e no comportamento da criança — a criança está muito triste. a abordar. Todavia.artifício? Isso é o que começaremos. mas foi realmente necessário que acontecesse alguma coisa no intervalo. Voltaremos a falar desta fobia. E a psicoterapeuta se espanta — isso deveria ter sido uma bela ocasião para uma recaída de sua fobia. U icinor do animal castrador como tal. Quero simplesmente marcar para vocês a questão que se coloca. mas que era preciso ainda haver essa segunda ruptura no ritmo alternado da ida-vinda da mãe. tornou-se inteiramente alguma coisa que vale mais que o n m. torna a casar-se. Em suma. Pede a ela para mostrar-se nua. no i|in li. entrega-se. não tem mais a mesma presença nem a mesma alegria. considerando-se os antecedentes da fobia. de que ainda não falamos »(f ii^ora.n. ele N i i t i s l i l n i aquilo que nos parece ter sido saturado pela fobia. o pai está presente o bastante para M i i i i n l i i / . a teoria ambientalista em que se funda toda a terapêutica de Anna Freud indica que é na medida em que o eu está mais ou menos bem informado sobre a realidade que as discordâncias se mltihi-lecem. Primeiro.74 TEORIA DA FALTA DE OBJETO A DlALÉTICA DA FRUSTRAÇÃO 75 eclosão da fobia.cimento do objeto como fetiche. que dar de si. cansada — no dia seguinte eclode o sonho com o cachorro. e de quebra por sua relação com o irmão. nesse m ciiio. «. precisamente. e a fobia se instala. Mas. i. nenhuma necessidade • • l u . nada acontece ainda.-sc aliás o porquê: é que ela é manifestamente preferida por • i i m. ao mesmo tempo de adoração e violentos. sob uma forma débil. a não ser um outro ponto que vou lhes dizer. a todo tipo de jogos. filho do padrasto. Este irmão. mas nada acontece. torna a brincar com a criança. volta fraca. A mãe apareceu inicialmente como alguém que podia faltar. l )i/. A garotinha se vê com um novo pai e um novo irmão. 12 DE DEZEMBRO DE 1956 . não <\> vc 11. mais tarde. E é nesse momento. lifln híi traço aí de perturbação mental. em seguida. mas que está essencialmente ligado à função da fobia. portanto. Mas será que a terapeuta vê tão claro assim? Essa relação em que • 1 1 1 1 r a girl do irmão é prenhe de todas as espécies de possibilidades c ii"loj'icas. a saber. da próxima vez. é preciso animá-la. a ii" i . com ela. por que via. a mãe deixou de vir porque havia caído doente e foi preciso operá-la. doente. Nada é mais significativo e paradoxal no caso. necessário. assim. em sua direção manifestamente. por que identificação. O que determina. deste modo. pois H pai está lá e ele basta.1 ser uma ocasião de recaída para a menina? Muito longe disso. Com efeito. A criança torna . sob uma outra face. graças à observação. a Blitz cessa. e se entrega.ic a este menino. Vamos nos introduzir. apoiada numa bengala. pela do pai. a saber. para mante-la. Ela volta. que surge a fobia. no terceiro tempo. do que acreditaram compreender. um elemento simbólico. no entanto não há fobia. que se pôr nisso. que se verificou ser o elemento • l.ici Certamente irá se tornai essa girl-phallus de que tanto se fala. ela nunca esteve tão bem. tendo permitido à criança atra• n a grave crise em que havia entrado diante da impotência maii i i i .a ver a mãe. A mãe não é mais a mãe simbólica. que ela adquiriu de repente e que é mais velho uns cinco anos. A presença do homem-irmão. nem as mesmas relações hebdomadárias de aproximação e afastamento que fazem dela um ponto de ancoramento suficiente para a criança. de imediato.nulo este caso clínico. Ela volta apoiada numa bengala. Podemos perceber. uiiculação essencial. Depois da fobia. i A criança reencontra agora sua necessidade saturada pela pre. um novo elemento. situado para além das relações com a mfii para além do que é sua potência ou impotência. que lhe representifica sua falta. personagem não apenas i . a uma atividade inteiramente ligada ao interesse que lhe dedica na medida em que ela não tem pênis. que o afalicismo não bastou. a fobia? O que se equilibra nela? Por que ela é suficiente? Vamos abordar isso na próxima vez. mas portador do pênis. i r . que ela. Descobrimos assim. HíNNn função imaginária. n.i se de saber em que medida ela não será implicada. a mãe recupera sua filha. Basta agora manter entre os três termos da (fincão mãe-criança-falo uma distância suficiente para que o sujeito Hfln lenha.i a l tem de ser preenchida pela articulação da fantasia fálica. muito afastado. da maneira como os terapeutas a atacaram. .i de mais característico na relação de objeto pré-edipiana. l M M • 11 u. e destacando de M I implicação na mãe a noção de potência como tal. a mãe faltou. A partir de que momento a fobia se torna necessária? A partir do momento em que à mãe falta o falo. h. i i n <>. Há um outro ponto não menos surpreendente. ('orno é mantida essa distância.1 materna.

eivadas. o que se trata de maniIt-star. não é possível estabelecer-se e manifestar-se aquilo a que se chama a relação pulsional primitiva. localizada. Meu voto desde então foi amplamente satisfeito por mais de um. O paroxismo perverso. alguns de seus artigos.is poucas palavras que poderei pronunciar aqui. A concepção analítica da relação de objeto já conhece uma certa realização histórica. que se afirmou no decorrer dos anos. tal como é concebida em sua base. isto é. convém pontuar bem a significação assumida pela relação de objeto quando posta no centro de sua concepção de análise pelo grupo daqueles que mais a mencionam. Outrora eu havia ironicamente desejado. . Se esta não se manifestar t4 porque foi acordado que ela não se manifeste.10. prevenindo-os ao mesmo tempo de que as coisas certamente vão lhes parecer ir muito mais longe à leitura do próprio artigo do que ii. Relendo. e sentida como viva pelo analista. que alguém expusesse de fato a noção da relação de objeto tal como esta é pensada numa certa orientação. Segue-se que a última palavra do que se passa no nível da pulsão. A relação entre o analisado e o analisando é concebida inicialmente como se estabelecendo entre um sujeito. no interior da convenção analítica. A verdadeira natureza da relação analítica. precipita-se agora e alcança uma concepção muito firmemente articulada. de certa forma. Afinal de contas.i|)d da motricidade na relação de objeto". v. É precisamente na medida em que. e um objeto i-\k-rior. O que tento lhes mostrar vai retomá-la num sentido que difere dela em parte. A solução fetichista. Para nos exprimirmos em nosso vocabulário. pude perceber que esta formulação. Pierre Marty e Michel Fain sobre "A importância do l>. que nos será pi-imitido perceber o que interfere com a situação constituinte. ilciiado ou não num divã. Este par é suposto ser.ilista é ali concebido como real. recentemente.in. Vou resumir este trabalho para vorês. Bouvet. em parte permanece o mesmo — mas o simples fato de ela se inserir aqui num conjunto diferente lhe dá. o . da reação motora do sujeito. Sendo o sujeito forçado a conter seus movimentos pela relai. o demento animador do desenvolvimento analítico. o analista. publicado no número de (aneiro-junho de 1955 da Revue française de Psychanalyse. a pulsão emergente. uma significação diferente. A tensão da siluacão analítica é concebida sobre a seguinte base: entre um sujeito. se podemos dizer. o paciente. mas é desejável que surja a sua ereção.unos encontrá-la do lado das pequenas marcas cuidadosamente ob•. em certos textos. a situação só pode se exteriorizar numa agressão erótica. outros fizeram um esforço do precisão. a todo instante.DA ANÁLISE COMO BUNDLING 77 piopósito da neurose obsessiva. e que veremos superpor-se à relação com o objeto exterior uma relação com . no espírito do analista. dos diferentes esboços. DA ANÁLISE COMO BUNDLING E SUAS CONSEQUÊNCIAS A pulsão a olho nu. tal como estabelece a convenção analítica. sob todos os aspectos. é precisamente nesse nível que se localiza. nos dá um i-xcmplo vivo da concepção dominante. Esta se manifesta normalmente por uma atividade motora —tal é o pressuposto do desenvolvimento da relação analítica. devido à regra. e o objeto exterior que é o analista. Perversão transitória de umfóbico. É aí <|iir a pulsão está. e se a formulação foi meio que se afrouxando por parte daquele que introduzira essa noção a 76 ( ) artigo dos srs. li manifestação motora da pulsão não pode se produzir. No ponto em que chegamos. por si só.

é verdade que num período postulante de sua carreira. é uma consequência matemática de tal concepção da relação analítica. Aliás. ser reduzido à distância real. a que toda a técnica se submete? Nosso esquema permite t'iHU'i'bê-lo. o que não quer dizer. em função do que. sua vinda ao primeiro plano. foi levado a valorizar a noção da distância neurótica que o sujeito impõe ao objeto. mesmo que o praticante partilhe uma tal con- rcpção. não se tratava de que ele pudesse senti-lo psicologicamente. eis como se chega a pensar a posição analítica quando se acredita que ela se inscreve numa situação de relação real entre dois personagens. A situação não é anulada pelo i. e. e deverá moldar suas intervenções. O afloramento dessa relação olfativa. mas o que ela é realmente permanece. Não se sabe. que uma concepção tão exorbitante não pode ser levada às últimas consequências. este grande Outro para além do . desde o início.-. e que algo deve aí se realizar. • ' ucialmente imaginárias. aos gritos dirigidos ao Miiiihsta do tipo — Por que. dera como virada crucial numa análise o momento em que seu analisando havia conseguido sentir seu cheiro. que é aquela entre o sujeito e o analista. Existe uma certa discordância entre este objeto imaginário e o objeto real. Existe. Uma verbali/. Saibam que não tomei aqui um exemplo excepcional.it. narcísica. pode-se exprimir assim: não se sabe por que se fala ihv. você não me respondei Vão enconi i n Io.mrira como se a concebe. e a relação pré-genital se torna cada vez m ir. veremos também emergir o valor todo mpecial dado à única verbalização impulsiva. ao menos na posição suspensa em que está. aquilo que tento expressar para vocês pelo esquema i|iic Ia/. tratava-se do momento em que o paciente percebera o odor do analista. o sujeito tem. Não basta concebê-la assim para que rhi seja assim como se a concebe. deverá. Segundo o artigo em questão. onde se realiza uma operação de redução do imaginário ao i . nprsar de tudo. A linha a-a' diz respeito à relação imaginária. já estruturado nu i dação falante. e que não é sem importância. aqui. Por um lado. este mais-além. é realmente certo que um dos modos mais diretos da relação com o outro é esta apreensão à distância proporcionada pelo olfato.o. que não é uma linha. a cada instante. pontuado da maneira mais precisa. Depois da formulação teórica. o essencial daquilo que é explorado na análise. A partir do momento em que esta é concebida como uma posição real. em razão da m. Mu c.<-stá ali. a situação em que ele opera nem por isso se torna realmente • i <|iic estipula a dita concepção. que estes estão separados nesse recinto por uma barreira convencional. e isso manifesta bem a insuficiência dessa concepção.icão do sujeito com o Outro. simplesmente refreada. se o que ensino a vocês é verdadeiro. medido. seguido por todos os outros. a dar uma importância capital a tais modos de apreensão. O objeto fantasístico. de fato. produz-se pi iH. aí. que se poderia dlupcnsá-lo. nesses autores. Sobre a linha S-A. intervir e se entrecruzar a relação simbólica e a relação imar in. O Outro não é simplesmente o outro i|in. que é a do pequeno outro. pouco a pouco. 1 1 No quadro dessa operação.io só tem importância para eles na medida em que é impulsiva. assim que a situação analítica se vê concebida como uma situa| | o irai. já que i i i i l o ivside ali. . pois convém estabelecê-la. Não era uma metáfora. assim. o que se chama a exaustão de suas diversas posições. segundo essa concepção. esta insuficiência pode ter alguma conse>|H' ncía sobre a maneira de levar a bom termo o conjunto da situação. Como não há. mas enquanto considerada nos mecanismos imaginários já instituídos no sujeito. nesse meio. Vai-se levá-la de viés. aberto à fragmentação.78 TEORIA DA FALTA DE OBJETO DA ANÁLISE COMO BUNDLING 79 um objeto interior. manifestação motora. e tornada objeto de uma relação fantasística. mas literalmente o lugar da palavra. Os autores. uma relação com um objeto interior. que é a pessoa presente. vejamos agora suas consequências práticas. Km que resulta a operação de regulagem da distância do objeto min no. É nessa medida que o sujeito irá realizar seu analista como presença real. que refere o sujeito 1 1 pino mais ou menos discordante. à relação imaginária. mais ninguém a entrar em jogo na situação analítica além daqueles que ali estão.ii« de ser ignorada. Já aludi várias vezes ao fato de que um desses autores. l : . Mas. inversamente. se realizar uma distância que é a distância ativa e presente diante do analista. vão muito longe. no entanto. o analista será apreciado. mas que isso se repetiu várias vezes. decomposto. um desses autores. ou interior. Parece mesmo haver uma tendência cada vez maior. Nada é dito sobre o fato da função da linguagem e da piihivra nessa posição. Fica claro. em cujo interior deve. ou fixado. desenrola-se um certo número de d In unenos que vão permitir situar as diferentes etapas em que o sujeito l" inianeceu mais ou menos aderido. k Imagem unificadora. uma servindo de filtro à outra. A única coisa que não está de modo algum elucidada numa tal i nu! i-pção da situação analítica. Logo. e de maneira vivida pelo sujeito.n ia.

que a mãe é justamente privada.80 TEORIA DA FALTA DE OBJETO DA ANÁLISE COMO BUNDLING 81 outro que vocês apreendem imaginariamente. O fenómeno pode manifestar uma persistência bastante duradoura.ação pela criança do falo que lhe falta. se podemos dizer.1 quarta função. falta também o falo.ili/. quer ii situação seja normal ou anormal. O triângulo é em si mesmo pré-edipiano. depois. por exemplo. O que acontece na situação edipiana normal? É por intermédio de uma certa rivalidade do sujeito com o pai. da relação simbólica inconsciente — e. em estado potencial —. a do pai. ou de cristalização. há m. na precipitação de um apego homossexual por um objeto de certa forma paradoxal que permanece ali à maneira de um artefato. Não vamos dizer nada. Este é um caso muito favorável para estudar a fobia. obtemos o que se pode chamar de reações perversas paradoxais. mas que o interesse da mãe. doravante. é que. Eis o ponto a que chegamos da última vez. Decerto. pontuada pela identificação numa alternância de relações. aqueles que precisamente o introduzem à relação simbólica. vir à luz. que se faz com . ao fazer do desenvolvimento inteiro da situação analítica uma busca da redução dessa famosa distância que seria característica da relação de objeto na neurose obsessiva. e para aniquilá-la. este Outro suposto que é o sujeito como tal. Se nosso esforço. não somente acolhê-la. com efeito. Tudo isso não surpreende. introduzida pela dimensão do Édipo. vivenciável simbolicamente. é toda a doutrina analítica que aí está. que praticamente não existiam na literatura analítica antes que se pusesse em primeiro plano este modo técnico. porque ele pode. No ponto a que levei as coisas da última vez. o sujeito já tem. a esta mãe que está no limite do simbólico e do real. com o surgimento deste ser fantasístico que é o cão. aquele que morde. A partir deste reconhecimento. aquele graças ao qual o conjunto da situação é pensável. mas também responder a ela. o sujeito em que a fala de vocês se constitui. na explosão. porque as coisas se passam no limite da relação nlipiana. o responsável por toda n situação. Aqui ele é isolado somente por abstração. um papel de filtro. mais ou menos acentuado segundo o caso. se não os pensamos sem cessar cada um em função do outro. É sobre esta linha que se estabelece tudo o que é da ordem transferencial. aquele que castra. num segundo Icinpo. se é que isto é possível quando só nos interessamos por ela — que baste a vocês saber que já temos os resultados disso. espécie de gelificação. falando propriamente. para ao mesmo tempo escutar e não escutar o que há a ser escutado no lugar da fala. até mesmo de obstáculo. Existe inicialmente uma dupla decepção imaginária — loi. fenómenos absolutamente desusados. já nos chegaram às mãos sujeitos que haviam passado por esse estilo de apreensão e de experiência. em segundo lugar. i esta perceber. . ao menos por um período provisório. a partir do que podemos chamar a decepção fundamental da criança. se esquecemos que existe algo que deve permitir ao sujeito elaborar-se. se nos referirmos à tríade imaginária. que alguma coisa se estabelece fazendo c i)in que o sujeito se veja conferir dentro de certos limites. a potência fálica. precisamente. sua própria regulagem. O que é absolutamente certo num certo número de casos. que l. Observam-se. evocando o caso de uma fobia transitória numa criança muito pequena. Esta solução é sempre convocada. Sim.ilia a ela mesma este objeto. de uma imagem em torno dos objetos que se acham ao alcance do sujeito. é o falo. e precisamente em casos de neurose obsessiva. percepção de que à mãe. Segue-se o apelo feito pela i nança a um termo que sustente esta relação insustentável. A regulagem com referência à imagem lhe serve. incide unicamente sobre a relação imaginária que ali está em posição transversa com referência ao advento da palavra. Esta se produz quando ela reconhece — deixamos cm aberto a questão de saber como — não apenas que ela não é o ohjeto único da mãe. Penso. rumo prelúdio à posta em jogo da relação simbólica. t|uc aqui intervém como.ns de uma solução possível. se negligenciamos a interação da relação imaginária com a simbólica e a impossibilidade do advento simbólico que constitui a neurose. É então a eclosão da fobia. no entanto. nosso interesse. se não nos interessamos senão pelo que os paladinos dessa concepção chamam de distância para com o objeto. Mostrei isso a vocês. Quando o atrelamento dos três objetos imaginários é rompido. percebê-la. e só nos interessa na medida em que é retomailo cm seguida no quator que se constitui com a entrada em jogo da (unção paterna. realizar-se tanto como história quanto como confissão. vocês viram esboçar-se uma linha de busca que se referia à tríade imaginária mãe-criança-falo. o imaginário desempenhando aí. se tudo é desconhecido sobre a relação entre a tensão imaginária e aquilo que se deve realizar. em cada neurose.

e o objeto de amor narcísico. modelado sobre a imagem narcísica do sujeito. f! na medida em que a mulher depende dele. o objeto de amor anaclítico. identificaniln se ao outro. A saída normal desta situação é que a criança receba simbolicamente o falo de que necessita. muito mais que de uma necessidade de amar. muito curiosamente. nem mais nem menos. que ele se torna o piniador do objeto do desejo para o objeto que sucede ao objeto materno. sej . mostrando sua raiz na relação especular com o outro. e de modo muito paradoxal. sob uma luz surpreendente. Este parece ativo na medida em que. no desconhecimento da posição dos elementos iiiicisnbjetivos que essas perspectivas paradoxais têm sua origem. que a posição se h n na anaclítica. Freud em seu artigo sobre os tipos libidinais. n. que tentamos elaborar aqui. i r. A relação de dependência se estabelece à medida que. de direito ao falo. vamos ver que existem singulares contradições na formulação oposta que Freud dá desses dois modos de relações. isto é. que é ele. Elas são muito singulares. quanto a si. a criança enquanto ser real é considerada pela mãe como símbolo de sua falta de objeto. alguns tendo levado as coisas a ponto de fazer deste apoio contra uma reação de defesa. quem a satisfaz. . e. Ele é. no plano de uma espécie de pacto. aqui. se presta a todos os tipos de mal-entendidos. o sujeito sabe que esse lhe é Indispensável. Freud distingue dois tipos de objeto de amor. ali onde tem interesse. o objeto indispensável. o único depositário deste objeto que é o objeto do desejo i Li mãe. é sempre concebida como uma pura e simples •. tu i n. . do que se chama uma posição ini . Eis o que faz a essência da relação anaclítica l » i i oposição à relação narcísica. do falo de que ele é ili u avante o senhor. a mulher materna. um elemento de atividade parece inerente ao comportamento muito especial do narcísico. o que " pode desconcertar. Este parêntese destina-se a mostrar-lhes a utilidade de pôr em jogo a ilialctica dos três objetos primeiros e do quarto termo que os abrange .i idação simbólica. segundo a posição de menina ou de menino. e sabendo-se indisl>i'iisável. sucessor do objeto materno primitivo com referência ao qual r i r se torna. como pertencente a ele e sendo-lhe de um legítimo exercício. É em função de semelhante realização da posição edipiana i|iie o sujeito se encontra numa posição que podemos qualificar. sua justificativa. de posição erótica. Uma parte da vida erótica dos sujeitos que participam desta n i tente libidinal está inteiramente condicionada pela necessidade. Eu lhes disse outro dia. se vê investido do falo como tal. porque é. anaclítica e narcísica. o objeto reencontrado e marcado pela relação com a mãe pi unitiva que é. de uma necessidade de ser amado. u i i i l . até certo ponto. É no plano simbólico.i i i u l o uma certa perspectiva. se lermos Freud. o que faz dele de certa forma o lugar natural cl. o representante.iiIo. é absolutamente claro. de seu apetite imaginário pelo falo. do Outro. num outro vocabulário. que se estabelece essa identificação viril que está no fundamento de uma relação edipiana normativa. Desconhece-se sua essência. li. nina vez experimentada.82 TEORIA DA FALTA DE OBJETO DA ANÁLISE COMO BUNDLING 83 Isso se faz de maneira diversa. até mesmo paradoxais. veremos muito bem que se trata de uma necessidade de apoio.io se perceber o seguinte: é na medida em que o sujeito masculino.so desde a origem da comunicação freudiana — a saber. e assumida. que leva a marca de uma dependência primitiva da mãe. Nos tipos de relação libidinal no adolescente. Inversamente. o depositário. a mulher. pois na realidade não existe em grego o sentido que Freud lhe dá e que é indicado pelo termo alemão Anlehnung — é uma relação de apoio contra. ao parceiro objetal. O termo anaclítico. chamaríamos de oblativo. é preciso que tenha sido previamente ameaçada pela instância castradora. Para o menino. É r i ai a mente o contrário da necessidade de amar com que Freud o . uma vez mais. que é originariamente a instância paterna. Mas. é muito mal empregado. que pede apenas para se abrir pelo lado de uma relação de dependência. Se formos mais longe. a propósito da relação anaclítica. ainda que o devamos a Freud.una. para que dele necessite. o que mostra realM K . i|iic é o objeto fálico. de súbito. na medida em que esta tem necessidade de encontrar nele o seu objeto.iii mesmo tempo. e somente ele. aliás. em pimeípio. h. o seu objeto na posição normal do Édipo. Esta posição. a narcísica nos surge. De fato. sempre desconhece o outro. no nível de sua persistência no adulto.u|iiilo que. para introduzir a distinção entre a relação anaclítica e a relação narcísica. A relação anaclítica. em princípio. Com efeito. Vou introduzir aqui uma observação lateral referente às formulações que se encontram sob a pena de Freud. ou prolongamento.10. de ótima em relação"ao objeto reenconn.n t e que esta é a posição mais aberta. Isso.nhivvivência. e que lhe atribui. isto é. levado a falar.

com efeito. uma dialética que confere à falta a dimensão do pacto. O próprio das relações imaginárias é serem sempre perfeitamente M I iprocas.urado. a falta de objeto constitui propriamente a via humana. a do incesto em particular.84 TEORIA DA FALTA DE OBJETO DA ANÁLISE COMO BUNDLING 85 a todos. o que veremos se produzir no decorrer d'.1 .c-f. Durante esta passagem ao ato. marca toda a i ii. e irá considerar a si mesmo como um objeto destruidor l u rã ela. até mesmo transubjetiva. um exemplo de solução. Há uma via mais direta. i < hama Eros à união de dois indivíduos. a coerência falha. onde se institui e onde se investe.realiza no interior de certas condições pontuadas. de uma interdição. A partir de um deslocamento imaginário com referência à parceira materna. no fetichista.uma análise de fetichista.. de uma lei. onde cada um é arrancado . muito significativamente. o i|iif há de menos satisfatório. Outras soluções existem para o acesso à falta de objeto. se é com o objeto que ele se identifica por um momento. efetivamente. i li. a relação imaginária se torne a regra e a medida da relação anaclítica. por isso devemos também lios preparar para ver surgir de tempos em tempos. por um instante mais ou menos frágil e transitório. a saber. que um acidente evolutivo ou um incidente histórico atinja os laços da relação mãe-criança com referência ao terceiro objeto. realizará para ela a assunção de seu longing em direção ao objeto fálico. pois essa posição é sempre. a qual é uma coisa inteiramente diversa. a propriedade de realizar um modo «Ir acesso a este mai^-além da imagem do outro que caracteriza a dimensão humana. Por exemplo. No fetichismo. T. Este termo introduz a relação simbólica. e perguntemos o que se torna ele caso. e acesso a esse mais-além. Unia tal unidade é realizada em certos momentos da perversão. Já no plano imaginário.forma que se apresenta sempre o paroxismo da perversão. que são não típicos. A teoria iiii. à falta da relação simbólica. Pode ocorrer.ujfito não basta para estabelecer um equilíbrio erótico de conjunto. tanto mais satisfatório quanto é inanimado Assim. como tal. aquela da realização da relação do homem com sua própria existência. a escolha fálica. ESQUEMA DO FETÍCHISMO(2) Este esquema nada mais é que o da perversão fetichista.ili/. o objeto fálico. A perversão tem. Observa-se uma convergência i n i uma ascensão para o momento que pode ser. intersubjetiva. com efeito. que é fusão. é mais . se quiserem. ou destruição dos laços. seu objeto exclusivo. É isso. pois introduz essa falta de objeto numa dialética onde se toma e se dá. Este jogo perpétuo. qualificado de passagem ao ato. ao menos. cfetivamente. Este é. senão em momentos que não são ordenados simbolicamente.ili/. No que diz respeito à realização da condição de falta como i i l a solução fetichista é. ter o objeto i Ir seus desejos ao alcance. momentos sincopados no interior da história do sujeito. até me MIIO virtual. ele ficará muito tranquilo. encontra-se como parte constituinte dessa unidade. existem outros modos que não os simbólicos. ele aí perderá.irlítica freudiana formula como tal esta dimensão transindividual. extra-históricas. em suma. Para restabelecê-la. e com ela a possibilidade de transcender a relação de frustração ou de falta de objeto na relação de castração. e de todas as relações animais possíveis no plano imaginário. não de identificação com a mãe.iv. Amar um chinelo é.ou-se algo.u i d estação fetichista. Discordância ou não-laço. a •uihiT. que é ao mesmo tempo o que falta à mulher e o que a criança descobriu que falta à mãe. n . uma das mais concebí• * r. certo de não sofrer ilcivpção por parte dele. Um objeto desprovido de qualquer pro(iiifdade subjetiva. a criança vai fazer. c vamos encontrá-la efetivãmente realizada. o pai. Isso já é suficiente para fazer dele algo de diferente do animal. a identificação da criança com a mãe. mas de identificação com o nli|do. incontestavelmente.1 mesmo e. O fato de que por um curto instante a iluminação fascinante do objeto que foi o objeto materno satisfaça o '. Mas ela só realiza isso em momentos como os que l n i» luzem sempre os paroxismos das perversões. seu objeto primitivo. se podemos dizê-lo. no lugar desta. . Existem os modos imaginários. a IIOMÇUO.ada. ligando-os na relação simbólica. realmente. já que são relações em espelho. na medida em que esta pode ser questionada. Voltemos a nosso sujeito. o próprio sujeito diz que encontrou finalmente seu oli|rlo. esta profunda diplopia. Este acesso imaginário à falta de objeto Ht. mas o jiioprio da perversão é precisamente que esta unidade jamais pode ser M. a mãe.

que ainda existe nessas espécies de ilhotas culturais onde persistem os velhos costumes. uma técnica. desde que ela manifeste . e que conservou. possa oferecer-lhe partilhar seu leito. que se reduzia a prática da análise dentro de uma certa i iMiccpção. Esta pequena passagem pôde passar despercebida. passou. é num plano. isto é. paradoi. e da esfera em i|iic este se localizou na Idade Média. a sensação de que era isso: o sujeito nunca está ali onde ele está pela simples razão de que saiu de seu lugar. Só há estabilização na medida em que se apreende este símbolo único. um pattern de relações entre macho e fêmea. ele prova que não c vagerei nada ao dizer que era a este fim. MUI mais-além do curto-circuito fisiológico. e a suas consequências psicológicas. Stendhal o relata como uma particularidade de fantasiosos suíços que se encontra igualmente no sul da Alemanha. de modo que existam todas as conilições de aproximação.i tradição que se pode chamar de religiosa ou mesmo simbólica. Kncontramos frequentemente paradoxos como esses nos usos e "••. Sem dúvida. fiz alusão ao uso deste modo de relação de objeto na análise. mas encontramos.mus depois da morte de Freud. da mãe ao falo e está.ilc.o que seja orientado para o analista. tem esta fórmula: que parece que se está em presença de um sujeito que nos mostraria. sobre eles. em direção àquele que i . muito precisamente. o algo que simboliza o falo. alguém da casa. que comportava longos estágios de contenção na presença do objeto amado. e quando se regula toda a acomodação da relação imaginária sobre um pretenso real da presença do analista. de que talvez possamos lamentar não |Mxlcr participar — isso poderia ser divertido — merece uma certa menção.nn. visando à realização dcsic mais-além que se busca no amor. o mais-além propriamente < louco. explicitamente formulados. e a geografia aqui não é indiferente.iante avançados. os costumes l "i . i n d o o que sabemos sobre a prática do amor cortês. a situação analítica chegou. tratando-se. pois esta niilcm de busca na realização amorosa foi exposta repetidas vezes na hisioria da humanidade. senão idêntico. ao menos análogo de relações que podemos conceber como de natureza essencialmente perversa. Esse texto é bastante surpreendente.1. a título de manifestação de hospitalidade. que devem se manifestar os resultados. pois nada há de exagerado em dizer que. alternadamente. faz-se um uso deliberado da relação imaginária . sua própria imagem em dois espelhos opostos.ivi-r contato. A partir do momento em que se dispõe da chave dessas técnicas e dessas tradições. implica uma elaboração técnica iniiilo rigorosa da abordagem amorosa. que procurou aprofundar seriamente o fundamento da relação fetichista.niolados todos os movimentos da paciente. mas esclareço o leitor através de uma nota especificando que o Bundling é uma prática muito precisa. Para atingi-lo. de um parceiro que aborda o grupo de maneira privilegiada. por exemplo. e ainda que tenha n Io publicado depois que escrevi meu relatório. O que se visa aqui e efetivamente se atinge é. essa seita protestante de origem holandesa sobre a qual alguém fez estudos l-. O que pode passar por ser uni feliz devaneio de costumes.ilmcnte. como. Portanto. Indo isso hoje é resultado de restos incompreendidos. No artigo de Fain e Marty há o relato de uma sessão onde são . com excessiva rapidez.(umes de certas ilhotas culturais. a seita dos Amish. quando se a centra inteiramente na relação de objeto fazendo intervir apenas o imaginário e o real. são reencontrados em outras áreas culturais u'. por exemplo.iis ligados a uma unidade religiosa. mas ela teve. de repente. se podemos nos exprimir nv. sem dúvida alguma. que consiste no seguinte: em certas condições. Esta fórmula lhe escapou sem que naquele momento ela soubesse muito bem por que. É o que vamos ver agora. sob a condição de não li. pois isso é de todo inesperado. que é o objeto preciso do fetichismo. de um certo manejo da relação analítica. numa e noutra posição. Este Bundling é uma concepção das relações amorosas. seus pontos de emergência. Daí a palavra Bundling (pacote): a moça está freqiienirtucnte embrulhada num lençol. menos a última. em geral a 11 lha. admite-se que.r. a maior ou menor distância. numa relação especular.1 as suas costas. uma formulação coordenada e deliberada em toda um. Em meu relatório de Roma. privilegiado e ao mesmo tempo impermanente. no mínimo transitórios. de maneira absolutamente consciente. dezessete ou dezoito .86 TEORIA DA FALTA DE OBJETO DA ANÁLISE COMO BUNDLING 87 Isso é tão evidente que uma Phyllis Greenacre. Comparava-o então a uma espécie de Bundling levado a limites extremos como fato de prova psicológica. da ordem de um élan mais ou maios contido. a ser assim concebida e formalizada.

Esse sujeito fóbico. para saber onde nos situamos. no sentido em que vemos aparecer. Seu sintoma mais manifesto é o medo de ser grande demais. não a mãe fálica. a abordar a questão. e o de fobia não encontra dificuldade. não sem ter uma amante quinze anos mais velha que ele. não se duvida disso em absoluto. substituto maravilhosamente ilustrado de uma imagem paterna absolutamente carente — obtém-se. a descoberta de um lugarzinho providencialmente iluminado graças ao qual podia. vinha então solicitar-lhe que mantivesse com ela relações amorosas. efetivamente. A própria autora se interroga quanto ao valor determinante de seu modo de interpretação no que se refere à precipitação daquilo que inicialmente tomou o aspecto de uma cristalização fantasística de um elemento que fazia. já que. a autora nos dá sua chave quando se interroga sobre a condução geral do tratamento e observa que ela mesma foi. enquanto ele mesmo ficava em seu próprio esconderijo. de autoria de uma pessoa que ocupou lugar de destaque na comunidade analítica. que ela tem consciência de que a questão está ali. não o são mais que um outro regramento qualquer da abordagem amorosa numa esfera definida de costumes ou. Dizer que a autora não está tranquila é pouco. e que era. Ele o é. realmente. Essas práticas podem parecer perversas. Logo. logo depois apareceu uma reação perversa. Ela percebeu. Enquanto se desenvolve a relação imaginária. aos olhos de um ingénuo. no cinema. Ruth Lebovici. com ele. O diagnóstico é feito de maneira apurada. O fato de formular a questão em torno desse momento prova que ela tem a consciência de que a questão está ali. evidentemente. Temos aí. a emergência da imagem de um homem de armadura. Quase tudo se lhe tornou impossível. visto emergir o objeto fobógeno. A analista que se ocupa do sujeito publicou o caso sob o título Perversão sexual transitória durante um tratamento psicanalítico. o homem de armadura. O que aconteceu? Tendo. um sonho repetitivo que é o modelo de uma ansiedade exteriorizada. Acompanhando a análise de perto. numa terceira etapa. a sra. Isso merece ser assinalado como um ponto de referência. uma mulher que urina masturbando-se ou não. . no entanto. provido de um instrumento particularmente agressivo que nada mais é que um tubo defly-tox (spray inseticida) que vai destruir todos os pequenos objetos fóbicos. Neste caso particular. muito excitada. chegou a uma inatividade quase completa. O sujeito revela ter medo de ser encurralado e sufocado no escuro por este homem de armadura. Ocorreu em seguida uma inversão dessa postura. ali. veio a realização efetiva dessa posição — o sujeito fez. Na realidade. muito mais interditora que a mãe jamais fora. de patterns. e pelo menos bastante bem sublinhadas. Com efeito. ao fim de um certo tempo. que relata as questões sinceras dos membros de um certo grupo a propósito da relação de objeto. as questões que a autora se coloca são relatadas com uma fidelidade que creio ser incontestável. enfim. os insetos. Por que a mãe fálica. com justiça. que a reação que chama de perversa — esta é uma etiqueta — apareceu em circunstâncias bem precisas. como se diz. que lhe foi fornecida pela mãe. não sem a ajuda do mau passo analítico. esbaldando-se ou masturbando-se. de que ela participou. e apresenta-se sempre com uma postura extremamente curvada. parte dos componentes do sujeito. realmente. vamos observar o que se passa do lado da analista. apesar do fato paradoxal de que o objeto fobógeno não parece ser exterior à primeira vista. e esse temor é importante no equilíbrio geral dessa estrutura fóbica. segundo a própria autora. o interesse do caso reside aí. e envolvemo-nos em seguida em nada menos que um período de três anos em que o sujeito em primeiro lugar desenvolveu por etapas uma fantasia perversa que consistia em imaginar-se visto urinando por uma mulher que. no que diz respeito a suas relações com o meio profissional. Enfim. Mas essa ideia de que está em questão uma mãe fálica. o sujeito observando. num momento. do homem de armadura com todo o seu caráter heráldico? Durante todo este caso. não é exagero da minha parte introduzir a questão da reação perversa. cuja atividade ficou bastante reduzida. de um sujeito fóbico. o relato do caso do que ela chama. ela o interpretou como sendo a mãe fálica. mas a mãe em sua relação com o falo. quando se trata. uma interpretação que não era a carreta? Isso prova. afinal de contas. Trata-se de um objeto fóbico perfeitamente reconhecível. perfeitamente. É no momento em que ele se encontra nesta constelação que a analista se apodera dele e começa. Leva uma vida reduzida. observar as mulheres nos WC ao lado. limitada ao ambiente familiar. A autora se interroga em particular sobre o seguinte ponto: Não terei feito.88 TEORIA DA FALTA DE OBJETO DA ANÁLISE COMO BUNDUNG 89 como tal. Tomemos agora o caso desenvolvido neste pequeno boletim citado da última vez. Tudo leva a crer que a entidade da mãe fálica é produzida ali em razão daquilo que a autora chama de suas próprias posições contratransferenciais. o objeto só é descoberto numa segunda abordagem.

/iHinto. i.^e^a^tuiçJíp. Considera-se. e que poderá observar à voiiude. desta vez. mas que acontec^1 'se? càstàaaí A í interpretação:era. a transformação da fobia foi rrnli/. vivera como um autómato.mulher.sujeito se detém num certoot^vslijdeaLsuiajiJniyestigafão . l mio está aí. fazer intervir o suposto marido da mãe para reintroduzir o complexo de Édipo tem todas as característicías de uma provocação.eaíL> como (Sj^sjstíssej^pSj. A i i l i i n i a sessão é elidida. em.. á uma demanda dó sujeito de desacélerar ô'ritmo das sessões. Começa a ter.I. a fantasia se cristaliza completamente. a organização do pequeno mictório dos Champs1 1 \xees. interroga-se ansiosamente: Fiz bem • "i dizer isso? Qualquer um pode. assustando-se com alguma coisa que sabe muito bem que nunca acontecerá. mas. A analista intervém da-maneira seguinte: Sem dúvida. ppr exemplo.vação ida. sujeito conta um sonho em que. A analista.^|ftSP.aísfcorri. considera-se que a fobia está curada.1' i » > i s dessa intervenção. o lugar • Ir iio.s«ati§|ag. que reexplicita as coisas. e como não fala mais de DIIII grande altura. toda a sua atividade erótica. depois disso. que já I'|H*H. interrogar-se quanto ao grau de mcsiria que comporta uma intervenção como essa. Em seguida. de que é separado por uma parede.ada..« poucoeaijiJÕiicoHósujeito a«sedizér/. e encontra no real o lugar perfeito. tendo en.imaÇã9. e que talvez estes não sejam. e testemunha.|nft.p pbjetp feminino..es. principalmente sé sabemos que foi o marido dá analista quem encaminhou o sujeito para esta. e uma certa liU-ulade que pode decorrer disso. a mesma que tinha no começo. urinar no divã etc.ã<>jfei§|g. diz-se impedido pela presença de um outro-: sujeiÉorjfeminiÉo fque. igualmente. • li . que começa a aefeateque isso está lhe dando um l mi iço nos nervos. Infelizmente. a noção dita de referência. Ele se encontra. que se produz à virada. faz então essa observação: Você se diverte.suai <infâneiap isto é. não é. e ele perde o equilíbrio. por que não considerar isso como o fim de um linkilho analítico? Do ponto de vista experimental. umas certa .90 TEORIA DA FALTA DE OBJETO DA ANÁLISE COMO BUNDLING 91 . Em segundo lugar. quero dizer o complexo dê ÉdipòV Dévé-se admitir que. um pouco forçada.aPírOx. com efeito.o pensa numa coisa. pois' 0'pêrsonagèm masculino1 é 'indicado apenas pelas associações. 1 1 de reconhecimento entre iniciados — é dada como certa. que compreende um certo número de coisas em suas relações de imppssibilidac)e de atingir. não como mãe fálica.i descoberta.seu. sem dúvida. e lhe «perlam os pés.fiantasias no i . mas como mãe afálica. do sentido'ser observado pára O iíécitiservar à si próprio. a respeito da qual pcetetíde íej. o sujeito também se opera de umas varizes. "Mirado nisso uma tal satisfação que declara que. Este lembrete um i "M iço brutal das convenções da situação está perfeitamente de acordo i "in a noção da posição analítica como real. mas â analista pètosá assim rdíntrotluzir a verdade. afálicas íQ ^uj?r§§il4.qwestãa>> ~KiTíiBssaKposiçãoío0ndoz.. Nesse momento. os i Imos mais desejáveis. diz ele. no tamanho de seus sapatos.. rjão fálica. na medida Birt-que i &la ííemíarc nãoqteju.ag.ta Última npta.. ora pequenos demais. você prefere se interessar por uma mulher olhando-a urinar do que se esforçar em ir atrás de urna outr-a mulher''> que até pode lhe interessar.rnedo|ie. a tentativa tímida de acesso à castração. desprovido de interesse. que o sujeito passa ilrlmitivamente ao ato. porque sabe muito bem que.s. a saber.0\o i posto. passada a idade de treze anos. O sujeito.certa. i|in :. afinal de contas. impulsos amorosos. db .nteriprdp próprio tratarnento. espiar. seja como for.reações que manifestarn. É muito precisamente . o que prova que existe algo mais. desempenhou um papel em sua história. por ' '1. precisamente. o sujeito volta à sua amante. de tal modo cada detalhe é rico em ensinamentos. simplesmente fazê-los constatar que a noção da distância do iili|cio-analista como objeto real. çpmo. do.pçifn%s4i. encontrando-se em presençai 4e uma/ pessoa de sua história passada.' e iquè ele mm urinar à sua frente num período muito mais avançado. pode não »er sem efeitos. a analista lhe responde: Você manifesta aqui suas posições passivas. de modo que a virada. Estes são ora i M i u i o grandes. certamente.^ue está na. Afinal. Resumindo para vocês este caso.pfiBcjrj|ot daíirtSjtituiçãq da/posiçãp fetiçhigfjarpBníuteipçejpi^ainpnt^rAÍato deique o.. e tem . M<|iiHa que tem quinze anos a mais que ele.^^jíp^lalgg. o retomb progressivo da fantasia de observação. essas. acaba desenvolvendo sua.borda da S:kuaçã0Fj. Ele suspende «h. realmente à boa distância real do • il'|cio. aliás. É neste momento. seria preciso examiná-lo minuciosamente. (d^mãe.uMe« Deu$?sóÍtav@riã$aluçâéfrseiea$O5^ Ele o diz. durante um certo tempo. Não lhes digo como termina o tratamento.pbjetp real. corno se não bastasse. A suposta boa distância do objeto real — existe aí como que um i i i .da<anailJ&taí ptque. até o momento • d .. não vai conseguir. coin uma. da distância. mas agora tudo está muBis aonde as coisas chegaram.fijíde>isuai-0bsW.

um artefato. ao fim de um certo tempo o sujeito se deixa surpreender por uma faxineira. enfim. da noite para o dia. antes. tudo aquilo de que se necessita quando se foi. o que faz cair. uma perversão — e a autora não o dissimula —. falando propriamente. um odor de urina. Assim.92 TEORIA DA FALTA DE OBJETO seu ápice no momento em que o sujeito percebe. são assim mesmo suscetíveis de ruptura ou de dissolução. ainda que possam ser permanentes ou muito duradouros. no momento exato. é-nos indicado que este é. na presença de sua analista. Semelhantes fenómenos. neste caso. à distância correta. É claro. mas. A analista considera que este é o momento em que a distância do objeto real — durante toda a duração do caso. o fato coincide com o apogeu da perversão. o ponto onde peca toda relação neurótica — está enfim acomodada em seu exato alcance. às vezes bastante bruscas. sua assiduidade no lugar particularmente propício que o real viera lhe oferecer no momento exato. Sim. Isso não é. o real oferece sempre. 19 DE DEZEMBRO DE 1956 As Vias Perversas do Desejo . regulado pelos bons caminhos.

tento demonstrá-lo a vocês. entre aspas. As mentiras do inconsciente.Nulo-os que o sujeito feminino é sempre convocado. a saber. Mostrei isso a vocês de modo niilu-icnte no último trimestre. quando se dá n eneontro pelo homem. O serviço da Dama. O significante Niederkommt. para nos edificar: «i •. relações naturais e das relações simbólicas. a diMicnsão analítica. O mais-além do objeto. i . de saída. Vninos hoje saltar para um problema que deveríamos encontrar muito • l' i > « > i s em nosso discurso. i. a homossexualidade feminina.i . l ite problema é o da perversão. M.i perspectiva da análise. Esta nos oferece bastante. na primeira parte deste seminário. 95 . a menina e o falo. l'or que procedi assim? Existe aí uma parcela de contingência.VI O PRIMADO DO FALO E A JOVEM HOMOSSEXUAL Freud.u|fiio desse encontro não é natural.in.certo que não poderíamos examinar este ano a relação de objeto . lemhi. () problema não é tanto saber como encontramos o objeto feminino u. Esta ambiguidade é PM t isamente aquilo em que reside.ilise. a mais problemática possível n. numa posição caracterizada pela ambiguidade i l . a inscrever-se numa sorte de redescoberta. ijiic o situa. nesse ponto. se houvéssemos procedido passo a passo.« I N encontrar o objeto feminino.r.

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O problema agora é o que o objeto feminino acha disso, isto é, qual o seu caminho a partir de suas primeiras abordagens do objeto natural e primordial do desejo, a saber, o seio materno. Este caminho é ainda menos natural que o do sujeito masculino. Como o objeto feminino entra nessa dialética? Não é à toa que a mulher, eu a chame hoje de objeto, pois ela deve entrar, em algum momento, nessa dialética como função de objeto. Só que essa posição é muito pouco natural, já que é uma posição em segundo grau, que só interessa qualificar assim por ser um sujeito que a assume.

A homossexualidade feminina foi dotada, em toda a análise, de um valor particularmente exemplar, pelo que ela pôde revelar sobre as etapas do encaminhamento da mulher, bem como sobre as interrupções que podem marcar seu destino. O que é inicialmente natural ou biológico não cessa de referir-se ao plano simbólico, onde se trata de assunção subjetiva, já que o próprio sujeito é tomado na cadeia simbólica. É aí mesmo que se trata da mulher como sujeito, por mais que ela tenha de fazer uma escolha sobre a qual a experiência analítica nos ensina que, por qualquer lado que seja, deve ser um compromisso entre o que está por se atingir e o que não pôde ser atingido. A homossexualidade feminina é encontrada a cada vez que a discussão incide sobre as etapas que a mulher tem de transpor para efetuar sua realização simbólica. Neste ponto, temos que esgotar um certo número de textos, escalonando, no que diz respeito a Freud, a partir de 1923, data de seu artigo "A organização genital infantil". Freud coloca como um princípio neste texto o primado da assunção fálica. A fase fálica, etapa terminal da primeira época da sexualidade infantil, que termina com a entrada no período de latência, é uma fase típica tanto para o menino quanto para a menina. A organização genital dá a sua fórmula. Ela é atingida pelos dois sexos. A posse ou a nãoposse do falo é o seu elemento diferencial primordial. Não existe, portanto, realização do macho e da fêmea, existe aquele que é provido do atributo fálico e aquele que é desprovido, e ser desprovido dele é considerado como equivalente a ser castrado.

Vou ser preciso — tanto para um quanto para outro sexo, isso se b.iseia num mal-entendido, Misslingen, e este mal-entendido é ele próprio baseado numa ignorância: não se trata de desconhecimento, e MIM de ignorância mesmo. Por um lado, ignorância do papel fecundador do sémen masculino; por outro lado, ignorância da existência como Inl do órgão feminino. Essas afirmações absolutamente enormes reclamam uma exegese p;u a serem compreendidas. Não poderíamos, com efeito, nos encontrar iu|ui em presença de uma descrição a ser considerada ao nível da •xperiência real. A isso uma objeção foi levantada, aliás confusamente, pelos auinrcs que entraram em ação em seguida. Um número muito grande de fulos nos leva a admitir que se revela efetivamente, ao menos na menina, a presença vivida, senão do papel real do macho no ato da piocriação, ao menos da existência do órgão feminino. O fato de que h:i|a na experiência precoce da menina alguma coisa que corresponda ,i localização vaginal, que haja emoções, até mesmo uma masturbação v;i)',mal precoce, não pode ser contestado. Isso é realizado pelo menos n u m certo número de casos. A partir daí discute-se quanto a se é à existência do clitóris que deve ser atribuída a predominância da fase l.ilica na menina, se a libido — façamos deste termo sinónimo de toda experiência erógena —está na origem exclusivamente concentrada no c hioris, e só se difunde em seguida a um deslocamento longo e penoso, i|ue necessita de todo um longo desvio. Certamente, não pode ser nesses termos que se deve compreender .1 .ilirmação de Freud. Se a situarmos assim, um excesso de fatos, aliás confusos, permitirá todas as espécies de objeções, como faz, por rxcmplo, Karen Horney. Suas objeções são comandadas por premissas u.ilistas, que sugerem que todo desconhecimento supõe no incons• ii-nte um certo conhecimento da cooptação dos dois sexos, e que não poderia, consequentemente, haver na menina prevalência do órgão que lírio lhe pertence propriamente, a não ser sobre o fundo de uma denegação da existência da vagina, de que se trata de dar conta. É a partir dessas hipóteses admitidas a priori que nos esforçamos para retraçar n génese do termo fálico na menina. Entrando em detalhes, vamos ver que se trata apenas de uma reconstrução, cuja necessidade é absorvida ile um certo número de premissas teóricas, em parte expressas pela piopria autora, ligadas à incompreensão da afirmação de Freud. O ultimo fato a que a autora se refere, a primordial experiência no órgão

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vaginal, é marcado pela incerteza, e a referência aí feita permanece muito prudente, e até mesmo reservada. A afirmação de Freud está fundada em sua experiência. Por ser formulada por ele com prudência, até mesmo com essa parcela de incerteza tão característica de sua apresentação dessa descoberta, ela não deixa de ser afirmada como primordial. É um ponto fixo. A afirmação paradoxal do falicismo é o próprio pivô em torno do qual a interpretação teórica deve se desenvolver. Isso é o que vamos tentar fazer. Oito anos mais tarde, em 1931, Freud escreve sobre a sexualidade feminina uma coisa ainda mais ousada, que dá sequência à sua afirmação de 1923. No intervalo, levantou-se uma discussão extremamente ativa entre seus discípulos, que contém um monte de especulações, cujos vestígios se encontram em Karen Horney, em Jones e outros, e que constitui um verdadeiro emaranhado de aproximações. Depois de me ter dedicado a isso durante essas férias, pareceu-me extremamente difícil dar conta sem falseá-lo, na medida em que se distingue pelo caráter profundamente indómito das categorias postas em jogo. Para dar conta deste debate e fazer-se entender, não há meios de se proceder de outra forma que não dominando-o, e dominá-lo já é mudar completamente seu eixo e sua natureza e, portanto, até certo ponto, não dar verdadeiramente uma justa perspectiva do que está em questão. Este problema é realmente correlativo do segundo objetivo de nosso trabalho deste ano, que é o de mostrar, paralelamente ao exame teórico da relação de objeto, como a própria prática analítica se engaja inflexivelmente num desvio indomável. Para voltar à incidência precisa que nos ocupa hoje, parecia-me esta manhã que poderia se conservar deste amontoado de fatos uma imagem exemplar recolhida num desses artigos. É admitido por todos os autores que, no desvio de sua evolução, a menina, no momento em que entra no Édipo, começa a desejar um filho do pai como substituto do falo faltoso, e que a decepção de não recebê-lo desempenha um papel essencial para fazê-la voltar atrás no caminho paradoxal por onde ela entrou no Édipo, a saber, a identificação com o pai, em direção à retomada da posição feminina. Para mostrar, nesse sentido, que a privação da criança desejada do pai pode entrar em jogo com uma incidência presente, e precipitar o movimento do Édipo que nos é dado como sendo sempre essencialmente inconsciente, um dos autores cita como exemplo o caso de uma menina que, por estar em análise, achava-se, segundo ele, devido a este fato, mais

esclarecida que uma outra quanto ao que se passava em seu inconsi lente. Depois de algum esclarecimento que lhe havia sido dado, ela < levantava todas as manhãs perguntando se o bebé do pai havia chegado, e se era para hoje ou para amanhã. E era encolerizada e aos prantos que perguntava isso a cada manhã. Este traço me parece exemplar daquilo de que se trata em nosso ilcsvio da prática analítica, cuja referência está sempre aí acompanhando nossa exploração teórica da relação de objeto. Constatamos aqui a maneira como um certo modo de compreender e de atacar as frustrações leva o analista, na realidade, a um modo de intervenção cujos eleitos são não apenas duvidosos, mas manifestamente o oposto do i|in- está em jogo no processo da interpretação analítica. A noção que podemos ter de que a criança do pai aparece num momento dado da evolução como objeto imaginário, substituto desse falo faltoso que desempenha na evolução da menina um papel essencial, não pode ser jiosia em jogo, legitimamente, a qualquer momento e de qualquer MI.moira. Ela só pode sê-lo ulteriormente, ou mesmo numa etapa contemporânea, sob a condição de que a criança, na medida em que o •aijeito lida com ela, entra no jogo por uma série de ressonâncias Minhólicas concernentes ao que o sujeito experimentou no passado de (rações possessivas ou destrutivas no momento da crise fálica, com o i|iie esta comporta de realmente problemático na etapa a que corresponde. Em suma, tudo o que se relaciona com a prevalência, ou pi edominância, do falo numa etapa da evolução da criança assume •aias incidências só-depois. O falo só pode ser posto em jogo na medida em que seja neces'..ii 10, num dado momento, simbolizar algum acontecimento, seja este n vinda tardia de uma criança para alguém que esteja em relação imediata com a criança, ou ainda, para o próprio sujeito, a questão levantada sobre a sua maternidade e a posse de uma criança. Fazer miei vir um elemento que não se inscreve na estruturação simbólica ilo sujeito, precipitar pela palavra, no plano simbólico, uma certa relação de substituição imaginária do que é, nesse momento, vivido pelo sujeito de uma maneira inteiramente diferente, já é dar-lhe a «unção de uma organização, e introduzi-lo a uma espécie de legitimidade. Isso é, literalmente, consagrar a frustração como tal, e instaurá-la nu t entro da experiência. A frustração só pode ser legitimamente introduzida como tal na interpretação se tiver acontecido efetivamente no nível do inconscien-

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te, como a teoria justamente nos diz. A frustração, inicialmente, não passa de um momento evanescente. Ela tem função apenas para nós, analistas, e num plano puramente teórico, como articulação daquilo que aconteceu. Sua realização pelo sujeito é excluída por definição, porque é extraordinariamente instável. A frustração, tal como é vivida originalmente, só tem importância e interesse na medida em que desemboca num ou noutro dos dois planos que distingui para vocês: castração ou privação. Na verdade, a castração nada mais é que aquilo que instaura na sua ordem verdadeira a necessidade da frustração, o que a transcende e a instaura numa lei que lhe dá um outro valor. Isso, aliás, é também o que consagra a existência da privação, pois a ideia de privação não é de modo algum concebível no plano real. Uma privação só pode ser efetivamente concebida para um ser que articula alguma coisa no plano simbólico. Tudo isso, compreendemos bem nessas intervenções que são da ordem do apoio, essas intervenções de psicoterapia, como por exemplo aquela que lhes evocava rapidamente, outro dia, a propósito da menina nas mãos de uma discípula de Anna Freud. Essa menina, vocês lembram, apresentava um esboço de fobia, surgida a propósito da experiência que havia feito de ser efetivamente privada de alguma coisa, isso sob condições diferentes da situação a que a criança do exemplo desta manhã se viu imposta. Mostrei a vocês em que esta fobia era um deslocamento necessário, e onde residia sua importância não no fato de que ela não tivesse o falo, mas no seguinte: que sua mãe não lhe podia dá-lo, e mais, ainda, que não podia dá-lo porque ela própria não o tinha. A intervenção da psicoterapeuta consiste em dizer à criança — e com toda a razão — que todas as meninas são assim. Isso pode levar a pensar que se trata de uma redução ao real, mas não é isso. A criança sabe muito bem que não tem falo, mas não sabe que esta é a regra. Eis o que lhe ensina a terapeuta. Esta, portanto, faz passar a falta no plano simbólico da lei. Esta intervenção não permanece menos discutível, e a psicoterapeuta não deixa de se interrogar sobre sua eficácia, que é apenas momentânea. A fobia ressurge com mais força, e só irá se reduzir quando a criança tiver sido reintegrada numa família completa. Por quê? Em princípio, sua frustração deveria, ao contrário, parecer-lhe ainda maior que antes, já que aí está ela confrontada com um padrasto, isto é, um macho que entra no jogo da família quando sua mãe era até então viúva, e com um irmão mais velho. Se a fobia

NO vê, efetivamente, reduzida, é que, literalmente, o sujeito não precisa mnis dela para suprir a ausência, no circuito simbólico, de todo elemento faliforme, isto é, machos. Essas observações críticas incidem, antes de mais nada, sobre o ir.o do termo "frustração". Este uso é legitimado de uma certa maneira l n-Io fato de que o essencial nesta dialética é a falta de objeto, mais t|iie o próprio objeto. A frustração, pois, responde muito bem, aparenirmente, a uma noção conceituai. Mas o que está em jogo é a instabilidade da própria dialética da frustração. Frustração não é privação. Por quê? A frustração incide sobre algo de que vocês são privados por alguém de quem poderiam, justamente, r\|HTar o que lhe pediam. O que está assim em jogo é menos o objeto i|in- o amor de quem lhes pode fazer este dom. O objeto da frustração í menos o objeto que o dom. Hncontramo-nos aí na origem da dialética da frustração, na medida i MI i|ue ela ainda está afastada do simbólico. Este momento inicial é, ,i i .ida instante, evanescente. Com efeito, o dom só é trazido, inicialmente, no elemento de uma certa gratuidade. Ele vem do outro. O que l tu por trás do outro, a saber, toda a cadeia que motiva este dom, ainda r-.ia desapercebida, e é só depois que o sujeito poderá perceber que o dom é bem mais completo que parecia no começo, que ele interessa i<>da a cadeia simbólica humana. Inicialmente há apenas o confronto i •« MI i o outro e o dom que surge. O dom, se trazido como tal, faz em todos os casos evanescer-se 0 objeto como objeto. Se a demanda é atendida, o objeto passa a M-j-.undo plano. Se a demanda não é atendida, o objeto se evanesce Igualmente. Só que existe uma diferença. Se a demanda não é atendida, o nl>ieto muda de significação. O que justifica, com efeito, a palavra Ilustração? Só há frustração — a palavra implica isso — se o sujeito ml rã na reivindicação, na medida em que o objeto é considerado como exigível por direito. O objeto entra, nesse momento, no que se poderia 1 h.miar de área narcísica das pertinências do sujeito. Em ambos os casos, ressalto, o momento da frustração é um momento evanescente. Ele desemboca em alguma coisa que nos pro|d;i num outro plano que não o do puro e simples desejo. A demanda i omporta, com efeito, algo que a experiência humana conhece bem, - que faz com que ela jamais possa ser verdadeiramente atendida como tal. Atendida ou não, ela se aniquila, se anula na etapa seguinte

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e logo se projeta noutra coisa — ou sobre a articulação da cadeia simbólica de dons, ou sobre este registro fechado e absolutamente inextinguível que se chama o narcisismo, graças a que o objeto é ao mesmo tempo, para c sujeito, algo que é ele e que não é ele, e com o qual jamais se pode satisfazer, precisamepte no sentido em que é ele e não é ele ao mesmo tempo. A entrada da frustração numa dialética que a situa legalizando-a, e lhe dá igualmente a dimensão da gratuidade, é uma condição necessária ao estabelecimento desta ordem simbolizada do real onde o sujeito poderá, por exemplo, instaurar como existentes e admitidas certas privações permanentes. Desconhecendo-se essa condição, as diversas reconstruções da experiência e dos efeitos ligados à fundamental falta de objeto que aí se manifestam introduzem toda uma série de impasses. O erro é querer deduzir tudo do desejo, considerado como um elemento puro do indivíduo — do desejo, com o que este acarreta de contragolpes, satisfações e decepções. Ora, toda a cadeia da experiência não pode, literalmente, ser concebida colocando-se inicialmente o princípio de que nada se articula e se constrói na experiência, que nada se instaura como conflito propriamente analisável senão a partir do momento em que o sujeito entra numa ordem que é ordem de símbolos, ordem legal, ordem simbólica, cadeia simbólica, ordem da dívida simbólica. É unicamente a partir da entrada do sujeito numa ordem que preexiste a tudo o que lhe ocorre, acontecimentos, satisfações, decepções, que tudo a partir de que ele aborda sua experiência — a saber, aquilo a que chama o seu vivido, essa coisa confusa que está ali antes — se ordena, se articula, assume seu sentido e pode ser analisado. Esse lembrete — isso deveria ser apenas um lembrete —, não posso fazê-los apreciar melhor o quão bem fundado é senão tomando alguns textos de Freud e fazendo-os penetrar neles de modo absolutamente ingénuo.

Alguns falaram, ontem à noite, de um lado incerto, e por vezes paradoxalmente selvagem, de certos textos de Freud. Evocaram mesmo seus elementos de aventura, ou ainda de diplomacia — não se sabe por que, aliás. Isso me levou a escolher, de minha parte, trazer para vocês aqui um dos textos mais brilhantes de Freud, e diria quase um

«los mais perturbadores, sendo concebível que lhes possa parecer arcaico, até mesmo fora de moda. É a Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina. Gostaria de recordar para vocês suas articulações essenciais. Trata-se da filha de uma boa família de Viena. Para uma boa l.imília de Viena em 1920, mandar alguém a Freud constituía um passo muito grande. Se isso foi resolvido, foi porque a moça da casa — dr/oito anos, bonita, inteligente, classe social muito elevada — tornou-se um objeto de preocupação para seus pais. Produziu-se um .u ontecimento bastante singular: ela corre atrás de uma pessoa dez .mós mais velha, uma dama do mundo. Todos os tipos de detalhes lornecidos pela família nos indicam que este mundo talvez pudesse MT qualificado de demi-monde, na classificação então reinante em Viena, e considerada respeitável. A ligação da moça, que tudo revela, à medida que os acontecimentos se sucedem, ser realmente passional, vai colocá-la em relações bastante penosas com sua família. A sequência nos ensina que essas lelacões não são estranhas ao estabelecimento da situação. Em suma, 1 1 1 ;i(o de que isso deixe o pai absolutamente encolerizado é com certeza um motivo para a jovem não .sustentar essa paixão, mas conduzi-la i oino o faz. Penso nessa espécie de desafio tranquilo com que ela in.iniém a assiduidade junto à dama em questão, suas esperas na rua, ti maneira como anuncia parcialmente seu caso. Mesmo sem estardaIh.ieo, isso basta para que seus pais, e especialmente o seu pai, nada ignorem. Indicam-nos também que a mãe não é de modo algum uma pessoa segura, já foi neurótica e não leva as coisas tão mal, ou pelo menos não tão a sério. Pedem a Freud que dê um jeito naquilo. Este levanta, com muita lirtinência, as dificuldades apresentadas por um tratamento quando nc (em de satisfazer as exigências do meio familiar, e observa, muito |n\lamente, que não se faz uma análise por encomenda, à maneira K uno se reconstrói uma villa. Introduz, em seguida, considerações •lohrc a análise ainda mais extraordinárias, e que não deixarão de p.uecer a alguns bastante ultrapassadas. Freud nos explica que esta análise não chegou a seu termo, mas |ieimitiu-lhe ver longe, muito longe, e que é por este motivo que a lel.iia para nós. Certamente, ressalta ele, ela não lhe permitiu alterar 1'i.Mides coisas no destino dessa jovem. Para explicar isso, ele introduz lima ideia que não é sem fundamento, embora possa parecer desusada,

em que a catástrofe acontece. O sujeito está intimamente ligado à escalada da tensão. Sempre se está perto de algumas das pontezinhas que as atravessam. tivera para com a moça uma atitude muito reservada. e é então que ela começa — pois a aventura em questão pão é a primeira — a 1'rcquentar mulheres que Freud qualifica como já maduras. a saber. é bastante picante. a orientação de sua questão dirigida ao seu próprio sexo. e que se viu bastante emocionada com esta extraordinária marca de devoção para lornar-se. muito mais tratável. Este esquema. mesmo sobre os pontos que de alguma forma superaram a sua própria compreensão. reunem-se as bagagens. se aborrece. não vale tanto para a última pessoa. onde Freud viu claro ulteriormente — ele fizera uma intervenção junto a Dora enquanto desconhecia a homossexualidade desta. é que se produziu de fato um acontecimento marcante. todavia. durante todo esse tempo. a da maternidade? Tomava conta de um filhinho de amigos dos pais. lança-lhes um olhar fulminante e vai embora. mas vai continuar a manter laços com a pessoa por quem está longe de ter perdido o gosto.104 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO O PRIMADO DO FALO E A JOVEM HOMOSSEXUAL 105 uma ideia esquemática que deve nos incitar a retornar a algumas premissas elementares em vez de nos considerarmos por demais manipulados. As segundas também. um momento que parece não ter ocorrido isoladamente. a diferença que fazia dela alguém que não tinha o objeto essencialmente desejável. deslanchar. Quebra alguns ossos. o que vai levá-la à consulta com Freud. Houve. No entanto. e que não são menos interessantes. Em contrapartida. a l. mas muito mais instrutivo porque muito mais profundo. o pai vai sair e as vê. nem mesmo sua escolha objetal. Faço. e igualmente a problemática de uma homossexualidade declarada.rcud que não se trata para ela de abandonar seja qual for de suas pretensões. Se foi preciso chegar a reportar-se a ele. de súbito. ao que lhe parece. O que ainda é mais enorme é que. Constata-se aqui um desconhecimento de ordem análoga. nada está operando. o que sempre é muito complicado. em especial. referem-se ao que está cm jogo na tentativa de suicídio. e que são. com efeito. disse a ela: Nesse caso. ele tem a sensação de que. seja de seu próprio fracasso. e não parece satisfeito. . essa espécie de amor maternal que parecia fazer dela um modelo antecipado de mãe se interrompe inesperadamente. niederkommt. o objeto fálico. na sua atitude de doce flerte com o perigo. a posição singular que ela ocupa diante dessa mulher um tanto denegrida. e põe em relevo um certo número de etapas. assim tardiamente. Como está diante de outras pessoas. quando se trata de dobrar as resistências que ainda se mantêm perfeitamente quando o sujeito já sabe muita coisa. que consiste em recolher tudo o que se pode saber e a segunda. ato significativo com que se coroa a crise. e nem tinha. e tão ternamente que as duas famílias se ligaram. em seguida. não nos veremos mais. A propósito dessa relação declarada e mantida pelo sujeito. Todavia. uma atitude que parece a todos francamente anormal. tipos de substitutos maternos. aos treze ou quatorze anos. mas se safa. Portanto. Freud nos traz observações muito surpreendentes. Aí está a moça. Assim. seja do que ocorreu antes do tratamento. Esta referência. em alguém que sofre de uma fobia de estradas de ferro e viagens. até o momento em que estoura o conflito. A jovem. Um dia. As primeiras parecem muito pertinentes. efetivamente. nada na história infantil é notável do ponto de vista de consequências patológicas. nos diz Freud. O sujeito declara. O apego apaixonado que tem por esta tem um desenlace. Não manifestara ela. Esta ideia é a de que há duas etapas numa análise: a primeira. até ali a menina jamais havia sido neurótica. a tentativa de suicídio. e depois trata-se de embarcar e percorrer o caminho. de modo algum encorajara sua assiduidade. mas onde tudo levava a crer que se orientava bem. Outras observações que Freud nos oferece sem delas tirar partido por inteiro. a propósito do mais velho de seus dois irmãos. quando ela pôde perceber. mas talvez não exatamente como ele mesmo o entende. um desejo de complicações. Ela fará tudo o que for necessário para enganar sua família. a mais simpática orientação da vocação feminina. Até então. até mais que fria. À dama pergunta à moça quem é aquela pessoa: É papai. Ela cai. aquela que verdadeiramente encarnou a aventura dramática durante a qual ocorre o desencadeamento da análise. vê muito bem o que se passou. até o momento em que esta ligação surgira. Em Viena. alusão ao caso de Dora. às quais dá valor de sanção explicativa. por exemplo. nos diz ele. na infância do sujeito. a jovem tivera um desenvolvimento não apenas normal. A dama. a saber. ia passear com a dama quase diante das janelas de sua própria casa. que se atira de uma delas. existem uns tipos de pequenas linhas férreas de periferia. aqui. A comparação que ele introduz então não é uma das menos surpreendentes: antes de uma viagem. É próprio das observações clínicas de Freud deixar-nos sempre muitos esclarecimentos extraordinários. então. nenhum sintoma histérico foi trazido à análise. É por isso mesmo que é clinicamente espantoso ver eclodir.

fazia-lhe concessões. Ela manteve aquilo tudo. Tratava-se somente de mostrar a ele (|iie ela o enganava. dizendo-nos: Creio que a intenção • /r me induzir ao erro era um dos elementos formadores deste sonho. o jogo cruel que jogou com o pai. do esposo anunciado pelo sonho aparece tão cm conformidade com os esforços empreendidos em comum que qualquer um que não fosse Freud tiraria dele as maiores esperanças. Isso não passaria de um fenómeno de contra-agressividade. Não é banal que a intervenção de um irmãozinho vindo ao mundo como este tenha por resultado uma inversão tão profunda da orientação sexual de um sujeito. que não se pode falar em ausência total di.transferência. deixar de voltar à relatividade básica da l<>imação simbólica. considerar o fenómeno como reativo. o que estava em jogo por uma precipitação. seus sonhos anunciam um surpreendente reflorescimento da orientação mais simpática. Qual é. que satisfaria. Ele denota. na medida em que esta é a linha fundamental daquilo que constitui para nós o campo do inconsciente. Ele compara metaIliricamente as reações da moça com as da dama a quem se mostra nhjctos diversos e que. . de vez que supõe que o ressentimento para com o pai continue atuante. não se apresentava de uma maneira desavergonhada. Na medida. todavia. É a duplicação ilesla espécie de jogo de contralogro que ela conduziu em resposta à decepção devida ao pai.1 da ocorrência de um objeto. e que esta é sua significação transferencial: ela reproduz mm ele sua posição fundamental. ela faz um ato simbólico. fruto desse amor. Na segunda ordem de observações feitas por Freud. de um retorno sobre o sujeito da agressão contra o pai. pois. Em suma. Freud reconhece que é de algo análogo que se trata nesses sonhos. em que a resistência não foi vencida. O termo não está no texto. Houve. segundo Freud. aparentemente excepcional. A paciente adquire um terceiro irmão. realmente. somos remetidos ao sentido último e originário da estrutura situação. trata-se para ele de explicar em que a situação ficou sem saída no interior do tratamento. Esta cavilha na situação explica toda a maneira como a aventura é conduzida. Isso é o que l-rcud exprime de maneira muito correta. o caráter idílico. Aí está o ponto-chave. ela não foi apenas agressiva e pmvocadora para com ele. segundo ele. se opõe a ela. o que. mas nele implícito.io ambíguas que a paciente lhe faz de sua determinação de nada mudar em seu comportamento para com a dama. É preciso. Vê nisso uma transferência. quando a jovem cai da pequena ponte. nada mais faço que pôr em evidência aquilo que está implícito em todas as maneiras com que Freud se expressa. diz: Que bonitol Freud assinala. a decepção que opera a inversão? No momento. simbolicamente. Assim. a espera da vinda de algum esposo belo e satisfatório. combinado com uma espécie de desmoronamento de toda a situação sobre seus dados primitivos. que não é outra coisa senão o niederkommen de uma criança no parto. com efeito. quase forçado. no plano de um interesse intelectual. por volta dos quinze anos. A tentativa de suicídio ocorre em seguida à decepção produzida pelo fato de que o objeto de seu apego. a presença da iiniisferência nos sonhos da paciente. Logo. É nesse registro que se deve. diz ele.106 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO O PRIMADO DO FALO E A JOVEM HOMOSSEXUAL 107 Como Freud explica isso? A partir da orientação normal do sujeito para o desejo de ter um filho do pai. é neste momento que a moça muda de posição. e que só tem o defeito de ser um pouco acentuada demais. uma verdadeira inversão da posição subjetiva. Com efeito. Paralelamente às declarações ii. sua mãe tem. Este é o termo empregado em alemão para dizer que se foi posto abaixo. com grande perspicácia. através de seus binóculos. Este fator tem aí o papel principal. Também é este o caráter. que Freud tenta articular. de certa maneira homólogo. um outro filho do pai. uma redução no nível dos objetos realmente em questão. tudo o que se pôde dizer à paciente só fez interessá-la enormemente sem que <• b abandonasse suas posições últimas. deste caso. não menos que . Freud não se engana aí. Quando faço da dialética do narcisismo essencialmente a relação eu-pequeno outro. aqui. Não podemos. conceber a crise originária que fez o sujeito se engajar num sentido estritamente oposto. equivale a uma regressão ao narcisismo. em que o sujeito se engajava no caminho de tomar posse da criança imaginária — e ela se ocupa disso o bastante para que marque uma data nos seus antecedentes -—. A moça é nitidamente agressiva para com o pai. diríamos hoje. como articula Freud numa nota. Trata-se agora de ver onde isso será melhor interpretado. Trata-se de um desses casos em que a decepção devida ao objeto do desejo se traduz por uma completa inversão da posição: o sujeito se identifica com este objeto. Em suma.

digamos as coisas de maneira um pouco mais bruta. de enganá-lo. fazê-lo cair de uma altura tanto maior quanto ele estaria mais preso na situação. o tratamento não vai muito adiante. ele faz voltar ao real o desejo da moça. ele situa a relação da moça com a dama no mais alto grau da relação amorosa simbolizada. isto é. mas permanece o fato de que o que nos é posto em primeiro plano por Freud em 1920 é exatamente o seguinte: o essencial do que está no inconsciente é a relação do sujeito com o Outro como tal. é um amor que. Este é um amor que não demanda qualquer outra satisfação além do serviço à dama. onde mostra a eles como isso pode ocorrer. Eis o que está no cerne deste deslizamento da análise no imaginário. e. Isso quer dizer que está prestes a iludir-se. não estivesse nela. ou o amor cortês no que tem de mais devotado. Sua contratransferência. Pondo-se em guarda contra as ilusões. Esta é a própria ordem em que um amor ideal pode se expandir: a instituição da falta na relação com o objeto. Como interpreta ele a coisa? Diz à moça que ela tem a intenção de enganá-lo. como ele próprio o sentia. para fazê-lo cair das alturas. que pertence ao tipo propriamente mánnliche. se posso dizê-lo. e que interpreta precocemente demais. Freud sublinha admiravelmente. em si. muito precisamente. e talvez mesmo algumas outras variações a mais. lhe escapa. Freud faz eclodir o conflito e lhe dá corpo. e se vê interrompido. ele já entrou no jogo. dessa escolha objetal. quando era simplesmente um desejo. É verdadeiramente o amor sagrado. Escutando o acento dado a esta frase. quando se tratava justamente. em quem podemos confiar? dirão seus discípulos. Esta frase a mais basta para nos instruir. o que ele quer evitar é sentir-se ele mesmo desiludido. Com sua interpretação. e não uma intenção.> coisa um estatuto simbólico. Mas algo. O sonho é enganador. como com Dora. e essa relação implica em sua base a possibilidade de realizá-la no nível da mentira. Não lhe escapou. que ele mesmo não acreditasse nela. Dizendo. com efeito. Isso é muito bem-visto por Freud. o próprio das relações homossexuais seja apresentar toda a variedade das relações heterossexuais comuns. Ela deve ser encantadora. já que está dentro dele. não há dúvida de que existe aí o que chamamos de uma ação contratransferencial. explicando-nos o que quer dizer com isso. provavelmente para me desiludir ainda mais profundamente. que tem um sentido muito particular na história cultural da Alemanha: é a exaltação que c-stá no fundo da relação. teria podido lhe servir — mas sob a condição de que não fosse uma contratransferência. Afirmando que lhe é prometido o pior. Na análise. a não-sa(isfação. Na medida em que está. ele escuta antecipadamente as objeções que lhe vão fazer. Ele lhes dá uma longa explicação. Freud não esteja completamente neutro nesse assunto. ainda que. Freud lhe diz que tudo isso é feito contra cie. Em lugar de tomar esta via. Freud. numa discussão apaixonante de se encontrar sob sua pena. Fá-lo tomar-se real. e que está aberto para ele o caminho da interpretação do desejo de enganar. que não se trata aqui de uma relação homossexual como as outras. dando . Ele dá corpo a este desejo. Aqui aparece a ponta desta intenção imputada ao sujeito. mas visa. para que. Se a manifestação típica do inconsciente pode ser enganadora. que se trata aí de uma verdadeira transferência. e da qual destaca o fato de que isso em nada contradiz a teoria. Isso equivale a cortar pela raiz o que ele realizou como relação imaginária. E isso não falha. estamos na ordem da mentira e da verdade. nesse ponto. ele toma a coisa como dirigida contra ele. Algo de muito mais interessante ainda é acentuado por Freud sem que ele o interprete: a natureza da paixão da moça pela pessoa em questão. Querendo reunir. como referência. Ele realiza o jogo imaginário. me cativar. que se tornou bem mais que uma armadilha. Em suma. na verdade. como instituição. a partir do momento em que se instaurou como doutrina. É também — diz ele — uma tentativa de me enrolar. colocada como serviço. uma chaga.108 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO O PRIMADO DO FALO E A JOVEM HOMOSSEXUAL 109 Era também uma tentativa de conquistar meu interesse e minha boa disposição. que não podemos desconhecer pois está no texto. Opera com a paciente exatamente como a terapeuta intervinha com a menina. não apenas dispensa a satisfação. a saber. de cativá-lo. A explicação é um tanto quanto tendenciosa. ao que parece. fazer com que eu a ache muito bonita. como tem o costume de enganar seu pai. Ele lhe ucrescenta alguns termos como o de Schwãrmerei. Freud só guarda isso. com efeito. e articula com relevo extraordinário que se (rata aqui do amor platónico no que este tem de mais exaltado. Vemos aqui um seu cxemplo-limite transparente. de uma coisa inteiramente diferente: revelar o discurso mentiroso que estava ali no inconsciente. Não é simplesmente uma atração sentida ou uma necessidade. . de certa maneira. Se o inconsciente também mente para nós. Freud separou. essa moça. e entra.

A presença da criança real. é verdade. o pai fundamental. por um instante. conjugar-se aqui numa espécie de nó os três estágios de um processo que vai da frustração ao sintoma? — isso se quiserem realmente tomar o termo sintoma como equivalente a enigma. colocam a questão de saber o que é. E o que lhe falta nessa ocasião é precisamente esse objeto primordial cujo equivalente o sujeito. Mas isso não é o mais importante. O que é buscado. que poderá. contrariamente ao que se poderia acreditar. Se isso a sustentava na relação entre mulheres. então. se i-xpande normalmente numa relação cultural muito elaborada e institucionalizada. e não mais no imaginário. O mais importante é o seguinte: o que é desejado está para além da mulher amada. de fato. são sujeitos que fizeram. O reflexo da decepção fundamental nesse nível. num certo momento. real. no amor mais idealizado. Este amor que vive pura e simplesmente na ordem do devotamento e que leva ao mais alto grau o apego do sujeito e seu aniquila- mento na Sexualuberschãtzung. 9 DE JANEIRO DE 1957 . e isso põe em causa o que é verdadeiramente fundamental em tudo o que se relaciona com o amor na sua realização. com efeito. saber ao cabo de quantos meses isso acontece se tivéssemos as datas. mas como a análise fez ver. mas ela só tem interesse sendo tomada no registro que lhe é próprio. amado para além dela mesma. o pai que será sempre para ela toda espécie de homem que lhe dará um filho. Trata-se desta criança que a interpretação nos permite conceber como um filho recebido do pai. iria encontrar na criança. propriamente falando. Um tal amor. É então que se produz um verdadeira inversão. o fato do objeto ser aí. o pai por excelência. já que o estamos interrogando. uma fixação paterna muito forte. é que já estava instituída para ela a presença paterna como tal. ao registro da experiência masculina. vai conduzi-la ao plano da frustração. o que é buscado na mulher é o que falta a ela. a saída encontrada pelo sujeito nesse registro amoroso. Era no plano simbólico. mas justamente a outra pessoa. O que é mais importante no que acontece agora? Será a inversão que a leva a identificar-se com o pai? É claro que isso desempenha um papel. Mas creio ser de grande importância perceber que o que está em questão já estava instituído no plano simbólico. com efeito. O amor que a moça dedica à dama visa a algo que é diferente desta. Por que há uma verdadeira crise em seguida? É porque então intervém o objeto real. para além dela. O que é. Não vêem. Explicam-nos o seu mecanismo. Isso significa que ela se esclarece pelo funcionamento apropriado das categorias da falta de objeto. e não é à toa. na mulher. desejado na mulher amada é juslamente aquilo que lhe falta. Uma criança é dada pelo pai. e de ser materializado pelo fato de ser sua mãe quem o tem a seu lado. com efeito. No extremo do amor. como para Dora.110 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO O PRIMADO DO FALO E A JOVEM HOMOSSEXUAL 111 Sem dúvida. que o sujeito se satisfazia com essa criança como sendo uma criança que lhe foi dada pelo pai. Freud parece reservar. Será o fato de que ela se tome ela mesma esta criança latente. e a alguém que lhe é mais próximo. é o objeto central de toda a economia libidinal: o falo. Temos inicialmente a referência vivida de uma maneira inocente ao objeto imaginário. o substituto imaginário. Como já nos foi dito. niederkommen quando a crise chegar a seu termo? Talvez pudéssemos. os homossexuais. sua passagem ao plano do amor cortês. Ela é excepcional porque é particular. a situação apresentada por esse caso é excepcional. e ao qual ele retorna.

Nesse sentido a srta. Convém voltar a essa análise estrutural. eu lhes havia esboçado. aquilo a que se pode chamar a sua estrutura. e (|iic. Como as crianças . Vejam esse caldeirão de feiticeira. que um sujeito criado como se fosse filho único em casa de uma tia velha.n. da última vez. falar propriamente em transferência. Logo. permitir i|iu. mas fundou os princípios de sua análise de crianças em 112 observações como a seguinte: não pode se fazer transferência na ( i mnça. Melanie Klein? Essas nl ninações repousam em sua experiência. Anna Freud rende homenagem. A situação não permite ao analista nlrrecer-se à criança numa posição de neutralidade ou de receptividade. Anna Freud. e deve ser tratada com auxílio de meios lúdicos. está certamente numa relação com a fala diferente tl. as coisas ainda em andamento. É para responder a essa falta — é bom lembrá-lo a vocês — que prosseguimos aqui nosso esforço. isso é o que me parece ver surgir a cada instante. que morava muito longe dos puis. Terminamos nosso encontro. Outra observação da mesma natureza: estando as crianças ainda em relação com os objetos de seu apego inaugural. A criança. A sra. onde ele procura. É assim. e o mais adiante possível. ainda recentemente. pelo menos não neurose de transferência. a srta.esta desabroche e. acolher a palavra. Melanie Klein argumenta. no fundo. em engajar-se nela. Logo. direi que n engajamento do analista numa outra relação que não a da palavra. Melanie Klein. Essa falta sensível em toda parte. mãe e até mesmo irmãos e irmãs rivais — estou citando. Devemos admitir as afirmações da sra. ou de adivi- . antes de mais nada. por n. segundo ela. mesmo numa idade extremamente precoce. e se desenvolve uma dramati/. Já entre os dois anos e meio r ires anos. Anna Freud com as da sra. na i dação primária com os pais. linha reconstituído mesmo assim todo um drama familiar com pai. desde já. A imagem. não se l>oilc. o que o colocava numa relação isolada e dual com uma só pessoa. Frustração. ocasionalmente. e essa experiência nos é iiimunicada através de casos clínicos que às vezes direcionam as mivas para o bizarro. com efeito. não teria muito mais que uma importância pitoresca se não o acompanhássemos com base na análise estrutural. por exemplo. pura e simples.BATE-SE NUMA CRIANÇA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 113 VII BATE-SE NUMA CRIANÇA E A JOVEM HOMOSSEXUAL Intersubjetividade e dessubjetivação. Esquema permutativo do caso. de passagem. A simbólica do dom. ao contrário. na psicanálise. que há interesse. contrariamente ao que i li/ a srta.nnda estão incluídas na situação criadora da tensão neurótica. como por uni pressentimento. Anna Freud botou muita água no seu vinho desde então.ao profundamente estranha à atualidade da relação familiar da manca. com os pais reais. o analista deve dar sua posição. molde da perversão. com o real. É somente sob a condição de fazê-la progredir. devido a (cr que intervir aqui inteiramente no plano atual. Sem dúvida. eu a sentia. Que exista uma falta na teoria analítica.r nata de revelar na análise não está. diz ela. numa simboliBação.MI estar desenvolvida. reativar-se em meu espírito ao ver confrontarem-se as afirmações da srta. O caso. que nada é mais M-inelhante à análise de um adulto que a análise de uma criança. e modificar profundamente sua técnica.iquela do adulto. Ao mesmo tempo que suas peripécias. à função essencial da palavra na relação analítica. amor e gozo. numa relação imediata. i|nc são a técnica que lhe convém. nem mesmo concebida. tentando resumir o caso de homossexualidade feminina apresentado por Freud. mas se inscreve. a situação é inteiramente modificada com referência ao i|iic se pode constatar na relação real. o que está em jogo i»i inconsciente da criança já nada tem a ver. fazer-lhe eco. o que •. é ainda assim indicada.

e da qual nossa análise deve encontrar o verdadeiro sentido. mas advertidos pela experiência e por uma evidência que se impõe verdadeiramente na prática analítica. quaisquer que sejam o papel e a função que eles (r. num mundo imaginário global que é a ideia do continente do corpo materno.indo que deveria ser célebre. dizem que se deve voltar. mais o complexo de Édipo estivesse ali. todavia. esteja a céu aberto na perversão. Isso merece. articulado e pronto para entrar em ação. É característico que a atenção de Freud se volta para uma frase iln qual ele faz. toda essa máquina exigindo a todo instante. então. quanto mais nos aproximássemos da origem. toda a dialética que tende a se estabelecer a partir do Édipo. não deve ser tomada como 0 foi durante muito tempo. reduzida como nele se encontra.Mimem em tal caso particular. Mas. Se não podemos deixar de nos surpreender pelo testemunho de que toda essa fantasmagoria é adequada aos dados únicos manejados aqui pela sra. grosso modo. vamos tentar ver como ele concebe o mecanismo de um fenómeno que se pode qualificar de perverso. e que ela faz parte de fato — ela também — daquilo que se realizou através de todas as crises. f (|ue é extraída diretamente da declaração dos doentes quando aboril. no fundo do qual se agitam. e de certa maneira em estado livre. Portanto. de um acidente na evolução das pulsões. mais: temos no próprio Freud um exemplo que prova que sua fórmula. as mesmas etapas. e o que pode. não podemos. O que é a perversão? No interior de um mesmo grupo psicanalítico. acreditando seguir Freud. todas as fantasias primordiais presentes desde a origem. que lhes é inspirada por todos os jogos através dos quais prossegue uma análise da redução das defesas: trata-se. e poderemos enfim perceber o que quer ih/. na pulsão genital. à noção da persistência de uma fixação incidindo sobre uma pulsão parcial. Não se deve acreditar que Freud jamais se tenha prevenido de nos dar sobre este ponto uma noção a elaborar. que nem são aliás os mais perspicazes ou os melhores. Essa questão. para mover-se. e tendendo a se estruturar num drama que parece pré-formado. Esta atravessaria. tentam mostrar que a perversão está muito longe de ser esse elemento puro que persiste. de certo modo. fusões e desfusões dramáticas atravessadas por uma neurose. escutam-se. a mesma abundância. pura e simplesmente. Ein Kind wird geschlagen. quatro de mulheres e dois de homens. líles tentam. No fundo . ressurge em toda parte. a "ContriIniicão ao estudo da génese das perversões sexuais". Vamos observar as coisas um pouco mais de perto.sadomasoquistas. i k. Alguns. realmente. para dizer a verdade. É realmente outra coisa que Freud nos propõe nessa fórmula. iria se tratar. o surgimento de instintos mais agressivos. Tudo se passa como se. se a expusermos. Ela não se submeteria aos avatares que tendem a reduzir as outras pulsões parciais. sobre esse ponto. que é o da perversão. mas o mínimo que se pode dizer é que ela não é pensada. os mesmos ritmos. as vozes mais discordantes. da erotização da defesa. Freud nos diz centrar seu estudo em seis casos. afinal de contas. que se formule uma questão. mesmo. por que isso pode ser erotizado? Aí está toda a questão. na perversão. que se pode qualificar. pura e simplesmente. ao menos.u ompanhar Freud. intacta. e a unificá-las num movimento que as faz resultar. essa mudança de qualidade. na perversão. até mesmo o de uma perversão categórica. essa satisfação libidinal? Na verdade. quando estamos em presença de um caso neurótico. essa coloração. esses analistas querem.114 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO BATE-SE NUMA CRIANÇA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 115 nhã. em primeiro lugar. Traduzindo à maneira clássica a noção de Freud de que a perversão é o negativo da neurose. . que é a pulsão ideal unificadora. Melanie Klein. Tentaremos. Diria. explicar que a perversão é o negativo da neurose apresentando uma fórmula tal como a seguinte.o seu título. ao mesmo tempo.cr ele quando afirma que a perversão é o negativo da neurose. sem se contentar com um rótulo clínico. a coisa não é impensável. querer dizer essa simbolizaçao dramática que parece se ver mais preenchida à medida que se remonta mais longe. segundo a (|iial a perversão é o negativo da neurose. Outros.un o tema de suas fantasias. como se devêssemos simplesmente entendiT que o que está oculto no inconsciente. fazer da perversão uma entidade na qual a pulsão não se elaborou. Bem o percebo. deixar de nos indagar em presença de que estamos. e vamos reencontrá-la no caminho preciso por onde tento conduzi-los por ora. De onde vem essa iTotização? Onde está situado o poder invisível que projetaria o que parece vir ali como uma espécie de supérfluo. e que apresenta a mesma riqueza dimensional desta última. que são todos de neuroses obsessivas. isso faz imagem. tomando esse 1 .

essa fantasia enunciada na sua formulação típica: Bate-se numa criança"? Freud nos passa o que sua experiência lhe mostrou sobre isso. que tiveram um papel perfeitamente compreensível num momento da evolução do sujeito. não omitimos a observação de que se trata de uma menina considerada num certo momento em (|ue já se constituiu o complexo de Édipo. até mesmo um impasse ou uma antinomia. de manter os olhos abertos. sob a condição.ihsolutamente primitiva não deve deixar de se relacionar com o fato de se tratar de uma menina. e em que a relação com o p. Aquele que se submete é. pode-se di/. A primeira fantasia que se pode encontrar. por razões que irá precisar adiante. na história do sujeito. deixando abertas as questões a que só responde com muita dificuldade. Quando o sujeito declara pôr em jogo no-tratamento aquilo que é a fantasia. É a estrutura desses estados que eu gostaria de lhes propor. desse modo. O que significa. A distância entre o uso fantasístico ou imaginário dessas imagens e sua formulação falada é realmente de natureza a já nos fazer ficar de orelhas em pé. cie próprio. Esse comportamento do sujeito já é um sinal que marca um limite: isso não é da mesma ordem do jogar mentalmente com a fantasia. tanto por sua presença quanto pelos cuidados que lhe são prodigalizados. frustra a criança da afeição dos pais. para permitir a vocês reconhecer aí elementos que são absolutamente manifestos. Enquanto as práticas masturbatórias mais ou menos associadas a essas fantasias não acarretam. O progresso da análise mostra. Na verdade. de um rival que. outras fantasias. frequentemente. de saída. por comportar três personagens: existe o agente da punição. culpa. uma criança que o sujeito odeia. ou falar dela. O sujeito formula e organiza uma situação primitiva dramática a partir do ponto em que estamos na análise. uma perspectiva histórica que é retroativa. Também existe aí. Essa fantasia aparece mais ou menos ligada. em especial.er pra acentuar as coisas nesse sentido. ele não pode dar.116 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO BATE-SE NUMA CRIANÇA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 117 está a sua experiência de todos os outros casos. bate em meu irmão ou . Há u relação do sujeito com dois outros. qualquer carga de culpa. ele a exprime sob uma forma notável por sua imprecisão. grandes dificuldades. e que nós mesmos <lrixaremos de lado por hoje. despencar da preferência parental que está em jogo. e que ele vê. í\o de um irmão ou uma irmã. tentamos sempre situar em que nível da estrutura subjetiva se passa o fenómeno. para os sujeitos. quando se . em compensação quando se trata de formular essas fantasias. Mas vamos deixar para o futuro a explii acão do problema. Aqui. segundo Freud. A situação fantasística tem essa complexidade manifesta. pelo progresso da iinálise. Sem insistir nesse ponto.ii está instituída. cujas relações entre si são motivadas por um elemento centrado no sujeito. O importante é que constatamos aí. do pai. e que se resume sob esse título: a estrutura subjetiva. Além disso. assume a forma seguinte: Meu pai bate numa criança i/ni' é a criança que eu odeio. Uma dimensão e uma tensão tríplices estão implicadas aqui. são três etapas. não apenas se apresentam. Meu pai. até mesmo de vergonha ou acanhamento. existe aquele que se submete a ela e existe o sujeito. de uma maneira que se inscreve na sua palavra atual e no seu poder de símbolização presente. Existe aqui um traço bastante notável a se pôr em evidência. e a tentativa de organizá-la. uma resposta satisfatória. nos sujeitos. o que se apresenta como a coisa primitiva. repugnância. sobre os quais ele mesmo não tem uma compreensão tão grande. É assim que encontramos. Em outras palavras. Freud indica. mas ainda isso provoca neles uma aversão bastante pronunciada. para dar sua verdadeira posição àquilo que se apresenta com frequência na teoria como uma ambiguidade. Vou simplesmente destacar certos elementos dele que concernem diretamente ao caminho no qual os engajei da última vez. privilegiado pelo fato de que o outro despenca dessa preferência. que se escandem na história do sujeito. nos diz Freud. que vai se limitar ao que se passa nas mulheres. à medida que esta se abre sob a pressão analítica e permite reencontrar a origem dessa fantasia. abordando o problema pelo caso da jovem homossexual. em dado momento.uiíilisa o fato. A preeminência da pessoa do pai numa fantasia . diz Freud. ao que me parece. na primeira parte de sua exposição. nomeailamente. a organização primordial mais profunda. por uma série de trarnsformações. Não vamos chegar hoje ao fim desse artigo. não o faz sem marcar uma espécie de aversão. pois quase nada mais é capaz de dizer para caracterizar essa fantasia. Trata-se aqui. enquanto se sente. que não colocamos em primeiro plano desta vez. apenas. que essa fantasia veio substituir. o resumo de uma massa considerável de experiências. ao menos nessa dimensão em que tentamos avançar. de saída.

uma estrutura que põe ali um seniido. uma referência ao sujeito. mas que o eu está. o meio. em favor de quem a coisa se produz. a precedência. uma espécie de antecipação. reencontra-se vagamente a função paterna. uma comunicação de amor. Essa fugacidade t de tal modo a sua característica que a situação se precipita rapidamriile na terceira etapa. Freud o disse. introduzida como motriz no interior da situação tríplice. instrumento da comunicação entre os dois sujeitos.ido. estava prenhe de ioda virtualidade. hira resolvê-la. Enquanto a primeira l. O sujeito se encontra incluído aí com o outro numa criação dual e. Passemos agora à segunda etapa. o que ele recebe. indispensável para compreender a motivação daquilo que se produz na história do sujeito. Acompanho o texto de Freud. que í fundamental na relação dual. . a segunda . Aqui. a saber. l )i'|>ois da redução da situação intersubjetiva primeira com sua tensão d mporal. o que bem mostra a (Icssubjetivação essencial que se produz nessa relação. Esta é a clássica' ambiguidade sadomasoquista. uma situação reduzida. a expressão de seu voto. a noção de medo. nessa ocasião. Existe. Na etapa anterior. na intenção de fazê-lo saber que algo lhe é dado. como na primeira etapa. 1'iond quis respeitar a fórmula do sujeito. que exclui qualquer outra dimensão além daquela da relação do sujeito com o agente espancador. vamos concluir com Freud que isso se liga à essência ilo masoquismo. com toda a problemática que levanta no pliino libidinal. oriunda de uma situação complexa. A precipitação num sentido nu noutro. Por quê? O que se deve transpor de um sujeito ao outro. Nesse Se. alguma coisa é indicada. mas trata-se. por mu instante. portanto. A produção fantasística vai fazê-la i xplodir. chega-se . Por isso. portanto. f cie. Vamos nos encontrar. de maneira muito particular. diante de uma estrutura intersubjetiva plena.. na medida em que o sujeito tem que acreditar ou inferir alguma coisa sobre um certo comportamento que se dirige ao objeto segundo. Mflo de uma criança. Esse terceiro que é o sujeito está presentificado na situação como aquele aos olhos de quem isso deve se passar. pode se prestar a todos os tipos de interpretações.i|ncsenta uma situação tão ambígua que podemos nos perguntar. Ela não era nem sexual. mas que a situação ternária instaurada na fantasia primitiva porte em si mesma a marca da estrutura intersubjetiva que constitui toda palavra consumada. que a explica.. No terceiro tempo. de tal modo é fugaz. Krcncontra-se aqui. em que medida o sujeito participa da ação daquele que n . fortemente acenlii. e sim de várias.i M i nação dessubjetivada que é a da fantasia terminal. é marcada na segunda etapa. elas mesmas. O próprio fato de que se possa falar. l'ode-se ver. que é. e a continuição da discussão o demonstra. Esta etapa. a dois personagens. ambígua. portanto. nem especialmente sádica. Essa situação. sem aliás enfatizá-la. não passa de um substituto. ou. somos quase «cuipre forçados a reconstruí-la. no próprio ato ilc ser espancado. mas permanecendo ambígua. de seu desejo de ser preferido ou amado. Esta segunda etapa produz a fantasia: Eu sou espancado por meu pai. o privilégio da preferência. no sentido em que ela se estabelece na superação consumada de uma palavra. aquele que sofre.. A introdução do segundo sujeito é necessária. e da passagem à situação segunda. isto é..iniasia encerra uma organização. E existe referência ao terceiro como sujeito. de dimensão temporal. uma tensão. dual e recíproca.nnação. Por outro lado. por extremamente estruturada que fosse. niíis continha esses traços potencialmente. multiplicando-a em mil exemplares. já que é às expensas desse segundo que se declara. para aquele que é o sujeito central. que supõe a referência intersubjetiva tríplice. é indicativo. nessa ocasião.ij^ride e o golpeia. o sujeito numa posição terceira. que a descreve como uma etapa reconstruída. mas . a •. Freud nos diz. assim. que se poderia indicar por uma série de flechas. Trata-se aqui.. É ele ou o outro que é espancado. a saber: Bate-se niiniii criança. Esta representa. afinal. Mas estas vão permanecer. A segunda etapa é dual. tomado como terceiro. O sujeito se encontra numa posição recíproca com o outro. O importante não é que a coisa tenha sido falada. ou melhor. Este último é considerado. com tudo o que esta introduz de referência temporal e de escansão.. o sujeito é reduzido a seu ponto mais extremo.Ki mesmo tempo exclusiva. de essência »lo masoquismo. com frequência. na ocasião. disso ele é o instrumento. o modo. Uma causalidade.118 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO BATE-SE NUMA CRIANÇA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 119 minha irmã por medo de que eu não acredite que o prefiram a mim. Encontramos aí este ou. com referência à primeira. a mola. Ni>h a forma de um puro e simples observador. de tensão à frente. marcadas pelo caráter da maior ambiguidade. mas em geral n pai não é reconhecível. de uma formação já dramatizada e reativa. mas nem por isso resolvida. anima e motiva a ação sobre o personagem segundo. uma transposição ou o deslocamento de um elemento lalvez já marcado de erotismo. aparentemente.

