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As peças do céu

As peças do céu

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As peças do céu

Longitud:
483 páginas
9 horas
Editorial:
Publicado:
14 may 2019
ISBN:
9781507189207
Formato:
Libro

Descripción

Prêmio Eriginal Books 2017 de aventura e ação 

Para os amantes dos romances como  ‘O Código Da Vinci', 'O Oito' ou  'O Último Catão' .

O que existe por trás da morte de alguém a quem achavas conhecer?

Uma inquietante mensagem que abala o mundo de Julia, uma jovem professora nova-iorquina, e lhe impulsiona a começar uma precipitada viagem para a Europa.

Mistérios ancestrais e um perigoso segredo escondido por séculos que alguns tentam proteger a qualquer custo, levarão a protagonista a viver uma aventura vibrante através das mais fascinantes cidades europeias.

A Madri de Carlos V, a Praga dos alquimistas, a Londres dos fundadores da Royal Society, a Paris de Catalina de Médici e todo o hermetismo dos Arquivos do Vaticano e a Roma arcana, serão o cenário de um jogo perigoso contra o relógio tão real quanto o próprio céu ... se antes não lhe ganham a partida.

Imprensa, blogs e leitores de todo o mundo opinião:

"As peças do céu destaca-se pelo seu enredo atraente." / El Nuevo Herald de Miami 

"Você tem um Indiana Jones escondido no fundo do seu ser e a história é apaixonante, a arte e o mistério ... Esta é o seu romance!". / El buscalibros

"Se o que você quer é uma trama cheia de suspense, reviravoltas, surpresas, mistérios e muita ação, você não pode perder As peças do céu". / Bookceando entre letras

"Muitas aventuras e perigos, sem deixar de nos lembrar que pode faltar qualquer coisa num guarda-roupas feminino, mas jamais um par de sapatos stilettos e uma bela bolsa, porque eles poderiam se tornar na melhor arma para uma mulher." / El escritorio del Búho

"Não tem nada que invejar a obra de Dan Brown. Totalmente recomendado". / Amor y  palabras

"Com ação dinâmica, intriga, sexo e mistério até o último momento. Repleto de referências aos grandes gênios da humanidade que vão desvendando o mundo oculto que nos rodeia" ./ Marc-Amazon Espanha.

https://www.facebook.com/laspiezasdelcielo
@Delmianyo
http://www.delmianyo.com 
Book trailer: https://www.youtube.com/watch?v=B1pXgVx1bYY 
 

Editorial:
Publicado:
14 may 2019
ISBN:
9781507189207
Formato:
Libro

Sobre el autor


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As peças do céu - Delmi Anyó

AS  PEÇAS

DO  Céu

Delmi Anyó

Traduzido por Vanisse Vaz Fernandes

AS PEÇAS DO CÉU

Escrito por Delmi Anyó

Copyright © 2017 Delmi Anyó

Todos os direitos reservados

Distribuído por Babelcube, Inc.

www.babelcube.com

Traduzido por Vanisse Vaz Fernandes

Design da capa © 2017 Alexia Jorques

Babelcube Books e Babelcube são marcas comerciais da Babelcube Inc.

Fica estritamente proibido, sem a autorização escrita do titular dos direitos autorais, sob as sanções estabelecidas nas leis, a reprodução parcial ou total desta obra por qualquer meio ou processo, compreendidos a fotocópia e o tratamento informático, e a distribuição de exemplares mediante venda ou empréstimo público.

––––––––

http://www.delmianyo.com

Índice

Parte I: A perda.................................................................8

Capítulo 1............................................................................8

Capítulo 2.........................................................................14

Capítulo 3.........................................................................17

Parte II: O desespero...................................................22

Capítulo 4.........................................................................22

Parte III: O aviso............................................................28

Capítulo 5.........................................................................28

Capítulo 6.........................................................................34

Parte IV: A viagem.........................................................43

Capítulo 7.........................................................................43

Parte V: O destino..........................................................53

Capítulo 8.........................................................................53

Parte VI: Espanto (a evidência)..............................60

Capítulo 9.........................................................................60

Capítulo 10.......................................................................64

Parte VII: Terra...............................................................73

Capítulo 11.......................................................................73

Capítulo 12.......................................................................84

Capítulo 13........................................................................92

Capítulo 14.....................................................................101

Capítulo 15.....................................................................113

Capítulo 16.....................................................................121

Capítulo 17.....................................................................132

Capítulo 18.....................................................................138

Capítulo 19.....................................................................149

Capítulo 20.....................................................................153

Capítulo 21.....................................................................160

Parte VIII: Ignis...........................................................170

Capítulo 22.....................................................................170

