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MARAVILHAS

DA CIÊNCIA
i
ÍNDICE

A pequena esfera de aço de uma esferográfica, a descolagem


de um Jumbo, a identificação das impressões digitais de um criminoso,
a construção de uma torre com mais de 500 m de altura, a habilidade de tirar
um coelho do chapéu. Estas são algumas das maravilhas e curiosidades
que esta obra lhe revela. Esperamos, porém, que ao folhear
este livro encontre muitos outros assuntos que lhe
despertem o seu interesse e a sua admiração.

Fecho de correr 20 Um serviço mundial de mensageiros 56


Parar um elevador em queda 20
MILAGRES Testes de cheiro no gás natural 21
As fibras dos saquinhos de chá 21
DO DIA-A-DIA Fósforos aos milhões 22
C o m o adere a película aderente? 23
Pp. 9-30 Panelas antieslurro 23
C o m o cozinham as microondas 24
Desenhos em néon 10 C o m o os frigoríficos "fazem frio" 25
Iluminação controlada pelo Sol 11 Panelas de pressão 26
A resistência das lâmpadas 11 Eliminando o calcário das panelas 26
As pilhas 12 "Girinos" na máquina de lavar 27
Como se "mete" o bico num lápis 13 Pasta de dentes - de giz e algas 28
Esferográfica 14 0 fio das lâminas de barbear 29 O controle do tráfego citadino
Supercolas 15 Aço inoxidável 30
Os post-it 16 Notícias de todo o Mundo 57
Pondo perfume num papel Itj Elaboração de um dicionário 58
Fotografias em pontinhos 17 Abastecimento de um exército
As máquinas de moedas 18 GRANDES em guerra 513
Vclcro 19 l ni dia n u m hotel de luxo 61
PROEZAS DE Um dia n u m transatlântico 62
Como se organizam as Olimpíadas 64
ORGANIZAÇÃO Como se faz um
Pôr em cena u m a comédia
filme 66

Pp. 31-72 musical


Equipas de socorro de montanha
68
71
Multidões nos aeroportos 32
Evitando colisões aéreas 33
A selecção d o s controladores
aéreos 34 TÉCNICAS
A caça aos terroristas 35
Refeições a bordo de um Jumbo 37 DE LOGRO
0 m u n d o da Bolsa 38
Dinheiro para queimar 41 E DETECÇÃO
C o m o se constrói um automóvel 11
A previsão meteorológica 44 Pp. 73-100
Abastecimento de água a uma
cidade 46 0 avião "invisível" 74
Tratamento de lixos 47 Camuflagem 76
Combate a incêndios na floresta 40 Scramblers 77
O problema do trânsito 50 Códigos e cifras 78
Um dia nos cuidados intensivos 52 () m u n d o das "toupeiras" 79
Fotografias aéreas para mapas 54 Dispositivos de escuta 80
Pormenor do vekro Uma carta atravessa o Mundo 5(5 Tintas invisíveis 81

1
As drogas da verdade 81 Seda: fabricada por borboletas Defesa contra torpedos e mísseis 154
Fotografias que mentem 82 Vestuário de fibras sintéticas Como guiar mísseis até ao alvo 156
Detectores de mentiras 87 Tecidos com padrões Como um soldado vê na escuridão 157
A busca das causas de um Produção de vestuário cm massa Porque vai uma bala a direito 157
incêndio 89 Construindo armas nucleares 158
Descobrindo pinturas ocultas 90 Raios de laser no espaço 159
Extinguir um incêndio nuclear 160
Velejar contra o vento 161
O restauro de uma obra de arte 161
A pintura da Capela Sistina 162

A EXPLORAÇÃO
DO UNIVERSO
Pp. 165-186
A força que impele o foguete 167
Dos fios de algodão ao tecido

Como se obtém água doce


1 •j
do mar 117
Transformar lixo em energia 118
A reciclagem do lixo 119 W"'V' ÍM E. ^ B
Electricidade a partir do urânio 121
Armazenagem de resíduos
nucleares 122
' '«1 %
h À
Electricidade a partir das marés 123 ^H^^y ^ vt *"*'
Electricidade a partir do vento 124 ^P-^
'^^^^^^^^E ^\ à^Si
Rochas quentes: fonte de energia 125
Fotografias ' men t irosas' A origem das chuvas ácidas 126

Impressões digitais 92
Captando a luz do Sol
Fotografias de alta velocidade
127
128
W Â
A "dacliloscopia" genética 94 Captar em filme a Natureza 129
Como se produz um retrato-robô 95 Plástico que se autodestrói 130
Análise ria caligrafia 95 A "revolução do plástico" 131
Detecção de droga 97 Como se extrai petróleo 132
Desmascarando traficantes 98 Prospecção de petróleo 133
A investigação de desastres aéreos 99 Limpar derrames de petróleo 134
Fogo num poço de petróleo 135
Como se mede uma montanha 138 Deslocação no espaço
Tesouros no fundo do mar 138
IDEIAS PRATICAS O escafandro autónomo 140 Navegação no espaço 168
Reparação dos cabos Refeições numa nave espacial 169
E SOLUÇÕES submarinos 141 ("orno os satélites giram em órbita 170
Diamantes sintéticos 142 O controle das sondas espaciais 172
ENGENHOSAS Como se cortam diamantes
O corte do diamante Cullinan
143
144
Fotografias por satélite
Receber fotografias de satélites
174
175
Pp. 101-164 A técnica dos vedores 146 Einstein e a relatividade 176
Como se faz chover 146 Medindo o Universo 178
Como se obtêm os melais puros 102 Construindo os aviões do futuro 146 Os espelhos dos telescópios 180
Como se transforma areia em Aeroplanos accionados pelo Como se contam as estrelas? 182
vidro 104 homem 149 Como acabará o Universo? 183
Das árvores ao papel 106 Aterragem em porta aviões 150 Em busca dos limites do Universo 183
Converter plantas em gasolina 108 lançamento de aviões "Vendo" o invisível buraco negro 183
Conversão de carvão em petróleo 108 de um navio 151 A serpente que voltou do espaço 184
Captando a fragrância das flores 108 Tácticas dos pilotos de caça 151 Descobrindo planetas 185
Tecido feito de fibras naturais 110 "Ver" com o radar 154 Em busca de vida no espaço 186
ÍNDICE
O vídeo 220

MARAVILHAS Gravação em fila


O gira discos
221
222 MARAVILHAS
.Sons de duas direcções 223
DA CIÊNCIA Edison e a lu/ eléctrica 224 DA MEDICINA
CDs: música com um raio
Pp. 187-210 de laser 226 Pp. 275-298
Os sintetizadores 227
Clones de plantas e animais 188 Fibras ópticas 228 A criação de um bebé-proveta 276
Os segredos das células 189 Hologramas 229 O exame oftalmológico 277
Criação de novas espécies 190 Fax fotocópias pelo telefone 230
Como se iriam novos O "bip" que nos chama 231
medicamentos 191 Fotocopiadoras 231
Comunicar c o m .munais 192 A câmara fotográfica 232
Os mamutes voltarão a existir' 193 «'•'miaras de focagem automática 237
Reconstituir seres pre-historieos 194 0 cristal de silício 238
Km In isca da máquina pensadora 196
Como é que um computador
traduz? 196
Computadores que falam 197
Como se cindem os átomos? 198 Quando a cida auneçu numa panela
Explorando o interior do átomo 199
Ver os átomos 200 Como os óculos aguçam a vista 27,s
Medindo a velocidade da luz 201 Como se fazem lentes
Medindo a velocidade do som 201 de contacto 278
Chuck Yeager e a barreira do som 202 Corno lêem os cegos 280
A previsão de sismos 201 Como se mede a inteligência 281
Perfurando a crusta terrestre 206 As utilizações de um micmchip o que e ,i memória? 282
A deriva dos continentes 207 O que e a hipnose? 2.82
Os computadores 239 Como se treinam os atletas 283
Como as calculadoras fazem "Vendo"' o interior do corpo 287
somas 211 Antibióticos 288
Os cofres dos bancos 2-12 A microcirurgia 289
Dinheiro de plástico 212 Marie Curie e o rádio 290
O código de barras 2 13 Operar com um feixe de luz 292
Relógios de quartzo 211 Como a anestesia elimina a dor 292
Relógios atómicos - a perfeição 211 Para que ser\e o pacemaker 293
O microscópio electrónico 2 IS A cirurgia de transplante 291
Os robôs 246 Eliminar as rugas da face 295
O motor de um automóvel 248 O primeiro transplante cardíaco 296
Travões antibloqueio 2S0 Como trabalha um rim artificial? 298
O cinto de segurança 230 Como se reduz, a calvície 298
Porque se usam pneus lisos 251 Sobreviver a um raio 298
Dndc <>s ctuUttwntes se separam Testes de alcoolemia 2S1
Como funciona um aerossol 251
A idade da Terra 209 Os herbicidas selectivos 252
O centro da Terra 210 Os pesticidas selectivos 253
254
CONSTRUÇÃO
Metais com memoria
Relógio de fumo
Alarmes contra ladrões
254
254
E DEMOLIÇÃO
COMO A máquina de costura 255
256
Pp. 299-316
Porque flutuam os navios de aço
FUNCIONA? Submerso durante semanas
Como se navega uni submarino
257
259
Construir um arranha céus 300
A mais alta construção do Mundo .502
Pp. 211-274 Cabinas pressurizadas
259
260
Como o cimento faz presa
George Stephenson e os comboios na tigiia .303
262
(i teletl me 212 A descolagem de um Jumbo Betão (ire esforçado 303
268
A radio 2 IS o helicóptero A demolição de um arranha-céus 301
272
A televisão 218 o hydrofoil: 'Voando" na água Demolindo uma central nuclear 305
271
Controle remoto 220 o hot ercrafi Cabos que poderiam atar o Mundo 306

6
Como se represam grandes rios? 308 Os cosméticos primitivos 367
Construções resistentes ao vento
Montagem de gruas gigantes
311
312
C o m o os Gregos mediram
a Terra 367
PURO
Soldar debaixo de água 314 Decifrando línguas esquecidas 368
Construir túneis debaixo de água 316 Travessia aérea sem escala 370 DIVERTIMENTO
Pp. 395-437
CURIOSIDADES C o m o serrar uma mulher ao meio 396
Mm coelho no chapéu 397
DE ALIMENTOS Morte de um apanhador de balas
Levitação
398
399
E BEBIDAS O truque da corda indiano
Homens que "lêem" o pensamento
400
401
Domar a Natureza Pp. 373-394 Os venlríloquos 401
Houdini: o mestre da evasão 402
Como os túneis se encontram A pêra dentro da garrafa 571
Rodelas de ananás todas iguais 375
C o m o se faz o luro no macarrão 375
C o m o se recheia uma azeitona 375
COMO FOI FEITO Rechear chocolates 376
Bolachas c o m pedaços
Pp. 317-372 de chocolate 376
Filetes prontos a fritar 376
A Grande Pirâmide 319 Batatas fritas aos milhões 377
324
r
As doenças dos antigos egípcios Camarões descascados
Os rostos do passado 325 à máquina 377
Ferramentas na Idade da Pedra 327 Ervilhas congeladas 378
•\s estátuas da ilha da Páscoa 328 Alimentos tratados c o m radiações 378
A Cirande Muralha da China 333 A liofilizaçáo 379 Porque é que náo caem''
Um exército de barro 335 Café instantâneo 380
As paredes de pedra dos Incas 33(3 Sabores artificiais 380 O truque das três cartas 404
A construção de Stonehenge 338 Escolher feijões 381 Montanha russa 405
Datação de vestígios antigos 341 Transformar feijões em "carne" 381 Espelhos que enganam 406
0 passado em grãos de pólen 343 Conservação do leite 381 "Nevoeiro" no teatro e cinema 406
Como Aníbal atravessou Algas nos gel.idos 385 Os eleitos especiais no cinema 406
os Alpes 344 Maionese 385 Os duplos 414
Pão e cerveja na Idade da Pedra 346 l.ouis Pasteur 386 O homem que "embrulha" paisagens 118
Desenhos com pedras 347 Assar um boi 388 Pleitos gráficos na televisão 120
Os artistas das cavernas 347 Comida para animais Animais que são estrelas de TV 425
Os Jogos Romanos 350 de estimação 388 Concursos de televisão 426
Cerco a um castelo medieval 352 A coca-cola 38!) Roleta 427
A navegação \UÍ Antiguidade 355 Como se Faz o vinho 390 Preparando palavras cruzadas 427
Colombo descobre o O sabor do vinho 392 Computadores campeões de xadrez 427
"Novo Mundo'' 356 As bolhíis do champanhe 393 Aprisionar um dente de leão 428
Um barco dentro de uma garrafa I2!>
Cronometrar os atletas olímpicos 429
JutZ de linha electrónico 430
Curvar u m a bola no ar 431
As covinhas nas bolas de golfe 132
Porque volta O bumerangue 432
Andar sobre o fogo 433
Mergulhos " e m seco" 434
Saltos de esqui 434
1'iiuuru nu kludc clu PedrQ Saltos de pára-quedas 435
Surf 436
A construção de l.ady Liberty 359
O memorial do monte Rushmore 362 De onde vêm as bolhas ÍNDICE 438
A hidráulica romana 365
Medicina na Idade da Pedra 366 C o m o se fax cerveja 394 AGRADECIMENTOS 446
Redactores e consultores da edição inglesa

Nigel Hawkes • Nigel Henbest


Graham Jones • Robin Kerrod • Terry Kirby
Theodore Rowland-Entwistle
John H. Stephens • Nigel West
Neil Ardley • John Brosnan • Dr. John R. Bullen
Prof. Geoffrey Campbell-Platt • Mike Clifford
Jean Cooke • Mike Groushko • Ned Halley • Commander D. A. Hobbs
Richard Holliss • W. F. A. Horner • Dr. Robert Ilson
Dominic Man • John Man • Dr. J. R. Mitchell
Prof. Frank Paine • Michael D. Ranken • Nigel Rodgers
Dr. David A. Rosie • Andrew Wilbey

Consultores da edição portuguesa

Dr. Alfredo Barreto • Prof. António de Vallêra • Dr. António Dias Diogo
Eng. António Pratt • Dr. Augusto Maldonado Simões • Dr. Carlos Santos Ferreira
Dr.a Dulce Mota • Eurico da Fonseca • Filipe La Féria • Eng. Francisco Chumbinho
Eng. Francisco Tudella • Dr.*1 Gabriela Iriarte • Eng. Gonçalo Borges de Castro
Dr.a Graça Vieira • Dr.d Helena Paveia • Henrique Sampaio Soares • Dr. Horácio Novais
Dr.a Isabel Barros Ferreira • Dr. João Matela • Arq. José António Abreu Valente
Dr. José António Pestana • Dr. José de Matos Cruz • Eng. José Eduardo Noronha
José Soudo • Liselotte Correia • Dr.a Lúcia Garcia Marques • Manuel Gorjão Henriques
Dr. Ricardo Schedel • Profa Teresa Mira Azevedo • Dr. Vasco Rivoti
Victor Milheirão • Vítor Neto

8
Milagres do dia-a-dia
Todos os dias, e quase sem pensar, nos servimos dos mais
extraordinários instrumentos e materiais - fornos de microondas, pasta
dentífrica às riscas, máquinas de barbear descartáveis. Mas como sõo
feitos, como funcionam e como foram concebidos todos estes
ingredientes maravilhosos da vida moderna?

Como se fazem anúncios aromáticos, p. 16


Como se forma uma bola de sabão, p. 2
Néon: desenhos
luminosos
Por todo o Mundo se vêem anúncios luiui
nosos. formando figuras coloridas ou de-
senhando os nomes de marcas comer-
ciais. Esla variedade na forma e na cor, im-
possível de obter com as convencionais
lâmpadas d€ filamento incandescente,
deve-se às lâmpadas de descarga eléctrica
em gas. Estas são Formadas por simples
tubos de vidro, a que pode dar-se a forma
pretendida, no interior dos quais existe um
gás a baixa pressão. Normalmente, os ga-
ses não condn/.em fac iliiicnlc a electrici
dade — são bons isoladores —, mas pas-
<ore sam ii la/è lo se se lhes baixar a pressão e
se lhes aplicar uma tensão eléctrica (volta-
gem) elevada. A descarga através do gás fa-
lo brilhar com a luminosidade caracterís

l lica.
Nos finais do século xix e princípios do
XX, os cientistas que investigavam o com
portamento das descargas eléctricas atra
vés do gás raro néon a baixa pressão obser-
varam pela primeira vez a admirável lumi
nosidade vermelho-alaranjada que o gás
emite. Ainda hoje as lâmpadas de néon são
das mais usadas nos anúncios luminosos.
Quando experimentaram outros gases,

ffifílf ¥iú
'ih -
\ *1 / í'
/ -

•l.l \*\J\ U t

As noites de néon. O cowboydo Pioneei


Club, com <> seu cigarro bamboleante, do
mino o caleidoscópio de néon de Las Vegas
JXU
(à esquerda). A figura data de 1951. Tam
bem em Hong Kong a noite se enche de
50* luzes (em cima). Algumas, como este dra
gâo, são o pesadelo dos mestres vidreiros.

10* B
r a S f e s t ó i S S J j fci' i
MILAGRES DO DIA-A-DIA

verificaram que luziam com cores diferen-


tes. Por exemplo, a lux emilicla pelo hélio é
vermelho-dourada, e a do críplon, violcta-
pálido. Outros gases, como o árgon e o
Porque as lâmpadas são tão fortes
mercúrio, emitem sobretudo radiação ul
Iravioleta, invisível para os nossos olhos, O vidro de uma lâmpada eléctrica não é lâmpadas a partir de uma fita
mas que tem a propriedade de provocar a muito mais espesso que esta folha de pa de vidro
fluorescência de muitas substâncias. Fsles pel, e, no entanto, suporta uma pressão A manufactura de lâmpadas é um proces-
gases usam se nas chamadas lâmpadas de forte quando enroscamos a lâmpada no so industrial complicado e altamente auto
"luz negra*', vulgares nas discotecas, ou suporte. A explicação reside principal matizado, em que aquelas adquirem a sua
nas de ultravioletas para tratamento ou mente na forma da lâmpada, que segue o forma em moldes a partir de uma fita conti
bronzeamento, mas também, e sobretu- princípio da casca do ovo. nua de vidro em fusão.
do, nas chamadas lâmpadas fluorescen- No início dos tempos, a Natureza resol Um dos componentes essenciais da
tes: o tubo de vidro é coberto com urna vcu o problema de impedir que os ovos lâmpada é o filamento, uma espiral de lio
tinta que fluoresce fortemente com os ul fossem esmagados pelo peso da ave en- de tungsténio com a espessura de um cen-
Iravioletas emitidos pela descarga no gás. quanto eram chocados. A solução foi a for tésimo de milímetro.
As cores das lâmpadas sáo determina ma característica do ovo, que lhe propor A lâmpada dá luz quando um filamento,
das pela mistura gasosa com que se enche Ciona resistência estrutural, permitindo ao ser atravessado por unia corrente eléc-
o tubo, por vezes em combinação com a -lhe suportar pressões surpreendente- trica, fica incandescente. Para evitar a sua
utilização de vidro colorido. mente elevadas. (Se a casca fosse demasia oxidação e rápida destruição, lodo o ar da
do grossa, o pinto não conseguiria quebrá- lâmpada é extraído e substituído por uma
la para sair.) mistura inerte de árgon e azoto. A lâmpada
As lâmpadas tal como os ovos pOS é então rolada, e só depois lhe é colocado o
Como é que o Sol suem um perfil arredondado convexo cm
toda a sua superfície: quando as seguramos
casquilho.

liga e desliga ou apertamos, a forca que aplicamos Irans


mite-se em Uxlas as direcções a partir da área
Lâmpadas que zumbem
Por que razão algumas lâmpadas fazem
a iluminação de contacto, devido à curvatura do vidro. A
pressão é de facto sujxirtada |>or todo o ob
um zumbido antes de se fundirem'' Na
verdade, o filamento quebra se enquan
pública? jecto, sem concentração das tensões em
ponto algum. E por esta razão que o colapso
to a lâmpada está acesa, mas esta conti
nua a dar luz porque se produz um arco
de uma lâmpada ou ovo, uma vez ultra|)as.sa- voltaico entre as extremidades do fio par
Na sua maioria, os candeeiros da ilumina- do o seu limite de resistência, é catastrófico, tido. F. este arco que emite o zumbido
ção pública sáo controlados por interrup fitando todo o objecto destruído. característico.
tores temporizados que comandam toda
uma área. Os primeiros interruptores esta FABRICO DE LÂMPADAS ELÉCTRICAS
vam equipados com um mecanismo de
relógio, pelo que era necessário dar-lhes
corda e acerlá-los todas as semanas.
Muitos dos interruptores temporizados
actuais possuem um relógio eléctrico com
um mostrador rotativo munido de ressal-
tos, que acendem ou apagam as luzes a
horas predeterminadas.
Como as horas do nascer e pôr do .Sol
valam ao longo do ano, os candeeiros da
iluminação pública precisam igualmente
de acender-se e apagar-se a horas diferen-
tes, pelo que aqueles mostradores permi-
tem alterar também o respectivo horário 2. A base da ampola, ao rubro, é
de acordo com as épocas do ano. Para tal, soldada à fiaste de vidro ÇU€ SU
dispõem de um dispositivo mecânico que porta o filamento em espiral.
ajusta todos os meses os ressaltos de on c
Ó/f, que ligam e desligam o interruptor por
forma a seguirem as modificações verifica-
das nas horas de luz natural.
Recentemente, surgiu um sistema de
controle fotoelectrónico que comanda o
interruptor que liga ou desliga as luzes.
Ksle sistema inclui uma célula foloeléctrica
que contém um composto sensível à luz,
como o sulfureto de cádmio ou o silício.
De madrugada, a luz que incide na célula
provoca um fluxo de electrões entre os áto-
mos, conduzindo electricidade até ao in-
terruptor e desligando-o. Quando escure- 1. As ampolas de vidro passam cm frente de urna chama 3. Os contactos na base da am
ce, os electrões imobilizam-se, a corrente para aquecer e amolecer o "gargalo", que em seguida é pola são soldados aos fios que
interrompe se e as luzes acendem se ajustado à medida do casquilho e aparado. conduzem ao filamento.

II
MILAGRES DO DIA-A-DIA

A PILHA ALCALINA
Pilhas - Nesta pilha de longa duração,
um electrólito alcalino (potassa
electricidade cáustica) está misturado
com zinco em pó.
portátil Uma manga porosa
separa esta mistura
de um revestimen-
Foram experiências no campo da anato- to de dióxido de
mia na década de 1780 que levaram à in- manganésio. Um
venção da pilha: Luigi Galvani, professor "prego" metálico,
de Anatomia da Universidade de Bolonha, capta electrões do zin
reparou que as pernas de rãs mortas se co e transmite os ao ter
contraíam quando eram penduradas de minai negatioo. Os elec-
ganchos num varão. Pensou (erradamen- trões dirigem-se, atra-
te) que esse facto se devia a qualquer tipo vés da lâmpada da lan-
de electricidade animal. terna, para o invólucro
de aço, no terminal po
Allessandro Volta, da Universidade de sitioo, e dai pura o dióxi-
Pavia, apercebeu-se de que a electricidade do de manganésio, para o
resultava do contacto entre os ganchos de compensar dos electrões que
cobre e o varão de ferro em que as rãs eram perdera paru o electrólito.
penduradas - as pernas destas faziam
apenas parte do circuito. Esta observação
deu lugar, em 1800, à pilha de Volta, precur- tortas actua como colector da corrente, ça electromotriz de 1,5 V enquanto nova,
sora de todas as pilhas actuais. A pilha de transferindo electrões do terminal positivo mas a tensão eléctrica entre os seus eléc-
Volta era constituída por placas alternadas para o manganésio. trodos diminui com o uso, à medida que se
de zinco e cobre, separadas por discos de Uma pilha seca deste tipo tem uma for vão formando bolhas de hidrogénio na va-
papel, e "empilhadas" umas sobre as ou-
tras (de onde a designação de pilha).
Numa pilha, a corrente eléctrica é pro- O QUE É A ELECTRICIDADE?
duzida pelas reacções entre dois eléctro- Uma corrente eléctrica é um fluxo de Um circuito eléctrico é constituído por
dos (condutores eléctricos) e um electróli electrões — partículas minúsculas de car- um fio, geralmente de cobre, partindo de
to (um líquido ou uma pasta condutora de ga negativa que existem em toda a maté- uma fonte de energia eléctrica e regres-
electricidade). Cada eléctrodo está ligado a ria. Mesmo uma corrente fraquíssima sando a ela
um dos terminais metálicos da pilha. precisa de um fluxo de biliões de elec- Por isso, as tomadas em nossas casas
Quando a pilha é integrada num circuito, trões. têm dois tenninais. Quando ligamos, por
produz-se neste um fluxo contínuo de Toda a matéria é composta por peque- exemplo, um candeeiro, estamos a com-
electrões entre um terminal (o negativo) e níssimas partículas chamadas átomos, pletar (fechar) o circuito eléctrico, permi-
o outro (o positivo). constituídos por um núcleo central com tindo a passagem de corrente através dos
A produção deste fluxo deve-se ao facto carga eléctrica positiva e por electrões condutores de cobre e do filamento das
de o material de um dos eléctrodos come- que orbitam em torno dele, dispostos em lâmpadas.
çar a dissolver-se parcialmente no electró- camadas, em número exactamente sufi- Os geradores que abastecem a rede de
lito — isto é, os seus átomos começarem a ciente para, com as suas cargas negati- distribuição pública não são pilhas, mas
migrar para o electrólito sob a forma de vas, compensarem a carga positiva do nú grandes máquinas eléctricas chamadas
iões positivos, deixando electrões a mais cleo — os átomos são assim electrica- alternadores. Ao contrário das pilhas, nas
no eléctrodo; estes podem partir para o mente neutros. quais um dos terminais tem sempre um
circuito através do terminal negativo. Um fio condutor só é percorrido por excesso de electrões (o negativo) e o ou-
O outro eléctrodo é geralmente de um uma corrente eléctrica se houver excesso tro deficiência (o positivo), cada terminal
material diferente e que não se dissolve (ou deficiência) de electrões numa das de um alternador tem sucessivamente ex-
da mesma forma no electrólito. Pelo con- suas extremidades relativamente à outra. cesso e deficiência de electrões, alternan-
trário, perde electrões para os iões positi- Essa diferença é designada por diferença do portanto entre ser o positivo ou o ne-
vos do electrólito, tornando-se deficiente de potencial, ou tensão eléctrica, e é me- gativo. Um circuito alimentado por um
em electrões — que vai buscar ao condu- dida em volts. alternador é percorrido por uma corrente
tor que fecha o circuito para compensar No caso das pilheis, é gerada uma defi- sucessivamente num sentido e no opos-
esta deficiência. O fluxo contínuo de ciência de electrões num dos eléctrodos to: é uma corrente alternada. (A corrente
electrões que assim se estabelece de um e um excesso no outro, de forma que, se gerada por uma pilha sempre no mesmo
eléctrodo para o outro é que forma a cor- ligarmos um voltímetro entre os seus sentido é uma corrente contínua.)
rente eléctrica. dois terminais, mediremos uma dife- Convencionalmente, considera-se
As chamadas pilhas secas não contêm rença de potencial - também chama- que a corrente eléctrica flui do terminal
electrólito líquido livre. A caixa metálica da da força electromotriz da pilha. Se agora positivo para o negativo. Esta convenção
pilha é de zinco e forma um dos eléctrodos unirmos os terminais da pilha por meio foi estabelecida antes da descoberta do
da pilha. Nela está contida uma mistura de de condutores eléctricos (por exemplo, electráo, ao qual, de acordo com ela, teve
cloreto de amónio, que constitui o electrn o filamento de uma lâmpada), fechan- de ser atribuída uma carga negativa. O
lito, e dióxido de manganésio. O manga- do o circuito eléctrico, estes serão per- fluxo de electrões é portanto no sentido
nésio é, na realidade, o outro eléctrodo, corridos por uma corrente (a lâmpada contrário do sentido convencional da
pois perde electrões para o cloreto de amó- acender-se-á). corrente eléctrica.
nio. Uma vareta central de carvão-das-re

12
MILAGRES DO DIA A DIA

reta de carvão, o que reduz a área da super-


fície do eléctrodo.
As baterias de automóvel são baterias de
acumuladores, assim chamadas porque
Como se "mete" o bico num lápis
podem ser recarregadas - isto é, as suas
reacções químicas são reversíveis. O tipo Os antigos egípcios, gregos e romanos uti-
mais comum de bateria possui seis pilhas lizavam pequenos discos de chumbo para
primárias (elementos) ligadas entre si. traçar linhas nas folhas de papiro antes de
Cada elemento possui vários eléctro- nelas escreverem com pincel e tinta. No
dos, as placas, alternadamente positivos e século xiv, os artistas europeus usavam va-
negativos, separados por folhas isolantes retas de chumbo, zinco ou prata para faze-
para evitar eurtos-circuitos e suspensos rem os seus desenhos cinzento claros, de-
num electrólito de ácido sulfúrico. As pla- nominados a ponta-de-prala. E no século
cas são constituídas por grades de chum- xv o suíço Conrad Gesner, de Zurique, des-
bo, contendo as negativas chumbo espon creveu no seu Tratado dos Fósseis uma
joso e as positivas dióxido de chumbo. vareta de escrever contida num invólucro
As reacções químicas que produzem a de madeira.
electricidade fazem com que tanto as pla- O chumbo deixou de constituir um ma-
cas negativas como as positivas se transfor- terial de escrita quando em Borrowdale,
mem gradualmente em sulfato de chum- no Norte de Inglaterra, se descobriu em
bo e o electrólito em água. Sc este processo 1564 a grafite pura — nasceu então o lápis
cliega a completar-se, a bateria fica descar- moderno.
regada. Mas enquanto o motor do carro A grafite é uma forma de carbono e um
trabalha, a corrente do gerador carrega a dos minerais mais macios. Quando é fric-
bateria, invertendo as reacções químicas. cionada contra o papel, a grafite deixa nele
As placas de chumbo são deste modo re delgados flocos que formam uma marca
convertidas na sua substância primitiva e a escura.
potência do ácido sulfúrico é restaurada. Alguma da melhor grafite para o fabrico
de lápis vem de Sonora, no México: é pulve-
rulenta e extremamente negra. A parte ex-
terior do lápis, de madeira, tem de ser bas-
tante macia para que possa ser afiada com
facilidade à medida que o bico se gasta.
O bico é constituído por uma mistura de
grafite fina e argila, cortada em varetas e
cozida num forno. A grafite não pode ser
moída num moinho vulgar, pois a sua es-
trutura em camadas faz dela um lubrifican-
Átomo neutro. O núcleo do átomo tem te natural. Recorre-se, por isso, a um pro
carga positioa. e os electrões, carga nega cesso diferente, em que se lançam, uns de
liva. Assim, o átorno ê neutro. encontro aos outros, jactos de ar compri-
mido contendo partículas de grafite, que, Risco ampliado. A grafite utilizada nos lá
colidindo, se pulverizam. pis tern uma estrutura em carnudas. Quan-
Estas partículas minúsculas são mistu- do a grafite e friccionada contra o papel,
radas com caulino puro e água, formando soltam-se facilmente pequenas escamas
uma pasta. Esta é introduzida num cilindro que formam uma marca negra.
e forçada através de um furo na sua extre-
midade, de onde sai em filete contínuo e
com o diâmetro pretendido. DURO OU MOLE? DEPENDE
O filete é cortado em varetas do tama- DA ARGILA
nho dos lápis, que são levadas a secar num No fabrico dos bicos de lápis, a grafite
Ião positivo. A perda de um electrão re- forno antes de serem cozidas a uma tem- é misturada com uma argila fina rio
sulta num átomo de carga positiva. Torna peratura de cerca de 1200°C. São depois lipo utilizado nas melhores loiças e
então o nome de ião positivo. tratadas com cera para assegurar um traço porcelanas. Os dois ingredientes sáo
suave e seladas para evitar que deslizem no misturados em proporções diversas,
invólucro de madeira. consoante os graus de dureza e ne-
Para fabricar este invólucro, a madeira é grura de traço pretendidos,
serrada em tabuinhas com o comprimen- O tipo de lápis mais largamente utili-
to de um lápis, a largura de sete lápis e a zado é o HB (hard and black, "duro e
espessura de meio lápis. Fazem-se os sul- preto"). Os bicos mais macios e mais
cos, introduzem-se os bicos e cola-se por negros (B e BB, de black) possuem
cima uma segunda tabuinha igualmente maior teor de grafite, e os mais duros
com sulcos. Estas "sanduíches" são leva- - graduados de H (hard) a 10H - têm
das à máquina, que as corta em sete lápis e argila em proporções crescentes.
Ião negativo. Se o átomo ganha um ou dá a cada um uma secção hexagonal ou Os bicos dos lápis de cor e os lápis
mais electrões, a carga passa a ser negati cilíndrica. de cera não contêm grafite, mas argila
va e ele torna o nome de ião negativo. Em seguida, os lápis são pintados com pura, cera e pigmentos.
um verniz não tóxico.

I:Í
MILAGRES DO DIA ADIA

Como se coloca
a esfera numa
esferográfica
A parle principal de uma esferográfica é
unia esfera de metal que transfere para o
papel uma tinta a base de óleo e que tem a
particularidade de ser de secagem muito
rápida.
A esfera é geralmente de aço médio ou
inoxidável, com cerca de 1 mm de diâme-
tro, e. para que se adapte perfeitamente ao
encaixe, é acabada com um rigor de centé
siuiDs milésimos de milímetro. Bode tam
bém ser constituída por um composto cie
tungsténio e carbono, quase Ião duro A esfera. De aço. a esfera (ampliado 80 vezes) reifhe um acabamento rigoroso,
como o diamante. Por vezes, a esfera 0 ás
pêra para conseguir melhor atrito na su
perfície de escrita.
A esfera é aplicada num encaixe cie aço ou
latão desenhado por forma a permitir que a
esfera rode perfeitamente em todas as direc-
ções. O bordo do encaixe é de|>ois inclinado
para dentro para que a esfera não caia
A tinta corre do reservatório para <> en-
caixe da éster,i através de um tubo estreito.
<) reservatório deve ser aberto ao ar ou ter
um orifício, pois de outro modo criai .se ia
um vácuo parcial a medida que o nível da
tinta tosse baixando, o que acabaria por a
impedir de correr Saliências no interior do
encaixe distribuem homogeneamente a
unta em redor d.i esfera para que. quando
aplicada sobre uma superfície, ela rode e
desenhe um traço.

• Biro e a esferográfica •

U ma pena cie ave com a haste


afiada foi O instrumento de es
cuia durante mais de 1000 .mos. .m
O encaixe. Saliências no seu interior luzem com que a tinia se distribua por toda a esfera

tes da invenção da caneta de tinta


permanente, em 1884, Na década de
.5(1. o artista e jornalista húngaro La-
dislao Biro inventou em Budapeste a
canela esferográfica. Biro fugiu com
a eclosão da II (iuerra Mundial, fixan-
do se na Argentina.
Com .i .ijud.i de seu irmão Georg.
químico de formação, aperfeiçoou a
caneta e fabricou-a em Buenos Aires
durante .i guerra. Km 1944. vendeu
os seus interesses no invento a um
- seus financiadores, que passou
a fabricar a caneta Biro para as torças
aéreas aliadas, dado não ser afectada
. i las ilt< raçi ies na pressão almosfé
rica. Ladislao Biro desapareceu no
obscurantismo, embora o seu inven
to se tenha tornado um objecto utili
zado em todo o Mundo.

A esfera colocada. 0.s bordos do encaixe suo dobrados pena ilcutio puni a segurarem.

14
Canetas e marcadores. 0 invento de Ladislao Biro foi aplicado no fabrico de novos
modelos que produzem urna diversidade de traços de irrita sobre diversas superfícies, desde
o metal ao vidro e ao plástico. A excepção da esferográfica, a tinia ê levada para a ponta
através cie tubos finíssimos por acção da capilaridade.

Ponta de feltro. O bico é de lã natura! ou sintética

Ponta de fibra. Fibras ligadas por resina dururri mais que as pontas de feltro

Esferográfica. A tinta e levada ao bico pela acção rotativa da esfera.

Ponta de plástico. A tinia, que cone livremente, alimenta uma por na de plástico de grande resistência <n> desgastt

Porque aderem tão bem as colas modernas


Ale há KXI anos, as colas eram gomas vege nimo de humidade, as suas pequenas mo- em praticamente todas as superfícies ex
lais ou obtinham se fervendo peles e ossos léculas ligam se, formando moléculas postas ao ar, pois este contém sempre ai
de animais; demoravam muito tempo a maiores — processo químico denomina- guina humidade.
colar v o sen poder de união não era parti do polimerização. As supercolas aderem bem a pele, dado
cularmente forte, utilizavam se principal Dentro do tubo, a cola é impedida de esta ser húmida. Por este motivo, tem havi-
mente nos trabalhos de carpintaria: o gru- polimerizar por meio de um estabilizador do muitos casos de pessoas com Ioda a
de IfqUÍdO penetrava nos poros da madeira aofdiCO. Quando a rola é aplicada a uma natureza de objectos colados a pele, desde
e secava, ligando entre si as peças da obra. superfície, a mais diminuta quantidade de chávenas a maçanetas de portas. O remé-
Hoje, as colas são, na sua maioria, total humidade supera a acção do estabilizador dio é mergulhar a parte afectada cm água
mente sintéticas. Secam rapidamente e e a resina polimeriza instantaneamente É morna e descolar suavemente o objecto.
formam uniões muito fortes. As mais rápi- a presenç,a dos iões da água grupos de Em cirurgia, têm sido utilizadas super-
das são chamadas supercolas, ou colas átomos dotados de carga eléctrica - que colas em aerossol para fechar uma ferida e
instantâneas, e secam em segundos. Exis desencadeia o processo de polimerização, reduzir a hemorragia.
tem também resinas epoxídicas, que con- Os iões estão
sistem em dois componentes que são mis- presentes A força da cola. Neste painel publicitário, o
turados e fazem presa em 10a 30 minu carto amarelo esta fixo por cola de
tos. A supercola é uma resina acríli- resina epowlicu. O cairo encarnado
ca Fabricada a partir de produtos pe- assenta no tejadilho do outro de-
troquímicos. Quando exposta ao mí- monstrando a força da cola.

XzM
MILAGRK5 DO DIA-A-DIA

O PROCESSO QUE FAZ COLAR A SUPERCOLA

A supercoio contém um estabilizador aa' O estabilizador acidico ê neutralizado em Neutralizado o estabilizador, as mole
dico (vermelho) que mantém a cola lí- contado com a humidade (azul) da super cuias adesivas juntam se em cadeias hm
quida. íiae que se pretende colar gOS, ((instituindo nina união tenaz.

Uma descoberta acidental que deixou a sua marca no Mundo


No princípio da década de 80. começaram
a aparecer nos escritórios uns papelinhos
amarelos. Vinham geralmente colados
aos documentos com pequenas mensa-
gens trocadas entre os executivos e tinham
a grande vantagem de, depois cie lidos, po-
derem ser descolados com facilidade.
Com o passar dos anos, estes pa-
pelinhos auto aderentes, cha-
mados post-it. estende
ram-se as esa rias e depois às
nossas casas. Os estudantes e
os investigadores começaram
a usá-los para marcar textos de
ititeresse nos livros; e os maridos
e mulheres, ao saírem para o tra-
balho, deixavam uns aos outros re- p*
cados apressados colados no frigorí-
fico. ^
[<•*
Estes autocolantes nasceram de uma
descoberta acidental num laboratório de
St. Paul, no Minnesota, quando se procura-
*L
va produzir uma supercola, em 1968. O re-
sultado fora uma cola tao fraca que a em
presa 3M a rejeitara por inútil.
Mas um dos empregados, um químico
Pondo perfume num papel
chamado Art Fry, cantava num coro e utili-
zou aquela cola fraca para marcar o seu Pode fazer se publicidade a perfumes im-
livro com papelinhos que podiam retirar pregnando um prospecto com o respecti- CHEIROS NUMERADOS
•se sem estragar o livro. vo aroma, que é libertado quando se raspa Em 1984, foi produzido na América
Fry tentou persuadir a empresa de que a superfície do papel. 0 método é designa um filme jocoso de couiboys que li-
estava a deitar fora urna ideia que podia ter do por microfragrância. nha como atracção adicional aromas
os mais variados usos. Mas só em 19X0 a O perfume está contido em pequeninas microencapsulados. Cada especta-
3M começou a vender, para Utili2açâ0 nos cápsulas de plástico, aplicadas ao papel dor recebia um pequeno cartão com
escritórios, blocos de lolhas para notas num revestimento resinoso. 0 plástico uma meia dúzia de números.
com uma faixa adesiva num dos bordos quebra ao ser raspado ou esfregado, liber De vez em quando, no decorrer do
que podem ser descoladas e recoladas. tando os óleos essenciais do perfume do filme, aparecia um número no canto
Vista ao microscópio, a superfície adesi seu interior. A técnica, denominada micro ÚOécran - o número que os especta-
va de um post-it apresenta se coberta por encapsulação, foi iniciada pela empresa dores deviam raspar nos seus cartões.
minúsculas bolhas de resina de ureia for americana 3M na década de 60. Podiam assim sentir o cheiro adequa-
maldefdo que contém a substância adesi Para 0 enchimento das capsulas, o óleo do à cena em curso — o encanto de
va. As bolhas rebentam sob a pressão dos é misturado com água e agitado, a fim de um perfume, o cheiro a pólvora quei-
dedos, mas não Iodas simultaneamente, se desintegrar em gotas minúsculas - mada, etc.
pelo que as folhas são reutilizáveis. como acontece com o azeite e o vinagre no

16
O cheiro a maças. Nesta microfotografia
(em cima) oèem-se as microcápsulas que
contêm o perfume num autocolante. Quan-
do se raspam as cápsulas, o perfume é liber
lado. 0 autocolante deste quarto de maçã é
típico dos que aparecem nas revistas. A
área no interior do tracejado conteria mi-
crocápsulas para lembrar aos leitores o de-
licioso cheiro da maçã.

tempero da salada. As gotas sáo depois es- pel por meio de outra resina. Algumas ve- Actualmente, alguns cosméticos con-
palhadas sobre uma superfície e cobertas zes utilizam-se como um revestimento têm microcápsulas de óleos nutrientes da
por urna camada de resina plástica. adesivo na dobra de um folheio publicitá- pele, que apenas são libertados quando o
Deixam-se secar (por vezes são aqueci- rio, e o aroma é libertado quando o revesti- preparado é aplicado, o que garante a sua
das) antes de serem aplicadas sobre o pa- mento se quebra ao desdobrar-se o folheto. frescura até à utilização.

Fotografias nos jornais: milhares de pontinhos


Se se observar de perlo uma fotografia
num jornal, verifica-se que a gama das to-
nalidades nos é dada por combinações de
pontinhos negros. Nas zonas escuras, os
pontos são maiores e fundem-se entre si,
de modo que quase não se vê o papel bran
co. Nas zonas mais claras, os pontos sáo
más pequenos e estão rodeados por gran-
des porções de branco. As diversas tonali-
dades da fotografia são convertidas num
padrão de pontos com diferentes dimen-
sões recorrendo a urna retícula, ou trama.
A fotografia a ser reproduzida é fotografada
através de uma retícula posta em contacto
com o filme, retícula que consiste num pa-
drão de linhas diagonais sobre uma pelí-
cula transparente.
A maioria dos jornais utiliza uma retí-
cula de malha relativamente larga para a
reprodução de fotografias em papel nor-
mal A retícula tem cerca de 20 a 35 linhas
por centímetro, produzindo, quando im-
pressa, o mesmo número de pontos por
centímetro.
A luz reflectida da fotografia passa atra-
vés da retícula e é decomposta em zonas Imagem desportiva. Fotografia a preto e
de intensidade luminosa variável captadas branco, tal corno aparece num jornal (em
em película fotográfica de alto contraste, cima). A ampliação mostra que a imagem se
que, ao ser revelada, produz um padrão de compõe de uma série de pontos pretos entre
pontos em imagem negativa. A continua- meados de espaços brancos. A densidade de
ção do processo de revelação produz uma pontos utilizados determina a qualidade da re-
imagem positiva. produção da fotografia na página impressa.

17
IMAGENS A CORES
As fotografias a cores são lambem repro
duzidas como padrões de pontos. Estes Uma impressão
são de Ires rores diferentes amarelo, a cores e feita
magenta e azu\cyan (azul esverdeado). a partir de
Vistas a distância, as combinações de pon- combinações
tos destas cores, com dimensões diferen destas três
tes. fundem-se por forma a simular lodo o cores
espectro das emes. A impressão a cores primárias.
baseia se no principio de que todas as co amarelo, magenta
res podem ser produzidas através de com e azul-cvm.
lunações destas três cores primárias.

Fotografia com filtros A imagem impressa a


0 primeiro passo na reprodução é a "selec três cores segue se
çao" (Lis cores, tirando fotografias através a impressão do
de filtros. As três imagens, uma de cada cor, prelo para acentuar
são depois fotografadas através de uma re a profundidade,
tícula de meio tom. c o m o n.i impressão .. a defi/itaio
prelo e branco, a fim de se produzir um f o i ontraste.
padrão pontilhado. Faz se uma chapa de
impressão para cada cor e, para aumentar
ii pormenor, iunta.se ainda uma chapa a Finalmente, <> olha
preto, pelo que " processo toma <> nome humano mistura
de quadricromia. Esta é hoje feita, normal os pontos coloridos
mente, por scanners electrónicos, em vez e vê t<ulas as cores.
das máquinas fotográficas tradicionais.

Como funcionam as máquinas de moedas


Com 11111,1 moeda que se introduz numa
ranhura, as máquinas Fornecem-nos des- Percursos das moedas
de bilhetes de comboio a chamadas lelelo rejeitadas
nicas, bebidas, maços de cigarros e ale
juckpols de moedas.
Mas, antes de entregarem o seu produ
lo. as máquinas analisam cada moeda. Lâmina de contacto
submetendo-a a uma série de exames, co
meçando por rejeitai as de valor diferente,
as estrangeiras, as falsas e as anilhas.
Balancim
Cada tipo de moeda no Mundo tem as
suas características próprias. São diferentes Magneto
no diâmetro, na espessura, no peso e até na Calha, ou tampa
composição química. Nas máquinas de
moedas, todas estas propriedades são in Verdadeira ou falsa
vestigadas, e só quando a moeda entra no Esta máquina de moedas
percurso correcto da máquina é que é dis destinada a moedas francesas
parado o mecanismo de funcionamento. tem unta ranhura igual
A máquina de moedas típica funciona ao tamanho de ama moeda
ilo seguinte modo: o sistema de verifica de 10 francos. Uma moeda mais
çao começa pela própria ranhura, impe leve não consegue bascular o
dindo a entrada de moedas demasiado balancim e é desviada Separador
grandes, espessas ou deformadas para o rejeilador.
As moedas que entram podem ser exa ! ma moeda de metal
minadas por uma sonda, que verifica se diferente é desviada
elas são luradas, detectando assim as ani pelo magneto.
lhas. As genuínas caem soba- um balan atinge o deflector
cim rigorosamente equilibrado: quando o c passa pelo lado
seu peso é suficiente, a moeda faz tombar eirado do
ii balancim e é dirigida para .1 calha [ou separador
ranipae quando é insuficiente, o balancim
não oscila e a moeda cai no rejeitado!.
Rejeilador
A moeda que foi aprovada percorre a (moedas
rejeitadas)
calha e passa polo magneto. Ao atravessar Voltou para casa com umas ervas agarradas
o campo magnético deste último, ê descar- às meias e ao pêlo do cão e decidiu investi-
regada uma pequena corrente eléctrica no gar por que razão aquelas se pegam Ião
seu interior, fazendo a rodar mais ou me- bem á lá. Ao microscópio, observou que
nos lentamente devido à força magnética minúsculos ganchos nas pontas dessas er
provocada pelo campo magnético. vas ficavam presos às argolas da lã.
Ima moeda com a composição correc- Mestral imaginou rapidamente uma for-
ta abranda exactamente o necessário para. ma de reproduzir em tecido de nylon o
ao cair da rampa, percorrer uma trajectória esquema de ganchos e argolas e deu ao
que evita o obstáculo seguinte, o deflector. produto o nome de velcro - contracção
Acerta então no separador por baixo des- de uelours e CfOChet, palavras francesas
te, a um ângulo de incidência lai que a faz que significam "veludo" e "gancho".
dirigir se para o canal "aceite", As moedas A patente original de protecção ao vel-
com peso demasiado e as menos afecta- cro expirou em 1978, e existem actual men
das pelo magneto atingem o defleclor e te muitas imitações, mas o nome mantém-
são encaminhadas pelo lado errado do se- se como marca registada
parador para o rejeitador. 0 velcro é feito tecendo fio de nylon de
modo a produzir um tecido com urna
Máquinas de moedas electrónicas grande densidade de minúsculas argolas.
A ultima geração destas máquinas confere A face dos ganchos obtém-se cortando as
as moedas electronicamente, Assim que a argolas noutra porção de tecido — de Como as ervas se agarram. As minúscu-
moeda é introduzida, a sua condutibilida- modo que cada meia argola passe a cons- las vagens da aparína possuem ganchos
de capacidade para deixar passar unia tituir um gancho. Por meio de aquecimen- que se ugurram ao vestuário de lã e aos
corrente eléctrica - é verificada. to, argolas e ganchos tomam a sua forma pêlos dos ailimais
As moedas aceitáveis num primeiro definitiva. 0 tecido é depois tingido, colado
exame atravessam depois uma "cancela", ao suporte adequado e cortado à medida. Copiando a Natureza. .4 fotografia do oel-
percorrendo a rampa e passando entre O velcro pode fechar-se e abrir se milha CfO QO microscópio moslru como esíe copio
dois magnetos. Também neste caso, a ve res de vezes, e provavelmente durará mais a Natureza. Os minúsculos ganchos de
locidade com que deixam os magnetos do que O tecido a que foi aplicado. E feito de nylon numa peca de i elcro agarram as argo
depende da composição das moedas. modo a poder ser aberto à mão com um las da outra peca exat tumente do mesmo
Conjuntos de díodos emissores de luz e de estorço relativamente pequeno. No entan- modo que terias plantas como a aparinu se
fotossensores medem a velocidade da to, possui enorme resistência transversal. agarram às meias de la (mundo passeamos
moeda. Sc os valores obtidos coincidirem Alguns tipos de velcro têm tanta resistência no meio das ervas. Uma peca de velcro com
com os da memória da máquina, abre-se que uma peça quadrada de 12 cm de lado 5 x 2 cm contém cerca de 750 ganchos.
nova cancela para aceitar a moeda. Se não, consegue suportar uma carga de 1 t. com 12 500 argolas na lace oposta.
esta é rejeitada. Algumas máquinas po-
dem ser programadas para tratar até oito
tipos de moedas diferentes.
Podem também ser programadas para
dar trocos, Quando a moeda atravessa o
sistema de verificação. 0 respectivo valor é
identificado. Quando chega ao fim do per
curso, um microchip liberta o troco certo.

Velcro: como as
ervas que se
agarram às meias
Os fechos de velcro. pequenas almofadas
crespas formadas de ganchos e ilhós de
plástico, têm encontrado aplicações a to
dos os níveis.
Na indústria de vestuário, substituem as
molas e os fechos de correr. No vaivém
espacial, OS astronautas usam fita velcro
para agarrar tabuleiros, embalagens de ali
mentos, equipamento científico, e ate cies
próprios, a uma superfície tixa. para evitar
que flutuem desordenadamente no espa
ço na ausência da força da gravidade.
O engenheiro suíço Georgcs de Mestral
concebeu a ideia que deu origem ao velcro
depois de um passeio pelo canipo em 1948.
Como a Marinha dos EUA
lançou o fecho de correr
A Marinha dos EUA foi a pioneira no uso tiras de tecido com
dos fechos de correr quando, em 1918, en- dentes de metal ou Separador
comendou 10 000 unidades para aplicar plástico ao longo das
em fatos de voo. bordas. Os dentes das
0 fecho de correr fora inventado pelo duas fitas são desen- Cursor
engenheiro americano Whitcomb Judson contrados para pode-
em 1893. Lste desenhara um fecho com rem encaixar entre si:
posto de carreiras de colchetes machos e n u m dos lados têm
fêmeas como método rápido de apertar as uma saliência e no ou-
Fita
botas de cano alto. Mas este fecho, que utili tro uma concavidade,
zava um cursor para ligar os colchetes ma- por forma que, quando
chos e fêmeas, revelou se pouco prático. forçados a juntar-se, as
saliências encaixem Fiadas de dentes
O passo decisivo para o aparecimento
do moderno fecho de correr deu-se cerca nas concavidades. Ao
de 20 anos depois, quando o engenheiro fechar, as duas fiadas de
sueco Gideon Sundback foi admitido por dentes entram obliqua-
Judson para aperfeiçoar o seu fecho. Sund- mente no cursor que as
back desenhou o chamado Hookless 2, junta, engatando os Dentes que engatam. A mecâ-
quase igual ao moderno fecho rie correr, e dentes. Quando se nica do fecho de correr é muito
criou a maquinaria que permitiu o fabrico puxa o cursor para simples. Um cursor move-se
dos dentes e a sua fixação a uma fita. abrir o fecho, dá-se o num ou noutro sentido sobre
Km 1918, a Marinha Americana fez a sua contrário, os dentes en- duas fiadas de dentes presos a
encomenda, e o fecho de correr estava lan tram pelo fundo do cur- fitas, engatando-os ou desenga
çado. O fecho de correr consiste ern duas sor e separam-se. ÍB tando-os.

Como se faz parar um elevador em queda


O mais alto edifício de escritórios do Mun- da ao topo da plataforma. O cabo de sus-
do, a Sears Tower, em Chicago, com 443 m, pensão estava ligado à mola, e quando a
tem 103 elevadores para transportar passa- plataforma era puxada para cima, o seu
geiros entre os seus 110 andares a velocida- peso iria arquear a mola, de modo que as
des que chegam aos 550 m por minuto suas extremidades não tocassem nos enta-
Mas o que aconteceria se um cabo se lhes das duas calhas dentadas de guiamen-
partisse quando um dos elevadores se en- to, situadas de um e outro lado da platafor
contrasse no topo de tão alto edifício? Teo- ma. Mas quando o cabo de suspensão foi
ricamente, um corpo que caísse do último cortado, a mola abriu c as suas exlremida
andar da Sears Tower esmagar-se-ia no des encaixaram nos entalhes das calhas,
solo a 820 km/h. Para evitar estes aciden- impedindo a queda da plataforma.
tes, os elevadores são dotados de dispositi- Olis instalou o primeiro elevador de pas
vos de segurança. sageiros cm Nova Iorque em 1857, no esta-
O moderno elevador de passageiros belecimento V. Haughwout & Co., com
leve as suas origens em 1854, quando o cinco pisos. A invenção do elevador de se-
engenheiro americano Klisha Graves Otis gurança foi um factor decisivo na evolução
introduziu o primeiro dispositivo de segu- do arranha-céus, pois libertou os arquitec-
rança para a elevação de cargas na Exposi- tos das restrições na altura.
ção do Palácio de Cristal, em Nova Iorque. O moderno elevador é constituído por
Otis demonstrou a segurança do seu uma cabina içada por cabos de aço entre
processo por forma espectacular. A carga duas calhas laterais de guiamento e possui
foi guindada até uma altura de 8 ou 10 m um dispositivo de segurança que trava de
com Otis também sobre a plataforma. Or- encontro às calhas no caso de os cabos se
denou então que cortassem o cabo de sus partirem. Os cabos fixos ao topo da cabina
pensão. Num elevador normal, as conse-
quências teriam sido desastrosas, mas o Subida rápida. A Sears Tower, edifício de
mecanismo de segurança de Otis resul- IK) andares em Chicago, dispõe de eleou
tou - e a queda foi interrompida depois dores rápidos que se deslocam a 32 km/h.
de cortado o cabo. Os elevadores estão equipados com dispo
O segredo do sucesso da experiência sitiuos de segurança para o caso de quebra
residiu numa mola em fornia de arco fixa dos cabos.

20
sobem alé um mecanismo de roldanas no
cimo da caixa do elevador. A roldana é ac-
cionada por um motor eléctrico, e os ca-
bos sustentam na outra extremidade um
Testes de cheiro no gás natural
contrapeso que corre igualmente em ca-
lhas de guiamento. Numa indústria de alta tecnologia como a de 60. Como era necessário que tivesse
do gás natural, o teste final de segurança é, cheiro, foram ensaiadas como odorizan-
Limitador do excesso de velocidade curiosamente, o nariz humano. O gás na- tes diversas combinações de compostos
Este é outro componente fundamental da tural, ao contrário do gás de hulha, não orgânicos de enxofre. O odorizante ideal
segurança do elevador. Parle dele um cabo tem cheiro próprio, pelo que uma fuga nas tinha de ter um cheiro forte e muito carac-
que corre para cima e para baixo na caixa tubagens poderia passar facilmente des terístico, náo devia ser absorvido pelo solo
do elevador e está ligado ao mecanismo de percebida e causar uma explosão. No en- para que as fugas subterrâneas pudessem
segurança montado sob a cabina. tanto, pode juntar-se-lhe um odorizante. ser detectadas e tinha de ser inócuo e náo-
0 limitador do excesso de velocidade Assim, peritos empregados pela sua capa -corrosivo. Acabou por descobrir se a fór
baseia-se num sistema mecânico de pe- cidade olfacliva muito sensível asseguram mula correcta. Esse odorizante, sob a for-
sos, que são impelidos para fora devido à que, numa emergência, o gás emita o chei ma líquida, é pulverizado no gás quando
força centrífuga. Acima de uma velocidade ro certo para fazer disparar o alarme men- este deixa o complexo de produção. A
preestabelecida, os pesos accionam um tal de "fuga de gás!" quantidade de odorizante é medida rigo-
interruptor de segurança que desliga a cor- Esses peritos cheiram o gás para terem a rosamente por computador. Tem um aro-
rente eléctrica do motor. A roldana pára certeza de que a sofisticada aparelhagem ma tão intenso que apenas é necessário
automaticamente e o elevador imobiliza- de análise está a funcionar correctamente. 1,5 kg por cada 100 000 rrí*.
-se sem que tenha de ser activado o dispo- O gás natural encontra-se no solo ou Apesar dos odorizantes, as fugas de gás
sitivo de segurança. sob o fundo do mar. O seu componente nas tubagens subterrâneas podem ainda
Se, contudo, a cabina continuar a acele- principal é o metano, gás que nos pânta- passar despercebidas. Por isso, os técnicos
rar, o limitador centrífugo prende o respec- nos pode ser visto em bolhas emanando seguem frequentemente os percursos das
tivo cabo com força suficiente para dispa- dos lodos orgânicos. O cheiro intenso que tubagens com instrumentos extremamen-
rar o mecanismo de segurança. acompanha o metano nos pântanos deve- te sensíveis. Contudo, estes detectam o
Existem outros mecanismos de segu- -se à matéria vegetal em decomposição, gás, e náo o cheiro. As sondas são coloca-
rança, como o de compressão de roleles ou pois o gás em si é inodoro. das junto ao solo e o ar que captam é intro-
de excêntricos de bordos serrilhados con- O gás natural comercial começou a ser duzido num aparelho que detecta gás em
tra as calhas de guiamento, ou o de cunhas, utilizado comercialmente nos Estados concentrações de apenas algumas parles
que reduz a velocidade por meio de fricção. Unidos nos anos 20 c na Europa na década num milhão.

As fibras que conferem resistência aos saquinhos de chá


Diariamente, fazem-se milhões de cháve- sua resistência quando, ao arrefecerem, so-
nas de chá a partir de saquinhos. O papel lidificam novamente. O seu ponto de fusão
de filtro rendilhado, que constitui o saco, é superior a 100°C para que o saquinho náo
tem orifícios de tamanho suficiente para se desmanche na água a ferver.
deixar passar a água a ferver sem deixar
fugir as folhas do chá. É também suficien
temente forte para náo se rasgar nas má-
quinas de empacotamento ou durante a
manipulação — esteja seco ou molhado.
Nenhum papel vulgar podia satisfazer
estas exigências. O papel dos saquinhos de
chã é fabricado com duas fibras fortes: câ-
nhamo-de-manila, fibra natural longa utili-
zada no fabrico de cordas para conferir re-
sistência, e fibras termoplásticas, para fe-
char os saquinhos. As duas fibras náo são
tecidas em conjunto, mas assentes, sob a
forma de mistura aquosa, em duas cama
das separadas. Forma se o papel quando a
água se escoa e o emaranhado de fibras é
apertado em rolos para secar. Este proces-
so confere ao papel uma estrutura irregu-
lar, com poros de diversas dimensões.
O papel passa pela máquina de embala
gem do chá sob a forma de duas tiras e a
máquina vai colocando as doses de chá Orifícios filtrantes. Ampliando
sobre a tira inferior. Dá-se forma aos sacos 60 vezes um saquinho de chá,
vedando os bordos por meio de calor. As vêem-se bem OS orifícios filtrantes.
fibras termoplásticas são derretidas para se Estes deixam passar a água, mas
ligarem fortemente entre si, mantendo a sem deixarem sair as folhas de chá.

2\
Fósforos aos milhões • « • « • «
11
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L\\\ W V W V , \7
Se riscarmos um fósforo de segurança qualquer superfície e não eram de grande
(amorfo) em qualquer superfície que não confiança. Km 1830, Charles Suria, em % %_• i • • • ii
seja a lixa da caixa, ele não se acende. Se França, inventou um fósforo muito mais
lhe batermos com um martelo, nada acon- eficaz, utilizando fósforo branco. Os fósfo
tece. Antigamente, porém, os fósforos ros deste tipo mantiveram-se em uso até

« mwâ
acendiam-se ao serem riscados em qual finais do século xix e, embora eficientes,
quer superfície rugosa, e se lhes batêsse- tinham uma grande desvantagem: po-
mos com um martelo, explodiriam. diam matar - e fizcram-no muitas vezes
No caso dos fósforos de segurança, é a O fósforo branco liberta fumos tóxicos
reacção entre os produtos químicos da ca- que provocam, cm casos de exposição
beça do fósforo e da lixa da caixa que os prolongada, uma doença deformante — e
incendeia. A reacção é desencadeada pelo eventualmente fatal — em que ocorre a
riscar do fósforo, que gera calor devido à decomposição dos maxilares. Os opera
fricção. Se a cabeça e a lixa não estiverem rios das fábricas de fósforos eram os mais
em contacto, não se dá a ignição. afectados; assim, no início deste século, foi
O antepassado do fósforo actual foi pro- proibido o uso de fósforo branco, tendo
duzido pelo químico inglês John Walker passado a utilizar se o sesquissulfureto de
em 1827. Os seus fósforos acendiam-se em fósforo.

Contra o imposto

E m 1801, a firma Bryant & May pro-


duziu o seu primeiro fósforo de
segurança numa fábrica em Londres.
res de operários da indústria fosforeira
protestaram contra aquilo que viam
como uma ameaça ao seu ganha-pão.
Ao fim de um ano, a fábrica produzia Seguiram-se manifestações e tumultos
1 800 000 fósforos por semana. A procura e o Parlamento aboliu o imposto.
era tanta que, em 1871, o chanceler do Por todo o Mundo, as técnicas do fa-
Tesouro propôs uma taxa de 1 penny por brico de fósforos foram sendo aperfei
caixa. A proposta originou protestos no coadas, e actualmente podem produ-
Parlamento e na imprensa - e milha- zir-se mais de 800 caixas por minuto.