Ela se interrompe. o S na medida em que é palavra. Isso. Essa instantaneidade é característica da redução da cena plena. na maioria das vezes depois ilc um breve esforço analítico. do qual lhes disseram que é explicável por esse mais-além nunca visto. o lugar onde se articula a palavra inconsciente. afinal de contas. assumir a função de substituto daquilo que não é visto. toda espécie de objeto. ou antes. contido. dos elementos significantes da palavra articulada no nível desse transobjeto. que eliminou progressivamente toda a estrutura subjetiva da situação para deixar subsistir apenas um resíduo inteiramente dessubjetivado e. que deve retomar suas dimensões no interior do diálogo analítico. uma dessubjetivação radical de toda a estrutura. na barra do vestido. Pensem na maneira como uma sequência cinematográfica que se desenvolvesse lapidamente fosse parar de repente num ponto. imaginário sem dúvida. Ela é tanto esta aqui: Meu pai. Essa relação imaginária está no caminho . o falo. com efeito. me manifesta que me ama. no ponto preciso em que estamos do nosso progresso? Referindo-nos ao nosso esquema. no ponto da última redução. a saber. inconstituída. em todos os seus sintomas constitutivos. ao menos em alguns casos particulares. A dimensão imaginária aparece. esvaziados de seu sujeito.120 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO BATE-SE NUMA CRIANÇA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 121 Resta. a uma situação precisa — a criança se detém na sua observação. o fluxo da memória. que é o grande Outro. mas tudo o que é significação está perdido. detendo-o neste ponto que se chama a lembrança encobridora. uma palavra inconsciente. a valorização da imagem. que foi preciso encontrar através de todos os artifícios da análise da transferência. por exemplo. e é por isso mesmo que este último pode. imobilizando todos os personagens. para vê-lo. Ou qualquer outra fórmula que valorize de uma maneira qualquer um dos acentos dessa relação dramática. isto é. a relação intersubjetiva. batendo numa criança que é a criança que eu odeio. estrutura articulada. enigmático. nem sempre um sujeito. que não está presente na neurose. Temos aí uma espécie de iihictivação dos significantes da situação. entre o eu e o outro. não assumida pelo sujeito — daquilo que é. porque conserva toda a carga — mas a carga não revelada. mas ao menos um olho. Como podemos traduzir isso em nossa língua. ainda muito visível. ou simplesmente de olho. t|iie fixa. pois. Trata-se da imagem nu medida em que ela permanece a testemunha privilegiada de algo (|iie no inconsciente deve ser articulado. que pode não passar de uma tela sobre a qual o sujeito é instituído. mais ou menos marcada pela especularidade e pela reciprocidade. para nos limitarmos aí. prevalente a cada vez que «c trata de uma perversão. ali onde se encontra o sapato. mas cujas evoluções se manifestam. a fantasia perversa. mas que é articulado. como se apresenta? Ela porta em si o testemunho. a qual fica carregada de todos os valores eróticos incluídos naquilo que ela exprimiu e de que ela é a testemunha e o suporte. Vão observar aqui um notável concurso com a estrutura daquilo a que se pode chamar de lembrança encobridora. significante. Será outra coisa. memória. história. É preciso. no nível do Outro. Existe aí como que uma redução simbólica. reduz ao estado de instantaneidade. mas o é sob a forma de um puro signo. e com tii/. isto é. A perversão. na barra do vestido da mãe. formulado como sendo verdadeiramente para o sujeito o que a mãe possui. o último suporte restante. sobre o fetiche. mais ou menos fantasmatizada. e reposto em jogo na dialética da transferência. com efeito. aliás. a relação imaginária. que está excluído. Verifica-se. mas exemplares. ao menos nas lembranças que ainda lhe são acessíveis. a saber. se podemos dizê-lo. a estrutura articulada em que o sujeito está engajado. O que é indicado aqui no sentido de uma relação estruturante fundamental da história do sujeito no nível da perversão é ao mesmo tempo mantido. encontramo-nos diante de algo da mesma ordem. é reencontrado num elemento do quadro clínico que é a fantasia. inscreve-se entre as extremidades a-a da relação. quanto a seguinte: Meu pai bate numa criança de medo que eu acredite que não seja preferido. mas essencial à sua fundação simbólica como mãe fálica. em cujo nível o sujeito ali está reduzido ao estado de espectador. O que se pode chamar de significantes em estado puro se mantêm sem a relação intersubjetiva. não acima do tornozelo. pelo menos esta é a sua lembrança. o momento em que a cadeia da memória se interrompe. articulada de sujeito a sujeito. a saber. todos os elementos estão lá. o que encontramos no nível da perversão? Imaginem agora o que vocês sabem. que isso está ligado para o sujeito. Constatamos aqui como se forma o que se pode chamar o molde da perversão. No nível da fantasia perversa. ao que se imobiliza na fantasia. daquilo que sempre caracteriza no limite. tem uma propriedade que podemos agora destacar.ão: o pênis da mãe fálica. Mas encontramo-nos aqui na presença de um elemento que toma lugar sobre a linha S-A. Com a fantasia. isto é. Essa fantasia. a saber.

e depois precipitada. através dos avatares. nem mesmo r-. Em suma. tentemos irsumir. mas não realizada. aquilo que se deve comunicar desse Outro. Esta é uma palavra que é realmente a do sujeito. num estilo altamente elaborado de relações cavalheirescas e propriamente masculinas. Por outro lado. uma mensagem que o sujeito deve receber do Outro sob uma forma invertida. instalada num certo caráter egóico com referência aos objetos imediatamente atraentes para He. sem o que isso não seria recalcado. produz-se então alguma coisa que a leva a uma rspécie de inversão. cavilha. com o caráter de um dom. Ela vai ser levada. da revolução do Édipo. o que não quer dizer que não tivesse suas premissas em fenómenos primordiais. mas como ela é. nesse artigo primordial. ao sujeito. Vamos agora tentar inscrever o caso do outro dia. Vamos retomá-lo e implicá-lo nos mesmos termos que nerviram parar analisar a posição. da aventura. . como a vocação típica da mulher. finalmente. não se concebe. toda a génese atual do sujeito. a análise freudiana nos dá da maneira mais nítida.ida como devoradora por essa pessoa a que chamamos a dama. a uma paixão literalmente qualifii . aos olhos de todos. não se compreende. que também haja ali dentro alguma impossibilidade. do sujeito. levando-a a interessar-se por objetos de amor marcados pelo signo da feminilidade. com uma paixão oferecida sem exigência. Sobre o eixo S-A deve se verificar. depois estabelecida. a persistência de uma pulsão parcial irredutível. produziu-se alguma coisa. Vamos começar por um estado que é primordial. lemos todas as suas molas e temos seu ponto de partida. que são os correspondentes a seu desejo. particularmente hem orientada no sentido por eles esperado. a interposição imaginária a-a' é aquilo em que o sujeito encontra seu estatuto. Possível não é dizer tudo — é preciso. Nessa ocasião. Tentemos compreender os raminhos que o próprio Freud destacou. Freud. em nosso esquema da relação cruzada do sujeito com o Outro. com efeito. realmente. e tudo é articulado ainda muito mais adiante do que o que lhes estou dizendo. na medida em que ele se engaja nos trilhos imaginários que formam o que se chama de suas fixações libidinais. o amante se (irojetando para além mesmo de toda espécie de manifestação da ninada. entre os dois. encontramos aí uma das formas mais características il. a articulação do complexo de Édipo. instaurando assim uma relação possível. No momento da puberdade. afinal de contas. por ele reconhecida como tal. Podemos distinguir cinco tempos nos fenómenos principais ila instauração dessa perversão — o fato de que a consideremos como fundamental ou adquirida pouco importa. devido a sua natureza de palavra. pode igualmente permanecer no Outro e aí constituir o recalcado e o inconsciente. neomaternizante. na medida em que. Esta é uma (KTversão constituída tardiamente. o grande Outro. e ii. ou seja.lis ou menos maternal. É de se ficar estupefato que não se tenha podido nem mesmo sonhar compreender a fórmula de Freud — a perversão é o negativo da neurose — como quer sua tradução. Essa indicação. elemento de alguma coisa que. Freud nos diz o quê. indica de modo suficiente que nenhuma estruturação perversa. desejo. Embora não levemos hoje o exercício até o seu termo.io é à toa. Como conceber essa transformação? Dei a vocês seu primeiro (empo e o resultado. a da maternidade. Nessa ocasião. é recalcado. Sobre essa base. ali pelos treze ou quatorze anos. A perversão seria uma pulsão não elaborada pelo mecanismo edipiano e neurótico. essa mocinha valoriza um objeto que é uma criança de quem cuida e a quem está ligada por laços (Ir afeição. aquele da jovem homossexual. É precisamente porque existe essa impossibilidade nas situações comuns que se tornam necessários todos os artifícios da transferência para que seja novamente passável. uma pura e simples sobrevivência. Ela se mostra. popular. Essa dama. ou mais exatamente daquilo que. ao contrário. não se articula senão no. justamente.perança de retribuição. estabelecer a significação simbólica. na medida em que o Eu do sujeito vem a ser.i relação amorosa em suas formas de cultivo mais elevadas. Estes são mulheres em situação m. ela vai tratá-la. e em muitos outros pontos ainda.122 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO BATE-SE NUMA CRIANÇA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 123 do que se passa do sujeito ao Outro. assim. sabemos quando ela foi indicada. a organização. de certo modo. pelo e para o processo. formulável. resta a se situar no Outro. Freud marca claramente que o problema da constituição de toda perversão deve ser abordado a partir do Édipo. por mais primitiva que a supusermos — ao menos dentre aquelas que chegam ao nosso conhecimento de analistas — é articulável senão como meio. sua estrutura de objeto.

que a fantasia do falo. É porque as coisas se passam neste nível que há uma ligação tão estreita entre a simbólica do dom e a maturação genital. ela tem que encontrá-lo no complexo de Édipo. Freud chega a dizer que se os objetos pré-genitais são postos cm jogo na dialética edipiana é na medida em que eles se prestam mais facilmente a representações verbais. estão no entanto ligadas por um fator que está incluído na situação humana real. A criança feminina. E isso. as regras instauradas pela lei quanto ao exercício das funções genitais. como todos sabem. em contrapartida. tudo já está adivinhado e inscrito nas tendências inconscientes. no momento em que realiza num certo plano a simbólica do dom. quando querem justificá-la por motivos que seriam para o sujeito determinados no real. Qual é o sentido do que nos diz Freud a respeito disso? Logo antes do período de latência. realmente estruturada e organizada. é na medida em que não possui o falo que ela se introduz na simbólica do dom. do qual. os elementos dramáticos. nos ili/ Freud. da relação edipiana. isso deveria se satisfazer unicamente na elaboração genital? A resposta de Freud visa ao que há de obscuro para a criança naquilo que se passa no nível genital. nessa ocasião. No fim do complexo de Édipo. Dado que. Aí está. como nos sublinha Freud. os acidentes. É mais fácil para nós do que para esses autores admitir que. mas o modo geral pode se resumir mais ou menos assim. é marcado pelo sinal de menos. assume seu valor no interior da simbólica do dom. o que quer dizer isso? Já estamos. e para a criança que não o possui. isto é. com este menos. e que o sujeito já tem. que se deve tomar como um fato — pelo qual o sujeito. é mesmo necessário que a prevalência fálica seja uma espécie de formação onde o sujeito encontre alguma vantagem. com certeza. a criança feminina. que é por isso mesmo que vemos tantos equivalentes do falo nos sintomas. Essas fórmulas de Freud sugerem uma problemática de que os autores não conseguem sair. A menina. Wortvorstellung< a. a saber. É na medida em que ela faliciza a situação. Resta que é necessário haver alguma coisa para se poder colocar mais ou menos. no nível genital. Existe. vendo-se a partir daí obrigados a recorrer a extraordinários modos de explicação. o que não se tem é tão existente quanto o resto. que é a prevalência do falo. na medida em que estas entrem efetivamente em jogo na troca inter-humana. No interior dessa simbólica do dom. Freud insiste nesse ponto: o falo não tem. ela não tem a experiência — os objetos que fazem parte das relações pré-genitais. qual a mola da entrada da menina no complexo de Édipo. Mas isso não tem. Verifica-se. nenhuma coerência interna. entre parênteses. que se trate de ter ou não ter o falo. Sim. para o sujeito. a plena realização da função genital. individual. A criança pode dizer a si l . não é por . isto é. um elemento fantasístico. como o menino com o mais. diz ele. é introduzido na simbólica do dom.124 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO BATE-SE NUMA CRIANÇA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 125 Vamos partir da fase fálica da organização genital. e que se tornam precisamente cada vez mais impensáveis na medida em que se remonta em direção à origem. o falo seja este elemento imaginário — isso é um fato. Resta. tantas coisas. biológica. mediante o que há para o sujeito dois tipos de seres no mundo: os seres que têm o falo e os que não o têm. a criança masculina. todas as espécies de coisas podem ser dadas em troca. que ela entra no complexo de Édipo. Ela entra. por uma boa razão. se entra no complexo de Édipo. no nível em que um elemento imaginário entra numa dialética simbólica. são mais acessíveis a representações verbais. é por aí que ele sai. de acordo com as premissas. Por que tantos elementos de relações pré-genitais entram em jogo na dialética edipiana? Por que as frustrações do nível anal ou oral tendem a se produzir. e que exista ali um processo de defesa. é na medida em que ela não tem.ií que ele entra. isto é. Freud vai ainda mais longe. enquanto. Com efeito. formulada em termos absolutamente crus. O que ela não tem. envolve os autores numa série de construções que só fazem reportar à origem toda a dialética simbólica. de fato. aqui. alguma coisa que não está ali. Já disse a vocês que iria colocá-los. devido a sua natureza. ()ra. o mesmo valor para aquele que possui realmente o falo. e chegam a realizar as frustrações. essencialmente imaginário. e vocês vão encontrar em seu "Bate-se numa criança" a indicação disso. nessa perspectiva. mas isso é somente recuar o problema. no nível genital. até e inclusive a escolha do objeto. O que está em questão aí é o falo. o sujeito infantil. que são duas coisas diferentes. O menino. presença ou ausência. é preciso que ele faça dom daquilo que tem. que indica o ponto de realização do genital. Simplesmente. Tudo está ali. que são castrados. a saber. isto é. com efeito. não é inconcebível. é claro. A simbólica do dom e a maturação genital. no entanto. a pré-formação do que torna adequada a cooperação dos sexos. numa dialética simbólica. chega à fase fálica. masculino ou feminino. portanto.

Esta é uma maneira de ver as coisas. . o dom como signo de amor. Não podemos fundar a mínima génese da realidade no fato de que a criança tenha ou não tenha o seio. um objeto que já assumiu uma certa realização na imaginação da criança. no máximo. algo além do objeto. ou a oposição absolutamente marcada que há entre o objeto real. como muito bem percebeu o sr. e por outro lado a mãe. por outro. sua primeira introdução na dialética do Édipo se liga. a mãe na medida em que se institui como objeto total. que necessita de uma explicação original. A frustração do amor é prenhe em si mesma de todas as relações intersubjetivas tais como se poderão constituir depois. Sustenta-se que a criança faz a primeira prova da relação entre o princípio do prazer e o princípio de realidade nas frustrações sentidas por parte da mãe. que valorizar o seguinte. Se ela se satisfaz cuidando dessa criança é realmente por adquirir. tomada como objeto marcado e conotado por uma possibilidade de mais ou de menos. difícil de compreender. A frustração do amor e a frustração do gozo são duas coisas distintas. o que é produzido pela frustração do gozo? Ela produz. É mesmo por essa razão que o sr. o pênis imaginário de que foi fundamentalmente frustrada. esta criança de quem ela toma conta. Contrariamente ao que se diz. Winnicott. o relançamento do desejo. Se ela não tiver o seio. por um lado. Permanece. Winnicott é levado a nos lazer observar qual é a coisa verdadeiramente apreensível no comportamento da criança que nos permite esclarecer que exista um progresso. enquanto presença ou ausência — que a frustração realizada por que quer que seja que se refira à mãe é frustração de amor — que tudo o que vem ila mãe como respondendo a este apelo é dom. é instituída pela função do apelo — que ela é doravante. o da jovem homossexual. Em outras palavras.126 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO BATE-SE NUMA CRIANÇA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 127 mesma mais facilmente que aquilo que o pai dá à mãe na ocasião é sua urina. que venha para a satisfação das necessidades da criança. Nada mais faço. sem o saber. é realmente a bipolaridade. por outro lado. rcrtamente que não sem a confusão comum que se lê na literatura analítica. A Ilustração do gozo não é em absoluto prenhe do que quer que seja. mas nenhuma espécie de constituição de objeto. por um hido. como mãe imaginária. o que satisfaz nela? A substituição imaginária fálica. prover do signo mais ou menos. apesar de tudo. assim. como agente. e. Esta distinção entre o seio e a mãe como objeto total é feita pela •ira. um mais-além. Em outras palavras. cíctivamente. com efeito. a função e a existência como objeto. o objeto. existe uma diferença radical entre. qualquer que seja este. Ela distingue realmente os objetos parciais. que é característico da frustração originária: todo objeto introduzido por uma frustração realizada só poderia ser um objeto que o sujeito toma nessa posição ambígua que é a da pertinência ao seu próprio corpo. na medida em que esta é capaz de fornecer ou não fornecer esse objeto real. segundo Freud. É mais fácil simbolizar. Isso permanece. ele conhece muito bem o uso. trata-se de uma criança real. e pode criar na criança a famosa posição depressiva. porque. em seguida a isso. Se sublinho isso para vocês é porque. sob sua forma mais rudimentar. Ora. a saber. como sujeito. e. Mas no exemplo que nos ocupa. se existe alguma coisa em que insisti nas lições nnteriores. assim. que a mãe. não é a frustração do gozo que engendra a realidade. à maneira de um substituto. isto é. e de difícil acesso para a menina. vocês vêem os termos frustração do objeto ou perda do objeto de amor empregados indiferentemente. A menina. isto é. o amor da mãe e. pela qual. ao fato de que o pênis que ela deseja é a criança que ela espera receber do pai. que visa radicalmente a alguma coisa outra. a propósito das relações primordiais da criança e da mãe. seja (|iial for. o que vou notar pondo o pênis imaginário no nível do menos. A menina cuida de uma criança consistente que está no jogo. o seio da mãe. na medida em que a criança pode ser privada dele. Icm fome e continua a chorar. põe-se toda a ênfase no aspecto passivo da frustração. Mãe imaginária Criança real Pênis imaginário Pai simbólico A JOVEM HOMOSSEXUAL Por outro lado. ela se constitui. da sua urina. Mas o que fica elidido é que esses dois objetos não são da mesma natureza. Melanie Klein.

Existe algo de significativo nas plumas ou nadadeiras do adversário que faz dele um adversário. Isso. de que ela foi frustrada na origem. O sr. a que não atribuímos uma realidade plena. é evidente como as ideias filosóficas e o sistema religioso e tudo aquilo em meio a que vive um bom cidadão inglês. com efeito. imagem em torno da qual podem se agrupar e desagrupar os sujeitos. O sr. afinal. mas. de quem nos é dito que ela tem seu objeto transicional. O sr. Sobre tal doutrina em matéria religiosa ou filosófica que vocês possam ter. mas não se deve dizer que seja a propósito do objeto de seus desejos. a que a criança segura por uma espécie de apego. Esse caráter é realmente marcado pelo fato de que ninguém em condições normais sonha impor aos outros. ele chegue a isso como que a contragosto. pode encontrar algo contra o que se choca ou com que se queima. Isso não se observa em todas as crianças. ao contrário. por exemplo. não é alguma coisa que seria modelada pelas etapas de desenvolvimento do desejo na medida em que este se institui e se organiza no desenvolvimento infantil. mesmo que se deva lamentar o fato de. à maneira do engodo que orienta sempre os comportamentos do animal. Sem eles. É a ele que se substitui e se superpõe o falo. Trata-se de um domínio entre os dois. onde as coisas são instituídas com um caráter de semi-existência. e sempre se pode observar o que individualiza a imagem no biológico. como pertinência ou não-pertinência. Como organizar o resto se não houvesse isso? Voltemos. o pênis imaginário. que ele chama erradamente de fetiche primitivo. a propósito do qual não se pode falar nem de realidade. é mesmo no meio disso que se situa a vida. nem tampouco um caráter plenamente ilusório. nem de irrealidade. reconhecer qual a função do narcisismo original na constituição de um mundo objetal como tal. Não é simplesmente um elemento polarizando o impulso do desejo. mas na maioria delas. concebido inicialmente como um auto-erotismo imaginado e ideal. Os objetos transicionais são esses objetos semi-reais. É necessário que a imagem seja tomada em si mesma como uma dimensão original. sob a condição de permanecer louco separadamente. É assim que se exprime com muita pertinência o sr. uma pontinha de seu lençol ou do babador. É um objeto ambíguo. a autenticidade ou a realidade dura como ferro daquilo que ele promove como ideia religiosa ou ilusão filosófica. O objeto. não teríamos testemunho algum da maneira como a criança poderia constituir um mundo a partir de suas frustrações. mas que é. É uma outra coisa. O que sucede à frustração do objeto de gozo na criança é uma dimensão original que se mantém no sujeito em estado de relação imaginária. como sendo um objeto a que se deve aderir. para terminar. ao caso da nossa moça apaixonada. está presente no homem. constituídos. Em suma. cada um deles. sabendo de antemão como se comportar. sem dúvida. É por isso que Winnicott se detém nesses objetos que ele chama de transicionais. dirigindo-se para algo que deseja. Winnicott se detém neste ponto e diz que. . numa espécie de nomadismo do objeto transicional. o mundo instituído das Ilhas Britânicas indica a cada um que ele tem o direito de ser louco. nos leva a admitir a autonomia da produção imaginária na sua relação com a imagem do corpo. em quem as imagens são referidas à imagem fundamental que lhe dá seu estatuto global. Winnicott não está errado. nem tampouco qualquer espécie de imagem. na medida em que é engendrado pela frustração. mas o bico do seio que é aqui essencial. Winnicott vê muito bem a relação terminal desses objetos com o fetiche. É claro que a criança constitui um mundo. Ela constitui um mundo na medida em que. Não é o seio. mas acentuado de uma maneira que é observável no comportamento da criança. ninguém sonha dizer que vocês acreditam nela de maneira inabalável. o problema não é saber em que grau maior ou menor se elabora o narcisismo. Eles têm em comum esse caráter de dever nos deter na medida em que se constituem como imagens. o nipple. a forma do outro. caso se quisesse impor sua loucura privada ao conjunto de sujeitos.128 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO BATE-SE NUMA CRIANÇA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 129 Não é simplesmente porque a criança se vê privada do seio materno que ela fomenta a sua imagem fundamental. em vez de abordar o problema aberto pela introdução desse objeto na ordem simbólica. Não é em absoluto um objeto que seria engendrado de um modo qualquer pelo objeto do desejo. ninguém tampouco pensa em retirá-la de vocês. este objeto que não é nem real nem irreal. porque se é mesmo forçado a chegar a isso a partir do momento em que se engaja nessa via. a sua origem. Aí é que começaria a loucura. semi-irreais. que está entre ambos. Trata-se dessa forma de conjunto à qual ela se apega. Em suma. Winnicott.

passa para o nível do eu. O que é amado no amor. aquilo que está. mãnnliches Typus — embora o tradutor tenha traduzido por feminino —. isto é. Simultaneamente a dama real veio aqui à direita. que o sujeito tenha sido frustrado de uma maneira muito particular quando a criança real. É aí que vamos retomar as coisas da próxima vez. produziu-se uma permutação que fez passar no imaginário o pai simbólico. já é por demais inquietador que ela seja real. ele entrou efetivamente em jogo como pai imaginário. ou das tendências. que estava no nível do grande A na primeira etapa. Em a' está a dama. no coração da relação amorosa e do dom. o simbólico e o real? Vocês podem observar que. com efeito. pois ela é o objeto eleito de todas as adorações do sujeito. e é. o objeto de amor que substituiu a criança. e tanto mais que a criança é real. mas à mãe. na menina. isto é. justamente por ter esse mais-além. ao qual é preciso. que se reencontra no quarto. A partir daí instaura-se uma outra relação imaginária. pela criança que lhe vai ser dada pelo pai. O que aconteceu entre ambos? A característica do caso clínico. ou de tal pulsão primitiva que se deve o fato de que as coisas se tenham ordenado no sentido de uma perversão. à maneira de perversão. no amor. Essa necessidade de situar o eixo do amor. não no objeto. É este algo que o objeto não tem e que torna necessária a constelação terceira da história deste sujeito. que a moça completa como pode. que aparece no segundo tempo. é. enquanto o pai. sob a condição de serem distintos. ser uma relação de ciúmes. uma criança imaginária ou real. O desejo do pênis é substituído. à segunda etapa das cinco situações. e não mais como pai simbólico. estará sendo realmente feita a separação desses três elementos absolutamente essenciais. e agarra-se a um objeto que não tem. o pênis simbólico. foi na medida em que se introduziu o real. necessariamente. que são o imaginário. por essa razão e não por outra que isso vai resultar numa perversão. Compreendese. justamente. por identificação do sujeito à função do pai. por sua vez. precisamente. Em A. é o que está para além do sujeito. aliás. em matéria de objeto de amor. mas naquilo que o objeto não tem. foi dada a sua própria mãe. o pai é agora realizado no plano da relação imaginária. que ela dê este algo que ele não tem. O que é preciso para que ela passe ao terceiro tempo. o que dá à situação seu caráter dramático. é na medida. Quando se diz que é a alguma acentuação dos instintos. a introdução da ação real do pai. e ama como um homem. literalmente. Isso se traduz assim em nosso esquema: o pai. mas tem tudo para tê-lo. No presente caso. o pênis simbólico. em seu ponto mais elaborado. Se a dama é amada. este pai simbólico que estava lá no inconsciente. por razões muito estruturadas. o que ele não tem. Aí está a característica do caso. que se encontrava inicialmente no nível imaginário. Essa relação é marcada pelo fato de que aquilo que estava articulado de maneira latente no nível do grande Outro começa a se articular de maneira imaginária.130 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO BATE-SE NUMA CRIANÇA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 131 quando toma conta de sua criança. em que não tem o pênis simbólico. e se a satisfação imaginária a que a moça se entregava tomou um caráter insustentável. permanece ainda assim inconsciente como progenitor. para além do sujeito amado. é que houve. para aprofundar a dialética do dom na medida em que esta é experimentada primor- . Criança ? Dama real Pai imaginário Pênis simbólico A JOVEM HOMOSSEXUAL(2) Logo. Por uma espécie de interposição. a menina deu um substituto real onde encontrava sua satisfação. vinda do pai como simbólico. que não vamos percorrer hoje? Ela é homossexual. ela está na posição viril. nos põe. se a situação se revelou. Ora. nos diz Freud. traço em que já se mostra nela uma acentuação da necessidade. A moça se identifica com o pai e assume o papel deste. com efeito. Torna-se ela mesma o pai imaginário. a partir daí. um real que respondia à situação inconsciente no nível do plano do imaginário. no nível da relação imaginária. Ela também conserva seu pênis. Só que o pai dá realmente uma criança não à filha. à criança que desejava inconscientemente.

e para ver sua outra face. não depende mais dele que aquilo que tem nas mãos satisfaça ou não a 133 . presença ou ausência. metáfora neurótica. e o que significava como tal a frustração do amor. ainda não disse em que resultaria. em nossa prática. Os três tempos da subjetividade. segundo número da revista La Psychanalyse. que deixamos de lado há pouco. a saber. sob a condição de se tomar esta última no sentido da falta de objeto.132 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO dialmente pelo sujeito. mas como este já tem os dados nas mãos. a falta e o dom. pai impotente. a instituição do símbolo puro de mais ou menos. Metonímia perversa. e remeto vocês à introdução que vão ver que dei a meu seminário sobre "A carta roubada". que nada mais é que uma posição objetivável da premissa do jogo. Pai potente. Faço alusão ao nosso famoso jogo de par ou ímpar. se acentuei os paradoxos da frustração pelo lado do objeto. a oposição. Dora entre questão e identificação. contém certos textos que vão lhes permitir encontrar uma nova tentativa da lógica. Pois. dizendo par ou ímpar. encontrá-la ali onde ela está de maneira particularmente viva. serão facilmente encontrados por vocês se refletirem inicialmente na posição zero do problema. Este fascículo. O segundo tempo deve ser encontrado no fato de que a declaração que vocês fazem. isto é. O amor. 16 DE JANEIRO DE 1957 VIII DORA E A JOVEM HOMOSSEXUAL A insistência simbólica da transferência. é uma espécie de demanda pela qual se situam em posição de serem gratificados ou não pela resposta do outro. na medida em que esta se relaciona com a frustração.

em primeiro lugar. sob uma forma que está sempre latente ao exercício do jogo. ao mesmo tempo em que sugere a ele o seu nascimento. de que se trata? Supõe-se. que ao mesmo tempo ele se esforça por lhe furtar. se podemos dizê-lo.134 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO DORA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 135 demanda de vocês. uma lei. a posição da jovem quando ela ainda está no tempo da puberdade. passa no sentido da relação imaginária. chega-se a impasses que. por ora. sem distinguir os planos real. concebendo-a de maneira sumária. a saber. do ponto de vista de quem demanda. Estamos depois do declínio do complexo de Édipo. Se o jogo os interessa é. evidentemente. que se situa. a de seu primeiro equilíbrio. Os três tempos intersubjetivos são aqueles segundo os quais tentamos ver como se introduz o objeto na cadeia simbólica. o tempo que se constituiu da seguinte maneira. imaginário e simbólico. ao mesmo tempo. Sobre essa dimensão essencial repousa o valor de meu texto. Temos. a relação do sujeito com seu pai. aproximando-nos do que é feito. Nós o fazemos para facilitar as coisas. como aquele que pode dar a criança. A primeira estruturação simbólica e imaginária dessa posição se faz da maneira clássica. tentamos estabelecer os princípios de relações entre o objeto e. sobre a qual se estabelece o nível da frustração. na prática analítica. À equivalência pênis imaginário-criança instaura o sujeito como mãe imaginária com referência a este mais-além que é o pai. a dama. que o outro lhe sugira a todo instante uma regularidade. Encontramo-nos agora no segundo tempo. Foi aí que chegamos da última vez. isto é. a constituição da cadeia simbólica. Criança Dama l Tínhamos chegado ao que eu chamava de terceiro tempo. e literalmente impossível de satisfazer. não é mais sustentável por ela na posição imaginária em que o instituía. Pai imaginário Pênis simbólico A JOVEM HOMOSSEXUAL(3) . uma relação imaginária. a saber. admitir esse ordenamento cronológico dos termos desde o passado até o futuro. então. o pênis simbólico. por outro lado. como aquele que pode dar o falo. sob nossa jurisdição. que resumo para vocês a partir de uma primeira situação tomada arbitrariamente com a situação inicial. Algo se realiza que. que é necessário introduzir três termos para que se possa começar a articular algo semelhante a uma lei. quanto mais avançarmos. É nesse momento que se estabelece o que está fundamentalmente no jogo e que lhe dá seu sentido intersubjetivo. Vocês vêem. nos seguintes termos: o pai imaginário. Ou. Mas. É nesse estádio que se produz. fazer desta criança diante de quem o sujeito está em relação imaginária uma criança real. isto é. na medida em que institui o apelo e sua resposta. e sim ternária. é realmente preciso que esse objeto entre nessa cadeia. sua relação com a dama. inconsciente. evidentemente. isto é. frustrada. numa relação perversa entre aspas. Por uma espécie de inversão. A intervenção do pai real no nível da criança de que ela era. Notem que isso já implica fazer uma concessão a um ponto de vista progressivo. intervindo como função simbólica. há projeção da fórmula inconsciente. em outras palavras. que se situava na ordem simbólica. então. como é ordenado pela teoria. seu caráter absolutamente evanescente. aquele que propõe a parte oculta do jogo escamoteia-a a cada instante ao outro. se quiserem. o momento fatal em que o pai intervém no real para dar uma criança à mãe. sem esquecer que. a partir daí. na dialética da frustração. habitualmente. e o pai. Logo. mais espero fazê-los sentir. pelo simples fato de vir a nosso alcance. porque vocês introduzem a terceira dimensão que lhe dá seu sentido. aquela da lei. Pois. é inconsciente. isto é. produz a transformação de toda a equação. situando-o numa dimensão não mais dual. A instituição de uma lei ou de uma regularidade concebida-como possível. na história de nosso caso de homossexualidade feminina. têm aqui o estádio segundo da relação dual. A potência do pai é. Este é o terceiro tempo. em consequência. Com efeito.

como nesse uso. senão Freud. então. a posição dos termos em jogo. A paciente é nele submetida a um cônjuge ideal. É possível situar como distinto o que o sujeito conduz em seu sonho. em seguida a um relatório de Lagache sobre a transferência. Ele a retoma. sob a forma do você é minha mulher. que é do nível do inconsciente. que eu evocava há pouco. só que não chega a tirar daí as consequências extremas. é. Essas resistências. se olharmos mais de perto. o que vemos ser formulado? Sem dúvida. e que é o desejo inconsciente. Certo de tudo o que a paciente lhe diz sobre sua posição e suas intenções. paradoxalmente. a saber. todos os outros. Há. de vez que. Tentemos agora ver o que isso significa. mas o sonho não teria nada de suficiente para se instituir como representante daquilo a que se chama o inconsciente se não houvesse um outro desejo. por não haver chegado a uma formulação depurada do que vem a ser a transferência. pois. numa outra observação a que vamos chegar daqui a pouco. ou. A intervenção dele. estamos longe de ser levados a atribuir toda a responsabilidade a um impasse da posição da doente. a promessa sobre a qual se funda a entrada da menina no complexo de Édipo. Freud. introduz uma comparação entre capitalista e empresário. posição. observar que esses termos. e essa direção nem sempre é. O desejo pré-consciente é o empresário do sonho. de forma confessada. É nesse sentido que digo que um sonho que se produz no decorrer de uma análise comporta sempre uma certa direção para o analista. as intenções de jogar com seu pai — e a doente chega. pode desejar de melhor como resultado do tratamento. enigmática. a direção inconsciente. igualmente. Esta é. aquilo que foi desviado na origem. quanto às relações entre o desejo inconsciente c o desejo pré-consciente. Em suma. todavia. ligado ao fato de dirigir-se a alguém quando conta o sonho em análise. impõem uma estrutura. as da doente. quaisquer que sejam. a formulá-lo — o jogo da tapeação. Toda a questão é saber se devem ser enfatizadas as intenções que Freud nos diz serem. em que podemos nos deter por um instante. Freud distingue muito bem os dois desejos. realmente. casamento fecundo. mais exatamente. discute-o e tem o cuidado de responder de maneira bastante articulada. Isso supõe. e como Freud a formula para nós. teria podido alimentar muitas esperanças. isto é. Freud retoma aqui uma passagem da Interpretação dos sonhos. o sonho manifesta um desejo que vai no sentido daquilo que. na transferência. sua fidelidade à dama. e por uma intervenção feita por ele nesse sentido. tanto na primeira como na terceira etapa. do jogo intersubjetivo da adivinhação. e tem filhos com este. muito precisamente. A Traumdeutung. aqui representada pela família. é um sonho onde só se trata de reunião. obrigatoriamente. e o fator da relação dual. a iludi-lo e desiludi-lo ao mesmo tempo. e articula-se no sonho uma situação que satisfaz a essa promessa. ela mesma. isto é. você e meu mestre. se alterássemos a posição de um dentre eles. É sempre o mesmo conteúdo do inconsciente que se verifica. um elemento imagina- . pelo menos a sociedade. pois. a de Dora. estamos aí numa dialética de tapeação. que dá o fundo do sonho. Ele nos diz que as resistências da doente foram insuperáveis. na entrada do Édipo ou enquanto o Édipo não está resolvido. como Freud observa. algo a ver com a ruptura da situação. Seja o que for que Freud pense disso. Sua significação nos é dada pela análise. Se Freud hesita diante desse conteúdo é. O que se expressa no sonho deve ser concebido pura e simplesmente na perspectiva da tapeação. vê nele apenas um artifício da paciente destinado expressamente a enganá-lo. O que nos diz Freud no momento crucial desta observação? Devido a uma certa concepção que extrai da posição em jogo. ele cristaliza a posição entre si e a paciente de uma maneira que não é satisfatória. Com efeito. em seguida a uma primeira aplicação de nossas fórmulas. a cujo propósito já fiz outrora. longe de tomar o texto do sonho ao pé da letra. seus preconceitos sobre a posição devem ter. o inconsciente pode mentir? Freud se detém longamente neste ponto. sua própria mensagem vinda do pai sob uma forma invertida. você terá um filho meu. que se possa objetar-lhe: Mas. uma pequena intervenção resumindo as posições em que penso se deva conceber o caso. sem dúvida alguma. referido ao significante. Convém. deveríamos situar noutra parte.136 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO DORA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 137 Aí está. ele próprio o afirma. na sua intencionalização pré-consciente? Não parece ser assim. Vamos recordar o que é essa posição. é nesse momento que se rompe a relação analítica. Foi daí que partiu a posição. com efeito. a saber. sua concepção. Portanto. fingir se tratar e manter suas posições. mas o que se formula no inconsciente. como ele as materializa? Que exemplos nos dá delas? Que sentido lhes atribui? Ele as vê particularmente expressas num sonho que. e nunca num lugar qualquer. conjugo. de que a situação se normalizasse.

Temos. de fato. Já estamos vendo. Por outro lado. e chegou a não poder mais tolerá-la. embora a coisa seja dissimulada a Freud na apresentação da situação pela moça. enquanto. em cada um. por definição. no outro. mais ainda. o primeiro passo da experiência freudiana. Esse casal vive numa espécie de relação a quatro com o par formado pelo pai e a filha. Quando falamos de transferência. dialética. casada com um senhor chamado sr. Mas. sobre quem ela diz que ele lhe foi arrebatado por essa ligação. Era ali que Freud poderia arriscar a sua confiança e intervir com audácia. no caso de Dora. Temos. porque na sua constelação total eles se correspondem estritamente. por conseguinte. e parece mante-la ali. Certamente. K. à medida que avançamos. da mesma maneira. que o pai tinha por amante uma sra. em seguida a uma espécie de demonstração ou intenção de suicídio que acabou alarmando sua família. outro caso onde o problema surge no mesmo nível. A mãe está ausente da situação. Freud então dá um passo. quando alguma coisa assume sentido pelo fato de que o analista se torna o lugar da transferência. já que é ela quem arrebata à filha a atenção do pai. K. uma escolha a fazer. de que a perversão é o negativo da neurose. com a noção de Wiederholungszwang. uma filha. Esta é uma pequena histérica. Isso nos surpreende tanto mais que é também em torno da dama que gira todo o problema. exatamente os mesmos personagens: em primeiro plano um pai. Para começar. é muito precisamente na medida em que se trata da articulação simbólica como tal. e também uma dama. igualmente. O que é espantoso é que Dora marca desde logo. Poderia dizer que não existe melhor ilustração da fórmula de Freud. com efeito. A situação se tornou intolerável. e introduz o elemento de frustração real que terá sido o determinante na formação da constelação perversa. Ainda resta desenvolvê-lo. a sra. Seria preciso que sua noção de transferência estivesse baseada numa posição menos oscilante. esse equilíbrio singular já se rompera. Se Freud nota. há dois anos. antes que o sujeito a tenha assumido. K. só que Freud comete o erro exatamente contrário. que levam até ele por causa de alguns sintomas. essa insistência própria à cadeia simbólica não é assumida pelo sujeito. nem por isso deixa de ser — e apenas ele — o representante da transferência no sentido próprio. Ele remete Dora à seguinte questão: Isso contra o que você se . num sentido oposto. estritamente. se tem um sentido o que Freud nos forneceu. para Freud. não tira daí a consequência estrita nem tampouco o método correto de intervenção. Vamos lembrar rapidamente os termos do caso de Dora quanto ao que têm em comum com os da constelação presente no caso da jovem homossexual. com a diferença que um se organiza com referência ao outro sob a forma do positivo ao negativo. mesmo que pareça ser um sonho enganador por estar no nível imaginário e em relação direta com o terapeuta. Todavia. é que na medida em que existe a insistência própria à cadeia simbólica como tal é que há transferência. e isso.138 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO DORA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 2 139 rio e um elemento simbólico e. mas assim mesmo caracterizados. e essa passagem ao nível da consulta é um elemento que por si só denota claramente uma crise no conjunto social onde um certo equilíbrio fora até então mantido. ulteriormente. de sua permanência e sua prevalência. sua reivindicação extremamente viva concernente à afeição de seu pai. o simples fato de que ela se reproduza e que chegue à etapa três como substituindo e se formulando num sonho permite dizer que esse sonho. é o pai quem introduz a dama. falando propriamente. Todo o seu comportamento manifesta sua reivindicação frente a essa situação. a saber. e que ele tivesse concebido bem precisamente que a transferência se passa. no caso de Dora. é claro.. sem dúvida menores. o contraste com a situação anterior. de modo essencial. um e outro. Essa observação não é válida somente para um caso particular. em torno da qual tomei o cuidado de passar um ano para fazê-los ver o que podia significar. como se vê aqui naquilo que é um sonho de transferência. o mais decisivo de sua qualidade. Se a transferência tem um sentido. e devido a uma posição inicialmente dissimulada de Freud. No caso da jovem homossexual. Ela demonstra imediatamente a Freud que sempre soubera da existência dessa ligação. É o caso de Dora. Entrecruzam-se. Todavia. mesmo assim. que algo se produziu ali. é a filha quem a introduz. O pai a apresenta a Freud como uma doente. a mãe está presente. no nível da articulação simbólica. da ordem da transferência. porque a confusão da posição simbólica com a posição imaginária se produz. Esses dois casos se equilibram admiravelmente.

fica evidente mesmo que ela tem uma ligação toda especial com a dama. a ocasião de valorizar. chegando a substituir a dama numa ocasião em suas funções. foi em razão de uma resistência da paciente a admitir a relação amorosa que a liga ao sr. e que deveria ter compreendido que o apego homossexual à sra. trata-se de dar uma formulação possível a essa ambiguidade. e que algo como um laço libidinal foi estabele- eido com ele. Freud logo põe em evidência que. é impotente. contrariamente ao pai da homossexual. Como conceber ambos de uma maneira que justifique e permita conceber o progresso da aventura e o momento em que esta se interrompe. Aí está. K. da constituição dessa função imaginária a que se chama o eu (mói). como lhe foi sugerido por Freud com todo o peso da insistência e da autoridade deste. A situação do quarteto. nesse quarteto. e vocês vão encontrar isso numa multiplicidade de casos clínicos. em sua pessoa. Existe uma razão para isso: é que o pai dela. aquilo que pode ser a função . tudo indica. de certo modo clínica. Em outros termos. se fracassou. vem se ordenar sobre o nosso esquema fundamental. era a verdadeira significação do estabelecimento da posição primitiva de Dora. a histérica é alguém cujo objeto é homossexual: a histérica aborda este objeto homossexual por identificação com alguém do outro sexo. pois ao longo de todo o caso vocês podem ler que ele se mantém na maior ambiguidade no que concerne ao objeto real do desejo de Dora.. também. é no ponto imaginário constituído pela personalidade do sr.140 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO DORA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 141 insurge aí. até um momento crítico. desempenha a todo instante seu papel no laço libidinal de Dora com a sra.. só se compreende na medida em que o eu (mói) — e somente o eu . fora realmente a sua peçachave. e. tem uma importância prevalente para Dora. Urbild. isto é. Ela não é importante apenas porque está investida da função narcísica que reside no fundo de todo enamoramento. protegendo os encontros do par formado pelo pai e a dama. K. o ponto de ruptura do equilíbrio? Há cinco anos.. E esses quinze meses têm um sentido. Em que termos articular a posição do problema? Ainda aí. se examinarmos de perto. o intervalo de nove meses entre o sintoma histérico de apendicite e o fato que o gerou. Vamos tentar agora transcrever isso em nossa formulação presente. é por intermédio do sr. em conformidade com a estrutura das histéricas. onde. sua crise. vamos perceber que se trata. de sua crise. K. como indicam os sonhos. Toda a observação repousa na noção central da impotência do pai. numa nota. Por outro lado. e os homens são para ela outras tantas cristalizações possíveis de seu eu. K. Só posso lembrar hoje a vocês em que termos se formula o problema ao longo de todo o caso clínico. na medida em que este se funda em números e num valor puramente simbólico. Eu tinha ido mais longe. e este elemento é útil para a compreensão. é na medida em que ela é o sr.. de quinze meses. de certo modo não resolvida. K. Ela se mostrara muito mais que complacente para com aquela posição singular. com efeito. como contra uma desordem. Dora é uma histérica. que acontece de ser sua confidente. alguém que chegou ao nível da crise edipiana. e que ao mesmo tempo pôde e não pôde ultrapassá-la. que algo de outra ordem. Sem dúvida. K. e esse rápido lembrete não pode de modo algum substituir sua leitura atenta. por quê? Ela não é importante apenas porque constitui o objeto de uma escolha dentre outros objetos. Eu havia ido ainda um pouco mais longe. por exemplo. mas. e dissera: A sra. havia demonstrado que tínhamos vestígios disso no caso. Partindo da relação narcísica como fundadora do eu (mói).de Dora fez uma identificação com um personagem viril. Vamos assinalar. à medida que se vai mais adiante na estrutura do caso. É claro. ao mesmo tempo. Ele chega a indicar. e é em torno dos sonhos que gira o essencial do caso.. portanto. K. que ela é o sr. Não. e de uma maneira particularmente exemplar. foi muito longe com ela em suas confidências. K. porque o quinze se encontra em toda parte no caso. com efeito. e de grande peso também. na realidade. ocupando-se. K. é alguém importante. a sra. a cena do lago — que Freud acredita descobrir por que a doente o fornece a ele de uma maneira simbólica. entre outros. que Dora está ligada ao personagem da sra. fiz uma primeira abordagem desse caso. Esta era uma primeira abordagem. K. é a questão de Dora. que houve sem dúvida um erro de sua parte. aquela posição fora sustentada de maneira mais eficiente pela própria Dora. e situar o que. indicava o seguinte: a histérica é alguém que ama por procuração. e que. É claro que o sr: K. Freud percebe só-depois que. Mas o importante não é apenas que Freud o reconheça só-depois. dos filhos desta. como matriz. Este caso é de uma tal riqueza que ainda podemos fazer descobertas nele. não é algo de que você mesma participou? E. Verliebtheit.

mas é também a fórmula da pura gratuidade. ainda assim. aparece decisivamente como um pai ferido e doente. de todas as riquezas. existe tudo o que lhe falta. Ou. O amor que ela tem por esse pai é então estritamente correlativo e coextensivo à diminuição deste. que é feito para ser aquele que dá. que se mantém até o fim. Mas. tão ligada que sua história começa exatamente na idade da saída do Édipo. constitutiva da posição. Suponhamos um sujeito provido de todos os bens possíveis. com toda uma série de acidentes histéricos claramente ligados a manifestações de amor por este pai que. Tem-se agora que conceber como ela pôde ser suportada. um sujeito que tenha a plenitude possível de tudo o que se possa ter. o ciclo de dons vem ainda de outra parte. não existe maior dom possível. seu desejo subsiste. no momento em que ama seu pai. a existência. Qual pode ser a função do pai como doador? Essa situação repousa sobre a distinção que já fiz a propósito da frustração primitiva. com o dom primitivo. Em outras palavras. maior signo de amor que o dom daquilo que não se tem. Os crentes imaginam poder amar Deus porque Deus é considerado detentor de uma plenitude total. uma totalidade de ser. Pois bem. será num único plano que nos encontramos? Será pura e simplesmente com relação a essa falta que toda a crise vai se estabelecer? Vamos observar do que se trata. No dom de amor. aquela que pode se estabelecer na relação da criança com a mãe. então. Com efeito. tal como se exerce efetivamente na origem das trocas humanas sob a forma do potlatch. pois o que estabelece a relação de amor é que o dom é dado. Aí está agora o pai. Mas quando se trata do dom entre dois sujeitos. parece ser a fórmula própria do interesse. Aqui. no caso de Dora. ? A sra. naquele momento. Não há outra razão para se amar a Deus senão que talvez ele não exista. se podemos dizê-lo. e que faz com que se possa.142 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO DORA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 143 do pai com referência à falta de objeto pela qual a menina entra no Édipo. mas na medida em que esse dom é signo de amor. O que intervém na relação de amor. como toda fórmula onde intervém o nada ambíguo. A frustração só tem sentido na medida em que o objeto. e que só pode ser nada. temos aí uma distinção muito nítida. Como nos afirma toda a meditação sociológica. sempre supor que ele não exista. subsiste depois da frustração. se apresenta . o dom que vocês fazem é sempre aquele que receberam. o dom é algo que circula. isto é. numa outra coisa. O mesmo acontece. dado que o pai se envolve. O que é dar? Não existe uma outra dimensão introduzida na relação de objeto no nível em que é levada ao grau simbólico pelo fato de que o objeto pode ser dado ou não? Em outros termos. Mas se este reconhecimento dirigido a um deus que seria tudo é apenas pensável é porque. O nada por nada é o princípio da troca. sem dúvida alguma. simbolicamente. o que faz o dom é que um sujeito dá alguma coisa de uma maneira gratuita. falta a ele. diante de Dora. a qual a própria Dora parece mesmo ter induzido. existe a noção de uma coisa qualquer que lhe falta sempre. um dom vindo dele não teria de modo algum o valor de um signo de amor. Logo. A mãe intervém. tolerada. é que o sujeito sacrifica para além daquilo que tem. precisamente. K. que é exemplar. existe ainda assim esse algo que permanece ali — este ser que se considera ser pensado como um todo. K. Ela o ama. ao pai de quem não recebe simbolicamente o dom viril. por detrás do que ele dá. Existe o objeto de que a criança é frustrada. num outro registro: ela dá ou não dá. pelo que ele não lhe dá. na medida em que. em troca de nada. alguma vez é o objeto que é dado? Aí está a questão. como pertinência do sujeito. Mas. no fundo de toda crença. alguma coisa é dada por nada. Esta fórmula. ainda aí. K. Mas vamos observar bem que a dimensão do dom só existe com a introdução da lei. para ir ainda mais adiante. afetado em suas próprias potências vitais. e vemos no caso de Dora uma saída. mais do que nunca. porque não o tem. esse objeto faltoso. sra. o que é demandado como signo de amor nunca passa de alguma coisa que só vale como signo. o principal no ser. A carência fálica do pai atravessa todo o caso como uma nota fundamental. No fundo de toda crença em deus como perfeita e totalmente munificente. depois da frustração. Toda a situação é impensável fora dessa posição primitiva. ela permanece muito ligada. Dora Pai DORA Toda a situação se instaura como se Dora tivesse que se formular a questão: O que é que meu pai ama na sra. O que é certo é que Dora está ali. aliás. ele não o dá.

a saber. Na medida em que seu pai ama a sra. é a maneira como ela normativiza essa posição. e é como participante dessa adoração que Dora se situa. de que essa posição seja mantida. efetivamente. não é negada por Freud. mas sempre. essencialmente. K. O que é amado num ser está para além daquilo que ele é. mas ela nunca é observada simbolicamente como algo que tenha um sentido. para Dora. a representação daquilo em que esta se projeta como sendo a questão. que na sua ordem se estabelece assim: . K. afinal. tentando reintegrar no circuito o elemento masculino. à Madona Sistina. com efeito. interessada nessa posição. É disso mesmo. sob a condição. por todos os meios do dom simbólico. Quando é que ela o esbofeteia? Não quando ele a corteja. por quem pode. afinal de contas. fazendo assim esta última participar dessa posição simbólica. que faz o sujeito entrar na dialética da troca. aquela que irá normalizar todas as suas posições. tem um sentido particularmente vivo. mas diante da mulher que tem à sua frente.144 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO DORA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 145 como algo que seu pai pode amar para além dela mesma. na medida em que ela não sabe o que é. A sra. inclusive os dons materiais. Dora considera o sr. se dermos ao termo nada toda a sua importância. ligada ao órgão feminino. como tal. isto é. K. não mais diante do pai. é claro. seja elevado ao nível do dom. que o sujeito feminino só pode entrar na dialética da ordem simbólica pelo dom do falo. a saber. na fisiologia da mulher. mas numa posição invertida: sr. é aquilo que é amado para além de Dora. K. K. A necessidade real que sobressai no órgão feminino como tal. ou quando diz que a ama. encarna a função feminina como tal que ela é. do circuito assim constituído. o que lhe falta. no estabelecimento da posição de desejo.. como participante daquilo que simboliza o aspecto de questão da presença da sra. que se trata durante a exibição de todos esses sintomas e ao longo de todo o caso. É aqui que intervém o sr. em relação a ela. em suma. Dora se beneficie. K. que ela tenta restabelecer uma situação triangular. é necessário que o falo. A sra. Quero dizer que é. K. o que não pode realizar como presença viril. Nem mesmo quando ele se aproxima dela de uma maneira intolerável para uma histérica. efetivamente... a adoração. K. K. Dora. K. Todavia. K. expressa ainda por uma associação simbólica muito manifesta da sra. O desejo visa ao falo na medida em que este deve ser recebido como um dom. e é por isso que Dora se sente. se fechar este triângulo. K.. até e inclusive as interdições essenciais que fundam o movimento geral da troca. realiza aquilo que ela. problemática em si mesma. É assim que o pai impotente supre. ou melhor. mas nunca lhe é dado entrar. Dora Pai DORA(2) Por interesse em sua questão. Dora se sente satisfeita. O sr. Dora está no caminho da relação dual com a sra. pelas munificências que se repartem igual- mente entre a amante e a filha. E é na medida em que ele é elevado à dignidade de objeto de dom. A fórmula alemã é particularmente expressiva. ela própria. sra. a sra. a sra. ausente ou presente noutra parte. aliás. simbolizada de mil maneiras. é o objeto da adoração de todos os que a cercam. vai se encontrar tendo um lugar e se satisfazer lateralmente. É no momento em que ele lhe diz: Ich habe nichts an meiner Frau. Dora se interroga: O que é uma mulher? E é na medida em que a sra. Aquilo a que Dora se apega é o que é amado por seu pai numa outra. isso ainda não basta e Dora tenta resgatar o acesso a uma posição manifestada no sentido inverso. Isso está em conformidade com o que é suposto por toda a teoria do objeto fálico. colocada à frente de uma certa superação simbólica. e faz com que disso. K. O que ele lhe diz o retira. Essa posição é. K. não pode nem saber nem conhecer por essa situação em que não encontra onde se alojar. Dora se situa em algum lugar entre seu pai e a sra. Para este fim. K. É no interior disso que a necessidade real cuja existência Freud jamais sonhou em negar.

e se no seu amor exaltado pela dama ela mostra. A situação se desequilibra. O sr. de um outro homem. É isso. isto é. isto é. respectivamente implicadas em duas situações e dois registros distintos.146 sra. K. precisamente. sem dúvida. K. e que é o amor de seu pai. A saber. com quem Dora se identifica DORA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 147 Dora Pai permanece o Outro por excelência. existe no inconsciente do sujeito o pensamento de que o pai se envol- . pois. Se o sr. o modelo do amor absolutamente desinteressado. mas na medida em que sua mulher represente alguma coisa para ele. seja tolerável em sua posição. a sra. no entanto. Você terá um filho meu. portanto. Toda a situação estaria rompida ao mesmo tempo. que permitiam a Dora encontrar seu lugar no circuito. K. Dora se vê relegada ao papel do puro e simples objeto. Por quê? Ela entra. K. É isso mesmo que acontece naquele momento. K.. ao falo paterno concebido como objeto do dom. Essa alguma coisa é o mesmo que esse nada que deve existir para além. Que diferença surge assim? Para ir depressa e terminar com alguma coisa que faça imagem. uma adjunção no mais além daquilo que falta. ela o reivindica com exclusividade. K. a troca de laços de aliança consiste exatamente no seguinte: Eu recebi uma mulher e devo uma filha. mas dotados de um sentido. isto é. ela só pode viver essa situação sentindo-se reduzida. com efeito. Em outras palavras. o que encontramos aqui. no caso. É uma ligação. fosse seu objeto para além da mulher através de quem ela se liga a ele. por exemplo. O que resulta disso? Dora não pode tolerar que ele não se interesse por ela senão na medida em que ele só se interesse por ela. Dora e nossa homossexual estão. vou lhes dizer o seguinte. Ela reivindica o que estava muito disposta até então a considerar que recebia. não há nada. De fato. mesmo que por intermédio de uma outra. só se interessa por ela. como diz Freud. de uma orientação perfeita. se ela mesma não renunciou a alguma coisa. Ele não diz que sua mulher nada é para ele. que Dora seja amada por ele para além de sua mulher. e sim que. tolerar de forma velada que este último faça a Dora essa corte a que. ao estado de objeto. Como explica o sr. numa situação típica. a questão As VIAS PERVERSAS DO DESEJO sr. DORA(3) Dora pode inclusive admitir que seu pai ame nela. na expressão Es fehlt ihn an Geld. Encontramos o an em mil locuções alemãs. ela não pode de modo algum conceber. Há uma ruptura desses laços.. mas para que o sr. A partir daquele momento. aquilo que está para além. quer dizer que não há nada depois da sua mulher: Minha mulher não está no circuito. pelo lado de sua mulher. e por ela. é preciso que ocupe a função exatamente inversa e equilibradora. pura e simplesmente. não vêem que tudo se passa como se a moça quisesse mostrar a seu pai o que é um verdadeiro amor. K. se entregou. Dora. Dora se revolta absolutamente. ou pensar que ela. subjetivamente falando. confessou não fazer parte de um circuito onde Dora poderia ou identificar-se a si mesma. ela não é integrada por nada ali. precisamente. Este é. que receba outras. o resumo claro e perfeito da situação. Claude Lévi-Strauss em As estruturas elementares do parentesco. e começa desde então a entrar na reivindicação. Na medida em que está excluída da primeira instituição do dom e da lei na relação direta do dom do amor. Dora. sutis e ambíguos. nos últimos anos. Só que isso — que é o próprio princípio da instituição da troca e da lei — faz da mulher um puro e simples objeto de troca. e começa a dizer: Meu pai me vende a um outro. e a partir daí ela não pode mais tolerá-lo. K. O sr. é realmente para o pai uma maneira de pagar a complacência do marido da sra. que iremos confirmar: Se é verdade que o que se mantém no inconsciente de nossa homossexualidade é a promessa do pai. é porque seu pai só se interessa pela sra. na medida em que ela é mantida semi-encoberta. aos olhos de Freud. já que este lhe é recusado totalmente. do amor por nada. este amor que seu pai lhe recusou? Sem dúvida.. K. mesmo que de modo instável.

o realismo. confessando. o que vai além do prazo normal de uma gestação. Isso acontece no momento em que o pai real intervém mais uma vez para lhe manifestar sua irritação e furor. com efeito. então. K. porque a própria Dora o diz. Vocês vão encontrar aí o que eu chamei. a perversão. Em contrapartida. A prova disso é essa espécie de engravidamento de Dora que se produz depois da crise de ruptura com o sr. a saber. precisamente. que é feito de um punhado de pequenos traços sensíveis do real que nada querem dizer. nem para que serve o amor. o tema que retorna dos ombros nus das mulheres vale por uma outra coisa. que existe ali como que uma gravidez. Encontramos aí a equivalência de uma espécie de copulação que se traduz na ordem do simbólico de uma maneira puramente metafórica. porque Dora nada pode dizer sobre o que ela é. Simplesmente. que. a função da perversão do sujeito é uma função metonímica. no passado.. dizendo a Dora: O que você ama é isso. ao mesmo tempo implicando necessariamente. intervenção sancionada pela mulher que está com ela. É significativo que Dora veja nisso a última ressonância desse laço pelo qual ela permanece ligada ao sr. Trata-se. o elemento real que tende a se reintroduzir em toda metáfora. Dora não sabe onde se situar. que é a maneira como Dora aí se implica e se interessa. desse modo.148 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO DORA E A JOVEM HOMOSSEXUAL 149 véu com a mãe porque encontra nisso mais vantagens. Vorhof — que nada mais significam senão essa questão. este. Esta questão está centrada pelo conteúdo e articulação de todos os seus sonhos — a caixa de jóias. Em suma. e encontra nele uma historização onde acha seu lugar sob a forma de uma questão. Se não apreenderem em toda a sua generalidade esta noção fundamental da metonímia. nem para o que serve. por este pênis simbólico que ela sabe muito bem que não vai encontrar na dama. É como metafórica que a neurose de Dora assume seu sentido e pode ser desatada. a superioridade esmagadora do rival adulto. aquilo a que se chama. Naturalmente. de fato. não alegoricamente. Se os grandes romancistas são suportáveis é na medida em que tudo o que eles se esforçam por nos mostrar encontra seu sentido. mas pelo que fazem ressoar à distância. diz Freud. significativa. o sintoma ali não passa de uma metáfora. o parto que se encontra também no fim do caso da homossexual. alguma coisa tendeu a se normalizar na situação pela entrada em jogo do sr. por seus sintomas. Mais uma vez. que é uma neurótica? É uma coisa inteiramente outra. nem onde está. Assim. ou quis forçar. Dora tomada como sujeito se coloca. Friedhof. Bahnhof. com uma conduta significante indicando um significante que está mais longe na cadeia significante. Freudquis introduzir nessa metáfora. neste caso se exprime entre as linhas. em relação com o homem a quem se unir ou de quem se desunir. é uma estranha falsa gravidez. pela sequência rigorosa dos termos postos em jogo. igualmente. mas essa alguma coisa permaneceu em estado metafórico. e com efeito essa relação é fundamental em toda entrada da criança no Édipo. antes que ela chegue às mãos de Freud. desprovida de seus . em seu pai. que se produz ao fim de nove meses. na medida em que lhe está ligado por um significante necessário. é sua metáfora. de quinze meses. ao dizer-lhe que não quer mais vê-la. o tempo todo. K. o sr. Será a mesma coisa para Dora. que consiste em dar a escutar alguma coisa falando de uma coisa completamente diferente. K. não é impotente. Considerando-se o esquema. O mesmo ocorre com o cinema: quando um filme é bom é porque é metonímico. Com efeito. por contrastes e alusões. A jovem se encontra. O que a moça demonstra aqui ao pai é como se pode amar alguém. uma contrapartida que é precisamente o que se quer fazer o outro escutar. sob eles. é na medida em que Dora se interroga sobre o que é ser mulher que ela se exprime como o faz. Ela encontra na situação uma espécie de metáfora perpétua. é inconcebível que cheguem a uma noção qualquer do que pode querer dizer a perversão no imaginário. Para Dora. A metonímia é o princípio daquilo a que se pode chamar. é uma tentativa de reunir-se à lei das trocas simbólicas. por assim dizer. Em outras palavras. porque sabe muito bem onde ele se encontra. diante de vocês. na ordem da fabulação e da arte. e que Freud percebe com esse prodigioso senso intuitivo das significações que é o seu. mas na medida em que. Esses sintomas são elementos significantes. não tem valor algum se não fizer vibrar harmonicamente um sentido mais além. não em absoluto simbolicamente. É uma maneira de falar de uma coisa inteiramente diversa. Um romance. corre um significado perpetuamente em movimento. isto é. No caso de Dora. de metonímia. E.. não apenas pelo que ele tem. Literalmente. no começo de Guerra e paz. ela se atira de uma pequena ponte da estrada de ferro. mas literalmente pelo que não tem. se manifesta da maneira seguinte: bruscamente. ela sabe que o amor existe. K. constata-se que lidamos. na perversão. sob um certo número de significantes na cadeia.

o falo paterno. o termo de suicídio.150 As VIAS PERVERSAS DO DESEJO últimos recursos. isso também tem um outro sentido. mas encontrara o meio de manter o desejo pela via da relação imaginária com a dama. Se o ato de se precipitar de uma ponte férrea no momento crítico e terminal de suas relações com a dama e com o pai pode ser interpretado por Freud como uma maneira demonstrativa de se fazer ela mesma essa criança que não teve. e também de mímica de uma espécie de parto simbólico. O objeto está definitivamente perdido. um amor estável e particularmente reforçado pelo pai. Esse falo que lhe é decididamente recusado tomba. é por fundar-se unicamente na existência da palavra niederkommt. em conformidade com o que Freud muitas vezes afirmou em relação à patogênese de um certo tipo de homossexualidade feminina. a saber. o de uma perda definitiva do objeto. Como Freud nos sublinha. niederkommt. e ao mesmo tempo destruir-se num último ato significativo do objeto. 23 DE JANEIRO DE 1957 O Objeto Fetiche . Até ali. a saber. ela não pode mais sustentar coisa alguma. ela fora bastante frustrada do que lhe deveria ser dado. Esta palavra indica metonimicamente o termo último. Encontram aí o lado metonímico de que lhes falava. A queda tem aqui um valor de privação definitiva. e que é o único motor de toda a sua perversão. onde se exprime na homossexual o que está em questão. Uma vez que esta a rejeita. e este nada em que ela se instituiu para demonstrar ao pai como se pode amar nem tem mesmo mais razão de ser. Naquele momento ela se suicida.

Como realizar a falta. e se outros retomam 153 . Estrutura do exibicionismo reativo. em toda troca simbólica. A lembrança encobridora.IX A FUNÇÃO DO VÉU O falo simbólico. nos permite ver sob uma nova luz essa perversão que assumiu um papel exemplar na teoria analítica. o fetiche e o fetichismo. os esquemas fundamentais que tentei lhes trazer nesses últimos tempos. Esse esquema fundamental que implica. a permanência do caráter constituinte de um mais-além do objeto. a saber. e que se exprimem de modo todo especial nessas afirmações paradoxais: o que é amado no objeto é aquilo que falta a ele — só se dá o que não se tem. do fetichismo. vou propor hoje a vocês o que se deduz a propósito de um problema que materializa a questão do objeto de uma maneira particularmente aguda. A questão do fetichismo é abordada por Freud em dois textos fundamentais que se escalonam entre 1904 e 1927. Alternância das identificações perversas. Prosseguindo nossas reflexões sobre o objeto. fixação na imagem. Trata-se. pois. Vocês vão ver. qualquer que seja o sentido do seu funcionamento. retomados aí. e estabelecer de maneira diferente aquilo a que eu poderia chamar as suas equações fundamentais.

é por aí que ela entra nessa relação ordenada e simbolizada que é a diferenciação dos sexos. é dele participar a título de ausência. Ele é feito para ter essa espécie de alternância fundamental. a mulher não o tem. tipificada. Vou me esforçar aqui. disciplinada. ao lê-la ingenuamente pela primeira vez. o falo simbólico. o pênis de que se trata não é o pênis real. Mas não ter o falo. para reaparecer num outro. Com efeito. para ser tratado eficazmente. Na verdade. mas que ficaremos sem dúvida alguma decepcionados com o que ele nos vai dizer. na medida em que ela entra na dialética simbólica de ter ou não ter o falo. se podemos dizê-lo. Na medida em que ele está ali ou não está ali. existe para o homem. existe aí um tema que. também na medida em que ela o tem no plano simbólico. que faz com que tendo aparecido num ponto. Este falo. tudo o que se pode transmitir na troca simbólica é sempre alguma coisa que é tanto ausência quanto presença. como real. neste artigo. pedindo-lhes que me. Só que. ordenada. isto é. Apresentarei aqui portanto. ele exista ou não exista. O falo está sempre para além de toda relação entre o homem e a mulher. e sim uma história detalhada. que é a floresta da literatura analítica. para não me estender demais naquilo. e que Freud fala dela. deixando atrás de si o signo de sua ausência no ponto de onde vem. trata-se de um falo simbólico. o falo em questão — nós o reconhecemos desde logo — é um objeto simbólico. pois nada é tão delicado. na medida em que estes incidem sobre o uso do falo: é a função simbólica do falo. na medida em que é de sua natureza apresentar-se na troca como ausência. uma vez que. desapareça. oculto pelas fantasias mais ou menos temíveis da relação do homem com os interditos. Freud nos diz. Freud sublinha que este não é um pênis qualquer. será simplesmente um caso de desconhecimento do real — trata-se do falo que a mulher não tem. para dar sua justa posição ao que está em jogo. Em outras palavras. que o fetiche é o símbolo de alguma coisa. mais uma vez. pela estrutura fundamental da lei do incesto. este falo que ela não tem. pois muito foi dito sobre o fetichismo desde que se fala em análise. marcada por interditos.154 O OBJETO FETICHE A FUNÇÃO DO VÉU 155 ulteriormente a questão. como pude avaliar por uma leitura ampla de tudo o que foi escrito a respeito do fetichismo. ele circula. imediatamente depois. que sustenta habitualmente todas as espécies de especulações sobre o porvir. o desenvolvimento e as crises do fetichismo e. É na medida em que a menina não tem esse falo. ao evitarem este ponto. nas suposições fundamentais por ela implicadas. Essa alguma coisa é. ausência funcionando como tal. Mas existe também um outro uso. Isso é independente. exigiria não apenas horas. Para alguém que não se sirva de nossas chaves. objeto de uma nostalgia imaginária por parte da mulher. e que é preciso que ela tenha por razões ligadas à relação dúbia da criança com a realidade. que eu situava outro dia no esquema da homossexual. é o pênis na medida em que a mulher o tem — isto é. simbolicamente. acompanhem. por exemplo. que existe ali como ausência. é tê-lo de alguma forma. da inferioridade que ela possa sentir no plano imaginário. estabelece-se através desse objeto um ciclo estrutural de ameaças imaginárias que limita a direção e o emprego do falo real. ela conduz a todos os tipos de impasses. o nervo diferencial é o seguinte: não se trata em absoluto de um falo real na medida em que. Em outras palavras ainda. até mesmo fastidioso. e unicamente na medida em que ele está ou não está ali. É isso que Freud quer dizer quando escreve que é por intermédio daquilo que chama de a ideia da castração — e que é justamente o seguinte. na medida em que ela tem apenas um falo muito pequenino. Aí está o sentido do complexo de castração. Esse pênis simbólico. como sempre. Sublinho o ponto de oscilação onde devemos nos deter por um instante para perceber aquilo que é comumente elidido. Mas este falo que ela pode sentir como insuficiente não é o único que entra em função para ela. na medida em que ela não o tem. simbolicamente. Esta precisão parece ter sido pouco explorada em seu fundo estrutural. que é. na medida em que ela está presa na relação intersubjetiva. marcada. de saída. Em suma. Por um lado. Esta é a via comum. é que se instaura a diferenciação simbólica entre os sexos. pela participação real que ela tem com o falo. logo. desempenha uma função essencial no ingresso da menina na troca simbólica. Ele pode ser. por completo. mais além dela. Para evitar as errâncias a que os autores se vêem conduzidos no decorrer de anos. e é nisso que o homem fica preso. o pênis. numa parte do que lhes vou expor. o resultado mais ou menos decantado de minhas leituras. como situar o ponto preciso onde um assunto se esquiva porque o autor evita o ponto crucial de uma discriminação. estes dois são os mais preciosos: o parágrafo sobre o fetichismo nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade 2 o artigo intitulado "O fetichismo". ocasionalmente. isto é. relação inter-humana assumida. a saber. que ela não .

mas de uma perversão. é na medida em que deve ser assim simbolicamente. As mulheres são trocadas entre as linhagens fundadas na linhagem masculina. A cortina é. pode tê-lo — que a menina entra no complexo de Édipo.156 O OBJETO FETICHE A FUNÇÃO DO VÉU 157 tem o falo. Sobre o véu pinta-se a ausência. como se pode engendrar essa singular relação do sujeito com um objeto que não é um objeto. mas um objeto que se submeteu da maneira mais radical à valorização simbólica. o que exprime se o observarmos de perto senão a afirmação do dom? Reunimo-nos aqui à experiência psicológica concreta. um objeto. na esquematização de Lévi-Strauss. Mas se. é um símbolo. caracterizado pelo fato de não ser. as mulheres são trocadas como objetos entre as linhagens masculinas. É assim que as coisas se classificam. Este tema fundamental. em razão. é por intermédio da relação ao falo que elas entram na cadeia da troca simbólica. ainda é o que melhor permite ilustrar a situação fundamental do amor. tende a se realizar como imagem. o ídolo da ausência. Entram nelas através de uma troca. de equivalente do falo. escolhida justamente por ser simbólica e improvável. O fetiche. falando estruturalmente. que é realmente uma das imagens mais fundamentais da relação humana com o mundo: o véu. É na medida em que elas se apegam a este objeto único central. o androcentrismo que. do contrário. Tudo nos indica. no sentido próprio e indivi- dualizado em que ele se encarna num objeto que podemos considerar como respondendo. que ela deve dar alguma coisa em troca daquilo que recebe. por razões de aparência clínica que têm sem dúvida alguma um certo valor. isto é. que a mulher se dá. que a mulher se dá. Como não ver que é necessária esta espécie de inversão inicial para que possamos compreender coisas que. O que pode materializar para nós da maneira mais nítida essa relação de interposição. seria de preferência naquele que é realmente privado do falo que o fetichismo se deveria declarar mais abertamente. do caráter eletivamente simbólico da fantasia crucial. nessa ocasião. Aí está. Se o véu de Maia é a metáfora de uso . ao falo como ausente. de uma maneira simbólica. sem dúvida. a saber. marca as estruturas elementares do parentesco. em troca do que elas dão essa criança que assume. ou mesmo da inferioridade imaginária. Isso se exprime de mil maneiras. Partindo do mais alto da estrutura. justamente. mas tem essa propriedade de estar ali simbolicamente. não se trata de uma neurose. a cortina diante de alguma coisa. o falo simbólico. Ora. se podemos dizê-lo. Se tudo residisse no plano da diferença. Essa alguma coisa não é nada. uma vez que o tenham visto. mas não o tem simbolicamente. paradoxal. Vemos aqui em que é justificado. nos diz Freud. o falo simbólico. ele é quase colocado. é sempre o menino que é fetichista. para elas. Isso é um fato. nunca a menina. de substituto. aquilo que está mais além4 como falta. tal como nos é dada. No ato do amor. nosograficamente falando. Se isso é invertido na afirmação contrária. Na verdade. em pé de igualdade com qualquer outro sintoma neurótico. isso não é evidente por si mesmo. que não existe posição mais captadora. Porque é símbolo. do ponto de vista da análise. que faz com que o que seja visado esteja para além daquilo que se apresenta senão o seguinte. entre os dois sexos. o fetiche. a fecundidade natural. A cortina assume seu valor. não apenas ela pode. em si mesma estéril. até mesmo mais devoradora no plano imaginário. enquanto é por aí que o menino sai dele. mas deve ser este nada. ela recebe bem mais do que dá. não é nada disso. que elas aí se instalam. mas é preciso examinar bem de perto para confirmá-lo na estrutura. representando o falo como ausente. Nesse sentido. nos diz a análise. com o fetichismo. Isso não é mais que a função de uma cortina qualquer. e chegam a situar o fetichismo no limite entre as perversões e as neuroses. função de Ersatz. de saída. seriam paradoxais? Por exemplo. vamos nos deter por um instante nessa posição de interposição que faz com que o que é amado no objeto do amor seja alguma coisa que está mais além. Pode-se mesmo dizer que com a presença da cortina. que aí tomam seu lugar e seu valor. que é. portanto. é a mulher que recebe realmente. inicialmente. e a experiência analítica o acentuou. precisamente. pois. seu ser e sua consistência justamente por ser aquilo sobre o que se projeta e se imagina a ausência. Vamos tentar ver. e pelo que elas introduzem na genealogia simbólica patrocêntrica. a cortina? '4 O véu. muitos autores demonstram aqui alguma hesitação. a do falo que elas recebem simbolicamente. O fetichismo é excessivamente raro na mulher.

158 O OBJETO FETICHE A FUNÇÃO DO VÉU 159 mais corrente para exprimir a relação do homem com tudo o que o cativa. castrá-la. e incessantemente manifestada nos sintomas. em qualquer momento que a consideremos. Se o fetiche está ali é porque ela. Da maneira mais clara. Freud. ou ainda o símbolo. diz ele. Por que isso se produz? Por que isso é necessário? Chegaremos até lá. este aparece como ilusório. e este mais-além que é nada. idolatra seu sentimento deste nada que está para além do objeto do amor. um monumento. a saber. Antes de ir mais adiante e abordar a exigência que faz com que o sujeito tenha necessidade de um véu. Mas ele também diz que se trata de fazer manter-se de pé. É nisso mesmo que o homem encarna. o ponto onde se agarra o desejo. o elemento simbólico que fixa o fetiche e o projeta sobre o véu. a relação a um mais-além. • Sujeito Objeto Nada Cortina ESQUEMA DO VÉU Aí estão o sujeito e o objeto. Este é o momento da história onde a imagem se fixa. a não ser pelo emprego do termo metonímia. mas na medida em que ele não seja. como tal. Se formos primeiro ao porquê. Trata-se aqui na descida ao plano imaginário do ritmo ternário sujeito-objeto-mais além. Muitas vezes os autores. das Zeichen dês Triumphes. nos é explicado com o argumento de que a castração da mulher é ali ao mesmo tempo afirmada e negada. sem dúvida. essa relação complexa. quando se trata do fetiche. aqui está ela na relação entre o mais-além e o véu. Freud aqui nos faz dar um passo à frente. que é fundamental em toda instauração da relação simbólica. também. A ambiguidade da relação com o fetiche é constante. à aproximação do fenómeno típico do fetiche. é retirado especialmente da dimensão histórica. e ser também. o suporte do amor. sem alguma razão. É dessa relação que se trata. justamente. mas na verdade está ali. Em outras palavras. mas o que o agarra. . fundamental da relação simbólica. ou ainda o falo na medida em que falta à mulher. tão imajada e tão precisa ao mesmo tempo. Esta ambiguidade. isso não ocorre. Este esquema fundamental. como se falasse de um cenário. que se verifica como vivida. em conflito com ele. Como sempre. não perdeu o falo mas ao mesmo tempo pode-se fazê-la perdê-lo. vocês devem guardá-lo em mente se quiserem situar corretamente os elementos que entram em jogo na instauração da relação fetichista. Freud não nos diz outra coisa. O horror da castração. O famoso splitting do ego. é ao mesmo tempo vivida num equilíbrio frágil que está a cada instante à mercê do fechar da cortina. ou de seu descerrar. vão falar daquilo pelo que o sujeito torna heráldica a sua relação com o sexo. sobre ela se pode pintar alguma coisa que diz: o objeto está para além. que são formas elevadas da metonímia. trata-se da projeção da posição intermediária do objeto. ilusão sustentada e valorizada como tal. e também na alusão e na relação entre as linhas. Mas desde que se coloca a cortina. o desejo aparece aqui como metáfora do amor. De certo modo. duplicando o signo de um triunfo. nessa criação de um substituto. entraremos imediatamente num caos pandemônico de todas as tendências que vêm maciçamente explicar o que faz com que o sujeito possa estar mais ou menos longe do objeto. isto é. tem termos que assumem aqui todo o seu valor. O fetiche é um Denkmal. instaurar como captura imaginária e lugar do desejo. justamente. instituição de uma relação simbólica no imaginário. na relação do fetichista com seu objeto. vamos perceber um outro viés sob o qual existe. Falei-lhes da última vez a propósito da estrutura perversa na metonímia. e sentir-se aprisionado ou ameaçado por este. erigiu para ela. A estrutura. fala em Verleugnung a propósito da posição fundamental de negação na relação com o fetiche. O objeto pode então assumir o lugar da falta. isto é. Sobre o véu pode se estampar. quando seguimos seu texto. e na medida em que é valorizado como ilusório. mas está certamente ligado ao sentimento que ele tem de uma certa ilusão fundamental em todas as relações tecidas por seu desejo. O que constitui o fetiche. A palavra trofeu não aparece. A linguagem de Freud. Vamos nos deter por um instante na estrutura. na função do véu. o objeto. nos apressamos demais. aufrecht zu halten.

é que esta imagem não passa do pontolimite entre a história. imaginário. é nas relações pré-edipianas. Os autores já há algum tempo estão bastante embaraçados. vamos deixar de lado. Tem-se. Por quê? Por que é ali que o sujeito deve constituir esse mais-além? Por que o véu é mais precioso para o homem que a realidade? Por que a ordem dessa relação ilusória se torna um constituinte essencial. Melanie Klein. ein Glanz auf die Nase. isto é. como Freud diz claramente. o Deckerinnerung. Um senhor que passara sua primeira infância na Inglaterra e que viera se tornar fetichista na Alemanha. É por uma metáfora que o amor se transfere ao desejo que se apega ao objeto como ilusório. aliás. da forma mais clara. necessário. uma frase numa língua esquecida. os gramáticos não lhes garantem nada.160 O OBJETO FETICHE A FUNÇÃO DO VÉU 161 Lembro-me de haver outrora empregado a comparação do filme que subitamente se congela. a referência do ponto de recalque. Falamos em recalque apenas na medida em que há cadeia simbólica. continua. introduzindo ali a presença do pênis paterno por projeção retroativa. seu pleno peso às expressões por ele empregadas. inclusive e até o fato de Freud nos dar como primeiro exemplo de uma análise de fetichista essa maravilhosa história de trocadilho. Detendo-se ali. Este sistema estrutura as primeiras etapas das tendências orais. assim. verão que essa maneira de articular as coisas dá. um acesso mais fácil a um material que permite interpretar o que está em questão. ela é uma parada nessa cadeia e é nisso que é metonímica. Antes de ir mais longe. retroagindo o complexo de Édipo às primeiras relações com os objetos como introjetáveis. e projetar-se num ponto sobre o véu. deve ser visto como presença-ausência e ausência-presença. lá onde a história se interrompe. Melanie Klein. Vêem aqui entrar em jogo. Ela é o signo de que é ali que começa o mais-além constituído pelo sujeito. A rememoração da história se detém e se suspende num momento imediatamente anterior. Por outro lado. particularmente em seu momento mais agressivo. um símbolo. graças ao sistema da sra. isto é. Ela é um ponto na cadeia da história. a cadeia histórica. Quais são as causas da instauração da estrutura fetichista? Nesse ponto. Vamos observar simplesmente as facilidades. é uma interrupção da história. pois não há outro sentido a se dar ao termo lembrança encobridora. Para nos atermos àquilo que nós mesmos revelamos aqui. que pode mesmo conter uma frase inteira e. o que pode ser tratado com este fim por tal ou tal autor. justo antes do momento em que aquilo que é buscado na mãe. por sua natureza. Como unir as duas coisas? Os autores estão mais ou menos à vontade para fazê-lo. Ela é o signo. por ora. sua sequência ausente. Se lerem atentamente o texto de Freud. A expressão alemã só fazia transpor a expressão inglesa a glance at the nose. buscava sempre um pequeno brilho no nariz. um momento em que ela se detém e se congela e onde. que lhe vinha de seus primeiros anos. vamos partir da relação fundamental que é aquela da criança real com a mãe simbólica e o falo desta. que aparece mais assegurado que a mãe fálica é o elemento central. na medida em que esta continua. que é. A lembrança encobridora está ligada à história por toda uma cadeia. a cadeia indica sua sequência a partir daí velada. esse falo que ela tem e que ela não tem. de sua relação com o objeto? Eis a questão levantada pelo fetichismo. não é simplesmente um instantâneo. bem mais ainda. mas metonímica. nariz este que era. não podemos perder o contato com a noção de que a génese do fetichismo está essencialmente articulada ao complexo de castração. vemos aqui distinguir-se a relação com o objeto de amor da relação de frustração com o objeto. a saber. que é tão fundamental na fenomenologia e conceitualização freudianas. ao mesmo tempo. Essas são duas relações diferentes. Isso nada mais queria dizer senão um olhar sobre o nariz. Como jamais me lancei a uma crítica exaustiva do que quer dizer o sistema da sra. que podem encontrar aqui os membros da escola inglesa. A lembrança encobridora. o recalque em questão. pois a história. Falo da rememoração da história. Por um lado. Mais uma vez. indica a continuação de seu movimento para além do véu. aliás medíocres. e o momento a partir do qual ela se interrompe. vocês já podem ver todos os tipos de coisas se esclarecerem a partir daí. e em nenhum outro lugar. e imagem projetada. . Se podemos designar como o ponto de um recalque um fenómeno que pode passar por imaginário. a mola decisiva. naturalmente. pois o fetiche é de certa maneira imagem. para ela. que ele via. ao passo que a constituição do objeto não é metafórica.

Em suma. Além disso. O que nos mostram aqui as observações. no limite. Pode-se dizer que. Eis o que se encontra no fundo das relações amorosas. às vezes singularmente reproduzida nas fantasias. com efeito. Greenacre. Durante muito tempo. do sr. a ausência às vezes repetida do pai na história do sujeito. e está articulado em nosso esquema. Os autores notam. Sylvia Payne. de certa forma. a carência. até mesmo assassina. Ela é manifestada. pois concentra-se num mesmo plano. do pai como presença: ele sai em viagem. cronológicas. Dugmore Hunter. seja como for. na medida em que é o falo a moeda principal. e como tal preferida. vivida como tal. se desgasta ou simplesmente se furta. que tentamos abordar. em torno do qual gravita a sua vida erótica. como se dá a entrada da criança na relação com o objeto simbólico. que ela pode devorar e. de que temos um exemplo muito bonito no relato de caso de Sylvia Payne. encontramos nas relações com o objeto amoroso que organizam esse ciclo no fetichista uma alternância de identificações. centro de ordem e de posse legítima. isto é. Gillespie observa que a margem entre ambos é extraordinariamente estreita. de fato. e. até mesmo de seu espartilho. quando se as desnuda? Mostram fenómenos que se manifestam correlativamente a este sintoma singular que põe o sujeito numa relação eletiva com um fetiche. ou ainda as obras publicadas no Psycho-Analytic Study of the Child. quando nos mostram. que se percebe quando se analisa e não se faz simplesmente uma descrição clínica. Tomando-se um caso. confrontada com o pênis destruidor. Isso também foi vislumbrado por Freud. plenamente à mercê do sujeito para a manobra de suas relações eróticas. XX-2. este ano. identificação do sujeito com o falo imaginário. tendem a se esboçar e tentam se ordenar. algumas vezes. vêem-se muito bem elementos que já articulei hoje para vocês e que Binet já havia assinalado. Tudo isso se vê num caso clínico. pelo ângulo da patologia. o recurso ao fetiche se dobra. na atualidade da vida precoce do sujeito. antes da instauração da relação na sua legalidade edipiana pela introdução do pai como sujeito. O comportamento amoroso. ele introduz a distância simbólica necessária para que o sujeito perceba o seu sentido. Estamos a caminho de ver como e em que momento isso entra em jogo para a criança. Tentaremos. a incompletude fundamental que entrega o sujeito à relação imaginária pela via seja da identificação com a mulher. e também a função particularmente satisfatória de um objeto inerte. numa saída destrutiva. de ordem e de sucessão. Em consequência de uma extravagante . agressiva. cada vez que estas irrompem na vida do sujeito. se extenua. vai à guerra etc. por exemplo. como se diz. a de uma imobilização forçada. muitas experiências que são reveladas pela análise mostram uma observação da cena primitiva percebida como cruel. a criança não é capaz de se apropriar da relação de pertinência imaginária que faz a profunda divisão da mãe com referência a ela. e entra em funcionamento em etapas sucessivas da história. que fixa a interrupção na barra da saia da mãe. Ela está entregue à oscilação bipolar da relação entre dois objetos irreconciliáveis. relação de ilusão. se resume numa defesa. como nos indica a história da psicanálise. Freud nos diz que o fetichismo é uma defesa contra a homossexualidade. Inversamente. a via moderna. com o falo imaginário das experiências primordiais do período oro-anal. que o faz ser para a mulher um puro objeto. que resulta.162 O OBJETO FETICHE A FUNÇÃO DO VÉU 163 Este é um esquema a ser manejado com precaução. Gillespie. Numa certa via de compreensão da análise que é. mas é necessária a análise para definir um pouco melhor o que acontece a cada vez que. com muita frequência. até mesmo assassina. destruir. a planos diversos. precisamente. observa-se um certo tipo de posição do sujeito. As observações são aqui extremamente ricas e frutíferas. do sr. Vocês podem avaliar isso. seja do lugar tomado ao falo imaginário. e o sr. por uma razão qualquer. e mais simplesmente a relação erótica do sujeito. por exemplo este ponto cativante da lembrança encobridora. seja como for. centradas na agressividade da teoria sádica do coito. violenta. com efeito. ou ainda a relação essencialmente ambígua do sujeito com o fetiche. é aí que o analista intervém para fazer com que o sujeito perceba a alternância de suas posições. XXXV-3. Identificação com a mulher. da sra. A essa oscilação de dois pólos da relação imaginária primitiva a criança se confronta de uma maneira que se pode dizer bruta. lendo no International Journal os relatos de caso da sra. por uma imobilização do sujeito realmente ocorrida. o objeto fascinante inscrito sobre o véu. ao passo que responde. e que nesse ponto não deixa de recordar meu próprio caminho. Digo gravita porque é claro que o sujeito conserva uma certa liberdade de movimento. ao mesmo tempo que a significação destas. numa insuficiente simbolização da relação terceira. as mil formas que pode assumir. Existem aqui questões temporais. elucidar esta questão.

de quem nos fala a sra. Esse traço. antes. pela primeira vez. algo atrás do qual o sujeito se centra. Isso é o que nos dá a transição entre os casos de fetichismo e os casos de travestismo. afinal de contas. onde a introdução do pai como elemento real faz com que se intercambiem os termos. estritamente vigiada no quarto de seus pais. ou a projeção no plano imaginário. a saber. até mesmo. aquilo que estava simbolicamente latente na situação. não deixa de ter. Seu exibicionismo é apenas a expressão. no entanto. mas por trás. laços efetivos a prendiam à cama. por vezes. pela nossa intuição. vem se prender na relação imaginária. uma criança fora impedida de andar até a idade de dois anos. Reencontramos diversas vezes essa espécie de exibicionismo reativo nas observações que são muito próximas de fetichismo. ou ainda que comporte capacidades especiais de isolamento. de ter uma relação normal. E preciso. mais facilmente que outra coisa. não à frente do véu. esteja fixado a um impermeável parece da mesma natureza do que se estivesse fixado em sapatos. O envolvimento não é da ordem do véu. ou mesmo . Se casos tão exemplares são raros. mas logo depois. de modo que ninguém pode pegá-lo com a mão na botija. mais ou menos como se tratasse de uma fonte de infecção. O fato de que tal sujeito. Payne. o impermeável contém em si mesmo relações.164 O OBJETO FETICHE A FUNÇÃO DO VÉU 165 prescrição médica. Ele alcança seu objetivo mais ou menos bem graças à ajuda da mulher. às vezes particularmente exemplar. Ele se situa. dar lugar à qualidade especial comportada pela borracha. Talvez haja algo aí que possa. no lugar da mãe. Isso não poderia deixar de ter alguma consequência. de tal sorte que o que estava situado no mais-além. de algo de que ele mesmo não compreendeu todas as ressonâncias simbólicas. de forçamento do real. O sujeito foi forçado aqui a deixar sair alguma coisa que estava implícita em sua posição. Sua relação com os pais era assumida no estilo da raiva e da cólera que vocês bem podem supor. Outra relação típica. o do véu. certamente. igualmente. de certa maneira. o pai simbólico. como qualquer outro. Temos. aqui pelo envolvimento. uma relação real com uma mulher. Bem mais instrutivo que tal exemplo de vício da relação primária é a relação patológica que se apresenta como o avesso. entrega-se a uma exibição muito singular. nem com outras espécies de fetiches de trajes mais ou menos envolventes. Isso é muito manifestamente ilustrado pelo esquema do caso freudiano de homossexualidade feminina. colocava-a na posição exemplar de estar inteiramente entregue a uma relação puramente visual. Temos disso um exemplo com o sujeito que tenta. mas da proteção. suas alternâncias com o fetichismo. com efeito. no plano imaginário. alguns autores insistiram no fato de que a fobia de certas mães que mantêm seu filho à distância. isto é. na posição do véu entre o sujeito e o objeto. tais como estas se dão em certos centros onde a observação é feita analiticamente. onde ele vai lá para mostrar que é capaz de fazê-lo. na medida em que tentou ter acesso a uma relação plena em certas condições de realização artificial. isto é. mas que se envolve ali nessa posição de experiência. Estruturalmente falando. sem qualquer esboço de reação muscular que partisse dela. que sem dúvida seria esclarecido psicologicamente pela sensorialidade encerrada no contato especial com a própria borracha. ou o complemento da aderência libidinal ao fetiche. e indica uma posição um pouco diferente daquelas comportadas pelo sapato ou a cinta. que o ato que acabava de efetuar. Isso se observa sempre que o sujeito se esforça para sair de seu labirinto. as explosões de um exibicionismo em certos casos verdadeiramente reativo. casos muito bonitos em que se vê o sujeito. Seria. exatamente. encontrado muito frequentemente. e muito bem calculada. O mesmo não ocorre com o impermeável. aderindo a uma posição de identificação onde esta tem necessidade de ser protegida. Não nos enganamos ao pensar isso. diretamente. Esses objetos estão eles próprios. não passava da tentativa de mostrar — de mostrar que ele era capaz. que consiste em mostrar seu sexo à passagem de um trem internacional. além disso. Seja qual for a própria estrutura das relações. uma classe que engloba nosologicamente todos os outros tipos de fenómenos cuja afinidade ou parentesco com o fetichismo nos são indicados. em razão de alguma entrada em jogo do real que o coloca numa posição de equilíbrio instável. onde se produz uma cristalização ou uma inversão de seu posicionamento. ser tomado como a duplicação da pele. enquanto o sujeito assume uma posição homossexual demonstrativa com referência ao pai. e quando nada até então deixava prever nele a possibilidade de tais sintomas. não deixa de encerrar algum último mistério. Trata-se de uma égide. O fetichismo é. algo a ver com a prevalência dada à relação visual na constituição da primitiva relação com o objeto materno. exprimir por seu acting-out. O fato de que ela vivesse assim. em que se envolve o sujeito identificado com o personagem feminino. vê-se que o impermeável desempenha ali um papel que não é.

