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Os Quatro Reinos, volume I. O Reino de Balh

Os Quatro Reinos, volume I. O Reino de Balh

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Os Quatro Reinos, volume I. O Reino de Balh

Longitud:
558 páginas
8 horas
Editorial:
Publicado:
Jun 3, 2019
ISBN:
9781547589562
Formato:
Libro

Descripción

O mundo de Arah se encontra dividido em quatro grandes reinos, todos eles estão sob o domínio do imortal Kleos, deus supremo do orbe. Lord Deko detém o governo de Balh desde tempos imemoriais. Ele comanda o exército dronk, formado por terríveis bestas cuja única missão é exercer um férreo controle sobre os humanos. Porém Laros, capital de Balh, é uma das poucas cidades que permanecem sem ceder diante do domínio dronk. A raça humana teme pela sua extinção após séculos de submissão aos terríveis generais dronks.

Kurt Brent é um jovem que sonha em tornar-se algum dia cavaleiro de Laros. Uma noite, enquanto dormia, conhece um misterioso homem que inexplicavelmente compartilha seus sonhos. Este se converterá em seu mestre e o ensinará não só a arte da espada, mas também como controlar o poder que se acha oculto no interior da sua mente.

Lansa Sarin uma bela jovem de longos cabelos loiros e habilidosa no manejo do arco, tem cativado o coração de Kurt, mas os acontecimentos se precipitam quando Siniste, o draco, é enviado a Balh por Kleos. Kurt e Lansa são obrigados a iniciar uma perigosa fuga rumo a capital para escapar dos implacáveis dronks. A partir desse momento, eles devem enfrentar inúmeros perigos e sobreviver a criaturas horríveis de épocas já esquecidas, mas isto é só o princípio da sua aventura. Em breve haverá uma guerra sangrenta; aquela na qual se decidirá o destino da raça humana.

Editorial:
Publicado:
Jun 3, 2019
ISBN:
9781547589562
Formato:
Libro


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Os Quatro Reinos, volume I. O Reino de Balh - Luis Antonio Guardiola Alcalá

Para minha esposa. Graças a sua paciência, compreensão e ajuda eu consegui tornar realidade este sonho. Para minha família e amigos.

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PRIMEIRO LIVRO

‹‹A liberdade existe só na terra dos sonhos.››

Johann Christoph Friedrich von Schiller

Capítulo 1

O MUNDO DE ARAH

––––––––

Na escuridão da eterna noite, onde nascem e morrem as estrelas, uma pequena luz amarelada é vislumbrada, e ao redor dela, como uma gota de água que gira ao seu redor, um mundo azul; o mundo de Arah. Girando em torno dele se encontra Elus, um mundo de cores acinzentadas e carente de vida, seguido de Célea e Sirna, suas duas acompanhantes menores. A missão das três luas é jogar luz sobre as escuras noites de Arah. O mundo azul se acha dividido em quatro grandes regiões da terra, elas são uma minoria em relação ao elemento líquido.

Milhões de seres de diversas espécies vivem em sua superfície, a terra é fértil e suas águas limpas e vivas. Somente algumas regiões recônditas são habitadas pelo homem. Sem dúvida este mundo tem sido abençoado já que a vida não é precisamente fácil de encontrar na noite eterna.

Nem sempre Arah havia abrigado tanta quantidade de vida, nem sua terra tinha sido tão fértil. Antigamente, na escuridão da primeira era, o caos e a destruição acampavam por toda sua superfície. O homem, em maioria numérica com relação às outras espécies, exercia seu domínio e sua força para apoderar-se do que acreditava ser seu por direito. As poderosas forças que governavam Arah se mantiveram imóveis diante de tais afrontas, esperando que o homem se detivesse por si mesmo e que cessasse sua ideia doentia de possuir tudo. Mas por mais que passassem os anos, isto não acontecia e a ambição humana parecia não ter fim. A própria Arah corria perigo diante da destruição gerada pela mão do homem. Sem outro remédio, as poderosas forças que haviam criado e semeado a vida em Arah, imóveis e pacientes até então, decidiram intervir.

Sua resposta foi contundente. Enviaram Turok o destruidor, o que caminha sozinho, aquele que não conhece a piedade e que havia sido injuriado e relegado à escuridão da eterna noite. No comando de seu enorme exército de malignas e terríveis criaturas se encontravam seus sete generais, escolhidos por sua maldade e dotados de seu próprio poder.

Os humanos, aterrados, lutaram no que seria conhecida como a Grande Guerra. Mas nada conseguiram fazer frente aos poderosos exércitos de Turok, que se proclamou deus supremo de Arah, dando por finalizada a primeira era, a era do homem, e dando início a era do reinado de Turok. Os humanos sobreviventes foram relegados a remotas regiões e lhes foi permitido viver sob continua vigilância, como animais, sem os luxos de qualquer progresso e em obrigada harmonia com a natureza. Toda marca da civilização humana anterior foi apagada da consciência pelos exércitos de Turok e banida para o esquecimento. O mundo de Arah foi dividido em sete poderosos reinos, cujo governo e administração recaíram sobre cada um dos fiéis generais.