Capítulo 23.....................................................................174

Capítulo 24.....................................................................182

Capítulo 25.....................................................................187

Capítulo 26.....................................................................197

Capítulo 27.....................................................................206

Capítulo 28.....................................................................212

Capítulo 29.....................................................................218

Capítulo 30.....................................................................227

Capítulo 31.....................................................................230

Capítulo 32.....................................................................238

Capítulo 33.....................................................................242

Parte IX: Aqua...............................................................249

Capítulo 34.....................................................................249

Capítulo 35.....................................................................259

Capítulo 36.....................................................................270

Capítulo 37.....................................................................277

Capítulo 38.....................................................................287

Capítulo 39.....................................................................298

Capítulo 40.....................................................................304

Capítulo 41.....................................................................309

Capítulo 42.....................................................................314

Capítulo 43.....................................................................320

Capítulo 44.....................................................................331

Parte X: Ar......................................................................338

Capítulo 45.....................................................................338

Capítulo 46.....................................................................351

Capítulo 47.....................................................................361

Capítulo 48.....................................................................369

Capítulo 49.....................................................................378

Parte XI: Caelum.........................................................382

Capítulo 50.....................................................................382

Capítulo 51.....................................................................389

Capítulo 52.....................................................................400

Capítulo 53.....................................................................415

Capítulo 54.....................................................................427

Capítulo 55.....................................................................433

Capítulo 56.....................................................................437

Capítulo 57.....................................................................444

Capítulo 58.....................................................................450

Capítulo 59.....................................................................463

Capítulo 60.....................................................................470

Capítulo 61.....................................................................473

"O que sabemos é uma gota de água;

o que ignoramos é o oceano".

Isaac Newton

Parte I: A perda

Capítulo 1

Nunca se sabe como se vai acordar. Você deita em um dia, dorme e na manhã seguinte, tudo mudou. Tudo aquilo em que te agarravas, que consideravas seguro, se foi.

Aquele dia fui acordada pelo celular. Não sei por quanto tempo tocou. Dizem que o nosso corpo tem um biorritmo definido, e talvez meu cérebro se recusasse a deixar o sono tranquilo dos sonhos, para integrar o barulho irritante na cena obscura do meu devaneio; no entanto, este ruído foi se tornando cada vez mais nítido até que a vigília esmagadora se impôs.  Atendi e descobri do outro lado telefone a voz grave de Peter:

-Julia, te acordei?

-Sim. Respondi. Enquanto com a mão segurava a cabeça meio sonolenta.

- Sinto muito, mas é importante.

De forma alguma o desculpei. Parecia-me imperdoável que alguém se atrevesse a chamar tão cedo. Fiz um pequeno silêncio, ele parecia muito nervoso.

- Aconteceu algo horrível.

- O quê? O que aconteceu?  Perguntei assustada.

-Sim, Julia. Algo horrível. Foi o James. James...

-James? O que aconteceu ao James? - Respondi com voz fraca e mole e sentindo que minhas pernas estavam tremendo.

-Sofreu um acidente. Pareceu-me ter ouvido.

- Um acidente? Perguntei confusa. Não entendia nada.

-Sim, Julia. Um acidente muito grave.

-Mas não está...? ―me atrevi a perguntar, aterrorizada.

-Sinto muito, Julia. Sinto muito.

Seguiu falando, disse algo sobre um avião que o traria de Madri. Falou do funeral e me disse que me tranquilizasse. Que viria a casa na parte da tarde. Tentei escutar uma e outra vez que ele sentia muito e não pude mais. O telefone caiu das minhas mãos.

Senti um forte golpe que atingiu o meu peito. Estava atordoada, suada, tremendo como um pássaro assustado e tinha dificuldades para respirar. Tudo ao meu redor se tornou turvo e experimentei uma sensação tão ruim e angustiante que só pude sentir dor.

Sem querer apareceu na minha frente a imagem de James, com seus olhos castanhos e seu cabelo despenteado na testa. Era impossível. Não podia ser. Não podia ter ido assim sem mais nem menos. Isto não podia estar acontecendo. Fui correndo ao banheiro e vomitei.

Chorando e aterrorizada desmaiei na cama. Não podia crer. Era horrível demais para ser verdade. James, o meu James. Como era possível? Não podia ter acontecido isso. Eu precisava dele de mais. Precisava do seu sorriso e suas carícias. Agora ele estava sorrindo para mim. Agora mesmo me acariciava e me dizia que me acalmasse. Mas como podia me acalmar? Nunca mais sentiria seu toque! Nunca mais ouviria seu riso!