22
Em movimento. I m tapeie rolante de aço um átomo de carbono e dois de hidrogénio
transporta os palitos de madeira - já com numa molécula de polietileno, por exem
as cabeças tingidas de vermelho ao en- pio. A maioria das substâncias comuns é
contro das caixas, que se movem numa tela constituída por moléculas pequenas a
transportadora perpendicularmente ao molécula de agua contém apenas dois álo
percurso dos fósforos. Estes são automati- mos de hidrogénio e um de oxigénio
camente expulsos do tapete, por fornia a As moléculas longas da película aderen
caírem dentro das caiwis nus quantidades te. ou adesiva, encontram se enroladas c
certas. dobradas como as libras da la. Quando .•
película é esticada, as moléculas ordenam
Na década de 1850, o sueco John Lunds- se Mas, lai como as fibras da lá ou
Irom foi pioneiro dos fósforos de seguran como um elástico . elas procuram reto
ça (amorfos) ao separar o elemento fósfo- mar a sua forma inicial
ro dos outros ingredientes combustíveis: O poder de aderência desta película
pós fósforo vermelho, não tóxico, na lixa e ocorre naturalmente na maioria das pelí
os outros ingredientes na cabeça. cuias plásticas, que aderem porque adqui
Actualmente, os fósforos são fabricados rem uma carga eléctrica estática. A película
por máquinas automáticas que chegam a aderente pode. por exemplo, adquirir uma
produzir 2 milhões de unidades por hora. carga eléctrica negativa por fricção, << que
O vulgar fósforo de madeira começa por faz deslocar electrões d<i superfície de uma
um toro que é cortado em fasquias de cer película ou de outro material adjacente. Na
ca de 2.r> mm de espessura. Estas são de- segunda superfície, .i carga eléctrica será
pois cortadas em palitos que são embebi- positiva, o que leva a que as duas superfí-
dos numa soluçáo de fosfato de amónio - cies se unam por atracção electrostática.
retardador de ignição que evita que os pali- A película aderente podo ser fabricada
tos continuem a deitar fumo. num destes plásticos: PVC 'cloreto de poli
Os palitos são depois introduzidos auto- vinilo) ou polietileno. O PVC. normalmen-
maticamente nos orifícios de um tapete ro te duro. toma se- macio c flexível pela adi
lante de aço que mergulha as pontas num cão de certos produtos químicos, os plasli
banho de parafina aquecida. Esta vai im- ficanles. o polietileno é macio por nature-
pregnar as fibras da madeira e anulará a za, pelo que não necessita de plastificantes.
fazer passar a chama da cabeça para o palito. A película de PVC e mais transparente
Os palitos são cm seguida mergulhados que a de polietileno, mas ê mais sujeita a
na mistura que constituirá a cabeça. Nos fadiga Com eleito. 24 horas depois de utili
fósforos de segurança, essa mistura con zada perdeu já mais de dois lerços da sua
tem enxofre, e por vexes carvão, para pro- elasticidade, enquanto o polietileno per
duzir a chama e clorato de potássio para deu apenas um lerço
fornecer o oxigénio necessário á combus
tão. Quando as cabeças secam, os fósforos
sao e m p u r r a d o s do tapete rolante para
dentro das caixas de fósforos que correm
numa tela transportadora.
Um material
As tampas das caixas correm noutra tela escorregadio
em movimento paralelo, A intervalos de
alguns segundos, as telas param e .is caixas
sao metidas nas respectivas tampas. As ta
como o gelo
ces laterais destas aplica se a lixa, uma tira
rui>osa impregnada de fósforo vermelho. o revestimento interior náo-aderente dos
que constitui o produto combustível. modernos tachos e frigideiras e o maleri.il
mais escorregadio que ri tecnologia co-
nhece. Tendo quase o mesmo coeficiente
de atrito que o gelo. se cohrisseinos as ruas
Como adere com ele. torná-las-íamos intransitáveis.
() PTFE e um dos mais notáveis produ
a película tos artificiais, e a náo-aderencia não é a sua

aderente? Superfície revestida. Para lazer uma (ri


gideira náo-aderente. mistura-se PTFE cm
pó com aii.ua puberiza-se o sen interiot e
Esta película adere por duas razões: quan seca se
do esticada, a sua elasticidade leva a a reto-
mar as dimensões iniciais; e a electricidade
estática que possui cria uma forma de
atracção a muitas outras coisas.
O segredo da elasticidade esta na estru-
tura molecular da película. Os plásticos são
formados por moléculas longas cente-
nas cie milhares de unidades repetitivas de
Válvula cardíaca. O O engenheiro americano Dr. Roy Plunkett
anel desta válvula está descobriu que o aquecimento do fréon
coberto com um tecido produz o gás tetrafluoroeteno. A urna pres-
revestido de PTFE. O são de cerca de 45 a 50 atmosferas e na
PTFE é quimicamente presença de um catalisador, o gás sofre
inerte, pelo que não há uma alteração química da qual resulta o
o risco de causar PTFE sob a forma de resina pulverulenta.
infecção. Como náo chega propriamente a fun
dir, o PTFE é misturado com um aglutinan-
te adequado e enformado num molde. É
Sol e espaço. A cúpula depois sujeito a pressão e temperatura ele-
plástica deste estádio vadas, e as partículas da resina fundem,
japonês está revestida formando uma massa sólida. Para os reci
de PTFE para reduzir o pientes de cozinha não-aderentes, o pó de
calor dos raios do Sol. PTFE é suspenso em água para formar um
Os fatos de pressão dos acabamento não-aderente que é depois
astronautas possuem pulverizado sobre a superfície e seco.
diversas camadas de
material, incluindo uma
de tecido revestido a
teflon, incombustível e
resistente à abrasão.
Como as
microondas
única qualidade invulgar. K considerável a orgânica, inclusive o tecido humano. Estas
sua resistência a temperaturas, tanto mui- características permitem ainda a sua utili-
zação em próteses cirúrgicas, particular-
cozinham sem
to altas como muito baixas, e ao ataque
químico; é ainda um mau condutor de
electricidade.
mente nas articulações artificiais; o seu re-
duzidíssimo coeficiente de atrito constitui
aquecer os pratos
PTFE é a abreviatura de politetrafluoroe- uma vantagem adicional. Também já tem
tileno, material que foi descoberto quase sido utilizado, sob a forma de fibras entre- Ao ligarmos um forno de microondas,
por acaso em 1938 pelo americano Dr. Roy tecidas e impregnadas de carbono, na re criamos no seu interior um poderoso cam-
Plunkett quando ensaiava para a Du Pont construção dos ossos da face. po electromagnético que oscila na mesma
um produto químico utilizado para refrige- Outra propriedade importante do PTFE banda de frequência que as emissões de
ração. A Du Pont deu à descoberta o nome é a sua resistência à electricidade, o que o televisão por satélite e o radar. As microon-
comercial de teflon. torna excelente para o revestimento de das utilizam-se na cozedura rápida de ali-
O PTFE é um material difícil de manu- fios. Possui ainda a grande vantagem de mentos, pois fazem vibrar as moléculas de
sear, e só se lhe descobriu utilidade em manter a flexibilidade a temperaturas que água contida naqueles. A vibração absorve
larga escala quando o engenheiro francês váo dos — 270°C (poucos graus acima de energia do campo electromagnético e
Marc Gregoire se apercebeu das possibili- zero absoluto) até aos 260°C. aquece os alimentos.
dades da sua aplicação em utensílios do- Este conjunto único de propriedades re Como toda a energia é absorvida pelos
mésticos. Assim, nos meados da década de sulta da estrutura química do PITE. Corn alimentos sem se desperdiçar no aqueci-
50, Gregoire comercializou com a marca efeito, a sua molécula consiste numa "es- mento do ar ambiente nem do próprio for-
Tefal os primeiros tachos não-aderentes. pinha dorsal" formada por uma cadeia no, e como as microondas penetram nos
No entanto, já desde o início dos anos 40 longa de átomos de carbono, cada um dos alimentos, aquecendo-os directamente
se vinha desenvolvendo uma grande varie- quais ligado a dois átomos de flúor. As liga- por dentro (ao contrário dos fornos con-
dade de aplicações industriais para o PTFE. ções químicas entre os átomos de carbono vencionais, nos quais só a superfície é di-
A sua não aderência foi utilizada nas chu- e de flúor são extremamente fortes, razão rectamente aquecida), o processo é muito
maceiras - componentes de máquinas pela qual o PTFE náo reage com outras mais rápido e económico do que os méto-
que suportam veios rotativos. As chuma- substâncias químicas. dos tradicionais de cozinhar.
ceiras de PTFE são consideradas autolubri- As fortes ligações carbono-flúor verifi- A energia das microondas náo aquece os
ficantes, pois não precisam de qualquer cam-se também entre as moléculas adja- utensílios no forno, porque os materiais de
lubrificação além da sua própria natureza centes, de modo que se atraem mutua que são feitos - louça e vidro - não absor-
deslizante. Para lhes aumentar a resistên- mente mais do que atraem as moléculas vem energia do campo electromagnético
cia, são geralmente reforçadas com outros de outras substâncias. Este o motivo por (os recipientes não saem frios do forno, por-
materiais, como a fibra de vidro e a grafite. que nada se lhe adere. que são aquecidos pelos alimentos).
Esta forte atracção intermolecular signi-
A resistência ao ataque dos ácidos fica igualmente que o PTFE não funde, Utensílios de cozinha especiais
O PTFE não é afectado por nenhuma subs- mesmo a temperaturas elevadas. A fusão Além da louça e do vidro, muitos outros
tância química vulgar, incluindo os ácidos dá-se quando as moléculas obtêm sufi- materiais - como o plástico, o papel e a
e os álcalis a ferver. Mesmo a água-régia ciente energia por aquecimento e se sepa- cartolina — podem ser usados num forno
(mistura de ácidos clorídrico e nítrico) dei- ram umas das outras. No PTFE, a atracção de microondas. Os recipientes de metal
xa-o incólume. As únicas substâncias que molecular é tão forte que as moléculas têm não devem ser usados, porque o meta] não
o atacam são o sódio em fusão, o cálcio em grande dificuldade em separar-se. transmite as microondas, reflecte-as. Por
fusão e o flúor muito quente. este motivo, os alimentos náo devem ser
O facto de ser quimicamente inerte sig- Como se fabrica o PTFE cobertos com folha de alumínio.
nifica que o PTFE não contamina os ali- O PTFE é produzido a partir do fréon 22 As ondas longas da rádio têm compri
mentos nele cozinhados. Na realidade, ele (diclorodífluorometano), refrigerante lí- mentos de onda de milhares de metros. As
não produz efeitos sobre qualquer matéria quido largamente utilizado em frigoríficos. microondas utilizadas nos fornos têm um

24
comprimento de onda de cerca de 12 cm.
Uma onda electromagnética é uma vi-
bração de campos eléctricos e magnéticos
que alternam constantemente, dirigidos
Como os frigoríficos «fazem frio»
ora no sentido positivo, ora no negativo. Os
fornos de microondas funcionam com on- Quando ligamos uma torradeira ou um aqui o tubo alarga e o gás vaporiza se nova
das que vibram 2450 milhões de vezes por ferro eléctrico, obtemos calor. Porque é mente, reiniciando-se o ciclo.
segundo — uma frequência de 2450 MH/. então que um frigorífico ou um congela A refrigeração desenvolveu se no século
(megahertz), ou 2,45 GHz (gigahertz). dor -lazem frio» quando OS ligamos0 estimulada pela necessidade de se ob-
As moléculas da água tem um pólo de Assim acontece porque estes aparelhos terem fornecimentos de carne das grandes
carga positiva e um pólo de carga negativa. utilizam dois princípios científicos. O pri- pastagens da Austrália, Nova Zelândia,
As microondas em vibração positiva nega- meiro é o de que, quando um líquido se América do Sul e Oeste Norte-Ainericano
tiva interagem com as moléculas polares evapora, absorve calor do ambiente que o para os principais mercados da Europa e
da água, atraindo e repelindo os seus pó- cerca: o liquido precisa de energia para se do Leste da América do Norte.
los, fazendo-as rcxlar ora num sentido, ora transformar em vapor e vai buscá-la sob a lima das primeiras pessoas a descobrir
no outro. Este movimento acontece tam- forma de calor. O segundo é o de que um e aplicar o princípio da refrigeração foi um
bém 2450 milhões de vezes por segundo. líquido evapora-se a uma temperatura tipógrafo, James Harrison. Ao limpar OS
O componente mais importante do for- mais baixa quando a pressão é, por sua caracteres de metal com éter. verificou o
no de microondas é o magnetrão, o dispo- vez, mais baixa. Qualquer líquido que se efeito refrescante que este tinha sobre o
sitivo que gera as microondas. Foi criado evapore facilmente a temperaturas baixas metal - o éter é um líquido com ponto de
em 1940 em Inglaterra, mas foi a Raytheon é um refrigerante, ou agente de arrefeci ebulição muito baixo que se evapora fácil
Company, dos EUA, que, no princípio dos mento, em potencia. E é possível fazê-lo mente. Harrison deu aplicação prática á
anos 50, se apercebeu das aplicações do vaporizar-se e liquefazer-se alternadamen- sua descoberta no edifício de uma fábrica
mestiças que este invento poderia ter e pa te, obrigando-o a circular numa tubagem de cerveja em Bendigo, Vitória, em 1851,
tenteou um "aparelho de aquecimento die- em que a pressão seja variável. Na maioria fazendo circular éter numa canalização
léctrico de alta frequência". Os pequenos dos frigoríficos domésticos, o refrigerante própria para refrescar o ambiente.
modelos domésticos foram aperfeiçoados é um dos compostos artificiais, denomina A ideia de Harrison levou á primeira via-
na América em finais da década de 60. dos clorofluorocarbonos (CFCs). gem coroada de êxito com um equipa-
Os tubos no interior do frigorífico são mento frigorífico a partir da Austrália: a do
Ferver até transbordar. Quando se largos, a pressão é baixa e o refrigerante navio Strathleven, com um carregamento
aquece agua num copo num forno de mi- vaporiza-se. Oeste modo, o tubo mantém- de carne para Londres em 1880 - viagem
croondas, a temperatura pode subir ulé se frio c retira o calor aos alimentos. que demorava dois meses.
]10"C sem que a água (ema. Isto acontece I Im motor eléctrico aspira o gás frio da O primeiro frigorífico doméstico foi cria
porque as microondas aquecem a água no tubagem do interior do frigorífico, compri- do em 1879, quando o engenheiro alemão
centro sem aquecerem o copo. peto que u me o - o que o aquece - e envia-o à Karl von Linde modificou um modelo in
água em contacto com o vidro está abaixo tubagem exterior, na parte de trás do trigo dustrial que desenhara seis anos antes (>
do ponto de ebulição. Como as bolhas de rífico. 0 ar em torno destes tubos absorve- refrigerante era o amoníaco que circulava
oapor na água a ferver se formam principal -lhes o calor, fazendo com que o gás se por acção de uma pequena bomba a va
mente sobre as irregularidades do recipien- condense novamente em líquido, ainda a por. Os pioneiros dos frigoríficos eléctricos
te, não se dá a ebulição. Mas se deitarmos uma pressão elevada. foram os engenheiros suecos Balzer von
café solúvel na água, formam se bolhas em Depois, um tubo de diâmetro muito pe Platen e Cari Munters, com o seu modelo
redor dos grânulos, e o liquido borbulha e queno, o tubo capilar, reconduz o líquido Eiectrolux de 1923, que utilizava um motor
transborda. sob pressão para o interior do frigorífico; eléctrico para accionar o compressor.

COMO FUNCIONA LM FRIGORÍFICO


COMO SE CONSERVAM O CFC vaporiza-se Tubo O CFC
OS ALIMENTOS no t u b o largo capilar liqufifaz-S6
\ -, s o b pressão
O arrefecimento dos alimentos no fri- ~~""'* ' •/ elevada
gorífico retarda a acção de dois dos
principais causadores da sua deteriora-
ção: o desenvolvimento de bolores e
bactérias e a decomposição química.
Num frigorífico doméstico, a tempe-
ratura é mantida entre 1 e 5°C — tempe-
ratura suficientemente baixa para man-
ter frescos durante uma semana a
maioria dos alimentos que utilizamos.
O crescimento dos organismos causa-
dores da decomposição é retardado,
mas as temperaturas baixas não cies
troem esses organismos. A decomposi-
ção química é também retardada de
modo idêntico, mas não completa O ar quente no interior do frigorifico sobe e
mente anulada. é arrefecido à medida que o calor lhe é reti
A temperatura do congelador do rodo pelo refrigerante contido na secção
mestiço ronda os - lo"C. o que preser- larga da tubagem. O refrigerante transporta
va os alimentos até um ano. o calor, que é depois radiado para 0 um
biente na serpentina por trás do frigorífico

25
Porque se cozinha tão depressa
numa panela de pressão
Quando cozemos batatas numa panela tampa, existe um respiradouro sobre o
vulgar, o tempo de cozedura c de 20 a 30 qual é colocado um peso. Esle tapa o respi-
minutos. Mas numa panela de pressão ti radouro, mas levanta quando o vapor no
carão cozidas em 4-5 minutos. Porquê? interior atinge a pressão desejada. Existe
Na panela vulgar, a água ferve a 100"C, e também na tampa uma válvula de segu
por muito que a aqueçamos, a temperalu rança que liberta a pressão se o peso do
ra da agua nunca subirá - apenas produ- respiradouro não subir quando ê atingida
zirá mais vapor. Mas a panela de pressão a pressão pretendida.
tem uma lampa que veda hermeticamen- A panela de pressão doméstica evoluiu
te; assim, o vapor que se produz quando a a partir de um "digestor a vapor" paten-
agua ferve acumula se no seu interior, au- teado em Inglaterra pelo físico francês De
mentando a pressão e aumentando por nis Papin em 1679. A panela actual trabalha
tanto 0 ponto de ebulição da água. Com à pressão de I kg/cm2, cerca do dobro da
uma temperatura de cozimento mais ele pressa.» atmosférica normal, e, por este
vada, o tempo de cozedura é reduzido. Na motivo, ,i água ferve a 122°C.

IMPOSSÍVEL UM BOM CHA NO IOPO DO EVERESTE ...


A água ferve quando começa a Iransfor E isto responde á pergunta: por que
mar-se em vapor. As bolhas são causa- razão não se consegue beber um bom
das pelo vapor que sobe d») fundo do chá no topo do F.vereste?
recipiente para a superfície. O cume do monte Evereste encontra
A temperatura de 100°C que é dada se- a quase 9000 m de altitude, e a prés
como o ponto de ebulição da água só é são atmosférica é aí menor que um terço
correcta ao nível do mar. A medida que da pressão ao nível do mar. A água ferve
subimos, a pressão atmosférica desce, a 70°C apenas: esta temperatura não
provocando igualmente a descida do é suficiente para extrair das folhas do
ponto de ebulição da água. Tanto na pa chá a sua melhor fragrância, pelo que o
nela vulgar como na de pressão, o tem resultado nunca poderá ser um bom
po de cozedura aumenta. chá.

Remédio para o calcário das panelas


As pessoas que têm em casa água canali- solve o calcário, fazendo-o fervilhar en
zada, que e calcaria por provir de regiões quanto liberta dióxido de carbono.
em que o solo possui rochas calcárias, aca Em algumas caldeiras e sistemas de
bani com parle destas rochas depositada aqueci mento de
nas suas panelas e cafeleiras. águas, a dureza da
Quando a água da chuva é filtrada atra água pode ser mais
vés de um terreno calcário, dissolve se nela do que um simples
uma parte desse mineral. Ao ferver se a incómodo: o calcá-
água, o calcário e separado da solução e rio deposita-se nas
deposita-se na panela. paredes interiores
I Ima água calcária faz-se ainda sentir de dos canos e reduz o
outra forma: o sabão não produz muita débito da água. Nas
espuma. Em vez de dissolver o sabão e fa- caldeiras, forma nina
zer espuma, a água reage com os COITlpO barreira que impede
nentes químicos do sabão e forma flocos a transferência efi-
insolúveis. K a chamada agua "dura". ciente do calor, enca
Aparecem igualmente manchas de cal recendo muito o
cario nas banheiras e lavatórios e em redor aquecimento. Por isso, a água leni de ser Flor de pedra. Cristais de carbonato de
das bicas das torneiras. "amaciada" antes de entrar nos circuitos cálcio em fornia de flor (em cima) ligam as
Os depósitos de calcário nos recipientes de aquecimento. 'pétalas", formando o deposito calcário no
podem ser removidos pelo vulgar vinagre Nas estações do abastecimento de água interior das panelas e caldeiras. De compo
ou por produtos comerciais adequados, ê possível diminuir lhe a dureza por pro- siçãa química idêntica são as estalactites
contendo, por exemplo, uma solução cessos químicos, tratando-a, por exemplo, (ao alto) que pendem do tecto das grutas
concentrada de ácido fórmico, O ácido dis- com cal apagada e carbonato de séxlio. calcarias.

26
Os "girinos"
na sua máquina
de lavar
O segredo de Iodos os pós de lavar é um
produto químico que torna a água mais ÁGUA MAIS 'MOLHADA" PARA LAVAR A ROUPA
'"molhada". Curiosamente, a água por si só
não é muito eficiente em "molhar" as coi- A água nào molha bem os objec-
sas devido à sua tensão superficial, que lhe tos porque as suas moléculas se
confere uma espécie de pele e é causada juntam, produzindo tensão su
pela atracção das moléculas do interior da perficial. Os alfaiates conseguem
água sol ire as da camada superficial. assim "andai" sobre a água. Ao
A adição de um detergente à água enfra- juntar um detergente a uma gota
quece as forças intermoleculares e reduz a de água, esta perde a forma este
tensão superficial, o q u e permite à água rica (a esquerda), deuiao à redu
espalhar-sc mais facilmente e molhar me- çôo da tensão superficial.
lhor as coisas. A água de lavagem, mais
"molhada", consegue penetrar mais facil- Os detergentes rernouem as gor-
mente nas libras dos tecidos e retirar delas duras porque as ajudas das suas
as sujidades e gorduras. moléculas se ligam às partículas
0 ingrediente activo d o s detergentes de gordura. As cabeças das molé-
que não contém sabão é um derivado do culas sao atraídas pela água, e\
petróleo, um alquilbenzeno, tratado com pulsando as partículas gordas do
ácido sulfúrico e soda cáustica. tecido tiuando se agita a roupa.
Podemos imaginar as moléculas do de As fracas cargas eléctricas do de
tergente c o m o p e q u e n o s girinos, c o m tergente impedem as partículas
uma cabeça e uma cauda. As cabeças são de gordura de se unirem
atraídas pelas moléculas da água — sáo
hidrófilas, isto é, gostam da água. porque
as moléculas da água têm uma pequena Tecido (ú esquerdai
carga positiva, ao passo que as "cabeças" com partículas de gor
de detergente sáo eleetricamente negati- dura entre as fibras.
vas. As caudas, por seu lado, são hidrófo Durante a lavagem,
bas (não gostam da água). <js moléculas de deter
Q u a n d o se m e r g u l h a a r o u p a suja gente arrastam a gor
numa solução de detergente, as caudas dura. limpando o teci
das moléculas agarram se á sujidade gor- do fà direita).
durosa das fibras, pois são quimicamente
semelhantes a gorduras. Alem disso, pene-
iram entre as libras, soltando a sujidade.
Por outro lado, as partículas de sujidade,
ao atraírem as caudas, ficam totalmente
revestidas por uma camada de cabeças hi-
drófilas - tal como minúsculos balões —
e flutuam na água. A agitação da roupa
ajuda assim a libertar a sujidade.
Os pós de lavagem sáo uma mistura de
até 10 ou mais ingredientes, entre quais o
detergente básico e um branqueador.
Os pós de lavagem biológicos diferem
dos outros detergentes por conterem enzi-
mas, um tipo de proteínas produzidas pe
las plantas e animais. Os enzimas actuam
como catalisadores, ou activadores quími-
cos, para ajudar a d e c o m p o r as n ó d o a s
que contém proteínas, lais como sangue,
transpiração e molhos de carne. Os enzi
mas provocam a decomposição química
das outras proteínas, enquanto os deter-
gentes normais actuam fisicamente. Dado
que as nódoas de proteínas sáo derivadas
de seres vivos, os detergentes que. actuam
sobre elas são chamados biológicos.
Pasta de dentes —
de giz e algas
As pessoas que lavavam os dentes nos
meados do século xix usavam provável
mente pós dentífrtcos contendo coral moí-
do, osso de choco, casca de ovo queimada
ou porcelana. Por vezes, esles pós conti
nham ainda um corante vermelho obtido
dos corpos das cochonilhas.
As pastas dentffricas actuais — brancas,
de cor ou às riscas — contem dez ou mais
ingredientes. Uns deslinam-se â limpeza
ou à protecção dos dentes, outros confe-
rem o sabor à pasta, outros fazem a ligação
da massa, outros ainda facilitam a sua saí-
da do tubo
0 ingrediente principal da parte branca
da pasta é giz finamente moído (carbonato
de cálcio) ou outro pó mineral como o
óxido de alumínio. Estes pós são ligeira-
mente abrasivos e ajudam a remover a pla-
ca dentária, película que se forma constan-
temente sobre os dentes e que é composta
por muco, partículas de alimentos e bacté-
rias.
Ás vezes, para tor-
nar a pasta mais bran-
ca, junta-se também >
um pouco de óxido
de titânio em pó.
As pastas de gel
transparente ob-
têm as suas caracte-
rísticas abrasivas
por meio de com-
postos transparen-
tes de sílica, a que
frequentemente se
adiciona um co-
rante.
Os ingredientes
de limpeza e poli-
mento são combi-
nados com água,
formando uma
pasta espessa gra-
ças à adição de um
agente de ligação
e espessamento
como o alginato,
substância extraída Enchimento dos tubos. Os tubos oazios são enchidos mecanicamente: recebem
das algas marinhas. quantidades exaCtOS da pasta, depois do que são vedados na extremidade

A introdução das riscas. Ilã dois processos "Pasta dentífrica branca


de pôr as riscas na pasta. No recipiente Pasta dentífrica de cor
grande (ã esquerda), a pasta branca
e a colorida são introduzidas
separadamente e combinam-se
quando se espremem para o exterior.
No tubo tradicional (ã direita;, a pasta
Pasta às riscas. de cor encontra-se num anel perto da
As riscas de cor extremidade e sai através de orifícios.
contêm flúor ou elixir. fazendo assim riscas na pasta branca.

2S
Junla-se ainda um pouco de detergente Gillette e a máquina de barbear
para criar espuma e contribuir também
para o processo de limpeza. Para que fique
agradável ao paladar, a pasta é geralmente
adoçada com óleo de hortelá-pimenta e
S e não fosse a invenção do amorica
no King Camp Gillette (1855-1932),
é possível que, ainda hoje, os homens
se barbeassem todas as manhãs com as
cabo e cabeça regulável. As lâminas de
aço ao carbono tinham a garantia de se
manterem afiadas por 20 barbas e eram
mentol. vendidas em pacotes de 12.
Inclui se também um humectante velhas navalhas de barba. Gillette criou a Safety Razor Company
como a glicerina, a fim de evitar que a pasta Caixeiro-viajante de ferragens no e-patenteou a sua máquina de barbear
seque. Além disso, na maioria, as pastas Centro Oeste Americano, Gillette bar- em 1901. As primeiras máquinas surgi
clenlífricas actuais contém flúor, que ajuda beava-se certa manhã, em 1895, quando iam nos Estados Unidos em 1904. Vendi-
a fortalecer o esmalte dos dentes, e por achou que a sua navalha não era eficien- das em ourivesarias, farmácias e lojas de
vezes o bactericida formaldeído. te nem segura. Reparou que só ferragens, bem como nos novos
uma pequena parte da lâmina armazéns de retalho, a máqui-
Como se fazem as riscas era utilizada v como era pe- na c as lâminas apresenta
Algumas pastas dentífricas apresentam o rigoso tal instrumento - vam se em conjunto den-
flúor ou o elixir sob a forma de riscas. que podia, literalmente, tro de um estojo. Os cabos
A iiiislura de limpeza é normalmente cortar a garganta de um das primeiras máqui-
branca, enquanto o flúor ou o elixir são homem. Homem nas levavam um ba-
frequentemente um gel transparente azul ocupado, Gillette não nho de prata, e os dos
ou vermelho. As duas pastas são prepara gostava de desperdi modelos mais caros,
das separadamente. Os tubos são enchi- çar o seu tempo a mi banho de ouro.
dos, como sempre, pela parle larga, que amolar a navalha. Mas as vendas iniciais
depois c dobrada e vedada. As duas pastas Porque não criar revelaram-se
contêm cores que não se misturam, e as uma lâmina que nunca d e s a n ima
respectivas massas também não se mistu- tivesse do ser afiada, doras. e
ram, de modo que. ao espremer se o tubo. que tivesse o tamanho a empresa
sai a pasta branca com riscas de cor. certo para barbear a cara promoveu uma
de um homem o que fosse campanha publi
suficientemente barata para citaria em jornais e re-
ser deitada fora quando já não cor- vistas para homens nos
Como se dá o fio tasse7 Gillette lembrou se ainda das pa
lavras do seu antigo patrão, Wil-
EUA e na Europa para dar
f^ a conhecer ao público o
às lâminas de liam Painter, um inventor
e homem de negó-
novo invento. Km 190(5, as ven
das atingiam as 90 000 máquinas
barbear cios que pensava
que, se se produzisse
e os 12 milhões de lâminas.
Gillette tornou-se rico e famoso. Ain
um artigo que as pessoas da hoje. o seu rosto é conhecido de mui
pudessem deitar fora depois tos, pois, até há pouco, o seu retrato
Todas as 24 horas. 25 000 pêlos crescem figurou nas embalagens das lâminas.
até cerca de meio milímetro na face do lio de usar, elas procurá-lo-iam
mem adulto. A moderna lâmina de bar- sempre. O desenho da chamada "gilete" e da
bear. perfeitamente afiada, permite um Gillette e o mecânico William Nic- sua lâmina não sofreu praticamente al-
barbear escanhoado, suave; e seguro. kerson aperfeiçoaram a lâmina de bar terações desde o início; actualmente,
Há milhares de anos que o homem se bear de segurança de dois gumes, que muitas máquinas de barbear são de
barbeia, lendo usado para isso lascas de se aplicava num suporte especial, com plástico e elas próprias descartáveis.
sílex, depois lâminas cie bronze e finalmen-
te de ferro. As primeiras navalhas de bar
bear com fio de aço foram feitas em Shef-
field em 1680. Mas a actual lâmina descar da curva do fio visto em secção: cerca de
tável surgiu apenas em 1901, com King cinco centésimos milésimos de milímetro
Camp Gillette e William Nickerson. Depois de afiado, o fio e polido por ro
A lamina de barbear inicia a sua vida das de couro. Mas, à escala microscópica,
como um rolo de fita de aço contínua, com o fio é ainda áspero e. devido â fricção,
uma espessura aproximada da do pêlo poderá repuxar os pêlos e provocar cies
que irá cortar. conforto. Para proteger o fio e reduzir a
O aço é uma liga com cerca de 13"» de fricção, a lâmina recebe três banhos suces-
crómio, que lhe confere maior dureza e sivos: um de crómio, outro de cerâmica e
resistência à corrosão. A dureza é ainda outro de PTFE, substância mais conhecida
aumentada com o aquecimento do aço e a corno revestimento não aderente de pane
sua imersão num líquido de arrefecimento. las e frigideiras. O crómio confere resistem
O fio de corte é produzido por afiação. A cia â corrosão, a cerâmica reduz o desgaste
fita de aço passa por três conjuntos de ro o o PTFE produz a lubrificação.
das de afiar, cada uni deles afiando mais Corte em molhado e a seco. Um pêlo Cada um destes revestimentos tem uma
que o anterior. As rodas estão montadas da barba cortado por uma lâmina em mo- espessura inferior a um centésimo milési
em ângulos diferentes, a fim de produzi lhado (à esquerda) apresenta uni coife mo de milímetro.
rem a secção de fio chamada de arco góti- muito mais regular que o feito por uma A lâmina aplica-se num suporte com
co (curva), forma mais forte que a de uma máquina eléctrica (à direita). Cm pêlo um cabo, cómodo de manusear, e com
cunha de rampas direitas. O índice de afia seco é tão difícil de cortar como um fio de uma cabeça que pode ser ajustável e abre
mento da lâmina exprime-se como o raio cobre da mesma espessura. para receber a lâmina.

29
Como o aço inoxidável foi descoberto por acidente
O aço inoxidável foi descoberto por aciden- reage com o oxigénio do ar. produzindo de aços inoxidáveis, lima das ligas mais
te em 1913 pelo metalúrgico britânico liam óxidos de ferro avermelhados. Outros me- vulgares contém 18% de crómio o 8% de
Brearley. Este Fazia ensaios com ligas de aço tais, como o alumínio, o níquel e o crómio, níquel pelo que é conhecida por 18:8 —
que pudessem ser utilizadas nos canos de reagem também de forma idêntica, mas os e é utilizada «MM lava-louças. por exemplo.
espingarda. Mais tarde, verificou que, en- respectivos óxidos formam uma camada As taças de cozinha são fabricadas com uni
quanto a maioria das ligas que rejeitara ti- .superficial impermeável, impedindo que o aço contendo |.'j"n de crómio. Juntando
nham enlerrujado, o mesmo não aconle oxigénio reaja com o metal no seu interior. uma pequena percentagem do metal mo
cera .1 ama liga que continha 14% de cro Na liga de Brearley, o crómio formou uma libdénio, obtém se uma liga ainda mais re
mio. Esta descoberta levou â criação do açi > placa semelhante protegendo o metal da SÍStente à corrosão que é utilizada no revés
inoxidável. O aço vulgar enferruja porque oxidação. Hoje. fabrica-se uma diversidade timento de edifícios.

Poria para o Oeste. (> mau» ano do Mundo é 0 monumento à expansão americana para oeste, em St Louis, Missuri. Tem \S2 m de alttiiu
e 192 m de Uáo. Uma tal construção SÓ podia ser feita de aco iuoxiduicl.

30
Grandes proezas de organização •
Desde a regulação do trânsito numa cidade até à organização dos Jogo
Olímpicos ou à montagem de automóveis — há tantas coisas que
achamos naturais e que nos parecem simples... até descobrirmos
o que se passa nos bastidores.
Como lidam os aeroportos com milhões de passageiros?
Um aeroporto é um organismo vivo com
urna função principal: manter o sangue
que o alimenta — os seus passageiros -
fluindo livremente através das suas veias e
artérias. 0 número desses passageiros é
astronómico e cresce rapidamente. Em
1986, os 37 aeroportos mais movimenta-
dos do Mundo foram utilizados, no seu
conjunto, por um total de 740 milhões de
pessoas. Em todo o Mundo, os aeroportos
gastam anualmente 750 milhões de con-
tos para que os seus passageiras se sintam
satisfeitos.

Os "Jumbos"
Veja-se o aeroporto mais movimentado do
Mundo, o 0'Hare, em Chicago, utilizado
por 50 companhias aéreas. Passam por ele
55 milhões de pessoas por ano, o que re-
presenta 6700 passageiros por hora. Cerca
de 2200 aviões utilizam diariamente o
0'Hare. Quando diversos Jumbos aterram
a minutos uns dos outros, milhares de pes- Prontos para o embarque. Jactos de passageiros encostam às fontes do terminal do
soas saem deles quase simultaneamente, Aeroporto de Frankfurt — o principal da Alemanha e um dos 37 mais movimentados do
provocando congestionamentos que afec Mundo, que, no seu conjunto, processam 740 milhões de passageiros por ano.
tam os planos e as disposições dos passa-
geiros, destroem a confiança e minam os
lucros do aeroporto. As avarias e as greves
produzem os mesmos efeitos.
Quando uma greve de controladores aé
reos em Espanha coincidiu com o início
das férias grandes em França, em Junho de
1988, dezenas de milhares de passageiros
ficaram retidos em aeroportos por toda a
Europa. Só em Manchester, 16 000 turistas
em férias tiveram atrasos de até sete ho
ras — e um grupo de pessoas que se dirigia
para a Grécia partiu finalmente depois de
uma espera de 21 horas. Foram chamados
palhaços e malabaristas para entreter mi-
lhares de crianças.
As bagagens são uma questão impor-
tante na organização dos aeroportos. Se-
guem separadamente dos passageiros,
em parte por razões de segurança, em
parte porque são alojadas noutra secção
do aparelho. A missão do chamado pes-
soal de handling é assegurar que as ma-
las tenham o mesmo destino que os res-
pectivos donos. No terminal da United
Airways em 0'Hare, as etiquetas de baga-
gem, codificadas por computador, são li-
das por laser, e os distribuidores automá-
ticos processam 480 peças de bagagem
por minuto, contra as 7õ que poderiam
ser processadas à mão. A zona de distri-
buição da bagagem tem a área de seis
campos do futebol.

Esperando ordens. Cada Jumbo que


aterra no Aeroporto J. F. Kennedy. de Nova
Iorque, chega a desembarcar 500 passagei-
ros. Segue-se a espera para o próximo LHX).

32
Com as crescentes dimensões e com- localiza um deles, podem ter que andar a pé
plexidade dos aeroportos, os problemas uma enorme distância para chegar até lá,
multiplícam-se. Quanto mais pessoas pas
sam por um aeroporto, mais espaço é pre-
No maior terminal do Mundo - o do Aero-
porto de Hartsfield Atlanta, na Geórgia,
A vigília constante
ciso, tudo leva mais tempo e mais frustra
dos se sentem os passageiros. Com a ex-
EUA —, a área coberta atinge mais de 24 ha. para evitar que os
Cada terminal acaba por assemelhar se
pansão dos parques para automóveis, por
exemplo, tem de se proporcionar aos pas-
a uma pequena cidade, com o seu exército
próprio de bagageiros, de pessoal de lim-
aviões choquem
sageiros meios adicionais de transporte peza, de enfermagem e administrativo,
para os levar dos seus carros até aos termi- empregados das lojas, dos restaurantes e Apesar da acumulação crescente de aviões
nais do aeroporto. Mais aviões exigem da manutenção. O Terminal 3 do Aeropor- no espaço aéreo mundial, a viagem por ar
mais portas de embarque e mais terminais to de Heathrow, em Londres, que movi- está a lornar-se efectivamente mais segura
e mais quilómetros de corredores. menta a maioria dos voos de longo curso, Nos EUA, o número de viajantes por ar
As dimensões dos aeroportos tornam tem 3000 empregados. subiu de 315 para 460 milhões entre 1980 e
-se assustadoras. Enquanto uma grande Mas para se manterem activos, todos os 1987. No mundo ocidental, o tráfego aéreo
estação de caminho de ferro cobre cerca terminais acabam por ter de ser moderni- cresce cerca de 20% por ano.
de 3,5 ha, o maior aeroporto americano, o zados, como aconteceu ao terminal 3 de Parece assim que deveriam aumentar as
de Dallas-Fort Worth, cobre 7000 ha. Em Heathrow entre 1987 e 1990. A sua remode- probabilidades de colisões no ar, mas
1988, os seus quatro terminais movimen- lação teve de ser planeada por forma a cau- em cada ano o índice destes acidentes di-
taram mais de 44 milhões de passageiros. sar o mínimo de transtorno ao pessoal e minui. Nos EUA, houve 1,72 mortes por
Mas mesmo este enorme aeroporto pa- aos seus 0 milhões de passageiros anuais. 100 000 horas de voo em 1978 e 0,92 ern
rece pequeno se comparado com o maior Contudo, novas tecnologias permitirão 1986. Por outras palavras, um avião teria de
do Mundo, o Aeroporto Internacional do atender mais pessoas com as instalações voar 24 horas por dia durante quase 12
Rei Khalid, na Arábia Saudita, com os seus existentes. Tapetes rolantes para passagei- anos para que morresse uma pessoa.
23 (iOO ha, mais de quatro vezes a área da ros, tratamento computorizado das baga- Contudo, o sistema revela sinais de can-
Bermuda. gens, comboios automáticos para trans saço. Em 1987, os quase acidentes nos EUA
Ao chegarem a um aeroporto, os passa- porte das pessoas desde os parques de au- ocorreram à razão de três por dia - o do-
geiros encontram á sua disposição uma tomóveis — todas estas inovações se desti- bro dos de 1984. Em 8 de Julho de 1987, por
vasta gama de serviços que, por vezes, os nam a tornar mais aprazíveis as viagens exemplo, dois Jambos americanos am-
confunde, e, quando descobrem onde se aéreas. bos a caminho dos EUA com um total de
quase 000 pessoas a bordo — passaram a
menos de 30 m um do outro por sobre o
Atlântico. Os números correspondentes
na Europa mantêm-se estacionários, mas
alguns peritos temem que o quadro ameri-
cano se repita aqui à medida que o tráfego
aumenta.
A responsabilidade de assegurar que os
aviões não colidam no ar pesa inteiramen-
te sobre os ombros dos controladores de
tráfego aéreo. E com o aumento do núme-
ro de voos, aumenta constantemente o vo-
lume do trabalho. Nos EUA, a federal Avia-
tion Administralion emprega 15 500 con-
troladores aéreos - quase exactamente o
mesmo número que em 1980.
Os principais locais de perigo são os
próprios aeroportos, pois 90% de todas as
colisões e quase colisões entre aviões dáo-
se quando estes sobem depois da desço
lagem, descem para aterrar ou circulam
aguardando autorização para aterrar.

As regras do ar
As regras do tráfego aéreo há muito que se
encontram estabelecidas. O espaço aéreo
está dividido em zonas de controlo (fír's)
em que existem corredores aéreos, nos
quais cada avião voa no interior de um pa-
ralelepípedo teórico. Nos corredores entre
Nova Iorque e Londres, por exemplo, os
aviões estão separados por espaços de
2000 pés (610 m) na vertical e 60 milhas
marítimas (110 km) na horizontal.
Os controladores têm de assegurar que,
durante o voo, cada avião seja entregue de
uma zona de controle à outra, mesmo so
brevoando o oceano.

33
Antes de descolar, cada avião entrega to com os centros de controle de tráfego em voz sintetizada, instruções para não-
um plano de voo, que é actualizado em serão monitorizados por satélite. Todos os -colisão. Outro computador tratará as subi
prínl outs do computador durante o voo. planos de voo e ajustamentos de horários tas alterações na direcção do vento, que
Os controladores de tráfego monitorizam serão actualizados automaticamente. O sa- podem provocar desastres quando o avião
a viagem a partir destes printouts. Cada télite dará também informações sobre as desce para aterrar.
avião emite um sinal identificativo que é hipóteses de congestionamento. Assim, o céu pode vir a tornar se mais
visto no radar. Um computador a bordo detectará ou- congestionado, mas será mais seguro -
Quando um aparelho se aproxima de tros aviões na vizinhança e dará ao piloto, pelo menos por uma ou duas décadas.
um aeroporto movimentado com inten-
ção de aterrar, é dirigido para um ponto de
referência por sobre um radiofarol, em ge-
ral a várias milhas de distância. E lhe então
atribuída uma rota de voo própria que o
Como são escolhidos os
conduz à pista. Contudo, durante perío-
dos de ponta pode acontecer que o núme-
controladores de tráfego aéreo
ro dos aviões que querem aterrar é su
perior àquele que o aeroporto comporta. Controlar o tráfego aéreo é como jogar xa Reagindo imediatamente, fez uma cha-
Em certos países, os aviões recebem or drez a três dimensões. Se se tiver cuidado e mada urgente para o DC-10: "AA 182, Cle-
dons para voarem em círculos concêntricos mantiver a calma e a lucidez, nada acnnte veland, qual é a sua altitude?"
- mas a diferentes altitudes — sobre o cera. As acções constam todas dos ma- A resposta do avião foi: "Atravessando
ponto de referência, num padrão de espe nuais e instruções de procedimentos, e há os 34,7 (34 700 pés) neste momento. Con-
ra. Os controladores fazem então aterrar os computadores que ajudam a planear cada seguimos ver estrelas por cima, mas ainda
que voam a altitudes mais baixas, determi uma delas e a prever as suas consequên- estamos na zona das nuvens."
nando em simultâneo que os restantes cias. Nada devia correr mal. Só que, às ve- Controlador: "AA 182, desça imediata
aviões diminuam a sua altitude de voo à zes, corre. mente para 33.0 CS.i 000 pés).»
medida que os outros vão aterrando. Nou- Km 2G de Novembro de 1976, um con- No cockpit do DC 10, O comandante
tros países, os aviões não são autorizados a trolador de tráfego aéreo em Cleveland, Guy Eby reagiu instintivamente, empur-
iniciar o seu voo antes de terem garantido Ohio, acabara de entrar de serviço. Obser rando para a frente a alavanca dos coman
o respectivo espaço de aterragem. vava o seu radar havia apenas 55 segundos dos. O avião picou com um movimento de
Nos EUA, alguns aeroportos retiram lu- quando se apercebeu de que estava em revolver os estômagos, e os passageiros,
cros destas esperas, permitindo que os presença de um desastre iminente. sem cintos de segurança, as hospedeiras e
aviões de companhias que pagam mais Um DC 10 da American Airlines, proce- os carrinhos com os tabuleiros de comida
passem à frente dos das outras. dente de Chicago e voando para leste com "voaram" quando o chão lhes fugiu debai-
Teoricamente, o controle (\o tráfego aé 194 pessoas a bordo, subia para a posição xo dos pés. Durante um breve instante, o
reo é um sistema de fiabilidade comprova- que lhe fora atribuída, a 37 000 pés. Um comandante Eby viu o seu pára brisas ta-
da. Mas, à medida que as exigências se acu- Jumbo da TWA, dirigindo-se para oeste pado com o Jumbo da TWA, passando
mulam, os problemas multiplicam-se. Na com 114 pessoas, voava a 35 000 pés. O mesmo por cima dele a uma velocidade
sua maioria, os sistemas computorizados controlador apercebeu-se de que os dois combinada de 1600 km hora. Os registos
actuais estão obsoletos, e os controladores aparelhos se encontravam numa rota de de voo mostraram depois que 0 DC 10 es
de tráfego, dirigindo dezenas de voos, tra colisão, colisão essa que ocorreria dentro lava a 14 m da altitude do Jumbo quando
balhain sob pressão crescente. 0 relatório de poucos segundos. mergulhou para se pôr a salvo.
sobre o desastre de um avião durante uma
trovoada no Aeroporto Dallas-Forl Worth,
no Texas, em 1985, demonstrou que os
controladores de tráfego aéreo recebiam
uma chamada em cada quatro segundos. \9 wP A u V ***
V
Esta carga de trabalho foi, no entanto, des-
crita como moderada. l\Ví— %
Através da Europa, os sistemas compu-
torizados de cada país são frequentemente
*s t >íw4»%Kv'l "Í-Jí
incompatíveis entre si. Aumenta assim a 1% \ \ \
4m
probabilidade de os erros surgirem e pas-
sarem despercebidos.
1 c.
A forma de preservar e aumentar a segu-
rança é recorrendo à computorizaçào. A
Federal Aviation Administration, dos EUA.
está a planear uma revolução no controle
do tráfego aéreo, com um custo de perto de
20 000 milhões de dólares. O novo sistema
quadruplicará a capacidade pela utilização •V«a»
'

fr.
de computadores, cuja capacidade é qua
tro vezes superior â dos anteriores e que são
oito vezes mais rápidos. O sistema sugerirá
aos aviões manobras de escape sempre
que verificar que dois aparelhos se encon-
tram em rota de colisão. Os visores de radar Controlando os caminhos aéreos. Sentados defronte dos visores de radar, os controlado-
serão a cores e terão informações sobre o res de tráfego aéreo no Aeroporto 0'Hare. de Chicago, seguem atentamente os aviões que
estado do tempo. Os aviões fora do contac aterram e levantam na área e estão em constante comunicação com os pilotos.

34
O incidente ilustrou as qualidades. kaocontrolador as características de per
ideais de um controlador de tráfego sonalidade necessárias para de-
aéreo: concentração, paciência, sempenhar cabalmente a sua mis-
rapidez de decisão e unia aulori são.
dade em que os pilotos possam Assim, além de um tempera-
confiar instantaneamente. Os mento calmo e equilibrado,
candidatos a este lugar tem uma atenção viva e reacções
de ler uma boa forma física, rápidas, a dedicação e auto-
boa visão, expressão verbal disciplina são também ca-
clara e habilitações que in racterísticas indispensáveis,
cluam o inglês, a língua in- pois lrata-se muitas vezes
ternacional da aviação. de uma ocupação solitária
Durante <> curso, os futuros envolvendo trabalho em
controladores de tráfego turnos durante a noite. Em-
aprendem leis da aviação e bora nos aeroportos peque-
teoria de meteorologia e ra nos os controladores consi-
diocomunicação, além das NÊ»!!^ K/,"':"-'!!!"Í gam ver os aviões a manobrar,
formalidades de comunica nos grandes muitos deles estão
ção com os pilotos. permanentemente sentados em
Estudam em salas de aula e em salas com iluminação difusa de-
simuladores, com sessões práticas fronte dos seus radares. Nunca vêem
em centros de controle e aeroportos. o avião e podem ler muito pouco contacto
São depois colocados num aeroporto ou com outras pessoas.
num centro de controle para fazerem um A conversa durante as horas de trabalho
estágio sob orientação superior Quando Rastreio por números. 0 oisor na sala de restringe-se muitas vezes as instruções da-
finalmente são considerados aptos, estão radares do Aeroporto Nacional de Wash das nas frases formais necessárias para ga-
preparados para analisar e agir com base ington atribui um número de voo a cada rantir clareza e rigor: "Roger. seven three
no enorme conjunto de informações em avião no seu espaço aéreo para que os res -two. Descend to three thousand feet on
constante alteração nos visores de radar e pectiuOS movimentos possam ser vistos e QNII one-zero two four." ('"Entendido,
de computadores. seguidos pelo radar. sele três-dois. Desça para três mil pés no
Um grande aeroporto como o de Frank- QNII. um zero dois quatro".)
furt trata uma média de 805 voos por dia movimento e todas com pilotos aguardan- Não se pode dizer que seja divertido.
- um por minuto nas horas de ponta — ,eo do instruções. Mas o desafio, a responsabilidade e o salá-
visor de radar do controlador pode apre- Mas não há capacidades intelectuais rio compensador garantem que não haja
sentar 25 imagens simultâneas, todas em nem conhecimentos técnicos que dêem falta de candidatos a controladores.

A caça permanente aos terroristas


Ann Murphy, empregada doméstica irlan- bo, que transportaria 375 pessoas para Te
desa, de 32 anos, chegou ao controle de lavive.
passageiros da El Al no Aeroporto de Um empregado da segurança fez lhe al-
Healhrovv. em Londres, em 17 de Abril de gumas perguntas de rotina e passou a sua
1986. Preparava se para voar para Israel, na mala pela máquina de raios X, que nada
convicção de que iria conhecer a mãe do mostrou de anormal.
seu noivo jordano antes de casar. Estava Depois despejou a mala e achou-a
grávida de cinco meses. O noivo, Nezar 'muito pesada para uma mala vazia". Aler
Hindawi, disse-lhe que seguiria noutro tado por esle peso suspeito, puxou pelo
voo, pois adquirira um bilhete através da fundo da mala e descobriu um comparti
empresa em que trabalhava. mento secreto contendo 1,5 kg de explosi
Ann Murphy entrou na bicha com os vo plástico. Uma calculadora de bolso no
outros passageiros para embarcar woJum meio das roupas de Ann continha um relõ

Convite para a morte. Sem o saber, a irlan


desa Ann Murphy (em cima. à esquerda)
linha na mala uma bomba de relógio. Fora
colocada pelo seu noivo jordano, Nezar
Hindawi (em cima, à direita), que mais lar/te
foi condenado o 45 anos de prisão por tentar
fazer explodir o avião com os seus 375 DOS
saleiros Entre as provas apresentadas a
julgamento (à esquerda), figuravam uma
pistola, balas, um saco. um passaporte e
uma calculadora para detonar o explosivo.

35
nhias aéreas poderão introduzir a "etique-
tagem oculta" o tratamento dos unifor-
mes, dos veículos e dos passes com um
produto químico detectável apenas por
equipamento especial de leitura.

Radiografia das bagagens


As máquinas de raios X de baixa intensida-
de, vulgares na década de 70, têm sido
aperfeiçoadas com circuitos transistoriza-
dos a fim de fornecerem imagens suficien-
temente nítidas para poderem detectar fios
eléctricos mais finos que um cabelo hu-
mano.
Mas as verificações por raios X são ape-
nas tão eficientes quanto os guardas que as
fazem: a maioria das pessoas aperceber-
-se-ia de uma pistola vista de lado - mas
vista de frente será mais difícil de reconhe-
cer.
O explosivo plástico — como o Semtex
checoslovaco — é invisível aos raios X. A
pilha, os detonadores e os fios utilizados
para a explosão podem ser facilmente in
corporados numa calculadora, como no
caso da El Al, ou num aparelho de rádio,
como no desastre da Pan Am.
Olho perscrutador. Nos aeroportos de todo o Mundo oerificam-se as bagagens por meio
de raios X. Nesta fotografia, um monitor de raios X reoeta que a mala inspeccionada, além de Detectores de metais
óculos de sol e uma tesoura, contém uma pistola. As máquinas que criam campos magnéti-
cos têm sido largamente utilizadas desde o
gio c um detonador que teriam feito expio passageiros e tripulantes e II residentes da princípio dos anos 70 na detecção de ob-
dir a bomba às 13 horas, quando o avião pequena cidade. jectos de metal dentro das bagagens. Entre
voasse a 39 000 pés sobre a Áustria. Os crimes no ar, em particular os assal- 1973 e 1980, só nos EUA descobriram
Nezar Hindawi dera-lhe a mala — já tos e a sabotagem, datam de 1930. quando 20 000 armas de fogo.
contendo o explosivo sob o pretexto de pela primeira vez um avião foi assaltado — Mas, para evitar que os alarmes dispa-
que a dela era muito pesada e colocara um avião das Linhas Aéreas Peruanas pira- rem desnecessariamente, os operadores
nela a calculadora, dizendo que era para teado no Peru. Desde então registaram-se dessas máquinas baixam-lhes frequente-
um amigo. A caminho do aeroporto, Hin- mais de (iOO incidentes, 90% dos quais de- mente a sensibilidade, aumentando assim
dawi pusera uma pilha na calculadora pois de 1968. o risco de deixar passar pequenas armas.
para armar a bomba. Os piratas do ar pedem geralmente di- Por outro lado, os detectores de metais
Terrorista palestiniano apoiado pelos nheiro, publicidade ou acção política. E os podem vir a tomar-se obsoletos: os peritos
Serviços Secretos Sírios, Hindawi foi apa- terroristas tratam as companhias aéreas em segurança temem que um dia seja pos-
nhado e condenado a 45 anos de prisão. como um símbolo da nação a cuja política sível construir armas de plástico.
Ann Murphy - que deu à luz a filha de se opõem.
ambos atites do julgamento foi descrita Cada uma destas tragédias provoca nos Etiquetagem de explosivos
no tribunal como a vítima de "um dos mais aeroportos uma segurança mais apertada, Alguns fabricantes de explosivos incluem
insensíveis actos de iodos os tempos!" mas a segurança terá sempre as suas limi- "etiquetas" nos seus produtos - mi-
0 avião teria sido destruído no ar com tações. Enquanto novas ideias e novos pro- núsculos pedaços de plástico, de cores co-
todos os passageiros e tripulantes se não gressos técnicos se sucedem, os responsá- dificadas, que revelam o local de origem e
fosse a atenção vigilante do empregado da veis da segurança mantêm com os terroris- a data de compra, permitindo assim ras-
segurança e a perfeição do sistema de veri- tas um permanente jogo do gato e do rato. trear os que os adquirem. Embora estas eti-
ficação de passageiros e bagagens da Kl Al. E há sempre um conflito entre a necessida- quetas apenas se tomem úteis após a ex-
A El Al, a companhia de aviação israelita, de de segurança e a necessidade de pro plosão, a sua inclusão poderá dissuadir os
tem fama de ser, no Mundo, a mais preo- cessar rapidamente o movimento dos pas- terroristas ao tornar mais garantida a res-
cupada com a segurança. Os passageiros sageiros. pectiva detecção. Os acordos internacio-
têm de apresentar-se cerca de três horas Embora as companhias não gostem de nais poderão alargar o uso desta etiqueta-
antes da partiria e submeler-se a urna revis- revelar pormenores, existem diversos ti- gem.
ta completa das suas pessoas. Toda a baga pos de segurança nos aeroportos.
gem é examinaria à mão. Revista aos passageiros
O pesadelo de um acto terrorista num Fiscalização do pessoal Quase todos os aeroportos revistam ac-
avião lotado pende constantemente sobre Um aeroporto é uma área enorme que tualmente alguns dos passageiros e a sua
todos os responsáveis pela segurança aé- emprega milhares de pessoas e tem mui- bagagem. A El Al revisla-os a todos. Mas os
rea. É um pesadelo que às vezes se toma tos pontos vulneráveis. O pessoal de abas- responsáveis pelos aeroportos dizem que
medonhamente real, como no caso rio tecimento e de limpeza, por exemplo, já seria demasiado caro e demorado se cada
Jumbo da Pan American que explodiu no tem introduzido nos aviões armas e explo- companhia verificasse todas as pessoas e
ar sobre a cidade escocesa de Lockcrbie sivos. todas as peças de bagagem. As pessoas
em 21 de Dezembro de 1988, matando 259 Para apertar a segurança, as compa revistadas são habitualmente escolhidas

36
GRANDES PROEZAS DE ORGANIZAÇÃO

ao acaso, a não ser que haja razões para Outro dispositivo é o aparelho de análi-
suspeitar de determinado voo ou passagei- se por neutrões térmicos, que bombardeia SERVIÇO A BORDO
ro. As revistas são agora apoiadas, como as bagagens com neutrões (partículas su No dia da partida, as necessidades de-
rotina, por questionários que incluem per- batómicas) que reagem com 0 azoto utili- finitivas de refeições constam do AS-
guntas sobre quem fez as malas dos passa- zado na maioria dos explosivos, libertan- PIC, o sistema automático do centro
geiros e se alguém lhes pediu que trans- do um gás detectável. As máquinas eslão a da Brilish Airways para o conlrolc da
portassem alguma coisa. ser instaladas em certos grandes aeropor- produção do fornecimento de comi
tos, especialmente para detectar explosi- da a bordo.
Percepção à distância vos plásticos. Cerca de quatro horas e meia antes
Utilizam-se cães com faro educado para Até que novos aparelhos sejam inventa da hora da partida, o centro começa a
detectar explosivos, liem como diversos dos ou aperfeiçoados, a melhor defesa preparar os tabuleiros. Os compo-
tipos de sensores de gases (v. p, 97). contra os terroristas é a vigilância eficiente, nentes, incluindo acepipes e sobre
Nenhuma máquina ou animal, por muito mas feita com lacto, pois as buscas muito mesa preparados de fresco, pão, ta-
sensível, consegue detectar explosivos ino- complelas conseguem tornar hostis até os lheres e condimentos, são entregues a
doros ou hermeticamente fechados. Contu- passageiros mais pacientes. partir dos respectivos locais no edifí
do, estão em progresso diversas técnicas. Foi o sentido de vigilância que levou os cio de quase 5 ha.
Uma delas é a radiografia por raios gama, que homens da segurança a descobrir a bom- Os processos de preparação dos
atravessa as bagagens com radiações mode- ba na mala de Anu Murphy, salvando as- pratos quentes variam conforme as
radamente radioactivas. Gerias frequências sim centenas de vidas inocentes. companhias aéreas. Umas cozinham
são parcialmente absorvidas pelo conteúdo, No futuro imediato, o melhor aliado do previamente os alimentos para serem
dando ao feixe de raios uma '"assinatura" que terrorista é o inspector de segurança abor reaquecidos na estufa ou em fornos
identifica os explosivos. recido e descuidado. de microondas a bordo. Nos voos da
British Airways, as refeições são par-
cialmente cozinhadas e rapidamente
congeladas para poderem ser depois
Refeições a bordo de um "Jumbo" terminadas nos fornos do avião e ser-
vidas logo que acabadas de cozinhar.
Quando os tabuleiros estão prepa
Com uma lotação que pode ir até 400 luga- seu quadro centenas de pessoas in rados, são colocados 30 em cada um
res, uni Jumbo acomoda tantas pessoas Cluindo 80 cozinheiras — que preparam cer- dos conhecidos carrinhos de trans-
como um hotel ou um hospital de tama- ca de 160 000 refeições por semana. Num porte com a largura da coxia e levados
nho médio. .Num voo intercontinental típi- dia típico, o centro abastece 30 voos juntamente com os carrinhos de be-
co, serve-se aos passageiros uma refeição de Jumbo. que poderão transportar quase bidas com as louças e talheres e ou
de três pratos (com o prato principal à es 12 000 pessoas. tros artigos. O número total dos arti-
colha), além do pequeno-almoço ou do As ementas são planeadas com três me- gos de cateríng de um Jumbo eleva se
lanche. ses de antecedência, mas há pedidos cons a 35 000.
Na maioria, as grandes companhias de tantes de dietas especiais por razões de Todos eles têm de estar verificados e
aviação preparam os pratos em centrais de saúde, religiosas ou culturais. Podem Iam prontos para embarque duas horas e
caleriny dos aeroporlos das suas cidades bém ser encomendadas refeições espe- meia antes da parlida, para dar tempo
de origem. O enorme centro de prepara ciais para crianças até 24 horas antes da a serem transportados para o avião.
ção e fornecimento de refeições da British partida. Falta agora uma hora para a par-
Airways, cm Heathrow, Londres, tem no Em Heathrow, a British Airways possui tida. Qualquer artigo de última hora
— uma refeição es|)ecial para um passa-
geiro diabético inesperado, uni bolo
de anos requisitado à pressa - é en-
tregue por camiào-frigorífico.
A bordo, os três conjuntos de refei-
ções para as três classes são armaze-
nados nas respectivas cozinhas — ge-
ralmente, seis. No ar, a refeição é servi-
da conforme o fuso horário local. Os
15 elementos do pessoal de cabina
tentam pôr os tabuleiros em movi-
mento imediatamente a seguir a estar
pronto o principal prato quente.
Recolhidos os tabuleiros c colocados
novamente nos carrinhos, tudo fica
pronto para ser descarregado, no desti-
no, para os veículos do calering local.

Refeições a bordo. As refeições nos


aviões, especialmente nas viagens de lon
go curso, procuram ter o nível de um bom
restaurante. O pessoal do centro de forneci
mento de refeições da British Airwoys em
Heathrow expõe o comida que vai ser servi
da aos passageiros de um Jumbo.
também um centro de lavagem do equi - 90 000 peças por dia — por meio de Abu Dabi-Singapura Sydney, por exem-
pamenlo cie serviço utilizado a bordo, um íman. plo —. a companhia procura fornecer
que é recolhido dos aviões logo que estes No local de destino do avião, o ciclo rei ementas diferentes para cada classe no
aterram. Este centro emprega lf>0 pes nicia-se. No curto espaço de tempo em percurso entre cada escala.
soas — mas apenas 130 na cozinha —, que O avião está pousado, é embarcada A 800(1 m acima do solo, a mudança de
apesar da enorme automatização. Há uma carga de ;},"> 000 artigos. Quando o ementa é a única coisa que distingue um
um aparelho que pega nos talheres voo tem duas ou mais escalas - Londres- percurso do outro.

O mundo especial e arriscado do mercado de títulos


Assim que se extinguiu o ruído dos ca- levando sucessivamente a cada bolsa res das bolsas está agora a ceder o lugar
nhões no campo de batalha de Waterloo, a sua hora de abrir, a onda varreu o Glo- ao ruído surdo da alta tecnologia, â me-
cm 1815. a notícia da vitória dos aliados bo — Hong Kong, Singapura, as bolsas da dida que os corretores se computori
sobre Napoleão foi levada por estafetas até Kuropa, e Nova Iorque outra vez. Os valo- zam. Mas os princípios básicos náo se
ao banqueiro Nalhan Rothschild, em Ixin res das empresas americanas desceram alteram. A bolsa é o local para a compra
dres. Este financeiro, um dos fundadores mais de 500 biliões de dólares antes de o e venda de valores — designação genéri
da dinastia Rothschild, recebeu a notícia dia terminar. ca para os fundos do Estado, as acções,
mais de 24 horas antes do primeiro-minis- A "Segunda-Feira Negra" veio chamar a as obrigações e títulos similares. Todos
tro britânico, Lord Liverpool. atenção para o mercado de títulos de pes eles representam um investimento para
Rothschild sabia que o preço dos títulos sejas que normalmente nem reparam que a pessoa que os compra e uma forma de
do Governo Inglês subiria em flecha quan- ele existe. Como podiam dar se perdas tão obter fundos para a organização que os
do a notícia fosse conhecida. Comprou volumosas?, perguntavam. Como d que emite.
por isso grandes quantidades desses títu- funcionam as bolsas de valores? A bolsa de valores determina, pelo pro-
los. 0 preço subiu durante os quatro dias Há três séculos ou mais que as bolsas cesso do mercado livre da oferta e procura,
seguintes, e Rothschild viu aumentar a sua têm sido a praça aonde as empresas — e o valor de cada título para a pessoa que o
já considerável fortuna. também alguns governos - se dirigem possui em qualquer momento.
Hoje em dia, as organizações financei- para obterem parte do capital de que pre- As empresas que necessitam de di-
ras de todo o Mundo estão nheiro extra para financiar
interligadas por comunica- as suas actividades têm, nas
ções electrónicas, e os acon- economias de mercado li-
tecimentos são conhecidos vre, duas maneiras princi-
em toda a parte quase ime- pais de o obter: ou o pedem
diatamente. Os mercados de emprestado a um banco
títulos do Mundo agem qua- por um prazo fixo, ou o ob-
se em uníssono, cada um de- têm vendendo uma parte de
les reagindo sem demora às si próprias, sob a forma de
notícias que recebe dos títulos, a alguém que os pre-
outros. tenda comprar.
Exemplo dramático foi a O segundo processo leni
quebra verificada no merca vantagens para a empresa,
do de títulos na segunda-feira porque o dinheiro obtido
li) de Outubro de 1987, que não tem necessariamente
se transmitiu como uma de ser devolvido, caso os
onda de choque à volta do empreendimentos da com-
Mundo, à medida que cada panhia falhem por comple-
bolsa ia abrindo para um to. Os compradores dos tí-
novo dia de trabalho. A Bolsa tulos, por seu lado, ficam
de Nova Iorque sofrera uma com direito a parte dos lu-
queda brusca na sexta (eira cros se a empresa prospe-
anterior, seguindo-se um rar, e os seus títulos aumen-
fim-de-semana efervescente tarão de valor. Esperam ob-
de pânico financeiro. A Bolsa ter desse investimento um
de Sydney abriu as portas na rendimento melhor do que
manhã de segunda-feira en- aquele que conseguiriam
quanto grande parte do dando ao sen dinheiro uma
Mundo dormia ainda. Os outra aplicação menos ar
corretores foram inundados riscada.
por ordens de venda, e os va- Scgunda-Feira Negra. Os semblantes preocupados dos corretores de Estar cotada na bolsa dá
lores das acções baixaram títulos londrinos refleclerti a consternação provocada peio crash mundial prestígio ã empresa, o que,
milhares de dólares. As co dos mercados de títulos na "Segunda-Feira Negra" do Outono de 1987. por sua vez. a ajuda nos
iniinicações por satélite leva- seus esforços de criar fun-
ram imediatamente a notícia à Bolsa de dos. Através da bolsa, a empresa tem
cisam para financiar os seus empreendi-
Tóquio, onde se deu uma venda em larga igualmente acesso ao conjunto mais im-
mentos.
escala. portante de investidores potenciais — e
O tradicional frenesim de compras e
Enquanto a Terra rodava no seu eixo. vendas, ao jeito de leilões, nos corredo- ao seu dinheiro.

3H
Passo acelerado.
Corretores da Bolsa de
Tóquio rodopiando na
zona central (à esquerda,
em baixo). A fotografia
mais aproximada
mostraos em
compenetrado colóquio.

"CRASH" POR COMPUTADOR?


A utilização de computadores por al-
guns investidores no mercado de títu-
los criou um processo chamado "ven-
da stop-hss", que poderá ameaçar a
estabilidade dos mercados nacionais
e até internacionais.
Os proprietários de valores dão ins-
truções aos corretores para progra-
marem os seus computadores com
determinado preço para cada título.
Se o preço desce abaixo do progra
mado, os títulos são vendidos para mi-
nimizar as perdas dos proprietários.
Mesmo nas bolsas mais automati-
zadas, o processo ainda náo é intei-
ramente automático: o corretor tem
Uma empresa não é automaticamente belecido de vagas e a bolsa é aberta a qual- ainda de falar com o market maker
admitida na bolsa. Há regras para garantir quer empresa que preencha os requisitos para fazer negócios importantes.
que as empresas cotadas dèern aos investi- de admissão. Mas, com o aparecimento dos siste-
dores informações completas e rigorosas São os sócios que elaboram as regras da mas computadora computador, o
acerca dos seus negócios e os tratem com bolsa, e estas têm de obedecer às leis do mundo financeiro arrisca-se a um
honestidade e dentro da lei. país. Em alguns países, foi criada uma enti- crash dirigido pelos computadores.
E caro e complicado para as empresas dade independente, como a Comissão de Uma ligeira tendência baixista no
conseguirem cotação nos grandes mer- Títulos e da Bolsa, nos Estados Unidos, mercado de títulos poderá desenca-
cados, como os de Nova Iorque, Tóquio para vigiar a actividade diária das bolsas dear umas quantas vendas stop-
ou Londres. Km Nova Iorque, por exem- em representação do público. •loss, provocando um consequente
plo, uma companhia cotada tem de ter novo abaixamento. Este, por sua vez,
um activo de pelo menos 16 milhões de "Market makers" e corretores desencadeará outros, e assim suces-
dólares. O privilégio máximo concedido pelas bol- sivamente, originando um crash di-
Muitos países criaram mercados secun- sas aos seus associados é o direito de se- fícil de controlar.
dários para as empresas de menores di- rem market makers em títulos — isto é, de
mensões que pretendem oferecer ao pú- serem o ponto central através do qual os
blico os seus títulos. Estes mercados im- valores são comprados e vendidos.
põem condições menos rigorosas que as O segundo privilégio, igualmente im-
dos grandes mercados, mas obedecem, portante, é serem corretores — as pessoas
mesmo assim, a regras estritas. que têm acesso directo aos market makers
Em Portugal há o chamado "mercado para comprarem ou venderem em nome
não-oficial", onde são cotadas as empresas dos investidores. Em Londres, o market
que não preenchem as condições impos- maker é a figura principal. Na Bolsa de Va
tas para a cotação oficial. Prevê-se ainda lores de Nova Iorque, o "especialista" de-
para breve a criação de dois "terceiros mer- sempenha um papel idêntico. A cada es
cados" regionais (Lisboa e Porto). pecialista é atribuído o direito exclusivo de
negociar em determinados títulos, que
Quem administra as bolsas? pode comprar ou vender a corretores que
Como templos do mercado livre, as bolsas o contactem, ou que pode comprar ou
do mercado têm sido tradicionalmente ad vender por sua própria conta.
ministradas precisamente por aqueles que O negócio assume a forma de um lei-
lhes deram origem. Assemclham-se a clu- lão livre na sala da bolsa, no qual os corre-
bes privados muito exclusivos. Em muitos tores, com instruções dos seus clientes,
países, a qualidade de membro pode ser se juntam em volta do especialista, gri-
comprada, desde que os outros membros tando os preços por que eslão dispostos
concordem com a admissão e exista uma a comprar determinados títulos (o bid)
vaga. 0 preço é elevado - chega a cerca ou a vendê-los (o ask). O especialista
de 375 000 dólares em Nova Iorque e a 6,6 concilia compradores e vendedores da O «floor». Corretores da Bolsa de Honsf
milhões de dólares em Tóquio. Em outros melhor maneira, utilizando a sua carteira Kon# sentam-se em frente dos compu-
países, como a Grá-Bretanha, os membros de títulos pessoal para corrigir desequilí- tadores e dos telefones, comprando e ven-
náo estão sujeitos a um número preesta- brios. dendo títulos públicos, acções e obrigações.

39
ORIGEM DAS BOLSAS
As cerca de 130 bolsas de valores do
Mundo têm as suas origens na Fran-
ça e Países Baixos (Bélgica e I lolan
da) do século xin. Os negociantes
vendiam letras de câmbio - decla-
rações de dívida emitidas pelos mer-
cadores em troca de empréstimos.
Se o portador de uma letra precisava
de dinheiro antes do respectivo
vencimento, podia vendê-la a um
terceiro
Mas só no século xvn as bolsas co-
meçaram a evoluir para a sua forma
actual. A Bolsa de Valores de Amster-
dão reclama-se como a mais antiga,
fundada por volta de 1611. Em 1697, foi
introduzido em Inglaterra um primei
ro sistema de regulamentação dos
corretores.
Locais de pânico. Os corretores vagueiam Até ao princípio do século xix, as
consternados com a grande quebra da Bolsa bolsas de valores, na maioria, eram
de Nova Iorque em Outubro de 1987 (em ajuntamentos informais de corretores
cima) Há momentos de tensão fã esquerda) nos bairros mercantis das cidades.
quando perscrutam nos seus computadores Em Londres, o negócio centrava-se
os últimos movimentos do mercado. em cafés. Em Nova Iorque, os correto-
res encontravam se ao ar livre, debai-
bolsa 50 000 acções com o valor nomi- xo de uma árvore, naquilo que mais
nal de 2000$ cada uma. No entanto, uma tarde foi a famosa Wall Street. Mas o
vez que aqueles títulos comecem a ser desenvolvimento industrial do século
negociados, o seu preço de mercado xix e a explosão da oferta de acções e
pode revelar-se superior ou inferior ao outros títulos criou a necessidade de
valor nominativo. Quando há mais pes- instalações permanentes.
Na Bolsa de Tóquio, o equivalente aos soas a comprar do que a vender, o preço A Bolsa de Valores de Nova Iorque é
especialistas de Nova Iorque são os dia sobe. Quando há mais a vender, o preço o maior centro de transacções, repre
mados saitori, que operam de forma se- baixa. sentando 60% do negócio mundial de
melhante, à excepção de não serem au- Num mercado altista, as pessoas com- títulos, com cerca de 1500 empresas
torizados a comprar ou vender títulos pram títulos na esperança de que o seu coladas.
por conta própria: são meramente inter- valor aumente e venham a poder vendê- A Bolsa de Valores de Tóquio ocu-
mediários nas transacções da sala da los com lucro. Num mercado baixista, os pa o segundo lugar mundial, com
bolsa. preços dos títulos estão a cair, e os espe- quase tantas empresas como Nova
Os market makers obtêm o seu rendi- culadores podem ainda fazer dinheiro Iorque, mas com um valor de transac-
mento do spread das suas transacções — concordando em vender, a um preço fixo, ções inferior a metade daquele.
a diferença entre os valores de compra e títulos que nessa altura ainda não tenham
venda.
Os corretores trabalham geralmente à
comissão, ligada ao valor dos títulos que
compram ou vendem por conta dos seus
clientes.
Em Portugal, a função de market maker
é desempenhada pelas sociedades finan
ceiras de corretagem (dealers), e a função
de corretor, pelas sociedades corretoras
(brokers).

O preço dos títulos


Os títulos cotados oficialmente são ini-
cialmente emitidos com um valor nomi-
nal ou facial. Uma empresa que preten-
da, por exemplo, angariar 100 milhões
de escudos pode pôr à venda através da

Ciência de computador. Desde a com-


puíorizaçâo da Bolsa de Valores de Lon-
dres, em 1987. os corretores trabalham a
punir dos seus próprios escritórios. Os mo-
nitores mostram a situação do mercado.