Turok governou por mais de mil anos, permitindo assim a recuperação de Arah, uma vez satisfeito o seu propósito, delegou a tutela de Arah para Kleos, sua mais notável e poderosa criação a quem concedeu o título de filho. Depois de Turok sumir por sua própria vontade em seu sono eterno, marcando o início da terceira era, Kleos reclamou para si o trono de Arah, pois seu pai assim o determinou. Mas alguns generais que haviam sido fiéis seguidores de Turok se opuseram a sua coroação. Negavam-se a reconhecer a Kleos como seu novo governante. Eles consideravam que ele não era digno de manter tal posição, e que este devia recair em Vergol, o mais feroz e poderoso dos generais de Turok. Isto provocou o início das chamadas Guerras dos Irmãos pelo controle de Arah. Durante mais de cem anos Arah foi desolada por sanguinárias e cruéis batalhas. Os sete reinos que Turok criou na segunda era, se dividiram em bandos. Por um lado, os partidários de Kleos, e pelo outro, os de Vergol. Naquele tempo escuro, enormes exércitos compostos por toda classe de horrendas e poderosas criaturas, se enfrentarão por toda Arah em uma luta feroz. A própria Arah esteve a ponto de ser destruída.

Finalmente, somente quatro reinos ficaram em pé. Kleos se impôs sobre os generais insurgentes, começando seu verdadeiro reinado. Sua primeira decisão foi condenar o traidor Vergol à morte em vida, o pior dos castigos.

Kleos foi venerado como havia sido antes por seu pai, como um deus. Mas isto não era suficiente para ele, pois não podia se igualar aos escuros poderes de Turok. Pouco a pouco deixou de se importar com a administração de Arah, deixando o cargo desta para seus generais e concentrando-se em aumentar suas escuras habilidades. Cercou-se de seus mais fervorosos seguidores, lhes deu poder e bens e se concentrou exclusivamente no estudo do Ka, a força escura de onde provinha todos os seus poderes. Deixou de escutar os conselhos dos generais, que em tantas batalhas o haviam servido; só se importava em superar seu pai e poder chegar a criar a vida. Devia fazê-lo se pretendia chegar a ser um autêntico deus.

Relatos de Arah por Centus Sedon. Biblioteca de Laros.

Capítulo 2

CARIK

––––––––

Nossa história começa no reino de Balh, um imenso território rodeado pelo oceano Tírsico, mais especificamente no povoado humano do sudeste chamado Carik. O povoado tinha algumas centenas de habitantes. A vida em Carik não era nada fácil. Os recursos escasseavam e a subsistência das famílias se baseava, em grande parte, na ajuda que prestavam entre si os membros da comunidade.

O povoado de Carik estava situado no interior da Floresta de Nerdin. Existem outros povoados ao redor, mas os habitantes não se prodigalizam muito em comercializar entre si, pois sair de um povoado implicava um grande risco. Em consequência disto, todos os povoados viviam sob um medo constante e lentamente iam se isolando cada vez mais uns dos outros.

— Conta a lenda, que antigamente o mundo estava povoado em sua maioria por homens e mulheres. Estes dominavam as forças naturais à vontade, e não aceitavam outros deuses além deles mesmos. Mas um dia algo terrível aconteceu — o professor fez uma pausa para ver a cara de assombro e medo de seus alunos —. Das profundezas do inferno emergiu o senhor do mal, que todos conhecemos como Turok o destruidor. Ele reclamou para si o mundo dos homens. Sua força e poder eram tais que os humanos atemorizados só puderam fugir e esconder-se. Deixando para trás seus lugares para sempre. Só uns poucos se atreveram a enfrentá-lo e todos eles sofreram uma morte horrível. Turok era o mesmo mal encarnado surgido das profundezas de Arah, mas faz muito tempo que ninguém sabe dele. Seu filho Kleos, feito da mesma maldade que seu pai, é agora quem governa em seu nome. Graças aos bondosos deuses que criarão Arah, para quem encomendamos nossas preces, permanecemos ocultos dos olhos malignos de Kleos e do seu servo Lord Deko, que governa o reino de Balh em seu nome. Mas lembrando que Kleos está sempre vigilante e tudo vê. Se descobrissem que existem homens..., ou melhor, dizendo, meninos e meninas que não rezam para os seus deuses, viriam rapidamente por eles.

Tio Ramis era o único erudito de Carik e chefe do templo de oração. Ele havia conseguido o efeito desejado: todas as crianças da classe, uns vinte, olhavam uns para os outros assustados. Inclusive algumas das meninas choravam desconsoladamente. Ele que havia visto passar muitas gerações de alunos, sabia que era a única forma de cumprirem com suas obrigações religiosas. De outra forma suas vidas corriam sério perigo.

Há muitos anos, quando Tio Ramis era só um menino, muitas vidas foram perdidas em Carik por causa de um brutal ataque por parte de umas criaturas horrendas. Tio Ramis ainda tinha problemas para conciliar o sono, já que o ataque se produziu de noite, ele acreditava firmemente que a causa do ataque foi que o povoado deixou de lado seus deuses, e estes lhes enviaram criaturas para castigá-los. Daquele momento em diante prometeu que consagraria sua vida a oração e ao ensino. O certo é que, desde então nunca mais se produziu um único ataque no povoado, o qual reforçava suas crenças e das demais pessoas. Por todo o reino de Balh existia uma infinidade de cultos e crenças. Apesar de ter alguns denominadores em comum, era habitual que segundo o culto que se professasse a lenda variava substancialmente. Junto ao chefe do povoado, Tio Ramis era o homem mais importante de Carik. Basta dizer que a maioria da comunidade havia sido educada por ele.