Com meu corpo enrolado, ansiava entre soluços e espasmos de terror enquanto eu repetia que o que estava acontecendo não era real. Desejei que fosse só um sonho ruim, mas a realidade se impôs e evidenciou que estava acordada.

James e eu chegamos à Universidade de Columbia de Nova Iorque no mesmo ano. Ambos pertencíamos ao departamento de História Moderna Europeia. Compartilhamos o escritório, e Peter, nosso chefe de departamento contribuiu a que encontrássemos um ponto em comum. Ofereceu-nos trabalhar em um projeto que versava sobre o desenvolvimento da arte e da ciência no Império Espanhol no século XVI. Na universidade, a viabilidade de um departamento se media por sua ação investigadora; qualquer achado era motivo de engrandecimento da instituição, que sem duvidar se apropriava dela e a publicava nas revistas científicas mais relevantes com o fim de legitimar seu prestigio. O mundo universitário se movia numa corrida vertiginosa pela notoriedade das descobertas que realizava, por isso gastava uma grande quantidade de seu orçamento financiando projetos que em sua maioria não chegavam a obter seus frutos; mas, quando chegavam, significava mais reputação, mais alunos, mais dinheiro ao fim de tudo, que era, na realidade, o que importava. As universidades americanas eram tradicionalmente líderes em ciência; porém, no campo da história moderna europeia, qualquer universidade do velho continente, por motivos óbvios, nos dava cem voltas. Daí o interesse desmedido que mostrou Peter para que iniciássemos essa pesquisa, já que dizia que, segundo o decano, não era admissível que o país com as melhores universidades do mundo fosse medíocre nessa parte do conhecimento. Não pouparia gastos para que Nova Iorque fosse o novo centro de estudos avançados sobre o tema.

O projeto que nos ofereceu Peter nos apaixonou a ambos, tanto James como eu estávamos como duas crianças com sapatos novos. Era uma oportunidade fantástica para investigar um dos períodos mais frutíferos e enigmáticos da história moderna europeia.

Estas circunstancias nos obrigaram há passar muito tempo juntos e logo nos demos muito bem. Ao princípio nos unia uma relação de camaradagem. Nossa sintonia era evidente; mas um dia, sem mais começamos a sentir uma atração que nos surpreendeu e fez que ultrapassássemos a linha da amizade.

James era um embusteiro. Desse tipo de pessoas que passam pela tua vida como um ciclone e remove as bases da tua existência. Junto a ele, qualquer pequeno achado era uma festa. Sua paixão pela história era tão desmedida como sua paixão pela vida e rapidamente me dei conta de que sua atitude tinha um efeito contagioso sobre mim. Passei de, estar cansada pelo meu trabalho a me entusiasmar pelo que fazia. Ir a cada manhã na universidade e saber que James estava me esperando era tão empolgante para mim como para uma menina ir à feira. Sabia que um dia ocorreria de subirmos a um plácido carrossel, outro ao trem fantasma ou, talvez à montanha russa. Era um louco imprevisível. Porém, tinha uma assombrosa capacidade para a observação, um olfato especial para detectar conexões que aos humanos comuns nos passariam despercebidas e, ainda que seus métodos não fossem muito ortodoxos, levava a cabo todas suas investigações com uma assombrosa profundidade. Creio que foi isso que me fascinou na sua personalidade. Mas a festa acabou. Ainda que nossa relação fosse de vento em popa, o projeto chegou a um ponto crítico em que necessitávamos investigar in loco. Devíamos corroborar nossas hipóteses com documentação de primeira mão. O que precisávamos para avançar estava em empoeirados arquivos muito distante de Nova Iorque, assim que pedimos a Peter que nos conseguisse financiamento para nos transferir a uma universidade espanhola e dali completar nosso projeto. Aquilo era o nosso sonho. Uma viagem à Europa juntos.

Foi ideia minha, creio recordar, de fato fui eu quem pediu a Peter. Nosso chefe iniciou as gestões, e, ainda que as promessas iniciais do decano fossem muito generosas, uma vez iniciado o projeto parecia que havia cortes. Com o dinheiro que conseguiu só poderia viajar um de nós. Havia sonhado em fazer aquela viagem junto com James. Acreditei que desejávamos os dois, havíamos planejado juntos, havíamos falado tantas vezes. James e eu éramos uma equipe, nos completávamos: ele colocava a paixão e eu a razão. Eu acreditava ter os pés no chão, e o olhar para o céu.