30 DE JANEIRO DE 1957 A IDENTIFICAÇÃO AO FALO O travestismo e o uso da roupa. que é um exemplo particularmente fundamental da dinâmica do desejo. um homem que havia se casado com uma mulher ma. O desejo nos interessa no mais alto grau por uma dupla razão. é avisado de que vai ser pai. realmente. À falta de poder de alguma maneira assumir essa paternidade. Girl = Phallus. de atos delinquentes que são equivalências do fetichismo. que já estavam bastante satisfeitos com a teoria do amor tal como eu a apresentava. chega como um acréscimo. Na última vez. ou seja. por intermédio da reivindicação ciumenta. este bom homem foi mostrar. quando lidamos com as teorias mais ingenuamente intuitivas a que se refere a psicanálise de hoje. esse pequeno passo que dei surpreendeu alguns. é claro que o pensamento freudiano partiu desses paradoxos. este homem. ter feito dela uma short analysis. Ela deixou de lado o fato de que foi por um ato de exibicionismo que o sujeito se manifestou naquela ocasião. onde o amor está fundado no fato de que o sujeito se dirige à falta que está no objeto. Não há a menor necessidade de se maravilhar com isso. assim como lidamos com um objeto com todos os seus paradoxos. e ela tampouco fez análise alguma. e que havia conseguido se libertar da situação fazendo-se surpreender. a saber. um dia. Não é um desejo construído. lidamos com este desejo em nossa prática. Isso já havia fornecido a alguns a oportunidade de uma meditação que lhes parecia suficientemente es- 167 . Mostrar ^t dar a ver. Trata-se. no real. no que diz respeito ao desejo.s ou menos duas vezes maior que ele. O objeto e o ideal em Freud. pusera a cônjuge um pouco à sua mercê. com uma criada. os ecos da maneira como recebem essa pequena novidade que lhes trago a cada vez. Schmideberg. à falta mesmo de poder acreditar nela. Em particular. Schmideberg evita o principal da coisa. dei um passo no sentido da elucidação do fetichismo.166 O OBJETO FETICHE que são francamente de fetichismo. Ela crê haver analisado uma perversão. Não existe outro modo de explicar este ato senão referindo-se ao mecanismo de desencadeamento pelo qual aquilo que. Seria. o equivalente da criança. Isso não explica nada. bem o percebemos. encontra todos os tipos de analogias com o fato de que o pai do rapaz já era um tanto vítima de sua mulher. o que. Frustração de amor e satisfação da necessidade. tende a fazer precipitarse aquilo que está no fundo da relação simbólica. a equivalência falo-criança. Um belo dia. mas um desejo com todos os seus paradoxos. que fazia o melhor que podia naquela horrível situação. A sra. Escuto. pois não se trata em absoluto de perversão. que parece aqui um pouco anna-freudiana demais. Por um lado. no lugar certo. Ora. inassimilável simbolicamente. Melitta Schmideberg nos representa. ou pelo menos assim o espero. Precipita-se para um jardim público e começa a mostrar seu órgão a um grupo de mocinhas. ele partiu do desejo perverso. por exemplo. de sofredor. onde ele desempenhava o papel de ubuesca vítima. lamentável esquecer isso em nossa tentativa de unificação ou de redução. verdadeira vida conjugal à Dubout. A sra. de vez em quando. Por outro lado. o que lhe restava então do uso de seu falo.

o fetiche. Não se trata. o véu. com aquele objeto a que falta alguma coisa. Se a apreensão imediata. mas também. com um termo situado à frente do objeto. Inversamente. ele próprio não compreende a função nem o mecanismo. mas o desejo como perverso. a cortina. do voyeurismo. tudo aquilo que. o que o sujeito dá a ver. o sujeito se identifica com aquilo que está por trás do véu. podemos dizer que em todo um tipo de atividades confundidas sob o rótulo da relação voyeurismo-exibicionismo. a partir de um ramal de relações imaginárias fundamentais. Em torno da escopofilia ou do travestismo. o autor sente de maneira mais ou menos obscura. mas também de esconder a falta de objeto. às vezes. por outro lado. Esta aparece também nas fases da estrutura fetichista. As roupas não são feitas apenas para esconder o que se tem. os analistas costumam qualificar. mas que não deixam de ter experiência analítica mesmo assim. por outro lado encontrarão ali. Não se trata simplesmente da implicação do sujeito num par de captura visual. o que não se tem. Esta é uma simples aplicação. para saírem do embaraço. comum da função da roupa é esconder as pudenda. uma dimensão é facilmente esquecida. justamente. Esse travestismo nos faz ir muito longe na questão. existe algo que participa da função do travestismo. Esta esquematização é destinada a instaurar esses planos sucessivos que lhes devem permitir. a saber. Seria. agrupam-se ramos de fatos que se distinguem uns dos outros na fenomenologia. ao me informar de toda uma vasta e insípida literatura para me dar conta de até que ponto os analistas penetraram numa real . que é correlativo da atividade do ver. se agrupam em torno de um tema escolhido da articulação analítica. pérolas clínicas de grande beleza. precisamente. Em todo uso da roupa. mas cujo parentesco. Ali. sempre e em toda ocasião. que pode ser o suporte oferecido a algo que assume ali. Bem no final do que lhes disse da última vez a propósito do fetichismo. a questão deve se complicar um pouco aos olhos do analista. Autores como Fenichel. Ambas as funções são essenciais. Bastaria que alguém dentre os autores que falam na mãe fálica quisesse mesmo perceber o sentido daquilo que diz. o respondente. o lugar onde se faz a projeção imaginária. Aqui aparece o que se torna figuração da falta. No travestismo. na medida em que esta. entender um pouco melhor essa perpétua ambivalência e confusão. daquilo que é esquecido com demasiada frequência. em certos casos. Tampouco esperamos por Freud para abordar a psicologia das roupas. no uso maciço que é feito da relação escopofílica. É sobre o véu que o fetiche vem figurar precisamente o que falta para além do objeto. Combinando uma a outra essas duas dimensões. esta forma do verbo que existe em outras línguas e que se chama a voz média. o sujeito simplesmente se mostre. por uma experiência de faro que o analista felizmente extrai da sua experiência. Os autores viram isso com clareza na análise. de ambivalência. É assim que. é a função do travestismo. por exemplo. que são teóricos muito ruins sob sua aparente clareza. infelizmente. Se o esforço de teorização de algum de seus artigos chega a um fracasso desesperador. embora tivessem certa dificuldade para perceber que à relação sujeito-objeto se acrescentavam um mais-além e uma falta. expressa no uso da língua pela presença do reflexivo. é errado mergulhar isso tudo naquilo a que se chama maciçamente a relação escopofílica.168 O OBJETO FETICHE A IDENTIFICAÇÃO AO FALO 169 clarecedora. aqui. sempre e essencialmente. naturalmente. subentende-se sempre como evidente por si mesmo que o fato de se mostrar é muito simples. Portanto. seu nome. o que é dirigido num sentido ao que é dirigido no sentido exatamente contrário — em suma. Esta posição. e até mesmo o pressentimento de toda uma ordem de fatos que. Não é verdade que. corrente. da última vez. uma complicação suplementar. a saber. o desejo. na medida em que mostrar-se é o pólo correlativo à atividade de ver. mostrando-se. o correspondente. perceberam muito bem isso. e o dizem na língua deles: o travesti se identifica com a mãe fálica. onde o sim equivale ao não. no sentido de ter ou não. dar-se a ver. no caso da dialética imaginária. mostrei a vocês o surgimento de uma posição de certa maneira complementar. também. vela a falta de falo. Trouxe. o pólo oposto com referência ao fetichismo. que se pode chamar de simétrica. de esconder o objeto. Existe na escopofilia uma dimensão suplementar da implicação. comunidade. a presença e a função da falta de objeto. até mesmo nas tentativas do fetichista para se unir a este objeto de que está separado por essa alguma coisa da qual. é outra coisa diferente daquilo que ele mostra.

em suma. de uma maneira geral a própria criança. de um tipo Mignon. ali onde alguma coisa não existe ao máximo. Mignon a nómade. Isso é o que. Há três anos. eu anunciava uma conferência sobre Lê diable amoureux de Cazotte. fezes = criança = pênis. de miragens perversas e de toda uma série de construções literárias que podemos agrupar segundo os autores. isto é. brutal. cuja posição bissexuada é frisada pelo próprio autor. aquilo sem o que esta é desprovida de eficácia. com a série de equações bem conhecidas. contrariamente ao que se acredita. especialmente feminino. que não deixa de se relacionar. para a qual parece apontar o conjunto. que em certos casos o sujeito masculino pode igualmente se dar à mulher como sendo aquilo que lhe falta. Todos vocês conhecem a criação de Goethe. enrolar-se num certo ponto do corpo dele. ao mesmo tempo.170 O OBJETO FETICHE A IDENTIFICAÇÃO AO FALO 171 articulação desses fatos. como trazendo a ela o falo. no sujeito. hoje especialmente. a título do que lhe falta. Nas quatro ordens de relações que acabo de designar. no Outro primitivo. relacionado da mesma forma ao objeto. Aí está em suma a génese dessa afirmação: tudo se liga ao fato de que a criança é dada à mãe como substituto. Ora. a última instância da onipotência é referida para além. Ele parte de traços bem conhecidos na especificidade fetichista. n2 3. Aquilo nada mais é que uma falta. Ele lhe serve. Uma vez que tenhamos nossa atenção voltada para esses registros. o que não deixa de ser bastante surpreendente. de servidor superior. aquilo que falta à própria potência. recentemente. de certas perversões que marcam que a menina pode ser interpretada como o equivalente do falo do sujeito. Lembrei-me disso como de uma ilustração importante do que está em questão. ao falo. mas na mãe. Ainda que se veja manifestar aí uma falta flagrante de orientação. quando esta vem agarrar-se a seu parceiro. Quando falei da criança. naturalmente. Alguns falam. segundo os quais a criança pode ser considerada como equivalente no inconsciente do sujeito. que nos deixa a todo instante desejar uma lógica que lhe fosse isenta. após as formalidades habituais. pode conceber a si mesma como um equivalente do falo. por trás desse todo-poderoso. que aborda o que vai chamar de Girl = Phallus. e que acentua o sentido desse ser mágico para além do objeto. no objeto de que espera a onipotência. chamado Harfner. enfim. e que vive com uma espécie de protetor enorme. o qual. de quem ela tem a maior necessidade. O fato de que a menina possa ser o objeto de uma fixação prevalente para um tipo de sujeitos põe em evidência uma função que se pode dizer mítica. não se tratava da criança feminina em especial. não passa de simbolismo da falta. o sujeito não está. Isso se marca às vezes até nos detalhes de sua posição amorosa privilegiada. pequenez. deseje ou até mesmo substitua. e Mignon sem a qual ele nada pode fazer. mas ela. por um artigo de Fenichel. do falo. como ele próprio observa. Como já disse a vocês. interessei-me. conforme ele traga. Os fatos aqui destacados e aproximados estão incluídos numa mesma equação. sob títulos mais ou menos ilustres. no objeto. a saber. Acrescente-se a isso. por outro lado. brutal e manifestamente superpaterno. numa caverna onde o autor se entrega à evocação do diabo. esta falta que o faz. e. trata-se aí de fatos de ordens extremamente diferentes. Goethe diz em algum lugar sobre este casal — Harfner. não podemos deixar de ver que o reagrupamento desses fatos sob a equivalência assim instituída vai muito além de uma simples exegese teórica. a que pode se fixar toda uma série de fantasias idealizadoras. Encontramos aí acoplados a potência encarnada em estado maciço. Existem poucos testemunhos tão exemplares da mais profunda adivinhação da dinâmica imaginária que tento desenvolver diante de vocês. ou mesmo equivalente. Mas. a estrutura da onipotência não está. manifestá-lo por seu comportamento. dê. de 1949. . publicado no Psychoanalytic Quarterly. falando imaginariamente. reproduzido na literatura em numerosos exemplares. Isso é o que torna para nós tão interessante o que chamamos hoje de tipo Mignon. a ele mesmo. lhe é muito necessária. fragilidade. impotente. volume XVIII. afinal de contas. e que. é o segredo de sua potência verdadeira. ou quase fetichista. É o Outro quem é todo-poderoso. ao passo que este artigo visa especificamente à menina. Muitos fatos diversos são reunidos no mesmo parêntese. existe a falta última a que está suspensa sua potência. Aí está o último ponto em que se situa a famosa magia que a teoria analítica atribui sempre de maneira tão confusa à ideia da onipotência. O conto começa em Nápoles. ele concerne a fatos encontrados na análise e agrupados pelo autor. em absoluto. Este género de fatos não pode deixar de nos surpreender e chamar a atenção. que se origina. Desde que o sujeito percebe. ao mesmo tempo. e viver a relação sexual sobre um modo que comporta que ela mesma traga ao parceiro masculino seu falo. Os dados analíticos indicam igualmente que a menina.

até o fim. de tal maneira que a própria transição não é captada. expressamente consagrado à identificação. um e outro. Existe. como convém. a noção de identificação. o falo que lhe falta. sem reconhecê-la. Temos aí uma função a mais. produz-se um artigo como o de Gustav-Hans Graber em Imago. que é realmente a coisa mais espantosa que se possa imaginar. num cachorrinho que. A noção de identificação está presente na obra de Freud desde a origem . que tem um nome significativo. por uma súbita ruptura desta corrida cada vez mais acelerada e louca. Freud confessa seu embaraço. e pela dissipação catastrófica da miragem no momento em que. de onde historicamente a palavra feitiço (fetiche) nasceu. e pergunta ao autor com a voz mais cavernosa que se possa imaginar. no final. no entanto. nada é finalmente revelado. a saber. ou uma fada — é a mesma palavra. da maneira mais cativante. realiza todos os seus desejos. Quando se interroga mais. tal como esta pode se estabelecer nas vias perversas do desejo. o que bem mostra a equivalência de um certo objeto feminino da Verliebtheit com o outro como rival. pois. por algum tempo. identificação e escolha de objeto. de irrealidade perigosa. pois tudo parece resolvido para ele no que diz respeito à distinção entre a identificação ativa e a identificação . e sim no fato de que o mesmo ser é suposto se transformar. provida. antes. Já existem implicações disso na Interpretação dos sonhos. perpetuamente posto em causa por essa própria crítica. Fragoletta. Não é menos instrutivo ver a desconcertante facilidade com que cada um parece se acomodar a ele e usar. Estas podem ser exemplares para nos esclarecer quanto às posições a se distinguir quando analisamos este desejo. em 1937 — "As duas espécies de mecanismos de identificação" —. o sujeito volta ao castelo de sua mãe. Trata-se de uma moça que é um rapaz e que desempenha um papel funcionalmente análogo àquele que acabo de descrever como o tipo Mignon. para o narrador. claramente travesti. — O que queres? Che vuoi? Esta interrogação fundamental nos dá. uma necessidade evidente de se manter a distinção entre ambos. de modo estritamente equivalente. Eis-nos enfim conduzidos a formular a questão do que está subjacente aí.latente. para além da mãe. se torna. até o fim. imediatamente depois de concluído o pacto. Este fato é formidavelmente instrutivo em si. Biondetta. O fato de um objeto se tornar objeto de escolha não é o mesmo de se tornar suporte da identificação do sujeito. de Latouche. Este capítulo tem por propriedade nos mostrar. a maior perplexidade do autor. Este ser feminino ambíguo encarna de certa forma. em sair do dilema colocado pela perpétua ambiguidade que se lhe propõe entre dois termos que ele define. sobre quem. está inteiramente envolvido na sua representação. está imerso numa atmosfera de fantasia. o VII. e que nada mais é que o termo factício. Seu ponto de explicação principal é atingido com a Psicologia das massas e análise do eu. não é a mesma coisa estar do lado do objeto ou do lado do sujeito. ambos não deixando. Vimos aqui. por uma transição que não espanta a ninguém. como diz Freud. Ele o encarna tanto melhor na medida em que ele próprio não o possui. refinamentos de que vou poupá-los. em especial. uma ilustração da função do supereu. senão para o leitor. um personagem enfeitiçado. Um outro romance. sem perguntar mais sobre isso. como acontece com muita frequência em Freud — e este é o valor da sua obra —. ambos se referem afactiso em português. de se entremesclar numa perfeita ambiguidade. Os dois termos aparecem num grande número de casos como substituindo um ao outro com o mais desconcertante poder de metamorfose. A situação se resolve. O todo. Existem ali detalhes. sua Vorstellung. que comporta um capítulo. que não deixa de dar seu tom ao ambiente. quer se trate de observação ou de teorização. apresenta um curioso personagem. que se apresenta a ele como rapaz. Ele se manifesta sob a forma de uma formidável cabeça de camelo. e depois uma encantadora jovem. até mesmo sua impotência. voltando a desaparecer em seguida. proporciona-lhe a satisfação mágica de tudo o que ele possa querer. entretanto. se torna um rapaz encantador.172 O OBJETO FETICHE A IDENTIFICAÇÃO AO FALO 173 não deixa de aparecer. que esclarece a relação de enamoramento. a fonte surpreendente de todas as felicidades. Este personagem amado. O conjunto resulta num duelo durante o qual o herói do romance mata Fragoletta. Mas o interesse não reside aí. a saber. de ameaça permanente. de grandes orelhas. Este é o mesmo outro que está em jogo quando Hamlet mata o irmão de Ofélia. em ação. emergente a todo instante.

pois mesmo o estado amoroso extremo pode ser concebido como uma introjeção do objeto no eu. de saber como articular a diferença entre a identificação e a Verliebtheit nas suas manifestações mais elevadas. o que Ferenczi disse. ativo e passivo. talvez. de submissão. a formação do objeto. a identificação é uma função mais primitiva. pois. e mais apropriada para lhes mostrar as perplexidades de Freud. a saber. a forma como ele próprio articula a questão. No outro caso.. de passagem.. Aí está a abordagem que Freud faz do problema. o eu se enriquece com as qualidades do objeto. sempre fiel a uma Wirklichkeit. talvez também um pouco mais cedo — o que é traduzido por um pouco mais tarde —. o que o sujeito introjeta e com que se enriquece e. onde não se vê que ela traduza uma coisa tão articulada por tendo-se apagado diante deste. nem que desapareça. depois de se haver submetido a uma transformação parcial conforme o objeto do modelo desaparecido? Mais vale nos reportarmos ao texto alemão: Talvez uma outra distinção seja o essencial. volta sobre seus passos — para dizer que esta descrição faz surgir oposições que. e aqui está um exemplo das más traduções francesas dos textos de Freud. tendo-se dado por inteiro ao objeto. pois a análise freudiana vai ligá-la profundamente ao narcisismo. para reaparecer no eu. em benefício do objeto amado. A seguinte distinção incidiria. não se trata nem de enriquecimento. O capítulo VIII de Psicologia das massas e análise do eu que sucede ao capítulo sobre a identificação começa com uma frase que remete imediatamente à atmosfera de alguma coisa pura. simplesmente. percebendo que aquilo não está completo. conhecidas sob o nome de fascinação. Freud se deteve anteriormente. na medida em que ela comporta uma escolha de objeto. que os dois pólos. Este objeto em cujo benefício ele se empobrece é aquele mesmo que ele põe no lugar de seu elemento constituinte mais importante. ele não desaparece.174 O OBJETO FETICHE A IDENTIFICAÇÃO AO FALO 175 passiva. Gostaria de destacar. segundo o modelo do objeto desaparecido. ponto por ponto. no que acontece no estado amoroso. Acompanhando o texto de Freud. Chegamos ao segundo parágrafo. na realidade. falando da identificação ao pai como do exemplo por onde entramos da maneira mais natural nesse fenómeno. o que diz Freud: objeto que ele colocou no lugar de seu elemento mais constituinte. e ele mesmo percebe isso. Bestandteil. No segundo caso ele se empobrece. introjeta. se a identificação com o pai não seria anterior. Para ir o mais longe possível no sentido perfeitamente articulado por Freud. de objeto que se volatilize. de Hórigkeit. Isso está absolutamente truncado na frase francesa. uma realidade eficaz qualquer. Por que o objeto se volatilizaria e desapareceria. tal como Freud a explica para nós. por outro lado. No caso da identificação. assimilando este último. aquilo que lhe toma algo de si próprio e o empobrece. repousa sobre a noção fundamental da perda do objeto — ou abandonado. não existem. de maneira que nos é realmente necessário voltar a Freud e retomar. que Freud começou a tratar da identificação no capítulo anterior. que é fácil de descrever. mas uma escolha de objeto que não deixa de ser forçosamente articulada de uma maneira muito problemática. pois. o objeto foi perdido — uma referência a essa noção fundamental que se reencontra o tempo todo desde o início. nem de empobrecimento. o objeto se volatiliza e desaparece para reaparecer no eu. avança e. Trata-se. pois. mais plenas. Com efeito. mais fundamental. é impossível deixar de ver. nicht bestehen. quando se deve ler. diferente do que temos o hábito de ler: O emprego linguístico permanece. Ele é tomado de humildade e cai em completa sujeição ao objeto de seu investimento. . com esta tradução. tendo-se apagado diante deste. Encontramos outro exemplo disso na passagem a que quero chegar esta manhã. mesmo em seus caprichos. Esta é a questão das relações da introjeção com a identificação. e que escolhi para vocês como a mais condensada. o objeto substituto se vê dotado de todas as qualidades pelo eu e às expensas deste. Ele prossegue. o qual sofre uma transformação parcial. Não é isso. sobre pontos mais essenciais: No caso de identificação. por um lado. Quando se examina de perto. Trata-se do estado amoroso em suas relações com a identificação. digamos que este objeto seja uma espécie de outro eu (mói) no sujeito. de modo algum. Freud se detém aqui na oposição entre. É isso o que nos diz o texto francês. justamente. estão presentes em toda espécie de identificação. Não se trata. do ponto de vista económico: Sob o ponto de vista económico. voltando atrás — pois ele não nos facilita seus movimentos. Lemos na tradução francesa: No primeiro caso. Lemos no texto alemão: Ao mesmo tempo que esta identificação com o pai. por longo tempo. traduz-se em francês. o menino começa a dirigir para sua mãe seus desejos libidinosos — e podemos nos perguntar. onde o sujeito se despossui cada vez mais de tudo o que é de si mesmo.

iiberbesetz. Vocês. por um lado. com referência ao desenvolvimento de uma relação simbolicamente definida. Não vêem que entre os dois é de um equilíbrio e de uma compensação HHi . em bons e maus.176 O OBJETO FETICHE A IDENTIFICAÇÃO AO FALO 177 Ele é. na análise ou em qualquer outro lugar. por sua vez. Trata-se em primeiro lugar de conceber a ligação que estabelecemos comumente. nesses casos. que o objeto seja colocado no lugar do Ich ou do Ich-Ideal. Proponho-lhes o seguinte: a metáfora subjacente à introjeção é uma metáfora oral. ela deve ser concebida. onde o sujeito faria um todo por seu próprio englobamento no corpo materno. tão ausente quanto presente. Não se pode dizer que este seja o texto testamentário de Freud. do eu ou do ideal do eu. que cada vez que a pulsão aparece. a de que existe uma outra alternativa na qual se pode conceber a essência deste estado de coisas. tentando tomar a perspectiva de seu fetiche. mas na prática e na clínica. desses movimentos para frente e para trás. Do mesmo modo. e que é. Deixamo-nos escorregar comumente nas articulações propostas à época kleiniana. explicitamente. Por outro lado. se nos atemos à vaga noção que está sempre. no tratamento de um fetichista. aliás. devemos também nos deter por um instante nesta consideração que apresentamos. Tentemos agora retomar o problema a partir dos pontos de referência que marcamos em nossa elaboração das relações da frustração com a constituição do objeto. ele regride. ejetado de dentro para fora. No outro caso — o da Verliebtheit — o objeto é conservado. Nessa acepção. e como tal ele é sobreinvestido. em seguida. por parte do eu e às expensas deste. no próprio momento em que o sujeito está progredindo na análise. e como tais apenas isso. Ao menos. O próprio lugar a ser dado ao objeto em seus diferentes momentos de ida e vinda. Mas esta distinção. e permanece quase inteiramente em estado de interrogação. isto é. entre identificação e introjeção. a nosso dispor — o sujeito regride. e é isso apenas que eu quis destacar. impulsos de bulimia manifestos. é impossível construir o que quer que seja de ordenado. quando se torna demasiado intolerável no interior. a famosa constituição dos objetos primordiais. existem os objetos de necessidade. Assim. da mãe como objeto de apelo e. são anulados na medida em que sejam qualquer outra coisa além de signos de amor. Evoca-se. Fala-se indiferentemente em introjeção e incorporação. É contra este abuso. dizem. Observamos. já a viram aparecer desde o começo do trecho de Freud que lhes acabo de ler. que está muito longe de ser um abuso freudiano. Trata-se da introjeção dos objetos. Existem. que são signos de amor. Vocês sempre podem dizer isso. que se ergue o que vou tentar articular para vocês. por exemplo. portanto. em nossa prática e em nossa maneira de falar. quanto à sua função económica. o objeto está perpetuamente numa espécie de movimento que o faz passar de fora para dentro. nesse momento preciso. levanta uma nova reflexão: será mesmo certo que a identificação suponha o abandono do investimento do objeto? Não se pode igualmente ter uma identificação com o objeto conservado? E. Não resulta nada de muito claro. conforme este se constitua como objeto de identificação ou como objeto da captura amorosa. Este é um texto cujo encaminhamento nos deixa muito embaraçados. ao que parece. ninguém irá contradizê-los. e o eu se transforma parcialmente de acordo com o modelo do objeto perdido. considerados como simples dados presentes nesse famoso mundo primitivo sem limite. Eu digo. os seus dons. ao contrário. que são correlativos de um momento de virada na redução simbólica do objeto a que nos acontece de nos apegarmos com mais ou menos sucesso nos perversos. então. Como conceber esta correlação. isto é. porque naturalmente ele está ali para isso. antes de entrarmos nessa discussão particularmente espinhosa. não somente em nossos pensamentos. Isso deixa numa simetria perfeita introjeção e projeção. para ser. novamente reerigido no eu. O esquema primitivo que lhes dei da estrutura simbólica do amor não nos dá instrumentos para esclarecer isso? Vamos partir do suporte da primeira relação amorosa. a introjeção é considerada uma função estritamente equivalente e simétrica à da projeção. esta interrogação merece ser exposta. como convém. a evocação. é marcado por uma ambiguidade que Freud torna patente. que ela apresenta à criança sob a forma de seu seio. mesmo que seja um daqueles onde ele atingiu o ápice de sua elaboração teórica. da pulsão oral? Sua conceitualização é impossível. por exemplo. que se dividem. erhalten geblieben.

da relação especular tal como aquele que lhes fala definiu e articulou. o fato de que ele está em falta. desde que comecei o seminário deste ano: em que momento o sujeito descobre essa falta? Quando e como ele faz essa descoberta? — a partir da qual. este objeto já simbolizado. não como objeto compensatório da frustração do amor. tanto à mãe quanto à ela. que está na origem da formação precoce daquilo a que se chama o supereu. pode tornar-se elemento do objeto simbólico. Uma coisa é o pênis. O valor prevalente assumido pelo objeto — no caso. substituí-la. o seu álibi. Esta não é concebível. seu Vorbild. por outro lado isso a deixa alimentada. É somente para além da realização narcísica. alguma coisa que é uma falta. este se torna. assim. e a pulsão se dirige ao objeto real como parte do objeto simbólico. que este realiza que algo pode lhe faltar. que pode intervir em toda relação amorosa. necessariamente. Ele pode entrar nela. Enquanto o tem na boca e se satisfaz com ele. o pênis pode. essa reação de incorporação dá seu modelo. mas também perfeitamente materializado. qualquer outro objeto capaz de" satisfazer uma necessidade real pode vir colocar-se em seu lugar e. É num segundo tempo que se produz a Verliebtheit. o seio ou a chupeta —está baseado no seguinte: um objeto real assume sua função como parte do objeto de amor. igualmente. uma forma oral de incorporação do pênis que desempenha seu papel no determinismo de certos sintomas e de certas funções. como tal. não é articulada em parte alguma. como objeto real. É a propósito do falo. sobre os fundamentos das duas primeiras relações simbólicas entre o objeto e a mãe da criança. Há. a compensação da frustração do amor. trazendo-lhe sua própria falta. Mas existe uma outra maneira pela qual o pênis entra na economia imaginária. situar seu objeto na linhagem e no lugar deste objeto que é o seio ou a teta. mas na medida em que ele está para além do objeto de amor e que falta a este. ele próprio. O que o sujeito incorpora sob o nome de supereu é algo de análogo ao objeto de necessidade. pode aparecer que. É na medida em que o imaginário entra em jogo que. uma parte do objeto simbólico. aqui. não apenas preenchedora. e na medida em que começa a se organizar a ida e vinda tensional. do sujeito ao outro. senão no registro da relação narcísica. É na relação especular que o sujeito tem a experiência e a apreensão de uma falta possível. Lembro a vocês que é numa data situável e que. a este tipo de incorporação que é a incorporação de certas palavras dentre outras. ao mesmo tempo.178 O OBJETO FETICHE A IDENTIFICAÇÃO AO FALO 179 que se trata? Cada vez que há uma frustração de amor. em outras palavras. que dá ao sujeito a matriz em torno da qual se organiza para ele o que eu chamaria de sua incompletude vivida: a saber. vai se ver engajado em vir. escolher uma outra via na redescoberta do objeto de amor que se furta. o que não é absolutamente o mesmo. repousada e satisfeita. assume sua significação como simbólico. num dado momento. principalmente. profundamente agressiva. não se dá antes do sexto mês que se produz a relação com a imagem do outro. se cristalizar . Outra coisa é o falo na medida em que falta à mãe. É a partir daí que se abre toda compreensão possível da absorção oral e de seu mecanismo que se auto-intitula regressivo. o fato de possuir ou não possuir um pênis pode assumir um duplo sentido. seu molde. que é. A satisfação da necessidade é. mas na medida em que ele substitui a falta do dom. É na medida em que a mãe falta à criança que a chama que esta se agarra ao seu seio. que é a palavra. É com relação a esta imagem que se apresenta como total. algo pode faltar imaginariamente. e que está para além desta e de sua potência de amor. e entrar por duas vias de abordagem muito diferentes na economia imaginária do sujeito. que formulo para vocês esta questão. de que alguma coisa mais além pode existir. na medida em que este falta. e que este seio se torna mais significativo que tudo. Esta distinção é capital. isto é. que é assim mesmo uma função imaginária. Inicialmente. mas fonte de júbilo em razão da relação específica do homem com sua própria. a forma mais caracterizada da identificação freudiana primitiva. na medida em que é imaginariamente que se o incorpora. não na medida em que ele mesmo seja o dom. Na medida em que a regressão oral ao objeto primitivo de devoração vem compensar a frustração de amor. em torno do que vão se infiltrar. imagem. A partir do momento em que um objeto real. e começa a se tornar. e nos permite hoje expor um primeiro esboço do que é mais ou menos exigível para que este tempo se produza. Temos a estruturação simbólica e a introjeção possível. A partir daí. esta é compensada pela satisfação da necessidade. por um lado a criança não pode ser separada da mãe. que satisfaz uma necessidade real.

se observarmos os esquemas. vem se situar no lugar do eu ou do ideal do eu. retido. a ele. onde se diferenciam as funções chamadas supereu. que está por trás de todos. ideal do eu. Vou retomar. o que é este objeto que. que pode se introduzir aquilo que faz surgir para o sujeito. até agora. e. como objeto. que está na origem do seu eu e que dá a matriz deste. alguma coisa pode faltar. No que. onde ele situa os eus dos diferentes sujeitos: Objeto exterior GRAPHISCHE DARSTELLUNG DE FREUD Trata-se de saber por que os sujeitos comungam num mesmo ideal. o falo. na medida em que é a partir do ideal do eu que o eu se destaca. esta forma em que o objeto de amor é tomado. permanece nela. e se projetando aí sob a forma do ideal do eu. Ao lado da relação com a criança. O que encontram no final deste capítulo? Este esquema. É somente depois do segundo tempo da identificação imaginária especular à imagem do corpo. A que responde esta forma? O que vêem esboçar-se aqui é uma nova dimensão e uma nova propriedade daquilo que lhes é apresentado no sujeito consumado. Tudo isso. para além do que ele próprio constitui como objeto para a mãe. e que vem se refletir. da próxima vez. para dizer tudo. isto é. não se trata simplesmente de um objeto. É com referência a esta imagem que o sujeito realiza que. para que possamos retomar as coisas neste ponto da próxima vez. que faz com que suponhamos — porque a experiência nos impõe. A experiência especular do outro como formando uma totalidade é uma condição prévia. no ponto em que estamos. que sem dúvida sente alguma coisa e pode se empobrecer. 6 DE FEVEREIRO DE 1957 . cativado. Não articulei o suficiente para vocês a diferença existente. repousa sobre o efeito de transmissão. percebemos que ele tomou o cuidado de ligar esses três objetos a um objeto exterior. a se propor ele mesmo como o objeto que a preenche. em suas primeiras exigências. precisei acentuar a formação ideal do eu. o fetiche e o objeto. e observem seus esquemas que passam de mão em mão sem que ninguém tenha. por um instante. como bem disse Freud ao final de seu artigo. digo realmente a formação do eu na medida em que esta é uma formação ideal. mas em algo que está nas próprias bases do eu. que o sujeito pode realizar o que falta à mãe. O sujeito leva assim para além do objeto do amor esta falta a que pode ser conduzido a substituir. na medida em que é o objeto que falta. uma nostalgia. mas de algo que está para além do objeto. do ponto em que os deixo. na relação entre o ideal do eu. sonhado reproduzi-los. não pura e simplesmente no eu. em alguma coisa que ele próprio. não chega a atingir: a saber. como um ponto de fixação de sua inserção imaginária. Trata-se de saber. a falta do falo. Freud nos explica que existe identificação do ideal do eu com objetos que se supõe serem o mesmo.180 O OBJETO FETICHE Ideal do eu A IDENTIFICAÇÃO AO FALO Eu Objeto 181 as camadas sucessivas daquilo que irá constituir o eu. como diz Freud. Simplesmente. sobre o primeiro véu. Conduzi vocês hoje até a apresentação de uma forma que devem guardar no espírito. eu. e porque Freud aderiu completamente a isso. até o último momento de suas formulações — que nenhuma satisfação por um objeto real qualquer que venha aí como substituto jamais consegue preencher a falta na mãe. que se relaciona à própria falta do objeto de amor. na Verliebtheit. em suas primeiras formas. Não encontram aí uma semelhança espantosa com aquilo que lhes estou explicando? A propósito do Ich-Ideal. Mas abram simplesmente Freud com suas obscuridades fecundas. lhes expliquei sobre o narcisismo.

que a meus allios constitui nada menos que a unica formulacrao conceitual correta da experiencia que esta propria doutrina fundou. Ele fala da Versagung. vamos afirmar inicialmente que ela nao e a recusa de urn objeto de satisfacrao no sentido puro e simples. pois se a experiencia analftica elevou-a ao primeiro plano dos termos em uso. Esta propriedade e. com sucesso. nenhuma coerencia se imp6e entre a frustracrao e a permanencia do desejo. inexplicavel na simples perspectiva da necessidade. Tenho a intencrao de retomar hoje os termos com que tento formular para voces 0 remanejamento necessario da nocraode frustracrao. Em geral. isso nao pode ser. para interrogar: a saber. ou declina.o dom se man(lesla ao apeLo. que se inscreve muito mais adequadamente na nocrao de denuncia. para fazer dela urn uso valido. em muitos exemplos. Antes de tomar a partir. achamos que elas deixam marcas. situar a Versagung na vertente oposta. o espelho. do jabiLo a depressiio. mas tudo 0 que fizemos anteriormente 0 preparou. Esquecemos simplesmente que. ou 0 desejo se modifica. verao esses impasses sempre mais comprovados. Digamos que a referem de modo diverso. Embora sua prevalencia nao altere profundamente a economia de nosso pensamento na presencra de fenamenos neur6ticos. sem motivo. Em todos os casos. a que alguns a referem. E necessario que a compreendamos na sua experiencia fundamental. para empregar 0 termo que fui levado a par em primeiro plano quando falamos do automatismo de repeticrao. A subSlilui~'iio das salisfatyi5es. utiliza-se a palavra sem examimi-Ia em perspectiva: temos experiencias frustrantes. Freud tambem nunca fala da frustracrao. A psicanalise de hoje p6e a frustracrao no centro de todas as faltas cujas conseqiiencias analisaveis seriam marcadas nos sintomas que se originam de nosso c~mpo. vamos pontuar 0 que se destaca de alguns dos term os que fomos levados a articular ate aqui. A erolizatyiio da necessidade. nao preciso insistir neste ponto. como me esforcro para demonstrar a voces. ate mesmo sua insistencia. A medida que voces passarem a praticar mais a literatura analftica. Tentei situar a frustracrao para voces num pequeno quadro triple entre a castracrao. A falta deste remanejamento. com efeito. Toda a experiencia que podemos ter daquilo que ocorre numa economiaanimal nos demonstra isso. mais ou menos suportaveis pelo organismo. ela conduz mesmo assim a impasses. e a privacrao. no inconsciente. se as coisas fossem assim tao simples. Isso e tao verdadeiro que se pode mesmo. quando se fala em frustracrao. 0 fato de que 0 desejo. A frustracrao de uma necessidade acarreta modificacr6es diversas.e a doutrina freudiana. e possivel que nao cesse de aumentar a distiincia entre as teorias dominantes na psicanalise de hoje . espero. mas se existe alguma coisa bem evidente e confirmada pela experiencia e que ela nao engendra a manutencrao do desejo como tal. Satisfacrao quer dizer satisfacrao de uma necessidade. e de cujo enigma todo 0 desenvolvimento de sua obra e feito. onde se fala da retirada de urn engajamento. no sentido em que se diz denunciar urn tratado. o que you tentar articular hoje talvez seja urn pouquinho mais algebrico que 0 habitual. no caso. de que partiu a teoria freudiana. PapeL sign(ticanle do JaLo imaRinario. recalcado. falando propriamente. responderia a esta caracteristica que Freud acentua tanto desde 0 inicio. Da frustracrao. pois 0 termo pode querer .aquilo a que se chama suas tendencias atuais . que teria sido assim frustrado. justamente. seria precise ainda explicar por que 0 desejo. em absoluto. e com 0 olho aberto. Ou 0 individuo sucumbe. e indestrutivel.

dizer ao mesmo tempo promessa e ruptura de promessa. Este e, freqiientemente, 0 caso, nessas palavras precedidas por ver-, prefixo tao essencial em alemao, e que ocupa, na escolha de palavras da teoria analftica, urn lugar eminente. Vamos dizer logo, a trfade frustrariio-agressiio-regressiio, se for assim apresentada, esta muito longe de ter 0 carater sedutor de significa~ao imediatamente compreensfvel que se Ihe sup6e. Basta considera-Ia por urn instante para perceber que ela nao e compreensfvel em si mesma. Nao ha razao alguma para que nao se apresente uma outra serie qualquer. Inteiramente ao acaso, eu Ihes diria,frustrariio-depressiio-contri~'iio; poderia inventar muitas outras. Trata-se para nos de formular agora a questao das rela~6es entre a frustra~ao e a regressao. Isso nunca foi feito de uma maneira satisfatoria. 0 que foi feito, nao digo que seja falso, digo que nao e absolutamente satisfatorio, porque a propria no~ao de regressao nao esta elaborada nesse caso. A frustra~ao, portanto, nao e recusa de urn objeto de satisfar;;ao. Nao e a isso que ela se liga. Quero, nesse sent'ido, desenvolver diante de voces urn encadeamento tal que possam guardar suas articula~6es principais a fim de ver se estas servem, e yOU me contentar em situar, em seguida, uma serie de formulas que ja foram trabalhadas aqui, estando eu relativamente dispensado, salvo por alusao, de comprova-Ias. Vamos nos submeter a essa via que consiste em tomar as coisas no ponto de partida - nao digo no desenvolvimento, pois isso nao tern 0 carater de urn desenvolvimento, mas no nfvel da rela~ao primitiva da crian~a com sua mae. Digamos que, originariamente, a frustra~ao - nao uma frustra~ao qualquer, mas aquela que e utilizavel em nossa dialetica - so e pensavel como a recusa do dom, na medida em que 0 dom e sfmbolo do amor. Ao dizer isso, nao estou dizendo nada que nao esteja, com todas as letras, em Freud. 0 carater fundamental da rela~ao de amor, com tudo 0 que esta comporta de elaborado, nao em segundo grau, mas em terceiro, nao implica somente, diante de si, urn objeto, e sim urn ser. Isso e dado em muitas passagens de Freud como a rela~ao que esta no principio. 0 que quer dizer isso? Isso nao quer dizer que a crian~a tenha feito a filosofia do amor, que ela distinga, por exemplo, 0 amor eo desejo. Isso quer dizer que ela ja esta totalmente engajada, 0 que implica a existencia da ordem simb6lica. Encontramos provas disso na sua conduta. Certas coisas que acontecem so sao concebfveis se a ordem simb6lica ja estiver presente. •

Encontramos sempre aqui uma ambigiiidade que nasce do fato de term os uma ciencia que e uma ciencia do sujeito, nao uma ciencia do indivfduo. Ora, sucumbimos a necessidade de par no come~o 0 sujeito, esquecendo que 0 sujeito como sujeito nao e identificavel ao indivfduo. Mesmo que 0 sujeito se destaque, como indivfduo, da ordem que lhe concerne como sujeito, esta ordem nem por isso deixa de existir. Com efeito, a lei das rela~6es intersubjetivas govern a profundamente aqueles de quem 0 indivfduo depende, e portanto vai implica-lo nesta ordem, esteja ele consciente ou nao disso, como indivfduo. Esta e uma tentativa desesperada, e no entanto repetida, de tentar fazer surgir a partir das angustias da crian~a no escuro a imagem do pai. Fa~o alusao, aqui, ao que e articulado por urn certo Mallet sobre as fobias primitivas. Essa tentativa s6 pode se fazer grar;;asa barbantes grossos como urn bra~o. A ordem da paternidade existe como tal, quer a crianr;;aviva ou nao terrores infantis, os quais so vem assumir seu sentido articulado na relar;;aointersubjetiva pai-crian~a, que e profundamente organizada simbolicamente, e forma 0 contexto subjetivo em que a crian~a desenvolve sua experiencia. A experiencia da crian~a e a cada instante tomada e retroativamente remanejada pela rela~ao intersubjetiva em que ela se engaja por uma serie de esbor;;os que sao esbo~os apenas na medida em que, justamente, vao se engajar. Falei do dom. 0 dom implica todo 0 cicIo da troca, onde 0 sujeito se introduz tao primitivamente quanto possam supor. So existe dom porque existe uma imensa circula~ao de dons que recobre todo 0 conjunto intersubjetivo. 0 dom surge de urn mais-alem da relar;;ao objetal, ja que ele sup6e atras de si toda a or-dem da troca em que a crian~a ingressou, e so pode surgir deste mais-alem com 0 carater que o constitui como propriamente simbolico. Nada e dom se nao for constitufdo pelo ato que, previamente, 0 anulou ou revogou. E sobre urn fundo de revoga~ao que 0 dom surge, e sobre este fundo, e como signo de amor, inicialmente anulado para ressurgir em seguida como pura presen~a, que 0 dom se da ou nao ao apelo. Direi mais. Falo do apelo porque af esta 0 primeiro plano, 0 primeiro tempo, da palavra, mas lembrem-se do que Ihes disse no momenta em que tratavamos da psicose. Eu Ihes dizia que 0 apelo era essencial a palavra. Estaria errado se ficasse por af, de vez que a estrutura da palavra implica, no Outro, que 0 sujeito receba sua propria mensagem sob uma forma invertida. Ainda nao estamos nesse nfvel, mas desde ja 0 apelo nao pode ser sustentado isoladamente, como bem

nos demonstra a imagem freudiana do menininho com seu Fort-Da. Ja no nfvel do apelo, e preciso que exista, a frente, 0 seu contnhio. Chamar vai referencia-Io. Se 0 apelo e fundamental, fundador na ordem simbolica, e na medida em que aquilo que e chamado pode ser rejeitado. 0 apelo ja e uma introdU(;~ao, total mente engajada na ordem simbolica, a palavra. o dom se manifesta ao apelo. 0 apelo se faz escutar quando 0 objeto nao esta la. Quando esta la, 0 objeto se manifesta essencialmente como sendo apenas signa do dom, isto e, como nada em termos de objeto de satisfac;;ao.Ele esta la justamente para ser rejeitado na medida em que e este nada. Este jogo simbolico tern, portanto, urn carater fundamentalmente decepcionante. Af esta a articulac;;ao essencial a partir de que a satisfac;;aose situa e assume seu sentido. Nao quero dizer que nao haja na crianc;;a,por ocasiao desse jogo, uma satisfac;;aoatribufda ao que seria puro ritmo vital. Digo que toda satisfac;;aoposta em causa na frustrac;;aoadvem sobre 0 fundo do carater fundamental mente decepcionante da ordem simbolica. A satisfac;;ao aqui nao passa de substituto, compensac;;ao. A crianc;;aanula 0 que ha de decepcionante no jogo simbolico, na captura oral do objeto real de satisfac;;ao, no caso, 0 seio. 0 que a adormece nessa satisfac;;ao e justamente sua decepc;;ao,sua frustrac;;ao,a recusa que, na ocasiao, ela experimentou. A dolorosa dialetica do objeto, ao mesmo tempo ali e nunca ali, em que ela se exercita, nos e simbolizada neste exercfcio genial mente captado por Freud em estado puro, na sua forma isolada. Esta e a base da relac;;ao do sujeito com 0 par presenc;;a-ausencia, relac;;ao com a presenc;;a sobre fundo de ausencia, e com a ausencia na medida em que esta constitui a presenc;;a. A crianc;;a aniquila, na satisfac;;ao, a insaciedade fundamental dessa relac;;ao.Ela adormece 0 jogo na captac;;aooral. Sufoca aquilo que se origina da relac;;aofundamentalmente simbolica. A partir daf, nao e surpreendente para nos que seja justamente no sonho que se manifesta a persistencia do desejo no plano simbolico. Enfatizo para voces nesta ocasiao: mesmo 0 desejo da crianc;;anunca esta ligado a pura e simples satisfac;;ao natural. Vejam 0 sonho, pretensamente arqui-simples, que e 0 sonho infantil, aquele, por exemplo, da pequena Anna Freud. Ela diz em sonho: Framboesa, flan etc. Todos estes objetos sao para ela objetos transcendentes. Eles ja entraram, doravante, na ordem simb6lica, e tao bem que sao todos, justamente,

objetos interditos. Nada nos obriga a pensar que a pequena Anna Freud estivesse insaciavel naquela noite, muito pelo contrario. 0 que se mantem no sonho como urn desejo, certamente expresso sem disfarce, mas com toda a transposic;;ao da ordem simbolica, e 0 desejo do impossfvel. Ese voces ainda pudessem duvidar de que a palavra desempenhe aqui urn papel essencial, eu os faria observar que se a pequena Anna Freud nao tivesse articulado aquilo em palavras jamais terfamos sabido nada disso.

Vamos prosseguir a dialetica da frustrac;;ao, e nos perguntar: 0 que ocorre no momenta em que a satisfac;;aoda necessidade entra em jogo e substitui a satisfac;;aosimbolica? Pelo simples fato de substituf-Ia, ela propria sofre uma transformac;;ao.Quando 0 objeto real se toma ele proprio signo na exigencia de amor, isto e, na procura simbolica, acarreta imediatamente uma transformac;;ao. Qual? Como lhes digo que 0 objeto real assume entao valor de sfmbolo, poderia lhes dizer que,por isso, ele se toma sfmbolo, ou quase, mas isso seria apenas urn puro e simples passe de magica. o que assume enfase e valor simbolico e a atividade, 0 modo de apreensao, que poe a crianc;;ana posse do objeto. E assim que a oralidade se toma 0 que e. Sendo urn modo instintual da fome, ela e portadora de uma libido que conserva 0 corpo pr6prio, mas nao e somente isso. Freud se interroga quanta a identidade dessa libido: sera a libido da conservac;;ao ou a libido sexual? Certamente, ela visa a conservac;;ao do indivfduo: ela e de fato 0 que implica a destrudo, mas, precisamente porque entrou na dialetica da substituic;;ao da exigencia de amor pela satisfac;;ao,ela e uma atividade erotizada. Ela e libido no sentido proprio, e libido sexual. Tudo isso nao e va articulac;;ao retorica, mas responde, de.outra maneira que nao pela elisao, a objec;;oesque pessoas certamente nao muito sutis - por exemplo, 0 sr. Charles Blondel, no ultimo numero de Etudes philosophiques consagrado ao centenario de Freud - puderam fazer a certas observac;;oesanalfticas sobre 0 tema da erotizac;;ao do seio, por exemplo. Esse autor dizia num de seus artigos, como nos lembra a sra. Favez-Boutonier, Quem realmente entender tudo, mas

a esta objer;;ao que responde 0 que acabo de lhes estruturar. A partir de seu ingresso na dialetica da frustrar;;ao, 0 objeto real nao e em si mesmo indiferente, mas nao tern necessidade alguma de ser especffico. Mesmo que nao seja 0 seio da mae, nem por isso ele perdeni algo do valor de seu lugar na dialetica sexual, de onde se origina a erotizar;;ao da zona oral. Nao e 0 objeto que desempenha, em seu interior, 0 papel essencial, mas 0 fato de que a atividade assumiu uma funr;;ao erotizada no plano do desejo, 0 qual se ordena na ordem simb6lica. Chamo a atenr;;ao de voces neste ponto para 0 fato de que isso vai tao longe que e possivel que, para desempenhar 0 mesmo papel, nao exista em absoluto objeto real. Trata-se, com efeito, apenas daquilo que da lugar a uma satisfar;;ao substitutiva da saturar;;ao simb61ica. Apenas isso pode explicar a verdadeira funr;;ao de urn sintoma como o da anorexia mental. Ja lhes disse que a anorexia mental nao e urn niio comer, mas urn comer nada. Insisto: isso quer dizer comer nada. Nada, isso e justamente algo que existe no plano simb61ico. Nao e urn nicht essen, e urn nichts essen. Este ponto e indispensavel para compreender a fenomenologia da anorexia mental. 0 que esta em questao neste detalhe e que a crianr;;a come nada, 0 que e diferente de uma negar;;ao da atividade. Esta ausencia saboreada como tal, ela a emprega diante daquilo que tern a sua frente, a saber, a mae de quem depende. Grar;;as a este nada, ela faz a mae depender dela. Se nao compreenderem isso, nao poderao compreender nada, nao s6 sobre a anorexia mental, mas tambem sobre outros sintomas, e irao cometer os maiores erros. Situei para voces, portanto, 0 momento de inversao que nos introduz na dialetica simb6lica da atividade oral. Outras atividades sac apreendidas mais tarde, da mesma maneira, na dialetica libidinal. Mas isso nao e tudo 0 que se produz. Inversamente, e dessa maneira, no momenta em que se introduz no real a inversao simb6lica da atividade substitutiva, a mae, que ate entao era 0 sujeito da exigencia simb6lica, o simples lugar on de podia se manifestar a presenr;;a ou ausencia, aquilo que coloca a questao da irrealidade da relar;;ao primitiva com a mae, torna-se urn ser real. Com efeito, podendo recusar indefinidamente, ela pode literalmente tudo. Como lhes disse, e no seu nlvel e nao no nlvel de nao-sei-que hip6tese de uma especie de megalomania, que projeta na crianr;;a aquilo que ,esta no esplrito do analista -

o que tazer no caso em que a crianra niio materno, e sim na mamadeira? E justamente

e

alimentada no seio

que aparece pel a primeira vez a dimensao da onipotencia, a Wirklichkeit, que em alemao identifica eficacia e realidade. A eficacia essencial se apresent~ em primeiro lugar como a onipotencia do ser real de que depende, absoluta e irrecorrivelmente, 0 dom ou 0 nao-dom. Estou dizendo a voces que a mae e primordialmente toda-poderosa, que nao podemos elimina-la dessa dialetica, que esta e uma condir;;ao essencial para compreender 0 que quer que seja. Nao estou lhes dizendo, seguindo a sra. Melanie Klein, que a mae contem tudo. Este e urn outro assunto, a que s6 far;;o alusao de passagem. 0 fato de que todos os objetos fantasisticos primitivos se encontrem reunidos no imenso continente do corpo materno, podemos entrever agora como isso e· posslve!. Que isso seja posslvel, a sra. Melanie Klein nos mostrou de forma genial, mas sempre ficou muito atrapalhada para nos explicar como era possivel, e seus adversarios nao deixaram de argumentar que ela estava sonhando. Naturalmente, ela estava sonhando, e tinha razao em sonhar, pois este fato s6 e possivel mediante uma projer;;ao retroativa de toda a gama de objetos imaginarios no seio do corpo materno. Eles estao mesmo £IIi,com efeito, ja que a mae constitui urn campo virtual de aniquilar;;ao simb6lica, do qual todos os objetos vindouros irao tirar, cada urn por sua vez, seu valor simb6lico. Tomando simplesmente 0 sujeito num nivel urn pouco mais avanr;;ado, por exemplo, uma crianr;;a por volta dos dois anos de idade, nao e de modo algum espantoso que ela £IIi encontre os objetos reprojetados retroativamente. E podemos dizer num certo senti do que, como tudo o mais, uma vez que estavam prontos a advir ali urn dia, eles ja estavam ali. Neste ponto, a crianr;;a se. encontra na presenr;;a da onipotencia materna. Ja que acabo ~e fazer uma alusao rapida a posir;;ao paran6ide, como a sra. Melanie Klein a chama, YOU acrescentar que, quanta a posir;;ao depressiva que entao se esbor;;a em seus dizeres, podemos suspeitar que tenha algo a ver com a relar;;ao a onipotencia. Esta e uma especie de aniquilamento, de micromania, que e 0 contrario da megalomania. Mas vamos evitar avanr;;ar muito rapido, porque ·isso nao e auto-evidente pelo simples fato de que a mae, revelada como onipotente, seja real. Para que a onipotencia real engendre no sujeito· urn efeito depressivo, e preciso £linda que ele possa refletir sobre si mesmo e sobre 0 contraste de sua impotencia. A experiencia clinica permite situar os arredores do ponto em tome desse sexto mes que Freud destacou, e onde se produz 0 fen6meno do estadio do espelho.

Voces vao me objetar que eu ensinei que, no momento em que 0 sujeito captura a totalidade de seu corpo pr6prio em sua reflexao especular, onde ele se realiza de certa maneira neste outro total e se apresenta a si mesmo, 0 que ele experimenta e antes urn sentimento de triunfo. Ai esta uma reconstru~ao, que nao deixa de ser confirmada pela,experiencia, e 0 carliter jubilat6rio deste encontro nao e duvidoso. Mas convem, aqui, nao confundir duas coisas. Existe, por urn lado, a experiencia do dominio, que vai dar a rela~ao da crian~a com seu pr6prio eu urn elemento de splitting essencial, de distin~ao de si mesmo, que ira permanecer ate 0 fim. Existe, por outro lado, 0 encontro com a realidade do mestre. Na medida em que a forma do dominio e dada ao sujeifo sob a forma de uma totalidade a ele mesmo alienada, mas estreitamente ligada a ele e na sua dependencia, isso e 0 jubilo, mas as coisas correm de outra maneira quando, uma vez que esta forma the foi dada, ele reencontra a realidade do mestre. Assim, 0 momenta de seu triunfo e tambem 0 mediador de sua derrota. Quando se encontra em presen~a desta totalidade sob a forma do corpo materno, ele deve constatar que ela nao the obedece. Quando a estrutura especular reflex a do estadio do espelho entra em jogo,·a onipotencia materna s6 e refletida, entao, em posi9ao c1aramente depressiva, e ai surge 0 sentimento de impotencia da crian~a. E ai que pode se inserir aquilo a que eu ahidia ha pouco, quando ihes falei da anorexia mental. Poderfamos nos apressar urn pouco e dizer que 0 unico poder detido pelo sujeito contra a onipotencia e dizer "nao" no nfvel da a~ao, e introduzir aqui a dimensao do negativismo, que nao deixa de ter rela~ao com 0 momento que viso. Todavia, chama a aten<;ao para 0 fato que a experiencia nos demonstra, e nao sem razao, que nao e no nfvel da a<;aoe sob a forma de negativismo que se elabora a resistencia a onipotencia na rela<;aode dependencia, e sim no nfvel do objeto que nos apareceu sob 0 signa do nada. E no nfvel do objeto anulado como simb6lico que a crian<;apoe em xeque a sua dependencia, e precisamente alimentando-se de nada. E af que ela inverte sua rela<;ao de dependencia, fazendo-se, por esse meio, 0 mestre da onipotencia avida de faze-Ia viver, ela que depende da onipotencia. A partir dai, e ela quem depende por seu desejo, e ela quem esta a sua merce, amerce das manifesta<;oes de seu capricho, a merce da onipotencia de si mesma. Portanto precisamos real mente sustentar em nosso espirito que a ordem simb6lica e, se assim podemos dizer, 0 leito necessario a entrada ,

em jogo da primeira rela<;ao imaginaria, sobre a qual se faz 0 jogo da proje<;ao e de seu contrario. Para ilustrar agora em termos psicol6gicos - mas isso e uma degrada<;a6 com referencia a primeira exposi<;ao que lhes acabo de fazer -, a intencionalidade do amor constitui muito precocemente, antes de qualquer mais-alem do objeto, uma estrutura<;ao fundamentalmente simb6lica, que e impossfvel de conceber, senao formulando que a pr6pria ordem simb6lica como tal ja esta instituida e presente. A experiencia nos mostra isso. Como a sra. Susan Isaacs nos fez observar ha muito tempo, desde uma idade muito precoce uma crian<;a distingue uma puni~ao de uma sevfcia casual. Antes mesmo da palavra, uma crian<;a nao reage "da mesma maneira a urn encontrao e a uma palmada. Vou deixa-Ios meditar 0 que isso implica. Vao me dizer que tambem 0 animal e curioso, pelo menos 0 animal domestico. Esta obje<;ao e facil de reverter. Isso prova justamente que 0 animal pode chegar a urn esbo<;o de mais-alem que vai coloca-Io em rela<;oes de identifica<;ao muito particulares com aquele que e seu mestre. Mas, precisamente porque, a diferen<;a do homem, 0 animal nao esta inserido, por todo 0 seu ser, numa ordem de linguagem, isso nao gera mais nada nele, senao que seja urn born caozinho. Resta-Ihe chegar a algo tao elaborado como distinguir entre 0 fato de que the deem tapinhas nas costas e 0 fato de que se the apliquem urn corretivo. Ja que se trata, por ora, de esclarecer os contornos, talvez voces tenham visto uma especie de caderno publicado em dezembro de 1956 como 0 quarto numero do ana do International Journal of PsychoAnalysis. Parece que andaram dizendo que haveria alguma coisa de interessante na linguagem, e parece que algumas pessoas foram chamadas a responder a encomenda. 0 artigo do sr. Loewenstein e marcado por uma prudente distancia nao desprovida de habilidade que consiste em, depois de ter citado alguns personagens laterais do Hamlet, lembrar que 0 sr. de Saussure ensinou que existe urn significante e urn significado. Em suma, demonstra-se que se esta mais ou menos a par, mas isso permanece absolutamente inarticulado com a nossa experiencia, a nao ser para sublinhar que e preciso pensar no que se diz. Ao ver 0 nivel de elabora<;ao em que isso se arrasta, perd60 ao autor por nao citar meu ensino - estamos muito mais adiantados. Ha tambem urn sr. Charles Rycroft que, em nome dos londrinos, tenta se aprofundar urn pouco mais e fazer - 0 que, em suma, fazemos

e perece por palavras. aqui e. durante urn certo tempo. se posso dize-lo. Como diz 0 Evangelho. o termo "regressao" e aplicavel ao que se passa quando 0 objeto real. a cnanya se alimenta tanto de palavras quanto de pao. de forma bruta. e ao mesmo tempo a atividade feita para capta-Io. assinala um objeto. a questao nao esta absolutamente af. ja que e. Aquela abre a porta para esta. e mostrar-nos como se da que 0 falo. mas isso seria artificial. igual em seu princfpio. 0 homem nao perece apenas pelo que entra na sua boca. se introduz 0 falo. que a teor~a da comunicayao existe. efeito. Na verdade. Talvez se devesse lembrar. . E um fato. mas insisto em sublinhar isso para encerrar este tema -.. se 0 relate a um outro. no material que se oferece a ela em relayao a seu pr6prio corpo que a crianya po de encontrar 0 real feito para alimentar 0 simb6lico. Voces perceberam bem . Ainda af. defendam-se das exigencias vas de uma genese natural. possa ter tamanha importancia para a mulher. a mae. 0 grito e feito para que se tome conhecimento dele. as do sr. sugere 0 autor. 0 grito se produz num estado de coisas onde nao apenas a Iinguagem ja esta institufda para a crianya. mas tambem pelo que dela sai. Desde a ongem. e e. um smal da necessidade. com efe~to. 0 fato de. Basta ver a necessidade essencial que a crianya tem de receber esses gritos modelados e articulados que se chamam palavras. ate mesmo para que. 0 grito de que se trata nao e considerado como sinal. Se quisessem deduzir de uma constituiyao qualquer dos 6rgaos genitais o fato de que 0 falo desempenha urn papel prevalente em todo 0 simbolismo genital jamais 0 conseguiriam. 0 sujeito humane nao e apenas avisado do grito como de algo que. 0 dom. talvez pudessemos chegar a reorganizar nossa experiencia. doravante. 0 ~rito: a crianya.cayao: a crianya chora e a mae recebe seu choro como um smal. virtualmente organizados num sistema simb6lico. na dialetica da frustrayao. que faz com que a uma frustrayao simb6lica possa sempre suceder a regressao. 0 termo regressao pode assumir aqui uma incidencia sob a qual nao costuma lhes aparecer. o Fort-Da e aqui essencial. Assim ele nos recorda que. diz 0 autor. em primeiro lugar e antes de mais nada. todas as relayoes com 0 corpo pr6prio que se estabelecem par intermedio da relayao especular. 0 fato de que a retenyao possa se tomar recusa tampouco deve surpreende-Ios. Se partfssemos daf. que a partir da abertura dada ao significante pela entrada do imaginario. se posso dizer. os refinamentos e a riqueza dos fen6menos que a experiencia analftica descobriu no nfvel do simbolismo anal nao sac feitos para nos deter por muito tempo. falacioso. Poderfamos nos con tentar em observar. mais-alem. . quando tenta fazer urn comentario satisfat6rio da fase falica tal como Freud a afirmou sem mais nem menos.mais exatamente. Isso e realmente muito engrayado de se ver. 0 fato de que a crianya anule sua decepyao em sua saciedade e seu assujeitamento ao contato do seio ou de um outro objeto qualque. Com. vem substituir a exigencia simb6lica. E vicioso. Jones.n6s . err6neo formular a questao do signa quando se trata do sistema simb6lico. que os excrementos se tomem. a cada vez. Trata-se do choro na medida em que ele convoca sua resposta. Em suma. 0 grito que levamos em conta na frustrayao se insere num mundo sincr6nico de gritos organizados em sistema simb6Iico. Como mostra 0 que Freud valoriza na manifestayao da crianya. que faz apelo. nao perceberam. 0 domtipo e justamente 0 dom da palavra. existe uma situayao total que compreende. que ela nao tern. e 0 interesse que ela tem no sistema de Iinguagem em si mesma. tudo corre por si.a teoria analftica das instancias intrapsfquicas e de suas articulayoes. sobre um fundo de resposta. uma questao de fato. No que estou ensinando a voces nao e absolutamente ISSO que esta em questao. estamos af em plena teona ?a comum. quando uma cnanya grita. A que~tao e. Os gritos sao. evidentemente. todas as pertinencias do corpo entram em jogo e sac transformadas por seu advento no significante. Iriam entregar-se apenas a contoryoes como as que espero lhes mostrar detalhadamente.a tf~ulo de par de altemancia que ela compreende e artlcula seus pnmelros balbucios. e para isso e precise darmos um jump. Desde a origem. mas esta ja esta imersa num meio de Ii~guagem. porque.r. Se lhes falei em jump e porque se trata agora de ver como. isso e 0 que the permitira ingressar na necessidade do mecanismo. Por conseguinte. Trata-se agora de construir a etapa seguinte. 0 objeto eletivo do dom nao deve certamente nos surpreender.

a preeminencia do falo em toda a diah~tica imagimlria que preside as aventuras. 0 desejo principal. que aparecem nas leis da troca no nfvel das estruturas elementares do parentesco SaDexplicaveis somente com rela~ao a uma referencia que esta fora do jogo do parentesco e que se liga ao contexto politico. Isso pode parecer literal mente estupefaciente. e talvez desde a origem. E por raz6es inscritas na ordem simb6lica. Deixemos por urn instante 0 terreno da analise para retomar a questao que expus ao sr. elas fazem meninos. exce~6es. aqui. Tomei uma mulher de uma outra linhagem. sem duvida.Se nao descobrfssemos nos fenomenos a prevalencia. e pode mesmo vir a ser devorado. 0 falo. e alem disso os produzem. Em outras palavras. Por conseguinte. do ponto de vista da formaliza~ao. as coisas circularao muito regularmente em urn cfrculo que nao tera razao alguma para se fechar ou se quebrar. a questao: E se 0 senhor fizesse 0 cfrculo das trocas invertendo as coisas. Devese partir da existencia de urn falo imaginario. de acordo com Freud. pode-se descrever a troca atraves das gera~6es na ordem inversa. Se isso acontece por casamentos preferenciais com primos cruzados. e que sua experiencia e. ja que foi necessaria a analise para descobri-Io. creio. a ordem do poder. e muito precisamente a ordem do significante. as modifica~6es. quero mostrar-Ihes que eu . distinta daquela do menino. desde que surgiu no horizonte analitico. e preciso partir do estupefaciente. 0 que disse a ele? 0 senhor nos da a dialetica da troca das mulheres atraves das linhagens. A resposta de Levi-Strauss e a seguinte. mas nem por isso ele e menos essencial. com 0 qual se relaciona pelo que the falta. mas se e com primos paralelos podem acontecer coisas bastante aborrecidas. 0 que cria 0 problema que voces conhecem. 0 poder politico e androcentrico. quero receber 0 homem. Mas a razao que explica por que a coisa e assim nao deve ser deduzida certamente de algo que tenha sua origem numa disposi~ao fisiol6gica qualquer. 0 falo. aos avatares e tambem aos fracassos e ao esvaecimento do desenvolvimen to genital. 0 significante existe. a mulher tern muito mais dificuldade que 0 rapaz para fazer entrar a realidade do que acontece no utero ou na vagina numa dialetica do desejo que a satisfa~a. no nfvel do Edipo. e provocar quebras e fragmentos. descrever as coisas exatamente da mesma maneira tomando urn eixo de referencia. com efeito. o falo imaginario e 0 pivo de toda uma serie de fatos que exigem seu postulado. pois a troca tende a convergir depois de algum tempo. e na medida em que 0 falo imaginario desempenha urn papel significante principal que a situa~ao se apresenta dessa forma. Ele e representado por homens e por linhagens masculinas. que e porque ele lhe falta que ela 0 deseja. mas entao urn bocado de coisas seria inexplicavel. devo a gera~ao seguinte ou a'uma outra linhagem uma outra mulher. e em particular a seguinte. como observa Freud. fal6foros. -nao haveria problema. 0 fio para se poder sair e dado pelo fato de que a mae falta 0 falo. 0 falo. Por uma especie de postulado. Isso e evidente. se elabora e se resolve. Alguns se extenuam afirmando que a crian~a feminina tambem deve ter suas pequenas sensa~6es pr6prias em seu ventre. todos sabem que elas podem te-Io. Se. pois. Pode-se. E preciso estudar este labirinto onde 0 sujeito habitualmente se perde. esta falta de que falamos na mulher. 0 significante nao e inventado por cada sujeito conforme seu sexo ou suas disposi~6es. sem duvida alguma. talvez fiquemos urn pouco preparados para admiti-Io se admitirmos que esta tambem e a caracterfstica da ordem simb6lica. Isso e 0 que motiva ao mesmo tempo a importancia do complexo de castra~ao e a preeminencia das famosas fantasias da mae falica. ou suas estripulias no nascimento. que 0 fato de ter ou nao 0 falo imaginario c simbolizado assume a importancia econ6mica que tern no nfvel do Edipo. urn sistema de coordenadas simetrico fundado nas mulheres. Levi-Strauss. isto e. Pode-se imaginar urn matriarcado cuja lei seria: Dei um menino. porque ela precisa passar por alguma coisa diante da qual se comporta inteiramente diferente do homem. e e apenas na medida em que alguma coisa lho proporcione que ela pode ser satisfeita. paradoxos. e. enfim. mas a questao nao esta af em absoluto. com efeito. Formulo. onde cetro e falo se confundem. elas 0 tern. Antes de leva-Ios a maneira pela qual a dialetica do falo se articula. A primeira virtude do conhecimento e ser capaz de enfrentar 0 que nao e evidente por si. transcendendo 0 desenvolvimento individual. Em todos os casos. 0 autor de As estruturas elementares do parentesco. e dizendo que SaDas linhagens femininas que produzem os homens e que os trocam entre si? Pois. mesmo nas sociedades matriarcais. 0 fato de que seja a falta. ja sabemos que nao se trata de uma falta real. 0 fato de que 0 papel do falo como significante seja subjacente nao deixa duvida. isto e. As anomalias muito bizarras nas trocas. 0 senhor formula que as mulheres SaGtrocadas entre gera~6es. Pois bern.

e de saber como a crian~a realiza mais ou menos conscientemente que sua mae onipotente tern falta. mas para esclarecer urn pelo outro. Devemos lembrar da importancia dessa descoberta do menino sobre si pr6prio para compreender 0 valor exato de suas tentativas de sedu~ao diante da mae. e nunca esta completamente ausente ali onde nao esta. 0 falo do menininho nao e muito mais valioso que 0 da menina. Toda a classifica~ao das pervers6es cleve se fundar nesse ponto. Ela manifesta a falta dessa maneira. Fenichel. ou dar a esta urn equivalente dele. Essa hist6ria e evocada aqui para introduzi-Ios ao que e preciso que saibam imaginar: que nada e concebfvel da fenomenologia das pervers6es. bastando que se leiam os bons autores analfticos.) . que nao fuma. vao aprender que nao e simples mente de faltar 0 falo que se trata. em to do 0 periodo pre-edipiano em que as pervers6es se originam. Se voces lerem 0 artigo de Freud sobre a sexualidade feminina. que papel desempenha 0 falo? Quero aqui mostrar-lhes mais uma vez 0 quanto a no~ao de falta de objeto e essencial. fundamental mente. que nao passam. apenas ela tern urn. Esta e uma ideia muito mais simples do que aquilo que lhes e dado em geral. ate mesmo de pressupostos. ate mesmo a vergonha que este pode experimentar dele. • logo em que tres cartas sao embaralhadas e postas na mesa viradas para baixo. 0 exemplo de uma menininha de dois anos que apanha a caixa de charutos depois do almo~o.se parta da ideia de que se trata do falo. Esquecemos que 0 travestismo nao e simplesmente urn caso de homossexualidade mais ou menos transposta. a saber. 0 sujeito se identifica com uma mulher. publicado no UP nQ 2. Em outras palavras. mas simplesmente de da-lo a sua mae. trata-se de urn jogo que prossegue. e 0 sr. no caso. cabendo ao jogador adivinhar onde esta uma delas. ja que 0 eu da crian~a repousa sobre a onipotencia da mae. onde 0 falo e fundamental como significante. Trata-se de ver onde ele esta e onde nao csta. Lamento que isso nao seja comentado de uma maneira mais articulada. 0 essencial e a rela~ao ao falo. de proje~6es. No nivel de sua fun~ao imaginaria. na medida que oculto. muito mais que da simples pulsao ou agressao sexual. quando s6 0 e pela metade. no que diz respeito a menina. mas com uma mulher que tern urn falo. Ela da 0 primeiro ao papai. naturalmente. uma treva de identifica~ao. e que sempre falta a ela mesma. de reidentifica~ao. Karen Horney era mais favoravel aquele com quem ele estava em conflito. Freud. que nao e simples mente urn caso de fetichismo particularizado.tambem posso ficar por algum tempo nos estagios pre-edipianos. para marcar real mente aquilo em que ela pode deseja-lo. Elas saD profundamente marcadas pelo conflito narcfsico. ali. Isso foi visto. 0 Sf. fundamental neste imaginario da mae a que se trata de unir. Nao e por acaso que a garotinha volta e recome~a. ate mesmo nos so jogo de par ou impar. Mamae recolhe toda a pan6plia e rep6e na caixa.. pelos bons autores. 0 segundo a mamae. (NT. Num artigo admiravel publicado em 1920 sobre 0 complexo de castra~ao nas mulheres. em seu artigo Psychoanalysis a/Transvestism. ele nos da. acentua muito bem 0 fato de que aquilo que esta sob as vestes femininas e lima mulher. tudo isso ela soube muito bem valorizar. 1930. e e sempre a questao de saber por que via ela vai the dar esse objeto faltoso. sob a unica condi~ao de ser guiado por esse fio condutor que e 0 papel fundamental da relayao simb6lica. Jones percebeu mesmo ~ssim que a sra. e p6e 0 terceiro entre as pernas. e a insuficiencia profunda em que pode se sentir. Trata-se do falo. nao para ten tar preencher a diferen~a entre 0 menino e a menina. Abraham. quero dizer de uma maneira direta. 0 sujeito poe em causa 0 seu falo. No travestismo. E preciso que 0 fetiche seja portado pelo sujeito. exatamente como se fosse urn menino. Qualquer que seja 0 valor das contribui«oes sobre a identifica~ao com a mae e a identifica~ao com 0 objeto etc. pois isso e bem adequado. a pagina 341. Ele nunca esta realmente ali onde esta. Mas e sem duvida tambem a este titulo que ela 0 deu em primeiro lugar aquele a quem nao falta. Abraham admite implicitamente que 0 terceiro gesto da menina indica que este objeto simb6lico lhe falta. de preludios. Vamos tomar por exemplo 0 travestismo. para satisfazer aquela a quem ele falta. no nlvel da pretensa exigencia da mae falica. de alguma coisa. 0 carater fundamental mente deficiente do falo do garotinho. a menos que. urn tric6 de todas as mal has que faz urn labirinto onde nos perdemos. Nao nos esque~amos: com efeito. Afinal de contas. trata-se do fato de que 0 menino quer se acreditar urn macho ou urn portador de falo. como a experiencia prova. dentre os quais situo 0 sr. urn jogo de passa-anel ou ainda 0 bonneteau'. de certos efeitos ulteriores da castra~ao. Este e sempre 0 caso das primeiras les6es narcfsicas. de que sempre se fala.

ela esta ali e. como todos os seres insaciados. 0 pequeno Hans a amassa com os dedos e se senta em cima .:oes talvez urn pouco mais esclarecidas. mas. uma roupa que nao serve mais.podemos nos aproximar do que esta em jogo. onde nos da a forma essencial sob a qual se apresenta a fobia. coisa curiosa.:ano caminho do narcisismo.:aono relato deste sobre a maneira como se deve identificar 0 que a crian~a chama de girafa grande e girafa pequena. trata-se de engana-Io. urn verdadeiro significante. E uma roupa velha usada. 198 o OBJETOFETICHE o FALOE A MAE INSACIAvEL 199 deve sempre participar do que 0 esconde.:ao em que a rela~ao intersubjetiva e inteiramente constituida. como se perfila sobre esse fundo a fun<. Nao e simplesmente urn engodo imediato. Com o suporte daquilo que acabo de lhes trazer hoje. pois existe uma flutua<. . e 0 Edipo. engaja-se na via de se fazer a si mesma de objeto enganador. as girafas grandes sao mudas. o furo aberto da cabe<. que mostra nao apenas on de ele de fato esta. 0 objeto e exatamente nada. Precisamente na medida em que mostra a sua mae aquilo que nao e. como e 0 caso na perversao das perversoes. Reencontramos aqui a possibilidade da regressao.o caso do pequeno Hans sera melhor interpretado por voces do que pade ser feito par Freud.:ada Medusa e uma figura devoradora que a crian<. ser devorado. E abrir uma cal<.:ao. Reencontramos isso nos temores do pequeno Hans. vamos reencontra-Ia t<£mbemno nivel da satisfa<. como Freud mostrou em seu ultimo artigo sobre 0 splitting. a saber. e preciso que se possa pensar que ele possa nao estar. e que seja sempre possivel pensar-se que ele esta ali. E pela existencia das roupas que se mateorializa 0 objeto. em tomo de quem se constroi toda a escalada da crian<. Prevert.:ao primeira de que eu parti hoje e que fundamentei para voces.:a em dado m<ilmento. 0 que a propria crian<. como se produz no reino animal. Na medida em que se faz de objeto para enganar. algo que nao pode em caso algum ser tornado por seu valor aparente. Se nao existe cal<. Vemos ai a importancia essencial daquilo a que chamei 0 veu.:aencontrou outrora para anular sua insaciedade simbolica. que chamamos de fetichismo . E urn desejo de segundo grau que se trata de satisfazer.de erigir toda a situa<. Isso e 0 que se ve no travestismo: urn sapatinho usado.:aooral. como 0 do pintarroxo. este objeto significante na medida em que ele e. Mesmo quando 0 objeto real esta ali.:ao. mas 0 que ele e -. quando se 0 encontra e se fixa nele definitivamente. a crian~a. por algum lado. As etapas mais caracteristicas sao sempre marcadas. esse desejo da mae que.e voltar a fecha-Ia. a crian<. onde se trata. quando se revela realmente.:oesentre a fobia e a perversao. falta uma dimensao do exibicionismo. por qualquer caminho que siga. e ainda de seu falo que se trata para 0 sujeito. e reencontra-Io nesse desvio. ela procura 0 que devorar. Ao contnirio. 0 sujeito sup6e no outro 0 desejo. Esta mae insaciavel.apesar dos gritos da grande girafa que e incontestavelmente a mae -. constr6i-se todo 0 percurso em tomo do qual 0 eu assume sua estabilidade. precisamente onde nao esta. para nos limitarmos a ela hoje. e 0 fetiche. Este desejo que nao pode ser saciado. A imagem projetada da situa<. para aquele que esta omado das cores da exibi<. na homossexualidade masculina. Eu ate diria que.:ase engaja na dialetica intersubjetiva do engodo! Para satisfazer 0 que nao pode ser satisfeito. as girafas pequenas sao raras.produzindo-se. e como este e urn desejo que nao pode ser satisfeito. e do seu na medida em que vai busca-Io num outro. Quando se 0 apreende. 0 caso se apresenta agora em condi<. Como disse 0 sr. e alguem real. s6 se pode engana-Io. A etapa crucial se situa logo antes do Edipo. voces vao ver melhor as rela<. Esta e a etapa em que a crian<. insatisfeita. Quando ele aparece.:ao. quaerens quem devoret.:ase ve engajada diante do outro numa posi<.". Pelo simples fato de que a pequena girafa . Todas as perversoes poem sempre em jogo.:aodo ideal do eu. Ai esta 0 grande perigo que nos e revelado por suas fantasias. Do mesmo modo. a da frustra<.~~-- . Mesmo sendo isso tao mal interpretado na observa<. Verao melhor tambem aquilo que lhes indiquei da ultima vez. Vamos encontra-Io na origem. pela ambigtiidade fundamental do sujeito e do objeto. entre a rela<. em seu fundamento. o falo Esquece-se sempre que 0 exibicionismo human? nao e urn exibicionismo como os outros. por sua natureza e por si mesmo. isto e.:aosexual imaginaria. e insaciavel. vai reencontrar possivelmente diante de si como uma boca escancarada.:a.isso nao fica bastante claro? 27 II I j I I DEFEVEREIRO DE 1957 - • .:aoprimitiva.:aoda mae.e ela realmente.:aencontra como saida possivel em sua busca da satisfa<.

A Estrutura dos Mitos Na Observação da Fobia do Pequeno Hans .

Na segunda parte desta lição. ou pelo IIUMIOS o uso deste conceito em nossa prática.XII SOBRE O COMPLEXO DE ÉDIPO A equação Pênis = Criança.unente mais complexa que o emprego que se faz habitualmente. entre a mãe e o falo. Disse-lhes que isso era só de maneira 203 .imos. O pai simbólico é impensável. O Outro. situei para vocês o lugar onde se jiioduz a interferência do imaginário nessa relação de frustração. A bigamia masculina. inlmii. da última vez. rearticular a noção de castração. AGENTE FALTA Castração S OBJETO i r s Mãe simbólica Frustração I Privação R li m. i|tic une a criança à mãe. O ideal monogâmico na mulher.

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puramente aparente, e pela ordem da exposição nos víamos, assim, progredindo retroativamente, figurando tipos de etapas que se sucederiam numa linha de desenvolvimento. Muito pelo contrário, trata-se sempre de apreender aquilo que, intervindo do exterior em cada etapa, remaneja retroativamente o que foi iniciado na etapa anterior. Isso, pela simples razão de que a criança não está só. Não apenas ela não está só devido a seu meio biológico, mas existe ainda uma esfera muito mais importante, a saber, a esfera legal, a ordem simbólica. São as particularidades da ordem simbólica, frisei de passagem, que dão, por exemplo, sua prevalência a este elemento do imaginário que se chama o falo. Aí está, pois, aonde chegamos, e para começar a terceira parte de minha exposição, eu os tinha posto no caminho da angústia do pequeno Hans. Desde o início, com efeito, havíamos assinalado como exemplares estes dois objetos, o objeto fetiche e o objeto fóbico. É no nível do pequeno Hans que vamos tentar articular nossa fala de hoje. Nossa tentativa não será de rearticular a noção de castração, porque Deus sabe que é articulada intensamente em Freud, de maneira insistente e repetida, mas simplesmente tornar a falar sobre isso, já que, desde que se evita falar dela, o uso do complexo de castração, a referência que dele se pode tomar, tornam-se cada vez mais raros nas observações. Para abordar hoje a noção de castração, temos que nos encadear na linha de nosso discurso da vez anterior.

O que está em jogo no fim da fase pré-edipiana, e na borda do Édipo? Trata-se de que a criança assuma o falo como significante, e de uma maneira que faça dele instrumento da ordem simbólica das trocas, na medida em que ele preside à constituição das linhagens. Trata-se, em suma, de que ela se confronte com esta ordem que fará da função do pai o pivô do drama. Isso não é tão simples. Pelo menos, já lhes disse o bastante até agora sobre este tema para que, quando lhes digo isso não é tão simples, algo responda em vocês: com efeito, o pai, isso não é tão simples. O pai, sua existência no plano simbólico, no significante pai, com tudo

o que este termo comporta de profundamente problemático, como foi que tal função veio ao centro da organização simbólica? Isso permite pensar que teremos algumas questões a nos formular quanto aos três aspectos da função paterna. Com efeito, aprendemos, desde o primeiro ano de nossos seminários, a distinguir a incidência paterna no conflito, sob o tríplice aspecto do pai simbólico, do pai imaginário e do pai real. Vimos, em particular, que era impossível orientar-se no caso do Homem dos Lobos, cujo exame ocupou a segunda parte do ano, sem essa distinção essencial. Vamos tentar abordar, do ponto a que chegamos, a introdução da criança no Édipo, que se propõe a nós na ordem cronológica. Deixamos a criança na posição de engodo em que ela se insinua junto à mãe. Este não é, como eu lhes disse, um simples logro em que ela estaria completamente implicada, no sentido etológico. No jogo da exibição sexual, podemos — nós que estamos de fora — perceber elementos imaginários, aparências que cativam o parceiro. Não sabemos até que ponto os sujeitos utilizam isso como um engodo, ainda que saibamos que poderíamos fazê-lo ocasionalmente, por exemplo, apresentando ao desejo do simples adversário um simples brasão. O engodo de que se trata aqui é bastante manifesto nas ações e mesmo nas atividades que observamos no menino, e, por exemplo, em suas atividades sedutoras com relação à mãe. Quando ele se exibe, não é pura e simples mostração, é mostração de si mesmo, por si mesmo, à mãe, que existe como um terceiro. Ao que se acrescenta aquilo que surge por trás da mãe, a boa fé, na qual a mãe pode ser capturada, se assim podemos dizer. Isso já constitui toda uma trindade, até mesmo uma quaternidade intra-subjetiva que ali se esboça. O que está em questão, afinal, no Édipo? Trata-se de que o sujeito seja ele mesmo capturado neste engodo, de tal forma que se veja engajado na ordem existente, que é de uma dimensão diferente daquela do engodo psicológico por onde ele entrou e onde o deixamos. Se a teoria analítica atribui ao Édipo uma função normativa, vamos lembrar que nossa experiência nos ensina que não basta que esta conduza o sujeito a uma escolha objetal, mas é preciso ainda que esta eseolha de objeto seja heterossexual. Nossa experiência nos ensina lambem que não basta ser heterossexual para sê-lo conforme as regras, c que existem todas as espécies de formas de heterossexualidade aparente. A relação francamente heterossexual pode ocultar, ocasionalmente, uma atipia posicionai que a investigação analítica vai nos

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mostrar ser derivada, por exemplo, de uma posição francamente homossexualizada. Portanto, não basta que o sujeito, depois do Édipo, alcance a heterossexualidade, é preciso que o sujeito, moça ou rapaz, chegue a ela de forma tal que se situe corretamente com referência à função do pai. Aí está o centro de toda a problemática do Édipo. Já o indicamos, através de nossa maneira de abordar este ano a relação de objeto, e Freud o articula expressamente em seu artigo de 1931 sobre a sexualidade feminina: tomada do ponto de vista pré-edipiano, a problemática da mulher é muito mais simples. Se ela aparece muito mais complicada em Freud, isso se liga à ordem da descoberta. Freud, com efeito, descobriu o Édipo antes daquilo que é pré-edipiano, e como poderia ser de outro modo? Só podemos falar da maior simplicidade da posição feminina no nível do desenvolvimento que qualificamos como pré-edipiano porque sabemos, desde antes, que devemos atingir a estrutura complexa do Édipo. Poderíamos dizer que o falo, a menina o tem mais ou menos situado, ou aproximado, no imaginário onde ele se encontra, no maisalém da mãe, através da descoberta progressiva feita por ela da insatisfação fundamental experimentada pela mãe na relação mãe-criança. Trata-se então, para ela, de deslizamento deste falo do imaginário para o real. É isso mesmo que Freud nos explica quando nos fala da nostalgia do falo originário que começa a se produzir na menina no nível imaginário, na referência especular ao semelhante, outra menina ou menino, e nos diz que a criança será o substituto do falo. Aqui está uma forma um pouco abreviada do que ocorre no fenómeno observado. Vejam a posição, tal como a desenho: aqui, o imaginário, isto é, o desejo do falo na mãe; ali, a criança, nosso centro, que tem que descobrir esse mais-além, a falta no objeto materno. Esta é, ao menos, uma das saídas possíveis: a partir do momento em que a criança consegue saturar a situação e dela sair, concebendo-a como possível, a situação gira em torno dela. V

A NOSTALGIA DO FALO

O que encontramos efetivamente na fantasia da menina, e também na do menino? Na medida em que a situação gira em torno da criança, a menina encontra, então, o pênis real ali onde ele está, mais além, naquele que pode lhe dar a criança, a saber, nos diz Freud, no pai. É na medida em que ela não o tem como pertence, é mesmo na medida cm que renuncia a ele, claramente, nesse plano, que ela poderá tê-lo como dom do pai. Eis por que é pela relação ao falo que a menina, nos diz Freud, entra no Édipo, e, como vêem, de uma maneira simples. () falo, em seguida, só terá de deslizar do imaginário para o real por uma espécie de equivalência — é este mesmo o termo que Freud emprega em seu artigo de 1925 sobre a distinção anatómica entre os •.cx os — Nun aber gleitet die Libido dês Mãdchens — man kann nur w^en: lãngs der vorgezeichneten symbolischen Gleichung Penis = Kind. A menina já está, assim, suficientemente introduzida no Édipo. Não digo que não possa haver muito mais aí, e com isso todas as anomalias que se possam produzir no desenvolvimento da sexualidade leminina, mas existe, doravante, fixação no pai como portador do pênis irai, como aquele que pode dar realmente a criança, e isso já é conMsiente o bastante para ela, para que se possa dizer, afinal, que o líilipo, como caminho de integração na posição heterossexual típica, e muito mais simples para a mulher, rnesmo que este Édipo traga por .si mesmo todos os tipos de complicações, até mesmo de impasses no desenvolvimento da sexualidade feminina. Essa maior simplicidade não deve evidentemente nos espantar, na medida em que o Édipo é essencialmente androcêntrico ou patrocênIrico. Essa dissimetria evoca todos os tipos de considerações quase históricas, que podem nos fazer perceber a razão dessa prevalência no plano sociológico, etnográfico. A descoberta freudiana, que permite analisar a experiência subjetiva, nos mostra a mulher numa posição <|iie é, se podemos dizê-lo — j á que falei de ordenamento, de ordem, ou de ordenação simbólica — subordinada. O pai é para ela, inicialmente, objeto de seu amor — isto é, objeto do sentimento que se dirige ao elemento de falta no objeto, na medida em que é pela via desta l alta que ela foi conduzida a esse objeto que é o pai. Esse objeto de amor se torna em seguida aquele que dá o objeto de satisfação, o objeto ila relação natural de procriação. A partir daí, só é preciso que ela lenha um pouco de paciência para que o pai venha enfim ser substituído por aquele que irá preencher exatamente o mesmo papel, o papel do pai, dando-lhe, efetivamente, uma criança.

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Isso comporta um traço a que voltaremos, e que dá seu estilo particular ao desenvolvimento do supereu feminino. Existe nela uma espécie de balança entre a renúncia ao falo e a prevalência da relação narcísica, cuja importância no desenvolvimento da mulher um Hanns Sachs viu muito bem. Com efeito, feita esta renúncia, o falo é abjurado por ela como pertence, e torna-se propriedade daquele a quem, desde então, se liga o seu amor, o pai, cuja criança ela efetivamente espera. Esta espera daquilo que, a partir de então, constitui para ela apenas o que lhe deve ser dado, vai colocá-la numa dependência muito particular, que faz nascer paradoxalmente, em dado momento, como observaram os autores, fixações propriamente narcísicas. Ela é, de fato, o ser mais intolerante a uma certa frustração. Talvez voltemos a isso mais tarde, quando tornarmos a falar do ideal monogâmico na mulher. A simples redução da situação à identificação entre o objeto de amor e o objeto que dá satisfação explica também, aliás, o lado especialmente fixado, até mesmo precocemente estagnado, do desenvolvimento da mulher com relação ao desenvolvimento que se pode qualificar de normal. Em certos momentos de seus escritos, Freud assume um tom singularmente misógino para se queixar amargamente da grande dificuldade que existe, ao menos para certos sujeitos femininos, em mobilizá-las, fazê-las sair de uma espécie de moral, como ele diz, de sopa com bolinhos, que comporta exigências muito imperiosas quanto às satisfações a usufruir, por exemplo, da própria análise. Só faço aqui indicar um certo número de abordagens. Voltaremos ao desenvolvimento introduzido por Freud a propósito da sexualidade feminina, pois é do menino que queremos tratar hoje. No caso do menino, a função do Édipo parece muito mais claramente destinada a permitir a identificação do sujeito com o seu próprio sexo, que se produz, em suma, na relação ideal, imaginária, com o pai. Mas não é este o verdadeiro objetivo do Édipo, que é a justa situação do sujeito com referência à função do pai, isto é, que ele próprio aceda um dia a essa posição tão problemática e paradoxal de ser um pai. Ora, este acesso apresenta inversamente uma montanha de dificuldades. Não é porque não se tenha visto essa montanha que as pessoas se interessam cada vez menos pelo Édipo, é justamente por tê-la visto que preferem virar-lhe as costas. Toda a interrogação freudiana — não apenas na doutrina, mas na experiência do próprio sujeito Freud, que encontramos retraçada atra-

vos das confidências que ele nos faz, de seus sonhos, do progresso de sru pensamento, de tudo o que sabemos agora sobre sua vida, seus h.ihitos, e até mesmo suas atitudes no interior de sua família que o sr. IONCS nos relata de uma maneira mais ou menos completa, mas correta toda a interrogação freudiana se resume no seguinte: O que é ser uni pai? Este foi para ele o problema central, o ponto fecundo a partir do • |iial toda sua pesquisa realmente se orientou. Observem que, se este é um problema para cada neurótico, é lambem um problema para cada não-neurótico no decorrer de sua experiência infantil. O que é um pai? Essa pergunta é uma maneira <le abordar o problema de significante do pai, mas não nos esqueçamos i Ir que também está em jogo que os sujeitos, ao fim de contas, se tornam pais. Formular a questão o que é um pai? é algo diverso de srr-se um pai, aceder à posição paterna. Vamos examinar isso de perto. Sr (• fato que, para cada homem, o acesso à posição paterna é uma busca, não é impensável dizer que, finalmente, ninguém jamais o foi por completo. Na dialética supomos, e é preciso partir desta suposição, que existe cm algum lugar alguém que pode assegurar plenamente a posição do pui, alguém que pode responder: Eu o sou, pai. Esta suposição é essencial para todo o progresso da dialética edipiana, mas isso não i r solve de modo algum a questão de saber qual é a posição particular, mlersubjetiva, daquele que, para os outros, e especialmente para a criança, preenche esse papel. Vamos, pois, tornar a partir do pequeno Hans.

li muito vasta a observação do pequeno Hans. Se, das Cinco psicanálises, esta foi a que deixei por último no trabalho de comentário que desenvolvo, não foi por acaso. As primeiras páginas do texto estão, muito precisamente, no nível rm que eu os havia deixado da última vez, e não é sem razão que l 'Ycud nos apresenta as coisas nessa ordem. A primeira questão é a do Wiwimacher, que se traduziu em francês por fait-pipi, "faz-pipi". Seguindo Freud à letra, as questões expostas pelo pequeno Hans concernem, não simplesmente ao seu faz-pipi, mas aos faz-pipi dos seres vivos, e em especial o das pessoas maiores que ele.

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Vocês já viram as observações pertinentes que se pode fazer no que diz respeito à ordem das questões levantadas por uma criança. Na ordem, é à sua mãe, em primeiro lugar, que ele formula a pergunta: Você também tem umfaz-pipi? Voltaremos a falar sobre o que a mãe lhe responde. Hans deixa escapar então: Sim, eu só estava pensando..., isto é, ele está, justamente, tramando uma porção de coisas. Repete em seguida a pergunta ao pai, depois se diverte por ter visto o faz-pipi do leão, o que não é em absoluto por acaso, e a partir daí, isto é, antes do surgimento da fobia, ele marca claramente que, se sua mãe tem um faz-pipi, como esta lhe afirma com certa impudência, em sua opinião isso ficaria à mostra. Uma noite, com efeito, pouco tempo depois dessa interrogação, ele vai vigiá-la enquanto se despe, observandolhe que, se ela tivesse um, deveria ser tão grande quanto o de um cavalo. A palavra Vergleichung é traduzida em francês por comparaison, comparação. O termo péréquation ("equiparação") quase nos parece melhor, senão na tradição estrita, pelo menos na economia. Na perspectiva falicista imaginária onde deixamos o sujeito da última vez, trata-se com efeito de um esforço de equiparação entre uma espécie de objeto absoluto, o falo, e sua colocação à prova do real. Não se trata de um tudo ou nada. Até ali o sujeito jogava o jogo do bonneteau, brincava de esconder, o falo nunca estava ali onde se o procura, nunca ali onde se o encontra. Agora, trata-se de saber onde ele está, realmente. Até então, a criança era aquela que fazia de conta, ou que brincava de fazer de conta. Não é à-toa que, um pouco mais adiante na observação, vamos ver — como observam Freud e os pais — que o primeiro sonho em que intervém um elemento de deformação, um deslocamento, põe em cena um jogo de prendas. Se estão lembrados da dialética imaginária, tal como a abordei por ocasião das primeiras lições, ficarão surpresos ao ver que ela está inteiramente ali, aluando na superfície, na etapa pré-fóbica do desenvolvimento do pequeno Hans. Tudo está ali, inclusive, e até mesmo, os filhos fantasísticos. Logo em seguida ao nascimento de sua irmãzinha, ele adota de repente uma porção de meninas imaginárias com as quais faz tudo o que se pode fazer com crianças. O jogo imaginário está realmente completo, quase sem intenção. Trata-se de toda a distância a percorrer, que separa aquele que faz semblante daquele que sabe que tem a potência.

O que revela esta primeira abordagem por Hans da relação edipiana? O que se desempenha no ato de comparação não nos faz sair do plano imaginário. O jogo continua no plano do engodo. A criança apenas acrescentou a suas dimensões o modelo materno, a imagem maior, mas que permanece essencialmente homogénea. Se é assim que se engaja para ela a dialética do Édipo, ela estará sempre lidando, afinal de contas, apenas com um duplo de si mesmo, um duplo aumentado. A introdução, perfeitamente concebível, da imagem materna sob a forma ideal do eu nos deixa na dialética imaginária, especular, da relação do sujeito com o pequeno outro. Sua sanção não nos tira deste ou ... ou, ou ele ou eu, que ali fica ligado à primeira dialética simbólica, aquela da presença ou ausência. Não saímos do jogo de par ou ímpar, não saímos do plano do engodo. O que resulta disso? Disso sabemos pelo aspecto tanto teórico quanto exemplar: vemos sair disso, unicamente, o sintoma, a manifestação da angústia, nos diz Freud. Este sublinha desde o começo da observação que convém separar corretamente a angústia da fobia. Se existem aí duas coisas que se sucedem, não é sem razão: uma vem em socorro da outra, o objeto fóbico vem preencher sua função sobre o fundo da angústia. Mas no plano imaginário nada permite conceber o salto que faça a criança sair de seu jogo de tapeação diante da mãe. Alguém que é tudo ou nada, aquele que é suficiente ou não é suficiente —com certeza, pelo simples fato da questão ser formulada, ficamos no plano da insuficiência fundamental. Aí está o esquema primeiro, vulgar, da entrada no complexo de Édipo: a rivalidade quase fraterna com o pai. Somos levados aqui a fazer nuanças, muito mais do que o que se articula comumente. Com efeito, a agressividade em questão é do tipo daquelas que entram em jogo na relação especular, onde o eu ou o outro é sempre a mola fundamental. Por outro lado, a fixação na mãe, tornada objeto real depois das primeiras frustrações, permanece inalterada. É devido a esta etapa, ou, mais exatamente, a esse vivido central essencial do Édipo no plano imaginário, que este complexo se expande em todas as suas consequências neurotizantes, que encontramos em mil aspectos da realidade analítica. É desse modo em particular que vemos introduzir-se um dos principais termos da experiência freudiana, essa degradação da vida

. liiiu

em si mesma. o verdadeiro. A partir desse momento de virada. por exemplo. e não a uma relação permanente. até então. É ele que tem o trunfo maior. e que sempre se podia jogar com a presença ou a ausência de um objeto. sob a forma de engodo. Para que o Édipo exista. que o tem em todas as ocasiões. de certa forma. encontramos seus rastros aos milhares nas observações. existe alguém que pode responder em qualquer situação. Mas na mesma frase ele faz questão de sublinhar que esta é mais uma ocasião para se constatar que a noção de recalque se aplica sempre a uma articulação particular da história. e vamos encontrá-lo sob mil formas no caso do pequeno Hans. todo objeto feminino será para ele não mais que um objeto desvalorizado. existe resolução. algo diferente do apagamento ou atenuação imaginária de uma relação basicamente. Somente a partir do fato de que. é evidentemente no nível do Outro que ele deve produzir a presença de um termo que. sempre parcial. Falo Outro A PRESENÇA DO OUTRO O esquema do jogo de prendas. isso não é tudo. perdurável. um modo quebrado. mas entendam bem que o declínio do complexo de Édipo. está na natureza do complexo de Édipo a sua resolução. o pênis real. Sua presença está implicada simplesmente pelo fato da apresentação. é algo diverso do que descrevemos até agora. Ele admite que. Ele se introduz na ordem simbólica como um elemento real. basta utilizar nosso esquema habitual. o objeto não é mais o objeto imaginário com o qual o sujeito pode tapear. no nível do grande Outro. é que a criança pode conceber que este mesmo objeto simbólico lhe será dado um dia. Vamos encontrá-lo. O que até então não passava desta convocação e dessa evocação de que lhes falei da última vez. em todo caso. até mesmo da oferenda feita pelo menino à mãe. Se a castração exerce esse papel essencial para toda a continuação do desenvolvimento. Ora. na atividade da criança. a superação da hostilidade ao pai pode ser legitimamente ligada a um recalque. Há um momento em que Indo oscila. o exibicionismo do menino diante da mãe só pode ter sentido fazendo intervir junto à mãe o grande Outro. Existe crise. a saber. somos confrontados aqui com a necessidade de fazer surgir algo de original e de novo. um substituto. quando ale aquele momento ele usava o de todos. por extensão. refratado. mas o objeto sobre o qual um Outro é sempre capaz de mostrar que o sujeito não o tem. ela está privada do objeto por aquele que o tem. Não vamos nos esquecer. o objeto ao mesmo tempo estava e não estava lá. sempre e em qualquer circunstância. na experiência edipiana essencial. que se o complexo de Édipo pode ter consequências perduráveis ligadas ao impulso imaginário que ele faz intervir. Até então. é porque ela é necessária à assunção do falo materno como um objeto simbólico. que caracteriza a mãe simbólica. com referência ao objeto primeiro materno. o plano da relação simbólica. E este acontecimento deixa atrás de si um resultado. ou o tem de forma insuficiente. Em suma. que sabe que o tem. e sabe disso. torna-se a noção de que. Para vê-lo. e isso. inverso da primeira posição da mãe. o supereu. sua testemunha. a criança oferece à mãe o objeto imaginário do falo.212 A ESTRUTURA DOS MITOS SOBRE o COMPLEXO DE ÉDIPO Mãe 213 amorosa a que Freud consagrou um estudo especial. que um objeto estava ao mesmo tempo presente e ausente. um pouco mais tarde. não estava em jogo. e isso desde o começo da doutrina freudiana. que é a formação de alguma coisa de particular e de datado no inconsciente. com certeza. Normalmente. simbolizada no real por sua presença e sua ausência. c que responde que. aquele mesmo que se torna o seu próprio. a saber. para proporcionar-lhe sua satisfação completa. no entanto. que se produz normalmente entre as idades de cinco anos e cinco anos e meio. aquele que vê o conjunto da situação. Quando Freud nos fala sobre isso. alguém que. o que convém pensar disso. a saber. em sua maneira de subitamente se isolar no escuro de um pequeno banheiro. . que é. ó ele quem o tem. sua anulação e sua destruição. Vamos ver. diz-nos que. e que tenha sua resolução própria na relação edipiana. Era desse ponto que o sujeito havia partido com referência a qualquer objeto. Devido ao apego permanente do sujeito a este primitivo objeto real que é a mãe enquanto frustrante. é capaz de jogar e de ganhar. e onde se dá a passagem que-acrescenta ao jogo a dimensão esperada. o falo. No ponto a que chegamos da última vez. aplica-se aqui o termo recalque.

justamente. num momento qualquer. a não ser que isso é algo. como um ser imortal. Este pai mítico. possui perfeitamente um apêndice natural. como isso poderia ser pensado fora do valor mítico? Pois. mas esses personagens reais são. não pode ser literalmente pronunciada por ninguém. senão por intermédio do pai real. o que lhes quero indicar aqui é que o pai simbólico r. portanto. alguém que trouxe efetivamente ao nível do Outro algo que não é simplesmente convocação e evocação. detém o pênis como pertence. que vem. e permite vivificar a relação . jogo de quem perde ganha. É o jogo jogado com o pai. um mito. Mas ele só pode entrar nessa ordem da lei se. se isso não é o que lhes digo. cujas características consistem em ter sido morto. é inteiramente absurdo. Não o mataram senão para mostrar que ele é incapaz de ser morto. daquele que tem simplesmente a potência e que responde a ela. u saber. que já se encontra ali no jogo. que por si só permite à criança conquistar o caminho por onde nela será depositada a primeira inscrição da lei. E. A prova disso se encontra na própria obra de Freud. o pai singular. n saber: Onde está o pai? Basta ler Totem e tabu. Mas esta frase. tuer. ou seja. Isso é o que nos ensina a noção freudiana do Édipo. Precisamente porque o macho. antecipado sua morte? E tudo isso.214 A ESTRUTURA DOS MITOS SOBRE o COMPLEXO DE ÉDIPO 215 Em outras palavras. a assunção do próprio signo da posição viril. para o fato de que em francês. ainda: que seja o pai assassinado. o que é realmente ser pai. l ura perceber que. Mais. na medida em que ela é a própria categorização de uma forma do impossível. afinal de contas. de certa forma.ilando propriamente. Não acreditem em nada disso. é preciso que ele o obtenha de algum outro. quem sou eu? Em • MH rãs palavras. entre as quais o alemão. e que seja o pai morto. realmente. para dizer isso a quem quer que seja. . E por que. implica a castração no seu ponto de partida. tudo vai se resolver pelo Tu és aquele que és.u u. impensável. Ora. A essência do principal drama introduzido por Freud repousa sobre uma noção estritamente mítica.il umou e jamais desmentiu —. o pui em questão não é concebido por Freud. tiver diante de si um parceiro real. pois. esteja antes do surgimento da história. na medida em que é o pai simbólico. Ela é encarnada em personagens reais. a única — isso ele escreveu. O que se torna o sujeito. mas a que lhe era mais cara. o pai único. elemento fundamentalmente aniquilador do simbólico — alguém que lhe responde. quanto o de Freud. pois sua obra principal. Totem e tabu é feito para nos dizer que. no drama em que se encontra? Como nos descreve a dialética freudiana. Foi preciso mii i-spírito tão ligado. de passagem. ao menos por um instante. a eternização de um só pai na origem. que eu saiba. Isso é algo que não intervém em momento algum da dialética. às exigências do pensamento i u-ntífico e positivo para fazer essa construção à qual Jones nos confia cjiic ele se apegava mais que a toda sua obra. senão para conservá-lo? Chamo a atenção de vocês. para que os pais subsistam. sempre dependentes de alguma coisa que se apresenta. trata-se de um pequeno criminoso. nem por ninguém. ao contrário da posição feminina. que nos mostra com que tipo de dificuldades Freud estava lidando. é a Interpretação dos sonhos. O único que poderia responder absolutamente à posição do pai. como o Deus do monoteísmo: Eu sou aquele que sou. finalmente. que nada mais é que um mito moderno. O pai simbólico não está em parte alguma. que encontramos no texto sagrado. eles próprios. è Totem e tabu. Ele não intervém em p. que quer dizer conservar. um mito construído para explicar o que permanecia em hiância em sua doutrina. com que fim? Para. interditarem a si mesmos o que se tratava de arrebatar a ele. se as coisas podem ser expressas assim no plano do drama imaginário. é preciso que o verdadeiro pai. É pela via do crime imaginário que ele entra na ordem da lei. vem do latim tutare. se assim posso dizer. par de presença e ausência. é no nível do jogo imaginário que essa experiência deve ser feita. l. é aquele que poderia dizer. com um êxito que lhe parecia uma performance.alguma. matar. Não é sem razão que a dimensão exigida da alteridade absoluta. não intervém em nenhum diálogo particular. Ele não a colocava em primeiro plano. mostra-nos ao mesmo tempo o que ele visava de fato na noção do pai. e em algumas outras línguas. afinal de contas. Vocês então vão me dizer: O senhor nos ensinou que a mensagem que recebemos é a nossa própria sob uma forma invertida. E é por isso que ninguém pode dizer. nessa relação com aquilo que é o real no simbólico: aquele que é realmente o pai. preencher esse papel e função. da heterossexualidade masculina. até mesmo do impensável. Por que é preciso que os filhos tenham. como um eterno álibi. mantendo simplesmente o olho aberto.

mas permanente.iimoniosa e uniforme? Como se. . Ele ou ela. Nunca se sabe. ao contrário. e se é verdade que a castração é a crise essencial por onde todo sujeito se introduz. para perceber que toda conjunção. e penso poder demonstrá-lo a vocês. que a análise mostrou. nem quem esteve ali para responder. a comunidade dos homens nela é introduzida e implicada. Ela também está baseada no real. refletir um pouco na própria função das leis primitivas da aliança e do parentesco. vamos concluir daí que é perfeitamente natural — mesmo no nível das estruturas complexas. É uma espécie de sonho acordado o que faz o pequeno l l. se habilita a ser. mas tu es celui qui tuais (tu és aquele que matava). Existem. de onde não se sai.216 A ESTRUTURA DOS MITOS SOBRE o COMPLEXO DE EDIPO 217 imaginária e dar a esta sua nova dimensão. Há no homem um significante que marca sua relação ao significante. A perspectiva que lhes trago permite situar. onde sr fixa sua constelação. fundamentalmente paradoxal e contingente. aquilo sobre o que nos perguntamos por que. e apenas com ela. fica claro que a pequena girafa deve se situar i «mo pertence materno. angustiante. aliás. e não simplesmente entre os neuróticos. < iostaria de acrescentar aqui algumas considerações que lhes vão I M niiiiir se habituar ao manejo estrito da categoria da castração tal i « u n o estou tentando articulá-la para vocês. Toda a sequência do jogo prossegue no engodo. a grande ou a pequena girafa. recorrer à nuçao de uma relação de objeto concebida antecipadamente como li. é que. e a isso se chama o supereu. e a isso se chama os sintomas. toda a sua inteligência graças à qual temos a observação. ao menos no limite. a fórmula pela qual toda mulher que não é permitida é interditada pela lei. muito mais que um deles. até mesmo inteiramente livres. qualquer . o jogo imaginário do ideal do eu com irferfincia à intervenção sancionadora da castração. mesmo. o núcleo permanente da consciência moral — que sabemos se encarnar em cada sujeito sob as formas mais diversas. levou tão longe a liberdade das uniões que esta confina sempre com o incesto. que vocês podem compreender o que está em jogo quando o pequeno Hans fomenta a sua fobia. até mesmo a própria posição da relação amorosa. Ele sai do puro jogo especular do ou eu ou o outro para dar sua encarnação a essa frase. O que caracteriza esta observação. A lei não é simplesmente. para a máxima satisfação do casal. soubermos distinguir entre a ordem e a lei das harmonias imaginárias. no final insuportável. com efeito. É com esta chave. em torno do que gira a questão de saber quem Irm c quem terá. sem que jamais se saiba qual. como a densidade. É nessa medida que existe algo que responde no simbólico. não é tu es celui que tu es (tu és aquele que tu és). todos devessem cada um i m ontrar a sua. O fim do complexo de Édipo é correlativo da instauração da lei como recalcada no inconsciente. Esta formula repercute o eco muito claro de que todo casamento. Se isso assume tal forma é porque sua introdução no nível do Es como um elemento homogéneo aos outros elementos libidinais participa sempre de algum acidente. possuidor do risco. porta em si a castração. Este supereu tirânico. Basta. não existe pai real. nessa perspectiva. Se uma rivilização que é aquela em que vivemos viu florescer o ideal. um ou outro. e apesar dos grandes gritos soltados por sua mãe. mais extravagantes. ser a forma real sob a qual se inscreve aquilo que os filósofos até então nos haviam mostrado com maior ou menor ambiguidade. com efeito. apesar de todo o amor do pai.ibordam este caso.uis. cada um em seu plano r cin suas relações recíprocas. intolerável. o significante que marca. Se me permitem o trocadilho e a ambiguidade que já utilizei no momento em que estudávamos a estrutura paranóica do presidente Schreber. e ele está ali para nos sublinhar o mecanismo • l.i lei. representa por si só. impõe o selo no homem de sua relação ao significante. é o falóforo ou a falófora. como aquelas em que vivemos. sobre a qual dissemos há pouco que era impronunciável. imprime. afinal. ilo parentesco. este sonho o In/. se posso dizê-lo. toda a sua gentileza. idealmente e de maneira constante. da relação do pequeno Hans com sua mãe. mesmo entre os não-neuróticos. mais caricatas — que se chama o supereu. A|u-sar das ambiguidades de apreciação feitas pelos diversos autores • |uc . edipianizado de pleno direito. Se. sob a forma desse núcleo deixado atrás de si pelo complexo de Édipo. tu és aquele que tu és. de uma vez por todas. por algum concurso da natureza e il. a confusão ideal entre o amor e o conjugo é na medida em que ela pôs cm primeiro plano o casamento como fruto simbólico do consentimento mútuo. e não somente nas estruturas elementares — expor. graças a que os «•li-incntos imaginários assumem sua estabilidade no simbólico. em que momento do jogo imaginário a passagem se fez. Quem ousaria. sem mesmo se ildri por um instante na questão de saber o que o conjunto da comuiiulade poderia pensar disso.i maneira mais imajada. isto é.

estão aí para nos fazer constatar isso. Freud. a saber. existe aí algo que porta em si seu limite. a saber. 6 DE MARÇO DE 1957 . é justamente porque ele se produziu em outro lugar. a partir do momento em que o dois é introduzido. mostrando que se o incesto não se produz ali onde o desejamos. cm Ioda vida amorosa. toda conjunção do amor e da lei. é realmente de incesto que se trata. que ela quer o falo apenas para si. o split. Muitas civilizações evoluídas não hesitaram em doutriná-lo e pô-lo em prática. falar il. naturalmente.i vida amorosa como sendo simplesmente do registro da relação de • •Ilido.a. ou. ainda que. e porque se está mais ou menos ligado a tal ou tal fixação arcaica.. se a doutrina freudiana atribui à fixação durável na mãe os fracassos. no atual. Não digo polígamo. não é de surpreender — esta é nossa única vantagem — que o esquema inicial da relação da criança com a mãe tenda sempre a se reproduzir do lado do homem. mas o ser. Essa estrutura deixa basicamente aberta. É desde a relação imaginária primitiva. normativa. o objeto capturado naquilo que lhe falta. Numa civilização como a nossa. contrariamente ao que se acredita. legal é sempre marcada pela castração.218 A ESTRUTURA DOS MITOS SOBRE o COMPLEXO DE ÉDIPO 219 que seja. não há mais razão para se limitar o jogo no palácio das miragens. que o sujeito vê. como se diz. em caso algum. uma duplicidade fundamental. jamais vemos confundir-se o amor e a união consagrada. isto é. ela tende a reproduzir nele a divisão. e vê em sua permanência uma coisa qualquer que marca por uma tara original o ideal que seria desejado da união monogâmica. nossa experiência cotidiana.. não se deve crer. mas unicamente por intermédio da lei. isto é. nada se sabe articular a não ser que tudo se produz de certa forma por acidente. em conformidade com a experiência. É por isso que. uma ambiguidade sempre pronta a renascer. aquela por onde a criança é doravante introduzida a este mais-além de sua mãe. e ao mesmo tempo para nos fazer afirmá-lo. a mais motivada pelas ilinuiades mais profundas. que se o ideal da união conjugal é monogâmico na mulher pelas razões que dissemos no início. afinal de contas. nem o objeto de satisfação. implica que muitas coisas U « onservam dela. não o objeto legal. de maneira institucionalizada ou de maneira anárquica. A própria estrutura que nos impõe a distinção r n i n. ou nos lares perfeitos. toca. a saber. que exista uma nova forma de um ou . um eu mais ou menos forte. E na medida em que a união típica. sua experiência. participa do incesto. É isso que nos permite afirmar. que o faz fundamentalmente bígamo. de escolha individual no interior da lei. até mesmo as degradações da vida amorosa. Mas é para além daquilo a que o pai real autoriza aquele que entrou na dialética edipiana a fixar sua escolha. mesmo instantânea. Seguese que. Em outras palavras. Em ambos os casos. porque se é um eu mais ou menos fraco. todavia. é para além dessa escolha que está o que é sempre visado no amor.a experiência imaginária e a experiência simbólica que a norman/. até mesmo ancestral. ainda que esta fosse a mais ideal. mesmo que seja um ponto de cruzamento necessário de união entre os seres. uma problemática. coisas que não nos permitem. experimenta o fato de que o ser humano é um ser privado e > i m ser abandonado.