Tio Ramis era um homem velho, mas sua determinação o fazia parecer mais jovem. Ninguém entendia de onde ele tirava essa energia, seu caráter forte o fazia ganhar qualquer discussão e muito poucos se atreviam a contradizê-lo. Era comum que diante de qualquer problema de vizinhos ele era o mediador e sua decisão era aceita sem a mínima queixa. Ultimamente lhe doíam os ossos, sobre tudo durante o longo inverno. Seu corpo estava cada vez mais encurvado e já não deixava de lado seu grande bastão. Sempre usava uma túnica marrom e a cada ano se encontrava mais puída e contava com mais remendos. As crianças da sala murmuravam entre risadas que nunca a tirava, nem para dormir nem para banhar-se.

Tio Ramis sempre dedicava as primeiras horas de luz para a oração. ‹‹Tem que começar o dia e terminar em companhia dos deuses››, costumava repetir. Quando o sol já estava um pouco mais quente, Tio Ramis se dirigia para a escola para esperar seus alunos. Devido à dureza da vida no povoado, não havia muitas crianças. Quando estes eram fortes o suficiente, deixavam a escola para ajudar seus pais ou para encarregarem-se das tarefas que o chefe do povoado lhes determinasse.

Suas aulas eram muito intensas. Sempre contava lendas e histórias sobre os deuses: a criação do mundo, porque para eles os homens eram tão especiais, etc. Também o encantavam os jogos de lógica e colocar a prova à inteligência de seus alunos.  Ele costumava dizer que a mente tinha que estar desperta e que todo problema tinha uma solução. Se não a encontravam ou descobriam uma pista para soluciona-lo, se tornariam irremediavelmente parte desse problema. Seu entusiasmo era contagioso. Mesmo depois da extenuante escola e de comer pouco, era capaz de congregar todo o povoado para o momento mais importante do dia, segundo ele, a oração. Tio Ramis explicava para a população, que naquele momento se apaziguava os deuses e permitia que o povoado vivesse em paz.

Depois da oração, se reunia com o chefe do povoado para repassar as novidades diárias e discutir assuntos de suma importância. O chefe do povoado chamava-se Jostin Frenk. Era um homem devoto, mas seu cargo de chefe era pouco mais que honorífico, pois toda decisão importante devia ser consultada com Tio Ramis. Jostin foi o aluno favorecido do velho professor. Para ele Tio Ramis era um exemplo a ser seguido e sempre tinha medo de que sua decisão não fosse bem vista por este. Jostin havia chegado à metade da vida, mas tinha a força de um jovem. Entre seu cabelo castanho começava a aparecer numerosos cabelos grisalhos e cicatrizes. Não era homem de muitas palavras, suas frases quase sempre resultavam cortantes e secas. Ele não se dava muito bem com o resto dos habitantes do povoado. Vivia sozinho igual Tio Ramis. Ambos respeitavam um rigoroso celibato, que segundo diziam era de acordo com o cargo que ostentavam.

— Amanhã teremos uma aula noturna. Vocês aprenderam a se orientar pelas estrelas — Tio Ramis olhou pela janela. Observou que o sol já havia ultrapassado o ponto mais alto do céu. Além disso, seu estômago lhe deu um sinal inconfundível —. Por hoje a aula terminou. Vão em paz meus jovens alunos.

Todos os alunos saíram da sala uniformemente. Parecia que o mesmo senhor do mal havia irrompido na sala. Todos menos Kurt Brent, que como sempre, via nesse momento uma oportunidade única para perguntar ao velho Tio Ramis sobre mil e uma dúvidas que lhe corroíam a mente.

— Tio Ramis! Tio era a palavra que os alunos, e em geral toda a população, empregavam como símbolo de respeito e admiração quando se dirigiam ao professor Ramis —, tenho várias perguntas para fazer — disse Kurt com impaciência.

— Pois não! Meu jovem aluno. Mas hoje estou sem tempo e meu velho estômago reclama minha atenção — disse Tio Ramis cheio de paciência.

— Como é o senhor do mal, Kleos? Está muito perto daqui? Pode morrer? — disse Kurt sem tomar fôlego entre uma pergunta e outra.

— Ninguém que o tenha visto viveu. Sim está muito longe. Reside no reino escuro de Mogrun, a centenas de dias de caminhada e já conhece a resposta da ultima pergunta — respondeu o mais rápido que pode, enquanto tentava imitar seus alunos e sair velozmente da sala.

— Tio Ramis, por favor, conte-me outra vez a lenda.

Tio Ramis sabia que se não o fizesse, Kurt insistiria uma e outra vez. Assim engoliu a saliva para enganar seu inquieto estômago, e se dispôs a narrar a história ao rapaz. Kurt se sentou em uma das carteiras, e abriu olhos e ouvidos tanto quanto pode. Não queria perder nenhuma das palavras de Tio Ramis. Ele sempre esquecia alguma parte da história e desta vez queria aprender de cabo a rabo.