40
pago: esperam que, quando tiverem que o para os seus departamentos de previsão.
fazer, o preço lenha caído ainda mais, de O valor dos títulos está em constante
modo que irão pagar menos do que aquilo
que receberão.
variação, à medida que se processam as
compras e as vendas. Mas é conveniente
Dinheiro para
O valor de mercado dos lítulos é regido
pelo comportamento da empresa que os
"congelá-los" periodicamente para se po-
der comparar, entre dois períodos sucessi-
queimar
emite e pela situação económica e política vos, o comportamento desses títulos o dos
do país e do mercado. títulos do mercado em geral. Todos os dias Os cínicos afirmam muitas vezes que os
Os acontecimentos nacionais que afec- é publicado nos jornais o preço do fecho governos parecem ter dinheiro para quei
tam os valores comerciais dos títulos são de cada título, referente ao dia anterior. E o mar. E é verdade: os governos de todo o
fáceis de identificar, mas o seu impacte é progresso global do mercado é medido Mundo queimam em cada semana tonela
difícil de prever. Entre eles, podem contar- através de índices compostos por diversos das de notas velhas.
-se mudanças de governo, previsões de tít u los-ehave. As moedas em circulação podem durar
surtos ou quebras económicas ou aumen- Os índices mais conhecidos incluem o dezenas de anos, até que a imagem se gas-
tos súbitos no custo de matérias-primas Dow Jones Industrial Average (Nova Ior- te ou a denominação se altere, mas as no-
essenciais. que), o Financial Times/Stock Exchange tas de pequeno valor mudam de mãos
As empresas de corretagem interna- 100 (Londres) c o Nikkei 225 Stock Average com tanta rapidez que se inutilizam em
cionais e os grandes investidores, como, (Tóquio). Os índices são dados a conhecer poucos meses. Mesmo as notas "grandes"
por exemplo, as companhias de seguros, a todo o Mundo duas ou mesmo mais ve- não duram mais que dois ou três anos.
têm orçamentos cada vez mais elevados zes por dia. O Banco de Portugal não foge à regra de
ter de queimar as notas em mau estado
retiradas da circulação. São mais de 150
AS FRAUDES NA BOLSA milhões de notas destruídas anualmente.
Este quantitativo põe ao banco alguns pro-
blemas, nomeadamente os relativos à se-
gurança e poluição.
A operação de escolha das notas usadas
e entradas no banco selecciona as notas
incapazes de circular, que são depois total-
mente desfeitas em equipamento apro-
priado com a garantia ria máxima eficiên-
cia, sendo os resíduos aglutinados em
brikettes destinados a ser utilizados como
combustível industrial.
Não se vislumbra ainda um substituto do
papel-moeda, não obstante os Australianos
já lerem posto a circular notas de plástico.
A facilidade e comodidade de utilização
do papel-moeda confere-lhe características
tais que mesmo o recente aparecimento e
desenvolvimento de meios de pagamento
automáticos não tem provocado uma dimi-
nuição do papel-moeda em circulação.

"Inside trader". O financeiro nova-iorquino Ivan Boesky (ao centro) deixando o Tribu-
nal. Depois de admitir ter utilizado informações confidenciais sobre fusões de empresas,
foi multado em 100 milhões de dólares e condenado a três anos de prisão.
Como se constrói
Desde os primeiros tempos das bolsas das, acerca de uma empresa para se ob-
um automóvel
houve sempre tentativas de burla. Por ter lucro com os seus títulos. O inside
volta de 1720, o chanceler do Tesouro trader tem de comprar as acções imedia- Os filmes de desenhos animados mostram
Britânico, John Aislabie, foi preso por tamente antes de a companhia anunciar fábricas de automóveis em que, por um
"corrupção infame": enchera os bolsos um aumento dos lucros ou de as vender lado, entra ferro em bruto e saem, pelo ou
durante a venda ao público de acções da antes de se anunciarem prejuízos. tro, carros reluzentes já a andar. Claro que
South Sea Company, empreendimento Em 1986, um eminente financeiro se trata de uma falsa imagem: os automó-
que arruinou muitos investidores. nova-iorquino, Ivan Boesky, foi acusado veis não são totalmente construídos no
Todas os países têm as suas leis próprias de investir em acções utilizando informa mesmo sítio. Mas a realidade não é muito
para evitar as burlas, e alguns possuem ções confidenciais sobre fusões de em- menos notável, pois o processo pode en-
agências, como a US Securities & Exchan- presas. Pagara quantias enormes por es volver fábricas de todo o Mundo para a
ge Commission (Comissão de Títulos e S3S informações: só de uma vez entrega- construção de um único carro.
das Bolsas rios Estados Unidos), para asse- ra 700 000 dólares em notas usadas a um Em Saragoça, Espanha, onde a empresa
gurar o cumprimento dessas leis. banqueiro numa ruela da Wall Street. americana General Motors possui uma
Um dos crimes mais notórios, e um Boesky fez uma confissão pormeno- enorme linha de montagem, o aço para a
dos mais difíceis de suster, é o inside trad rizada, que resultou na prisão de ban- carroçaria pode vir da própria Espanha, o
ing, ou insider dealing, que consiste no queiros e empresários. Foi condenado a motor de Inglaterra, a suspensão, caixa de
uso de informações internas, privilegia três anos de prisão. velocidades e sistema de injecção do com
bustível da Alemanha, os pneus de França

II
ou de Itália, o rádio da Holanda ou do Ja-
pão, com contribuições até da Austrália o
da Coreia.
Noutros tempos, era tudo muito mais
simples. No princípio do século, os primei-
ros automóveis eram produzidos de ma-
neira semelhante à das carruagens de ca-
valos com os operários andando de um
lado para o outro, martelando com vagar, e
com elevados custos, os painéis de metal
nas estruturas de madeira. Embora os prin-
cípios da produção em série há muito se
encontrassem estabelecidos para artigos
como roldanas para barcos e armas de
fogo, foi preciso um génio de organização
para aplicar o princípio à indústria auto-
móvel: Henry Ford.

A primeira linha de montagem


Em 1903, Ford começou a fabricar auto
móveis em Detroit, e em três anos transfor-
mou se no maior construtor de automó-
veis da América. Ao fim de cinco anos, con-
centrava as suas atenções num único mo-
delo - o Ford T - para aproveitar ao má-
ximo as peças normalizadas.
Depois, em 1913, introduziu a ideia que
iria revolucionar a produção automóvel, a
linha de montagem. Inverteu-se
assim a relação operário/produ-
to, pois agora era este que pas
sava por uma linha de operá-
rios, a cada um dos quais com-
petia uma tarefa específica.
Quando pela primeira vez foi
aplicado à produção de magne-
tos, reduziu o tempo de monta-
gem de 20 para 5 minutos. wrf
Entusiasmado, Ford alargou ••
o princípio à construção de Sr^V
chassis. Uma corda puxava os
chassis ao longo de um trilho, ao
lado do qual se encontravam 50
operários, cada um deles fixan-
do ao chassis, quando este pas
sava, a peça que lhe competia. O Montagem manual. Em 19/3, Henry Ford
tempo de montagem para os introduziu linhas de montagem na sua fá-
chassis desceu de 12 para fi horas brica. Tapetes rolantes passavam as pe
e, com a introdução do transpor- ças em frente dos mecânicos e transporta
tador movido por correntes, fi- oam os motores até aos montadores (em
cou reduzido a hora e meia. cima). Em 1915, em cada minuto e meio
Comercialmente, os resulta- saía da tinha de montagem um Ford T.
dos foram espantosos. Em me-
nos de 10 anos, o preço do Ford T desceu de precisão. No Fiat Uno. só 30 das 2700 ope- Depois, robôs constroem a parte infe-
850 para 250 dólares, e Ford vendeu 1,8 rações de soldadura são feitas à mão. Ape- rior desta, o chão do carro, procedendo a
milhões de carros. A Ford Motors foi nova- nas as tarefas especializadas, como a insta- inúmeras soldaduras e criando uma forma
mente pioneira em 1951 ao utilizar equipa- lação dos fios eléctricos, se mantém hoje complexa com espaços para o encaixe das
mento automático na produção de blocos nas mãos do homem. Numa cadeia de rodas, para a mala e para a roda sobresse
de motor. Em 500 operações distintas, 40 montagem típica dos anos 80 - como as lente.
máquinas reduzem o tempo de produção, fábricas rio Fiat Uno em Mirafiori ou Ri- Na fase seguinte, figs, ou gabarits, de
por motor, de algumas horas para 15 minu- vai ta, Itália, que produzem 3000 carros por grandes dimensões mantêm em posição
tos. dia —, a primeira fase consiste na chegada as ilhargas e o tejadilho para serem auto
da chapa de aço ao sector de prensagem. maticamente soldados no seu lugar. En-
O mundo dos robôs Aqui, em áreas do tamanho de três cam- tretanto, as portas foram construídas em
O desejo de poupar trabalho tem conti- pos de futebol, gruas robôs entregam linhas de montagem paralelas, num pro-
nuado a inspirar novos processos, com ro- folhas de aço a máquinas de estampagem cesso que envolve diversas prensagens
bôs a substituírem operários, eliminando gigantes, que moldam e cortam as peças para a criação de um corpo exterior rebi-
tarefas monótonas e garantindo maior de metal para a construção da carroçaria. tado a uma moldura interior.

12
Finalmente, nas linhas de montagem contra a água, a gravilha, a neve e o sal. Na última fase, o carro recebe o seu
final todas as carroçarias são verificadas A fase seguinte são os acabamentos coração. O carro é içado numa grua, e o
por laser para se detectarem as mínimas do interior. O carro recebe os seus "ner- motor, completo com a embraiagem e a
distorções ou irregularidades. vos" — o sistema eléctrico. Os forros de caixa de velocidades, é colocado por um
feltro, as alcatifas, os assentos e outros sistema de elevação. O depósito de com
O acabamento acabamentos são aplicados por robôs. bustfvel é montado na parte traseira do
A pintura de um carro é um processo im- Muitas fábricas utilizam transportadores carro. Vêm depois a suspensão, a direc-
portante - protege o contra a corrosão e - robôs para movimentar as peças —, ção, o radiador e a bateria e finalmente as
dá-lhe um acabamento bonito e brilhan- reduzindo assim a possibilidade de da- jantes e os pneus. Depois de abastecido
te. 0 carro, quase completamente mon- nos e a necessidade de mão-de-obra. de água, anticongelante, óleo e combus-
tado, é desengordurado, lavado e cober- Os pára-brisas e outras janelas fixas tível, o carro está completo e pronto para
to com fosfato para o tornar mais recepti são frequentemente colados à carroçaria andar. À saída é inspeccionado antes de
vo à pintura. Após novas lavagens, são- para melhor ajustamento e redução da ser submetido aos últimos testes - espe-
-Ihe aplicadas eleetrostalieamenle diver- resistência ao vento e dos ruídos. Robôs cialmente ao "teste de estrada" para veri-
sas deinãos de primário, utilizando um aplicam a cola aos bordos dos vidros e ficação do seu comportamento. Quando
campo magnético para atrair a tinta. As colocam estes nos seus lugares por meio recebe o seu passe final, o carro está
últimas demãos — habitualmente três — de braços com dispositivos de sucção. pronto para o stand
são de tinta acrílica brilhante. A pintura
da maioria dos carros de série tem a es-
pessara de 0,1 mm. Um Rolls-Royce rece-
be 22 demãos, que produzem uma es-
pessura de 0,2 mm.
A seguir, injecta-se em todas as sec-
ções ocas, como os pilares e as longari-
nas, uma cera especial para protecção

Montagem robotizada. Robôs contro-


lados por computadores executam os tra-
balhos de produção na fábrica do Fiat
Tipo em Cassino, Itália. Os robôs pintam,
calafetam, pulem, soldam e montam os
carros com precisão rigorosa. À direita,
um carro recebe uma de cerca de 2000
soldaduras automáticas.

! • ;
Meteorologistas: sentinelas contra os desastres naturais
Durante centenas de anos, até o clima local 7500 navios. Estações operadas por pes- de previsão de zona para a aviação civil,
era frequentemente desconcertante na soal fazem observações várias vezes por que, por uma questão de segurança, repe
sua imprevisibilidade. Apenas se podia re- dia, às vezes de hora a hora, em condições tem as operações um do outro. Compu-
zar ou inventar provérbios baseados na ex- normalizadas (a velocidade do vento, por tadores com a capacidade de 3500 mi-
periência: céu pedrento — chuva, vento exemplo, é medida a 10 m do solo). lhões de cálculos por segundo tratam os
ou qualquer outro tempo. Além disso, balões meteorológicos lar- dados para elaborar as previsões.
A previsão meteorológica local deu um gados de 950 estações por todo o Mundo Saber hoje qual será o tempo de ama-
passo em frente em 1643, quando o físico recolhem dados da atmosfera até uma alti- nhã é fundamental para o ocidente indus-
italiano Torricelli inventou o barómetro tude de 30 km. Cerca de 600 aviões voando trializado. Só no controle do tráfego aéreo,
para medir a pressão atmosférica. Depres- sobre os oceanos enviam diariamente os as previsões globais que permitem aos
sa se verificou que as subidas e descidas da seus comunicados. Sele satélites meteoro- aviões aproveitar os ventos de popa ou al-
pressão de ar correspondiam a alterações lógicos perscrutam a Terra a partir do espa- terar as horas de aterragem para evitarem
no tempo e que uma queda frequente- ço, observando a atmosfera até uma altitu- as condições adversas poupam anual-
mente prenunciava uma tempestade. de de 80 km. mente milhares de contos de combustível.
Mas só depois da invenção do telégrafo, Todas estas observações fornecem cm Indústrias inteiras — como a construção, a
em 1840, foi possível recolher informações conjunto uma enorme riqueza de infor- navegação e a agricultura — dependem
de estações afastadas, permitindo a previ- mações — velocidade e direcção dos ven- crucialmente de previsões de hora a hora e
são de mudanças iminentes com razoável tos, temperatura, nebulosidade, precipita- dia a dia.
segurança. No princípio do século xx, a ção, humidade, pressão atmosférica. Em Os acontecimentos que mais põem à
rádio permitiu outro importante passo em cada dia, estas informações produzem 80 prova os meteorologistas são os ciclones
frente. Na década de 60, os enormes pro milhões de dígitos binários de dados de tropicais — enormes tempestades de con-
gressos técnicos na recolha de informa- computador — equivalentes ao conteúdo figuração circular que se formam sobre os
ções e na análise de dados por meio de de vários milhares de livros. Estas informa- mares dos trópicos, afastando se do equa-
computadores fizeram pensar que a me- ções são fornecidas a uma rede de 17 esta- dor e enfraquecendo quando atingem ter-
teorologia poderia vir um dia a ser uma ções espalhadas pelo Mundo, que, em ra. No Atlântico chamam se furacões, no
ciência exacta, capaz de prever o tempo conjunto, formam o Sistema Mundial de Pacífico tomam o nome de tufões. Os fura-
com semanas ou meses de antecedência. Telecomunicações. Dois centros — o Cen- cões duram habitualmente cerca de uma
A quantidade de informações actual tro Meteorológico Nacional de Washing semana, recebendo energia do ar quente e
mente ao dispor dos meteorologistas é es- ton, nos Estados Unidos, e o Departamen- húmido sobre os oceanos tropicais. À me-
pantosa. A Organização Meteorológica to de Meteorologia, situado em Bracknell, dida que se eleva no centro do ciclone, o
Mundial recebe relatórios de 9000 postos e na Grã-Bretanha — são centros mundiais vapor de água contido no ar condensa-se
em nuvens, libertando calor e atraindo
mais ar húmido para o sistema. Os fura-
cões enfraquecem habitualmente quando
chegam a terra por se verem privados de
humidade. Durante a estação dos fura
coes, de Junho a Novembro, formam se
ao largo da costa de África mais de 100
tempestades, seis das quais se transfor-
mam cm furacões.
Quando as nuvens em espiral, caracte-
rísticas de uma tempestade tropical, são
avistadas, em geral por um satélite, o Cen
tro Nacional de Furacões dos Estados Uni-
dos, em Miami, entra em acção. O seu pes-
soal analisa uma imensidade de dados for-
necidos por satélites, sistemas de radar,
bóias automáticas e aviões, a fim de prever
a sua trajectória — particularmente, o
ponto da sua penetração na costa.
No princípio de Setembro de 1988, uma
depressão ao largo da costa africana inten-
sificou-se de forma progressiva, até que no
sábado 10 de Setembro, quando se encon-
trava sobre o Leste do mar das Antilhas, foi
classificada de furacão e recebeu o nome
de Gilbert. Dois dias depois, o Gilbert atin-
giu a Jamaica com força devastadora. Sob
um céu de ardósia, os ventos destroçaram
a ilha, deixando sem casa um quinto dos
Balão-sonda. Os balões meteorológicos levam para o ar radiossondas - grupos de instru- seus 2,5 milhões de habitantes e destruin-
mentos que registam a humidade, a pressão atmosférica e a temperatura. São largados do quase todas as colheitas de que depen
regularmente por 950 estações em todo o Mundo. de a sua economia bananas, cocos,

II
Chicoteada pelos ventos. Os furacões deslocam-se sobre o oceano por acção do ar quente e húmido. Este. Carol. assolou a zona de
Narraganselt Bay, Rhode Island, EUA, em 1954.

café, açúcar e vegetais. 0 primeiro-ministro, continente norte-americano, estava já em teorologista tem do mundo real é melhor
Edward Seaga, chainou-lhe "o maior desas- dissipação. Trouxe ventos fortes, marés al- guia para o futuro imediato do que qual
tre natural da nossa história moderna". tas e muita chuva, mas pouca destruição. quer modelo computorizado. Por exem-
Depois, à medida que rodopiava, afãs Não houve mais vítimas. plo, o ar que se desloca do mar do Norte
tando-se da ilha, o Gilbert quase duplicou a A morte inesperada do Gilbert ilustra para os países europeus que o cercam
sua força, produzindo ventos com veloci- bem o grande problema das previsões me pode formar uma delgada camada de nu-
dade de 280 kirvíi — a mais poderosa tem- teorológicas, que é a sua falta de certezas vens que ou faz chover sobre a terra no dia
pestade que assolou o hemisfério ociden- absolutas. Apesar dos computadores ca- seguinte ou se evapora com o calor do Sol.
tal neste século. Com a sua trajectória pre- ríssimos e das suas fontes de informação a O resultado pode depender de uma dife-
vista, o Gilbert abateu-sc sobre a península nível mundial, os meteorologistas lidam rença de temperatura de apenas alguns dé-
do Iucatão, no México, na madrugada de apenas com probabilidades. cimos de grau. Mas os efeitos podem ser
quarla-feira, deixando 30 000 pessoas sem Os sistemas meteorológicos são impre-
lar. Podia ter sido muito pior: em 1979, o visíveis no seu pormenor. Os números que
furacão David matara 1100 pessoas, e o Flo- descrevem factores variáveis como a velo-
ra, em 1963, vitimara 7200. O número rela- cidade do vento e a temperatura são verda
tivamente pequeno de mortes causadas deiros apenas momentaneamente. No se-
pelo Gilbert, cerca de 300, representou um gundo seguinte, esses números não pas-
tributo aos benefícios de uma correcta pre- sam de uma aproximação, e, por muito
visão meteorológica. pequenos que sejam os desvios, realidade
Mas os meteorologistas não puderam e previsões depressa se afastam entre si.
ainda prever exactamente o que iria acon- Os cientistas aceitam o facto de aconte-
tecer. Com a trajectória do Gilbert para cimentos pouco relevantes poderem ter
norte, puseram-se em alerta as costas do consequências enormes. Referem-se jo-
Texas, da Luisiana e do Mississipi. Houve cosamente a esta verdade desagradável
uma corrida aos géneros nos supermerca- chamando lhe o "efeito da borboleta" - a
dos e 100 000 pessoas fugiram para o inte- ideia de uma borboleta batendo as asas em
rior, enchendo as estradas e deixando para Pequim afectar, por exemplo, o estado do
trás as suas casas fechadas e reforçadas tempo em Nova Iorque. Por esta razão, o Imagem de satélite. Instrumentos de de-
com protecções. limite actual das previsões úteis não passa tecção fornecem elementos a um compu-
Neste caso, os alertas revelaram-se des- de alguns dias. tador que constrói imagens das nuvens por
necessários: quando o Gilbert chegou ao Muitas vezes, a experiência que o me- meio de códigos de cor num monitor de TV.

li.
substancialmente diferentes - um dia frio
e enevoado ou quente e soalheiro. Mesmo
com o auxílio dos melhores compu-
tadores e a mais eficiente recolha de infor
mações, não é provável que as previsões
venham alguma vez a ser correctas com
mais de duas semanas de antecedência.
As previsões a médio prazo têm melho-
rado com as inovações técnicas. Previsões
a três dias para a Europa, realizadas no
Centro Europeu de Previsão do Tempo a
Médio Prazo, de Reading, Inglaterra, são
agora tão correctas como as que eram fei-
tas a um dia há 10 anos. Por outro lado, a
previsão a longo prazo (mais de 10 dias)
não se tem revelado de confiança.
Há, de certo modo, uma esperança. Os
cientistas pensam que existe uma relação
entre a alteração nas temperaturas do mar
e certas condições meteorológicas. Por
exemplo, em períodos que vão de três a
sete anos, na altura do Natal, uma corrente
quente denominada El Nino peneira as
águas muito frias ao largo da costa ociden-
tal da América do Sul. Além de ter conse-
quências sérias no clima, vida animal e in-
dústrias locais, El Nino provoca também
invernos ou mais suaves ou mais frios nos
EUA Ainda ninguém sabe porquê — mas
talvez um dia os efeitos desta corrente se-
jam previsíveis.

Como se abastece
de água uma
grande cidade
Diariamente, as cataratas do Niága/a vêem
passar pela sua crista 72 milhões de metros
cúbicos de água. Mas seriam precisos 17
dias para essa catarata tonitroante encher
os 21 reservatórios principais que servem a O abastecimento de água a Londres. Nesta fotografia de Londres, tirada por satélite, o rio
cidade de Nova Iorque: 1210 milhões de Tamisa è a linha preta que serpenteia a meio da fotografia. Os reservatórios são as manchas
metros cúbicos. Só o maior deles, o Pepac- pretas à esquerda e em cima; as áreas verdes são vegetação.
ton, contém água suficiente para inundar
Manhattan até uma altura de 12 m. necida na zona do Tamisa é obtida do pró- infiltra-se na areia grossa, que capta as im-
Todos os dias, Nova Iorque consome prio rio, provindo a restante de reservató- purezas maiores. O processo repete-se
5,4 milhões de melros cúbicos de água, rios e rios subterrâneos através de furos através de areias sucessivamente mais fi-
incluindo a utilizada pelas fábricas e escri- artesianos ou de poços. A água é canaliza nas. A água é tratada quimicamente pelo
tórios, o que representa cerca de 750 I por da até às estações de filtragem e bomba- cloro num tanque fechado para destruir as
habitante. A rede de distribuição da cidade gem, nas quais os filtros a libertam dos de- bactérias e desclorada em seguida para eli-
leva a água ao consumidor através de mais tritos principais e as bombas a elevam para minação do sabor que lhe confere o pro-
de 9000 km de canalizações. reservatórios de armazenagem. duto. É depois bombeada sob pressão
Na Grã-Bretanha, as necessidades diá- Como a água nos reservatórios está imó- para os ramais principais da rede - tuba-
rias, exclusivamente para uso doméstico, vel, os sólidos descem para o fundo. Ao gens largas acima ou abaixo do solo —,
da zona do Tamisa, que inclui Londres e mesmo tempo, o oxigénio do ar neutraliza que a transportam até aos consumidores.
Oxford, são superiores a 3 milhões de me- outras impurezas químicas ou orgânicas. A água tratada introduzida na rede pode
tros cúbicos. Um sistema de comportas leva a água ser usada imediatamente ou desviada para
A água que é fornecida às cidades pro- dos reservatórios de armazenagem até a armazenagem temporária nos reservató-
vém geralmente de rios - Nova Iorque, uma estação de tratamento, onde se pro- rios. Estes estão habitualmente situados
por exemplo, recolhe a maior parte da cessa nova purificação. O método habitual cm pontos elevados, embora alguns reser-
água que utiliza das bacias do Hudson e do envolve a filtragem da água, por duas ve- vatórios de serviço sejam subterrâneos,
Delaware. zes, através de leitos de areia que são lim- por baixo de zonas públicas como os par-
Mais de metade da água canalizada for- pos diariamente. No primeiro leito, a água ques, por exemplo.

46
que eram inundados até à saturação pelas ções de tratamento secundárias, onde
grandes chuvadas. Hoje, sempre que pos- em cerca de oito horas determinadas
Como uma cidade sível, tenta-se criar sistemas de escoamen-
to independentes (rede separativa).
bactérias destroem as matérias que o lí-
quido ainda contém. Este passa em se-
se liberta dos Na estação de tratamento, as águas são
passadas por redes de crivos que retêm os
guida por uma última sedimentação, al-
tura em que as próprias bactérias são se-
seus detritos objectos maiores, como trapos e pedaços
de madeira, os quais ou são triturados me-
paradas para reutilização A água resul-
tante está suficientemente limpa para ser
canicamente e reintroduzidos no proces- lançada no rio.
Em Junho de 1858, condições atmosféri- so de tratamento, ou retirados e queima Entretanto, as lamas são bombeadas
cas invulgarmente quentes e secas provo- dos ou enterrados noutro local. As águas para tanques de decomposição, onde, du-
caram uma queda brutal no nível das são seguidamente bombeadas através de rante três ou quatro semanas, bactérias
águas do Tamisa em Londres. 0 mau chei- canais para eliminação das areias, que são convertem parte das lamas num gás que
ro que emanava da maré vazia era tão terrí- precipitadas no fundo juntamente com contém metano, o qual é canalizado e utili-
vel que os Londrinos apenas podiam apro- pequenas pedras. Estes detritos são draga zado como combustível de accionamento
ximar-se das margens ou das pontes com dos e lavados e posteriormente utilizados das estações de tratamento.
lenços cobrindo a boca e o nariz. 0 tráfego em obras de construção civil. Em seguida, retira-se ainda água das
no rio foi suspenso. As águas resultantes passam por tan- lamas antes de serem vendidas como
Esta situação foi o resultado de séculos ques preliminares de sedimentação, fertilizante agrícola. Em Blue Mountain,
de incúria nos despejos. Os Londrinos, onde as matérias sólidas mais finas se de- na Pensilvânia, EUA, por exemplo, as la-
como os habitantes de outras cidades po positam no fundo, tomando a designa- mas dos esgotos têm ajudado a reflores-
pulosas em todo o Mundo, tinham-se ção de lamas. Estas e o líquido delas sepa tar terras destruídas pela extracção de
acostumado a tratar lodos os cursos de rado seguem depois trajectórias diferen- zinco. As sobras de lamas são lançadas
água que tinham à mão - frequente- tes. O líquido é encaminhado para esta ao mar.
mente, a sua única fonte de água para
beber - como grandes esgotos abertos. Estação de tratamento. Embora pareça uma fotografia de micróbios, a imagem é no
Com o crescimento das populações e verdade uma Dista aérea de uma estação de tratamento de esgotos a norte de Baton Rouge,
dos resíduos da industrialização durante no rio Mississipi, EUA
o século xix, a Natureza e o homem grita-
ram "Basta!".
Desenvolveram-se em Inglaterra, e fo-
ram copiados e aperfeiçoados na Europa
Ocidental e nos Estados Unidos, proces-
sos de tratamento dos esgotos antes da res-
pectiva descarga.
No entanto, paralelamente à maior efi-
ciência dos processos de eliminação dos
excrementos e de outros detritos líquidos
(as águas negras), o crescimento das cida-
des modernas aumentou a produção dos
detritos sólidos (lixos).
Uma família americana média produz
quase 25 kg de lixo por semana; em Fran-
ça, o número correspondente aproxima
-se dos 17 kg. Num único ano, o habitante
médio da cidade de Nova Iorque deita fora
em lixo oito ou nove vezes o seu próprio
peso.

Os esgotos
0 tratamento básico das águas negras em
cidades como Londres ou Washington di-
fere pouco dos processos criados nos
meados do século xix, conquanto o seu
volume aumente constantemente. Em
Washington, a capacidade inicial da esta-
ção de tratamento de esgotos em Blue
Plains passou de 490 milhões de litros diá-
rios na década de 30 para perto de 1100
milhões nos anos 70, e já foi aumentada
desde então.
Uma rede de esgotos, geralmente sub-
terrânea, transporta as águas negras, por
gravidade ou por bombagem, desde as ca-
sas e os escritórios até às estações de trata-
mento. Originariamente, e ainda hoje em
muitas cidades, os esgotos drenavam tam-
bém as águas pluviais (rede unitária), pelo
tornam um risco para a saúde pública, têm
de ser encerradas e aterradas (aterro sani-
tário). Desde 1960, Nova Iorque encerrou
14, e não é fácil encontrar novos locais.
Se distam muito da cidade que servem, o
custo dos transportes torna-se demasiado
alto para os orçamentos municipais.
Em muitos países, como a Suécia, a Ale-
manha e o Japão, há muito tempo que se
emprega a incineração em vez da acumu-
lação em lixeiras. Mas nos EUA, o processo
representava, nos meados dos anos 80,
menos de 5% da eliminação dos detritos
sólidos. A vantagem da incineração é redu
zir em dois terços o volume dos lixos, além
de que o calor produzido pode ser aprovei-
tado para gerar electricidade ou fornecer
aquecimento. Como inconvenientes, as
cinzas residuais podem conter produtos
tóxicos que se concentraram durante a in-
cineração, pelo que nem sempre podem
ser lançadas com segurança em lixeiras
normais. Outras substâncias tóxicas,
Leitos de filtragem. Esta fotografia aérea mostra leitos de filtragem de esgotos numa como o ácido clorídrico e a dioxina, po-
estação de tratamento de Baltimore, no Maryland, EUA. Uma vez drenada a água, as lamas dem libertar-se para a atmosfera durante a
secas são vendidas como fertilizante. As lamas não utilizadas na terra são lançadas ao mar. incineração se não se utilizar um equipa-
mento adequado para a limpeza dos ga-
Detritos sólidos mundial, a mais utilizada e mais barata for ses. Em Los Angeles, os cidadãos, temen
Em cada dia, a cidade de Nova Iorque pro- ma de libertar a sociedade dos seus sub- do a poluição atmosférica, proibiram a
duz entre 24 000 e 25 000 t de detritos sóli- produtos indesejáveis que não podem ser construção de incineradores.
dos — a maior parte constituída por lixos lançados nas redes de esgotos. Mas, à me- Outro facto negativo na incineração dos
domésticos, recolhidos pelo Município dida que o volume de detritos aumenta, as lixos é o custo. Nos EUA, o custo do enter-
duas vezes por semana. Praticamente, lixeiras como a de Fresh Kills passam a ter ramento pode chegar a 60 dólares a tone-
toda esta montanha de lixo é transferida menos capacidade de lidar com eles. A fal- lada; o da incineração pode atingir três ve-
para um único lugar, Fresh Kills, em Staten ta de espaço origina problemas de polui- zes mais.
Island, onde é despejada naquilo que co- ção. As infiltrações do lixo em decomposi-
meçou como uma cratera no chão e é ago- ção contaminam a água de superfície e Risco para a saúde. O depósito incontro-
ra o maior depósito de lixo do Mundo, co- subterrânea, a não ser que a lixeira esteja lado de lixos na terra pnxluz riscos para a
brindo 1215 ha. especialmente equipada para o tratar. saúde. Na maioria dos países ocidentais, as
Este tipo de lixeira é, do ponto de vista Quando as lixeiras estão cheias ou se novas leis restringem o despejo dos lixos.
maram quase I 200 000 ha. Em Portugal,
onde todos os verões ocorrem fogos, a
Combate a incêndios na floresta área florestal afectada foi de 22 435 ha em
1988 e de 103 908 ha em 1989. Os números
não oficiais obtidos até ao início de Setem-
Visto de perlo, um incêndio na floresta c 0 óleo de eucalipto, fazendo arder árvores bro de 1990 apontam para uma área flores-
um espectáculo aterrador. Mas é um es- inteiras em explosões de gás. tal destruída na ordem dos 108 106 ha.
pectáculo que se repete milhares de vezes As destruições podem ser enormes. Em As chamas podem alastrar pelos arbus
por ano nas florestas temperadas de todo o 1949, a França perdeu 156 000 ha de flores- tos secos a velocidades que excedem os
Mundo. Estas são presas fáceis de um fós- tas em 350 fogos. Em 1971, os incêndios no 140 km/h. Ocasionalmente, a combustão
foro, da luz do Sol ampliada por um vidro Wisconsin e no Michigan queimaram provoca um remoinho de fogo, uma cha-
de garrafa ou de um raio. Na Austrália, o 1 700 000 ha e mataram 1500 pessoas. Em miné de ar quente causada pelos ventos
calor de um incêndio consegue vaporizar 1985. através dos EUA, 81 662 fogos quei que penetram na floresta, em que conse-
gue arrancar árvores e atirá-las ao ar, dando
origem a fogos a centenas de metros de
distância.
Em Setembro de 1987, quando incên-
dios queimaram uma enorme área da Cali-
fórnia, do Oregon e do Idaho, uma noite de
combate em apenas uma zona — a Stanis-
laus National Forest — reuniu 376 carros
de bomba e autotanques de água, 94 bull-
dozers, 16 helicópteros, 13 aviões-tanques
e 4500 bombeiros.
A informação é talvez a maior arma de
fensiva contra os incêndios nas florestas.
Os satélites, os aviões de vigilância noc-
turna com câmaras de infravermelhos e a
coordenação computorizada permitem
prever as condições favoráveis aos incên
dios e o controle dos fogos quando se de-
claram. No combate a um fogo, os bom-
beiros empregam uma combinação de
duas estratégias básicas: o arrefecimento e
a contenção.
Deitar água sobre um fogo não serve
apenas para o arrefecer: em grandes quan-
tidades, a água afecta também os materiais
combustíveis e, ao tornar-se em vapor, re-
duz a quantidade de oxigénio de ar que
alimenta o fogo.
Mas, por si só, a água pode não chegar.
O fogo pode alastrar insidiosamente por
baixo de musgos e líquenes e conseguir
sobreviver dentro dos montículos de terra

Espuma contra o fogo. Alguns incêndios


florestais - como este perto de Valência.
Espanha - combalem se mais facilmente
com agentes produtores de espuma. Um
avião anfíbio de combate aos fogos (em
cima) derrama espuma sobre as chamas.

Água contra o fogo. Um avião de comba-


te ao fogo recolhe água de um lago Os
aviões podern recolher atê 6400 I de água
em 10 segundos ~ e fazer 200 voos por dia.

19
Km 1968, o Serviço de Parques dos EUA
começou a empregar fogos controlados
para evitar posteriores incêndios, maiores
e mais incontrolados. Frequentemente, o
O problema
serviço permite que fogos naturais sigam o
seu curso, combatendo-os apenas para
do trânsito
proteger vidas, gado e propriedades. Os
bombeiros reconhecem também que as
nas cidades
suas possibilidades têm limites, como se
provou pelos incêndios que varreram os Após quase um século de melhoria na ve-
estados de Vitória e de Austrália do Sul em locidade dos automóveis nas estradas e
16 de Fevereiro de 1983, Quarta-Feira de ruas e no controle do tráfego, leva-se hoje
Cinzas. tanto tempo a atravessar o centro de uma
Durante dias, as temperaturas tinham grande cidade como em 1900. Nessa altu-
rondado os 40"C e os campos estavam res- ra, a velocidade média das carruagens de
sequidos. Nessa tarde, declararam-se in- cavalos era apenas de cerca de 13 km/h.
cêndios a 72 km a noroeste de Melburne e Em 1988, os automóveis não conseguiam
perto de Adelaide, 660 km para oeste. Den- andar mais depressa.
tro de duas horas, havia 20 grandes fogos Por exemplo, em 1988, em Copenhaga,
num arco de 960 km, fustigados por ventos a velocidade era de 14,5 km/h; em Nova
de 110 km/h que lançavam tufos de erva cm Iorque e Brisbane, de 16 km/h; em Paris, de
chamas pelo ar e sugavam as paredes das 17 km/h, e em Estocolmo, de 18 km/h.
casas. Cerca de 21 500 voluntários comba- O problema reside na densidade do trá-
tiam os fogos, com 800 carros de bomba e fego, que cria um círculo vicioso: o aumen-
200 bulldozers para abrirem quebra-fo- to do tráfego leva à construção de estradas
gos. Chamas com 36 m de altura varriam melhores e melhores sistemas de controle,
os estados, empurradas por ventos quen- o que, por sua vez, leva a um aumento do
tíssimos. tráfego. O resultado é angústia e desespe-
Quando se extinguiriam, 10 dias depois, ro. Os veículos parados e em marcha lenta
os incêndios tinham causado a morte de desperdiçam anualmente somas elevadís-
74 pessoas, destruído quase 400 000 ha e simas em tempo, combustível e outros en-
280 000 cabeças de gado e causado pre- cargos. Em Nova Iorque e outras cidades
juízos elevadíssimos. Nestas condições, em que as ruas são paralelas cortadas por
Bombeiro-pára-quedista. Descendo pouco se pode fazer. O comandante da paralelas, as aglomerações das horas de
cru pára-quedas, um smoke-jumper entra corporação de bombeiros de Vitória, ponta já têm produzido engarrafamentos
em acção contra um incêndio provocado Graham Simpson, comentava que um em grelha, com áreas inteiras de trânsito
por lava no monte Adams, EUA. em Junho grande incêndio florestal era "um cataclis- impossibilitado de se movimentar durante
de 1987. mo que cria os seus próprios ventos e o seu horas.
próprio clima, um demónio com espírito
e dos velhos cepos de árvores para se rea- próprio". Os princípios do controle
cender dias depois. Para reduzir estes Através da História, tem-se tentado arran-
"pontos quentes", misturam-se com a jar soluções para o problema do trânsito,
água produtos químicos denominados de forma a mantê-lo em movimento. No
agentes molhantes, que ajudam o poder século i a. C, Júlio César baniu a circulação
de penetração daquela. Podem ainda jun- de carros em Roma durante o dia.
tar-se corantes para mostrar quais as áreas O maior progresso dos tempos moder-
da floresta já tratadas. nos foram os semáforos, utilizados pela
As equipas de terra podem criar quebra- primeira vez em Cleveland, Ohio, em 1914.
-fogos para conter o incêndio, enquanto Pouco depois, os semáforos eram sincro-
os aviões-tanques chegam a despejar nizados por sectores para melhorar o flu-
20 000 1 de água e produtos químicos. Nal xo. O período de tempo em que se manti-
guns países, existem corporações de bom- nham verdes podia ainda ser controlado
beiros-pára-quedistas que atingem locais pelo número de carros que passassem so-
remotos ou de difícil acesso por terra, lan- bre placas de comando.
çando-se em pára-quedas. Nos EUA, os Muitas cidades ensaiam outras manei-
bombeiros saltam de pára-quedas para ras de facilitar o fluxo do tráfego, aumen-
combater incêndios desde 1941. O objecti- tando, por exemplo, as multas de estacio-
vo é isolarem os pequenos fogos antes que namento, encorajando a partilha dos car-
alastrem. Com o fogo em baixo, as corren- ros particulares e introduzindo nas ruas fai-
tes atmosféricas são imprevisíveis, a visibi- xas para transportes públicos (bus). Os sis-
lidade é má e os riscos são elevados. temas computorizados, que surgiram na
Uma vez aterrados em segurança, os década de 60, permitem regular o trânsito
bombeiros-pára-quedistas {smoke-jum- numa secção interna de uma cidade.
pers, como se designam em inglês) abrem Bombeiro de floresto. Um bombeiro vo- Mas todas estas medidas não têm resol
uma clareira em redor do fogo e derrubam luntário ajuda a combater um incêndio em vido os problemas postos pelo constante
as árvores secas, com vista a circunscrever Grose Valley, Austrália. O calor é tão intenso aumento de tráfego. Quando, na Venezue-
o fogo até que ele se extinga por si ou que que a água se eoapora sem produzir qual la, se insistiu em que os automóveis em
cheguem as forças terrestres de combate. quer efeito sobre as chamas. Caracas só poderiam circular em certos

.-,()
Hi , I

Engarrafamento de trânsito. Aparente-


mente sem qualquer ordem, o trânsito bio
queia urna rua da cidade comercial de Me
dan. na Samarra do Norte.

Fluxo de tráfego. Muntendo-se nos seus


corredores, os veículos atravessam em bi
cha a ponte de Oakland, em S. Francisco.

Hora de ponta. Ónibus puxados por cavalos, carroças, carruagens,


um carro funerário e um rebanho engarrafam Fleet Street e Ludgate
Hill, em Londres, numa gravura do século xix de Gustave Doré.

dias da semana — conforme o último alga- mais complexa que permita aos controla- fego a comprimir-se nas pontes e nos tú-
rismo da respectiva matrícula —, milhares dores guiarem o tráfego como se fosse neis. Na tentativa de dominar a situação, os
de pessoas compraram segundos carros. água, utilizando os semáforos como com- computadores recebem informações dos
Mantiveram-se os engarrafamentos - ain- portas. Com o carregar de um botão, os cruzamentos principais, onde sensores
da agravados pelos carros estacionados. semáforos podem desviar o trânsito de um subterrâneos monitorizam a velocidade e
Em Singapura, quando os condutores acidente, de trabalhos na rua. da multidão o volume do tráfego. Os resultados podem
eram multados se entrassem na cidade às de espectadores que sai de um estádio de ser notórios: nos bairros periféricos de
horas de ponta sem, pelo menos, dois pas- futebol. Nova Iorque a computorização reduziu o
sageiros no carro, milhares de crianças ofe- Cada cidade tem os seus problemas. Km número de paragens de cada veículo em
receram-se como "passageiros" a troco de Manhattan, a complexidade é aterradora: a 70%.
umas moedas. hora do dia, a actividade comercial local, a Em tudo isto o condutor individual é
Em 1987, havia no Mundo mais de 500 largura da rua, o tempo que faz, a época do passivo. A verdadeira revolução no contro
milhões de veículos motorizados em acti- ano - todas estas variantes afectam cada le do tráfego reside na navegação incorpo
vidade, número este anualmente acresci- bairro, e cada bairro afecta os outros. E rada no veículo.
do de 40 milhões. toda esta massa efervescente é ainda com- O carro teria o seu próprio computador,
A única solução para as cidades parece plicada pela necessidade de atravessar os contendo mapas pormenorizados e capaz
residir numa computorização cada vez rios que cercam Manhattan, levando o trá- de receber um fluxo permanente de infor-

•>1
COMO EVITAR ENGARRAFAMENTOS POR MEIO DE UM COMPUTADOR

1. Num ensaio de um sistema electrónico de orientação do trânsito 2. O destino era introduzido pelo transceiver do carro no semáforo
em Berlim, em 1988, os condutores introduziram no computador o mais próximo, situado num dos 240 cruzamentos da cidade. A in-
local aonde pretendiam dirigir-se. formação era enviada a um centro de comandos computorizado.

3. O centro de comandos enuiaoa ao semáforo indicações sobre o 4. Finalmente, o computador do carro traduzia a informação em
caminho mais rápido. E o semáforo transmitia ao condutor, através conselhos claros e simples no respectivo mostrador: o melhor ca-
do transceiver, um mapa desse caminho. minho era indicado por setas, e a distância a percorrer, por dígitos.

mações sobre a situação do trânsito nas


estradas de todo o pais. 0 condutor marca-
ria o código do ponto de destino c partiria.
Quase imediatamente, o carro passaria
O caso de Ana
um semáforo à beira da estrada, através do
qual o computador obteria do centro de
Ferreira, vítima
informações as condições que o espera
vam na sua rota. Começariam então a apa-
de acidente na
recer instruções, traduzidas por uma seta
num mostrador do tablier indicando o ca-
estrada
minho que o condutor deveria tomar para
chegar mais depressa ao seu destino. Nos "Bom dia. Fala da Unidade de Cuidados
ensaios feitos em Berlim e em Londres, o Intensivos Polivalentes (UCIP). Posso aju-
computador dava ainda instruções verbais da lo?" A enfermeira-chefe Margarida San
e avisos de nevoeiro, trabalhos na estrada, tos recebe a primeira chamada telefónica
alterações da faixa de rodagem e desvios do dia na UCIP onde está colocada.
em voz sintetizada. A resposta é "sim". 1 louve um grave aci-
A tecnologia para a introdução de um dente de viação numa estrada perto do
sistema deste tipo existe já. O custo de ins- hospital. Três pessoas — um motorista de
talação no carro seria idêntico ao de um táxi, a sua jovem passageira e um motoci-
telefone. Mas o problema maior seria a ins- clista — ficaram feridos numa colisão con-
talação de milhares de semáforos para co- tra uma camioneta.
brir o pais. E de madrugada, num dia enevoado de
Novembro, e urna ambulância com a sire-
Controle central. Um oficial do Centro de ne a tocar transporta velozmente as víti-
Controle do Tráfego em Paris observa ima mas para o hospital.
gens dos locais em que se começam a notar Quando há que salvar vidas, a primeira
engarrafamentos. Em média, um veiculo hora após o acidente c decisiva. E para o
não atravessa Paris a mais de 17 km/h - e pessoal da ambulância ê obvio que a rapa-
os monitores computorizados ajudam a lo- riga — uma secretária de 20 anos, Ana Fer-
calizar os pontos nevrálgicos. reira, é a ferida mais grave Está inconscien-

52
te, tem muita dificuldade em respirar, san- introduz-se-lhe na boca até à traqueia uma A respiração, a tensão arterial e as pulsa
gra do tórax e pareço ter graves ferimentos delgada cânula de plástico, que por sua vez ções serão verificadas periodicamente, e
internos. está conectada a um ventilador. Este apa- os respectivos dados registados. A enfer-
A chegada ao hospital, Ana é encami- relho respira pelo doente, enviando lhe in- meira que tem Ana a seu cargo raramente
nhada rapidamente para o sector de ur- termitentemente aos pulmões uma mistu- sai de ao pé da cama e anota quaisquer
gências e emergências, onde lhe são trata- ra de ar e oxigénio. alterações no seu estado. Se necessário,
das as feridas superficiais, c os exames ra- pedirá conselhos ou ajuda — que imedia-
diológicos revelam a existência de fractu- Vigilância de 24 horas tamente lhe serão dados.
ras rias costelas e da bacia. A violência da Em breve, a parte superior do corpo de Ana Logo que a respiração de Ana estabili-
colisão provocou-lhe rupturas no sistema fica ligada a toda uma bateria de tubos e fios zou, inicia-se a fase seguinte do tratamen-
circulatório e derrame do respectivo fluido que vão ajudá-la a viver. Entre eles, contam to. Uma delgada sonda de aspiração c-lhe
e a ulterior acumulação nos pulmões - -se um electrocardiógrafo, que fornece in- introduzida pelo nariz até ao estômago
pelo que é imediatamente conduzida à formações permanentes sobre o ritmo e a para drenagem dos fluidos gástricos
UCIP, no segundo andar. frequência cardíacos; um cateter introduzi- acumulados, ficando aí colocada enquan-
Na enfermaria de cuidados intensivos, do numa veia do pescoço, através do qual to for precisa. Uma outra sonda de aspira-
onde o espaço aberto e as paredes cor-de- são repostos os fluidos perdidos, incluindo ção é depois introduzida periodicamente
-rosa tornam o ambiente mais acolhedor, a o sangue, a uma determinada frequência; e pelo "aparelho respiratório" para se pode-
doente é colocada numa cama articulada um outro cateter introduzido numa artéria rem extrair as secreções dos brônquios e
e com rodas. A equipa de enfermagem e do punho, que monitoriza a pressão arte- pulmões.
médicos rodeiam-na imediatamente. rial. Enquanto estiver nessa unidade, Ana Paralelamente, lem lugar a rotina mati-
Devido às fracturas das costelas, é-lhe será observada e vigiada de perlo em cada nal da UCIP. Às 8 menos um quarto, os
extremamente doloroso respirar. Por isso, minuto do dia e da noite. médicos fazem a "visita" da enfermaria,

Mundo fechado. Desde que um doente entra numa unidade de cuidados intensivos polioalentes. passa a ser vigiado 24 horas por dia. As
enfermeiras raramente se afastam da sua cama e verificam constantemente a bateria de fios e tubos ligados ao seu como. A UClf de um
hospital é um mundo fechado funcionando com uma equipa polivalente de médicos, enfermeiras e técnicos especializados.
avaliando o estado dos doentes. Saem, conforta-nos e dá nos o tipo de apoio mo analgésicos e sedativos que lhe foram ad-
mas mantém-se urna actividade e os ruí- ral e espiritual de que precisamos de vez ministrados garantirão que assim seja.
dos constantes: o zumbido surdo das em quando." Há alguns anos — antes de existirem
máquinas, o sirvo abafado dos telefones e a Um pouco antes do meio-dia, os pais de unidades de cuidados intensivos poliva-
conversa animada do pessoal de enfer- Ana chegam c são levados para a sala de lentes —, Ana poderia ter morrido sem a
magem. espera dos familiares, em frente do gabine- vigilância, a atenção e os níveis de cuida-
Embora os doentes aqui instalados se te do especialista da UCIP. dos ai' prestados minuto a minuto.
encontrem em estado grave, o ambiente é A sala de espera tem um aspecto acolhe- Aproximain-se as 6 horas da tarde e o
reconfortante e alegre. As 8 e meia, chega a dor e aconchegado. Tem dois maples c médico intensivista faz a última visita de
fisioterapeuta para a primeira das suas dois sofàs-camas para o caso de um paren- rotina do dia — certificando se de que
duas sessões diárias: José Silva, funcioná- te ou amigo desejar passar a noite! tudo corre bem e de que pode regressar a
rio público local, na casa dos 40, com frac- Maria, a empregada de serviço auxiliar casa descansado. Entretanto, junto da
tura do baço e outras lesões internas em da unidade, mete a cabeça nos guarda- cama de um dos doentes um rádio toca
consequência de uma queda grave, e Isa- ventos que dão para a enfermaria: «Se- suavemente música ligeira. As enfermeiras
bel Marques, uma avó de cabelo branco nhora Enfermeira estão aqui os pais da esperam que a noite seja calma para que
que recupera de uma operação ao estô- Ana!" se possam concentrar nos doentes que já
mago feita na véspera. ali se encontram. Até que, subitamente, o
Para remover as secreções dos pul- Livre de perigo telefone da secretária volta a tocar.
mões, a terapeuta insiste com os doentes A enfermeira-chefe Santos corre a dizer ao "UCIP, boa noite", diz a enfermeira de
para que respirem fundo e tussam. Para casal ferreira que a filha se encontra agora serviço. "Posso ajudá-lo?"
que os músculos mantenham o seu tónus perfeitamente consciente e que, se o seu
e as articulações não fiquem "presas", ela estado se mantiver estacionário, ficará livre
ajuda os doentes a mobilizar os membros. de perigo. As fracturas da bacia e das coste
José - que já passou cinco dias nos
cuidados intensivos - é deitado de lado.
las de Ana, acrescenta a enfermeira, conso-
lidarão a seu tempo. Mas. acima de tudo,
Como se utilizam
"Estamos a virá-lo, José, para lhe ajudar
a limpar o tórax", explica a terapeuta. "Não
ela prepara os pais para o choque que te-
rão ao verem Ana cheia de fios e tubos que
as fotografias
demora
fortável ."
depois voltamos a pô-lo con- a fazem parecer ainda mais doente do que
está realmente.
aéreas na
Às 9, os tubos ligados aos ventiladores
de cada doente são substituídos para evitar
Pálidos e apreensivos, os pais de Ana
são conduzidos à enfermaria e junto da
elaboração
a proliferação de bactérias no equipamen-
to; e às 9 e meia chega um cirurgião para
cama. Passam a hora seguinte junto da fi
lha, faiando-lhe da família, do tempo e di-
de mapas
falar com Isabel. "A sua operação correu zendo-lhe que ela está nas melhores mãos
muito bem", diz-lhe com um ar bem- e recebe os melhores cuidados. Os cartógrafos actuais recorrem a um pro-
-disposlo. 'Estamos muito contentes Impossibilitada de falar devido a estar cesso utilizado pelos seus antecessores
consigo." ligada ao ventilador, Ana abre os olhos de mais antigos: sobem a um ponto elevado
O relógio da enfermaria marca 10 horas vez em quando para lhes mostrar que está para terem uma visão geral da área que
Um gerador móvel de raios X é utilizado, e consciente e percebe o que lhe dizem. Fi- querem cartografar. Nos tempos antigos, o
um técnico radiografista lira radiografias nalmente, já nada mais há para contar e os cartógrafo subiria ao cimo de um monte
aos três doentes. Como sempre, tudo o pais Ferreira levantam-se para sair. "Volta- com os seus instrumentos e equipamento;
que se faz é lhes explicado. "Só para ver se remos amanhã para te ver, querida", mur- hoje, são fotógrafos que sobem num avião.
houve qualquer alteração aí por dentro", mura a mãe. "Nessa altura, já deves estar As primeiras fotografias aéreas destina
diz o radiografista aos doentes enquanto muito melhor.» das a mapas foram tiradas em 1851 pelo
vai de uma cama para a outra. Às 13 horas, a enfermeira-chefe Santos e francês Aimé Laussedat, que sobrevoou os
Passa mais meia hora, e as enfermeiras a sua equipa são rendidas para o almoço campos num balão de ar quente. Fotogra-
revezam-se para tomarem um chá com pelo turno da tarde, composto por uma fias tiradas de aviões militares foram utiliza
torradas na sala contígua, cujos muples e enfermeira-chefe e três enfermeiras, que das para os mapas das trincheiras durante
a televisão foram presente de um antigo tomarào conta dos doentes durante as a I Guerra Mundial.
doente reconhecido. As refeições — es- próximas oito horas. Para a cartografia aérea, o avião voa à
sencialmente café e sanduíches - são Se não houver novas admissões de altitude mais adequada à escala média da
igualmente tomadas aí. O refeitório do doentes - doutra enfermaria ou doutro fotografia que se pretende para o mapa. Se
hospital fica no andar de baixo, e o pessoal hospital —, a unidade poderá contar com a escala for de 1:50 000 e a lente tiver uma
de serviço não pode estar tão longe e afas- uma tarde calma, embora activa. Só o soar distância focal de 150 mm, a altitude de voo
tado — em tempo e distância — dos doen- do alarme de um dos sistemas de controle tem de ser de 7500 ni.
tes a seu cargo. e tratamento das funções vitais que ultra- As fotografias são tiradas na vertical,
As 11 tioras, o capelão do hospital apare- passe o respectivo limite de tolerância virá com o avião voando alternadamente num
ce. Embora a sua primeira preocupação perturbar a tranquilidade existente en- sentido e em sentido inverso ao longo de
sejam os doentes, são às vezes as próprias quanto não chega o turno da noite. faixas contíguas sobre o terreno que se de-
enfermeiras quem mais precisa dos seus seja cartografar. Na mesma faixa cada loto
conselhos. Poderoso "cocktail" grafia deve sobrepor-se à anterior em cerca
"Sempre que um doente morre, é para Se tudo continuar a evoluir sem complica- de 60%, devendo faixas adjacentes sobre-
nós um golpe terrível", afirma a enfermei- ções, Ana será transferida para uma enfer- por-se em cerca de 30%. Garante-se assim
ra-chefe Santos. ''Especialmente se for maria cerca de uma semana após ter dado que todas as áreas parciais do solo serão
uma criança. Precisamos de falar disso entrada na UCIP. Como quase todos os fotografadas pelo menos duas vezes. Um
com alguém que conheça e compreenda doentes destas unidades, lembrar-se-á avião voando a 25 000 pés (7500 m) teria
os nossos problemas, mas que não seja pouco ou nada do tempo que aí passou. O de tirar pelo menos 12 700 fotografias para
uma de nós. E aqui que entra o capelão. Ele choque inicial e o poderoso cocktail de cobrir a superfície da França.

54
Por cada faixa, obscrvam-se pa- terreno, por forma a minimizar a<
res de fotografias seguidas através distorções, tendo em atenção a fi
de um eslereorrestituidor, que nalidade específica do mapa -
mostra uma imagem de terreno em sempre à custa de rigor em certo<
três dimensões, a qual é ajustada a aspectos menos importantes par*
uma rede de pontos cuja exacta po- cada caso. A Projecção de Merca
sição no solo é conhecida. Pode en- tor. por exemplo, é utilizada par?
tão operar-se o eslereorrestituidor traçar rumos de navegação, ma?
por forma a medir, registar e definir distorce a escala, de modo que a.1
a posição e a altura dos pormeno- terras muito distantes do equadoí
res da carta na escala desejada. p a r e c e m ter uma área muiti
Os pontos fixos, denominados maior que a real.
pontos fotogramétricos, podem Uma projecção destinada a re
ter sido definidos anteriormente presentar os países com áreas e po
ou criados para este caso. Estes siçòes relativas tão próximas quan
pontos — como quaisquer outros to possível das reais distorce as dis
sobre a Terra — lém uma latitude tâncias e as direcções e não pod(
(distância angular para norte ou ser utilizada na navegação.
para sul do equador) e uma longi- Kscolhida a projecção, o mapa t
tude (distância angular para lesto traçado por desenhadores ou po
ou oeste do meridiano de Green- computadores. Os traçados à mãe
wich), e devem poder ser perfeita- são desenhados em películas so
mente identificados nas fotogra- brepostas, figurando em cada umi
fias aéreas. os diferentes elementos, como es
Para "captar" os pormenores do tradas, rios, curvas de nível e zona
terreno, 0 operador do estereorres- de cor. Pode haver mais de 20 pe
tituidor aponta um foco luminoso lículas que são assentes em con
sobre cada característica importan- junto e combinadas fotográfica
te da fotografia, registando automa- mente, produzindo uma películi
ticamente a informação em algaris- por cada uma das quatro a seis CO
mos sobre fita magnética. Os por res geralmente utilizadas na im
menores "capturados" podem ser pressão das cartas. Alguns mapa:
simultaneamente mostrados num desenhados por computador pro
monitor vídeo ou num restiluidor duzem directamente a películi
(plotter) para verificação. para a impressão.
As informações gravadas são in- Outros mapas, elaborados po
troduzidas num computador com computador, nunca chegam a se
outros elementos indispensáveis, imprimidos, sendo transmitido:
como a área que o mapa irá abran- Vista aérea e mapa. Uma fotografia aérea de urna praceta electronicamente aos aviões ou na
ger, o estilo deste e a sua escala. Má com as suas casas e jardins (em cima) foi utilizada para vios para navegação através do:
quinas de desenho comandadas elaborar um mapa pormenorizado da área (em baixo). monitores de computador.
pelo computador produzem não No futuro, os mapas poderão dis
só mapas preliminares para verificação das por círculos ou quadrados. Finalmen- pensar o sistema actual de aerofotograme
como mapas acabados para impressão. te, nos mapas de continentes inteiros ou de tria. topografia no solo e impressão con
Todas as informações recolhidas e anali- todo o Mundo só as grandes cidades po- vencional. Satélites em órbita do planei,
sadas acabarão por transformar-se num dem ser indicadas, marcadas por pontos. poderão enviar as imagens directamente ;
mapa traçado para determinado fim - A altitude do terreno é habitualmente um computador, que imprimirá os mapa
um mapa de .estradas para motorista ou representada por curvas de nível, linhas ou os transmitirá, sob a forma de sinai:
um mapa agrológico mostrando as áreas que unem os pontos com a mesma altitu electrónicos, aos monitores dos aviões
urbanas, as agrícolas, as florestadas e as de. Quanto mais próximas estão entre si dos navios ou dos automóveis.
pantanosas. estas linhas (cotadas em pés ou em me-
A área a incluir num mapa pode ser em tros), mais pronunciado é o declive. As cur- A escala de um mapa
escala muito grande — cobrindo apenas vas de nível podem ser combinadas com Um dos factores mais importantes na elabo
uma pequena zona do terreno apresenta- cores - processo denominado contour ração e na leitura dos mapas é a escala. Un
da em grande pormenor. Os mapas deste layer tinting — a fim de se indicar a varia- mapa pode ser feito à escala de 1:250 000
tipo são usados pelos urbanistas para, por ção desde o nível do mar (geralmente ver- significando que cada unidade (centí
exemplo, planearem novas estradas. de) até às altas montanhas (geralmente metro, milímetro ou polegada) represent;
Para traçar um rnapa numa escala me- castanho ou roxo). O sombreamento das 250 000 dessas unidades no terreno. Po
nor (e mostrar uma superfície maior), o elevações dá ao mapa um efeito tridimen- isso, aquela escala podia igualmente se
cartógrafo aglutina num só alguns dos ma- sional. Pode usar-se sozinho ou como expressa em I cm = 2,5 km, ou 1" = 4 milhas
pas em escala maior. Mas, à medida que a complemento de contour layer tinting. Um mapa do Mundo num atlas pode ter <
escala se reduz, tem igualmente de se dimi- A representação da superfície curva da escala de 1 :60 000 000 (I cm = 600 km).
nuir o pormenor e passar a utilizar símbo- Terra num mapa plano é impossível de Utilizam-se diferentes escalas, conform»
los. Por exemplo, uma aldeia ou vila que conseguir sem alguma distorção. A solu- aquilo que se pretende do mapa. Seria im
começou como um conjunto de edifícios ção é utilizar uma das muitas projecções possível planear uma viagem de aulomòve
é amalgamada numa única forma. cartográficas de conceito matemático, à escala de um planisfério — e um planisfé
Numa escala ainda mais reduzida, as al- que dispõem os meridianos e os parale- rio à escala de 1250 000 teria cerca de 200 n
deias são omitidas e as cidades representa los, bem como outros pormenores do de largura.

:,:
respondência, com 330 kg, destinada a estar nesta cidade na manhã de terça feira.
França. enquanto o documento rias especifica
Como o correio Na tarde de quinta-feira, um voo interna ções tem de estar na sede da empresa, em
Nova Orleães, na sexta-feira.
cional de Toronto leva a caria para O Aero-
atravessa o porto Charles de Gaulle, em Paris, aonde
chega na madrugada de sexta feira. A carta
Um serviço internacional de COurier aé-
reo foi contratado para assegurar a entrega
Mundo está agora no quinto dia da sua jornada. de ambos os artigos. A chamaria para os
escritórios locais desse serviço foi feita às
As cartas provenientes do Canadá se-
guem para Paris, onde se juntam aos 50 4.30; um mensageiro estava no gabinete
Os serviços postais mundiais conjugam-se milhões de objectos tratados diariamente de estudos meia hora depois, com uma
para formar um cérebro à escala da Terra e pelo sistema altamente mecanizado ria carrinha para transportar os artigos. Um
de uma complexidade fenomenal. França. O código postal da casa da avó de terminal de computador na carrinha indi-
A quantidade de correspondência ma- Pierre é lido por uma máquina codificado- ca ao condutor o caminho mais rápido.
nipulada pelas 654 000 estações de cor ra, que lhe acrescenta um código de barras O mensageiro recebe o envelope com
reios do Mundo é impressionante. Num só indicando o ponto a partir do qual a carta as especificações e o embrulho com a má
dia passam pelo sistema postal internacio- terá a sua distribuição final. Esta máquina quina de lapidação e dirigese para o cen-
nal 1000 milhões de artigos. trata 40 000 cartas por hora. tro de distribuição da sua empresa, próxi
A movimentação física de uma carta Uma segunda máquina agrupa as cartas mo do Aeroporto Internacional de Frank-
(em vez da transmissão elect ró nica do seu em pilhas correspondentes às divisões ad- furt Ali. uma máquina de laser lê o sobres
conteúdo) é uma operação lenta que exi ministrativas. Uma tela transportadora crito e 0 pacote, introduzindo os dados
ge trabalho intenso e representa um desa- leva as da máquina para sacos que, por num computador central para que os res
fio constante para os milhões de pessoas sua vez. são transportados para os ca- pectivos percursos possam ser monitori
que trabalham para os 169 Estados inem miões e comboios que percorrem o país zados, Esses mesmos dados são utilizados
bros da União Postal Internacional. com as suas 3000 t diárias de correio. A na preparação dos documentos de expor
estação dos Correios utiliza um Airbus tacão e importação e na elaboração da fac-
De Peace River para Nice para levar a correspondência para Marse- tura para o gabinete de estudos.
Todo e qualquer objecto posto no correio lha e Nice, e a carta de Pierre embarca no Uma leia transportadora leva o pacote
passa a fazer parte desta actividade épica. voo de sexta à tarde. para um saco com a etiqueta "América do
Imaginemos, por exemplo, que Pierre, jo- A noite, em Nice, são executadas as ope- Sul" e o sobrescrito para o saco dos EUA
vem engenheiro francês recentemente rações de recolha e triagem no sentido in Cada saco será colocado no primeiro voo
destacado para Peace River, na província de verso. A estação divide a correspondência disponível com partida de Frankfurt. Neste
Alberta, no Canadá, escreve uma carta à em várias subzonas para distribuição local. caso, os sacos são colocados no voo da
avó, que vive perto de Nice, no Sul de No sábado, de manhã cedo, uma carrinha noite para Nova Iorque, com chegada na
França leva a correspondência desde a estação de madrugada de sexta-feira.
Em Peace River, Pierre deita a caria no escolha para a estação central. Alguém rio escritório ria empresa de ser-
correio na segunda feira de manhã. Esta coloca a carta de Pierre num dos viços, de COurier em Nova Iorque põe o
A seguir à recolha nessa tarde, a caria 70 000 circuitos postais nacionais, e a avó saco destinado aos EUA num voo para o
junta se a milhares de outras na estação lê as suas notícias ao pequeno almoço, no escritório cenlral da distribuição, onde o
local dos Correios. Os funcionários sepa sexto dia da viagem desde Peace River sobrescrito é colocado num saco para
ram a correspondência local da destinada Pelo menos, assim seria num mundo Nova Orleães e enviado no voo de ligação
a outras regiões do Canadá. Separam tam ideal. Mas surgem inevitavelmente compli- seguinte. A chegada, c entregue em mão
bém a correspondência internacional em cações: como os fins-de semana e os dias na sexta-feira à tarde.
dois grupos — um que irá para oeste, atra- feriados; como toneladas de embrulhos Entretanto, o saco para a América do Sul
vessando o Pacífico, outro para todos os mal feitos e sobrescritos ilegíveis: como é novamente triado em Nova Iorque, e o
destinos de leste, incluindo a Europa. À tar- greves; como avarias, e como as acumula- pacote para Quito é colocado num voo da
de, os sacos do correio, excluindo a corres- ções do Natal. Mas, embora esles factores tarde que faz escala primeiro em Bogotá,
pondência local para Peace River, viajam muitas vezes se conjuguem, obrigando a na Colômbia, e depois em Guaiaquil, antes
de camião para a cidade de Grande Prairie. atrasos, cada entrega representa um pe- de aterrar em Quito na sexta à noite.
Aí, os sacos de correio internacional jun- queno tributo ao empenho e à coopera- A Alfândega de Quito está fechada até
tam-sc a outros provenientes de cidades ção humanos. segunda-feira, mas o representante da em-
vizinhas. Na manhã seguinte, terça-feira, presa de courier prepara a documentação
um segundo carregamento transporta a para desalfandegar o pacote na segunda
correspondência para a capital da provín de manhã. Uma carrinha entrega-o no lo-
cia, Edmonton, 480 km a sueste. O volume
de correio internacional aumenta nova
Um serviço cal do destino à hora do almoço.
Os serviços internacionais de cou/iei
mente antes de ser transportado da Estação
de Correios de Edmonton para o aeroporto.
mundial de surgiram no fim da década de (i(), porque
as empresas de todo o Mundo que podiam
Neste ponto, as duas cargas iniciam ca-
minhos separados - os sacos para traves
mensageiros enviar um empregado a quase qualquer
ponto do Globo em 24 horas por avião
sia do Pacífico seguem para oeste, para desejavam assegurar a mesma eficiência
Vancouver, os outros para leste, para To- São 5 horas de uma tarde de quinta-feira no envio de cartas e encomendas impor
ronto, aonde chegam ao fim do dia de ter num activo gabinete de estudos e projec tantes.
ça feira. tos do centro de Frankfurt, Alemanha 0 Os correios não eram bastante rápidos,
Em Toronto, as cartas são separadas por pessoal prepara as especificações de uma porque os sistemas postais se preocupa-
países e, nalguns casos, por zonas dentro nova ferramenta de lapidação de diaman- vam com entregas volumosas em peque
de cada país, Esle processo ocupa quase tes que criou e da qual um protótipo está na velocidade, e os serviços de courier
inteiramente a quarta e quinta-feiras, e a embalado para ser entregue em Quito, ca conseguiam garantir entregas rápidas, urn
carta de Pierre junta se a pilha de cor- pitai do Equador. Esle protótipo tem de sistema poslal personalizado, pessoal

Hl.
próprio e as mais recentes tecnologias. motos para as recolhas e entregas porta a de courier e metida no correio no estran-
Hoje, num esforço de modernização c porta. geiro, curto circuitando assim, em parte,
indo ao encontro das necessidades do Em 1980, a DHL, o maior serviço interna- os serviços postais. No entanto, o retnuil-
mundo empresarial, os Correios criaram cional em termos do número de entregas, ing é uma actividade considerada ilegal,
os seus serviços de courier, oferecendo as tratava 30 000 artigos em cada noite da se pelo que vários organismos internacionais
sim a rapidez e segurança desejadas. mana. e principalmente a CEE estão a tentar regu
As empresas de courier gastam anual- Na Europa, as grandes empresas de lar esta actividade.
mente milhares de contos com as reservas courier e as administrações postais prome- O mercado para as entregas expresso,
de espaço nos voos regulares de carga e tem entregas de um dia para o outro nos que duplicou em cada dois ou três anos na
passageiros e todas mantêm informações destinos europeus e prazos de dois dias década de 70, atingia os 4000 milhões de
computorizadas sobre os horários de voo para qualquer parte do Mundo. Dm outro dólares em 1988. Parece provável que os
de todo o Mundo. Muitas firmas possuem campo em crescimento competitivo é o serviços de courier expresso continuem a
os seus próprios aviões e helicópteros e remailing, em que a correspondência in- expandir se para ir ao encontro das exigên-
quase todas tem frotas de carrinhas e ternacional é enviada do país por serviço cias das empresas.