O ' 'ser amado''. O pai imaginário e o pai real. quando este estava presente em seu pensamento desde o início. O que c l i / c i sobre isso? São essas as questões cujos ecos recebi. dessa in . Jones jamais conseguiu superar as dificuldades do manejo do complexo de castração como tal. dentre eles. Mas. com efeito. que Freud tenta articular plenamente a fórmula do complexo de Édipo.< i igualmente evocadas.i intervenção do pai. como o complexo de Édipo. se compreenderam o esboço que eu fazia • l.es. em suma. em Ilibar de destaque. Pode-se querer eludir essa formulação. como os convido a l. Ainda que isso não esteja articulado assim em parte alguma.i ração é o signo do drama do Édipo. É só tardiamente. no entanto.ule genital. O que é essa castração? Para que o sujeito atinja matui icl. i In v K Ia alguma. as cartas a Fliess. Ernest Jones. de seu personagem puramente simbólico nos hunlios. para dizer a verdade. Der Untergang dês Odipuskomplex. Vocês percebem isso ao ler sua obra: o sr. hoje. permaneceram. com um ponto de interrogação. existem certos autores a quem a singularidade de uma tal consequência não deixou de deter. Os animais da fobia. é. pode-se dizer que a i . Quando comecei. a abordar o problema. n incidência analítica precisa deste temor. É possível inclusive pensar que aí esteja o grande problema pessoal de que ele partiu: o que é um pai? Não existe quanto a este ponto.SOBRE o COMPLEXO DE CASTRAÇÃO 221 XIII SOBRE O COMPLEXO DE CASTRAÇÃO Crítica da aphanisis. A angústia. da última vez.mcia ou desse momento dramático —todas essas palavras podem . semelhante formulação? Em que implica? ( ) que supõe? Entretanto.istração. fazendo miei vir a castração abaixo da frustração e do jogo fálico imaginário i a mãe. como também dela é ele o pivô implícito. é preciso. Mas imo valeria a pena deterem-se um pouco aqui. Vamos ver como respondei a elas. muitos de vocês. Quanto à castração.i/cr? Concordo que o aspecto abrupto dessa afirmação lhes pareça piohlemático. na interrogação quanto ao sujeito iln castração. por paradoxal que seja. . No entanto um e outro não se dão da mesma maneira. não há nada igual i ni parte alguma. que ele tenha sido castrado. A corrente do discurso analítico atual leva-os a isso.r. Freud jamais articulou plenamente o sentido preciso. tentar falar da castração. a propósito • l i ' . O que quer dizer. do engodo ao pênis que agita. A castração está em toda parte na obra de Freud. 220 11 miando as coisas no nível simples da leitura.i. Só minio tarde foi que se explicou. AGENTE Pai real Mãe simbólica Pai imaginário FALTA DE OBJETO Castração Frustração Privação OBJETO imaginário real simbólico Vamos. pois. ou dessa ameaça. Sua biografia. está hicralmente implicado por toda a parte da obra de Freud. no artigo de 1924 consagrado a um tema inteiramente novo. e toma-la numa espécie de i «mo se. confirmam suas l n r ocupações e a presença do complexo de Édipo desde a origem. podem lomá-la ainda assim como ponto de partida.

(|iie se reencontra a todo instante nos casos de Freud. como tudo o que ele introduziu na comunidade analítica. de fato. Foi a aphanisis. ele não consegue. A privação em jogo aqui é o termo t 1 mi referência ao qual se demarca a noção de castração. no caso do menino. mas desaparecimento de quê? Em Jones. Em sua perspectiva. com referência às suas primeiras relações com os objetos.i is manejável.ilícito. a articulação do processo. toma por base a apreensão no real da ausência de pênis na mulher. e angustiante. em especial. não dou em absoluto no meu quadro o mesmo sentido il. na experiência do sujeito masculino. isolá-lo. que significa em grego o desaparecimento. Com efeito. à contingência das ameaças. Esse fato. articular a passagem de uma a outra. o exemplo mais saliente. na medida em que ela é . no entanto sempre tão singularmente reproduzidas na história dos sujeitos. E. tento devolver-lhe sua complexidade de relação verdadeira. Não foi somente o lado paradoxalmente motivado.222 A ESTRUTURA DOS MITOS SOBRE o COMPLEXO DE CASTRAÇÃO 223 Devido a isso ele formulou um termo que lhe é particular mas que. isso não quer dizer (|iic o sejam igualmente para o ouvinte um pouco mais exigente. Igualmente. Mas. ao contrário. como se * Em francês. e o fiz de forma bem articulada na sessão anterior à interrupção de fevereiro. substituindo a castração. o fato de que a mulher não tem pênis. é claro. não enraizado em uma constante necessária da relação interindividual. onde ele vê a formação em que desemboca normalmente o complexo de Édipo. se as coisas ficam facilitadas para o locutor. A solução que Jones tentou dar ao modo de insistência do drama psíquico da castração na história do sujeito é a seguinte. a assunção desse fato tem uma incidência t-onstante na evolução de quase todos os casos que Freud nos expõe c é. que Jones tentou articular toda a sua génese do Superego. na maioria das vtv. que no entanto Freud articula realmente como uma ameaça incidindo sobre o pênis. e sim a dificuldade existente para integrar em sua forma positiva o próprio manejo da castração. mas certamente. sobretudo quando se as conserva em estado de sinónimos. de imediato. Será concebível que seja esta a fonte de uma angústia primordial? Talvez. dessa ameaça. mas também de sujeitar a essa frustração a apreensão de um estancamento do desejo. a distância que lhe é dada por uma frustração articulada como tal. isso é supor transposto um imenso gap. A castração.) li . (N. Não é possível articular o que quer que seja sobre a incidência da castração sem isolar a noção de privação. e ceda". Como nilo é fácil partir assim de dados tão pouco resolvidos. Para vocês. a privação é considerada uma frustração. Eis o que levou Jones — no momento em que abordava o problema da constituição do Superego e tentava assentar seu mecanismo — a pôr em primeiro plano a noção da aphanisis. É. e . permanece o bastante dela para verem que não emprego o termo na forma sumária pela qual é habitualmente empregado. não apenas de tomar. uma parte dos seres da humanidade que é. a aphanisis é o desaparecimento. deixar de distinguir a pura privação. É assim que ele encontra. diante do •. o falo.ido por Jones ao termo privação. se assim posso dizer. um outro sujeito que lhe recusa a satisfação buscada. Com efeito. Para dizer a verdade. Na maioria dos casos é este o ponto crucial. aqui. Em lugar de ficar "cozinhando" D peixe*. na medida em que esta faz surgir o temor da aphanisis.1 privação que ele chama de deliberada. de um modo especialmente eficaz. que ••Ia c privada dele. A privação é a privação do peixe. foi em torno da noção de privação. o que facilita. Quanto ao m mo frustração. que se exprimem no enunciado parental bem conhecido: Vamos chamar alguém para te cortar isso. que leníamos definir. noyer lê poisson: "numa discussão. sobre a qual penso será suficiente que eu mesmo a articule para vocês a fim de que compreendam até que ponto ela própria tampouco deixa de apresentar grandes dificuldades. que faz corri i|iu. tergiversar até que o oponente se canse. esta é uma angústia singularmente refletida.cs. l "u um só instante. distinções às quais chegamos a dar uma forma um pouco i n. é equivalente para o NU jeito à frustração. o fundamento em que se apoia. que deteve os autores. lixiste. sem dúvida.u|iiilo que chamei de um furo real. principalmente dentre os autores ingleses. ele chega naturalmente a indicar que. abriu seu caminho e gerou ecos. a noção da privação. vamos tentar. é o temor para o sujeito de ver extinguir-se nele o desejo. aquela que supõe. realmente dar um salto na compreensão e supor que o sujeito é capaz. é o desaparecimento do desejo. Penso que vocês não podem deixar de ver a relação altamente subjetivada que semelhante noção representa em si mesma.o sujeito não seja satisfeito em qualquer de suas necessidades. o temor da castração não pode ficar sujeito ao acidente. Seria preciso. falando de privação. A aphanisis. De fato.

É a ele i|iie se refere. isto é. Tentemos articular corretamente nossos pensamentos nesse sentido e compreender. que só podemos situar num mais-além. Tudo o que é real basta a si mesmo. incide. Mesmo quando seus termos são demonstrados no discurso dos autores. peco-lhes que aceitem por um instante como adquiM. para recobri-lo e perfurá-lo. devido à interposição de fantasias C à necessidade da relação simbólica. com efeito. Eles são castrados na subjetividade do sujeito. na realidade. e que não tem de forma alguma. e que expusemos iln última vez. o que está em questão. como da última vez. e que portanto nos é necessário aceitar como um dado irredutível do mundo ilo significante. que são. presente na génese de uma neurose. No real. como no fundo de (|iialquer ereção agressiva. na medida em que ela é eficaz. daquelas em jogo na incidência de uma neurose. e que se inscreve na cadeia simbólica. Sc o chamamos de imaginário.1 a hipótese em que se vai apoiar nossa articulação. O pai simbólico. relação com o pai real da criança. mais comumente. esperamos tê-la melhor articulado. que por trás da mãe simbólica está o pai Mimbólico. efetivamente m i l . e que é unicamente ligada à função desempenhada pelo pai imaginário num momento dado do desenvolvimento. pelo efeito de que necessidade. 1. e a fim de que possamos nos referir a t> i mós anteriores. experimentada. Vamos tornar a partir daí para tentar de certa forma compreender em sua origem a necessidade do fenómeno de castração. . no real. afinal de i nulas. Cabe à continuação de nosso percurso confirmar para vocês se isso é válido. lincontramos agora em nosso quadro o pai real e o pai imaginário. o pai imaginário e o pai real são dois termos que nos Ini/em muito menos dificuldade. a experiência da castração gira em torno da referência do real. por sua vez. Se introduzimos no real a noção de privação. aliás. O mesmo acontece. submetida na espécie humana a um certo número de condições. No momento e no nível em que falamos de privação. nada é privado de nada. é jamais uma castração real. Para nos servir de guia. obrigatoriamente. sem nos ocuparmos por ora da experiência do doente. eles são ali menos bem manejados e argumentados. a castração se introduz no desenvolvimento típico do sujeito. é também porque ele está integrado à i dação imaginária que forma o suporte psicológico das relações com o semelhante. a simples ordem simbólica. O pai real é uma coisa completamente diferente. Por definição.i da identificação. eles são privados. e mesmo plenamente. a da idealização pela qual o sujeito tem acesso à identificação ao pai. é na medida em que já o simbolizamos bastante. No ensinamento dos textos de Freud. E o pai assustador que conhecemos no fundo de tantas experiências neuróticas. sobre um objeto imaginário. Quanto à castração. ou seja. Nenhuma castração. a da agressividade. é uma necessidade da construção Minbólica. que simboliza uma dívida ou uma punição simbólicas. da relação originária do sujeito com a mãe. como indica a ordem necessária do quadro. implica a simbolização do objeto no real. do qual a criança só teve uma apreensão muito difícil. A própria noção de privação. onde se trata para ele de unir-se a esta ordem complexa que constitui a relação do homem com a mulher. Ela só entra em jogo na medida em que atua no sujeito sob a forma de uma ação incidindo sobre um objeto imaginário. O objeto de que se trata no caso é o pênis. diria quase que numa transcendência. Esta etapa. '•c o pai simbólico é o significante de que jamais se pode falar senão K-encontrando ao mesmo tempo sua necessidade e seu caráter. não está representado em parte alguma. A realização genital está. com .224 A ESTRUTURA DOS MITOS SOBRE o COMPLEXO DE CASTRAÇÃO 225 diz nos textos. naquilo que é invocado como experiência real. que tem somente uma relação extremamente longínqua com aquilo que esteve presente do pai real da criança. O problema para nós é justamente conceber por que. Pois. Indicar que alguma coisa não está ali é supor sua presença possível. O pai imaginário é aquele com que lidamos o tempo todo. Tudo isso se passa no nível do pai imaginário. É claro que este termo é perfeitamente ambíguo. i|iic estão no fundo de qualquer captura libidinal. o real é pleno. na etapa que se qualifica de pré-edipiana. na medida em que este se apodera desse objeto imaginário como que de seu instrumento. só é alcançado por uma construção mítica. Vamos então tornar a partir. de maneira mais diferenciada que o que se faz habitualmente. Insisti frequentemente no fato de que este pai simbólico. Vemos intervir frequentemente nas fantasias da criança uma figura ocasionalmente caricata do pai. falando propriamente. introduzir no real. tão sensível e visível numa experiência como aquela. O pai imaginário participa também desse registro e apresenta características típicas. castrada. pelo menos como um termo que. relações de espécies. nós mesmos. como lhes indiquei de passagem. toda a dialética. se isso nos fará reencontrar na realidade complexa este elemento do drama da castração. e também da mãe. este é um objeto que nos é dado em estado simbólico.

Vocês sabem que esta é uma etapa do pensamento de Freud. aquilo que não é um elemento de apreciação. e isso contra ns reservas expressas do pai e marido. e o que já pode aparecer como sua contingência. é de saber com o que realmente estamos lidando. Por que essa castração? Por que esta forma bizarra de intervenção na economia do sujeito. quando hoje em dia todos os anátemas cairiam sobre ela. diga ele que disser. tomando agora o caso do |H-t|ueno Hans. Temos com frequência o sentimento de que ele se deixa guiar antecipadamente por uma linha direta que é. 1'cço-lhes. faz o que se chama M I I K I fobia. a função de destaque no complexo de castração. vamos chamar o doutor A. contrariamente a uma função normativa ou típica que se lhe desejaria dar no drama do Édipo.1 necessidade do complexo de castração. não é realmente privado de nada. da vida quotidiana. quando ocorre. que por acaso é um dos discípulos de Freud. o que não os impede de se conduzirem exatamente como se não soubessem de nada. não esperou a aparição da fobia para lhe manifestar. Toda a dificuldade. mas podemos julgar <|iie ele esteja completamente sem controle da situação. pois. A criança continua. na verdade.226 A ESTRUTURA DOS MITOS SOBRE o COMPLEXO DE CASTRAÇÃO 227 cada um de nós. Os pais estão suficientemente informados. uma neurose. vemos. Assim se dá com este personagem do pai que. como se fez com as cenas de sedução primitiva. o que pode haver de melhor como pai real. Mas não temos a impressão de que isso seja uma coisa decisiva. para tentar entender os dramas complexos que Freud elabora para nós. Se a castração merece efetivamente ser isolada por um nome na história do sujeito. Logo. não se trata em absoluto de fantasiar todo o assunto. Vamos partir da suposição do caráter fundamental do elo entre o pai real e a castração. ido de qualquer coisa. que admitam em caráter provisório essa posição. Ele não é frustrado de nada. que u mãe chegou a proibir-lhe a masturbação. a saber que. em condições comuns. e é também objeto dos cuidados mais ternos da mãe. Essa fobia é assumida por seu pai. pela ausência do pai real. não se pode dizer que o pequeno Hans seja frusi i . temos nós mesmos a impressão de que nos encontramos a cada instante guiados. mas sem nada entender dos motivos que nos fazem escolher o caminho certo em cada encruzilhada. Não é por acaso. efetivamente. i > pequeno Hans. n sublime serenidade de Freud para ratificar a ação da mãe. ao segui-lo. Por outro lado. peco-lhes que aceitem por ora o que talvez lhes vá parecer paradoxal à primeira abordagem deste quadro. e profundamente desequilibrada. pode ser com razão considerado como um elemento constante daquilo a que se chama em nossos dias o meio ambiente da criança. n hase na qual vamos começar a tentar compreender a significação ' . as coisas continuam a ocorrer da maneira mais decidida. Se existe algo que está no fundamento de toda a experiência analítica. isto é. Tal como o vemos no início da observação. simplesmente. os seres humanos tais como são. para te cortar i. é certamente o fato de que temos uma enorme dificuldade de apreender aquilo que há de mais real em torno de nós. é claro. É-nos oferecido um recurso que devemos recusar. Essas considerações não tornam mais explicável a castração. tão certa — como no caso do pequeno Hans — que. tanto do desenvolvimento psíquico quanto. o que é profundamente neurotizante. e a pronunciar as palavras lutais: Se você se masturbar. Assim mesmo. que se chama a castração? Isso tem algo de chocante em si mesmo. Ela pode igualmente ser marcada de uma maneira profunda.uencão que o pai. ele gosta muito de seu pai. e está longe de temer l ">i parte deste um tratamento tão abusivo quanto o da castração. pois. este pequeno Hans. à intervenção. que o médico teve inicialmente sua atenção voltada para essas cenas da sedução primitiva que se reconheceram mais fantasísticas do que se pensava originalmente. que se instala antes mesmo que ele analise e elabore uma doutrina sobre o tema. a partir dos quatro anos e meio. exige então a substituição do pai real por alguma outra coisa. Essa atipia. no início da observação. nada em felicidade.. certamente. isto é. Se esta . nesse ponto. Mas.\xo. É objeto de uma . é ao pai real que se defere. e o pequeno Hans tem realmente por ele todos OU bons sentimentos. Não apenas este se mostra. de uma tolerância bem particular. melusive tão ternos que tudo lhe é permitido. de vez em quando. que a mãe em questão tenha por um só minuto a menor consideração pelas observações que lhe são respeitosamente sugeridas pelo personagem do pai. n pequeno Hans. que admite todas as manhãs o pequeno Hans como terceiro no leito conjugal. É um homem muito bom. do pai real. ela está sempre ligada à incidência. nem em razão de alguma extravagância das primeiras abordagens do sujeito. quanto à castração. filho único. É preciso.

Como diz muito bem Freud. Mas nossa hipótese de base é a de que há um outro termo em jogo. A criança escuta essa ameaça. no entanto. A mãe é inicialmente mãe simbólica. e que é isso. se ela mesma lhe traz uma satisfação de amor. em grau diferente conforme os sujeitos. A reação. Como lhes indiquei. e se foram criadas dificuldades a propósito do mundo objetal primeiro da criança foi em razão de uma insuficiente distinção do próprio termo "objeto".228 A ESTRUTURA DOS MITOS SOBRE o COMPLEXO DE CASTRAÇÃO 229 intervenção deve ser notada em razão do caráter escrupuloso do relato. mais tarde. o que lhes estou dizendo. por menos que seja. com a significação que ela implica? Trata-se de que a criança inclua a si mesma na relação como objeto do amor da mãe. vou fazer para vocês uma recordação da situação fundamental que prevalece quanto ao falo na relação pré-edipiana da criança com a mãe. de uma maneira decerto diferente e que creio menos sustentável. diria quase que como convém. A obra de Alice Balint. o que não supõe. se ela mesma introduz o esclarecimento que faz com que esta presença esteja ali e a cerque. Esta presença se articula muito depressa neste par presença-ausência de que partimos. As condições que cercam essa criança são ótimas. e não estamos perto de lhe dar uma resposta imediata. Este é o fundo sobre o qual se exerce tudo o que se desenvolve entre a mãe e ela. a relação indiferenciada primeira. como se diz. justamente. não é. isto é. ao órgão que a satisfaz. na presença da mãe com ela mesma. certamente. Esta é uma das experiências fundamentais da criança. por não se saber articulá-lo. naquele momento. a presença que lhe é necessária. por exemplo. É sob esta condição que poderemos encontrar os recortes que serão esclarecedores. na medida em que ela frustra esse arnor. e é isso que formulo pela posição que dou à mãe no quadro. que é o fundo sobre o qual se dá ou não se dá a satisfação da criança. É claro que ele vai integrá-la. É em torno desse ponto que se vai articular toda a dialética do progresso da relação mãe-criança. que é uma relação de amor. a mãe conserva o Penis-neid. abre a porta para o que se chama habitualmente. Em suma. O fato de que o mundo da criança seja feito apenas de um puro estado de sujeição. A criança o preenche ou não o preenche. é que ela não está só. mas a questão se coloca. a questão que nos é proposta pelos fatos é a de saber como a criança apreende o que ela é para a mãe. A experiência o confirma. da presença ou ausência de outra criança. isto é. e o advento da fobia permanece um problema. nenhuma angústia. a de saber por que ela precisa disso. isto é. o geliebt werden. Mas a questão é. é fundamental para a criança. Para começar. trata-se da fobia. Vocês vão ver surgir. A mãe é aqui objeto de amor. a criança continua a se masturbar. que a mãe existe. não sou o primeiro a contradizê-lo. em nossa ideia. com o caráter realmente digno que ele reveste. Trata-se de que ela aprenda o seguinte: que ela traz prazer à mãe. A mãe existe como objeto simbólico e como objeto de amor. que já haja um eu e um não-eu. Por ora. A mãe objeto de amor pode ser a cada instante a mãe real. que lhe servirá de material para construir aquilo de que precisa. mas não parece. Existe para a criança um objeto primordial que não podemos em caso algum considerar como constituído idealmente. a saber. este radical. Uma das experiências mais comuns é que inicialmente ela não está só porque existem outras crianças. de limites indeterminados. Nossa hipótese de base. Esta é uma reação tão simples quanto vocês a podem supor. que não se pode dizer nada mais a uma criança. ela não está só. A relação da criança com a mãe. só-depois. certamente. Alguma coisa se articula pouco a pouco na experiência da criança. como sabem. que irá se manifestar no momento de sua fobia. em razão de um certo número de choques e de particularidades que se produzem nas relações entre a mãe e a criança. o que acontece fundamentalmente na primeira etapa concreta da relação de amor. justamente. que esta seja uma incidência traumatizante que permita compreender o seu surgimento. neste momento que o próprio Freud pensa por um só instante em referir o que quer que seja de decisivo quanto à aparição da fobia. a sensibilidade da criança à presença da mãe é muito precocemente manifesta em seu comportamento. não se trata da castração. está aí para articular. algo que lhe indica que. o complexo de castração. constante e independente das contingências da história. e do fato de que não podemos de modo algum ligá-la de maneira simples e direta à interdição da masturbação. ao órgão de nutrição. A descoberta da mãe fálica para a . e irão favorecer nossa tentativa teórica. De fato. que se deve saber introduzir como tal. o ser amado. e é só na crise da frustração que ela começa a se realizar. Isso é o fato de que. objeto desejado por sua presença. isto é. a de saber se sua presença requer. É nesta questão que estamos. a masturbação em si mesma não acarreta. ao conflito.

à qual só a análise pôde dar ênfase. a angústia está sempre ali presente nas etapas de sua observação. vemos a criança completamente engajada numa relação onde o falo desempenha o papel mais evidente. estas não são integralmente explicáveis pela etapa pré-edipiana. ainda que necessitem de sua experiência. essa coisa que agita. O elemento importante não é tanto que a mãe intervenha neste momento. Vocês não vêem que ela se introduz aqui no momento em que aparece no pequeno Hans sob a forma de uma pulsão no sentido mais elementar do termo. e que se alinham todas as gamas intermediárias que podem ligá-lo a essa relação tão complexa e tão elaborada. Em que momento algo põe fim à relação assim sustentada? O que vem acabar com isso no caso do pequeno Hans? No começo da observação. Estamos aqui diante do Icxto de Freud. Em suma. e tentamos lhe dar sentido.230 A ESTRUTURA DOS MITOS SOBRE o COMPLEXO DE CASTRAÇÃO 231 criança. Seu pênis começa a agitar. Se nos ativermos às afirmações que nos são feitas. quando nada de crítico acontece na vida do pequeno Hans? O que muda. ou apresentar-se como portadora de falo. em direção a um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reencontrar. como mecanismo. mas também quanto ao desejo e. a doutrina vindo depois. Ela pode se identificar com a mãe. são estritamente coextensivas do problema que abordamos. Se optei por partir de um certo ponto para chegar a um certo ponto. uma questão permanente ao longo de toda a obra de Hreud? Não vou lhes dar. de pênis real. na medida em que. a angústia é correlativa do momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está. descolado de sua existência. pois lemos de tomar as coisas por ordem. sendo a homossexualidade aqui reservada. a esse modo que consiste em dar prova de um pouco de imaginação. que é. foi porque devemos considerar o Penis-neid como um dos dados fundamentais da experiência analítica. o pênis real. partir da etapa pré-edipiana para chegar ao Édipo e ao complexo de castração. muito exatamente. por menos sensivelmente que seja. depois nos animais. se identificar com o falo. Só se fala de falo. já que é unicamente em torno dela que se articula a relação do fetichista com seu objeto. tentação etc. mas indico a vocês que. por um instante. Existe aí um grau elevado. e vão perceber que a angústia. As anotações do pai sobre aquilo que destacou no desenvolvimento da criança até a hora H em que começa a fobia dão crédito a isso. Esta situação é decerto estruturante. não de abstração. e onde ele se percebe como estando prestes a ser capturado por alguma coisa que vocês vão chamar. de imagem do outro. da organização de seu mundo. isto é. Isso não está no mesmo nível. Como conceber a angústia. A criança se apresenta à mãe como lhe oferecendo o falo nela mesma. conforme o caso. é que o seu próprio pênis começa a 1 ornar-se alguma coisa completamente real. Peco-lhes que recorram. em graus e posições diversos. quanto àquilo que lhe falta. a angústia. o resumo do caminho percorrido por Freud. nessa relação tão extraordinariamente evanescente por onde nos aparece. a angústia. o objeto central. com uma frase. pela qual a criança atesta à mãe que pode satisfazê-la. e onde começa a lhe aparecer como uma armadilha aquilo que para ele foi por muito . Era neste ponto que incidia a articulação da lição a que eu aludia há pouco. por esse milagre feliz produzido a cada vez que fazemos uma descoberta. A experiência prova que não há meio de articular de outro modo as perversões. por um feliz encontro. E ela própria se situa ali em diferentes posições pelas quais é levada a manter. o falo é realmente o objeto pivô. contrariamente ao que se diz. Ainda não abordei neste seminário o problema da angústia. É isso aí. a do Penis-neid para a mãe. como devemos concebê-la? O mais próximo possível do fenómeno. Este é o fato concreto da observação. como sabem. devemos nos perguntar se não existe uma relação entre este fato e o que aparece então. O que é que muda. no outro. surge a cada vez que o sujeito é. c a criança começa a se masturbar. mas de generalização da relação imaginária que chamo de tapeadora. isto é. e como um termo de referência constante da relação da mãe com a criança. mas que o pênis se tenha tornado real. a tapear este desejo da mãe. A angústia de que se trata nessa ocasião. É na relação com a mãe que a criança experimenta o falo como o centro do desejo dela. falando em travestismo. A partir daí. para dizer tudo. depois no pai. lilás nos informam que o pequeno Hans está o tempo todo fantasiando 0 falo. não somente como criança. interrogando a mãe sobre a presença do falo na mãe. pois esta concerne à necessidade de objeto.

onde a criança é que é o centro. por qualquer lado. ou que ela seja. Eu lhes dizia então que. Produz-se o mesmo curto-cirHiiio com que se satisfaz a frustração primitiva. é uma ponte lançada. O que não deixa de se produzir não é simplesmente que a criança fracasse nas suas tentativas de sedução por tal ou tal razão. O pai é aquele com quem não há mais chance ilc Alinhar. já que há uma neurose? Nflo vão se espantar ao saber que produz-se uma regressão. senão aceitando tal e qual a divisão das apostas. em que não intervém. devido à Verwerfung que o deixa de fora. por exemplo. daquilo que a criança realmente é para a mãe. a partir do momento em que intervém sua pulsão. rejeitada pela mãe. Na medida em que a situação prossegue. mas de certo modo fora do 11. o termo do pai simbólico — que veremos concretamente o quanto é necessário — a criança se vê na situação muito particular de estar inteiramente entregue ao olho e ao olhar do Outro. como vi cm no caso do seu rapazinho. e no seu interior a criança 1 M K lerá aguardar a evolução dos acontecimentos. vítima de seu próprio jogo.il. Com que o pequeno Hans é confrontado? Ele é posto no ponto de > n. e que conduz a criança ti ipoderar-se do seio para encerrar todos os problemas. Até então. É precisamente por esta razão i|in. Mas. e INNO com relação à mãe. que lhe dei na última sessão antes da interrupção. Mas deixemos de lado o paranóico do futuro. ni|iii. a criança está no paraíso do engodo. aquele onde i In -('ou o pequeno Hans. Todas as manifestações do parceiro se tornam para ela sanções de sua suficiência ou de sua insuficiência. a regressão se produz no momento em que não mais basta dar o que ela tem a dar.i mãe.ince. Não posso falar de tudo ao mesmo tempo. e em que. para sancionar essa relação tão delicada.n ontece com ele. a criança é inteiramente sujeita àquilo que o parceiro lhe indica. Para aquele que não o é. outro entre a pulsão real e o jogo imaginário do engodo fálico. Será isso satisfatório para ela? Não existe razão alguma para que ela não possa levar adiante por muito tempo este jogo de uma forma satisfatória. O que se produz. l'referiria que se espantassem. Não é à toa que ii c . A ordem é assim restabelecida. Se fosse assim i H • íácil. quando l. integrar-se naquilo que ela é para o amor da mãe. afinal de contas. em presença da falta 11. Ela é aprisionada em sua própria armadilha. Da mesma forma. afinal. Aqui estou para lhes mostrar como.untura da fobia. no momento. é uma indicação rápida. onde se é para a mãe tudo o que a mãe quer. A intervenção • In pai introduz aqui a ordem simbólica com suas defesas. ( ) lema da devoração é sempre encontrável. não haveria necessidade de i i • . a não ser a saída que se chama » i omplexo de castração. e tentaremos abordar mais de perto o que era Hans para sua mãe. justamente. aparece este descolamento de que eu falava há pouco. confrontada com a hiância imensa que existe entre satisfazer uma imagem e ter algo de real para apresentar: apresentar cash.11 mente sem saída por si mesma.i . então. a vítima. a situação é In.11 i cal.1 saber. Não é a 'lolucão. Indiquei a vocês no ano passado: é muito precisamente neste ponto que se origina a paranóia. A criança tenta se moldar. A partir do momento em que o jogo fica sério. O que desempenha.v ô no desamparo de não mais bastar.232 A ESTRUTURA DOS MITOS SOBRE o COMPLEXO DE CASTRAÇÃO 233 tempo o paraíso. na < '. seu pênis real. o elemento apassivado de um jogo onde vira presa das significações do Outro. a saber. presa de todas as discordâncias. a hiância i|nc se abre diante dela. e contento-me aqui em lhes indicar que tudo isso depende. O interessante é o ponto em que estamos. permanecemos neste ponto crucial que nos dá o esquema geral da coisa. Esta é igualmente a primeira roupagem vestida pela fobia. Mesmo que seja qualquer cavalo o ol>|cio de sua fobia. isto é. . para apresentar aparece — disso temos mil experiências na realidade analítica — como algo de miserável. não passa de um jogo de tapeação. que o assunto ao mesmo tempo sai das mãos da criança 0 t resolvido alhures. é sempre de um cavalo que morde que se trata. e. Isso pode lhes parecer uma solução um pouco simples. a criança se anulava na satisfação alimentar. a de ser devorada pela mãe. se posso dizer. por mínimo que seja. Por ora. ao mesmo tempo. então. Aí existe dilema. em que ela M. 1. isto é. este jogo onde se é o que não se é. pois basta um indício. <) complexo de castração retoma no plano puramente imaginário 11 K Io aquilo que está em jogo com o falo. A ordem Minliólica intervém precisamente no plano imaginário.1 si ração incide sobre o falo imaginário. onde nada disso . um papel decisivo é que aquilo que ela tem. se bastasse fazer uma ponte.convém que o pênis real seja posto fora do jogo. pois dou a este termo o estrito nli . com um pouco de sorte — até mesmo com muito pouca — consegue isso. o reino da l.unos da frustração. a felicidade? A saber. A criança é então colocada diante dessa abertura de ser o cativo. Daqui a pouco vamos introduzir aí alguma diferença.Ia.

é porque se inscreve ali. com efeito.uiicm. em muitas ocasiões. . o texto da observação do pequeno Hans. daqui até a próxima vez. por exemplo — principalmente quando a criança não habita regiões onde este animal apresente o mínimo caráter. Este é um tema do imaginário onde ele se demonstra bem à • <MH. já I|IH. se assim posso dizer. algo que seja da ordem do fato ou da experiência positiva. numa posição que se mistura à identificação com a mãe. mas. é na medida em que interveio o pai real. é claro. entrega-se a uma espécie de romance l. Os pais colocaram-se na fila desde que ela apareceu.234 A ESTRUTURA DOS MITOS SOBRE o COMPLEXO DE CASTRAÇÃO 235 Isso será tudo? Não. uma função bem especial. E. a analogia entre o pai e o totem. A todo instante nos perguntamos se o pequeno II. já que se trata de um imaginário i|iu i atua para reorganizar o mundo simbólico. Ele m. Não podemos resolver tudo ao mesmo tempo. e que é a filha dos proprietários do lugar onde sua família passa as férias. mais ou menos dnij-jda. líin suma. pois não é uma coisa qualquer que morde ou que devora. que são. Peco-lhes que tomem. até a menina i|iic ele ama à distância. ele l > i < > l > n o . A saber. Não é outra coisa que motiva. inconIrsiavelmente. não ficaram surpreendidos por um contraste. Não é essa a questão. Tampouco estamos aí para resolver o problema de saber por que a fobia assume a forma de tal animal. O cavalo se situa aí num limite extremamente preciso. toda as formas da relação amorosa. Vocês percebem que esta é uma fobia. não vemos qual é seu último termo. Como a cada vez que lidamos com um certo número de relações fundamentais. a coerência se marca maciçamente entre o que chamarei de • n C ia imaginária no decorrer da análise e a intervenção do pai real. no que leram. são justamente objetos estranhos. do pai diante dele. até mesmo a girafa. no carro. muitos anos imu-s de. Todavia. uma fobia em andamento. Ele dá provas. é que a cura chega no momento em que se l H prime da maneira mais clara. que é suprir o significante do pai simbólico. tudo • i <|ue tendia a se cristalizar no plano de uma espécie de real prematuro. castração simbólica. O que é certo é que os objetos da fobia. o lobo. numa caixa. gostaria que aqueles de vocês que se quiserem submeter a esta prova inc digam da próxima vez se. É que ele prolonga aí o jogo de tapeação com a mãe. e que aliás só pôde fazê-lo porque teve atrás de si o pai ttimbólico. Mas.miastico onde reconstrói a presença de sua irmãzinha. na medida em que ele intervém. e o pai sai enquanto ela não acabar. e podemos nos perguntar por que ele se reveste de tal ou tal forma. O leão. • l"' de prossegue com grande desenvoltura no plano da ficção. Na etapa inicial. em cima de cavalos. Sob a pressão da interrogação analítica. ii (astração como tal. toda uma gama de relações que vão desde a iMiolinha que ele abraça e meio que corteja. liste episódio faz contraste com o que se passa depois das interv • IH oes do pai. se i li se sente inteiramente à vontade. de um humor refinado. i n i n a a partir num imaginário radical. Não lhes trago uma dedução. homogéneos àqueles que se encontram nos brasões. de estar completamente perdidos. com efeito. Se a fobia alcança uma cura das mais satisfatórias — veremos o i|iir quer dizer cura satisfatória a propósito da sua fobia —. Terão dele todas as impressões estonteantes que esta leitura pode originar. Este significante. não só de perigo. que era Freud. e do irredutível. Uma coisa é certa. que mostra bem que esses objetos são tomados de empréstimo a uma categoria de significantes de mesma natureza.se trata da adoção de crianças. tão radical que não se sabe mais muito bem onde se está. mas simplesmente de presença —. seu nascimento. intervenção do pai real. animais. que o bombeiro — o assim chamado "instalador" — vem. Gostaria que vocês lessem este texto. lhe desaparafusa e lhe dá uma nova. naquilo que encontramos. mas um aparato necessitado pelo sustentáculo do que encontramos na experiência. é realmente necessário deixar algumas delas de lado para poder articular algo de claro. na construção de Totem e tabu. vemos o pequeno Hans desenvolver a todo vapor 11 idos os tipos de imaginações extraordinariamente romanceadas coniHiientes a suas relações com todos aqueles que adota como seus lillios. que havia intervindo tão pouco nic então. Pode-se concluir daí i|ue a solução da fobia está ligada à constelação dessa tríade: orgia imaginária. É realmente necessário que haja.ins não está ali zombando de todo o mundo. sem dúvida alguma. sob a forma de uma história articulada. Estes objetos têm. terão mesmo a sensação. É exataiiu-iite neste ponto que se interrompe o relato.ide. marcam-se de saída aos olhos do observador mais superficial pela característica de se tratar de objetos que pertencem por essência à ordem simbólica. em particular.

Mas. entra aí como um pobre coitado. o resultado é escandido em torno de sua intervenção por esses dois pontos: a orgia imaginária de Hans e o advento da castração plenamente articulada. sob as espécies da substituição daquilo que é real por algo de mais belo e maior. Sou reconhecido pela atenção daqueles que se deiln-iiram a esse exame. Vocês bem percebem que nos encontramos apenas num ponto intermediário de meu discurso. Não importa.2 sob o título de Seminário sobre "A carta rouIniild". e vamos nos dedicar a destacar o valor. A criança metonímica. Vamos retomar da próxima vez a dialética da relação da criança com a mãe. por mais sustentado e respaldado que seja pelo pai simbólico. não direi sua finalidade. Não é inútil recordar para vocês os dados iniciais. principalmente — vão encontrar isso numa nota de rodapé — não compreenda depressa demais. Com todas as questões com que pressiona manifestamente o filho. A fobia estrutura o mundo. i rsychanalyse n. Imaginava-se. o que está em questão. voltaremos a ele da próxima vez. que a lembrança i In contexto em que foi conduzido aqui o que é retomado nessa mi indução não é de fácil acesso a todos. e examiná-lo com iil|'. Vou esclarecer. já que recaem no erro i oucretizado em que alguns se teriam deixado capturar no momento i-in c|ue eu expunha esses termos. o pai segue um caminho errado. por exemplo. e eu só quis lhes dar o bastante para que pudessem ver o quanto se abre seu leque de questões. Alguns de vocês tiveram tempo de lê-lo. era realmente preciso deixá-lo falar. É de se acreditar. 13 DE MARÇO DE 1957 XIV O SIGNIFICANTE NO REAL A rede da Carta roubada. 237 . a verdadeira significação do complexo de castração.um cuidado. e não voltarei mais a este ponto. todavia. Freud é forçado a dizer a todo instante: Foi melhor que nada.236 A ESTRUTURA DOS MITOS O pai real. O preto diante da boca. A revelação da castração dá fim à fobia. agora. que eu negasse o acaso. Vou começar por um esclarecimento relativo ao artigo publicado em / . e mostra igualmente. Sozinho com Mariedl. e especialmente a sua introdução. mas aquilo que ela vem suprir. Faço alusão a isso em meu próprio texto.

irregular. Isso. por um lado.+ . Uma pessoa dentre as que examinaram a coisa da maneira mais precisa. Depois de ô. enquanto que depois deste outro d. Trata-se agora de chamar a. ('hego ao ponto de litígio. exatamente. O a pode se reproduzir indefinidamente. Embora isso talvez esteja inscrito no meu texto de maneira bastante fechada. é y. Ordenamos com l. uma vez que existe sucessão temporal. i j i i c vocês esqueceram alguma solução possível.. 2 e 3 esses agrupamentos. que lhes irá nu licur.238 A ESTRUTURA DOS MITOS O SlGNIFICANTE NO REAL 239 Tomamos por três os signos + e . pode vir um outro ô. isto é. Ir do mesmo ao mesmo. ligada à simples indicação da oddity. distinguem-se uns dos outros por não ter simetria. por conseguinte. o puro nraso. Se observarem MN vértices assim demarcados verão que há sempre uma divisão dicoinimca que se propõe a partir de cada um deles. Tais são as convenções. existem.|tie não o havia representado para vocês aqui. de l a 3 ou de 3 a l. ou seja. o termo médio é unívoco. Logo.nlo. construir uma rede como um paralelepípedo formado por vetores. o que pode ter causado dificuldades a alguns.irelho de controle de cálculos. ou. uma outra série de símbolos que se constróem a partir da série precedente. É uma simples questão de definição — basta formulá-lo assim.+ -.n chamados por oito letras diferentes. y ou ô. a não ser que isso seja expressamente indicado pelo Ifchamento assim definido. por outro l. A REDE li preciso que esta rede seja orientada. sempre implicada pela • i iação do símbolo. Voltar de odd ao mesmo é ô. ou de empregar a e a índice 2. inclua uma série de cinco signos da primeira linha. Outro i M-mplo: depois de y. e as únicas possíveis. De odd a odd. à primeira vista. a partir daí. mas também esta aqui. Pode-se. pode haver um b ou um a. Em suma. como riu o é. nesta rede. . de nina espécie de opacificação do mecanismo. ou uma alternância. e aí está.+. Esta operação se funda na observação de que. . os vértices poderiam •. A objeção que alguns levantaram a propósito da ênfase dessa diversidade funcional é a seguinte. uma série que'pode ser a seguinte. Por que não coloquei isso no meu texto? Em primeiro lugar. saídas possíveis: depois deste ô. agrupamentos estes que. Pode-se dizer. Ele interessa a vocês na medida em que sempre l>»<lc se reportar a ele como a um instrumento confiável. p. Assim. salta aos olhos como sendo ímpar. Estão vendo que. iria além do que é dado de saída. • Ir 11-ria forma. existem • In. Acredito dever me explicar quanto a isso. 5. ao contrário. para que seja instaurada a existência de um símbolo. duas espécies de p e duas espécies de ô. e é aí que começa o problema produzido no espírito de alguns. por convenção. ao pnsso que. Segundo eles. quando se conhecem os dois termos extremos dessa segunda série. + . i'"i. e não é evidentemente a mesma coisa que haja primeiro 2 e . a saber. o que não é o caso ii' >•• outros pontos. odd — isso que. isto é a. que permite aferrolhar definitivaincnie o problema e ter a certeza de que não se omitiu nenhuma das soluções possíveis. . e que se considere por um só instante esta definição como algo diferente do que foi convencionado no início. a convenção aqui é inscrever um signo que. da dissimetria. ou ainda. e que tudo d (|iic eu representava e articulava não passaria. com um termo intraduzível no francês. + + -. Foi-me dito c|iir não havia ali definição clara e distinta de um símbolo. é absolutamente exato. y. É a isso que eu chamo. que a escolha dos símbolos introduz uma certa ambiguidade inicial. em vez de se chamá-las por i|natro letras diferentes. aliás. Partir do mesmo para chegar a odd é (3.mirnte enganados. ou um y. o jogo de símbolos i|nr faria surgir por si mesmo esta lei interna. de saída. e mesmo mais competente. de simétrico a simétrico. pode haver a ou p. Uma série que uno pode se inscrever nesta rede é uma série impossível. quer se trate de l a l. conforme eles representem uma sucessão de sinais idênticos + + +.ordenados ao acaso numa sucessão temporal. as coisas são orientadas. o descobriu. por sua amplitude. Este é um simples iip. ou que estão complei. de certa maneira. seja qual for o problema que formulem a propósito dessa série.r. o contexto impede que haja ambiguidade. com i l f no. essa rede resume de modo exaustivo as sucessões possíveis.

Indiquei em meu texto algumas consequências que visam pôr em evidência outras frases da mesma forma. Saibam inclusive que não fabriquei tudo isso como uma espécie ilr excursão matemática. o caput mortuum do signifi.a acarretar uma teoria da memória fundada no tema da propriedade *-n. Esta. reconheçam que isso é justamente o que se trata de fazer sentir. ou l e depois 2. A ambiguidade está sempre presente. o que é apreendido na ordem da memória é • nuiiirado de maneira fundamentalmente diferente de tudo o que l n >v.240 A ESTRUTURA DOS MITOS O SIGNIFICANTE NO REAL 241 depois l. |i. essas n. a partir do momento em que llmplesmente se calcula. e faço intervir. eni "iiira-se fundamentalmente estruturada de uma maneira diferente da MI. possam obter no terceiro Y ou ô. Quanto ao fato de que alguns elementos significantes •. com efeito. quando se pode exprimir-se mais claramente fazendo sua distinção. se tenha introduzido o menor elemento de incerteza ou de fragilidade. com efeito. um quarto iciii|)o. vocês vêem resultar a lei extremamente simples que lhes exprimi por um dos esquemas do texto. Considerem este quarto tempo como ponto de chegada. unte. O que vocês chamam de uma ambiguidade. disso irão resultar certas elimina1. Ç. O símbolo. com efeito. da qual toda concepção repousa na persistência ou no ii|>. quando lhes falo do l u i i i i o anterior.r iam impossibilitados simplesmente por este fato. Desde que introduzimos o significante H" i cal.TEMPO Este esquema permite dizer que. como alguns poileriam ainda tergiversar. y. já que o quarto ti ui| 10 tem a mesma função de um segundo tempo. por um instante. Qualquer um dos quatro símbolos é possível neste lugar. com a incompetência universal que me caiiirierizaria. em nome de uma espécie de falsa evidência. Estariam errados se pensassem assim. um projeto ilrinminado. p l. se no primeiro e no segundo tempos vocês podem ter um símbolo qualquer. as propriedades e leis de sintaxe que se podem deduzir dessa fórmula extremamente simples. se recusássemos este passo e substituíssemos quatro desses vértices pela série e.TEMPO # TEMPO O REPARTIDOR a. e fiz o mínimo que se pode fazer agrupando os símbolos por três. aí metaforicamente.il pura e simples. foi porque não tinha outro objetivo senão recordar-lhes o contexto em que fora introduzida a carta roubada. fiz com que isso fosse controlado por um matemático. ô —> —j Y. li isso que tento ilustrar. l . ou menos ainda. Para começar. Se escolherem para i . pois é na medida em que o símbolo encerra essa ambiguidade que surge o que chamo a lei. supõe o mais. Se não o demonstrei durante o artigo. pois i|iie se podem extrair leis. depois do terceiro tempo. ô -J— —> a.mente se fala. . possam obter a ou p no terceiro.uniria vital. e ele é aí introduzido a partir do momento em que simi'i. purloined. 9? Teríamos sequências diferentes. Mas. a partir do momento em que • ".1 li-.unento de uma impressão. funções diferentes. Agrupando-os assim. Interrompi aqui o meu desenvolvimento. r\.i)'. a. quanto mais avançamos na construção. e cada um deles se acoplaria a dois dos outros. no segundo e no terceiro tempos. já que estaríamos lidando com oito termos. pelo fato desses esclarecimentos terem sido acresrrnlados. 3. Admitam. O que aconteceria. segundo uma ordem que estaria longe de ser evidente. sobre isso ilustrarei metaforicamente a função que poderíamos dar àquilo a que chamarei iii-'. Alem disso. Não acreditem que. o que pode servir para ilustrar u <|iie é necessário num futuro imediato. P Y> § 2.(r se torna o futuro anterior com referência a um objetivo. e todas igualmente simples ao serem con- . Isto é o que demonstra o interesse da escolha de símbolos ambíguos que unem este vértice a a este outro vértice que também chamamos de a. na medida em que é menos.ir lugar um dos quatro símbolos. supõe o menos. na medida em que é mais. a partir de a ou ô no primeiro tempo. o terceiro tempo está submetido a uma dicotomia que exclui que.nii-1 escolhê-las de maneira que fossem metafóricas. na medida em que Implica sempre em sua trama alguns elementos de significante. Confundi-los seria introduzir no próprio símbolo uma ambiguidade.ia ocasião o significante impossível. a fim de poden i i i entrever em que o significante é realmente organizador de algo <-nte à memória humana. embora tenha. O símbolo.io são coisas sobre as quais eu tenha começado ontem a refletir.ntindo do fato de que nem todo tipo de mistério desaparece. extremamente complicadas. que isso seja o mínimo. e que a partir de Y ou P no primeiro. Trata-se de saber o que quer dizer a clareza em questão.

e os temos em dois níveis. Se parto novamente da série odd sem distinguir de saída — como também o poderia ter feito. que não coml " > i i a nenhum problema visual —esta é uma verificação que pode ser l' n. a partir daí. com efeito. desde o surgimento mais elementar do significante. aparentemente a mais simples dentre ns simples. Frege. y. acima da linha de dicotomia. Vou lhes dizer por que me parece interessante limitar a este estrito elemento a criação do primeiro significante. nem mesmo entramos na poesia. surge a lei. Só que o mínimo exame da situação vai lhes mostrar o seguinte. E é por isso que gostaria que mantivessem por um instante em suas mentes a noção de que isso quer dizer simplesmente que. Poderia mostrar-lhes outras propriedades igualmente surpreendentes mas vou me ater a esta. P. devido a inicialmente terem partido de a. a letra m r t l i n . nenhuma dedução da experiência nos pode fazer ter acesso ao número três. Aqui. uma única letra possível. nem nada desta linha. Torno a partir da mesma hipótese. Ele demonstra a vocês i|ne. é determinada de m. Fizemos disso todos os símbolos possíveis. na medida em que operamos no registro da fala. 6. no terceiro tempo. a leitura do sr. a ou p. em que se trata de definições simples e de premissas delas decorrentes. é porque todo o interesse da questão consiste em partir de definições. Mas o que é preciso que tenham no tempo 3 para que tenham p no tempo 5? É preciso que no tempo 3 vocês tenham a. Vou ilustrar isso em seguida de uma outra maneira. A poesia começa aí. esta era uma via mais simples que aconselhar-lhes. esperando que consiga fazer surgir em '. Só existe. distinto do emprego habitual. Isso não quer dizer em . e disserem: Quero ter uma série tal que no primeiro tempo haja a e no quinto tempo haja P — logo verão que. ô. poderão ter a. de onde são eliminados certos elementos intuitivos. se tomarem um termo qualquer da cadeia.n 10 do que podia acreditar o sr.cus espíritos a dimensão que se trata de evocar. niiiis ela é difícil de compreender — para demonstrar que não existe nenhuma dedução possível do número três a partir da simples expe1 iciicia. Essas coisas parecem acarretar grandes resistências em alguns r'. para fazê-los sentir uma certa dimensão. aquilo que se produz aqui. Com efeito. existe ortografia. Mesmo assim isso para nós é muito importante. ao conn. nós analistas. conforme me foi dito — o odd com duas sílabas breves no começo e o odd com as duas sílabas breves no final. só poderão ter. Estão vendo o excesso de possibilidades que temos. isto é. pois se. resulta «l< . e em especial este elemento intuitivo particularmente interessante. Pareceu-me todavia que.1. Ele acreditou dever fazer rodeios • onsideráveis — quanto mais uma coisa está perto da simplicidade. se há algum erro e isso reportando-se ao n i mo duas vezes anterior e ao termo duas vezes posterior. não pode ser y de jeito nenhum.oluto que o acaso seja comandado. apenas fazemos intervir a noção de simetria ou de assimetria. No quarto tempo. l "'(lerão imediatamente verificar. e convido-os a considerar o que se produz no sexto tempo. o anapesto e o dáctilo. de maneira interna. P. e que já comporta uma espécie de engajamento corporal. no momento.il>'. independentemente de todo elemento real. p. fundado na escansão. o que em nada prejudica minha demonstração anterior. é certo. Eis u que esta especulação sobre os a. devemos levar em conta a sua originalidade. no quinto tempo. que talvez lhes pareça de valor mais comprobatório. . matemático deste século que se consagrou . o mínimo iiij-imento de grafia faz surgir ao mesmo tempo a ortografia. vou indicar a vocês que não é disso que se trata. y.u >s fundamentos desta ciência.pintos.1 propriedade que. y. que a ordem simbólica como distinta do real entra no real como uma relha de arado.242 A ESTRUTURA DOS MITOS O SIGNIFICANTE NO REAL 243 sideradas de uma maneira diferenciada. que é a aritmética. no sentido. mas que a lei surge com o M)'nificante. uma letra qualquer. H por isso que se constrói este exemplo. Se escolherem como ponto de chegada. Daí resulta que. a letra P por exemplo. Esta dimenNrto. independente de toda experiência. Em outras palavras. comentando essa obra. rudimentares.i por um tipógrafo —. aquela que se instala no terceiro tempo. Podem se inscrever ali a. por exemplo a letra a. nu eentro. uma vez que.ineira unívoca. Retomo meu quadro. nele introduzindo uma dimensão original. de uma forma simples. isto é. quando pretendem fazer uma série onde se en• < mi i cm duas letras determinadas num espaçamento de tempo 5. se tomarem como ponto de partida uma outra letra. desde que existe grafia. ô é feita para demonstrar. termos dos diferentes vértices na construção do paralelepípedo que lhes ofereci. 0 possível controle de um erro. por exemplo. Isso acarreta uma série de especulações filosóficas e matemáI K as que achei melhor não fazê-los comprovar. Jung. É isso que está em causa. no tempo 3.

que é o seu i. Para prosseguir o trajeto que fazemos metaforicamente através da observação do pequeno Hans. que se produz. Esta criança se vê. de a outra pessoa. sem dramatizar em demasia. que é unicamente I1 r. Não me parece que tenha dado. o que podemos chain. a realidade do conflito inter-humano. ao menos aparentemente. em nossos dias. a saber. terá se remetido ao texto e terá I M ululo se assegurar de que é daí mesmo que se parte. que é o de sua mãe i MI do cavalo grande. o menor sentimento de ciúme. e dizer que. mas menos certa na sua afirmação. 11 n <-sentando de saída uma problemática do falo imaginário.mcial da relação da criança com aquilo que Freud chama. porque o número três nunca é completamente integrado por eles. l i c u d o sublinha para nós. a saber. isso é simplesmente porque o leão não sabe contar até três. que o conflito existe. é bem evidente que ele não está ali. A relação dual fundamentalmente animal não deixa de continuar prevalecendo numa certa zona. pois brinca com • d Wiwimacher que está aqui.i fobia. é sempre aos truques que nos entregamos. A partir de um certo momento. penso. que parece ter H originado dos primeiros tempos da psicanálise. do qual ele é inclusive capaz de i n. Não existe nenhuma espécie de ultrapassagem realmente experiencial do gap entre o dois e o três. Deixo isso à meditação de vocês. a mãe. mais feliz. Vou lhes dar uma ideia que me ocorreu. a partir do momento em que se tenta transpô-lo. n o maior prazer.n. é porque os homens não sabem contar melhor que o leão. afinal de contas. mais intuitiva. Foi até aí que Hans chegou. e tudo parece ir perfeitamente bem. l >. Ali os animais pareciam estar na mais completa liberdade. depois desses lindos antecedentes. de uma relação tão simples. chega. Um certo número de vocês. Este falo é o elemento • . deve ter um faz-pipi muito grande.'. graças a esse liberalismo. de um pequeno obstáculo: a fobia. esta criança demonstra grande pavor tli. ou do papai. cuja picscnça já era anunciada no texto de maneira metafórica.agem que se chama o complexo de castração. O . Ora. que lhes diz que esteve no zoológico onde viu um leão provido de um grande faz-pipi. É com a maior liberdade que ele interroga seu pai e sua mãe sobre a presença ou ausência do faz-pipi. e não se vê que isso seja para ele algo além de um belo objeto ilr brincadeira de esconde-esconde. em última análise.mie de um objeto privilegiado que acontece de ser o cavalo. que está cm ioda parte e não está em parte alguma. Em outras palavras. tão claramente articulada. para surpresa geral. No início. Onde está o inconsciente? Onde está o recalque? Não parece que haja nenhum.ix ismo educativo bastante característico da pedagogia. tudo isso num aspecto de boa convivência e do humor mais pacífico. mas somente articulado. não haveria este gap entre o pré-edipiano e o edipiano que tentamos. sem dúvida na opinião dos pais. normalmente deveria ter visto eclodir entre eles signos de rivalidade ou conflito mais manifestos. mais clara. a saber. conforme o que conhecemos. Entendam bem que é porque o leão não sabe contar até três que as leoas não experimentam. Esta observação me veio à mente num dia em que me encontrava num formidável zoológico situado sessenta quilómetros ao norte de Londres. É muito precisamente neste ponto que chegamos com o pequeno Hans.244 A ESTRUTURA DOS MITOS o SIGNIFICANTE NO REAL 2 245 Receio fatigar-lhes. que não está lá. a i nança passa à fobia. quando a c 11. e vou fazer outra coisa. em meu espírito. O fato de que a imagem do cavalo desponte no horizonte já indica que a criança se prepara para entrar n.i \amos o pequeno Hans no momento em que ele vai abordar essa r ' . A criança se desenv o l v e da maneira mais franca. um salto muito grande quando disse comigo: Pois é. e é justamente na medida em que o homem. a do imaginário.M> que se trata. jamais devemos negligenciar a introdução do significante para compreender o surgimento do que está em questão a cada vez que nos encontramos diante daquilo que é nosso objeto principal na análise. entre elas. com a ajuda de pequenas escadas de corda e de outros troços. Trata-se justamente de perceber que. Eu contemplava o leão cercado por três magníficas leoas.unhem. aquilo que chamamos de um conflito. e afinal tão feliz. transpor como podemos. quando. naquele momento. até mesmo esse l. Poderíamos mesmo ir mais longe. Se não fosse tão difícil chegar a articular o número três.inça dizia à mãe: Se você tem um faz-pipi. E me perguntava por que essa boa convivência entre esses animais. as grades sendo enterradas no solo no fundo de fossos invisíveis. devemos compreender corno. ou do cavalo pequeno. sabe calcular. mesmo assim. como um cavalo.

que não são inteiramente ditas no começo da observação. Como de muitos outros elementos que se encontram em i u. Todavia. até mesmo as carícias de um certo número de pessoas de seu círculo. tudo tem significação. não mais perpassando o texto como fiz até agora. ganz allein mit iler Mariedl. Para ter uma ideia da harmonia que prevalece antes da fobia.mça com a mãe. e as meninas da aldeia. uma de NIIIIS amiguinhas que ele vê. tli 1 lato. agride. igualmente.uiálise de sujeitos femininos nos dá a certeza.-i. Esta réplica só é concebível na dialética ini. e conta seu sonho. A criança sonha que está com Mariedl. com efeito. isto é. e que é o ponto de referência. O que se produz então? Vamos retomar o problema. A ajuda. em t limmden. dada neste sentido por sua mãe ou seu pai no sentido de pô-lo para fora.i 1 1 lança lhe dá uma satisfação que podemos apenas chamar de provr. pela relação aberta e dialogante. como de um elemento intermediário em suas relações com os objetos de seu interesse. Em suas relações com as meninas. certamente. com a introdução da mas- •tl . as meninas a quem pede ajuda e a quem permite que o olhem. qualquer que seja ela. mas que veremos aparecer só-depois. e não ter. numa referência. só pode satisi . muito ordenados. por onde se dá a alegria de atrair a atenção. lista observação evidente.i . é porque parti do seguinte: qualquer que seja a situação ruiil. ilusão na observação. a agressão viril.oriamente substitutiva. Este último termo é empregado pelo próprio Freud para qualificar a diferenciação operada pelo pequeno Hans entre seus objetos — ele não se comporta da mesma maneira com as meninas que considera como damas cultivadas. iii i K Ia assim permanece o fato de que. notem bem que o pequeno Hans se vê manifestando no plano imaginário as atitudes mais formalmente típicas que se podem esperar daquilo a que chamamos. aperta. Isso é o que não a deixa jamais I1 iir i lamente sozinha. li nessas bases que se concebe toda espécie de nova hiância. diria mesmo quase muito civilizados. que Freud manteve com firmeza até o fim no que i l i / respeito à sexualidade feminina: a criança só intervém como subsl i l u i o . se não hesito em acentuar este > . mas essa réplica tem sua importância.conhecer a relação aparentemente dual da criança com a mãe é. quando Hans tem três anos i nove meses. tal angústia decisiva. como com a mãe. já muito sutis.unho para a mãe. Não apenas 10 mlio.i)'. Em suma. devido à entrada i MI |ogo do pênis real. ou reinvestimento em outros objetos femininos. ganz allein. em nossa linguagem rude. Freud o diz l»rm. dos sentimentos dirigidos ao objeto feminino sob o aspecto da mãe — desenvolvimento facilitado. e outras que ele trata à distância. ao que nos dizem. com a mãe. e desempenha um papel importante na instauração de seus órgãos como um elemento de interesse. Liebe per Distanz. mas sozinho com Mariedl. como sabem. e é ii| n condida pouco a pouco pela criança. o eixo. isto é. O fato de que a criança encontre um grande prazer em se exibir é bem demonstrado por algumas de suas brincadeiras. no verão.ioria da criança. « nihn com. mais ou menos presente. como marcada por esta falta liiiulamental. O caráter essencialmente simbólico do faz-pipi se manifesta quando ele vai se exibir no escuro — ele o mostra. mas sozinho com. que não proíbe nenhum modo de expressão entre a mãe e a criança. que se diferencia em dois modos: existem as meninas que ele abraça. mas acompanhando passo a passo a observação para fazer sua crítica. Não há duvida alguma de que a criança Hans leva seis meses para se habituar i presença da irmãzinha. do qual a experiência il. livramo-nos disso dizendo que não passa de in-. no menino. especialmente aquela que sobrevêm com a m. é enfatizada. a qual lhes mostrei que era o plano inicial das relações da • i i. não me atenho a isso. existe aí toda a aparência de um desfecho particularmente feliz da transferência. esta intrusa. A mãe se situa. e com relação à qual . marcado por esse elemento essencial. l" in feita para precipitar tal momento crítico. e do tipo mais clássico. compensação. em suma. numa estação da Áustria. mas como objeto oculto. damas do seu mundo. na presença dele.iiuiação genital real. São dois modos de relação muito diferenciados. Hans faz uma bonita correção: N i n i u/ienas com Mariedl.u-. quando o pai torna a contar o •. Penso não estar forçando o texto ao sublinhar para vocês um detalhe que nunca foi comentado. a partir da qual se concebe a chegada da crise. muito cultivados. Isso se dá. Depois. Todo o progresso que I M ii U.inária. isto quer dizer que se pode estar com ela inioiiamente a sós. 1 . ele põe em prática uma corte. Se a intrusão mil da outra criança na relação da criança com a mãe é. quando sua irmãzinha nasceu há três meses.246 A ESTRUTURA DOS MITOS O SIGNIFICANTE NO REAL 247 faz-pipi desempenha um papel que tende a se presentificar por todos os tipos de razões. a criança nunca está sozinha com a mãe. K» i|iic falta essencialmente à mulher. que ela mesma procura completar. e que já é o signo da estruturação subjacente que lhes dei como sendo a da relação da criança com a MI. Serve-se dele. toda ícahortura da questão.los.

A mãe de Hans. mas não se n. essa mãe tão boa. seriamente. a metonímia do falo? Isso não quer dizer. e que articulam uma divisão maior da abordagem significante de qualquer realidade num sujeito. A questão anterior é: metáfora ou metonímia? Não é. ela é tomada de um pavor louco: Das ein Schweinerei ist. Portanto. tão i lu-ia de cuidados com a criança. como habitualmente ensinam a vocês. O que acontece neste caso? Tudo na conduta da mãe com o l>r(|ueno Hans — a quem ela carrega consigo para todo canto. Esta questão. isso é o que lhes ensino. para além do objeto de prazer que ela sente inicialmente ser ela mesma para a mãe. mesmo que se trate de um ponto oculto no início e que só chegaremos a revelar no fim. Esta situação. em toda situação intersubjetiva tal como se estabelece entre a mãe e a criança. que ela não tem e não terá jamais. como toda situação analítica. se assim podemos dizer. ligada ao seguinte: que ele pode avaliar toda a difeinica que existe entre aquilo pelo qual ele é amado e o que ele pode dar. a de que alguma coisa é desejada pela mãe para além dela mesma. está niiina relação onde é fundamentalmente imaginada. e que aspira a ser. Pelo menos é isso o que ela In . O complexo de Édipo não é de modo algum. Isso. numa referência intersubjetiva. pouco a pouco.n ha um meio de trocar de calças diante do filho.ilolora que ela é metonímica. que Freud adora. tal como esta se ancora em cada sujeito. o que cl. e é por isso que a di l crença começa. essa pessoa tão liberal em matéria < Ir educação: quando se trata de agir concretamente e pôr o dedo na < oismha que a criança mostra e lhe pede para tocar. Ela se refere a esses dois termos que empreguei no passado. como tal.ita disso. nessa armadilha onde ela se introduz para ser o objeto de sua mãe.i pode fazer? Ela está ali para ser objeto de prazer. é passar além p se dar conta. a aparecer no momento em que entra cm jogo o Wiwimacher real. por onde se introduzem os elementos críticos cujos resultados diversos constituem um complexo de Édipo na saída normal. e num estado puramente passivo. desde ii hiinheiro até sua cama — indica que a criança lhe é um apêndice indispensável. Dada a posição originária da criança com relação à mãe. Ela o mostra bem. Neste momento começa a se produzir aquilo a que se i li. vamos retomar do ponto em que estamos. a saber: a metáfora e a metonímia. nada poderemos compreender da observação do Homem dos Lobos. Se não virmos que é aí que se insere esse apassiv. Se existe algo realmente feito puni ilustrar o que lhes digo quanto à dimensão essencial do que está l »ii detrás do véu. e que este se torna para Hans um objeto de satisfação.una angústia. para poder ao menos formulá-la. ao final. o que faz imagem para o espírito na função de substituição não quer dizer nada. temos uma questão a nos formular previamente. provavelmente. e façamos aqui uma observaçãozinha. mesmo assim. como vêem. a partir da observação. para ela. A situação entre a mãe e a criança comporta que esta última tem que descobrir essa dimensão. mas implica. (cm uma dimensão muito particular. abordando-o de maneira mais ou menos negativizada. sehr besorgte. que ela tenha consideração pelo Inlo da criança. trata-se de saber qual é a função da criança para a mãe. é mesmo a observação do pequeno Hans — e de muitos outros mais. a metáfora de seu amor pelo pai ou a metonímia de seu desejo do falo. mas tentem substituir por uma pedra um pedaço de pão quando o enfiarem na tromba do elefante — ele não vai aceitar isso tão facilmente quanto possam crer.micnto primordial. O que a criança pode fazer de melhor nessa Minação em que está aprisionada na captura imaginária. nem que seja colocando aqui pontos de interrogação. Nada pode ser compreendido senão sobre o fundamento desta constelação inicial. trata-se de substituição significante e de saber o que ela significa. com ou sem razão. a mesma coisa o fato da criança ser. deve ser concebida. daquilo que . bonita que só ela. que ela é inc-ionímica como totalidade. isto é. Com efeito. por exemplo. Portanto. é ele por inteiro que está em causa. Substituição. ao contrário. Tudo n 1. isso é fácil de dizer. A dimensão original de cada sujeito é sempre correlativa da realidade da perspectiva intersubjetiva. Logo. o princípio de uma neurose ou de uma perversão. Resumindo. .ida. Ora. Não se trata de substituição real. dizer que a criança é considerada uma meton i i n i a do desejo do falo por parte da mãe não quer dizer que seja como l. É bem o caso de se aplicar esta distinção. Já não se vê aqui que a criança é. e que só será resolvida. com esse tom tão vivo. vocês já sabem o bastante sobre ela. E é aí que se estabelece o drama. no entanto. e com referência a esse falo que é o objeto de seu desejo.1 muito bem para ele se se tratasse de seu Wiwimacher. É preciso tentar esfregar esta observação i Id pequeno Hans para que ela brilhe. em absoluto.248 A ESTRUTURA DOS MITOS O SIGNIFICANTE NO REAL 249 turbação e a entrada em jogo de seu gozo real com seu próprio pênis real.

é a diferença radical entre os dois sentimentos. ideias preconcebidas de finalidade? Vamos tentar saber qual é a função da fobia. A criança concebe então que pode não mais preencher de maneira Nenhuma sua função.In M-i-que espécie de mancha preta que ele tem na frente. perfeitamente sensível. então. Se existe Hlnuinu coisa que dá o sentimento desse elemento negativo alucinató! fln sobre o qual se falou recentemente. pode nos interessar. A metonímia é um proi nlimento do romance realista. Por que ter. mas angústia de quê? Temos alguns traços dela num sonho do qual ele desperta soluçando porque sua mãe ia embora. visam sempre a uma outra iu)isa. ele diz: — Sim. ele diz ao pai: Se você fosse embora. E depois. por trás disso. nada mais ser. > ( d i . Não sei se a fobia é tão representativa assim. li Nriitimento de medo e o sentimento de angústia que aparece quando ii i nunca se sente. Se leram i>'. que não passa. t a m b é m tem a mancha? — Não. Mas a partir do momento em que ela existe também como real. repito. branco. di/ a criança. não há mais muita escolha. é sobre uma base muito BUI is profunda que a criança se inaugura. pelo lugar que ali ocupava. São os arreios? — Não. Num outro momento.il de contas. saltar alegremente e dizer que a fobia é. que é castanho. já cansado. de um amontoado de clichés.il. nessa ocasião. i ioga a criança: É o pedaço de ferro que eles têm na boca? — Níl». ali dentro. pois é muito difícil ilu-i de que a criança tem medo. aqui. mas que ao mesmo tempo não é nada. l ogo. o que nos aparece de mais claro tu i Irnômeno dessa cabeça de cavalo. a mãe podia conseguir se satisfazer. Freud o sublinha. mas em que isso nos faz avançar? Por que uma representação tão singular? E que papel ela desempenha? Outra cilada consiste em dizer que existe uma finalidade. É quando ele é separado da mãe e está com alguma outra pessoa que suas angústias se manifestam. apresenta enigma que fica sem resolução até o final do caso. muito para além de . Se tais clichés interessam é porque. Podemos completar este termo com mil outros traços. exatamente.u mais disso. que faz dele um animal dos tempos pré-históricos. e que é i. pois ela comporta clrmcntos quase irredutíveis. que a fobia deve servir para alguma coisa. para nada? Tudo se teria passado igualmente bem se ela não houvesse estado ali. preto. não vamos i. • i • K. O que é a fobia. passar para o caminho do meio. Vamos tentar defini-la. aqui. que o solo lhe foge aos pés. diante do i > " inlin. o elemento representativo. Seja como for. se podemos nos exprimir assim. isto é. Visam. Isso é o que faz com que. de súbito. Hlii lírio dia. IMO não se deve ao pequeno matiz real que ele nos traz. de uma separação. E o cavalo que você está \ n J . durante um desses surtos I r u i i c o s que sobrevêm regularmente na análise.250 A ESTRUTURA DOS MITOS O SlGNIFICANTE NO REAL 251 ela realmente é. e ijur se chama uma metonímia. cujo mistério não deixa de evocar . muito pouco representativos. Se um romance realista. Pode-se. ela serviria para alguma coisa? Não existem também coisas que não servem para nada? Por que decidir antecipadamente. de um termo que estudamos. gostaria desde já de fazê-los observar que a diferença entre angústia e fobia é. E o pai mi. Certamente. l alo. O pequeno Hans articula isso de mil tu-uiciras. a irmãzinha |in-|>ara ao máximo a questão. não é tão simples assim uma fobia. afinal. Está bem. precisamente. uma angústia sobrevêm inicialmente. rejeitada do campo imaginário onde. ao que parece ser o mais contrário. não. mas permanece um resíduo absolutamente singular. O certo é que não se sabe o que é esta coisa preta i|in rsiií diante da boca do cavalo. Mas o que é uma fobia? Isso não é assim tão fácil de compreender. Trata-se. como tal. é realmente este eleinrnlo de imprecisão. e que o sentimento de angústia se distingue da fobia. em todos os casos.— essas cores não deixam de ter um certo interesse —. l ima coisa é certa. dizendo que a fobia serve para alguma coisa? Talvez ela sirva. o que pode fazer de melhor é imaginar-se tal como é imaginada. Freud frisa que essas angústias aparecem em primeiro lugar. que é. não ser nada mais que este algo qur parece ser alguma coisa. É então que ela vai se imaginar como fundamentalmente diferente daquilo que é desejado e. isto í. tudo aquilo que falta. Ela é imaginada.ivalo acima de Vénus e Vulcano no quadro de Ticiano.ri vação sabem que este cavalo. aquele ali tem. diz a criança. iiim. é claro. nessa ocasião? Qual a estrutura particular da fobia do pequeno Hans? Eis o que talvez nos venha a dar algumas noções sobre a estrutura geral de uma fobia. Por que. como sendo ela própria algo que pode In colocado completamente fora do jogo. portanto. mas.

a criança estava. e acaba de ser rejeitada dali. l i. a partir da emergência da fobia. é que. existe aquilo que nos captura. ser considerado como elemento primitivo. • i-1 1. e talvez mais tarde eu lhes diga algumas piilavras sobre isso.unção que fica na entrada. não II < onstroem as aldeias de qualquer maneira. existe limiar. Angstpferde. com ajuda da fobia. para resolvê-la.o ponto preciso em que a questão da fobia se (m mula. também. ou pelo menos precipitável. alguém que jamais nomeio. a mancha preta talvez não deixem de ter algo a ver com ela. Aí está o c|ue a fobia nos permite articular. Mas isso tampouco é certo.iim. e contra alguma coisa inteiramente diversa. concernentes à maneira como os »>s| tacos são construídos numa aldeia. O medo concerne sempre a alguma coisa articulável. absolutamente. porque não devemos nos precipitar. real: estes cavalos podem morder. não ir depressa demais. mas o que eles portam é o medo. precipitado nisso. eles têm ainda muitas outras propriedades. elemento último na pNirutura da neurose. ha1'iiu. Até então. Sem dúvida. Em conformidade com a indicação de Freud que. 20 DE MARÇO DE 1957 . transformamos a anC ir. com referência àquilo que ela é levada a responder: peco-lhes que tomem a palavra no seu sentido mais profundo. Aqui.. A angústia — e aí não faço mais que repetir Freud. Mas no vivenciado o que há no pequeno Hans é o medo. Este é o termo expresminiciUe articulado por Freud: a fobia é construída à frente do ponto lie angústia.i ia em medo. o mundo lhe aparece pontuado por toda uma série de pontos perigosos. nessa Vorbau do meu discurso. Jíi começa a nos aparecer alguma coisa que se articula e nos mostra MI. Quisemos somente pontuar hoje que não podemos. duas coisas. Vamos tentar. em absoluto. l laveria muito que aprender. que o articulou com perfeição — é algo que é sem objeto. a angústia. instaura uma nova ordem do interior | do exterior. que os cavalos caiam. O que acontece a partir do momento em que a fobia entra em jogo na sua existência? Uma coisa é certa. aparentemente. aqui. ela está na angústia. depois de h. um domínio. vamos nos reportar. In/cr do medo um elemento primitivo na construção do eu. que é. mais tranquilizador que M . a função de um interior e de um exterior. A imprecisão.252 A ESTRUTURA DOS MITOS O SIGNIFICANTE NO REAL 253 todos os detalhes. como se os cavalos recobrissem algo que aparece por baixo. a uma de suas formas mais típicas. No conflito neurótico. ao formular questões sobre a função da fobia. mas seu sentido. ou de se imaginar rejeitada. isso é muito bonito. e sim medo. Se devemos. simplesmente. mais a visada do romance estará além. a saber. Nosso caro pequeno Hans se vê. e que HI ontcce de ocupar uma posição de leadership numa certa escola dita. ele se imagina como um nada. Nas civilizações primitivas. casa de guarda. de repente. tentar indicar em que direção se inicia. existem campos culti"l»s e outros virgens. contrariaineiiic ao que foi articulado da maneira mais formal. uma área. A fobia não é de modo algum a angústia. por hoje. para fazer disso M hase de toda a sua doutrina.ústia. nomeável. Quanto mais metonímico ele for. por sua função de metonímia.as pessoas mais ou menos próximas da libertação da natureza. Contentamo-nos com muito pouco. no interior de sua mãe.ivc los conduzido até. então. '. parisiense. em suma. Medo de quê? Não o medo do cavalo. i "iii mais ou menos justiça. de modo que. o medo intervém como um demento de sentinela avançada. e o medo é. mas o medo dos cavalos. mais difundidas. em caso iilj-. e peço a v > < es que não parem por aí. pontos de alarme que o reestruturam. e no interior disso. sentar como a imagem que guarda o limiar — Schutzbau.is fundamentais quanto aos pontos de referência de que dispõem • '.inj'. em primeiro plano. reportarse a outros casos. a agorafobia. eles podem cair.i função. diante dos cavalos da angústia. e que nos apresenta um mundo pontuado por sinais de alarme demarcando um campo. por natureza. Os cavalos saem da angústia. Vou ficar.ilmente. a saber. e apesar do tom dado por essa palavra. •>!•. a saber. sem objeto. aconselha. é o seguinte: ela introduz no mundo da criança uma estrutura. precisamente. uma série de limiares que se põem a estruturar o mundo. O medo não pode. não digo a função da fobia. Pode ser até mesmo que conservem neles os vestígios da angústia.nrria muito que aprender aí. Para dizer isso de forma mais viva que teórica.1 que. pelo estudo de certos elementos • ("r nos são trazidos pela etnografia. nos diz ela: que os cavalos mordam. da próxima vez. não é angústia o que ele experimenta. e ilumina por detrás. Quero. ver aonde a sequência das coisas nos poderá levar. de todo esse cintilar de seixos que nos é dado. e existe também o que se pode ' l » . A criança tem medo de que aconteça alguma coisa de real. Vorbau. este preto que começa a flutuar. limites que significam . ela põe. que certamente tem um valor em si. antes de ver se a fobia é uma espécie mórbida ou uma síndrome.

chegados com o pequeno Hans ao ponto em que. que está ali. com frequência. iiiiina situação onde nem tudo ia assim tão mal.mdo de nosso penúltimo encontro. Por ser inabitual. e fazê-los perceber. o amovível. ainda que seja niiíivés de um passeio inabitual que espero poder lhes representar essa topografia. ou "As teorias infantis sobre a sexualidade". onde verão lormulado. 254 . A fantasia das duas girafas. sobrevêm a angústia i . de vocês retornarem ao ponto de partida sem se dar conta. A transposição simbólica do imaginário. o seio. nos. Quero simplesmente lhes mostrar. ao alcance de suas mãos? Então dizem: — Que metafísico. no processo dito pré-edipiano. nele introduzir um objeto simbólico. por exemplo. intencionalmente. torna-se ele piopno simbólico da frustração. Nossa referência é o quadro que já lhes apresentei t|ii. não lhes ocorre.i. A mãe Minbólica se torna real na medida em que se manifesta em sua recusa 11<. Passear. porque é a mais simples (|iir nos permite sintetizar toda uma série de acidentes. trata-se para mim de ensiná-los a imaginar a topografia de um campo fora dos itinerários já percorridos. enfiar-se em algum lugar entre o desejo de sua mãe. O objeto da satisfação. aí. que se furassem a parede estariam no primeiro andar da livraria ao lado. o falo. que é mesmo essencialmente o que importa. recusa de objeto de amor. Trata-se de topografia.amor. que as perversões. para fazer um furo real. ao mesmo tempo. por exemplo. "As pesquisas da criança". e não de passeio ao acaso. este passeio nem por isso deixou de já i r i sido percorrido. e a necessidade da passagem pelo complexo de castração. que todos os dias. O Krawall e o orgasmo infantil. Sendo o real pleno l n n sua natureza. porque este não é um iinhocil qualquer. de cerimonial dos itinerários referenciados. O objeto imaginário da castração é. o que há de mais importante. o que se chama assim. Lembro a vocês que distingui uma da outra. De que se trata? Chegamos. O furo real il. XV PARA QUE SERVE O MITO Funções e estrutura dos mitos. devemos postulá-la. Trata-se de lhes permitir observar certas conexões.i privação é justamente uma coisa que não existe. ao seguinte ponto. o trabalho continua na livraria vizinha. Para fazer-se objeto de amor para esta mãe que é. Ela está estritamente iirliculada no capítulo dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade intitulado "Die infantile Sexualforschung". a criança é levada progressivamente a perceber que deve ilrslizar para uma posição terceira. portanto. esse maldito Lacem. O enraizado. conformando-me • iniamente ao que podem encontrar no texto de Freud. enquanto tomam seu banho. que ela aprende a experimentar. fazer um passeio não é uma maneira ruim de se reconhecer num espaço considerado. KC concebem e se explicam em seu conjunto em relação à teoria infantil da mãe fálica. de modo que não fiquem reduzidos ao que vou chamar. para ri. e o objeto imaginário que é o falo. Ou ainda. o perfurado. 1 1 ohia. Mas. Essa representação. naturalmente. é preciso. isto é. Acontece. quando estão num lugar tão familiar e tão perfeitamente autónomo quanto o seu banheiro. ele está na observação do pequeno Hans. inconcebíveis de outra maneira senão como os frutos da estrutura de relações simbólica e imaginária do período pré-edipiano. como lhes digo. coisas que qualquer imbecil poderia encontrar — a não ser um psicanalista. os elementos do plano do conjunto.PARA QUE SERVE o MITO 255 l I r . Vamos retomar nosso passeio pela observação do pequeno Hans.

certamente. devemos nos referir à noção de mito. ter uma importância da qual a simples oposição cerrada entre o intelectual e o afetivo não poderia dar conta de modo algum. n. se podemos empregar este termo. e de toda M unlem de atividades que são. Vou tentar fazê-lo aos poucos. essas atividades 1 1 i niioniais se reproduzir nos nichos mais inesperados. que a perversão está estruturada em relação a tudo aquilo que se ordena em torno da ausência e da presença do falo. l 1 ' de uma coisa inteiramente diferente que se trata nesta atividade. porque o grande se encontra sempre no pequeno. • 11 K iii vá o que se pode chamar de seus temas afetivos. ter aprofundado a noção do mito. creio. a data em que este veio se acrescentar à composição do livro. O pleno florescimento da concepção. mais imediatamente conectadas. o que no entanto é realmente i lia intenção fazer aqui. ensinar a um psicanalista a relativizar a noção cerrada e ligeiramente marcada por um tom pejorativo que ele maneja volta e meia sob o termo intelectualização. realmente.256 A ESTRUTURA DOS MITOS PARA QUE SERVE o MITO 257 Ainda existem pessoas que sustentam que a perversão é algo de fundamentalmente tendencial. em suma. Vocês sabem tudo o que se pode pôr sob este registro tanto na Vida individual quanto na vida coletiva. mas que tomo por seu valor expressivo. seria aberrante isolar completamente nosso campo i. isto é. ser muito versado no assunto. neste. Pensam. é claro. não é análogo. aliás indevidamente. i i» é. a atividade de pesquisa que é a da criança em relação à realidade sexual. Qualquer coisa que se apresente. Não que eu pretenda. do ponto de vista genético. o capítulo que lhes designei. de maneira mais ou menos implícita. manifestando-se por ações absoliii. O que diz Freud é exatamente o contrário. dar a vocês aqui uma metafísica geral. Não existe exemplo de ativiil. com uma noção difusa. com o complexo de castração. responde a uma necessidade inteiramente diversa daquilo a que chamamos. em comunicação. projetando nosso domínio. como demonstra o fato de Freud afirmar. Vamos classificar este conjunto <>es ou atividades sob um termo que talvez não seja o melhor. e a seu papel na economia do desenvolvimento da criança. forçosamente. ela está no mesmo nível da neurose. como se situando no domínio intelectual pode realmente. nem que seja de horizonte. correlata de toda uma série de i. O negativo de uma negação não é de modo algum. a pretexto de que eles podem ter alguma analogia de n>ii|unto com aquilo que fazemos. mas cerimoniosas. Em consequência. i i i D mais global. como se esta fosse o seu positivo. como se faz com i n u i i a frequência. por etapas. interpretar a noção freudiana de que a perversão é o negativo da neurose. singularmente. sobre toda uma série de ordens e campos escalonados il. sua densidade e seu equilíbrio.iTam algumas vezes. a saber. tampouco o conjunto dos problemas humanos. por si só. e pela mesma dialética. para empregar o vocabulário de que me sirvo aqui. Em suma. Não é preciso. instintual e que é um curto-circuito direto no sentido da satisfação que faz.inu-nie irredutíveis a fins utilitários. para perceber isso. i i i < bem mais profunda.humana que o elimine. Ela é. Ela con4>pnu' ao conjunto do corpo. de maneira insuficiente r ln-iii pobre. |ii i|iie também me parece necessário acentuar cada vez mais a continuidade entre nosso campo e os elementos referenciais a que creio di VIT remetê-los. i alguma razão para isso.'. A importância dada muito cedo por Freud à própria noção da teoria infantil.lecusarmo-nos a ver o que. a atividade intelectual. Mesmo as civilizações de tendência muito l< ii irincnte utilitária e funcional vêem. O que se chama de teorias infantis. seu positivo. às voltas com uma realidade que nos é . merece incontestavelmente que nos detenhamos nela. i il. estruturadas em torno ili i. Quero somente lhes falar da nossa. Ela pode ser estruturada de maneira a ser o seu negativo. na criança. da maneira mais clara. Seria perIriiamente descabido cair num sistema do mundo. à primeira abordagem.ioões.is de imagens. como já me iliv. de modo algum. Ela envolve toda a atividade do sujeito. para centrar o valor exato iltti|iiilo a que se chamam as teorias infantis da sexualidade. l ' i n contrapartida.nli. aquele tltiN alividades não somente cerimoniais. ou mais exatamente o seu inverso.is. assim. É preciso que i i ' i . Esta projeção não poderia. pois a edição alemã tem o defeito de não recordar. a propósito de cada capítulo. o que significa Ha dirige os afetos ou afeições do sujeito de acordo com as linhas HL n.ujuclas mais vizinhas. nem i nhrir todo o campo da realidade. mas é tão estruturada quanto aquela. mas sim diretamente i uiu-ctado. no fundo de crença que ordena a consciência comum. A perversão tem sempre alguma relação.i realidade. A importância das teorias infantis da sexualidade no desenvolvimento libidinal deveria. iii. só foi acrescentado aos Três ensaios muito depois da primeira edição — em 1915. no sentido mais amplo. cujo caráter superestrutural é admitido. como se a perversão fosse em si mesma a satisfação recalcada na neurose. esgotar de jeito iifiihum a realidade.

i !•. sugerindo invariavelmente a noção de uma estrutura. muito distinto desta. ao passo que o mito é. com essa eficácia ambígua que o caracteriza. perfeitamente legítima ie do mesmo modo. tal como se coopta a ele. no sentido mais material da palavra. por essa razão.imcnte de acordo — sem recobri-lo completamente — com aquilo i|iir se inscreve sob o termo próprio de mito na exploração etnográfica. nem facilmente. tal como se apresenta ao homem. e toma-la sob diferentes aspectos estruturais. apenas. se este caso é um labirinto.ir. A necessidade estrutural que i i . Estabelecer essas conexões me parece indispensável para bem situar nosso domínio.n i cada por toda expressão da verdade é justamente uma estrutura a mesma da ficção.ido é dizer que a espécie de molde oferecido pela categoria mítica i certo tipo de verdade na qual. outras ciências humanas. também em sua visada. I I .pi-cífica. Ele está muito mais l n» M mo da estrutura que de todo conteúdo. da existência e da não-existência. ao fato de que i Ir r o sujeito de um sexo. uma outra. à criação do homem. O que se chama um mito. mas à sua origem f. Não pode deixar de lhes aparecer que isso entra. no sentido que demonstra certas constâncias que não estão absolutamente submetidas à invenção subjetiva. uma mixórdia. Responder com o ser não é. Aí está uma coisa que não pode ser separada do mito.dureza. referências mais próximas e termos mais articulados. mais exatamente. por seu conteúdo e por sua visada.1 plica. e da qual ela porta. até mesmo naquela. digamos que ele participa i li' i . Durante todo este tempo em que lhes venho falando de Hans.otável. pode . vocês puderam perceber que. Pode-se toma-la sob sua forma literária. é porque estamos desembocando da maneira mais natural na noção das teorias infantis. que implica que toda modificação implica por sua vez. tais como se apresentam em sua ficção. no conjunto. à primeira abordagem. de ii-mas ligados. simplesmente. Mas esta ficção apresenta uma estabilidade que não a torna de modo algum maleável às modificações que lhe podem ser trazidas. complei. por exemplo. de ficção. ou. O mais adeijii. a mensagem formalmente indicada. à existência do próprio sujeito e aos lioi i/. de nosso amigo I I I idi-gger. e se reencontra e se ii . nem ao . ('abe a nós. algumas muito ricas. desemboi iindo na filosofia. do nascimento. Vamos simplesmente nos aproximar do mito como de uma primeira evidência. Se convém agora introduzir a noção do mito. mais recente. () mito se apresenta. pois. por um lado. que ela tem alguma coisa de atemporal. cujo parentesco com a criação poética é surpreendente. a propósito do fato de que analisava uma ficção. em toda ficção corretamente estruiin. realmente. em especial. depois das observações que lhes fiz sobre o fato de que n n. Aí está ao que nossa rípcriência nos mostra que a atividade mítica se"emprega na criança. perceber que se trata de temas da vida e da morie. até mesmo. um caráter de ficção. se podemos dl/rr.258 A ESTRUTURA DOS MITOS PARA QUE SERVE o MITO 259 acessível através de outras disciplinas. na própria verdade. seja ele religioso ou folclórico.ontes que sua experiência lhe traz. em qualquer etapa de seu legado que se o considere. sobre todas as espécies i li ilados. inexato. Responder com a natureza vai nos deixar nr. para que nós o entendamos melhor. que são mesmos que podemos de imediato abordar em nossa experiência. assim. i 110. Temos. apresenta-se como uma narrativa. do seu sexo natural. de um luxo.iiisfeitos. na classe dessas elaborações teóricas que desempenham um papel tão importante. i i uipre profundamente desnaturada. Em alguma parte do Seminário sobre "A carta roubada". ao menos num certo sentido. é em razão do lugar que nele ocupa toda uma série de elucubrações do pequeno Hans. não à origem individual do homem. Pode-se dizer. visam sempre HLns ou menos. pode-se constatar essa estrutura que. Para empregar um termo antigo. à génese de suas relações nutrizes .ida. Pode-se tentar definir sua estrutura quanto às configurações que ela define. que dão a impressão de uma proliferação. Por outro lado. não podemos deixar de ver que se trata ih u n i a relação do homem — mas com quê? Não vamos responder depressa demais a este com quê. Trata-se. i se demonstra. com Berle/a. mas talvez fosse um pouco longe demais.íter de um esquema no sentido kantiano.i i designada como a mesma da ficção. a saber. Pode-se dizer muita coisa sobre esta narrativa.(-. da aparição daquilo que ainda não existe. e mesmo. ao mesmo tempo. MO c. A verdade tem uma estrutura. precisamente. por outro lado. por nos limitarmos ao que é nosso i iimpo e nossa experiência. a verdade. com um caráter de iin '.IM>. essa ficção mantém uma relação singular com alguma coisa que está sempre implicada por trás dela. dizia eu.u . pude escrever que essa operação era. Vou indicar também o problema suscitado pelo fato de que o mito tem. por mais pertinente que seja essa referência. Os mitos.

n é tão sensível quanto no mito. Continuando a experiência numa série de mitos. a proliferação de temas. os termos pai e mãe. pode fazer com que isso apareça. e. já que se trata de alguma foisa que em si não significa nada. |. maléfica ou benéfica. a relação do homem com uma força secreta. i " . por um lado. que aquilo que é articulado por um sujeito passa. mais que<pelo método das analogias. como atividades gratuitas. por outro lado. a mãe sendo desconhecida para o i. o mais oculto. i. vocês vão dispor. me i rã de se tratar o mito. A fecundidade comportada por essa formalização dá a pensar que nesse sentido é que foi possível prosseguir. A formalização isola nos mitos elementos ou unidades cujo funcionamento estrutural é. toda . Dizer. Isso nos dá uma ideia do peso. Tudo repousa na operação de transformação. de alguma maneira. mas essencialmente caracterizada pelo que tem de sagrado. Nos diferentes > i 11 in-s de uma constelação que se parece corh aqueles pequenos i u l M I S que eu desenhava no quadro da última vez.i (iulcm das significações. e que o assassinato. em nenhum In. que encontramos no relato do caso do |H-(|ueno Hans. à domesticação dos animais. em seu nível. a que se liga um certo caráter de crença. capaz também de introduzir na ordem natural. jamais apreendida minimamente entre. Tais elementos puderam ser isolados e sua eficácia posta em prática. na medida em que ela é recebida pelo sujeito.mtcs. 1 . constantemente questionada. para Mihmetê-la a esta prova. o de Polinice. ao menos de forma aceita. de realizar a pura e simples introdução do instrumento significante na cadeia das coisas naturais. Esta é a potência que faz o homem capaz de introduzir na natureza aquilo que une o próximo e o distante como o homem e o universo.260 A ESTRUTURA DOS MITOS PARA QUE SERVE o MITO 261 fundamentais. implica uma certa dúvida a respeito da autenticidade da construção cm jogo. diversamente designada nos relatos míticos que explicam como o homem adveio em relação a ela. da presença. Na primeira geração. Essas são as unidades da construção mítica. à agricultura. Quando passarem à geração degtiinte. que definimos sob o nome de mitemas. comparável — sem no entanto lhe ser idêntico — àquele isolado pelo estudo da linguística. se elabora segundo um método cujo caráter de formalização indica que um certo passo já foi dado. i . UNO não nos virá à mente. l " > i exemplo. quero dizer. não somente suas próprias necessidades e os fatores de transformação a elas submetidos. Se existe algo dessa natureza. o poder que ele tem de manejar o significante ou ser por este manejado. de seu impacto próprio.ii|ciio. ao estado de verdade recebida. sugestão.rmpre. incluir-se num significante. mas a noção. Daí o interesse que podemos ter pela investigação dos mitos. O próprio termo. Este preâmbulo lhes indica com que espírito vamos abordar. mas que carrega. que um incesto e um assassinato são coisas equivalentes. colocados à prova dessa decomposição para ver como funciona a recomposição.mcamente imaginativos. mas a comparação de dois mitos. e muito especialmente. Essa potência sagrada.i i emulada por um certo número de hipóteses estruturais sobre a i u. irão demonstrar que H noção de irmãos gémeos é a transformação do par pai-mãe na l u-ira geração. de seu instrumento significante. certamente. está situado no IIII-MMO lugar do incesto. Encontramos aí também. o poder que ele tem de encarnar a instância deste significante em uma série de intervenções que não se apresentam. à invenção dos grandes recursos humanos. à primeira abordagem li. e que constitui de certa maneira uma vestimenta dada à realidade.1. é muito possível que eles lhe houvessem sido sugeridos. e cada vez mais. originalmente. deixa-se situar para nós numa identidade manifesta com o poder da significação.i|in-sontar uma formalização sem ambiguidades. há incesto. i r i o s do mito. num outro. segundo leis que só interessam por . Mas a palavra sugestão deve ser tomada aqui no sentido mais simples? A saber. que vai mais além. que já há algum tempo. Qual é a autenticidade dos temas imaginativos do pequeno Hans? heud mesmo o evoca. ao fogo. sob a condição de se abstrair toda analogia aparente. as elaborações dos diferentes elementos modernos taxiemáticos. pela mitologia científica ou comparada. j A relação de contiguidade dos mitos com a criação mítica infantil é suficientemente indicada pelas aproximações que lhes acabo de fazer. ou de dois . O que se isola aqui é •.i i \emplo. recenseamentos precisos. da instância do MiMiificante como tal. de uma identidade profunda. percebe-se uma surpreendente unidade entre os mitos aparentemente mais . e introduz uma . as referências culturalistas e naturalistas até aqui empregadas na análise dos mitos.

a produtividade pré-delirante do doente se manifestava estritamente segundo suas próprias estruturas. ou de efeito de sugestão. acelerar-se. e como ele se apressa em compreender demais. no paciente que eu interrogava. e a fobia assumir um caráter de hiperprodutividade absolutamente notável.mria para Freud. conforme a previsão de Freud. muito longe disso. que Freud nos diz ter dcliberadamente deixado na ignorância de dois temas que ele muito (iiovavelmente iria encontrar. nem mais nem menos. não se tem em momento algum a impressão de uma produção delirante. alguém me havia sublinhado. O modo interrogatório do pai se apresenta a todo instante como uma verdadeira inquisição. não pertence. outras vi-/. Vê-se o mesmo. às vezes pressionadora. a fase ascendente e a fase descendente do Édipo. Sua colocação na estufa. e depressa demais. Como Freud sublinha em muitas passagens. com ares de pouca importância. como seu próprio comportamento. sob o fogo cruzado il.iricão é perfeitamente inesperada pelo pai. e deve ser recebida por cada sujeito? Não é isso algo que dá fundamento incontestável à noção de sugestão? Não somente esta sugestão existe no caso do pequeno Hans. quero dizer. Tem-se. e também — embora ela tenha um caráter imaginativo. se na época em que nos situamos. e que i-1 d i vãmente surgiram durante a exploração da criança por seu pai. como por exemplo o que se chama de complexo anal. a necesnl. a ninguém. Aí está aquilo a que eu gostaria de introduzi-los. l ''06-1908. por sua natureza. A l mal de contas.262 A ESTRUTURA DOS MITOS PARA QUE SERVE o MITO 263 crítica fácil que é. Ainda que provocada ou estimulada por uma pergunta.i interrogação paterna. Isso é mesmo de tal modo lúdico <|iu' o próprio Hans tem às vezes uma certa dificuldade para levar a • «usa até o fim e sustentar a via em que se engajou. . Todos os tipos de mal-entendidos se manifestam na maneira como ele registra as respostas da criança. com seus constantes erros apontados por Freud. a saber. a nítida impressão de uma produção lúdica. esta ainda não foi inteiramente esclarecida e revel. mas vamos vê-la eclodir abertamente. a partir do momento em que a organização simbólica do mundo com os elementos culturais que a sustentam. por exemplo.ide estrutural que preside. Sua . aparecem menos termos • c instantes que uma certa configuração. vemos ao longo de toda a observação o pequeno Hans reagir . em seu centro. Em todo o caso. Esta é às vezes fugaz. o complexo de nislração. mostra ter sido favorável nele a uma verdaileira cultura da fobia.»|iiela magnífica e absurda história. nesse próprio jogo. o complexo de castração já é uma chave de capital impori. este desenvolvimento. que tem mesmo o caráter de uma direção dada às respostas da criança. a . Ele é Ix-in capaz de dizer: Olhem. afinal. nem . Quando se trata de Hans. com sua marca e sua força de proliferação próprias.ip. sem dúvida. não apenas à construção de cada um desses a que podemos chamar. o caráter imaginativo de algumas de suas construções. a propósito de uma de minhas apresentações de doentes. Do mesmo modo. cabe dizê-lo. o que lhe parecia indicar uma certa nota histérica de sugestão. nem mesmo que ela teria tido. ainda mais ser levado em consideração? A quem.ive que anda no meio das outras. grosseira.ilu-r. Não vamos nos esquecer de que. O complexo anal desempenha seu papel na observação. com tudo o que este termo comporta de implícito na linguagem de cada um — de invenção gratuita.ula a todos como a chave central. pequenos nulos de Hans.i-nielhantes prolongamentos e ecos sem a intervenção paterna. o que Freud igualmente sublinha. obrigatoriamente. é extremamente interessante notar a que correspondem os diferentes momentos da produção mítica no pequeno Hans. mais que nós. Freud quer dizer que o pai não estava de modo algum iid vertido de que o complexo de castração é a cavilha por onde passam n instauração e a resolução da constelação subjetiva. com as precauções habituais. o reviver mais ou menos ordenado de estados de ânimo . o complexo anal e. nos limites da farsa. a partir de um certo momento. não acreditem no que estou dizen<!<>.i intervenção do pai real. arrebatar-se. < instaria em especial de chamar a atenção de vocês para o seguinte: i|iie nem sempre. Recentemente. mas não vai mais adiante do que Hans deixa mostrar a propósito do loumf. por que não? Mas isso não é algo que merece.. mas também ao seu progresso e suas transformações. respondem a elas da maneira mais sensível. sobre a Invcrvenção da cegonha no nascimento de sua irmãzinha Anna.es perceptível de modo impressionante. o pai intervém de maneira aproximativa. Nada nos permite pensar que a fobia teria tido •. É uma pequena i li. Isso é absolutamente manifesto à leitura da observação — as construções de Hans estão longe de ser independentes da intervenção paterna. é o seu conteúdo que importa. quando era fácil perceber que não era nada disso. Logo.inieriores. até mesmo francamente desajeitada. legítima. muito mais.

o difícil problema do orgasmo na masturbação m i . e a faz dizer que ela tem um Wiwimacher. Insisti há muito tempo —na minha 11 •'. Por que no paranóico? Tentaremos responder a isso no jiiTrurso. no entanto. dado que isso já dura há algum tempo. Isso em que ele pensava é: — Ela tem ou não tem? E ele lhe pergunta. íí singular que Freud não formule a questão de saber se a confusão.. O próprio Freud admite. a alguma coisa ipir podemos chegar a qualificar de orgasmo. uma intensificação da fobia sob a ação do pai. uma combustão. que é um dos temores que a criança experimenta ili. o nascimento da irmãzinha com todas as reações que isso acarreta em Hans.. Existem novidades entre os objetos da mãe. e só neste momento? A questão permanece muito claramente formulada. muito possivelmente. e ele está com ela na conivência do jogo imaginário. cai da situação. Hans está. realmente. no seu vivido e seu desenvolvimento. intervém o falo sob uma outra forma: falo da MI i . e retoma por sua conta que poderia ter havido ali. mas este está em jogo há pelo menos um mm. É sempre o mesmo objeto. de irrupção atordoanIt-. nas declarações da criança desde o começo da observação. Essas não são mais que verdades primeiras. n immilto. Isso é o bastante para nos indicar. que este falo seja para ele algo de real. a saber. pelo contrário. Este é um pequeno enigma de que teremos a solução I 1 ii. não é isso que se apresenta em primeiro plano no momento da irrupção da angústia. m t i l . Este jogo se manifesta da maneira mais clara. É necessário para ele que a mãe tenha um falo.u. Um masculino está implicado aí.i inteiramente diferente. n i i i i i o especialmente no paranóico. Todavia. Afinal de contas. observações sufi• K nii-s para abordá-lo. Esses elementos de real não são unívocos. sem ejaculação.. momentaneamente. e quem sabe se a resposta o satisfaz. alguma coisa. já que somente quinze meses mais tarde é que eclode a fobia.i. Hans está excluído. pois. com tudo o que introduz de complicações. a masturbação tendo sido confessada pela criança no plano da •lonicão. pois não tem. da última vez. a diversos elementos de real que vêm complicar a situação. pois a ideia de um obreiro. vou lhes indicar o esquema geral em torno do qual se ordena de maneira satisfatória para nós o que vamos tentar compreender sobre o fenómeno da análise de Hans. Noutra. onde se misturam a necessidade direta que ele tem do amor desta e aquilo que chamamos de jogo do engodo intersubjetivo. Assinalo à > i " Cs. um demento muito difícil de integrar. Toda a nossa experiência nos indica que existe manifestamente. até mesmo com n i n orgasmo que não seria o seu. . a essas relações com a mãe. devido à integração de sensações liga• 1 1 no mínimo. pelo menos indica isso quando diz: — Eu estava pensando. e no entanto era preciso ainda dizê-las. numa certa relação com sua mãe. Krawall.uiic do cavalo. que ele está no horizonte de nosso questionamento. não está em relação com o orgasmo. de que nada poderia ter sido entrevisto l» l. graças às boas relações existentes entre ela e seus pais. como em Uhrmacher. de um agente. l M'. em certos sujeitos.i criança. uma precipitação. Freud admite com muita facilidade H afirmação dada por estes. à turgescência. Por <|iu. nem mesmo talvez essa insistência tão pressionante durante algum tempo. eclode em suas afirmações a ambiguidade que faz aparecer essa relação numa perspectiva de jogo. Freud não o resolve. Quanto a saber se ele não teria I u ncbido uma cena entre os pais. e eu tampouco o abordo de saída. Mas encontramos constantemente. sobrevêm de súbito uma certa descompensação que se manifesta por uma angústia no tocante. mas estas não se manifestam de imediato. da primeira sensação orgásmica lompleta. o testemunho do caráter de invasão dilacerante. precisamente. e. A todo instante. dissemos. que apresentou para eles esta experiência. e por parte de todos. Numa vertente. e se reencontra em outras palavras precedidas pelo prefixo wiwi. é dela ejetado l ' i l. Ela está ligada.10 difícil. no desvio em que nos encontramos.<• ou num texto quase contemporâneo — no caráter devastador. Existe a intervenção do pênis real. e até que ponto? Macher não é completamente traduzido.i irmãzinha. é um fazedor de pipi. então. é indicada.264 A ESTRUTURA DOS MITOS PARA QUE SERVE o MITO 265 esta riqueza. Tentamos. que a novidade do pcnis real deve desempenhar seu papel como elemento de integra(. — e se interrompe. apenas. mas ele se apresenta sob uma l > i i m. é claro. Seja como for. a criança sabe.unbação. Quando as relações da criança com sua mãe estão inteiramente impregnadas da intimidade que vimos. Para não deixá-los diante dessa confusão. no passado das crianças. o que não quer dizer. ver a que respondia essa angústia. de seu ponto de partida a seus resultados. por onde esses elementos de descompensação podem entrar em jogo? Observamos isso da última vez.a angústia chega neste momento. Vamos retomar as coisas no ponto em que estamos.um problema.

tudo se ordenar em função do MT. l'ois bem. ronicamente. Dissemos: este falo é imaginário. Trata-se de saber se são três. presentes. tão excitante mesmo. se é verdade. Mas essa l eira experiência simbólica é inteiramente insuficiente. assim. M I O das relações com a mãe que está ali ou não está ali. a fobia. porque ele descobriu isso. havia funcionado harmoniosamente para ele até cnião — com esse elemento de abertura imaginária. que o tornava. e à relação simbólica imaginária da criança com ela. retransmitido através de todos os textos do discurso inter-humano. certas imagens têm um funcionamento simliolico. Os analistas. três.ms. c|ii. precisamos ilr outros. Não podemos nos contentar com dois termos. tão ililiceis de definir com precisão? O que significa isso exatamente. é porque é verdade. comunicando-se com este. para defini-lo .a um quarto. Por que falamos disso nestes termos? Porque Freud nos diz que isso desempenha seu papel na mãe. que as coisas aqui são mais contraditórias. e entra na descrição da fobia. quem tem de imediato a noção de que ali está alguma coisa ligada a uma tensão com a mãe. ela brincava com o falo desejado pela mãe. com o falo tornado para ela um elemento do desejo da mãe. por que é verdade? Trata-se de saber em que sentido isso é verdade. O Édipo nos dá. É porque o falo tem um valor simbólico no sistema significante. vamos ver.266 A ESTRUTURA DOS MITOS 3 PARA QUE SERVE o MITO 267 Eis nosso pequeno Hans tendo chegado o momento do surgimento da fobia. dizem-nos como intervém contando-nos a historinha. observamos bem que nos encontramos in|iii numa situação particular. a rivalidade com o pai e o desejo inibido pela mãe. Pois bem. o falo que não tem. qual o excitador do distúrbio.. que o pai real é mais ou menos carente? Neste ponto. Ele é imaginário para quem? É imaginário para a criança. justamente neste desvio. o sistema do discurso. na medida em que é preciso que a criança atravesse o Ixlipo.uinte: para a criança. Não se l « x U. Quanto a saber o que desencadeia. com a clareza que dá toda a sua importância à primeira observação deste caso. a criança tenha que dar um passo literalmente impossível de transpor por si só? Que passo é esse? Até então. Trata-se agora de que a criança perceba que este ele- i<> imaginário tem valor simbólico. defini-lo sincronicamente. Já o dissemos. é preciso que alguém intervenha no assunto. Certamente não . o pai não esconde. ao contrário.construir o sistema de relações do significante em toda a sua Btnplitude em torno do fato de que alguma coisa que se ama está ou ". lim outras palavras.iinhólico. a saber. mas sem dúvida alguma. de maneira prevalente dentre as outras imagens. O que está em i|iicstão para ele é fazer entrar em acordo o rnundo da relação materna — que. e portanto algo pelo qual era preciso que ela passasse para cativar a mãe. neste momento de descompensação. e porque ele é. Diz-se. para a mãe. sem mesmo se deter. como a sequência da observação bem mostra. objetam regularmente que não se vê por que as mulheres estariam fadadas. Será simplesmente o grau de carência pnlcrna que desempenha seu papel nesse assunto? Será preciso que nos baseemos nessas características soi-disant reais e concretas. diz ele. ou a se acreditarem providas dele. ao desejo da mulher. que: — Eu não saberia dizê-lo. em especial os analistas do sexo feminino. Não é Freud. proliferantes. no conjunto. isso é por razões — vamos nos limitar a isso — que são da ordem da existência do significante e de sua insistência própria. entra de uma maneira pontual a proI M . finalmente. mas implica com i n uv. Esse falo é um elemento imaginário. Dissemos que a mãe se apresenta para a criança com a exigência daquilo que lhe falta. superar. Um mínimo de termos é necessário ao funcionamento do sistema -. talvez demasiado abundantes.i» rstá aí. em . E. a desejar justamente aquilo que não têm.mdo vamos passo a passo. O pai. O que isso quer dizer? As imagens que a realidade traz por ora a ll. Nesse sentido. particularmente. certamente. o sistema do significante ou da linguagem. desde as primeiras linhas de sua carta a Freud. ou de falta. para yln. que ele se impõe. cada um se contenta com a aproximação. Mas. Logo.10 apenas três. o pai. tão divertido. Por quê? Vocês me dirão. e é o pai. estão i-om certeza num estado de incorporação manifesta. e dizemnos. mas não entra em ioda a envergadura do sistema. mais que os outros. E isso é que é impossível. O pai de Hans tem um n iodo curioso de presença. Demos toda sua importância à mãe. a criança entra aí logo de início. O que está em questão? Deixemos de lado a sequência e vamos refletir. se são quatro. O problema não consiste em que. em nome de não-sei-que lógica que seria a nossa própria. se ele o descobriu.