— A lenda, como você já sabe, diz assim: os deuses cansados do esquecimento e prepotência dos homens, que foi sua mais perfeita criação, começaram a chamar de irmão Turok o destruidor. No momento em que os deuses decidiram criar o mundo, as opiniões de Turok não foram tidas em conta, ao considerar que os seres que queria criar para este mundo eram horríveis e maldosos. Agora, no entanto lhe pediam ajuda. Turok prometeu que mudaria os homens e faria que se aproximassem deles novamente. Os deuses foram seduzidos por Turok, que era muito persuasivo. Turok também era um deus e como tal possuía o poder da criação, mas queria sentir-se importante e entre seus irmãos era só mais um. Não desfrutava da simples observação de Arah, ele queria sentir-se superior e venerado por todo ser, e para ele não lhe importava que fosse mediante o medo. Seus irmãos consentiram e ele se fez corpóreo no mundo de Arah. Castigou sem piedade todos os homens. Só deixou viver os que ele considerou justos, e que ainda não haviam perdido a fé nos deuses antigos. Uma vez conseguido seu objetivo, seus irmãos consideraram que já era suficiente o dano infligido, e que era o momento de que Turok voltasse para seu lado, dedicando-se a mera observação de Arah. Mas Turok pela primeira vez em sua vida se sentiu poderoso e temido. Dominava um mundo inteiro, e não ia voltar e deixar de novo para seus irmãos o reconhecimento e a glória. Assim que decidiu ficar e desobedecer. Seus irmãos se encolerizaram jurando proteger todo homem e mulher que para eles rezasse — o estômago de Tio Ramis roncou sonoramente —. O que nunca contei é que os deuses prepararam sua vingança contra a traição de seu irmão. Existe uma velha profecia que anuncia que os deuses darão parte de seu poder divino para um homem, um escolhido, para que acabe com o reinado do mal.

— Mas como o senhor pode saber disso? Quem o pode ver? Quem será esse escolhido dos deuses? — Tio Ramis interrompeu a torrente de perguntas de Kurt.

— Foi o próprio cavaleiro Sartas Nein, teu herói, quem anunciou a profecia antes de perecer nas mãos do temível Lord Deko. — Tio Ramis observou a cara de assombro de seu aluno e aproveitou o silêncio deste para escapar —. Em outra ocasião discutiremos estes aspectos. Tenho que ir, pois faz tempo que eu deveria estar comendo, se não a oração vespertina se atrasará e os deuses se irritarão e você não quer isso... Certo Kurt?

— Não, não quero que os deuses se irritem Tio Ramis — disse Kurt com pesar.

Tio Ramis por fim pode safar-se de seu mais que curioso aluno. Dirigiu-se então com muita rapidez para a pousada, onde a senhora Falk, famosa em todo o povoado pelos seus cozidos, lhe preparava a comida.

Kurt se encaminhou para casa. Sua cabeça estava fervendo, havia muitas perguntas e ninguém parecia ter respostas lógicas para elas. Kurt era um menino de catorze anos de idade, tinha os cabelos escuros e longos. A pele do seu rosto era mais esbranquiçada e em suas bochechas ressaltavam um que outra sarda. Seus olhos eram grandes e verdes. Ele era bem magro nos ossos segundo sua mãe. Isso era devido ao fato de ser muito inquieto e curioso.

Quando havia percorrido metade do caminho até sua casa, pressentiu uns passos atrás dele. O som era muito leve, como se quisesse não ser ouvido. De repente o ritmo se acelerou, Kurt se voltou depressa, mas já não podia fazer nada. Seu corpo acabou no chão e seu rosto lambido do queixo até a testa. Era Luna, sua mascote e amiga. Seu aspecto era semelhante a um lobo. Apesar de ser grande e forte, era extremamente carinhosa e protetora. Sempre seguia Kurt em todas as partes e depois da aula o presenteava com várias lambidas que não podiam ser rechaçadas.

— Luna! Ok chega! Você me faz cócegas — disse com alegria Kurt, enquanto a acariciava.

Conforme ia se aproximando da casa começou a sentir o atraente cheiro de um bom guisado. Mas esse cheiro em particular nenhum outro guisado tinha. Era capaz de distinguir o cheiro da comida de sua mãe entre todos os cheiros que inundavam o ambiente nessas horas do dia. Sem querer notou como seus passos se aceleravam. Também os de Luna, que se adiantou para raspar a madeira da porta de entrada da casa com ambas as patas.

Sua casa havia sido construída completamente de madeira, mais especificamente de madeira de carvalho. Seu pai havia feito com suas próprias mãos. Aquilo foi o requisito que impôs o avô de Kurt para que seu pai casasse com sua mãe. Não era muito grande; Kurt podia percorrer a parte de baixo de lado a lado com apenas seis passos. A casa tinha dois andares, a vida se passava na parte debaixo, onde também se encontrava a cozinha. A parte de cima era utilizada para dormir. Nela se acessava subindo uma frágil escada de madeira.

Kurt entrou rapidamente em casa, e ato continuo sua mãe lhe deu uma bronca; Kurt a chamava mamã, mas para todos os demais seu nome era Toki Tinan. Toki fez Kurt sair de novo para fora da casa para que tirasse das solas das botas todo o resto de pó. Seu pai, Thursel Brent, sorria enquanto observava aquela cena tão habitual em casa. Uma vez que quase todo o pó do caminho foi jogado para fora de casa, Kurt correu para sentar-se a mesa junto com seus pais. Eles deram as mãos para dar graças aos deuses por aqueles alimentos.

— Damos graças aos deuses por estes alimentos e por que um dia a mais podemos desfrutar deles em família — disse Thursel com solenidade.

— Vamos comer, como foi dito! — gritou Kurt com entusiasmo enquanto metia a colher de madeira em seu prato.