Do outro lado do Mundo — reportagem para um jornal


É um dia especial para os apreciadores de a partida juntamente com as impres-
ténis na Africa do Sul — particularmente sões de ambos os finalistas.
para os que vivem em Joanesburgo ou O jogador sul-africano é um adolescen-
suas proximidades. Um jovem da zona te que não ganhou ainda um grande cam-
chegou às finais do campeonato italiano peonato ou torneio; o seu adversário é um
em singulares homens, a decorrer em escandinavo mais velho e muito mais ex-
Roma, e o seu sucesso ou o seu desaire periente, actual detentor do titulo Trata se,
serão notícia em ambos os países. A noti- como diz o jornalista, de um encontro clás-
cia ocupará provavelmente as primeiras sico entre "um jovem pretendente e um rei
páginas dos matutinos sul-africanos. O di- entronizado".
rector terá de escolher a forma de fazer a O começo da partida está previsto para
cobertura da partida: apoiar se nos despa- as 14 horas e pode durar toda a tarde. Por
chos e fotografias das agencias noticiosas isso, na África do Sul, que tem a mesma
ou mandar o seu próprio redactor despor hora de Roma, o resultado deve ser conhe-
tivo e um repórter fotográfico para fazerem cido pelas 18 horas. Os jornalistas não te-
a reportagem em primeira mão. Em virtu rão dificuldade em mandar os seus artigos
de do grande interesse local, decide enviar e as suas fotografias a tempo da primeira
uma equipa própria. edição do dia seguinte. Tecnologia a duas mãos. Com um leleío
0 redactor e o repórter fotográfico che- Na cabina da imprensa, o redactor pode ne em cuciu mõo, um jornalista recolhe ele-
gam a Roma a tempo da conferência de escrever a reportagem no seu processador mentos paru urna nova reportagem.
imprensa, na véspera do jogo. O redactor de texto portátil, que é um terminal remoto
pode assim escrever um artigo sobre o am- do computador central do jornal. Quando a ligar o adaptador ao telefone mais próxi-
biente geral e as expectativas que rodeiam termina a sua história, o redaclor limita-se mo e a marcar o número do jornal, e o
texto é transmitido directamente para o
computador, a 8850 km de distância. Um
artigo de 1000 palavras leva cerca de um
minuto a ser transmitido.
O jogo termina com uma brilhante vitó-
ria do jovem tenista sul-africano. A acres
eentar ao relalo dos seta. já introduzido no
seu processador de texto, o redactor vai
agora entrevistar ambos os finalistas.
Entretanto, o repórter fotográfico recor-
re a uma agência noticiosa internacional
de cujo equipamento de transmissão foto-
gráfica necessita. Revela os seus filmes e
introduz num transmissor os melhores ne-
gativos. 0 transmissor envia as imagens
através de uma linha telefónica e cl,is
aparecem rapidamente, como reprodu-
ções de negativos de alta qualidade, no re-
ceptor do editor de fotografia em Joanes
burgo.

Equipa da imprensa. Nenhum aconteci-


mento desportivo passa sem os repórteres
fotográficos, cujas fotografias podem ser
enviadas por transmissores especiais

57
Montagem da página. Os patinadores (à obtendo-se em minutos um negativo a
direita) cortam as provas e colam-nas em preto e branco a partir do qual vão ser feitas
folhas do (amanho das páginas do jornal. as chapas de impressão.
Fazem-se primeiro fotocópias das pági-
Retoques. Quaisquer espaços em branco nas para serem aprovadas pelo editor de
encontrados num negativo depois de mon- desporto, pelo chefe de redacção e, even-
tada a página são retocados com uma ca- tualmente, pelo director. Urna vez verifica-
neta preta especial (em baixo). das e aprovadas pelos revisores, as páginas
são levadas à secção de impressão.
A meia-noite, as páginas estão prontas
para serem transferirias fotograficamente
para chapas de impressão de zinco ou alu-
mínio revestidas a plástico. As chapas, à
passagem ria tinta, imprimem o papel.
A velocidade, aqui como em todas as
bem corno todos os outros textos, transita fases do processo, é fundamental, pois os
então para um equipamento rie fotocom- jornais têm à sua espera as 80 carrinhas
posição de alta velocidade. O artigo, de que os distribuirão pelos postos de venda.
1000 palavras, fica pronto em menos de 30 Quanto mais perto do centro de impres
segundos. Da fotocomposição sai uma são se encontram os revendedores, tanto
prova em papel fotográfico para ser mon- mais recentes são as edições que recebem.
tada em página de acordo com a maqueta Estas últimas edições podem ser radical
previamente feita. mente diferentes das primeiras, pois, com
Embora a paginação possa ser feita di frequência, reportagens de última hora re
rectamente no computador, muitos jor- clamam espaço na primeira página, rele-
Depois de entrevistar os jogadores, o re- nais preferem ainda cortar as provas e colá- gando alguns artigos da primeira página
dactor prepara a reportagem definitiva, las em folhas do tamanho da página - para uma página interior.
ajustando e corrigindo o texto que escre- método rápido quando executado por pa-
veu e que visualiza no écran da sua máqui- ginadores experientes. O chefe de redac O leitor satisfeito
na. Às 20 horas, pede uma linha à telefonis- çáo-adjunto certifica-se de que todos os Deste modo, enquanto toma o seu peque-
ta do hotel e transmite a sua reportagem artigos cabem nos espaços que lhes foram no-almoço, o leitor de Joanesburgo inte-
com mais pormenores de fundo e mais atribuídos e que náo surgiram enos antes ressado em desporto lê o relato da vitória
colorido que as notícias de primeira mão ou durante a fotocomposição. do seu jovem concidadão. O redactor, en-
da televisão e ria rádio. Com todos os textos, títulos, fotografias tretanto, está a acordar em Roma. Para ele,
e filetes, a página completa é fotografada, tudo isto são notícias rie ontem.
Notícia de primeira página
Por volta das 21 horas, o editor rie desporto
chama a reportagem do ténis ao seu moni-
tor. Conforme acordado na reunião de edi-
tores, a reportagem constituirá o artigo
A elaboração de um dicionário:
principal das páginas de desporto Por ou-
tro lado, o resultado rio tenista dá noticia de
trabalho que pode durar uma vida
primeira página, escrita a partir da reporta-
gem do enviado e que o chefe de redacção Quando Samuel Johnson escreveu o seu o faz (o lexicógrafo) precisa de ter uma
poderá ler no monitor. dicionário de inglês no século xvm, esse ideia, ou conceito, do tipo de dicionário
A reportagem principal é depois lida e trabalho demorou sete anos. Nesse perío- que pretende, um critério definido sobre a
corrigida por um chefe de redacção-adjun- do ele teve rie escrever o significado de forma de pôr essa ideia em prática e os
to por forma que ela se encaixe no espaço 40 000 palavras. exemplos e citações relacionados com os
que lhe atribuiu o editor rias páginas de O primeiro Oxford English Dklionary, vocábulos a incluir e com aquilo que pre
desporto. O chefe de redacção-adjunto completado em 1928, levou 50 anos, com tende dizer acerca deles.
pode chamar ao seu monitor uma ima- os seus 12 volumes e 252 259 vocábulos.
gem da página inteira tal como agora se Na Alemanha, o Deutsches Wõrter Primeiro, a ideia
encontra, com todos os outros artigos, títu- huch, com 16 volumes, iniciado pelos ir- O dicionário pode incluir vocábulos de to-
los e fotografias — e anúncios, se os hou- mãos Grirnm em 1838, apenas foi termina- dos os tipos ou unicamente termos espe-
ver - já paginados. do em 1961 — passados 123 anos c riuas cializados (como num dicionário de quí-
Depois de o editor de fotografia e o edi- guerras mundiais. mica). Pode incluir ou não os nomes de
tor de desporto lerem escolhido a fotogra- A maioria dos dicionários exige consi- personalidades e de lugares. Pode dar mui-
fia que ilustrará a reportagem, o chefe de deravelmente menos esforço e tempo, náo tos tipos rie informação acerca de cada en-
redacção-adjunto saberá qual o espaço de só porque são menos extensos como tam- trada (grafia, pronúncia, etimologia, signi
que dispõe. O artigo é então editado no bém porque os seus compiladores podem ficado, comportamento gramatical, sinó-
monitor, de forma a preencher esse espa- utilizar dicionários anteriores como fontes nimos e antónimos) ou apenas alguns ti-
ço, e faz-se um título que chame a atenção de informação. Urna nova edição de um pos de informação (grafia e pronúncia, por
c se ajuste à história e ao espaço disponí- "dicionário portátil" com nome já feito exemplo).
vel. O chefe rie redacção-adjunto introduz pode levar cerca de dois anos. Um peque- Pode incluir ilustrações e exemplos rio
a legenda da fotografia. São quase 22 ho- no dicionário especializado como um uso das palavras. Pode ser monolingue
ras, e nesta altura todos os textos para a dicionário de abreviaturas — pode ser es (com os significados das palavras portu-
primeira edição têm de ser compostos. crito apenas por uma pessoa. guesas dados em português) ou bilingue
O artigo sobre o campeonato de Roma, Para escrever um dicionário, aquele que (com os significados das palavras portu-

58
guesas dados, por exemplo, em francês, e soas vulgares sobre as suas predilecções e nho e sala de jantar, ou ainda casa de ba-
os das francesas dados em português). as suas reacções quanto à forma como as nho e casa de jantar, e decidir se todas estas
palavras são usadas. locuções terão de constituir entradas no
O critério Mas lerá de interpretar com muito cui dicionário.
Uma vez decidido o objectivo do dicioná- dado todos estes dados. Determinados vo- Na elaboração das definições, o léxico
rio, têm de se estabelecer critérios para a cábulos podem ser facilmente tabelados grafo deve tentar encontrar o equilíbrio en-
sua elaboração. Quando é que um vocábu de "obsoletos" ou "arcaicos", por exem- tre a clareza e o esclarecimento ou a infor-
lo deve constituir uma entrada principal ou plo, porque não são usados nas zonas do mação. Se dissermos que um camarão é
uma subentrada? Deverá saca-rolhas, por pais com que o lexicógrafo está mais fami- um animal "com 10 patas". Ioda a gente
exemplo, constituir uma entrada principal liarizado — mas antes de os classificar perceberá; se o classificarmos como um
(como sacar e como rolba) ou unia suben- como tais ele terá de saber se certas regiões "decápode". muitas pessoas lerão de pro
trada — e neste caso dentro do verbete os não utilizam ainda na sua fala normal. curar a definição de decápode. Mas, ao
«sacar» ou dentro do verbete «rolha»? fazê-lo, encontrarão provavelmente outras
Capitáo-tenente será provavelmente A organização do projecto informações úteis, como o facto de os ca
uma entrada principal mas virá em capi- Embora seja possível alguns dicionários marôes estarem relacionados com as la-
tão ou em tenente? Cabo (promontório, serem obra de uma só pessoa, a maioria gostas e os caranguejos, também eles decá
fim, extremidade), cabo (chefe, caudilho; representa esforços conjuntos. podes.
graduação militar), cabo (do martelo, da Os lexicógrafos que têm a sorte de pos Uma solução será chamar ao camarão
vassoura) e cabo (corda) farão parte de suir citações utilizam-nas na elaboração "um animal decápode (com 10 patas)".
um único verbete porque se escrevem do dos verbetes e organizam o seu trabalho Mas isso exige mais espaço, que pode re-
mesmo modo? Ou haverá quatro verbetes, por forma que. por exemplo, os verbetes fleclirse na dimensão do dicionário, dimi
um para cada significado? Ou ainda entra- para anabolismo, catabolismo e metabo- nuindo o número de entradas possíveis.
rão os dois primeiros num único verbete lismo façam referências cruzadas entre si Têm igualmente de ser sopesadas con-
por terem o mesmo étimo (latim caput, apesar de terem letras iniciais diferentes. siderações sobre o espaço e sobre o tipo de
"cabeça", "extremidade") e terão os outros É possível que uma entrada seja produ utilizadores da obra, ao decidir-se quanto à
dois (respectivamente de copio, "'agarrar*' to do trabalho de um único lexicógrafo, quantidade de informações a incluir: deve
e de capulum, "corda") cada um o seu ver mas o mais provável é que o seja de vários rá a definição de água incluir a sua fórmula
bete próprio? E azul, substantivo, c azul, especialistas: um para o significado, outro química (H^O) e os seus pontos cie conge
adjectivo (qualidade daquilo que tem a cor para a pronúncia, um terceiro para a eti lação e ebulição ao nível do mar-5
azul), como devem ser tratados? mologia (a origem e a evolução do vocá-
E se uma palavra aparece mais de uma bulo ou da expressão). A importância dos dicionários
vez como entrada principal, que ordem Material complementar, como fotogra Apesar de lodos os problemas, o lexicógra-
dar às entradas: a mais antiga antes da mais fias ou mapas, pode ainda ser preparado fo pode consolar se com a ideia de que um
recente, a mais frequente antes da mais por outros especialistas. E tudo tem de ser dicionário pode ser um dos mais impor-
rara ou o adjectivo antes do substantivo'.' verificado quanto ao sou rigor, clareza e tantes instrumentos de auto-educaçâo.
Ainda quando uma palavra tem mais de solidez. São uma espécie de memória arquivada
um significado, em que ordem devem apa- Actualmente, grande parte do trabalho da cultura em que são produzidos, bem
recer esses significados: o mais antigo an- pode ser realizado por computadores, que como um meio de acesso a essa cultura
tes do mais recente, o mais frequente antes conseguem tratar grande quantidade de Há alguns anos, em Inglaterra, uma mu
do menos frequente, o literal antes do figu- elementos, facilitar a revisão (fazendo lis lher que ficou parcialmente incapacitada
rado, o geral antes do técnico? tas de artigos previamente assinalados devido a uma intervenção cirúrgica deci
para potencial eliminação, a fim de darem diu pedir uma indemnização. Antes de o
Exemplos e citações lugar a novos vocábulos e significados) e fazer, estudou durante seis meses dicioná-
0 ponto de partida para decidir aquilo que garantir um tratamento homogéneo (mas rios de medicina para não ser enganada
vá ser incluído são os conhecimentos do não o rigor nem a clareza). pela terminologia médica que seria utiliza-
lexicógrafo acerca da língua e o modo da no tribunal. E ganhou a acção.
corno a entende. Será ideal também que A elaboração do dicionário
possua um vasto repositório de exemplos Num dicionário alfabético normal, os vo-
do emprego real dos vocábulos e das frases, cábulos relacionados entre si, como chão,
recolhidos de escritos publicados c talvez
de manuscritos e até discursos gravados.
sobrado, soalho e pavimento, poderáo
aparecer muito distanciados. Mas os ver-
Como se alimenta
Esta colectânea pode ser tão representativa
do espectro da língua quanto o lexicógrafo
betes podem ser escritos ao mesmo tem-
po para garantir que os respectivos signifi-
e abastece um
o pretenda. Assim, podem mesmo ser re-
colhidos exemplos em trabalhos científi-
cados sejam devidamente comparados e
que não faltem as referências cruzadas.
exército na guerra
cos e até em revistas humorísticas. Um dicionário geral incluirá palavras re-
Pode fazer-se uma lista alfabética, por centes (como sida) e novos significados de Entre Janeiro e Maio de 1942, 5500 solda-
meio de computador, de todos os exem- palavras antigas (como monitor), e referirá dos alemães estiveram isolados pelo exér-
plos de cada palavra nos textos escolhidos vocábulos antigos, como boleeiro. cito russo perlo da cidade de Kholm, entre
para investigação. Assegurar-se-ia assim Alguns termos técnicos podem ser mais Moscovo e Leninegrado. Fora o pior Inver-
que não se perderiam empregos impor fáceis de explicar do que muitas palavras no desde há 100 anos. Com -30°C, os sol-
tantes das palavras pelo simples facto de do dia-a-dia. É mais fácil, por exemplo, dis- dados alemães, enregelados, amontoa-
serem demasiado vulgares para despertar tinguir uma estalactite (que aponta para vam-se nos abrigos subterrâneos e reza-
a atenção do lexicógrafo. baixo) de uma estalagrnite (que aponta vam para que viessem os socorros.
Este reportar se á ainda a outros dicio para cima) do que um quarto de uma sala. Subitamente, ouviram o som distante
nários e outras obras e a artigos acerca da E, tendo conseguido definir distintamente de motores, que se transformou num rugi-
linguagem. Pode ainda consultar os peri- quarto e sala. ele terá eventualmente que do quando 20 aviões de transporte Jun
tos sobre palavras especializadas e as pes saber explicar porque se diz quarto de ba- kers Ju 52. escoltados por duas esquaríri-

59
munições e equipamento foi sempre americanas em tempo de paz. Os 35 000
um elemento essencial das artes bélicas. E homens do III Corpo blindado, estaciona
na guerra moderna um ataque ou uma de- do em Fort I lood, no Texas, iriam ser en-
fesa eficazes dependem cada vez mais de viados para a Alemanha Ocidental, como
um reabastecimento rápido e continuado. se constituíssem reforços aos seus colegas
Uma divisão pesada moderna com cer- aliados no início de uma invasão soviética
ca de lfi 000 homens e 1000 veículos empe da Europa Ocidental
nhados em combate consome pelo me- Soldados e equipamento encontravam-
nos 5000 t de munições e 2700 t de com -se espalhados por mais de 30 estados
bustíveis por dia.
Sem esse fluxo vital, um exército morre.
A frase de Napoleão "Um exército marcha
sobre o seu estômago" é tão verdadeira
agora como era então. A incapacidade do
Exército Vermelho para suster a invasão de
Hitler em 1941 deveu se em parte a um sis
tema de reabastecimentos inadequado. As
Força aerotransportada. Num exercício. tropas das linhas da frente eram obrigadas
os US Army Rangers treinam-se no salto e/n a ir à retaguarda reabastecer-sc. Estaline
páraquedus por detrás das linhas inimigas, extinguiu esse sistema em 1943.
transportando apenas provisões básicas. Os Japoneses não conseguiram tomar
Imphal c Kohima, na fronteira indo -birma-
lhas de caças Messerschmitt. lhes passa- nesa, em 1944. em parte por não terem
ram por cima. O céu encheu-se com riú reabastecimentos. Quando os Ingleses e
zias rie pára-quedas com caixotes de ali- os Indianos avançaram, encontraram ca-
mentos, munições e medicamentos. dáveres de japoneses com ervas na boca.
Estes voos de abastecimento continua-
ram por mais de três meses, permitindo Movimento maciço de tropas
aos alemães sitiados repelir os ataques do norte-americanas
Exército Vermelho. Km Maio, os tanques Os problemas ligados ao reabastecimento
alemães conseguiram abrir caminho até são enormíssimos, como se revelou em
aos sitiados. A Bolsa de Kholm sobrevivera Setembro de 1987 durante as manobras
graças a um bom apoio logístico. militares Reforger 87. Rações de combate. Soldados de infanta-
A logística - a capacidade de abastecer O exercício envolveu a mais vasta movi- ria recolhem embalagens de refeições du-
uma força de combate com alimentos, mentação ultramarina de forças norte- rante um exercício militar.

[.ançainento de um tanque. Um tanque Shcridan de IS t é retirado de um aoiâo Hercules por pára quedas gigantes Esta técnica, extracção
por pára quedas a baixa altitude, permite a entrega de cargas pesadas na zona de combale sem que o avião lenha de aterrar.
americanos. As (ropas foram conduzidas não dormem: a frenética actividade organi- O turno da noite da manutenção é suhs
para os aeroportos americanos, de onde zada de ontem limita-se a dar lugar a uma tituído pelo da manhã, a quem entrega
voaram para a Europa. Dos aeroportos eu- curta noite de preparação para amanhã. uma lista de trabalhos a fazer. A mudança é
ropeus foram levadas, por estrada ou ca- Assim acontece no Milton, lorre de 25 marcada pelo ajustamento do volume
minho de ferro, para entrepostos onde andares de betão e vidro no sopé do Vic.to- suave do sistema sonoro de comunica-
lhes foram fornecidos equipamentos da ria Peak. Enquanto os cerca de 1250 empre- ções para um nível que possa ser ouvido
NATO ou para portos onde receberam gados - do direclor-geral para baixo — por sobre os ruídos do dia.
equipamento pesado que chegara de bar- descansam, os cerca de 50 funcionários da
co através do Atlântico. noite preparam o hotel para o novo dia Das 9 ao meio-dia: chegam
0 transporte em navios rápidos através E esta a vida do hotel que os hóspedes os administrativos
do Atlântico leva mais quatro dias do que não vêem. Quando diminui a azáfama das saídas da
por ar, por isso foi necessário ter material manhã e já foram servidos os últimos pe-
pré-armazenario para as primeiras tropas. Da 1 às 7 da manhã: cozinhas quenos-almoços, os serviços adminislrati
0 Corpo Blindado deslocou-se então e limpezas vos do hotel começam os seus trabalhos.
para a sua zona do acção, perto de Miinster Nas cozinhas, onde têm de ser confeccio- No serviço de aprovisionamento, os
e Osnabruck. Daí, dois dias depois, cada nadas cerca de 3750 refeições durante as empregados fazem uma verificação de
uma das duas divisões e as respectivas bri- próximas 24 horas, o pão e a pastelaria existências de última hora para se assegu-
gadas de apoio dirígiram-se a uma zona para os pequenos-almoços estão a ser c.o rarem de que têm todos os alimentos e
táctica de concentração ali próxima para zidos desde a meia noite. Ao todo, quase bebidas para o dia.
reabastecimento de combustíveis e provi- 550 pessoas trabalham na preparação c no Os contabilistas sentam se em frente
sões (em situação de guerra, o reabasteci serviço das comidas e bebidas no hotel. das suas calculadoras e computadores
mento incluiria igualmente munições). A equipa de limpeza nocturna lava e lim- para examinar as finanças do hotel. Os res
Desde a altura em que foram convocados pa o equipamento da cozinha e areia os pousáveis pelo pessoal preparam-se para
ate àquela em que se encontraram em po- serviços do pequeno-almoço. Os empre- um dia que pode incluir admissões ou des
sição de combate, as tropas não demora- gados do serviço do quartos preparam os pedimentos ou ficar se pela atençào dada
ram mais de uma semana. pedidos para o dia seguinte e estão atentos às boas condições de trabalho dos empre
Os exércitos modernos são cada vez aos pedidos ocasionais dos que não con- gados.
mais complexos, e é cada vez maior a ne- seguem dormir e que querem um compri- Os directores de vendas reúnem-se para
cessidade de rapidez. Os computadores mido para as dores de cabeça, um copo de decidir sobre estratégias e tácticas para o
transmitem os pedidos instantaneamente. whisky ou uma ceia inteira para si próprios melhor aproveitamento do hoiel e das
Os abastecimentos urgentes podem ser e para os seus amigos. suas instalações não só o alojamento
transportados por helicóptero ou por apa- Na cave, a equipa que trata da manuten- nocturno como exposições, conferências,
relhos STOL (short-take-off-and-landing. ção dos sistemas vitais do hotel ar condi- recepções e banquetes. Complementan-
"de aterragem e levantamento em curto cionado, refrigeração, luz eléctrica e força do esse trabalho, a equipa de relações pú
espaço"). No futuro, navios-lanques gi- motriz, água quente - está empenhada blicas, com cinco elementos, estuda a me-
gantes, cargueiros movidos a energia nu- nas suas tarefas nocturnas. Ao lodo, num lhor forma de fazer publicidade ao hotel.
clear, submarinos de carga e até grandes dia de ponta gastam se 820 000 I de água e Entretanto, os 62 técnicos da manuten-
aviões poderão aumentar os reaprovisio recolhem-se cerca de 4,5 t de lixo. ção fazem a sua inspecção diária completa,
namentos convencionais por ar e por mar. Na rouparia, enchem-se os últimos ces procedendo a reparações e conservações
Estrategicamente, contudo, nada mu- tos com as mudas de roupa de cama e as de rotina, incluindo a verificação da piscina
dou, e, como disse o marechal Rokos- toalhas para os quartos. e do equipamento da sauna e do ginásio —
sovsky, famoso comandante da II Guerra Os 43 porteiros e mandaretes já verifica onde uma equipa de oito pessoas toma
Mundial: "Não compete às tropas preo- ram os seus registos de saídas e entradas. conta da sauna, rio banho turco e das insta
cuparein-se com a retaguarda, mas à re- Distribuem se os jornais da manhã para lações de massagem. O chefe do pessoal
taguarda preocupar se com as tropas." entrega nos quartos e afixam-se no átrio das limpezas dá os loques finais aos arran
principal os avisos sobre os acontecimen- jos para as funções especiais do dia.
tos do dia no hotel. As cerca de 60 lojas, a farmácia e o cabe-
O pessoal de limpeza limpa as zonas de leireiro estão já abertos.
Um dia num hotel circulação e arranja as salas necessárias
para funcionar durante a manhã, em reu
Atrás do iobby do rés-rio-chão, o Busi-
ness Centre também já abriu as portas:
de luxo niões de trabalho e negócios. põe à disposição dos clientes um serviço
de secretariado, de telegramas, fax e telex
Das 7 às 9 da manhã: tudo em acção durante 24 horas, fotocópias, serviços in-
Quando se aproxima a I hora de uma ma- O hotel está agora bem acordado — como ternacionais de entrega de documentos e
drugada abafada de Hong Kong, a maioria o estão muitos dos hóspedes, ansiosos uma biblioteca de livros de referência.
dos cerca de 1000 hóspedes do Hotel Mil- pelo pequeno-almoço c por mais um
ton já está recolhida. Os sete restaurantes c novo dia. Na recepção, os funcionários do Do meio-dia às 3: horas de almoço
dois bares do hotel fecharam, e a zona de turno da noite, cansados, são substituídos Nas cozinhas, desapareceram já os últi-
lojas, a sauna, o ginásio, os campos de té- pelos da equipa de dia. São organizadas as mos '"vestígios" dos pequenos-almoços. A
nis e a piscina encontram-se desertos. Os entradas e saídas, marcados os quartos, preparação dos almoços vai avançada,
empregados dos sectores administrativos distribuído o correio. Fazem-se as reservas, embora, por volta da 1 hora, venha a ser
há muito que terminaram o seu serviço. verificam-sc as horas do chegadas e parti necessário o reabastecimento dos bufetes.
Na zona da entrada, onde chegam a tra- das. Os empregados de serviço às salas de Nos restaurantes, as mesas estão postas e
balhar durante o dia 75 funcionários, só reuniões confirmam que estas foram con- as reservas verificadas. Uma totalidade de
ficaram os empregados da noite e uns venientemente limpas. O pessoal de noite 200 cozinheiros, ajudantes de cozinha e
quantos recepcionistas. As luzes das zonas do serviço de quartos retira se e entra o de empregados-de-mesa estarão envolvidos
de convívio e dos corredores baixaram de dia; dá-so então início à limpeza e arruma em preparar e servir as refeições. Entretan-
intensidade. No entanto, os grandes hotéis çáo dos 750 quartos de cama. to, o serviço de quartos prepara os tabulei

• il
ros e os carrinhos para os hóspedes que
preferem almoçar no quarto.
Na recepção, apresentam-se os novos
hóspedes. Os mandaretes pegam nas ba-
Um dia na vida de um transatlântico
gagens e acompanham os hóspedes aos
respectivos quartos, abrindo-lhes as por- O sol da tarde banha o porto de Southamp- rou uma área de alcatifas equivalente a 142
ias com cartões de segurança computori- ton, enquanto gmpos de trabalhadores das campos de ténis, os 1000 tripulantes estão
zados, em vez das chaves tradicionais, que docas começam a carregar alimentos fres- nos respectivos postos e a maioria dos cer-
podem ser roubadas e copiadas. cos e outras provisões a bordo do Queeit ca de 1800 passageiros já embarcou. Sáo-
EBzabeth 2 o maior navio da Cunard Line -Ihes dadas as boas vindas por uma banda
Das 3 às 6 da tarde: o chá e o único navio de passageiros que atraves- de jazz tocando músicas conhecidas, e
A medida que se esvaziam os restaurantes sa regularmente o Atlântico. Atracou à 1 sào encaminhados para os seus camaro-
e os bares, os hóspedes começam a tomar hora da tarde e partirá para a viagem de tes por quase 80 criados e criadas.
o chá, as empregadas de quarto enchem regresso a .Nova Iorque sete horas depois. Tudo foi preparado para o bem-estar e o
os baldes de gelo nos quartos, os emprega- Não há tempo a perder, e a maioria das conforto dos passageiros - desde saunas
dos-de-mesa e os bormen preparam tudo provisões — incluindo frutas e vegetais, ali ejacuzzis até filmes e um centro de com
para a reabertura ao fim da tarde e. na cozi mentos enlatados e carne e peixe congela- putadores, onde poderão aprender coisas
nha, o jantar já está a fazer-se. dos — é transportada em tapetes rolantes novas como processamento de texto.
Uma vez por semana, por volta das 3 da para 0 interior, através de quatro estreitas Cada um dos 10 decks, OU pavimentos,
tarde, o turno de dia do pessoal de manu- pranchas de embarque. de passageiros possui a sua própria cozi
tenção ensaia o alarme de incêndio, os ele Entretanto, a maioria dos vinhos, bebi- nha com despensa, o que permite aos cria
vadores e o sistema de comunicação sono das alcoólicas e refrescos, embalados em dos e criadas de bordo preparar e servir
ra. E, pelas 4 horas, as 72 empregadas de contentores metálicos, é içada cuidadosa desde chávenas de chá ou café pela manhã
serviço aos quartos e os 14 empregados de mente para bordo por gruas. K 30 000 I de até complicadas ceias à noite.
limpeza das zonas de circulação e salas já cerveja são bombeados directamente dos Uma vez no mar, os 14 padeiros come
completaram os respectivos serviços. camióes-cisternas estacionados no cais çam a sua longa jornada de trabalho nas
Entretanto, o pessoal da recepção exa- para enormes depósitos de aço inoxidá três cozinhas principais, às 5 horas da ma
mina os relatórios diários do departamen- vel que estão ligados por tubagens aos nhã, a fim de prepararem os mais de 3000
to de quartos — o segundo maior do hotel, sete bares francos do navio. pãezinhos e croissants servidos ao peque
depois do de alimentos e bebidas, com 217 Os alimentos e bebidas serão suficien- no-almoçp. Ao mesmo tempo, os pastelei-
empregados. Qualquer coisa que tenha tes para a travessia transatlântica de cinco ros de bordo produzem os 6000 bolos ne-
corrido mal nos quartos é, assim, rapida- dias. Pelas 7 da tarde, as provisões já foram cessários para o lanche e os 5000 petits
mente corrigida. A lavandaria, que lava dia- embarcadas, 0 pessoal de limpeza já aspi- •fours para o buffet.
riamente, entre outros artigos, 10 000 toa-
lhas e 500 camisas, prepara-se para fechar.

Das 6 às 8 da noite: os "cocktails"


Para a maioria do pessoal administrativo, o
dia de trabalho termina por volta das (i ho
ras, quando muitos hóspedes começam a
pensar nos cocktails e no jantar. Nos bares,
os 17 guardas de segurança do llilton au
mentam discretamente a sua vigilância.

Das 8 à meia-noite: o serviço


de jantares
A maioria dos 1500 hóspedes e visitantes
que comem no hotel está a jantar. No Res
tauranle Ninho de Águia, no 25." andar, a
orquestra inicia o seu trabalho e na cozi
nha pensa se já nas encomendas de ali-
mentos do dia que se aproxima.
Na recepção, os empregados preparam
as fichas de registo para o dia seguinte. Pe-
las 11 horas, a lista de chegadas para ama
nhã estará já pronta.

Meia-noite: começa a noite


de trabalho
Chegou ao fim mais um dia. A medida que
os hóspedes se vão recolhendo, o hotel
ajusta se gradualmente ao seu ritmo noc-
turno. 0 pessoal do serviço de quartos retira
das portas as encomendas para os peque
nos almoços. Alguns dos 90 contabilistas
do hotel apuram a receita do dia anterior,
cerca de 23 000 contos, t está já em anda
mento mais uma noite de preparativos.

1.2
As 7 da manhã, chegam os primeiros abrangendo a altura de dois decks. Cada
cozinheiros para preparar os ingredientes um dos nove motores tem o tamanho de
para as sopas e os estufados do dia. Os 75 um autocarro de dois andares. Geram
me.stres-cozinheiros - lodos homens, in- 130 000 cavalos e conseguem fazer parar
cluindo um de cozinha kosher, começam completamente o navio, a partir de uma
a preparar os 2800 almoços e jantares, en- velocidade de 32,5 nós (60 km/h), em 3
quanto a maioria dos passageiros termina minutos e 39 segundos, numa distância de
os seus pequenos-almoços. cerca de 1,25 milhas (2 km).
Os cerca de 60 ajudantes de cozinha A casa das máquinas contem ainda uma
chegam a trabalhar 12 horas por dia nas aparelhagem de dessalinização e purifica-
cozinhas abafadas e sem janelas. Sentem ção da água, que recolhe água do mar e a
-se frequentemente fatigados e com sau- Mexendo o caldeirão. .4 preparação da transforma em água potável. São tratadas
dades de casa - e, às vezes, alguns deles sopa começa às 7 da manhã. diariamente cerca de 480 t — o bastante
abandonam o trabalho assim que atra- para se encherem sete piscinas idênticas às
cam. Para a maioria, contudo, trata se de do navio. Alem disso, quatro vaporizado
uma forma cie ver o Mundo. res a vácuo produzem 250 I de água por
Nas despensas, conservam-se centenas dia. A verificação dos diversos depósitos de
de produtos alimentares, e os enormes ar água, na parte mais inferior do navio, é da
mários frigoríficos das carnes estendem- responsabilidade dos carpinteiros de bor-
-so a quase toda a largura do navio 32 m. do. Alguns destes depósitos destinam se a
No seu interior, a temperatura de -10°C servir de lastro para regular o caimento do
mataria quem quer que ai' ficasse fechado navio, outros contêm a água para bet>er e a
mais de 12 horas. Para evitar tais acidentes, utilizada na lavagem da roupa.
existe uma campainha de alarme dentro Se, por qualquer motivo, se utilizou
do cada armário-frigorífico, para o caso de Pratos frio». Um cozinheiro, ladeado por mais água de um dos lados do navio que
as portas serem fechadas por engano. uma águia de gelo. serve os convivas. do outro, este começa a inclinar-se. Para
Os motores gigantescos do QE2 estão corrigir esta situação, a água é rapidamen-
instalados na casa das máquinas — diver- te redistribuída pelos outros depósitos.
sas e extensas áreas de enorme pé direito, Numa pequena divisão, a equipa de ti
pógrafos desempenha o seu papel na vida
Cruzeiro nos fiordes. Além de navegar diária do navio. Ao fim de cada noite, é
no Atlântico, o QE2, de vez em quando, faz entregue em todos os camarotes um pro
cruzeiros nos fiordes noruegueses. grama impresso dos acontecimentos do
dia seguinte. De manha cedo, são entre-
gues as folhas noticiosas, com notícias de
todo o Mundo recebidas a bordo, todos os
dias, via satélite.

Chamada ao palco. NOS seus camarins, Centro nervoso


as bailarinos preparam-se para a exibição O centro nervoso do transatlântico é a pon-
te de comando. Por razões de segurança.
existe apenas uma escada que leva à pon
te — e uma única porta de entrada que
apetias pode ser aberta por dentro. A pon-
te exibe o mais recente equipamento de
navegação, incluindo o piloto automático.
Mas a roda do leme continua a ser habitual-
mente usada quando o tráfego é intenso
ou quando o navio entra ou sai do porto.
Existe, além disso, um sistema de preven-
ção de colisões, que mostra em cada mo-
mento o rumo, a velocidade e a direcção
Trabalhos de reparação. Na oficina, um de até 20 navios. Existe também um siste-
carpinteiro começa a consertar uma cama. ma de navegação por satélite, o primeiro
que se instalou num navio de passageiros,
em contacto com vários satélites cm órbita
à volta da Terra. Kste instrumento assinala
a posição do QE2 a intervalos de 35 até
100 minutos. O rigor i\n leitura é inferior a
100 m.
Como sede dos comandos do barco, a
ponte está em comunicação íntima com a
casa das máquinas — por telefone direc-
to — e com outras zonas vitais. Para redu-
zir ao mínimo os erros e as más interpreta
ções, as instruções importantes são trans-
Planeamento antecipado. Na ponte, um mitidas à casa das máquinas por meio de
navegador marca a próxima rota um painel de teclas etiquetadas: quando

63
uma das teclas é pressionada na ponte, a
tecla equivalente da secção de controle
principal da casa das maquinas acende-
-se - e o maquinista sabe exactamente o
Como se organiza o maior festival
que é que se lhe pede. Os motores podem
também ser comandados directamente a
desportivo do Mundo
parlir da ponte.
Entre a tripulação, contam-se seis baila- Na manhã de 6 de Setembro de 1972, Avery rou totalmente o conceito de segurança,
rinas. E todos, do capitão para baixo, são Brundage, presidente do Comité Olímpico que, por essa razão, foi uma das grandes
submetidos a exames médicos periódi- Internacional, dirigiu-se a 75 000 pessoas prioridades nos Jogos de Montreal ..."
cos Quem tiver excesso de peso é enviado reunidas no Estádio Olímpico de Muni- O número de tropas armadas e polícias
para terra até emagrecer. que. No dia anterior, de manhã cedo, oito superou os 6189 atletas c estabeleceu o cri-
O hospital de bordo fica situado a meia terroristas palestinianos tinham penetrado tério para os Jogos futuros como os de
nau, próximo da linha de água. onde o ba- na Aldeia Olímpica, tomando como reféns .Seul, Coreia do Sul, em 1988, em que, nas
lanço do barco, com os seus 292 m de nove atletas israelitas e matando outros semanas que antecederam os Jogos, as
comprimento, mal se sente. O pessoal do dois. Atiradores especiais alemães acorre- forças de segurança e antiterroristas, com
hospital é constituído por dois médicos, ram a salvar os reféns, mas os nove foram 100 000 homens, tiveram de dominar ban-
três enfermeiras e três paramédicos, que mortos no tiroteio que se seguiu e em que dos de estudantes desordeiros.
podem tratar de tudo, desde um dente até cinco dos terroristas também morreram. Em número de competidores, os Jogos
uma operação ao apêndice, na sala de Nas 34 horas seguintes, os Jogos foram de Seul foram os maiores até à data — com
operações, perfeitamente equipada. suspensos e o seu destino manteve-se in mais de 9400 homens e mulheres, em re
Quando a noite começa a cair sobre certo. Mas depois, numa cerimónia de ho- presentação de 160 países, competindo
Southampton, já todos os passageiros em- menagem celebrada ao ar livre c presen- em 237 provas que abrangeram 23 modali
barcaram e tudo se encontra a postos para ciada na televisão por 1000 milhões de dades. Como Iodas as Olimpíadas moder-
uma nova travessia. E assim, às 8 da noite, o espectadores, Avery Brundage, então com nas, o acontecimento foi da responsabili
Queen Elizubetfi 2 sai majestosamente do 84 anos, afirmou: "Os Jogos têm de conti- dade do Comité Olímpico Internacional
porto e dirige-se para o Atlântico. nuar — e nós temos de prosseguir no nos- (COI), com sede em Lausana, Suíça. O COI
so esforço de os tornar claros e honestos e escolhe o lugar dos Jogos e decide quais os
Comendo e bebendo tentar alargar a outras áreas o espírito des- desportos a incluir.
Grande actividade espera a tripulação. Os portivo dos campos de atletismo."
empregados-de-mesa preparam se para Não fora pela determinação de Avery A escolha da cidade
servir o jantar nos quatro restaurantes do Brundage, os Jogos Olímpicos de 1972 po- Unicamente cidades — e não países -
navio. deriam ter sido suspensos e o futuro das podem candidalar-se a organizar os Jogos,
A ementa apresenta salmão fumado, ca- Olimpíadas posto em questão. Cada edi o que se destina a eliminar, tanto quanto
viar, lagosta e ostras — além de outros pra- ção dos Jogos Olímpicos demora seis anos possível, a influência dos governos.
tos requintados. Quando chegarem a Nova a planear e organizar e já estavam em cur- Antes de escolhida a cidade, o comité
Iorque, os criados terão servido 5600 kg de so os preparativos para as Olimpíadas em olímpico do país assegura se de que ela é
vaca, 5000 kg de fnita fresca, 350 kg de la- Montreal, Canadá, em 1976. capaz de providenciar todo o pessoal e ins-
gosta, 20 kg úepàté de foie-gras — além de O presidente do Comité Olímpico Inter- talações para o desenrolar dos Jogos. E no-
cerca de 4800 potes de compotas e 100 nacional era o irlandês Lord Killanin, que meia-se uru comité organizador para pla-
garrafas de molhos e pickles. escreveria mais tarde: "O horror dos assas- near e supervisar toda a operação — fazen-
Além disso, eles e os barrnen terão aber- sínios na Aldeia Olímpica de Munique alte- do relatórios periódicos para o COI.
to 000 garrafas de vinho c 500 de champa-
nhe, 500 de whisky, 300 de gin e 120 de
brandy. Nos bares propriamente ditos, o
pessoal terá aberto 6000 garrafas de cerveja
e tirado 13 6501 de cerveja a copo.
Usaram-se 25 000 copos, 32 000 artigos
de loiça, 18 000 talheres e lavaram-se e pu
seram-se nas mesas quase 3000 toalhas.
Depois do jantar, os 60 animadores de
bordo — músicos, croupiers. bailarinas e
cantores - proporcionam aos passageiros
uma escolha variada de entretenimentos.
A vida nocturna prolonga-se até de ma-
drugada - pouco antes da primeira série
de pequenos-almoços, quando os criados
já voltaram ao serviço e oferecem aos passa
geiros o luxo do pequeno almoço na cama.
Seja a que hora for e em qualquer parte
do navio, há sempre trabalho para a tripu-
lação. Desde a ponte que funciona 24
horas por dia - até à câmara escura, onde
o fotógrafo revela as fotografias tiradas em
acontecimentos como o cocktail do co-
mandante, a azáfama regressa ao começar Paisagem olímpica. Uma zona de arrozais perto de Seul iransforruada num complexo
um novo dia a bordo do mais luxuoso tran desportivo de 55 ha para as Olimpíadas de 1988. Além do 'Estádio Olímpico (primeiro plano),
satlánlico do Mundo. havia um estúdio de basebol (atrás) e edifícios com ringues e campos (à direita).

64
Apresentação das bandeiras. Na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Seul. em )98B, milhares de voluntários sul coreanos
formaram as bandeiras dos 160 países representados. Enquanto se ouvia o hino de cada país, os participantes, cujos movimentos estavam
sincronizados com o ritmo da música, erguiam cartões de diferentes cores para, no seu conjunto, formarem a respectiva bandeira.

Organizar os Jogos Olímpicos implica Contudo, muitos dos 100 000 visitantes Mas o número de cozinheiros (300 nos
inevitavelmente a melhoria, a moderniza- dos Jogos de Roma - que chegavam ao Jogos de Tóquio, em 1964, por exemplo,
ção e, por vezes, a alteração do aspecto da Aeroporto de Fiumicino, recentemente recrutados nos melhores hotéis japone-
cidade candidata. construído, ã razão de 6000 por dia — não ses) é grandemente ultrapassado pelo nú-
Para os Jogos de Tóquio, em 1964, foi foram tão felizes. Tiveram de dormir em mero de guias-intérpretes necessários
propositadamente construído um troço conventos, mosteiros e dormitórios de co para os Jogos. Quase 1000 intérpretes, co-
de monocarril entre o Aeroporto Hareda e légios ou acampar nos parques e zonas nhecedores da terminologia desportiva,
o Estádio Nacional, que é o maior troço de verdes da cidade. Instalou-se mesmo um acompanharam os atletas de Tóquio. Nas
monocarril do Mundo. Auio-cstradas, tú- parque de campismo nos jardins da uilla Olimpíadas de Seul, havia 5000 intérpre-
neis e quilómetros de esgotos foram rapi- do imperador Adriano, tia colina do Tivoli. tes. Entre as suas tarefas, incluía-se servi
damente construídos — e 22 artérias prin- Mas as aldeias olímpicas são mais de rem de tradutores para os comités olímpi-
cipais em mau estado foram alargadas e que quartos de dormir e instalações de trei- cos nacionais, para as centenas de diplo
denominadas "estradas olímpicas". no, pois incluem também cabeleireiros, ci- matas e para os mais de 1000 jornalistas.
Houve uma situação parecida em Seul, nemas, discotecas, lojas, estações de cor- Palavam-se mais de 30 línguas, incluindo
onde em 19 meses milhares de hectares de reios, igrejas e sapateiros — que fazem as duas línguas oficiais do COI — francês e
campos de arroz foram transformados bom negócio consertando os sapatos de inglês.
numa minicidade de betão que incluía o corrida dos atletas. Além dos funcionários, quase 30 000
Parque e a Aldeia Olímpica. Construíram- sul-coreanos ofereceram-se para, sem
•se também um novo terminal aéreo, uma 5200 calorias por dia qualquer remuneração, servirem de guias,
estrada de acesso, a Avenida Olímpica, A alimentação dos atletas constitui outra arrumadores e vendedores de bilhetes.
bem como apartamentos e casas para al- grande responsabilidade dos comités or- Um milhar de habitantes que falavam in-
bergar 35 000 atletas, jornalistas - da im- ganizadores. Km Montreal, em 1976, por glês recebia os visitantes estrangeiros no
prensa, rádio e televisão — e funcionários. exemplo, um quadro de 1400 funcionários moderno Aeroporto de Seul - muitos dos
Além destes, 200 000 visitantes tiveram de serviu, durante o período olímpico de 16 quais foram hóspedes destes voluntários
ser alojados em hotéis ou apartamentos. dias, um total de 1135 t de carne, peixe e durante os Jogos.
Os empreiteiros privados aproveitaram a legumes, o que representou uma média O clima desempenha frequentemente
oportunidade para construir 178 blocos de diária de 3,5 kg e 5200 calorias por atida — um papel importante. Em Los Angeles, em
apartamentos de luxo próximo dos dois servidas numa cafeteria aberta 24 horas por 1984. por exemplo, uma ou outra prova
centros olímpicos principais. Os preços de dia e maior que dois campos de futebol. esteve ocasionalmente prestes a não po-
venda dos apartamentos atingiram o equi- K nas Olimpíadas de Los Angeles, em der ser realizada devido ao nevoeiro cerra-
valente a perto de 25 000 contos cada um, 1984, urna equipa de 135 cozinheiros pre- do (smog); e em Helsínquia, na Finlândia,
e os novos proprietários alugaram-nos parou diariamente cerca de 60 000 refei- em 1952 - quando a União Soviética pela
para os Jogos e só depois os foram habitar. ções. Os alimentos frescos eram entregues primeira vez tomou parte nos Jogos —,
O espaço vital era precioso nas Olimpía diariamente por mais de 100 fornecedores teve de contar-se com a ameaça do frio e da
das de Roma, em 1960, quando a Aldeia e incluíam 20 400 kg de carne todos os dias. neve. Por isso, em todos os Jogos Olímpi-
Olímpica foi construída numa área de 30 ha Para os atletas judeus, prepara se comida cos Lima equipa internacional de meteoro-
perto de um meandro do Tibre. Incluía um kosher, e são muçulmanos que se encarre- logistas emite diariamente boletins - que
complexo de apartamentos com 4500 quar gam das cozinhas que fornecem alimen- chegam a 20 por dia. Assim, certas provas
tos destinados a alojar 8000 atletas. tos aos atletas de religião muçulmana. têm de mudar à pressa de horário, em ge-

ti5
ral para evitar que sejam afectadas por tem-
porais, aguaceiros ou granizo.
Igualmente importantes são os "bole-
tins desportivos", ou serviços computori-
Os ingredientes de um filme
zados de resultados, que dão a conhecer as
classificações e os tempos. No Estádio de
de Hollywood: dinheiro, poder,
Tóquio o quadro electrónico de resultados
podia mostrar até 500 caracteres lumino-
conhecimentos e magia
sos simultaneamente. E o instrumento
medidor dos tempos para as corridas esta- As grandes metragens de Hollywood nas- acordos de Hollywood. Com os seus "ele-
va ajustado ao milésimo de segundo. cem no caos da criatividade individual e mentos" - a ideia (ou, por vezes, o argu-
Contudo, por muito bem que os Jogos vivem ou morrem ao capricho do público. mento), um ou dois actores e o realiza-
estejam organizados, há sempre qualquer Só durante a produção, quando o filme dor —, o produtor vende o conjunto a um
coisa que corre mal. está nas mãos dos técnicos, é que existem grande estúdio para obter os fundos (à vol-
Montreal foi um exemplo notório. O Es- regras definidas. ta de 100 000 dólares) para o arranque da
tádio Olímpico principal - em 1976, O processo, no seu todo, decompõe se produção. Conseguida a viabilidade do
a maior estrutura pré fabricada do Mun- nas seguintes fases principais: concepção, acordo, o produtor pode pelo menos co-
do — revelou-se um problema importan- pré-produção, produção e pós-produção. brir as suas despesas - das quais a criação
te. Querelas políticas e a complexidade do ou a compra do argumento é uma das
desenho atrasaram o início da montagem O conceito mais importantes.
dos 11 770 elementos de betão armado do A ideia fundamental, ou conceito, de um Nesta fase, os projectos podem ser apro-
estádio. Depois, três meses de greves sindi- filme provém muitas vezes de um livro, vados, arquivados ou rejeitados pelo estú-
cais, de greves de zelo e de absentismo mas pode ser apenas uma ideia expressa dio, caso em que voltam a ser oferecidos ao
quase fizeram parar os trabalhos. por um título ou pouco mais. mercado. Se o estúdio aprovar o argumen-
Tempestades de neve e temperaturas Diz o autor-realizador Steven Spielberg; to, entra-se na produção. Só então o pro-
baixíssimas - a conjugação vcnto-tempe- "Se urna pessoa consegue iransmitir-nie dutor que recebe grande parte dos ho-
ratura atingiu os 53°C negativos - contri uma ideia em vinte e cinco palavras ou me- norários quando se inicia a rodagem -
buíram também para que o trabalho fosse nos, ela irá dar urn bom filme." começa a fazer dinheiro.
frequentemente interrompido. Alguns dos Geralmente, o conceito é apresentado O argumento-basc mantém o esqueleto
355(1 trabalhadores tiveram de lutar contra por escrito e descreve, em poucas páginas, do filme. Como peça literária, é pouco deu
rajadas de 100 km/h, e pelo menos 12 ho- o enredo, as personagens e o interesse da so — cerca de 135 páginas é mais ou me
mens perderam a vida em acidentes. Por história. nos o habitual -, contendo pouco mais
tudo isso, ainda se colocava relva no está- Certas ideias avançam com espantosa que 0 diálogo e instruções simples para
dio na manhã da cerimónia inaugural. facilidade. Quando, em 1976, Dirio de Lau- sugerir o carácter do filme e o ambiente.
Uma vez terminados os Jogos, começa a rentiis decidiu fazer nova versão do King As imagens apresentadas pelo argu-
tarefa de desmontar as aldeias ou de con- Kong de 1933, deu luz verde ao argumen- mento apenas tomam vida quando lha dá
vertê-las para outros fins proveitosos. Em tista Lorenzo Semple Jr. em 10 minutos. o realizador — a pessoa que escolhe os
Munique, por exemplo, a Aldeia Olímpica Em contrapartida, o escritor W, Goldman ângulos da fotografia, que dirige os actores
estava dividida em dois sectores, urn para recolheu dados para Butch Cassidy and e que dá ao filme a sua forma artística. O
homens, outro para mulheres. O sector dos the Sundance Kid (Dois Homens e Urn argumento, em geral, é grandemente mo-
homens foi vendido ou arrendado para ha- Destino) (1969) durante oito anos antes de dificado uma vez conhecidos o elenco, o
bitação, e o das mulheres é utilizado como começar a escrever o argumento. realizador, o orçamento e os exteriores K,
bloco residencial para estudantes. com frequência, vai-se alterando com as
A montagem dos Jogos é uma tarefa al- Pré-produçáo filmagens até à sua forma definitiva.
tamente dispendiosa — custou 8000 mi- O período de pré-produçáo pode durar Anteriormente, os artistas estavam total
lhões de dólares a dos Jogos Olímpicos de anos, durante os quais se discutem os con- mente dependentes dos estúdios, que uti-
Moscovo, em 1980, e "apenas" 850 mi- tratos e se contactam os artistas e os reali- lizavam contratos de exclusividade para os
lhões a dos de Seul, oito anos depois. Mui- zadores. Seguem-se meses de correcções obrigar àquilo que pretendiam, inclusiva
to do dinheiro provém dos governos inte- do argumento, de procura de exteriores, mente aditamentos ou prorrogações do
ressados e de patrocinadores privados, de de elaboração de orçamentos, de desenho contrato. Hoje em dia, as grandes estrelas
donativos de empresas locais e das contri- dos cenários, de ensaios e de marcações detêm um enorme poder e há sempre uns
buições dos habitantes das cidades. das datas dos transportes e das filmagens. 15 actores importantes que Ioda a gente
A primeira coisa essencial é "o acordo". pretende. Como acarretam enormes ren-
Direitos de televisão Há dezenas de anos, os grandes estúdios dimentos para os filmes, são pagos em
Mas as compensações são igualmente im- cinematográficos, como a Paramount, a conformidade. Robert Redford, que rece-
pressionantes. Os jogos de Seul tiveram MGM e a Twentieth Century-Fox, controla- beu 500 dólares pelo seu primeiro filme,
um lucro recorde de quase 500 milhões de vam as ideias, a produção, os artistas e os Wur Hunt, em 1961, ganhou 100 000 dóla-
dólares — mais do dobro do apurado em orçamentos. Agora, concentram-se no fi- res por dia em A Bridge 7òo Far (lima Pon-
Los Angeles em 1984. A grande parte dos nanciamento e na distribuição, e todos os te Longe Demais) (1977).
ganhos de Seul proveio da venda de direi outros elementos tem de ser coordenados As negociações podem durar meses, com
tos de televisão - só os EUA pagaram 325 pelo acordo. propostas e contrapropostas na casa dos mi-
milhões de dólares. Como investimento, um filme é um lhões. Muitas estrelas dependem da sua pró-
Os Jogos Olímpicos da era moderna ti- jogo. Os que dominam o acesso aos finan- pria imagem e recusam-se a ser contratadas
veram início em Atenas em 1896, quando o ciamentos de filmes — como os agentes e quando consideram que o papel não lhes é
seu fundador, o francês barão Pierre de os managers — adquiriram enorme in- adequado. Robert Redford, Steve McQueen,
Coubertin, criou a máxima "Não para ga- fluência. Os agentes transformam-se fre- Paul Newman, James Caan c Warren Beatty
nhar, mas para participar", que é citada na quentemente em produtores independen- todos recusaram 4 milhões de dólares para
cerimónia de abertura de todos os Jogos. tes, que são as forças por detrás de alguns representar o Superman (1978).

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Os exteriores de "Lord Jlm". A longa metragem Lord Jim, de 1964, foi filmado em cenários exteriores no Extremo Oriente. Vê-se aqui a
estrela do filme. PeterOToole - de boné preto -, por baixo da "girafa" (para captação do som), enquanto a acção se desenrola e a câmara
filma. Atrás, está um grupo de operadores de câmara e técnicos de som. e no topo do escadote, um elemento da equipa de iluminação.

Os realizadores são também parte do gem os milhões. Um dos mais caros filmes conseguira, em colaboração com o presi-
chamado star syslem. Quando George Lu- de todos os tempos foi Cleópatra (1963), dente do pais, James Mancham, que as fil-
cas fez American Gralfiti (Nova Geração) que custou 44 milhões de dólares em 1962 magens fossem nas Seychelles. Mas Man-
em 1973, o seu estúdio, a Universal, descre- e perdeu dinheiro nas bilheteiras. cham foi deposto por um golpe de Estado
veu o filme como "uma desgraça" e quase Depois de os elementos estarem defini- antes de iniciados os trabalhos. De Waay
decidiu não o lançar. Mas Gralfiti foi um dos c o acordo assente cm princípio, redi- decidiu-se finalmente por Belize, na Amé-
êxito e ele aproveitou a sua nova posição gem-se os contratos, operação já de si épi- rica Central. As filmagens realizaram-se, e
para fazer um filme com a Twenlielh Cen- ca. As negociações são tão complicadas o filme foi lançado em 1980.
tury-Fox, A Guerra das Estrelas (1977). que dariam para um livro ou um filme.
Os orçamentos das grandes metragens Mesmo filmes relativamente simples e Produção
são uma constante fonte de fascínio, tanto já definidos podem levar anos a serem Um filme de longa metragem exige um
para os produtores corno para o público. concretizados. The Dogs of V/ar (Cães de pequeno exército de departamentos espe-
Náo há dois iguais. Os custos behtv lhe Guerra), tirado do best seller de Frederick cializados: som, câmaras, iluminação,
Une - os directamente relacionados com Korsyth de 1974, esteve seis anos em pré arte, caracterização, cabeleireiros e guar-
o ofício de fazer filmes, lais como os cená- -produção. Teve dois argumentistas e dois da-roupa, publicidade e argumento.
rios e os técnicos — são calculados a partir produtores antes de John Irvin ser contra- Conforme os filmes, estas especializa-
do argumento. Os custos abone the Une tado como realizador. Um terceiro argu- ções têm a sua importância própria. O de-
- produlor, realizador, arlislas e escritor — mento serviu de base à procura dos locais partamento de design de 2001: Odisseia
são abertos a negociação. Mas ambos atin- para exteriores. O produtor, Larry de Waay, no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, ti-

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nha três delineadores de produção e um urna ocupação perigosa e muito bem metragens lograram dinheiro - o que mos-
cenógrafo-decorador para os cenários. En- paga. Em liighpoint (1984), Dar Robinson tra a inconstância do gosto do público. Os
contros Imediatos do Terceiro Grau (1977) recebeu 100 000 dólares para saltar da Tor- Salteadores da Arca Perdida (1982), um
precisou de 60 projeclores de arco voltaico re CN em Toronto, de 553 m, amortecendo dos filmes com mais êxito de sempre, foi
suspensos 24 m acima do solo. A Esfinge a queda com um "cabo de desaceleração". rejeitado por todos os grandes estúdios,
(1981), de Franklin Schaffner, necessitou Em Steel (Homens de Aço) (1979), A. .1. com excepção da Paramount. A Columbia
de dezenas de morcegos vivos. Bakunas saltou de um edifício de 107 m analisou o ET (O Extraterrestre) (1982),
A realização já foi comparada à guer- para cima de uma enorme almofada de ar; concluiu que não teria público e rejeitou o.
ra - horas de tédio interrompidas de vez a força da queda rebentou a almofada e Porquê? Como escreve William Gold
em quando por momentos de puro terror. Bakunas morreu. man no seu livro Aventuras no Mundo do
A rodagem de uma cena de batalha num Uma questão particularmente contro- Cinema, "o facto mais importante de toda
filme de guerra pode custar milhões. Pro- versa é a filmagem de cenas que provo- a indústria cinematográfica" é:
vavelmente, o orçamento não permitirá a quem danos em animais. Na primeira ver-
repetição da cena, e o realizador pode estar são de Ben Hur (1925) morreram 100 cava- NINGUÉM SABE NADA
obrigado por contraio a pagar as despesas los. Em consequência deste e de excessos ou seja nada daquilo que o público vai
que excedam o referido orçamento. semelhantes, começou a haver um con- querer no ano seguinte. Os cineastas não
Lima grande fonte de stress para o reali- trole mais rigoroso. sabem realmente como se faz um filme de
zador é o facto de muitas das pessoas sob sucesso: sabem apenas que certos filmes
as suas ordens tanto poderem fazer como Pós-produçáo tiveram êxito, e esperam que o futuro seja
destruir o filme, facto esse que é especial- A montagem fase cm que se corta a como o passado.
mente verdadeiro em relação ao operador película para articular os planos e as se-
de imagem. Por exemplo, Apocalypse quências - pode criar ou destruir o filme.
Now (1979), de Francis Ford Coppola, de- As cenas terão sido filmadas de muitas for-
pendia cnicialmente da capacidade de Vit-
torio Storaro em controlar simultânea
mas diferentes para permitir uma escolha o
mais ampla possível. Stanley Kubrick im-
Os riscos e as
mente até 10 câmaras,
O departamento de arte pode ter de re-
pressionou mais de 300 km de película
para The Shining (1980), de que apenas foi
compensações
solver exigências como a de Franklin
Schaffner para A Esfinge: apresentar um
utilizado cerca de 1%. O índice normal dê
aproveitamento situa-se entre os 10 e os 5%.
de pôr em cena
sarcófago egípcio com 800 a 900 peças de
joalharia. O Tubarão, de 1975, exigiu um
Falta ainda acrescentar um elemento uma comédia
fundamental: a música, que só pode ser
tubarão automático com 7,6 m.
Os responsáveis pela escolha de exterio-
escrita quando estiver praticamente com musical
pleta a montagem do filme. Devido aos li-
res têm um papel igualmente vital. Para mites de tempo, o compositor trabalha ha
Apocalypse Now, o Vietname foi recriado bitualmente com assistentes, que lhe preen- A sala obscurece-se, o burburinho cessa e
nas Filipinas; mas as dificuldades inerentes chem os esquemas musicais, escrevendo os espectadores recostam-se nas suas ca-
aumentaram para 31 milhões de dólares o as orquestrações exigidas. deiras. Depois, o pano sobe para uma noi-
orçamento inicial de 13 milhões. A seguir à montagem, entra em acção te de música, luz, danças e canções. Mas o
Após a rodagem, as quantidades imen- outra grande máquina - a promoção —, que é preciso para que uma peça musical
sas de película têm de ser cuidadosamente que engloba a publicidade, as cópias e a chegue a ser apresentada?
reveladas. A perda de uma só das centenas distribuição. Com Alien (O 8." Passageiro) Nenhuma outra forma de espectáculo
de bobinas pode ser fatal para o filme. Por (1979), por exemplo, a Fox despendeu exige uma tão complexa mistura de capa
exemplo, em Agosto de 1978, homens mais de 18 milhões de dólares nos chama cidades de criação e execução Iodas as noi
mascarados roubaram de um estúdio de dos ouerheads - 15 milhões em publici- tes, às vezes durante anos a fio.
Boston 15 bobinas, ainda não montadas, dade e 3 milhões em exemplares do filme- As capacidades e a competência neces-
de The Brinks Job (A Grande Jogada) anúncio para apresentação em mais de sárias para lançar uma peça de teatro do
(1978) e pediram um resgate de 600 000 2000 cinemas. princípio ao fim desde o financiamento
dólares (o resgate não foi pago: o filme foi Só então o filme propriamente dito fica da produção ao ensaio dos artistas - são
montado sem aquelas bobinas e os prejuí- pronto para exibir ao público. Só então o inerentes também à peça musical, mas esta
zos ascenderam a 9 milhões de dólares). exército de pessoas envolvidas na sua fei- tem muito mais dificuldades que lhe são
tura sabem se produziram algo de desas- específicas. Há a música que precisa de ser
Os efeitos especiais e os duplos troso ou pura magia. composta, orquestrada e integrada no en-
Os efeitos especiais constituem um campo Uma das razões pelas quais as negocia- redo. I lá a dança, que tem de ser coreogra-
de trabalho particularmente exigente. Em ções são tão difíceis — e o dinheiro neces- fada. Há o guarda roupa e os cenários, fre-
1966, em One Million Years BC (Quando o sário à preparação do filme pode atingir quentemente mais ricos que numa peça
Mundo Nasceu), o técnico inglês de efeitos montantes tão elevados é os estúdios convencional. É preciso encontrar actores
especiais Les Bowie criou o Mundo em serem notoriamente lentos a pagar aos ar- que saibam dançar e cantar. O próprio tea-
seis dias por 1200 libras, fazendo lava com tistas, aos escritores, aos produtores e aos tro tem de ser espaçoso e de natureza a
papa de aveia. Mas os efeitos especiais de realizadores qualquer parte dos seus lu- acomodar o espectáculo — com boa acús-
hoje em dia requerem alta tecnologia (v. cros. Rccusam-se a declarar lucros, dizen tica e lugar para a orquestra.
p. 406). Em 1988, uma sequência que mos- do que os rendimentos foram para fazer Tudo isto faz das grandes peças musi-
trava asteróides em The Empire Strikes face aos ouerheads. cais a forma mais dispendiosa de produ-
Back (O Império Contra-Alaca) necessi- Um motivo de peso para a mentalidade ção teatral. O Fantasma da Ópera, de An-
tou de 40 captações, algumas delas com 28 dos "sem-lucros" é que os filmes não só drew JJoyd Webber, custou perto de 2 mi-
efeitos ópticos, num total de 100 fragmen- custam muitíssimo e rendem muitíssi lhões de libras a montar em Londres, e o
tos de filme. mo como dão muitíssimo prejuízo, e Ziegfeld, 3,2 milhões. Na Broadway, em
Os duplos são importantes para os pro isto mais vezes do que suscitam ganhos. Na Nova Iorque, o preço inicial de uma peça
dulores de filmes (v. p. 414). Ser duplo é década de 80, só três em cada sete longas musical é de cerca de 7 milhões de dólares.

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Para não perder dinheiro, uma grande Eliot. Olioer, Les Misérables e Man from La trabalhara já para a English National Opera
peça musical deverá ter casas cheias du- Mancha foram adaptados de romances de e a Royal Shakespeare Company.
rante um ano, contra cerca de três meses Dickens, Victor Hugo e Cervantes. Para escrever as leiras das canções, no-
no caso de uma peça de teatro declamado. Com um argumento já existente, os au- mearam um jovem desconhecido, Charles
Mas as compensações pelo êxito podem tores e os compositores têm em mãos um Harl, depois de ouvirem trabalhos seus
ser fenomenais. Cats, de Lloyd Webber, conceito que o produtor pode apreender num concurso. E o diálogo, ou libreto, era
deu 250 milhões de libras em três anos na facilmente, e sabem à partida que o enredo de Lloyd Webber e Richard Slilgoe - que
década de 80. As exibições foram simultâ- já provou ter interesse para o público. também escreveu letras para as canções.
neas em Inglaterra, na América e em mais A génese de O Fantasma da Ópera é um
oito países. O álbum musical vendeu-se exemplo de como as diversas linhas de A atribuição dos papéis
aos milhões, e outras recordações, como evolução de uma peça musical acabam Nas produções importantes, os papéis
T-shirts, contribuíram para os lucros. por juntar-se. O romance original foi escri- principais são atribuídos com um ano ou
0 fracasso pode ser igualmente especta- to pelo jornalista francês Gaston Lcroux mais de antecedência. Os actores princi-
cular, particularmente na Broadway. Car em 1911. Foi adaptado a filme três vezes. pais permanecem geralmente num papel
rie, da Royal Shakespeare Company, fe- Esteve no Thealre Royal de Stratford, Lon- entre seis meses e um ano. Mas igualmente
chou ao fim de uma semana com um pre- dres, como peça do teatro, em 1984, com importante é a existência de um compro-
juízo de 7 milhões de dólares. Até Alan J. música de Verdi e Offenbach. misso por parte de um grande intérprete,
Lerner, cuja My Fair Lady figura entre os Andrew Lloyd Webber lembrou-se de pois torna-se assim mais fácil obter os fun-
espectáculos musicais de maior êxito de fazer uma versão para o West End. Pensou dos indispensáveis para iniciar a produ
sempre, viu o seu Dance a Little Closer sair também aproveitar música já composta, ção. Por esta razão, o produtor lem voz
da cena antes da terceira noite. mas depois decidiu escrevê-la. decisiva sobre quem desempenha os pa-
O projecto encontrava-se ainda em fase péis principais, embora aceite a opinião do
O homem do meio de concepção quando Lloyd Webber con- director.
0 risco e a responsabilidade de montar tactou Cameron Mackintosh e, assim, os Christine, o principal papel feminino de
uma peça musical assentam no produtor. produtores estiveram envolvidos no es- O Fantasma da Ópera, foi escrito por
É ele quem selecciona o espectáculo, ar- pectáculo desde o início. Lloyd Webber para a soprano Sarah
ranja os fundos e superintende a produ- Brightman, que era então sua mulher e
ção. Há dois tipos de produtor - o empre A equipa criativa que não era ainda uma estrela de primeira
sário e o director. Em qualquer produção teatral, o director é grandeza. No entanto, depois de ouvidas
O empresário opera com a sua organi- uma figura-chave: é ele o responsável pela outras artistas, o papel foi lho entregue.
zação de produção própria. Tem ampla li- distribuição dos papéis, pelos aspectos O actor principal, Michael Crawford, era
berdade de levar à cena aquilo que desejar, técnicos e artísticos da produção e pelo um nome muito conhecido em Inglaterra,
onde e quando quiser. As verdadeiras res- ensaio dos artistas e dos técnicos encarre-
trições são de ordem financeira. O empre- gados do som, das luzes e dos cenários. Maqueta. As maquetas de Maria Bjõrnson
sário tem de ser capaz de obter os fundos Lloyd Webber escolheu liai Prince, en para O Fantasma incluíam um dos seus efei-
necessários, e o seu projecto lerá de de- tre cujos êxitos musicais se contam Um tos mais dramáticos - o assassínio de um
monstrar boa promessa de rendimentos Violino no Telhado e Evita, e nomeou ce trabalhador dos bastidores, cujo corpo apa-
para que os financeiros o apoiem. nógrafo-figurinista Maria Bjõrnson, que rece subitamente pendurado sobre o palco.
O director é em geral um empregado no-
meado pela administração de determinado
teatro para as suas próprias produções. O
teatro pode ser privado ou do Estado.
Devido às grandes somas de dinheiro
que implicam, as peças musicais de gran-
de espectáculo são geralmente domínio
dos empresários. Já têm também surgido
formas de co-produção — tanto Cais
como O Fantasma da Ópera foram apre-
sentadas conjuntamente pelo empresário
londrino Cameron Mackintosh e pelo gru-
po de Andrew Lloyd Webber, The Really
Useful Thealre Company.