Vamos saber exatamente por que ele está ali. reencontramos aqui algo absolutamente mi. faz-se de coquete. Explica-lhe o Édipo. reconhecido. Logo. refugia-se no i|ii. é o falo. para grande irritação. e que. você •/cri. l» H obido. da próxima . medonhos. do pai. o crescimento: ela vai crescer. que ela fica ligeiramente irritada no momento em que o pai lhe diz para tirar a criança de sua cama.ir o seu falo. torna a iidoimecer na cama deles.ins que as mulheres não têm falo. ela se defronta rapidamente com noções que não são tão evidentes assim. uma é o dobro da outra. ou o que ela não tem vai crescer. a proporção ou o tamanho. ao término. Como a criança reage a essa intervenção do pai? Ela reage pela limlusia das duas girafas.uule e uma girafa pequena.inliã. termo mais simples. isto é o que seu pai lhe diz. ou a noção do que está ali e do que não está ali.estar com ciúmes. Ora. dos quais lhes mostrarei. Pergunta-se à criança como era isso. da próxima vez. A criança. é uma reação do falo materno. o pai jamais se entrega à cólera. Este wohl gereizt que se traduz por bastante irritada quer dizer aqui muito excitada. um certo número de consequências. uma girafa grande. •••. a emergência. mas também existem outras. e remete à iio<. O que ela diz é absolutamente sadio e normal. Primeiramente. Conforme as instruções de Freud — vocês vão ver. Em segundo lugar. isso não traz de imediato d u v i d a alguma. que a criança enfrenta bastante bem.M cólera nunca se produz no real. e que são três. em suma. quando quer dizer enrolada como imiti bola.I-. aliás. Desde que existe uma irmãzinha. o sexo feminino não tem falo. não quer lhes dizer ainda em que pensou. e parece ser ainda cedo demais para que ela aceite as explicações que lhe são dadas. Existem alguns que não têm. mas também existe o lado sempre <. de fazer igualmente do par de girafas o casal pai-mãe. Dessas duas girafas. um exemplo. Isso é imediatamente nomeado. Vou ilustrar para vocês o que digo. vamos deixar isso de lado. ao que parece. Ora. ela sabe muito bem enfrentar essas noções do plano da realidade. de imediato. Pode-se discutir IM l in i lamente sobre a questão de saber se a girafa grande é o pai. Não se deve pensar que esta criança seja um metafísico. com efeito. faz ironias à parte.268 A ESTRUTURA DOS MITOS PARA QUE SERVE o MITO 269 algum lugar. sob a forma de . este é um dos eixos da observação. quando digo que as imagens são inicialmente aquelas originadas da relação com a mãe. Trata-se de uma liini. no momento em que se trata de restituir à m. Trata-se. n une se traduziu por amassada.imfa. Vamos nos deter um pouco no que se manifesta aqui. longe de se contentar com isso. assustadores. Uma girafa (•i . pela in. sem que isso lhe pareça i oníraditório. que faz ironias.ialgia da mãe e à falta desta. 1 sisie o lado do grande e pequeno. para se chegar a ela. Quando fala da irmãzinha. à primeira vista. Existe. mas é claro que. A criança aparece no meio da noite.ilidade. que é bastante capaz de manejar essas noções de maneira desenvolta e pertinente. ela responde tomando mu pedaço de papel e embolotando-o. sob grandes c i iios por parte da grande. brinca. perguntam-lhe de novo o que aconteceu. observado pelo pai como sendo a significação d. o exaurir do imaginário ao simbólico. Ali. o que não o impede. Freud. Fala-se de tudo isso à criança. Hoje vou lhes dar. Em outras palavras. Indo isso levanta os problemas mais interessantes. o que significam essas instruções de Freud — o pai martela a l l. para a criança. a criança faliciza a mãe por inteiro. se ii |K-(|uena é a mãe. a solução do problema.isia. e que é inútil procurá-lo. e ela protesta. IM. até mesmo cólera.ulo dos pais. as coisas já não se passam tão simples. o que implica que tem uma noção muito exata dessa emergência. novas. mórbidos. noções como a de grande e pequeno intervêm. não há o que ironizar neste ponto. aqui uma pequena girafa zerwutzelte. confrontadas segundo diferentes antinomias. passa por desvios que parecem. na cama da mãe. Infelizmente 0 pui nunca está ali para fazer o papel do deus Trovão. Enfim. diz: Ela ainda não tem dentes. Vamos encontrar a todo instante o extrapolar. com medo. na sua loi.. a aparição de algo de novo. de que a criança se apodera para sentar em cima. nós a vemos agora manejando tudo isso extremamente bem. de retomar a posse da mãe. mas aparece etc. O fato ilo ser Freud que tenha dito ao pai para intervir assim é interessante. como já mostrou anteriormente..i j-. É claro que não é à toa que ele está ali. mas não o que é mais imediatamente dado. r o pequeno Hans lhe sublinha isso: Você deve estar com raiva. nesse mundo com a mãe. e verão que isso não pode se produzir sem a estruturação em círculos no mínimo ternários. a criança deve seguir caminhos incrivelmente desviados com referência à apreensão que tem de formas suscetíveis de objetivar o real de maneira satisfatória. A ('«•«Hiena. i rafa pequena.ilogo ao que eu lhes dizia da última vez sobre a criança considerada no desejo fálico da mãe como uma metonímia. ('orno isso é interpretado? Para o pai. a grande é o símbolo do pai. Levam-no de volta a seu quarto e. Ora. essa criança. elas são iguais.

o falo não é mais apenas algo com que se joga. jogando uma espécie ilr |ogo giratório de instrumentos lógicos que se completam uns aos iMiiios. Este desenho já estava no caminho do símbolo. É este o mesmo gesto de Hans. já que estamos procurando. separado do corpo da girafa. o jogo de engodo com a mãe que é o nosso termo de referência. Trata-se de saber como i |NNO vai se resolver. Uníramos agora no grande jogo do significante. A passagem do imaginário ao simbólico não pode ser melhor traduzida senão por esses detalhes aparentemente contraditórios e impensáveis. em ambos os casos. m A GIRAFA COM FAZ-PIPI .i . A solução de quê? É que. Hans o diz para nós. reduzido ao suporte."n i «s. existem todos os tipos de . é um traço.i r a . aqui. de ameaça. isto é. pois enquanto o resto está inteiramente desligado e todos os membros se sustentam bem em seus lugares. Vocês sempre fazem do que contam as crianças algo que participa do domínio de três dimensões. pelo qual ele se esforça por dar a compreender o que está em questão na girafa pequena. e formam uma espécie de círculo através do qual o pequeno l IIMIS procura a solução. e que eu lhes dou aqui. isso começa a se articular como uma metonímia. A pequena girafa amassada significa algo da mesma ordem que o desenho de uma girafa que o pai fizera antes para Hans. pouco a pouco. Ela fabrica uma metonímia da mãe. É de se ncrcditar que haja também um perigo a que ele esteja enraizado. ( l |>r(|iieno apaixonado tem sempre em mãos algo que é uma espécie ilr libelo. o'i faz-pipi acrescentado à girafa é realmente gráfico.r"i>ha traz as crianças. a saber.270 A ESTRUTURA DOS MITOS PARA QUE SERVE o MITO 271 um duplo. Ele está enraizado. tem suas fantasias. com o faz-pipi acrescentado pela criança.ido. como vão se arranjar as coisas nesse trio l Original. quando existe também alguma coisa do jogo dos símbolos que está em duas dimensões. sempre necessário para a vrh ulação do significante. é Cl. estruturas. E como se não bastasse. figura. Assinalei para vocês na Carta roubada o momento em que nada mais resta da carta senão algo que a rainha tem entre as mãos.• iso realmente que se tenha primeiro recorrido à experiência de sua nbnídagem pela criança. suas necessidades. algo que se pode segurar. isto é. pois bem. que se IH M Ir amassar. aparecer uma tríade. No homem dos lobos. crido e não crido. i lança e o falo. Aqui está uma forma f de garantia. e podemos i "in|iarar as vias por onde. nessa série formada l ioi esses três elementos ou instrumentos que se chamam a mãe. tem-se logo em seguida uma explosão da fobia. Vemos estabelecer-se aqui. O que até ali não passava do falo enigmático e desejado. suas reclamações. um cavalo que está sendo l' u. sem dúvida. para nos mostrar bem a introdução da imagem num jogo propriamente simbólico. essa pequena girafa é de tal modo um símbolo que não passa de um desenho numa folha de papel que se pode amassar. meupênis. angewachsen. Este é um testemunho. e sobre o qual se pode sentar. como que por acaso. o mesmo sobre o tjiinl ministrei o Seminário sobre ' 'A carta roubada''. ( ) que vamos encontrar ao longo de toda a observação? Vamos i lu <nitrar. é abordada a imagem h . p o objeto fóbico é o lobo que saiu do livro. No seu livro de figuras. Vemos. a crença. mas uma imagem que está num livro de figuras. da caixa vermelha na qual a i . Isso também não está MliNcnte em Hans. um paralelo entre i "b. Infelizmente. Ainda não definimos sua significação. e promove a maior confusão. e no entanto é tão visível. uma vez que o levaram a professar que está | snraizado. ele >.<• l orna recalcitrante. do ninho de cegonhas no alto da i l i mune. na mesma página onde se piironira a imagem que ele nos mostra. para que nada ignoremos dele. e que só é preciso amassar. existe essa girafa pequena da qual ninguém compreende nada. a . mas. é francamente uma Imagem. A pequena girafa í mu duplo da mãe. para bem nos explicar que atravessamos a passagem da imagem ao símbolo. (íbservem que este não é o único ponto em que podemos captar < passagem do imaginário ao simbólico. embolotar.siTvacão do homem dos lobos e a do pequeno Hans. para fazê-lo. mergulhado na ambiguidade. e ainda por cima.

lí certamente alguma coisa dessa ordem cuja superação está imjjlleuda na análise do pequeno Hans. como vão l ver. desse tema tomado de j empréstimo à sua pequena experiência de criança. vamos vê-lo aparecer de mil maneiras. Primeiro. lim suma. Isso jamais é atingido. I. y. Como tal. Essa pedra é também o ferro. com efeito. e. que é um elemento de mediação. fica especialmente assustada mio o cavalo escoiceia o chão com aquela ferradura na qual se •u algo que não deve estar completamente fixado. este progresso do imaginário ao simbólico constitui i organização do imaginário em mito. Um outro problema se esboça. finalmente. coletiva. na cena principal do diálogo com o pai. de dentro para fora. que ele faz intervir em sua organização. com efeito. Isso pode ser sob uma outra forma mais eficaz. o perfurado. que é. IM . depois do que o instalador ou o bombeiro vem e lhe desaparafusa o pênis para recolocar um outro maior. por qualquer objeto que apresente uma rigidez suficiente. vem e o aparafusa. ou o serralheiro. se ri irem. uma solução aproximativa do complexo de Édipo. i iranspor a passagem difícil de uma certa carência ou hiância. mais facilmente que por uma coisa qualquer. O instalador. Em suma. e que desempenha seu papel no pânico da criança. Se soubermos procurar este termo de uma maneira conforme à análise dos temas míticos. ter simbolizado II Niluução. e . este pode ser representado por uma coisa qualquer. Se o pênis não está enraizado. que pode ser combinado. desse elemento mítico. nessa construção mítica. pelo menos. É um instrumento lógico. a ponto mesmo de evocar para nós isicmas de parentesco. É alguma coisa 1 ordem que a criança precisa ter percorrido até um certo ponto. retirá-lo e tornar a colocá-lo. 00tti mais detalhes. o cavalo que é ferrado é uma das formas de solução ocultas do problema da fixação do elemento faltoso. mas é nessa via que se realiza opresso. que ele introduz na sua passagem mítica. e espero mostrar isso a vocês. é preciso que um MM-O mínimo de desvios tenha sido cumprido. o cravo que se martela na pata do cavalo. Isso lhes indica em que sentido analisar os termos e seu uso nessa criança. o dos elementos significantes tomados de empréstimo a elementos simbolizados.Micontrar seu repouso e alguma harmonia.. porque não pode se deduzir das formas naturais. da próxima vez. De que a criança se serve para isso? Ele introduz o parafuso. num sonho. ele. mas que é mobilizável. Para que uma solução seja encontrada. ô. A presença do pai pode. ou na metonímia. que não é dos menores. o objeto que. ser em ação. é preciso que ele seja amovível. Talvez nem todos os t plexos de Édipo precisem passar por uma tal construção mítica. e que nos levarão à solução definitiva que ela vai encontrar. que é. o verdadeiro diálogo resolutivo. Nós a encontramos em toda parte. Vocês podem encon0 modelo dessa eficiência no esqueleto. falando propriameni (|iie é uma construção individual. O terceiro termo que ele encontra é particularmente expressivo. problema a que umça dará. depois a boneca é perfurada. não existe mais nada. e existem coisas perfuradas de fora para dentro. Por exemplo. simboliza da maneira mais simples o falo é a pedra. in r c certo que eles necessitam realizar a mesma plenitude na trans|«" IVIG simbólica. É a partir desse momento l que a criança está a caminho de encontrar um primeiro alívio em sua ] busca frenética de mitos conciliadores jamais satisfatórios. A introdução desse instrumento lógico. 27 DE MARÇO DE 1957 . Esta. p. vai trazer a verdadeira resolução do problema. e que constitui o terceiro vértice de um triângulo com o enraizado e o furo hiante do perfurado deixando um vazio. está a unho de tfma construção mítica verdadeira. através da noção de que o falo é também algo tomado no jogo simbólico. que circula. é perfurado.272 A ESTRUTURA DOS MITOS PARA QUE SERVE o MITO 273 Vemos então aparecer um outro termo. isto é. e nos l > i a disso por todos os lados. ou. que é fixo quando se o instala. a solução do parafuso. dada por minhas histórias de a. Afinal de contas. e é por isso que é preciso uma mediação que permita colocá-lo. como veremos. por seu ser ou seu não-ser.

é singular que categorias tão frouxas i j i i . devem estar em jogo relações de estrui i i 1. na medida em que é objeto imaginário do desejo materno. Com efeito.iri-sso da criança à sua própria situação em presença da mãe. Através de outras observações. Como sabem.1" . onde tentamos agora aplicar a análise para desemaranhar as relações fundamentais 274 . já havíamos visto. demos um sentido às três relações ditas do simbólico. não se veria por que a obra de Freud daria um lugar a essas duas dimensões — ainda. pois. Prot nos disse ontem à noite na sessão i l > i Sociedade. O método de Claude Lévi-Strauss. AGENTE Pai real Mãe simbólica Pai imaginário FALTA Castração simbólica Frustração imaginária Privação real OBJETO Falo imaginário Seio real Falo simbólico . pode-se definir o . Isso não seria de surpreender. Não basta estabelecer a analogia entre eles — j á que p{ u p a i n funções diferentes. aquilo a que se chama o seu meio ambiente. Em suma. Caso contrário. li isso mesmo que tentamos constatar a propósito desses exemplos eminentes que são as observações freudianas. Quando abordamos essa referência que é para nós fundai . que são três modos essenciais profundamente tlisliiitos. até mesmo da iiNsunção do papel essencial deste objeto imaginário. cujos termos hindamentais são definidos pela presença manifesta do objeto fálico cnlrc eles dois. i l . mantemo-nos nas características que talvez ' I . chegado da última vez à noção de que o pequeno ll.n l a r .loroamo-nos em indicá-lo à experiência. constituía um ponto realmente • tiicial da relação mãe-filho. l'lidemos ver ontem à noite o quanto este instrumento ainda deixa < •!• M-jar. como o falo. enigmáticas — chamadas complexo de castração e mãe fálica. dizemos que ela é envolvida pela mãe. que se verifica ao exame não ser assim tão simples quanto se diz. falamos da relação dual como h s. o que nos levou a concentrar nossas pesquisas no caso do pequeno Hans. do reconhecimento. Nua e de camisola. Qual é a nossa tentativa deste ano? É a de conservar o relevo e a articulação de Freud na famosa e pretensa relação de objeto.n Ia na mãe fálica. como o sr.uis. n i t o as que Freud introduziu não possam ser recortadas de maneira M I ! (cientemente usual para nos permitir. I M I bem gerais.COMO SE ANALISA o MITO 275 XVI COMO SE ANALISA O MITO Dar a ver e ser surpreendido. nem que seja na experiência mais cotidiana. ou que H i" «> c etc. Captura no mecanismo permutatório. num momento de sua biografia. para permitir demarcar as incidências eficazes que ali ' i >< xleriam destacar. dizendo i|iie ela necessita. o marcado por um certo tipo de relação com sua mãe. desde o início do ano. a relação da criança com a mãe. Numa primeira etapa. o objeto fálico. i l i » imaginário e do real. diferenciar ilerior de uma mesma família de relações um traço de caráter i sintoma.n|cito. l Tínhamos. por parte desta. O Professor bom Deus. e sem a distinção dos quais pretendemos ser impossível nos i H i i . por exemplo. e talvez cada vez mais. que captamos na observação. Este sentido. e até mesmo jamais ter sido tão simples assim. porque não há melhor ild mição a dar de um conceito do que pô-lo em uso.1 diferentes. i". no decorn i ilos anos. destacando ||pos relacionais que seriam de uso analítico.

surpresa. que é um modo de apreensão no campo daquilo a que poderíamos chamar um confronto visual recíproco. a dialética Iluminaria resulta num dar-a-ver e ser surpreendido pelo desvelamenin. A experiência nos mostra que isso não se dá sempre estritamente em benefício do macho contra a fêmea. já há muito tempo que. Nenhuma observação pode nos servir melhor. Pensei em tudo isso. ao mesmo tempo rápidas e servindo para encerrar o assunto. mais uma vez.in. é para que fique bem marcado o quanto as coisas >H|II desde o início. O que é i . quando lhe dão essas respostas.276 A ESTRUTURA DOS MITOS COMO SE ANALISA o MITO 277 que entra como um elemento de composição absolutamente primordial na estruturação primitiva da relação mãe-criança. mostrar e se mostrar. diferentes naquilo que chamei aqui de adivinhação i" l. Não omitam o caráter ambíguo deste termo na língua francesa. o caráter realmente dilacerante da surpresa dolorosa que He experimentou no dia em que. no momento em que a observação começa.il. quer se trate de um lagarto ou de um peixe. no tempo em que me referia ao : reino animal e aos singulares duelos visuais dos casais animais.i nua. num grau superior ao ver e ser visto. precisamente na medida em que o outro não tem. ficar surpreso corresponde também a uma descoberta Inesperada. com seus dois termos opostos. com efeito. Tudo. l Acoplamento —. que a descrev < u para nós. que está longe de ser dual. de aparelhos de captura visual num e noutro — e depois.i situação da surpresa. igualmente. sua ideiazinha. capturado em certas reações típicas.. neste sentido. i loiça de Enéas. como se diz. por este desvelamento. Entre os dois adversários | ou parceiros. espiar onde ele está. O que se produz no plano da comunicação visual prepara e se prolonga diretamente no ato de enlaçamento. até mesmo na opressão. do ponto de vista real. O drama imaginário tende para uma iiu. viu sua um. é porque ela já está distinta da relação imaginária primitiva. para o sujeito. ocorre uma esquiva motriz e um empalidecimento das cores. erige-se tudo a ^partir de um certo conjunto de fâneros. Ela é essencial na própria génese da perversão. Ela é mais que evidente no exibicionismo. Aqueles que assistem à minha apresentação de pacientes puderam perceber num de nossos pacientes transexuais. mas às vezes é entre dois machos que uma manifestação dessa espécie se produz. nem por isso ela experimenta espanto. toda a relação de Acteão. parte do jogo entre ele e a mãe: ver. O que está ali em questão unto ver e sofrer o domínio daquilo que é visto. nos disse. mas da parceria. Insisti longamente neste ponto. ich hab'gedacht.i é surpreendida. Vamos sublinhar que permanecemos a este respeito numa total ambiguidade quanto ao tema do que se pode chamar a crença de Hans. merece deter por um instante a nossa atenção. É assim que. de sinais. Em napartida. se refere ao ato de surpreender. unicamente no plano deste confronto visual.i que está ali e não está. eu o surpreendi. ele tem. lista dialética é a única que nos permite compreender o sentido hmdamental do ato de ver. ditas de exibição. está fundada nesse moineiilo essencial. onde ele se insere e assume um sentido ainda mais elaborado . n l o na relação em jogo é algo que está ali na medida em que riiunece velado. ele se afasta da visão daquele que assumiu a posição dominante. Se hi.. para mergulhá-lo ao mesmo tempo na vergonha daquilo que lhe falta. . ou ainda a surpresa de Diana. que o caso do pequeno Hans. pela primeira vez. que curva um dos sujeitos diante do outro. o exibicionista procura.i criança do mundo imaginário materno. Enquanto a relação imaginária pode passar por ser. mas procurar • • i espiar. Mas há também uma outra face dessa palavra. onde se vê o animal. por excelência. Como sobressai de suas declarações.iciio fundamental da qual não podemos desconhecer o caráter • me i. que permite a um deles prevalecer sobre o outro. quero. A técnica do ato ilr exibir consiste. a reação do ver e do ser visto. A \in/>ri<ie. aquilo que ao mesmo tempo está e não está ali. a que eu me referia ao final il« meu escrito sobre "A Coisa freudiana". espreitar o falo. Temos realmente a impressão de que. capturar o outro no que está longe de ser uma simples captura na fascinação visual. Se existe aí o ponto de referência biológico ou etológico que nos permite dar toda a ênfase à relação imaginária em sua articulação ao i n n ( o do processo — não da exibição (parade). e que lhe dá o prazer de revelar ao outro aquilo que este é suposto não ter. já ^tic. que culmina nessa liuiologia que vocês sabem que não torno a evocar aqui por acaso. no domínio. alguma coisa num deles cede. Se a relação dita escotofílica. i -. como verão. a que os pais se vêem obrigados diante de qualquer interrogação um pouco abrupta da criança. no sentido em que • i l i / — eu o peguei de surpresa. não ver. ele se apaga. onde há a surpresa i i . em mostrar o que ele tem. diz ele. pontuar o quanto já é importante manter nesse nível a articulação intersubjetiva. . e deve-se sustentar o engodo para manter alguma i .

o fato de que a mãe já é uma adulta e está presa no i irmã de relações simbólicas no interior das quais se situam as i. c retomo agora do ponto em que havíamos parado. e manifestar severidade. É preciso que a própria criança tome ruir caminho e experimente a crise do Édipo. É nesse desvio que abordamos o pequeno Hans. A mãe participa plenamente disso. e faz com que a criança participe com a maior complacência do funcionamento de seu corpo. Se o objeto imaginário desempenha aqui um papel fundamental. uma girafa amassada sobre a qual ele 10 scnia.indo o que até então o mais importante era. . a fim de admitir aquilo que está admitido ao final e que os sujeitos levam. de repente. tal como um prestidigitador.278 A ESTRUTURA DOS Mrros COMO SE ANALISA o MITO 279 É sobre este fundo que atuam todas as relações de Hans com sua mãe. com um sorriso. em nossa rude linguagem. Por que vemos isso de uma maneira tão pura? Comecei a articu1 1 i". i \i-i-os. a imagem duplicada da mãe. Itins talvez não ilustre completa nem perfeitamente. sua metonímia. da última vez. Sc essa análise é privilegiada. que os sujeitos femininos sejam realmente desprovidos de alguma coisa. Estariam errados se acreditassem que basta ter a noção científica e articulável para que isso seja admitido nas crenças do sujeito. i i r da fantasia das duas girafas. Eis o que é preciso articular poderosamente sobre o ato e o apoio de nossa experiência analítica. e a indicação de |iir estamos no caminho certo. neste fenómeno fascinante: a narrativa por I I . igualmente. Literalmente. e a descoberta de que esta. Mas ela não deixa de perder seu próprio domínio. a resistência dos sujeitos masculinos em admitir. o pequeno Hans nos mostra aqui. às vezes. a saber que. e em especial sua concepção das relações sociais. e. efetivamente. E retroativamente que vamos esclarecer por que PUI líio importante brincar de que não fosse. Este desconhecimento é mantido para além de qualquer limite nos sujeitos que não deixam de considerar a si próprios. Se eu pretendesse inventar uma metá- . um ano depois mais ou menos. Talvez seja nessa j (iirompletude que veremos particularmente se evidenciar o movimento • incial da observação. existem efetivamente sujeitos que são privados deste famoso falo imaginário. que sejam providos de alguma coisa diferente.I. vamos partir da observação do pequeno Hans e articular o se formula o problema de um reconhecimento semelhante nessa • i i. que permitam sua integração na dialética •d-x na l tal que esta permita ao ser humano não simplesmente suportá-la. a saber. i o sujeito. A i profunda complexidade das relações do homem com a mulher vem precisamente do que poderíamos chamar. de alterar profundamente todo o seu modo de relações com o mundo. j com mais forte razão. Por que este reconhecimento se torna. Por que isso é assim tão difícil de admitir? Talvez consigamos responder ao cabo de nosso percurso deste ano. quero dizer. iliul. respostas ásperas. nesse campo privilegiado do mundo que é o dos seus semelhantes. é na medida em que ele já está capturado na dialética do velamento e do dês velamento. O apagamento deste fato em nossa experiência mostra até que ponto ainda somos incapazes de nos beneficiar dos termos mais elementares do ensino de Freud. lliiis vivê-la — sob a condição de se produzir a integração de um fato 1 1 J. por sua vez.N ocs sexuais inter-humanas. Vamos ver. É neste nível que se enraíza um desconhecimento frequentemente mantido com uma tenacidade que influencia toda a concepção do mundo do sujeito. É isso que o exemplo do pequeno Hans ilustra — . até mesmo condenações. como tendo aceitado perfeitamente a realidade. da ocorrência de coisas fundamentais em sua vida. como se dá que a assunção da privação 11 só possa se operar — e dar resultados subjetivamente vivenciáveis i i i . especialmente o nascimento da irmãzinha. diante da participação exibicionista que lhe é demandada pelo pequeno Hans. Kxiste aí como que o esboço do esquema geral. l'or ora. toda uma vida para assumir. a passagem do imaginário ao simbólico. Já indicamos que esta fobia deve ser localizada dentro de um processo em que se trata.ido. e nos perguntamos por que ele faz sua fobia depois de um intervalo. é também um termo essencial na relação com a mãe.i ao seminário. é porque nela vemos produzir-se i!" i lamente a transição que faz passar a criança da dialética imaginária i l i > i<>jío intersubjetivo com a mãe em torno do falo para o jogo da ' DUM ração na relação com o pai. onde vemos como uma ilustração. que não |)MNsa de um pedaço de papel. justamente. A passagem se faz por uma série de Irwisicões que são precisamente o que chamo os mitos forjados pelo III-IIIK-IIO Hans.mca. de que a castração é um linimento essencial. para a criança. necessário? i >n. brincar de i|nc de não o fosse.

senão ele estaria curado. que Freud assume em todas as suas nn.280 A ESTRUTURA DOS Mrros COMO SE ANALISA o MITO 281 fora da passagem do imaginário ao simbólico. ao sair e perceber que há um pouco menos de carros e de cavalos que habitualmente. Seu pai começou a lhe dar certos esclarecimentos. ilrvrmos perceber que ele tem de fato algo de absolutamente excep• i. tal como a fantasiou o pequeno Hans. depois dele. li espantoso ver Freud assumir essa posição. aí está o salvo-conduto do pequeno Hans! Decerto. Freud não deixa de |nTÍmentar com isso um sentimento ao mesmo tempo divertido e Mi/.. e é por isso que o elevamos MD estado puro do funcionamento das fantasias. como estão vendo. Colocar-se. e é assim que Freud aborda a questão. Quando o pequeno Hans fala do bom Deus. A situação é desenvolvida llr uma maneira tal que o elemento do pai simbólico é aí bastante i l i . l intendam bem que a posição do pai simbólico.il dentre todas as análises de crianças. lims do pai imaginário. logo depois que ele faz da mãe uma bola de papel. aqui. e tal como ele a articula em todos os seus elementos. ter posto menos cavalos hoje. não emana do pai simbólico. Aliás. Não IH n lemos deixar de perceber o quanto uma interpretação de Freud é i li l ri ente de todas aquelas que podemos dar.. a isso — vamos confirmá-lo em seguida — que devemos a iiir. É. mas gescheit não quer dizer gentil. 1'omo faz Freud. Tendemos a crer que o bom Deus lhe poupou dificuldades.innir essa posição arqui-superior que consistiu em lhe dizer: Muito • t<-\ você nascesse. Trata-se da transformação de uma imagem desenhada numa bola de papel. e sim francamente astuto. e este não ih i x a de demonstrar que sabe disso. ele mesmo faz a ressalva de que. e ao (tHvsino tempo fenómenos de repetição. um simples rema- . tem algo a om isso. pois não deixou de • . Se quisermos compreender esta observação. elemento mobilizável como tal. jamais teria conseguido inventar a história das duas girafas. Há muito tempo observei para vocês a dimensão original. sem duvida. contrariamente à opinião corrente. Como vimos 11 «i 11 muita frequência. O interesse dessa observação é também nos mostrar que a Durchfrhcitung não é.u>. mas • i" i . Vejamos realmente o que se passa. que é inteiramente símbolo. excepcional. em razão de sua própria gabolice. fala disso de uma forma muito bonita. servindo-nos de nosso quadro como se ele já estivesse confirmado. na medida em que a palavra interpretativa que ele dá ao »u|ciio não é um enunciado que ele transmite. aqui. do pai imaginário. E ele se senta em cima de sua mãe enfim reduzida ao símbolo. é o fundamento da ordem do mundo na concepção comum de Deus. Freud não se impõe. Não vamos nem pensar em censurá-lo por isso. a garantia da ordem universal nos seus elementos reais mais densos e mais brutais. malicioso. a formular que nem todo o mundo tem falo? Isso é fácil de reconhecer: o pai imaginário é o pai todo-poderoso. por exemplo. aliás passageira. mas algo que ele mesmo ii . isso quer dizer que ele. da parte do bom Deus. ordem no mundo. ele diz: Como é gentil e esperto.iliscs. precisa menos de cavalos hoje. permanece velada. de onde está voltando. Seja como for. Hans. mas como o cavalo não é apenas uma dificuldade. a saber.. vocês só precisam reportar-se agora à observação do pequeno Hans.i vocês na articulação simbólica. além de simplesmente forjar meu quadro. e que passa diretamente por sua boca na autenI llrulade da palavra. Para dizer tudo. Como desconhecer. o Professor deve ter conversas com o bom l icus para ter dito tudo o que acaba de dizer.n. aqui. nenhuma espécie de •ftgra. mas também um elemento essencial. eu havia previsto que um dia um garotinho a m gostar demais da mãe dele e por causa disso ia ter problemas i I>HI ii pai. A 15 de março.n. O que significa isso? Não sabemos. que os atos espontâneos de uma criança são algo de muito mais direto e mais vivo que as concepções mentais de um ser adulto depois de longos anos de cretinização amplificadora constituída comumente por aquilo que se chama educação.nninho certo — é ainda ao bom Deus que o pequeno Hans faz iiir. li muito importante conceber as particularidades da relação de llmi. o bom Deus está ali como um ponto de referência essencial. Será que significa que os cavalos são menos necessários hoje? Não é impossível. sem ficar completamente satisfeito com isso. Nada mais faço. como o mestre absoluto. referência que lhes ensino ser tão essencial. foi ele quem fez tudo. daí resultou uma melhora. através deste ato.s com sua análise. i m i o do pai real e. O que quer dizer que deva ser um pai imaginário a pôr. ele assume justamente a posição que eu poderia chamar de i l i v m a — é do alto do Sinai que ele fala ao jovem Hans. sem dúvida. do qual podemos nos apoderar e exclamar: Ah. mas ele nos mostra. como o faz em duas ocasiões. isso não é suficiente. a este trapo de papel.rncia notável de fenómenos de transferência. tal como a situei p. definitivamente.ilmcnte encontrou. É absolutamente surpreendente ver que depois do encontro com Freud — que acontece a 30 de março.

li partida ao ponto de chegada. O cavalo é."Irna haver um outro.282 A ESTRUTURA DOS MITOS COMO SE ANALISA o MITO 283 nejamento ao fim do qual aquilo que é assimilado apenas intelectualmente acabaria por entrar na pele do sujeito à força. cada um dos elementos. o é também para qualquer elemento significante que se j encontre nos diferentes modos da criação mítica. e o próprio pequeno Hans. e que faz com que algo que no começo í pNrrcia irredutível se integre no sistema. obriga a ordená-los. como Freud lhes recomenda expressamente em dois pontos • i i <>l>servação. não llmplusmente numa só linha. Em vez de nos satisfazermos recobrindo o fato com termos que servem para qualquer coisa — complexo disso. Insisti. sejam percorridos para que a função de simbolização do imaginário seja eficazmente satisfeita. mais vale tentar ver as funções. quebrada. como essas narrativas muito articuladas que são os mitos antigos.io compreender é fazer um fichamento e anotar dia a dia. aos termos em jogo.i que o pequeno Hans possa prosseguir sua vida sem angústia. inicialmente. em dado momento. não vamos esquecer que ((liando Freud reencontra o menino Hans já aos dezenove anos. a todo instante. pois ela é. Temos o hábito de dar. É preciso que se tu l orcem. mas ordenado. ou sua comi " < i-nsão. -i (. ligação com a mãe —. na história do pequeno Hans. simplesmente. mas seu sentido. e é isso mesmo que vamos ver. Não apenas estar i uni alguém. isso representa a mãe. não mais que qualquer outro dos elementos dos mitos freudianos.iistia que se chama a fobia. o traseiro do pequeno Hans — e é isso que compreendem tanto Freud quanto o pai. surge à superposição dos elementos analógicos que voltam Mih formas diversas. só é concebível em sua relação com um certo número de outros elementos igualmente significativos. A melhor maneira «d ii. como significantes. no final. como a inteligência lhes virá quando estiverem • "im-iido. a uma significação unívoca. a mãe. Se a Durcharbeitung é coisa necessária. . este . de Ia Palice. o cavalo é no final o pai. mas é. mas estar sozinho com. partimos da irtupvao do pênis real no jogo criança-mãe. cortada pelas intervenções do pai. nem as mais respeitosas do sujeito. por exemplo. É por isso que vemos o pequeno Hans seguir uma via labiríntica — na medida em que podemos reconstituí-la. podemos chegar a ordenar todos os elementos de um lllllo. vemos produzir-se e reproduzir-se uma série de construções míticas cujos verdadeiros elementos componentes se trata de discernir. A banheira é.in|'.n um certo percurso que vai.mi a sequência do mito. figurativos. estabeleMtr-sc uma série de sucessões legíveis tanto horizontal quanto verticalmente. isso representa o pênis. dizendo: isso representa o pai. que é nosso ponto de partida II. Para que percebam essas coisas. é sem dúvida porque é necessário que um certo número de circuitos. é necessário que se esforcem. ou ainda a nudez. Todavia. lidos num certo sentido. Ora. por exemplo. o que isso supõe? Supõe que i . então. os elementos representativos. com efeito. ou como uma impregnação. e vocês podem ver. no sozihlii» com Mariedl. que é verdadeiro da maneira mais manifesta no que se refere j ao cavalo. o representante em I diversos pontos da história. por não compreender de imediato. relação anal. em cada momento da observação. O mito se lê num sentido. os elementos que Hans aborda e que se devem comJtirriuler como tais. entre ambos ele também pôde ser o pequeno Hans que. com certeza. a que se entrega o pequeno Hans. para não compreender imediatamente. o pênis real consegue se alojar de uma maneira suficiente i MI. equivalentes em profusão. intitulado "A estrutura dos mitos". a mãe. Kstes são alinhados de tal modo que. e desemboca na redução desta última. guardem este eleHinilo significante e. que elas nos trazem. sem dúvida para reah. no final. Isso. do ponto . extremamente abundante. Com efeito. como Freud nos sublinha. como diria o sr. Ela basta. l 'o mesmo modo. do qual o cavalo é. ou ainda o pênis. em diversos sentidos do termo. 1'hiiii'ando-o. liste método de análise dos mitos é o que nos foi apresentado pelo i < lande Lévi-Strauss num artigo do Journal of American Folklore il« uiiUibro-dezembro de 1955. j felorno que não é simples. numa fiillia de papel. o cavalo. para ir direto ao epílogo. vão perceber que isso se recorta estritamente com algo de illIriiMite que vão poder escrever na mesma folha. mas numa superposição de linhas que • «l is põem como numa partitura. O complexo de Édipo no |ii'i|iicno Hans talvez não chegue a uma solução completamente satisrnloiia. a mordida. que não são. Se não entenderem nada disso. Esta é uma questão de método. a cada vez transformadas. Podem fazer a mesma operação a propósito de cada um dos elementos em causa. de vez em quando brinca de cavalo. porque ela poderia ser ainda mais pli na. complexo daquilo. É impossível fazer corresponder o cavalo. para libertá-lo da intervenção do (demento fóbico. lílssc suficiente e não necessária. por exemplo. torna desnecessária a conjunção do imaginário com N . Mas o retorno dos mesmos elementos. manifestamente. em cada etapa. as mais bem dirigidas.

mostrar-lhe o Wiwimacher dela. até mesmo dos simples jogos e invenções de Hans. Só existe uma coisa que permanece para ele como uma ferida. reagira com a história das duas girafas. é esta irmãzinha. também. há algum tempo. Nrrntua o elemento de interdição. pois temos de saída uma manobra direta sobre a > u l | i . que o que está em jogo na observação de Hans — podemos constatá-lo — não é de modo algum comparável à integração ou reintegração pelo sujeito de sua história. ainda que isso não passe de uma extrapolação. e perfeitamente natuI fui*. que se realiza pela suspensão eficaz de uma amnésia. que é da mesma ordem que aquela do sonho. p. e todos os fantasiamentos que se instalam na relação com ela. e que irá permanecer. Igualmente. por um lado. Logo em seguida à i i i i u ulaçáo afirmada que lhe é feita da ausência do falo. então. em outro Iliomento. e que a bobagem em questão ' i ligada a seu desejo de se aproximar da mãe. A primeira recomendação tem duas vertentes. tudo está apagado. não há nada a procurar. por outro lado. a Freud. que é o objeto de amor idealizado. AijiiHc que ordena o mundo diz que. 263 e 264 do volume das Gesamnielte Werke. Certamente.284 A ESTRUTURA DOS MITOS COMO SE ANALISA o MITO 285 não se lembra de mais nada. de uma atividade muito especial.1 como ele assume aqui seu próprio papel. sonho e análise. passada a noite. e às instruções que lhe são dadas por Freud. com a manutenção dos elementos conquistados. . como ele próprio havia observado. nessa mitificação em jogo ao longo de toda a observação. isso não fica bem em i i i .1. para além daquilo que é acessível ao amor. os sonhos desempenham um papel económico.i c uma bobagem. Os pais de Hans estão. Isso é textualmente articulado por Freud no ynmeco da observação. no limite do imaginário e do simbólico. pois vimos Isso vai longe. Além disso. sobre as satis|BV«CS masturbatórias. a propósito da qual ele diz: Com efeito. a famosa Grete. e perfeitamente de acordo com o que eu tentava mliailar há pouco. e Hans não está mais infeliz por isso. e toma como testemunha do que a mãe fez . que basta ordenar e dominar um pouco. unrecht. divorciados. Hsta manobra consiste. apesar da magistral análise de que Hans foi objeto. mas. este desejo lhe será retirado. bem pode ser que isso se refira a mim. em suspender a culpa lll/i mio à criança que essas coisas são simples. limiiircstamente. O que está em questão é. Esta irmãzinha foi levada pelo decorrer da vida a representar para ele este termo distanciado. esta girl = phallus de que partimos em nossa análise. Já que a satisfação do pequeno Hans é. começa mesmo a analisar seu sonho — já conhecemos isso — e. que é seu discípulo. Não vamos esquecer que Freud nos diz. de ir descobrir — e foi por esse motivo que retomei 11. como I I . Voltemos ao ponto de partida. nem tudo se mostra ter sido plenamente encerrado. Vemos. que é muito bonita: conta que viu sua mãe. Veremos qual o resultado disso na criança. não temos por que duvidar disso. Dão-lhe a ler sua história. ao contrário. ele lhe faz i Kwhi-i que. A segunda recomendação de Freud é ainda mais característica da linguagem que ele emprega. e nos permite pensar. se ocupa muito. doravante separada dele. ao pai da criança. Freud diz ao pai que explique à criança que aquela l"i'i. Resposta soberba. que ainda assim alguma coisa chamou a atenção de Hans na leitura de suai história. Trata-se. do Wiwimacher.1 • i iada. a que ponto o pai real é incapaz de assumir irmdhante função. pelo menos relativo. M I ' . dificilmente se vê coisa melhor. t . Quando tenta fazê-lo. ver in|iiilo que está velado. de i iiiiusola e inteiramente nua.i i x MICO a dialética do descobrir e do surpreender — o objeto esconllliln que é o pênis ou o falo da mãe. Esta comparação é bem sedutora. l |tl Irando-lhe o objeto da satisfação: Você vai lhe dizer que esse falo tlr\fjinlo não existe. ele fantasia | história seguinte. i i uno intervenção de pai imaginário. na medida em que está velado. como a marca que irá dar seu estilo e seu tipo a toda a vida amorosa do pequeno Hans. de passagem. em todos os pontos assimilável ao das fantasias. A mãe está ao . Hans reage por um caminho Ililciramente diverso daquele que lhe é sugerido. '|uc este é objeto. aqui. o l u l o . Uma vez informado iln iililude do pequeno Hans e dos fenómenos penosos e angustiantes <t. como o decorrer da observação poderia deixar prever. pela manhã tudo está esquecido. como. Freud compara lindamente este apagamento ao que se produz quando um sujeito desperta no meio da noite. e a relação de objeto por ela atingida não é inteiramente satisfatória. e é por isso que o cavalo é tão malvado e quer Hluidr Io. Trata-se do que diz respeito à irmãzinha. Como ele vai dizer a NPii agente para se comportar? Faz-lhe duas recomendações. eine Dummheit. com Freud. muito precisamente. a saber. que ele próprio fez a mesma coisa.

e aquilo que se torna assim permitido se reveste. Neste ponto. Será que (UNO significa que o cavalo é o pênis real? Certamente que não. Vamos nos deter por um instante nesse mecanismo que merece ser notado. a criança. |M i nítido. quando o pai e a criança especulam. ainda pouco encorajadora. Olhem para está mulher. o elemento de perturbação e de distúrbio na 111*1 ic de suas criações imaginárias. o pai. sabemos que é fadada a fracassar sempre. . Vil si1 alojar o pênis real. o pai fizera uma primeira abordagem.ilavras de Angelus Silesius. afinal de contas. na sequência. seu pênis real. Evidentemente.1 O que pode realmente querer dizer o mecanismo que resumi desta forma: o que é permitido se torna obrigatório? Inicialmente temos uma transição. Ora. vamos direto ao que acontece Ilu l de abril de 1908. Antes dessa tentativa. aquilo que lhe é dito? Cabe a ele dizer que é permitido olhar os cavalos. l MI uniras palavras. como Freud lhe havia dito. ou de camisola. nessa MI . aí está todo o problema: para Hans. todavia. ele se sente agora obrigado a isso. isso deve ser como que um mecanismo i. de se fazer miipieender. que em suma visava apaziguar a angústia da culpa. mesmo que canhestras e confusas.s. já que no decorrer das transformações do mito de llnus ele é também a mãe. Jií que estamos. não sem provocar temor e angústia. Como mH exemplos vão lhes mostrar.286 A ESTRUTURA DOS Mrros COMO SE ANALISA o MITO 287 mesmo tempo nua e de camisola. que é a eliminação daquilo que era anteriormente. e digamos que. e ocasionalmente o pequeno Hans. por uma série de transformações. a não ser para transformá-la em diversas formas metabólicas. nós o sabemos de uma maneira não menos experimentada e permanente. exatamente como na história de Alphonse Aliais. ela está ao mesmo tempo nua e de camisola. hoje. O que quer dizer. Esse elemento novo e incómodo. integrar N «ii mesmo. Logo. |(ln lesiste às intervenções imperativas do pai. que arriscam fazer explodir o conjunto. nu para manter sob uma outra forma o direito ao que era proibido. depois de uns vinte ou trinta anos de experiência. no entanto fundaliirnliil. a saber. agora. que não se distingue por um modo excessivamente perspicaz de apreensão das coisas. e que não se deve jamais abordar a culpa de frente. do pui vemos mesmo assim engajar-se na criança a estrutura significante. em 3 de abril. Ouanto ao cavalo. mas ao mesmo tempo. Isso é o que não deixa de se produzir em Hans. esta é sua função essencial. mas vai. esse terceiro objeto fálico que deve. com u irrmo de obrigação. nós analistas. mas como o problema está noutra parte. Daí a impossibilidade de assegurar a ordem do mundo por uma intervenção autoritária. o pai do pequeno Hans. o cavalo está longe de «pi o pênis real. em suma. que até então tinha medo de cavalos. Ort-Wort. Assim como nos sistemas totalitários que se definem pelo fato de que tudo o que é permitido é obrigatório. sempre presente. esta é uma certa forma do bom Deus. lhe diz: Mas das duas uma: ou ela está nua. Deu a este um primeiro esclarecimento a respeito da relação existente entre um cavalo e alguma coisa de interdito. Por 'no lado. como diz. mas não é isso que resolve as nossas dificuldades. com a ajuda de que Hans brinca de surpreender.uio. tentando. já existem elementos significantes que vão dar a Hans um . uma proteção contra insistia. Este é maRllrsfiimente. o pai imaginário existe já há muito tempo. é. como sabem. No pátio em frrnle. < 'oin essa primeira contribuição. "reduzir a culpa do pequeno Hans. e produzir •NI u série de criações míticas que. sobre o que se passa no pátio em frente. exatamente como para todos vocês que estão aqui. VMIHOS fazer intervir aqui uma noção simbolizante essencial que de« 1 1 volvi para vocês ao longo de todo o penúltimo ano sobre o jogo ili (i.is janelas. para ele. é este o lugar onde deve. por trás ili n. é obrigada a olhá-los. Diz-se ao pequeno Hans que é permitido ir em direção aos cavalos. de apresentar como ausente. Essa intervenção. o elemento novo que Biccssita ir além da intersubjetividade do engodo. com as mãos para o céu.r. que exclamava. disso resulta que ele se sente obrigado a olhá-los. mas que é fundamental para a relação inter-humana. O cavalo marca um limiar. • M niiegrar pouco a pouco. seu próprio pênis. o que é preciso agora olhar é justamente o que llllcs não se devia olhar. no sistema de Hans. na lula em que a fobia é uma sentinela avançada. por debaixo das roupas ela está nua! Observação sobre a qual talvez vocês nunca tenham avaliado a incidência e a importância nas subjacências metafísicas de seu comportamento social.i no conjunto do jogo do sujeito. com suas • s próprias. tem uma relação com o elemento novo que lança o proi ' i i ni. o pênis real. atraV$N do jogo. que chegou há algum Ipinpo. já sabemos que ele defende alguma coisa. o primeiro elemento de sua relação com [| mãe. No momento mesmo em que o pai lhe diz que o cavalo não passa de um substituto assustador de algo que afinal não é tão importante assim. reagir M i". que é pôr a mão no seu sexo.is intervenções.

já que tem os mesmos cavalos da angústia. ou •iilra coisa? Será — sim ou não? — ao deslocamento do elemento níficante sobre as diferentes pessoas que se encontram presas à sua 1'ibru e inscritas na sua posse? O progresso consiste no movimento . sob o signo. o pequeno Hans faz um •iso 1'antasiamento anal em torno do lunf. e que são capturados no mecanismo de permutação? no contrário? No caso. daquilo a que se pode chamar regressão. entre os meios de veiculação em uso sob o reino do imperador Francisco José. na Viena de antes de 1914. no interior deste primeiro mito que se pode 11 ninar o mito do carro. por exemplo. Ele está inteiramente firme na realidade. é o mais importante. mas ele pode estar com ou sem carro como os diferentes elementos significantes que compõem a atrei'in. se podemos exprimir assim. Verão também. iln-sc todo o tempo em cavalo. Anna vai cailgnr um dos cavalos. que não comporta nenhuma espécie pressão. de que o jogo fundamental do significante é a permutação. nos diz Freud.i l ^«le uma das últimas fantasias do pequeno Hans. Para que vai servir tudo isso? Acreditam que haja uma pré-adaptação. no dia • Kiiinte. Vão tentar ver o que. Inútil se apressar em dizer: Conhecemos isso. ele diz: Se eu for levado. direitos à masturbação do começo ao fim da observação. Saibam que tenho uma gravata que tem um lado um pouco mais claro e outro um pouco mais escuro. parecem ter significações diferentes à medida em que a história ifiride. todo o fantasiamento em torno 1 1 hoa. quando vão para Gmunden. O pequeno Hans tem vontade de subir na carruagem. É realmente porque o elemento genital. ele tem medo de ser separado da mãe. O] pequeno Hans vai tranquilizá-los imediatamente. Será ao papel do significante. e com os quais ele fará sua primeira construção mítica. no uso corrente da vida. e não têm tempo de vestir ai roupas antes de poder descer do trem. enganam-se redondameniim formidável jogo mítico. sem se n abalar. i i|ue se liga o progresso de Hans. O pequeno Hans mantém. e mesmo instruídos. Tem medo de quê? Que o carro arranque antes que ele passe para a plataforma de descarga. e me engano todas as vezes. mas a criança vai se servir deles como elementos necessários para seu jogo de permutação. prevista desde toda a eternidade pelo pai imaginário eterno. Vocês sabem o que se passa constantemente sob seus olhos. i vocês são. Logo. dos meios de transporte. Por mais civilizados. e o próprio lu iul o sublinha. tendo simplesmente lido cinquenta mil florins ao condutor. Quando tiverem isolado este elemento. nesta obserID. Não podem deixar de ver o i iilcnle parentesco que há entre esses diferentes momentos do fantai. j. e para botar o lado claro por baixo e o lado escuro por cima é preciso que eu faça mentalmente uma permutação. em seu interior. continuar sua viagem no mesmo veículo. não se vê bem que tipo de progresso poderia rslc. por um condutor. as tendências naturais que surgem segundo a boa ordem do desenvolvimento instintual? É justamente o contrário.288 A ESTRUTURA DOS MITOS COMO SE ANALISA o MITO 289 primeiro suporte a seu problema. que sejam. Haverá ainda muitas outras. Volto sempre a isso: o uso do significante só é concebível se vocês partirem do seguinte. • •bre um troço onde não há cavalo.iirtrio do significante em torno dos diferentes personagens a quem "Ifito interessa. inteiramente nu. e os condutores. l'odc-se dizer que nenhum dos elementos da realidade que o cerca • realmente fora dos meios de Hans. passar a noite ali e poder. não existe traço. as carroças que se movem. a do trem no qual ele é igualmente embarcado. encontra-se "iii o pequeno Hans num outro veículo que se parece muito com os nii-riores. O que conta é o fato de estar sobre um veículo diante de alguma coisa de que este pode se separar. será i de se fazer colocar em triunfo. Vão tentar ver como o atrelar — é bem isso que está em jogo. o descarregar. e as pulsões. num momento. no decorrer desta. pego um fiacre e volto. corflj relação à qual ele pode se deslocar. num sujeito . em dado momento. • no lhes expliquei em meu Seminário sobre "A carta roubada". Vou lhes provar isso comigo mesmo. a carruagem. trata-se de outra coisa.imcnto do pequeno Hans. nessa fantasia que surge muito mais tarde. em 22 de abril. o que quer dizer o cavalo. Esta. Não tentem compreender de imediato . voltarão a encontrá-lo em' mil traços da observação do pequeno Hans. tão desajeitados quanto possível na exaustão de todas as permutações possíveis. o pequeno Hans que está em j cima. meninos que sobem nos pacotes de carga etc. coisas que são descarregadas. os cavalos. Esses elementos também têm sua ordem de realidade. Se há algo que caracteriza o estilo geral do progresso i ci|iicno Hans. A ordem permutativa é o que está em jogo naquilo que será construído pelo pequeno Hans. e se vocês pensam híi regressão porque. excelente pequena Anna. senão um progresso na ordem do significante. é precisamente seu lado irredutível. e a referência do veículo a um certo plano u. mas tem medo.

Isso é o que vamos tentar ver da próxima vez. aí está o que nosso progresso na observação do " i|in-uo Hans levou a valorizar na crise psicológica atravessada pela nunca.ivel de seu sintoma.290 A ESTRUTURA DOS Mrros semelhante. Há a famosa história da banheira e do perfurador. instrumentos agrupados em torno de modos de cooptação muito elaborados na adaptação humana. a passagem de uma apreensão fálica da relação com a mãe a uma apreensão castrada de relações com o conjunto do casal parental. Esses elementos que se opõem uns aos outros são. de primeira estruturação simbólica da realidade. isto é. que gira inteiramente em torno do que vou chamar a função lógica dos instrumentos fabricados. tomada de horror — o aparafusado. i<> contrário. . on. ainda ordenável com li n-iu-ia a esta. muito forte. ao dia comemorativo de 3 de abril. o que está enraizado. O que se vai pelo buraco. instalado. um só elemento alfabético para resolver seus problemas. 3 DE ABRIL DE 1957 XVII O SIGNIFICANTE E O CHISTE Regra de ouro. Isso é articulado muito claramente na observação. as quais. Com efeito. e que é inseparável da intervenção paterna guiada pelo conrllin de Freud. aquilo que é seguro por tenazes e que desempenha um papel essencial no outro mito. Todo o progresso operado por Hans durante a observação está ligado ao detalhe dessa estruturação mítica. { função do mito. Hans no País das Maravilhas. se a criação MHKÍnativa de Hans vai sempre se desenvolvendo à medida das inICvrncões do pai. é absolutamente sólido. por exemplo. Malícia e ingenuidade. 1 1 ' ' li facadas as declarações de Hans sobre o conteúdo de sua fobia. pólo temido diante do qual a criança se detém.niios chegado.iloricamente. de sua fobia. flinancce o fato de que essa criação se apresenta como dificilmente i jp. Veremos que o pequeno Hans emprega um único mito.r i. da última vez. mesmo sendo mais ou menos hábeis ou Hllhfsiras. que ele não faz uma histeria. ou mesmo simplesmente aderido de maneira natural — o perfurado. estimular até o fim a série de suas produções. Damos a ela um valor técnico. lissa noção global do que se chama o mito. isto é.ii. aquele da banheira e da torneira. à utilização de elementos imaginários para o esgotamento de um certo exercício da troca simbólica. que era a sua fobia. ou ainda o capturado por tenazes. não a implicamos aqui 'ii i. Valor combinatório do significante. que supomos poder |C upreciado em sua justa importância. e sim uma fobia. 291 . resistente. presente. isto é. Isso é o que vai acabar por tornar inútil este elemento de limiar. quero dizer. Não se pode deixar de ficar capturado pela maneira como esta criança se serve deles como de instrumentos lógicos. são orientadas suficientemente bem para não fazer calar. isto é.

e a gravidez da mãe. não é aquilo que. poderá talvez ser ao final. onde ele lhe diz algo como: Você deve estar com raiva de mim. com aqueles carros que chegam e tornam i r ii i n . enquanto estão ali. Das muss wahr sein. que " i n . numa ambiguidade certamente indiscernívcl. Há o cavalo quando lln l.292 A ESTRUTURA DOS MITOS O SlGNIFICANTE E O CHISTE 293 À noite do mesmo dia. de sua saída. ou encarnando-o de alguma maneira. considerar esse cavalo como um puro e simples equivalente.leoi-s possíveis. que foram resumidas sob o nome de sintomas transitórios na análise. Se nesse momento o cavalo é M i . em suma. nos quais nos podemos deter. a significação é diferente. antes de ocupar. Para fazê-los sentir a importância de nossa abordagem. com efeito. Num momento do fim do tratamento. desempenhou muitos outros papéis. ||p iiimni foi mau. segundo a fórmula clássica de Totem e tabu. com algumas conoIftçOrs austríacas que fazem com que ele possa. todas as I j i h i .<i 11 i avalo. que se seu filho assumiu um comportamento mais corajoso sob o efeito da intervenção de Fremi de 30 de março. como Hans insiste durante a sessão de 3 de abril. a passagem do estado pré-edipiano ao momento — no sentido físico do termo — edipiano. em 3 de abril. de definições e. nu medida em que Hans. Em todo os casos. na l|iinl explica qual é a ordem de satisfação que deve a todo o tráfego < n i e diante de sua casa./<• Assim. e parece enriquecer-se. bem como de suas produções diversamente qualificadas. 11 m outro elemento constitui durante longo tempo tema de inter. tumulto. de maneira definitiva.i» mini. aparece " i ii. Já lhes disse da última vez que. É impossível. sem dúvida alguma devidamente doutrinada u i i i (empo. i Io. vou tentar expor um cerlo número de termos.i. a saber. como tal. a saber. O cavalo. Ele é igualmente simbólico do pênis. n regado. representando-o. ver.i um carro de um cavalo ou a um carro de dois cavalos? Em iiln i .i ma mais desenvolvida. seria. Esse cavalo deve ser atrelado ou não? Deve IP lu . seja como for. ele é irredutivelmente ligado a esse carro. que aliás não deixou de impressionar alguns autores. devemos perceber um fato que só se confirma pela distinção entre significante e significado: nenhum dos elementos significantes da fobia tem sentido unívoco. são descarregados e recarregados. sabe melhor avaliar o modo sob o qual sua fobia o pressiona e submete. e o problema da situação l i n. que é um i ( . como vêem. encontrar a partir de então sempre nos bastidores do medo do i i v.ilinente Robert Fliess. e seria um equivalente do ! pai. Esforço-me aqui. nem é equivalente a um j significado único. esse cavalo de aspecto orgulhoso que Hans vê passar na rua.|>reial. por sua vez. umfallen. de regras. a fobia. ocorre a famosa conversa com o pai. por me apoderar da atenção da minha mãe e ocupar o seu lugar • . O primeiro. j restabelecer em seus espíritos a verdadeira função do sintoma. que se produziu uma vez. Esta queda.ulo. É um caminho fácil dizer que seja a uma carência do pai que. a criança. esta função nu i i i u i i e a . carros carregados.inças no ventre da mãe. o pai diz. Isso é o que pode acontecer com alguns cavalos. E isso apesar das denegações do pai. que lhe diz que . que viria aí como uma espécie de neoprodução. barulho desordenado. Hans nos dá a este propósito. responda o cavalo. « a pouco surge a equivalência entre a função do carro. ou mais exatamente.. que escreveu sobre isso um artigo no i n do IJP consagrado ao centenário de Freud em janeiro/fevereiro 1 . para inverter.i dadeiramente de acordo com os principais exemplos que Freud desenvolveu para nós. do nascimento. ao mesmo tempo. é da mãe. se quisermos fazer um trabalho j que seja verdadeiramente analítico. sem dúvida. <l'. com detalhes cuja incidência se torna mais fina e complicada. e que. a bobagem. também assumiu amplitude maioi. é o cavalo. mo lempo do cavalo. tal como apreendido IM-II i pequeno Hans. por exemplo.Ucr inquietador e angustiante do Krawall. o que no dizer de Hans foi um dos acontecimentos precipitadores do valor fóbico do cavalo. e que associa a algo referente ao orgulho viril do pai. Existem muitos deles. mas permaneceria de todo insuficiente. Dizer que o cavalo desempenha um papel determinado pelo que parece realmente ser a dificuldade naquele momento. doravante.i acompanhada pelo barulho da agitação das patas dianteiras do . Ni<|n Mimo for. conforme ao que lhes estou ensinando. como a sequência irá demonstrar i i . diz Hans. e ao MI. Foi ali que ele ficou " "i" a Dummheit. em seu ápice.1 dizer rumor. verdadeiramente freudiano.10 tanto para o pai como para Freud: o famoso Krawalt. o • i «l» (cm nesse momento uma função inteiramente diferente. Logo.iso. especialmente 11» envalos grandes atrelados a carros grandes. A i|in <l. você deve me querer mal por ocupar este lugar. chegar d M*i utilizado para designar um escândalo.. naturalmente. da função do pai. l iro de alguma coisa. faz surgir o mito edipiano com um caráter imperativo I m l i i < .. Isso deve ser . ao que parece. Isso se produziu em particular depois que o cavalo iln umbus caiu.

é " nlc a de nele nos perdermos. u l u l o em que o promovemos aqui. sob o qual se funda a noção de relação de . vai voltar sob mais de um ângulo durante o inter rogatório do pequeno Hans. se temos alguma sensação ao penetrá-lo. nos seja dada uma sua interpretação de maneira comprovada. a Imma das relações. que o pequeno Hans torna tão rico. exatamente como o é um significante típico. sob certos aspectos. Não se vê. i-nirarmos na observação do pequeno Hans e isso transborda por tiniu 1 . a angústia surge: ele tem medo de i-avalo entre no quarto. i M. Logo. por outro lado. múltiplos significados.1. Aliás é preciso observar que. se quisermos que esta observação não seja pura e simplesmente um enigma. na análise. espe• nic diante da criança. até mesmo a nenhuma das ações ditas imagiem nosso registro. realmente. e por outro lado no próprio trabalho analítico. tanto Freud como o pai são levados a permanecer na dúvida. Na medida em que esta é uma observação freudiana. solicitado. tirou uma chave do bolso etc. Desde que aparece. e quer este objeto. a criança zomba deles. no decorrer do desenvolvimento e da evolução.iviío ou este ato sintomático sejam ou não primitivos e ainda . É por isso que eu gostaria.1 iodo elemento que possamos considerar como significante. e justapoique a observação é notavelmente rica e complexa. por que esta K. pôr em causa as insuficiências da observação. tirou o chapéu. Isso é H I M M V I . pois. os lados.os. . portanto. objeto. isto é. isso se restabelece. Não apenas é de sua natureza fazê-lo. por outro lado. um certo número de regras. relação ou ato sintomático. e não • ' U . Esses equívocos constituem uma fase demonstrativa característica da observação. o aparelho significante do caso. quanto a esse assunto. esta formação sintomática ao mesmo tempo tão simples e tão rica.i n I. sem que jamais. e mesmo na abstenção no que toca à interpretação de um certo número de elementos. não podemos deixar de ficar impressionados com o caráter mo. tão luxuriante. Devemos. lemento significante não é equivalente a nenhum dos objetos. Mas. em nossa perspectiva. por mais que lhe sugiram todas as equivalências. até mesmo malsucedida.ulas mais ou menos assim. durante toda a observação. seja esta de criança ou de ninho. a fim de abordá-la.294 A ESTRUTURA DOS MITOS O SlGNIFICANTE E O CHISTE 295 cavalo. Mipor a vocês. ao pequeno HNHS. Isso tem certas consequências no que tange ao tema deste ano. a via pela qual esta nos mostra o caminho do modo de compreensão que convém ao que está em jogo. l ". quando ele aparece i ( M U S ilc um certo intervalo onde se manifesta a angústia da criança. na ambiguidade. até mesmo sua incompletude? Bem ao contrário. e porque nos é dado no registro das produções é dos mais raros por sua i nu ia. para dizer a verdade. inteligente. carregado de uma profunda ambiguidade.I o suficiente no fato seguinte: no momento preciso em que t«l!i cm questão a partida da mãe. observação. O conjunto dos elementos significantes que nos são dados no decorrer desta fatia de caso clínico. existe aí uma dupla relação muito Hiiilnj'ii. Ele já é um nl|ni» próprio para tudo. o pequeno Hans. em momento algum d. o > c. todas as soluções possíveis. quer se trate de um > <|iianto de uma relação ou um ato sintomático. não é duvidoso. pela via de seu movimento e de seu ato. Temos aqui o testemunho disso. mas também. . aqui.10 seria considerada confusa. Certamente. alusões. por um lado. Verifica-se que por mais que eles pressionem a criança a confessar. devemos nos impor. o Krawall. escapatórias. O significante sintomático é constituído de maneira tal que é de natureza a recobrir. a seguinte regra: nenhum elemento signif|i mie. sistemático das interpretações analíticas. Este lado de paródia é tão caricatural que não deixou de impressionar os observadores. na fobia. quem entra em seu i|n H i o ' Hle. Tem-se mesmo por vezes a impressão de que. ivnsc-m no primeiro surgimento do cavalo. Penso principalmente em tudo o que se passa em torno do mito da cegonha. e os mais diversos. . Isso. e que r já singularmente marcada por um caráter dialético. aqui. ligada por um lado à função da mãe pela via da tonalidade icntal da angústia. O caráter de paródia de algumas fabulações da criança é manifesto. é feito de tal maneira que. não existe melhor ilustração do fato de que o significante como tal se distingue do significado. encontra seu lugar e nos leva ao núcleo da questão.sãs regras concernem.ilo desempenha ali uma função que se trata de definir. isto é. regras que podem ser • ml. l 01 mulamos. na neurose por exemplo. i observação de tal autor ao qual ternos o hábito de nos referir. tão carregado de elementos humorísticos: ela entrou. mas esta é também a sua função. MT considerado como tendo uma importância unívoca. nada obtêm dela além de evasivas.

O que guia o sr. seu plano |Hit|)iio. com não-sei-que "ti|M i Unidade da dedução intelectual. mas que o captura muito mais que ele o i • nvolve. recuando. claramente recortadas como sempre são as coisas com que lidamos tanto no mito quanto na produção sintomática. fazendo-o surgir a nossos olhos como parasita. mas ela apresenta contradições insustentáveis quando se tenta articulá-la.o o delírio — é quase como um lapso. É isso que justifica a aproximação que fazemos com a teoria recente do mito. aos defeitos inerentes à escola psicológica. Lévi-Strauss em seu artigo do Journal of American Folklore? Através do que a noção de um estudo estrutural do mito é inaugurada nesse texto? Por uma observação que ele toma de empréstimo. com a ideia de progresso que isso implica. intencionalmente. que é do registro imaginário. de certo modo genérica. entra. assim. com o que ela comporta de normativo.iia. a desenvolvê-lo no plano de uma série de i|in ideies. a partir do momento em que ela tenta exprimir-se na ordem de uma relação pré-genital que se generaliza. ilo o pequeno Hans se põe a nos revelar pouco a pouco suas i. para colocá-las no terreno qualificado de afetivo. a maneira c-sie foi capturado ou encerrado nela. É de um mecanismo inteiramente diverso que i n. tomando-o l L i rã além daquilo que o sujeito possa intelectualizar. até mesmo que aí se iria exprimir.i vocês. não deixa de ter valor. quando começamos a perceber •i In i i > i ia de uma neurose. Só se pode qualificá-lo assim • perspectiva inteiramente superada da racionalização do delírio.»» não tem nada a ver com uma psicose.i em torno de si. igualmente. pois o que está em • i > » i. ao contrário.n l i ç a r de tal pulsão. mas que . As contradições do jogo desta noção são flagrantes. de desenvolvimentista. de tal movimento emocional i M i n nlar que aí se iria transpor. Hocart. sua equivalência afetiva ou psicológica. se • i i i i ' .ivamente de um sistema em outro.. Remete-se. se ficarmos com os olhos ilx-rios? De maneira mais geral. Não podemos de modo algum nos satisfazer com »iiii iloliicão a partir de emoções vagas. seu desenvolvimento no sujeito. que. Basta. HIMls ou menos. diz este autor muito formalmente. e que necessita do estudo estrutural do mito. a uma pulsão confusa aquilo que se apresenta no paciente sob uma forma muito geralmente articulada. Daí resulta. Nossa perspectiva nos dá. e.1 sendo o jogo do singificante com suas leis próprias. i < > de que o jogo do significante se apossa do sujeito. Mi)'. simplesmente. e é mesmo este caráter articulado que faz o paradoxo do fenómeno. se seguirmos o que é para nós a regra de ouro. Isso talvez responda a tal necessidade • •li i .296 A ESTRUTURA DOS MITOS O SlGNIFICANTE E O CHISTE 297 objeto tal como atualmente utilizada. se organiza. a articular as coisas. ao contrário. l MM grupamentos de elementos significantes que se transpõem pronrv. O que se chama aqui de escola psicológica é aquela que tenta encontrar a fonte dos mitos numa pretensa constante. Acumula-se a este inconveniente o erro de daí fazer derivar essas ideias bem definidas. No •••nio em que a sombra do cavalo aparece acima do pequeno Hans. ou do sintoma. mas o termo não deixa M NCT apropriado. Seu primeiro i" '•<> e famais considerar nenhum dos elementos significantes indei li-Miemente dos outros que venham a surgir. a impresf)u < le que a edificação ideativa — se podemos utilizar esta expressão i MI do pequeno Hans — tem sua motivação própria. de ré. e que repousa sobre a noção que temos da estrutura da atividade simbólica. Temos. i l (unção. Esta se impôs de maneira singularmente análoga à maneira pela qual a simples apreensão dos fatos nos força. de certa forma. | rrvelá-lo — quero dizer. Bastou-me ler trechos dos dois volumes coletivos publicados no começo do ano para que vocês tivessem a impressão de que eu estava sendo caricatural. de tal impulso. mas certamente não ao que quer que seja que se possa I M . e que diz que. da filosofia humana. não confundi-lo com o que é jogo mental.n i i a ali de frente. . É claro que esta noção.i assume seu desenvolvimento. sua instância própria. Um exemplo irá ilustrar isso HM. a um de seus colegas. os elementos significantes devem ser definidos em primeiro lugar por sua articulação com os outros elementos significantes. de geneticamente definido.. que vemos na nossa perspectiva. de progressivo na vida do sujeito. e que consistiu em rejeitar as interpretações psicológicas fora do contexto presumidamente intelectual. pui n e simplesmente. o que vemos? O sujeito min i . MMi r n i i a pouco a pouco num cenário que se ordena. ( ) que vemos surgir no pequeno Hans não são temas que teriam. < iosiaria de tornar-lhes isso presente através de uma imagem.is. se existe algo que devemos de saída inverter é realmente essa posição assumida no decorrer dos tempos em nome de não-sei-que prevenção íntima anti-intelectualista. como se diz. antes de tudo. que são. de certa maneira. acrescentava-se assim o erro de acreditar que ideias claras pudessem nascer de emoções confusas. Logo. de ordem combinatória. |iui r templo. O que impressiona é o aspecto articulado com que tal • l.

O pai. da ordem il» i>i>r que ou do porque. que não podemos deixar • i ' '•!' niificar. sob a condição de termos sempre os ouvidos abertos ao i n . e a todo In i . Isso não é um sonho. pura e simplesmente. como se traduz. Hans é afetado por isso.na representar. O significante. sublinha que seu faz-pipi é angewachsen.i não basta. fiini dar-lhes um outro sentido.l. Já não está aí um esboço do que parece caminhar no sentido de j tornar inútil o suporte fóbico? Seria este o caso. ao final de uma pequena lllliodnção ao primeiro número da revista La Psychanalyse: É atraVt\\. realmente. apesar dos gritos e protestos da grande. a propósito do que está em questão é bem marcada aí. de Anna e seu Krawall? Pois. é aliviada pela ideia interditora que o pai lhe traz no que se refere à sua masturbação. e Freud o incitou a intervir neste sentido. A criança. ao fato de que para Hans não existe contradição alguma. Hans nos mostra. Chegamos mais perto de uma primeira tentativa de analisar a preocupação de Hans concernente àquilo que se relaciona com seu órgão urinário. dizendo à mãe: Até fityii.iié ali não estavam constituídas para ele. problemas de significantes. nos designa por si. o pai se esforça para alcançar mais diretamente aquilo que ele pensa ser. que nunca ÍPIll ISSO. ligadas por um meio. na observação mesma. aqui. o que tem de opriado o esforço do pai para fazer se corresponderem dois a dois ios simbólicos e os elementos imaginários ou reais que estariam i l i p. Nicht wahr. l'or que nunca será isso? Isso depende de com que Hans está Ihliimlo quando surge sua fobia. uma cópula. a saber. em seguida. é especialmente satisfatório. Isso i. Todavia. e isso só pode ser feito na noss. simplesmente. outra forma.il (|iie a girafa grande é a mãe. uma função imaginária para uma simbolização radical formulada como tal pelo próprio sujeito. É. j e se ali estivesse. estes são problemas de . É assim que a existência do significante lliliotlu/. aos gritos da mãe nessa fantasia. e que irá crescer junto com ele. com Hlnio. que admitiu até então um registro llllnpivlativo diferente. ( ) homem. veremos aparecer a pequena Anna i uniu hastante perturbadora com seus gritos.i. aos olhos do pai. dirigido por Freud. porque é homem. em que uma girafa. n i i i . como ele o chama. até mesmo a ponta de malícia que aparece no Não é i . unicamente. se se tratasse do real. a compreensão de certas relações i|in . Vocês vão observar a oscilação. como tais. A perplexidade em que ficamos. ou valor. é uma fantasia que ele próprio fabricou. é posto em presença de problemas >|H' '. E uma girafa amarrotada é uma girafa que se pode amassar como se faz com uma folha de papel. novamente. E acrescenta: l girafa pequena é Anna? ( i (|iie constatamos aqui? O que vem fazer aí este outro modo de i|ni-iação? Trata-se.298 A ESTRUTURA DOS MITOS O SlGNIFICANTE E O CHISTE 299 As primeiras tentativas de esclarecimento do pai. i |nc existem palavras que se dizem. Portanto.de Hans.. o que significa a permanente ambiguidade em •r" hramos quanto à interpretação dos dois termos da relação simbóIII H ' A alegria. Para dizê-lo nos líiinos com que eu me exprimia outrora. no mundo do homem um sentido novo. ele diz da maneira mais "ii. cuja tradução l i i i i n c s a não transmite a precisão e todo o seu alcance: ele não diz: Nil. É então que vemos surgir a fantasia da grande girafa e da pequena girafa. a pequena. c introduzido no real por sua própria existência de significante. e a pequena o seu membro. O pai faz uma nova intervenção.i perspectiva. < n i u mais adiante na observação. o suporte real da angústia da criança: ele enuncia ao menino. A girafa grande e a pequena são inicialmente. veio até o quarto de seus pais para falar disso e vai desenvolvê-la. isso com que ele tem que se virar no linimento de que falamos. segue o caminho errado. de um esclarecimento real. até ali. e. o pai e a mãe. para alguns que não estavam aqui — dei toda a sua importância. girafa grande.ao. Esta intervenção faz passar um objeto que tivera. aderente ou enraizado. e sublinhada pelo gesto que ele faz. ihr lii'<l. Afinal de contas. de apoderar-se da pequena girafa amarrotada.Hans está prestes a lhe demonstrar que não é isso. para o pequeno Hans. e que têm valor próprio • d n-lacões simbólicas. mas Não é verdade. que as meninas não o têm e que ele o tem. em seguida.i • '.l. isolam no cavalo esse elemento especialmente peniano que faz Hans reagir por uma compulsão a olhar para o cavalo. nem mesmo ambiguidade. i. No caminho de uma Aufklãrung. da relação dos dois significantes. A criança. o Wiwimacher.ni<lo diametralmente o curso das coisas que o símbolo se liga. porque existem frases que se m u u l a i n e se encadeiam. o equivalente da angústia ligada à apreensão de um real que até ali não fora plenamente realizado por ele.n i o significante. de uma maneira cuja significação não escapa a Freud. Repito. responde da maneira seguinte. possa ser amarrotada. Isso. Já lhes mostrei que essa fantasia torna a nos lançar no campo de i uma criação cujo estilo e a exigência simbólica que ali se marca são absolutamente fascinantes.

Freud ilustra o ingénuo com a história i 1 1 lanças que reúnem à noite um grande número de adultos. pôr em causa todo sentido. Por quê? V. A distinção é das mais claras entre o domínio do espírito e o do MUI u.. Por isso. O valor do dito espirituoso. Ele é capaz de dizer a todo instante: As coisas são assim porque eu o decreto. dos dois. M iicr realmente destruidor. mas ela não pode mais se manter neste ponto. Tudo o que Freud >IM'II vol ve em seguida consiste em mostrar o efeito de aniquilamento. o termo familionário. A função do mito se inscreve aí.unos tomar um exemplo. e Hans é como o Humpty-Dumpty de Alice no país das maravilhas. Não conheço nenhuma obra cuja con- H ' seja assim tão nova e peremptória. como tal. M . e nos faz perceber a dimensão do ingénuo. A irrupção do chiste sempre tem um aspecto totalmente arbitrário. A ingenuiIc i Li criança. Os jovens autores ou atores. muito mais ainda. já que é este mesmo uso que cria aquilo que lil destinado a sustentar. tem o falo ou não o tem? O que a mãe deseja quando deseja outra coisa além de mim. fabricação fundada no significante. vemos bem até que ponto o ingénuo é intersubjetivo. que é um impasse. já que existe. um mito é sempre uma tentativa de articular a solução de um problema. e ninguém •u i-lic isso — esta frase. N u|if i posição de familiar e de milionário. desde o primeiro capítulo da Traumdeuii i. a criança? Era aí que a criança estava. tão il'i|Mi<). Mas. até aqui. por outro Io. (> Witz de Freud aponta diretamente. que Freud só aborda nesse livro secundariamente. que se chama o Wifz. É possível. que vêm contradizer a primeira formulação. somos nós que a implicamos. Isso é o que dá sua estrutura ao mito. uma passagem que é. e. razão pela qual faço esta digressão.i possibilidade de jogar com o non-sens fundamental de todo n 11< i sentido. estando sempre aberta a possibilidade de reduzir tudo ao nada arbitrariamente. Isso não impede que ele seja completamente subordinado à solução do problema que surge da necessidade em que se encontra de rever aquilo que até ali foi seu modo de relação com o mundo materno. sempre serão de uma MM ni. com relação a toda u n i u acão possível.in-trr seu contraste com o espírito. O palco ncf a a se agitar. sem se desviar nem se perder . i n.ulcrações secundárias. O mesmo acontece com Hans. todas as tentativas de leitura parcial que o pai se esforça incessantemente em fazer lhe parecem derrisórias. Jogando com MHinlicante.300 A ESTRUTURA DOS MITOS O SlGNIFICANTE E O CHISTE 301 criação de sentido. l'»>i um lado. Quem. e que o distingue do cómico. diz Freud. A propósito do estilo das respostas de Hans. de põe em primeiro plano que o sonho é um enigma. com tudo o que comportam de livre e de ambíguo. Esta obra talvez não tenha nenhum equivalente no que se pode chamar a filosofia psicológica. porque eu sou o mestre. proIcndo apresentar-lhes uma pequena representação teatral. Tal como descobre para nós a j análise estrutural. Com efeito. sem que nunca paire tu* cia qualquer dúvida. contam a tuna de um marido e uma mulher que estão na mais profunda •ciia: tentam sair dessa situação. Ele encontra inicialmente as •li intermediárias. podem surgir das manifestações do ingénuo um efeito um o. impossível.» c em si mesmo profundamente paradoxal. a todo instante. novos. até n i LM/. Trata-se de passar de um certo modo de explicação da relação-com-o-mundo do sujeito ou da sociedade em questão para outro modo — sendo esta transformação requerida pela aparição de elementos diferentes. que é mesmo necessário definir. e para l. não posso deixar de pedir-lhes que se remetam a esta obra imensa e admirável de Freud. É com isso que Hans se confronta. Eis o que está em questão no surgimento da fobia. . ainda pouco explorada por nossa experiência. Eles exigem. no desenvolvimento de tudo o que esta traz de elementos significantes.u|uilo a que se pode chamar a existência do real. disruptor do jogo do significante com I n. que é a análise correia.ivcl pobreza ao lado desta. o homem põe em causa a todo instante seu mundo. para o essencial da natureza do fenôi tu i l )o mesmo modo que. organizado com base nessa dialética do engodo entre ele e a mãe. Todas as obras sobre o li < | i i n sejam de Bergson ou de outros. I1 u-. Este se confronta com elementos que necessitam a revisão do primeiro esboço de sistema simbólico que estruturava sua relação com a mãe.10. de certo modo. cuja importância já sublinhei para vocês. nicilida em que este é fundado num uso do significante. o marido parte para regiões dis- . passou completamente desperce1 • lambem não se parece haver percebido que a análise do dito l noso começa pelo quadro da análise de um fenómeno de con.

Isso se torna muito engraçado. com efeito. Depois de se ter deixado capturar por um instante pelo n n. Mas esta ingenuidade. realmente. ( ) pai interroga seu filho: O que você pensou quando viu o cavalo i» l'oi a propósito dessa queda que Hans nos diz ter ficado com a . Se atribuirmos ao jogo da comédia infantil uma ingenuidade fingida. Por um instante. O fato de que a criança vá diretamente a um absurdo sem se abalar minimamente desencadeia o riso. Hans replica: — Sim. Estamos aqui num domínio limítrofe do cómico. eles encontraram de saída. é com um arzinho perfeitaIPiilr sério que. como se exprime Freud. j Em outras palavras. digam a si próprios. i i n . Esta é uma história engraçada que desencadeia o riso porque sai da boca de uma criança. até certo ponto. de certa forma. que o cavalo estava Wto. enquanto mu i iço se contenta com uma relação dual. aliás — é i. por exemplo. As histórias infantis.indo o que isso quer dizer com uma lanterna. O cómico pode ser pnlnnchado simplesmente entre duas pessoas. cheio de reflexos em seus óculos.. Numa ordem diferente. abre uma cortina ao fundo do cenário e lhe diz: — Veja.i" instante nesse jogo de esconde-esconde. Você pensou.ir outra que leva um tombo. realmente. pode-se dizer que a descarga surge da economia espontaneamente realizada pelo relato em questão. com V//i» pensei isso. nos diz Freud.. dito por uma boca menos ingénua. Bem poderia ser. Mas essa ignorância que consegue acertar na mosca. l ia dimensão do simbólico é exatamente o que se deixa sentir a . chegando mesmo. "estranho"] pode comportar de ressonâncias estranhas. ou que teria precisado enriquecer com alguma sutileza suplementar para que aquilo pudesse j passar por engraçado. e dá seu tom. e ao seu lado i . Esta o escuta. E depois. Freud vacila. o homenzinho engraçado. nem sempre deve ser tomada ao pé da letra. a Hupc-ctiva da terceira pessoa. comportaria. há uma espécie de curto-circuito entre . a cabeça comprida é este asno aqui. e diz: Não. num primeiro tempo. A observação é pontuada por pequenas marcas desse tipo. se corrige. dez bonecas enfileiradas. diz o pai sem tato algum.u pesado.. e que sempre ressalta do fundo como 11.I. não é certo | que ela seja total. foi só uma brincadeira. que este preto que Irt ali voando diante da boca do cavalo é a hiância real sempre oculta n nas do véu e do espelho. e volta tendo realizado imensas explorações e carregado de numerosas riquezas. complicadas para realizar uma ação que para nós seria simples. l e dos mais tendenciosos. Como o pai observa em seguida. Que haja ou não. Basta um nada precisamente. Esta. Existe o ser ingénuo e existe o fingir ser j ingénuo. bem sabemos. Faz. com tudo o que essa palavra [drôle. Ali estão eles se interroIlido sobre o famoso preto que há diante da boca dos cavalos. c|ue a criança afetasse ser ingénua. começa a rir — • • • i ibservado —. proii. i|iie supomos para que isso nos faça rir tanto. essa ternariedade é m i ' i e necessária ao desencadeamento do riso pelo chiste.302 A ESTRUTURA DOS MITOS O SlGNIFICANTE E O CHISTE 303 tantes. com muitos outros.. é sempre mais ii menos implicada. a engendrar constrangimento. Apreendendo-a como uma das formas do cómico. l i . Nada prova que para além dessa criança que MU unos por ingénua não exista um Outro — ele está ali. uma parte de tensão. i \ontade. E unido digo um asno. aquele pai (íocludo e de óculos que ele vê no consultório ao lado do pequeno . todo o seu caráter de Witz. sim. Para dizer tudo. um chiste ingénuo. ou que se põe a efetuar i i . na psicologia do pequeno i M —.u i . Fala de sua prosperidade diante de sua mulher.Mi'(-m. se permanecer virtual.1 mancha. isto é. não é verdade. a suposição de que a ingenuidade não seja completa — para que sejam as crianças a levar vantagem e serem donas do jogo. mie bastar por si só. ao fundo. quando têm este caráter desconcertante que desata em nós o riso. o que dá aos adultos toda a possibilidade de se esbaldar: Esses guris são impagáveis. A visão que uma pessoa MI . nós as incluímos na perspectiva do ingénuo. cheio de . A economia em questão é feita em relação às mediações sutis que esta construção deveria ter sofrido na boca de um adulto. restituímos a ela. E vêem-se. de repente Freud pensa na outra figura do pai. Conta-se o chiste de alguém diante de outro i alguém. este eco trágico. Eis o exemplo dado por Freud para ilustrar a ingenuidade. ocasionalenle. falando propriamente. essa zombaria perpétua nr i olore todas as réplicas de Hans a seu pai. quando Freud diz a llicsmo: — Mas aí está.n Ali. No ingénuo. aquilo que um adulto teria tido muito mais trabalho para encontrar. Supostamente. três pessoas. dessa maneira. Assim mesmo.igico da queda do cavalo — mas será certo que haja. . eu também trabalhei bastante enquanto você esteve fora. todo embonecado. com toda a inocência. aplicado. iiii Spass que eu fiz dizendo isso. A criança realiza diretamente o que nos leva ao cúmulo do absurdo. Freud põe em evidência — peco-lhes que se reportem ao texto — que o dito espirituoso comporta sempre a noção l de urna terceira pessoa. "engraçado". fingisse. ao contrário.1 i u-mplo. de repente.

ao mesmo tempo em que diz que o pai inevitaveliic se confundiu. Durante M lonua e complicada conversa no decorrer da qual o pequeno Hans e •i u pai tentam destrinchar juntos a questão. devemos estar atentos para ver que giro significante ele opera. Que grande . ri e anula de súbito a longa série do que acaba de desenvolver diante do pai. il" 1'ióprio testemunho do pai. É também a tela sobre a qual se projeta . em cada uma das etapas que ele percorre durante os cinco primeiros meses do ano de 1908.presidente. ou mais exatamente daquilo • i'" no movimento. Assim. sem dúvida alguma. essa passagem é Incompreensível. Em se tratando do pequeno Hans. Temos a impressão de que ele lhe diz: Estou vendo onde quer chegar.. Este elemento é essencial na estruturação das primeiras fantafaz pouco a pouco surgir outros elementos. 'lemos. para dizer a palavra. Sem dúvida. nele introduzindo novas relações combinadas..ilo. Ele faz parte dessa função essencial da vestimenta. e as !•!. um certo número de perspecnuma nota ao final. muito precisamente.r. o que o professor acaba de insinuar. que Freud acentua.il'. o pai desconheceu uma oposição inncl. com efeito.imental. () pequeno Hans parece nos dizer coisas bastante incompreensíVflN. à defecação. e esta apreciação que.. de maneira mais ou menos brusca.10 da palavra Strumpfque quer dizer em primeiro lugar meia preta | ijiic. vamos vê-lo. tli pois de numerosos desenvolvimentos onde percebemos que quando i i < amarela tem para ele certo valor. que ele tem muita raiva do pai. estaríamos errados em identificar o loumf à defecação. o que o pequeno Hans quer nos indicar •mui (• que as calças têm para ele uma função completamente diferente I|H. aí. na linguagem de Hans. é associado pelo pequeno Hans | uma blusa preta. perde seu latim.. a saber. todavia. ligada à diferença de percepções auditivas entre o ato de I M i i i . n do homem e o da mulher. mas no segundo tempo. deixando de situar como tal este elemento essencial para Hans. uma amarela e outra preta. Em suma. . e isso. e que ó capaz de se soltar prematuramente de seu ponto de partida. mas transformadas. O significante é uma ponte num domínio de significações. Isso é. Por conseguinte. ele a aceita como equivalente de caído. portanto. diversamente fantasísticos. Para retomar nossa referência ao primeiro número de La Psychanalyse. diz ele. l''ora das perspectivas a que tento introduzi-los. Logo. i. é o caso de dizê-lo. aceleração e.304 A ESTRUTURA DOS MITOS O SlGNMCANTE E O CHISTE 305 o caráter divino da superioridade professoral. suficientes indicações que mostram que o propilo l . por exemplo. ela fica mais preta. ou pelo que entra em movimento de repente. A medida que a calça é usada. pensa Freud. O conjunto de significantes postos em jogo reestrutura o real. e que se exprime em letras francesas pela terceira letra do alfabeto seguida por três pontinhos. de que o pequeno Hans não conduz muito bem o jogo quando se corrige. dentre os quais não |N M te mós deixar de dar uma atenção toda especial às duas calças da llilU-. num outro trecho da observação. nessas condições. o loumf.n. as situações não são reproduzidas por ele. é modificação. À primeira abordagem. \c fato. a palavra morto. este par prova assumir Vwlor apenas por manifestar uma série de oposições que é preciso ir jliorurar em traços que passam inicialmente despercebidos. sucessivamente. ele é. estava sempre pronta a sair da boca de Freud. ((iimido está separada da mãe lhe dá vontade de cuspir. não é à toa que se encontra em sua capa o símbolo da função do significante como tal. indica-nos. Quanto |fl rióprio. Existem aí elementos significantes ligados. quando é preta não o tem. O pai. eis o que está em questão. a ponto de desejar a sua morte. Este episódio. ele diz para si mesmo: Você está me repetindo a lição do Professor. que se chamaria. só j interessar pelo que se carrega e se descarrega. vem contribuir para as regras que são as nossas. Em primeiro lugar. a noção de que loumf è uma transforMI. observar os significantes em seu valor essencialmente combinatório. ou pelo ' Rimos que passaram radicalmente desapercebidos quando se procura t i l i n i i l i c a r maciçamente as calças amarelas à urina. é sua função de esconder.indo são usadas pela mãe e quando não o são. segundo nos mostram as confidências de contemporâneos. e é por isso que devemos sempre centrar nossa questão no significante. que diz a si mesmo que aquilo ali diante dele recorta e vem reunir-se à intuição do caráter abissal do que sai das profundezas. quando a mãe 11 íNlri usando não lhe dá vontade de cuspir. Não há dúvida. reud se dirige para um começo de relativização dialética total I|MI|IIÍ|O que significa o par de calças amarelas e calças pretas. . portanto. recriadas. Freud insiste e ili/ i|iic. de que ele parte e para chegar a quê. que! i M mi em torno do tema do movimento. não sem humor. Temos.Freud.