— Querido coma devagar, se não vai te fazer mal — advertiu Toki.

— Como estão os estudos? — perguntou Thursel.

— Bem papai. Hoje Tio Ramis nos falou da deusa Enae, a deusa da vida, e como ela se encarregou de dar alento vital para todas as criaturas de Arah. Também nos contou a história do senhor do mal e que os deuses darão seu poder para um homem para que acabe com Kleos — disse Kurt com muito entusiasmo.

— Filho, aprenda tudo o que puder, dentro em pouco você será mais velho e deixará a escola, assim que, aproveite o tempo. A propósito, esta noite se converterá no homem da casa. Tenho que ajudar o chefe do povoado na guarda noturna.

Os homens se revezavam a noite para realizar a guarda noturna. O povoado se encontrava protegido por uma paliçada de uns três metros de altura. Distribuídos estrategicamente pelo cercado existiam vários postos de vigia. Somente havia uma entrada para o povoado, que sempre estava vigiada e de noite ficava fortemente trancada. Toda prevenção era pouca já que no passado se perderam muitas vidas. Não se temia o ataque de outro povoado ou grupo de bandidos, já que nenhum homem se atreveria a perambular de noite pelos bosques; nem de lobos, ursos ou outros vermes, posto que a paliçada fosse suficientemente resistente para impedir a entrada.

O principal perigo eram os dronks. Umas criaturas que se dizia foram criadas pelo próprio Turok senhor do mal; sua força era comparável a de dois homens fortes. Os poucos humanos que haviam sobrevivido a um encontro com estas criaturas, diziam que eles eram muito inteligentes e que quase sempre atacavam em grupos. Também asseguravam que ao contrário do que se possa imaginar não eram simples animais, que alguns inclusive usavam armaduras e espada. O nome de dronks correspondia ao som característico que faziam as criaturas ao respirar.

O ultimo ataque a Carik se produziu quando Tio Ramis era só um rapaz. Mais da metade do povoado foi assassinado ou capturado naquela fatídica noite. Depois do ataque, Tio Ramis jurou que nunca mais voltariam a pegá-los desprevenidos e se encarregou, não só de que todos rezassem para os deuses, mas também de preparar a defesa de Carik. Desde então não haviam sofrido nenhum ataque.

Jostin como chefe do povoado, se encarregava de organizar as guardas, que consistiam em vigiar o exterior da paliçada e realizar passeios pelo interior do povoado até o amanhecer. Era um trabalho muito duro, mas todo mundo dormia tranquilo sabendo que aqueles homens estavam alerta e preparados para defendê-los.

— Um dronk pode saltar a paliçada e me comer? — perguntou Kurt para seu pai, com certo temor.

— Podia tentar, mas se encontraria com o aço da minha espada. Além disso, não creio que tenha muito interesse por você, já que é só ossos — brincou Thursel para tranquilizar o filho.

Thursel era um homem muito tranquilo, de aspecto jovem. Rondava os quarenta anos de idade. Trabalhava como ferreiro, mas também de agricultor, que era o segundo trabalho de todo habitante do povoado. Devido ao seu ofício sua constituição era forte, mas sofria de numerosas dores nas costas. Ele dizia que não importava sofrer o calor enquanto batia no metal de vermelho vivo, mas que não aguentava cavar. Embora ultimamente fosse o que mais fazia, já que era época de semeadura e não dispunha de mula para fazer as valas. Estava sempre preocupado pela segurança do seu lar. Antes de fazer algo media as consequências de sua ação e se traria algum tipo de perigo para sua família. Era muito consciente nesse aspecto.

Ao contrário Toki era mais risonha, sempre estava contente e desfrutava dos pequenos detalhes da vida. Seu cabelo era loiro e longo e sempre cheirava a lavanda. Não era muito alta, tinha olhos castanhos e as mesmas sardas que Kurt tanto odiava. Sem duvida sua mãe havia presenteado ele ao nascer. Kurt estava cansado de ouvir como seus pais se conheceram nas aulas de Tio Ramis, e que desde esse instante sempre haviam estado juntos, embora no fundo desfrutassem de cada detalhe daquela história de amor.

Una vez terminada a comida, como fazia normalmente, Kurt ajudava sua mãe a retirar a mesa. Seus pais não o deixariam sair de casa até que houvesse descansado do almoço, coisa que Kurt não gostava muito. Quando o sol começava sua descida até o ocaso ou Toki considerava que já era o momento adequado, dava o sinal para Kurt que poderia sair para jogar com seus amigos.

Em Carik não havia muitas crianças, mas Kurt contava com vários amigos inseparáveis. Um deles era Filop Molt, seu companheiro e confidente. Podiam adivinhar os pensamentos só se olhando. Sempre estavam planejando algum estranho experimento ou atacando inimigos imaginários. Haviam construído uma cabana, ao modo de quartel general, no alto de uma árvore do jardim da senhora Relp, a mãe de Filop. A cabana era seu lugar de encontro e sempre se reuniam ali pela tarde. Era o ponto de início de seus jogos e fantasias. Filop era um menino muito alegre, um pouco gordinho, com cabelo loiro e carnosas bochechas. De menor estatura que Kurt, mas com mais energia, sempre estava brincando, e isso apesar de que não fazia muito tempo que Filop havia perdido seu pai depois de uma longa enfermidade.