A escolha do espectáculo
Uma peça musical envolve três linhas de
desenvolvimento separadas - a letra, o
diálogo e a música. Raramente estão todas
prontas quando o produtor começa a to-
mar decisões, porque em geral são criadas
por, pelo menos, três pessoas diferentes.
Para simplificar o problema, muitos es-
pectáculos musicais vão buscar o enredo a
obras existentes sob outra forma. Kiss Me
Kate e West Side Story inspiraram-se em
obras de Shakespeare, My Fair Lady derivou
da peça teatral Pigmalião, de Beniard Shaw,
por sua vez tirada de uma antiga lenda grega.
Cats teve origem em poemas ligeiros de T. S.

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Ao encontro do Feiticeiro. 0
Espantalho, o Leão, o Homem
de Lala e Dorothy ensaiam uma
cena de 0 Feiticeiro cie Oz. No
ensaio geral (em baixo), mar
cham pelo caminho de ladrilhos
amarelos ao encontro do Feiti-
ceiro.

com enorme êxito na comédia musical cobertura são empresas ou particulares, ber e o autor de letras Tim Rice — que traba-
Barnum. que permaneceu muito tempo que investem num espectáculo como po lharam juntos cm Jesus Cristo, Supersíar c
em cena no West End. cliam investir em títulos na Bolsa. Muitos Eoita - foram pioneiros das técnicas de edi-
produtores têm listas de empresas e indiví- tarem discos singles, álbuns e vídeos antes da
A angariação de fundos duos — conhecidos por "anjos" — que estreia da peça - o que lhes pennitiu desper-
Enquanto o director reúne Iodas as com- são potenciais investidores. Os "anjos" não tarem a atenção do público, analisarem a sua
ponentes de uma produção, o produtor começam a ser reembolsados antes de es- reacção e angariarem fundos.
dá os toques finais nas questões financei- tarem pagas as despesas iniciais. Uma das prioridades do produtor será
ras. 0 seu orçamento discrimina todos os Os produtores têm outras formas de obter reservar um teatro e marcar a noite da es-
custos principais. fundos — por exemplo, interessando uma treia. Conforme a natureza do espectáculo,
Algumas despesas são fixadas desde o editora discográfica nos direitos dos álbuns a estreia oficial pode ser daí a um ano ou
princípio — por exemplo, os cenários e o da peça e autorizando o comércio de artigos mais. Alguns produtores fazem uma expe-
guarda-roupa, que serão necessários por com ela relacionados. Andrew Lloyd Web- riência na província antes de trazerem a
todo o tempo que durar a exibição. Outras, peça para um centro importan-
como o ancndamenlo do leatro e os salá- te — para verificarem e corrigi-
rios aos elementos de segunda linha da rem eventuais falhas antes da es-
empresa, são apenas parcialmente fixa- treia de gala. Outros fazem ante-
das - deixarão de constituir custos quan- -estreias perante convidados.
do o espectáculo encerrar. Em qualquer dos casos, todas
Algumas despesas estão ligadas aos ren- estas datas têm de estar previstas
dimentos da produção como percenta- no calendário da produção.
gens fixas. O actor ou actriz principal po- As pessoas ligadas à produção
dem receber um honorário básico durante dividem-se em dois grupos. O
os ensaios, mais talvez uns 20% do rendi- produtor e os seus associados
mento da bilheteira até o espectáculo pa- concentrai n-se nas questões eco-
gar o investimento e 12,5% depois disso. nómicas, incluindo a publicidade
Outros elementos-chave, como o cenó- e os anúncios. Muito do seu esfor-
grafo e o director musical, trabalham com ço dirige-se às vendas adiantadas
percentagens menores — cerca de 2%. O de bilhetes. O Fantasma da ope-
mesmo acontece com os libretistas e o ro, por exemplo, abriu em Nova
compositor. Iorque com uma bilheteira pre-
Quanto menos fundos o produtor ne- viamente garantida de 19 milhões
cessitar de obter de fontes exteriores, tanto de dólares — o que lhe assegura-
mais lucros pode arrecadar. Mas poucos va um êxito financeiro.
empresários desejam tomar os riscos ex- Todos os outros aspectos da
clusivamente sobre os próprios ombros, produção ficam sob o controle
fazendo-o em percentagens que vão dos Coordenadora da produção. Durante a representa- do director. Primeiro, terá de as-
10 aos 70%, seja em dinheiro, seja em ção de O Fantasma da Opera, a directora de cena-adjun segurar-se de que o texto do ar-
garantias pessoais aos financiadores. ta, Anni Partridge, coordena no seu painel electrónico as gumento se encontra próximo
As fontes habituais para o restante da luzes, o som, os panos e os efeitos especiais. da sua forma definitiva. Por

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vezes, fazem-se alterações até à noite da
estreia ou mesmo depois dela.
A música é da responsabilidade do di- A perigosa tarefa
rector musical, que pode montá-la com a
ajuda do compositor, supervisar os arran-
jos para orquestra e prepará-la para o es-
de uma equipa
pectáculo. de socorristas
Simultaneamente, o cenógrafo e o figu-
rinista trabalham nos cenários e no guar- de montanha
da-roupa. Os cenários poderão começar
como maquetas pormenorizadas ou
como desenhos e têm de ser aprovados Aguilhoados por chuvas geladas, chicotea-
nas várias fases pelo produtor e pelo direc- dos por ventos fortíssimos e com pedaços
tor. Com o cenógrafo podem trabalhar al- de neve caindo-lhes em cima de minuto a
guns especialistas — para criarem a ilumi- minuto, dois jovens montanhistas, Philip
nação ou estudarem uma caracterização pe Berclaz e Philippe Héritier, tinham pas-
especial, por exemplo. Um mestre carpin- sado quatro dias encurralados numa mi-
teiro e os seus assistentes trabalharão final- núscula plataforma rochosa a mais de Salvamento por maca. Uma equipa de
mente com o cenógrafo na montagem dos 3000 m de altitude nos Alpes Suíços. salvamento no Bcn Neois - o mais alto
cenários. A chefe do guarda-roupa orienta Os dois Philippes treinavam-se para pico da Grã-Bretanha — salua um monta-
a preparação dos trajes. E um outro técni- guias profissionais de montanha e tinham nhista ferido, descendo o de maca.
co tem a seu cargo a obtenção de artigos, partido, em Agosto de 1975, à escalada da
tais como as mobílias de cena. vertente nordeste, quase vertical, do Piz sível qualquer tentativa de salvamento.
Entretanto, o director começa os seus Badile, montanha que se ergue a 3300 m, Na madrugada do dia seguinte, a briga
trabalhos com o elenco. Tem de assegurar- como uma lâmina gigante, na fronteira da da de socorros aéreos entrou em acção:
-se de que tem substitutos para os primei- Suíça com a Itália. Os montanhistas ti- telefonaram a Beal Perren, chefe da Air Zer-
ros papéis, bem como para os secundá- nham chegado a 150 m do cume quando o matt, um serviço comercial de helicópte-
rios, caso surja alguma emergência. céu se cobriu de nuvens e eles se viram no ros, e contrataram-no para tratar do salva-
moio de uma tempestade de neve. mento. Dentro de minutos, ele e o seu pilo-
0 ensaio dos actores Impossibilitados de prosseguir até ao to, o alemão Siegfried Stangier, voavam os
Os actores começam a familiarizar-se com cume ou de voltar para baixo, desceram 160 km até Piz Badile num potente helicóp-
os textos do argumento. Antes de começa- 40 m pelo cabo até a uma estreita platafor- tero Lama equipado com um guincho.
rem propriamente os ensaios, o director, por ma rochosa sobre um precipício de 670 m Chegaram à montanha em uma hora e
vezes, organiza leituras com toda a compa- a pique. Prenderam-se à face do granito viram os dois montanhistas em apuros,
nhia, indicando a cada um como pretende com cordas e pitões e passaram assim os agarrando se como moscas à parede
ver desempenhado o respectivo papel. Kstas dois primeiros dias sob um frio agonizan- branca da vertente nordeste. Fortes rajadas
leituras podem fazer-se em qualquer local, te. De tempos a tempos, gritavam por so- de vento ameaçavam lançar o helicóptero
mas na fase seguinte, em que os actores se corro, mas o vento desviava os seus gritos. de encontro à montanha. Siegfried Stan-
movimentam segundo as instruções de Na tarde do terceiro dia, o temporal gier não conseguiu chegar tão perto dos
cena, é necessária uma sala de ensaios ou amainou, e os grilos e assobios desespera- dois homens quanto pretendia.
um palco. Como em geral não há cenários, dos foram ouvidos no vale de Bergell. Por isso, largou um cabo com 45 m até à
as posições destes são indicadas no chão A notícia da sua situação foi dada aos plataforma. Na extremidade daquele ia urn
com fitas de cores diversas. Serviços de Socorros Aéreos em Zurique, saco contendo um walkie-talkie, vestuário
Os primeiros ensaios decorrem tanto que se ocupa de salvamentos na monta- quente, termos com chá, carne seca e rebu-
com todo o conjunto da companhia como nha. Caía já a noite e o nevoeiro esconde- çados com vitaminas e os montanhistas em
com alguns actores isolados ou grupos ra o Piz Badile. Nessa noite, seria impos- breve se encontravam em contacto via rádio
que precisem de instruções especiais para com os socorristas.
os seus papéis. O director musical orienta Mas nuvens e ventos
os cantores e os músicos; o coreógrafo, ou atrasaram os trabalhos
mestre de dança, os bailarinos. de salvamento até às 6
Gradualmente, os diversos elementos da tarde, quando as
váo-se conjugando e torna-se essencial condições melhora-
passar ao palco onde irá decorrer a repre- ram subitamente. Só
sentação. Enquanto se montam os cená- podia ser içado um ho-
rios, os trabalhadores do palco vão adqui- mem de cada vez, e
rindo prática na mudança das cenas. En- combinou-se que seria
saiam-se as luzes e os efeitos. As canções, Philippe Berclaz o pri-
as danças e outras passagens especiais meiro. Cuidadosa-
váo-se integrando nos ensaios. mente, Stangier mano-
A fase final — talvez uma semana antes brou o helicóptero até
da primeira representação em público — ê as pás do rotor ficarem
o chamado ensaio geral. Os actores estão a 7,5 m da face do pe-
vestidos e caracterizados, os cenários nos nhasco. Berclaz des
seus lugares e a iluminação pronta a fundo prendeu-se da parede
nar. A orquestra está completa. Resta ape- e agarrou-se com força
nas fazer pequeníssimas alterações antes à volta da cintura de
de o teatro abrir as suas portas e o público e montanha utili- I léritier, que ainda es-
Salvamento de avalanchas. Socorristas de
os críticos dizerem de sua justiça. na neoe. tava seguro à parede de
zum sondas paru hn alizar vítimas soterradas

71
No Monte Branco, por exemplo, equi 150 m do cume do Glyder Favvr. pico com
pas de socorro terrestre participam em 1000 m de altitude. As 9 e meia dessa noite,
mais de 400 salvamentos por ano. o grupo não regressara ainda, pelo que foi
O Monte Branco, o pico mais alto da dado como desaparecido.
Europa Ocidental, cleva-se a quase 4800 m
nas fronteiras da França e da Itália. Atrai "Uma boa botija de água quente"
anualmente mais de 1 milhão de visitantes, Duas brigadas locais de socorros de mon-
muitos dos quais querem trepar até ao tanha partiram para Glyder Fawr, bem
cume. Em 1987, morreram nele 44 pessoas como Philip Benbow, membro da SARDA
e quase 300 ficaram feridas. (Search and Rescue Dog Association -
Quase todas as regiões montanhosas Associação de Buscas e Socorros com
têm o seu serviço de socorros, mas as es Cães). Com .lei, o seu iabrador preto, Ben-
tâncias mais visitadas — os Alpes, as Terras bow lançou-se através da escuridão gela
Altas da Escócia, as Montanhas Rochosas, da. De repente, Jet disparou por uma en
na América do Norte possuem equipas costa íngreme, seguido pelo dono — que
profissionais altamente treinadas, com era guiado por uma luzinha verde na capa
sofisticadas redes de coordenação de ope- do cão,
il
rações. O Jet já ia muito ã minha frente quando
As organizações de socorros de monta- percebi pelo seu ladrar que tinha encon
nha trabalham em conjunto com as forças trado o grupo", disse Benbow mais tarde
amuadas, a polícia local, a Cruz Vermelha e "A mais gelada era a jovem, pelo que a meti
outros serviços médicos e com diversos com Jet num saco cama para a aquecer.
especialistas de salvamentos, como a Os cães têm uma temperatura do corpo
Guarda Costeira e as brigadas de cães. superior à do homem, pelo que são uma
Salvamento tom cães. Cães treinados, Uma equipa de socorros de montanha é boa 'botija'.»
como os pastoresalemães, podem ser des- constituída por um chefe de equipa, ou Benbow contactou pelo seu rádio a
cidos de um helicóptero paru localizarem controlador, que dirige as operações de equipa de socorros de montanha, e em
pessoas perdidas na neve. uma base fora da montanha; por um chefe breve os seus elementos chegavam com
de brigada, que dirige a equipa durante as sacos próprios para aquecer os monta
granito. Héritier agarrou o cabo com os buscas e os socorros, e por tantos elemen- nhistas enregelados. Chegou o dia, e com
dedos dormentes e enregelados e engatou tos quantos os necessários, conforme a or ele um helicóptero da RAF que içou para
o fecho no cinto de segurança do amigo. dem de grandeza do acidente. bordo o grupo — incluindo Benbow e Jet -,
De repente, Berclaz foi levantado ao ar. Os elementos da equipa são quase sem levando o para lugar seguro.
arrastando o amigo para fora da platafor pre peritos montanhistas da zona conhe-
ma. Desamparado, Héritier ficou balou- cedores do terreno e das condições clima Salvamento por cordas. Um monianhis
çando, suspenso do cabo e do pitão. Mas téricas locais. São treinados para trabalhar la nos Alpes SUÍÇOS desce por uma corda
depois, chamando a si as últimas réstias de na neve. no gelo, nas rochas e nas piores para chegar a uma vitima encurralada
força e determinação, conseguiu içar se condições de tempo. Recebem instrução numa fenda do gelo.
novamente para a plataforma. Entretanto, de primeiros socorros, embora as equipas
Berclaz foi conduzido a um abrigo de pe- maiores incluam médicos ou enfermeiros.
dras no planalto por sobre a aldeia de Bon- As comunicações processam-se pela rádio
do, onde auxiliares o guiaram até ao solo. ou por telefones portáteis.
Mais tarde, Héritier, lutando contra o Conforme o terreno e o tempo, a equipa
vento gelado, conseguiu amarrar-se ao pode subir a pé OU com raquetas ou es-
cabo de socorro à quarta tentativa, e, em quis: pode deslocar-se a cavalo ou em
breve, balouçava a caminho da salvação veículos motorizados: pode usar trenós ou
trenós motorizados, ou ser transportada
Os meios terrestres de helicóptero.
Os helicópteros têm demonstrado ser o mé- As equipas de salvamento empregam
todo mais eficaz para localizar as vítimas dos habitualmente cães treinados para locali-
acidentes de montanha e de as transportar zar as vítimas que se perderam c para aju-
— e aos seus salvadores - até lugar seguro A dar a libertar as que se encontram soterra
capacidade de manobra e a velocidade do das por avalanchas. Um cão, com o seu
helicóptero são essenciais no transporte dos olfacto apuradíssimo, consegue fazer bus
feridos graves para o hospital. cas numa determinada área no mesmo
Mas não são a solução perfeita. São ca- tempo que 20 homens levariam a íazê lo.
ros e não conseguem operar com ventos Os cães — em geral, pastores-alemães, la-
muito fortes, neves abundantes e nuvens bradores e collies são ensinai los ri pro
densas — além de que o ruído dos rotores curar qualquer pessoa perdida na área em
pode desencadear avalanchas. São mais questão (os são-bemardos. tradicional-
apropriados para salvamentos alpinos ar- mente associados aos salvamentos aipi
riscados, e não para missões prolongadas nos, são considerados demasiado volu-
e distantes, em que o reabastecimento de mosos para trabalhar em terreno difícil).
combustível pode ser um problema. Em Março de 1985. um grupo de mari-
Por isso se empregam ainda os meios nheiros ingleses, incluindo uma jovem do
terrestres tradicionais no salvamento de Wbmen's Royal Navy Service, fazia monta
pessoas presas nas montanhas ou soterra- nhismo no Pais de Gales quando ficou en-
das por avalanchas, curralado numa plataforma escorregadia a

72
Técnicas de logro
e detecção
Na guerra como na paz, fazem-se esforços incessantes para se
obter vantagem por meio do logro e se descobrir a verdade
escondida sob as aparências.

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Fotografias que mentem, p. 82.

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Como «e escrevem cartas com tinta Invisível, p. 81

Como funciona a camuflagem, p. 76


abateram um U2, com o auxílio de um novo
equipamento de radar pertencente aos
O avião militar "invisível" ao radar mísseis terra-ar SA-2. E, mesmo assim, o U2
não foi directamente atingido: urn míssil
explodiu suficientemente perto para o lan-
Nos finais dos anos 50, por ordem da Central 24 000 m de altitude para se manterem fora çar num mergulho descontrolado, e o pilo
Intelligence Agency, dos Estados Unidos, os do alcance da artilharia antiaérea, mas des to, Gaiy Powers, teve de ejectar-se.
"aviões-espiões" Lockheed U2 começaram a cobriu-se que o radar não os detectava O êxito dos U2 levou a um programa de
sobrevoar a União Soviética para obterem Estes aviões extraordinários, construídos investigação altamente secreto nas EUA - o
informações fotográficas. Os U2 voavam a de plástico e contraplacado, pouco mais Stealth — para a criação de um avião militar
eraiTi do que planadores equipados com indetectável pelo radar.
Bombardeiro "Stealth". Tinia absorven- motores a jacto. A descolagem, largavam as O U2 levou tanto tempo a ser detectado
te do sinal de radar aplicada TtO bordo de pequenas rodas estabilizadoras que se pro- por ser construído com materiais não-mela
ataque do bombardeiro americano de jectavam das extremidades das asas - e ater- licos que absorvem os sinas de radar, cm vez
grande altitude B-2 Stealth permite torna lo ravam com o trem principal de rodas retrác- de os reflectirem para as estações de radar em
praticamente invisível ao radar inimigo. As teis que tinham a meio da fuselagem. terra, como normalmente acontece.
suas asas em leque não reflectem pratica- Só cm Maio de 1960, depois de mais de O programa Stealth tinha como objecti
mente os sinais de radar. quatro anos de sobrevoos, é que os Russos vo a criação de aviões militares incor-
porando, entre outras vantagens, um Para ajudar a conseguir a invisibilidade no criar uma confusão nos écrans tios radares.
mínimo <le metais e um revestimento exte- radar, o bordo de ataque do avião era revesti- No entanto, os sistemas de defesa ao nível do
rior em placas altamente absorventes. Os do com uma tinta absorvente dos sinais emi- .solo mais recentes e sofisticados conse-
aviões seriam quase invisíveis pelo radar, tor- tidos pelo radar. guem distinguir entre essa confusão de ecos
nando obsoleta a maioria dos sistemas an- Uma tecnologia semelhante c utilizada de- e os aviões inimigos. Além disso, essa coníu
tiaéreos controlados por radar. baixo de água para evitar a detecção por sonar. são pode ser parcialmente evitada pelo em-
Os submarinos modernos são cobertos com prego de sistemas de radar montados em
Alvos-chave uma espessa camada de uma resina altamente aviões e que detectam outros voando abai
Desenvolvido no maior segredo, o bombar- secreta, que absorve eficazmente os sons e xo deles.
deiro B-2 Slealth, de alta tecnologia, foi reve- apenas reflecte uma parte ínfima da energia
lado a convidados e jornalistas na fábrica de transmitida pelos detectores de sonar. "Blackbird". A
montagem da empresa Northrop, em Palm- forma do avião es
dale, Califórnia, em Novembro de 1988. A A "confusão" no radar pião americano
assistência foi mantida a distância deste Outra técnica usada pelos aviões para evita- SR71, utilizado nos
avião, criado para penetrar nas defesas de rem ser detectados pelo radar é voarem a anos 60, foi de
radar inimigas sem ser detectado, largando altitudes muito baixas, onde existe uma pois aproveita-
depois até 16 bombas nucleares sobre alvos grande quantidade de ecos de radar emiti da e melhora
•chave. dos por edifícios e outros objectos que vão da no Slealth
Camuflagem: como se esconde um navio de guerra?
Durante a Guerra de Independência Ame
rieana, nos finais do século xvm, alguns re-
gimentos ingleses começaram a usar casa-
cos de pele de gamo em vez das tradicio-
nais casacas vermelhas. Tinham descober
to que o vermelho constituía um bom alvo
para os atiradores americanos, ao passo
que o pardo da pele de gamo não era facil-
mente visível.
0 emprego deste género de camufla
gem foi aperfeiçoado durante a Guerra do
Afeganistão (1880). Adoptou se o uso ge-
neralizado de uma cor conhecida por ca-
qui (que significa pó na língua urduj, a fim
de tornar os movimentos de tropas menos
visíveis para os nativos. Os veteranos das
lutas na índia - que, utilizando chá, ti-
nham tingido de castanho os seus capace-
tes brancos sabiam que o não ser visto
era uni faclor-chave para a sobrevivência. Operação encandeamento. As riscas traçadas no casco deste torpedeiro americano duo a
Quando, em 1914, rebentou a I Guerra ilusão de o barco ter várias proas. Foram pintadas durante a II Guerra Mundial para enganar
Mundial, as cores neutras como o caqui e o o inimigo quanto ao verdadeiro rumo do navio.
cinzento tomaram-se as cores habituais
dos fardamentos, permitindo aos solda cobertura vegetal para se es- cimentos a um ponto de con-
dos de ambos os lados confundirem-se conderem da aviação centração de blinda
com o ambiente de combate. Mesmo as F.ste artifício teve dos. A linha possuía
sim, o emprego de aviões de reconheci- tanto êxito que a inclusivamente um
mento deixou as tropas no solo perigosa divisão se tor comboio falso,
mente expostas. Por isso se introduziram nou indistinta completo com
pouco a pouco as redes de camuflagem e a da paisagem furgões e va-
pintura de riscas nos equipamentos. que a rodea- gões de carga
Durante urnas manobras militares na va A ideia de e uma loco
Salisbury Plain, o comandante de uma di- uma unidade motiva con-
visão do exército inglês - um sobreviven- inteira se po- vincente, com
te da Guerra dos Bóeres — disse aos seus der "diluir" na um velho fogão
homens para atarem ramos com folhas p a i s a g e m foi de campanha fu-
aos capacetes, disfarçarem os veículos c o n s i d e r a d a de megando por uma
com redes pardacentas e aproveitarem a tanto interesse pelos lamine de cartão.
comandos militares Este logro desviava a
Ilusão no deserto. Pintado para se confun- que a camuflagem atenção do posto de
dir com o terreno e não ser visto do alto, um passou a ser gradual- abastecimentos verda-
Messerschmitt Rf 109E alemão faz um voo mente aceite como uma deiro, utilizado para
rasante sobre o deserto da Líbia em 1941. arma importante nos ar- apoiar a ofensiva do gene-
Disfarce natural. O tigre é qua-
senais modernos. ral Auchinleck contra Tb
se invisível para a sua presa
Durante a 11 Guerra quando as suas riscas se confun- bruk em Novembro de
Mundial, a camuflagem dem com O capim fulvo e alto. É 1911. As suas forças mais
foi largamente emprega uma lição sobre a arte da camu importantes e os respecti
da como técnica de disfar- ttagem. vos depostos de combus
ce. Corno na I Guerra tive! estavam tão liem es-
Mundial, as instalações vulneráveis, como condidos que o inimigo nunca os encontrou.
depósitos de combustíveis e paióis de muni- A camuflagem é também utilizada para
ções, eram cobertas com redes para que, tornar menos visíveis aviões c navios.
pelo menos do ar, se confundissem com o Quando a parte inferior de um bombar-
ambiente. Mais afastadas, colocavam se deli- deiro é pintada de azul-claro, confunde-se
beradamente negaças para atraírem o fogo com o céu durante o dia; se pintada de
inimigo. Zonas de água como os canais, utili preto, confunde-se com o céu durante a
zados pelos navegadores dos bombardeiras noite. Alguns aviões são pintados por cima
como pontos de referência durante a noite, para se confundirem com o solo quando
eram regadas com pó de carvão para evitar vistos do alto. Da mesma forma, o perfil
que brilhassem ao luar. Durante a campanha beiíi conhecido de um barco de guerra
do Norte de África de 1940-1943, construiu- pode ser distorcido com pinturas hábeis
-se uma linha de caminho de ferro fictícia que lhe reduzem a silhueta e lhe dão até
JX y + para dar a ideia de um novo ramal de abaste um aspecto menos ameaçador, talvez o de

76
Atirador camuflado. Coberto por folhagem artificial, um atirador
do Carpo de Fuzileiros Americano rasteja pelo mulo ulé uo seu alvo.
escapando se depois sem ser tíiStO. Na Escola de Atiradores, os
irtstruendos são ensinados a confundirem-se com o fundo ambien-
te por forma semelhante à de muitos animais

um cargueiro inofensivo. Uma onda de


proa pintada no casco de um navio de
guerra pode enganar o comandante do
um submarino quanto à velocidade do seu
«Scramblers» de voz: o envio
alvo, e uma linha de água falsa pode fazer
errar o cálculo da distância.
de palavras ininteligíveis através
As técnicas de camuflagem têm igual
mente sido utilizadas para confundir o re-
de uma linha de telefones públicos
conhecimento aéreo. Duranle a campa
nha das Malvinas, em l!>82. os comandos Quando um funcionário governamental que tinham de trocar informações melin-
britânicos foram avisados de que as forças pretende fazer um telefonema confiden- drosas através de linhas telefónicas que po-
argentinas sitiadas não podiam ser reabas- cial para, por exemplo, uma embaixada deriam estar sob escuta inimiga. Actual-
tecidas porque o único aeroporlo de Por! no estrangeiro, serve-se de um scrambler mente, mais fáceis do obter, são frequente
Stanley fora danificado pelas bombas da de voz. Ao percorrer a linha entre os dois mente utilizadas por empresários interna-
RAF. As fotografias de reconhecimento telefones, a conversa não passa de um ruí cionais desejosos de proteger de concor-
mostravam o que parecia ser uma funda do ininteligível para alguém que efective rentes sem escrúpulos os seus segredos
cratera atravessando a pista principal. uma escuta. comerciais. A tecnologia moderna reduziu
Na realidade, todos os dias até à rendição Na sua maioria, os scramblers são dis- as dimensões desses aparelhos às de uma
aterraram ali, a coberto da noite, aviões ar- positivos electrónicos de cifra que mistu- caixa de fósforos.
gentinos carregados. Só mais tarde se desco- ram e invertem as frequências da voz huma-
briu que todas as manhãs um grupo de recru- na, tornando-a ininteligível. Outros escon Dispositivo duplo
tas, equipados apenas com pás e carros de dom a voz no meio de um fundo de ruído Os scramblers são constituídos por duas
mão, deixava na pista um monte de terra contínuo. unidades, um emissor e um receptor. O
circular. Visto do ar, osso monto do torra pare Km tempos, os scramblers apenas eram primeiro converte a voz do quem fala numa
cia a cratera do uma bomba. fornecidos aos altos comandos militares versão incompreensível e envia a através

77
de uma linha telefónica normal. O recep- das de frequência, que depois são mistura- escutas competentes, pois as conversas
tor inverte o processo para que a fala seja das por meio de um complicado processo podem acabar por ser descodificadas. Mas
inteligível na outra extremidade do fio. Os electrónico que as desloca e inverte. Ern o método é demasiado moroso, exigindo
aparelhos de escuta colocados na linha teoria, existem cerca de 3840 combina- o emprego de processadores de dados es-
captam um ruído distorcido que mal se ções possíveis, mas os misturadores nor- pecialmente programados e de operado-
reconhece como fala humana. mais utilizam 512 permutações. res extremamente bem preparados, pelo
A maior parte dos scramblers funciona Os scramblers de voz não são de uma que os misturadores proporcionam real
cortando o espectro da voz em cinco ban- segurança absoluta no caso de técnicos de mente uma protecção de curto prazo.

Como se transmitem segredos por códigos e cifras


Na véspera do ataque japonês a Pearl Har- Bloco para uma só
bor, em Dezembro de 1941, uma previsão vez. Os espiões usam
meteorológica aparentemente inocente, minúsculos blocos de
"Quadrante leste chuvoso, quadrante nor- cifras para descodificar
te nublado, quadrante oeste limpo", avi- as mensagens secretas
sou os diplomatas japoneses em todo o dos seus chefes. As
Mundo de que a guerra estava iminente. instruções em código
Esta mensagem era uma das mais sim- transmitidas pela rádio
ples formas de código — uma mensagem referem se a gnjfx>s de
preestabelecida com um significado espe- números de cinco
cial para aqueles que a recebessem. algarismos de uma
Mensagens semelhantes foram transmiti página determinada
das pela BBC para a Resistência Francesa do bloco. Uma vez
durante a II Guerra Mundial. Os primeiros recebida e
versos de um poema de Paul Verlaine ("Os descodificada a
longos soluços dos violinos do Outono") in mensagem, o recebedor
formaram a Resistência de que os desembar- e o emissário rasgam a
ques do Dia D iriam começar. página correspondente
Códigos mais complexos substituem dos respectivos blocos.
palavras ou frases por outras palavras ou
frases. Ou podem utilizar-se grupos de le escrita numa grelha
trás desconexas para criar todo um dicio- de, por exemplo, seis
nário de palavras e frases. Longos relato colunas, escrevendo-a
rios militares podem ser transmitidos em alternadamente cia es
grupos de cinco letras - apenas inteligí- querda para a direita e
veis para aqueles que possam verificá-los da direita para a es-
no livro de código adequado. querda. As letras vol-
No entanto, se um livro de código cai tam depois a ser escri-
nas mãos do inimigo, informações vitais tas em grupos de cin-
podem ser interceptadas sem conheci- co, seguindo um per-
mento daquele que as emitiu. Na I Guerra curso em diagonal ao longo da grelha: cadas, utilizando letras e números.
Mundial, o livro de código naval alemão foi Durante a II Guerra Mundial, o Governo
recuperado do cruzador ligeiro Magde- T R O P A S T R O P A S Alemão utilizou uma máquina de cifra de-
burg, que fora afundado. Em consequên- G I M I N I G i M I N 1 nominada Enigma. Por muitas vezes que
cia disto, muitas das instruções mais me- A S E M B A A S E M B A fosse marcada determinada letra, a letra
lindrosas da Esquadra Alemã de Alto Mar O N M A C R O N M A C R que lhe correspondia na cifra nunca era
foram lidas pelos Ingleses. Mesmo deixjis de S Á B A D O S Á B A D O repetida. Todos os dias era estabelecida
o Almirantado Alemão ter descoberto a sua uma grelha diferente, segundo um calen-
perda, demorou semanas até dotar cada na- Assim, o criptograma a transmitir será: dário conhecido apenas dos Alemães.
vio germânico com um novo código. SA1AN POIBR OCMMR TIEAD Mas uma equipa de matemáticos e lin-
Um outro método de se transmitirem in- AMSGA NBAOS. guistas ingleses acabou por deslindar as
formações secretas é por meio de cifras. Uma A pessoa que o recebe utiliza uma chave cifras da Enigma em 1940. O seu trabalho
cifra substitui as letras do alfabeto por outras semelhante para o decifrar. desempenhou um papel importante na vi-
letras, números ou símbolos. O alfabeto Mor- Um ponto fraco deste sistema é o facto tória ao fornecer ao Quartel General Alia-
se é, na realidade, uma cifra que traduz as de a frequência das letras e das combina- do informações sempre actualizadas so-
letras por combinações de sinais breves e ções de letras ser a mesma que na lingua- bre os planos alemães para a campanha
longos que podem ser transmitidas por gem normal. O A, por exemplo, c a letra do Norte de África e a guerra aérea.
"bips" de rádio, por telégrafo ou por lâmpa- mais usada na língua portuguesa. Por isso, Com o advento dos computadores, os
das de sinais. A letra E, por exemplo, é um alguém que queira quebrar a cifra pode códigos têm se tomado muito mais com-
único ponto, enquanto o Q é representado partir do princípio de que a letra que ocor- plicados e difíceis de decifrar. Os seus pro-
por traço traço-ponto-traço ( ). re mais frequentemente representa um A, gramas complexos utilizam milhares de
Outra forma de cifra utiliza uma grelha e assim sucessivamente. cálculos, e sem se conhecer a sequência
denominada chave. A mensagem "Tropas Por isso, têm sido criadas pelos ma- das respectivas instruções levariam milha
inimigas embarcam no sábado" pode ser temáticos cifras imensamente compli- res de anos a descodificar.

78
Philby nos Serviços Secretos (MHi) e Blunt Em 1951, quando procurava emprego,
no Serviço de Contra-Espionagem (MI5). aceitou trabalhar para os Serviços Secretos
O mundo Uma vez instalados nas organizações
que escolheram, os quatro homens pro-
Soviéticos (posteriormente. KGB) por um
salário de 1500 marcos mensais. Simulta-
subterrâneo grediram até aos mais sensíveis níveis go-
vernamentais, ganhando acesso as infor-
neamente, foi admitido na Agência federal
de Informação. Durante a década seguinte
das "toupeiras" mações mais secretas. trabalhou como agente duplo, fornecen-
do aos Alemães "desinformação-' sobre o
Maclean, Burgess c Philby fugiram para
Moscovo, onde acabaram por morrer. KGB e, em troca, dando a este informações
Em Novembro de 1979, a primeira-minis- Blunt fez uma confissão completa aos Ser- acerca da rede de espionagem alemã para
tra britânica, Margaret Thatcher, anunciou viços de Segurança Ingleses e não foi pro lá da Cortina de Ferro
à Câmara dos Comuns que um dos ho- cessado. Morreu em 1983. Finalmente, tornou se suspeito quando
mens mais respeitados no mundo da arte Uma toupeira que espiou contra o seu comprou uma casa demasiado cara para
inglês, Sir Anlhony Blunt, conservador dos próprio país, unicamente por dinheiro, foi quem vivia de um único salário. Quando
quadros da rainha, linha trabalhado como Heinz Felfe, antigo oficial das SS alemãs, foi preso, em 1961, descobriu-se que as
espião a favor dos Russos. que atingiu uma posição de relevo na suas actividades tinham custado aos Ale-
Blunt tomara se comunista nos anos 30 Agência Federal de Informação da Alema- mães Ocidentais 94 contactos para lá da
e trabalhara para os Serviços de Segurança nha Ocidental durante os anos 50. Cortina de Ferro, incluindo 46 agentes em
Britânicos (MIS) durante a II Guerra, trans- actividade. Km 1963,
mitindo segredos a Moscovo, Em 1951, aju- Família de e s p i õ e s . Du Felfe foi condenado a 14
dara dois outros espiões ingleses, Guy Bur- rante 17 anos, John Wal- anos de prisão.
gess e Donald Maclean, a fugirem para a ker (d(j barba), antigo ofi O u t r o espião q u e
Rússia quando se tornaram suspeitos. ciai da Marinha America operou nos EUA ate
Blunt era um exemplo do tipo de espião na. espiou para os Rus- meados dos anos 80 foi
conhecido por "toupeira" — agentes pre sos. Em 1986, foi condena John Walker, antigo of
parados para esperarem anos, construin- do a prisão perpétua por ciai da Marinha. Os seus
do a sua cobertura, até conseguirem aces- dirigir uma associação fa- chefes russos pagavam-
so a informações vitais. miliar de espionagem. -Ihe 1000 dólares por se
Contrariamente ao espião mais conven mana para que dirigisse
cional, recrutado pelo seu próprio país uma associação fami-
para desempenhar determinada missão iar de e s p i o n a g e m ,
no estrangeiro, a toupeira é habitualmente
alguém que, por motivos ideológicos, de- Traidor. Quando pri
cidiu trabalhar para uma causa alheia, To- meiro-secretário na Em-
mada essa decisão, consegue infiltrar-.se baixada Britânica nos
numa posição em que produz os maiores EUA. Maclean (de laço)
estragos - e durante todo esse tempo age forneceu à URSS segre-
como se se tratasse de um patriota. dos americanos.
Algumas toupeiras são recrutadas por
especialistas dos serviços de informação.
Outras "recrutam-se" a si próprias, ofere-
cendo os seus préstimos.
0 caso mais famoso desde a II Guerra
Mundial é talvez o dos quatro espiões in-
gleses Blunt, Burgess, Maclean e Kim
Philby, que decidiram, quando frequenta-
vam ainda a Universidade de Cambridge
nos anos 30, trabalhar secretamente para a
União Soviética.
Começaram por ser recomendados por
"caçadores de talentos", que passaram
cada um deles a um especialista dos Servi
ços Secretos Soviéticos, o qual lhes ensi-
nou os rudimentos da espionagem e lhes
recomendou que desistissem da sua filia-
ção em grupos políticos radicais: tinham
de tornar-se tanto quanto possível agradá-
veis aos olhos das organizações oficiais.
Cada um deles cultivou deliberadamen
te amizades com pessoas em posições de
influência que, em sua opinião, pudessem
ajuda los a encontrar um emprego útil.
Burgess e Maclean conseguiram ser admi-
tidos no Ministério dos Estrangeiros,

Falsa i m a g e m . Anlhony filnnl COflSer-


oador dos quadros da rainha e espião
enganou todos com a sua posição social.

79
ricanos de origem polaca, eram um casal Blunl fora nomeado conservador dos qua-
deste tipo. Aparentemente, ele era negocian dros da rainha no Palácio de Buckingham
te de livros antigos que, com a mulher, levava e recebera o título de sir.
uma vida confortável em Ruislip. na zona Algumas toupeiras recebem um peno
oeste de Ixtndres. Na verdade, eles operavam do de instrução antes de entrarem em ac-
com um emissor clandestino de rádio ligado ção. Em Camp Peary, na Virgínia, a CIA
ao KGB em Moscovo até serem presos. Rena opera uma grande base de instrução sob o
te e Lothar l.ut/e eram toupeiras alemãs disfarce de instalações militares; os France-
orientais actuando na Alemanha Ocidental ses mantêm uma escola numa região iso
até serem presos lada dos Alpes Marítimos, no Sueste do
Nascida em Brandeburgo, Alemanha país, e o KGB possui centros de treino per
Oriental, em 1940, Renate Ubclacker — seu to de Leninegrado.
nome de solteira arranjou lugar corno Mas ás vezes a toupeira não lem possibi-
secretária no Ministério da Defesa da Ale- lidade de ser treinada e pode ter de apren
manha federal em Bona o seu trabalho der as técnicas fundamentais enquanto vai
implicava lidar com documentos altamen- actuando.
te secretos, incluindo planos da NATO. Em Oleg Penkovsky, um tenente-coronel
Setembro de 1972. casou com Lothar Lutze, russo, ofereceu se aos Ingleses, como es
nessa altura espião por conta do Ministério pião, em 1960. Quando, no ano seguinte,
para a Segurança do listado na Alemanha fez parte de uma missão comercial soviéti
Livre e sorridente. A secretária e espia ale- Oriental. Renate conseguiu arranjar-lhe ca em uma das raras visitas ao Ocidente,
mã Renate Lutze na época em que operava um emprego no Ministério da Defesa. ensinaram-no a utilizar uma câmara mi-
para os Alemães Orientais. Desmascarada e. Durante os quatro anos seguintes, o ca- niatura e deram lhe noções sobre sistemas
detida em 1976, seria libertada em 1981. sal forneceu informações vitais aos Ale- criptográficos. Em vez de se escapar do seu
mães Orientais, controlados pelos Soviéti- grupo, Penkovsky fingiu simplesmente
composta por seu irmão Artliur, graduado cos. Foram desmascarados e presos cm que queria deitar-se cedo. Sucedeu que os
da Marinha na reforma, e seu filho Michael, Junho de 1976. Depois de passar três anos Ingleses e os Americanos tinham alugado
marinheiro a bordo do porta-aviões USS em prisão preventiva, Renate Lutze foi con- todo o andar por cima do quarto do hotel
Nimitz. As suas actividades permitiram aos denada a seis anos por espionagem, e o de Londres onde Penkovsky se alojava e
Soviéticos decifrar inúmeras comunica marido, a 12 anos. Ela foi libertada em Se- nele haviam instalado o equipamento ne
ções altamente secretas e receber mais de tembro de 1981. cessário para as sessões de treino. Tudo
1500 documentos secretos. As toupeiras mais eficientes são aquelas funcionou perfeitamente, c, quando re-
Um tipo de toupeira diferente é aquele de quem ninguém suspeitaria. Burgess gressou a Moscovo, Penkovsky era já um
que entra num país estrangeiro com do- fora educado em Elon; o pai de Maclean agente conhecedor do seu ofício.
cumentos falsos e se infiltra profundamente fora ministro do Estado; Philby entrara Mas a sua carreira de espião foi curta; o
no tecido da sua sociedade adoptiva. para o M16 vindo do jornal The Times, e, na KGB prendeu o no ano seguinte e conde
Peter e I lelen Kroger, cidadãos norte-ame- altura em que foi descoberto. Anthony nou-o à morte.

Dispositivos de escuta: ouvir sem ser visto


Actualmente, nenhuma conversa no escri- geral, utiliza se um cabo existente, como todos OS sons na divisão do outro lado.
tório ou em casa está a salvo das escutas. uma linha telefónica desocupada, para a A instalação de um dispositivo de escuta
Estas concretizam-se geralmente pela ins- transmissão das vozes. numa divisão é difícil se os respectivos oeu
talação disfarçada numa divisão de um mi Uma das razões pelas quais os edifícios pantes souberem que poderão ser espia-
croíone pequeno mas sensível. diplomáticos são tão apertadamente vigia dos. Por esse motivo, começaram a explo-
Um tipo de dispositivo de escuta utiliza dos durante a construção é o receio de que rar-se as capacidades do laser. Foca se um
um transmissor de rádio de baixa potência uma agência de espionagem estrangeira raio de laser sobre o vidro de uma janela.
ligado a um microfone para enviar os si- consiga incorporar na estrutura tubos para Quando ocorre uma conversa uo interior
nais desle a um receptor a alguns metros passagem de cabos. Assim aconteceu em da sala, o vidro vibra com as ondas sonoras
de distância. Noutro tipo, a ligação do mi Moscovo em 1987. quando se descobriu das vozes, e estes movimentos microscó-
crofone ao receptor é feita por um cabo. que as vigas de aço fornecidas para a cons- picos podem ser detectados medindo as
Embora o sistema dotado de cabo exija trução da Embaixada dos EUA eram ocas. minúsculas variações no comprimento do
que este seja cuidadosamente escondido, Quando não se consegue acesso a raio de laser fixo. Estas informações são
ele tem a vantagem de não emitir sinais de uma divisão, pode colocar se no exterior depois reconvertidas electronicamente
rádio, facilmente detectáveis. E a maioria de uma das paredes um estetoscópio, em versão inteligível.
das salas ou dos gabinetes já tem tantos fios que consiste num simples microfone Existe ainda um dispositivo sem fios que é
instalados que mais um passará desperee preso por uma ventosa à parede e ligado talvez o dispositivo ideal, pois não necessita
bido. O microfone pode ser disfarçado sob a um amplificador ou furar-se a parede a de pilhas nem de manutenção. Consiste
a forma de um artigo vulgar, como uma partir do exterior com um furo que na numa cápsula com cerca de 25 mm de largu-
lâmpada, uma televisão ou um telefone. parte interior não seja maior que um ra contendo uma antena muito sensível e um
Desde que um posto de escuta possa ser bico de alfinete. Neste orifício coloca-sc diafragma. E activado por um sinal de rádio
instalado dentro de um raio razoável um tubo com um microfone ligado a um Que lhe é dirigido do exterior; a cápsula trans
cerca de 1.500 m , todas as palavras gravador no exterior. Este sistema tem forma-se então num transmissor de rádio
pronunciadas no compartimento sob ob- uma variante que apenas penetra parte que capta os sons da divisão, permitindo que
servação serão transmitidas por fios. Em da parede, mas. apesar disso, capta se ouçam as conversas.

80
era uma solução rie nitrato rie chumbo e
água, e o reagente, uma pequena quanti
Tintas invisíveis para mensagens dade de sulfureto rie sódio dissolvido em
água. 0 resultado é uma tinta negra.

Uma forma moderna da tinta invisível é um espionagem em Inglaterra. Desde 1975,


tipo especial de papel químico. 0 espião transmitira cerca de 200 mensagens secre-
coloca o papel químico sobre outra folha tas aos seus chefes em Praga — muitas em
tinta invisível. As informações incluíam da
A procura da
de papel e escreve a sua mensagem. A es
crita é transferida para O papel rie baixo,
mas só é revelada depois de tratada quimi-
dos sobre firmas britânicas que trabalha-
vam para o sistema defensivo americano
droga da verdade
camente. É assim possível transmitir men-
sagens pelo correio, "escritas", por exem-
Guerra rias Estrelas. perfeita
A maioria das tintas invisíveis químicas
plo, nas páginas de uma revista. precisa de um segundo líquido — o cha
Este processo foi utilizado pelo espião mado reagente para as tornar visíveis. O objectivo de uma droga da verdade é
checoslovaco F.rwin van Haarlem, que em Uma das tintas mais vulgares é o sulfato rie descontrair o espírito rie uma pessoa para
1989 foi condenado a 10 anos de prisão por cobre diluído em água. Quando o papel é que esta forneça respostas verdadeiras a
depois imerso numa solução fraca de car- todas as perguntas que lhe façam - mes-
Palavras aquecidas. Quando este recibo Donato de sódio e água ou de amoníaco e mo que isso signifique trair o seu pais.
de uma consignação de arroz foi aquecido, água, a escrita aparece a azul. Os estudos sobre as chamadas drogas
surgiu uma mensagem secreta escrita com Uma tinta química particularmente sen- da verdade iniciaram se no princípio da
sumo de limão. A mensagem, em letra miú- sível usada pelos espiões alemães durante década de 50, na sequência rie relatos acer-
da, relata as actividades dos realistas em a II Guerra Mundial empregava produtos ca rie processos de interrogatórios com
Paris durante a Revolução Francesa. químicos utilizados em fotografia. A tinta "lavagem ao cérebro" levados a cabo pelos
Norte Coreanos e pelos Chineses em pri-
i9 :/«'*•< t/o sioneiros de guerra. A Força Aérea rios F.UA
l?
':/'•
» // ?/i( •/<%' V> ' c-ru ""?: encetou um projecto de procura de um
"soro da verdade" para que os pilotos ame-
ricanos pudessem tomá-lo e treinarem se
a resistir às lavagens ao cérebro.
Fizeram-se experiências com barbitúri-
cos, anfetaminas, álcool e heroína, mas a
maioria destas drogas limitou se a ajudar
as pessoas a mentir com mais habilidade.

Processos de depuração
O medo das técnicas rie controle da mente
manifestara-se pela primeira vez aquando
dos célebres processos rie depuração de
José Estaline na União Soviética e nos pai'
/f,r(c i , , , j ^ ses do Bloco de Leste durante as décadas
de 30 e 40. Os réus apareciam em tribunal
em estado de aparente confusão, de olhos
/ • • ' /
vidrados, confessando crimes que não ti
r/irtht\ , 1 7f<~ > ' foè nham hipótese de ter cometido.
O penlolal rie sódio, barbitúrico usado
pelos anestesistas para descontrair os
doentes antes de uma operação, é frequen-
* ' temente designado por soro da verdade.
Neste contexto, é utilizado para promover
a criação de um estado rie desorientação
no qual a percepção rio ambiente por parte
do indivíduo pode ser manipulada.
AdminiStra-se uma dose potente da dro-
ga, que toma a pessoa inconsciente. Dá se
-lhe depois uma injecção do estimulante
benzedlina para a reanimar, mas apenas
parcialmente. Com a pessoa semieons
ciente, um psiquiatra pode empregar téc-
nicas hipnóticas para modificar a sua per
cepção daquilo que se passa em seu redor.
Quando este método foi utilizado num
soviético suspeito de espionagem na Ale
V
manha Ocidental em 1955, a sua mente foi
reconduziria a uma fase em que ele pensa-
va estar a falar com a mulher em casa, o
que o fez ciar, sem constrangimento, uni
relato rias suas actividades secretas.

BI
Como as câmaras fotográficas podem enganar a visão
Desde o dia em que as pessoas aprenderam "Fotografias" de espíritos dos mortos, Quando se desconhece o modo como
a fotografar e a revelar as suas fotografias, de objectos e pessoas em levitação, de ov- as fotografias acontecem, é mais fácil acre-
aprenderam também a falsificá-las. Quan- nis e até de fadas têm enganado, ainda que ditarmos ou fazermos crer que tudo o que
do se viu pela primeira vez numa chapa temporariamente, tanto os leigos como os se vê nas imagens pode ter acontecido.
fotográfica uma exposição dupla - prova- peritos. Com a fotografia cada vez mais na era
velmente acidental —, ficou demonstrada Os fotógrafos sabem que podem fazer a dos computadores, mais sofisticadas se
a possibilidade de se adicionarem imagens fotografia de um objecto e sobrepor-lhe têm tornado as técnicas para fazerem as
sobre imagens. outro, expondo de novo a mesma película. câmaras fotográficas "mentirem".
Fotografia
do céu

ti*

Aviáo em
t* -
miniatura

Klk • tf

^%5&

Paisagem

Vedação em
primeiro plano
gulos ligeiramente diferentes, sobrepostas Na última fase, o céu e os jactos, as figu-
Seis fotografias numa só à fotografia do céu e colocadas com esta ras e o campo, as árvores e a vedação foram
entre dois vidros para serem reproduzidas. colocados uns sobre os outros e reprodu-
Esla cena rural, poluída por imagens amea- Juntou-se-lhes outra fotografia do céu zidos como uma só fotografia.
çadoras - caças a jacto e uma sebe de para se obter a faixa mais clara junlo ao
arame farpado -, não existe tal como a horizonte. A imagem principal, da mu- Capa de disco. Combinando fotografias
vemos. A fotografia é urna imagem múlti- lher e da criança no prado, é uma vulgar (página anterior) e reproduzindo-as, o foto
pla, uma combinação de diversas fotogra- fotografia a cores. As imagens do primei- grafo londrino Chris Morris criou urna cena
fias. Foi imaginada e criada para a Quaker ro plano - uma de árvores e um portão, sugerindo a ameaça militar. "Mas a cena
Peace Foundation pelo fotógrafo londrino outra de uma vedação de arame foram nunca existiu como a vemos", explica. A
Chris Morris para a capa de um disco. sobrepostas em conjunto e reproduzidas imagem foi composta por sobreposições
Os dois aviões são fotografias de uma numa película de grande formato a preto diversas para a capa de um disco para a
mesma miniatura feitas em estúdio de ân- e branco. Quaker Feace Foundation.
Encaixe perfeito
"Super-realidade" foi o nomo
dado pelo seu criador a esta
imagem da Abadia de West-
minster, em Londres - pois,
embora a colorida janela do vi-
tral seja autêntica, ela apenas
se vê neste esplendor quando
é iluminada pela luz do dia que
entra na abadia.
0 fotógrafo Chris Morris co-
meçou por fotografar a fachada
da abadia por fora. Mediu a dis-
tância entre a câmara e o edifí-
cio e marcou a mesma distân-
cia no interior. Depois, fotogra-
fou a luz do Sol atravessando os
vitrais da janela do lado oeste.
"Fiz apenas um ligeiro ajus-
tamento no tripé", diz, "para
compensar o nível um pouco
mais baixo do chão da abadia."
Devido ao cuidado posto
nas medições, a fotografia inte-
rior da janela encaixou perfei-
tamente na outra quando ele
as sobrepôs para as reproduzir
em conjunto.
"Qualquer pequenina dife-
rença no ajustamento foi dis-
farçada pela aura luminosa em
volta da janela", acrescenta,
'efeito este que criei durante a
sobreposição."

Efeito luminoso. Esta fotogra


fia da Abadia de Westminster
dá-nos a ideia de que irradia
dela urna luz interior. Na reali-
dade, este efeito apenas é visí-
vel no interior, onde a imagem
foi fotografada, sendo depois
sobreposta a uma fotografia da
fachada.

Simulação de voo
Esta fotografia do primeiro voo
de Santos-Dumont na Europa
é uma falsificação. Mas a verda-
de é que o brasileiro efectuou
em Paris, em 23 de Outubro de
1906, um voo de 61 m. O avião
de Santos-Dumont foi fotogra-
fado quando este o suspendeu
de um cabo para verificar o
equilíbrio. Depois, recortou-se
uma cópia, que foi montada
sobre uma outra de pessoas
que observavam um balão —
fazendo se em seguida uma
reprodução da montagem.

Falso voo. As árvores teriam


impedido a descolagem.

,S4
Menina fantasma
Durante cerca de 60 anos, di-
versos livros e revistas publica-
ram esta fotografia de uma me-
nina segurando um ramo de
flores e um sobrescrito, de pé
em frente de um homem sen-
tado à secretária. Era apresen-
tada como prova de que a "fo-
tografia de espíritos" era genuí-
na. Apareceu pela primeira vez
em 1919 e foi feila por um
curandeiro e médium espírita,
o Dr. T. d'Aute Hooper, de Bir-
mingham, que afirmou que
um dos seus pacientes, que ti-
nha como hóspede, lhe pedira
para fazer a fotografia, pois
sentia uma presença invisível.
"Peguei na câmara fotográfi-
ca e, antes de expor a chapa,
disse-lhe que via ao pé dele
uma linda criança", escreveu o
Dr. Hooper. "O próprio ho-
mem levou a chapa para a câ-
mara-escura e revelou-a, sur-
gindo então a linda forma de Sobreposição. Um anúncio dos finais do século xtx foi utilizado numa suposta "fotografia de espírito".
uma menina ... A exclamação
do senhor foi: 'Céus! É a minha filha, que do sabonete Pears' no início do século. pelos chamados "fotógrafos de espíritos".
morreu há trinta anos'.» Hooper preparara antecipadamente Mas por que razão o paciente de Hooper
Só quando, na década de 80, ressurgiu o uma chapa em que fotografara o quadro da manifestara logo a impressão de que a me-
interesse pela fotografia de espíritos, al- menina, apagando-lhe o fundo. Quando o nina era a sua filha que tinha morrido?
guns investigadores "reconheceram" a seu paciente revelou a fotografia que Hoo- Diz o investigador de fenómenos inex-
menina da fotografia: ela aparecera num per lhe tirara com a mesma chapa, esta plicados Arthur C. Clarke: "Talvez ele, na
quadro chamado Para Ti, pintado em 1879 segunda fotografia fornecera o novo fundo. sua dor e agarrando-se às mais pequenas
por Charles T. Garland e usado no anúncio Era uma técnica comummente utilizada coisas, tenha sido vítima de uma ilusão."

Fotografia falsa
de um ovni
Ao princípio, os peritos fotográ-
ficos convenceram-se de que a
fotografia, à direita, de um su-
posto objecto voador não iden-
tificado era genuína. Foi feila
por um piloto de avião comer-
cial sobre a Venezuela em 1905.
Mas quando o Dr. B. Roy Frie-
den, da Universidade do Arizo-
na, examinou a fotografia em
1971, fez notar que os contor-
nos do "disco voador" estavam
demasiado nítidos para se tra-
tar de um objecto distante — e
suspeitou de que a sombra no
chão tinha sido acrescentada.
Um engenheiro de Caracas
admitiu então ter sido o falsifi
cador. Confessou que o ovni
era a fotografia de um botão
sobreposta à fotografia aérea e
fotografada de novo.

Botão '^voador". Este "ovni"


quase convenceu os peritos.

«..
chegaram ao conhecimento de Conan
Doyle através da Sociedade Teosófica,
onde Doris, a mãe de Elsie, se lhes referiu
numa reunião em 1919.
Conan Doyle, espírita empenhado, in-
cumbiu Kdward Gardner, fotógrafo e teo-
sofista notável, de analisar as fotografias.
Acabou por convencer-se da autenticida-
de destas; e em Novembro de 1920, Conan
Doyle publicou as fotografias na revista
Fantasia. Recortes de um Hum The Strand.
tornaram-se "fadas" Ao longo dos anos, as duas raparigas
mantiveram a sua história. Mas havia
investigadores psíquicos de quem duvidasse dela. Em 1978, o prestidi-
todo o Mundo - incluindo Sir gitador americano James Randi chamou a
Arthur Conan Doyle, o criador atenção para a semelhança entre as figuras
do mais famoso detective da fic- de uma das fotografias e um desenho de
ção, Sherlock Holmes. fadas no Princess Mary's Gift Book, publi-
Foi em Julho de 1917 que Elsie cado dois anos antes de as fotografias se
Wright, então com 15 anos, e a sua rem feitas.
prima Francês Griffiths, de 10 anos, Só em 1983 Elsie e Francês, nessa altura
pediram emprestada ao pai de El- viúvas c idosas, confessaram. Elsie dese-
sie, Arthur Wright, uma câmara fo- nhara e pintara as farias em cartolina e
Sonho de um dia de Verão tográfica de "caixote" — e foram brincar prendera-as nos ramos com alfinetes de
perto de um regato no vale. Quando as chapéu. Elsie revelou ainda que o logro
Durante quase 70 anos, duas primas fotografias que fizeram nesse dia e nos se- fora inicialmente planeado para que Fran-
guardaram o seu segredo das fadas que guintes foram reveladas, mostravam uma cês não fosse castigada por ter caído no
diziam ter fotografado num vale arboriza ou outra das duas raparigas juntamente regato. Francês morreu em 1986, com 79
do de Cottingley, no Yorkshire. Durante com imagens daquilo que pareciam fadas anos. Elsie, que morreu dois anos depois,
esse tempo, as suas fotografias controver dançando, saltando e pousadas nos ra- com 87, disse ao Times de Londres: "A
sas ganharam fama internacional e des- mos. Numa delas, via-se Elsie com um brincadeira devia durar duas horas e durou
concertaram especialistas fotográficos e gnomo alado que dançava. As fotografias setenta anos."

Malabarismos com a realidade: o arranjo de fotografias em computador


Quando foi conjugada com a tecnologia No anúncio de uma revista, por exem- Por este processo pode "apagar-se" um
dos computadores, a fotografia atingiu plo, o automóvel do último modelo para- barco de um cais (cm baixo). O scanner
quase proporções de magia. Graças ao do à beira do Grand Canyon pode nunca electrónico percorre a fotografia e regista
processamento computorizado de ima- ter saído do stand onde foi fotografado. O cada pixei, que decompõe nos respectivos
gens, qualquer componente de uma foto- processamento computorizado pode elementos básicos: vermelho, verde, azul e
grafia — um navio, até uma pessoa — transplantar a sua imagem para um diapo- preto. Cada pixel é arquivado no compu-
pode desaparecer electronicamente. O es- sitivo do Canyon. E, através da redisposi- tador sob a forma digital. A fotografia pode
paço em branco pode ser então preenchi- ção dos elementos da fotografia (pixels), o então ser copiada com os pixels dispostos
do. Também podem adicionar-se novas carro pode ser transformado de um mode- na ordem desejada.
imagens. A técnica implica o registo dos lo de quatro portas num modelo de duas. No caso do barco que desaparece, os
mais diminutos elementos da fotografia e a Os efeitos da sombra na pintura podem pixels deste são removidos e substituídos
sua redisposição ou recomposição. fazer-se condizer com os do Canyon. por outros idênticos aos do empedrado.

Barco que se desvanece. O processamento computorizado de imagens pode eliminar ou acrescentar qualquer elemento fotográfico.

86
A. Larson, da Universidade da Califórnia,
em colaboração com a polícia local.
Detecção de mentiras por meio A máquina de Larson registava simulta-
neamente a tensão arterial do indivíduo e
de uma máquina os seus ritmos respiratório e da pulsação.
Os resultados eram registados por três ca-
netas sobre um rolo de papel contínuo.
No princípio da década de 80, pelo menos dora de droga e já ter estado presa. Ambas Denominada polígrafo, a máquina em bre-
1 milháo de pessoas nos EUA (a maioria, as acusações eram falsas. ve foi alcunhada de detector de mentiras.
candidatas a empregos) eram submetidas Desde então, as empresas americanas Mais tarde, o polígrafo transformou-se no
anualmente a testes de detecção de menti- foram proibidas de utilizar estes testes nos aparelho actual pela adição de uma quarta
ras. Mas esses testes levaram certas pes- exames de candidatos. medição - a da condutibilidade eléctrica
soas a serem falsamente acusadas de deso- Um grande utilizador dos detectores de da pele, que varia conforme a quantidade
nestidade. Uma dessas vítimas foi a estu- mentiras são as forças policiais. Mas, passa- de transpiração.
dante universitária Shama llolleman, re- dos mais de 60 anos sobre a invenção do Os testes de detecção de mentiras de-
cusada por uma loja de Nova Iorque por o detector de mentiras, o seu uso mantém- vem ser conduzidos em condições estrita-
seu teste indicar que ela poderia ser vende -se controverso. mente controladas. A pessoa testada é liga-
O aparelho funciona com base no prin- da à máquina e faz-se-lhe uma série de per-
cípio de que a pessoa que mente fica sob guntas inocentes como: "O seu nome é
COMO LUDIBRIAR O DETECTOR stress emocional, o qual acelera os ritmos José da Silva?" (que pode ou não ser), a fim
DE MENTIRAS da pulsação e da respiração e provoca de se obter uma resposta que proporcione
Peritos médicos dos EUA e da Grá-Bre- transpiração. Estes efeitos podem ser de- curvas de referência no polígrafo.
tanha dizem ser perfeitamente possível tectados por instrumentos sensíveis. Se a pessoa mente, o aparelho deve ser
unia pessoa suspeita ludibriar o detec- A primeira pessoa a usar aparelhos para capaz de detectar as alterações causadas
tor de mentiras. O truque é fazer com detectar o stress através das variações do pelo stress da mentira e de as registar.
que as respostas às perguntas de con- ritmo da pulsação e da tensão arterial foi o Um inconveniente é o de certas pessoas
trole se pareçam tanto quanto possível criminologista italiano Cesare Lombroso, ficarem tão nervosas que parecem estar a
com as respostas às perguntas verda- na década de 1890. mentir ainda que digam a verdade. Outras
deiras. Para que uma resposta seja clas- Em 1921, foi criado o primeiro detector podem ter tanto domínio das suas emoções
sificada como sendo uma mentira, tem de mentiras moderno com monitorização que coasigam mentir sem afectar as curvas
de ser registada com uma intensidade contínua pelo estudante de Medicina John do polígrafo. Mas estas são a excepção.
muito maior que as respostas de con-
trole. COMO UM DETECTOR DE MENTIRAS TRAÇA O SEU VEREDICTO
O Dr. David Thoreson Lykken, pro- O detector de mentiras é um conjunto de O segundo instrumento, o cardiosfig-
fessor de Psicologia e Psiquiatria na Es- três instrumentos diferentes, cujas infor- mómetro, detecta as variações na tensão
cola Médica da Universidade do Minne- mações são transmitidas separadamente arterial e no ritmo da pulsação. As informa-
sota, escreve no seu livro Uma Tremura ao detector e registadas como curvas inde- ções são captadas por uma manga de bor
no Sangue que o entrevistado poderia pendentes num gráfico. racha aplicada ao braço. O terceiro instru
identificar as perguntas de controle du- Um dos instrumentos, o pneumógrafo, mento é o galvanómetro, que mede a pas-
rante a entrevista anterior ao teste. Po- regista os padrões da respiração. Ata-se ao sagem de uma corrente eléctrica muito fra-
deria depois fazer qualquer coisa para peito da pessoa um tubo de borracha e os ca através da pele. Esta conduz melhor a
identificar a sua resposta às perguntas instrumentos medem as flutuações do vo- electricidade quando está húmida com a
de controle durante o teste - qualquer lume de ar no interior desse tubo provoca- transpiração. Os eléctrodos aplicam-se ge
coisa sempre diferente, para não levan- das pelas variações da respiração. ralmente sobre as mãos com adesivo.
tar suspeitas. Verdade Verdade Mentira
Mentira
"Após a primeira pergunta de con-
trole, eu poderia suspender a respira-
ção por uns segundos, depois inspirar
profundamente e suspirar. Quando fos-
se feita a segunda pergunta de controle,
poderia trincar a língua com força, res-
pirando rapidamente pelo nariz. Du-
rante a terceira pergunta de controle,
podia fazer força com o braço direito
contra o braço ria cadeira ou contrair os
músculos das nádegas. Uma tacha de
desenho dentro da meia pode ser utili-
zada disfarçadamente para produzir
uma boa reacção no polígrafo."
0 Dr. Archibald Levey, do Conselho
de Investigação Médica Inglês, que ela-
borou um relatório sobre detectores de
mentiras para o Governo Inglês em
1988, diz ainda que podem utilizar-se
técnicas de meditação para conseguir o
efeito oposto baixando a intensida-
de de todas as respostas. Um processo controverso. As verdades e as mentiras sao registadas como variações
gráficas dos ritmos cardíaco e respiratório e da transpiração do indivíduo durante os testes.

87
Em busca das
causas de um
incêndio
Em 1966, na véspera cio Ano Novo, um in-
cêndio malou 97 pessoas num hotel de
Porto Rico. Os empregados do hotel, o Du
pont Plaza, em San Juan, estavam furiosos
pela falia de um acordo salarial, e dois de-
les usaram álcool desnaturado para incen-
diar urnas caixas de cartão e outro lixo
numa sala de baile vazia.
Em 15 minutos, as chamas tinham inva-
dido todo o rés-do-châo e encurralado os
hóspedes no último piso do edifício de 21
andares. Muitos dos 1400 ocupantes tive-
ram de ser salvos por helicópteros. Além
dos 97 mortos, houve 140 feridos.
Quando, posteriormente, examinaram
os restos calcinados do mobiliário da sala
de baile, os investigadores descobriram FOGO NO METROPOLITANO
vestígios do álcool desnaturado e concluí Depois do fogo do metropolitano de Lon-
ram que se tratara de fogo posto. Chamou dres, demonstrou se como um fósforo ace-
-se então o FBI para interrogar o pessoal do so p<xlia incendiar uma escuda rolante. Oito
hotel. minutos depois de um fósforo pegar fogo ao
No fim, foram presos três emprega- óleo e COtâo por debaixo dos degraus (em
dos, que foram condenados a penas de cima), as chamas propagaram-se à madei-
prisão entre os 75 e os 99 anos. ra (à direita) - a setu branca indica onde o
Os peritos em incêndios são das primei- fósforo penetrou — e depois pelo túnel da
ras pessoas a chegarem ao local depois de escada (em baixo). Uma simulação (à direi-
extinto um fogo. A sua primeira tarefa é ta, em baixo) indicou o percurso dos gases
preservar e tomar nola dos materiais quei- quentes até ao andar de cima.
mados. Por vezes, é evidente
tratar-se de fogo posto
quando se verificarem diver-
sos focos simultâneos ou ai
guém foi visto a fugir do local
mesmo antes de se detectarem
as chamas.
Á\\\V^^
A segunda tarefa é localizar
o ponto ou os pontos onde o
fogo se declarou e onde ele foi
mais intenso. É também ne-
cessário traçar o caminho per-
corrido pelo fogo. Pode dedu
zir-se muito da observação dos
vestígios do fumo e dos estra-
gos causados aos materiais. Um varão de factores que ajudam o fogo a alastrar. Cai-
metal torce-se ou derrete-se conforme a xas de elevadores, chaminés de ventilação
proximidade a que está da parte mais e caixas de escadas produzem 0 chamado
quente do fogo. A densidade das rachas "efeito de chaminé", transmitindo os gases
num vidro corresponde habitualmente à aquecidos às partes superiores do edifício e
intensidade do calor. criando novos focos de incêndio. O investi-
A dilatação dos metais também pode gador pode ser confundido por fogos pro-
ser reveladora: uma viga de aço com 10 m vocados por ruptura de tubos do gás ou sas — uma lata vazia de gasolina deixada
aquecida a 500"C dilata-se 7 cm. A altura de combustíveis armazenados. Latas de ae- pelo incendiário, fios queimados que indi-
madeira ou alcatifa calcinada dá igualmen rossol que explodem podem originar bolas quem uma ligação eléctrica defeituosa, até
te indicações sobre a temperatura ou a du de fogo com mais de 1 m de diâmetro. 0 fragmento de um fósforo que descuida
ração de um incêndio. Depois de encontrar o foco do incêndio, damente se deitou fora.
Por outro lado, há que ter em conta os 0 investigador procurará indícios das cau- Os peritos forenses são especialistas no
exame dos fragmentos dos materiais quei-
Inferno nas alturas. O fogo consumiu quatro dos 62 andares da First Interstate Tower, de mados. Depois de um dos maiores incên-
Los Angeles, em Maio de 1988. lima pessoa morreu e 40 ficaram feridas neste incêndio. dios ocorridos em Itália, o do Cinema Sta-

,vt
tuto, de Turim, em 13 de Fevereiro de 1983, dio, o investigador pode, por exemplo, veri- Estação de King's Cross do metropolitano
em que morreram 64 jovens, descobri- ficar que um dos cadáveres foi vítima de de Londres, em Novembro de 1987, inicial-
ram-se fragmentos de fios velhos que ti- assassínio, indicando que o incêndio terá mente tomado como fogo posto, decla-
nham estado na origem do fogo. sido ateado para encobrir o crime. Um cor- rou-se numa escada rolante e foi alimenta-
No exame forense, os peritos verifica- po humano é muito difícil de queimar com- do pela corrente do ar proveniente dos tú-
ram que tinha havido desrespeito pelos re- pletamente, e os seus restos podem dizer neis. Os investigadores concluíram que ele
gulamentos italianos de segurança. 0 pro- muito aos investigadores: o corpo pode ter tivera origem no cotão e no óleo acumula-
prietário do cinema, o supervisor dos tra- ardido mais intensamente que os objectos dos por debaixo da escada, quase certa-
balhos de decoração e dois bombeiros lo- em redor, sugerindo que foi incendiado pri- mente incendiados por um fósforo deita
cais, que tinham afirmado que o cinema meiro, ou podem verificar-se indícios de do fora. Era proibido fumar nos comboios
era seguro, foram condenados a penas de asfixia no tecido pulmonar, o que significa do metropolitano desde 1984, mas muitas
prisão entre os quatro e os oito anos. que a pessoa foi estrangulada. pessoas acendiam os cigarros na escada
Não havendo causa aparente do incên- O incêndio que vitimou 31 pessoas na rolante quando se dirigiam para a saída.