Sempre desejei viver uma temporada na Europa, até mesmo antes de conhecer James. Mas agora não me acreditava capaz de ficar durante meses sem tê-lo perto; a pesquisa não seria a mesma se estivéssemos os dois separados por um oceano. Por isso insisti para que tentassem aumentar o orçamento, até calculei que com uma discreta ampliação poderíamos viver ambos em um apartamento nas redondezas da cidade e continuar com nossa tarefa. Aquilo pelo que lutamos era nosso, dos dois.  Ambos havíamos concebido cada ideia da investigação e não imaginava que a parte mais importante dela se desenvolvesse sem estar juntos.

Porém, Peter decidiu que só um de nós viajaria e o sortudo seria James.  Eu devia ficar em Nova Iorque fazendo tarefas de apoio e ensinando minhas turmas na universidade. James, para minha surpresa, concordou de bom grado, até se mostrou contente. E assim se resolveu o assunto, dando-me com a porta na cara na primeira oportunidade.

A verdade é que senti raiva e impotência. Creio que Peter o fez de propósito. Sabia que eu não iria sem James, mas James sim sem mim. Estava decepcionada. Neste momento lamentava com vergonha de relembrar que por aquilo odiei um pouquinho James. Mas agora já nada importava.

Levantei-me e fui tomar uma ducha. Pretendi fazer com normalidade o que fazia todos os dias. Tentei me esquecer de que hoje não era um dia qualquer. Porém, ainda que uma ducha sempre houvesse sido um recurso eficaz para dissipar os problemas, nesta vez não funcionou.

Uma e outra vez reaparecia em minha mente o rosto de James. Seu sorriso juvenil e seus vivazes olhos castanhos regurgitavam increpantes no meu pensamento.

Enrolada na toalha me sentei na cama e liguei para a universidade. Suspendi todas as aulas do dia. Não me sentia com forças. Quando desliguei o telefone, me vi na cama e chorei tanto quanto pude.

Capítulo 2

Eram sete e o funeral estava ao ponto de concluir. Peter parecia abalado. Na verdade todos estávamos. Até mesmo o decano, que nos últimos tempos havia se tornado um obstáculo para as pesquisas, sempre ameaçando cortar e deixar à deriva o orçamento e levar todo o nosso trabalho, agora parecia triste de verdade.

Eu nunca havia gostado de funerais. Só assistia os imprescindíveis. De fato, era o segundo que assistia em minha vida: o de meu pai e agora o de James.

Como intuía que era tradicional nestes casos, todos haviam falado maravilhas de James em seus discursos de despedida. Peter havia dito algo que me fez pensar: «Hoje enterramos a um amigo». Para mim James era mais que um amigo.

Logo falou um primo de James, quem em nome de sua família agradeceu aos presentes pela compania naqueles momentos difíceis. Uma mulher pequena, vestida de luto total, assentia a suas palavras inclinando a cabeça sem tirar os olhos do caixão. Não foi difícil adivinhar quem era sua mãe. A mesma que recheava a geladeira de James com deliciosas tortas de framboesa suculentos guisados e que ele planejava me apresentar algum dia, quando ambos considerássemos que nossa relação era sólida o suficiente para envolver nosso círculo íntimo. Não tive forças para me aproximar dela.

Continuava sumida em uma angustia que não haviam amenizado os dois calmantes que Peter me fez tomar ao chegar em casa e me encontrar destroçada. James estava morto. Lamentava tanto o que havia ocorrido entre nós durante os últimos meses! Jamais poderia dizer o pouco que me importava à pesquisa se não estava com ele, já nunca poderia dizer a ele como o queria e o quão importante que era em minha vida. Agora já era tarde demais.

Uma brisa fria carregada de odores úmidos fez com que os ciprestes do cemitério de Greenwood se batessem em um movimento ondulante. Tentei manter a compostura durante todo o funeral, ainda que o que queria era sair correndo e chorar em solidão.

O decano se dirigiu até mim, acompanhado de um elegante cavalheiro de meia idade. Abraçou-me com um calor que saudei friamente e me apresentou seu acompanhante.

―Senhor González, é a professora Julia Robinson. Compartilhava as pesquisas com o professor James. É uma eminência em história moderna europeia.

Respondi com um gesto lânguido.

―O senhor González é um ilustre bem-feitor da nossa universidade. Graças a ele logo teremos o prédio que abrigará a nova biblioteca ―disse sem abandonar seu habitual tom pomposo.

―É um prazer ―respondi dando-lhe a mão de maneira automática.

Não me importava um cominho nada daquilo nem tinha vontade de conhecer ninguém. Mas não soube como escapar. As drogas, que se mostravam totalmente inúteis para amenizar o desesperador mal-estar, entorpeciam a mudança na minha capacidade de reação.

―É um prazer conhecê-la. Sinto muito por esta difícil perda ―se lamentou o cavalheiro―. Pedi ao seu decano que proporcione uma ocasião para falar com tranquilidade sobre seu trabalho. Sempre me fascinou a história.