Kurt chegou um pouco tarde na cabana, já que para variar sua mãe havia ordenado que limpasse seu quarto antes de sair. Aquela tarefa foi um longo e penoso trabalho. Luna o acompanhava. Estava encarregada da vigilância da cabana, por isso ela ficou pacientemente debaixo da cabana, enquanto Kurt se encontrava em seu interior. A cabana feita de madeira descansava sobre os grandes ramos de um velho carvalho, e embora Kurt e Filop não quisessem reconhecer, foi construída por Thursel, já que a construção original dos dois amigos não se sustentava sobre a árvore e era um autêntico perigo.

— Oi Filop — disse Kurt.

— Chegou tarde Kurt... como sempre — disse Filop um pouco entristecido —. Lansa também ainda não chegou.

Lansa Sarin era sua outra grande amiga. Era um ano mais nova do que ele, mais experiente e um pouco impetuosa. Possuía um comprido cabelo loiro que era a inveja de todas as demais meninas de Carik. Se algo se destacava em Lansa eram seus enormes olhos azuis. Estava um pouco magra para sua idade, e isso apesar de que sua mãe, Tilsa Pinak, fosse à açougueira de Carik. Observando sua mãe não restava dúvida de quem Lansa havia herdado seus cabelos e a cor dos olhos. Sempre andava atrás de Lansa para que comesse isto o aquilo.

Lansa perdeu seu pai quando tinha apenas três anos de idade. Ele era comerciante e não regressou da viagem para um povoado vizinho. Em pouco tempo encontraram seu carro saqueado e restos humanos que puderam ser identificados como os de seu pai. Tilsa nunca se recuperou daquele evento terrível. A única recordação que Lansa guardava de seu pai era um arco. Seu pai a presenteou com ele pelo seu terceiro aniversário, dizendo que ele mesmo lhe ensinaria a usa-lo quando ela tivesse mais idade. Lansa, que quase nunca se separava dele, sabia usa-lo com perfeição. Sempre que podia praticava com seu arco, apesar dos deboches de Tilsa. Cada vez conseguia disparar flechas mais e mais longe com certa pontaria. Quando Lansa não estava ocupada em ajudar no açougue, passava o tempo em seu jardim, que sem deixar dúvidas possuía as flores mais bonitas de toda Carik.

— Vamos jogar lançamento de batata? — perguntou Filop.

— Não, não quero — respondeu Kurt —. Além disso, Luna sempre termina por nos tirar a batata para logo em seguida come-la.

— E se tentarmos caçar algum pássaro? — voltou a perguntar Filop com entusiasmo.

— Não, pois me sinto mal por matar a esses pobres animais — argumentou Kurt —. Podemos falar do senhor do mal Turok. Hoje Tio Ramis me contou a história com dados cabeludos.

— Sério mesmo! — exclamou Filop —. Eu tenho o suficiente dessas aulas todos os dias, para continuar falando do mesmo assunto.

— Do que estão falando? — disse uma voz feminina.

Era a voz de Lansa, que subia lentamente pelas pranchas de madeira cravados no tronco do velho carvalho. Entrou na cabana e sorriu como costumava fazer quando via seus dois grandes amigos.

— Estou propondo jogos, mas Kurt que falar dos deuses e de suas estúpidas e aborrecidas lendas — protestou Filop.

— Kurt, quando for mais velho terá muito tempo para falar dessas lendas, como Tio Ramis — disse com doçura Lansa —. Agora vamos fazer coisas de criança, Tio Kurt.

Kurt riu. Lansa sabia como convencê-lo. Assim que os três saíram da cabana e jogaram o resto da tarde o passa a batata; como era de se esperar Luna terminou por caçar a batata e deu boa conta dela.

Capítulo 3

SONHOS REAIS

––––––––

Uma das atividades favoritas de Kurt era dormir. Ele adorava fazer isso. Quando acordava, a primeira coisa que fazia era anotar o que havia sonhado antes que pudesse esquecer. O papel não era fácil de conseguir, nem de produzir. Mas na escola de Tio Ramis lhe era dado uma folha para as tarefas diárias. Kurt sempre recortava um pedaço para levar para casa e assim descrever com requinte de detalhes seus sonhos.

Os sonhos o encantavam, sobretudo aqueles nos quais ele voava. Eram seus favoritos. A sensação de liberdade que lhe produziam era incomparável. Depois, aqueles sonhos nos quais tinha uma força descomunal, ou podia lançar fogo pelos olhos. Também gostava desses. Outro tipo de sonhos eram os insossos, que não lembrava bem, mas que tinham a ver com tarefas cotidianas. Normalmente esse tipo de sonhos não anotava no papel, já que preferia guardar espaço para outros mais importantes.

Por ultimo estavam os pesadelos, que iam desde o pesadelo humilhante de dar-se conta de que estava nu na aula de Tio Ramis, até o mais escuro pesadelo, onde os dronks o perseguiam pela Floresta de Nerdin. Neles corria para chegar à porta do povoado, mas quanto mais rápido queria correr mais lento ficava, e percebia que por trás se aproximavam os dronks, aos quais não podia ver, mas ouvia sua respiração inconfundível: ‹‹droooooooooonk››. Quando estava a ponto de chegar à porta do povoado, notava como algumas mãos o puxavam e o levavam para o interior do bosque.