Como descobrir pinturas antigas sob novas pinturas


Quando o quadro de Jean François Millet
O Cativeiro dos Judeus na Babilónia foi
apresentado no final da década de 1840,
tanto o público como a crítica foram muito
duros nas suas apreciações.
Os críticos parisienses acharam que a
superfície do quadro tinha uma camada
de tinta muito espessa, e um deles quei-
xou-se da selvajaria desmesurada da cena.
"Os soldados empurram as mulheres ju-
dias com uma violência excessiva."
O quadro desapareceu e os peritos de
arte concluíram que Millet o destruíra. Mas
em 1983, restauradores de arte do Museu
de Belas-Artes de Boston, Massachusetts,
utilizaram raios X para revelar a presença
de outra pintura por baixo da superfície do
retrato de A Jovem Pastora, de Millet.
A radiografia mostrava a imagem do
"desaparecido" e controverso Cativeiro,
de Millet. Pensa-se agora que Millet reutili-
zou a tela mais de 20 anos depois, quando
escasseava o material artístico, durante a
Guerra Franco-Prussiana de 1870-71.

Como se radiografa um quadro


A radiografia é o método mais usado para
descobrir pinturas ocultas. O comprimen-
to de ondas dos raios X é utilizado, pois
estes são facilmente absorvidos pelas tin-
tas. O grau de absorção depende do tipo de
pigmentos: as tintas à base de chumbo e
de cádmio, por exemplo, são mais absor-
ventes do que as que contêm crómio ou
cobalto. E as camadas mais espessas ab-
sorvem mais do que as delgadas.
Para radiografar um quadro, coloca-se
por detrás dele uma película fotográfica e
aplicam-se os raios X pela frente. Quando a
película é revelada, aparece a imagem es-
batida da pintura anterior.
No princípio da década de 80, por exem-
plo, dois restauradores de arte de Glasgow
- ambos técnicos de raios X num hospital
local — radiografaram O Homem da Arma-
dura, de Rembrandt, e descobriram o que
parecia ser uma pluma branca inclinada na
direcção errada a partir do topo do elmo.
Ao voltarem a radiografia, verificaram

90
que a "pluma" era parte de um trabalho
abandonado por Rembrandt: uma dama
com um vestido branco e um toucado.
De forma semelhante, num quadro do
pintor quinhentista italiano Paris Bordone
- S. Jerónimo e Santo António Abade (0
Eremita, o Grande) Louvando Um Benfei-
tor — verificou-se aos raios X que tinha
dois benfeitores, um deles pintado por um
artista desconhecido. Este quadro está
também na Galeria de Glasgow.
Os raios X são também utilizados para
estudar o pentimento — as alterações que Imagem tripla. Três cabeças foram reveladas pelas radiografias do Retrato de l IH Jovem, de
o artista faz enquanto produz uma obra. Karel du Jardin. Os peritos colheram amostras da tinta e fotografaram nas ao microscópio.
Alterações da composição, mudanças na Verificou-se assim que o corte da linha do maxilar marcada com um a continha sete camadas
inclinação da cabeça ou de um braço, são de tinta: 1. Base ocre vermelho-acastanhada 2. Primário cinzento. 3. Carnaduru feminina,
reveladas pelos raios X e úteis para os histo- pálida, do primeiro retrato. 4. Segundo primário cinzento. 5. Curnadura do segundo retrato.
riadores e restauradores de arte. (A palavra 6. Terceiro primário cinzento. 7. Sombra do maxilar do homem.
"pentimento" vem do italiano pentersi,
"arrepender-se", sugerindo uma mudança
de ideias por parte do artista.)

Traços de carváo
A luz infravermelha também é utilizada
para se descobrirem pinturas sob outras
pinturas. Quando se fazem incidir raios in-
fravermelhos sobre a pintura, eles pene-
tram as tintas da superfície e são reflecti-
dos. O reflexo é fixado por uma máquina
fotográfica. 0 efeito deste processo é tor-
nar transparentes as camadas delgadas c
superficiais da tinia, revelando os traços de
carvão do desenho preliminar do artista. A
técnica tem sido utilizada pelo Museu Me-
tropolitano de Nova Iorque para estudar os
quadros da Renascença Flamenga.
Em alguns casos, revela pormenores
não visíveis na pintura final e ajuda a com-
preender a técnica do artista.

O retrato perdido. Quando o retrato de


Dona Isabel de Porcel (à direita), pintado
por Goya. foi observado aos ratos X, desco-
briu se. por baixo, o retrato de um homem
desconhecido fã esquerda). 0 uso de outra
técnica, a fotografia por infravermelhos,
mostra o olho direito do homem (em cima).

•n
As impressões
digitais e os
criminosos

A Polícia pode querer lirar as impressões


digitais de uma pessoa porque suspeita
dela como criminosa ou porque quer
identificar as impressões "inocentes".
Como cada indivíduo possui o seu conjun-
to único de impressões digitais, a técnica
constitui um importante auxiliar na luta
contra o crime.
O processo consiste em colocar as pon-
tas dos dedos sobre uma almofada de tinta,
fazendo pressão, e depois de encontro a
>V
um papel, por forma a registar o desenho
dos padrões da pele. Estes são depois com- Padrões indiciadores. A fotografia grande, a azul, rnostra-nos a impressão do polegar de
parados com as impressões deixadas na um adulto. As fotografias pequenas apresentam, da esquerda para a direita, quatro padrões
superfície dos objectos na cena do crime. de arcos, presilhas, oertkilos e compostos. Comparados entre si. os padrões podem ajudar a
estabelecer a inocência ou a culpabilidade de um suspeito.
Plásticos e tintas
As impressões digitais consistem em mi- camada de ouro, depois uma de zinco. O é o bastante para se concentrar a investiga-
núsculas quantidades de humidade, que, ouro deposita se uniformemente, mas é ção sobre determinado suspeito.
numa superfície, produzem padrões iguais absorvido pelas cristas de humidade que
aos "sulcos" e "cristas" existentes nos de- formam o padrão dactiloscópico. 0 zinco Impressões de luvas
dos e noutras zonas da mão. Nos materiais só se condensa sobre outro metal, pelo As luvas fornecem impressões distintas de
nào-absorventes, como os plásticos e as que adere às áreas cobertas de ouro, tor- modo muito semelhante à pele humana,
superfícies pintadas, as impressões são nando-as mais contrastantes com as hn devido à gordura que se acumula na sua
mais nítidas que nos absorventes, como os pressões não recobertas e permitindo que superfície. As impressões de luvas podem
tecidos. As impressões são normalmente sejam fotografadas. igualmente ser reveladas por uma camada
invisíveis, excepto se produzidas por tinta Uma vez obtida a fotografia, esta é com de pó e, se coincidem com as de uma luva
ou sangue. Por este motivo, o perito policial parada com as impressões digitais dos cri- encontrada em poder de um suspeito,
em dactiloscopia utiliza um pó muito fino minosos. Os padrões dactiloscópicos são constituirão uma prova importante.
(muitas vezes alumínio em pó) para cobrir decompostos em traços característicos -
as superfícies em que poderão existir im- "forquilhas", "lagos", "esporões" e "ilhas" A comparação das impressões
pressões digitais. As partículas do pó ade- Para que uma identificação possa ser A comparação das impressões digitais re-
rem aos tractos de humidade, tomando-os apresentada em tribunal, é preciso que um quer boa vista e concentração intensa.
visíveis. Uma fita gomada é então aplicada à certo número de características reconhecí- 0 processo assemelha-se àqueles pas-
marca, recebendo uma impressão que veis das impressões de um único dedo cor- satempos em que têm de descobrir se as
pode ser levada para fotografar. respondam ao mesmo número de caracte- diferenças entre dois desenhos aparente-
A tecnologia moderna auxilia agora a rísticas da impressão em arquivo. Este nú- mente iguais. Com a identificação das im
Polícia a conseguir impressões de superfí- mero varia conforme os países, mas pode pressões digitais sucede o inverso: o perito
cies das quais antigamente nada se obti- chegar a 17. Se as impressões forem de tem de procurar as semelhanças.
nha, como sacos de plástico. mais que um dedo, o tribunal aceita me- As impressões digitais sáo normalmen-
0 processo, denominado metalização nos características por dedo. A maioria dos te arquivadas por nomes. Na maioria dos
no vácuo, consiste em colocar a superfície especialistas considera que a existência de países, só se conservam as impressões dos
a examinar dentro de um recipiente ao mais de oito características é suficiente criminosos condenados e as não identifi
qual se extrai o ar, criando o vácuo. Vapori para confirmar uma identidade: embora cadas recolhidas em casos ainda por resol-
za-se por sobre a superfície primeiro uma tal não possa ser apresentado em tribunal. ver. Alguns países mantêm um arquivo na-

92
cional de impressões digilais, mas, devido a pena debruçar-se sobre os passadores de
ao tempo que as buscas podem demorar, cheques falsos, por exemplo. O CASO ESPANTOSO DE QUATRO
é considerado simplesmente como instru Os peritos dactiloscopistas comparam IRMÃOS
mento de recurso para utilização quando ainda as impressões digitais de criminosos A prova por impressões digitais condu-
não se consegue identificar localmente presos recentemente com marcas não ziu, provavelmente, ao único caso em
uma marca. identificadas obtidas durante a investiga- que dois irmãos, condenados junta
Mantém-se também arquivos dos crimi- ção de outros crimes, na esperança de re- mente por assassínio, foram executa-
nosos com especialidades conhecidas, solverem casos em suspenso. Comparam dos por outros dois irmãos.
como os ladrões de automóveis ou os car- igualmente as marcas não identificadas Em 1905, Alfred e Albert Stratton
teiristas. As polícias secretas e as organiza- com as marcas novas para verem se deter- foram acusados do assassínio de um
ções de contra espionagem possuem minados crimes constituem uma série in- casal idoso, espancado até à morte,
igualmente os seus ficheiros com os indiví- terligada. Fazem diariamente dezenas de no andar por cima da sua loja, em
duos que consideram revolucionários ou comparações, mas podem trabalhar du- Londres.
agentes inimigos. rante dias sem conseguirem uma identifi- No chão, junto aos corpos, foi en-
0 perito dactiloscopisla começa por cação positiva. contrado, vazio, o pequeno cofre em
examinar as marcas reveladas no local e A maior parte deste trabalho é manual e que o casal guardava as suas econo-
decorar as respectivas características. Em extremamente laborioso. No início da dé- mias. No tabuleiro de metal do cofre, os
seguida, compara-as com as impressões cada de 80, criaram-se processos electró- peritos recolheram a impressão de um
digitais de pessoas inocentes que possam nicos destinados a acelerá-lo. As impres- polegar suado ou sujo de óleo que não
ter deixado marcas na cena do crime - sões podem hoje ser arquivadas e procura- condizia com o dos mortos — nem
membros da família ou polícias, por exem- das em sistemas de indexação electrónica, com o do primeiro agente da Polícia
plo. Todas as marcas que coincidam com por forma que o premir um botão pode, que chegou ao local.
as impressões inocentes são postas de por exemplo, apresentar-nos todas as im- A suspeita recaiu sobre os Strat-
lado. O perito retira então do ficheiro to- pressões dos ladrões de automóveis co- tons, ambos assaltantes conhecidos.
das as impressões dos suspeitos possíveis, nhecidos que vivam em determinada área Foram presos e julgados. A impres-
cujos nomes lhe foram indicados pelos e tenham menos de 30 anos. Estes siste- são do polegar constituiu a prova
detectives que investigam o caso. mas podem ser ligados a sistemas idênti- principal.
Se estas não coincidem, terá de fazer cos de forças de investigação vizinhas ou Foram os dois considerados culpa
uma busca mais alargada e laboriosa. Se mesmo aos arquivos nacionais para au- dos e condenados à morte, sendo en-
procura um ladrão, começará por reler to mentar o potencial das buscas. A compa forcados pelos irmãos John e William
dos os casos de furto na localidade, seguin- ração visual, contudo, continua a ter de ser Billington, executores públicos, em 23
do depois para os das redondezas. feita pelo perito dactiloscopista. de Maio de 1905.
Dependendo do tempo superiormente Cientistas de lodo o Mundo procuram
estabelecido para se dedicar às buscas, po- desenvolver sistemas computorizados "Mr. Flngertipa",
derá prossegui las nos departamentos de para arquivar e — o mais importante — ou o "Senhor Pontas-dos-Dedos"
dactiloscopia de outras forças policiais. A comparar as impressões digitais e as mar A primeira identificação de um homi-
procura do arrombador de uma casa pode cas recolhidas. Alguns processos, que che- cida pela comparação das impressões
alargar-se a outros tipos potenciais de cri gam a fazer 60 000 comparações por se digitais com as dedadas deixadas no
minosos, como os arrombadores de co- gundo, estão já a ser utilizados por certos local do crime foi feita na Argentina, em
fres, mas o perito pode achar que não vale departamentos policiais de alguns países. 1891, graças aos trabalhos do dactilos-
copista João Vucetich.
2 3 5 6 Anteriormente, o método habitual
de registo dos caracteres dos crimino-
sos baseava-se no sistema antropomé
Irico, criado pelo criminologista fran-
cês Alphonse Bertillon, e implicava a
medição dos braços e pernas do crimi-
noso, bem como fotografias de frente e
de perfil.
O inglês Edward Henry interessou-
-se pelas impressões digitais na década
de 1890, quando foi inspector-geral da
Polícia de Bengala, na índia. As suas
ideias despertaram interesse em Ingla-
terra, e, em 1901, Edward Henry foi no-
meado responsável pelo Departa
mento de Investigação Criminal ria
Scotland Yard. Aí criou a primeira Sec-
ção de Impressões Digitais, que em
seis meses procedeu a mais de 100
identificações bem-sucedidas.
Henry foi posteriormente comissá-
rio da Polícia Metropolitana. Refor-
mou se o recebeu um título nobiliár-
quico em 1918 — mas ficou sempre
Marcas e impressões digitais. A marca deixada no local do crime (à esquerda) foi recolhi conhecido por "Mr. Fingertips" ("Sr.
da por um perito policial. Foi seguidamente comparada com a impressão digital do suspeito, Pontas-dos-Dedos").
feita com tinta, verificando-se correspondência entre 12 características.

93
A "dactiloscopia"
genética:
processo de
identificação que
não falha
A "dactiloscopia" genética alterou o curso
da investigação criminal: é o método até
hoje mais rigoroso para a identificação de
um individuo. O processo pode igualmen-
te provar a paternidade de uma criança e
controlar a criação de animais raros.
0 inglês Alec Jeffreys, geneticista da Uni-
versidade de Leicester, descobriu a dacti-
loscopia genética em 1984. Fazia investiga-
ções sobre o ácido desoxirribonudeico
(ADN), 0 composto químico que, no inte
rior de todas as células vivas, determina as
características de cada indivíduo, como a
cor dos olhos c do cabelo. A estrutura do
ADN é diferente de pessoa para pessoa,
excepto nos gémeos idênticos.
0 Prol. Jeffreys descobriu que no inte-
rior da molécula de ADN existe uma se-
quência de informações genéticas que se
repete muitas vezes ao longo da respectiva
estrutura, formando uma dupla espiral.
0 comprimento da sequência, o nume
ro de vezes que ela se repete e a sua locali-
zação precisa dentro da cadeia do ADN são
únicos em cada indivíduo. Criou-se um
processo de passagem destas sequências
a registos visíveis. A imagem final, a "im-
pressão digital" genética, consiste numa
série de barras sobre uma película de raios
X, semelhante aos códigos de barras utili-
zados nas embalagens dos produtos.
Para obter um espécime de ADN o cien-
tista precisa apenas de uma amostra bioló
gica contendo algumas células humanas O ADN indica o culpado. O padrõo de ADN (ao meio) obtido de uma mancha de sangue
- em geral, sangue, sémen ou cabelo - encontrada no local do crime é comparado com os de se/e suspeitos. Só o padrão imediata-
em quantidades mínimas. mente à esquerda condiz exactamente Os outros são semelhantes, mas nâo idênticos Pode
A "dactiloscopia" genética é tão impor assim determinar-se a culpabilidade de uma pessoa e a inocência de outras seis.
tante no estabelecimento da inocência
como da culpa. O ladrão que parte uma duas jovens tinham sido violadas e mortas. ca do filho que não condizem com os da
janela pode deixar no vidro vestígios de O criminoso foi encontrado quando um mãe provêm do seu verdadeiro pai.
sangue que servem para a criação de uma homem disse a alguém que um seu compa- Outra utilização é nos transplantes de
impressão genética. Quando a Polícia nheiro de trabalho lhe pedira que tomasse o medula óssea. Os médicos verificam se a
prende um suspeito, extrai-lhe um pouco seu lugar quando fossem feitas as recolhas. impressão genética do paciente após o
de sangue e compara a impressão genéti- Um outro homem, anteriormente acusado transplante condiz com a do dador. Na afir-
ca com o que possui; se ela condiz, trata-se de um dos crimes, foi libertado porque a mativa, o transplante teve êxito e está a pro-
do ladrão; se não, o preso está inocente. sua impressão genética não se ajustava às duzir leucócitos sãos. Não coincidindo, o
Quando possui uma impressão genéti- provas obtidas na cena do crime. transplante não deu resultado.
ca, mas não um suspeito, a Polícia pode A "dactiloscopia" genética pode tam- Os zoólogos podem utilizar a "dactilos
obter impressões de um grupo de pessoas bém servir para resolver disputas de pater- copia" genética para controlar a criação de
fazendo colheitas de sangue. A primeira nidade. Um filamento de ADN é igualmen- animais raros e a conservação de certas
recolha de impressões genéticas de um te constituído pelas características de am- espécies. Comparam as impressões gene
número considerável de pessoas foi feita bos os progenitores. Comparando as im ticas obtidas de animais para assegurar
no Leicestershire em 1987, quando se ex- pressões genéticas da mãe e do filho, o que o cruzamento consanguíneo nas es-
traíram amostras de 5500 homens que vi- cientista pode afirmar com toda a seguran- pécies ameaçadas - que produz animais
viam nos arredores de uma aldeia em que ça que os elementos da impressão genéti enfraquecidos — seja evitado.

94
Como se produz um retrato-robô de um criminoso
Em Fevereiro de 1959, um ladrão armado Quer se utilize o Photo-FIT, quer o Iden-
assaltou uma loja no Sul da Califórnia e likit, os detectives começam por pedir às
fugiu com o produto do roubo. Não teria testemunhas que recordem os pormeno-
passado do típico crime menor, excepto res do crime em si, passando depois à des-
por um facto: o proprietário do armazém crição genérica do suspeito ou suspeitos.
forneceu ao xerife Peter Pitchess, da Polícia Eram baixos e atarracados ou magros e
do Condado de Los Angeles, uma descri altos? Que tipo de vestuário usavam? E que
ção pormenorizada do ladrão, o que per- fizeram na verdade no local do crime? Só
mitiu à Polícia fazer um retrato muito pare- então as testemunhas são interrogadas
cido do homem que procurava acerca dos pormenores do rosto. Fo-
Esse retrato foi posto a circular na zona, lheiam álbuns, ou "atlas de feições", con-
o que levou à identificação e prisão do lara- Polícia assassino. Em consequência da tendo as diversas folhas de Photo-FIT ou
pio - o primeiro criminoso do Mundo a montagem de um retrato-robô em França, o ldentikit, fazendo as suas escolhas. A face é
ser apanhado graças a um retrato-robô. assassino foi identificado como um dos pO montada folha a folha ou tira a tira.
0 processo fora concebido na década lícias que colaboravam nas investigações. Depois, muitas vezes, pede se a um de
de 40 principalmente por Hugh C. McDo- senhador da Polícia que retoque a ima
nald, funcionário policial do Departamen nhãs de cabelo, 99 olhos o sobrancelhas, gem: sobrepõe-se a esta urna folha de plás-
lo de Identificação de Los Angeles. Munin 89 narizes, 105 bocas o 74 queixos e fa- tico transparente, sobre a qual se acresceu
dose de cerca de 50 000 fotografias de ros- ces — o que permite biliões de combina- Iam os pormenores, como as sombras do
tos de pessoas, cortou-as em 12 secções ções possíveis. Além disso, podem ainda cabelo, as manchas da pele, cicatrizes, a
principais, que utilizou como a base do acreseentar-se barba, bigodes ou óculos. forma das sobrancelhas. O desenho é de-
que chamou ldentikit (à letra, "estojo de As componentes são cortadas por forma pois coberto por um fixador e assinado
identidade") — o que entre nós permite que o comprimento e a largura de uma pela testemunha.
fazer o chamado retrato-robô. face composta possa ser montada numa Recentemente, tem sido utilizada a tec-
O ldentikit era formado por quase 400 moldura que as mantém no lugar. nologia dos computadoras para realçar es-
pares de olhos, lábios, narizes, queixos, li- O kit básico é de rostos de raça branca, tes retratos. Ela permite que faces com as-
nhas de cabelo, sobrancelhas, barbas, bi havendo kits suplementares para os Ame- pecto extrcmamenle verdadeiro sejam de-
godés, etc, todos diferentes entre si. Para ríndios, Indianos e Afro-Caribes Ainda não senhadas no écran segundo as descrições
se construir um retrato, as diversas feições se criou um kit para os Orientais, que são das testemunhas e que se lhes apliquem as
eram desenhadas em folhas de plástico habitualmente desenhados por artistas. mínimas alterações. Obtém-se assim uma
transparente que se faziam combinar até As testemunhas dos crimes são entrevis- imagem que parece uma fotografia.
se obter um retrato composto que se ajus- tadas pela Polícia logo que possível, pois a Além disso, as fotografias de criminosos
tasse às descrições testemunhais do indiví- capacidade de recordar começa a dimi- capturados podem arquivar-se em com-
duo que se procurava. nuir ao fim de uma semana putador. São codificadas segundo as ca-
O emprego de fotografias ou de esboços racterísticas físicas, e o computador pode
desenhados para identificar e prender cri- apresentar uma escolha das que mais se
minosos começou cm França na década ajustem à descrição das testemunhas.
de 1880, altura em que o criminologista
Alphonse Bertillon criou um processo que
chamou portrait parle (retrato falado).
Este processo utilizava fotografias de cri-
minosos tiradas de frente e de perfil, corta-
Como os peritos
das em secções e montadas por forma que
certas feições — um nariz aquilino, um
em escrita
queixo proeminente, orelhas salientes -
pudessem ser estudadas. Tornava-se as-
apanham um
sim mais fácil para os agentes reconhecer
na rua os criminosos que procuravam.
criminoso
Nos meados da década de 70, surgiu na
América do Norte um novo sistema de re- Na tarde de 4 de Julho de 195G, depois de
trato-robô. Foi aperfeiçoado por Pai Dun um passeio, Mrs. Beatricc Weinbcrger re-
leavy, funcionário da Real Polícia Montada gressou à sua casa de Westbury, em Long
do Canadá, e serve-se de folhas de plástico Island, EUA, com o filho, Peter, de um mês.
com fotografias autênticas das diversas fei- Deixou o caninho no pátio e correu a bus-
ções do rosto. car uma fralda. Quando voltou momentos
No Reino Unido, desde 1970 que a Poli depois, o carrinho estava vazio — e no lu-
cia utiliza um sistema denominado Photo- gar de Peter havia uma nota escrita.
-FIT (facial Identification technique — téc- Rosto por computador. ;Vo mais recente A nota dizia: "Atenção. Lamento que
nica de identificação facial). O sistema em- processo computorizado de identificação, O isto tivesse de acontecer, mas preciso mui
prega também fotografias autênticas de E-FTT, Q descrição inicial da pessoa (1) pode to de dinheiro e não podia arranjá-lo de
pessoas "vulgares" montadas sobre delga alterar-se pela aplicação de um bigode (2), outra maneira. Não fale nisto a ninguém
das folhas de plástico. O conjunto básico, depois pela mudança do feitio do rosto (3) e nem vá à Polícia, porque eu observo-a de
em cinco secções, compõe-se de 195 li- peta colocação de uma cicatriz (4). perto. Estou aterrorizado e mato o bebé se

95
I
Até que em meados de Agosto estas pe
nosas tentativas trouxeram resultados. A
....gMr-,*<. ,->'• ' - -
caligrafia de Angelo John La Marca, de
Plainview, Long Island, condizia com a
do raptor especialmente no traçado pe
culiar dos yy.
Algum tempo antes, La Marca fora pos-
to em liberdade condicional pelo fabrico
ilegal de álcool. Ao ser confrontado com as
Prova escrita. A caligrafia nu nota amostras de escrita, confessou o rapto rie
de resgate coincidia com a de La Peter. Afirmou ter agido num impulso rie
Marca num impresso de liberdade momento para minorar as suas dificulda-
condiciono!. des financeiras. Disse à Polícia que deixara
o bebé vivo e são num parque próximo no
você fizer alguma coisa errada. Ponha segunda nota assinada "o seu baby-sittef'. dia a seguir ao rapto. Mas quando os agen
2000 dólares em notas pequenas num so- Nessa altura, a Polícia achou que o bebé já tes acorreram ao local, encontraram ape-
brescrito pardo e coloque-0 junto ao .se- estaria morto. nas o cadáver ria criança. La Marca foi mais
máforo na esquina da Albemarle Koad Foi chamado o FBI, cujos peritos em aná- tarde executado na Prisão de Sing Sing.
com Park Avenue exactamente às 10 horas lise de escrita manual começaram a tentar Mesmo que tivesse tentado disfarçar a
da manhã de amanhã (quinta leira). encontrar a pista do criminoso. Em ambas letra, é provável que l.a Marca tivesse sido
Se tudo correr bem, deixarei o belx? na as notas de resgate notou-se nos yy uma apanhado. Por muito que se tente disfarçar
mesma esquina, 'São e Salvo', exactamen primeira perna invulgar em forma de z. as peculiaridades e as características da es-
te ao meio dia. Não há desculpas, não pos- Tendo começado pelo registo automó- crita ou adoptar a caligrafia de outra pes-
so esperar! O seu baby-sitler." vel da cidade de Nova Iorque, os peritos soa, a "individualidade" de quem escreve
Apesar do aviso rio raptor, Mr. c Mrs. passaram as seis semanas seguintes pers- vem sempre à superfície. O ângulo com
Weinbcrger, preocupados, contactaram a crutando os ficheiros locais na Polícia, nos que a pessoa segura a caneta, a maneira
Polícia. Um sobrescrito com papel de jor- escritórios, nas fábricas, nos clubes e nas como cruza os // ou põe o ponto nos ii. a
nal cortado em pedaços foi colocado no escolas Ao lodo foram examinadas visual- altura e o tamanho rias letras maiús
local na manhã seguinte. Mas o raptor não mente e comparadas com as notas de res- cuias c minúsculas, o espaço entre as pala
apareceu. Faltou a dois "encontros" poste gaste mais de 2 milhões de assinaturas e de vras, o uso ou abuso da pontuação tudo
riores com os Weinbcrgcrs e deixou uma amostras de caligrafia. isto identifica uma pessoa.

QUANDO UM NOVO EMPREGO DEPENDE DA SUA CALIGRAFIA


Os candidatos ao lugar de assistente rio sar do seu estatuto social e profissional, decidir se se pode confiar numa pessoa.
director rio pessoal de uma companhia era inseguro e rígido. Por isso, o lugar foi Nos EUA onde as empresas perdem
de computadores tinham ficado reduzi dado ao primeiro candidato. algo como 40 000 milhões rie dólares por
dos a dois jovens com experiência, ca- Os grafólogos afirmam que a caligra- ano devido a empregados desonestos
pacidade e qualificações idênticas. Apa fia é uma espécie de "escrita do cérebro" , a grafologia tomou o lugar rio polí-
rentemente, nada havia que fizesse pre- em que a mente inconsciente é conduzi- grafo, ou detector de mentiras, cujos tes
ferir qualquer deles - pelo que os en da aos dedos e se revela no papel. tes já não são autorizados por lei.
trevistadores convocaram um grafólo Nos EUA, um grande número rie em- A selecção por polígrafo revelou-se
go para avaliar o carácter e as potencia- presas emprega grafólogos para anali de validade pouco segura. E os que criti-
lidades de cada um. sar as candidaturas a emprego, os pedi- cam a grafologia acusam do mesmo os
A caligrafia do primeiro candidato dos de promoção e as sugestões recebi- grafólogos - muitos deles autodidac-
era grande, fluida e arredondaria; a do das pelo correio. Na Alemanha, 80% das tas e cujas apreciações frequentemente
segundo era pequena, brusca e angulo- grandes empresas utilizam grafólogos se contradizem.
sa. Segundo o grafólogo, a primeira le na escolha do pessoal e esta prática No entanto, a maioria dos grafólogos
tra rienotava uma pessoa autoconfian- está a espalhar-se pelo Mundo. concorda em certos conceitos básicos
te, flexível e de bom contado. A segun Os apologistas do exame grafológico corno a importância da apreciação
da, no entanto, era de alguém que, ape- afirmam tratar-se de uma forma eficaz rie rio carácter através ria conjugação rie

TAMANHO INCLINAÇÃO LARGURA

\\VJAOJUU. - M. çr\ Wu)t)er\


Inclinação para a esquerda. Pode de Estreita. Os indivíduos com caligrafia
Escrita grande. Denota ambição ou es- notar um indioiduo reservado e tímido, estreita são habitualmente disciplina
pirito largo. Encontra-se muitas vezes na com tendência para esconder as suas dos mas inibidos. Podem ser igualmente
caligrafia das pessoas do espectáculo. emoções e manter uma atitude passiua. mesquinhos e de vistas estreitas.

(icjt nado Qusuuo


Escrita pequena. l3ode indicar modés-
tia e sentimentos de inferioridade, em Inclinação para a direita. Sugere uma l.arga. Os que escrevem com letra larga
bora o autor possa ser objectivo e de personalidade expansiva. O seu autor são normalmente desinibidos e gostam
espirito cientifico. gosta de se dar com as pessoas. de viajar. P<xlern ser impetuosos.
—-—

9(1
Em 1983, Gary Herbertsoii, chefe da sec- referência ao ataque dos Russos a Berlim Utilizando um poderoso microscópio e
ção de documentos do laboratório do FBI, em Abril de 1945, quando Hitler, no seu exemplares autênticos da caligrafia de Hi-
afirmou: "Sempre que se tenta modificar a esconderijo, supostamente escrevera: tler, comparou os dois conjuntos escritos
caligrafia, fazem-sc coisas que não pare "Começou a ofensiva há muito esperada. — especialmente as letras E, H e K — e
cem naturais. A escrita de um falsificador Que Deus esteja do nosso lado." encontrou grandes discrepâncias e disse-
não tem a velocidade, a fluência, a suavida- Os 60 diários foram comprados pela re melhanças entre eles — o que convenceu
de, da escrita natural. Notam-se fins e prin vista alemã Stem, diz-se que por 6 milhões Rendcll de que os diários eram falsifica
cípios dos traços bruscos ou embotados, de marcos. A Stem vendeu depois direitos ções. Além disso, provou se que a tinta era
curvas mal desenhadas, interrupções ina- subsidiários em França, Espanha, Bélgica, moderna; e Hitler, ao tomar notas e apon-
propriadas, ligeiros tremores. Duas letras Holanda, Itália, Noruega e Inglaterra. tamentos no princípio dos anos 30, utiliza
podem ter a mesma forma, mas, mesmo A publicação na Alemanha começou na ra unicamente papel da melhor qualidade,
assim, é possível dizer se uma foi a escrita Primavera de 1983 E dois dos diários — um pelo que não era crível que tivesse recorri-
rapidamente e a outra cuidadosamente de 1932, antes de Hitler ser ditador, outro do ao papel ordinário, pautado, em que
desenhada." de 1945, ano em que se suicidou — foram estavam escritos os diários falsos.
Além rios seus conhecimentos, os peri- enviados à revista americana Newsweek, Em resultado desta denúncia, um cri-
tos em análise de escuta utilizam no seu também interessada na sua publicação. minoso alemão já várias vezes condenado
trabalho instrumentos e aparelhos sofisti- Esta revista convocou um reputado peri- - Konrad Paul Kujau foi mais tarde preso
cados, que incluem scanners de infraver- to em análise ric escrita, Kenneth Rendei!, com dois cúmplices e julgado por falsifica-
molhos e ultravioletas com os quais exami- de Boston, Massachusells, que imediata- ção dos diários. Em Julho de 1985, foi con-
nam rasuras e emendas; equipamento de mente se mostrou desconfiado. "Mesmo siderado culpado por um tribunal de Ham-
écran duplo para comparação entre do- à primeira vista", afirmou, "tudo parecia burgo e condenado a uma pena de prisão
cumentos verdadeiros e duvidosos e instru- errado." de quatro anos e meio.
mentos de grande ampliação da caligrafia
para comparação entre as diversas formas
de ligação das leiras.
O mais nolável caso dos últimos tempos Como os cães e as máquinas farejam
diz respeito ã falsificação, no princípio da dê
cada de 80, dos "diários" de Adolf Hitler —
nos quais o chefe nazi supostamente es
drogas e explosivos
crcvera os seus pensamentos mais íntimos
numa caligrafia antiquada. Incluíam uma Quando cinco mulheres de Bogotá, na Co-
lômbia, levantaram suspeitas no Aeropor-
to de Heathrow, em Londres, em 1988,
trouxeram-se cães especialmente treina
dos para examinar as respectivas baga-
certos factores fundamentais, e não de gens. Os cães conduziram os homens da
uma qualquer característica peculiar. Alfândega a 20 discos LP em cada uma rias
Em geral, os grafólogos dividem a cali- malas das mulheres. Quando se separa
grafia em três "zonas": a zona superior e ram as camadas de vinilo dos discos, des-
a inferior, formarias pelas partes supe- cobriu-se cocaína escondida entre as duas
riores e inferiores das maiúsculas e de metades. No total, foram encontrados
outras letras, como ob, odcog, ea zona 16 kg ria droga nos discos e em sobrecapas
intermédia, contendo as restantes leiras de livras. As mulheres foram todas conde
minúsculas. Serão as dimensões relati- nadas a 14 anos de prisão.
vas das três zonas que revelarão a verda- Estes cães são utilizados pelas polícias e
deira personalidade do indivíduo. alfândegas de todo o Mundo para de
Uma zona superior grande, por exem- tectar drogas e explosivos.
plo, indica uma pessoa aberta e alegre; Os cães treinados para este tra-
uma zona inferior pequena sugere su- balho incluem os cães de caça
perficialidade, e uma zona intermédia como os labradores, os colhes c
de tamanho médio denota uma perso- osspaniels. O cão tem um senti-
nalidade metódica e prática. do de olfacto muito superior ao do
homem, porque os receptores ol-
factivos que possui são 100 vezes
ESPAÇAMENTO mais longos que os do homem. O
treino de um destes cães dura habi- Verificação de
tualmente cerca de 12 semanas. 0 cão co- um saco. Este
Grandes espaços. As pessoas que se- meça por ser ensinado a reconhecer deter- detector portátil de explosivos, sensível
param muito as palavras não se dão bem minada droga ou explosivo. Para isso, o aos vapores, é hoje utilizado nos principais
na companhia dos outros Podem ser re- treinador esconde uma amostra do produ- aeroportos do Mundo.
servadas e solitárias. to dentro de qualquer coisa que o cão consi-
ga agarrar com a boca — um jornal enrola- O cão aprende a reconhecer o cheiro do
([j6 wduLMCÂQt Jnf^làJoa.c^r^ do, um pedaço de cano, um trapo Ordena- objecto de Ireino, que é na realidade o
Espaços apertados. Pequenos espa -se ao cão que entregue esse objecto ao cheiro da droga ou do explosivo. O objecto
cos entre as palavras denotam uma pes- treinador e dá-se-lhe uma recompensa. utilizado no Ireino é mudado periodica-
soa gregária, mas que escolhe indiscrimi- Esta pode ser qualquer coisa que esse cão mente, mas o cheiro mantérn-se o mesmo.
nadamente os amigos. goste de fazer — uma luta amigável com o Ao princípio, esse objecto é colocado à
dono ou um jogo de escondidas. vista do cão, depois passa a ser escondido.

97
Processos antigos e modernos
de levar a melhor sobre os traficantes
Os funcionários aduaneiros de Southamp veis, fibras ópticas no interior do tubo trans-
lon estavam muito desconfiados de parte poriam a imagem até uma pequena ocular.
de um carregamento procedente da Co Certas máquinas especiais de raios X
lômbia - importante centro produtor do fornecem imagens a coros o detectam o
droga - com destino à Holanda, pois os que quer que se encontre escondido don
cadeados de um contentor cheio de ladri tro de um recipiente. Mostram, por exem
lhos cerâmicos pareciam ler sido forcados. pio, as dimensões o posições relativas dos
Baseando-so apenas neste facto e na sua objectos dentro do um saco.
intuição, os funcionários decidiram invés Um dos aparelhos mais úteis usados
Cáo que fareja. Uma funcionária adua ligar. por estes funcionários é lambem um dos
neira do Aeroporto internacional de Miami O carregamento fora descido de um na- mais simples: a balança. Os funcionários
dá instruções uo seu câo na incessante pro vio para se proceder a uma nova arruma sabem quanto posa uma mala media
cura de drogas. Cão da carga, pelo que os funcionários tive quando cheia. Por isso. pesam as baga-
ram de agir depressa e cm segredo. Remo- gens dos passageiros suspeitos e revistam
Cheiros como os do perfumes, que coi- veram o contentor para o examinar e dopa nas se as acharem com poso a mais. Po-
tos traficantes espalham para disfarçar o raram com um compartimento escondi- dem ainda esvaziar uma mala o pesá-la: se
cheiro cias drogas, são igualmente utiliza- do, de aço, com uma profundidade de 10 cru pesar mais do que o valor dado pelo fabri-
dos para que o cão se habitue a elos. a todo o comprimento da parte superior. cante, poderá ser revistada cm busca de
Um cão podo ser treinado a reagir a 12 Abríram-no com maçaricos de oxiaceti drogas, diamantes, ouro ou outro contra
tipos diferentes do explosivos e a •'! lipos leno o descobriram uo seu interior 210 kg bando que esteja escondido em comparti
diferentes de drogas - em geral, cannabis de cocaína em 263 pequenos pacotes, va mentos dentro do forro.
(haxixe), cocaína, heroína o aiiíetaminas. lendo mais de 13 milhões de contos.
Quando se leva um cão para procurar O contentor foi novamente selado — lo Doce subterfúgio. Em i')SH. no Aeroporto
drogas numa carrinha ou num armazém. vanrío sacos do grãos do cereais em vez da de Heathrow, em Londres, descobriu se lie
veste-se-lhe um "colete" especial - sinal droga — o voltado a colocar a bordo sem roina escondida em paneis de caramelos.
de que deve começar a trabalhar. Quando que ninguém disso se
localiza um cheiro que sabe lhe trará uma apercebesse. O navio
recompensa, o cão fica agitado o excitado. continuou a sua viagem
Nossa altura, entram os funcionários da e o contentor foi descar-
Alfândega ou da Polícia. regado no porto holan
dés de Roterdão. Foi leva-
Amostras de ar do para um parque do
As máquinas,utilizadas na detecção do caravanas, onde um gru
drogas e explosivos aspiram ar por um po de oito homens CO
tubo que pode sor introduzido em espaços nieçou a cortar o tecto.
escusos, como depósitos de gasolina, for Nossa altura, a Polícia
ros dos automóveis ou intervalos onlre pa- Holandesa apareceu o
redes. Recolhem-se também amostras de prendeu os traficantes,
ar de contentores c camiões onde se sus que foram julgados o
peita que possam estar escondidas drogas condenados, com penas
e matérias explosivas. de até sois anos, por trá-
As amostras do ar são analisadas por um fico do cocaína.
aparelho, o espectrómetro de massa, que
as decompõe nos seus componentes quí- Óculos escuros
micos o identifica os mais pequenos vesti Todo o passageiro que chega do estrange
gios de substâncias usadas nos explosivos ro e se mostra nervoso desperta a atenção
ou nas drogas. do pessoal das alfândegas. Este está atonto
Afirma se que podem ser identificados a quem quer que se mostre demasiado agi
vestígios Ião diminutos como um Irilioné- tado que pisque os olhos mais vezes
simo de grama. que as habituais; que uso óculos escuros
para esconder estes sinais denunciadores;
Movimento de electrões que transpire exageradamente (particular-
Km alguns aeroportos internacionais mente os homens, nas costas das mãos),
incluindo o de Seul antes dos Jogos Olím- ou cuja respiração seja acelerada.
picos de 1988 -. foram instaladas máqui- Despertada a suspeita, os funcionários
nas "farejadoras", através das quais podem aduaneiros servem-se de equipamento es-
transitar pessoas. Estas máquinas detec- pecial para aprofundar a busca. Com um
tam dinamite ou nitroglicerina, que enn espoei roscou i o — tubo comprido e delga- Olho que espreita. Um funcionário adua
tem um vapor que atrai electrões. Uma do com uma lente na extremidade - . con- neiro utiliza um espectroscópiò para obser
corrente eléctrica que atravessa a máquina seguem ver o interior dos depósitos de ga uar um depósito de gasolina em busca de
detecta o movimento dos electrões. solina ou os forros das portas dos automó- cannabis que ali possa estar escondida

98
O ESTRANHO CASO DOS CARACÓIS PORTADORES DE DROGA
Em Julho de 1988, um funcionário adua- totalizando cerca de G00 g de droga.
O traficante foi preso, e os funcioná-
Reconstituindo
neiro do Aeroporto de Hanôver, na Ale
manha, suspeitou de um passageiro
que transportava um saco em mau esta-
rios aduaneiros de Hanôver transmiti-
ram o caso aos seus colegas por toda a
os últimos
do e acabara de chegar. Alemanha. A partir de então, dedicou-se
especial atenção aos passageiros vindos
momentos de um
0 saco foi aberto, verificando-se que
continha um saco de plástico cheio de
caracóis comestíveis vivos da espécie
da Nigéria.
Duas semanas depois, foi apanhado
desastre de avião
Achalina fálica, cuja casca é do tama- no Aeroporto de Hanôver outro nigeria-
nho de um punho. Partindo uma das no que tentava passar uma porção de O avião é normalmente um meio de trans-
cascas, o funcionário descobriu no seu heroína ligeiramente maior, também es porte extremamente seguro. As estalísti
interior diversas pequenas embalagens, condida em conchas de caracóis Achali- cas mostram que, anualmente, cerca de
contendo cada uma cerca de 30 g de na. Graças à atenção de um funcionário, 1100 pessoas morrem no Mundo em aci-
heroína. Embalagens semelhantes fo- fora frustrado mais um engenhoso meio dentes aéreos - contra 40 000 em aciden-
ram encontradas nos outros caracóis, de fazer tráfico de droga. tes de viação só nos EUA.
No entanto, desde os primórdios da
aviação que os acidentes se verificam. 0
Às vezes, uma peça de bagagem desem- cuperando-os depois por ríefecação ou primeiro a ser registado deu-se em 1908.
barcada de um avião pode ser "apontada" vómito — ou os introduzem nos orifícios Thomas C. Selfridge, tenente do Exército
por uma máquina de raios X ou um cão do corpo. Americano, morreu quando o avião de Or-
treinado. Os funcionários aduaneiros Nos portos de ferry-boats e nas frontei- ville Wright caiu em Kort Myer, Virgínia,
aguardam que ela seja levantada pelo ras terrestres, os condutores ou passagei- após se ter partido uma hélice de madeira.
dono - e detêm no à passagem pelo pos ros sem explicação adequada para a sua Wright, um dos pioneiros dos voos pilota-
to de controle. viagem, os que se mostrem tensos ou hesi- dos, partiu uma perna. Selfridge, seu pas-
Os funcionários das alfândegas estão tantes ou uma pessoa mal vestida condu- sageiro, morreu quase instantaneamente.
atentos aos passageiros provenientes de zindo um automóvel de luxo podem ser Actualmente, quando um avião se des-
países conhecidos como exportadores sujeitos a revista. penha — seja um pequeno avião de dois
de droga. Em particular, estão atentos Muitas capturas resultam de suspeitas passageiros, seja um Jumbo transportan-
aos correios que transportam as drogas, surgidas no momento, mas muitas mais do mais de 500 pessoas —, procede-so
principalmente cocaína e heroína, den- são devidas a horas de penoso trabalho de sempre a uma investigação cuidadosa so-
tro de preservativos, que engolem - re- investigação. bre as causas do acidente para delas se po-

Tragédia no espectáculo aéreo. Três pessoas morreram num Airbus francês que caiu quando tomava parte num espectáculo aéreo perlo
de Multtouse, no Leste de França, em Junho de 1988. A queda verificouse quando o avião entrou por uma mata com áwores de 12 m de altura.
Miraculosamente, 133 outros passageiros do Airbus sobreviveram à queda, embora o avião tivesse ficado quase totalmente destruído. A
descida do aparelho foi aparentemente amortecida pelas árvores sobre que aterrou. O piloto foi despedido pela Air Frunce quando os registos
de voo da caixa negra revelaram que ele não obedecera a avisos sonoros dos controles para que aumentasse a altitude.
derem tirar lições que evitem futuras trage-
dias. AS MAQUINAS QUE REPRODUZEM A TRAGÉDIA
Quer a causa suspeita seja uma bomba
ou uma peça defeituosa, os princípios da
investigação são os mesmos. Os primeiros
passos incluem a recuperação dos destro
ços, estejam numa montanha ou no fundo
do mar. Os investigadores de acidentes aé-
reos dirigem se ao local. Fazem um mapa
da área em que se encontram os destroços,
o que pode revelar a sequência da queda, e
recolhem amostras de todos os destroços
para o caso de alguma delas poder fornecer
algum indício. Os metais fendem ou fun-
dem de maneira diferente, conforme os ti
pos cie calor, de pressão ou de explosão.
A recolha e exame dos corpos orienta-
dos por peritos médicos podem determi- Investigadores examinam o aparelho de registo de ooo de um avião da Air Florida que se
nar a altura e a causa da morte e contribuir despenhou no rio Potomac, Washington DC. em Fevereiro de 1982. O gravador de vozes
assim para descobrir a origem do desastre. do cockpil (ã direita) registou as conversas da tripulação durante o ooo.
0 ano mais fatídico em desastres de avia-
ção foi o de 1985, em que mais de 800 pes- Os destroços que mais importa recupe- Os aparelhos de registo de vozes do
soas morreram em dois desastres com rar são os dois aparelhos de registo cockpil gravam as conversas e outros
Jambos Boeing 7-17. A princípio, julgou-se transportados a bordo dos aviões civis. sons da tripulação. Funcionam em fita
que os acidentes tinham sido causados por 0 aparelho de registo de voo fornece continua, que dura 30 minutos, pelo
talhas mecânicas dos aviões, mas ficou pro- uma cravação dos movimentos dos ins- que, em qualquer altura, apenas estão
vado que esta ideia não linha fundamento. trumentos principais, como os indica- gravados os últimos 30 minutos. No en-
O primeiro acidente deu-se com um 747 dores de velocidade e de altitude e as tanto, este sistema tem um ponto fraco:
da Air índia que se dirigia a Deli, procedeu posições dos lemes e dos aHerons. As se com a queda o gravador não parar,
te de Vancouver, via Londres. A cerca de informações são registadas sob a forma este continuará a funcionar, apagando a
31 000 pés (9500 m.) sobre o Atlântico Nor de impulsos electrónicos numa fita. parte vital da informação.
le. a oeste de Shannon, na Irlanda, o avião Quando esta é passada, fornece um grá- Estes aparelhos de registo estão insta
desintegrou se e mergulhou no mar. Os fico computorizado dos movimentos lados na cauda do avião — a zona de
32!) ocupantes morreram. do avião. Pode igualmente programar- maior probabilidade de sobrevivência à
Embora mais de 130 corpos e alguns •se um visor de computador para que queda - numa caixa de paredes duplas
destroços tenham sido rapidamente re- reproduza o mostrador dos instrumen- de aço inoxidável, contendo entre elas
cuperados, levou três meses a localizar e tos principais, dando uma imagem mais um material termoisolante. Devem ser
traçar um mapa do resto do avião. A maior realista. Os aparelhos de registo de ele- capazes de suportar sem danos uma
parte encontrava-se no fundo do mar. a mentos de voo podem gravar até 200 temperatura de 1I00"C durante 30 mi
2000 m de profundidade. Foi localizado horas de tempo de voo. nutos.
pelo emprego de equipamento de sonar e
mini submarinos, a partir de barcos de re-
cuperação trabalhando à superfície. recuperados tinham estado sentados e es de todos os instrumentos. A tripulação lu-
Os primeiros e mais importantes destro- tabeleceram os padrões de diferentes tipos tou durante 32 minutos para manter o
ços a serem recuperados foram o aparelho de ferimentos, o que apoiou a teoria de avião no ar, até que este se despenhou,
de registo de voo e o gravador de vozes do que 0 avião explodira no ar. desintegrando se quase completamente.
cockpit (cabina de pilotagem). Estes apa- Outro indicativo surgiu quando investi Os quatro sobreviventes ocupavam, jun-
relhos são frequentemente apelidados de gadores canadianos descobriram que na tos, quatro lugares no centro do aparelho.
"caixas negras" mas, na realidade, são carga figurava urna mala de um passageiro A gravação das conversas entre a tripula-
habitualmente cor de laranja ou verme- indiano que não embarcara ção e os controladores de tráfego aéreo
lhos para serem vistos mais facilmente. Um conjunto de circunstâncias seme revelou-se de pouco valor. Mas a história
Ihanles rodeou a explosão de uma mala no do avião mostrou que este fora reparado
Bomba terrorista Aeroporto de Narita, em Tóquio, que ma- pelos fabricantes, a Boeing, depois de uma
Quando o gravador de vozes da cabina tou dois bagageiros, quase à mesma hora má aterragem em Osaka em 1978, na qual
- que regista em fita gravada OS sons no in- em que ocorria o desastre do avião da Air a parte de trás do avião raspara na pista
terior do cockpit foi posto a funcionar, índia. Ambas as inalas foram identificadas O exame dos destroços revelou que os
pareceu aos investigadores terem ouvido c> como pertencentes a um mesmo homem mecânicos que procederam à reparação
som de uma explosão gravado no último de Vancouver, e pensa se que as explosões tinham deixado um pequeno espaço entre
milissegiindo de fita antes da desintegra foram obra de terroristas sikhs. as chapas de reforço de uma junção rebita
çâo do avião. Embora não houvesse prova Dois meses depois do desastre da Air da num dos tabiques divisórios. Este inter
directa de uma bomba terrorista, os destro índia, um 747 das Linhas Aéreas Japonesas valo expusera a junta a pressões que te-
ços apresentavam sinais bastantes para a que voava entre Tóquio e Osaka despe riam levado ã sua ruptura, permitindo a
tornarem plausível. Os assentos estavam nhou se contra o monte Osutaka, 113 km a passagem de ar da cabina para o sector da
queimados por baixo e a porta de carga de norte de Tóquio. Apenas A dos 528 passa- cauda. Como consequência os cabos de
vante parecia ter sido atirada para fora, en geiros se salvaram. controle hidráulico tinham rebentado, ar
quanto outras se mantiveram intactas. Alguns minutos depois de levantar voo, rançando o leme de direcção e os de pro
Os peritos conseguiram também apon- ouviu-se um grande estampido na parte de fundidade, o que tornara impossível o do
tar exactamente os sítios onde os corpos trás da cabina, seguido pela falha completa rnínio do avião.

100
Ideias práticas
e soluções engenhosas
Fotografar uma bala em movimento, converter o vento em energia
eléctrica e transformar fibras em linha de coser — o homem descobre
a resposta a numerosos problemas fascinantes.
Como se obtêm os metais puros
São poucos os melais que emergem da pecto, pouco diferem de rochas ou terra.
terra perfeitos e brilhantes. Às vezes, des O primeiro passo na obtenção do metal
cobrem-se pepitas de ouro: em 1869, foi puro é separar o minério da terra e das
encontrada em Vitória, na Austrália, uma pedras que com ele são escavadas. Caria
pepita de ouro puro pesando quase 70 kg. metal exige o seu processo próprio.
Mas outros metais aparecem sob disfar- As companhias mineiras de chumbo e
Ferro. A hematite, ces pouco vistosos, combinados com oxi- cobre juntam os minérios a uni líquido so-
um minério de ferro, deve o nome à sua génio, enxofre, carbono e outros elemen- bre o qual se formou espuma por meio de
semelhança com sangue seco. tos e formando minérios que, no seu as- borbulhamento por ar; este líquido contém
ainda um produto químico que se Ouro. Os de-
designa por colector e que faz com pósitos de ouro,
que as partículas minerais adiram à chamados filões,
superfície das bolhas de ar, en- encontram-se ern
quanto o restante material se depo- •,* oeios de
sita no fundo. Os materiais valiosos
são transportados pela espuma para se-
rem recolhidos e secos.
Para extrair o metal puro do minério,
utiliza-se muitas vezes o calor num proces-
so de fusão. 0 homem primitivo descobriu
que, ao aquecer minérios num fogo de car-
vão, obtinha uma massa esponjosa que
podia martelar para fabricar utensílios.
0 cobre era fundido por este processo
no antigo Egipto e, mais tarde, foi utilizado do corno -^ ^ • k * !
o mesmo método para a produção de um depósito o ^il,T' '
metal más útil, o ferro. Na época medieval, ferro.
descobriu-se que o emprego de fornalhas A versão
com foles para insuflar o ar aumentava a moderna
temperatura do fogo, obtendo-se não um deste proces-
pedaço informe de metal, mas ferro líqui- so utiliza o co
do que podia ser vazado em moldes. que, em vez do carvão de madeira, como
0 minério de ferro é constituído por óxi- fonte de carbono e tem lugar em enormes
do de ferro, porque o metal, no estado natu- altos-fomos com capacidade para produzir
ral, se encontra combinado com oxigénio. diariamente milhares de toneladas de ferro.
No processo de fusão, o óxido de ferro rea- O ferro assim produzido, a gusa, possui
ge com o carbono obtido pela conversão demasiado carbono para a maioria das uti-
da madeira em carvão. Os átomos de oxigé- lizações, pelo que tem de ser convertido
nio desprendem-se do ferro e juntam-se ao em aço pela remoção do carbono. O aço é
carbono, produzindo um gás, óxido de car- a forma mais importante do ferro.
bono, o qual por sua vez se liberta, deixan- 0 alumínio ocorre em combinação
com o oxigénio no minério bauxite. Em-
bora seja de todos o metal mais abundan-
te, apenas começou a ser produzido em
quantidades significativas no final do sé
culo xix, por requerer grande quantidade
de energia para ser separado do oxigénio.
O processo utilizado é a electrólise. Faz-
-se passar uma corrente eléctrica por um
banho de óxido de alumínio fundido, o
que vai retirar o oxigénio e deixar um de-
pósito de alumínio líquido. A maior dificul-
dade reside no ponto de fusão extrema-
mente alto do óxido de alumínio — mais
de 2000°C, comparados com os 1600"C do
ferro. O problema resolve-se misturando o
óxido de alumínio com um fundente, nes-
te caso um mineral chamado criolite (fluo-
reto duplo de sódio e alumínio), que baixa
o ponto de fusão para 1000°C.
O ouro ocorre frequentemente sob a
forma de escamas ou pequenos grãos no
leito dos rios. 0 problema consiste em se-
parar as diminutas quantidades de metal Granulação d
da massa de matérias inúteis (ganga). Gotas de ouro derretido
Os pesquisadores extraíam-no por uma são lançadas em águt
operação puramente mecânica, para o fria (em cima). Os grãc
qiie utilizavam bateias (espécie de pratos que então se formam (à direita, em tama-
grandes). Mergulhando as bateias no rio e nho natural) podem ser pesados com preci-
agitando as em seguida, conseguiam se- são quando adquiridos por um joalheiro.
parar as escamas de ouro das areias, que,
sendo menos densas, eram levadas pelas que dissolve o ouro. A solução já conten-
De minério a ferro. O minério é transfor águas, deixando depositado o ouro, mais do o ouro é filtrada para remoção das im-
mado em ferro num alto-forno, onde reage denso. purezas não dissolvidas, e o ouro é final-
com coque e calcário a uma temperatura Actualmente, usa-se um produto quí- mente separado por precipitação. Uma
de I600"C. A gusa (ferro fundido) é vazada mico. O minério, triturado, é misturado tonelada de minério produz cerca de 10 g
em lingotes (em cima). com uma solução de cianeto de potássio, de ouro.

103
Vidros de ir ao forno e cristal
de chumbo
Como se transforma areia em vidro Outros materiais podem ser adicionados
para dar cor ou melhorar a qualidade do
vidro acabado. O vidro com 10 a 15% de
Há 5000 anos, nalguma praia do Médio por rochas que o mar desfez em minús- ácido bórico, resistente a aquecimento ou
Oriente, alguém terá feito uma fogueira e culas partículas, a areia é a principal fonte arrefecimento súbitos, é utilizado em pe-
encontrado depois, sobre a areia, peque- de sílica. ças de ir ao forno. A incorporação de óxido
nos glóbulos transparentes brilhando Na próxima vez que for à praia, examine de chumbo produz um vidro pesado e bri-
como jóias. Como é que estas curiosida- um punhado de areia. Os grãos semitrans- lhante o cristal de chumbo.
des se transformaram num dos mais im- parentes — e não pretos, vermelhos, ama A moderna chapa de vidro obtém se
portantes materiais do século xx o relos ou de outra cor bem definida — são aquecendo os ingredientes em tanques
vidro9 grãos de quartzo. A areia contém outros compridos. A mistura contém sempre vi-
A matéria prima para o fabrico do vi minerais, mas o quartzo é o seu compo-
dro é a sílica, que, sob a forma de quartzo nente principal, porque c duro, insolúvel e
— sílica cristalizada —, é o mais abun não se decompõe, e por isso dura mais.
dante de todos os minerais da Terra. Ge- A sílica pura tem um ponto de fusão Ião
ralmente transparente ou de cor branco- elevado que o fogo de uma fogueira vulgar
•leitosa, encontra-se em muitas rochas, não a converte em vidro. Por isso, os pri
designadamente no granito. E como to- meíros vidreiros do Médio Oriente devem
das as praias do Mundo foram formadas ter feito a sua fogueira sobre areia impreg
nada de soda (carbonato de sódio) deixa
da pela evaporação da água de um lago ou
VIDRO DURO - PLÁSTICO MOLE do mar. A soda actua corno fundente, bai-
0 vidro é duro, mas frágil, porque nele xando o ponto de fusão da sílica.
cada átomo está unido aos outros por Actualmente, coinbinam-se cal e soda
ligações químicas muito rígidas, que, com a sílica para produzir o vidro utilizado
submetidas a uma força suficiente, se no fabrico de garrafas, vidraças e copos
quebram. Os plásticos transparentes baratos. Quando arrefece c solidifica, o vi-
são polímeros formados por molé- dro não retoma uma estrutura cristalina
culas muito grandes. Estas são enor- como a do quartzo, mantém uma estrutu-
mes cadeias flexíveis constituídas por ra desordenada, como que a do líquido
milhões de átomos. As ligações entre congelada - é um material amorfo muito Vidro à prova de bala. As janelas dos au-
estes são muito fortes, mas as ligações transparente. Por arrefecimento lento ou tomóveis dos diplomatas podem ser feitas
entre cadeias sáo fracas, o que torna tratamento térmico posterior, o vidro pode de vidro reforçado com folhas de plástico
os plásticos flexíveis. começar a cristalizar, tornando se translú- endurecido. A janela absorve a energia da
cido, de um branco leitoso. bala, e o plástico evita os estilhaços.

FABRICO DE VIDRO NUM BANHO DE ESTANHO FUNDIDO


Tremonha
de ,_ Tremonha da frita
estilhaços
de vidro

Vidro por flutuação. As mate Os ingredientes. A frita, mistura de areia, soda e Fornos de fusáo. Jactos de chama sáo projecta
rias primas são fundidas ern for- cal, é combinada com estilhaços de oidro c sulfato dos dus paredes do forno, que atinge a temperatu-
nos enormes. de sódio impuro para ser aquecida no forno. ra de I590"C, para fundir os ingredientes.

104
dro partido, que funde a temperatura infe- Fabrico de vidraças à antiga
rior à dos outros materiais e os ajuda a
combinarem-se mais completamente.
Enquanto a chapa acabada sai de uma
das extremidades do tanque, na outra ex-
A técnica de fabricação de vidros
para janelas foi aperfeiçoada no
século xiv na Normandia, em França.
Cada peça deste vidro, conhecido
tremidade entram as matérias-primas, de
forma a manter constante o nível do tan- como vidro coroa (crown glass), era in-
que. dividualmente soprada por um artesão.
Um soprador experimentado fazia ape-
Mais forte que o aço nas cerca de 12 vidraças por dia. Este
Pensa-se que o vidro é um material fraco, processo de fabrico consistia em soprar
mas na verdade ele é muito forte. Uma fibra o vidro por um tubo até formar um
de vidro sem fissuras submetida a tracção grande balão. Este era depois achatado
longitudinal é cinco vezes mais resistente e ligado a uma haste de ferro chamada
que o melhor aço. Fibras de vidro ligadas pontel, que o operário fazia girar o mais
com plástico produzem um material resis- rapidamente possível.
tente e elástico — o plástico reforçado com O balão de vidro, achatado, ia se alar-
fibra de vidro, utilizado em cascos de barcos gando até formar um círculo de 1 a 2 m
e carroçarias de automóveis. de diâmetro, conforme o tamanho do
0 vidro de segurança obtém-se por dois balão inicial e a perícia do artesão.
processos: por têmpera e por laminaçáo. As chapas circulares de vidro redon-
Na têmpera, o vidro é aquecido até exacta- das e planas eram então cortadas para
mente abaixo do seu ponto de fusão e de- formar pequenas vidraças, especial-
pois arrefecido rapidamente com jactos de mente destinadas às igrejas. A parte
ar. Ao arrefecer e contrair-se antes da parte central do disco, contendo a zona de
interior, a superfície do vidro fica comprimi- fixação ao pontel, de grande espessura
da. Como só depois de superada esta com- e rodeada por estrias circulares, era a
pressão o vidro se quebrará, o vidro tempe- menos transparente, mas aproveitava- Vidro coroa. Um soprador de vidro gira
rado suporta melhor a flexão e a percussão. -se dado o seu elevado preço. urna chapa de vidro num pontel.
Além disso, quando se parte, desintegra se
em fragmentos, em vez dos estilhaços peri-
gosos do vidro vulgar. este continua a aderir ao plástico, não sol formados por três ou quatro placas de vidro
Outro tipo de vidro de segurança é uma tando os estilhaços, o que o torna apropria- intercaladas com placas de polivinilo e são
"sanduíche" de duas placas de vidro unidas do para os pára-brisas de automóveis. capazes de resistir ao choque de uma ave
por uma folha de plástico. Embora esta últi- Os pára-brisas de avião têm de ser capa- grande com o avião voando até 650 kuVh.
ma possa ser muito delgada, é resistente. zes de suportar altas pressões, temperatu- Este mesmo vidro protege os pilotos de
Uma pancada pode estilhaçar o vidro, mas ras extremas e impactes de aves em voo. São aviões militares contra as balas.

BANHO DE ESTANHO FUNDIDO CÂMARA DE TEMPERATURA CONTROLADA


I
Elementos
de aquecimento
Regulador de temperatura
Rolos de transporte
Queimador a gás da fita de vidro

T T
* T/-.I I l i . I I » ^>» * _ I

Estanho líquido. O vidro fundido escorre sobre a superfície de um . Chapas de vidro. Depois de arrefecido, o vidro sai do banho, desli
banho de estanho em fusão. A medida que avança, flutuando, o vidro za em cilindros, é cortado em chapas e lavado com jactos de água. O
arrefece até 600"C e solidifica, ficando com uma superfície mais plana. vidro por flutuação tem espessura uniforme e é liso dos dois lados.

105
Vitrais medievais
Como se faz
A estrutura do vidro, apesar de forte,
contém muitos espaços vazios
porque os seus átomos estão aglomera-
dos ao acaso, como um monte de lijo
nio, amarelo, e o manganês, púrpura.
Vidros do tamanho aproximado deste
livro eram fabricados em diferentes co-
res e depois cortados com as formas
papel a partir
los, e não alinhados ordenadamente,
como os tijolos numa parede.
requeridas. Finalmente, eram monta-
dos para formarem janelas completas.
das árvores?
Lsles espaços podem ser ocupados As variações da espessura do vidro,
por átomos de metais que afectam a inevitáveis na tecnologia medieval, real- Foi uni funcionário ligado ã corte imperial
forma como a luz é transmitida através çavam a beleza das janelas, proporcio chinesa. Tsai Lun, quem, por volta do ano
do vidro. Metais diferentes absorvem nando subtis variações de tonalidade. 105, descobriu o processo de fazer papel.
luz de diferentes frequências, dando ao Quando se aperfeiçoaram as técnicas Até então, a maioria dos documentos fora
vidro que os contém uma cor caracte- do fabrico de vidro, perdeu se muila escrita em pergaminho, leito da pele de
rística. desta subtileza. carneiros ou cabras, ou em velino, leito de
Este princípio está na origem de uma pele de vilela. Os antigos egípcios tinham
das magnificências da catedral medie Cores intensas. Este vitral de urna igre usado o papiro, feito com fibras interiores
vai, o vitral. ja em França represento a coroação da do caule do papiro prensadas e setas, mas
Quando adicionado ao vidro fundi- Virgem. A diversidade dos azuis deoe-se não se tratava de verdadeiro papel, fabrica
do, o cobre torna-o vermelho-rubi; o às diferenças de espessura das peças de do com fibras transformadas em pasta.
cobalto, azul; o ferro, verde; 0 antimó vidro. Ts'ai Lun fabricou o seu papel com li
bras de amoreira, redes de pesca, trapos e
refugos de cânhamo. Quase qualquer ma-
terial fibroso pode ser utilizado no fabrico
de papel. É triturado com água até ficar em
pasta, branqueado, tratado com uma cola
para impedir demasiada absorção de tinta
e finalmente prensado em folhas.
Até 1850. a matéria prima básica eram

AS MARCAS DE AGUA
NO PAPEL
E NAS NOTAS DE BANCO

Chama se marca de água a um sinal


feito na própria contextura do papel
cujo desenho só é visível em contraluz.
A primeira marca de água apare-
ceu por acaso na fábrica de papel Fa-
briano, na República de Pádua, em
Itália, onde se produz papel desde
1260. A peça que estava a ser usada
para espremer a água do papel mo-
lhado tinha um pequeno arame sa-
liente. O papel ficou mais delgado no
sítio em que o arame penetrou nele,
fazendo uma linha que podia ver-se
colocando o papel contra a luz.
Surgiu a ideia de se fazer um dese-
nho completo de arame, criando uma
marca de água decorativa. R em 1282
nasceu a primeira marca deliberada —
uma simples cruz.
O método actual é praticamente o
mesmo. O papel molhado é prensado
por um rolo com um desenho em re-
levo que produz a marca de água.
As marcas de água são usadas des-
de há séculos para identificar os fabri-
cantes de bom papel de carta. Para
dificultar a falsificação das notas de
banco, usam-se marcas mais comple-
xas, representando as efígies de che-
fes de Estado ou de heróis nacionais.
Também na filatelia as marcas de
água tem um papel importante.

106
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ást-sas^
JWM® 5
*

Papel Bond. Este papel de Qlta qualidade Papel de jornal. Este papel de textura ás- Papel «tissue». Fibras achatadas e entre
incorpora habitualmente unia parle de pera utiliza uma pasta de qualidade inferior teadus sem compactação duo Hw textura
pasta de trapos. É normalmente tratado tratada mecanicamente e amarelece em macia e a pasta de madeira tratada com
com caseína, um derivado do leite. poucos dias se exposto ao sol. resinas vegetais temiam no mais absorvente.

os trapos de linho e algodão, que produ-


ziam um papel excelente. Mas a procura
crescia tão rapidamente que era necessá-
ria nova matéria prima — e a resposta foi a
polpa de madeira, geralmente de arvores
de madeira macia, como as coníferas.
A madeira é em grande parte constituí
da por celulose, matéria orgânica formada
por fibras resistentes com cerca de 2.5 mm
de comprimento. As árvores abatidas são
partidas em lascas, constituindo a estilha
de madeira. Esta é introduzida em enor-
mes recipientes os digestores ondeé
misturada com produtos químicos (habi-
tualmente, sulfato de sódio) e sujeita a
temperatura e pressão elevadas. As fibras
separam-se, formando a pasta de papel.
As impurezas, como a resina e o pez, são
removidas, e a pasta é branqueada e mistu-
rada com produtos que lhe dão a cor pre-
tendida ou a tornam mais branca ou com
agentes ligantes que unem melhor as fi-
bras. A mistura sai então de um grande
reservatório, através de uma ranhura estrei-
ta, para uma rede em movimento que per-
mite que a água escorra, mas que retém a
maioria das fibras. A fita de pasta é prensada
para se extrair mais água e secada ao passar
por uma série de rolos aquecidos por va-
por. Por fim, o papel pode ser revestido com
uma mistura de pigmentos, de carbonato
de cálcio, caulinos ou dióxido de titânio
para lhe melhorar a superfície.