E é na medida em i|m l lans deve se defrontar com seu complexo de Édipo numa situação i|iir necessita uma simbolização particularmente difícil que a fobia se hindu/. • i lodavia o mesmo. É o pai quem emite a ideia de que. é pouca coisa perto da função simbólica. para dizer-lhe que a única explicação possível é que. se lhe trocam seu pênis. é a identificação perfeita com o objeto do amor materno. qualquer que seja. e que deve ser estudado como tal. É com um problema desse llpu <|iie Hans se confronta. mais fundamentais das fantasias imaginárias de Alice no país "iiravilhas. i r está aprisionado. justificar. ordenado antecipadamente na ordem imagiiirtiu. partindo do dado que se propõe ao pequeno Hans. que é sempre i' • na partida. Aí está. devemos dizer. do pai. a perspectiva. a analidade interessada no mecanismo da defecação. e é isso que dá a essa obra seu valor absolutamente pliMivo para o estudo da imaginação infantil. O desenvolvimento no neurótico de um sistema mítico qualquer — o que chamei outrora do mito individual do neurótico — se apresenta como a saída. o desencaixe progressivo de uma série de mediações ligadas por um encadeamento significante cujo caráter é fundamentalmente circular. É esta que.306 A ESTRUTURA DOS MITOS O SIGNIFICANTE E o CHISTE 307 o objeto principal da interrogação pré-edipiana de Hans. vem então um elemento novo.Io. MI. Será mais tarde o seu próprio traseiro a ser igualmente desaparafusado.is. e não sabemos se o teria dito se o tivessem deixado falar. sua estrutura e sua gravitação próprias. um caso onde se pode tocar na contratransferência. e que está fundado no seguinte: não l. Eis um exemplo das faltas que são cometidas a todo instante. para a criança. Essas pessoas estão de tal modo apressadas em impor sua significação ao pequeno Hans que nem mesmo esperam que este tenha acabado de se expressar a propósito do desaparafusar de seu pequeno pênis. O pequeno Hans não disse tudo isso. estou de acordo com os autores. a saber. mais uma vez. ao fim do deslocamento operatório do MI. no desenvolvimento mítico de um sistema significante sintomático. ihsiinto. o instalador vem desaparafusar. segundo um modo de interpretação onde se busca sempre em não-sei-que tendência afetiva aquilo que iria motivar. realmente. ele mesmo. O ponto de chegada tem uma relação profunda com o ponto de partida. VtMii iia/.i significante. tanto quanto de Freud. sob a forma da banheira que. com o pai e com l lixiste um problema cuja importância não se poderia exagerar .1 existência distinta de um pênis que pode. O pequeno Hans só falou da substituição de seu traseiro. . O fato de que o excremento como tal seja designado por um termo aliado à simbolização da falta de objeto mostra bem que a relação instintual. para ser considerado como a solução.n a s masturbações ou ereções infantis. A função simbólica está ligada para o pequeno Hans a um questionamento que lhe é essencial: O que é que se perde? O que é que pode ir pelo buraco! Estes são elementos primeiros daquilo que se j pode chamar de uma instrumentação simbólica. nada mais é que um dos i iiur. um fenómeno completaHI. se tornar mu n n ou menor. no percurso que faremos depois il» In i. Vou lhes ilustrar isso em seguida. na relação de engodo onde se •mia inicialmente o jogo do falo. o fenómeno do crescimento. • ni i. no momento das 1 ' i i n i i . é para dar-lhe um maior. l ' . aí se apega imaginariamente. o de integrar a existência do pênis " > i . mas que.envolvimento da criança. se reencontra no ponto de chegada sob uma forma i H h i .er um elemento essencial de perturbação no momento em que II (nimciro confronto com o crescimento se produz: é o fenómeno da i cncia. e seu próprio pênis. (|iic permita ao sujeito assumir o fato com que é confrontado de na aguda em dois ou três momentos de seu desenvolvimento l i i l i m i i l .. de saída. a saber.i preestabelecido. trata-se de lhe dar um maior. naturalmente. mas que é também o pênis dos pequenos e dos W l'ai a dizer tudo. isto é. e o tipo de desenvolvimento próprio que é o seu na diacronia. a saber. O impasse. devemos sempre considerar ao mesmo tempo sua coerência sistemática a cada momento. o problema do desenvolvimento de Hans está llgmlo à ausência do pênis do maior. com a diferença de mu i mudança de sinal. Ncsic ponto. para maior alegria do pai. Devido ao fato de que HHilii t predeterminado no plano imaginário. e eles vão se integrar em seguida ao desenvolvimento da construção mítica do pequeno Hans. o que é dito. O impasse de que se partiu se reencontra n sob algum modo. Nada indica que o dissesse. em seu primeiro sonho. Isso é bastante para manter entre » > in. o falo faltoso. Não se deixou de perpetuar essa tradição desde Freud. ( ) lato de que o pênis de menor se torne maior. domina. que tem no entanto suas leis próprias.ii • ele um movimento progressivo cujo objetivo. Vamos terminar dizendo que.

de integrar o real de sua genitalidade. •m m |i . que a análise produza uma tal proliferação mítica. e sublinha o caráter fundamentalmente simbólico desse momento de passagem. à maneira pela qual a patologia revela o normal. parece-me que. o mais constante. Este desejo se i h.una.iicr imediato e onipresente não pode escapar a ninguém. 10 DE ABRIL DE 1957 XVIII CIRCUITOS Por que o cavalo? Do cavalo à estrada de ferro. enfim. pré-formado. aqueles i|ue são atormentados por algum mal-estar subjetivo. nos indica. para nomeá-lo. para a criança.308 A ESTRUTURA DOS Mrros Mas o fato de que a fobia se desenvolva como o faz. em todos os i ir. u precisasse lembrar a vocês o caráter constitutivo da incidência Miuliólica no desejo humano. O vaivém de Hans.os. surgindo por um empuxo sucessivo i|ne só se trataria de favorecer? Se a relação de objeto está referida a um objeto típico e. desejos humanos. o desejo de outra coisa. pelo menos. Trata-se • Li formulação desse desejo que talvez seja o mais profundo de todos n . este desejo difícil tlc* desconhecer em dado ponto da vida de todos nós e. da vida daqueles a quem conferimos maior atenção. O desejo de outra coisa. o que pode querer dizer isso. em termos ile (ooptação instintual? O que pode querer dizer isso no registro da relação de objeto. Wegen e Wàgen. à falta de uma justa «i omodação baseada na experiência mais comum e cotidiana. de onde pode vir o desejo de outra coisa? 309 . se a concebermos como uma evolução desenvolviincniista imanente a si mesma. de certa forma. cujo i ni. a complexidade do fenómeno em jogo quando se trata. um i-templo fascinante poderia ser encontrado na seguinte fórmula.

abaladas. porque ele é mais exemplar que outros. Quando um dos significantes recobre tal elemento do significado. l l. •-s. a saber. e daqueles que o acompanharam. o pequeno Hans. para chamá-la por um termo mais atual. longe disso. a constelação significante opera mediante o que podemos chamar de um sistema de transformações. em primeiro hl) n I 1 n i certo número de pontos de referência é necessário para marcar . levar um pouco mais adiante a interpretação feita em coo"i pelo pai e por Freud.. e torna a vegetar. põe-se novamente em IHil micnio. É isso que está em jogo na observação de Hans. mas menos bem adaptado. pelo campo que acaba de ser descoberto.o com seu pai.nis é capturado desempenha um papel inseparável do progresso i ' i i i i lomentação mítica. e. I icud nos diz isso expressamente: poderíamos ficar tentados a • i" i i i h c a r a fobia por seu objeto — o cavalo.1 ii-in suas leis.idas. precisamos que eles sejam todos interpretados? Podemos. . de maneira suficiente. de certa forma estimulada. desVMlnn/. . uma reorientação do significado. Essa passagem se situa depois do primeiro llrtluf. A cada intervenção do pai. ou mesmo romanesco. sua repolarização. devemos abordá-la sem ideias preconcebidas. Mas.i. se posso dizer. ou uma reconstituição depois de uma crise? Se expomos a questão sob este ângulo. na oca-. e baseados neste caso clínico. é por crer que se impõe expô-la assim. É porque ele ainda está capturado no milagre das origens. igualmente. ele traz coisas Ml ii iilém do que Freud mesmo pudesse prever. ou. parece exercer sobre este uma ação profundamente remanejadora. quando Hans começa a fazer emergir da fobia i. à falta do que esta não teria qualquer espécie de sentido. a ambiguidade. Em outras palavras. e que está prenhe de todas as p*!n' irs de implicações: de implicações significantes.310 A ESTRUTURA DOS MITOS CIRCUITOS 311 Esta observação preliminar tem como objetivo introduzi-los. . li nós. cobre a cada instante o significado de uma maneira diferente e. Com efeito. O que procuramos detectar até agora nessa fomentação mítica que é . que centra todo o campo. o espírito do inventor. (|uc são precisamente aquelas postas em causa. e dispensa a referência a um real fundado sobre |M t ritos que encontram não-sei-que apoio nas referências antel li lie-.10 interpretados. mas se refere também ao que ele gostaria de fazer i . conserva ainda toda a sua potência reveladora. ainda não teve tempo de se libertar de todos os tipos i< li mentos tabus. no caso — se não |H>n clx-ssemos que esse cavalo vai muito além daquilo que é o próprio DNVnlo Trata-se primordialmente de uma figura heráldica.|mi. como Freud observa expressameni. Não abordamos nada de novo. já que este não dissii n i i i . deste significante •i u-mente agrupado em torno do cavalo. i i|iic muitos elementos permanecem ainda inexplicados.i. e o quanto são feitos para poder recobrir aproximadamente qualquer significado. ressurge. O que Hans é <H|ni/ «K. um movimento giratório que. e m seu frescor. já que o próprio Freud o articula In n i . mas comportam em si mesmas um elemento dinâmico. MI M-i n pré é o que esperamos. que é preViilrnic. que tem por instrumento o significante e por objetivo.. ou da coerência. ao mesmo tempo.i constituir agora o progresso de nosso percurso. No decorrer dessa evolução complexa. que o pai ao menos não espera. suas necessidades próprias. O que Hans nos dá n. mesmo que o próprio l l indique que as tivesse previsto.i (|ue chamo de suas implicações significantes. pois esse fantasiamento não é simples•nte do passado. os outros elementos significantes em causa recobrem outros. 1 1 111 •. i <|ii. pelas teorias infantis da sexualidade.. é realmente porque estas não são uma espécie de supérfluo. 1. l i i i . se examinarmos mais de perto. na (. O que acabo de dizer não deixa de ter relação com meu tema. i i n .). Ele traz coisas que " i i " i nulem.ise toda a sua potência explosiva.i" 11. ou por resultado. Mas o que tentamos fazer aqui é reconsilllin ns leis próprias da gravitação. se nos interessamos pela fomentação mítica j na criança. que diz exatamente a mesma coisa. Por que isso? Como conceber a função dinâmica dessa espécie de operação de feiticeira. a fomentação m u i . A observação l. a propósito dos deuses egípcios. ali onde.. o diálogo com o pai em nu.construir em torno disso tem a riqueza de todo um aspecto n >.i i a mais expressa. Esta função do significante. um sonho inconsistente. a característica essencial da observação de Hans? O que chamo de fomentação mítica são os diferentes elementos significantes dos quais lhes mostrei a respeito de cada um. isto é. mas não todos os significados ao mesmo tempo. como se exprime Freud em algum trecho de suas cartas.

marcando-o profundamente com liulcr. maré. nas lendas. diferente do que era no início.e a função.i. ou ampliado de uma maneira qualquer. mara 1 rner (mar) em francês. < 'onstituídos esses limites. as filhas •ntasísticas e muitas outras coisas. de uma transgresi. vai falar na função de sinal do cavalo. quando este . o campo do significado vai ser reorganizado. mas também no fato de que os cavalos caem. comporta. nos contos de fadas. por si só. sua mãe. fixando-se. constitui-se ao mesmo tempo a possibilidade. O pesadelo se chama. Sem dúvida alguma. Digamos simplesmente que todas essas particularidades tornam sensível que a angústia.312 A ESTRUTURA DOS MITOS CIRCUITOS 313 com o cavalo. os coleguinhas. pela fantasia ou pelo desejo.lniiuram para Hans o mundo. Ela reside no cavalo.ação dos elementos naturais que vêm ao primeiro plano da u|>acão infantil no momento de virada em que vemos o pequeno l Lm MÍIS não vamos pensar que todas as explicações estejam desse Imlii A cnfase que tento dar aqui. sob algum aspecto. sobre o que pôde então se transportar tudo aquilo que se vai mostrar apropriado a certas transferências. até mesmo de mais opaco. que fazem dele efetivamente um receptáculo favorável à • h/. A função do cavalo. HB| Kflo cavalos. uma inibição. recobrindo. O cavalo é um tema mais ou menos rico na mitologia. Jones procura pelo lado do significado. naquilo que a temática onírica tem de mais constante. foi transportada para eles. Zeus. que a raiz MR. e que é sempre. Jones sobre o pesadelo está centrado nesse. dos quais vamos agora compreender a proI u i. que a égua. sua irmãzinha. que é ao mesmo tempo mère (mãe).u k. patatá. égua da noite. mais tarde.I dessas coisas. ou a mãe do |irt|ueno Hans. ponto. isto é. originalmente. mais exatamente — sobre os elementos do complexo dos cavalos. Algo terá ocorrido pelo lado do significado. como imagem. a que vamos chegar agora. Por que o cavalo? Neste ponto. um cavalo. Todo o livro do sr. nomeadamente. Não é difícil mostrar. que escape ao fato de ser. toda esta signi• i.nos. e em cavalos que têm uma certa natureza e carroças que estão carregadas ou não — e patati. 11. não é por esta via que vamos proceder. nem mesmo na moderna. ou o pai do pequeno Hans. O primeiro pólo é o de um significante que irá servir de suporte para toda a série de transferências. ao final. podemos elaborar. os npos de limites. mas também na carroça. Odin. não tinha absolutamente nada a ver com os cavalos. de recristalização. • . mas que nem por isso é menos nu iiiiiinte. Em princípio — podemos supô-lo a título de hipótese de trabalho. o caminho não é buscar o lijii i valente do cavalo: se é o próprio pequeno Hans. isso está formulado em Freud da maneira mais expressa: temos aí dois pólos.is.1" |ic<|ucno Hans. ou seja. em inglês. desenvolve-se e mostra suas diversas fases. i|ui ilclém o sujeito aquém desse limite.inio mais fácil de se encontrar quanto recobre praticamente l vidrntemente. na medida em que o pequeno Hans faz o que vou i li. Tudo isso é feito com este llemcnto que é um significante.10 do pequeno Hans. É sucessivamente tudo isso. o que o leva a achar que tudo está em tudo.ivalo. comporta todos os tipos de propensões n . que a fobia aqui toma mais coragem. Depois da conversa entre Hans e seu pai. 1'ara compreender a função do cavalo. nightmare. e também no fato de que os cavalos mordem. i Ir mesmo. seu pai. isso NI nulo -c de uma maneira patológica. Pode ser tudo isso. tal elemento I 1 imponente principal de seu mundo.i um papel polarizador. nl. Marte. c outra: o que sublinho é que. Esses sinais iw. e o cavalo se VÊ. o cavalo. vem substituir a bruxa. num momento crítico da . tal é o tom de Freud. mas tem também sua força do construção própria. a pequena Anna. Ele nos demonstra que não há um acaso aí.ii. ele acompanha e modula sua angústia. todos têm cavalos. ou em torno desse cavalo. Não há deus na mitologia antiga. mas do complexo do cavalo.miar de sucessivos ensaios de aplicar a seu mundo o sistema sigi i i l K ante coerente com o cavalo a fim de reestruturá-lo. lesse limite. M I I H I I H il. tudo está a cavalo nesse livro. Minerva e Hípias. secundariamente. 9 muda muitas outras coisas mais. Hermes. É certo < . em toda a parte. num outro momento. Sem dúvida. Ele escreve o seguinte: — Aqui temos a experiência do quão difusa esta fobia é na realidade. em tal momento. um certo significante é trazido e desemM. falando da fobia . Lembro a vocês que Freud. Claro está que. ao mesmo tempo que a de um obstáculo. durante essas tentativas. Através do significante. na medida em que se conforma com tudo o que nossa experiência exige — o significado será. Logo. Freud indica. como de costume. para o remanejamento do significado segundo todas as permutações possíveis do significante. mas. pode ser qualquer IIMI. então no lugar — não do cavalo. que a égua da noite não é simplesmente a aparição angustiante da bruxa da noite. vamos vê-lo. O cavalo começa a partir daí a pontuar o mundo exterior i|-.

mas depois de um tempo. mais ou menos um trimestre antes de seu quinto ano. como dizemos na linguagem uni m. obediência só-depois. O 11 ue nos ocupa por ora é a maneira como o significante vai irni cm meio a tudo isso. mas é uma Schweinerei. aliás. O pequeno Hans se vê. subitamente numa situação descom. E é acompanhando i até o fim o desenvolvimento desta função. Ela foi considerada. tudo o que se vai fazer com o cavalo.() em seguida. infame. Vimos exibir-se a todo instante.es são fatos da experiência comum. tudo ia muito bem para o pequeno Hans. inicialmente. sua (MI 11. Podemos conceber a necessidade disso. e não só nas entrelilliins pôde. sob certos aspectos. não . numa' espécie de perpétuo velamento e desvelamento. quero i i <le mostrar enfim e de verdade. até talvez torná-lo. precisamente. é pre>l>er registrá-las tais como elas são. i muliiplos ângulos. ida vez mais ela vem testemunhar que. É aqui que ele tem sua função mais profunda: desempenha um papel de relha cuja função é tornar a fundir. d sublinha. um outro n u nio está bem presente ali.ilmente. nesse diálogo j em torno do presente ou do ausente simbólico. Eu quase diria. Quando as coisas se reproduzem com nirsmos elementos.|iicno. Não é imediatamente que surtem i i i i i. O trocadilho que acabo de fazer pode ser tomado por vocês de maneira completa: ele é. sem buscar ali referências Ilógicas longínquas. o jogo de Hans com o objeto oculto. que ele se insinua nela.i pensada. Os que têm experiência com crianças sabem . Não é. que chegaremos a compreendê-la. no sentido do regaço.i Anna. Até que surgisse o cavalo. E. pois. * Alusão à coincidência fonética existente em francês entre un signifianl e insignifiant. que são ou l que a observação nos fornece. Gehõr é o ouvido e a audição. algo de iipunte. os princípios e as bases desse jogo. o jogo entre ele e sua mãe continua baseado no engodo da sedução. A primeira é a seguinte. E por quê? Até um certo momento. tudo para ele parece muito bem sustentado. j Freud o sublinha.K rescenta vem pesar nessa rejeição que. de maneira nova. segundo modos de assimilação muito diversos. de ser parcial: o significante não mm amente em jogo. que Freud frisa bem. é pouco tempo depois da aparição do sinal difuso da angústia que o cavalo entra em funcionamento. que nflo só é proibido. Ele sublinha i 11 mente este termo. para começar. A relação de amor com a mãe introduz a criança à dinâmica j imaginária. alusões a acontecimentos interiores extrapola• iue supomos no sujeito. para introduzir aqui a relação com o seio sob um novo ângulo. I. (N.T. já abala até i l n eives o edifício de suas relações com sua mãe. o símbolo de alguma coisa que ele mesmo está cogitando. i i '"ira coisa distinta: são leis onde se manifesta a estruturação. na qual se inicia pouco a pouco. Não podemos deixar de ver aí um elemento essencial. Ele diz nachtrágliQehorsam. mas recompostos de maneira diferente. algo se produz. insignificante*. que até então fora plenamente suficiente. ocaiM. No momento em que se vê mais capaz de responder. para ele. literalmente.1 vara — ele é rejeitado.un a submissão. que me extenuo em ver ao primeiro plano da reflexão analítica. a saber. a docilidade. situar em sua justa medida o caráter reduzido. Ora.uação.314 A ESTRUTURA DOS MITOS CIRCUITOS 315 é introduzido como ponto central da fobia. Este elemento real < . é ser um termo novo que tem. nas relações comi a mãe que prosseguem até então com base nesse jogo. isto é. no estado mais glorioso. de repente. mas à maneira de contragolpe. Vergleichung. de certa forma. através de elementos de comparação entre o grande |i. mas existe também um elemento real de i|>. Sua mãe lhe diz. a propriedade de ser um significant» obscuro. i n ' i •• . Ela acompanha a angústia. para Hans todas as regras são violadas. après coup (só-depois). O que se deve fazer? Deve-se ir aos textos. Ih iil. •f ler e fazer a construção. uma porcaria. j A aparição do cavalo é secundária. o real.iis ameaças e recusas.. aqui. supérfluo. no j começo da observação. de pagar cash no jogo. sob vários aspectos. Ai icscente-se a isso — segundo elemento — a presença da peii. que a análise da criança li' n i empo todo a nosso alcance.unhem eu estou longe. algo que é a introdução de certos elementos reais.miente insuficiente do órgão em questão.) '•ilibem duas coisas. que é o dia 5 ou 6 dei fevereiro de 1908. que os efeitos da intervenção depreciativa não It))•. e pode também pôr em causa todo o i i i i H). Para dizê-lo tão diretamente quanto possível em termos de referência.

de maneira autónoma. É a essa estação que Hans pretende ir quando tiver fcilo progressos. ora. na qual se atirou a jovem homossexual de quem lhes l' ' n» início do ano. como todos os domingos — ponto essencial —. Vamos representar os lugares. situa-se o escritório da alfândega. de modo a ver se essa operação de remanejamento ou de reestruturação é mesmo o que está operando nessa ocasião. do sul. Tudo me faz crer que a casa se situa bem no extremo da rua detrás da Alfândega. A casa dos pais do pequeno Hans se situa nessa parte da cidade interior. o Museumfur Kunxt Industrie. no que diz »|>t'ilo à aventura do pequeno Hans. vocês podem ver um museu muito bonito. que tem por propriedade ligar o Nordbahn Vlldlxilinstation. mas do simbólico. fur Kunst / /Station Industrie/ /Haupt- Innere Stadt Casa + de Hans A CASA DE HANS O centro da cidade de Viena está situado à margem de um braço do Danúbio. como se exprime . Dois caminhos nos interessam.316 A ESTRUTURA DOS MITOS CIRCUITOS Nordbahnhof ( 317 do real. pois ele alude uma vez ao fato de que muito perto da casa deles fica a estrada do Nordbahn. chegando do A REDE FERROVIÁRIA Mr. a famosa estação de que tanto se fala na observação. Um pouco mais adiante. Vou ilustrar isso para vocês agora. Em frente. Em 22 de março. Existe uma estrada de ferro de Vcrbindungsbahn. além disso. do oeste. inteiramente sós.iis baixo. em particular uma estrada periférica em " l n i. Elas operam. cercada pelo Ring. e que atuam entre si. Existe um grande número de pequenas organizações de linhas ferroviárias em Viena. ou pelo menos nos convém por algum tempo considerá-las assim. por trás deste quarteirão onde fica a casa do pequeno ir onde ele pode ver os vagões — draisines. uma quantidade de H|linias vias férreas locais. Por trás da casa. do norte. e conseguir ultrapassar um certo campo que se enconlni diante da casa. o pai levou seu pequeno Hans para ver a vó em Lainz. se posso dizer. o Nordbahn está do outro lado do canal do Danúbio.

No intervalo. A junção se faz na estação do famoso Sankt-Veit. toca-se noutra estação. diz In i ponto em que as coisas estão. que é o Versailles vienense. i ( ) próprio Freud nos indica isso: é perfeitamente natural. o bonde 60 — que os levará a Lainz.318 A ESTRUTURA DOS MITOS CIRCUITOS 319 Freud — nos quais tanto quer subir. o Pferdekomplex. Depois da visita ao parque de Schõnbrunn. pois vê-se muito bem que. Esse bonde continua até Mauer e Mõdling.i. simplesmente. que perdeu i n. ele frisa bem que n. A l g u n s dias depois. c ligada ao fato de que diante de sua casa existem um pátio . Quando vão simplesmente à casa da avó. que aquilo que se refere aos a tudo o que estes vão fazer. vê o segundo trem chegando de Sankt-Veit. Para lhe» dar uma ordem de grandeza. i m.nln pelos circuitos do cavalo. alinhando-se ao longo de uma ilc descarga. quando l! ili . Em outras palavras.i de coisas que pensou: Nein.. Mesmo quando i|n. | i u n o Hans vai produzir alguma coisa que se classifica entre essas n. m. Essa rede forma. o horizonte está ali bem perto. se estenda i « « HLi is no sistema de transportes. o pai propõe ao pequeno Hans um caminho um pouco mais complicado que o habitual. chegar a Lainz. um anel virtual: as duas linhas não se comunicam. i . Existe uma outra linha de bondes que une esta linha direta à Stadtbfiltn. subterrânea em alguns trechos. É um Versailles um pouco menos grandioso. e que o pai. vêm carregar e descarregar. vão tomar um bonde a vapor — na época.r. Lainz está mais ou menos à mesma distância de Viena que Vaucresson de Paris. mas 1 1 • MI ambas. existem os circuitos da estrada i n.1 muito larga. É esta linha férrea.1 lodo custo fazê-lo dizer que ele as sonhou. LAGERHAUS V//SSA—^-W i t l f) M M l l l l l l / l l l l l l l l Verladungsrampe i Hansensgeplanter Weg A RAMPA DE CARREGAMENTO . Nesse domingo. v. Stadtbakn Hietzing Sankt-Veit Mõdling A REDE FERROVIÁRIA^ Eles vão pela Stadtbahn à estação de Schõnbrunn. e que desempenha um papel tão importante mi observação. tomam um bonde que passa muito mais ao sul e chega diretamente a Lainy. ich hab' mir's '. desde a primeira vez em que o pequeno Hans começa a hrar um pouco sobre a fobia do cavalo. Ali se encontra o jardim zoológico onde o pequeno Hans vai com o pai.< i lhes permitirá compreender o que diz o pequeno Hans no dia MI i|uc Ia/ a fantasia da partida de Lainz para voltar para casa. a tangência do sistema i i i i < > ilo-cavalo com o sistema circuito-da-estrada-de-ferro é indimaneira mais clara. Em frente à casa. durante a conversa com o pai sobre as girafas.ii. llunlo. nicht getrãumt.„ /// 1 i |>tmio essencial a se conservar é que aqui intervém o VerkehrsKI'l. rosas coisas que ele nos testemunha ter pensado. as carroças 1'i'l. i . que vai para Lainz. no horizonte Hiili. 22 de março. A dinastia dos Habsburgo estava provavelmente muito mais próxima de seu povo que a dos Bourbons. Compreende-se o motivo de ser tão complicado n pequeno Hans atravessá-los. mesmo numa épocii em que a cidade era muito menos extensa.' l " e ião verdadeiro e tão evidente que a primeira explicarão M Hans ao pai. quando lhe fornece os detalhes do vivido de . i (|uc o trem partiu com ele e sua avó.

Isso poderia mesmo caminhar no sentido em que venho esboçando para vocês a compreensão das coisas: ele é. diz o pequeno Hans. Hans ali está com o pai. cm seguida. eu sei muiin bem onde moro. mesmo assim. talvez menos desleixada que a nossa. de jeito nenhum. teme alguma coisa. conforme PU i ' 1 . Vamos nos deter nesse cavalo. Por conse" (|iie pode querer dizer o fato de ele querer. O pai. de certa forma. não se deve partir da ideia: que poderá fazer a rampa nisso tudo? o que significará a carroça? o que virá a sn o cavalo? O cavalo. inicialmente. em absoluto. depressa.i que ele sabe muito bem que sempre se volta. Ela se situa logo II do que vamos chamar o grande diálogo com o pai: aí estão as is convencionais destinadas a facilitar sua arrumação mais KIÍC l Inus pensou que partia de Lainz com a avó.i podemos nos dizer que talvez seja isso que esteja em causa. o que está indicado na fantasia do temor fóbico. porque vemos bem agora que este é o própmi fenómeno da fobia. se interessa por isso e pergunta a Hans por que ele tem medo: Seria. É preciitfl nos determos nelas. Nada nos é dito sobre isso. em absoluto. perceber que existem na observaçM situações que não podem deixar de ser aproximadas desta. lembramo-nos de pelo Illlo» iluas outras histórias. por exemplo.que supostamente se passou com seu pai. |. devido ao fato de não IIIHI-. uma vez que iremos sabê-lo a pariu de seu funcionamento. que relêem indefinidamente o caso do pequeno Hans procurando ler nele outra coisa. todo mundo se detém ali. a rampa de descarrega mento. bem como para compreender o que quer que seja no sistenui de funcionamento significante. mas estamos m| Vit^rto. 1 < > c daquilo que é temido. TalveM eu até mesmo voltasse com a carroça. O iiii|Miu l u-ud menciona isso. juntam suas coisas. se H. acarretado pela situação. Ficarmos por aqui talvez fosn| dar provas de demasiada sutileza e rigor insuficiente. c (|ue vamos chamar a cena da plataforma. esta fórmula. a segunda ao seu i'n no trem. i i a maneira. a saber. a terceira fantasia que Hans conta ao pai em 21 nl. porque você não ia poden voltar? — Oh. mas é impressionante que. certamente. por exemplo. O pai se detém ali. que ele visita com •ilo. mas. e a história da carroça seria uma bela metáJ fora disso. menos os analistas. não. ilamente. de uma fantasia que não vem num momento u r i . Mas ainda não podemos saber nada disso. vestem-se. com efeito.uiio.i p i i o testemunho. chegam à estação de Gmunden IHih vão passar suas férias de verão. os Três ensaios. Hans e seu pai não têm tempo de se arrumar antes | | n 11 f m parta novamente. De que ele tem medo? De que os cavalos se ponham em marcha e o impeçam de fazer essa coisinha rápida e depois. a sahi-i. essa coisa não é em absoluto aquilo que nol conviria tanto. SimplJ indicação que lhes dou de passagem. em vez disso. que com efeito. Devemos. tornai a descer. vou agora aproximar outros elementos que reproduzem. ele sabe muito bem que sempre voltará a seu ponto de partida. Poderíamos acreditar que é o fato i n »• ser carregado que angustia o pequeno Hans. Ele passaria depressa.. é alguma coisa. himrira fantasia.ur. Para compreender este j sentido. quanto a si. o fato de partir permanece absolutamente n. quem l >• pois de ter lido e relido a observação. numa situação insustentável: o elemento mais insusI ila situação sendo o não mais saber. II .i observação. 1'oii. i. o que deixa fortes indicações quanto ao caráter .1 icspeitarem as regras do jogo. i i i .320 A ESTRUTURA DOS MITOS 3 CIRCUITOS 321 O que diz o pequeno Hans. no caso da jovem homossexual. Não haveria dificuldade.s os domingos. Se (inlii no sou sistema está numa certa desordem. reunir Hl ai as bagagens sempre representaram uma preocupação. . e poderemos dizer ] no final para que ele pôde servir. Tinia se. onde se situar. e poderia chegar à plataforma. A data é 11 de t l u i l l >• •• sã vez. .ilrm? i .ilamente guardá-la numa espécie de construção mínima. naquela época. Pois bem. ao HM»! . sempre posso dizer isso e me trariam de volta. «IIK-. Se tivermos um mínimo de cacho l. pura iii'1'lrsinente. Isso deve. Ninguém parece se deter nisso. quanto a si. Vfin. a 5 de abril? Que uma coisa que ele desejaria loucamente fazer seria subir na carroça oride viu uns meninos brincando em cima dos sacos e caixotes. O pequeno Hans vai partir com os cavalos. ter algum sentido. Vemos aí a total ambiguidade daquilo que { 1 . geschwind. que ele quer ir mais além. é também numa linha de estrada de ferro. a •nua de descarregamento vai se afastar e ele voltará a confluir MIIH i Mia mamãe. podemos j n . o que é desejado demais ou temido demais. como i Ir lomparação para o desenrolar de uma análise: a primeira |ft|iii ihi análise corresponde à reunião da bagagem.l. ele pode se sentir preso. faça o que se fizer. não se consegue sair.

1. e partiram. •HM* o sentido em que Hans opera lhe é ditado pelas ocasiões favorá¥fli n He fornecidas pela função do cavalo. ou de sua <<. pelo que lhes vou desenvolver em seguida quanto à ilo significante do cavalo. este é um dos elementos nos da aparição da escolha do significante cavalo. só que é impossível e que não M vê de forma alguma como o pequeno Hans. quando de um • > rorn o pai. Este caráter de amboceptor que vamos encontrar o ii|"> iodo no funcionamento do cavalo é dado na experiência primii iode Hans o extrai. na continuação. M-I . junto com a vovó. sonha-s|i pelo menos com tornar a partir no caminho certo com o pai. um impasse que ninguém consegue elucidar. na verdade. atável. l l. o pai as formula para si mesmo.1 A que se está atrelado? Certamente. e o fato de que. Diz isso a 9 de abril. No primeiro caso. e então aconteceu alguma coisa que tem l ynmilr importância para nós de dar o primeiro modelo da fantasia nl. da não-solução. pensa-se que basta fazer uma |»0i iniilação e partir com o pai. parte-se a dois. precisamente numa dessas brinili M. pois seria muito mais fácil aos contemporâneos que a mim situar toda a família. Ele mesmo toma o yillilmlo de nos mostrar sua origem quando nos diz em que momento icr apanhado a bobagem. agora estou com m pai.o guiou. Como o pequeno Hans. para chegar a outro impasse e a tiniu outra impossibilidade. é a via do impossível. não me diga que é porque ela não está aí n estou ansioso. que f Ur t* impossível. e a observação consagra doze páginas ao que poderia realmente se ter passado no espírito do pequeno Hans. da própria boca de Hans. como tampouco BR ON outros. Isso só é possívdj no imaginário. A PARTIDA IMPOSSÍVKL No primeiro esquema. im i v r l . como os trens passam com frequência. mas é clara. a l» . i i rolado a um carro. por si mesmos.iro lugar e antes de tudo. No terceiro. para ele. > de escrever ao Professor. onde seu amigo Fritz se machucou no pé. o que é o melhor uso que se pode rum de seus pensamentos. Essas questões. e ao final. um elemento feito para ser atrelado. ocasião de aproximá-las do esquema do atrela. No outro caso. é um inriiio que liga e coordena.322 A ESTRUTURA DOS Mrros CIRCUITOS 323 temível da dita senhora. O cavalo. misteriosamente. Quanto a nós. que já havia partido. O próprio Hans articula que o cavalo é. em alguma parte. acaba-se por tornar a partir a dois. mas. Em outra)! palavras. sem carro. pode tornar a partir com o pai.i. No segundo. e neste caso o carro fica em casa ou. por II>.. com o pai.10. existe alguma coisa aí que não pode deixar de impressionar. e é precisamente nesta função de me• |iic vamos reencontrá-lo ao longo de todo o desenvolvimento iiilio Ne fosse necessário para assentar o que será confirmado. Não se pode deixar de ver a relação existente entre a ida e volu! implacável em direção à mãe. Podemos mesmo dizer i|in i '/. \a pergunta do pai. Só que aparece. no texto do mito. <le cavalo. Os elementos deste esquema nos dito. é impossível sair dessa Rifle*. se já se conhecem os dois pólos do caso: na partida. que irá se manifestar mais tarde a propósito de seu pai. . num momento que não é qualquer. A Lainzesa.. teríamos. l. antes que o pai conseguisse descer a passarela. a escolha do cavalo. supostamente embarcou com ele no trem. voltou? Este é realmente o impasse e. evidente e incessantemente sublinhado. mas •i •i iinicialmente extraída do real. como a chama o pequeno Hans. um belo dia. I | ii i n u. Esta á uma simples indicação. volta-se sempre a ela. Hans responde que o cavalo pode ser ohne *#«". antes de ser um cavalo. já tendo partido à frc-nl» em direção à avó. de que veio isso. O próprio Hans pensava assim. As coisas não se limitam a isso.. vamos nos contentar com nossos esquemas: •li 1 1 iii impossível. O que vemos aparecer aqui como que em filigrana é o esqui-nirt fundamental que eu lhes disse ser o de todo progresso mítico: parte-»! . algo que não ixa. e vê-se a linha até Sankt-Veit.nis brincava de cavalo. e vamos ver. A direção em que se dá o acoplamento é inútil de discernir. ao contrário.. i 1 . o drama materno. de um impasse. o'. lados. Hans conta que chega à plataforma a tempo de pegar o segundo trem com o pai. e que há sempre.

Existe uma grande nota de Freud nesso sentido. . que uma mulher apa nhã. Quanto a mim. pelo pai e por Freud. falta de por que — que ele arrasta./ * \ociações. ele mesmo: Foi lá que eu apanhei a bobagem. não há nada além d perturbação. diante da passagem do peso do sentido. de cerl maneira. o cavalo puxa o carro exatamente da mesrn forma que alguma coisa que arrasta atrás de si a palavra wegen. como se diz. 1 1 n . Esta é a própria definii. de coordenação gramatical significante. pelo menos. Em outras palavras. Essas duas espécies mpostas. apa nhar.„ illíiim lugar nos neurônios cerebrais. que este termo assume seu valor de articulação. Em outras palavras. apanhei a boba gem.i da metonímia na sua estrutura. Nada mais fazemos. O verbo kriegen. é no momento mesmo em que ele articula isso propósito do cavalo.i mente da interrogação comportada pela presente declaração. que Hans diz. Esses ii|'ns de associação chamados de metáfora e metonímia. e identifica o fato da possibili dade de se fazer uma associação de palavras entre wegen e Wãgen. no próprio pont onde esta surge. afinal. para aléiT do ponto onde as regras do jogo são respeitadas. Isso não passou despercebido pelos autores. não quero saber nada disso. loi resolvida de maneira muito elegante. a ponto de ter causado ao tradutor uma pequena dificuldade que. 8 DE MAIO DE 1957 . n plural. que se trata de avançar. e todo o mundo se interessa por ela. não sei nada • < orno analista. senão reencontrar aqui as associaçõi concretas. que a uma palavra respon 10 n palavra seguinte que pode vir numa frase. encontramo-nos diante do processo típico da'melo nímia. puro e simples. falta-a-ser.324 A ESTRUTURA DOS MITOS t. vocês as observam na experiência psicológica. flagra uma criança. no texto desse banho de linguagem em que Hans Imerso. . ao menos dessa vez.ili onde estão. por alguma coisa q u •é justamente este x. dt Pferd. este é o seu refrão. um porque que não responde a nada. Chamam 11. Hans diz o tempo todo: wegen dem Pferd.11 j que ele encontrou a metonímia original trazida pelo cavalo. porque querem de qualquer maneira que isso ocorra . Logc nada há de abusivo em dizer que é precisamente no momento em q n Hans é presa de algo que nem mesmo é um por que — pois. CIRCUITOS 325 a indicação de que é neste sentido. a saber. e assume tod as esperanças de solução. É porque o peso deste wegen é intc ramente velado e transferido ao termo que vem logo em seguida. de u ponto da linha textual ao ponto que se segue. i nu icrmo em torno do qual se irá reconstituir todo o seu sistema. literalmente. Freud não pode se enganar aqui. e não imaginadas em não-sei-que hiper-espaço psicológic e existem duas espécies delas: primeiramente a associação metafóric que a uma palavra responde por uma outra que pode substituí-la. por causa do cavalo. que serve o tempo todo a propósito da bobagem. a associação metonímica. isto é. no nascimento da fobia. Com efeito. É assim que funciona o inconsciente. A hiância da situação de Hans é inteiramen ligada a esta transferência de peso gramatical. e segundo lugar. encon• . se diz quanto apanhar as crianças. ou mais exai. que quer dizer carros. da hab 'ich die Dummheit gekriegt. que é o cavalo.

que •' inpic rica de ressonâncias. mas indicamos que não é tanto o ser separado da mãe que Hans receia. sua partida HM n avó. uma hiância. ele diz: Eu apanhei a bobagem quando saí com mamãe. Na fantasia de 21 de abril. quando Hans está revelando um momento que lhe parece significativo du maneira como ele apanhou a bobagem. Tudo se baseia neste ponto. em 5 de abril. o momento em que Hans apanha a bobagem está longe de ser unívoco. o pai se reúne a li . ele mesmo explica que está certo. l l. Logo. a cada momento tornada presente.. no texto de Freud. nas retrospecções da memória. e por mi" lado num começo de decifração. se ele não MhHiuilou de mamãe durante o dia inteiro. Esta decifração.sa metonímia manifesta. eleja começou a ficar angustiado • In 1 1 mais. Nesse sentido. I I I U M I I O texto indica o paradoxo desta explicação. num gráfico que desenhei sob suas três formas. Eis que chegamos. em Gmun< >uiia vez. no contexto do acompanhamento. só que sob a condição de que temos aqui uma enigmática Hpossibilidade para a reunião dos dois personagens por um instante Mimados: Não trote de mim! O barraco que desaba.. em que ele diz: Eu apanhei XIX PERMUTAÇÕES / ' . Este momento. Ele diz isso. i l h a r quando trabalhamos com crianças. por um lado. fantasias que ele forja e onde exprime sua vontade de dar uma trepadinha na carroça que costuma estar sendo descarregada diante da casa. a fobia dos cavalos já • l* i I. líssas estruturas são todas marcadas pelo mesmo traço exemplar. insistimos na ambiguidade da angústia a que Hans dá forma nessa fantasia. mas ao preço de um certo lllii que não me deu tempo para lhes indicar o contexto em que .10 pequeno Hans. todas as ressonâncias imaginárias podem aí sondar. que já conhecemos. Nunca se trata | um sonho.irara. Pode parecer que a angústia surja à simples perspectiva do temor da separação. é porque esta já tinha nos fl^os sua angústia intensiva. não deve ser forçosamente confundido com a distância cronológica. Seja um verdadeiro pai. ao que ocorre entre o 5 e o 6 de abril. Ela é correlata da história da queda | l'iil/. i com a carroça. da plurivalência signifiinh . não sem razão. A pinça. eu a dei a MI i". outro momento MI. na última vez. depois. a cada vez com a 326 . Seguimos a explicação que o pequeno Hans dá a seu pai. através de um gap.i o momento em que ele faz surgir este wegen dem Pferd. elucubrou.n i. iflnmira-se na fantasia de 5 de abril. > / ' . Não é à toa. o ponto onde estamos. vocês bem sabem que. quase certo demais. a ideia de uma volta de Hans para junto da mãe. no espaço temporal. gedacht. tal coisa. jivonliccemos aí a própria matéria com a qual estamos habituados a i i l i . n.<7N. onde K in l u-1 a queda da minha última lição. I convicção: Eu apanhei a bobagem.uiiiinte da evolução. num movimento que também pode ser inscrito III r ciclo. l i'.. já que. l l. portanto. Mas. III N iinta-se aí apenas de uma retrospecção simbólica ligada à signii MI. porque. Hans imagina. É na tarde de 9 de abril que surge o wegen dem Pferd. de poder voltar. a matéria imaginária. Ele diz sempre a seu pai: Eu pensei. vou lhes mostrar que não suprem essa sucessão | eNiruturas cuja série vou tentar completar hoje. . quando estão brincando de cavalinho no campo.PERMUTAÇÕES 327 li N I I I .lo cavalo. diante da pergunta do pai. depois de sua • H i n i . completada pela interrogação II pai. INSO se refere a coisas que Hans pensou.i dois momentos.

ela mesma. para iliir-se a presença constante e aplicada do pai.iii. Sua fórmula é exatamente enunciada. até mesmo perdida. está ali. vem se |Vt'lni A criança como a privação fundamental com que é marcada a MI da mãe. da maneira mais clara. já indiquei a vocês sua tangência com o circuii» mais vasto constituído pelo sistema de comunicações. e nós o vemos se revelar pouco l (min o à medida que prossegue o diálogo. Í . se o objeto se afasta. por Freud: não vanuf. |i*ln. entre duas nostalgias — nostalgia vem i de VÓCTTOÔ.1 l icud. em fazer o trabalho. para ser constituído. ao que se diz. A expressão pnilicamente intraduzível em francês. não se trata de outra coisa além do complexo de Édipo. afinal de contas.ima traz uma nova dimensão. o objelo no nível original que lhes trago. ali.i (Mivacão suprema. o Pijiinio Hans lhe diz. é coi relata da dimensão simbólica. isto é. e nem mesmo nas entrelinhas.il? Posso designá-la aqui diretamente. manifestamente angustiante no primeiro exemplo. como observou o filho de ilfNs. Tudo se passa.u sua mamãe. <. jogando com o sistema de comunicações.i (|iic depende o fato da criança aparecer. Esta privação é intolerável. o qual. passe progressivamente do circuito do cavalo ao cir«| cuito da estrada de ferro. manifestado como impossível no outro. muito vienense. deve ser perdido t reencontrado. O que está em jogo ' "i. e em particular à constituição do objeto. e que é ii. do círculo ii. Mas.. que ele o faça! É disso mesmo que • n . nunca viu. trata-se daquilo que. nos surpreender com o fato de que Hans. O pai afirma isso em seus IM i MÓS. Este circuito enigmático do cavalo.n de Hans não é indicada o bastante. e. n . Vamos recordar o que está em questão na história do pequeno Hans. já que. já que a mãe foi sua paciente. se não se sai inteira- . a mãe llliii n está com o pequeno Hans. PMmnente. de não poder de jeito nenhum satisfazer | llin< l í é a esta privação que o pai deve trazer alguma coisa. e Freud não discute a questão: provavelmente ele deve ter n. ao passo que a Hflr nunca é assinalada senão na medida em que o pai lhe pergunta | ii i|iie ela acaba de contar é exato? Afinal.mifesto. que I|VIMI no quarto dos pais até a idade de quatro anos. admite que o pequeno Hans. De que lio i 1 . vir e tornar a vir. i i .u impressionado com a facilidade pela qual Freud. Esta necessidade. ameaçada il. como se diz em nossos dias. A imagem ambiental. retorno —. com o pequeno Hans. Num dado momento da cena principal. por um viés qualquer.i u leia quanto a isso.!• l. além disso. O retorno é por Freud l afirmado como fundamental no que diz respeito ao objeto. O distanciamento do objclo é necessário para isso. Aí está a verdade cuja metade é elidida. cujas ideias •n i i lentes na época são conhecidas. é claro. de certa forma: Você deve eifern. é para que o sujeito o reencontre. depende da aquisição de uma certa dimensão simbólica. falando propriamente. nu insistência com que a psicanálise de hoje se põe a acentuar a frustraçãflB sem compreender que esta jamais passa da primeira etapa do retomo em direção ao objeto. Isso é i imoles quanto o bom-dia da copulação: o que ela não tem. em suma. nenhuma espécie de cena que tivesse podido inquietá-lo i i i i i i i i ) à natureza fundamental do coito. na observação. ih. dado o discurso que (UMi nici c que suponho ser conhecido por vocês. necessária à constituição de um il» humano consumado. Não se pode deixar li l K . i no drama do pequeno Hans.nu eles — quando basta ler. Todos os domingos ele vai i n. li ni)'.i vez que lidamos com o aparecimento de urna fobia.c de ser correlata de uma maturação instintual pretensamente •flilliil.328 A ESTRUTURA DOS MITOS PERMUTAÇÕES 329 5 DE ABRIL 21 DE ABRIL Vamos nos engajar mais adiante numa exploração confirmadora dessa exaustão das possibilidades do significante. bem i» -nlo. essa n i|U( de o dê a ela: Meu Deus. Ele sublinha que é sempre sob sua forma reencontrada que o objeto consegue S61 constituir no desenvolvimento do sujeito. que é. muito sensato. que concentrou sua atenção nesta cena e. seu diálogo com o pai. aplicado em paparicar seu pequeno JlllN. enquanto o pai.

E não apenas permanece em aberto. No momento em que Freud. pois. Trata-se da consulta de Freud a que o pequeno Hans foi levado u pai. Ele pode apelar para j as ressonâncias bíblicas do deus ciumento. que se liquida de modo bastante feliz em quatro meses. você deve se zangar comigo. Por que ficaria — se seu pai está nessa posição crítica cuja aparição nos bastidores deve ser concebida como um elemento fundamental da abertura onde surgiu a fantasia fóbica? j Não é concebível. como vêem.míílise do significante para o nível da decifração hieroglífica da fluirão mitológica. igualmente. entre os diferentes pólos aos quais ela está presa para lhe assegurar sua fixação normal. e que ao final da história. é exemplar. acontecem outras coisas. e quanI» i i. Esta é a conrflçflo prévia para se saber traduzir corretamente. talvez não nos baste ter essa garantia para pensar que isso seja suficiente para asse. a ilustração dessa duplicação. para mim. nos dá esta frase. para lhes assegurar que sua relação com a mulher. Vamos. O pai frisa que ficou impressionado pela f M pressão renn. vale a pena nos perguntarmos se podemos considerar que ao final da crise estamos no desfecho de um complexo de Édipo complelamente normal. a sabei. me vem à mente. que representa o superpai. o pai seja mais viril que no começo. será tudo o que se possa imaginar de mais desejável? A questão permanece em aberto. porque o i llemfio permite isso: Não trote assim de mim.n ç a permite ao pequeno Hans expor seu problema. aquilo que ocorre no desenvolvimento da fobia. suas observações são bastante justas. Somos forçados. durante essa pequena crise. Existe aí uma falta Uinrntável para a justa ressonância que possa ter para os leitores I I .iliiico como tal. j Se o pequeno Hans chega a uma solução feliz da crise na qual entrou. Ela é. entre aspas. o Professor. Depois de uma longa explicação do pequeno Hans a seu pai. profetiza. Antes que Hans chegue ] a dizer isso. Se o j pequeno Hans está prometido à heterossexualidade. por si só. a relação do IMMIIICMO Hans com este pai distante que é Freud. U K i-scs a obra de Freud. não existe razão alguma para que ele o faça realmente surgir. pois é por ele. a proceder por pinceladas concêntricas. A relação. o pequeno Hans fica de alguma forma j satisfeito quanto a este ponto. que este diálogo tenha. Você deve ser um pai.330 A ESTRUTURA DOS MITOS PERMUTAÇÕES 331 mente bem. l n n u c ião verdadeiro que é confirmado pelo que vem duplicar a célebre H H i M i h a de 30 de março.iin juntos o café da manhã. vai-lhe ser j necessário um certo tempo para atingir este momento. através dele. llliiniiiística sustentada ao longo de toda a observação. a que atingiu o pequeno j Hans será o bastante. um pequeno exemplo. mas já podemos fazer muitas observações nesse sentido. na medida em que faz entrar em jogo o nome do l'-n () pai conduz Hans até diante de Freud. até mesmo 0VNNii Iriplicação da função paterna na qual insisto. com o pai. E até mesmo. § pui simbólico. que é correlato do próprio tratamento. onde sua M i M . Precisamos estender a tela. tudo isso deve ser verdade.j gurar a ele uma consistência plena.iinor que sente por este — ele passou toda a manhã nisso —. saber ler. in. eles iHin. e o quadro. irresistivelmente marcada por não-sei-que estilo de i u/Mineira. este deus que é idêntico à i figura do pai na doutrina freudiana. e aborda de saída o esquema iln ldipo. se é J a este pai real que o pequeno Hans dirige tão imperiosamente seu apelo. do llpn: Como é que ele pode saber de tudo isso? Ele nem mesmo é ViW/i<lcnte do bom Deus. mas isso não impede que voltar a atenção para o • i r i i i i H ante queira dizer. renn mir nicht davon! A tradução. como sendo esIllicial a toda compreensão do Édipo. antes: Não trote assim. que rm iniiito mais peso para o progresso do pequeno Hans. e que ela seja esta tela sobre a qual segue este fenómeno particular. e Hans lhe • 11/ Vatti. bem como a um tratamento nii. do objeto < feminino. formular de imediato a questão de saber se. Em outras palavras. s da identificação com ele que o pequeno Hans deveria encontrar ! | via normal desse circuito mais amplo que já é tempo de percorrer. que no entanto não é falsa: Papai. psicanalisado. Para ilustrar o lado sufocado do pai nesta história.In . o pequeno Hans o escuta com um interesse divertido. Já quase inscrevemos nesse es•|ii. A posição genital. fique! Nii<> vá embora a galope.n íamos enganados se a encarnássemos sempre no estilo do terror | ilo respeito.i o lugar que ele deveria ocupar. de jeito nenhum. mas o pai. não sem sublinhar ele pi 11| n lo o fato com certo humor. e marca -smo tempo a necessidade dessa dimensão transcendente. falando propriamente. se podemos dizê-lo. muita água vai passar por debaixo da ponte. já lhes disse. Aqui estamos. Leiam a . Transportamos a questão . o pai se levanta da mesa. e irá animar a investigação. se assim j podemos dizer. relativa! n«> . Mas paralelamente. Ela não é menos fecunda nesse outro registro. muito simples. no futuro. não o pequeno Hans. em primeiro lugar. Seria.

Isso não é exato. com este. não passam por baixo das cordas. Hans não deixa de responder a isso por essa fantasia: — Masfazemm a transgressão juntos. igualmente. uma tu l n'i u.) .' É um entreposto Aniu/. assim mesmo. a letra. que surge como se fosse necessário que não pudéssemos ignorar a função recíproca dos dois circuitos. sob a condição de se tomar o esquema ao avesso.cm especial de cobrança de impostos sobre a entrada de comes||n em Viena. É em torno do embarque que gira toda a questão: trata-se de saber se ele vai embarcar com seu pai. A questão do embarque fracassado pode assim sr esclarecer. a mãe diz: Mudar de andar não tem importância.iin na família a conveniência.T. cuja importância ele não minimiza. (iode dar mais uns passos diante da "porte cochère".i. Voltando da casa de i A noite. o circuito materno. quando é levado até Freud. l l. H llintfrc Zollamtstrasse. M. No próprio esquema que temos no relato dado por Freud está o K d:i rua. eslri fora de questão que ele embarque com o pai. da última vez. isto é. . Existe.m. eu lhes fiz um pequeno esquema onde a casa dos pais i i I. O portão de carruagem. 30 de março. já que é precisamente dessa função que o pai não pode se servir. 2. Isto. que estava com seu > irem e que os dois quebravam uma vidraça. um pequeno prédio. mas mula está à vista. Ora. reni. Devendo mudar de H|niiiíiincnto. a referência do pai assinala duas coisas.mo sc corrige diante de Freud: — Essa melhora talvez não tenha MI/. Essa transgressão arquipura é designada por uma corda.. do que o que lhes disse da última vez. o pai exagerou um pouco. I H . embora a segunda seja uma observação do pequeno Hans na volta da consulta.IMS se situava na rua por trás da Agência Central da Alfândega. cr que esses portões de carruagem.i . zusammengepackt. A importância dessa fantasia não deixa dúvidas. É este juntos que é tão importante. o que deixa supor que exista. o pequeno. uma transgressão. eles são mitgenommen. pelo menos no sentido comum do termo embarcar. e o grande. Trata-se de passar ao regime do pai. não é insignificante na topologia do que se relaciona com o . mas H fimiiin de carruagem você deve a seu filho. pois ó da natureza mesma do significante apresentar as coisas de maneira estritamente operatória. a I I . Lembro a vocês que estamos na segunda-feira. Não se podem dizer essa» coisas de outra maneira. i'i< pode haver de melhor como significante de uma ruptura para l . Aí. i i . Esta é novamente a ponta. Mio. naquela manhã.332 A ESTRUTURA DOS MITOS PERMUTAÇÕES 333 observação e verão que nesse dia. suspeitamos. começa a manifestar ijii.1 estrada de ferro da cidade. Este é indicado nos mapas de Viena. o que se faz.i . Primeira coisa. a segunda fantasia.i uma rua escondida.motada. O pequeno Hans conta ao pai essa fantasia: fazia. e que se situa logo antei j da consulta de Freud. — O que é que impede de se passar por baixo dela? — As crianças bem educadas. o circuito paterno. em absoluto. E. é a Untere Viaductgasse. levados juntos pelo HI" ui«. se a compreendermos em seu contexto. Não vamos i j i i i . Hans havia feito ao pai a seguinte pergunta: — Por que aquela corda está ali? — É para impedir que se pise na grama. . sob a qual passam os dois.•>!< nor. (N. quanto somos cegos | o que temos sob os olhos. também.' /«/o acentuada quanto eu lhe disse. i <|ue demarcam. a qual. É a corda a propósito da qual. e fazer algo que os envolva juntos.i uma coisa que lhes revela. É indicativo que isso seja iniciado nu primeira fantasia que acabo de lhes explicar. e que se chama o significante. o pequeno Hans se entrega novamente a uma transH > reconhece ter pensado. i mi. hop. mas cuja exata função é um pouco apagada pelo fato de relatá-las ambas no preâmbulo. no jardim do Schõnbrunn. E em seguida.l. graças a uma informação cuidadosanir .feira. responde o pai.de revoada: o pequeno Hans. Aqui está. dia seguinte ao domingo em que complicaram a visita à avó com um pequeno passeio ao Schõnbrunn. que o leva regularmente até a casa . a saber. diz o pai. ('orno lhes disse da última vez. naquele dia. . Todas as elaborações sucessivas do pequeno Hans lhe servem para se aproximar desse objetivo ao mesmo tempo desejado e impossível. é ponto a ponto duplicada pelo que se vê lliriin 1 . -. três dias depois da observação. principalmente quando elas estão ali para indicar que não se deve ultrapassá-las. pois ele MI. esses portões de carruagem. talvez.de polícia. esta é a própria imagem da transgressão. e < ponde ao que Freud chama de Lagerhaus. de um lado . agora. eles vão dizer ao guarda: Aí está o que nós fizemos. a fachada da entrada da estação de onde i . Percebi isso . no contexto da época. |M>i|iicuo Hans. ele embarca todos dois. de perto. primeira 'i. que os faça embarcar na mesma viagem. < um efeito.u se aproxima ainda mais do objetivo. A 2 de abril. mais uma vez. o término da fantasia.

sua mãe é que a assegurara até Hi|iirU' momento. do pequeno nir.u já lhes disse. a casa com boa vista para a entrada da estação. que todo o A REDE FERROVIÁRIA^) especial dedicado à cobrança de direitos alfandegários sobre a entrada de comestíveis em Viena./ y/. Encontramos isso indicado a todo linimento. como expressa a asia em que ele está na carroça. que fica bem em frente à casa e. o entreposto de que fala Freud.i o pequeno Hans. Por • obstinar-se em não compreender que nos basta traduzir isso da uma maneira como Hans o apresenta? Isso que ele receia não é iplcsmente que tal ou tal pessoa não esteja mais lá quando ele voltar u casa. O que está em questão momento em que chegou o pequeno Hans é. pois. A crise experimentada então pela criança. vai nos permitir acompanhar a sua construção. |mi. tanto mais que o pai nem sempre está no interior do circuito. o vagonete que desempenha um certo papel na fantasia de Hans. . tudo depende do ponto de impasse que sobreveio H«'i rdações de Hans com sua mãe. É esta a cena onde se desenlii o drama. que toda a casa se vá. UNS ER H AU s S / S / / / S / S A UNTERE VIADUCTGASSE Ai|ui está. ffiomo conceber que a passagem para um círculo mais vasto tenha sido. ao mesmo tempo. se quiserem. o cenário instalado. uma necessidade? l '. Sua inserção no mundo. de ultrapassar a distância de um certo círculo de visão de sua Obcecados como somos por um certo número de significações videntes.334 A ESTRUTURA DOS MITOS PERMUTAÇÕES 335 LAGERHAUS Y///À Gitier YS/SJí Hofraum Y///À Wagen • Verladungsrampe „ \ l l l l l l l l l l l l l l l l IEH l Einfahrttor Untere Viaductgasse -jL_JL_£ S. É em direção a sua casa que equeno Hans se volta ansiosamente no momento de embarcar. Isso explica todas as conexões existentes ao mesmo tempo: a via férrea do Nordbahn.ir ao pé da letra sua tradução nessa angústia que impede o pequeno ! Lm-. iircce que a mãe também colabora para isso. O espírito poético e. podemos l'ii|ii. j? J1 . trágico. acontece com frequência de não vermos aquilo que no nulo está inscrito da maneira mais evidente no texto de um sintoma D flor do significante quanto a fobia.

já que ele ii lê morder também. l v. para o pequeno Hans. V.. Mas não é tanto disso que se trata quanto do que lhes |lilli|iici.i fantasia. no primeiro circuito.u Inversamente. como não veria que está igualMI MI. O fato de ter estado beim Zuckerbãcker mit der Mammi. existe por outro lado o perigo < • pela mordida do cavalo. mesmo que para isso tenhamos de retomar. diz. Todos os cavalos de ônibus vão cair. O que ele teme não é tanto ser dela separado. '. O pai. será uma retorsão? Pode-se pensar em i l d f i v a i aí aquilo que é posto em uso. Elo estava com sua mãe. O tom pelo qual o pai leva muito adiante o interrogatório. vamos vê-lo aflorar a todo instante na observação: na medida em que é solidário i> mãe. nos temas 1 MH. depois. Embora o mito individual não . Trata-se da segunda ocasião. não digo um furo ou uma censura por parte da criança. quando o pai está ausente. e logo depois disso houve o tombo. não creiam n i lês não estejam em algum lugar. O mito no nível individual se distingue por todos os tipos de n i. viu-se um cavalo de ônibus que levava um tombo. desde o momento em que ele compreende que esta mãe lhe pode faltar. o que significa aquele momento do dia em que o pequeno Hani estava com sua mãe. > de abril. mas certamente indica que alguma coisa aconteceu. depois na Kaffeehaus. e explica que foi logo depois da compra do colete. ganz allein mit der Mariedl. quando Hans revela o surgimento da bobagem. lhe diz: — |tii f /c. muito rapidamente o abandona. E. Esta está na base de toda a i» social no mundo. estiveram no Skating Ring. Trata-se desses ônibus do interior dos quais ele via os cavalos. o mesmo acento. essencialmente. de maneira talvez um pouco arbitrária. mas mamãe me disse. Este elemento. estas são suas duas propriedades.i mordida. com sua mãe? Vemos o programa se desenrolai. também pode mordê-lo. 1 . como eu ainda conheci alguns. alf-uma travessura. ele próprio. . Eri um cavalo de traseiro grande. tem no discurso do pequeno Hans o mesmo valor.336 A ESTRUTURA DOS MITOS PERMUTAÇÕES 337 barraco desabe. Então. e que encontramos perfeitamente desatado na catam|l>ilii i In observação. para tapar o abismo. Hans sublinha bem que estava com a mamãd e não com qualquer outra pessoa que talvez estivesse rondando por ali. Mas mesmo ali onde estão. Só vou aludir aqui a um episódio. lerísticas da mitologia desenvolvida. que mostra bem sua presença desde a n. uma a sucessão de fantasias do pequeno Hans. Alguma vez ameacei ir embora?. como sabem. iii i' n adiante uma investigação de caráter policial. deter ficado com ela o dia todo. Este perigo se tornou cada vez lliil 1 ' ameaçador por sua própria privação.unos prosseguir e pontuar o que vai se desenrolar a partir de um n(o preciso. como é o caso na nossa civilização científica. tão importante. no confeiteiro com a mamãe. A partir deste momen• 11 n i eerto número de outras fantasias são produzidas. e ao mesmo tempo que ele permaneceu totalmente solidário a ela. interroga: — Onde é que voi-í1 foi. É em torno desse ponto que jaz a angústia de ser iiln <oní a barraca materna. mit der Mammi. Ao que o pai. O certo é que o cavalo representa ao mesmo •lii|>» t a i r e morder. o elemento da i i i u l n l a só é visto elidido. deixa-nos perceber um traço não menos confirmado acima. aparentemente. Hans sente alguma coisa que lhe sinaliza que: Agora vai ser sempre assim. a saber. e sim ser levado com ela sabe Deus para onde.mi deito. vê-se muito bem o que está em jogo a todo instante. n» momento em que cai. de maneira confusa. e enfim — aí está um episódio que resolve o quo acompanhamos até agora — foram ao confeiteiro. É a casa que está em causa. naquele dia. parece indicar que há. do qual teremos de dar conta e isolar a maneira uni" -. ilíriites.i lu-ira de ser engolido? A mãe. se ele decepciona. un tu' riu ia embora. a solidez do 1 eus pais. ele não sabe mais onde está. digamos que mesmo que põe em questão.i<|iii na medida em que. cujo temor surge no momento em que a crise se n. pergunta o pai — Ninguém jamais me disse que você ia.i pelo fato de que o pequeno Hans não pode mais.niável. o mesmo papel que quando elí frisava: Nicht mit der Mariedl. ele teme que esti não volte para casa. na ideia >nu) do impulso sádico. Este com a mamãe. aquilo em que o menino esmaga sua decepção de IH.i n cavalo está ali com a propriedade de representar a queda de |M-(|ueno Hans está ameaçado. como é patente ali onde os mitos estão fluentes por sua função. pontuando o iir i liamei a sucessão das permutações míticas. insaciada e privada de modo • u i. manifestasatisfazer sua mãe. acompanhando simplesmente a curiosidade do pai. por que não nos perguntarmos. quando o pequeno Hans vem encontrar seu pai na cama e lhe indica que. e é incontrolável. É da casa que se trata.«>hreveio. que acentuei para vocês há pouco. Para fazer reviver a flor japonesa na água das observações. Indico-lhes H .mós.

três exemplos: a fantasia da carroça diante da plataforma de carregamento. precisamente por não ser o pequeno Hans um simples amante da natureza. A (mineira fantasia da série vai lhes mostrar em seguida onde se dá a i|'. uma vez que. conceber que. Nunca se esqueçam. antes. É nisso que a criação mítica responde a uma questão. em sua fantasia. que as pedrinhas do significante surgem para preencher esse buraco e esse vazio. dessa falta-a-ser. Ela se situa num momento bastante tardio do progresso do i' •!• r. É porque a significação está literalmente perdida. Bohrer — Freud introduz em nota a l n l idade de um equívoco com nascer. Podemos. Percorre o l ciclo completo do que se apresenta ao mesmo tempo como abertura í possível e como abertura impossível de se tomar. o caminho que Hans poderia ter tomado pelo lado que levai ao fetichismo. no sentido em que se diz razão matemática. por outro lado. Eis que entra alguém. no nível de seu ventre perfurado deve igualmente ser guarilmlo. ou seja. por sua vez. e percorrer as soluções possíveis. Este sentido está indicado na própria observação. clc fura a barriga do pequeno Hans. É a fantasia da • i.uafusa a banheira. é porque o fio está perdido. do fundamental "na barraca": lliiln i . Hans está na banheira. a . lhes é comum: a função de solução numa situação fechada em impasse. eu lhes dei. da última vez. r-. Não é artificial distinguir o sentido de sua evolução de um outro ! sentido possível. Nada mais nos é dito: ele desaparafusa a lenheira. a saber. com o rigor que conhecemos. que o pequeno Hans expulsa o pai e de certo Io o substitui. Fechado o circuito. sob uma |iiMin forma. V. <i rei obrem e modificam a permutação dos elementos. em 11 de abril. com efeito. que é. isto é. i|i. E ali ele pergunta onde está a razão. Ele consiste. Dessas fantasias.Ia conexão com este troço sempre em vias de se esquivar. onde quer que o possamos captar de modo suficiente. seja como fbr. O pai. o pequeno Hans esteja. É nisso que Hans é um neurótico. é certo que o fato de que se a desmonte é. como no conto do Pequeno Polegar. j algo se realizou. Mas desde já posso lhes dizer que tudo aquilo que acontece em torno das calças da mãe indica. ele é um metafísico.1. absolutamente igual a qualquer espírito coletivo da tribo primitiva.iii fantasia é a seguinte. O mito individual reproduz em menor escala este caráter fundamental do desenvolvimento mítico. enfim. e é em seguida objeto de uma agressão do pai. M-ndo ao mesmo tempo incapazes de dizer qual. em negativo. uma característica. E ele vai se comportar. em suma. mas. 4 cie quem afinal de contas assume pessoalmente o furo da mãe.o entre o pai e o pequeno Hans. Ele porta a questão ali onde ela reside. algo a se ter em mente. a inmos que o seja por parte da mãe. Acontece que. A calcinha não está ali para outra coisa senão para nos apresentar uma solução que poderia ter sido que Hans se apegasse a essa calcinha por trás da qual nada há. digamos que se a banheira responde a Wãgen — a esse algo PMI <|uestão para o pequeno Hans. o significante não está aí para representar a significação.una da mãe. em enfrentar uma situação impossível através da articulação sucessiva de todas as formas de impossibilidade da solução. não ilriKii de relacioná-la com a cena que se produz comumente no nível I|H i . ( om os métodos habituais de interpretação de que nos servimos.338 A ESTRUTURA DOS MITOS PERMUTAÇÕES 339 possa de jeito nenhum ser restituído a uma identidade com a mitologia. a da partida com a avó e do retorno ao pai.em. como se nela encontrassem não-sei-que rosto conhei iilu. com sua broca.iiiios agora pôr em série uma sequência de outras fantasias que n n -mi o que estou lhes dizendo. está aí para completar as hiâncias de uma significação que não significa nada. para permanecer estritamente no nível das fifllsas. O fato de que. significando que o sujeito foi posto no nível da •questão. que . (piiiíi se em seguida forçar as coisas e só Deus sabe tudo o que se pode PIH onírar para dizer a respeito dessa fantasia. Já lhes disse o nie para que sentissem que este "na banheira" está o mais pró• uni • possível do "na carroça". o terceiro aqui esperado. a da descida do trem perdida em Gmunden. com uma bateria de significantes escolhidos. não um perverso. o Schlosser. que 0 u plaiô do suporte materno. no entanto. no sistema de permutações. geboren. o serralheiro. como é a do pequeno Hans entre seu pai e sua mãe.i sobre a qual todos se curvam com uma espécie de enternerlMirnio confuso. depois. Isso não está fundamentalmente Itinrcado pelo erro. mas sobre a qual ele poderia querer pintar tudo o que quisesse. se soubermos lê-las. no ponto onde há algo que falta. apesar de sua evidente impossibilidade. vou lhes mostrar isso da próxima vez. sem resolvê-lo •»-. de ultrapassar a solidariedade a que iii prende —.

< lulra fantasia. h |«-imita ao menino continuar sua viagem no mesmo trem. que parece ser a última da história. O pequeno Hans. Zange é a pinça para iNllim um parafuso. e isso é muito ambíguo. Das muss wahr sein quer dizer: Seja um verdadeiro pai... o ponto crucial. a pretexto de que houve anteriormente um instruIlirui» pontudo. Pois bem. É logo depois de ter chegado a parir essa fórmula. sobre o qual a perspectiva do significante nos mostra o quanto ele é necessário.i. (. em 2 de maio. BtNNU vez é não apenas o serralheiro. vou dizê-lo a vocês da próxima vez quando voltarmos à análise desse momento. Com efeito. em 22 de abril.I-. existe super. |HIII|IIC seu pequeno traseiro a preenche bem. Vão ver que é também o pequeno Hans quem o diz. até entãc > i • I. O pequeno Hans passa toda a noite -ij'. o instalador.micnte. . voltamos a uma outra posição. que cuspi. Si linuihenzieher.K. o caráter decisivo do vocabulário da criança. de 22 de abril. quando. ele invocou se pai: — Faça seu ofício. Som que haja. interrogado pelo pai a despeito do bom senso. é mesmo focado a permanecer sentado. i Inxlallateur. e que isso se inscreve clarament na continuação do momento em que.iMa à da banheira que a precede é suficientemente posta em i. O pequeno Hans. E esta é toda . Ai está. O que acontece em seguida? Com uma das fantasias seguintes. o que faz com que ele se recuse a tomar Imiilio noutro lugar. no circuito mais ampl da estrada de ferro. e vai lhe dizer que eu vi a calça. dois elementos. ao mesmo tempo um desejo e um temor. por essa clandestinidade. contra todas as sugestões deste. Fliess observa. se se reportarem ao momento em que está em jogo a calça da mãe. aliás. Há também correspondência — nu mesmo tempo. mais um passo dado. perfeitamente reconhecível sob a formu de um garoto. para dar-lhe um outro. na fantasia da banheira. com alguma coisa modificada — com o fato de que . Ele passa ali uma noite inteira. t K tuim me daria só o tempo de ficar no seu lugar por alguns instantes. você deve f aze-Io. que nos most bem o que é convocado na realidade. No artigo de que lhes falei. ou em qualquer outra banheira •Wtor. II 'i'"'''' o ponto terminal. pois não passa de uma fase do complexo de Édipo positivo. a coisa que não se devia olhar. que o pequeno Hans fomenta i sua fantasia que passa toda uma noite no vagão. e apenas dois. que é aquela dita do vagonete. se machucar. É inexato traduzir Zange por chave de parafuso. a toda velocidade.11). como se fosse. Robert Fliess sublinha. portanto. de súbito. sim. equivalência de significação. aquela que flutua sob a forma do preto para sempre inapreensível diante da figura do cavalo. mas assume o furo. que só se sustenta. o que acentua o caráter de • !• npaiafusamento. na manhã seguinte.oca desta observação. a posição materna. mas o primeiro é o seguinte: Você vai escrever ao Professor. em Gmunden. Ele só se sente bem na banheira da casa de Viena. tem todo um peso — ao condutor para que . o abismo. que vem com suas pinças. isto é. Ele explica isso. você voltaria. Finalmente. i ijiicstão: ele tem ou não tem peso? Ali. o pequeno Hans não olha mais. mais uma vez. •H. está no vagonete e o deixaram inteiramente nu durante toda a noite.onete e. Estamos aqui no nível do complexo de Édipo invertido. que caí no chão e fechei os olhos para não olhar. que ao menos ela o seja. . dá cinquenta mil Gulden — o que. sempre no diálogo de que lhes fulo. ( ) u ( r a fantasia. sangrar e desaparecer.OCS com a mãe foram essencialmente sustentadas por relações i das geschwind. Isso está estreitamente ligado ao momento imediatamente anterior. E até então era isso que ele • !• ' i. do traseiro desaparafusado com a baHlirçira previamente desaparafusada. . ele a preenche. se não se pode ver como a m2 é satisfeita.340 A ESTRUTURA DOS Mrros PERMUTAÇÕES 341 l saber. colocando entre parênteses: — Ele quer dizer: descalço. onde ele disse a seu pai no diálogo que lhes indiquei ser. o ponto último que está em questão. A superposição dessa i ini. E o que se desaparafusa é o traseiro do pequeno lliiii 1 . Mas em qualquer lugar onde a banheira mlcja longe de apresentar as mesmas garantias. mas o bombeiro. Bohrer. traz. e precisamente no nível em que este morde. e isso desconcerta a todos. isso deve st verdade.irncia pelo fato de que as relações de tamanho entre esse traseiro | ti banheira foram articuladas da maneira mais precisa pelo próprio |li'(|ucno Hans. ais Nackter. Reencontra-se aqui o ritmo daquilo que se pode • i« mui o jogo primitivo da transgressão com a mãe. nesse sentido. continuando a fantasia: Você > hiitercomopénumapedra. o espírito bíblico que o possuísse. u .iva. O segundo. aquele por onde o pequeno Hans termina. diz ele. é claro. capital: — Você estava lá inteiramente nu. que r estilo do termo deve ser destacado. ao pai. faz peso. de 21 de abril. no nível do esquema. voltam as fantasias llr dcvoramento e de angústia. a ponto de se precipitarem para tapar o buraco. a coisa não observável. a broca ou furadeira. com muita razão.

O instalador diz em seguida ao pequeno Hans: — Vire-se do outro lado. parta mais ou menos rapidamente. uni não existe. foi porque um dos cavalos golpeou i i i m '.cu casco. l . em tempos antigos. é isso: em algum lugar não existe pênis. pois xr|Xfj designa tanto a pinça i | i i i i n i i i as tenazes. No entanto. todos completam a interpretação dizendo que o instalador o desaparafusa para dar-lhe um outro melhor. ele nunca pode ser devolvido. Antes de deixá-los. no prólogo da peça Os fenícios. ela explica por onde um | unho chegaram.1 —que. o calcanhar de Édipo. de pllilpidcs. m i e i [lince em francês.pi. Vamos dizer mais: na medida em que a passagem à ordem simbólica é necessária. também se chama uma (•m. Mas. i t . i ni. se a briga estourou. pois. Naturalmente. e porque sempre tento terminar com algo que os divirta. . A mãe pôde dizer: Vamos te cortar isso.eu pé fosse inchado devido ao pequeno ferro que lhe passaram i nozelos. iocasta.o-lhes mais: em grego. por definição.mio cuidado quanto o que tomei na construção daquelas pequeinr. Naquele momento Jocasta tem M i iml. num caso como este. ( um i. Acontece que vi. não foi o bastante. e outro. Eles vão e vêm.342 A ESTRUTURA DOS MITOS PERMUTAÇÕES 343 a carroça parta ou não parta. que Hans tenha feito um circuito suplementar. É aí que jaz o drama do complexo de castração: é apenan simbolicamente que o pênis é retirado e devolvido. passa à frente. O certo é que não é fora do terreno estrito da análise do significai™ que podemos fazer progredir nossa compreensão das formações sin« tomáticas. o pequeno Hans tenha completado o percurso significante do complexo de castração. Nada indica que. l >i>-. que está numa r i i i . insuficiente realidade que não conseguiu seduzir a mãe.carruagem. isso não está no texto. para que Édipo cumprisseo seu destino. Trata-se. -. casco este que se chama em grego. Ao menos essa questão se formula. n-dcs ferroviárias e avenidas vienenses. Se o complexo de castração é alguma coisa. exatamente como H i M i do pequeno Hans. na sucessão de construções fantasísÍl'iis do pequeno Hans. sempre é necessário que. a parte dianteira do casco. O plfi nunca disse: Vamos tornar a te aparafusar. i^r\m exatamente o mesmo sentido. antes de contar a história da Antígona. e que o simples fato do que este seja um ciclo ou um circuito basta para assegurar o rito de passagem e dar-lhe um valor igual ao que teria se fosse completamentp efetuado. vemos que o pênis é retirado simbolicamente. Infelizmente.. bem como irmão e em francês. 15 DE MAIO DE 1957 . Esta pinça. quero mostrar isso a vocês com uma pequcnrt observação. Nesse ponto. de saber em que meditlu pode bastar ao pequeno Hans ter feito toda essa volta.i que tudo o que é simbólico é. mas o pai é capaz de dar um outro. o que é isso? De onde vem ela? Nunca se falou dchi durante toda a história. é sempre o mesmo material que está presente. da plataforma a que ela está momentaneamente acoplada. essa ferida que lhe foi feita precisamente pelo mino de um cavalo. m não encontrei folheando em grego um manual de serralheiro. em todas as línguas. coiH . até certo ponto. afinal de contas. i cm alemão Zange. E mais. permanecendo no nível do significante. o pênis tenha sido retirado e depois devolvido. Pode-se dizer que este é o equivalente do ponto de vista do exame. > cavalo faz todo seu pequeno Krawall. isso com que o instalador intervém quando se trata de lhe desaparafusar o traseiro não deixa qualquer dúvida trata-se de uma pinça ou de uma tenaz.u> eclodiu a disputa pela precedência entre um. atracam-se | u mais forte. lissa observação é destinada a mostrar-lhes que não digo nada de Miip-i. i|n. Édipo.ido de observar — detalhe que não encontrei mais em parte •d/ . |. e mostre teu wiwi. Completo essa última fantasia. mas por acaso. encontraram-se na encruzilha|n. realmente incapaz de sei devolvido. uma pinça. de pinças. Este termo tem os mesmos dois sentidos do i. Assim. dá um detalhe Hiuiin curioso referente ao que acontece no momento da morte de Laio. yj\kr\. foi necessário que ele tivesse no pé. que está a pé. e que não é devolvido. que os grandes dentes COMI que um cavalo pode morder um dedo do pequeno Hans são chamados. Iam ambos a Delfos.ido quando lhes digo que.

lamentos e suspiros. o que vemos ao fim da observação? Ao final. do ponto de i u da superfície. A relação por ele mantida com elas mudou ivclmente: são agora. imaginárias.-no Hans se entretém. Em outras palavras. mas pode-se reconhecer nela uma analogia brilhante. Não se pode dizer que ele esteja. para dizer tudo. na observação. agora. antes de íiilípo. até mesmo um sedutor tirânico e donjuanesco. tanto n que. então. tentando entender a língua em que este se exprime. de braços e pernas solidamente atados por pessoas que n( entenderão da sua linguagem. Se é aí que vc ver a matriz.é sublinhado na observação. no seu •i». E quero desde já indicar a vocês para que i viii tender o balanço que disso vamos fazer. é este não-sei-que a que se poderia chamar a maturidade precoce ii<H|iieno Hans. na saída deste. Este pequeno trecho que eu havia extraído há alguns meses dCI Cadernos de notas de Leonardo da Vinci. Se existe alguma coisa que é acentuada pela observação. preferencialmente. é perfeitamente caracterizado na atitude precoce i cqueno Hans. Descarga do signifíctnili A angústia do movirnriiit Cair e morder. da relação de objeto considerada sob o ângulo (Hl progresso no tempo em que o pequeno Hans vive seu Édipo. Mas. vejo em vocês seus cidadãos. a títulfl alusivo. realc c preciso dizê-lo. podemos dizer que. da futura relação H queno Hans com as mulheres. icrmo complexo. Não vamos dizer que ela já seja M. . \ contrário. o próprio Freud o apresenta como uma i ie. O canivete na boneca. e esquecera completamentlf me parece próprio para introduzir nossa lição de hoje. é claro. 344 Apontei-lhes. já tem todos os leres de uma relação adiantada. homens e mui rés. numa espécie de imensa arborescência. de imergir esta árvore no banho daquilo que foi vivido i pequeno Hans. suas dores e suas saudatlf* da liberdade perdida. com queixas lacrimosas. Seu centro enigmático é o significante tivnlo incluído na fobia. que indica a entrada do sujeito numa espécie de Mdaptação a um contexto real. Trata-se agora. Pois estes que os amarram não vão compreendei a língua de vocês. não mais que compreendem a deles. o desenvolvimento i o em que consiste a história do pequeno Hans. radicalmente. de ver qual foi o papel desta árvore naquilo que i progresso da criança.TRANSFORMAÇÕES 345 XX TRANSFORMAÇÕES O phalus dentatus. suas filhas. em torno deste significante que vem se niitlii. reencontram-se as mesmas meninas habitando i u Io interior do pequeno Hans. com efeito. com que o >i. cuja função é a de um cristal numa solução . São fantasias. Ill que se trata. É.i. para maior iclalo de alguns. se vocês lerem a observação. e só poderão exalar entre vocês. Vamos retomar hoje nossa leitura da observação do pequeno Haiu. Crianças em roupa de banho. a i ira como o pequeno Hans experimenta suas relações com as mas. ninos que nada. nos indica que devamos considerar resultados como plenamente satisfatórios. j! Esta passagem grandiosa só deve ser entendida. como nos. que deixei escapar aqui uma vez. deixada pela resolução da crise. se K) ili/. o resultado da heterossexualidade do pequeno Hans .INiilurada. um certo número de etapas do de•Hilvimunto do significante. mas também o quanto elas são então nente.Miclerão deixar de se surpreender ao ver não apenas o quanto elas imito mais imaginárias. de sedutor feliz. O cidades do mar.ê-lo. aqui. senão. seguramente. da última vez.

n i ida com o pai. entre os diferentes tempos da formação mítica MI nificante. arrebatadas à m. também. não se sabe por que milagre o pequeno i..nulo o pai se reúne a ele.i ali. permiti a vocês entrever como. naturalmente. durante esse período particularrmm. Se podemos dizê-lo. e vamos estudar em mais detalhes aquilo que •• determina. vemos aparecer a fantasia da banheira que é desaifiiNmla. devemos situar. m. renovar a configuração significante. é-lhe necessária a interrog» cão do pai. a uma espécie de exp< rimentação de seu poder. tr A PARTIDA COM O PAI 22 de abril. mas essas meninas vão permanecer marcadas pelo estigma de seu modo de entrada em sua estruturi } libidinal. i . E. Serão filhas de seu espírito e. Certamente.'l de abril. uma última fantasia vai marcar. nele. a cada vez. o limite mi. Wãgen. encontramos a fantasia que podemos chamar a l'. mente. ou de revolução? Poderen>< compreender aquilo que. uma retomada de nosso percurso. desse niodu falá-las. Nilo < logo de saída que ela se apresenta assim. e sim o seu fundo. Vamos vê-lo. p. Já que tomam' como ponto de referência a estruturação significante do mito do pqueno Hans. HANS NA BANHEIRA IN . i <|ue podemos hoje atingir. sua comunui > de de figuras. ncv.i elas vão ficar fundamentalmente ligadas. > ser confirmado. Pelo menos. temos o tema que chamei do retorno. quais são. é o vagonete em que o pequeno Hans vai embora HANS VAI EMBORA SOZINHO l n l i i i i . ao nu n. abordar em detalhes quanto à maneirai como elas entraram. deixando-a l mesmo tempo fundamentalmente a mesma. é escandido por essas su< • sivas cristalizações que se apresentam sob forma de fantasias? Trata-se. e também revelá-las a si mesmo.. o pequeno Hans irá amar as mulheres. da última vez. e do qual concentramos uma silhueta aproximativa. Isso demanda. uma vez que falamos de relação <i< objeto. os mesmos elementos se permutam com os oulri para. provavelmente. de sucessivas cristalizações de i configuração significante. Eis a ordem em que as coisas se apresentam. Essas declarações estão destinadas a lhes indicar onde est. elas serão senhot dele. . paralelamente. mesmo.i interesse de semelhante pesquisa. O estilo narcísico da posição destas com referência ao pequeru Hans é irrefutável. Não é o explica essencialmente esta fantasia. É por isso. os objetos que passam sucessivamente ao primeiro plano < i interesse do pequeno Hans? Quais são os progressos que. que facilita a Hans confessar suas fantasias e. < que poderíamos chamar de uma partida angustiada. as d l l > rentes etapas de seu progresso. ocorrem no significado.» sucessivas figuras.. correlaliv. ativo e fecundo onde a relação do pequeno Hans com seu mum! conhece uma espécie de renovação. percebê-las. A 1 1 de abril. Ela é manifestamente representada como n i i n . por este viés. tempo em que podemos.346 A ESTRUTURA DOS MITOS TRANSFORMAÇÕES 347 foi suficientemente alcançado. sem dúvida alguma. tendo em seu interior o pequeno Hans e seu grande furo M u n e . como vão ver. Trata-sc .i e impossível: Hans parte com a avó antes que o pai chegue. Mais exatarnona fantasia desenvolve o tema de uma angustiante solidariedade com n veículo. Mostrei-lhes. que está na borda da plataforma de partida. que tudo nos indica q<iele jamais deixará de temê-las. f Em 5 de abril. nu. com relação aos tempos desta. organizá-las.