Olhei para aquele cavalheiro que insistia em manter segura minha mão entre a sua. Vestia um abrigo azul marinho de cachemir e uns sapatos lustrosos feitos sob medida. Sua atitude me fazia sentir incômoda.

―Em verdade por vezes pode ser tão espetacular como a fantasia. Mas não é o caso, acredite. Meu trabalho é bastante entediante ―respondi dando por concluída a conversa e se afastou.

Surpreendeu-me seu interesse pelo projeto, mas naquele momento não queria falar do tema, nem sequer pensar nele. Lembrava-me muito a James.

Capítulo 3

Peter se aproximou e me passou a mão por cima do ombro.

―Te apetece que comamos alguma coisa?

―Sim. Preciso tomar algo ―me apressei em dizer. Tinha uma estranha sensação no estômago que, ainda que soubesse que não era fome, parecia bastante e pensei que talvez desaparecesse com um pouco de alimento.

Caminhamos por um passeio feito de cascalho que se abria através de um prado pontilhado de lápides cinzentas. As folhas das árvores tremulavam. O conversível de Peter estava estacionado a duas ruas da saída do campo santo, bem ao lado de um bloco de casas baixas de ladrilhos avermelhados com varandas de telhado pontiagudo e um pequeno jardim na frente. Pensei que em alguma delas deve ter crescido James.

Subimos em seu potente carro vermelho escandaloso e saímos dali. Em minha opinião aquele automóvel não era nada, eu consideraria mais adequado a sua personalidade um veículo elegante, talvez um sedam alemão, mas com Peter nunca se sabia.

Era um homem atraente. Um espesso tufo de cabelos escuros com reflexos de mechas que coroavam sua cabeça, as quais delatavam que já não era jovem, mas não por elas deixava de ser interessante. Atrás de um discreto óculos sem moldura brilhavam pequenos olhos azulados. Entre suas alunas despertava verdadeiras paixões.

Dirigiu durante um tempo em silêncio. Saímos do Brooklyn e entramos em Manhattan. O carro parou em frente a uma cafeteria, a dois passos da minha casa.

―Parece bem aqui? ―disse sem me olhar.

―Está bem ―respondi resignada.

Sentamo-nos a uma mesa próxima da janela, onde se podia ver a rua iluminada pelo reflexo amarelado dos postes. O garçom, um rapaz de uns vinte anos e de aspecto bizarro, tomou nota e nos serviu uns sanduíches dos quais eu não provei nem um pedaço. Não era capaz de mastigar.

―Sei que para ti foi um golpe muito forte. Na verdade foi para todos. Mas devemos superá-lo ―disse tomando-me as mãos.

Peter sempre havia sido bom comigo, isto é mais do que posso dizer de qualquer outro homem, exceto o meu pai e James. Suas palavras, ainda que não me consolasse, me cobriam com um calor que eu precisava.

―Ainda não consigo acreditar ―sussurrei―. Ontem mesmo esperava um e-mail dele, tinha que me enviar uma documentação para que a estudasse. Dizia que estava muito perto de descobrir algo importante e agora...

―Isso pode acontecer a qualquer um. Não te atormentes mais.

Peter tinha razão. A qualquer um podia acontecer uma desgraça. Pensei que o azar é tão cruel como aleatório. Vivemos pensando que nunca acontecerá conosco, e quando algo assim nos bate de frente nos damos conta de quão frágil é o bem estar.

Não me atrevi a pedir detalhes, mas Peter parecia disposto a me oferece-los.

―Foi um acidente desgraçado. Já sabes como conduzia James ―disse arrastando a voz sem deixar de me olhar.

Respondi com um olhar incrédulo, pois de fato conhecia a perfeição como conduzia. Não em vão havíamos percorrido juntos meio país com seu Ford, em busca da informação que o próprio Peter nos havia encarregado. James era um perito condutor.

―Não se sabe como saiu da estrada. Talvez uma distração. Os agentes dizem que trafegava a muita velocidade. Deu várias voltas capotando e incendiou o motor. Quando chegaram os serviços de salvamento já não puderam fazer nada por sua vida. Seu corpo estava carbonizado por completo.

Revoltou-me o estômago e o olhar incrédulo se transformou em horror.

Ficamos um longo momento em silêncio. Eu estava impressionada. Quis desviar de minha mente à espantosa impressão que me produziu saber daquilo e, ainda que naquele momento o que menos me importava era o projeto, disse:

―E agora o que vai ser da pesquisa. Era crucial a viagem para poder avançar, e sem ele...