Fábrica de papel. Esta gravura alemã do


século xvu mostra-nos uma fábrica de pu
pel da época. Uma roda de azenha de ma-
deira acciona as hastes que trituram os Ira
pos com a água numa grande celha. O pro-
duto é medido e comprimido em tolhas,
que depois se penduram em uarões de ma-
deira para a secagem. As folhas secas suo
atadas em resmas e. finalmente, transpor
ludas em burros até aos tipógrafos.

11)7
por ano. A produção anual ultrapassa os
POR QUE RAZÃO OS LIVROS E DOCUMENTOS ANTIGOS II 000 milhões de litros e terá rie subir mais
DURAM MAIS QUE OS MODERNOS? 2000 milhões para satisfazer a prtxjura.
Nos EUA, o álcool à base de milho é
também produzido comercialmente e é ha-
VIO bitualmente misturado à gasolina normal
como antidetonante, evitando o emprego
intuo • tu: M boftir Qtmii tr.^ >q< de produtos que contêm chumbo.
Bula a nu tt babo tibi çturo bmui-
tutnn tua: tt juffruí oiú tua tininoa
tiw.lVproíiunsatonran
rçoaounulirathii[irotoa.*ntmu
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ftiBlmaiu: i:r quabo iiatcatur inmi>
Será o carvão a
luioipmunebtaiaiuSsA "íumir
arítm tn tmut na tiuo: ttati amura
qui ranhbuntin ro.iMnluiua òittufl
resposta a uma
min fiujtnr afluir rtbfolmi filii fm.
'á voraint qo nlnulii.ir, íum qui
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crise de petróleo?
uafummrí(f>ulnlii(úiiiiimtciurr:
iMS. DMb sn HOTMIIMI, 1 (DUÒJM è CtmO •Í-;I

Papel que envelhece. A Bíblia de Gutenberg (à esquerda), impressa no século xv em Na Africa rio Sul, onde o carvão é abundan-
papel pergaminho fino, ainda em excelente estado. O livro de receitas de 1914 (à direita), te e de baixo preço, a empresa Sasol foi a
em papel de pasta de madeira, que contém ácidos, está já a ficar amurelo. pioneira de um processo de conversão do
carvão em petróleo.
A descoberta de que podia fabricar-se para os arquivistas e bibliotecários signi- O carvão é colocado em grandes reci-
papel a partir da madeira tornou possí- fica que, potencialmente, lodos os livros pientes, acendido e submetido durante al-
vel a comercialização maciça de livros e que se publicaram depois de 1850 pode- guns minutos a um jacto de vapor de água
jornais. Mas, contrariamente ao perga- rão estar a autodestruir-se lentamente. e oxigénio a alta pressão. O carvão, ao ar-
minho, ao velino ou aos papéis à base de Os bibliotecários estão agora a pro- der, produz grandes quantidades de gás
trapos, o papel fabricado com pasta de curar uma forma económica de tratar as rico em hidrogénio e carbono — elemen-
madeira tem uma vida limitada. Os bi- suas enormes existências de livros. Pre tos a partir dos quais se pode produzir pe-
bliotecários começam a aperceber-se sentemente, o único processo é arran- tróleo. Como esle tem aproximadamente
de que os livros modernos se deterio- car-lhes a encadernação e tratar as pági- o dobro dos átomos de hidrogénio do car-
ram rapidamente. nas uma a uma para eliminar os ácidos. vão, tem de se adicionar hidrogénio ao gás
O problema está em que eles contêm No entanto, embora esle procedimento de carvão. Este é fornecido pelo vapor de
produtos químicos, incluindo ácidos do possa juslificar-se no caso de algumas água. O carvão em combustão gera ener-
processo de branqueamento, que os primeiras edições valiosas, é impraticá- gia suficiente para decompor as moléculas
corroem. Para a maioria dos leitores, vel para a totalidade dos livros. Contudo, de água do vapor em átomos de hidrogé-
este problema pouco importa, porque alguns fabricantes já estão a produzir pa- nio e de oxigénio. O hidrogénio assim pro-
já leram os livros muito antes de se tor- pel com uma colagem neutra que lhe duzido dá ao gás o equilíbrio correcto en-
nar evidente o seu envelhecimento. Mas prolonga a vida. tre este elemento e o carbono.
Este gás tem de ser lavado com metanol
para o libertar do enxofre o rie cianetos. É
depois transferido para reactores, onde uni
tratamento químico ulterior determina o
Converter plantas em gasolina produto final. Os reactores podem produ-
zir gasolina, óleos, ceras, gases de petróleo
liquefeitos e outras substâncias químicas,
Um dos mais antigos passatempos do ho- lico — semelhante ao vinho ou à cerveja. lais como álcoois, aldeídos e cetonas, mas
mem é produzir bebidas alcoólicas com Para combustível, usa-se álcool puro. o processo é muito dispendioso.
plantas fermentadas. Actualmente, com o pelo que é necessário concentrar a mistura
petróleo a esgotar-se e o seu preço a subir, por destilação - aquecimento rio líquido
o álcool feito a partir de plantas está a ter até à vaporização do álcool e condensação
uma nova utilização — a de combustível
para veículos.
do vapor de forma a extrair o álcool e dei
xar a água. Esta última fase, a produção de
Captando
O maior produtor mundial de álcool ve-
getal para combustível é o Brasil. Dois anos
álcool anidro, requer grande quantidade
de energia e tem originado críticas no sen-
a fragrância
depois da crise do petróleo de 1973, o Bra
sil lançou o seu programa rio álcool como
tido de que a produção de combustível por
esta forma pode consumir mais energia do
das flores
reacção à subida dos custos rie importa que a que fornece. O Departamento de
çáo daquele produto. Este país utiliza uma Energia rios EUA verificou que, quando se Os aromas frescos de um jardim no Verão
matéria-prima de baixo valor comercial usa milho para produzir álcool, são neces- ou as fragrâncias tropicais de uma floresta
que produz em abundância — a cana-de sárias 109 unidades de energia para se ob- equatorial são causados por minúsculas
-açúcar. terem 100 de combustível. gotículas de líquidos oleosos produzidos
Inicialmente, o processo é o mesmo, Mesmo assim, a produção de álcool no pelas plantas. São estes óleos essenciais
quer o produto final seja uma aguardente Brasil tem prosperado: mais de 80% dos naturais, juntamente com aromas produ-
de qualidade ou um combustível para auto- automóveis vendidos no país consomem zidos sinteticamente, que formam a base
móveis: o açúcar não refinado é misturado álcool puro ou com uma mistura de gasoli- da indústria rios perfumes.
com água e levedura e fermentado em cu- na, e os custos do petróleo importado des- Não se sabe ao certo porque é que as
bas até se transformar num líquido alcoó ceram cerca rie 2000 milhões de dólares plantas produzem óleos aromáticos. Uns

108
I poderão atrair os insectos; outros podem
destinar se a afastar parasitas ou animais
daninhos. Dos muitos milhares de plantas
do Mundo, apenas cerca de 200 produzem
por alguns estudiosos, que deitou unguen-
tos sobre os pés de Jesus em casa de um
fariseu. Esses unguentos continham quase
de certeza nardo, óleo aromático extraído
perfumeiro da Provença, no Sul de frança,
ainda se emprega para estes óleos delica-
dos o método chamado enfleurage; as fio
res são colocadas sobre camadas de sebo
a diversidade de óleos essenciais utilizados da valcriana-da índia, ou esficanardo e banha altamente purificados. Deixadas
pela indústria de perfumaria. Foram OS Árabes quem primeiro utili- num local fresco e escuro durante um a
Alguns perfumes chegam a conter 100 zou a técnica da destilação para extrair os três dias, as gorduras absorvem as essên-
essências diferentes; outros, apenas algu- óleos essenciais, e ainda hoje se utiliza um cias das flores, produzindo o que se chama
mas. Mas todos eles têm três elementos em processo semelhante. As flores ou as fo- uma pomada. As essências separam se da
comum: uma 'nota alta", formada pelos lhas da planta aromática são esmagadas gordura pela adição de álcool, que forma
ingredientes mais voláteis e que criam 0 ou cortadas em pequenos pedaços, de- com aquelas uma solução alcoólica pron-
efeito imediato; uma "nota média", que pois aquecidas com vapor de água para ta a ser misturada
modifica a impressão inicial e se destina a obrigar os óleos voláteis a evaporarem se. As essências são muitas vezes produzi
dar corpo ao perfume, e uma "nota de O vapor percorre um tubo de vidro arrefe- das em regiões remotas por empresas fa-
base", mais duradoura e persistente. cido que provoca a condensação dos miliares cujos métodos se mantêm desde
Os antigos gregos e romanos faziam un- óleos. As quantidades assim obtidas da há centenas de anos. A Bulgária é ainda
guentos perfumados imergindo flores, fo- maioria das plantas são mínimas, usual- responsável por 70% da produção mun
lhas e raízes em óleos gordos, que lhes mente inferiores a um milésimo de todo o dial de essência de rosas. Nos vales inferio-
extraíam os aromas. Quando Cleópatra material colhido. Mas a sua fragrância é Ião res dos Balcãs, os cultivadores de rosas diri
saiu a cumprimentar Marco António, en intensa que, mesmo numa solução de 100 gem-se para os campos ainda de noite,
sopou com perfume as velas púrpuras da para 1, se mantém poderosíssima. pois as pétalas têm de ser apanhadas antes
sua barca para o impressionar. A destilação nem sempre pode ser usa- da aurora para que mantenham a íragrán
S. Lucas conta nos a história de uma mu da, porque há certas fragrâncias que se de- cia. São precisas mais de 2000 pétalas para
lher, identificada como Maria Madalena terioraram com o calor. Em Grasse, cenlro cada grama do seu precioso óleo.
Certos óleos são produzidos ao ritmo de
apenas algumas toneladas por ano. Os
óleos são comprados por corretores, que
os vendem aos exportadores e estes aos
perfumistas, que compõem as suas pró
prias fragrâncias, uma arte difícil e delicada
Alguns perfumes leni características flo-
rais dominadas por aromas como a rosa
OU a gardénia Outros são orientais, de er-
vas ou especiarias, contendo óleos de ca-
nela da China, Birmânia e Sri Lanka ou de
noz-moscada da Indonésia e das índias
Ocidentais. As loções para depois de bar-
bear contêm frequentemente aromas de
especiarias, de madeiras ou de couros.
Para aumentar a persistência dos perfu-
mes, usam-se fixadores. Inicialmente, es-
tes provinham de produtos animais exóti-
cos - O âmbar cinzento, dos intestinos do
cachalote; o almíscar, de uma glândula do
almiscareiro macho; o civete, secreção do
gato de-algália, o eastórico. de uma glân-
dula do castor. Actualmente, contudo, os
fixadores são sintetizados quimicamente.
Uma vez composta determinada fra
grância, esta é vendida sob uma variedade
de fornias. A água-dc-colónia, ou de toilet
te. contém habitualmente de 2 a 6% de
essências dissolvidas em álcool. Os perfu
mes são mais intensos, com 10 a 25% de
essências também em solução alcoólica.
Nem todos os perfumes são fabricados
por métodos tradicionais. As substâncias
que produzem os aromas podem ser re-
criadas sinteticamente e os produtos obli
dos utilizados nos casos em que um perfu-
me convencional seria demasiado dispen
dioso - em ceras, desodorizantes do am
biente, desinfectantes ou champôs.

Campos aromáticos. Flores de alfazema


prontas u serem colhidas. O óleo obtido
pela sua destilação e usado como ingre
dienle em perfumes à base de flores.

Ui"
num fuso, pequeno pau com uma extre-
midade pesada, suspenso das próprias fi-
Como se transformam produtos bras que a ele estavam presas. Ao ser gira
do entre o polegar e um dos outros dedos,
naturais em tecido o luso fazia torcer as fibras, que iam sendo
retiradas de um outro pau, a roca.
As máquinas de liar obtêm mecanica-
A lã foi provavelmente a primeira fibra a ser lá de ovelha. A maioria das fibras de lá mente o mesmo resultado. A primeira
transformada com êxito em tecido dnran mede de 2.5 a 20 cm de comprimento. roda de fiar - que simplesmente fazia i>i-
te o Neolítico, há cerca de 7000 anos. O O linho é uma fibra que se obtém do rar o fuso — foi introduzida na Europa,
homem conseguiu assim a primeira alter- caule da planta com o mesmo nome. Ex- provavelmente a partir da índia, nos princí-
nativa ao vestuário de peles de animais. As trai-se abrindo o caule e mergulhando o pios do século xiv. Só em 1707 o tecelão
fibras de linho e de algodão também eram em água para separar as fibras da matéria inglês James Hargreaves construiu a fian-
conhecidas no mundo antigo. resinosa que as aglutina. As fibras têm de deira rotativa de oito fusos, criando na in-
No Egipto - onde a lã era considerada 15 cm a 1 m de comprimento. dústria a possibilidade de produção em
"impura" -, encontraram-se múmias de As fibras de algodão desenvolvem-se massa. Durante a Revolução Industrial, as
3400 a. C. embrulhadas em lençóis de li nas cápsulas do algodoeiro. São muito máquinas de fiar foram sendo aperfeiçoa
nho com LÍ00 m de comprimento. O algo- mais curtas que as do linho, formando fitas das, e em 1828 surgiu na América a ante-
dão já se usava na índia em 3000 a. C, e achatadas e retorcidas de 0,3 a 0,5 cm de passada de muitas das modernas máqui-
foram encontrados no Peru tecidos de al- comprimento. As fibras têm de ser retira nas de fiar a fiadoura de anéis. Uma
godão datando de 2000 a. C. das da cápsula e separadas das sementes, fiadoura moderna pode chegar a ter 500
Para transformar em tecido fibras como processo efectuado mecanicamente pelos fusos, cada um com mais de 0000 m de fio.
a lã, o linho e o algodão, são precisos dois descaroçadores.
processos: o primeiro é a fiação, pela qual Kntre outras fibras vegelais, contam-sc a Como trabalha uma máquina de fiar
as fibras são torcidas em conjunto para for juta, utilizada no fabrico de sacas e forros Os princípios da fiação são hoje exacta-
marem o fio; o segundo é a tecelagem, em de tapetes, e o cânhamo, fabricado da cun- mente os mesmos que quando o trabalho
que dois fios são entrelaçados em ângulo nabis e utilizado nos panos de velas, nas era processado manualmente. As fibras
recto para formar o tecido. lonas e nos oleados. são primeiramente "cardadas" — dispôs
A fiação era tradicionalmente uma tare- tas paralelamente entre si —, Irabalhando-
fa feminina, e a tecelagem, uma tarefa mas- Como das fibras se produz fio -as entre duas superfícies paralelas em mo-
culina. Antes da Revolução Industrial, Tal como existem, nenhuma destas fibras, vimento dotadas de bicos aguçados. Em
quando a fiação era toda manual, necessi- animais ou vegetais, é suficientemente seguida, são penteadas para retirar as fi-
tava-se da produção de cinco a oito mulhe- longa para ser transformada em tecido. A
res para ocupar um tecelão. Em um dia, fim de produzir um fio utilizável, as fibras Fardos de algodão. AigtxJao aguardando
uma mulher conseguia fiar cerca de 500 m têm de ser postas lado a lado e torcidas, um embarque no Arizona, EUA. Depois de co-
de fio de lã. processo denominado fiação. lhido, o algodão é comprimido em fardos
A mais importante rias fibras animais é a Originariamente, este trabalho era feito de 180 kg.

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110
bras cúrias, depois passam a máquinas
providas de cilindros que repuxam as li
COMO E ÇjUE UMA CAMISOLA DE LÃ
bras. tornando o fio mais fino c dando-lhes
NOS MANTÉM QUENTES NUM DIA FRIO?
uma torcedura que as mantém unidas.
Os fios podem lambem ser torcidos em Para nos mantermos quentes num clima frio, é indis-
conjunto para produzirem um fio nuílli pensável um isolamento eficaz que impeça que o ca
pio, mais forte e espesso como na lã de lor do corpo se escape. Os mamíferos possuem pêlos
tricotar de dois fios ou de três fios. Os fios ou camadas de gordura como isoladores do corpo,
de fibras mistas resultam da fiação conjun- mas o homem não possui gorduras suficientes e tem
to cie fibras de diferentes origens, como, poucos pêlos; tem assim de recorrer ao vestuário.
por exemplo, lã e poliéster, a fim de se ob- Os mamíferos, em geral, têm o corpo revestido por
ter uma combinação mais perfeita de ca- duas espécies de pêlos. Os da camada superior, mais
pacidade de aquecimento, resistência e fa- compridos e rígidos, tornam se erectos quando o ani-
ciliciado de lavagem. Finalmente, o fio aca- mal eslá assustado ou zangado. Por baixo destes en-
bado é enrolado em bobinas, ou canelas. contra-se uma camada densa de pêlos macios, que
retêm o ar junto â pele. O ar é mau condutor de calor,
Como se produz tecido a partir do fio pelo que uma camada de ar retida nos pêlos conserva
Os povos primitivos teciam panos exacta- o calor do corpo e mantém o animal quente em tem
mente como ainda hoje o taxemos. Na ai po frio. Quando chove ou o animal entra na água, os
tura em que morreu o jovem faraó Tutank- pêlos mais compridos formam uma camada imper-
hamon, no século xiv a. C, já se fabricavam meável que impede que a pele e os pêlos da camada
tecidos muito complexos com padrões de inferior se molhem e percam as suas propriedades
cores diversas. Não restam exemplares de isolantes. Depois, uma simples sacudidela expele a
tecidos gregos antigos, mas a decoração água dos pêlos exteriores.
de um vaso do século vi a. C. representa Aproveitando as qualidades da lá, o homem imita o
fiandeiros e tecelões. O tear, com cerca de comportamento dos animais. A roupa junto à pele
1,5 m de altura, é do mesmo tipo que o retém ar que se mantém quente pelo calor do corpo,
utilizado por Penélope enquanto aguarda Fio <le lã. Uma fotografia formando uma camada térmica em redor desle. Um
va o regresso de Ulisses, seu marido, no através do microscópio mos- casaco impermeável impede que o vestuário se molhe
poema de Homero, A Odisseia. tra os espaços entre as fibras e perca as suas propriedades isolantes.
A tecelagem emprega dois conjuntos de onde o ar fica retido.
fio; a teia, ou urdidura, e a trama. Os fios da
teia correm no sentido do comprimento FIBRAS VISTAS AO MICROSCÓPIO
do pano, os da trama são entrelaçados per- FIBRAS ANIMAIS
pendicularmente neles, alternadamente
por cima e por baixo, e correm, portanto,
no sentido da largura do tecido. A tecelã
gem faz-sc num tear, armação de madeira
ou metal que torna mais rápido o processo
repetitivo de entrelaçar a trama na teia.
Num tear mecânico simples, os fios da
teia saem de um cilindro ('"órgão") da lar-
gura com que irá ficar o tecido acabado.
Passam através de um conjunto de arames
verticais (liços) que são movidos para bai-
xo e para cima. Cada arame possui a meio
um pequeno olhai através do qual passa o
fio da teia. Por simples acção mecânica, O vestuário de caxemira é As fibras de lã merino, espes- O mohair tem uma textura
podem subir-se os olhais alternados, macio porque as fibras são sas e menos redondas, pro- áspera porque as fibras são
abrindo um espaço ("cala") através do arredondadas e lisas. duzem tecidos duradouros. espessas e grosseiras.
qual passa o fio da trama. Nos teares tradi-
cionais, este fio é transportado num instru- FIBRAS VEGETAIS
mento em forma de barco, a lançadeira,
mas muitos teares modernos não pos-
suem lançadeira, utilizando uma vareta se-
melhante a um florete, ou jactos de ar ou
água, para transporte do fio da trama.
Depois da sua "passagem" através da
leia, o fio da trama é "batido" contra o fio
anterior por uma armação chamada "pen-
te". Os olhais que guiam o fio da leia são
agora baixados, a lançadeira é virada ao
contrário e faz-se uma segunda passagem
através de um novo conjunto de fios, Os
mais rápidos teares industriais ultrapassam
largamente as 200 passagens por minuto. 0 algodão apresenta fi A estrutura áspera de linho é As fibras de juta sáo duras e
0 processo de tecelagem descrito pro- bras finas mas de forma irre- produzida pelas fibras espes- espessas, com uma textura
duz um tecido de estrutura tafetá em que gular. sas e grosseiras da planta. muito aberta.

Ill
cetim, por exemplo, oblóm-se quando a
teia c entrelaçada apenas por cada quarto
OU quinto fio da trama. Dado que no direito
do tecido predominam os chamados fios
saltados (os que não foram entrelaçados
pelo fio da trama), o tecido apresenta um
brilho característico. 0 damasco apresen-
ta uma estrutura que é uma variante da
estrutura cetim. Conseguem-se subtis va-
riações de cores pela alternância da área
com a teia ou a trama à superfície.
Linho tecido. 0 linho é fiado e depois teci- Outros tipos de estrutura incluem a sarja
do. Aqui. a estruturo mais simples, a tafetá. — utilizada na gabardina e nas sarjas pro-
priamente ditas — e as estruturas com
cada fio da trama passa alternadamente pêlo utilizadas no fabrico de bomba/.inas,
por cima c por baixo dos fios da teia. peluche e veludos. O "pêlo" espesso do
No entanto, os tecidos podem ter mui- veludo forma-se aparando os fios da super-
tos outros tipos de estrutura: a estrutura fície depois de tecidos.

Seda: fibra fabricada por borboletas


Durante milhares de anos, a seda foi vendi Huang Ti pediu à esposa, Xi Lingshi, que A manufactura da soda tem quatro fa
da pelo Oriente ao Ocidente, e ainda hoje é descobrisse o que é que andava a comer as ses: o cultivo das amoreiras, a criação do
o tecido mais precioso por unidade de suas amoreiras: a imperatriz verificou tra- bicho-da-seda, a obtenção das fibras da
peso. tar-se de umas lagartas brancas que teciam seda a partir dos casulos e a tecelagem do
É uma fibra produzida pelo bicho-da- uns casulos lustrosos. Deixando cair um pano.
- seda, Bombyx mori, para formar um casu- destes casulos acidentalmente em água Os bichos-da-seda comem as folhas de
lo dentro do qual se transformará em bor- quente, ela viu que era possível puxar um uma diversidade de árvores —uma espó
boleta. Cada casulo é constituído por um Ho finíssimo e enrolá-lo cm carrinhos. Ti- cie alimenta se de folhas de carvalho — ,
único filamento que chega a atingir 1,5 km nha descoberto o processo de obter a mas as folhas da amoreira são as que pro-
de comprimento. São precisos 110 casulos seda, processo esse que se manteve um duzem a seda mais fina.
para fazer uma gravata, 030 para uma blu- bem guardado segredo chinês durante os Na China, as amoreiras são cultivadas
sa e 3000 para um quimono. 2000 anos seguintes. Com efeito, as leis em arbusto para que as folhas para alimen-
Segundo a tradição, a descoberta da imperiais estabeleceram mesmo que tação dos bichos possam ser facilmente
seda deu se em 2640 a. C, nos jardins do quem quer que revelasse o segredo seria colhidas.
imperador lluang Ti. Diz a lenda que torturado até à morte. Os bichos-da-seda criam se na Trimave

DO CASULO ATE AO BORDADO AO MODO TRADICIONAL DA CHINA

Selecção dos casulos. Mulheres escolhem os ca- Dobagem do fio. Dobar a seda implica o aquecimento dos casulos já lanados e
sulos, retirando os que estiverem danificados. depois o puxar do fio. Os fios de cores diferentes, causadas por compostos químicos
Cada casulo produz cerca de 1,5 km de fio. segregados pelos bichos da-seda, são férvidos até ficarem brancos.

112
Casulos de seda. Casulos do bicho-
-da-seda em tamanho natural.
Produzirão cerca de 18 km
de fio, que dará para um
quadrado de tecido de
seda um pouco menor
que esta fotografia.

Fibras de seda. Esta micro fotografia mos Captando a luz. A estrutura de fios múlti
tra Q forma e a proximidade das fibras. pios faz brilhar o tecido.

frito, de lágrimas, de gritos, nem de mulhe- pôr os ovos, que irão dar origem a novos
res grávidas ou que tinham acabado de dar bichos-da-seda. Na prática, só assim acon-
ra, durante dois à luz. Ainda hoje, na província chinesa de tece com alguns dos bichos; os restantes
meses de acti- Zhejiang, as mulheres que cuidam dos bi são mortos, Evitando se que o casulo seja
vidade inten- chos-da-seda estão proibidas de fumar, estragado pela borboleta que dele sai, con-
sa. Os o v o s , pintar-se ou comer alho. segue-se obter um fio contínuo.
guardados em lugar fres Depois da quarta muda de pele, as lagar- O processo de obtenção deste fio cha-
co desde o ano anterior, são tas iniciam o fabrico dos casulos. As duas ma-se dobagem. K levado a cabo mergu-
i n c u b a d o s assim que as glândulas seriagenas que têm ao longo do lhando os casulos em água quente, pro-
amoreiras começam a ler fo corpo começam então a segregar uma curando a ponta do fio e enrolando-o
lhas. Levam cerca de oito dias a mistura semilíquida que emerge como numa dobadoura. Km geral, dobam-se no
chocar, depois do que as lagartas se ali- um fio único formado pelos dois filamen- mesmo aparelho os fios de vários casulos,
mentam continuamente de folhas de amo- tos juntos. entre cinco e oito, para formar um fio de
reira durante um mês. Neste período de Primeiro, os bichos-da-seda fazem uma espessura suficiente. \ loje, a maioria do tra-
quatro semanas, o seu peso aumenta fina rede. Depois, deslocando a cabeça balho é feita em dobadouras automáticas.
10 000 vezes. Nem mesmo a respiração in- num movimento em forma de oito, cons- Quando se juntam dois bichos-da-seda,
terfere com a alimentação, visto respira- troem lentamente um casulo impermeável estes constroem casulos gémeos. A seda
rem através de orifícios que têm no corpo. que os envolve completamente. A constru- que deles se retira é chamada dupion. Tem
Para serem produtivos, os bichos-da- ção de um casulo demora aproximada- "nós" ao longo do fio e é empregada no
-seda têm de ser mimados. Na China, dizia- mente três dias, durante os quais a lagarta fabrico de tecidos com variações de lexlura.
-se que gostavam de calor e detestavam o moveu a cabeça cerca de 300 000 vezes. A produção mundial de seda é cerca de
frio, gostavam de secura e detestavam a Se não houver qualquer interferência, a 50 000 t por ano, apenas 0,2% da produção
humidade, gostavam de limpeza e detesta- lagarta lransforma-se em borboleta em total de fibras têxteis. A sua textura brilhan-
vam a sujidade. Dizia-se também que não cerca de duas semanas, segrega um enzi- te deve-se às suas fibras triangulares, que,
gostavam de barulho, do cheiro a peixe ma que enfraquece o casulo e emerge para portanto, reflectem a luz.

Fabrico do fio. Os fios de cinco e oito casulos sào torcidos em conjunto para Bordado de seda. As meadas de seda sâo tingidas e
formarem um fio de espessura suficiente; este é depois enrolado em meadas. Os utilizadas no fabrico de tecidos ou em bordados. Esta
tradicionais aparelhos de madeira, como este. têrn sido substituídos por máquinas. mulher borda um desenho de flores com linha de seda.

113
Como os segredos da seda foram trazidos da China

O s dois monges insisliam muito: tinham de ver o impera-


dor. Afirmavam querer transmitir lhe um segredo valio-
so, tendo viajado desde a China até Constantinopla (actual
Istambul) para o revelar à corte.
estava a tentar importá-la através dos mercadores etíopes, que
negociavam com a China por mar.
Os monges eram persas que tinham pregado o cristianismo
na China durante muitos anos e lá aprendido os segredos da
Estava-se à volta do ano 550, e o imperador Justiniano I era o sericicultura. Faziam agora uma proposta a Justiniano: era im-
senhor do Império Romano do Oriente. O segredo dos monges possível manter vivos os bichos-da-seda durante tão longa jor-
merecia bem a atenção de Justiniano: eles ofereciam-se para nada, mas já não sucedia o mesmo com os minúsculos ovos.
lhe ensinar o processo de fabricar seda à maneira dos Chineses. Cerca de 30 g desses ovos bastariam para produzir 36 000 bichos-
Algum deste magnífico tecido era então fabricado na peque- -da-seria. Justiniano encheu os monges de presentes e prome-
na ilha grega de Cós, a partir de bichos-da-seda selvagens que se teu lhes consideráveis recompensas. Os dois homens voltaram
alimentavam de folhas de carvalho. Mas não se comparava com à China e adquiriram uma quantidade de ovos; depois, apoian-
a seda chinesa, obtida de bichos-da-seda que se alimentavam do-se em fortes bastões de bambu, percorreram o longo cami-
das folhas da ainoreira-branca. Os romanos do Oriente com- nho de regresso ao Ocidente com os preciosos ovos escondidos
pravam esta seda chinesa a mercadores que a transportavam nos bastões. Ao chegarem, ensinaram os romanos do Oriente a
durante mais de 4800 km ao longo da perigosa Rota da Seda, criar os bichos-da-seda, os quais foram utilizados no fabrico das
através da Ásia Central, desde Luoyang, no rio Amarelo, até ao primeiras serias finas da Europa. Alguns foram reservados para
Mediterrâneo Oriental. A viagem demorava oito meses. criação, iniciando-se assim uma indústria da seda. Mas, apesar
Ao chegar à Kuropa, a seda valia literalmente o seu peso em dos esforços destes monges, as lagartas da seda preferem ainda
ouro. Era cada vez mais cara e difícil de obter, pois a Rota da as folhas da amoreira-branca chinesa, e a Europa continua a
Seria atravessava terras devastarias pela guerra, e Justiniano importar da China uma parte ria sua seda crua.

(luziu uma fibra muito resistente e elástica. o que evita que o vestuário se enrugue.
Carothers sofria de depressão havia As fibras artificiais podem ser combina
Como se muitos anos, e em 29 de Abril de 1937, 20
dias após ler requerido a patente para o
das com as naturais, pelo que os tecidos
que não precisam de ser passados a ferro
transformam seu invento, suicidou-se. Nunca soube
que a sua descoberta viria a chamar-se
podem mesmo assim parecer naturais.
Os tecidos artificiais são mais fáceis de
produtos químicos nylon e provavelmente nunca sonhou que
iniciara uma "revolução dos materiais'*.
produzir em massa que a lã ou o algodão, e
ainda bem - cada par de meias de nylon é
em vestuário A técnica de produção rias fibras feito com um único filamento de
nylon com perlo de 6,5 km, entre-
sintéticas tem-se mantido quase
inalterada. Os polímeros em es- laçado em 3 milhões de malhas.
Foi em 1935 que o americano Wallace Ca- tado líquido são exlrudidos
rothers inventou o nylon. As meias cie através de uma fieira, e o fino Meias de "nylon". A actriz
nylon surgiram em 1938 e depressa tive- jacto solidifica quase instanta- Betty Grable vendeu as suas
ram enorme procura. Os fabricantes di- neamente, formando uma fibra meias para a campanha
ziam que a nova fibra era "forte como o com um quarto da espessura destinada a obter fun-
aço e delicada como uma teia de aranha". de um cabelo humano. As fi- dos para a guerra Em
Carothers, professor de Química Orgâ- bras são esticadas, o que alinha baixo, pormenor das
nica, fora convidado em 1927 para chefiar as moléculas longas ao compri- malhas, que tornam
um grupo de investigação na K. I. du Pont mento da fibra e dá ao nylon o seu as meias de nylon
Nemours and Company, em Wilmington, brilho e transparência. O nylon macias e elas
Delaware, a fim de inventar um novo mate- pode ser esticado até cerca ricas.
rial sintético. O projecto tomou quase II de cinco vezes o seu compri-
anos e custou 27 milhões de dólares. mento original antes de as
Carothers acreditava que se podia obter moléculas se alinharem e se
um novo material por meio da polimeriza- interligarem resistindo a
ção (combinação de moléculas pequenas posteriores distensões. Ob-
para a formação de novos compostos com têm-se assim fios resistentes
moléculas grandes). A sua ideia era criar que são transformados em
um polímero com a estrutura da seda e tecido. Os tecidos produzi-
que pudesse ser fabricado em massa. dos com fibras artificiais
Em 1931, Carothers descobriu uma fibra conseguem já recriar a
mais fina e mais resistente que a seda. Mis- maioria das propriedades
turando ácido adípico e hexametilenodia das fibras naturais. O acríli-
mina, produziu um composto viscoso co, com as suas fibras pe-
com o qual era possível obter uma fibra nugentas e finas, usa-se
delgada. No entanto, as primeiras fibras no fabrico de tecidos fel-
que produziu ou fundiam a temperaturas pudos ou de peles sintéti-
baixas ou eram muito fracas, e foram ne- cas. Com a sua estrutura
cessários mais quatro anos para aperfei molecular forte mas
coar o "polímero 66". Descobriu, entretanto, elástica, o poliéster
que o processo de polimerização era inibi tem a capj
do por gotículas de água contidas no com- de retomar acidade &^Lú
forma inich a sua ^ r *\
posto; evaporando a água, Carothers pro-

" /
114
Do líquido ao tecido. As fibras de nylon são obtidas forçando o polímero liquido através de orifícios, o qual solidifica em fios.

óleo. Os cartões unidos formavam uma


longa tira que passava lentamente por so-
Como se fazem tecidos com padrões bre o tear. Os teares Jacquard ainda hoje se
utilizam no fabrico de tecidos luxuosos.
Muitos panos com padrões podem ser
Por volta do ano do nascimento de Cristo, a na feitura de uma pequena área de dese- tecidos em máquinas mais simples. Os
mulher de um nobre chinês, Ho Kuang, nho, dava-se um quarto de volta ao bloco, clássicos padrões do tweed são ainda teci-
deu a outra, Shunyu Yen, "vinte e quatro trazendo ao seu lugar o cartão seguinte. dos em teares manuais.
rolos de brocado de seda com desenhos Foram precisos 24 000 cartões para tecer A impressão directa de desenhos nos
de uvas e vinte e cinco rolos de seda fina em seda um retrato de Jacquard, tão perfei- tecidos teve origem na índia, e as primeiras
com um padrão entretecido de flores sol- to que mal se distinguia de um retrato a chitas estampadas foram trazidas para a
tas". Os Chineses foram mestres na arle da
tecelagem, utilizando fios de seda de mui-
tas cores e estruturas complicadas para
produzir brocados e tapeçarias. Com os
teares primitivos, a inclusão de desenhos
na tecelagem exigia habilidade e paciência
consideráveis.
Mesmo depois rios inventos do século
xviii, o tecelão tinha de saber que fios da
teia (os que correm ao comprimento do
tear) tinham de ser levantados para produ-
zir determinado desenho. Só os fios levan-
tados eram tecidos no desenho quando a
lançadeira que transportava a trama (os
fios atravessados no tear) era passada de
um lado para o outro através da cala.
Só no princípio do século xix o tecelão
francês Joseph Jacquard descobriu uma
maneira de fazer padrões minuciosos sem
o auxílio de tecelões especializados. Pren-
dia-se uma série de cartões perfurados a
um bloco rotativo por cima do tear. Só
onde havia furos é que os fios podiam ser Tecido estampado. Este tecido de algodão moderno foi estampado com um desenho do
apanhados por pequenos ganchos e ser final do século xix. A ampliação mostra os pequenos espaços entre as diferentes cores,
tecidos. Depois de cada cartão ser usado destinados a evitar que as tintas se misturassem umas com as outras.

115
Europa no século xvi. Do vocábulo indiano
tchàll veio o chintz, palavra que ainda hoje
usamos para designar tecidos estampados
a que se dá um ligeiro brilho.
A moderna estamparia têxtil emprega
cilindros de metal em que está gravado o
desenho, sendo cada cor aplicada por um
cilindro diferente. Os cilindros passam por
um banho de cor enquanto rodam, trans-
ferindo depois a tinta para o tecido. Podem
chegar a usar-se 16 cilindros num só pano.
Para garantir que cada cilindro ajusta o
seu desenho ao desenho anterior, recorre
-se a sistemas de controle electrónico.
Quando o tecido sai do último cilindro, pas-
sa por urna estufa de secagem. As moder-
nas máquinas podem estampar a 16 cores à
velocidade de 180 m de tecido por minuto.

Como se faz
vestuário que
sirva a quase
todos
0 alfaiate tradicional toma em considera-
ção uns braços compridos ou uma cintura
grossa e consegue um falo que se ajusta
bem. Mas o vestuário feito por medida tem
um preço cada vez mais elevado, e a mo-
derna indústria de confecções tem de pro
duzír fatos prontos a vestir que sirvam sem
grandes alterações à maioria das pessoas.
Um dos primeiros levantamentos das
medidas das pessoas foi levado a cabo por
ordem do Governo dos FAJÃ durante a
1 Guerra Mundial. Em Inglaterra, no princí
pio da década de 50, foram medidas 5000
mulheres com alguns resultados inespera-
Tecido Jacquard. Os tecidos de deco- dos. As tabelas de tamanhos que existiam
ração com desenhos complicados baseavam se na altura média, para as mu-
são ainda feitos nos teares Jac- lheres, de 1,68 m - mas o levantamento
quard, inventado em França revelou que essa altura média era de 1,60 rn.
no século x/x. Este tear usa Hoje, nas grandes empresas de vestuá-
cartões perfurados para rio um molde feito por um desenhador ser-
guiar os fios da trama (ho- ve de base para um computador produzir
rizontais), conduzidos uma gama de tamanhos que abranjam as
pela lançadeira através variações normais da população. Pessoas
dos fios da teia (verti invulgarmente grandes ou pequenas quei-
cais) estendidos na xam-se de nunca encontrar nada que lhes
moldura do tear. Para sirva, e têm razão: economicamente, não
tecer este padrão floral, fazia sentido para os fabricantes produzi
terão sido precisos cerca rem o número limitado de peças de vestuá-
de 10 000 cartões. A am- rio que conseguiriam vender.
pliação (à esquerda) O passo seguinte é utilizar os moldes
mostra as variações na tex- para cortar o tecido para o vestuário. As
tura e na espessura dos peças de tecido são dispostas mecanica-
fios. Este tecido é fabricado mente para que fiquem perfeitamente pia
com fio de algodão, mas qual nas. Centenas de camadas são estendidas
quer fibra ou combinação de fi- umas sobre as outras para se poder cortar
bras podem ser tecidas. Alguns tea um grande número de peças de uma só
res Jacquard são controlados electroni- vez. Computadores estudam o plano de
camente, e não por cartões. corte, isto é, a disposição dos moldes sobre

116
Moldes por computador. Utilizam se
computadores para, a partir de um único
desenho, traçar moldes paro todos os ta
manhos normais. Cada contorno colori-
do (à esquerda) representa uma perna de
calça de tamanho diferente. Os compu
tadores ajudam também a planear, em vi-
sor, o melhor aproveitamento do tecido
(em cima).

o tecido, de modo a haver o mínimo de cortadas. Muitas operações, como a aber-


desperdício. 0 desenho em papel desses tura de casas, são feitas automaticamente.
moldes é colocado sobre as camadas de Uma costureira faz, em média, 20 pon- Como se obtém
tecido prontas para o corte. tos por minuto — a maquinaria moderna
0 corte do tecido é efectuado por lâmi- pode chegar aos 7000 no mesmo intervalo água doce do mar
nas guiadas de cima ou por raios laser co- de tempo. Certos artigos não são cosidos
mandados por computador. 0 laser, um da forma tradicional, mas colados a calor.
raio de luz intenso, faz um corte limpo mui- As peças de vestuário são então passa- O Mundo encontra-se perante uma cres-
to mais rigoroso que o de qualquer lâmina. das a ferro para se lhes dar a forma adequa- cente escassez de água e, em certas zonas
Em seguida, cosem-se as diversas peças da e se marcarem os vincos ou as pregas. de baixa pluviosidade, o suprimento natu-
ral de água é insuficiente. Uma das solu-
DOIS PROCESSOS DE CORTAR TECIDO ções é a dessalinização, processo pelo
qual se retira o sal à água do mar.
No século iv a. C, Aristóteles fez notar
que, ao ferver-se água salgada, o vapor que
se forma não transporta o sal, pelo que, ao
condensar-se, se transforma em água doce.
A central de dessalinização mais simples
é um alambique em que a água é fervida e o
vapor condensado. Pode fazer-se um alam-
bique solar rudimentar colocando uma
campânula de vidro sobre uma poça de
água salgada. A água é aquecida pelo sol,
vaporiza se e depois condensa-se no vidro,
escorrendo até se acumular em canais em
redor dos bordos. Um alambique destes
com uma área de 1 m^ deverá produzir cer-
ca de 4,5 1 de água doce por dia.
Para produzir quantidades significativas
de água doce, torna-se necessário um sis-
tema de destilação muito maior. A água é
aquecida acima do seu ponto atmosférico
de ebulição, mas num recipiente sob pres-
Corte com lâmina. A faca eléctrica de alta Corle com "laser". Cortadores a laser co- são, para que não ferva. E depois conduzi
velocidade corta camadas de tecidos de mandados por computador produzem cor- da para uma câmara que se encontra a
três cores para fazer mangas de blusas. tes limpos, cujas beiras não desfiam. uma pressão inferior, onde parte da água

117
DESSALINIZAÇAO POR SISTEMA DE CAMARÁS MÚLTIPLAS

proveniente
da central
térmica

O vapor
aquece
a água
salgada
dentro
do tubo
Água salgada do mar

••••

Depósito
de água
doce

Na primeira câmara, o A água do mar, agora O processo repete-se em A água dessalinizada


vapor produzido pela ligeiramente mais fria, 10 ou mais câmaras, cada é bombeada para um
água em ebulição passa para a segunda uma delas a pressáo depósito e está pronta
sobe e atravessa um câmara, onde a sucessivamente inferior. a ser bebida.
desenevoador que lhe pressáo é menor e
retira todas as onde parte da água
goticulas de água se vaporiza
salgada. Depois, o instantaneamente,
vapor condensa-se produzindo mais
em contacto com o vapor.
tubo condensador e
pinga para uma tina.

A água do mar pode ser transformada em água potável pelo sistema de dessalinização em câmaras múltiplas, aprooeilando o calor
desperdiçado por uma centrai térmica. O sistema baseia-se no princípio de que a água feroe a uma temperatura inferior à normal quando o
pressão atmosférica for também inferior à que se verifica ao nível do mar. A água aquecida passa através de uma série de câmaras que se
encontram a pressão cada vez menor. A água ferve em cada uma das câmaras, e o vapor condensase em água doce.

se transforma instantaneamente em va- derno, usando o princípio da chamada os- Uma das maiores centrais de osmose
por. Este é seguidamente condensado por mose inversa, é mais rendível que o do des inversa no Mundo foi construída no Ba-
contacto com os tubos adutores da água tilação acima descrito. Utiliza membranas rém, com uma produção diária de água
fria do mar. A água salgada quente que não de plástico com orifícios minúsculos que doce superior a 54 milhões de litros.
ferveu na primeira câmara passa para uma deixam passar as moléculas de água, mas Em 1988, estavam em laboração mais de
segunda câmara também com pressão li- não o sal. Estas membranas formam um 2200 centrais. Mas o custo desta água é
geiramente inferior, onde uma nova parte tubo no interior do qual se introduz água elevado, o que significa que a sua produção
se evapora c condensa. salgada sob pressão. Das paredes exterio- só se justifica para beber, para a indústria ou
Um sistema de dessalinizacão mais mo- res do tubo escorre água doce. para sementeiras de alta rendibilidade.

lixo que se transforma em electricidade e calor


Os Americanos deitam fora 250 milhões um quinto não é combustível, mas deste a mizou 1 milhão de toneladas de carvão.
de toneladas de detritos por ano. Calcula- maior parte é reciclável. Os lixos podem ser queimados nas fá-
-se que os lixos da América poderiam gerar A Europa Ocidental possui mais de 200 bricas em substituição do carvão ou de
tanta energia como 100 milhões de tonela- centrais de queima de detritos para produ- fuel, mas têm de ser tratados. Começam
das de carvão. Contudo, ria sua maioria, ção de electricidade. A Central de Edinon- por ser peneirados através de uma rede
são enterrados e nunca utilizados. ton, em Londres, que abriu em 1974, quei- vibratória para separar as partículas orgâ
Cerca de metade do desperdício do ma cerca de 400 000 t de desperdícios por nicas mais pequenas, as quais serão trans-
mestiço mundial é papel, enquanto os res- ano. A combustão dos lixos aquece água, formadas cm adubos para a agricultura.
tos de cozinha representam um quarto e e o vapor produzido acciona geradores A seguir, as componentes mais pesadas
os plásticos menos de um décimo. Apenas eléctricos. Em 10 anos, a fábrica econo- do lixo, principalmente melais, têm de ser

118
retiradas, ficando papéis e têxteis — os PRODUÇÃO DE BIOGAS NA ÍNDIA
quais são prensados sob a forma de cilin-
dros e vendidos como combustível.
Até os lixos despejados na terra podem
ser utilizados como fonte de combustível.
Quando começam a decompor-se, os de-
tritos libertam metano - idêntico ao gás
natural armazenado cm bolsas sob a crus-
ta terrestre. Uma tonelada de detritos pode
produzir cerca de 230 m3 de metano, que
pode ser canalizado com muilo baixo custo
e utilizado na produção de calor ou elec- No Terceiro Mundo produz-se gás com es Queimadores de gás feitos com argila são
tricidade. Há mais de 140 projectos deste (rume e água armazenados em depósitos. ligados a um tubo proveniente do depósito.
tipo em laboração em 15 países, economi-
zando um total de pelo menos 82õ 0001 de
carvão por ano.
Outras instalações utilizam o gás no pró-
prio local para gerar electricidade, quei-
mando-o em motores a gás simples. As-
sim, todo o gás pode ser utilizado, em vez
de tentar ajustar-se a sua produção às exi-
gências variáveis de uma fábrica.
No futuro, a produção de gás nos depósi-
tos de lixo poderá ser aperfeiçoada, "se-
meando" neles certas estirpes de bactérias.
Introduzindo a melhor combinação de bac-
térias para determinado tipo de detritos, ob-
ter-se-ia uma quantidade máxima de gás.

Lixo para queimar. Lixos domésticos são


retirados de enormes depósitos em Lon-
dres para serem queimados numa centro! O gás metano — chamado biogás — é a principal fonte de combustível pura cozinha em
termoeléctrica. zonas rurais da índia, onde se aproveita o estrume dos gados.

Novos bens
a partir do lixo
A reciclagem dos lixos não só faz sentido
do ponto de vista económico, como lam-
bem é benéfica para o ambiente: reduz a
poluição criada pelos detritos ou pela sua
queima e economiza recursos valiosos
O plástico é uma das substâncias de
mais difícil reciclagem, dado apresentar-se
sob inúmeras formas. Uma garrafa de ket-
chup feita de plástico, por exemplo, é
constituída por seis camadas de plásticos
diferentes, cada uma das quais destinada
a conferir à garrafa determinadas qualida-
des — forma, resistência, flexibilidade, ele.
E, por enquanto, não existe nenhuma ma-
neira fácil de transformar uma garrafa ve-
lha numa nova.
Os plásticos só podem ser transforma-
dos em produtos de qualidade inferior -
uma garrafa de plástico poderia ser limpa,
cortada em pequenos pedaços e usada
para encher almofadas ou isolar sacos-ca-
mas. Uma mistura de detritos plásticos
pode ser reciclada em "paus" plásticos e
utilizada em vedações de longa duração.
Mas muitos desperdícios de plásticos ain-
da têm de ser deitados fora, dado o seu
baixo valor como material reutilizável.

19
RECICLAGEM DO OURO DOS COMPUTADORES Reciclagem de latas.
Na primeira fase da re-
ciclagem, us latas são
prensadas e enfarda-
das. Nos EUA, cerca de
metade das latas de be-
bidas, de alumínio, são
fundidas. Seis semanas
depois, estão de uolta
às prateleiras dos su-
permercados, cheias e
com novas etiquetas.

Com os melais é diferente. Cada auto-


móvel que hoje anda na estrada é parcial-
mente constituído por carros antigos ven-
didos como sucata e reciclados em novos
aços e outros materiais.
Quanto mais valioso o metal — como o
ouro e a prata -, tanto mais compensado-
ra se torna a sua reciclagem. No caso do
alumínio, vale a pena recicla lo porque a
sua extracção da bauxite consome enor-
mes quantidades de electricidade. Graças
principalmente aos programas de recicla-
gem, a energia utilizada no fabrico rio alu-
mínio diminuiu de um quarto desde o
princípio da década de 70.
Nos EUA, vendem-se anualmente mais
de 70 000 milhões de bebidas em latas fei-
tas de alumínio. Cerca de metade é refundi-
ria depois de usada, e, no espaço de seis
semanas, está de volta às prateleiras dos
supermercados.
Também vale a pena recuperar o vidro.
O métorio mais sensato consiste em reuti-
lizar as garrafas tantas vezes quanto possí-
vel. Muitos países têm hoje normas de de-
pósitos de vasilhame obrigatórios para le-
var os consumidores a devolverem as gar-
rafas às lojas. Quando uma lei destas foi
promulgada no estado de Nova Iorque em
1983, calculou-se que em dois anos se teriam
poupado 50 milhões de dólares em despe-
sas de recolha de lixos e cerca de 75 mi-
lhões em custos de energia.
O vidro partido pode igualmente ser re-
ciclado, e muitos países possuem "vi-
drões" em que podem ser deitadas as gar-
rafas usadas. Este sistema de recupera-
ção do vidro apoia-se na boa vontade das
pessoas, c o seu êxito varia grandemente
conforme os países. Por exemplo, os Suí-
ços e os Holandeses recuperam 50% do
seu vidro. O vidro deve separar-se confor-
me as cores, pois o de cores misturadas
só serve para fabricar vidro verde, O vidro
partido pode ser refundido em fornos
e facilmente transformado noutros ob-
jectos.
Metade dos lixos do Mundo é papel.
Muitos países importam desperdício de
papel em vez de pasta para as suas fábricas.
Este desperdício é transformado em pasta
e em novo papel pelo mesmo processo
que a pasta de madeira ou os trapos. O
Japão fabrica agora metade do aei\ papel
O Ouro impuro é refinado e depois novamente vazado em barras. por reciclagem.

120
chamada reacção em cadeia, que permite
que o processo de desintegração do urâ-
nio, uma vez iniciado, possa prosseguir
quase indefinidamente até à exaustão dos
átomos cindíveis.
A energia da cisão nuclear pode ser li-
bertada lentamente, de forma controlada,
num reactor nuclear e ser utilizada para
aquecer água cujo vapor acciona um gera-
dor que produz electricidade. E este o prin-
cípio das centrais nucleares.

Elementos de combustível
Os elementos de combustível — os com-
ponentes essenciais do núcleo de um reac-
Electricidade a tor — sáo constituídos por pequenas pas
tilhas de dióxido de urânio carregadas em
partir do urânio varelas, agrupadas em feixes verticais sus-
tentados por uma grelha.
Uma vez colocado no reactor, um ele- Reactor experimental. Elemento de
Uma pequena mancheia de urânio forne- mento de combustível pode aí permane- combustível a ser retirado da água no reac-
ce tanta energia eléctrica como 70 l de car- cer até três anos, sem que seja consumido tor de alto fluxo para produção de radioisó-
vão ou 390 barris de petróleo. todo o urânio. Contudo, começam a acu- topos em Ouk Ridge, Tennessee, EUA. É uti-
0 urânio é um dos elementos mais den- mular-se subprodutos - gases como o lizado na investigação de substâncias artifi
sos, e cada um dos seus átomos "balouça" crípton, sólidos como o césio, o estrôncio ciais que poderão fornecer mais energia
à beira da instabilidade. O coração do áto- e o plutónio. Antes de estes se acumula- que o urânio.
mo-o núcleo — necessita apetias de um rem demasiado e de a água corroer as vare-
minúsculo "empurrão" para que se dê a tas, os elementos de combustível sáo reti- conhecido e o componente mais usado
sua divisão — a chamada cisão ou fissão rados. O combustível usado é levado para no fabrico de bombas nucleares.
nuclear. E quando um núcleo se divide, uma instalação especial onde é reproecs- O urânio ocorre sob diversas formas
liberta uma enorme quantidade de ener- sado, a fim de ser recuperado o urânio não quimicamente idênticas, mas cujos áto
gia. 0 "empurrão" pode ser dado por neu- "queimado" e o plutónio por separação mos possuem núcleos com massas dife-
trões, minúsculas partículas muito mono química dos outros produtos residuais. Es- rentes. Destas formas diversas, chamadas
res que o átomo e que, ao colidirem com o tes são altamente radioactivos, não poden- isótopos, uma é o urânio-235, cujo nome
núcleo, o levam a dividir-se. do ser dispersos no ambiente, sob pena de se deve às 235 partículas (protões e neu-
No processo da cisão, além dos dois nú- envenenamento maciço da biosfera. trões) que compõem o seu núcleo. Ape-
cleos formados, cada um com cerca de O plutónio pode ser usado como com- nas sete de cada 1000 átomos de urânio
metade da massa do núcleo inicial, liber bustível em centrais de produção de ener- que ocorrem na Natureza são de U-235, Os
tam-se novos neutroes, que podem, por gia, porque, como o urânio, os seus nú- restantes sáo quase todos de urânio-238.
sua vez, provocar a cisão de novos núcleos cleos podem cindir-se e libertar energia. Quando o U-238 é bombardeado por
de urânio, e assim sucessivamente — é a Mas é também o elemento mais venenoso neutrões, não se cinde com tanla facilida-

Centrai de energia nuclear. Este reactor de água pressurizada em Biblis, Alemanha, fornece electricidade às indústrias do vale do Reno.

121
PRODUÇÃO DE ELECTRICIDADE NUM REACTOR DE AGUA PRESSURIZADA

i
Os reactores de água pressurizada são os
que existem em maior número no Mundo.
O reactor é refrigerado a água a alia prés
suo, que por isso não ferve apesar de aque-
cida muito acima de 10O"C. A água passa
por um permutador de calor, onde fornece
calor a um segundo circuito de água. Neste
circuito, a pressão mais baixa, a água ferve,
produzindo vapor que vai accionar gerado-
res que produzem electricidade.

Armazenagem
de resíduos
nucleares
A água Os resíduos altamente radioactivos são le-
pressurizada é tais e mantêm-se perigosos durante milha-
aquecida no
reactor e provoca
res de anos. Felizmente, o volume de resí-
a ebulição da duos nucleares de alta actividade é reduzido.
água não Uma central típica que produza 1000 MW
pressurizada no
gerador de vapor de electricidade origina cerca de 2 m-1 de
resíduos por ano.
Alguns resíduos tratados são guardados
de como o U 235, mas pode ser convertido é moderar a velocidade dos neutrões. em depósitos de aço inoxidável de paredes
num elemento completamente novo, o A maioria dos reactores modernos utili duplas envolvidas por um revestimento de
plutónio-239, por absorção de um neu- za simultaneamente combustível enrique- betão com 1 m de espessura. Mas a maior
trão. Por isso, se um reactor é concebido cido e moderadores. Alguns são modera parte é mergulhada em tanques especiais
para utilizar urânio natural, o perigo é ha- dos por água (que evidentemente contém junto às instalações nucleares dentro das
ver uma absorção exagerada de neutrões hidrogénio), enquanto outros são mode- próprias varetas usadas e com as suas bai-
pelo U-238 antes de estes atingirem o rados por carbono sob a forma de grafite nhas originais. Mas esta solução não é váli-
U-235 e provocarem a reacção em cadeia. o material que constitui o bico dos lápis da a longo prazo. Os lixos armazenados no
Nesse caso, o reactor nunca funcionará. vulgares. Um tipo importante de reactores, estado líquido em depósitos de aço geram
Há duas formas de contornar o proble- no entanto, não usa moderador, pois são calor à medida que os átomos radioactivos
ma: uma é "enriquecer" o urânio, isto é, os neutrões rápidos, não moderados, que se desintegram. Para que o líquido não en-
aumentar a fracção de U-235 no combustí não só mantêm a reacção em cadeia como tre em ebulição, provocando uma fuga ra-
vel do reactor de 7 para .30-40 átomos em transformam com grande eficiência U-238 dioactiva, bombeia-se água fria através de
cada 1000. O processo mais usado actual- em plutónio, produzindo de facto mais serpentinas no interior dos tanques. Utili-
mente para este enriquecimento usa o combustível cindível do que o que gas- zados há 40 anos, estes depósitos consti-
princípio da centrifugação: o urânio, sob a tam - daí o nome de reprodutores por tuem uma solução provisória. A melhor
forma de um composto gasoso, á introdu- que são conhecidos. solução neste momento é fundir os resí-
zido em tambores que giram a altíssima As reacções de cisão no núcleo de um duos, formando cilindros de vidro que se-
velocidade; o gás junto às paredes acumu- reactor produzem grande quantidade de rão enterrados a grande profundidade.
la U-238, mais pesado, enquanto o volume energia, que tem de ser retirada e transpor- Uma instalação em Marcoule, na França,
central se enriquece em U-235. tada por um alto fluxo de refrigerante. Se utiliza este processo desde 1978. Os lixos
A segunda forma é aproveitar da me- esle for insuficiente, a temperatura do nú- radioactivos são secados e reduzidos a um
lhor maneira os neutrões disponíveis no cleo pode elevar-se, destruindo o reactor. resíduo sólido por aquecimento dentro de
interior do reactor, diminuindo-lhes a ve- Alguns reactores usam água pura simul- um tambor rotativo. São depois misturados
locidade, o que lhes aumenta a probabili- taneamente como moderador e refrige- com sílica, boro e outros ingredientes utili-
dade de provocarem cisões. O processo rante. A água pesada na qual o hidrogé- zados no fabrico de vidro, despejados
de desacelerar os neutrões consiste em nio normal é substituído por um isótopo numa câmara vertical e aquecidos a
fazê-los ricochetear em átomos leves de mais pesado, o deulério — é usada cm 1500°G Emerge então do fundo uma cor-
um elemento como o hidrogénio ou o reactores-reprodulores canadianos, en- rente de vidro fundido, que será vazada em
carbono. Os elementos leves actuam quanto a França utiliza sódio líquido como recipientes de aço inoxidável. Uma central
como "moderadores" a sua função refrigerante nos seus reprodutores. de 1000 MW produz resíduos que encherão

122
Resíduos vitrificados. Os resíduos radio
aaiixis de alta actividade podem ser u Uri fi-
cados e armazenados em contentores de
aço inoxidável cujas tampas são soldadas. Vazamento dos resíduos. Vidro fundido contendo lixos nucleares é vazado de um cadinho
de platina para um molde de aço inoxidável a uma temperatura de cerca de 590" C. Depois de
15 destes tambores por ano. Depois de o solidificado, o vidro é cotocodo num contentor
vidro solidificar, as tampas são soldadas.
Os contentores são guardados em "po-
ços" especiais num edifício vizinho em Mar
coule. Cada contentor produz 1,5 kW de
calor e é refrigerado a ar. Os resíduos estarão
Como as marés podem produzir
seguros enquanto forem controlados, mas
seria conveniente e desejável que pudes-
electricidade
sem ser guardados em locais que deixas-
sem de exigir a intervenção do homem. No século xviii, a costa da Europa encon queda, maior a pressão da água, que assim
Uma das propostas prevê rodear os con- trava-se semeada de moinhos de marés, acciona as turbinas com mais força.
tentores com um invólucro de ferro ou co- nos quais a água, ao subir, passava por Na maré cheia, as comportas são fecha-
bre fundido e armazená-los em cavernas comportas abertas e entrava num reserva- das e bombeia-se água do mar para o es-
subterrâneas, em covas ou valas e cober tório — a "caldeira". Na preia-mar, as com- tuário. O nível da água deste fica acima da
los com betão ou uma argila, a bentonite, portas eram fechadas, e a única forma de a marca da preia-mar e, quando o mar volta
que absorve os materiais radioactivos. água se escoar com a vazante era accio- a baixar, a amplitude da maré foi aumenta-
Os recipientes devem durar pelo menos nando urna roda de pás, fornecendo assim da. Uma vez descargada a água para o mar
1000 anos antes de serem corroídos e dei- força motriz. Em Portugal, no estuário do através das turbinas, bombeia-se ainda
xarem escapar radioactividade. Após 500 Tejo, existem ainda vários moinhos de mais água para fora do estuário, tomando
anos, esta terá baixado para um nível pró- maré, um dos quais, o de Corroios, man- o nível deste artificialmente baixo.
ximo do minério de urânio original. Os es- dado construir em 1403 por Nuno Alvares Quando a maré volta a encher, as pás
pecialistas pensam que, se as cavernas esti- Pereira, se mantém em funcionamento. das turbinas são novamente invertidas, a
verem bem situarias e à profundidade sufi- Este princípio foi também utilizado água entra no estuário e o ciclo reinicia-se.
ciente - a diversas centenas de metros numa central eléctrica construída em A bombagem consome electricidade, mas
demoraria 1 milhão de anos até que algum França. Construiu-se uma barragem no es a água bombeada gera bastante mais ener-
material conseguisse infiltrar-se até à su- tuário do rio Rance, em St. Maio, na Breta- gia do que a consumiria pelas bombas.
perfície, e nessa altura já praticamenle nha, com 24 turbinas que podiam funcio- O projecto de La Rance tem tido poucos
todo o lixo radioactivo se teria desintegra- nar tanto na enchente como na vazante. seguidores, dado o enorme custo da cons
do. As zonas escolhidas para os "despejos" Quando a maré enche, deixa-se a água tmçáo das barragens e a escassez de locais
nào deveriam conter minerais valiosos, subir junto da barragem até haver uma di adequados. A baía de Fundy, na Nova Escó-
para que nenhuma civilização futura, ao ferença de 1,5 m enlre a altura da água de cia, tem a maior amplitude rie marés do
extrair esses minerais, viesse a "tropeçar" um lado e do outro. Depois, a água passa Mundo, podendo atingir 18 m de diferença
nos resíduos. As cavernas poderiam ser se pelas turbinas, accionando-as e gerando entre os níveis da preia-mar e da baixa-mar.
ladas e esquecidas. Os resíduos ficariam electricidade. Quando a maré começa a Em 1984, foi construída uma cenlral-pi-
isolados por detrás de tantas barreiras que descer, as pás das turbinas são invertidas e loto numa reentrância dessa baía em An-
não seria possível a sua fuga dentro de a água volta a produzir electricidade. napolis Royal. Se a energia das marés em
qualquer período de tempo significativo. A quantidade de electricidade produzi- toda a extensão ria baia pudesse ser apro-
A dificuldade consiste em encontrar lo- da depende da "queda" de água — a dife- veitada, produziria 10 vezes mais electrici-
cais cujos habitantes concordem em ar- rença entre os níveis da água a montante e dade rio que a capacidade de consumo
mazenar resíduos nucleares. a jusante das turbinas. Quanto maior a local.

123
Como se obtém electricidade do vento
O potencial de utilização do vento para ainda, é a velocidade do vento, pois a po-
produzir electricidade é enorme. Um estu- tência que se pode obter aumenta com o
do recentemente feito para a Comunidade cubo dessa velocidade - se esta for duas
Económica Europeia concluiu que exis- vezes maior, a potência obtida é oito vezes
tem locais suficientes na Europa para cer- maior. Contudo, os geradores eólicos não
ca de 400 000 grandes geradores - o bas- precisam de temporais. A maioria das má-
tante para suprir o triplo das actuais neces- quinas destina-se a operar a velocidades
sidades do continente. do vento entre a força 3 e a força 10 da
Os modernos geradores eólicos são escala de Beaufort — de 20 a um pouco
muito diferentes dos antigos moinhos de menos de 100 km/h. Acima da força 10, as
vento. Parecem-se mais com hélices gigan máquinas fecham-se automaticamente Turbinas Darreius. Estas máquinas têm
les com duas ou três pás - os rotores — para evitar serem destruídas. lâminas em forma de arco ligadas a uma
montadas no topo de altas torres de aço ou Na sua maioria, estas máquinas estão hQSte. 0 vento laz rodar todo o conjunto.
belão. Os rotores fazem girar um veio que previstas para produzirem uma potência
acciona um gerador eléctrico. eléctrica quase constante ao longo de toda Os geradores eólicos têm de estar orien-
A dimensão das pás e a altura da torre a sua zona de trabalho, com as pás "fe- tados na direcção correcta, seja directa-
determinam a quantidade de electricidade chando" automaticamente se o vento au- mente contra o vento, seja directamente a
que a máquina é capaz de produzir. Em menta, de forma a não haver uma acelera favor. Por esta razão, o rotor está montado
geral, o vento é mais forte à medida que a ção exagerada. E melhor conseguir-se sobre uma plataforma giratória comanda-
altura aumenta, e a potência que é obtida é urna produção uniforme com um largo es- da por um motor eléctrico ligado a senso
proporcional à área percorrida pelas pás. pectro de condições do vento do que apro- res que determinam a orientação.
Se duplicarmos o comprimento destas, a veitarem-se as poucas rajadas verdadeira Este problema da direcção do vento
potência quadruplica. Mais importante mente fortes. pode ser completamente evitado se as pás

Quinta eólica. Em 1988, a Culifomiu possuiu Ib 000 turbinas eólicas. Esta e uma Quinta eólica perto de S. Francisco.

124
COMO AS TURBINAS
E OS GERADORES PRODUZEM
ENERGIA ELÉCTRICA

r '

Turbogerador. Um técnico inspec-


ciona as enormes pás de um dos turbo
geradores de 660 MW numa central
termoeléctrica do Yorkshire, na Grã-
•Bretanha.

As turbinas são constituídas por várias


rodas de pás, alternadamente fixas e
móveis. As pás móveis estão monta-
das num veio que, ao rodar, acciona
um gerador. A posição e a forma das
pás fixas é tal que o vapor sob pressão
é dirigido para as pás móveis com a Outra forma de aproveitar a energia geotérmica. Banhistas diuertem-se na quente
máxima força possível. lagoa Azul, cujas águas provém da Central Geotérmica de Svartsengi, na Islândia.
Na extremidade do veio encontra-
-se um grande magneto, rodeado por água presente, apenas rochas quentes,
uma bobina fixa no interior do gera- cujo calor só pode ser utilizado se lhes in-
dor. Ao rodar, o magneto provoca a
passagem de uma corrente eléctrica
Rochas quentes: jectarmos água, recuperando-a à superfí-
cie sob a forma de vapor — que é então
através do fio da bobina. uma fonte natural usado para accionar turbinas e gerar elec-
tricidade.
de energia Em Portugal, duas zonas de boas poten-
forem montadas num eixo vertical e não cialidades geotérmicas são as ilhas vulcâni-
horizontal: neste caso, não importa a di- cas dos Açores e a região transmontana de
recção do vento. Quanto mais nos aproximamos do centro Chaves.
Estas máquinas verticais, denominadas da Terra, mais elevada é a temperatura. Nos Açores, a exploração geotérmica
turbinas de Darreius, têm outras vanta- Reacções nucleares de decomposição de iniciou-se em meados da década de 70;
gens. Os pesados geradores que conver- materiais radioactivos mantêm a 4000°C o uma central no vulcão de Agua de Pau. na
tem a energia do vento em energia eléctri- núcleo em fusão. Ê por causa desta energia ilha de S. Miguel, produz 500 kW de ener-
ca podem ser colocados no solo em vez de geotérmica que a temperatura no fundo gia eléctrica. No campo da lagoa do Fogo,
no cimo de uma torre. O rotor fica sujeito a de uma mina é alguns graus mais elevada também nesta ilha, foi feito em 1988 um
menos esforços do que nos geradores de do que à superfície. furo com 2 km de profundidade, atingindo
eixo horizontal. Um inconveniente é ne- Nalguns locais, as rochas quentes en- temperaturas de 240°C, que se espera ve-
cessitarem frequentemente de um impul- contram-se bastante perto da superfície, nha a produzir 3 MW de energia eléctrica.
so auxiliar - manual ou eléctrico - para dando origem a fontes termais, géiseres ou Estudos gravimétricos e magnetotelúricos
arrancarem. Um dos problemas principais vapor de água que se escapa do solo. Nes- concluem que este campo terá provável
do emprego de geradores eólicos é am tes casos, é fácil aproveitá-las para produzir mente capacidade para satisfazer as neces
biental. Embora as pessoas gostem da energia eléctrica. sidades energéticas totais da ilha de S. Mi-
ideia desle tipo de energia não poluente, A primeira central eléctrica geotérmica guel.
não apreciam ver geradores eólicos semea- foi construída em 1904 em Lardcrello, no Na região transmontana de Chaves, es-
dos no topo de cada colina. Norte de Itália, onde o vapor se escapava tão em curso estudos do aproveitamento
A hipótese de colocar os geradores no do solo a temperaturas entre 140 e 260°C. de fontes termais artesianas com tempera-
alto mar foi já encarada seriamente. No en- O vapor foi directamente canalizado para turas superiores a 70°C. Pensa-se neste
tanto, haveria os problemas da fixação e da turbinas que accionam geradores. caso prioritariamente na sua utilização
transmissão da energia para terra. Os habi- Na Nova Zelândia, nas Filipinas, na Cali- para o aquecimento de estufas e instala-
tantes da Fair Isle, ao largo da costa seten- fórnia e no México têm sido construídas ções de secagem.
trional da Escócia, já fazem uso da energia centrais eléctricas em locais onde o calor Cada vez mais países procuram a ener-
do vento. Instalaram um pequeno gerador da Terra chega naturalmente à superfície. gia geotérmica como alternativa aos com-
eólico no princípio dos anos 80, o que di- Mas, na maioria dos casos, a energia geo- bustíveis fósseis. Arrancou já uma grande
minuiu em mais de três quartos os custos térmica tem de ser captada por perfuração. central eléctrica no Novo México, e, perto
da electricidade produzida pelos motores Nalguns casos, como, por exemplo, nos de Estrasburgo, está em execução um pro-
a diesel. granitos da Comualha, pode não haver jecto conjunto franco-alemão.