O pai vai mais longe. O que. lê não se vê. Encontramo-nos aí em l 2 de março. . é a menos anormal possível. isto é. com essa fantasia. subjíi cente a todo o desenvolvimento do caso. toda tentativa do pai de introduzir realidade do pênis com a indicação do que convém fazer com ele. mas de jogo com A primeira parte da observação. não vê-la. daquele que ele está tocando. construído sobre o modelo do jogo de prendas. quando o pai fala a Hans sobre o falo. não é de engodo. suscita no pequeno Hans. pois a entrada em jogo.de março e j 5 de abril. ou da franja. este caso se desenvolve inteiramente no registro do mal-entendido. Por outro lado. da possibilidade de ereção e de tudo o que ela inclui. Hans recebe I direito de que uma menina o faça fazer pipi. de fato.i ocorre. no centro da angústia. Só que. na entrada de uma série de mal-enten. HII. O que fora. Esta é a maneira pela qual se deve esperar que elu se desenvolva. abre a porta ao ataque. mesmo jiir referente a este jogo de mostrar ou de ver que está na base da uliieão primeira escotofílica com as meninas. o ponto onipotente de seu mundo. Freud sublinha que se lHln de um sonho puramente auditivo. I de suas relações com a mãe. Este era o plano sobre o qual se poliibelecia seu jogo de sedução. em manter que elas têm um. que se masturba. O que é assim suscitado de oculto . que caracteriza a apreensão fetichista. foi muito longe na penetração do problema. não somente com a mãe. a fobia. o falo imaginário da mãe. o jogo de mostrar ou i i i " mostrar o falo. e este falo. a saber. mudou incontestavelmente o equilíbrio profundo de todas as suas l relações com aquilo que constitui. que ele sabia muito bem não terem falo: o jogo i onMstindo. de súbito. l í dessa maneira que. tlo ó. lule uma criança esconde uma prenda na mão e condena-se aquele |ui declara que o objeto lhe pertence a fazer alguma coisa. a saber. . consistia para ele em jogar com um falo que sabia Ini muito tempo ser perfeitamente inexistente. fundameniHlmente. depois da qual começa a fobia. e também. I I M I I U numa fantasia: uma fantasia apenas no seu limite.obre isso que a relação repousara até ali: relação que. então. trata-se essencialmente. O es•' i i > i. l Hirante este primeiro período. o ponto estável.I telação com a mãe é o falo inexistente. e é justamente na hiância deste mal-entendido que vai se desenvolver uma outra coisa que terá sua fecundidade.348 A ESTRUTURA DOS MITOS TRANSFORMAÇÕES 349 Antes de 5 de abril. O pai lhe formula a pergunta: Mas ela estava nua ou de timixola? O que não perturba o pequeno Hans: Ela estava com uma tlinixnla tão curta que se podia vê-la nua. nesta imagem. não tocá-lo. o que desempenha o papel prevalente no fato do que. Acrescentarei! que é este o caso comum de toda espécie de interpretação criador» entre dois sujeitos. mas com cuja presença -inil. de seu pênis real. Um falo. na fala. mas de phallus dentatus. o que vai aparecer. sem elemento visual. de que estava com sua mãe nua * 1'nmisola. ele se .M logo depois. um ponlo de referência.. que. para o pequeno Hans. didos que vão presidir ao conjunto do diálogo do pequeno Hans com l seu pai. um Wiwimacher — termo em j que o falo se inscreve no vocabulário de Hans — não morde. chega esta angústia fundamental que faz com que tudo vacile? A ponto de tudo lhe ser preferível. pois que se | H! n de um sonho. à mordida' É um outro falo. Por exemplo. é claro. até então. que a fobi. É verdade que alguém que não é psicanalista. me dizia que é impressionante ver. do falo. O jogo do Está aí? Não i/n aí? passou ao símbolo. o ponto fixo. a do cavalo. de certa forma.il se situa sempre justo no ponto em que se podia ver um pouco. dizendo-lluque é na medida em que ele se toca. fala-lhe. unicamente.. e que era para ele a I I . precisamente. Vocês reconhecem aí a estrutura l i i ">i da. rriomada em primeiro plano dos temas do jogo. O elemento falado já se mostra IJIM prevalente. l i i . para ele. no sentido mais imediato.ein se deve jogar. A fantasia do pequeno Hans está ali para vrnluur o caráter do que está em questão naquele momento. alguém que é um mitólogo e mesmo alguém que. até mesmo o forjar uma imagem angustiante em si mesma completamente fechada. pelo menos. mesmo assim. neste jovem sujeito.I defesa contra o elemento perturbador trazido pelo pai. não de vagina dentata. Assim. é claro. o que está em questão? Entre l. É a propósito do falo que o pai lhe sugere a motivação de sua fobia. no tema dos mitos. com sua hMsiência em falar do falo em termos reais. é disso mesmo que se trata naquilo que morde e que fere. podia-se apenas i In. uma certa função. inaugura-se a aporia i|[ii|inlo que é imaginável. de novas emoções. até sugerir a equivalência entre aquilo que ele teme. a ponto de suscitar da parte do j pequeno Hans a réplica de que um falo. mas com Iwliis as meninas. . a mãe. I I M . com um rigor automático... e a quem fiz ler a l observação do pequeno Hans. Certamente não está errado. marca um limite.

mas também devido ao fato de que é a este ponto que o pai tenta arrastá-lo. mas que se referem a personagens perlei tamente reais. na relação de objeto. o pai tenta fazer passar completamente o falo para a realidade. Ao pai que se adianta como o IprcNriitante da realidade. Ela é tomada de empréstimo àll bagagens. Enquanto o pequeno Hans está aprisionado entre seu apego imaginário e a insis». o pequeno Hans convoca uma testemunha. trata-se. e sim de forjar uma fantasia. claramente representado na girafa pequena. Enlip o dia 15 de março e a consulta com Freud.ii aquilo a que. sempre é bom porque podemos mandá-lo Não se trata apenas de falar. mais de uma observação dessa espécie. MMi\ seu modelo e o seu esquema. de sua nova ordem. A primeira imagem da i|in na girafa já é o começo da solução. Desta vez. de pênis real e falo imaginário. a tudo o que se n A < >l ver do mito da fobia: este é o termo imaginário que se tornará to n '•!<• o elemento simbólico. da análise. Entre os dias l 2 e 15 de março. tência do real por intermédio da palavra do pai. como que às escondidas. vemos ao contrário que. às amiguinhas com quem ele prossegui! suas relações imaginárias. o dom dos céus que ele representa. para Hans. data da consulta com Freud. l MI outras palavras. a saber. da adaptação ao real. Isso nos é dado sob uma forma quase Min lalizada no início da observação. não é inútil sublinhá-lo. o que leva o pequeno Hans a lhe dizer: O meu está bem preso e vai crescer. antes de tudo. i r lato. aquela que a teoria analítica aponta como l < MI »>. um. e o sublinha incessantemente.>. mas IP NC pode fazer disso papéis amassados. e é isso mesmo que lhe confere III cai ater excepcional.-. de que é um homenzinho. Diante da tentativa do pai de realizar o falo. i. pois algo de secundário j aparece por volta de 30 de março. nessa ocasião. percebe ele mesmo a maneira como pode ser tomado tudo o que 1.i nessa fantasia. não é em absoluto de homol(). IM (Meneia de uma via de passagem direta à significação de um novo 'i . e mesmo seu esquema. 21 de março. | Ela é chamada como testemunha do que mamãe e ele próprio esl.i j relação fálica com a mãe tudo aquilo que intervém de novo. .350 A ESTRUTURA DOS Mrros TRANSFORMAÇÕES 351 Nessa fantasia. observando a Hans que os grandes animais têm falos grandes. diz ele. é a fantasia das duas girafas. hitlu/.i abordagem feita pelo sujeito. mas de falar a alguém. onde se situa a fantasia de Grele e da mãe. o real só pode ser reordenado na nova configuração simbólica | preço de uma reativação de todos os elementos mais imaginários. ele chamti o pai em sua ajuda. O pequeno n. onde o pequeno '.ui fazendo. vamos voltar a ela mais tarde. uma simbolização du falo materno. e que os pequenos têm pequenos. schncll. a reação do pequeno Hans.1 aquisição do manejo deste real por meio de um instrumento lliiholico puro e simples.i menina que ele chama de Grete. Existe a necessidade. é anunciado nas fantasias do pequeno Hans. pelo menos na fase i u M . no entanto. como lholi disse. Encontra-se. a via em que ele entra então vai dar sua escansão. l Vsde os primeiros passos da neurose infantil do pequeno Hans. pois ele introduz o fato de que se toca um pouquinho. à sua casa particular. mas é introduzido nisso simplesmente pelo Io de que já sabe falar. e que ela intervenh. Mas ele sabe muito bem o favor precioso que lhe é lireido pelo fato de poder falar.indo diz isso ou aquilo. Não que ele o saiba. |iri|iieno Hans responde por uma proliferação imaginária tanto mais • « M (|uanto sustentada num modo de profunda incredulidade. ele encontra com quem falar. que não apenas se pode jogar com isso. imerso num banho linguagem. em suma. que é nisso que isle todo o caráter precioso. e eficaz. A formaçãoB de compromisso que se segue estrutura literalmente todo o peru x In anterior a 5 de abril. longe de constatarmos. bem depressa. Isso não quer dizer que não haja nada mais. mais uma vez. mostra seu sentimento da fecundidade própria que lhe é aberta lato de que. ele próprio tem acesso. que •• ' manter o tempo todo nele. Assim é esta primeira análise feita com uma criança. de fazer reinserir no fundo d. O c|iic aparece neste nível não é inteiramente artificial. onde sfl] manifesta aquilo que é o seu essencial. O fato de que se chama Grete. se uma verdadeira regressão imaginária com referência à sua ii. Esta é a síntese do que o • in< no Hans aprende a fazer: ele aprende como se pode jogar com [mugens. e lhe respondem que isso é bom ou isso é iii rouco importa.1 de que se trata aqui. Seria muito i icendente que não percebêssemos. O mesmo esquema que lhes indiquei há pouco se reproduz. onde figura l] colaboração do pai com suas transgressões: de certo modo. já que.1 i m jogo: a saber. não l somente em razão da existência real de seu pênis.

no do. 1'clo lado do pai.rto significante. unbewu. M porque se acredita no que ele determina como orientação. revelando-os. e lhe diz que veio vê-lo porque tinha medo: • •' viria vê-lo mesmo sem isso. quero dizer. mas que come nada. é uma incitação. não que a criança «" < ome. por si mesmo. É que um dia viria um pequeno Hans que iria amar demais sua mãe e que i>or causa disso detestaria seu pai. que traz pronto aquilo a que isso está destinado a alcançuf. como o fazemos aqui: não Hf deve esperar que essa comunicação dê frutos imediatos. desse objeto que se acaba de lhe desigiM < ) pequeno Hans tem medo de sua ausência. em seu ser integral. Trata-se de implantar um outro cristal. uma pequena reação. e permita à fobia se desenvolver. aquilo que se produz por si só. que já sabia antes que você nascesse. a fobia. Encontramos aqui apenas uma primeira aparição u. nas relações de objeto. Protesto do pai: • fstou. uria do pai. O que ele receia é que o pai tenha o.352 A ESTRUTURA DOS MITOS 2 TRANSFORMAÇÕES 353 Por ocasião da consulta de 30 de março. o pequeno Hans tem medo da n . ausência que está ali e que ele começa a simbolizar. pois. isso é muiln excitante. inteiramente construído. eifern. realmente. o que Freud lhe disse que era no mito. ele espera que isso auxilie o qu| está do outro lado. H assim mesmo que o pequeno Hans reage a partir do dia seguinte: n no encontro do pai. Qual o resultado disso? Freud o articula muito claramente pai M nós. mas não apreende o fenómeno a III ser em seus contornos. mas vamos nos deter diante desse medo ausência do pai. naquele momento. Existe. O caráter irreal do medo em questão é illninente manifestado. para ter descoberto um troço desses. sem | | mínima tentativa de adaptá-lo ao que quer que seja de imediato e preciso na criança. os caminhos para o que chamei há pouco de desenvolvimcntd > cristal significante. Não se pode dizê-lo mais claramente que nas 111 frases de Freud na data de 30 de março. e aprender a escandir o que está. conforme o contexto culturií em que se está implicado. lista é. um primeiro choque. nu máximo. é um dos pontos mais interessantes da observação.l tória que eu inventei.sxh en Produktionem vorzubringen. O pai logo o interroga: Mas como tal coisa seria possível? vai nos levar mais longe. mesmo assim. em suma. o Professor. ele está ali de uma maneira absolutamente primorosa. no udo em que se diz primou pela ausência. pd um lado. logo antes lantasia do vagonete. é o que ele mais ou menos diz. e por outro ladl Freud. existe então. >sição paterna. O pai. trata-se dl que ela produza seus efeitos no inconsciente. que isso abra. isto é. A anIklía não é o medo de um objeto. a ser entendida como. O pai. pela sua forma: é o medo li uma ausência. o caráter de mito 011 ginal por ele comportado na doutrina de Freud. Hm suma. Deliberadamente. como caminho para a fala no sujeito que é seu depositário. É um mito das origens dado como tal. digo-lhes que se deve entender. n morexia mental. mio irá durar muito. a maneira como Freud condiu seu mito do Édipo de forma crua. a sua função de criação da verdade que está em causw Freud não a apresenta de outro modo ao pequeno Hans. Freud não imagina por um só instante que o mito religioso iln Édipo dê seus frutos de imediato. a fobia. como isso é bom. Logo. uma pequena cristalização da angústia. com aquilo que representa de carência. e a que d» é preferível. < i pai. que são o que 11'iimos hoje compreender no interior das diferentes etapas da fori. o de uma fobia. melhor. Isso não é de todo falso. de sua própria lavra. o sujeito começa a realizar que o |l mio é. está quebrando a cabeça para saber por que |n uidros o menino manifesta um medo que não passaria do avesso ilrsejo. Freud lhe diz: — Vou lhe contar essa grande his. | | podemos dizer assim. como OM trutura. — Você deve estar. De fato. só vamos encontrá-lo realmente no fim. Isso não ilcve surpreender. inclusive forjar o mais estranho e o menos objetal II objetos. O Édipo é implicado aqui por seu autor numa operação que põe l em jogo seu caráter fundamentalmente mítico. Vamos vê-lo vir ao primeiro plano. A angústia é o confronto do sujeito Iftl a ausência de objeto onde ele é apanhado. no momento do confronto com o pai no • logo do Édipo: — Por que você está tão enciumado? Mais exata'ile: apaixonado. am literalmente. por seu lado. justamente. e diz l I . a se desenvolver. pelo pequeno Hans. é preciso realmente que ele tenha fahtdn com Deus. na significação inacabada representada naquele momento. . é este o termo empregado. vê-se bem em que medida ele já i ali. onde se perde. e o pequeno Hans dá uma resposta marcada pela mesma ambiguidade imprimida pelo assentimento que ele dará a tudo o que se vai seguir: — Isso è muito interessante. É este o ponto de encontro com o pai. se soubermos vê-lo. Aqui. Este se serve dele <ln mesma maneira como se ensina desde sempre à criança que Deus criou o céu e a terra e muitas outras coisas.

e poder situar.i maneira como o próprio Freud nos apresenta as coisas. l ||l rni-ontrar exatamente os dois elementos que acabo de lhes descrever Isso não quer dizer que esteja aí tudo o que está contido no Hl | m i . p I.» simples fato de se trazer o pai. mesmo assim. não é em absoluto capaz de suportar a função via de nossa teorização. a angústia em torno da função do pai é descarregada. Essa fantasia. Só temos que tomar l. Mas como não há um Vatti a se . existem alguns Infelizmente. já que isso está no J ('omeçamos a vê-lo. se precipita nas produções que devem se deo drama. IN 111 -antes e se inscreve de maneira quase matemática. Não. ao mesmo de que ele não tem mais medo e o pai. valoriza o vidade possível do Vatti. Não estou forçando nada no que lhes conto. Papa. teríamos ficado nas regras do jogo. é porque quero fazê-los entender i|in n r i i h u m detalhe escapa a essa postura. de subtração. longe disso. Ele opõe. vor dem Vater. E começamos de imeili. massim. sem compreender de todo. e que se deve entender como umi l i rito de descarga. p°.ingústia em torno do lugar vazio. imperceptivelmente. Se houvesse existido um i molver da fobia. a angústia em torno do pai. do cavalo. nos diz Freud reforçando o que •6MHn de dizer. isso nu« c tornar ainda a partir do início. seu ponto tlfi lintão. o fato de Vatti ser tão bonzinho. l i m o de um primeiro termo. se é muito lamentável que \s coisas sejam isso nada mais significa. o pai dá um golpe. digamos que algo foi então l simbolizado. HO mito do Édipo em seu alcance universal. ainda que em estado de exigência. um a ausência do pai. apesar de não ter passado pela (pinpo em que está ali. vocês não podem deixar de perceber mito.354 A ESTRUTURA DOS MITOS TRANSFORMAÇÕES 355 isso a seu pai: — Por que você me diz que estou de bem com mamtlf. j Ihl. um Édipo Surge a primeira fantasia. De onde estamos. Não se os receia mais. seine Phobie abzuwickeln. furado. ele não sabe muito bem para onde ir. C. umwentexto. à angústia diante do pai. o que lhe permite nos perdemos. e a partir desse momento não se os receia mais. em que se pôde jlhrilar. de 5 de abril. isso não pode ir muito longe.i um sentido. e cujas transformações encontramos até temer. sua dificuldade começa depois disso a se desenmesmo compreender inteiramente. sem hrud havia previsto. Se posso dar a impressão de avançar muito lentaquando é você que eu amo? Se é preciso que eu o deteste. porque o pai. D — os quatro . registra-se imediatamente registrada. por quê? Porque Vatti é perfeitamente Ijlir força nosso pequeno Hans a recair em sua dificuldade. e isso se registra naquela mesma tarde. e a observação registra isso: — Nicht alie weissen Pferde beissen. Aí está uma coisa que é imediatamente i". B. com efeito. o lugar de uma ausência. Ele tem medo quando o cavalo vira. representado pelo significante do cavalo. A partir do momento que cola. Se chamarmos de I maiúsculo o significante em torno i. como nos pi iio < ! < • uma balança. de onde parti da outra vez que ajuda a sair das saias da mãe. e que é l l'listem duas ordens de angústia. da qual a fobia ordena a sua função. teríamos podido fazer um verdadeiro Édipo. Ele articula muito bem — A. compreende que existem alguns que são Vattl. no pequeno Hans e relatado em bruto por Freud sido posto no caminho em questão. ter uma angústia diante de alguma coisa. que repercute sobre as funções simbolização. de vez de perspectiva para que a observação cesse de ser um labirinto onde »ii quando. E é isso. em contraparliNcobrir coisas. precisamente. podemos dizer que. é dele diante que da deve figura ter medo. que a observação anota.no a ver mais claro. de postulado. e que cada um de seus detalhes assuma. e faz realmente análise: isto é. Ou seja: //c/-. sob a condição que se assinale. illiinic do pai. O cavalo não vai se desvanecei 101 na configuração do pequeno Hans. Como gentil. Vatti de quem realmente se pudesse ter medo. Isso é o que o pai compreende. para I (o p"). Na mesmo medidaassim. a. algo que podemos chamar de pequeno sigma. até o fim. com tudo o que a rodeia e anuncia. com referência ao p Com o significado nascente. na de repente. PMiilti-lecida que responde às necessidades da formação mítica correia. que é ali mesmo que está Viilvcr. como Vatti é demasiado gentil. só porque disseram ao pequeno Hans: — É de seu pai qut \ vai ter U|l|Nistia medo. busca seu suporte na fobia. romo se articula a relação do significante —suscitado ti*|ioiiianeo. natural. desde que se evoque a agressi g liin. que u i em estado n. enfim. uma angústia o significante cavalo é imediatamente descarregado de alguma coisa. ela se encarna. B NU jeito pode. o significante fóbico do hippos é descarreMNO de uma pergunta que o pequeno Hans começa a articular realHiniic no dia anterior: O que me dá medo? gado na mesma medida. Hans não tem mais medo de todos os cavalos brancos. Mas.

v r para um ser como o homem. ela não tem outra saída senão aquilo que é para o próprii pequeno Hans a reação de angústia de necessidade. e a desmontagem fantasística da banheira de E l l de abril. E | continuidade do real em descontinuidade do simbólico. este é o próprio encaminhamento sem o qual Ilius etapas e seu progresso permanecem incompreensíveis. com tudo o que lhe está ligado de fobia. ser um ser consciente de si mesmo. No momento i que vai cair. jetzt immer diz ele. cair e morder. Tul ó a fórmula na qual se encarna para o pequeno Hans o que i i i i i jogo. ela não incidi apenas sobre o fato de ser arrastado pelo movimento. rolar chão. porque tem este mínimo de desapego dn vida que consiste justamente naquilo que chamei há pouco de se sabof existir. de repente. os cavalos atrelados aos ônibus vão cair. ou pelo menos há algum tempo. São todos termos que .iiiuíra as bases de seu mundo. por assim dizer. pode-se n|i. nada pode . ali existe angústia. Essa angústia ainda deve ser analisada. o questionamento de tudo aquilo que até então •. pois a discriminação entre o movimento linear c 01 movimento rotativo não tem outro sentido. o cavalo. no qual se escapa. Numa linguagem man moderna. de maneira completamente fantasística. na medida em que arrasta alguma coisa atrás de si.j turbadora. Segunda etapa: quando se desaparafusa alguma coisa. Hans nc diz isso sob a forma daquilo que diz quanto ao cavalo: ela vai umfalle und beissen wird. l'limeira etapa: ela é desaparafusada. ' i . l é temível quando corre. A introdução daquilo que o carrega. Trata-se de uma elaboração em torno ' irmã da angústia do movimento. o fi|iifiio Hans faça essa conversão que consiste em passar por etapas i (-. com lm deste. cujo mundo se estrutura no inholico. porque este movimente modificando profundamente suas relações com a estabilidade da mãe vai pô-lo em presença desta como na presença de um elemento rc. uma longa passa- . O que ocorre no significado? Como dar conta do que acontece de 1 1 mlusó e de patético ao pequeno Hans entre o dia 5 de abril. sabemos a que está ligada: ao surgimento daquilo qi se produz cada vez que o amor da mãe vem a faltar. Isso é justamente o que é então desenvolvido e articulado pelo pequeno Hans nas neoproduções da fobia. a saber. l laverá inicialmente introdução do tema do amovível. Não se a desaparafusa sem f KIII custo. Entendam bem que não se trata do movimento uniforme. Essas são duas etapas R(|ucináticas que são expressas na formação da banheira. Nunca é sem um custo que essa passagem se opera. e que pode sentir a inércil correlativa da aceleração. Primeira etapa: morder. O que pode ser trazido aí por um mpcramento? < ) pai é absolutamente sem efeito. põem em jogo um elemento que tem um valor especial para uni homem. e não npeiias ele se submete aí à castração. que o arrasta num iiiiviinento. deix. Isso é o que o pequeno Haim nos diz.356 A ESTRUTURA DOS MITOS TRANSFORMAÇÕES 357 modos sob os quais o cavalo dá medo a Hans. já lhes disse. tenta restituir o mome to em que ficou com a fobia — a partir de agora. a saber. Esta forma significante escande H operação de transformação que traduz o movimento em substituição. Este elemento mostra aqui sua instância mais per. este devir sentido. Ali onde existe um ser que é tomado nesse movi» mento sem estar nele totalmente implicado. ela Krawall gemacht. mas esta é formalmente simboi ||/mla por essa grande furadeira que lhe entra na barriga. Com efeito. sempre.uafusar outra coisa em seu lugar. que é um movimento em que não se sente. e será então necessário que o pequeno Hans 11 perfure. representa para Hans uma queda profunda. mais quando parte depressa do que quando parte lentamente. sobre o qual sabemos desde sempre. Segunda etapa: cair. U nus leva ao dia 9 de abril.tiuema do movimento ao esquema de uma substituição. porque. onde começa a se dar a simbolização da substituição possível? O que há entre essas duas datas? Existe aí toda uma circunvi/inhança cujo material sou forçado a desencavar. detalhe que liflu e suficientemente valorizado na observação. um animal destinado. a se saber existir. nas próprias bases deste.ulu cair. com efeito. É preciso conservar as estruturas da fórmula pela qual o pequer Hans. à diferença dos outros aninur. diremos que há uma aceleração. a fantasia de ser deixado para trás. num movinu-i to.. A mordida. isto é. em sua estruturação significante.il mente subversivo de seu mundo. mas também sobre seu avesso. vai se chegar à substituição. Toda a obI lírvação demonstra isso. Isso já está ft(] desde Aristóteles. a reação dit catastrófica. depois. Este elemento 6 O j movimento. quando rir produz a cena da fantasia da carroça que dispara. l por isso que é preciso que.

o par de calcinhas. ficaria satisfeito • "Mi rias. É disso. e se entrega aqui. que a mãe de Hans estd na vanguarda do progresso. 1 1 .n. l um tatear desajeitado sublinhado pelo próprio Freud. este falo misterioso que ninguém jamais verá. a coisa é outra. já se inscreviam NHsas singulares. essa extraordinária homonímia entre pinça. essas calças como seu "l'p in. Mais que isso. A mãe. a evolução do mito significante. a calcinha amarela e a calça preta.il. como em toda parte. (N. Mas isso se i ' i . ||p Imvia cuspido. isto é. aliás. em particuliii As mamas de Tirésias. por exemplo. É por causa | i> D l M rcação que a escolha está feita: o pequeno Hans jamais será um Ichista. que seja suscetível de introduzir a mobilidade como instrumento fundamental da reestruturação de seu mundo. lisses instrumentos. em seus detalhes cuidados e minuciosamente elaborados. Não se trata. que domina. i | . mas como o destino quis outra ynlMi. Sc cie houvesse reconhecido. I I a sustentar o engodo do falo. Foi daí que tudo partiu desde. trata-se da verdade fundamenta inscrita nos versos que acabo de citar. que é o que se passa diante dos véus. realmente. Sabemos. Qual é esltelemento? Este é. e se teria tornado fetichista.T. do fato de que a mãe do pequeno i Hans seja mais ou menos feminista. já trouxe alguns deles. se lhes dissesse que o meio do casco é chamado pinça. quando as calças |klíi» lá em si mesmas ele as rejeita. e é isso mesmo que lemos quando o pequeno Hans articula o que tem a di/i-i punias exaltadas do pai o interrompem o tempo todo. Aí está toda a diferença. com efeito. todo o drama. Só que ele explica que. A realidade é valorizada por esta longa interrogação através da i|u. . n partir daí. situação anterior. preencher mais de uma das funções da " H i i . realmente.I ihlícil crivar as respostas. em absoluto. que se trata. • l" i l r mento de amovibilidade que vamos reencontrar na continuação. A calça 6. que andam de bicicleta. Freud jamais nos dissimulou seu valor decisivo.il o pequeno Hans tenta se explicar. ali onde ele pode contiM I I . |l podemos assim dizer. o que IHHI. e alguns trechos judiciosos de lindas comédias de Apollinaire. o elemento que eu lhes disse ser necensário introduzirmos na dialética do mostrar e não ver. Aí . Powo importa. Há dois dias de questionamento ansioso do pai.358 A ESTRUTURA DOS Mrros TRANSFORMAÇÕES 359 gem durante a qual está em jogo um só elemento. nas ambiguidades do significante. j dizem-nos. i|iir nos faz a partir daí passar ao plano da instrumentação.io são mais repugnantes. i O essencial é o seguinte: as calças em si mesmas estão ligadas IIHHI Hans a uma reação de repulsa. Elas são tudo o que nós somos E.' Aí está. ao contrário. Veremos |Ncn volver-se um formidável material de instrumentos. uma reforma ousada. véu. por intermédio desse objeto privilegiado.lula em que é empurrado para direções divergentes e confusas. já que nos recorda a frase de Napoleão segundo u qual a anatomia é o destino. muito exatamente. * No original: Elles sont tout cê que nous sommes l Et cependant ne s»nl pás hommes. simplesmente. caído no chão e depois fechara os olhos. As calcinhas estão ali. e sobre o qual este explica que é a parte malograda da investigação analítica. Ali está o nervo que nos permite lpirender a experiência. que não compreende nada daquilo. o casco e o dente do cavalo. mas ciNscncial é a introdução.c > início. o pequeno Hans illu que se escrevesse a Freud. e até mesmo já lhes Ilustrei o quanto. Elas só conservam sua virtude. pertencente à . O que se vê de mais claro aí é que existem duas etapas sob as Ijiiiu o pequeno Hans reconhece e diferencia as calças. mas Freud o faz e nos diz o que é o • • i» i. o pequeno Hans fica repugnado pelas calças. i sobre a sua dualidade de maneira confusa. Poderia desenvolver isso para fOiPs bem mais longe. não são homens. resta-nos o bastante para ver o que Freud teve o cuidado de l acentuar como o essencial. Como se diz nesse drama admirável. uma novidade usada pelas mulher»-. vão nos ajudar a descrevê-la melhor. como se cada uma |lliili • num certo momento. quando a mãe as usa.i .) . Se ele o faz tão mal é na mesma MM . no entanto. do suscitar o I que não está como o que está. e que seus dois lados se chamam as mamas. vamos reencontrá-la. Mi onde elas se poderiam oferecer a ele como objeto. estando em função. mas escondido: este elemento é o própnc. dizendo que quando viu as calças.

vou sublinhar o momento axial. servindo-so também do seu bico como de fórceps. ' ' pequeno Hans encontrou. É uma brincadeira com uma bonequinha de borracha que Han» chama. mas no bico. Se lemos bem a observação. que se fí previamente entrar pelo buraquinho que faz quich. mas que se trata de pinça. por trás. Não se esqueçam de que a cegonha tem igualmente um estilo inteiramente outro. E o pequeno Hans encontrou o caminho para 22 DE MAIO DE 1957 . vocês ir3o vê-lo chegar com sua silhueta extravagante. sem ter visto muito bem o benefício que lhe era oferecido por essa instrumentação. burlesco. Todos esses elementos se encui xam uns nos outros. O carro vai virar uma banheira.i na fantasia do instalador. Fremi então recorre ao seu Zange.360 A ESTRUTURA DOS MITOS TRANSFORMAÇÕES 361 Da última vez. justamente. vamos retomar tudo isso passo a passo. Nos objetos que virão agora se impor progressivamente. uma fantasiazinha muito bonita.A ™e tinha na cabeça. E. como por acaso. domínio. do que vai se passar entre a mãe e a criança. e é isso o que caracteriza toda a sequência da observação. e até mesmo a lhe dar uns tapinhas. Da próxima vez.i único. de virada. Ele refaz sua pequem perfuração. a saber. da cegonha. o personagem enigmático. de Grete. O pequeno Hans introduz na bonequinha uma faca que a trespassa. Porqiueu a chamo de Grete. inquutador. depois uma caixa etc. que esta é realmente n mesma que fora testemunha do jogo com a mãe. de reseVa uma faqui'« P«ra corta-lo. Este termo. Este Senhor Cegonha — der Storch —. depois introduz algo para fazê-la tornar a sair. Não creiam que ele si-j. falando a vocês do Schraubenzieher. Depois de haver feito bastante progresso com a mãe — e vocêl vão ver quais — intervém. em 22 de abril. de tenazes. que ele não põe no bolso porque não o tem. mas desta vez com um pequeno canivete. disse-lhes que não é isso. Mas aí se fizeram progressos. avançou-se já o bastante no domínio da mãe. Para não deixá-los se irem sem algo de preciso. de báscula e de cadeado. a palavra exal . e veremos por intermédio de que formas significantes precisas esta mãe e estn criança se verão sempre as mesmas.cr chave de parafuso." |C11V° f farsa . definitivamente. que quer di/. deve ser empregado no nosso sentido mais técnico. o que figm. mas essa amo vibilidade fundamental que se exprime para o homem na questão t In nascimento e da morte. percebemos aquilo que parece haver escapado ao pai. verSo aparecer não apenas as relações da mãe e da criança. A partir daí ficamos submersos em material. transformadas. e vão ver por intermédio de quem aprendeu-se a comlu zi-la de rédea curta. Por quê ? — perguntam a ele. um chapeuzinho e chave 1 .

A Ideia de Anna. o comentário que fiz da última vez. com o tempo. todo o interesse que provoca no Professor Freud. caso em que assumem para ele um sentido inteiramente outro. e a cegonha o cavalo chicoteado o embarque imaginário com o pai o grande diálogo a consagração no vagonete o canivete na boneca o cordeiro Lodi bin ich der Vatti o instalador Da ultima vez. . que existe uma relação entre essas tagarelices e algo de absolutamente consistente. faz todo um escarcéu manifesta uma repulsa de que ele não dá a chave. Se estiver avisado. Penso que. que não é de modo algum induzida. com tudo o que o diálogo com o pai comporta então de problemático. 362 . que é. sua afirmação. Acentuei. nem sugerida pelo interrogatório. O desaparafusamento da banheira.. de profundo mal-entendido. ao menos em princípio. de que as duas calças não tem em absoluto o mesmo sentido conforme estejam ali por si sós — neste caso o pequeno Hans cospe. Infecunda castração materna. A sapiência ao pai. o que lhe parecia ser o resíduo essencial daquele diálogo. Esta ideia vai se apresentar ao nosso espírito apenas no só-depois. mas releram a observação do pequeno Hans e essas indicações são bastante vivas por si mesmas. com Freud. mas manifesta também o desejo de que se comunique isso ao Professor — ou estejam ali vestidas pela mãe. detive-me nas reações do pequeno Hans às duas calças da mãe. a saber. rola no chão. uma fobia. e não é difícil sê-lo. 9 de abril 11 de abril 13 de abril 14 de abril 15 de abril 16 de abril 21 de abril 22 de abril 24 de abril 26 de abril 30 de abril 2 de maio as duas calças a banheira e a furadeira a queda de Anna a caixa grande.. todas as inquietações que suscita em seu meio familiar. a saber. de interrogações.As CALÇAS DA MÃE E A CARÊNCIA DO PAI 363 XXI AS CALÇAS DA MÃE E A CARÊNCIA DO PAI O loumf e a roupa. A relação entre essas tagarelices e essa fobia. Refiz hoje uma cronologia. que não nos é de forma alguma apresentado na observação. Eis o que é o pequeno Hans para o leitor não avisado. sobre a história da boneca que o pequeno Hans trespassa com um canivete. Vamos retomar hoje nossas afirmações sobre o pequeno Hans. o objeto de nossa atenção. com todos os problemas que esta acarreta para a vida do jovem sujeito. ele vai saber que essas tagarelices são importantes. com todo o caráter imperioso do preconceito.. há algum tempo. Beije-a um pouco mais. Por que elas são importantes? São importantes porque é formulado.. considero que è da maior importância elucidá-la. Não é possível tentar fazer isso num mais-além da tagarelice. Dou-lhes como exemplo. vocês todos não apenas leram. Em suma o que é o pequeno Hans? São as tagarelices de uma criança de cinco anos entre os dias l 2 de janeiro e 2 de maio de 1908. Lembro em que espírito prossegue este comentário.

desenvolvenii. plenamente admitida |r Nua mãe. como é excessivamente frequente nas crianças que um nome encontrado. basta simplesmente que ele seja incitado ao envolvimento da incidência significante que ele próprio introduziu no necessário à sua sustentação psicológica para que. numa análise. A propósito dos sinais de repulsa manifestados diante das calças ilii mu"e. apertando um botão. no processo desse tratamento rápido. um certo espanto diante do fato de que eu haveria elidido. vamos falar da fase anal. por um certo espírito de sistema. mas é inteiramente satisfeito. não é no sentido instintual. este é de registro que é da ordem daquilo que lhes indiquei por várias ve2 como possível. tendo o pequeno Hans -irado com segurança que a questão dos excrementos não deixava <-r. por parte de alguns. No momento em que ouvem falar em excrementos: Fase anal! Fase anal! Fase anal! Pois bem. em outras palavras. importunando-a. Não basta. um fenómeno de regressão. da roupa. significação e interesse. d mudança da abordagem significativa de um dos termos presentes. Que queremos dizer com isso? Não se trata apenas do fato de ser ftll (orno da reação de repulsa manifestada diante das calças da mãe |Ue o pequeno Hans é levado a falar das funções excremenciais. >l ver o sintoma. Se há regressão. Mas o que está em |o naquele momento é a participação de Hans. isto é. É em torno deste tema que o loumf é introduzido. sem dúvida alguma. e que o pequeno Hans sabe muito bem. Sem que o sujeito posj $ i modo algum se dar conta. não é por espírito sistemático. nada se encontra que possa se inscrever no registro frustra ção-regressão-agressão.364 A ESTRUTURA DOS MITOS AS CALÇAS DA MÃE E A CARÊNCIA DO PAI 365 Desde então. ele só nos é trazido nessa conexão. desse estágio anal que surge num ponto nomeado em nosso espírito exatamente como quando. por exemplo. com efeito. que o loumf é trazido a i""l»osito das calças. nas funções excremenciais desta. em seu ' i plano. nem no sentic1* da ressurgência de alguma coisa anterior. literalmente. até mesmo. porque é preciso que as coisas se passem normalmenuGostaria que vocês recuassem um pouco diante dessa observação e percebessem que existe. Freud fala de uma relação com o loumf. Em todos os casos. do real ao imaginário. da calça. em todos os casos. Isso é um i tratamento? Certamente. t «só do pequeno Hans. Durante todo o tempo do dito tratamento. lire daí uma certa solução. disse que era um texto que tinha uma função fundamental em nossa experiência da análise. quaiu o pequeno Hans prossegue sua elaboração com algo de rigoroso. Existe. mas ligadn certamente a nenhuma frustração. nem a solução melhor. provoca-se tal reação condicionada do cão de Pavlov. e a mãe se desculpa com o pai — Kl aliás não ignora grandes coisas a esse respeito. Trata-se. eu não disse que era um. No vocabulário do pequeno Hans. o jlljiieno Hans tomou pelo loumf um interesse que talvez não deixe de pf conexão com sua própria função excremencial. devido à necessidade de el cidação de seu problema. isto li é preciso que um véu seja colocado diante da inexistência daquilo tyUc se deve ver. nesse sentido. Mas essa relação com o loumf tnverte: podemos dizer. a conexão entre as ditas Ho sen. entre o pequeno Hans e sua mãe. isso mesmo o que vocês vêem ocorrer durante esta observação. seja dado a esta função a partir de uma primeira denominação ligada a uma certa conexão de seu exercício. as calças da mãe. diz ela. tem por efeito. mas. e jogo de ver e não ver. inversamente. a redução simbólico ao imaginário. se dissiIftlllii a fantasia essencial às relações entre a mãe e a criança: a fantasia il« mãe fálica. é preciso vê-lo por trás de um véu. Voltemos ao loumf. na obser|o. que é realmente o traço do processo significanW tal como Freud o definiu como inconsciente. o loumf são os excrementos. Se existe. não somente o pequenti Hans não se submete a qualquer frustração. nada • i Mjiiilo que está fazendo.n mesmo de imperioso. agressão? Agressão. para ele. uma solução que. Cada vez que ela põe e tira as calças. pude escutar. o sujeito procede à redução de tal elemer de seu ser-no-mundo. São chamados dessa maneira atípica. mas que refaz filio seu questionariozinho: — Não tenho outro jeito senão levá-lo ""' > ao banheiro. Por trás do tema do véu. em absoluto. Lumpf-Zusammen'> -mu. Vamos ver o que é isso. sem que ele saiba. O pai fez perguntas no mesmo sentido. a elisão. como cada uma das grandes observações de Freud. . às vezes. de suas relações. É o que ocorre quando. em suma. senão casual. como é manifesto ness observação. uma coisa que não á i indicada. Por conseguinte. com certeza. com o loumf. Para VHf o que não pode ser visto. o pequeno Hans está indurado nela. se deixo o loumf em seu plano. Atribuem-me. Regressão. mas porque. Em |Uf os excrementos e o anal intervêm na observação? Sem dúvida. da maneira mais evidente. tampouco a nenhum momento de regressão. mas também de ver o que não pode ser Io porque não existe. . que não é forçosamente uma solução mativa.

e é na medido em que o véu está caído que há um problema para o pequeno Hair. primeiro elemento da realidade simboiiiIo pela criança. já que é em funçAn da experiência de 9 de abril. a que Hans. a mordida. se posso dizê-lo. Trata-se de saber.r. é verdade. no curso da doença. do véu. entregue à mãe. da longa explicação sobre as calças. em si mesma vaga. um discurso. se sente ligado. na observação. questionado. esta representa a situação de perigo. Í O loumf. Isso se deve a sua conexão com o sistema completo do significante na medida em que ele está cm evolução.h'. dá. com a banheira começa a mobilização da situação. isto é. IVHlii se de ver como a criança sai dessa situação.. i" nj-0 além disso inominável em si. marca. Aí está o í a significação essencial. por parte desta. O véu cai.i amovibilidade. isto é. o tema d. no caso. Criança Es Pênis real Mãe S Seio R i S (i) Anna A mãe é a mãe simbólica. a saber. Lembro a vocês o esquema fundamental da situação da criança •ntc da mãe. em tal momento da análise. o que vem a ser este loumf e de onde sai ele? Por que o 10 l lans chamou os excrementos de loumf l Dizem-nos também. Trata-se de com preender a função desse progresso rotativo. l m suma. qual é a função precisa desse tema. recusa de amor. Aestreita relação do tema do loumf in . na análise. que é por uma comparação com meias pretas. i mi seta preta e meias pretas. no vagão. Se o loumf tem aqui um sentido suplementar no interior do sistemit. & redução da fobia. angústia. o de sua própria posição na existência. e daquilo que. do desaparafusamento. A i i do momento em que se sente.ido e anulado por ela. na medida em que me fizeram essa objeção. quando toIIIK ••. com o tema do véu.il de redução da situação na sucessão de fantasias. quando volta da casa da avó no domingo. quero prosseguir até seu último termo —. Se fosse necessária alguma prova suplementar do que lhes digf — insisto. o excremento. In lhes disse. A sucessão de fantasias do pequeno Hans deve ser. Esse véu. este eixo para compreender o progresso dessas transformações I n ns através das quais se realiza. em presença do qual Haiu é confrontado na fobia. e já que f encontro. i ii. por ' 'in t|ue se esconde a ausência negada do pênis da mãe. é algo que pode cair. encantado por estar em terreno conhecido e contentar-se então com o refrão. de genetismo que possam ser recolocadas em causa no caso concicin a cada momento de uma observação. iilacão significante em relação com o tema da roupa. . i . lintinf. realmentJ concebida como um mito em desenvolvimento. em vias de perder seu amor.õcs x. intervém sempre numa certa função da u. eu acrescentam que o pequeno Hans. A combinação deste caído com o outro termo. não modificamos em absoluto a direção da obio por nenhuma espécie de opinião preconcebida. é acusada pelo ri|Hio pequeno Hans. qmvemos aparecer em seguida à fantasia da banheira. nas quais ele deve torr» seu lugar.366 A ESTRUTURA DOS MITOS As CALÇAS DA MÃE E A CARÊNCIA DO PAI 367 encontrar um tema conhecido para sentir-se.i/. representa paru Hans a solução do problema. ao mesmo tempo. na medida em que ela pode estar ausente ou «Ncnte. num nível profundo. com efeito. isto é. Quando há. Na explicação que se segui. falando propriamente. Não M trata de outra coisa. é por sua estrita homologia com a função das calças. tanto durante o sintoma. pelo aniquilamento mediante a satisfação .i-. senão de uma série de reinvençõM desse mito com auxílio de elementos imaginários. por seu pai.i i ao pai. Aluis. quanto im processo de tratamento. I i. a 12 de abril. no segmento da observação cujo exame prosseguimos. a um certo número de referências de verdade. •Vnliiimos chegado a 11 de abril e à fantasia da banheira. a compensação ncontrada no seio real. isto é. Se o tema é senipn importante para nós não é simplesmente por causa dessa significação l puramente implícita. de imediato. a introduziu de um elemento que tem a mais estreita relação com a queda. e unicamente ligada a idói. l'or conseguinte. o complexo anal. porque isso é loumf. a saber. a de véu. na medida em que ela deve se situar com relação a uma certa verdade. da realidade sufocante e única da mãe. como as calças. o que é que vem em comparação com o preto do loumf? in • < . sua repulsa pelos estofados prc-to» do compartimento. i MI i miras palavras.ci vação. I M .i. dessas sucessivas traiiNformações do mito. roupas da mãe. . «m seja. que será um elemento esseix i. com produção máxima de angústia. ele é desvelado.

não são simplesmente temidas pelo pequeno i-i Não elementos que podem intervir num sentido igualmente mo. e se a menina não deve cair. u . Por outro lado. os pontos de referência fixos de sua realidade. da varanda secessionista —pois estamos em i ilr pessoas na vanguarda do progresso —. pequeno Hans.368 A ESTRUTURA DOS MITOS As CALÇAS DA MÃE E A CARÊNCIA DO PAI 369 real. já que vai desemii um papel essencial na solução da situação. na medida em que agora só se fala de Anna. complica a situação. É preciso. Aí está . na medida em que o seio se torna uma compensaçS torna-se ao mesmo tempo o dom simbólico. ela vai se satisfazer como eu me satisfaço quando ela nãt me satisfaz em nada. ( ) mesmo acontece com o que diz respeito a cair. mordida. o que está em causa é uma angústia l lido diz respeito simplesmente à mãe. então. do u i modo.tnça anterior. ÍO vêem. temos a noção da il. as relações com o mais-além da mJ E depois há também alguma coisa que lhe pertence de fato. uma vt( que este é o meu último recurso quando não estou certo do seu am«i O cavalo cai: Ele cai exatamente como eu. Ao contrário. de uma oposição calizada.u uma grade detestável para evitar que o pequeno Hans 'im. Não é a criança que é o elemento imaginário. onipotente. desejo do falo da mãe.deseja que ela caia. o barraco. há dias: * pode ser mais bonito. ('omo lhes disse da última vez. os dois elementos pelos quais o cavalo temível: o cavalo morde e o cavalo cai. qir começa a agitar-se e que recebeu má acolhida por parte da pessi sobre a qual ele funciona. esse esquema veio se complicar cor introdução de dois elementos reais. um i paradas demais. é tão desejada quanto temida. uma conexão abstrata que vou fazer. A observação nos Tia que já se havia desaparafusado banheiras diante do pequeno NMIIS. vocês só precisam tomar os de pólos da fobia. mas que r se ter situado no tempo coberto pela anamnese da observação. I S mais aparentes da fobia. i é. e é a isso que aspira o pequeno Hans: ele deve ser mordido. esta M. aliás. são dadas nas H I M . Por outro lado. muito complicac Para sondar essa complicação. foi preciso ni. A mordida e a queda. é desejada. vai me morder como eu a mordo.i nesse nível — o que não significa que o faça — é chegar a formul o seguinte: i S (i). que surge pela primeira i li maneira enigmática na fantasia da banheira. por um certo lado. tudo aquilo que constituiu até então a realidade do i|iii no Hans. levavam R banheira dentro de uma caixa.i<la por ele. mas cof a qual ele não sabe. ao passo que a mãe torna um elemento real. uma vez que. quer dizer: Já que não posso satisfazer a ntM em nada. A l unção da mordida. literalmente. a mãe vai n r ver uma curva descendente depois do aparecimento da curiosa instrumental do desaparafusamento. a partir daí. Anna. i « u s a é certa: é que. na medida em que é preciso que ele se torne algui coisa. começa-se a desmon1. mas o i. isto é. sua captação pela mãe. o que fazer: um pênis real. porque isso corresponde uma revalorização desse pênis que foi considerado como um nml. e a questão se torna. sua tentativa foi muito mal Ihida pela mãe. uma inversa Com efeito.o r n o sentido do termo ambivalência. sobre os quais temos um certo •mero de anotações dos pais. Afinal de contas. da qual lamentamos não ter a data precisa. os dois anos antes da doença. todo uno ambiente. através das barras. para além da mãe.i recusado pela mãe. isto é. A mordida. à qual. são elementos significantes de duas faces. aquilo jiir chamei. Isso é o que nos mostra o jogo de ocultação criança ainda infans. um pouco rápido demais. INSO não é. isto é. o primeiro elemento que se apresenta é a pequena Mc. ao longo de toda a observação. O progresso da situação com a mãe reside no seguinte. é preciso que o pequer Hans seja comido e mordido. O pequeno Hans veio dizer à sua mãe: Você não acha que ele é bonitinho? A tia lhe havia dito. o que a criança tem a fa/. a jovem Anna através do espaço. Para o pequeno Hans.il o Schlosser que desaparafusa a banheira. um elemento desejado. que aquela. A queda do !• o c somente temida pelo pequeno Hans. quando iam para Gmunden em férias. da última vez. Com a primeira fantasia onde •py. de modo algum. se possível. bem como a da queda. de certo modo. ui criança real.1 cm detalhe. que recusa seu amor. ela pode também li M |. IN algo perfeitamente contido na experiência. A queda é. Há mais de um elemento da situação que o n nu l lans deseja ver cair. mas a todo o conjunto. que criança tem que descobrir aquilo que. . onde a alternância de seu comportamento acompanhada por uma contrapartida simbólica. O cavalo morde. Por um lado. a saber. Elas são seus elementos essenciais. Desde que introduzimos na observação i« i" 'i '•' do caído. ft deixado cair. é claro que. o que não quer dizer que não se produza. isto é. é amado |« esta.

que se vai desenvolver a evolução mítica em que o pequeno Hans se engaja. pela primeira vez. por que não? — mas. tanto mais que nós compreendemos melhor do que se trata.iia restituir. A fantasia da banheira desaparafusada é como que um primeiro passo na percepção do feno meno da fobia. Ioda a sua situação de infância. Vocês não vão me dizer qui l já há marcas instintuais na criança para nos explicar que seu traseiro tenha sido desaparafusado. e provoque (lonetivamente. É aqui que aparece. o personagem que entra em jogo com pinças e tenazes.ó | iode assumir sentido no contexto. a significação plural da pinça.1 ou tenazes.uiics da aparição. já deram ao pequeno Hans o material significante do que i:. de fronteira. não é mau — mas uma situação estruturada. que não basta ter na cabeça a listagem mais ou menos completa das situações clássicas na análise. e sobre quem a criança tinha a percepção de que nessas ocasiões. Estão vendo a prova do que lhes digo. ali onde é preciso. não digo uma situação normal — isso não seria r ivcl. principalmente na língua grega. desmontar todo o barraco.I. o pequeno Hans explique a seu |iii i . fora vivida por ele a partir iln 11 (oportunidade da insistência sexual do pai. de uma vez. . mil ângulos sob os quais (•oiicin intervir. ela vivia N situação como uma vítima. pois uiiii uiar-se em dizer isso não somente não tem interesse algum. que na língua alemã. ( ola.i descoberta. está cm questão na relação do pequeno Hans com seu pai. designa o aparelho de mordida do cavalo. muhdo humano do símbolo que compreende igualmente o utensílio r o instrumento. com efeito. e também algo que quer dizer pim. significa. a de compreendermos em que isso é verdade. sem dúvida alguma. na fantasia. Kepito a vocês: existem mil maneiras. Traittva se precisamente para ele de oferecer-se como vítima em seu lugar. a entrada em função deste pai • "In relação à mãe. isso já foi para ele uma experiência mais ou menos integral < em sua manipulação propriamente significante. a partir do momento em que o pai está desempenhando o c T. de estagnação. homem muito exubeimiic. até mesmo exigente em suas necessidades relativas a uma mãe i|iie as recusava com todas as forças. as fantasias de passividade ilo menino.1. na infância. Essa identificação estava integrada ao desenvolvimento da sintomatologia desse sujeito — sujeito neurótico. que existe um complexo de Édipo invertido. É isso mesmo i». naquele momento. o papai. e que numa percepção do coito dos pais uma criança pode se identificar com a parte feminina. e em muita* outras. com qualquer dos representantes e das < • idi. puramente significante. dizem. mas H. da última vez.370 A ESTRUTURA DOS MITOS AS CALÇAS DA MÃE E A CARÊNCIA DO PAI 371 A mudança. ainda que não possamos de modo algum nos deter na posição simplesmente feminilizada. do seguinte: a criança imaginando • u n i tilando que alguma coisa veio lhe fa/er um grande furo no ventre. isto é. que se apresenta inicialmente com um caráter opaco sinalizador de inibição. e introduz um elemento d< evolução. escutei. a si mesmo na posição materna. existe também o Bohrer. havia fantasiado. a saber. tanto como na língua francesa. M Iriiipo todo. além do qual não se pode passar. l i|ue desempenha com Hans. suas identificações com a mãe numa relação fantasística i oní o pai. isso é verdade.. Como sempre. apenai tnli uma condição. de limite. Já lhes expliquei. l >i)'. Temos. no decorrer de uma análise. em nenhum grau. um homem que não era mais homossexual do ijiie o pequeno Hans pois este na minha opinião jamais pôde se tornar. é somente no significante. Detenho-me por um instante no seguinte: não existem apenas n banheira e o desaparafusamento. isto é. e de maneira imperiosa. justificadamente ou não. n Ao l az muito tempo. ligada ao frescor il. na evolução significante do • i"< i .Enfie isso nela. cujos elementos podem ser combinados de outra maneira. iu.amos que. representada funcionalmente. juntamente com o transporte da banheira para Gr den. l o -. Aí também aparece uma certa flutuação no texto: esse pênis visa ao pequeno Hans ou visa à mãe? Esta ambiguidade é perfeitamente válida. NI l K ular em dado momento de sua análise que.1 cm questão. em dado momento . até mesmo homossexual. a noção dessa carência e do esforço feito pelo pequeno H MI |>. Ele já sabe que isso pode acon tecer. O fato de encontrarmos aí uma identificação do pequeno Hans com sua mãe. Aliás. Isso só pode ser mobilizado na própria fobia. o de suplicar-lhe que acredite lin 1110 que ele. ajudado pela colaboração obscura e tateauu que se estabelece entre ele e os dois personagens que se debruçaram sobre o seu caso para psicanalisá-lo. e não têm a menor dúvida quanto ao que seja esta furadeira: É o pênis paterno. l nessa situação estruturada existem fortes razões para que ao mesmo liMiipo o pequeno Hans aborde a desmontagem da mãe. seus dentes da frente. repito. a broca ou furadeira. as testemunhas que estão no período exploratório da análise têm uma percepção muito viva. Para não ir além de minha própria experiência analítica.

para que ele se tolere no munira l.i coisa. mas • iiiHÍm no mundo simbólico. | l' acesso a uma plena função paterna. é na medida em que seu próprio pênis é lll»ll lentaneamente aniquilado que a criança é prometida. isso quer dizer que o complexo de Édipo existe é que a escalada irai da potência sexual no menino não se dá por si só. nem em dois tempos. naquelas que permitem ao sujeito humano con• . que ns da criança. Dado que se trata de um esquema fundamental. Se o tomarmos num outro plano. já que é na experiência que se o descobriu. em dois tempos. Se não as repetirmos elas se perdem.u> significante do termo que permite avaliar o que está em questão. mas que sou forçado a utilizar para ir mais depressa. isto é.T. Num certo plano. quanto a si. não somente no mundo real. já que tampouco nela o pai intervém. em grau nenhum. com essa aceleração que carrega o sujeito e o porta. Todavia. Não é a mesin. porque vocfil podem acreditar que este para-si esteja dado na consciência do sujciio. ele deve. nem de uma necessidade interna. o pênis válido. Portanto. ele chega em quarto.. qualquer que sq. que o pai é aquele que possui a mãe. senão s iludo e desdenhado. é preciso introduzir-se nela um outro elemento. sua realidade. por definição ser explicado de mil maneiras diferentes. é presa do problema de um itimento ao mesmo tempo mal assimilado e insuficiente.i a forma como se apresenta o impasse da situação da criança com « mãe.372 A ESTRUTURA DOS Mrros AS CALÇAS DA MÃE E A CARÊNCIA DO PAI 373 da análise. jogando com o duplo sentido do verbo buis. Qual deve ser seu • |M'I? É claro que não vou lhes dar uma rearticulação do complexo de Édipo. devido ao falo inexistente. por outro lado. o pai existe.biológica. Também não gosto desta expressão. É preciso que o verdadeiro pênis. . é a conex. basta simplesmente que haja percepção do que chamei. isto é.ir uma presença suficiente. Quem dizer que considero por ora o pai na medida em que ele deve estar .u> menos quanto a sua disposição e a seu número. para que ele se tolere no i K Io real tal como este é organizado com sua trama de simbólico. É preciso repetir as coisas. o mesmo Beije-me em seu lugar. é preciso que haja passagem por essa anulação que se i ua o complexo de castração. o pênis real. quando ele está em sua maior parte no seu inconsciente. niisiderarmos pura e simplesmente o plano fisiológico. Logo. reúna-se a sua função. mas de uma necesi-i. o pai está ali. a ser alguém que se legitimamente de posse de sua virilidade. é preciso ainda que haja estagnação e fixação de dois • iis. de certo modo. que é um pênis suficiente. aparentemente. mais tarde. embora seja preciso aos dois servir-se do termo Beije-a. "beijar" e "copular". rearticular o complexo de Édipo • M que se trata de efeitos do complexo de Édipo. a situação assim criada é. Tal como a apresentei a vocês. com seu verdadeiro pênis. .. existem elemento* estruturais que são os mesmos e que podemos sempre reencontrar. mais uma vez.. E parece que este ^i l nuamente é essencial ao funcionamento feliz da função sexual no • IIP"' . necessário? Não falo de uma necessi•"li. é para marcar • 'li(crença que noto que o pai deve estar ali em si. efetivamente. mas apenas msideração dessa escalada natural não basta. Islo é um fato: para que a situação se desenvolva em condições unis. sua dignidade. porque já há três elementos. pela emergência dessa fantasia. da última de movimento. isto é. na medidit * No original: Baise-la. É preciso. E lazer isso. independentemente do que vai ocorrer com o para-si do sujeito. o pai chega em terceiro na situação entre • criança e a mãe. nem em um •|>o. lícrença da criança que. .) Nilo posso refazer nesta ocasião toda a teoria do complexo de • i|)o. tlar conta do que se passa. se me perdoarem essa expressão de que não goslo muito. (N. se for preciso. numa cichung. que a MIÍ como pai. e mesmo oposto ao que ocorre nu observação do pequeno Hans. () que nos ensina a teoria analítica sobre o complexo de Édipo? 1 ijiic o torna.ih na situação com os outros. Digamos. Hm outras palavras. Ela se faz. Vocês vão me dizer: — No entanto. seu contexto lhe dá aí um sentido inteiramente diferente. todavia. Eis o que é O em-si da situação. mas no mundo simbólico. É por isso que vamos. quero dizer. sem saída. O pequeno Hans diz a seu pai: Beije-a um pouco mais' enquanlo meu paciente lhe diz: — Beije-a um pouco menos. Qual é a funçflo do pai no complexo de Édipo? É bem evidente que. iis do pai funcione. por um lado. que se situa comparativamente ao primeiro.iiJc ao menos empírica.

>e de saber se o pai vai. INKO lhe é muito útil. O pai simbólico é o nome do pai.miental. sob sua forma mais ml. Natural iwnrt. confron(orno homem com sua temível mãe. a realização. Existe *m que sabe tudo. A experiência nos imli< . O esquema da situação que acabo de lhes dar previamente tampouco é previsível em si mesmo. Não temos todos tanta sorte 'Hl. nos permite levar mais longe as coisas M propósito do pai simbólico. Não basta que o pequeno Hans ilia dito o que disse no diálogo com seu pai. E no entanto o pequeno Hans é quem tem razão. o "Mie do deus ciumento — einfern é um termo empregado na Bíblia ii saber. a função de pai sob sua forma concreta. quando ele dirá ao pai: Seria preciso nv vi>cè chegasse ali nu. é algo a que o pequeno Hans aspira com i" <> seu ser.n imaginário. Contrariamente ao que diz Freud. mesmo fantasístico. cie tem o bom Deus aqui na terra. i Isso lhes mostra até que ponto este tema. e o pequeno Hans. Por que ele o diz em seu coração? Porque não pode dizê-lo tom sua boca. O caso do pequeno Hans ilustra isso maravilhosamente. O que há de intolerável em sua situação é < ••arência do lado do castrador. pela batida na • i ' . Existi um pai simbólico. É preciso que ele assuma sua função de pai castrador. infelizmente. justamente na medida em que este não é ameaçado. Há o pai simbólico. é o pai real cuja presença descm penha um papel essencial.. é insensato dizer cm seu coração que não há Deus. Para que o complexo de castração seja pi-In sujeito verdadeiramente vivido. não é nada disso. . através de toda a obser« «i.1 isso. Tudo o que dizemos sobre o determinismo das eju< culações precoces e os diversos distúrbios da função sexual não tem qualquer espécie de sentido. Há o pai real. diria quase degM nerada. o vivido. que descobriu o Édipo conm integração à função viril. ><ente a estruturação. n ou não pela iniciação essencial. convocado a conexão. Por outro lado. Dizem que a imica começa a falar biblicamente. e se ele próprio. -In tilgo que se chame uma castração. senão nesse registro. a carência '. Vocjl sabem muito bem que não é uma profissão de deísmo o que estou fazendo. O nome do pai é essencial a toda articulação de linguagem humana. é preciso que o pai real jogue irai mente o jogo. um pai que se zanga com ele e o castra. simplesmente porque é insensato di/. Todo o problema reside i 11 ala-se de que o pequeno Hans encontre uma suplência para este . A pró v n disso é que a experiência analítica. mas sem suprir. e é a razão pela qual o Eclesiastes diz: O insensato disse <-m seu coração: não existe Deus. crê m-Ir de. falando propriamente. não 1 rt nnda na experiência de Fritz machucando o pé numa pedra que Mini. que não é um insensato. e aliás isso não era previsível.374 A ESTRUTURA DOS MITOS AS CALÇAS DA MÃE E A CARÊNCIA DO PAI 375 sujeito humano. dar suas provas. Aí está iiiniliimento da angústia. abrem-se iifníeses para explicar que isso quer dizer que ele deveria vir des1 de pés nus.••" '|iie se obstina em não querer castrá-lo.i. ais Nackter. Todos ficam estupefatos quando pergunta o que esta criança poderia querer dizer. preenche sua função imaginária naquilo que esta tem de empiricamcnlp intolerável. O voto de que o pai sofra este iliiiento como uma circuncisão mítica vai aparecer em seguida no i iimlc diálogo de 21 de abril. | < ( 11 ala-se de saber como o pequeno Hans vai poder suportar seu i • • " . e unicamente sob este ângulo — que o complexo ilr castração é vivido.of j uma coisa contraditória à articulação mesma da linguagem. De fato. Que . A experiência nos ensina que na assunção da função sexual viril. Ele é necessário a este desmame. pelo ferimento. cm si. é o Professor Freud. Mas ele não o . Aí está o problema do Édipo resgatado. Esta é a chave da obser•'-. ele crê nisso como todos nós cremos no bom Deus: ele crê sem Crê porque a referência a um tipo de testemunha suprema é um «mto essencial de toda espécie de articulação da verdade. de modo algum. Ele apenas demonstrou. Ulilti lhe serve para este fim. o pai. empírica. Este é um dos elementos muit essenciais à instauração do equilíbrio para o pequeno Hans. que ardia num imperioso desejo de encontrar. pelo quul a criança sai de seu puro e simples acoplamento com a onipotêncid materna. Este é o elemento mediadoí essencial do mundo simbólico e de sua estruturação. a mais mítica. mais essencial que o desmame primitivo. e mesmo de revoltante quando ele faz sentir sua incidem in como castradora. Na própria observação. não se vê em parte alguma aparecer o que quer que seja que -• c*. Uma ferida é imperiosamente convocada pelo pequeno Hans. real. liiclc momento. com efeito. É na medida em que o pai. imediato: Freud é o bom Deus. ele descobriu isso. do pai realmente castrador. sonhando com o personagem do pai primordial e a forniu tirânica e mais ou menos horripilante sob a qual o mito freudiano l apresentou para nós. tal como existe.

Em terceiro lugar. retorno ao remetente. o pai fantasu e lhe diz: — É evidente que também te deram um outro pênis. é preciso mu<r alguma coisa no pequeno Hans. isso não foi adiante. portar. porque se fos| mais adiante. não há nada disso. a furadora. t ijiir é impossível emascular a mãe. nem da fobia. c uma anterioridade da castração materna. isso não basta. faz-se emergir o deus ex machina. até que ponto Freud mesmo se dei x. Como i»'i. i É preciso saber ler o texto. e fero. o instalador. é que seria preciso sondar a filologia. Como o deus não assegura muito bem todas as suas funções. e por um bom Hioiivo. talvez. Vemos já se esboçar o modo de suplência que permitirá superar 11 niliiação primitiva. deram-lhe um outro. e é o pai que é convocado a •fucmpenhar o papel de perfurador. não seja menos terrível. uma eviração do pai é •iliNNÍvcl. ele está ali em funções predeterminadas pela situaçl do conjunto. A mãe é demolida. não teria mais havido fobia. que vem encerrar d situação.1 as fantasias do pequeno Hans. o esquema de simbolização fundamental do complexo de castl cão. para chcf. "" lu)'. A • ii. o complexo de castração é fecundo no Édipo. Seu traseiro foi de parafusado. este é um começo de articulação . existe forare. na problemática puramente significante que ele propõe. e o nascido. na encruzilhada. e elas ficam perfeitamente distintas nas diferentes línguas. t mesmo tempo. golpear. por uma simples razão. dominada pela pura ameaça de devoração total IH l.sia.J sua base. implicado na função desejada do pai. Infelizmente. Ai f. a quem o pequeno Hans faz desempenhar uma parte das funções do castrador exigido l pelo complexo de castração. temos em compensação um certo número de personagens que vieram ao lugar do castrador: o Schlosser que começou a desaparafusar a banheira. o ponto típu < < Eis o que nos situa mais ou menos a função do pai. que ela tinha tanto relação com a mãe quanto com o pai. e depois a furar.. Desmontou-se todo o barraco. de vez que ela não tem nada que nn (uissa emascular. na própria observação. e lhe disseram: Vire-se do outro Ia i Isso pára aí. . nada mais faço senão tomar à letra o que Freud nos li n/ lilc fica tão fascinado pelo papel de perfurador que faz uma j ihxfi vação — sem resolver ele mesmo a questão. de uma substituição daquilo que ele tem na frente. Reencontramos aí. deve-se tomar o texto tal como é. E não haveria necessidade de toda essa com plicação. Do lado do pai. Não há relação entre as duas raízes. e também o que nos deve permi| compreender todo o conjunto. levar pelo esquema. aquele que o próprio pequeno Hans chama de o instalador. na ocasi. a etnografia. pois. que é evidentemente ilr.icão. que designa o portar funda- . l n* evocação de Prometeu que é um furador.m Ele está incontestavelmente ali. perfurar. Mas. de maneira h m-hrosa. e é de uma maneira inteiramente diversa que a situação se dá. porque é suscetível de desenvolvimentos. é na medida em que o complexo de Édipo é • n.ar em que não o é pelo lado da mãe. Existe. falando propriamente. e que são manifestamente incompatíveis com a f -—' eficaz de pai castrador. A í. Se. T. Mas a castração. também. Vê-se.Sc há castração. 1 1 iiuação. e a castração paterna i* i i i n seu substituto.icão materna — como vemos na descrição da situação primitiva •• Implica para a criança a possibilidade da devoração e da mordida. Vou lhes dizer daqui a pouco como podemos concebê-la.376 A ESTRUTURA DOS MITOS As CALÇAS DA MÃE E A CARÊNCIA DO PAI 377 tem. É nisso que residi especificidade da observação. e sim um complexo de Édip e de castração normal. que figura na fantasia de 2 de maio. E Frei "l vai atrás dele. gebohrt. sem dúvida alJ ma.hnto. E. Por este lado. nem da análise. Nada pode ser mais impressionante] que a última fantasia. com a diferença entre o |H<Ilurado. nascer.n a um ponto que não é forçosamente o ponto estipulado.sobre a relação que pode haver entre Bohrer. em latim. que não está. isto é. pelo lado do pai. O que o instalador vem trocar é o traseiro do pequeno Hans. geboren. entre ferio. os mitos •-ii . se podemos dizer. e um outro. Uma rivalidade com o pai i i possível.i mãe. atuante e útil na análise. Vamos retomar as coisas no ponto onde deixamos o pequeno Hans. à •lie. na fantasia do pequem> Hans. um assassinato do pai é possível. mu desenvolvimento dialético é possível. se depois de haver chegado tão perto. Enquanto não há vestígio. Não se trata iln mesma raiz. não é à toa que se percebeu. e miboren. Com efeito. Esta é toda a M' icnça. mas é certamente mais fa<•! que a outra. não há castrador. nem do sintoma.ni ele. da ameaça. Algo se esboça na fantasia da banheira e da furadeira. é porque isso não podia ir mais adiante. Mas o importante é que Freud aí se detém num encontro de pj|nificantes. o que n i" • D caso do engolimento e devoração pela mãe. que encerra literalmente o tratamento e a obsef^ vação.

^ mi como Platão devia realmente ter algo que explicasse nosso . quer se trate de Homero ou do pequeno Hans. quando na IJlMlidaile o autor. .orno oposto à função da repetição e do objeto reencontrado. | |ogo em seguida terá o cavalo chicoteado. ela estava então no ventre de sua mãe. Parênteses incidentes para suhli nhar o interesse que Freud tem pelo significante. A partir do momento em que Anna é uma Ideia fli> ' Hiido platónico do termo. Anna entra em jogo. essa n se torna seu eu superior. o desenvolvimento dialético da situação. além disso. brilhante. Hm suma. É precise crer que esta alteração já tenha em si mesma um certo grau de suh ciência. o que é preciso ||i.i". Leiam ou releiam a observação com esta chave. já que não incidindo sobre o pênis. o ato de dar à luz a criança. Reencontram-se aqui :|ti>i. Este é o outro termo inassimilável da situacSc Todo o processo de fantasias de Hans consiste em restituir esse ele mento intolerável do real ao registro imaginário no qual ele pode si reintegrado. numa alteração. incidem sobre o pequeno outro diante dele. já que há um desenvolvimento. Veremos. assim o pequeno Hans reduz Anna a algo de í (|i< lembra desde sempre. mas sobre outra coisa que resulta. Isso é o que foi obtido. Segundo que linhas vai se desenvolver na continuação a soluçilo. Ou então. a suplência.378 A ESTRUTURA DOS Mrros As CALÇAS DA MÃE E A CARÊNCIA DO PAI 379 mental. e ele compensa o fato por uma reminiscência. l mprego. por exemplo: Há dois anos. da próxima vi-/ todas as consequências disso. Por que viés passa todo o desenvolvimento. muito precisamente. por um tempo suficientemente longo. tanto na epopeia como no mito. no entanto. deM"'< do seguinte: de que se trata de explicar ao mesmo tempo o que ||p p. .r. pois a pequena Anna estava lá desde sempre.de contradição interna que nos faz supor com frequência. \i|ui. Hans está mudado. Quando a pequena Anna tiver gado. Isso é ao mesmo . é MH de uma contradição que é simplesmente aquela de dois registros ((inicialmente diferentes. Devemos realmente acreditar que ele chegue a algo. e que ela ali levava uma vida bcr divertida. é porque ele é. trazida pelo pequeno Hans? Se a solução é apenuN suplência. Vocês têm aí em estado vivo essa i«|n. K. e isso tem outro sentido além das histórias ||li " f rcssão instintual. o pequeno Hans não pode eliminar o cocheiro. que é tomada como elemento instrumental. inclusive as apreciações admirativas. e Io essenciais à sua posição. que há incoerência. já que nele poderíamos entrar ainda que i/. numa direção que não seja a do impasse.|i ' ao mundo superior.endo parte dele. O mesmo se dá com a mordida materna.r^unda etapa. na última fantasia. e deriva da quanto à sua direção. são fascinantes. |(|ii. de comentadores. duas etapas da epopeia. nos s. a partir de meados cio abril? Anna é introduzida como um elemento cuja queda é possível o desejada. substituto da intervenção castradora. Anna já tinha ido conoxt < a Gmunden. Ele a faz fazer aquilo através do que «lerá começar a dominar a situação.sa no mundo imaginário e o que se passa no mundo real. Essa reminiscência é a primeira etapa da l jlii . o que ele não pode encarar é que tenha havi«' uma Anna diferente daquela que ele conhece durante as férias Gmunden. i i ver dois estados da condensação. que a haviam levado num queno cofre na traseira do carro. ou antes. Tr§* ta-se de compreendê-lo. Elas não são |ifliplesmente irónicas. mas por fliii» lado. na mesma frase.-marização desse real. Hlflo o pequeno Hans poderá fantasiar que ele também doma o cavalo.. impotente para fazer ama* durecer — permitam-me essa expressão. O que intolerável para Hans. pelo menos de suficiência para a redução da fobia.is características desses textos épicos onde nos extenuamos em |f .|fiii|. Esta chave lhes dá a significação de tltis as apreciações emitidas a partir de um certo momento a propósito pequena Anna. de mistificapara explicar aquilo que. O pequeno Hans começa . é preciso também que a pequena Anna segure as rédeas. O pequem Hans nos diz. Io faça? Ele a faz montar no cavalo da angústia. Vejam como Anru é reintroduzida sob uma forma completamente fantasística. e compreendê-lo em seu conjunto. confusão entre duas histórias. ele diz que as rédeas estavam nas mãos de «yin mas também nas mãos de outro. Este processo é escandido por etapas que nos esforçai c mós por descrever uma a uma. o cavalo temido. mas pequeno Hans nos conta.i .ii humorístico. No fim. de certa forma. Por hoje só posso indicá-lo a vocês. a partir do momento em que ela é uma imagem. que são capitais para o desenvolvimcnii de Hans e que. este termo com seu acento platôfd' . e em |iil"" iodos os tipos de interpolação. não se trata aí de maturaçW instintual — ou para empurrar. que em todos os anos precedentes tinham-n levado assim. até mesmo um ideal. mítico e épico. O |n no Hans faz de Anna um objeto cuja Ideia está ali desde sempre. De fato.

P. e não relações com um 381 . i fórmula tão simples. no que vocês sabem que [|ll insisto muito em matéria de análise.SV for ver mulheres. Mas o que nos foi trazido pela análise nos i" i n i i i e . prever que as coisas não possam se resumir a I M M . Esta escansão.i o instinto de morte. por um instante. relações de pessoa a pessoa. 5 DE JUNHO DE 1957 XXII KNSAIO DE UMA LÓGICA DE BORRACHA O pai na geladeira. no início desta lição. É apenas um corte necessário devido à hora avançada u que este discurso nos conduziu. [llir é perceber o seguinte. em suma. o homem lida com seus ins[lllllos — instintos nos quais acredito. Não me r inútil tomar. não o caminho percorrido — sempre se percorre um i n. se diz. f t «no avança e o pequeno Hans. que se nu lu.irece-me que há um mínimo exigível na formulação analítica. tão simplória quanto aquela que no entanto fv»iin>s tão comumente os analistas adotarem. A mãe desdobrada. que nos demos |klr ano por objetivo rever a noção de relação de objeto. mesmo assim. -. A metáfora paterna.380 A ESTRUTURA DOS MITOS assim a experimentar a verdade da advertência feita por Nietzsche: .is um certo efeito de desmistificação. O feixe e a foice. digam o que disserem. não vejam nela o essencial da lição que lhes qiu-m trazer hoje. chega ao seu fim. Certamente. Convém que eu lhes recorde. a saber que. a fim ili Ilu-s mostrar. esperamos. Uma paternidade imaginária. um certo distanciamento. não esqueça o chicote. •do se resolve quando as relações do sujeito com seu semelhante são.

como a nós mesmos. impropriamente. diria eu. e que se acrescenta como terceiro princípio à forma. Mas este é. se é que a neurose. como lhes sublinhei no ano passado. que é a única a tentar estabelecer o acordo entre os sexos tliliir o princípio de uma oposição entre a potência e o ato. até induzi-lo em nossas próprias miragens. A inici rogação — o que é o pai? — está formulada no centro da PX|irriência analítica como eternamente não resolvida. ele é. vXr\. Um objeto é sempre inn. toda f||«Vi>o com o objeto implica uma terceira dimensão. mais comumente.. formar-se a tradição judaifii i nstã. o direito de dizer eu. Esta noção é central para compreender que todo o Ifnuirsso da integração do homem. uma questão. Se o complexo de Édipo tem um «i iii K Io.. Afinal tlr contas. bem como da mulher. não é o problema do eu.. analistas. seu sentido Ano. Sc o pai deve encontrar em alguma parte a sua síntese. realmente.ir. ou que não me seguirá. deslizamos. Não é por Mtlu que vemos. o terreno no qual é mais d í l u il avançar. nós nos detemos a meio caminho Todavia. Privação a ser assumida •MI . se conquista sem ser inicialmente perdido. imagina-se comumente. não o atingimos jamais. Fora dela. que jam. l neste ponto que quero.i reconquista. hoje. Esta não é a sala ao In. ele o concretiza numa função que é em si mesma problemática. isto é. Na verdade. Ele aquilo que vem preencher seu lugar de significante no interior de noss interrogação. <>» que não o fará. é precisamente porque ele dá como fundamento de nossa IllNhilacão entre o real e o simbólico e de nosso progresso a existência llmpidc que tem a palavra.derrapagens e todas as confusõeij Uma pessoa. O termo aristotélico essencial a propósito de toda a constipçSo do objeto. Mas é demasiado evidenlfl que ficamos embaraçadíssimos cada vez que se trata de dizer eu no sentido pleno. retomar o problema do pequeno S. 1 1 omeçar chamando a atenção de vocês para o fato de que o único II de onde pode ser respondida. é sempre dele que recebemos todas as investiduras. A relação de objeto tal como está estabelecida na literatura analíWH r na doutrina freudiana gira em torno dessa noção da privação de •l parti este ano.. como nos lembra Freud. e sim o do m que é o mais difícil de realizar quando se trata de encontrar a pessmi Este tu. MI. de sorte que cada vez que se trata de pensar no outro como em algucm que diz eu. a análise nos mostra que comumente. Em suma. e mostrar a vocês onde este se situa com relação àquilo que o • • não é. do Outro. que fará isso. •fio Aristóteles apócrifo.. Um objeto é algo que certamente se conquista e mesmo. como a experiência analítica destaca poderosamente.mii bem mais tarde. mas ela foi em seguida eliminada. ao fim de meu seminário sobre as psicoses. Decerto é desejável que se estabeleça uma relação entre nós o alguns sujeitos primordiais que representam. a seu próprio |f lo exige o reconhecimento de uma privação. Vamos vê-la ||l!i ulada em Aristóteles. e nlQ é à toa que ao fim de meu seminário do ano passado parei em: In és aquele que me seguirá. Um objeto não é algo assim tão simples. com efeito.382 A ESTRUTURA DOS Mrros ENSAIO DE UMA LÓGICA DE BORRACHA 383 Não é porque tentei aqui lhes mostrar a relação de objeto em si complexidade real que me repugna a expressão relação de objeto. o Aristóteles de uma teologia que se lhe -imi. que Pnronlra sua mediação num amor. até fazê-lo dizer nov. ainda bem menos que um objeto. Para dizer Ilido. l'<i que nosso semelhante não seria validamente um objeto? Diria mês n n mais: antes fosse um objeto. privação a ser assumida igualmente . é este ser a quem reconhecemos. como lhes disse e tornei a dizer. mas nada em nosso próprio desenvolvimento podi se realizar senão através de uma constelação que implica o Ouim •luto como sede da palavra. do pai. É unicamente retomando um lugar que em primeiro lugif desabitou que o homem pode chegar ao que se chama. no decorrer da história. de sua própria totalidade. é atspriaiç. Se a experiência analítica nos mostrou alguma coisa foi mcsinn que toda relação inter-humana está fundada numa investidura que vem com efeito. daquele que pode falar. pelo menos i nós.u próprio eu.111 m dos sexos —para o outro. de saída. a • notação sobre o pai é numa certa tradição. tudo indica que ele seja o significante-limite. vamos dizê-lo. a plenitudo da pessoa. como digo com frequência a propósito das fenomenologias. Mas é preciso retomar a questão um pouco antes. a privação. Este Outro está doravante em nós sob a form( do inconsciente. pois ele favorece todas as . mas lioi (a ao lado. c à matéria. Todos sabem que ela existe e que ela é ||MVnra. é uma tradição que se chama a tradição religiosa. de maneira plena e válida.

de um falso pudor para reconhecer que se deveiuo» à análise algum progresso é muito precisamente no plano daquilo <|m> devemos. à vontade. a saber. e basta tirar o véu <l* um pudor indigno. tem essencialmente para ele a função que tinha para '•«•• utes. I a própria cara? — senão o seguinte.libação. em f. a hf.n da. de acordo com toda uma tradição medieval e escolástica — vão dizer à esposit de hoje que ela é a potência e que vocês.ada por um pacto de amor eterno. na medida em que se encontram a caminho de uma resposta . neste caso. exi<i pensando que sou boba? E certamente. no terreno da nossa experiência] Se esta permite algum progresso no problema sexual. Penis-neii de um lado. Vão vocês dizer à esposa de hoje que ela é — como se expressa o teólogo que se inscreve sob a denominação de Aristóteles. ao contrário. e que é bem feito para pôr em •vo a importância dessa observação. basta citar a bonitn quadra onde Apollinaire colocava a profissão de fé na boca de Ter*J sa-Tirésias. complexo de castração do outro.384 A ESTRUTURA DOS Mrros ENSAIO DE UMA LÓGICA DE BORRACHA 385 para poder assumir plenamente seu próprio sexo.jamais é satisfeito. Trata-se. que seja receptível aos olhos do filósofo. que afinal. preestabelecida entre o homem e a mulher. de seu marido. até mesmo da neurose. vocês vêem nisso sua ilustraI Mas o que isso introduz de novo. Desde a morte de seu marido. . permanece -ii mpre aberta uma hiância. Jamais nu -nutramos essa harmonia senão num horizonte-limite. Temo uma resposta pronta: Isso é pouco para mim. É a ilustração mais fascinante que M Irmos dar daquilo a que se chama o x da paternidade. é preciso perceber que na relação entre o homem e a mulher.|«-i-ial a esposa. a mulher. l islã novidadezinha que não parece nada. na nn-diila em que ele é ao mesmo tempo algo que entrou no mundo e > i n > . mas até certo ponto desonesta. Quando lhes D (|iie o pai simbólico é o pai morto. (N. É bastante singular ver retomar sob uma forma mais ou menos camuflada. Tara ter uma perspectiva salubre sobre o progresso de nossa in« . vou relatar . o homem. O que isso quer dizer. idadas. vão lhes dizer. de inseminação ihcial. tem a cada dez meses um 'lio dele. que. fugindo do gu. isto é. esta mulher. Sem que haja necessidade dr abordar a face feminista ou social da questão. chamar pelo seu nome: o erotismo. nos prazos mais curtos e a intervalos iclidos. Essa novidadezinha vem limdo da América.i informação que um de meus excelentes amigos extraiu do jornal informação por excelência e me trouxe. é na medida em que soube situar nu relações entre os sexos em diferentes escalões da relação de objrln. a partir do momento em que ela é consagrada. perceberam muito bem. a raça do defunto. Este é o plano onde as relações entre os sexos são efetivamente i In. fez estocar uma liinlidade suficiente do líquido que lhe deveria permitir perpetuar. e que nos vai remeter ao pequeno Hans.T. cada vez mal» pré sentifiçado por toda a nossa experiência do desenvolvimento <l. são o ato.|iu-stão formulada a propósito de seu próprio sexo pelo sujeito.) . votada à fidelidade eterna. * No original: Je suis une honnête femme — monsieur / Ma femme un homme — madame / Elle a emporté lê piano lê violon l'assiettt beurre / Elle est soldat ministre merdecin. da qual vemos no entanto que a experiência de todos os dias não passa de perpétuo fracasso. No momento da última doença que levou ao falecimento de ii marido. que sequer u * . Tudo isso é alcançado pela experiência mais imediata. foi preciso esperá-la. mediante o que se deveria estabelecer a harmonia suposta. lhe diz: Sou uma honesta mulher — senhor Minha mulher é um homem — senhora Ela levou o piano o violino a melhor Ela é soldado ministro mérdico' Vamos ficar com os pés no chão. de ser a provação da sua paciência: de sua paciência mu o real. isso é claro. Isso pode lhes parecer surpreendente.1 . a saber. O que pode restar disso. permite designá-la como o objetivo a se realizar pela análise. em última insliiiu ia. a mulher caiu cm meio aos mesmos problemas que nós. a ideia de que a maturação da genitalidadc comporta oblatividade e reconhecimento pleno do outro. Em suma. a famosa oblatividade perfeita onde IP encontraria a harmonia ideal entre o homem e a mulher. Para entrar mais vivamente naquilo que vai hoje pontuar o que u afirmando. INiulo teríamos podido imaginá-la. ou mais exatamente.i vida. realmente. o pai real iliciu é o pai morto. uma mulher. é que. Não creiam que se trate de Icuômeno partenogenético. daquele que I I M .

se podemos dizer. e que terflO j sido. não menos que o feixe. estando esta negação. poderem*»* lhe observar que. A metáfora é essa função que procede usando da cadeia signifiKKIIIC. nu . nossa boa amiga Françoise Dolto. como disseram os surrealistas. se tal prática é possível. E já que eu os dinj-. Senti-me obrigado. é justamente na medida em que chegamos a isolar. . como um anel para o dedo. Em suma.' <nário. já que ela me vem hoje. e chegareiwn a enfatizar o caráter profundamente artificioso do que foi até aqui chamado de natureza.(ue este pobre feixe seja avaro nem odioso. da ordem de uma experiência llieiiilónca. a partir do linimento em que pode ser engajado na realidade. o simbólico e o real talvez não Nr|n bastante para expor os termos deste problema que. o uso que convém. mas na sua dimensão de substituição. Vou lhes ilustrar isso lembrando sob que rubrica eu havia. como desejo fazer hoje. para a solução ideal do problema <lo casamento. daqui para lá. e da maneira mais radical. Ao mesmo tem l H I . A avareza e o ódio são atributos que são propriedade >li liooz. alguma coisa ao pai. Corta ram. é claro. será interessante ver como a Igreja vai encontrar meios d| tomar posição diante do problema da inseminação póstuma pelo ei« poso consagrado. mas p H i o sujeito. fazendo Booz das suas propriedades. Se temos algumas dificuldades para conceber o efeito deste slogan. completamente inúteis como termo de referência.ío é. É bem este o caso. Se ela se referir ao que formula em semelhante* casos. essa história ilustra magnificamente que a noção real do pai não se confunde em caso algum com a da sua fecundidade. numa centena de anos. a saber. seria fácil fazer alguns chistes sobre o que pode querer dizer. \ i i n o de ser resolvido. e abaixo. UM . a saber. i l i era dado. tem a vantagem de desnudar uma das dimensões do problema. nessas condições. os seguintes dizeres: She didn't care herfri^iil air until herfriend received a Frigidaire. na minha demonstração. A questão é então saber como. não em sua dimensão conectiva. para o sujeito. que não é absolutamente ficção científica. nessa ocasião. pois é claro que não se trata . j faremos às mulheres. filhos diretos dos homens de génio que vivem atualmente. onde tomei o primeiro exemplo qiir . Deixo-lhes o cuidado de extrapolar: a partir do momento em que nos engajamos nesta viu. Não é possível que o feixe seja nem IVHIO nem odioso. seria mesmo para as almas anglo-saxônicas que ele teria seu valor. por que via. Como é que ela vai fazer falar o ancestral enlatado? Isso. ao caráter fundamental das práticas naturais. talvez convenha precisar o termo "natural".il(|uer metáfora poderia servir para uma demonstração análoga. pode se inscrever a sanção da função do pai. . à função (interna nos parece ser. Para uma mulher frígida. O que se torna. diria o novo provérbio. naquele momrn to.mo passado. preciosamente conservados em vidrinhos. o dicionário Quillet. até mesmo um de seus discípu!H'I. introduzido a metáfora. na ocasião Na verdade. se inscreverá no psiquismo da criança a palavra do ancesiul da qual a mãe será o único representante e o único veículo. o verso de Hugo: Seu feixe não era avaro Hfin odioso. í (linii vez que fizemos passar essa corrente de ar que desnuda as colunas l. l )irão que a sorte me favoreceu. a natureza daquilo que não o 4i A partir daí. Imaginem um belo cartaz onde se vissem senhoras com um ar descontente. sem pedir opinião HI IN prestar contas de seus sentimentos a uns ou a outros. marido congelado. sob que modo. o complexo de Édipo? No plano mais próximo da nossa experiência. que queria fazer dele o anúncio de uma marca de geladeiras. o termo no qual. A distinção entre o imaginário. Posso mencionar igualmente o slogan inaugurado por um de meus amigos. e é mesmo uma puliniiheza muito humana pôr em relação o sujeito e o atributo por plennédio de uma negação. não em si. a passagem da chama poéBtt entre dois termos que imaginariamente são tão díspares quanto (MiiM vel. plllo quanto de seus méritos.d . numa obra que está realmente ao Nlciiiicc de todos. toda espécie de introdução. a ir procurar uma. Mas essa história nos tornará mais fácil ini iimlar. crianças que serão <>•. talvez não sejamos. líilvez se torne um Padre da Igreja. Vou lhes responder que i|M. o termo mulher frígida. Esta definição parece colar aqui. < ) que é uma metáfora? N. • também a palavra. sobre o flimlo de uma afirmação possível. na qual se instala todo uso iiieionímico.m há pouco para a porta ao lado. como se vê quando nos perguntamos o que só torna então a noção do complexo de Édipo. perfeitamente. O problema está alhures. no limite.mo passado.386 A ESTRUTURA DOS Mrros ENSAIO DE UMA LÓGICA DE BORRACHA 387 Vocês não deixam de captar os problemas introduzidos por semelhante possibilidade. não me parece i M .

< Quando viesse da aurora a súbita luz' O estilo deste trecho se situa numa zona ambígua. o velho Hugo está longe de segun sempre uma via rigorosa. manifestamos te encarnada pelo mito de Booz. (N. Na tensão entre o que é abolido. e aquele que seu feixe substituiu. É aí que o feixe vem tomar seu lugar. IH|iicl<i que já desempenhou seu pequeno papel entre Cronos e Uranos. trata-se ainda da mesma coisa: Imóvel.) inconnu.mistura a uma certa luminosidade um tanto crua demais. entreabrindo o olho sob seus véus. oitenta anos de idade. à direita e à esquerda. pode substituir Booz. anunciar. r MI emente sobre este feixe do poema de Booz e de Ruth. Reencontramos o esquema do símbolo na medida em que este é a morte da coisa. imos que acabamos de isolar. isto é. é muito precisamente porque seu feixe. É na medida No original: Immobile. Nosso pequeno Hans. Aí é ainda bem melhor: O l nome do personagem é abolido. Havia. en s 'en allant. do fino e claro crescente da lua. uma moabita. que ceifador do eterno verão. tendo se desfeito de um certo número de virtudes negativas. i um iodos os seus problemas com referência à mãe. representada na espera mística da'mulher. / S'ftai\ aux pieds de Booz. é na medida em que a foice no céu é a eterna foice da maternidade.388 A ESTRUTURA DOS Mrros ENSAIO DE UMA LÓGICA DE BORRACHA 389 Entre quê e quê se produz a criação metafórica? Entre o que Mexpressa no termo seu feixe. que nos evoca o claro-escuro dos quadros de Caravaggio. do mesmo modo. / Quand viendrait du réveil Ia lumière subite. no sonho seguinte. nem naquilo que escrevi M . Mas não jHidr escapar a vocês o fato de que. já está provido de suas qualidades de não ser avaro nem odioso. aquele onde está a criança. Com essa foice ali ao alcance da mão. este lugar um pouquinho acumulado onde Booz. (/uel moissonneur de l 'éternel été. ele titubeia um pouco. e é seu feixe que vem substituí-lo. com efeito. prossegui ii investigação até o ponto último onde o poeta desenvolve a metáfora. O qv está em jogo no poema é. e por um instante. Se existe metáfora. diz o texto. o seio nu. négligemment \t / Cette faucille d'or dans lê champ dês étoiles. alj-. com efeito. se ela tem um sentido. onde o realismo K. e que se chama Booz. na criação. e o que o substitui. passa essa dimensão nova introduzida tão visível mente pela improvisação poética. de modo mais elevado. que sai dele e de seu ventre essa grande árvore sob a qual cantar um rei. porque. Certamente. f frl i vãmente.) .T. Esperando não se sabe que clarão desconhecido. Um pouco mais adiante. seu sentido no trecho que se segue.1 dos.ij. Kiilielanto.T. fora do contexto do ipir laxemos aqui. aquele do qual tornará a brotar a linli. talvez seja isso o que. isto é. O feixe ocupou seu lugar. a respingadora vai cortar. se ela é n l K o mais que um belo traço de pintura.em do Messias. i pode dar. precisamente. em nossos dias. oculto. e no alto da qual morria um Deus. Deitara-se aos pés de Booz.o de essencialmente natural. e que está «li. M. ela poderia parecer aos leitores um pouco forçada. É a potência de que falei há pouco. o feixe em causa. Trata-se. Isso tem. desenvolvimento e resolução de mm fobia. nem avareza nem ódio. ele 4 pura e simplesmente fecundidade natural. Que Deus. é a função da paternidade. l » r i \ e i de lado a foice. ou fazer anunciar Booz. o cavalheiro de que nos falaram há um instante em termos equilihi . IMlrc Zeus e Cronos. até mesmo c i|invoca. lançado com desleixo.i do feixe. reaparece na fulguração fecund. 'lemos no complexo de Édipo o lugar x. Ele não conhece. realmente. o anula. abolido. em breve vai ser pai. / Quel * No original: Pendant qu'il sommeillait. Ruth. ao partir. / Esperam ne sait quel ruv<>n ai. se ela é um tempo dtt poesia bucólica. todo o poema aponta para uma imagem cujo caráter intuií||vo e comparativo nos maravilha há um século. só pode se inscrever corretamente em equação a partir dos i. mas o que fica absolutamente claro é que: Enquanto dormitava. ( i H 11 ioda a sua rudeza popular. se a coisa se sustenta. depois de ter sido eclipsado. literalmente. com efeito. Trata-se de uma substituição que mantém ao mesmo tempo aquilo que substitui. o sentido da dimensão sagrada. suprimido. um toque de amarelo no céu «i nl. une moabite. como de costume. E Booz. /Avait. ist é. Essa foice de ouro no campo dos céus* Nem no meu ensino do ano passado. que embora ele tenha uma idade avançadn como ele mesmo diz. ouvranton 1'oeil à moitié sous sés voiles. Essa dimensão nova. pois. lê sein nu. Toda criação de um novo sentido na cultura humana é essencialmente metafórica. Ruth. i i n i i l . (N.

essencial em todo deson volvimento individual.m+ n l islã fórmula. Foi aí. é o problema insolúvel constituído par» ele. ou afirmação definidora: A partir agora. i|iir não está mais em jogo. o problema da mordida. e os problemas a que o período pré-edipiano conduziu a criança com relação à mãe.1 metáfora edipiana e a fase essencial a todo conceito de objeto. M. de perder. • iilanto. n. Isso é o < | i l )ora vante é assim que o problema se apresenta para ele. e é por isso. a que se acrescenta tudo o que é real para ele. notado 'I. no grau de desenvolvimento a que chegou. na medida em que esta é para ele irrigo maior de toda a sua realidade. É isso que resume a fórmula •inte: P é a metáfora paterna. atrelado ao furgão que deve carregar bagagens da pequena Lizzi. que formular a seguinte equação: P x M~ » por m. e que. de acordo com o momento do desenvolvimento. isto é. este elemento de mediação iiorica que é o cavalo. Ora. portanto. que ele foi posto em jogo. a saber. de acordo com o que nos diz próprio pequeno Hans. ele só encontra a mordida possível < mãe. listas fórmulas podem lhes parecer artificiais. como já lhes expliquei. certa ou erradamente.390 A ESTRUTURA DOS MITOS ENSAIO DE UMA LÓGICA DE BORRACHA 391 em que algo se terá produzido e constituído a metáfora paterna que se poderá situar este elemento significante. e onde o x encontra sua solução. não há nada aí para metaforizar suas relações com si mãe. seu próprio pênis.1 1 1 1 1 1 1 ii r este real que acaba de ser revelado e não deixa de complicar iiiu. isto é. Em suma. porqn não há pai aí. viu cair o cavalo de um ílbus. Ele não pode sair dele. exposto para Amu designa o impasse a que Hans chegou. especialmente daquela que 'iihii de ser revelada. com o espírito rude. O x é mais ou menos elidido conforme o caso. que ele ficou com a bobagem. que ameaça pf nis. nos diz Hans. s.icão. que se chama o complexo de castração. portanto. (p: o falo da mãe que é aquilo que não mais se sustenta. na medida em que ela lhe falta. sempre. que é o equivalente da metáfora paterna. mais a significação. em 5 de abril. É na medida em que chegou a ei impasse que ele desconhece outra relação com o real além daque | que se chama. e verão depois se isso lhes pode II' mil. a relação de devoração. aquilo em que o ser se recn« contra. a l 2 de (BK. o 'I M + (p + a M . Esta fórmula situa o momento essencial da transposição do Édipo. Do outro lado da equação. sua.m'. Posso mostrar a vocês mil aspectos em que elas são imediaIIHriHc aplicáveis. pelo fato de que a ml seja algo tão complexo quanto esta fórmula. já que não há outro.realidade genital. que é a mesma mordida com a qual ele se precipita avidanu-n para esta. Temos. e também que cai. Não creiam nisso. Inicialmente ele '! (calado na medida em que. em .. A instauração lol»ia se inscreve. M: sublinhamos o elemento |pilíi-da-mãe. isto é. todos os cavalos vão cair. que se dever ler Mãe mais Falo mais A. Mais exatamente. não resolve. um elemento já atrelado a uma significa|d Io i retido por ele como algo que ia muito além de toda significação.1!). a saber. c tituída por este C invertido que representa a foice do complexo de castração. com a mesma fórmula que lhes dei há U. Num outro '"••Tiito. de sádico-oral. e no entanto Hans faz de tudo para . a função da queda é precisamente o termo comum a tudo o IC ligura na parte inferior da equação. Ela dá seu lugar àquilo com que lidamos no caso do pequeno H. não existe saída pelo lado da foice. do grande C complexo de castração. e depois reencontrar seu pênis. icccm primeiro a se servir delas. i\\\c ele sanciona por este aforismo. Inscrevemos com essa espécie de S deitado a ligação entn . estando com sua mãe. e ÍSM> tanto para o homem como para a mulher. é necesn (|iic se introduza. Não há outra relação ré com a mãe senão aquela destacada por toda a teoria atual da anal i s a saber. Hans nos diz igualmente que ficou com a nem quando. Aqui está um: ( ) cavalo é este elemento do qual se diz que morde. pode se voltar e morder. com todas as complica coes que acarreta: (M + cp + A) Isso. não existe mais a possibilidade de uma u n diação.

que essa fórmula nos l» i i i u i c realmente saber por que certas intervenções do pai são infeHliiulas. e é por is-. n seguir. onde vemos a f irmar-se o que são. vamos dizê-lo. eu sou o papai. com um pai que (Imante toda a observação ele se esforçou por estimular. tendi sido conduzido pelo próprio pai da criança. a partir do momento em que nos ocupamos do objcio da fobia ou do fetiche. mítica.m nem que se tenha que a empurrar um pouquinho. nesse campo de confusões vão se definir limites que. e belíssima.d Freud. fantasia 1 "In o pai mostra este último alcançando-o na plataforma do trem. suplicando|hr: Vamos. em particular n pequena Anna que é aquilo que.. imajada e ativa. vamos ver desde 1 1 ' MI que medida é um sucesso e em que medida não o é. de modo . de fato. Trata-se aqui MUNI) coisa um pouco particular. a: as crianças. Os psicanalistas ainda nl| parecem ter compreendido. Será isso um fiuresso absoluto. tornando possível a instau ração de uma ordem. graças a que. essa fórmula permite escandir da maneira mais lljsoiosa todo o progresso da intervenção do pai. certamente. [() raso do pequeno Hans nos mostra em seu desenvolvimento as (l «i i s formações dessa equação da qual se manifestaram. Vou me contentar por hoje em lhes indicar o seu 1 (puno último e extremo.K. simplesmente como Mime no adulto. primeiro cristal de uma cristalização organi/a<l. Os analistas parecem se espantar com essa timidez . ( ) que vemos ao final é. Até agora. Cor pfpilo. o cavalo cumpre. mais se deseja ver i. Fariam melhor se examinassem as coisas mais de perto. A última. sem dúvida sob a sn orientação. todim as funções da queda reunidas. Não precisamos nos jHTf. É isso mesmo que se produz durante o progresso da análise Hans. realmente. não autoriza muito a possível extensl deste método. a dimensão propriamente transfefplinul? Em outras palavras.untar como é que ele pode ter tido esta ideia. faça o seu papel de pai. do ponto de vista da integração edipiana? Antes de Voltar a este ponto com mais detalhes da próxima vez.si. as possibilidades de progresso e a riqueza meIwlóiiea implícita. transferência. É sob este título que começa a M I introduzido como um termo essencial a esta fobia. não é aplicável justamente a este caso. que Fiem fez algumas reservas ao caso. uma solução que instaura o l" i|iicno Hans num registro vivível de relações objetais. Já lhes falei 0 bastante sobre isso para que possam conceber sua importância. Assim. pelo menos à leitura do sr. e cujas consequências seremos levalliiN. rir nos diz: — Agora. chamar o qm acontece nessa observação de uma análise. . der Vatti. Se lermos o texto onde o pequeno Hans formula sua posição final. ao mesmo tempo ali no real e manifestamente distinto deste Por outro lado. não apresenta ela traços específicos que |»t liiein.< que ele o chama de um sinal. sem ecos. Jones. l'retendo fazê-los ver. ficações confusas em torno das quais a angústia do sujeito não con segue se decantar. afetam a transforni. de maneira eficaz. o bordão proferido habitualmente pela Kl l n Anna Freud. no caso <lu fetiche — de seus deslocamentos. Seja como for. realmente. Certamente. dizendo que ele era excepcional. Enfim. e por que outras. O objeto c. Por conseguinte.i. entre o simbólico e o real. no caso da fobia. no sentido pleno do termo. da próxima vez. nem por isso deixaii de introduzir o elemento de delimitação. escrito na mesma formalização. a demonstrar. os objetos para o psiquismo humano Talvez se trate de algo que mereça esse nome.. não podemos nos perguntar se.392 A ESTRUTURA DOS MITOS ENSAIO DE UMA LÓGICA DE BORRACHA 393 manter a existência desse jogo. por se llMim do pai? li demasiado evidente que em toda análise de criança praticada l nu analista existe. mas nunca é demai* insistir no capítulo especial da qualificação de objeto que é necessário introduzir então. uma vez que chegam a constituir no psiquismo <ln sujeito verdadeiros marcos de referência — do desejo. e melhor que em qualquer outra parte. se é que podemos. sabemos o quanto eles existem como objetos. ao fim de sua obra. ao contrário. peço que observem que não é de outra maneira que Fremi acaba falando disso. devido ao fato de ter sido essa RH di ( onduzida pelo pai. segundo a qual não há transferência possível nas IMirtlises de crianças. por serem arbitrários.i. ao menos parcialmente. não nos deram outro mais satisfatório Se dou a impressão de lhes apresentar a fórmula do objeto sob uniu forma um pouco mais complicada do que aquilo que se fez até o momento. não é de modo algum acessível à conceitualizaçãoj senão por intermédio dessa formalização significante. Faz dele um objeto quase arbitrário. f nlicmamente rápido. no mundo. Ele articula plenamente que o cavalo é um objeto que substitui todas as imagens e todas as sigin.

que SP i • n. lhe pergunta: E com a mamãe que você vai ter filhos? — realização absolutamente típica do complexo de Édipo. A função paterna assumida pela criança é imaginária. mantém uma certa continuidade na ordem das linhagens. ele articula. ao fim do processo. até mesmo esmagador. imaginários. em presença de um pequeno rebento de capitalistas — o longe de nos proporcionar alívio completo. houvesse chegado pelo menos até ali. 1. O caráter faliforme da imagem indica bem a transmutação que se pode estabelecer a relação com o objeto. saffaladi quer dizer salum equilíbrio sobre três pernas. fantasiá-la. P (M) (M') À última forma de suas criações imaginárias ele dá o nome de São a mãe e a avó. todo o filho e o pai. com a avó. avô. vem aí inteiramente à parte. o esposo de sua mãe. da criança. como ela tem. tendo l i precisamente na medida em que. a partir desse momento. nas relações de objeto. liinha.1 pronto a tudo. mas em que momento? Leiam bem o texto: no i|u. / ' . da próxima vez. ao contrário. uma elaboração que Moção do filho. Que tipo de paternidade? Uma paternidade imaginária. i i l c .i iiii. esiao l: lllt. que é o Senhor Cegonha. Logo.nulo. que lugar e que função convém faz. eu leviuiii A partir desse momento. qual o seu verdadeiro rosto. e vamos ver que tipo de mãe ela vai ser. Ele vai ter. na perspectiva do pequeno Hans para-si. à maneira pela qual chegou a resolver completamente a Vemos bem. e a função da fobia teria sido nula. até a corromper amplamente — estamos.iv lisse momento tão impressionante de oscilação no diálogo mostra como diz muito bem o pequeno Hans.Uer recalcado nele de tudo o que é da ordem da criação paterna. a partir de agora. Vai se ocupar de seus filhos ela possa parecer. que a questão do Édipo ri. a partir de agora você vai . f . faria em meu lugar. se soubermos ler o texio m.i segunda. por mais evidente que i i i i u i i a mãe. foi desdobrada. é saffalodi. Este termo.iiiha. Para que a mãe não tenha mais filhos. ele o encontra na avó. portanto.l. o que é realmente o mínimo sobre o ii. criacoisa que se inscreve mais ou menos assim: dor na ordem imaginária. que vai ter momento em que começou dizendo que ele mesmo era o pai. com efeito. »h a forma da pequena Lodi. i i n l . e agora quer que eu Todos os laços com o pai estão muito longe de serem rompidos. l oili. Falou-se. Vai se tornar um personagem essencialmente poeta. dr per o Pai Cegonha para que não haja mais criança real. e tem filhos. Nada mudou na relação eniie filhos? É ele. entre este avô e esta avó. O terceiro que não •iluminaria que se operou neste falo. ele o diz muito claramente. de figura tão foi resolvida de maneira muito elegante por esse homenzinho. Mas não há laço algum •. acresce-se ido com quem? Como que por acaso. ao mesmo tempo não devolvido achou no pai. é muito simples. Ele diz isso. Se não se Hm que consiste toda a sua fantasia em torno da caixa. o vovô.\o lugar. lhe atribuir. que o pequeno Hans instaura a si mesmo numa paterA primeira coisa que o pai lhe pergunta é: — E aí. da cegonha.ipalhado. o que diz o pequeno Hans? Quem vai ter você todo domingo para visitar a vovó. desde logo. em pri. Mas quando seu pai.1 disse que o pai não pode ter filhos sozinho. com uma satisfação que estA tudo.i pequena Anna que já existia muito antes de seu nascimento? Conresolvido.f|a tomar quanto ao futuro.inde genitor por excelência. se fosse o pai? — Oh. o pequeno Hans nada terií . como uma solução típica do complexo de Édipo. Mas nada. até mesmo humorística. Daí as precauções que chegou-se a falar de outra mulher. veremos. mas por 110 lado não quer que sua mãe os tenha. A mãe.ii. ifito nenhum. nos indicii. o que você . em tudo o que Freud escreveu. que é a avó. responde o pequeno Hans. por parte do pequeno Hans.vc/ • i . eludir a questão. podemos presumir que não existe ali um. Vamos vê-lo reproduzido ao final decisivo.l.394 A ESTRUTURA DOS MITOS ENSAIO DE UMA LÓGICA DE BORRACHA 395 quando há muito tempo que o pequeno Hans galopara adiante. que se possa considerar essa solução. Filhos — ele diz da maneira mais precisa — ele quer ter. Na medida em que concebe a si mesmo como o pai. ' lhos: só que vão ser crianças imaginárias. Chega-se a ponto de corromDigamos que seja uma forma elegante. mesmo fortemente amarrados por toda essa experiência analítica. da qual ele viu muito bem o valor l eternamente imaginado pela mãe. Hans subsaté agora. O pai fica muito interessado: O que significa esta Lodi? Será Este é um ponto muito importante. por trás da mãe. iiin. Depor. inclusive a da pequena Anna. filhos liiniasísticos. da mãe. m. que história é essa? Você Vamos vê-lo. e remete o pai à avó. apesar Não é sem razão que Freud sublinha. o pequeno Hans é função de algum» IIMC cm imaginarizar sua irmã. Com efeito. que permite à criança encontrar i IHH olodi? — Não.