―Não pense nisso agora ―interrompeu Peter―. Será melhor deixar passar o tempo. Tu não estás em condições para seguir adiante, e eu tão pouco tenho forças.

Pensei que talvez fosse o mais prudente, não devia ter mencionado nada sobre aquele assunto.

―James tinha um pouco de visionário, e nós o seguíamos o jogo ―acrescentou.

Eu não gostava nada que o Peter falasse assim de James. Ele nunca foi um visionário, era um rigoroso especialista. O desgosto por suas palavras deve ter refletido na minha expressão.

―Mas ele dizia que as pesquisas estavam a ponto de revelar algo importante. Não gostaria que abandonássemos ―protestei sem muito entusiasmo.

―James... Pobre James... Era tão otimista ―ironizou―. Levou onze meses na Espanha e muitos milhões de dólares e... Nada. O decano e a junta universitária já estão fartos de desviar fundos para um projeto que não dá o menor resultado; e eu não me sinto com forças para lutar mais.

Não gostava do que estava dizendo, mas estava tão cansada e atordoada que simplesmente esbocei um pequeno sorriso.

―Deixa-lo ―sussurrou Peter enquanto me beijava as mãos―. Se continuarmos seria apenas não ceder à obstinação de James. Agora devemos mudar de ares e buscar outra meta juntos.

Não acredito ser conveniente insistir. Não concordava com Peter, mas não tinha vontade de discutir. Na verdade, não queria falar do tema, nem mesmo pensar nele. Um grande buraco no estômago e uma laceração profunda no peito, que não me deixava respirar, me impediam de articular palavra. Então, sem mais, me pus a chorar.

Peter tratou de me consolar, mas quanto mais tentava mais pesar sentia.

―Dá teu tempo ―ele disse secando minhas lágrimas―. Arrumarei tudo para que descanse uma semana. Mas não te dou nem um dia mais. Dentro de uma semana te quero de volta na universidade.

Quando chegamos a minha casa, Peter quis passar a me acompanhar. Não o permiti. Precisava estar só para aliviar minha dor.

Parte II: O desespero

Capítulo 4

Depois de uma semana, que na verdade foram duas, sem ser capaz de ir à universidade minha dor não havia apaziguado. Sentia uma raiva infinita por aquilo que havia passado. Meu mundo havia desmoronado e não parava de me atormentar a ideia de que talvez, se as coisas tivessem sido de outra maneira, nada disto teria acontecido.

Peter me visitou todas as tardes. Os primeiros dias me preparou sopa, outros me levava comida chinesa ou me preparava sanduíches que eu não era capaz de deglutir. Algumas tardes, permiti que entrasse na cozinha para encher a geladeira com seu abastecimento de bebidas probióticas e sopas reconstituintes, outras nem sequer o deixei passar da porta.

As noites eram longas e muitas as passava em claro caminhando da cama ao banheiro. Às vezes preparava um chá na cozinha. Um dia desmaiei de puro esgotamento na sala e bati com a cabeça. Não sei durante quanto tempo estive no chão. Só sei que quando acordei tinha sangue seco na minha frente e pela primeira vez, desde o ocorrido com James, me senti descansada e serena, como anestesiada por um sonho bom. Este dia aconteceu algo em minha cabeça. Um clique.

As oito em ponto da manhã seguinte me acordei e fiz tudo como costumava fazer antes da morte de James.

Surpreendi-me levantando e caminhando até o banheiro. Deixei correr a água quente até que se formou uma grande nuvem de vapor e me pus debaixo da ducha durante um longo tempo. Lembrei que, antes, esse era o momento do dia que mais prazer me proporcionava, mas notei que agora só sentia ira.

Nunca tomava café da manhã em casa. Era incapaz de pôr a cafeteira ao fogo àquelas horas.

Vesti-me e sai até a universidade com meu carro, um Plymouth Valiant azul que herdei de meu pai. Obviamente não é o melhor carro para andar por Nova Iorque.

Quando cheguei ao campus estacionei o carro em frente da cerca metálica da sala das caldeiras, muito embora que George, o novo vigilante, havia me advertido numerosas vezes para não o fazer. Mas hoje estava decidida a lutar.

Depois de cinco anos pesquisando não estava disposta a abandonar. James jamais iria me perdoar que jogasse a toalha daquela forma. E tão pouco eu me perdoaria.

Peter foi quem nos colocou nesta confusão. Ele nos apresentou o tema da pesquisa e nos encorajou a seguir e seguir, e agora pretendia que abandonássemos.