Aquele era seu pior pesadelo, e o que se repetia seguidamente. De fato, era estranho, mas cada vez que tinha esse pesadelo se dava conta de que se encontrava em um sonho. Tentava acordar apertando com força os olhos, mas não conseguia fazê-lo, assim que só lhe restava correr e tentar salvar-se.

Uma noite, Kurt se encontrava desfrutando de um tranquilo sonho no qual ele perseguia uma borboleta colorida, que ao voar lançava lampejos luminosos. A borboleta abandonou voando o povoado. Kurt, fascinado, a seguia sem hesitação. Suas asas continham as cores do arco-íris, as quais iam alternando-se formando um efeito hipnótico. Além disso, a misteriosa borboleta deixava um rastro luminoso. Um pó que descia suavemente enquanto emitia uma luz tênue. Kurt estava completamente hipnotizado, e seguia o rastro da borboleta, sem pensar sequer que ele também havia abandonado o povoado. Somente desejava segurá-la por um instante na palma de sua mão.

De repente, a borboleta se afastou, ele acelerou o passo, mas não pode segui-la. Correu e correu, até que finalmente a viu pousada sobre uma grande folha. Quando foi pegá-la, a borboleta simplesmente se desvaneceu. Então Kurt começou a rir. Era magia autêntica. Levantou seu olhar e diante dele se abria uma pequena clareira em cujo centro havia sido acesa uma pequena fogueira. De um lado da fogueira, se encontrava um homem. Parecia mais velho, de meia idade. Tinha o cabelo grisalho e uma barba branca espetada. Portava uma espada, e parecia que estivera lutando, mas porque não havia diante dele nenhum oponente. Kurt entendeu que ele estivera treinando, exercitando-se para alguma batalha que estaria por vir. De repente o homem virou a espada em um rápido movimento e seus olhos se encontraram com os de Kurt. O homem ficou petrificado. Kurt também ficou completamente paralisado. Aquele misterioso homem abaixou os braços e continuou olhando como se não acreditasse no que estava vendo.

— Não pode ser! – disse o homem surpreso.

Kurt ficou inquieto. O homem se aproximava, começou a correr e se afastou rapidamente da clareira. O homem correu para a borda da clareira. Queria seguir o garoto, mas por alguma razão não podia fazê-lo.

— Não fuja! Não vou te fazer nada! Volte garoto, garoto! Volte! — gritou sem sucesso o homem.

Kurt anotou conscienciosamente aquele sonho como um dos seus favoritos, por várias razões: era a primeira vez que sonhava com uma borboleta mágica, e também era a primeira vez que entrava no bosque sem que fosse perseguido pelos dronks. Além disso, havia visto um homem estranho, que manejava a espada com grande habilidade.

Desde que teve o uso da razão havia desejado saber manejar uma espada. De fato sempre que podia jogava com Filop simulando ser o cavaleiro Sartas Nein, herói e inspiração de Kurt, o qual tinha que resgatar a princesa Lansa. Ele sempre conseguia, derrotava o malvado Filop e ganhava um beijo, na face, da princesa. Mas as espadas da brincadeira eram paus, e ele queria manejar uma espada de verdade. Seu pai dizia que ainda era muito jovem para isso, e que teria tempo para fazê-lo quando fosse mais velho. Prometeu que ele mesmo se encarregaria de fazer-lhe uma espada. Assim Kurt esperava resignado o momento de sua maioridade para tal fim.

Kurt sempre havia desejado converter-se em cavaleiro. Tinha ouvido falar da cidade de Laros, a capital do reino. Uma cidade com um grande castelo onde existia uma ordem de cavaleiros que a defendiam do mal que aguardava do lado de fora. Esta ordem de cavaleiros foi fundada por Sartas, o primeiro cavaleiro de Laros, cujas aventuras eram conhecidas por todos os habitantes do reino. Nenhum dronk se atrevia sequer a aproximar-se da cidade de Laros, pois os cavaleiros que a guardavam lhes infundiam um profundo temor. Kurt queria ordenar-se cavaleiro para assim poder proteger seus pais e seu povoado dos dronks. Nenhuma criatura se atreveria a aproximar-se de Carik sabendo que um cavaleiro de Laros residia ali.

Kurt havia visto o treinamento de muitos jovens e adultos com a espada. Ele imitava em segredo os movimentos dos treinamentos: estocadas, varreduras, giros, etc. Mas esse homem do seu sonho realizava movimentos graciosos e que nunca havia visto antes. De fato pareciam mais certeiros e ágeis do que os que tinha visto nos treinamentos de Carik. ‹‹Como é possível isso?›› Se perguntava. Ele acreditava que os sonhos refletem vivencias, medos ou desejos que sua mente guardava, mas isso ele não havia vivido antes. Era um conhecimento que não havia adquirido. Talvez aquele misterioso homem existisse de verdade e por alguma estranha razão compartilhassem o mesmo sonho. Todas essas questões atormentavam sua mente. Kurt preocupou-se em fazer um desenho fiel do homem com quem ele havia sonhado. Prometeu a si mesmo que voltaria para essa clareira para falar com ele e esclarecer os numerosos enigmas que se apresentavam.