Leiam. a audácia quase insensata de escrever semelhante coisa no momento em que ela foi escrita. como uma pedra de toque singular necessidade de um quarto termo. e ela é verdadeiramente o osso de sua demonstração nessa obra muito singular que é o seu estudo Uma recordação da infância de Leonardo da Vinci. A irmãzinha montada no cordeiro. golpear-lhe as costas. e que é precedida por um desenho que está em Burlington House. não a Virgem dos rochedos. mas isso não faz mal. pudesse tratar o cavalo como este merece. Espero que vocês se dêem ao trabalho de lê-la. Desde então. a equivalência entre o cavalo e a mãe está assegurada: bater no cavalo é também bater na sua mãe. desconhecer a existência de coisas como essa na obra i Freud. isto é. pois talvez eu chegue a fazer com isso o encerramento do meu seminário. Vocês não poderão deixar de perceber o caráter inverossímil dl enigma de toda a situação em que é introduzido. é justamente um cordeirinho. não como na estampa de Londres. ao mesmo teni|>< para ver até que ponto isso se sustenta. para que ele. ela se parece com o São João Batista —. e do Menino. o pequeno Hans. até mesmo demasi. a saber. fez girar sua análise de Leonardo da Vinci. João Batista. Naquele momento. afinal contas.398 A ESTRUTURA DOS MITOS ENSAIO DE UMA LÓGICA DE BORRACHA 399 etapa antes da resolução da fobia. Mas leiam. mas a grande estampa de Sant'Ana que está no Louvre. de lhes mostrar a obra em torno da qual nosso mestre. termo animal onde reenconInimos o próprio termo da fobia. trindade muito humana. vamos ter i voltar a ela. O que eu quis assim indicar a vocês. Foi preciso que a irmã o dominasse antes. o que isso quer chegar a dizer. aí está a configuração que permanece no final. que está ali para nos apresentar um.i humaníssima trinita. desta Virgem. nem lhes recusar este enigma. Não posso recusar-me o prazer. Freud. Aqui está ele.uli humana. pela primeira vez. e vão perceber até que ponto é difícil saber. conseguinu escotomizar. que encontramos como n resíduo sob a forma deste cordeiro. apesar de todos os erros pois que há erros. em oposição à divinissima que vem substituir. Toda a análise que Freud fez de Leonardo da Vinci gira em torno desta Sant'Ana de aspecto tão estranhamente andrógino — aliás. a saber. li como sublinhamos aqui. daqui até o fim do ano. 19 DE JUNHO DE 1957 . termo narcisismo. o primo. Essa configuração não deixou de chamar a atenção de Freud. Essa configuração singular.

não foi completamente oblid. no emprego das palavras i j i n . de participação em algo que supõe estar no eu (mói) do pequeno ll."ME DARÁ SEM MULHER UMA PROGENITURA' 401 XXIII "ME DARÁ SEM MULHER UMA PROGENITURA" Da intersubjetivida. O único interesse dessa operação. que se traduziu em francês por gronder. vem esbarrar numa pedra e se machuca. neste Hliiiiicnto do diálogo. Esta elucu(iriieão não constitui uma extrapolação ousada demais. por exemplo. poderíamos. l i. delirar a perder de vista em cima do cavalo. MI use sentido.de ao discurso. por parte ilo |>. mas simplesmente traduz a necessidade encontrada pelo autor de aplicar ao caso um icgistro pré-formado. de maneira absolutai me injustificada. que H niiinos amadurecida por tudo o que a precede. O autor s esforça por resolver os enigmas apresentados pelo texto da observaçl do pequeno Hans. das musst wahr sein. que ocupa um lugar de honra na psicanálise.. aliás. i|i 400 m .<láo ao que diz o pequeno Hans um style soutenu — em francês MI i irxio — mais que em qualquer outra parte. fez no UP.1 v rã..o.nr. para o fato de existir aí uma Inieivenção que vem. Robert Fliess. e que esta interrompe a troca com o pequeno HIIIIN. excessivamente impr<H sionante. sob o título Phylogenrin versus Ontogenetic Experience.ii. O diálogo se encerra i a frase de Hans: — Sejam quais forem as suas denegações ii\\i<\t(idas. e que culmina em 21 de abril. Podemos compreendê-lo em suas hesitações: i li i induz o fenómeno em questão dizendo. Schimpfen. então. Isso é que é muito lulranho. /angar. Nosso autor insiste. com muita sutileza. as insuficiências da tradução inglesa. se é que ela o tem. senhora do cavalo. ou que o supereu está in tiii/u nascendi. Não se pode ir. Pode-se muito bem faZM aproximações válidas com o cavalo do pequeno Hans. como fizera i mu ura o pequeno Fritz. Da mordida ao desaparafusameniii Anna. no faliu »so diálogo entre o pequeno Hans e seu pai. lançando no caso uma enorme extrapolação. nos diz Freud. Mas o mais interessante é uma especulação liiiM. isso deve ser verdade. Das ist wahr. — A respeito do que eu repreendo realmente você? O iiiiior chama nossa atenção. Com efeito. j O objeto em função de significanttA A metáfora fóbica. uma elucubração de mérito. Durante o diálogo. O sangue deve escorrer. com razão. é o próprio pai quem introduz pela primeira vez uma l MI 1.iii-. aquilo que não está. Mas ele especula. Isso por seu caráter de inadequação manifesto. dizendo-lhe: — Você deve estar enciumado. .u que o pai nada tenha a ver com o surgimento desta frase. mostram bem a sensibilidade que HN pessoas da primeira geração analítica conservaram no que diz i|fM|>eito ao relevo propriamente verbal. o qual estaria em vias de desenvolver um supereu. e destaca bem. ao acento e ao papel essencial ilr certos significantes. É claro que existem nessa observação todas as entradas possívein Já que se trata de uma fobia do cavalo. líle centraliza as coisas. ou que este é o nascimento do supereu. Este é um animal muno singular que reaparece em toda a mitologia. repreendei. o de estreitar um pouco mais e envolver de modo mais rigoroso o qi ali se passa. i penas a desvantagem de supor resolvido. Essas observaque certamente têm seu valor.i Trata-se hoje para nós de formalizar de maneira um pouco diferem a observação. que eu chamo o grande '"" >>.nite refinada sobre o papel do pai naquela ocasião. sobre o que pode haver ali. antes de subir ao i|iuiio da mãe. de maneira perfeitamente válida. para o número comemorativo do «-u tenário de Freud. desenvolve a fantasia segundo a qual seu pai.céu. A verdade sobre Hans. ou que ele certamente ainda não iiii 1 . o filho do correspondente de Freud. Lembro a vocês que é aquele o pequeno Hans convoca literalmente seu pai a desempenhar seu l de pai. em vias de nascer. de uma maneira um bocadinho estranha.

estruturada como questão. Teríamos. podendo situar-se em ihvmos níveis: num nível elementar. Pois a neurose é uma linguagem. já que só se trata de seu mu vimento. me formular essa questão? Com efeito. O próprio da questão do neurótico sendo.402 A ESTRUTURA DOS Mrros "ME DARÁ SEM MULHER UMA PROGENITURA" 403 Introduz-se. hieroglífico.estas são as duas grandes vertentes da articulação da linguagem. •«> que eu tenho? O que quer dizer ter um sexo? O que quer dizer . Tudo o que fizemos até agora se baseia num certo número de postulados — que não são postulados. devemos mesmo fazê-lo a todo instante. considera-se que o supereu. sintático. mesmo. Isakower. aqui.is se deixam compreender como os elementos vivos desta questão Nrliculada sem que o sujeito saiba aquilo que ele articula. < l i / ele. então. quase alfabético. onde nos permitimos falar em hmcão metafórica e função metonímica. com efeito. pois se baseiam nosso trabalho anterior de comentário.i integra a palavra do adulto quando ainda não percebe o sentido desla. e poderíamos conceber no quadro de um seminário. Por outro lado. trata-sc do diálogo mais exteriorizado: acredita-se resolver seus paradoxos referindo-o à observação precedente? Decerto.1 mirodução da dimensão simbólica. em absoluto. Nesses movimentos de uma certa intensidade. pressentiu o problema que não cessamos <li formular a propósito da função da palavra na génese dessa crise normativa que se chama o complexo de Édipo. essa rede de formai constituída pelo supereu. de maneira demasiado absoluta. confrontá-la com o diálogo entre Hans seu pai. Devemos a ele observações pertinentes sobre a maneira como pode se manifestar ocasionalmente essa espécie de aparato cuja montagem. admito que busquemos referências gerais para o qul descrevemos./i/« i'u possa. É assim que se situam i nino obsessivas as questões: O que é existir? Como sou com referên< i:i àquele que sou sem o ser. de alguma maneira. ( oin frequência ele próprio é um elemento dela. se funda numa integração pelo sujeito da palavra em seu movimento geral e sua estrutura fundamental. que comporta toda uma reflexí sobre a experiência analítica e sobre o que ela nos dá. Fliess. <ln/>t-nsá-lo. qu« muito insistiu na predominância da esfera auditiva na formação <lu supereu. na histeria. Ele vai apreendê-la nos momentos em que o sujeito escuta modulações puramente sintáticas. lissa questão assume. é preciso que comecemos por analisar. Por assim ih/cr. Por um lado. como instânciu interna. não procedemos de maneira nenhuma comi o sr. as seguintes formas: O que é ter <• v. distanciar-me dele o bastante para me conceber como morto? Se a neurose é. captar ao vivo algo que se refere a um elemento arcaico: a criam. ela se relai n n ia a isso de maneira ainda mais dramática na neurose obsessiva. o homem não é simplesmente mu macho e uma fêmea. Um desse l » ' iiilados é o seguinte: que a neurose é uma questão formulada pelo • H' ii« no nível de sua própria existência. linde está em jogo não apenas a relação do sujeito com o seu sexo. como também num nível mais elevado. mas apenas a sua estrutura. É apenas sob esta condição que teremos a oportunidade de fazer progredir os conceitos da experiência analítica e seu maneji No que nos concerne. falando propriamente. MI. de i|iu. uma referência às obras do sr. Este. mas é-lhe necessário se situar com referência i -i l c. Em suma. uma espécie de questão fechada para o IHoprio sujeito. ao menos por um certo número dentre eles. mas organizada. compreendemos. os sintoin. devido . decerto.ida pelos linguistas. já que posso. Esta ainda é uma observação interessante. . a primeira forma a nos permitir conceber o que é o supereu.is sua relação com o próprio fato de existir.o de simbolizado que se chama macho e fêmea. a questão é viva e o sujeito não sabe que ele está nessa questão.. para um ou outro lado. É por esta razão que se pôde anotar observações durante décadas antes da chegada de Freud. palavras vazias. podemos. isso seria uma interiorizaçao. absolutamente fechada. Para que uma observação seja decifrável. que nos é d. O que nos torna difícil conservar a linha reta no comentário das observações é que devemos sempre nos abster de tender. enigmático. Mas certamente não seria para encontrar ali alguma conveniência. Se a neurose se relaciona com o nível da existência. sem nem mesmo desconfiar da existência dessa linguagem. assim. partindo da ideia. Mas sempr sublinhei a necessidade de se aproximar o mais possível da própriu experiência. não existe nenhuma razão pela qual ela seja dada preferencialmente a quem se contentasse em destacar seus conlornos: seria apenas um texto indecifrável.

para além dele. Nós mesmos. Virtualincnie. precisávamos pôr em evidência a complexidade da relação com o pai. O estabelecimento desse < h. e i 10 vem complicar ainda mais as coisas. de modo corrente. não podemos. o pai rcul. existe também a ni. no diálogo revelador onde se formulará o sentido • Io discurso.. Para os neuróticos. É assim.404 A ESTRUTURA DOS MITOS "ME DARÁ SEM MULHER UMA PROGENITURA' 405 Logo. Este já é um pai que tem a pnlavra. Aí está.eni que ali ocupamos. comporta 11» . como pessoas. Existe. o pai superior. puxá-los excessivamente para o que se pode chamar as propriedades da alma. representado por Freud. Fazendo o cálculo dos signos que têm maior número de ocorrências. O perigo. Aí está uma das formas mais claras do x da condensação)! Quando abordamos os elementos significantes do texto. No caso do pequeno Hans. 0 nu rnlanto devemos realmente resolver as coisas no modo de organii. chegamos a fazer suposições interessantes. isto é. chamando sua atenção para o fato de que uma tal identificação jamais é feita senão com referência ao movimento geral d< progresso de uma análise. até mesmo empurrá-los um pouco demais no sentido de uma espécie de instintualização natural. Isso é desconhecer que o que domina. devemos seguir o que foi efetivamente amarrado texto da neurose. que aludi ultimamente à famosa identificação do menino com a mãe. M Blindo o modo dos quais as neuroses se apresentam a nós. nos abstrair do fato de que ele se decompõe em dois termo-. de um elemento do passado do sujeito como elemento signili cante. a garantia. como só faz nos casos particularmente fechados. mostrando-nos qual a função do persoii. a via análise jamais pode repetir o movimento do desenvolvimento da nt rose.i<> onde elas estão atualmente. i logo comporta com efeito que ofereçamos nosso lugar como aquele oiulc se deverá realizar uma parte dos termos desse discurso. Quanto à estrutura nn questão. evidentemente. atual. Mas. e é sob este título que somos todos i olocados em posição. nos enigmas. Só que não existe apenas o discurso organizado. na situaçí atual. M icnnos que irão assumir o lugar que ocupamos. 9 (|ue vemos emergir os elementos do inconsciente do sujeito. Estas aparecem apenas na medida em que manejamos o texto. chegamos felizmente a operações de uma ordem mais elevada. e no início.inálise. e que se chama. ela deve ser observada em toda espécie de relação do analisado com o analista. a saber que tal signo corresponde a tal letra na língua em que pensamos ter que tradu/ii o texto codificado. Chegamos. de súbito. uma palavra. E isso deve ser sempre situado em seu lugar lias observações. esse texto é submetido à utilização. o pai onipotente. nos colocamos em princípio. pelo simples fato de ser um discurso. pois. dialogando com a criança. portanto. Do mesmo modo. pois. Em nosso esforç de decifração.. este tipo de instância .mrira como um diálogo se engaja para a solução desse discurso. por exemplo. ocasionalmente na imposição. Podemos fazê-lo no nível do puro e simples recorte. é sempre o de entificar esses conjuntos sintáticos. de uma maneira que não é diferente da que vemos exposta em não-sei-quo texto de Põe. que é como que a testemunha de sua verdade. estamos integrados como elementos significnntes no discurso da neurose. Como Freud assinala energicamente observação do pequeno Hans. este personagem nunca deixa de mudar. É a isso que se chama transferência. de resolver seu ICiitido. como tentamos revelar o sentido do discurso. existe esse pai a quem essa palavra se revela. ao ponto mais vivo do tema. é sempre na medida em que intervém um começo de decifração que chegamos a compreender as suas transformações e a proceder às manipulações que nos confirmam que se trata realmente de um texto. Isso é o que nos impõe procurar as li i próprias à solução de cada um desses discursos organizados. no qual nos orientamos por meio de um certo número de estruturas. É aí que somos convocados. onde encontramos certos conjuntos sintáticos com que somos familiares. é o nó organizador que dá a alguns desses conjuntos o valor de uma unidade de significação.ilguma parte este Outro que é o lugar. situados em dois pontos muito distanciados da história do sujeito. à página 319 do texto alemão. que nos recorda as práticas comuns da decifração de despachos enviados num estilo codificado ou arquicodificado. a urde ideal de sua boa fé. É essencial manter sempre diante dos olhos esses dois planos da iniersubjetividade como a estrutura fundamental na qual se desenvolve n história da decifração. não vamos nos esquecer de que é este último quem faz a análise. O diálogo decifra progressivamente o discurso. este. Ora. pois. Com efeito. a testemunha.ic. Aí está uma característica essencial da observação que merece ser conservada. li aí mesmo que.. Durante ii .

o pequeno outro. é claro. O discurso também tem leis. fiz isso inicialmente a |ni>|)ósito do fetiche. vimos isolar-se o lugar original dos elementos que sãc realmente. e a relação entro o significante e o significado é algo distinto da intersubjetividade. o elemento da hiância crítica dessa relação n dois que a dialética analítica atual nos representa tão fechada. quando a mãe se complica com elemeniif. e l M mcipalmente à histeria e à neurose obsessiva. Este é o sentido da fórmula que lhes dei: 'I M + cp + a M Os termos figurando sob a barra representam aquilo que veio progressivamente complicar a relação elementar com a mãe. terão aí um modelo mental. e fomos levados a refletir sobre a própria estrutura do discurso em questão. deslocamos progressivamente nosso interesse. objetos. isso é particularmente simples e exemplar. fipulsa a criança da afeição da mãe. de que luiiimos quando lhes falei do símbolo da frustração. No decorrer deste próprio ano. Cada vez i|uc. enquanto o outro imaginário.406 A ESTRUTURA DOS MITOS "ME DARÁ SEM MULHER UMA PROGENITURA' 2 407 superior é tão inerente à função paterna que tende sempre a se reproduzir de alguma maneira. Por outro lado. como as relações entre o imaginário e o simbólico. Todavia.i mãe está presente-ausente. ao contrário. l >cs(acar o objeto em função de significante. Estas são leis que regem a relação do sujeito com o pequeno outro e com o grandiOutro. é um significante. É isso mesmo que faz a especificidade dos casos em que o paciente lida com o próprio pai Freud. a partir iID momento em que entrarem em seu jogo. no decorrer das eras. e isso. no nosso movimento deste ano a propósito da relação de objeto. rejeita. O que nos parece paradoxal nos resultados. que apresenta problemas distintos que não são menos originais. Isso relatado vai nos permitir melhor situar em que sentido se dá o deslizamento de nosso interesse. fundador e mesm formador de objetos. muito diferentt dos objetos reais. S (M). Existem. o de uma tela. Mas isso não é o todo com que temos de lidar. o paciente sentia realmente que estava diante de alguém que fizera surgir um universo novo de significação. existe a tinira criança. quando .i. que estão num estágio original. vocês me viram elaborar o esquema subjetivo fundamental. a. Disse-lhes i|iu' este era. onde se trata essencialmente de linguagem. Isso é relativamente simples na aparência. que é típico: falta alguma coisa que virá desempenhar o papel . a superautoridade não existia por trás dele. a saber. já que extraídos da psicopatologia. chegar a este (••. pelos menos. Devemos perceber. para uso do paciente que ali estava. bem como os muito surpreendentes modos de intervenção que eram os seus. do mal estar. ainda que isso possa se recobrir. É assim que. Aí. O caso do pequeno Hans nos faz. Mas. cp. Inicialmente é o falo. isto é. poderão peri cbcr que o objeto dessa fobia é sempre um significante. mesmo que apenas por um instante. suplementares de todos os tipos. São objetos postos em função de significante. e daqui até o fim do ano não terei avançado mais i|iie considerar a fobia. uma extensão às outras neuroses. Ao longo dos anos anteriores. Na fobia. leis da intersubjetividade. se vocês compreenderam bem o que tentamos pôr em i'>co a cada vez que falamos da fobia do pequeno Hans. num sujeito jovem. que Freud podia obter. uma relação nova do homem com seu próprio sentido e sua própria condição. até que ponto a própria criança está em criação com uma função imaginária na mãe. às vezes surpreendentes. inicialmente. mas que são todavia inteiramente diferentes di objetos no sentido acabado. não se explicam de outra maneira. A função origina! do discurso. elementarmente. Eles são.ifjio de extrema provação. desempenha um papel intermediário. o desdobramento não existia. com certeza. Vocês vão ver surgir sempre uma fobia na criança nesse momento 11 inço. Pouco a pouco nosso interesse se deslocou. que. a partir do que todo progresso ulterior pode se conrrber como um aprofundamento. embora seu manejo não o seja. merece ser abordada passo a passo. vocês lidarem com uma fobia.ic se estabelecem. a relação simbólica entre o sujeito e este Outro que é o personagem inconscienic que o conduz e guia. na sequência do desenvolvimento. na sua técnica. É aí que as relações da criança com a in.

i ao pé da letra. que de goza legitimamente. seja esta ou mio simbolizada por um cavalo ou uma carroça. na medida em que este desempenha o papel agressivo. com ele. na criança: . tanto para a exibição i|iianto para a luta intersexual. o complexo de castração. que i troduz o pai como fator simbólico. uma faca. se podemos dizer. o pai em desespero de causa acaba lhe 11. devemos partir de dados empíricos.<> entrou nessa longa discussão para construir as possibilidades genealógicas que existem. alguma coisa tem por função fazer entrar no j< instintual do sujeito. com frequência. a existência constituinte da ordem simbólica. para demonstrá-lo. Se quisermos formalizar a experiência freudiana. devemos tomá-l.unos tentar detalhar o mobiliário de tal ou tal espécie animal. Num certo momento de seu diálogo. repressor. a mãe é considerada e vivida em função do pá O pai merece aqui um P maiúsculo. Esta significação que está ali presente. São significantes. Esta é l função imaginária do pai. Quaisquer que sejam as discus soes a que este se pôde prestar mais tarde. Esta é uma função ao mesmo tempo fundament e problemática. Aquilo cuja existência eles nos indicam pode. encontra-se no animal 0 equivalente do caráter constante deste elemento paradoxal que. Podeii. ur significação essencial que é realmente específica do género humano. é que. Eles fazem parte. se instaurar mais ou menos assim: (P) M . alguma coisa acontece nas relações com a mãe. Toda a construção analítica se apoia na consistência de complexo de Édipo. i|iic atingem as funções sexuais. Este é o pai no nível do pai simbólicc É o nome do pai. quando suas fantasias mostram que a criança sabe pn íeitamente que tudo isso se acha no ventre da mamãe. tímido.1 constância do complexo de castração. mas é normal e intervém no pequeno Hans na medida em i|ue estamos num ponto já muito avançado da observação. por exemplo. que instaura a existência do pai na complexidade sob a qual ele se apresenta a nós. e o que isso (significa. aparentemente sem saída. A criança '. Ele chega a construir uma teoria sexual das mais originais. ai grosso modo e sob reserva de comentários. comportado pelo complexo de castração. Ela afirma . as diferentes maneiras como uma i nança pode se relacionar com um pai e com uma mãe. Mas o que o pai não vê é que a criança só se interessa pela construção genealógica. levante hipóteses. A introdução deste elemento simbólico traz uma dimensão nova. Um episódio da observação do pequeno Hans nos mostra isso bem. não leva as coisas até o fim. toda a experiência da psicopatologia a decompõe para nós com a chave do complexo de Édipo. Este interesse representa um momento normal do progresso do sujeito. que o plastrão peitoral colorido do pintarroxo possa ser considerado um elemento de sinal. não deixamos jamais guardar sua referência.408 A ESTRUTURA DOS MITOS "ME DARÁ SEM MULHER UMA PROGENITURA' 409 fundamental na saída da crise. Para preencher a segunda parte da equação. está ligado a um significante chamado o complexo de castração. na experiência humana se chama a castração. a experiência sublinha sua coerência com l complexo de Édipo. à relação da criança com a mãe. porque supomos que seja o pá no sentido absoluto do termo. Mas como o pobre pequeno Hans diz que não compreende bem a l unção do órgão feminino.(-p) (^ O que anoto por n sob x seria o pênis real. da relaçã< da criança com sua mãe. Aí está como podemos escrever a fórmula do complexo de Édipo com seu correlato. O pai. a partir i um certo momento. Não precisamos. radical. É ele quem possui a mãe. ilo mobiliário instintual da relação sexual na espécie humana. que se deixa esquematizar assim: (P)M~ Se o complexo de Édipo significa alguma coisa. O (-p) é aquilo que se opõe à criança numa espécie de antagonismo imaginário. que l . u ido a explicação. uma foice. e na assunção que este faz das suas funções. Seja como for. um machado. isto é. Ele pode ser aqui reforçado pelas dificuldades próprias à neurose. vivida. como é sempre o caso. Esta complexidade. mentar. reud sublinha não ter encontrado assim. na medida em que se desenvolve com a dimensão suplementar da ordem simbólica. no homem. o pai tenta conduzir Hans à 1 onsideração de todos os tipos de explicações fisiológicas. Mas é preciso atentar para o fato de que o próprio complexo de Édipo se organiza no plano simbólico. É provável. A análise representa a castração da maneira mais instrumental: uma tesoura. o que supõe. por trás dele. admiti-la ao menos provisoriamente. que pode ocasionalmente se enfraquecer ou se fra. Por outro lado. Por um lado.

até mesmo uma insuficiência. de transpô-lo para uma loimalização que esteja menos sujeita à caução do que a relação lolêmica. a do loiem. Logo. e vir complicar a questão da neurose. É o que se chama ilt regressões. onde se colocam. de certa forma. tipos de significações que formarão. Mas isso supõe. que se ligam a nada mais que a diferentes elementos dl 11 oca da criança vindo desempenhar seu papel na compreensão da 01 ilem simbólica.i pergunta: O que é um pai? O pai é. É num mundo humano organizado por essa ordem simbólica que ele faz sua aparição. Afinal de contas. analistas.i ordem simbólica? É igualmente pressuposto que tudo o que se pav. afinal de contas. o cavalo não tem outra função. em nossa experiência prática — e na medida em i|ne. Ninguém contesta que. sem qualquer impossibilidade de que o filho engravide a mãe. Ele não deixa de ter alguma disposição. da última vez. ao menos por um momento.1 lidou com o Édipo. meninas fazem nascer os meninos. com efeito. Mostrei a vocês como o poeta utilizava a metáfora para fazer surgir na sua originalidade a dimensão paterna a propósito daquele velhote cm declínio. para suprir uma dificuldade. neste caso. sem qualqun discriminação concernente ao produto. Assim. cultural. Trata-se de um significante que é bruto. Isso quer dizer que o objeto fóbico vem desempenhar o papel que. temos algo de simples. isto é. l'. i-m razão de alguma carência.r. não é preenchido pelo personagem do pai. numa certa ordem que de termina uma sucessão regular de gerações. Pode-se nu-.na nós. lisi. o centro fiel um e concreto da manutenção da ordem genealógica. cm seguida. para revigorá-lo com todo o desabrochar natural desse Irixe. Não creiam que seja uma teori» impossível de se encontrar na organização genealógica. onde o totem não mais desempenha um papel prevalente e axial. M ohjeto da fobia desempenha o mesmo papel metafórico que aquele i|iie tentei ilustrar para vocês por esta imagem: Seu feixe não era avaro nem odioso.m de maneira exclusiva em torno da linhagem feminina. afinal. e. natural ou sobrenaturalmente. que é como que o centro de gravitação de toda a sua construção tão extraordinariamente luxuriante e fantasisi. é claro. todavia. é aquele onde ele nasce. com efeito. e será substituído por outra coisa. foi praticamente só no campo da fobia que Freud manifestou de uma maneira clara que o totem assumia sua significação fui experiência analítica — temos. Entre essa relação primitiva e o momento em que se constiim propriamente falando. a interrogação da ordem simbólica emerge na criança a propósito do grande P.410 A ESTRUTURA DOS MlTOS "ME DARÁ SEM MULHER UMA PROGENITURA' 411 e. É porque as mulheres fazem homens que os homens podem. o que chamei de (unção metafórica do objeto fóbico. c . . que nós <> consideremos na ordem simbólica. Nesta poesia viva que é. já veiculada por todo o carro da cultura que o ii)eito puxa atrás de si. as gerações seguintes. a fobia.i nas neuroses seja justamente feito.. não é mais sustentável à luz do progresso aluai da antropologia estrutural. em sua plenitude. ocasionalmente. em razão de uma carência real no caso tio pequeno Hans. aos desenvolvimentos que lhe foram fornecidos pela dialética do meio ambiente uiule ele está imerso. Trata-se de elementos intermediários provenientes da rfl lação primitiva com a mãe. o pré-genital pode ser integrado ao nível nlipiano. isto é. Foi por isso que introduzi. a criança chegou. Na ordem natural. o sujeito não precisou .i Para dizê-lo agora em termos gerais. Outra coisa vem complicar a situação. Mas. e que ela está de acordo com as estruturas elementares do parentesco. sob a forma <l. Isso. Mas isso só é possível imaginariamente. de qualquer ma neira que se o avalie. Em suma. na medida de seu tempo de fecuu didade possível. é nesse nível que temos i|ue conceber a função do elemento fóbico. ao que se t liama o estádio genital. O que interessa o pequeno Hans é a ordem simbólica. mo dizer que existe alguma verdade em seu interior. e que já comportam um certo simbolismn dual. como muitas vezes lhes observei. um elemento de suplênriu ao que faltou no desenvolvimento do sujeito. podem se produzir todos os tipos ih acidentes. lhes prestar esse serviço essencial. Ele é o elemento em torno do qual vão girar todos ir.i. que permite à criancii se imiscuir de maneira satisfatória num mundo que. provavelmente. o Édipo. não existe obstáculo algum a que tudo . os proMemas da integração do sexo do sujeito.'. e é isso que ele tem que enfrentai A descoberta da análise não será nos mostrar qual o mínimo il< exigências a que é necessário que o pai real responda para que e li comunique. No caso da fobia. Freud considerava a função do elemento fóbico homogénea à l unção primitiva que fora isolada pela etnografia de seu tempo.i teoria é a seguinte: os meninos dão nascimento às meninas. faça sentir e transmita à criança a noção de seu lugar inv. de lhes permitir continua rem sua função de procriadoras. há em toda a observação elementos particulares. o pivô. na maneira como a criam.

a mãe.nncaçado. n de assegurar a estabilização momentânea de certos estados: no caso presente. em extn revelar. e para os que a cercam é um elemento parasitário e patológico. com referência à mãe real. pela crian desse significante essencial para suprir sua crise. a 1 1 i.u a corrente interior gerada pela crise da relação materna. nem Imnpouco fazendo-lhe observações muito pertinentes sobre a relação r K isicnte entre o fato de ele tocar seu faz-pipi e o fato de experimentar. Dummheit. fuzer evoluir este esquema. a fim de assegurar sua relaçãi com o simbólico. Todo o progresso da análise consiste. que dê medo.. as virtualidades que nos são oferecidas pelo uso. Se vocês lerem a observação à luz do esquema que lhes acabo de il.i relação inscrita na linha de baixo: a saber.iir que ocupa. peli lnj-. antecipadamente. todas as 11 ans formações necessárias de tudo o que é complicado e problemático n. Daí a importância uiipital de um esquema como este.. com efeito. aí. Para preencher a função de transloi mar essa angústia em medo localizado. Ela permite à criançi manejar este significante. É por isso que inscrevemos do outro lado aquilo que é mais . Não é dizendo à criança que isso é uma besteira. Para isso é preciso um termo que seja impossível 1 li. i oin mais intensidade.dominar pela criança. 0 a criança — que necessita a cada vez. vão perceber que essas intervenções. até mesmo que morda. i|iic se mobiliza seriamente a coisa. nuiH imagens desenhadas pela mão do homem. de heraldismos: num livro de figuras. Podemos tocá-lo com o dedo este é um cavalo representado. no caso do pequeno Hans. um termo. jamais têm o alcance persuasivo direto da experiência inicial. suposto de história. o signih cante não contém em si mesmo. que não deixam de comportar Hlguns efeitos. ele permite que se realizem todas as transferências. n um ponto em torno do qual o sujeito pode continuar a fazer girar aquilo que. nessas ocasiões. Não temos que nos surpreender com o fato de que os sujeito'. muito pelo contrário. dele tirando possibilidades de desenvolvi mento mais ricas que aquelas que ele contém. tomando-o como socorro e como ponto de referêncii na ordem simbólica. ( ) sujeito escolhe uma delas para preencher uma função bem precisa. do estado de angústia. permitir à criança desenvolver as significações de que o sistema está prenhe. Não são imagens naturais. os temores que lhe são inspirados pela besteira.mça reage reforçando os elementos essenciais de sua própria formulação simbólica do problema. Aí está o que é desenvolvido pela fobia. que Hans enconiia a imagem de um cavalo sendo ferrado. todo o inteu-sse da observação é mostrar claramente que. um pivô. Mas a instauração analítica nos mostra que ele tambcm tem um papel de ancoramento. um papel principal de estagnação.n. justo diante da imagem da caixa da cegonha sobre uma chaminé vermelha. o papel do cavalo. se declararia numa angústia impossível de suportar. ele as contém. no sentido em que a história é ornamentada poi mitos. Ela torna a encenar o drama do •••u onde-esconde fálico com sua mãe: — Ela tem? Ela não tem? — mostrando bem que se trata. aquele onde deveria haver o pai simbólico. a saber. que ela o considera rumo tal e que não se deve desorganizá-lo para ela. parece que isso prejudica em muito o desenvolvimento da criança. de um símbolo. porque elas aparecem sempre em certos contextos. O que está em questão para nós na análise talvez seja. todas as signific» coes que nós o faremos dizer. o sujeito escolhe uma forma que constitui um ponto de estagnação. Trata-se de pen u n tir a este significante que desempenhe o papel que lhe reservou criança na construção da sua neurose. preferencialmente. de um triângulo distinto. Certamente. em certas conexõJ ou associações que podem escapar àqueles que são seus veículos. Pelo contrário. Na medida cm que este significante está ali como correspondente metafórico do pui. um pilotis. fragmentos de folclore. não se ater à solução provisória . a função fálica. Com efeito. de outra maneira. a eficácia que se poderia desejar. Tal é. É no seu livro. numa estrutura '•i-mdhante.412 A ESTRUTURA DOS MITOS "ME DARÁ SEM MULHER UMA PROGENITURA' 413 buscá-lo noutra parte senão ali onde se podem encontrar todos os tipo-. neste caso. em torno do qual se agarra aquilo que vacila. é inútil agarrar-se à sua verossimilhança ou inverossimiIhança. o pênis da criança: 'I a)M~m Ê ( l (|iie nos mostra a observação do pequeno Hans? Que. comportando todo um piv. e que ameaça carrcj'. tenham recorrido regularmente a formas que se podem dizer típica'.

no espírito deste. que pode r rscrever assim: e em seguida a formulação terminal: 'I M + <p + a e enfim. que representam. ocasionalmente. carroceando como todos esses veículos carregados iuc lhe dão tanto medo. àquilo que.. Logo depois da intervenção de Freud. o grande Pai simbólico que Freud. isto é. Encontramo-nos. Dei a vocês um exemplo disso da última vez. i Ir corto modo. m que seu pai não desempenha para ela a função que permitiria dar situação sua saída esquemática e direta. segundo as instruções de Freud. de uma diàlética be precisa. Tenho uma certa repugnância em fazê-lo. ela só faz liten mente o que lhe dá na cabeça com sua mãe. Mas esta equação só pode ser resolvida segundo suas leis própri 415 P (M) (M1) ~ (f) n que são aquelas de um discurso determinado. a sua função de pai. Quando o pequeno p vai intervir aqui. é o futuro. e não de uma outra. Poderíamos. para ela. beladen. 1 orno demonstra a sequência da observação. isto é.414 A ESTRUTURA DOS Mrros "ME DARÁ SEM MULHER UMA PROGENITURA" que consiste. entrar em articulações detalhadas que nos permitiriam formular de maneira completamente rigorosa o que está em questão.i vida. o que prova que as cois. M . 1 onstitui uma primeira tentativa de dialetização da fobia. este pai amado que só tem um defe — porém grande —. produz-se. Quanto à criança.i fantasia que desempenha um papel principal. ou de de ciumento. em 5 de abril.. da mãe. por exemplo.is ainda não estão completamente no ponto. como o sentido ambíguo do termo. poderíamos nos perguntar em que momento lii incipal se dá a transformação. com devotamento. nesse sentido. Essa fantasia testemunha uma transformação de seus temores. em ser um pequeno fóbico que tem medo de ca\. Todo caso. com as crianças no interior do seu ventre. Isso não quer dizer que não ame seu pai. e que em seguida ilnrá lugar a tudo o que se situa sob o signo do Verkehr.moça sobre a qual teria subido para brincar arrastada de repente pelo nvalo. na ordem da análise clínica e terapêu tica da evolução dos casos. Com efeito. portani. Não se pode começar desconsiderandc fato que essa equação é feita para se sustentar como ordem simbóli Vamos agora poder dar o esquema geral do que é o seu progres Não é inútil que o pai intervenha. i. iteguindo o que ocorre na observação e a maneira como as coisas evoluem. numa logificação. a carroça e. por uma série de formulações algébricas transfoi mando-se umas nas outras. um pai que no real n preenche plenamente sua função. a saber. e que este A é tomado entre 0 grande P e o pequeno p. deveria chegar a se resumir numa série de transformações. é se poder ser mais do que foi até então. vai paru sua cama apesar do pai. e o grande P no nível do grande 'I? Até agora não entrei nessas transformações sucessivas. < m m+n. Nada mais irinido por ele que ver a mãe novamente carregada. acredito. eifern. ao menos em suas etapns essenciais. a fantasia que Hans desenvolve então é a de ver a . AP í 'l M + cp +a M~m+ n A partir do momento em que se fala. a banheira têm por função representar a mãe. diante de uma complicação: o pai começa por intervir diretamente no termo n. como o invectiva o pequeno Hans.m+ n i l O cavalo é aqui um elemento predominante. enquanto o pequeno | HIIMS vem se situar na mesma carroça onde se acumulou todo o fliiTcgamento de sacos. bem como o pequeno pai. como demonstra a sequência il» observação. um. todas as crianças possíveis. o de não satisfazer realmente sua função de e. dos transportes. pelo menos por algum tempo. Se o pai lhe fala com muita afeição. se encarna bastante bem na fantasia o primeiro termo ilr nossa equação. rolando. virtuais. mas nada nos impede de fazê-lo. pondo no quadro H formulação inicial Tudo isto é tomado num grande A. temendo que os espíritos ainda não estejam completamente aberio 1 . Pode-se dizer que aí. A fantasia signi- l .

É isso que acontece no momento da fantasia da banheira. eu mesmo vou carregá-las. ele descobriu uma propriedade essencial da situação. e o pequeno m da mãe. E é por isso que temos todos esse* paradoxos. de cavalinho em companhia de uma nova criada. mas um pequeno pênis real. . e esta era então. o que acontece? O pequeno Hans começa tod» u movimento da sua fobia. Ele d i/. o cavalo não o intimidava em absoluto. e lhe permite manipulá-la. A í está o ponto de transformação inicial. apreender sua significação natural. se é tão distanciada quanto possível de toda espécie de assentimento natural da realidade psicológica. Isso poderia. a da girafa. Ao mesmo tempo em que mantinha a função do cavalo. A primeira coisa que vai fazer é manter uma distinção que mostra bem a diferença entre o esquema real e o esquema simbólico. não há mais regras do jogo porque outras regras vieram se misturar. se a criança não acreditou absolutamente que lhe contava o senhor que lhe falara como o bom Deus. pode-se jogar com ele. em meio a todos os elementos heteróclitos que ele tanto teme que sejam arrastados junto consigo. não se veria por que estaríamos aí por tanto tempo a perscrutar o que a criança nos conta. naquele momento. isto é. Pode-se. O pequeno Hans tira. numa de suas fantasias. morder ou cair etc. para cie. não passa de uma potência descontrolada. Isso nos mostra que. mas achou somente. fazer com que ela entre também no conjunto do sistema e. significante prenhe de todos os perigos. aqui. uso de todas as ocasiões que esta lhe oferecia para apreender e elucidar o problema. O sistema se apresenta então como um vasto jogo de bola. por exemplo. mobilizá-la nesse assunto. um primeiro benefício de uma dialetização da função do cavalo. devolvendo ao cavalo tudo o que este podl dar. isto é. a relação entre os personagens muda inteiramente. com uma permutação que nos daria: 'I M + cp + a n ~ M(m) O símbolo n representa a função sexual do pequeno Hans. O pequeno Hans é inicialmente posto em cima da carroça. se inscrever mais ou menos assim. A imagem que lhes dou aqui. De uma para outra. É a mesma coisa que vamos encontrar quando da transformação . devido ao qual ele leva tapinhas nos dedos. Não se esqueçam de que. a contar histórias. Senão. em tudo o que segue a intervenção de Freud. para Deus sabe onde. Hans fazia. por exemplo. cnin os dias 3 e 10 de março ele se permitia brincar. Tudo isso faz parte do papel das criadas em Freud. até mesmo introduzir os novos elementos que lhe permitirão recristalizar a situação. a partir do momento em que o conjunto está logicizado. assim mesmo disso resultou que ela pôc' começar a falar. desmontá-la. por uma mãe que doravante.416 A ESTRUTURA DOS Mrros "ME DARÁ SEM MULHER UMA PROGENITURA" 417 fica. usá-la das maneiras mais impertinentes. com desenvoltura. de um primeiro exercício imaginado. a partir do que a criança irá icntar reconstituir uma situação sustentável. que ele falava bem. pois. O cavalo pode estar atrelado ou desatrelado. de certa forma. Em suma. com a qual "não se transa mais". a da mordida como desaparafusamento da banheira. em troca. Depois disso. imprevisível. não mais apenas um falo simbólico com que brincar de escon« de-esconde com a mãe e as meninas. ameaçar despi-la. isto é. com a qual não se joga mais. e porque o próprio pequeno Hans complica este jogo fazendo intervir nele. para ele. Não há semelhança entre morder gulosamente a mãe. quumln é você que eu amo? É assim que ele relata as coisas. Verão que. portanto: — Vamos carregá-la com um monte de criancinhas. Já tínhamos visto o pequeno Hans se apegar intensamente à manutenção da função simbólica. e desaparafusar a mãe. todas as provas possíveis do jogo desse grupamento. a famosa mordida encarnada pelo cavalo. todas as suas possibilidades virtuais. é em compensação extremamente expressiva do ponto de vista da estrutura da organização significante. Trata-se. no momento mesmo em que Hans t i n i u mais medo do cavalo. pela primeira vez. podemos dizer.i dialética dos elementos amovíveis.que se verificará decisiva —. a seu pai: Por que você me disse que eu amava minha mãe. até mesmo temer. na medida em que faz com que ela própria entre d. o que faz dela um objeto como ijiialquer outro. explicando-lhe que então veriam seu Wiwimacher. ou para empregar um termo de gíria bem expressivo. Aqui. como um elemento móvel e ao mesmo tempo equivalente aos outros. elemento essencial de sua fobia. ocasião de entregar-se com ela a todas as incongruências possíveis. vamos vê-lo fazer. sob este título. pode-se efetuar um certo numero de trocas e permutações dos significantes assim agrupados. e vamos transportá-las.

Não poderia mostrar a vocês toda a ênfase disso. mas desde hoje lhes direi algo sobre isso. quase invertido. Este objeto de um eternc retorno lhe irá abrir caminho em direção àquela mulher a quem este pequeno homem deverá ter acesso. com a qual vou concluir da próxima vez. que consiste inicialmente em supor que ela sempre tenha estado ali na caixa grande. igualmente imaginária. regressiva. por normal que seja. constante. Se. dominá-lo. sob que título o estava? A título imaginário. viajando separadamente. No caso do pequeno Hans. senão na próxima vez. pois. cavalga sem estribos e segura as rédeas — não. permanente. Eis o que irá marcar com sua ambiguidade profunda o que se produzirá em seguida. quase que desde toda a eternidade. ela é. Ela se torna a senhora do significante. que se vai constituir a relação fundamental que lhe permitirá assumir seu '. Num outro momento. para falarmos só dele. É depois do desenvolvimento lúdico de suas fantasias e da redução iio imaginário dos elementos. É precisamente no primeiro ano em que ela ainda não veio ao mundo que ele frisa que ela estava presente. Suas etapas estão suficientemente indicadas na observação. com essa fantasia narcísica onde se vem encarnar a imagem dominadora. O pequeno Hans faz entrar em jogo sua própria irmã — este elemento tão penoso de manejar no real — na dimensão imaginária. na realidade. uma vez fixados como significantes. durante a primeira parte do tratamento. ufixa-lhe imagens. da situação. e que se esboçi para ele uma relação. em seguida. ele nos conta que ela está ao lado do cocheiro. É com isso que ele vai lidar sempre. que o que se expressa na fantasia terminal do desaparafusamento. ela o domina. nesse sentido. fere-o e deseja que esta ferida seja realizada. ela mesma sugere sua fórmula. A fórmula normal do complexo de castração comporta que o menino. Nada é mais significativo. literalmente. até agora. antes mesmo de vir ao mundo. dialeticamente. se desenrola por completo no plano imaginário. Ele vai assumi-lo de uma maneira que. De uma certa maneira. esta banheira onde pode entrar o tema da queda para se dialetizar e ser evacuado.418 A ESTRUTURA DOS MITOS "ME DARÁ SEM MULHER UMA PROGENITURA" 419 portanto. o complexo de castração é incessantemente convocado pela criança. na grande caixa na traseira do carro. que aliás sempre estará ali. em seu discurso e em suas brincadeiras. uma fascinante fantasia.ai sua relação com referência ao objeto materno. aqui. da ordem de uma saída ou de uma normalização da situação. ele próprio. é evidente. no registro das criações de seu espírito: domínio deste outro imaginário que será para ele toda espécie de fantasia feminina. só possui seu pênis sob a condição de reencontrá-lo na medida em que este lhe é devolvido após ter sido perdido. de uma maneira refletida. uma ambiguidade notada por Freud entre Wirklichkeit e Phantasie. . pode assim mesmo ser considerada como permanecendo marcada por uma deficiência. Ao mesmo tempo em que resolve para ele a «liicstão da posse do falo. e que se tinha entregue a tudo aquilo a que ele mesmo se entregara. A etapa seguinte. O pequeno Hans frisa bem que ela está ali tanto mais quanto. Temos aí a explicação de Freud. logicamente. ou. e é por seu intermédio que o pequeno l lans pode chegar. Aí existe como que uma dificuldade em distinguir a realidade da imaginação. O pequeno Hans se serve. na» era ela quem segurava as rédeas. de sua irmãzinha como (Ir uma espécie de ideal do eu. o domínio que esta vai progressivamente adquirindo sobre ela. diz ele. essa imagem vai deixar num estatuto essencialmente narcísico e imaginário a dominação que o sujeito adquiriu sobre a situação crítica. Ele desenvolve em torno desta uma construção espantosa. . ele sabe muito bem que ela não está. É assim que ele se verá doravante numa relação de domínio com referência ao que se vai inscrever. com referência àquilo que foi. Mas é realmente por intermédio dessa criança imaginária que está ali desde sempre. conforme as ocasiões. É aí que se vê o caráter atípico anómalo. Alguma coisa. a esporear este cavalo. esta irmã já estava no mundo. chicoteá-lo. ele fomenta e organiza sua prova sobre a imagem do pai. mas de uma outra maneira ela marca realmente um progresso. Isso supõe nele uma organização significante bem adiantada. sob a forma de uma reminiscência essencial. pela qual se irá estabili/. que lhes indicará onde se situa a falha do ponto atingido pela criança para ocupar seu lugar. quase obriga seu pai a fazê-lo submeter-se à sua prova. onde se trocam as bases da criança para lhe dar um traseiro maior — e por quê? Para preencher este lugar que ele tornou muito mais manejável.cxo. tornar-se seu senhor. aquilo (|ue eu poderia chamar de filhas de seu sonho. A pequena Anna sempre esteve ali. dizer que toda essa espécie de progresso que é a análise da fobia representa de certo modo o declínio da mãe com relação à criança. ocasionalmente. que o pequeno Hans continua sua fantasia.1 senhora do cavalo. se apresenta sob uma forma imaginária indefinidamente repetida.

o pequeno Hans poderá mobilizar seu espaço. o que ocorre em definitivo não interessa seu sexo. um pai como os outros. foi a partir do fato. finalmente. desvanecer-se a sua fobia. para ver como a natureza Me dará. Aqui. Trata-se da dialética da relação do sujeito com seu próprio órgão. de que Freud fez o epílogo do caso. se assume como uma espécie de pai mítico. sem mulher. Al pessoas que o descobriram se aproximam dele. senão pela inversão paradoxal de certos termos. e ele não pode responder. à falta de uma mudança neste órgão. Deus sabe se este pai não é. pode-se dizer que o pequeno Hans não passou pelo complexo de castração. Vemos aí o signo e o testemunho de um momento de alienação essencial. se foram operantes. No caso do pequeno Hans. Se existe algum estigma da não resolução. de vez que é um pai que. 26 DE JUNHO DE 1957 * No original: Revenez dês cê soir voir comment Ia nature l Me donnera sans femme une progéniture. perguntam-lhe o qur queria. a fim de esquecer alguma coisa. exprimível numa anotação simbólica por mais e menos? No presente caso. depois de todos esses vãos esforços para que seja executada e franqueada esta metamorfose fundamental do sujeito. a história: ele esqueceu. algo. ao fim da observação. daquele sujeito que tinha ido para uma ilha. progressivamente. esquecer. Vocês conhecem a história. é o próprio sujeito que. Esses volteios r rodeios do significante. Como diz. como indica o mito do instalador que lhe troca o traseiro. mas de que ele se tenha esquecido. nas fantasias de Hans. é o seguinte. dessa história. Este é todo o sentido deste traço final.) . Quando. tanto da análise do pequeno Hans quanto da solução ctlipiana que era postulada por sua fobia. em absoluto. mas por uma outra via. quase diria a fórmula. mas este resultado é adquirido às expensas de algo que não aparece nessa perspectiva. e sim seu traseiro? — isto é. é capaz de engendrar. que tornaram supérfluo n significante do cavalo. nos incita a retificar o tom.' É nisso que não se pode dizer que tudo esteja assumido quanto à posição relativa dos sexos e à hiância que resta da integração dessas relações. ele revê o pequeno Hans já crescido. tal como é narrada. uma progenitura. tal como chegou a concebê-lo. afinal. que se revelaram salutares. é para escutá-lo dizer: Não me lembro de mais nada de tudo isso. no entanto.420 A ESTRUTURA DOS MITOS "ME DARÁ SEM MULHER UMA PROGENITURA" 421 Não é impressionante ver que. Como avaliar o resultado de um certo progresso analítico. Doravante. sua relação com sua mãe. não de que o pequeno Hans tenha esquecido. bem mais tarde. E esta outra via. levou-o a transformar-se num outro pequeno Hans. (N. Como diz o marido ao guarda em As mamas de Tirésias.T. Volte esta noite. que fizeram.

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e tentei indicar a vocês em que sentido se poderia fazer um esforço para nos habituarmos a escrever as relações de maneira a nos darem pontos de referência fixos. Não se pode explicar tudo ao mesmo tempo. O que terei iniciado com vocês.XXIV DE HANS-O-FETICHE A LEONARDO-NO-ESPELHO A saída pelo ideal materno. Logo. para resumir aquilo que. uma certa indeterminação pode parecer-lhes subsistir na maneira de ligar os lermos entre si. Hans. Hoje é o nosso último seminário do ano. portanto. Bem sei que não motivei todos os seus termos. de mais frouxo neste jogo entre o imaginário e o simbólico. que não possam ser elididos depois de formulados. Formalizei umas letrinhas. No artigo que vai ser publicado no terceiro número da revista La 425 . e por isso talvez não tenha levado minha análise até o fim. sobre os quais possamos não ter que voltar na discussão. Não quis ter que me repetir. habitualmente. sejam quais forem seus efeitos. aproveitando tudo o que pode aí haver. é um começo dessa formalização. um certo número de coisas. Deixei de lado. O Outro tornado pequeno outro. da última vez. tão importante para a nossa compreensão da experiência. não é um mau método. O abutre era um milhafre. A inversão imaginária de Leonardo. hoje. filha de duas mães.

Vemos denunciada pelo simples texto de Hans. o jogo mítico onde se realiza o que eu vou chamar . O que equivale dizer: ao seu lugar. O simples fato de que ela sobreviva é tão paradoxal. uma das criações menos enigmáticas do pequeno Hans. que deve ser acrescido ao principal do problema. Isso não significa. um sistema que se feche. que vem. se soubermos escutar o que diz o pequeno Hans: — Ela veio até a sua cama. tão tolerado. Em suma. à releitura do texto. ele próprio. Vocês conhecem bastante os seus elementos para perceber. reduzi-la ao campo da psicologia. a irmãzinha Anna. e pelo pai. a saber. deixei de lado na observação do pequeno Hans todo este jogo que vocês agora podem acompanhar. tão estranho a todas as conceitualizáções vizinhas. A mitificação infantil no jogo imaginário desencadeado pela intervenção. O pequeno Hans não consegue fomentar sua manipulação imaginária dos diferentes termos presentes. E. nem mesmo da totalidade de suas obras. verão uma justificativa. pois a linguagem usual não nos dá os fundamentos necessários para fazê-lo. Depois a cegonha torna a sair à revelia de todos. tão chocante e. tão lindamente fomentada por Hans em sua especulação mitificante. Este é um elemento dinâmico e cristalizador no progresso simbólico em que consiste a cura analítica como tal. tal como a escrevi na fórmula M (p a. que eu queira fazer de cada uma de suas obras. até mesmo inquietador. da ordem de algumas dessas fórmulas. o importante é. Ela apresenta aspectos absolutamente insólitos. sob a sugestão do pai psicoterapeuta. à maneira como os psicanalistas encaram os fatos e os objetos com que têm de lidar. ao mesmo tempo. Depois ele se corrige: à cama dela. Um elemento é correlato da grande invenção mítica a propósito do nascimento da pequena Anna. conduz ao que eu chamaria. finalmente. mesmo no próprio caso do pequeno Hans. sem mais formalismos. no entanto. arrumado. fornecer uma fórmula completa da questão exposta pelo caso? Vocês sabem que é no registro das questões expostas por Freud que pretendo fazer meu comentário. as da metáfora e da metonímia. este personagem que vai. O caráter estranho dessa dimensão. munido de um ar imperturbável. põe a chave na fechadura. sacudindo a casa depois de sua partida. É o personagem misterioso e realmente digno do humor negro da melhor tradição. esta cegonha que chega com um chapeuzinho quando ninguém está por perto. no caso. que é a cegonha. digamos. as outras crianças. que aprendam melhor a cada dia. constitui a originalidade de nossa ciência. a tese da morte. da redução ao imaginário da sequência do desejo materno. que nota a relação da mãe com este outro imaginário que é seu próprio falo. quero mesmo assim lhes indicar os elementos que não toquei. a cegonha. Se. isto é. com referência a toda fixação psicológica do objeto. Tornar a fechar a interrogação freudiana. cumprimenta.426 ENVIO DE HANS-O-FETICHE A LEONARDONO-ESPELHO 427 Psychanalyse sob o título "A instância da letra". Esta psicogênese. deixei coisas para trás. ao mesmo tempo. No ponto em que chegamos. vocês a vêem desenvolver-se a cada dia. e deve ser resolvido ao mesmo tempo na solução que vamos trazer ao problema da dimensão freudiana. que não podem ser articulados de outra maneira. isto é. pelo fato de que o pequeno Hans tem um bastão — não se sabe por que ninguém Portanto. que Freud muda as próprias bases da consideração psicológica ao lhe introduzir uma dimensão que lhe é estranha. do inconsciente. não sem fazer um certo estardalhaço. que lhes tenha sido sugerida a possibilidade de utilizar fórmulas semelhantes para situar as relações entre o sujeito e os diferentes modos do outro. Na verdade. por Freud. e depois com o que pode advir de elementos novos. psicoterápica. nos manifesta Um fenómeno cuja originalidade deve ser compreendida como um elemento essencial da Verarbeitung da progressão analítica. e mereceria que nos detivéssemos aí por muito tempo. certamente. e de sua permanência desde toda a eternidade. por que não deixaria? Por que querer. afinal. implicitamente. não levei mais adiante a análise. talvez mais completa. Portanto. e o princípio de base sobre o qual devemos conceber nosso progresso nela. eu os indiquei dê passagem. não é. creio. O importante é que vocês tenham aprendido suficientemente. com efeito. senão isolando algo que é claramente anunciado logo antes da grande criação mítica: o nascimento de Anna e. Convém indicar seu lugar na economia geral do caso neste momento do progresso do pequeno Hans. diz ele. mas sem lhes explicar sua função exata no que diz respeito às maquinações míticas a que a criança se entrega sob o estímulo da intervenção analítica. de uma psicogênese delirante.

Tudo que existe. e esta identificação com o desejo da mãe como desejo imaginário constitui. É nesse sentido que podemos dizer que a crise edipiana do pequeno Hans não atinge. a saber. e. Também volto a sublinhar que é significativo que o pequeno Hans. Por outro lado. A presença do tema da morte é estritamente correlata do tema do nascimento. um real no limite do psíquico. não as haverá. esta potência de uma geração elevada ao seu último grau de mistério. Tal é o estilo como vejo esboçar-se o futuro desse encantador pequeno Hans. apenas aparentemente. Uma espécie de tratado será. de seu pênis. entre a vida e a morte. a função. Com efeito. de seu espírito. isto é. mas sem poder ser plenamente assumido pelo sujeito. capaz de responder à fase. questão tão elegantemente resolvida no interior da observação pela pequena nota de Freud: O que a mulher quer. aquilo que e rejeitado no simbólico reaparece no real. será esta: as formações do inconsciente. o da geração de um certo estilo que conhecemos. imagem que porta os reflexos de suas particularidades reais no que elas têm de pesado. mais exatamente. A rubrica que vou escolher para aquilo que pretendo desenvolver para vocês no próximo ano. ele possa assumir. Aí está a verdadeira chave. nos permite. para dizer tudo. desde então. Vocês vão ver o sentido da passagem onde se trata das relações entre a mãe e Deus quanto à possível vinda de uma criança. isso não quer dizer que. falando propriamente. não o adquiriu em nenhum momento. Nada semelhante se manifestou no presente caso. na observação. e com a mãe. num nível mais próximo. Vemos desse modo renovar-se mais uma vez o mecanismo da reaparição no real. na medida em que toda a situação se resolveu para ele por uma identificação com o desejo materno. já que. a formação de um supereu típico. e o domina. o objeto de seu próprio desejo. o estilo do ano 1945. Mas fica claro que. o pequeno Hans diz desejar ter filhos.428 ENVIO DE HANS-O-FETICHE A LEONARDO-NO-ESPELHO 429 jamais falou dessa bengala até então — com o qual ele bate no solo. firmado com a cegonha. Na verdade. daqueles encantadores rapazes que esperam que as iniciativas venham do outro lado — que esperam. na medida em que este sujeito. que se produz uma identificação com uma espécie de imagem bruta do pai. por mais heterossexual que ele pareça. Deus quer. tampouco. Ele alcança aí um tipo que não lhes vai parecer estranho em nossa época. na medida em que o pequeno Hans assume o seu lugar. Esta espécie de objeto fixo é um objeto imaginário. mas desta vez. Ele tem o desejo de ter crianças imaginárias. Com efeito. Ele não é o seu homólogo. afinal. Entendam-me bem. não quer mais lhes mostrar nada além de sua bonita estatura de pequeno Hans. Não há nenhuma fase de simbolização do . não podemos considerar que ela esgote a legitimidade de sua posição. é isso mesmo o que lhe diz a mãe: Afinal de contas. tornou-se ele mesmo afinal de contas — é aí que eu quero chegar —. se podemos dizer. diria. levanta problemas particulares. novas crianças. Em suma. A imagem que daí emerge. um retorno ao pequeno Hans que ele foi outrora. e que deixo em reserva. é bem menos a de uma vagina dentada. Se o pequeno Hans está identificado ao falo materno. em momento algum. do que ocorre depois da Verwerfung edipiana. Esta é uma dimensão essencial que se deve destacar para a compreensão e o progresso do caso. se instale em algo tão essencial quanto a recusa de novos nascimentos. até mesmo de esmagador. que a de um phallus dentatus. entre a existência e o nada. quero dizer. pensar que ele se resolva de outro modo que não pelo domínio do falo materno. se descola da integração simbólica do processo de castração. é algo diferente. Haverá filhos de seu sonho. é na medida em que o complexo de castração é ao mesmo tempo transposto. nada mais é que aquilo que vemos se desenhar na observação sob a forma da pedra contra a qual alguém esbarra e se machuca. que se lhes tirem as calças. em dado momento. se identifica com ele. toda investida masculina. ou. certamente. falando propriamente. perguntando se há mortos ali embaixo. que são diferentes daquele da introdução do significante do cavalo. de personagem que. algo como um objeto fetiche. Agora. O pequeno Hans se situa numa certa posição apassivada. no interior das fronteiras do eu: um real que se impõe ao sujeito de uma maneira quase alucinatória. um supereu tal como se produz segundo o mecanismo indicado no que ensinamos aqui sobre a Verwerfung. O pequeno Hans não tem que perder seu pênis. Hans não quer mais de jeito nenhum brincar de esconder. e ao mesmo tempo não querer que haja outros. este tema. muito provavelmente. de que ele fará. qualquer que seja a legalidade heterossexual de seu objeto. de que será vítima. ferindo-se nele. haverá crianças estruturadas à moda do falo materno. ou ao complexo de castração. por um lado. ao fim da crise que resolve a fobia e a dissolve. que talvez vejamos no ano que vem. Nada. que brincava com meninas esse jogo de esconde-esconde primitivo cujo objeto era o seu sexo. e de mim que isso depende.

vê o quanto esta verdade é muito mais relativa. Depois de ter participado francamente do jogo. Num caso como este. como um jovem cavaleiro. o pênis fica à margem. E não creio que nada de novo na experiência da existência lhe dê um jamais. Foi neste ponto que terminei meu penúltimo seminário. a outra mãe é aquela de quem ele teve ocasiões e razões em demasia para i onhecer a presença e o poder: a mãe do pai. onde o pequeno l lans se contradiz a cada instante. graças a algumas moedas dadas ao condutor do trem — é o mesmo agente que servirá para apaziguar a potência terrífica do Storch —. Freud dedicou umanha atenção. eis o pequeno Hans percorrendo o grande circuito. quando l.430 ENVIO DE HANS-O-FETICHE A LEONARDO-NO-ESPELHO 431 pênis. que é igualmente de uma ordem distinta da do supereu. Trata-se do momento em que se brinca de dizer. onde o sujeito é introduzido numa relação edipiana atípica. ele deixa cair o cavalinho. capaz de engendrar indefinidamente na sua imaginação e de •. supereu. faz ele mesmo. Certamente. 1 |iiem deveria ter passado por uma análise—tenta corrigir isso. E. mas 11 lha de duas mães. Este é um ponto notável. indo se colocar inteiramente nu. e ao mesmo tempo com o caso de Leonardo da Vinci. O pequeno Hans é. e como lhes agradeço por serem. que é usual. Como lhes disse.i c tarde demais. ocasionalmente. uma intervenção um pouco atrasada do pai. aquilo que induz um certo tipo de situação e de solução na relação do sujeito ao sexo. na sua imaginação. mas enfim um cavaleiro — e não terá pai. e diz ao pequeno Hans: — Afinal de contas. e às vezes muito comoventes. à maneira de uma trégua para um grupo atento como vocês são. não por acaso. de preferência. o pequeno Hans não é a filha de uma mãe. na medida em que ele é o ideal da mãe. o pequeno Hans teria sido docemente conduzido ao clero. um cavaleiro mais ou menos submetido ao regime das previdências sociais. fazendo u aproximação com o quadro de Leonardo da Vinci. ao final. que é o .c satisfazer inteiramente com suas criações. desengrenado. Min importância. especialmente esclarecido na observação: no próprio. o ideal materno é. Digamos que se. Não pretendemos. temos seus indícios confirmadores. depois do que. decididamente desencorajado pela carência paterna. mas que tem. ele tivesse tido uma mãe católica e piedosa. Existe. como ele queria que o pai se apresentasse. decerto. realmente. a saber. esgotar a Recordação da infância de Leonardo da Vinci numa só lição. deixa escapar uma frase que mal se repara no texto. mas também equilibradora. e o que se produz não lhe permite integrar sua masculinidade por nenhum outro mecanismo a não ser a formação da identificação com o falo materno. Esta intervenção retardada traz ao pequeno Hans este gestinho muito bonito. reprovado pela mãe. Esta é uma função da ordem do ideal do eu. à medida que progride no manejo. vocês estão vendo por que mecanismo. sua cerimónia de iniciação. Aí estão mais ou menos indicados os termos em que lhes situo o esboço do caso do pequeno Hans. muito precisamente. que não é tolo. momento em que o pai lhe fala.ii. um homenzinho capaz de ter < r lanças. sem dúvida alguma perturbadora. O assunto está encerrado. que o pequeno Hans se instala na existência.i havia interrompido a observação da última vez. o pai. como algo que nunca foi senão maldito. acreditando ferrenhamente em todas as verdades que aprendeu do bom mestre Freud. em vez de ter uma mãe judia e acompanhando o movimento do progresso. o diálogo expirou. isso é brincadeira. é ele. fantasisticamente. Todavia o fato de que o sujeito assuma essa duplicidade ou esse desdobramento da figura materna que entra nas condições do equilíbrio terminal é realmente um dos problemas estruturais levantados pela observação. um substituto do falo. O pequeno Hans não será nada além de um cavaleiro. o pequeno Hans instalou-se em sua nova posição no mundo. sobre este vagonete no qual é suposto passar toda uma noite. no meu ensino. Assim. no momento em que o pequeno Hans vai começar a fazer o seu grande delírio mítico. o pequeno Hans. você ficou com raiva de mim. e que aprende com essa experiência. em que ele diz: — É verdade. diz: — Tudo 0 que se diz é sempre um pouco verdadeiro. Será a esse texto que iremos consagrar hoje o tempo que nos resta. vive a mãe. É assim que igualmente. . não <• verdade. no qual eu l. A conversa está superada. enigmático. mas ao mesmo tempo é muito sério. a que. O l>. senão à santidade. A abertura da caixa-preta do pai à medida da observação não é uma das coisas menos interessantes. desta função. Ao longo de toda a observação. A saída se dá pela identificação ao ideal materno. De certa maneira. logo depois. o pai — ele que mio foi bem-sucedido em sua própria posição. E então. É na medida em que o pequeno Hans tem uma certa ideia de seu ideal. Esta será uma liçãozinha antes das lerias. daqui por diante.

vamos deixá-lo entregue à sua sorte. Essa leitura pode ter para vocês a vantagem de imergi-los num banho de atualidade. Adverti-os disso há um tempo suficiente para que alguns de vocês o tenham feito. Não é. E. se considerar como habitualmente. Don Juan não se confunde. não é à toa que é o pai. o estudo que Alexandre Kojève. antes de deixá-lo. para não cair numa excessiva atualidade. e encontra a consumação de seu destino. não vão arriscar nada. se algo de justo foi entrevisto na noção da homossexualidade de Don Juan. ou acaba encontrando-a apenas sob a forma desse convidado sinistro <|iic é. O Don Juan de Mozart. e sobre o que devem estar prontos a escutar. como se diz. o fato de que a situação seja sempre. Inteiramente diverso é o problema que nos é apresentado por um l . e que ele as ama bastante para que. habituado a se situar apenas no nível de Hegel e da mais alta política. Nas relações de Don Juan com seu objeto. Se eles contribuíram. fez sobre os dois livros. a Françoise Sagan. tendo por efeito a ativação da perspectiva sobre aquilo que fazem. Poderão ver o que um filósofo austero. sem saída. ele não a encontra. pode tirar de obras de aparência tão frívola. para ele. diria mesmo que ele as ama o bastante para saber. Como ele a busca realmente. Isso não deixará de instruí-los. isso não deve. 0 fato de Freud ter se interessado por Leonardo da Vinci não nos deve obrigar a levantar questões. e revela muitas coisas. em suma. pelo simples prazer de ser atual. a realização de uma questão no sentido em que a entendo aqui. mas é precisamente no sentido em que Don Juan busca a mulher. digam o que disserem os analistas. Penso que. existe com certeza alguma coisa que está relacionada a um problema de bissexualidade. Freud é Freud justamente por ter se interessado por 1 . é sob a forma do convidado de pedra.eonardo da Vinci. com certeza. não dizê-lo a elas. É aí que Don Juan vem. c tenham percebido o caráter profundamente enigmático dessa obra. falando propriamente. se quebrar. nesse sentido. com coisas interessantes. digamos. unicamente sob este ângulo e pelo viés do duplo que ele deve ser compreendido. isto deve ser. decerto. O psicanalista não é recrutado dentre aqueles que se entregam por inteiro às flutuações da moda em matéria psicossexual. Creio que é nesse sentido da noção da mulher fálica que se deve buscar. tudo o que deveria ser a nossa história estava sendo fomentado. O cuidado de descrever e definir o que pode ser a geração atual. quando o diz. onde. isso foi. ocasionalmente. de seus pacientes. da pedra com seu aspecto absolutamente morto c fechado.432 ENVIO DE HANS-O-FETICHE A LEONARDO-NO-ESPELHO 433 Este pequeno Hans. às vezes. elas o creiam. Porque uma coisa aconteceu e não deixou de acontecer. pura e simplesmente — muito longe disso — com o sedutor possuidor de pequenos truques que podem dar certo o tempo todo. não se contenta em esperá-la nem em contemplá-la. se posso dizer. Isso também lhes vai mostrar que devemos levar em conta as profundas mudanças nas relações entre o homem e a mulher que se puderam produzir no decorrer de um período que não é mais longo que aquele que nos separa do tempo de Freud. para Freud. e como algo que significa. Creio profundamente que Don Juan é um personagem demasiado distante de nós na ordem cultural para que os analistas tenham podido percebê-lo com justeza. contrariamente também ao que se diz. num número de Critique de agosto/setembro de 1956. Vocês estão. Acredito que Don Juan ama as mulheres. e que. em geral. e esta é a mulher fálica. e o que poderia ser. . um mais-além da mulher que ele não espera. cfetivamente. Tudo isso é para lhes dizer também que o donjuanismo talvez ainda não tenha dito a sua última palavra. a última de nossas preocupações. reportei-me à geração de 1945. Para responder a essa questão. bem orientados demais para isso. mas para aconselhá-los. Trata-se de saber agora como ele se interessou por isso. se o tomarmos como o auge do personagem. Isso não é pouco. é certamente uma coisa inteiramente diferente do personagem-reflexo que Rank quis nos construir. quando ele se apresenta — coisa curiosa —. deixo-o a outros. com certeza. não lhes fará mal. até mesmo competentes neste assunto. sob o título Lê dernier monde nouveau. da autora de sucesso que acabo de nomear. com efeito.eonardo da Vinci. Mas. tristeza e Um certo sorriso. assinalo ainda a vocês que se. como leitura de férias. Não cito este nome ao acaso. como ele vai lá. nada melhor que ler Uma recordação de infância. Leonardo da Vinci. fazendo a seu propósito uma alusão a uma certa evolução nas relações entre os sexos. Mas não vamos nos esquecer de que. Bom dia. para além de toda a vida da natureza. como se diz.

que ele os maneja de maneira genial. as pessoas que são sempre as mais reticentes em casos semelhantes. . a única lembrança de infância que temos de Leonardo da Vinci: — Parece-me ter sido destinado a me ocupar do abutre. na sua cultura. e mesmo com um interesse que aumenta com o tempo. única. que ele v. ele não deixa de nos sublinhar. numa obra não muito antiga. Não digo que Freud os maneje de maneira imprópria. feita de uma atividade sempre no limite do realizável e do impossível. as coisas aparecem. entre as relações com o seio materno e uma 1'elação. no caso de Leonardo da Viuci. está às vésperas das grandes crises. a saber. à qual nós mesmos iremos voltar com nossos próprios meios. supostamente possuidor ilc iodas as qualidades e de todas as competências. quando estes são. Pelo menos é assim que. ao menos imaginária. isto é. Ele baseia nesse ponto todas as particularidades de seu estranho personagem. Existe em primeiro lugar uma apresentação rápida do caso de Leonardo da Vinci. Esta estranheza. um personagem lendário. acabam. na realidade. com o tempo. a saber. Freud recorre enfim a este fragmento que tanto destacou em todos os seus desenvolvimentos. Mesmo que esta seja uma das obras mais criticadas de Freud — e é paradoxal ver que ela é uma das que ele mais se orgulha —. heiid vai deduzi-la para nós de sua relação com a mãe. Ele é reconhecido internacionalmente. nem mesmo de uma sensibilidade reduzida. Só que temos o defeito de segui-lo com uma certa preguiça de espírito. de sua estranheza. como ele próprio escreve na ocasião — esta série de nipluras nos diferentes inícios dos empreendimentos de sua vida — csia singularidade que o isola em meio a seus contemporâneos e faz ilclc. ele não dá prova de um conhecimento mínimo. e à medida que as maiores falhas. reconhece o elevado interesse da análise feita por Freud do quadro que eu lhes mostrava outro dia. o que irá ele nos dizer a propósito disso? Naquilo que nos diz. abriu-me a boca com sua cauda e me golpeou várias vezes com esta cauda. com sua piopria obra. Ele se interroga em seguida sobre a singular constituição desse pintor. no seu amor pela Itália e pela Renascença. cerca Leonardo da Vinci. no conjunto. longe disso. antigo diretor da National Gallery. ainda não tendo conhecido a tristeza nem o drama das separações de seus discípulos mais estimados. ou de superimposição. Isso é dado por Freud desde o início. o que Freud diz é bem centrado com relação ao enigma do personagem. a Sant'Ana do Louvre. Uma das minhas primeiras recordações de infância é. apesar de todas as reservas que persistem. E aqui temos Freud. pois ele era uma outra coisa. que se trata aqui de uma espécie de superposição. desprezada. até mesmo desdenhada pelos historiadores da arte. mas até ali pode se dizer que recuperou o atraso dos dez últimos anos de sua vida. Nós o acompanhamos porque estamos habituados a esse jogo de prestidigitador que consiste em fazer superpor. externamente. o texto de Freud sobre Leonardo da Vinci se relê com interesse. até mesmo sua predisposição. Mas. para nos levar progressivamente à elaboração do que tem de profundamente enigmático. os especialistas em pintura e história da arte. é certamente bem vista e. e Deus sabe como elas o puderam ser. nos diz Freud. que estando ainda no berço um abutre veio até a mim. no entanto. Foi assim que a obra de Freud foi quase que universalmente rejeitada. percebendo mesmo assim a sua importância. Toda a idealização que. inteiramente diversa. na dialética e no raciocínio. e que só puderam se reforçar pela contribuição de novos documentos provando que Freud cometeu erros. no entanto. por outro lado. nos permite compreender que ele tenha ficado fascinado por este personagem. e no entanto. que ele formula de saída. e através deste encadeamento nos conduz para onde quer. e como.434 ENVIO DE HANS-O-FETICHE A LEONARDO-NO-ESPELHO 435 Aqui temos Freud em 1910. e que seria lambem a significação de uma verdadeira intrusão sexual.ii ao cerne do fenómeno. quero dizer. já em seu tempo. Entretanto. que toma por tema Leonardo da Vinci. permanece o fato de que alguém como por exemplo Kenneth Clark. ao mesmo tempo. entre os lábios. aquilo que frequentemente se confunde na experiência e na ri In iça. e é com base nisso que ele . no conjunto. e sobre sua atividade paradoxal. sua relação singular. Eis uma desconcertante recordação de infância. um génio universal. Tudo nos seus antecedentes. que são as duas obras em torno das quais Freud fez girar o aprofundamento que fez. duplicada pela célebre estampa que se encontra em Londres. Digo esse pintor por ora. Suponho que não precise resumir para vocês o curso deste pequeno opúsculo. ao contrário. ainda em vida. aceitando antecipadamente tudo o que cie nos diz. e ele encadeia. ou acreditou fazer. sua provável abstinênt ia inicial e.uiicula sua construção. surgem nesta obra. no que toca ao relevo do personagem. chegado ao que podemos chamar o auge da felicidade de sua existência. a retração com a mãe. a saber. dois registros absolutamente distintos. na verdade. acredito. do caso de Leonardo da Vinci.

O fato foi destacado por vários eruditos. no que esta pode ter como papel de advertência. Existem milhafres no Egito. mas justamente daquilo que está ao lado. aliás. Este milhafre é. Leonardo da Vinci ocupou-se disso igualmente. l HM que o movimento de sua cauda é particularmente exemplar para a ac. alc. bem feito para provocar isso. Não era um falcão. conforme me asseguraram. isto é.lava fomentando lindas preparaçõezinhas da manobra do avião em . Herzfeld traduziu por abutre o que não é em absoluto um abutre. além disso. misturadas aos desenhos. muito insuficiente porém completa. Este foi mais ou menos traduzido em todas as línguas. vamos dizê-lo desde já. nem outro objeto que pudesse representar o objeto de seu desejo além do seio materno. ele fez seu trabalho com o maior cuidado. Infelizmente. Leonardo da Vinci diz: Pareço ter sido destinado a me ocupar particu- Inrmente. paródia repugnante — espero que sejam da mesma opinião i|iic eu neste ponto — do voo natural. tive a surpresa de ver. e a tradução comporta a referência às páginas dos manuscritos.que se tratava de um milhafre. Ora. a saber.ii.u abaria se descobrindo. reproduzido por muitos autores. Freud poderia ter desconfiado. um. de meia página. nos diz ele. não teve outros elementos de sedução sexual senão o que ele chama de beijos apaixonados da mãe. se baseia num ponto. pois esse animal tinha ido pousar no canto de um telhado. até uma idade situável provavelmente entre três e quatro anos. é realmente no plano da fantasia que a revelação. como lhes disse. Não se podia esperar nada melhor da perversidade humana. Esta se encontra bem ao lado de um desenho. chamar a atenção dos pilotos. no máximo. na parle marginal de meu campo de visão algo que fezfru-fru. não é nada disso. portanto. e seria. sob o título Carnets de Léonard de Vinci. e posso mesmo dizer-lhes que. ele o considera nessa lembrança de infância. quando ele • . n2 2. Devo dizê-lo. e existe dele.nns dos quais vou citar para vocês incidentalmente. Ora. É muito l'«mito acompanhar. e que é um milhafre. pois é precisamente de todo interesse da investigação freudiana revelar-nos que. através das eras. Belon. as aventuras desse milhafre.uida do milhafre numa certa época entre as duas guerras. que o abutre de Freud. entre as m. distribuída por diferentes lugares da obra de Leonardo. até mesmo uma falta: mas uma falta feliz.ío do leme. e que esteve no Egito e em outros lugares diferentes do mundo por conta de Henrique II. que se dedicou ao estudo local do movimento da . para um espírito não prevenido. e disparou obliquamente com uma laranja que estava em cima de minha mesa.manjar. Tudo isso.u i umar as coisas. numa folha onde se faz o estudo do voo dos pássaros. em suma. com um estilo particular.. como a lembrança encobridora de algo que é o reflexo de uma fantasia de felação. Freud. senão na citação da passagem em Herzfeld. que fez uma obra muito honita sobre os pássaros. isso não deixa de levantar pelo menos um problema. estando a tomar meu café da manhã em Luxor. que é um dossier de Leonardo da Vinci que se encontra em Milão. o Velho. tendo largado a pequena laranja para mostrar que aquilo era uma simples brincadeira. e devemos assim mesmo reconhecer que. poderia ter se reportado a essa referência nas notas de Leonardo da Vinci. no caso o Codex atlanticus. aconteceu nessa história o que podemos chamar de um acidente. que não é outro senão a identificação do abutre com a mãe. que são em geral de cinco. com toda a probabilidade. Meyer Shapiro.. 1956. . viu alguns deles no l (Mio. não teve outra presença além da materna e. ter a ver com o Egito. É um animal t|uc nada tem de especialmente atrativo. i. frequentemente à margem dos desenhos. e em último pelo sr. < onhecido desde a Antiguidade. e via-se muito bem t|uc era um animal ruivo. seis. que nos descreveu como sórdidos e pouco gentis.ios do sr. o abutre egípcio. pois. mesmo assim. . . na medida em que esta seria justamente o personagem fonte da intrusão imaginária. segundo este. mas logo percebi que nfio era nada disso.ilmal de contas. sete linhas. Afinal de contas. daqui a pouco. Leonardo. . por mais milhafre que fosse. tive por um instante a esperança de que tudo iria se .ique. sem dúvida. é exposta pelo próprio Freud. Freud não leu essa recordação de infância. O fato de que o milhafre seja particularmente interessante para o estudo do voo dos pássaros é uma observação que já se encontra em l'l mio. i Irsenhado. não do abutre. Acreditei por um instante que fosse um falcão. como de hábito. ele o leu em alemão. Estão vendo como sempre desejo . Estão vendo o quanto ele é um tiii i mal familiar e observável. Esse abutre de cauda fremente que vem golpear a criança é construído.<|ue veio acabar em nossos dias.436 ENVIO DE HANS-O-FETICHE A LEONARDO-NO-ESPELHO 437 O começo. Ele deve. onde se encontra o que Leonardo deixou em notas manuscritas. Logo me assegurei de. num artigo publicado no Journal of History of Ideas. Freud não hesita por um instante em formulá-lo assim.i tradução francesa. Fokker.

isto é. corresponde aproximadamente à letra aleph. que fez uma coleção desses elementos legendários da época em 1566. Existe um abutre egípcio que se parece muito com ele. sob o nome de Hierax. já que e aquela de que tomei emprestado o desenho que ornamenta a capa c 1. pois um certo Piero Valeriano. que se trata de um animal em que não existe o sexo feminino. a saber. É ele que. e que o faz dar um passo na dialética. Passo a vocês o fato de que santo Ambrósio toma a história do abutre fêmea como um exemplo que a natureza nos dá de propósito para favorecer a entrada em nossa cachola da concepção virginal de Jesus. Este abutre bem diferente. a deusa Mut. no Renascimento. remonta a muito i empo. e outros animais vizinhos. foram objeto. e neste caso se lhe põem uma pequena bandeira a mais. O ABUTRI-. não. pareceu-me . à época da decadência egípcia. o qual está no limite entre os milhafres c os falcões. mas nem por isso é menos acolhido na cultura medieval. de modo algum. e Freud realmente se enganou mesmo. deveria conhecer essa história. mais ou menos o falcão egípcio em questão. EGÍPCIO Tudo iria muito bem se fosse este a servir a deusa Mut. isto é. de um certo número de roletâneas. É encontrado em mais de uma associação. mesmo assim. Aí está o abutre. mil vezes transpostos. é realmente o abutre a que se u-1 cré tudo aquilo que Freud destaca da tradição do género bestiário. pois ela é muito conhecida. já o sabia. Horapolo dá a descrição que vejo aqui escrita: — A orelha pintada significa a obra feita ou que se deve fazer. Ele serve de elemento determinativo. e que ele chama de falcão egípcio. Mas isso não dá certo. e que se encontra atestado na Antiguidade. da qual aqui está a edição de 1519. Ou bem ele designa. por exemplo. nos ideogramas egípcios. Isso é provável. de quem vocês sabem que Freud fala. e é este que teria podido arranjar as coisas. Esta obra. Heródoto nos ensina que não se podia matá-los no antigo Egito sem atrair os piores problemas. mas não está provado. do qual se fala desde Heródoto. Ou então ele irá se contentar em ser ele próprio equivalente a M.1 revista La Psychanalyse. primeira edição. e depois o pequeno determinativo. Os escritos i leste último. nesse sentido que lhe acrescentam. feita em vida de l . acrescentando. pois só soube esta manhã que estava em santo Ambrósio. que não se parece cm absoluto com o anterior. que isso está em quase todos os Padres da Igreja. a propósito do abutre. corno muitos outros. onde se trata sempre de uma deusa mãe. e nada teria de extraordinário. É aquele de que fala Belon. recopiados e deformados. em Horapolo. ou bem ele está integrado a todo um signo que irá escrever Mut. Mas não vamos nos deixar arrastar pelos maus hábitos de uma ópoca de que nem tudo se deve imitar. um verdadeiro Gyps. pelo fato de Leonardo da Vinci ser letrado. Freud admite que. mas ele encontrou também uma anotação muito mais interessante. pois o abutre que serve à deusa Mut é o seguinte: O GYPS FULVUS Este não tem um valor fonético como o outro. Freud parece admitir.438 ENVIO DE HANS-O-FETICHE A LEONARDO-NO-ESPELHO 439 Mas a situação é complicada. sem crítica. Há um grande número deles no Egito e. por si mesmo. às quais os gravadores da época traziam pequenos emblemas e que eram supostos nos fornecer o valor significativo de um certo número de hieróglifos egípcios maiores.conardo por Alde Manuce. É em Horapolo que Freud toma a referência de que o abutre tem i\o da mãe. deveria ser familiar a vocês todos. aliás fragmentários. Ele se parece um pouco com o milhafre e com o falcão. Este é um velho bordão zoológico que. um pequeno t para fonetizar o termo. Na verdade. Devo dizer-lhes que não pude controlar isso. ele é sagrado. li existe tanto menos interesse em prová-lo na medida em que não se irata de um abutre. naturalmente. nos melhores autores. de que falo nos meus discursos sobre os hieróglifos e sua função exemplar para nós.

Quero dizer que ele vai a todo instante buscar traços de uma passagem crítica. em maio de 1910. designação tradicional para a curiosidade que o animava. Eu não me permitiria a vantagem fácil de criticar. na medida em que ela é destinada a instituir uma certa relação estável entre os sexos. do falo imaginário na medida em que é objeto do Penis-neid da mulher. ligada a uma mãe que está. devido ao fato de que o caramujo é um animal terrestre. Creio tê-lo destacado perfeitamente para vocês. 3 Seis anos depois dos Três ensaios sobre a sexualidade e dez ou doze anos depois das primeiras percepções que Freud teve da bissexualidade — naquilo que Freud até então destacou da função do complexo de castração. de lhes mostrar que de tudo isso nada subsiste. faz dele quase que um traço obsessivo. de uma relação deixada em não-sei-que repetição de termos. o fato de que a criança. e tenha ido muito mais longe que os suportes que algum acidente pôs a seu alcance. Freud se refere de tempos em tempos a um certo número do que podemos chamar de os traços neuróticos de Leonardo da Vinci. em espécies de lapsos obsessivos. muito precisamente. mas para a criança que depende desse sujeito. e que maltrata os filhotes. o milhafre e um certo número de elementos simbólicos. a primeira obra em que Freud menciona o termo "narcisismo". isto é. é o começo da estruturação como tal do registro do imaginário na obra freudiana. não pela primeira vez. e não por acaso. Portanto. assim como o caramujo seria apenas macho. Esta estrutura original é aquela em torno da qual fiz girar toda a crítica fundamental da relação de objeto a que procedi este ano. Trata-se. A questão é saber o que isso quer dizer. por si só. Acontece com frequência que.440 ENVIO DE HANS-O-FETICHE A LEONARDO-NO-ESPELHO 441 uma fonte particularmente importante a consultar para ver o que poderia ser. a importância da função mãe fálica e mulher fálica. Não para aquela que é o seu sujeito. oferecendo amplamente sua cauda ao vento. Vejam o que teria resultado se Freud tivesse topado com isso. Aí está a aresta do que Freud nos traz nesta ocasião. não é por esta razão que eu a conto a vocês. Ele assinala também Basílio o Grande. Este não-sei-que de paradoxal que existe na sede de saber de Leonardo. aliás. em sua cupido sciendi. na análise do pequeno Hans. no caso. Todavia. a visão do génio tenha sido guiada por muitas outras coisas além dessas pequenas pesquisas. eis a relação que Freud introduz. o qual se interessava muito por tipos de fábulas construídas sobre essas histórias. o que é que introduz de novidade o ensaio sobre Leonardo da Vinci? Ele introduz. isolada na confrontação dual com a mulher. mas não indica todos os Padres da Igreja. nos permite ter acesso ao mistério da posição de Leonardo da Vinci. ao passo que. Em outras palavras. eis em torno do que gira tudo o que Freud elucubra a propósito de Leonardo da Vinci. para a parceira materna. por um lado. e nos formular a questão do outro termo aqui introduzido por Freud. como se vê numa imagem muito bonita. fundada segundo uma relação simbólica. uma invenção genial. Pode-se ler por exemplo em suas notas que o milhafre é um animal muito inclinado à inveja. e é isso que. e que se distingue absolutamente de tudo o que ele pôde dizer até ali sobre a relação entre a mulher e o falo. Que a criança esteja. na época. que se arrasta. já que o chama de uma compulsão a bisbilhotar. por outro lado. Leonardo da Vinci. ligada no plano imaginário ao falo como falta. e ele assinala que santo Ambrósio relata isso. Precisamos agora nos deter um instante no que chamarei o contraste e o paradoxo do personagem de. mas que aparece ali com uma insistência particular: u sublimação. e é interessante relacionar um e outro. o que isso nos permite ver. nem toda a personalidade de Leonardo da Vinci se explica . como um monte de histórias dessa espécie que proliferam em Leonardo da Vinci. se vê ao mesmo tempo defrontada com o problema do falo como falta para sua parceira feminina. só-depois. Isso é o que constitui o destaque e a originalidade dessa observação. com todos os tipos de defeitos. que é. O abutre seria apenas fêmea. da importância do falo. Encontramos aqui o seu testemunho no pensamento de Freud. Grubelzwang. como parece admitir o autor a que Freud se refere. correlativamente. e a interpretação diferente que a partir daí poderíamos dar da relação com a mãe. por outro lado. o abutre concebe no céu. Não se pode dizer que não haja aí uma certa indicação. que de toda essa parte da elaboração freudiana nada há a reter? Não. Esta era uma tradição. para mim. A história do abutre tem seu interesse.

especialmente. que está em causa no caso de Leonardo. e que os desenhos que ele nos deixa na ordem da cinemática. senão de uma sublimação. não tanto por seu cálculo. e. de uma tradição fundada em certas evidências da experiência. como uma cias saídas essenciais daquilo que resta da tendência infantil exaltada. quero dizer. à entrada viva das matemáticas na ordem da análise dos fenómenos do real. a noção de sublimação. Praticamente. fazia com que não fosse absolutamente realizada a conjunção da formalização matemática bastante avançada. por exemplo. um resto de tradição aristotélica. quanto por seus desenhos. inserções tais como a seguinte: um corpo tomba tanto mais rápido quanto mais pesado. se torna mais sublime: pois pareceria. o elemento intuitivo. foi desde então retomado por um certo número de autores da comunidade psicanalítica. em todos estes planos. de desinstintualização do instinto. aliás — a deslindar o problema. trabalhos já muito adiantados na matematização. florescer sob a pena de Hartmann e Loewenstein. Todavia. os quais parecem entregues à lei da gravidade. Esta força está ligada a um braço giratório. que seja este o Stuffda sublimação. em construção. com frequência. com muita frequência. o que ele nos traz é. pelo que chamarei de uma espécie de visão do campo de força determinada. até mesmo de um objeto que. uma desagressivação da agressividade. isto é. percebemos que eles são. pelo menos iniciar uma reflexão que nos pode permitir fazer repousar o termo sublimação sobre uma base mais estruturada que a noção de um instinto que se desinstintualiza. ao acompanhar nossos psicólogos do ego. o elemento de imaginação criadora está ligado nele a uma certa predominância . Em suma. por exemplo. a experiência no nível concreto da experiência comum. os desenhos dessa obra de engenharia que tanto surpreendeu. sublimação. precursor espantoso do pensamento moderno. Nós o encontramos explicitamente.442 ENVIO DE HANS-O-FETTCHE A LEONARDO-NO-ESPELHO 443 pela neurose. até mesmo fixada. ainda que a experiência. Vocês sabem. mais correntemente. o que faz a originalidade desses desenhos? Se retomarmos uma parte daquilo que ele nos deixou. Em outras palavras. que pode girar em torno de um eixo. O interesse de um estudo como o de Leonardo da Vinci por Freud é que nós podemos. Isso é o que sustentam alguns. que começou durante sua vida. tanto os contemporâneos quanto as gerações sucessivas. em criatividade. Eis os termos mais amáveis que vemos. da cinemática. da balística. o espírito humano que se levou todo o tempo que vocês sabem para que se chegasse a lhe dar uma formulação concreta. Leonardo da Vinci foi ele próprio objeto de uma idealização. não nos esclarecem sobre o mecanismo da sublimação. Duhem. além disso. Devo dizer que aí está algo de muito difícil de conceber: uma deslibidinação da libido. c já é bastante ver. se podemos dizer. com frequência. por exemplo. Freud faz intervir. da dinâmica. coisas extraordinariamente à frente de seu tempo. em seus desenhos e comentários que os acompanham. Este termo. absolutamente admirável em inventividade. ou mesmo o princípio da inércia. dos corpos reais e existentes. mais ainda. e mesmo críticos muito eruditos. ali. muito à frente de seu tempo. E. como se diz. pareça impô-lo. de maneira excelente. mas que não podem ultrapassar certos limites ainda não transpostos quanto à utilização e. mostrando o papel que podia desempenhar a sublimação na instauração dos interesses do eu. tomar algumas ideias. a elegância com que ele determina os teoremas que podem servir de base para a avaliação da mudança progressiva da instância de uma força ligada a um corpo circunvolúvel. diz que Leonardo da Vinci havia entrevisto a lei da queda dos corpos. não sem já a haver introduzido nos Três ensaios. Penso que todos vocês conservaram o bastante do ensino secundário para saber que este é um teorema de profunda falsidade. Um exame um pouco rigoroso do ponto de vista da história das ciências mostra que não é nada disso. de uma percepção extraordinariamente pertinente. implicitamente. aquela que tanto sobrecarregou. Todavia. até mesmo fascinou. da mecânica. Outros fazem o mesmo em planos diversos do da arte. é claro que Leonardo da Vinci fez descobertas surpreendentes. mas os objetos mais elevados do que é oferecido à consideração humana e inter-humana. com o domínio da experiência. que o ligam à noção de neutralização. que fora feita de toda uma cinemática abstrata. Pensem que ainda achamos em Leonardo da Vinci. dão conta. Freud só acrescentou mais tarde algumas complementações. como se diz. isto é. o que não nos permite de modo algum acreditar que não houvesse. por exemplo. Qual será a variação da eficácia desta força à medida que gire a alavanca? Eis os problemas que Leonardo da Vinci irá traduzir. e que tende a fazer dele uma espécie de génio universal e. Todavia. que começaram — como Freud. o fato de que a sublimação é uma tendência que incide sobre objetos que não são os objetos primitivos. com sua evidência experimental.

do impossível. com essa revolução constituída pela matematização do real. Em suma. de saída. que valeria a pena ver até que ponto se torna para ele uma preocupação obsessiva. e que começa a instauração de uma física matematizada. de detectar a história. de que são os corpos mais pesados que caem mais depressa. depois de séculos inteiros de esforços para chegar a isso. aquilo cuja presença deve ser captada. originais. certas quantidades ou valores que se ilustram e se materializam na simples disposição dos aparelhos. para chegar a uma confusão do imaginário com uma espécie de outro que não é o Outro radical com que lidamos. a distância em que estamos dele. e que lhes ensinei a desenhar como sendo o lugar. Até então. que só será resolvida com segurança por Galileu e. demonstrar que não pode haver ali alguém que lhe responda. Digo isso porque está em Leonardo da Vinci: — A natureza está cheia de infinitas razões que jamais estiveram na experiência. e de se fazer o duplo e. Isso é tão verdadeiro que. É o elemento absolutamente primeiro. o signo. até mesmo falsa. e disso ele dá demonstrações tão curiosas. de certo modo. em suma. não é um sujeito. Este outro. nesse incompleto. Entendam que é necessário. uma espécie de precursor do experimentalismo moderno. o fato de se resolver purificar radicalmente o método. nesse parcial. essa confusão de corpos que faz com que Sant'Ana mal se distinga da Virgem. E. de geração em geração. está aí para mostrar. categoricamente. como se faz com muita frequência. este outro transforma o caráter radical da alteridade do Outro absoluto em alguma coisa acessível por uma certa identificação imaginária. e onde ele observa. jamais se chegou a isso antes de se resolver fazer. e do qual se trata de decifrar os signos. Vocês têm aqui toda a diferença. a articulação. se pode manifestar por si só todos os tipos de elementos intuitivos. em primeiro lugar. a partir de uma fórmula que não pode. das posições do problema que partem. esta separação entre o simbólico e o real. havia pessoas para quem esta era uma verdade quase escandalosa de se proclamar. tão divertidas. em que se engajava o pensamento daquele a quem se chama um precursor. e que seria aquilo em que todos crêem então. veremos em Leonardo da Vinci uma teoria insuficiente. no nível da fotocópia azul. A natureza é para ele. Ele insiste nisso.444 ENVIO DE HANS-O-FETICHE A LEONARDO-NO-ESPELHO 445 dada ao princípio da experiência. mas cujas razões é possível ler. se virarem o desenho. isolar de toda espécie de pretensa intuição do real a formulação de fórmulas submetidas à hipótese. de que se trata de capturar a potência criadora. O paradoxo dessa fórmula. a uma evidência como esta. pôr a experiência à prova dos termos. primário-simbólicos. aquele. se satisfazer em parte alguma. nos diz um crítico da história das ciências como Koyré. fonte de todos os tipos de intuições fulgurantes. Todos estes termos. Aí está todo'o interesse de uma história das ciências. da gravidade. se fizermos de Leonardo da Vinci. É um outro a que se opor. do desenho técnico do engenheiro. De que outro se trata? É muito importante ver nesse sentido como Leonardo insiste em dizer que não existe voz na natureza. Aí está a perspectiva na qual ele interroga essa natureza. com efeito. no entanto. que os pesquisadores. a todo instante. e a dificuldade existente em compreender só-depois. gostaria de que vocês o tomassem em consideração no desenho a que Freud se refere. não haviam podido atingir pela longa série de suas experiências e apalpadelas. não é capaz de resolver certos problemas de níveis mais elevados. ficou-se nesse entre-dois. Um desenho técnico. Isso não é pouco. Pode-se dizer que. isto é. do plano inclinado. por exemplo. e. e a palavra. volta a isso com frequência. aliás apaixonantes de se acompanhar. como um enigma. A posição de Leonardo da Vinci diante da natureza é a do relacionamento com um outro que não é sujeito. que vai de um desenho a um desenho técnico. mas apesar de tudo parciais. O termo "natureza" desempenha um papel essencial na obra dr Leonardo da Vinci. aliás. Leonardo da Vinci interroga a natureza como um outro que. nesse imaginativo. uma vez realizada uma certa soltura no pensar. afinal de contas. sua posição era essencialmente uma relação de submissão à natureza. É por se partir de uma formalização simbólica pura que a experiência pode se realizar corretamente. Todavia. estão nas notas de Leonardo da Vinci. o co-criador. propriamente falando. a sede do inconsciente. correio. isto é. vão ver o quadro do Louvre e perceberão que as pernas da santa estão do lado em que . pois sempre se estará em condições de experiência impuras para realizá-la. Ê somente então que se pode começar a elaborar a partir de um outro ponto de partida. um espírito que fala em algum ponto do ar. nesse fulgurante que pôde fazer com que o próprio Leonardo da Vinci formulasse — é aqui que quero chegar — que. renunciar. para empregar ainda um termo de Koyré. ao mesmo tempo. justamente. se posso dizê-lo. mas de que se trata.

que aliás é o cordeiro. que sua história dá a impressão. nele encontrar — como a cada vez em que lhes falei disso. é a indicação desta falta-a-ser cujo termo encontramos escrito em toda a sua obra. e que é também um de seus enigmas. que é. um problema bastante específico de Leonardo da Vinci. Outra. da criança real e do falo escondido. Todo o mundo compreende que este é o signo de seu drama. e se interrogavam quanto ao seu sentido. A maneira pela qual uma certa experiência compõe com este termo último da relação humana. instituída numa relação puramente feminina. Ele protegeu. é da separação do sujeito dela que Freud faz partir toda a dramatização que se segue na vida de Leonardo da Vinci. uma invenção de Leonardo. Michelangelo. vários deles. que domina tudo. e a partir do momento em que a relação a quatro se encarna — o tema da morte. na história dos motivos religiosos. muito evidentemente. é a SanfAna restaurada. que não seja ambígua e passageira. no anjo da Virgem dos rochedos. no São João Batista. com efeito. pois este é o seu problema essencial. uma verdadeira cativação. patrocinou alguns jovens em cenários refinados. basta ter lido um pouquinho de qualquer história para saber . necessária para dar todo o seu equilíbrio à cena. Trata-se aí de uma certa tomada de posição do sujeito com relação à problemática do Outro. no Baco. sem que no entanto nenhuma ligação mais importante tenha realmente marcado seu estilo — e. esta mulher impenetrável. de seu futuro destino. que passaram por sua vida. A morte é igualmente o que deixará morta a sexualidade de Leonardo da Vinci. O fato de se tratar aí de uma espécie de ser duplo. Nem mesmo Freud acreditou por um só instante que o tema Ana. a figura da morte. o mesmo não ocorre com o fato de representar juntos Sant'Ana. seria. o que se exprime nesse desenho. perfila ao lado da criança este dedo indicador erguido que reencontramos em toda a obra de Leonardo da Vinci. qual. a Virgem e o Menino. para a capela dos Servites. e cujos aspectos se destacam um por trás do outro. e que ali onde estão as pernas da Virgem estavam anteriormente as pernas de Sant'Ana. o Menino e o quarto personagem aqui introduzido fosse uma invenção exclusiva de Leonardo da Vinci. A Sant'Ana está bem longe de ser. Estaria a morte nessa espécie de duplo. sem que se saiba. a saber. no plano do génio e da criação. notem que a outra mulher. espécie de singular criptograma. ele passa de um para outro. é a isso que se chama sublimação. contrariamente ao que diz o sr. não é duvidoso. ou bem este Outro absoluto. do Menino e do quarto termo de que falamos. não é menos fascinante. se devesse existir alguém a se classificar de homossexual. o mais enigmático de todos. a maneira como desloca a relação radical e última até uma alteridade essencial para fazê-la habitar por uma relação de miragem. Mas ao lado disso. enquanto Sant'Ana. devemos. Onde está ele? Naturalmente. acredito. a maneira como ela reintroduz no interior disso toda a vida das trocas imaginárias. por trás desta. E todos se debruçavam sobre esta cena a quatro onde vemos o menino seguro pela mãe no momento em que vai montar no cordeiro. A todo instante. antes. na vida de Leonardo da Vinci. Ele ali reproduzia o tema de Sant'Ana. Se o quarto personagem expõe. Aí está algo que ilustra muito bem a ambiguidade da mãe real e da mãe imaginária. naquele que está ali diante dele e que é tão facilmente substituível por esse cordeiro? Piero de Novellara escrevia a Isabelle d'Este. com um O maiúsculo. a saber. que se encontra em toda a parte. Que a criança no desenho de Londres prolongue os braços da mãe mais ou menos como uma marionete na qual se engaja o braço de quem a agita. O último personagem. em Leonardo da Vinci. Mas não é disso. Basta que se tenha a mínima noção do que se passou naquela época. mas porque o dedo. a Virgem. Kris. a obra de Leonardo nos dá disso o exemplo.446 ENVIO DE HANS-O-FETICHE A LEONARDO-NO-ESPELHO 447 estavam inicialmente. Em parte alguma encontramos. Se faço do dedo um símbolo dele. este inconsciente fechado. aquele em torno do qual Freud formulou sua interrogação. atestado um laço verdadeiro. da maneira mais natural e com mais ou menos a mesma posição. O quarto termo dessa composição a quatro. por toda a parte. não é porque reproduz grosseiramente o seu perfil. É a de uma paternidade de sonho. de sua paixão. feito para um quadro que Leonardo da Vinci jamais pintou. que é o último Outro absoluto. ou bem. Isso é também. puramente materna. em 8 de agosto de 1501. que toda Florença desfilara durante dois dias diante dessa estampa preparatória de uma obra para o altar-mor da Annunciata em Florença. retém a mãe para que esta não o afaste de seu próprio destino e de seu sacrifício. que Leonardo nunca fez. afinal de contas. são João. da Virgem. desenho que não é único. as pernas da Virgem. aliás. E. mas o duplo de um outro.

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que foi precisamente entre 1485 e 1510 que o culto a Sant'Ana foi promovido na cristandade a um alto grau de elevação, ligado à crítica dogmática em torno da Imaculada Conceição da Virgem. Devemos ver aí a saída de um tema da espiritualidade e de uma coisa bem diversa da espiritualidade, já que esta era a época da campanha das indulgências, e que desaguavam na Alemanha todos os tipos de pequenos prospectos onde estavam representados Ana, a Virgem e o Menino, por cuja compra se ganhavam uns dez mil, até mesmo vinte mil anos de indulgência no outro mundo. Portanto, este não é um tema inventado por Leonardo da Vinci, e não é verdade que Freud lhe tenha imputado essa invenção. Só o sr. Ernst Kris é quem diz que Leonardo foi o único a representar semelhante trio, quando bastaria ter aberto Freud para ver, simplesmente, o tema desse quadro representado com o título Anna Selbdritt, isto é, Ana Si-terceira\m italiano, Anna Metterza. A trindade de Ana é uma função que sobrevêm num momento sem dúvida crítico, que não se trata, para nós, de repensar, pois não podemos nos deixar levar demasiadamente pelas críticas históricas da devoção cristã. Digamos que reencontramos na história a constância de uma trindade-de-si, se posso expressar-me assim, que assume todo o seu valor por encontrar em Leonardo da Vinci sua encarnação psicológica. O que quero dizer com isso? Leonardo certamente foi um homem situado numa posição profundamente atípica quanto à sua maturação sexual, e que faz contraste, dissimetria, com aquilo que se encontra nele, por outro lado, a saber, esta sublimação alcançada num grau excepcional de atividade e realização. Na elaboração de sua obra, cem vezes recomeçada e verdadeiramente obsessiva, nada pôde se estruturar sem que algo reproduzisse essa relação do eu (mói) com o outro, e a necessidade do grande Outro, inscritas no esquema por meio do qual peco-lhes, às vezes, que se orientem com referência a esses problemas. O que devemos pensar da atipia realizada pelo engajamento especialmente dramático deste ser nas vias do imaginário? Que ele colha a habilidade de suas criações essenciais apenas nessa cena trinitária que encontráramos no fim da observação do pequeno Hans, isso é uma coisa. Mas, por outro lado, isso não nos esclarece quanto a uma perturbação correlata de sua própria posição de sujeito? Quero dizer, sua inversão.

Cordeiro (são João)

Mãe fálica

Plano de inversão

Fetiche (Messias)

Anna Selbdritt

A INVERSÃO DE LEONARDO

A inversão de Leonardo da Vinci, se é que podemos falar de sua inversão, está longe, para nós, de poder se reduzir apenas ao paradoxo, até mesmo à anomalia, de suas relações afetivas. Em todos os casos, este registro nos parece marcado por uma inibição singular neste homem provido de todos os dons. Talvez se tenha dito com frequência um pouco demasiada, aliás, que não havia em parte alguma, em Leonardo da Vinci, tema erótico. Talvez isso seja ir um pouco longe demais. É verdade que nos tempos de Freud não se havia descoberto o tema de Leda, isto é, de uma mulher belíssima e de um cisne que praticamente se une a ela, num movimento de ondulação não menos delicado de suas formas. É muito impressionante que seja, ainda, o pássaro a representar o tema masculino numa fantasia imaginária. Mas vamos deixar isso de lado. Se nos ativermos à experiência que podemos ter de Leonardo, existe um elemento que não podemos eliminar. São os seus manuscritos. Não sei se já lhes aconteceu de folhear um volume de suas reproduções. Isso causa, seja como for, um certo efeito, ver todas as anotações de um senhor feitas numa escrita em espelho. Quando, em seguida, vocês as lêem, vêem-no falando o tempo todo consigo mesmo, chamando a si mesmo por você: — Você vai fazer isso, vai perguntar a Jean de Paris o segredo da tinta seca, vai buscar pitadas de lavanda ou de alecrim na loja da esquina. São coisas dessa ordem, onde tudo está misturado. Como não ficar fascinado? Em suma, a relação de identificação do eu (mói) com o outro que se insta