Não pensava agir com melindres, iria ao ponto. Poucas vezes estava convencida de algo. Mas agora sim, agora estava convencida de que queria continuar com o projeto, com Peter ou sem ele. Se o devia a James, também o devia a mim. Sabia que, se abandonasse, James morreria para sempre; e eu queria seguir sentindo-o vivo em mim.

Entrei na cafeteria da universidade e tomei um café com leite e duas torradas. Era incapaz de pensar com coerência se não me alimentasse, e ultimamente não havia comido de maneira adequada. A quantidade de estudantes sonolentos pedindo seu desjejum era notável; porém aquela abarrotada cafeteria me pareceu deserta sem James.

Quando cheguei ao departamento, Peter estava sentado na cadeira de James e parecia concentrada na leitura de uns papéis. Por um instante o confundi com ele.

―Julia, me surpreende te ver por aqui! ―exclamou enquanto mexia os papéis.

Senti dor e raiva ante a me certificar de que não era James e que jamais o voltaria a ver sentado ali.

―Necessito que me escutes ―interrompi enérgica―. Quero continuar com a pesquisa. Quero que convenças ao decano para que me repasse à dotação de James. Quero ir à Espanha. Estou decidida.

Apenas havia levado dez segundos em pronunciar aquilo e o coração me palpitava como se fosse explodir no peito.

Peter permaneceu impávido, em um longo silêncio, quase eterno. Eu o olhei desafiante do outro lado da mesa, que havia apoiado as mãos. Ele, ao fim, abriu os lábios.

―Pensava que já havíamos falado nisso ―disse com tom paciente.

―Sabes que estas últimas semanas eu não estava em condições de falar sobre nada ―respondi exaltada.

Peter se levantou da mesa com um movimento felino. Certificou-se de que a porta estivesse bem fechada e me abraçou forte.

―Sei que estás sofrendo ―sussurrou em meu ouvido.

Desmoronei como uma criança consentida e chorei em seus braços, era tudo tão injusto. Mas reagi. Irritava-me que utilizasse aquela artimanha primitiva naquela circunstância. Peter sempre acreditava que sabia como me fazer mudar de opinião.

―Não penso ceder ―disse indignada enquanto o afastava―. São muitos anos e muito esforço para nada.

Mexi na bolsa e retirei do fundo um kleenex amassado com o qual sequei minhas lágrimas. Estava angustiada e com raiva. Teria chorado um pouco mais, mas meu orgulho não me permitiu.

―Não vou ceder ―insisti.

Peter se afastou de mim e voltou a sentar à mesa. Houve um silêncio cheio de raiva.

―Pensastes bem? ―perguntou―. Não percebes que fracassamos? Acreditas que para mim não me importa? ―falava cada vez mais zangado―. Já faz tempo que este projeto está morto. James só o que fez na Espanha nestes últimos meses foi dilapidar o dinheiro da dotação em bebedeiras e farra. A comissão econômica fez suas averiguações e me as enviou. Em sua última chamada, ao ser descoberto, não teve nem a delicadeza de mentir.

―De que estás falando? Como se atreve?! ―disse machucada. Peter não podia ser mais rasteiro. Era ciente do quanto me doíam àquelas palavras.

―James fracassou e com ele nós! ―gritou Peter com dureza. Olhava-me com os olhos brilhantes e podia ver como o sangue fazia com que inchassem as veias do seu pescoço ―. Não há solução, porque jamais houve problema! Não há nada novo a descobrir, como pensava o louco do James.

―Queres dizer... ―sussurrei confusa.

―Quero dizer que temos estado cinco anos perseguindo um fantasma que não existe. Um fantasma que nasceu da imaginação de James ―respondeu contundente.

Houve um longo silêncio. Sentia uma amargura tão grande que nem sequer me saiam as palavras.

―Não vá, Julia ―continuou mais calmo―. Somos historiadores, estudiosos sérios, e sabemos quando um caminho está esgotado. Fique comigo.

É cruel que morra um amigo e também morra uma ilusão. James me fazia sentir viva. Era um apaixonado por seu trabalho. Um tipo desses que enfrenta a vida com alegria. Quando estava com ele tudo se tornava fácil. Tinha a assombrosa capacidade de me transmitir seu entusiasmo e me fazer sentir que tudo iria bem.

Nunca gostei de história. Nem sequer sei por que não me licenciei em direito ou em economia. Hoje, talvez, seria uma boa advogada como foi meu pai ou uma brilhante mulher de negócios. Mas não, tive que escolher; e escolher nunca foi o meu forte.

E agora Peter queria me convencer de que havia estado cinco anos de professora adjunta no departamento de História Moderna, me preparando para fazer uma tese sobre um tema que não existe, junto a um louco que acreditava ser um gênio.

Estava confusa. Não compreendia o que levava a Peter a formular tais afirmações.