Tentou voltar à clareira, mas existia um problema: quando estava sonhando se esquecia de ir. Por muito empenho que fizesse e por muito que mentalizasse antes de dormir, quando sonhava não se lembrava de nada. Era como se não guardasse nenhum tipo de recordação de antes de dormir. Quando acordava pela manhã maldizia por não haver acordado. Chegou um tempo em que ele desistiu e simplesmente ficou com a boa recordação do sonho

Uma noite teve um dos seus típicos pesadelos, só que desta vez algo mudou. Os dronks o perseguiam, ele tentava correr o mais rápido possível. Sentiu que era um sonho e queria acordar. Sabia qual seria o final do sonho assim que, quando estava a ponto de chegar à porta do povoado, em vez de tentar entrar nela, ele se deteve. Esperava que as mãos dos dronks o agarrassem e o levassem: ‹‹para que tentar se nunca consigo››, pensou. Mas, nesta ocasião as mãos não o agarraram; esperou um momento e lentamente se virou. Não havia nada, nem dronks nem nada de nada, simplesmente o som dos grilos. Voltou a olhar para a porta a entrou no povoado. Sabia que era um sonho, e finalmente havia superado seu medo. Havia compreendido que somente tinha que deixar de correr. O que na realidade o perseguia naqueles pesadelos era seu próprio medo.

Nesse momento se encontrou em paz. Sentia uma grande paz interior. Aproximou-se da árvore, tocou seu tronco e o empurrou com calma. A imensa árvore, de aproximadamente vinte metros de altura, foi derrubada. Kurt se sentiu mais poderoso ainda e se dispôs a levantar um velho carrinho de arado que tinha na sua frente. Só preciso uma mão para ele. Lançou o carrinho em cima da paliçada sem nenhum esforço. Nada podia detê-lo. De um salto empoleirou-se no telhado do templo de oração. Dali ele se atirou de prancha e começou a voar. Subiu tão alto quanto pode, mas cometeu o erro de olhar para baixo, nesse momento sentiu medo da queda e começou a cair. Tudo ficou nublado e acordou em sua cama. Não importava para ele haver despertado desse modo. Saltou da cama e procurou a pena, o tinteiro e o papel. Sem dúvida havia tido o melhor sonho de sua vida e ia escrever no seu diário de sonhos sem perda de tempo.

A partir de então, antes de dormir determinava uma experiência para o sonho dessa noite. Nem todas as noites tinha consciência de que estava sonhando, mas cada vez que conseguia podia lembrar qual experiência se havia proposto a realizar antes de dormir. Deu-se conta de que os sonhos nos quais sabia que estava dormindo, os que ele chamava de sonhos reais, duravam menos do que os outros sonhos. Assim que, depois de muitas experiências, estabeleceu um método para fazê-los serem mais duradouros. Quando notava que ia despertar, tudo ficava turvo e aparecia uma neblina. Então os sons e imagens desbotavam. O que fez foi concentrar-se em um objeto do sonho, como por exemplo, uma batata. Tocava nela, olhava e pensava como era uma batata no mundo real. Pouco a pouco a imagem da batata ia ficando mais clara e nítida inclusive chegando a notar sua casca áspera. Isso lhe permitia manter-se o dobro do tempo no sonho real.

Também notou algo sobre os seus superpoderes. Em alguns sonhos reais podia derrubar árvores sem o menor esforço e em outros não. De fato, quanto mais empenho colocava para fazê-lo menos resultados positivos conseguia. Era como se o que mais desejasse nunca se cumprisse. Parecia que no sonho sempre acontecia o que mais temia.

Havia medos que era impossível de superar. Se voava muito alto sentia vertigens e isso acontecia sempre em todos os tipos de sonhos. Pelo que deduziu que nunca teria superpoderes ilimitados, e que com seu medo de voar muito alto pouco podia fazer.

Em um dos sonhos reais, uma vez comprovado que seus poderes funcionavam, se armou de coragem e se dispôs a ir procurar os dronks. Esteve procurando na Floresta de Nerdin, mas não os encontrou. Por que durante tantos anos o haviam atormentado e agora não estavam ali? Deduziu que era porque queria encontra-los, desejava fazê-lo e esse desejo se voltava contra ele no sonho. Começou a pensar que não queria acha-los e que lhe davam muito medo. Quase instantaneamente sentiu passos vindo em sua direção, com aquela inconfundível respiração. Então, foi ao seu encontro. Mas no lugar de um terrível dronk, encontrou um bicho peludo de tamanho extremamente pequeno. O horrível monstro que ia ao seu encontro dava mais vontade de rir do que medo. ‹‹Outra vez minha mente está me pregando uma peça››, pensou. Era como brincar de esconde-esconde consigo mesmo. Más ainda assim, estava progredindo.

Já não restava espaço em nenhum papel para anotar tantos sonhos e tantos detalhes sobre eles. Começou a ser mais breve na escrita de suas tarefas da aula, para poder levar mais papel para casa. Essa queda acadêmica lhe rendeu uma reprimenda por parte de Tio Ramis, e o posterior sermão de seus pais. Mas tudo aquilo valia a pena.

Não sabia se falava de tudo isso com Filop e Lansa. Seguramente o tomariam por louco, ou pior ainda, ririam dele por toda a vida. Não suportaria que em especial Lansa pensasse que ele estava mal da cabeça.

A prova final que Kurt marcou para testar sua destreza nos sonhos foi encontrar aquele homem tão misterioso que havia visto em uma clareira no bosque, e que não havia conseguido encontrar antes. Então colocou mãos a obra, esperou para ter o primeiro sonho real, e se dirigiu para a clareira do bosque. Tinha que

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Lo que piensa la gente sobre Os Quatro Reinos, volume I. O Reino de Balh

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