125
Como os cientistas descobrem a origem de uma chuva ácida
Quando uma chuvada se abateu sobre Pi- para a destruição de árvores. Nem mesmo grau de acidez em gelos formados antes da
tlochry, na Escócia, em 10 de Abril de 197-1, o Árctico está livre da poluição atmosférica Revolução Industrial e aprisionados nos
ela bateu o recorde do Mundo - não de que origina as chuvas ácidas. glaciares e verificou-se que eram apenas
volume, mas de acidez. A chuva que caiu De onde provém esta acidez? Não res- moderadamente ácidos, em concordân-
nesse dia era quase sumo de limão e mais tam dúvidas de que a maior parte provém cia com as suas origens naturais.
ácida do que vinagre. Embora os valores das actividades do homem — dos auto A chuva torna-se ácida principalmente
em Pillochry fossem excepcionalmente móveis, das fábricas e das centrais termo- devido a dois elementos, o enxofre e o azo-
elevados, em muitas localidades da Europa eléctricas. Sempre houve alguma acidez to. O enxofre encontra-se no carvão e no
e América do Norte a chuva que cai é cente- na água das chuvas devido à actividade nos petróleo. Ao ser queimado, transforma-se
nas de vezes mais ácida do que deveria ser. vulcões, nos pântanos e do plâncton marí- em dióxido de enxofre, que se combina
A chuva ácida corrói os edifícios, danifica os timo, mas a acidez tem aumentado abrup- com as gotas de água das nuvens, produ-
solos, mata os peixes nos lagos e contribui tamente nos últimos 200 anos. Mediu-se o zindo ácido sulfúrico. O azoto, que existe

UMA DAS CAUSAS DAS CHUVAS ACIDAS E DOIS DOS SEUS EFEITOS

A atrofia cio crescimento de um


abeto da Floresta Negra revela-se
na variação da espessura dos
anéis do tronco. Os exteriores,
mais finos, formados nos últimos
20 anos, contrastam com os do
centro, regulares e espessos, an-
teriores às chuvas mais ácidas.

As velhas cantarias e outros ar


na mentos de pedra são corroí-
dos pelo ácido criado pelo dióxi
do de enxofre libertado por com-
bustíveis fósseis como o petró
leo e o carvão. O gás mistura-se
com a água. produzindo ácido
Chaminés altas enviam a poluição para muito longe. sulfúrico.

126
r^^t^^^ÍLSI Captando a luz
do Sol
^ H pi

1 1 Pj 1 li-'''.
^m * TSJÍA Carro solar. Com
um painel de células so
lares como fonte de energia,
HT ^« i^^B l^írujH • o Quiet Achiever atravessou a Austrália
em 1984, cobrindo 4800 km em 20 dias

A energia que atinge a Terra sob a forma de


luz solar é enormíssima mais de 12 000
vezes o consumo mundial de combustí
veis.
Mas captar e armazenar esta abundante
provisão cie energia gratuita é difícil e caro.
Aplicação de cal. Na Europa, as florestas são por vezes pulverizadas com cal, a fim de Embora a energia total seja colossal, a ener-
neutralizar a acidez do solo e ajudar o crescimento das árvores. gia por unidade de área é bastante baixa -
pelo que qualquer utilização da radiação
no ar e nos próprios combustíveis, é trans- tem origem fora da Suécia, partieularmen solar de potência razoável tem de cobrir
formado, por combustão, em óxido de te na Europa Oriental. uma grande área, o que a encarece. Outro
azoto, reagindo depois com as moléculas Para descobrirem se parte destas chuvas problema é a irregularidade do seu fome
da água para formar ácido nítrico. Uma par- provinha da Inglaterra, cientistas britânicos
te destes ácidos cai localmente com as chu- colheram amostras de ar por avião e anali-
vas, mas a restante pode ser transportada a saram-nas. Num dos voos, verificou-se que
milhares de quilómetros de distância. o ar que chegava à costa ocidental da Grã-
A partir da década de 50, começaram a Bretanha, transportado pelo ventos domi-
construir-se chaminés com 150 m de altura nantes do Atlântico, continha menos de
para afastar a poluição das áreas urbanas; metade do enxofre e um quarto dos nitratos
no entanto, o efeito que tiveram foi espalha- que ao longo da costa oriental: ao soprar
da com menor densidade, mas em maior sobre a Inglaterra, captara os poluentes que
área. Este facto, aliado ao grande aumento depois transportava para a Escandinávia.
no volume da poluição, especialmente das Foi mesmo possível marcar as trajectó-
centrais térmicas, nas últimas décadas, teve rias da poluição originada cm determina-
como resultado que regiões como a Escan- da central térmica, libertando das respecti-
dinávia fossem afectadas pela poluição vas chaminés um produto químico, o he-
proveniente de fábricas em países a milha- xafluorcto de enxofe. Instrumenlos colo-
res de quilómetros de distância. Os cientis- cados a bordo do avião iam medindo o
tas suecos estimam que 70% do enxofre da teor daquele composto na atmosfera, de-
atmosfera sobre a Suécia provém da quei tectando com precisão a posição e evolu-
ma de combustível e que, na maior parte, ção do "penacho" de gás marcado.

COMO SE MEDE A ACIDEZ


Os ácidos corroem gradualmente e des- LIQUIDO COR DO ÍNDICE
troem quase tudo o que tocam. São to INDICADOR DE pH
dos solúveis em água. e a sua concentra- Ácido sulfúrico Vermelho 1,0
ção é medida pelo seu pH (potência em concentrado
hidrogénio).
Sumo de limáo Vermelho 2,3
A escala de pll vai de I a 14. Um é
extremamente ácido, 7 é neutro e 14 é Chuva Rosa 3,0
muito alcalino (o contrário de ácido). de Pitlochry
0 pH de um líquido é medido por Vinagre Rosa 3,3
meio de um aparelho especial ou com Chuva Rosa 4,3
papel indicador, como o de tomassol. nas regiões Células fotovoltaicas. Estas células po-
Um ácido forte torna este papel verme- industriais dem produzir grandes quantidades de
lho, um líquido neutro lorna-o verde. Os Chuva normal Laranja 5,0 a 5,6
energia eléctrica a partir da luz solar. Este
líquidos altamente alcalinos tornam-no modelo, construído nos EUA. usa lentes
Água destilada Verde 7,0
para concentrarem a radiação solar nas cé-
púrpura.
lulas montadas nos cilindros.

127
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ii 11 n » \T* v>* . _ ^ <*• .w^ ^ ->-
Espelhos produzem electricidade para 20 000 pessoas. Um vasto círculo de espelhos
capta os raios do Sol e reflecte-os para urna torre geradora de energia, com a altura de 20
andares, situada no centro do círculo (à direita). 0 calor produz vapor para gerar electricida-
de, que é suficiente para satisfazer as necessidades de uma pequena cidade.

cimento: dia e noite, céu limpo e encober- grelhas de contactos eléctricos metálicos tem-se implantado em áreas em que é já
to, sol alto ou baixo levam a enormes varia- que conduzem a dois terminais, um positi- competitiva — satélites, estações retrans-
ções da quantidade de energia disponível, vo e o outro negativo. Quando a lâmina é missoras de telecomunicações em zonas
o que complica a sua aplicação na Torra. iluminada, a luz cria no semicondutor car- isoladas, electrificação rural e bombea-
Os sistemas domésticos de aquecimen- gas eléctricas que são colectadas pelas gre- mento de água e pequenas aplicações,
to de água à base de energia solar usam lhas, funcionando a célula, do ponto de como nos relógios de pulso e nas calcula-
colectores (painéis) solares montados nos vista do utilizador, como uma simples pi- doras. A primeira central helieléclrica de
telhados e voltados para o Sol. Estes são lha. Urn módulo de células com 1 m2 de dimensões significativas — com urna pro-
simples caixas com uma cobertura de vi- área, exposto à luz directa do Sol, produz dução de 1 MW - foi construída perto de
dro ou plástico, dentro das quais uma cha- tipicamente 100 W de energia eléctrica — Victorville, Califórnia, em 1982.
pa de metal pintada de negro absorve a quase sem manutenção, sem peças que se
radiação solar e aquece a água que circula. A gastem e, sobretudo, sem poluição.
água aquecida passa para um depósito ter- Porque não se usam então células foto-
micamente bem isolado. Para obtenção
de temperaturas muito superiores à da
voltaicas para produção de energia eléctri- Como se tiram
ca em larga escala? Basicamente, porque as
ebulição da água, a luz do Sol é concentra-
da por meio de espelhos dispostos em se-
células são ainda demasiado caras. Embora
o silício seja o elemento mais abundante da
fotografias de
micírculo que reflectem a luz em direcção
a uma "torre geradora de energia" de be-
crusta terrestre depois do oxigénio — é o
constituinte básico da areia e da maior parte
alta velocidade
tão. A luz concentrada do Sol, ao incidir das rochas — e de baixo preço, a sua purifi-
sobre um receptor no cimo da torre, aque- cação e o processamento para se transfor- Para "parar" o bater de uma asa de insecto,
ce um fluido que circula numa canaliza- mar em células fotovoltaicas sào, pela técni- necessita-se de um tempo de exposição
ção. Se esse fluido for água, produz vapor a ca actual, demasiado dispendiosos para se- muito menor do que o de uma máquina
alta pressão, que é utilizado para accionar rem competitivos. O esforço de investiga vulgar: mesmo a 1/1000 de segundo, as asas
geradores de electricidade. ção nos últimos 20 anos levou a uma me- não passam de uma mancha. São precisas
Mais interessante que a geração de ener- lhoria notável das células e a um abai exposições 10 ou 20 vezes mais curtas.
gia eléctrica pela via térmica é a sua gera- xamento do custo da energia por elas pro Já em 1851 o pioneiro da fotografia Fox
ção por acção directa da luz solar sobre duzida de um factor superior a 20; estima-se Talbot conseguiu fazer uma fotografia de
dispositivos conhecidos pelo nome de cé- que um abaixamento, relativamente ao alta velocidade: prendeu um exemplar do
lulas solares foto voltaicas. custo actual, de um factor de 2 a 4 seria jornal The Times a uma roda, fê-la girar
Desde 1085, data do lançamento do sa- suficiente para tomar competitiva a energia rapidamente e conseguiu tirar uma foto-
télite americano Vanguard, quase todas as fotovoltaica para produção de energia para grafia nítida iluminando a roda com uma
naves espaciais e todos os satélites usam a rede, o que provocaria uma verdadeira faísca intensa que durou apenas 1/100 000
células solares para obter energia eléctrica. revolução, com incalculáveis repercussões de segundo. Utilizando uma câmara-escu-
As células fotovoltaicas são constituídas em áreas tão diferentes como o efeito de ra, o diafragma da máquina pode deixar-se
por uma delgada lâmina de semicondutor, estufa, a chuva ácida ou o preço da gasolina. aberto e a película é exposta unicamente
frequentemente de silício cristalino, com Entretanto, a energia solar fotovoltaica enquanto dura a faísca.

128
Captar em filme
a Natureza
Os fotógrafos da Natureza conseguem
captar a língua rapidíssima do camaleão
que apanha um insecto ou acompanhar o
crescimento de uma planta.
A fotografia a intervalos faz com que
uma planta pareça nascer do solo, flores- A Natureza ao microscópio. Para foto-
cer e morrer em poucos segundos: fixa-se grafar plantas e animais minúsculos, como
a máquina fotográfica em posição e pro- este plâncton. acopla-se uma máquina fo-
grama-se para tirar uma série de fotografias tográfica a um microscópio especial.
isoladas a intervalos de minutos ou de ho-
ras. A película é depois projectada à veloci- magem de alta velocidade, que afrouxa o
dade normal para cinema, de 24 imagens desenrolar de uma acção rápida demais
por segundo, apresentando a acção milha- para os olhos humanos. As mais rápidas
res de vezes mais rápida do que é na reali- máquinas de filmar actuais fotografam
dade. Pode levar semanas para se conse- 11 000 imagens por segundo, comparadas
guir apenas uma porção boa de filme no com as 24 da projecção normal. O filme
último minuto, e a sequência pode ficar passa diante da lente a quase 320 km/h,
completamente estragada se qualquer com a respectiva bobina a fazer 33 000 ro-
coisa obscurecer o objecto a ser filmado. tações por minuto. Se algo corre mal,
Este tipo de fotografia exige uma prepara- numa fracção de segundo a máquina fica
ção extremamente cuidada e equipamen- encravada e o filme inutilizado.
to muito fiável. Habitualmente, bastam velocidades
No outro extremo, encontramos a fil muito menores: para mostrar os batimen-

AMBIENTE NATURAL EM ESTÚDIO


Esta fotografia de uma rã levou menos de
um segundo a tirar, mas o cenário do es-
túdio levou horas a construir. Corno é di
fícil fotografar animais no seu habitat, cons-
troem se cenários que parecem naturais
(à direita). A rã é colocada nu pedra (foto
grafia inserida) e fotografada. Neste caso,
a máquina foi disparada por uma célula
fotoeléctrica, activada pela rã quando
saltou, o que interrompeu momentânea
mente o raio de luz que incidia na objectiva.
O produto final é tão natural que é impoSSÍ-
"PARANDO" UM PINGO DE AGUA vel descobrir que foi feito em estúdio.
A fotografia de alia velocidade regista o
percurso dos pingos da água caindo so-
bre a superfície do liquido. Uma sequên
cia rápida de flashes conseguiu fotografar
o pingo a cair, a tocar a superfície e a mer-
gulhar, levantando uma coluna de água.

A dificuldade consiste em fazer disparar


o flasli exactamente quando o objecto es-
tiver na posição certa. Muitas vezes, a solu-
ção é fazer o próprio objecto — como a
bala que atravessa uma maçã disparar
o obturador ou o flash ou ambos, inter-
rompendo, por exemplo, um fino raio in
fravermelho ou de luz focado sobre uma
célula de reacção. Pode utilizar-se uma sé-
rie de flashes avançando o filme nos inter-
valos. Esta técnica foi iniciada por um ame-
ricano, Harold Edgerton, nos anos 30.
Usando 10 flashes por segundo e sobre-
pondo todas as imagens na mesma pelícu-
la, conseguiu fotografar o impacte de uma
gota de leite caindo numa tigela.
Fotografia subaquática.
Um fotógrafo utiliza uma es
pécie de periscópio inverti- Plástico que se
do pura fotografar uma ca-
rauela-portuguesa (ú direi-
ta). Estes animais, que ui-
autodestrói
vem em águas quentes,
possuem tentúculos urti- Uma das vantagens do plástico é não enfer-
cantes que podem atingir os rujar nem se decompor. Mas esta vanta-
9 m de comprimento. gem pode constituir um problema: copos,
sacos e recipientes de plástico atulham o
campo o as praias de todo o Mundo e, se
não forem recolhidos, continuarão a acu-
mular-se ano após ano. Para ultrapassar
este problema, têm sido estudadas diver-
sas formas de plástico degradável. O segre-
do consiste em incorporar-lhe um produto
químico atacável pela luz, pelas bactérias
ou por substâncias químicas.
Os plásticos biodegradáveis podem
conseguir-se pela adição de amido: se os
plásticos foram enterrados, as bactérias
que se alimentam de amido irão decom-
pondo-os gradualmente em fragmentos
que desaparecerão sem dano no solo.
Os plásticos degradáveis quimicamente
podem ser decompostos pulverizando-os
com uma solução que provoca a sua disso
tos de asa das aves, dos morcegos e insec nhos com janelas transparentes que per- lução em substâncias inócuas que podem
tos, são suficientes 500 imagens por se- mitem filmar as suas vidas privadas. Quan- ser despejadas para o esgoto.
gundo, o mesmo acontecendo para uma do o filme è montado e combinado com Uma das utilizações dos plásticos degra
rã que salta; mas já são precisas 1000 ima- filme tirado no exterior, o espectador nun- dáveis que teve maior êxito foi na cirurgia,
gens por segundo para captar o salto de ca se apercebe de que uma parte foi tirada onde actualmente as costuras são feitas
uma pulga. As maiores velocidades são ne- no estúdio. com plásticos que se dissolvem lentamen-
cessárias para acompanhar um pingo de Alguns dos problemas mais difíceis rela- te nos fluidos orgânicos. Também os me-
água desintegrando-se sobre uma superfí- eionam-se com a filmagem de formas de dicamentos são muitas vezes embalados
cie, uma bala a atravessar um vidro ou um vida demasiado pequenas para serem visí- em cápsulas plásticas que se dissolvem
golfista ao bater a bola. veis a olho nu, como os insectos ou outros lentamente, libertando o medicamento
Filmar animais no estado selvagem é seres minúsculos. Estes têm de ser filma- para o sangue a um determinado ritmo.
um mundo de problemas. Por vezes, os dos através do microscópio, o que reduz Os plásticos foto de gradáveis contêm
fotógrafos têm de servir-se de truques. Por muito a luz que impressiona o filme. As substâncias químicas que se desintegram
exemplo, os filmes que mostram raposas sim, é necessária uma iluminação adicio- lentamente quando expostas ã luz. Em
caçando de noite são, na verdade, frequen- nal, mas há que tomar cuidado para que o França, usam-se no campo tiras de plástico
temente tirados de madrugada ou ao anoi- calor em excesso não afecte os animais. fotodegradável com cerca de 1 m de largu-
tecer, quando a luz natural é suficiente. 0 Outro problema inerente à filmagem ra para reter o calor no solo e produzir co-
filme é depois tratado com filtros que nos destes seres são as vibrações. O mais pe- lheitas têmporas. Duram entre um e Ires
dão a ideia de ser muito mais escuro. Por quenino movimento entre a objectiva e o anos antes de se decomporem e se integra-
vezes, os animais são fotografados a noite, objecto prejudica a focagem. Esta difieul- rem no solo. No entanto, só podem ser
mas, mesmo com intensificadores de ima- dade é ultrapassada recorrendo a um usados num país com uma insolação re-
gem que os torna mais fáceis de ver, os "banco óptico" - plataforma com a má gular, para que se decomponham a um
resultados não são muito bons. quina rigidamente fixada numa das extre- ritmo previsível. Nos EUA, cerca de um
Muitos filmes de animais "selvagens" midades e o objecto da fotografia na outra. quarto das juntas que seguram as lalas de
são feitos com animais semiamansados Se um camião que passa provoca vibra cerveja nas embalagens de seis são feitas
ou mesmo treinados. Alguns fotógrafos ções, a câmara e o objecto vibram em unís- de um plástico chamado ecofyte, que é fo-
cuidam de aves desde o momento em que sono e a focagem não é afectada. todegradável. Mas, para que não se de-
saem do ovo, e estas passam a segui-los Alguns dos filmes mais interessantes componham cedo demais, estas embala-
para onde quer que vão. Montando a má- conseguem-se utilizando um aparelho gens têm de ser armazenadas ao abrigo da
quina numa camioneta ou num barco rá- que parece um periscópio invertido e que luz solar directa, o que pode representar
pido, conseguem filmar de muito perto as permite filmar, por exemplo, um insecto um inconveniente para o retalhista.
aves que voam atrás deles. enquanto percorre o chão da floresta. O O plástico degradável tem outros pro-
Muitos animais são filmados em estú- animal pode ser seguido quando desapa- blemas. Por exemplo, não pode ser reci-
dio: alguns não podem ser treinados, e não rece por detrás de uma folha ou mergulha clado porque não há processo de medir
é prático filmá-los na Natureza. O habitat na água. O periscópio é suspenso de uma facilmente a sua vida residual. A maior
de uma truta que desova num riacho de câmara montada sobre carris num cavale- desvantagem tem sido o seu custo de
montanha, por exemplo, pode imitar-se te por cima da cabeça do operador para produção, mas os cientistas japoneses
num tanque de vidro. Cenas de pequenos poder ser focada enquanto é rodada, incli- pensam conseguir um plástico biodegra
animais dando à luz e criando os filhos nada ou movimentada para trás e para dável para diversos fins a custo muito
conseguem-se construindo no estúdio ni- diante. mais baixo.

130
Como o petróleo deu lugar
à "revolução do plástico"

PLÁSTICOS:
OS MATERIAIS
MAIS VERSÁTEIS
Desde que os plásticos foram
inventados nos finais do século xix que em lodo o Mundo
ocorreu uma revolução de materiais. Hoje em dia, a maioria
dos brinquedos e dos artigos de desporto e muitos artigos
domésticos contêm pelo menos um material plástico. Uma vez
que sáo à prova de água e não se decompõem, os plásticos
são ideais para urtigos de exterior, como tubagens de esgotos
ou vasos de plantas. Têm também a vantagem de poderem ser
moldados praticamente na forma que se quiser, rapidamente e corri
pouco custo — a caixa amarela para a viola, as cadeiras, o tabuleiro
do gelo e o resistente capacete de protecção são apenas alguns exemplos.

O termo "plásticos" abrange uma exten- termoplásticos - são aquecidos a cerca


sa gama de materiais fabricados pelo ho- de 200"C, as cadeias mantêm-se intactas,
mem a partir de dois elementos básicos: o mas separam-se o suficiente para desliza-
carbono e o hidrogénio. Adicionando-se- rem umas sobre as outras. Esta característi
Ihes outros elementos ou produtos quími- ca permite que os termoplásticos sejam
cos, os plásticos adquirem propriedades repetidamente aquecidos e moldados em
Se retirássemos das nossas casas tudo especiais, como maior rigidez, resistência novas formas. Uma vez arrefecido, o plásti-
aquilo que contém plástico, que restaria7 ao calor, poder deslizante e flexibilidade. co conserva a nova forma e mantém a sua
Muitas cozinhas ficariam quase nuas, a Os plásticos são constituídos por molé- resistência. Há, contudo, outros plásticos
maioria das carpetas e tapetes desaparece culas grandes denominadas polímeros, que, uma vez moldados, se mantêm duros
riam, assim como muitas roupas e, possi- por sua vez formadas por moléculas mais e conservam a fornia ainda que reaqueci
velmente, as cortinas. Deixaria com certe- pequenas unidas entre si em cadeias lon- dos: são os duroplásticos.
za de haver telefone, alta fidelidade e televi- gas. Estas enredam-se, dando aos plásticos O processo de ligação das moléculas pe
são, cartões de crédito, neve artificial e arti- a sua resistência. quenas para formação das moléculas gran-
culações protésicas. Quando a maioria dos plásticos — os des, a polimerização, difere de plástico para

l >; 1
tos, que podem ter centenas de átomos.
O NASCIMENTO DE UMA INDUSTRIA DE BILIÕES No processo da refinação rio petróleo
A moderna indústria dos plásticos nas- O celulóide não é uma substância in- bruto obtêm-se, como subprodutos, mui-
ceu na América na década de 1860, com teiramente sintética, porque a sua maté- tos hidrocarbonetos diferentes. Um deles é
um concurso para se encontrar uma ria-prima é a celulose que se encontra o etano (dois átomos de carbono e seis de
bola de bilhar de melhor qualidade. Ofe- nas plantas. Leo Baekeland, químico bel- hidrogénio), gás que pode ser convertido
recia-se um prémio de 10 000 dólares ga a trabalhar na América, criou o primei- num outro, o etileno, e depois polimeriza-
para quem descobrisse um substituto ro material inteiramente sintético em do para fabricar polietileno. De forma se-
de baixo preço para as bolas de marfim. 1907 combinando fenol (ácido carbóli- melhante, o gás propano transforma-se
O vencedor foi John Wesley Hyalt, que co) com o gás formaldeído e produzindo em polipropileno. Estes dois plásticos são
fez uma bola de uma substância a que um plástico a que chamou baquelite. usados para fabricar garrafas, tubos e sa-
chamou celulóide. Na esteira desta descoberta de Baeke- cos de plástico.
Depressa se descobriram novos usos land, foram inventados muitos outros O PVC — cloreto de polivinilo — é qui-
para o celulóide - armações para ócu- plásticos. Mas ele próprio teria ficado ad- micamente semelhante ao polietileno,
los, cabos de faca, pára-brisas para os mirado com o desenvolvimento da in- mas um dos átomos de hidrogénio foi
primeiros automóveis e películas foto- dústria, que, só nos Estados Unidos, tem substituído por um de cloro. Esta pequena
gráficas. Sem o celulóide, a indústria cine actualmente uma produção bruta supe- alteração torna o PVC "retardador do
matográfica nunca poderia ter nascido. rior a 100 biliões de dólares. fogo", pelo que é mais seguro para usar em
casa. Se em vez do átomo de cloro forem
usados quatro átomos de flúor, obtém-se o
plástico. Mas envolve frequentemente é constituído por hidrocarbonetos — politetrafluoretileno, ou PTFE. Este produ-
pressões elevadas e o emprego de agentes átomos de carbono e de hidrogénio to, conhecido por íefíon, é usado nas frigi
especiais, os catalisadores, que fomentam ligados entre si. Os hidrocarbonetos vão deiras não-aderenles e em chumaceiras.
a ligação das moléculas pequenas. desde moléculas simples como o me- Muitos polímeros têm sido fabricados
Os átomos de carbono e de hidrogénio tano (gás formado por um átomo de em laboratório, mas só os de propriedades
que constituem a base de todos os plásti- carbono combinado com quatro átomos mais úteis, como o poliestireno, o PTFE e o
cos provêm do petróleo bruto. O petróleo de hidrogénio) até aos alcatrões e asfal- nylon, são produzidos industrialmente.

Como se extrai petróleo do solo


Como é que efectivamente se extrai petró- Periodicamente, torna-se necessário rece e é substituída por uma nova, a vara
leo do fundo do mar ou do solo? substituir a broca. Então, a vara tem de ser toma a ser montada e descida pelo poço. O
Os poços de petróleo são perfurados totalmente içada para o exterior e separada processo pode demorar até 10 horas.
com brocas de perfuração, que, rodando, em stands de 27 m (cada um com três seg- Para que os lados do furo não se desmo-
vão desintegrando a rocha. A broca de aço, mentos), que são amimados verticalmen- ronem, este é revestido por pesados tubos
ou de aço com ponta de diamante, é colo te na torre. Quando finalmente a broca apa- de aço que são descidos à medida que a
cada na extremidade de um forte tubo de
aço chamado vara de perfuração, que roda
accionaria por uni motor à superfície ou
por uma turbina no interior do furo.
Os fragmentos áe rocha são trazidos
para a superfície pelo retorno da chamada
"lama de perfuração", que é injectada pelo
interior da vara de perfuração. Não é real-
mente lama, mas uma combinação de
substâncias químicas e água que impele
os fragmentos para a superfície e evita o
sobreaquecimento da broca por fricção.
À medida que o furo se torna mais pro-
fundo, têm de acreseeniar-se novos seg-
mentos de vara, em geral com 9 m de com-
primento. Na extremidade superior da
vara fica o kelly, que se ajusta a uma placa
giratória no chão da torre de perfuração.
Para acrescentar um novo segmento à
vara, esta é içada o suficiente para remoção
do kelly, o novo segmento é ligado à extre-
midade superior da vara antes de se repor
o kelly — e a perfuração continua.

Fonte dupla. Duas torres de perfuração de


petróleo flanqueadas por guindastes. De
cada lado, chaminés de descarga quei
marn os excessos de gás proveniente do
depósito petrolífero submarino.

132
perfuração prossegue e fixados por betão.
0 revestimento vai-se estreitando gradual
mente com a profundidade do poço. Um
poço de 4500 m pode ler um tubo de reves-
Como se sabe onde procurar petróleo
timento com um diâmetro de 76 cm à su-
perfície, diâmetro este que diminui escalo-
nadamente até 18 cm no fundo.
Se a broca encontra petróleo, o peso da
lama assegura que este não se escape; mas
existe um dispositivo de segurança adicio-
nal, constituído por uma válvula especial
fixada no topo do tubo de revestimento.
0 ritmo de perfuração de um poço de-
pende da natureza da rocha. Pode demo-
rar tanto como 30 cm/h na rocha imper-
meável e compacta da abóbada ou ser tão
rápido como 60 m/h nos arenitos.
Quando se encontra petróleo, é preciso
perfurar uma série de poços de produção
para o trazer à superfície. No mar e em
terrenos difíceis, o primeiro passo é abrir
diversos poços destinados a cobrir toda a
extensão da jazida. A abertura destes poços
pode fazer-se de uma única torre ou plata-
forma, dirigindo os furos para diversas par-
tes do campo petrolífero. Num campo mui-
to vasto terão de usar-se várias torres de
perfuração, cada uma delas perfurando di-
reccionalmenie segundo um plano prévio,
para que toda a área seja explorada.
Depois de perfurados e revestidos os po- Por volta do ano 2020, as reservas de petró-
ços de produção, desce-se por eles um ca- leo conhecidas devem estar esgotadas. Da-
nhão de perfuração para impelir cargas ex- qui ale lá, será necessário encontrar novos
plosivas até à rocha através da tubagem c campos petrolíferos, provavelmente em lu-
cimento do revestimento, a fim de abrir gares cada vez mais inacessíveis. São preci
fissuras na rocha e permitir que o petróleo sas três condições para que se forme uma
entre nos poços. jazida de petróleo: o tipo certo de rocha
Enquanto o produto é extraído, a pres- sedimentar para criar o petróleo; uma ca-
são pode ser mantida injectando-se água mada de rocha porosa para o armazenar, e
ou gás para empurrar o petróleo para os uma "tampa" de rocha impermeável para o
poços de produção. Mais tarde, podem reter. As rochas sedimentares formam-se
empregar-se bombas eléctricas ou mecâ ao longo de milhões de anos a partir de
nicas. Mas, mesmo com o auxílio destas sedimentos que contêm peixes, conchas,
técnicas, raramente é possível extrair mais plâncton e plantas. Quando estas matérias
do que 30 a 50% do petróleo de um campo. orgânicas se decompõem, produzem pe-
tróleo e gás. Havendo uma camada de ra-
Perfuração por computador. Compu- cha porosa, ela impregna se de petróleo
tadores fornecem o traçado de linhas de como uma esponja. Uma camada de rocha Testes sísmicos. ;Vo oasto deserto da Ara
perfuração altematioas (representadas impermeável sobre o petróleo irá retê-lo, bia, prospectores pesquisam petróleo P/O
corno traços coloridos atravessando as di- desde que a tampa tenha a forma adequada uocam explosões e medem as ondas de
ferentes camadas rochosas) depois de se — idealmente, a de uma abóbada. choque a fim de elaborarem uma carta das
ter procedido a testes sísmicos. Para se encontrarem bacias sedimenta- formações rochosas subterrâneas. Podem
res em que poderá ter ocorrido a formação assim saber se é ou não prouável encontrar
de petróleo, fazem-se frequentemente es- -se petróleo num dado local.
tudos de magnetismo e de gravidade. To
das as rochas são magnéticas, mas o mag- medição do campo gravítico para inferir
netismo varia ligeiramente de rocha para conclusões quanto às densidades das ro-
rocha, dando aos geólogos indicações so- chas abaixo da superfície. Um aparelho
bre a estrutura e o tipo das rochas que se chamado gravírnetro consegue medir va-
encontram sob o solo. Outras indicações riações da aceleração da gravidade terres
são dadas pelas densidades diversas das tre de uma parte em 100 milhões. Há uma
rochas. Na prospecção magnética, recor- versão deste instrumento, estabilizada por
re-se a um avião que reboca sobre a zona um giroscópio, para fazer leituras no mar.
um magnetómetro que mede o campo As informações colhidas são processa
magnético. As variações do campo mag- das em computador e interpretadas por
nético ajudam a construir uma imagem da geólogos. Se os resultados forem promete
estrutura do solo sobrevoado. dores, as pesquisas prosseguem agora por
A prospecção gravimétrica baseia se na meio da prospecção sísmica. Esta envia ao

133
solo ondas de choque provocadas por ex-
plosões ou vibrações à superfície. As on-
das viajam a velocidades diversas, confor-
me o tipo de rocha em que se propagam.
Quando atingem a interface entre duas ro-
chas de natureza diferente, as ondas são
reflectidas e voltam à superfície, onde são
captadas por microfones e registadas. Po-
dem então usar se computadores para cal-
cular as posições das camadas de rocha,
com base no tempo entre a emissão das
ondas e o seu retorno, e desenhar um corte
pormenorizado da zona.
Mas os geólogos nunca podem ler a cer-
teza da existência de petróleo em determi-
nado local, mesmo que todos os dados
obtidos o indiquem. Uma das razões prin-
cipais é que os lençóis petrolíferos podem
infiltrar se através de rochas porosas.

A limpeza de um
grande derrame
de petróleo
0 petróleo é o maior poluente dos ocea-
nos e estuários da Terra - e os petroleiros
gigantes, os maiores culpados.
Quase 10 anos depois de o Amoco Ca-
diz, petroleiro líbio, ter nau-
fragado ao largo da Breta-
nha, em Março de 1978, os
cientistas revelaram que na-
quele sector da costa os pei-
xes ainda não se reprodu-
ziam como anteriormente.
A solha apresentava órgãos Costa contaminada. As praias
reprodutores anormais c negras da Bretanha (em cimo)
defeituosos, e as ostras en depois de o petroleiro líbio Amo-
contravam-se contamina- co Cadiz ler naufragado, em
das. 1!)78. Um enorme dique pneu-
Em 1989, uma mancha mático flutuante (à esquerda! foi
gigante de petróleo no golfo utilizado para tentar represar a
do Príncipe William, no mancha de petróleo ao largo. As
Alasca, contaminou as zo- operações de limpeza junto à
nas de reprodução de focas, costa são frequentemente exe-
leões-marinhos c aves. Der- cutadas por uoluntários usando
ramaram-se 45 milhões de simplesmente pás e baldes
litros de petróleo quando o
Exxon Valdez, navio de 216 000 t, encalhou estragos na vida marinha. A desintegração extremidades do dique são presas a na-
num recife. pode ser acelerada regando-se o petróleo vios, que o arrastam devagar sobre a água,
Ninguém sabe precisamente quanto com agentes químicos de dispersão, que capturando o petróleo. Um destes navios
petróleo é derramado acidentalmente e são, basicamente, detergentes. bombeia o produto, através de uma con-
quanto é lançado deliberadamente ao mar Mas também estes podem ter efeitos in- duta flutuante, para um navio-lanque pró-
em deslastragens de rotina. desejáveis, destruindo os óleos naturais ximo. Este sistema pode recolher diaria-
A contaminação dá-se muitas vezes nas penas das aves marinhas e ríiminuin- mente 15 000 t de mistura petróleo água.
quando os petroleiros lavam com água do do-lhes a sua capacidade de flutuação. Foram já criados diversos outros siste-
mar os reservatórios vazios depois de uma O ideal será circunscrever a mancha de mas e dispositivos para aspirar o petróleo
entrega. Os resíduos que são bombeados óleo antes que alastre e depois remove la depois de circunscrito, entre os quais as
para o mar podem ser consideráveis. da superfície do mar por meio de bombas. escumadeiras de absorção e as escuma-
Se não forem tomadas quaisquer medi- Para esse efeito, coloca-se em volta da deiras de barragem.
das, um derrame de petróleo acaba por se mancha um grande dique flutuante de tu- As escumadeiras de absorção empre-
dispersar, desintegrando-se em resíduos bos cheios de ar. Como o petróleo flutua gam cilindros, correias ou esfregões, com
inócuos — depois de ter causado enormes na água, o dique evita que ele alastre. As as superfícies tratadas por compostos quí-

134
Os problemas tinham começado em
Novembro de 1961, quando o gás do poço
irrompera, ejectando a vara de perfuração.
O gás saía para o ar em quantidades que
teriam chegado para satisfazer as necessi-
dades energéticas de uma cidade como
Paris. Ainda náo havia chamas - unica-
mente um fortíssimo jacto de gás. Mas a
ameaça que pairava no espírito de todos os
observadores era que bastaria uma sim-
ples faísca para fazer eclodir um inferno.
Os franceses proprietários do poço pe-
diram ao "bombeiro" número um dos po-
ços de petróleo e dos campos de gás, o
texano Red Adair, que acorresse à emer-
gência Ocupado com um fogo no México,
Adair mandou imediatamente dois dos
seus assistentes principais para o campo
petrolífero de Gassi Touil, no deserto, a
sueste de Argel, a capital argelina.
Durante sete dias, a equipa de Adair
bombeou lama para dentro do poço para
tentar bloquear o gás que saía Até que, ao
meio-dia de 13 de Novembro, se deu uma
violenta explosão e a coluna de gás, até
então quase invisível, se incendiou. A ori-
gem esteve provavelmente numa faísca de
electricidade estática criada pela areia que
era constantemente ejectada.
O trabalho agora era para o próprio Red
Adair. Com 47 anos, havia 24 que combatia
fogos desta natureza. Ao chegar ao local,
apercebeu-se de que o fogo, se náo fosse
dominado, poderia arder sem cessar du-
rante 100 anos.
Para o apagar — "matá-lo", na gíria dos
campos petrolíferos —, tinha de o privar de
oxigénio, para o que detonaria junto à cha-
ma uma poderosa carga explosiva.
Levou cinco meses a juntar todo o equi-
micos sintéticos aos quais o petróleo adere pamento de que precisava, a transportá-lo
e a água não. O cilindro ou a correia rodam pelo ar para a Argélia e daí para o deserto.
sobre a mancha, apanhando o petróleo da
superfície do mar. Uma lâmina semelhan-
Como se apaga Só em Abril de 1962 ele e a sua equipa se
consideraram prontos para iniciar o traba-
te a um limpa-pára-brisas vai raspando
continuamente o petróleo, limpando a
um fogo num poço lho. A população inicial de 30 homens do
campo crescera para se transformar num
correia ou cilindro para dentro de um con-
tentor.
de petróleo acampamento de 500 pessoas. Diaria-
mente, chegavam camiões com bulido
As escumadeiras de barragem colocam zers, bombas e secções de tubagem.
um dique um pouco abaixo da superfície, 0 Isqueiro do Diabo - como foi apelidado Nessa época, a Argélia encontrava-se
de modo que o petróleo passa sobre ele. O o fogo no poço de petróleo — ardia há em plena guerra para se tornar indepen-
nível do outro lado é mantido um pouco quase seis meses nas areias do interior do dente da França. Além de contratar um in-
abaixo por bombagem; o petróleo assim Sara. térprete francês, Adair rodeou se também
escumado vai sendo transferido para um Revoluteando e torcendo-se, as chamas de guardas armados de metralhadora para
reservatório. vermelho-aJaranjadas elevavam-se a 140 m o protegerem e aos seus homens. Mas a
A forma mais simplificada deste proces- de altura, fazendo um penacho a que os tarefa que linha em mãos era a sua preo-
so utiliza tambores de óleo sem tampa, las- ventos do deserto davam as mais fantásti- cupação principal.
trados com pedras e colocados em água cas formas. O penacho era visível a mais de Antes de mais, precisava de água, que
tão pouco profunda que os bordos eslão 150 km no céu da Argélia Central, e foi visto obteve por meio de furos, criando um re-
imediatamente abaixo da superfície. O pe- do espaço pelo astronauta americano servatório que podia ser utilizado para re-
tróleo flutuante entra nos tambores e pode John Glenn quando orbitava a Terra, em gar as chamas sempre que necessário. De-
ser bombeado para o exterior. Fevereiro de 1962. pois, a torre de perfuração de sete andares
Os derrames em terra ou o petróleo que O gás irrompia de um tubo de 33 cm de - que o fogo reduzira a 600 t de aço torci-
o mar lançou à costa sáo difíceis de limpar. diâmetro com uma velocidade superior à do — foi retirada do local, arrastada por
Às vezes, emprega-se maquinaria de re- do som, tão rapidamente, na verdade, que uma enorme grua arrefecida a água e por
moção de terras ou cavam-se valas de dre- as chamas só começavam a quase 10 m de um "ancinho" gigantesco.
nagem. Palha, serradura ou turfa podem altura. O ruído era um trovejar incessante. O O passo seguinte - montar e detonar o
ser utilizadas para a limpeza final. solo do deserto tremia e a areia crepitava. explosivo — era muito mais complicado e

135
perigoso. A única maneira de trabalhar
com um mínimo de segurança era debai- RED ADAIR: O HOMEM E A LENDA
xo de toneladas de água jorrando inces
santemente de oito grandes agulhetas. 0 primeiro trabalho de Paul Neal Petróleo, com a divisa: 'A todas as
Pouco depois das 8 horas de uma ma Adair — alcunhado de Red (ver- horas, em todo o Mundo."
nhã de sábado, Adair - envergando um melho, ruivo) devido à cor flame Três anos depois, o êxito em Gas-
fato-macaco vermelho, capacete de segu- jante do seu cabelo — foi servir de si Touil foi notícia no Mundo inteiro e
rança também vermelho e botas de borra- fogueiro na forja do pai, ferrei- a sua fama cresceu rapidamente.
cha vermelhas — estava pronto. Tinha pre- ro de Houston, no Texas. Mas alguns dos feitos mais dramá-
parado um tractor de lagartas com uma Em 1938, aos 23 anos, ticos de Adair estavam ainda
lança de 15 m a cuja extremidade estava trabalhava como operá- para chegar, pois ele apagou fo-
soldado um tambor de ferro preto envolvi rio num poço de petróleo , gos desde o golfo do México
do em alumínio e amianto. quando uma válvula re- . até ao mar do Norte.
Observado por uma multidão de traba bentou e ele foi atirado a Multimilionário e avó, Red
lhadores do campo petrolífero, de bom- 15 m. Enquanto todos Adair trabalha a partir de um
beiros, de polícias e de enfermeiros - e corriam a abrigar-se, Red escritório em Houston, que
com dois helicópteros em alerta para leva- — embora magoado e — como o seu automóvel e
rem alguém ao hospital se algo corresse abalado — repôs calma- o seu barco a motor — é
mal —, começou a carregar o tambor com mente a válvula em posição encarnado como um carro de
250 kg de dinamite. Ligou depois os deto- A sua coragem foi notada bombeiros. Nos seus cinquen-
nadores e o fio eléctrico ao tambor. O fio pelo pioneiro nos combates ta e tal anos de combate ao
conduzia a uma trincheira a 180 m do fogo, aos fogos de petróleo Myron fogo, lidou com mais de 1000
de onde seria provocada a explosão. Kinley, que pediu ao jovem Adair incêndios e explosões em po-
O sol estava já ardente quando, pelas 9 que o ajudasse num acidente em ços de petróleo.
horas, Adair e o seu assistente subiram Alice, Texas. Os dois homens tra- "1 lá duas coisas de que real-
para o tractor. Adair tomou os comandos e balharam juntos até os Estados mente gosto no meu trabalho",
a máquina avançou como um monstro Unidos entrarem na II Guerra disse uma vez numa entrevista.
pré-histórico de longo pescoço, entrando Mundial, em 1941. Adair, que "Nunca saber para onde vou quan-
debaixo do chuveiro das oito agulhetas. prestou serviço no Pacífico, tor- do toca o telefone — e não ser inco-
nou-se especialista em desacti- modado por angariadores de segu-
O Isqueiro do Diabo var bombas, mas voltou a tra- ros de vida!"
Quando o tractor se aproximou do fogo, o balhar com Kinley desde o fim
assistente saltou para o chão e guiou Adair da guerra até 1959, Neste ano, Bombeiro dos poços de petró-
fazendo sinais com as mãos. Lentamente, criou a sua própria empresa, a leo. Red Adair, em 1968. Nunca dei-
a lança conduziu o tambor de explosivo Companhia Red Adair de Controle xou de apagar um fogo — alguns em
até uns centímetros do ponto onde a colu- de Fogos e Explosões em Poços de seis meses, outros em segundos.
na de gás se transformava em chama.
Depois, o assistente correu a abrigar-se
na trincheira. Adair saltou do tractor e cor- desfiado com 3000 m de comprimento, Piper Alpha: bola de fogo assassina
reu atrás dele. Assim que os dois chegaram cortaram a parle do tubo que saía do Em 6 de Julho de 1988, a plataforma petrolí-
à trincheira, o assistente carregou no con- solo. Para apagar quaisquer faíscas, a fera Piper Alpha, a 190 km ao largo da costa
tador - e o rugido do fogo foi afogado zona de trabalho era continuamente escocesa, no mar do Norte, sofreu o maior
pelo som de um poderoso "brrrrum". inundada de água. Em seguida, a grande desastre da história do petróleo. Duas
Um espesso fumo negro cobriu a cena. cabeça de controle — um complicado imensas explosões envolveram a platafor-
O trovejar do fogo foi substituído por um conjunto de válvulas, flanges e tornei- ma numa bola de fogo, matando 167 ho-
ruído agudo e sibilante do gás que se esca- ras - foi levada para o local. mens. Depois de recolhidos os 63 sobrevi-
pava. O Isqueiro do Diabo fora apagado. Uma vez colocada, a grande cabeça iria ventes, as atenções centraram-se na extin-
A seguir, veio a tarefa de tapar o poço desviar o jacto de gás da área de perigo ção do fogo nos cinco poços em chamas.
com um bloco de aço com 3 m de altura e o para um tubo transversal com 365 m de A plataforma retorcida estava coberta de
peso de 8 t, chamado cabeça de controle. comprimento. Este seria aceso nas extre petróleo escorregadio e de destroços, al-
Mas Adair decidiu esperar até à segunda- midades e o poço ficaria sob controle. guns com mais de 20 t. Antes de se tentar
-feira seguinte. Primeiro, havia uma série Devido ao perigo que a utilização de extinguir qualquer dos poços, havia que
de pequenos fogos dispersos em volta da uma grua poderia representar - pois po- retirar os destroços — mas a plataforma
boca do poço que tinham de ser apaga dia fazer faíscas enquanto trabalhava —, atingia uma temperatura muito acima dos
dos; depois, era preciso ter a certeza de foi um grupo de 20 operários que içou a 1000tJC e estava inclinada a 45°. Havia o
que o tubo do poço estava intacto. Com cabeça com cordas e a colocou sobre o perigo de se desmoronar completamente e
todos os fogos extintos e o poço arrefecido poço. de os poços incendiados explodirem.
por um dilúvio constante de água, Adair Enquanto a cabeça estava a ser descida, Red Adair chegou da América de avião.
sentiu-se aliviado ao verificar que o tubo caía sobre os operários uma chuva de ga- Felizmente, encontrava-se perto da plata
estava intacto. Por isso, na segunda-feira, solina condensada do gás e que se espa- forma o Tharos, navio de emergência de
de manhã cedo, preparou se para corta lo lhava num círculo a partir do poço. Adair e 30 000 I, equipado com aparelhagem de
e aplicar-lhe a cabeça de controle contra a a sua equipa entraram em acção c coloca- combate aos fogos. Desenhado por Adair,
fortíssima pressão ascendente do gás. ram os rebites com martelos de latão (me- o navio tinha uma tripulação de 135 ho
Durante os dois dias seguintes, Adair e nos propensos que os de aço a fazer faís- mens, três gruas, um sino de mergulho e
a sua equipa trabalharam numa nuvem cas). Lançou-se então fogo ao gás que saía uma câmara de descompressão, uma lan-
de gás altamente explosivo que em qual das duas extremidades do tubo transversal - ça telescópica e 16 canhões de água.
quer momento se podia incendiar e quei- e o maior incêndio que até então lavrara Alguns destes foram usados para criar
ma los vivos. Usando um cabo de aço num campo petrolífero foi abafado. uma cortina de água para proteger o Tha-

136
ros, que se deteve a 25 m da plataforma. Os vulas ficam frequentemente inutilizadas.
restantes foram apontados aos fogos. Depois de uma explosão na plataforma
A lança do Tharos é um braço mecânico Ekofisk em 1977, o petróleo jorrou de um
telescópico que pode ser movimentado dos poços com uma enorme pressão e a
para baixo e para cima ou para os lados, uma temperatura de quase 100°. A força do
podendo estender-se quase 20 m para fora jacto de petróleo era demasiada para ser
do barco. A grua principal levantava os des- dominada pela bombagem de água do
troços da plataforma. mar. Red Adair tentou utilizar dois maca-
Enquanto a plataforma era limpa, os ca- cos hidráulicos para comprimir dois semi-
nhões regavam-na com milhões de litros discos para cobrir o topo do poço, mas
de água do mar, e os fogos acabaram por ajustá-los nessas condições não era fácil.
extinguir-se. Mas as bocas dos poços conti- Uma simples faísca e o petróleo incendiar-
nuavam a jorrar petróleo. -se-ia. Após cinco tentativas, tiveram êxito.
Assim que a plataforma arrefeceu o sufi- Outro processo consiste em perfurar
ciente, bombeou-se água do mar para poços de diversão para desviar o petróleo
dentro dos poços, sob pressão muito ele- de um poço ou de um tubo, reduzindo-se
vada, sustendo-se assim a saída do petró- assim o volume e a pressão no poço princi-
leo. Imediatamente se injectou betão em pal. Esta medida fora já prevista para o caso
cada poço, vcdando-os definitivamente. de o plano inicial para dominar a explosão
Red Adair e a sua equipa limparam todos da Pi per Alpha ter falhado: o aparelho de
os destroços e dominaram os fogos dos perfuração semi-submersível Kingsnorth
poços em apenas 36 dias. começara já a perfurar outro poço até uma
Cada fogo em poços de petróleo tem profundidade de 2600 m abaixo do fundo
problemas próprios, mas os processos do mar. A ideia era vedar o poço com ci-
de o extinguir são basicamente os mes- mento a partir do fundo para impedir o Homem de acção. Red Adair. nesta foto
mos. 0 mais simples é impedir se o fluxo fluxo do petróleo, mas tal não chegou a ser grafia, dirige as operações para dominar
de petróleo ou de gás pelo fecho das válvu- necessário. A equipa de Red Adair conse- uma fuga de metano perto de Franenthal,
las. Mas depois de uma explosão, estas vál- guiu tapar todos os poços. Alemanha, em 1980.

Inferno no mar do Norte. O desastre na plataforma petrolífera Piper Alpha em 1988 foi o mais grave de sempre, corri 167 mortos. Canhões de
água (pormenor em cima, à esquerda) regaram os fogos que deflagraram após duas explosões que abalaram a plataforma.

137
Como se mede uma montanha?
Em 1749, o 'levantamento topográfico da A posição do Evereste como a monta-
índia" feito pelos Ingleses identificou um nha mais alta do Mundo náo foi posta em
pico muito elevado nas montanhas dos Hi causa até 1986, quando George Waller-
malaias. Foi designado por Pico XV, mas só Stein, da Universidade de Washington, uti-
em 1849 outra missão topográfica decidiu lizando um método diferente, afirmou que
medir a sua altitude. Quando o levanta- uma outra montanha dos Himalaias, a K-2,
mento terminou, em 1852, confirmou-se poderia ter mais 11 m do que o Evereste.
que o Pico XV era o mais alto do Mundo. Esta afirmação era tão perturbadora
Foram sugeridos diversos nomes para que uma expedição italiana que se encon
este pico, incluindo Devadhunga (Trono trava nos Himalaias em 1987 decidiu verifi-
dos Deuses) e Guarishankar (A Esplendo- cá-la. Colocaram-se receptores nas encos-
rosa Noiva Branca de Xiva). Mas o nome tas do Evereste e do K-2 e empregaram-se
aprovado foi o sugerido por Andrew sinais de Navstar (navegação electrónica
Waugh, topógrafo-geral da índia, que por estrelas) para determinar as respecti-
achou que o monte devia ter o nome do vas alturas e posições Esta medição era
seu antecessor. Sir George Everesl. decisiva, pois as discrepâncias nas altitu-
Para calcular a altitude do Evereste, em- des das montanhas devem-se habitual-
pregaram-se os métodos clássicos de to- mente a erros na altitude da linha de base
pografia. No solo e a uma altitude conheci- sobre que se fundamentam os cálculos. A
da, mediu-se uma linha de base com vários equipa do geólogo Ardito Desio calculou
quilómetros O cume da montanha era vi então as alturas das duas montanhas utili
sível dos dois extremos dessa linha, e fize- zando teodolitos colocados nos locais em
ram-se leituras para o cume com tcodoli que se encontravam os receptores. A sua
los - aparelhos que medem ângulos. conclusão foi de que a altitude do Evereste
Conhecendo-se dois ângulos e o com era de 8872 m, 256 ui superior à do K-2.
primento de um dos lados de um triângu-
lo, podem calcular-se os comprimentos
dos outros lados - obtendo-se a distância
da linha de base ao cume. Cálculos subse-
quentes dáo-nos então a altura (v. diagra-
Obrigando o mar
ma). Os topógrafos mediram o Evereste a
partir de seis pontos diferentes — o que
a devolver os seus
produziu seis números entre 28 990 e
29 026 pés (8836 e 8847 m). A média dava
tesouros
exactamente 29 000 pés (8839 m), mas,
dado que esta medida parecia tratar se de No fundo do Atlântico, a 4 km de profundi
uma aproximação, somaram-lhe 2 pés dade, o l)r. Robert Bailará viu à sua frente o
(0,6 m) e emitiram a sua opinião abaliza- vulto do navio de passageiros Titanic. Ele e
da: 29 002 pés, ou sejam 8840 m. a restante tripulação do mini-submarino
Aloin foram os primeiros
homens a pôr a vista no
gigante dos mares desde Apetrechos de um archeiro. Cinco dus
que esle foi afundado 4000 setas recuperadas do Mary Rose 01-
por um icebergue há contrauam-se num suporte de cabedal ao
quase 75 anos. "Mesmo lado de uma braçadeira e de uma bainha
à nossa frente, erguia-se de cabedal.
do fundo uma chapa de
aço negro, aparente- quais já tinham olhado pessoas, para
mente interminável — o decks ao longo dos quais elas tinham pas-
casco maciço do Tita- seado, para quartos onde tinham dormi
nic", escreveu. do, brincado, amado. Era como descer na
De um segundo mer- superfície de Marte apenas para encontrar
gulho — um dos nove os restos de uma antiga civilização seme-
O que faz o topógrafo. Mede se urna tinha de base entre efectuados pelo Aloin lhante à nossa."
dois pontos (A <? Bj à mesma altitude O topógrafo coloca-se em Julho de 1986 - oDr. O Titanic afundou se a cerca de 720 km
em A e aponta o teodolito, primeiro para o cume C, depois Ballard recorda: "Ali es ao sul da Terra Nova no dia 15 de Abril de
para B, obtendo o ângulo x. Faz o mesmo a partir de B para tava eu no fundo do 1912. Das 2200 pessoas a bordo salvaram-
obter o ângulo y. Calcula então a distância ao ponto D, na oceano, olhando objec- -se apenas 705. Era a viagem inaugural do
perpendicular do cume e à altitude da linha de base. Ainda tos que eu reconhecia, navio. Mas só em 1 de Setembro de 1985
em B, determina o ângulo z com um instrumento de nível, criados e construídos — graças às modernas tecnologias o
Com a distância BD e sabendo que o triângulo BCD é rec- pelo homem para um barco foi localizado por uma expedição
tângulo, calcula o comprimento de h, que soma â altitude outro mundo. Olhava conjunta franco-americana, encabeçada
da linha de base para obter a altitude total da montanha. através de janelas pelas pelo Dr. Ballard.

138
Artigos pessoais. Um conjunto de muni
cura, um sapato, pentes e outros objectos
indicam a presença de uma mulher.

Estojo de cirurgião-barbeiro. Encontra


rum se. uma tigela de sangria e uma serin-
ga, um almofariz, um frasco de remédios e
caixas - para uso de um cirurgião.

O "Mary Rose". Esta reconstituição artísti-


ca mostra o Mary Rose antes de se virar, em
1545. 0 orgulho da frota naval de He.nri
que VIII tinha 40 m de comprimento. 91 ca-
nhões e 415 tripulantes. Tempo de lazer. Sobre um tabuleiro de
jogos de madeira vêem-se uma capa cie ti
0 primeiro passo para se encontrar um vro, uma bolsa de couro, uma flauta, moe-
navio naufragado perdido implica buscas das de troca e marcas de jogo. dois dados e
meticulosas nos arquivos históricos, por o esporão de um galo de combate.
forma a determinar com o possível rigor
onde é que o navio se afundou - o que, amarras e rolaram, atravessando o convés,
por vezes, 6 bastante simples. fazendo mais peso a estibordo. O Mary
0 Mary Rose, navio almirante do rei Rose virou-se, afogando 650 homens. A
Henrique VIII de Inglaterra, afundou-se em sua posição era conhecida, mas depois foi
1545 no Solenl com um mar relativamente perdida ou esquecida. L só mais de 400
calmo - à vista de centenas de pessoas anos depois o navio pôde ser levantado.
em terra, incluindo o próprio rei. Um dos achados mais ricos foi o de uma
Quando se fazia de vela com uma frota flolilha de 10 barcos espanhóis ao largo da
de mais Sfl navios para enfrentar uma es- Canhão de bronze. Este. canhão fazia par- Florida. Estes barcos partiram de Havana,
quadra invasora francesa, adernou com o te da artilharia de reforço do Mary Rose. 0 Cuba, de regresso à pátria, carregados de
vento e a água entrou pelas janelas de tiro peso extra deve ter contribuído pura que o ouro, esmeraldas, pérolas e 2300 arcas de
de estibordo. Os canhões partiram as barco se virasse. moedas acabadas de cunhar na Cidade do

139
gunda mão, Wagner fez buscas nas praias dos Imhoff Bentinck, um de cujos mem-
próximas da zona descrita — e encontrou bros se sabia ter estado a bordo do Hollan-
um enorme tesouro de objectos valiosos, dia, confirmando a respectiva origem. Fo-
incluindo urna corrente de ouro com pin ram ainda encontradas mais de 35 000
gente, leiloada por 50 000 dólares, e um moedas de prata com o valor de cerca de
anel de brilhantes que valia 20 000. I milhão de libras.
Wagner fez-se ao mar e começou a mer- Os magnetómetros revelaram-se, po-
gulhar para encontrar os despojos. O te- rém, infrutíferos na descoberta do Mary
souro que acabou por recolher valeu mais Rose. Embora este tivesse naufragado a
de 5 milhões de dólares. poucas centenas de metros da costa, esta-
O emprego do detector de minas por va coberto de lodo e areia quando se inicia-
Wagner foi o começo da aplicação das mo- ram as buscas.
dernas tecnologias à busca de barcos nau- A solução veio de outro invento moder-
fragados. Em 1970, o inglês Rex Cowan n o — o sonar. Criado para a guena subma-
decidiu procurar o Hollandia. que fizera a rina, o sonar emite sinais sonoros e regista
rota das Índias Orientais I lolandesas e se os ecos reflectidos por objectos sólidos.
Tesouro espanhol. Uma arca contendo perdera ao largo das ilhas Scilly em 1743. Um tipo de sonar que detecta objectos
moedas de prata fazia parte do tesouro des- Sabia, por relatos da época, a posição afundados no lodo ou na areia produziu
coberto perto dos destroços de um galeão aproximada do naufrágio, mas os mergu- sinais que poderiam indicar a presença de
espanhol afundado em 1622 ao largo da lhadores não encontravam quaisquer ves- uma elevação no fundo do mar — e algo
costa da Florida. tígios. Cowan usou então um magneto- de sólido no seu interior. Três anos depois,
metro — aparelho que se reboca de um as marés tinham retirado parte dos sedi-
México — tesouro que valeria pelo menos barco e que detecta alterações do campo mentos do lado de bombordo do navio
50 milhões de dólares ao valor actual. Os magnético provocadas por objectos de fer afundado e podiam verse algumas madei-
navios foram apanhados por um tufão e ro, como canhões. ras. Começou então a histórica recupera
afundaram-se a sul de Cabo Canaveral. Depois de, durante meses, ter percorri- çáo — uma "cápsula do tempo" da vida a
Na década de 50, Kip Wagner, "caçador do a zona provável em todas as direcções, bordo de um navio de guerra do século xvi.
de tesouros" nas praias, encontrou algu- Cowan e a sua equipa tiveram finalmente Mas a redescoberta do Titanic deve con-
mas moedas de prata na baía de Sebastian, uma indicação alguns dias apenas antes de siderar-se o mais notável achado do mar
64 km a sul de Cabo Canaveral. Investigan- terminar a estação de mergulho, no mês alto. Encontra-se a uma profundidade ex-
do a sua origem, leu algo acerca da esqua- de Setembro, depois do qual as condições cessiva para mergulhadores, e descobri lo
dra e convenceu-se de que tinha encontra meteorológicas são geralmente desfavorá- na imensidade do Atlântico Norte com
do parte do seu tesouro. Mandou uma veis. Mergulharam, nada encontraram, apenas uma ideia vaga da sua localização
moeda para a Smithsonian Institution em mas voltaram no dia seguinte - e desco- exigia capacidades especiais. A equipa
Washington, mas disseram-lhe que ela briram canhões com o monograma da de- conjunta franco-americana utilizou um
não podia pertencer àquela flotilha, que se pendência em Amsterdão da Companhia aparelho de sonar para grandes profundi-
tinha afundado 240 km mais a sul. Holandesa das índias Orientais. No dia se- dades para esquadrinhar o fundo do mar e
Não convencido, Wagner e um amigo, guinte, descobriram uma colher de prata encontrar o navio naufragado — e uma
o Dr. Kip Kelso, continuaram a investigar com o brasão de uma família holandesa, a máquina fotográfica submarina de co-
por sua conta e descobriram que Bernard mando remoto para colher as primeiras
Romans, cartógrafo inglês, descrevera em imagens. Um ano depois, de bordo do
1775 o local onde a frota se afundara e che- submarino Alvin, para três tripulantes, o
gara a desenhar um mapa. Equipado com Dr. Ballard, geólogo oceanográfico do Ins-
um detector de minas comprado em se- tituto Oceanográfico de Woods Hole, no
Massachusetts, via o barco com os seus
próprios olhos. O submarino pousou na
proa e na ponte. Uma câmara-robô sub-
marina de controle remoto, a Jason Júnior.
desceu a Grande Escadaria, fotografando
lustres ainda pendurados, relógios, pratas
e os interiores dos camarotes.

Como funciona
o escafandro
autónomo?
Desde o século xix que os cientistas vi-
nham tentando inventar um aparelho de
respiração eficaz e autónomo para os mer-
Imagens de sonar de um navio naufragado no Árctico. O navio Breadalbane perdeu-se gulhadores. Em 1943, Jacques Yves Cous-
em 1853 na Passagem do Noroeste, no Canadá, quando procurava sobreviventes da expedi- teau e Emile Gagnan aperfeiçoaram o es-
ção Franklin. Foi detectado em 1980 com o auxílio de rastreio por sonar. As imagens mostra- cafandro autónomo, inventado em 1865
ram o navio, a 104 m de profundidade sob o gelo. com as velas ainda nos mastros. por Roquayrol e Denayrouse. Cousteau

I In
utilizou este escafandro para descer até Respirar debaixo de
60 m de profundidade. água. O ar que esta mergu-
Os pulmões humanos não são suíicien lhadora respira do cilindro
temente poderosos para se expandirem do seu escafandro aula no
contra a pressão da água abaixo de cerca mo está regulado para
de 45 cm. A pressão aumenta rapidamente igualar a pressão da água
com a profundidade, e a 10 m atinge já sobre o seu corpo. Quando
2 atmosferas - cerca de 2 kg/cm2. ela inspira, uma membra-
Para respirar debaixo de água, o mergu- na elástica no bocal cria
lhador tem de receber ar à mesma pressão uma depressão na câma-
que a da água que o rodeia. No escafandro ra, abrindo uma válvula e
autónomo, o ar está armazenado a alta deixando entrar o ar. Este
pressão - alé 200 atmosferas — em cilin- baixa de pressão para
dros atados às costas do mergulhador e igualar a que a água exerce
ligados à boca por um tubo e um bocal. sobre a face exterior da
O ar chega ao mergulhador através de membrana. Quando a ins-
um regulador de dois andares. No primeiro, piração termina, o ar que
a pressão é reduzida a cerca de 10 atmosfe- entra empurra a membro
ras acima da da água envolvente. O segun- na, fechando a válvula e,
do, no bocal, fornece ao mergulhador ar à portanto, o fluxo de ar. O ar
mesma pressão que a da água que o rodeia. expirado sai por válvulas
Uma membrana elástica no bocal está em de escape, deixando um
contacto com água num dos lados e com rasto de bolhas. O botão de
uma câmara-de-ar no outro. Quando o purga do bocal pode ser ac-
mergulhador inspira, a membrana é puxa- cionado para deixar entrar
da para dentro e empurra uma alavanca na ar ou expulsar água.
câmara; esta alavanca faz abrir uma válvula
que deixa entrar o ar do tubo, o qual diminui
de pressão quando entra.
Quando o mergulhador pára de inspi
rar, o ar que entra na câmara empurra a
Membrana
elástica v—1= Água
Membrana
elástica
|^-
Agua
Botão
de purga
Alavanca •* Válvula
Alava
membrana elástica, fechando a válvula e 'jt A—^~ Válvula
cortando o fluxo de ar.
* »
Mesmo quando o mergulhador não
esla a inspirar, um aumento da pressão da
água quando ele mergulha empurra a
membrana para diante, a fim de abrir a
válvula e deixar penetrar o ar do tubo. Por
Câmara-
-de-ar

Regulador
do bocal
'

y< Ar do '
cilindro

Ar
inspirado
1 Cámara-
-dc-iir
?tf ^_ Válvula
de escape
Ar
"expirado
isso, o ar na câmara do bocal está sempre à Inspiração Expiração
mesma pressão que a da água envolvente.

Como sáo reparados os cabos de telefone submarinos?


Um grande número de conversações tele- reparações. O trabalho é feito por submer- saparece, o submersível pousa no fundo
fónicas internacionais continua a ser feito síveis de comando à distância com o tama- do oceano e põe a visla o cabo avariado
através de cabos assentes no fundo do mar nho de uma furgoneta, que são descidos do por meio de um poderoso jacto de água
e que ligam entre si os continentes. Os saté- navio de manutenção, mergulham até ao que expulsa a camada de areia e lodo.
lites de comunicações ainda não elimina- fundo do mar, localizam a avaria e prendem O CIRRUS eslá equipado com luzes po-
ram a necessidade destes cabos submari- linhas ao cabo avariado. Kste é então puxa- derosas e câmaras de televisão, a cores e a
nos - até a "linha quente" entre Washing- do até à superfície e reparado a bordo. preto e branco, que permitem aos opera-
ton e Moscovo os utiliza. Mas que acontece O CIRRU5 (Cable Installation, Recovery dores a bordo do navio de manutenção
quando um cabo se avaria? and Repair Underwater Subrnersible) e o observar todos os pormenores do terreno.
0 primeiro cabo telegráfico transatlânti- seu sucessor, ainda mais sofisticado, o Usando as imagens como guia, os opera-
co, assente em 1858, avariou-se poucas se ROV128, são comandados através de um dores estendem poderosos braços arti-
manas depois. Hoje, o risco de avaria foi cabo "umbilical" do navio e accionados culados que agarram o cabo. O CIRRUS
muito reduzido pelo emprego de um isola- por propulsores hidráulicos. usa uma lâmina especial para cortar o
mento de polietileno e pela escolha de per- O primeiro trabalho de um submersível cabo avariado e deixa no fundo do mar um
cursos que evitam as zonas de actividade consiste em localizar a avaria. O submersí- «bip-bip» acústico para marcar o local.
vulcânica, correntes fortes ou os bancos vel segue o percurso do cabo no fundo do Depois, sobe à superfície, pega num
de pesca. Nas zonas pouco profundas, os mar, captando os fracos sinais de baixa fre- cabo de aço forte, leva-o para o fundo e
cabos são frequentemente enterrados. quência transmitidos através dele pela es- liga-o a uma extremidade do cabo telefóni
Apesar destas precauções, ainda se dão tação terminal em terra. Se um cabo estiver co, que é então içado para a superfície.
avarias. As grandes empresas de tclecomu partido, a água provoca um curto-circuito Usa-se o mesmo processo para a outra ex-
nicaçóes possuem navios de manutenção que irá estabelecer a ligação entre os fios tremidade do cabo. Uma vez reparado, o
em serviço permanente para efectuar as que compõem o cabo. Quando o sinal de cabo é descido de novo para O fundo.

Ill
A equipa preocupava-se agora em saber
se os seus diamantes seriam tão bons
Fabrico de diamantes em laboratório como os naturais para o corte e a perfura-
ção industriais. O departamento da Gene-
ral Electric que produzia ferramentas de
rior de cilindros de metal resistente, a fim de corte fabricadas com um dos metais mais
produzirem pressões que podiam atingir as duros, o carboneto de tungsténio, pediu
100 000 atmosferas (103 500 kg/cm2). No para ensaiar um exemplar de 25 quilates. A
interior da câmara de pressão, foi construí- equipa dos diamantes podia unicamente
do um forno eléctrico capaz de gerar uma fornecer-lhe um de 22 quilates, que já era
temperatura de 2500"C. No entanto, depois suficiente para fazer uma roda de amolar.
de experiências metódicas, nenhum dia- Os técnicos daquele departamento utili-
mante se formou. zaram esta roda para cortar e afiar as suas
Faltava um catalisador para acelerar a ferramentas. Ficaram encantados - os dia-
reacção. Durante três anos, os cientistas mantes artificiais cortavam melhor que os
fizeram ensaios com muitos catalisadores naturais e eram pelo menos tão duradou-
diferentes, mas sem sucesso. Até que, em ros. A General Electric acabou por inventar
15 de Dezembro de 1954, um técnico do o melhor catalisador e, em 1957, começou a
laboratório reparou, num teste de rotina, comercializar diamantes sintéticos.
que algumas amostras produzidas pelo fí- Até hoje, já se fabricaram mais diaman-
sico Herbert Strong tinham danificado a tes sintéticos do que lodos os naturais ex-
sua roda de polir. Telefonou a Strong para