Olhou-me com uma expressão mal-humorada. Revirou entre os papéis e pegou um envelope. Eram fotos. Nelas aparecia James junto a uma moça ruiva e muito jovem, em uma atitude que excedia um simples carinho.

Meu rosto deve ter capturado a surpresa.

―Não queria te mostra-las. Enviou-me o decano antes do acidente. James não estava cumprindo os prazos e a comissão fez suas averiguações. Parece que nestes últimos meses James não estava dedicado precisamente com a pesquisa.

Dei a volta e sai da sala. Não podia seguir escutando.

Saí derrapando do estacionamento da universidade. Sempre fui ingênua, ainda que me esforce por não aparentar. A imagem de James abraçado àquela moça fez que explodisse em minha cabeça um turbilhão de ciúmes e tristeza; e, apesar de achar-me em parte responsável, não pude evitar o sentimento de decepção.

Precisava pensar, replanejar de novo minha vida.

Desejei ir para longe. Precisava me afastar de tanta dor. Tirar umas férias me pareceu uma boa ideia. Seria bom passar uma temporada com minha mãe e minha irmã Katy em Tulsa, minha cidade de Oklahoma. Meus sobrinhos, não os via desde o natal e apenas estive três dias com eles. O pequeno Robert quase nem me reconheceu quando cheguei em casa.

Estava decidida. Falaria com Peter, ele compreenderia. Devia me deixar uma longa temporada.

Parte III: O aviso

Capítulo 5

Falei com Peter. Ele se mostrou compreensivo e conseguiu que o decano e a junta universitária me concedessem um ano sabático e uma generosa compensação econômica. Esses participantes da junta haviam assinado uma indenização em efetivo equivalente a dois anos do meu salário base. Além do compromisso por parte da universidade de ingressar, todos os meses em minha conta corrente, o salário que normalmente percebia. Significa que este ano receberia o triplo da minha renda e tudo isso por deixar de trabalhar. Alguém compreendia aquela gente? No ano anterior não quiseram me conceder nem um mísero centavo para trabalhar junto a James numa pesquisa que podia dar notoriedade a já notória Universidade de Columbia, e agora me davam mais do que necessitava. Minha intensão havia sido somente a de conservar a praça, mas com esta gente nunca se sabia.

Peter só me pediu em troca que o visitasse no próximo verão e que uma vez transcorrido o ano voltasse ao departamento junto a ele. E eu o prometi. Ele sempre havia sido bom comigo. Como penhor deixei o Plymouth Valiant que herdei do meu pai, ele prometeu guardá-lo na garagem da universidade e arejá-lo de vez em quando até meu retorno.

Despedimo-nos com um beijo.

Tulsa era o meu refúgio. Queria retornar e ver os entardeceres rosáceos sobre o mar amarelo de espigas de trigo, sentada no balanço da varanda. Voltar a escutar o murmulho lânguido do vento ao bater nas folhas das árvores do jardim. Era o melhor que podia fazer naquela situação. Necessitava seu efeito balsâmico para curar minhas feridas. Estava decidida.

Não liguei para mamãe. Não desejava dar-lhe explicações precipitadas por telefone sobre a minha inesperada viagem para casa, nem contar-lhe a estúpida que me sentia. Já me ocorria alguma explicação lógica quando chegasse. Agora só desejava ir para longe de Nova Iorque e da universidade. Esquecer de tudo por um tempo.

Cheguei ao meu apartamento a 1h45. Liguei para uma agência e fiz uma reserva para o voo do dia seguinte, pois não queria demorar muito a viajar, para que não me arrependesse no último momento.

Organizei mentalmente as tarefas para preparar minha partida e as anotei numa folha quadriculada, que pendurei na geladeira com um desses imãs com forma de morango. Primeiro falei com a caseira e lhe comuniquei minha intenção de sair para viajar uma longa temporada. Seguiria pagando-lhe o aluguel, não queria perder aquele apartamento em Manhattan que tanto me havia custado encontrar, e com a compensação que receberia podia me permitir. Pedi-lhe que recolhesse o correio, que cuidasse de minhas plantas, um fícus benjamita em estado de inanição e uma hortênsia que me presenteou minha mãe no Natal e que jamais havia conseguido que florescesse. Também lhe pedi que se cuidasse de Rouse, minha mascote uma periquita turquesa. A senhora consentiu a tudo de modo amável.

Então eu enfrentei o armário. Só queria levar o imprescindível. Com a generosa compensação que me havia conseguido Peter, podia me permitir o luxo de comprar modelitos novos em Tulsa. Precisava fazer coisas que me distraísse, e sair às

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